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EXPRESSõES!

Mais que dizer - transmitir. Ed. 08

B.O.C.A. NÃO É DO BRINCA, É DO VERA!!!

JOSÉ DANILO RANGEL RAFAEL DE ANDRADE JÓRIA LIMA CÁTIA CERNOV CÉSAR AUGUSTO DOM LAURO

ISSO É POESIA? O DESAFIO DAS MÁSCARAS ARTE E PROGRESSO EM RO

B.O.C.A
e x p e d i e n t e
EDITOR: José Danilo Rangel CO-EDITORES: Vanessa Galvão Rafael de Andrade CRÍTICA DE TEATRO Jória Lima COLABORADORES: Avener Prado - Foto (Crônica) Ronaldo Nina - Foto (Retrato e Poesia) Isabel Almeida - Foto (EXTRA) Douglas Diógenes - Foto (EXTRA) Luana Lopes - Foto (EXTRA) Alyne Dias Reiche - Foto (Poesia) Cátia Cernov - Poesia César Augusto - Poesia Dom Lauro - Poesia

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ÍNDICE
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B.O.C.A O BRINCA, NÃO É D RA!!! É DaOloVaEgel n ni R
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Preâmbulo..................................................................04 Tiro na Cabeça..................................................................06 Arte e Progresso em RO...........................................12 Pequenos Pássaros: Arte, Ideologia e Liberdade.................14 Oswald de Andrade e os 90 Anos da Semana da Arte Moderna.............................................17 O Desafio da Máscara............................................................22 10 Dicas de Leitura Para Uma Vida Saudável...........................25 Rosa Matiz........................................................................................28 Luzes do Abismo......................................................................29 Abostagens Psico e Lógicas...........................................................30 Curvas em Linhas Retas..............................................................31 Banzeiro......................................................................................32 Retrato: B.O.C.A - Não é do brinca é do VERA!!!...............33 ISSO É POESIA?..........................................................................48 Do leitor................................................................................................54 Ao leitor...............................................................................55

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N ú m e r o Anterior
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PREÂMBULO ................................
Para o oitavo número da EXPRESSõES!, temos uma pequena novidade - botões do blogger e do facebook. Eles estarão presentes para lincar páginas da revista ao conteúdo dos dois sites. É só clicar e pronto! O Retrato feito para este número foi o do Boca, um músico com um grande caminho já percorrido, começando no RAP, passando pela Quilomboclada, depois pela Somzala e, finalmente, chegando à Beradelia, mas sempre trabalhando com um som sintetizador de vários outros. Boca nos contou um pouco da sua história e das suas ideias sobre Música, Vida e Tudo Mais. O conto Tiro na Cabeça abre este número, é um texto simples e despretensioso. Mais adiante, em Pequenos Pássaros: Arte, Ideologia e Liberdade, exponho de maneira metafórica algumas ideias que tenho a respeito de mentalidades “revolucionárias”. Arte e Progresso em RO, uma crônica, que é igualmente uma reflexão sobre o papel dos artistas e a comunidade em que estão inseridos, é uma das contribuições de Rafael de Andrade, que também fala sobre Oswald de Andrade e Os 90 Anos da Semana da Arte Moderna. E ainda, nos dá dez dicas de leitura. Jória Lima nos fala sobre a importância das máscaras para o desmascaramento do ator. Intrigante? Depois de ler, fica muito mais. Cátia Cernov volta a contribuir com um trabalho seu, agora com uma poesia: Luzes do Abismo, de imagens fortes e ritmo. Dom Lauro entra com Curvas em Linhas Retas, uma poesia curta e auspiciosa, publicada no livro Espia a Poesia em 2008, ela é profética. César Augusto nos deu Rosa Matiz, uma poesia de uma melancolia leve e regular, como os versos em que foi escrita. Além dessas Banzeiro, um trabalho meu e Abostagens Psico e Lógicas de Rafael de Andrade. Para concluir, no EXTRA, uma pequena mostra do que foi o ISSO É POESIA? no Mercado Cultural. Espero que goste.

Porto Velho - Março de 2012 José Danilo Rangel

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Arte é arte, mas um bife é um bife...

Joe Sacco

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Para acessar é só clicar sobre a imagem.

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Conto

Tiro na Cabeça
PRÓLOGO ..................................................................... Por mais que tudo em casa continuamente mude, sempre que voltamos para ela, sentimos como fosse a mesma casa que deixamos ao sair. Todos os dias, seja no trabalho, na escola, na faculdade, tudo dentro e fora de nós muda, mas o senhor da mudança, às vezes, é muito paciente, vai pondo e retirando, entortando e endireitando tudo de forma tão tranquila que geralmente não se faz perceptível. A mobília nova acrescenta um ar de seriedade à sala, uma parede azul melhora o clima e transforma o quarto antigo num novo quarto, mesmo assim, chamamos ainda de “meu quarto” e por mais que percebamos as pequenas alterações daqui e dali ainda temos como

José Danilo Rangel

o quarto de sempre. Também as pessoas ao nosso redor mudam cotidianamente, a cada coisa nova que vivem, a cada novo pensamento, são sempre diferentes, adiante, do que eram antes. Contudo, é preciso algo brusco, algo imediato e contrastante pra que percebamos a transformação de um em outro e para que tal arranque de nossas bocas um “nossa!”, ou um “caramba!”, como admissão da dificuldade de declarar o que há agora como coisa idêntica à que houve. Seria uma dessas a exclamação de quem visse Bob Esponja depois do tiro. Diante do novo Bob Esponja, com certeza qualquer um iria largar um grande e estarrecido “quê?”. E duvidar com força de se tratar da mesma e exata pessoa. Afinal, as pessoas não mudam de uma hora pra outra. Mudam?

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1 – BOB ESPONJA Bob Esponja era mais uma unidade entre as milhares, mais um dos lotes e mais lotes de ninguéns que sem serem capazes de encontrar um lugar no mundo, ficam com o que sobra. A praça do half, naquele tempo, era isso: o que sobrava. Apesar de andar sempre com um skate velho preso ao sovaco e com a vestimenta adequada a um skatista, não se podia dizer que ele era mais que alguém que andava com um skate velho preso ao sovaco e que se vestia como um skatista, embora algumas notícias, muito raras, fizessem circular as suas irrisórias tentativas no esporte. Vinte e três anos de idade, matriculado na escola Castelo Branco, mas nunca visto por lá, senão da vez em que houve um arraial. De sua rotina das cinco da tarde pra trás não se sabia nada na praça; se tinha ou não família, do mesmo modo era ignorado. Sabia-se, entretanto, que, com a margem de erro de meia hora, para cima ou para baixo, às dezessete horas de todas as tardes, de segunda a segunda, ele visitava a praça do half, mantendo tempos de permanência variados, chegando às vezes, (principalmente, nas noites de sexta e sábado) a madrugar por ali. Não sem fazer nada. De tudo o que se podia imaginar que iria acarretar algum prejuízo a Bob Esponja, seu amor pela bebida e por maconha, os lastimáveis hábitos higiênicos e sexuais, a frequência em lugares perfeitos à prática de crimes violentos, foi sua mania de fazer brincadeiras sem graça com qualquer pessoa com quem achasse ter intimidade o que lhe causou o maior dano na sua vida até então. 2 – COISA DE AMIGO Os homens de nossa sociedade, vítimas de seus próprios preconceitos machistas e por eles impedidos de manifestar afeto de forma direta, encontram maneiras diferentes de externar o sentimento de amizade. A mais comum delas é o esculacho elogioso. Quando alcançam certo nível de intimidade, os homens passam a se ofender, mas carinhosamente. Eis um fantástico artifício que

ao mesmo tempo que satisfaz a obrigação de ser grosseiro sana a necessidade de expor carinho. Quanto mais íntimos forem os amigos, mais ofensivos serão os termos com que se tratam. Ressalto, entanto, que para o esculacho, num dado relacionamento amistoso, passar de ofensivo à elogioso é preciso uma longa fase de interação, durante o qual os afetos aumentam e as palavras, antes dedicadas à mútua esculhambação, são esvaziadas do conteúdo pejorativo e, então, preenchidas com significados fraternais. Bob Esponja não sabia disso. Como todas as quintas-feiras dos últimos três anos, logo que pisou a praça, sapecou ao ar um grande e sonoro palavrão. Não era sua intenção ofender, estava somente cumprimentando, a seu modo, um daqueles que somente ele mesmo achava ser “seu chegado”. “E aí, filho da puta”, berrou a alguém que estava do outro lado da praça, ou que ele pensou que estava, pois, apesar de o total de olhos do grupo de pessoas do outro lado da praça ter se voltado prontamente em direção à fonte do grito, nenhuma das mãos fez qualquer sinal que indicasse reconhecer o gritante. Bob Esponja era insistente e, antes de chegar ao coreto, que ficava bem no meio da praça, já tinha “cumprimentado” cinco ou seis indivíduos. Sempre sem resposta. 3 – EU TENHO UM 38 E VOCÊS NÃO TÊM! Titela tinha quinze anos, não mais que isso. Não se sabia se estudava, se trabalhava, onde morava ou com quem. Sabia-se que às vezes ia à praça do half fumar maconha e planejar pequenos furtos. Começou roubando bicicletas, o que lhe rendeu as habilidades e os contatos para começar a invadir casas, atividade na qual também se tornou bem sucedido conseguindo realizar um dos maiores objetivos da sua vida: comprar uma arma. Não qualquer arma, mas um 38. Não sabia por que tinha que ser um 38, “tinha tara”. Com o 38 ele melhoraria “o negócio” passando dos pequenos furtos e invasões, a assalto à mão armada, aí não precisaria de ninguém mais pra expandir os negócios, quisesse “meter uma fita” não precisaria esperar por fulaninho

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nenhum, pegava “o bichão” e saía pra “caça”. Como esporadicamente abastecia a praça com maconha, outra fonte de renda, conhecia a maior parte dos maconheiros dali e até que mantinha uma boa relação com todos, pelo menos até onde quem vende se relaciona bem com quem compra. Com quase todos, na verdade. Mesmo sem nunca ter dado nenhum motivo para aquele tal de Bob Esponja, um “zé buceta”, pensar que era seu chegado, Bob Esponja tratava-o como fosse. Mas tudo tem limite. E Titela estava decidido a dar um “se liga, Mané” no Bob Esponja. A oportunidade estava chegando. - Ó lá, o comédia do Bob Esponja. O moleque nem se liga, mermão... O pessoal em torno de Titela, concordou, rindo aquele riso estúpido e convulsivo de quem está com a cabeça cheia de fumaça. - E o filho da puta nem se toca... - Ih, Titela, te liga, ele ta vindo aí, he he he he... - Vai pegar é uns tiro... – respondeu Titela, logo depois acompanhando a turma na gargalhada idiota e exagerada. - Como é que tu vai dar um pipoco nele, tu nem tem uma quadrada nem nada... - Tu tá é por fora – disse Titela, arrastando a voz como as palavras estivessem grudadas na garganta e não quisessem sair – comprei o três oitão do Peixe, tá lá o bichão, só ouvindo conversa... 4 – DIA DE AZAR Bob Esponja, que estava no coreto olhando os skatistas tentarem manobras, ora ou outra vasculhava a pequena quadra deteriorada que era a praça do half, dedicando a mais sólida atenção às menininhas vindas de todas as escolas da redondeza, do Carmela Dutra, do Duque de Caxias, do Castelo Branco. Um grupo de jovens reunidos em torno de um garrafão de vinho lhe chamou a atenção, mas o fato de não conhecer ninguém deixou-o um tanto receoso. Devia ir até lá? - talvez mais tarde, pensou. Mais adiante, um grupo se contorcia rindo com os ossos e exalando muita fumaça e, no meio

deles, Bob Esponja reconheceu alguém e resolveu ir lá. Bob Esponja era um desses caras que nunca têm dinheiro para nada, e alimentam os próprios vícios pedindo dos outros, conhecidos como serrões. - Aí, Titelão, como é que tá muleque? – gritou Bob Esponja, sentando-se no banco bem do lado de Titela. - Porra mermão, vai te fuder – respondeu Titela – Já vem querer serrar o “beque”, pô te liga, vaza, vaza, vaza... - Qual que é? – quis saber Bob Esponja, levantando-se e dando um pequeno tapa na cabeça de Titela – Te liga, só porque tá vendendo um bagulhinho aí, tá se achando o doidão? O pessoal começou a bagunçar: - Há há há, Titela, cadê a tua moral? - Porra mermão, vaza, se não quiser pegar um balaço na cuca, vaza! – ameaçou Titela. - Que tiro que nada, vai tomar no cu. Titela se ergueu do banco da praça e, fazendo a mão de arma, tocou a testa de Bob Esponja com ponta do dedo indicador e perguntou: - Quer pegar um tiro, mermão? É só falar. 5 – NOTÍCIA Na sexta-feira, uma imagem registrada por um celular tornou muito popular o programa de TV Plantão de Polícia. Na gravação, um moleque magricelo corre até o coreto da praça do half e, chegando lá, tira um revólver calibre 38 das calças, aponta em direção a outro e, sem qualquer hesitação, puxa o gatilho. Bang! A imagem foi passada e repassada umas quinze vezes. O moleque, conhecido como Titela, erguia a mão armada em direção à cabeça do outro, de repente um “bang!” acontecia e era imediatamente acompanhado pelo movimento da mão do Titela indo pra trás com o baque da arma, e a cabeça do rapaz identificado como Rodrigo Moraes fazia quase o mesmo movimento, mas em sentido contrário. Bang, bang e bang! “Vamos ver de novo!” “Passa mais uma vez!”

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“Mais uma vez!” A notícia dava conta de que Rodrigo Moraes, mais conhecido como Bob Esponja, a vítima, estava no João Paulo II, e a versão dos acontecimentos, além de revelar que o praticante do crime era menor de idade, dizia também que estava foragido. Na praça, a notícia que circulava era a de que, se escapasse, Bob Esponja ou ficaria aleijado ou doido. 6 – VASO RUIM Duas semanas depois do acontecido, era quinta-feira, e a praça do half funcionava normalmente. No half-pipe, os skatistas tentavam fazer suas manobras, também alguns cross, os novatos, e rollers. O resto era um pessoal mal vestido sentado em volta de uma garrafa de pinga misturada com refrigerante, os estudantes em geral e seus uniformes, e a gente de nem sempre matizando com seus rostos desconhecidos a mesmice do lugar. - Aquele ali não é o tal de Bob Esponja? – perguntou um biker ao ver o vulto que subia à praça pela Duque de Caxias. - Tá doido? O Bob Esponja uma hora dessas deve tá abraçadim cum diabo, há há há... – respondeu outro, rindo sozinho da própria piada. - É ele mermo – um terceiro sentenciou, entrando na conversa. – É como minha vó dizia, vaso ruim num quebra. 7 – SOCORRO A mãe de Rodrigo Moraes, dona Socorro Moraes, evangélica moderada, mas convicta, sentiu muita culpa com o fato de ter experimentado um tipo de alívio quando soube do que acontecera ao filho. O pastor já havia feito essa “revelação” para ela. “Uma tragédia está próxima”, ele falou. Ela, preocupada com isso, levou o filho à igreja pra que ele conseguisse o “livramento”, a misericórdia de Deus. De tanto ter trabalho com Rodrigo, Socorro sabia que a profecia de tragédia só podia ser algo que aconteceria a seu filho delinquente. Mas, estava

ali a solução: era só ele aceitar Jesus e Deus iria agir na vida dele. Mas, em vez de aceitar Jesus, Rodrigo piorou. Começou a andar com sujeitinhos “malamanhados” e a lhes imitar, a usar roupas rasgadas, a ter modos de vagabundo, e o pior: passou a blasfemar dizendo que Jesus não tinha poder nenhum e não ia fazer nada na porra da vida de ninguém. Quando soube do tiro, Socorro sentiu a mão de Deus operando em sua vida e na de Rodrigo, afinal, se o filho morresse, era decisão de Deus, se sobrevivesse, com certeza não ia continuar do jeito que estava. Era quase prazeroso o pensamento. Quase feliz. Por isso, Socorro sentia culpa. Não devia, como mãe, estar angustiada com a situação do filho? “Talvez, não”, ela pensava, afinal, ele foi quem procurou chegar até ali, e, o melhor de tudo, tudo ficaria bem. Chegando ao hospital, Socorro não pôde ver o filho de imediato, teve que esperar enquanto ele saía da sala de cirurgia, sem saber mais que o fato de ele ter levado um tiro e estar naquele momento recebendo atendimento. Ela esperou e esperou e esperou. Quando finalmente foi levada ao encontro do filho, ele tinha a cabeça enfaixada e dormia o sono dos dopados por sedativos. No quarto, onde somente um feixe de luz passava entre a porta semi-aberta e a parede, Socorro pegou a mão do filho e orou, primeiro agradeceu a Deus por haver um leito disponível para Rodrigo, depois, pela vida do filho e então, rogou, aos soluços, que daquele terrível acontecimento derivasse o milagre do renascimento e Rodrigo fosse “curado”. Tudo pelo bem do filho. 8 – AINDA O MESMO Voltando pra casa, Rodrigo estranhou os excessos da mãe, mas não reclamou. Reclamase geralmente, do que nos traz um mal, do que nos traz um bem, não. Socorro limpou a casa, fez almoço, janta e, contrariando a rotina, não passou o dia resmungando “coisas nada a ver” ou mandando Rodrigo deixar de ser um encostado e procurar

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trabalho. Rodrigo não sabia o motivo, a mãe estava feliz. Ela varria a casa cantando os hinos da igreja, era como se ela tivesse ganhado qualquer coisa. Rodrigo não sabia o quê. Ela sabia. Socorro sentia que agora as coisas iam mudar, sentia que o filho ia tomar rumo na vida e naquele e nos dias que se seguiram agradeceu a Deus, pelo milagre recebido. Passou a ir à igreja com mais frequência, a doar com mais fervor. Não via a hora de subir ao púlpito para contar o milagre recebido, antes porém, o filho lhe tirou o sonho: - Mãe, tô saindo... - Tua vai aonde, menino? - Dá uma volta... - O quê? – quis saber Socorro, realmente aterrada com a ideia do filho. – Tu é doido, é? Acabou de se estropiar e já quer voltar pra lá? Mas de jeito nenhum. Socorro não podia acreditar, como é que aquele “teimoso desgraçado” não tinha aprendido a lição, só podia ser coisa do diabo, porque o traste tinha acabado de levar um tiro na cabeça e parecia que nada tinha acontecido. Nada. Era o mesmo vagabundo de sempre, querendo ir pra porcaria de praça com os comparsas fazer nada que preste. Como podia? Isso não estava certo. Que diabo era aquilo? Enquanto a mãe se perdia em suas especulações, enquanto ela tentava entender o que estava acontecendo e já ia se despedindo do testemunho de vitória no púlpito, Rodrigo olhava no espelho os pontos no topo da testa e o semicírculo feito ali para receber os pontos. Olhou e riu. Pôs um boné sobre os pontos e saiu. 9 – IGUAL, MAS DIFERENTE Na praça, Bob Esponja, explicava pela milésima vez que não tinha morrido, estar ali parecia não ser evidência suficiente para os incrédulos. O tiro pegou de raspão, não foi nada sério. O mais perigoso foi a perda de sangue e o local do impacto. Ele dizia “tô de boa” e erguia o boné expondo o alto da testa rapado e costurado. Até mesmo quem não ia muito com a cara do Bob Esponja se aproximou

pra olhar. Bob Esponja tornou-se a atração da praça. Aquele era um momento de paz, os head bangers não estavam em confusão com os punks, os bikers se limitavam a brigar nas festas de rock, quando havia alguma, no mais, não havia muito que ver, daí e de, realmente, ser curioso alguém ter tanta sorte quanto Bob Esponja, ele se tornar uma espécie de estrela no lugar. Bob esponja, que andava sozinho, vez ou outra sendo tolerado por um grupo qualquer, passou a ter o próprio grupo, fora aceito entre os grunges, que era um bando de adolescentes que curtiam Nirvana e viviam com camisões quadriculados, a despeito do calor de Porto Velho. Agora Bob Esponja não era mais um vagabundo qualquer, era um vagabundo que sobrevivera a um tiro na cabeça. Continuava com os mesmos hábitos inconvenientes, entre eles a intimidade forçada, mas agora, tinha uma bonita costura no alto da testa para exibir pra todo mundo. 10 – TIRO NA CABEÇA Em pouco tempo, Bob Esponja era outro Bob Esponja. Aceito como não fora em nenhum outro lugar, nem mesmo ali, em outros tempos, conquistando o seu lugar entre as figuras do rol da praça, usufruía da glória de ser um ninguém, mas um ninguém que sobrevivera a um tiro na cabeça. Pelo menos ali, entre os seus, os grunges, ele tinha um lugar. Abandonou de vez o skate e ficou só com a maconha, a bebida e aquela velha e grande vontade de não fazer nada com préstimo. No fundo de sua mente, entretanto, algo fervilhava, era uma bomba esperando o click. Bob Esponja não cansava de contar a história e todos se admiravam por ele não estar nem aí pro que aconteceu. E quanto mais contava, parecia que menos ele se importava. Ele falava da confusão antes do tiro, falava do Titela (nunca mais visto), falava da mãe, do hospital. O tempo passava e o acontecimento já fazia parte da mitologia da praça, era uma das narrativas, já ganhava versões alternativas, tanto quanto aos eventos, quanto os participantes dele. Então, algo aconteceu.

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11 – CLICK! Era uma sexta à noite como qualquer outra na praça do half... Bob Esponja recontava a história da sua quase morte, e, como o contador de estória que havia se tornado, sempre a cada oportunidade acrescentava ou subtraia algo da narrativa, “melhorava” o contado. Ora, era a arma que tinha somente uma bala e o azar de ela estar na agulha, ora, era a confusão que ganhava uma dimensão maior e uma causa mais bela, não teria acontecido por conta de um ““beque””, mas porque Titela tinha mexido com uma estudante e Bob Esponja a foi defender. Naquela noite, Bob Esponja recontava a história com a ajuda de Cara de Mandi. Enquanto Bob Esponja fazia o papel de Bob Esponja, Cara de Mandi era o Titela. - Ei, mermão, te liga – falava Cara de Mandi, imitando um maconheiro. - Como é? – Falava Bob Esponja – te liga tu, filho da puta, quebro a tua fuça todinha. - Mermão, tá querendo levar um tiro? – falou Cara de Mandi, que era o Titela, fazendo a mão de pistola e tocando a testa de Bob Esponja com a ponta do indicador. Click! Bob Esponja arregalou os olhos e de repente sua mente foi inundada por uma série de pensamentos e sensações atormentadores. Era como ele estivesse revivendo o momento do disparo, “toma filho da puta” gritava Titela antes de puxar o gatilho, PÁ! - estrondava o tiro. Isso acontecia dentro da cabeça do Bob Esponja, do lado de fora, ele voltava bruscamente a cabeça para trás como estivesse levando o tiro de novo. PÁ! Ele ouvia. E de repente, tudo fez sentido. Ele podia ter ficado paralítico, podia ter perdido um olho, podia ter ficado com a cara fudida. Um pouco mais pra baixo e ele estaria morto. Morto! Num transe, Bob Esponja de repente, via como podia ser, estar babando, vegetando, sem poder nem limpar a própria bunda, via-se também numa cadeira de rodas, tendo que subir em ônibus, impotente, sem poder chutar ninguém, seria terrível!

Via-se com a cara deformada, como um monstro. Um olho de vidro! Via-se também esticado num caixão, branco branco, e o pessoal em redor comendo calabreza e tomando café, nem aí pra ele, morto. Morto! De repente a palavra morto, até então vazia de um sentido, estava recheada até a tampa de material significante. Morto queria dizer fim, queria dizer nunca mais e era tudo aquilo que a mãe não queria que ele estivesse. Bob Esponja se via num quase delírio, via-se com a cabeça como um macabro chafariz, esguichando sangue. Morto! Poderia estar morto! Morte era o fim! De repente, viu a cara da mãe com todas as feições já mostradas diante do que ele ia aprontando na vida. Morte, morte era isso, algo terrível! Que sorte estar vivo... Morte era o fim, o fim de tudo! Bob Esponja via o Titela, o agente da extinção, erguer o revólver apontar, um, dois, três, fogo! Era o fim. O fim!

12 – OUTRO! Depois desse dia, as notícias que circularam pela praça do half não entravam em acordo. Uma dizia que Bob Esponja tinha virado crente, outra que ele tinha procurado e matado o Titela, ainda outra sustentava que ele estava doido e andava por aí dizendo que a vida é curta e que não vale a pena desperdiçá-la. A certeza era uma só – ele agora era uma outra pessoa.

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Crônica

Arte e Progresso Em RO
Rafael de Andrade
Como introdução, devemos pensar duas ideias. Primeiro, a noção de progresso possui duas perspectivas diferentes, a falsa e a verdadeira. A falsa afirma que o progresso chegará para todos quando, na verdade, não é isto que ocorre. A noção verdadeira afirma que o progresso é uma forma de expansão do capitalismo e que gera, inevitavelmente, mais acúmulo de capital nas mãos da elite, o que acentuaria, segundo Marx, o empobrecimento da

foto: Avener Prado Cai n’Água/Triângulo

classe dos trabalhadores – e que deveria gerar a tal revolução da classe proletária que esperamos até hoje. Em outras palavras, o discurso do progresso para Rondônia que viria das usinas, de fato, apenas gerou mais lucro para a elite, aumentando a pobreza dos que já eram pobres e mais - a destruição de suas moradias tradicionais, de suas histórias de vida, de suas artes do cotidiano.
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Uma parte da população fez propaganda a favor das usinas, sabendo ou ignorando o fato citado acima. A segunda ideia diz respeito à arte e sua comunicação com a sociedade. Nos textos que redigi sobre arte (em antologias de crônicas, na Revista EXPRESSõES! e em outros meios) procurei discutir a relação entre arte e sociedade. Ao passo que para muitos a arte é uma forma de expressão e representação da realidade, penso que a arte é uma forma de “revelação e libertação” dos homens da matrix. Sendo apenas uma forma de enfeitar a vida, a arte se torna um instrumento de dominação de homens. Um exemplo prático vivido atualmente: enquanto uma boa parte dos artistas de Rondônia escreve sobre o Rio Madeira, sobre os trilhos da Madeira-Mamoré, sobre os botos e tudo mais, o que estes mesmos artistas fizeram para “salvar” os trilhos e os moradores do bairro Triângulo da violência que sofrem agora? Obviamente, o movimento que surge para fazer mostrar, diminuir os impactos, exigir possíveis mudanças que está se organizando em volta dos atingidos no bairro Triângulo é bem importante e não diminuo a importância desta ação: mas ela é apenas um remédio para uma dor que se iniciou, dizem alguns, no século XIV, a terrível expansão da modernidade e mais recentemente, do capitalismo. E alguns escrevem sobre o que está ocorrendo. A função de apresentar o que está ocorrendo é importante, mas é apenas uma função. Um verso qualquer não mudará a situação das pessoas da beira do rio – ela mudará a situação do poeta em si que se tornará “porta voz” da destruição, não sendo vítima, mas privilegiado. Não podemos esquecer que uma das funções da arte em Rondônia atualmente tem sido apenas de imprimir em folhas e telas aquilo que tem sido destruído pelo avanço do capital. O rio cheio de mercúrio, as florestas trocadas por gado, os indígenas violentados pelas diversas forças. Mas, ao invés de apenas registrar o que inevitavelmente desaparecerá como que “tomado pela enchente do Rio Madeira”, por que não participar ativamente de uma tentativa de destruição?

Isso que dizer que, ao invés de sentar em suas cadeiras e beber seu vinho em suas confrarias, os poetas locais (ou regionais) deveriam se unir para defender aquilo sobre o que escrevem. Pois não é uma forma de demagogia dizer que “se ama algo” quando se espera a destruição do mesmo e depois se escreve sobre ele? Neste sentido, o regionalismo (segundo minha leitura do crítico marxista Sodré) sempre foi uma resistência ao avanço do capital em defesa do local – mas se em Rondônia temos apenas um “sentar e assistir” e não uma resistência, o que temos aqui? Um “vinhoísmo” um “esperarismo”, ou melhor, um “portavozismo”? Se por “regionalismo” temos apenas o registro daquilo que foi perdido, temo que mais uma vez o regionalismo não seja o suficiente para Rondônia. Do que adianta cantar o hino todo final de semana, se o Estado está (e foi) sendo violentado pelo “progresso”. E foi violentado em seus variados ciclos históricos e o que a massa de artistas fez? Formaram academia, casas de cultura, confrarias, movimentos. Em sua disputa interna por organização, eles nada fizeram por aquilo que adoram representar em suas penas. Arte deve ser um grito contra, deve ser perigosa, deve apresentar o que está sendo feito em todo o seu processo e os artistas (tomando como exemplo os artistas revolucionários de 1848) devem ser os porta-vozes da mudança, da preservação daquilo que amam ou daquilo que dizem ser representantes. Este é um texto de perguntas. E finalizo com mais algumas. Até quando nossos artistas serão mero representantes do que morre? Quando estes mesmos artistas serão defensores do que ainda vive? Espero que as perguntas ajudem a obtermos uma resposta.

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arte, ideologia e liberdade
José Danilo Rangel
UM PEQUENO PÁSSARO É uma história triste. Havia um pequeno pássaro, que antes disso era um peixe, e antes ainda, uma minhoca. Também não sei como é possível. Importante é que o pequeno pássaro apesar do esforço, não conseguia impressionar ninguém com seus pequenos voos. A despeito do quanto ele desejava e se debatia e se aplicava, seus adejos não causavam senão pequenos oh!, e o resto do que ele recebia como elogio era aquela cara fingida que sempre vemos quando alguém sem sequer prestar atenção no que fazemos, diz amar o que fazemos e complementa, no auge do descaro: Lindo! O pequeno pássaro sentia que merecia mais, e por isso se pusera a procurar. Acredita-se que procurava maneiras de voar mais alto, com mais manobras, portanto, muito mais impressionantemente. E ele voou, e voou e voou. Depois cansado, andou e andou e andou. E foi nessas suas andanças que encontrou, não o que procurava, mas algo que talvez fosse maior. Encontrou um ovo, um enorme ovo. Um ovo que por seu tamanho bem que podia ser de águia, ou de avestruz. Podia ser. Então, o pequeno pássaro achou um sentido para a sua penosa existência - seria o guardião do ovo! Voltando à comunidade de pequenos pássaros, exausto por transportar o seu “sentido da vida”, anunciou seu achado e convocou outros pequenos pássaros para a guarda da preciosidade. Desde este dia, todos que vão à floresta encantada, podem ver ao lado da casa do Saci, bem na beira do Rio onde a Iara vive e lava os cabelos, um pequeno grupo de pequenos pássaros ariscos e bicudos resguardando o ovo de todo o mal, gralhando muito a respeito do tempo da eclosão enquanto executam ritos de guerra. Mas, que os visitantes não se deslumbrem com a cena a ponto de ignorar as noites frias, quando os pequenos pássaros se reúnem em torno de fogueiras e se ressentem de não mais voar além do perímetro definido pelo compromisso de proteger o ovo. Lágrimas saem dos seus olhos. Eu disse que era triste.

Pequenos Pássaros

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O ARTISTA: UM PEQUENO PÁSSARO? Em boa parte do que ouço falar e leio sobre arte, a palavra liberdade aparece, antes, porém, há todos os verbos e expressões equivalentes ao que quer dizer “deve” e o que quer dizer proibir, o “não pode”. A arte não é para servir o Estado, a arte deve buscar o novo, a paixão, o vício, a arte não pode se satisfazer, ela é uma constante insatisfação, é algo além, é ir além. A arte é libertinagem, sim, libertinagem. Isto e muito mais ouço por aí, dessa ou de formas ainda menos sofisticadas, ou mesmo camufladas por detrás de lógicas absurdas e politicagem mal assimilada. Fico cismado, pois, embora não reconheça muitas produções como merecedoras do título de arte, e concorde, com um ou até dois dos conceitos defendidos nos discursos já referenciados - como a diferença entre arte e mercadoria -, não sou capaz de entender como pode passar batida a contradição em defender que arte é liberdade e, no mesmo discurso, tantos axiomas coercitivos. Indago: como os artistas, “os livres”, podem não perceber a contradição tão clara, tão explícita, a quase gritar “eis-me aqui!”, este paradoxo que brinca e corre zombando daqueles mesmos que o defendem? Estes artistas, os que defendem a liberdade como uma obrigação e anunciam o novo em velhos discursos, repetindo o que já foi dito e feito, são pequenos pássaros que, em vez de estarem exercitando o voo e experimentando novas maneiras de voar, estão protegendo o ovo, mesmo que já desconfiem profundamente de que lá dentro não tenha nadica de nada.

arte”; para contrariar a arte do civilizado, do popular, do vendável, elas defendem o modelo do bárbaro, do impopular, do invendável. Se o usual é a ordem para representar, eles defendem que o caos é um meio melhor de representação. Se os outros dizem que o melhor modo de se dizer algo é dizendo, eles, os pequenos pássaros, vão defender que não, o melhor meio de dizer algo é ficar sem dizer. Como crianças birrentas que, apenas para não atender à vontade dos pais, e tomando a birra por maior compromisso, nada mais são capazes de fazer, senão desobedecer, assim os pequenos pássaros fazem. Para eles é preciso vencer o Instaurado, lutar contra o Estabelecido. Tudo o que fazem, contudo, é atacar. E a criação, onde fica? Criar seria então, o meio termo? Já ouvi ou li isso por aí. Não. O meio termo é coisa de quem está inseguro. A criação é a leitura do mundo, da vida e tudo mais, e o uso do ferramental disponível para expressá-lo e mais o desenvolvimento de outros meios e modos de expressão.

O QUE É UM ARTISTA? No meu entendimento a palavra artista tem sido usada de maneira muito equivocada ultimamente. Hoje em dia, tem servido até para designar qualquer pessoa (às vezes, animal) que apareça na tevê ou na internet e faça todo mundo rir. Para os meus pais e uma parentada que tenho no Ceará, artista é qualquer pessoa que faz algo sensacional. E por aí, já retiramos muita gente da lista. O problema é que com essa definição podemos chamar de artista aquele cara que, depois de passar dezoitos horas bebendo, consegue chegar em casa. Pois artista é quem faz arte, e arte, pelo menos, para o grupo acima, tem o significado de coisa fenomenal. Aplaudamos a capacidade do bebum. Não podemos, contudo, chamar de arte o seu feito. Chamemos de sorte. O interessante do entendimento de que artista é quem faz arte, como querem meus pais e outros meus parentes, é que, com ele, pensa-se um a partir do outro. Se posso chamar de arte o que este aqui e aquele ali produzem, logo este ou aquele serão artistas. Assim, fica fácil: defino o que é arte e pronto, tenho definido o

OU ISSO OU AQUILO - ISSO É ASSIM? Os pequenos pássaros são infantis, são, portanto, incapazes de fazer sofisticadas classificações. Por isso, são também, dicotômicos, ou seja, todas as coisas no Universo são colocadas em duas categorias: isso e aquilo. Uma boa prova para o argumento de que a perspectiva com que estas crianças olham para a arte é infantil e dicotômica está no modelo por elas escolhido para representá-las no confronto contra a “detestável

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artista. Arte é a ciência da expressão. Logo, o artista é o cientista da expressão. Legal, né? Mas só chamo a Arte de Ciência para sugerir que é um modelo epistemológico, o acúmulo de conhecimentos. Não fico, entretanto, por aqui, e afirmo que a Arte é uma ciência especial, baseada, não na pretensão de ser limpa de toda nuança pessoal, mas exatamente por aproveitar as cores da pessoalidade numa mistura de subjetividade e também do que é objetivo numa relação dialética. Com a solução apresentada, incauto leitor, eis que um problema surge. Se a Arte é a Ciência da Expressão, e o artista é um cientista da expressão, o que ele expressa? A pergunta seria a mesma se eu dissesse que a Arte é um conjunto de métodos para falar. Qualquer um perguntaria: E ela fala de quê? E a resposta é a mais simples de todas – de tudo. Pelo menos teoricamente, pois, de fato, ela transmite, ou tenta assumir a função de transmitir o que o artista tem para transmitir. É uma ideia? Um sentimento? Uma proposta? Uma perspectiva? A arte é um como. Pode ser uma música, um quadro, uma poesia, uma animação, por que não?

terceiro grupo, está aquele pessoal que defende não ser possível determinar se há ou não algo dentro do ovo, ou se é bom ou não estar ali, ou não estar, por isso, ainda não sabem direito, por isso, ainda não decidiram. ARTISTA: A MISSÃO Seja qual for o tipo de artista, ele será um pequeno pássaro se agir de uma das três maneiras, aceitar, negar ou ficar nem lá nem cá, pois de qualquer uma estará se posicionando diante do ovo, da oferta de guardá-lo. O artista é, ou pelo menos deveria ser, um interpretador da realidade, se, sua interpretação tem um compromisso com uma ideologia, e esta ideologia seja o método através da qual leia o mundo, já se pode imaginar as limitações que a ele serão impostas. Ideologia é qualquer conjunto de ideias prontas, tendo em seu conteúdo normas e valorações que se pretendem universais e atemporais, válidas para todos, se servem ou não para o domínio das massas isso é bastante discutível, o fato é que favorecem a dominação não apenas de grandes grupos, mas, também e talvez com mais força e pessoalidade, de pequenos grupos. Assim, uma família terá um núcleo ideológico protegendo seus líderes das questões que vierem a ser levantadas pelos subordinados, os filhos, e ameacem a continuidade do poder. Assim, em qualquer grupo veremos conceitos interessantes aos líderes serem impostos sobre os subordinados a fim de fazer valer a manutenção do poder. No caso dos pequenos pássaros, o pequeno pássaro a encontrar o ovo, ao voltar para a sua comunidade, emite certas opiniões sobre a importância de se cuidar do achado. Cuidar do ovo, então, passa a ser uma maneira de o pequeno pássaro que o achou dominar o grupo que assumiu ser guardião do achado. Tire a ideia da metáfora e você vai ter um bom modelo para analisar muitos grupos subversivos.

A IDEOLOGIA ANTIIDEOLÓGICA O principal problema na ideologia, seja qual for, é tirar do sujeito a possibilidade de medir o que experiencia. A ideologia não oferece medidas, oferece juízos. A ideologia da liberdade, na arte, não fornece questões, oferece respostas, como toda ideologia ela é um sistema pronto, cabe ao indivíduo aceitar ou não. É o caso dos pequenos pássaros. Um deles some por um tempo e, quando volta, traz consigo uma novidade e uma pequena narrativa – andando pelo mato, eis o que encontrei: é um ovo mágico, dentro dele estão os nossos sonhos. Como assim? – pergunta o mais rabugento dos pequenos pássaros e é logo repreendido. Os demais, dividem-se em três grupos. No primeiro grupo estão aqueles que não acreditam no que o pequeno pássaro viajante diz. É o maior de todos os grupos, já que não há motivo para se mover, pois do assento ocupado já dá pra ver o show confortavelmente. No segundo grupo, estão aqueles que, por não terem um assento assim tão bom, preferem arriscar. Por fim, no

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Literatura em Rede

Oswald de Andrade e os 90 anos da Semana de Arte Moderna.
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APRESENTAÇÃO

Dia 11 de Fevereiro foi a data de comemoração dos 90 anos da semana de Arte Moderna de 1922. E apesar de ter estudado um tanto bom deste movimento literário – inclusive esboçando uma monografia no sentido, que não durou mais que quarenta páginas foi abandonada – de fato, eu me esqueci. E para um pensador inquieto, esquecer de algo quer dizer muita coisa. O projeto de transformação da perspectiva artística brasileira iniciada por Oswald e os outros “malucos” não se tornou o que eles desejavam, uma forma de mudança radical das estruturas do campo, mas sim uma parte da história da nação brasileira, que se legitima a partir da história de seus heróis e vanguardistas. A Literatura e seus movimentos se iniciam enquanto projetos de mudança de uma estrutura e tendem a se tornar uma parte da história da nação e da língua do povo. Os vanguardistas da Arte Moderna Brasileira falharam no projeto de modernização de nossa arte, do surgimento de uma arte brasileira que supere os vãos do localismo e do romantismo (porque o regionalismo pode ser entendido enquanto um romantismo local) e que se fundamentaria no confronto com a literatura mundial, da imposição de uma arte brasileira livre do Estado, livre do local, moderna, dinâmica, viva. Falha. A literatura caminha para o localismo ou para a resposta aos grandes “Sellers” estrangeiros: fala-se de caboclos como se falava de indígenas, fala-se de vampiros e magos como se falava de conquistadores europeus: a literatura brasileira não se libertou, não se tornou autônoma – e caso alguém a considere, é preciso que este leitor se torne consciente do conceito de autonomia. Autonomia representa – nas palavras

mais simples - o quase “desprendimento” dos produtores de arte das amarras do Estado e este desprendimento se dá pelo desenvolvimento dos artistas e das perspectivas próprias, não daquelas apoiadas pela máquina ideológica. Em outras palavras, não se torna necessário escrever sobre a história ou geografia de um Estado, pois neste ponto a literatura se torna uma “outra narrativa” sobre o Estado. E mais, o novo artista pensa que é autônomo, mas ele está respondendo a um discurso de integração, de amor, de dedicação a algo que não devemos amar. Não podemos negar a influência da sociedade sobre os indivíduos, da mídia, das ideologias de grupos. Neste sentido, envolvendo tudo que foi dito, Oswald e amigos falharam em seu projeto inicial: a Literatura Brasileira se torna cada vez mais localista, voltada para fora e arraigada no Estado, no vestibular, no ensino de história da literatura e cada vez menos de artistas para o desenvolvimento de uma arte que enfrente o mundo. No mais, creio que Oswald de Andrade, em sua vida e em suas obras, foi um ser extremamente violento e mimado. As coisas tinham que ser da forma que ele queria e ponto final. Não posso dizer que isto é uma qualidade ou um defeito, mas é uma forma de agir. No mais, a nação foi capaz de absorvê-lo enquanto herói quando na verdade ele era um fanfarrão, amante e um “filhinho da mamãe”. Em todos os seus defeitos, merece uma breve leitura. Quem sabe, nos 100 anos de Semana de Arte Moderna poderemos pensar algo diferente. Eu poderei pensar diferente. Mas como afirma Aldous Huxley, não há problemas em falar demais na juventude, são formas de aprender com os erros e acertos. Quando se permanece calado, só há um vazio ao se olhar para trás.

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INTRODUÇÃO.

noções biográficas e apontaram o futuro da literatura nacional. Nas palavras dos críticos: Oswald de Andrade não só participou, “Todo o nordeste vem depois, com o como foi um dos líderes de um dos movimentos conhecimento da obra de Oswald, ou pela leitura considerados primordiais para a compreensão da através dela através de escritores que nela foram sociedade brasileira. O movimento Modernista buscar ensinamentos” Sergio Milliet (Tese de contou com intelectuais e artistas como Mário Cardoso) de Andrade, Tarsila do Amaral, Menotti Del “Toda obra romanesca de Oswald de Picchia, Anita Malfatti e outros, mas poucos foram Andrade pode ser considerada autobiográfica: engajados como Oswald, que atuou em diversas Já na trilogia do exílio encontramos longos frentes de debate com estruturas sociais que trechos que são antecipações de Um homem sem necessitavam ser revistas. profissão; João Miramar” (Martins, p. 246, 1969). Nascido no fim do século 19 e violando Apresento, neste breve trabalho de o século 20, o escritor pode ser contemporâneo informação, uma biografia resumida de Oswald de grandes transformações. Oswald viveu de Andrade. Antes de conhecer as obras, vamos numa São Paulo escravocrata, ainda iniciando ao autor. seu processo de industrialização. As novas

Oswald nasceu em 11 de janeiro de 1890 na cidade de São Paulo, filho de José Oswald Nogueira de Andrade e Inês Henriqueta de Souza Andrade. Da família de sua mãe, descende de uma das famílias fundadoras do Pará, estabelecida no porto de Óbidos. Teve uma infância confortável na Rua Barão de Itapetininga e iniciou seus estudos com professores particulares. Aos dezenove anos conhece Washigton Luís, membro da comitiva oficial e futuro presidente, de quem se tornaria amigo tecnologias que surgiam no seio da cidade íntimo. Neste mesmo ano inicia sua carreira como foram responsáveis por aguçar a percepção de jornalista escrevendo para o Diário Popular e Oswald. Possuía “o desejo de atualizar as letras ingressa na Faculdade de Direito do Largo de nacionais – apesar de, para tanto, ser preciso São Francisco. importar ideias nascidas em centros culturais Em 1911, sai do Diário Popular, inicia mais avançados – não implicava uma renegação amizade com o poeta Emílio de Meneses e junto do sentimento brasileiro” (Coutinho, p. 04, 1986). com Voltolino, Dolor Brito Franco e Antonio As reivindicações do movimento Delfine lança o semanário O Pirralho, junto com modernista, assim como de Oswald, logo seus colegas de redação, cultiva uma vida social romperiam a barreira do artístico para atingir as intensa, tendo como amigos “Guilherme de fundamentações culturais, políticas e econômicas Almeida, Amadeu Amaral, Julio de Mesquita Filho, da sociedade brasileira e foram tomadas por Vicente Rao e Pedro Rodrigues de Almeida.”

Oswald de Andrade não só participou, como foi um dos líderes de um dos movimentos considerados primordiais para a compreensão da sociedade brasileira.

BREVE BIOGRAFIA, BREVE.

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(Oswald de Andrade, p.361, 2003). A vida de Oswald foi marcada por muitos envolvimentos sentimentais, o que refletiria diretamente em suas obras. Seu filho Rudá afirma em uma carta “Creio que a obra de Oswald de Andrade não pode ser estudada desvinculada de sua vida” (Schwartz, p. 15, 1988) Aos vinte e dois anos de idade, embarca para a Europa e nesta viagem se encanta por Landa Kosbach, uma criança de onze anos. Volta de Paris acompanhado de Kamiá, dessa relação nasce o primeiro filho de Oswald, Nonê. Na época do nascimento de Nonê, Landa Kosbach volta da Europa, inspirando suas primeiras peças de teatro. Landa marcou profundamente o autor, tendo sua imagem, juntamente com a de outras paixões, descritas na Trilogia do Exílio. Quando jovem, a Landa é Vitória Agonia, menina de treze anos que exerceu grande fascínio sobre o personagem Jorge d’Alvelos, do romance Estrela de Absinto, que “Isolado de novo (...) começou a sentir a perturbação do contato virginal e selvático da menina da ilha” e ela tinha “treze anos de animal livre.” (Andrade, p.325326, 2003). Aos dezesseis anos, Landa pode ser associada à Mary Beatriz que volta de Europa e morre em São Paulo. Em 1917, conhece o escritor Mário de Andrade, o pintor Di Cavacalnti, Guilherme de Almeida e Ribeiro Couto, junto com eles, Oswald forma o primeiro grupo modernista. Aluga uma garçonnière junto com amigos e escrevem o “Diário da Garçonnière”, diário coletivo das experiências da residência que também foi chamado de “O perfeito cozinheiro das Almas deste mundo”. Dois anos depois, casa-se in extremis com Daisy, hospitalizada devido um aborto mal sucedido. Daisy se assemelha à personagem Alma. Em 1920, conhece o escultor Victor Brecheret e encomenda-lhe um busto de Daisy (Miss Cyclone). Publica em 1921, no Correio Paulistano, trechos inéditos de A trilogia do exílio II e III. Neste mesmo ano, procurando

adesões ao movimento modernista, viaja com outros escritores ao Rio de Janeiro, onde mantém contato com Ribeiro Couto, Ronald de Carvalho, Manuel Bandeira e Sérgio Buarque de Holanda. Ainda nesta cidade, realiza leitura inédita de trechos de Os Condenados, até então como era chamado o primeiro volume de “A Trilogia do Exílio”. Aos 32 anos, Oswald é idealizador e participante ativo da Semana de Arte Moderna, realizada de 13 a 17 de fevereiro no Teatro Municipal de São Paulo, onde lê fragmentos inéditos de Os Condenados e A Estrela de Absinto, volumes I e II de A Trilogia do Exílio. No quinto volume da revista Klaxon, divulga uma passagem inédita de A estrela de Absinto e ainda neste ano, publica Os Condenados (o primeiro romance da trilogia, que passou a se

Aos 32 anos, Oswald é idealizador e participante ativo da Semana de Arte Moderna
chamar Alma), com capa de Anita Malfatti, pela casa editorial de Monteiro Lobato. Em 1923, já instalado em Paris, envia artigos sobre o ambiente intelectual para o Correio Paulistano e mantém contato com a vanguarda francesa. Nos dois anos seguintes, são constantes as viagens de retorno ao Brasil e Europa, mantendo contatos e militando pelo movimento modernista. No dia 15 de outubro de 1925, divulga em carta aberta sua candidatura à Academia Brasileira de Letras, mas não chegou a oficializar sua inscrição. No auge do movimento modernista Oswald se vincula à Tarsila do Amaral, com quem se casa em 1926. Juntos formaram na literatura

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e pintura, o Movimento Antropófago. Em 1927, publica A Estrela de Absinto, segundo volume de A trilogia do Exílio, com capa de Victor Brecheret, pela Editorial Hélios. Recebe menção honrosa pela romance A Estrela de Absinto no concurso promovido pela Academia Brasileira de Letras. Em 1928, realiza a leitura do manifesto antropofágico e junto com Raul Bopp e Antonio de Alcântara Machado a Revista de Antropofagia, primeira “dentição” neste ano e a segunda “dentição” em 1929. Neste ano, rompe com os amigos Mário de Andrade, Paulo Prado e Antônio de Alcântara Machado. Com a crise internacional de 1929, Oswald sofre um abalo financeiro. No início da década de 30, separa-se de Tarsila e filia-se ao Partido Comunista onde conhece Patrícia Galvão,

Oswald e Tarsila do Amaral, Juntos, formaram na literatura e pintura, o Movimento Antropófago.
conhecida como Pagu. Na peça “A escada”, ressurge Pagu como a personagem A Mongol. Esta personagem vem mostrar ao herói do romance o verdadeiro sentido para as paixões: “O amor não era mais para ele uma divagação de desocupado, um divertimento de classe” (Andrade, p.348, 2003). Em 1931, conhece o ex-líder tenentista Luis Carlos Prestes em Montevidéu. Adere ao comunismo, fato que marcaria profundamente suas obras. Publica com Pagu e Queirós Lima, o jornal O homem do povo. Em 1934, publica A escada vermelha, terceiro volume de A trilogia do Exílio, cujo titulo original era A Escada de Jacó e depois A Escada. Em 1936, casa-se com a poetisa Julieta

Bárbara, tendo como padrinhos Cásper Líbero, Cândido Portinari e Clotilde Guerrini, irmã da noiva. Em 1940, se candidata à academia brasileira de letras, mas não é aceito. Em 1941, relança o volume “Os Condenados”, agora dividido em três partes: Alma, A estrela de Absinto e A escada. Em 1944 conhece Maria Antonieta d’Alkmin, com quem terá mais dois filhos, Antonieta Marília e Paulo Marcos. Em 1945, anuncia o nome de Prestes como candidato à presidência. Neste ano, discorda da linha política de Prestes e rompe com o partido comunista do Brasil. Em 1950, candidata-se a deputado federal pelo Partido Republicano Trabalhista com o lema “Pão-teto-roupa-saúde-instruçãoliberdade”. Oswald permanece produzindo artigos, discursos, romances. Milita ativamente pelo movimento modernista. Viaja constantemente e se interna regularmente devido a sua doença. No dia 22 de outubro de 1954, Oswald de Andrade morre com 64 anos.

FINALIZANDO. Esta pode ser considerada uma forma de homenagem? Sim. Não ao Oswald dos livros, mas ao Oswald namorador e poeta, ao malandro burguês que tentou negar sua ideologia de classe. O modernista tem sido relido e estas páginas foram apenas uma gota dentro de todo um mar *ou um rio madeira modernista*. Não encerra a discussão nem a inicia. Apenas dá continuidade. Até os cem anos, se estivermos modernos até lá.

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Por dentro da Cena
Máscara do teatro balinês, o Topeng. Fonte da fotografia: http://dedotphotography.wordpress.com/2009/02/06/tari-topeng-tu/

O Desafio da Máscara
Jória Lima
Eu creio que o teatro é um vai-e-vem entre isso que existe no mais profundo de nós, ao mais ignorado, e sua projeção, sua exteriorização máxima em direção ao público. A máscara requer precisamente esta interiorização e esta exteriorização máximas.1
Ariane Minouchkine

A máscara sempre esteve presente na história da humanidade. Ligada a rituais religiosos, ou de natureza artística, ou ainda, como acessório de proteção, fantasia ou disfarce, é um dos maiores símbolos das artes cênicas. A arte da re-apresentação. Como este é um espaço para iniciados ou não nas artes cênicas é sempre bom lembrar que se acredita que o teatro surgiu no momento em que o primeiro homem portou uma máscara para significar algo durante um ritual primitivo e que esta lhe atribuía um poder. Pode também ter sido numa reunião de amigos em torno da fogueira jogando um tipo de master
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pré-histórico? Por que não? Eles poderiam estar se divertindo ao invés de celebrando um ritual religioso... Vamos lá... Afinal, imaginar ainda não paga imposto mesmo! Imaginemos a cena: Jane fala: – Imita um mastodonte! Daí o Tarzan da época, vai lá e improvisa uma máscara com a cara do animal, duas presas enormes de marfim, sabe Deus onde! Ela advinha! Fácil pra ela! Ponto pra equipe do peito pelado! Brincadeiras à parte, tem algo com o que todos que já usamos máscara precisamos concordar: ela de fato exerce um misterioso poder sobre quem a usa e, quando funciona, sobre quem a vê em ação!

Tradução: Jória Lima

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Máscara larvária, em papel colê, confeccionada por Fernando Linares.

Agora já estou me referindo à máscara teatral, às máscaras expressivas. Não se trata de um simples acessório, de fantasia de carnaval ou adereço de baile ou de decoração. Curiosamente, a máscara teatral revela ao invés de esconder! Ela revela ao ator sua própria identidade, a qual ele mantinha escondida por trás de sua expressão cotidiana e gestos mecanizados. Ela propõe um saboroso desafio que consiste em superar seus próprios limites, enfrentar seus medos mais íntimos e admitir suas inúmeras imperfeições, além de lhe abrir as portas para a infinita imaginação criativa. E o faz de forma lúdica, prazerosa, por meio do jogo! (Por isso a brincadeira lá atrás). O que considero importante ressaltar nesta oportunidade, é que a máscara representa uma ferramenta valiosíssima para o trabalho do ator, a partir da qual ele vai perceber seu corpo mais intensamente e despojar-se de todos os artifícios cotidianos que o impedem de criar livremente. Sobre este tema, são inúmeras as obras que valem a pena ser lidas. Outra forma de conhecer a máscara teatral e diga-se, a melhor delas, é vivenciando a experiência de participar de uma oficina de máscaras. Este é um conhecimento repassado de geração a geração. No Oriente, é repassado de mestre a discípulos e seu treinamento pode durar toda uma vida. Os ocidentais buscaram aí a fonte do conhecimento, no teatro balinês, chinês, japonês. A Commedia Dell’Arte italiana, gênero teatral que teve seu apogeu do séc. XV ao XVIII e que

tem suas raízes nas Atelanas da Roma Antiga, também tem sido fonte de inspiração para os artistas do século XX e XXI. Os contemporâneos descobriram aí um eficiente método de preparação do ator, através de um treinamento árduo e constante, que lhe permite estar a serviço de qualquer teatralidade, pois o resultado não se destina somente ao gênero cômico ou farsesco. Como técnica de preparação do ator, a máscara tem demonstrado excelentes resultados e é utilizada por vários grupos, dentre eles, o renomado Théâtre Du Soleil dirigido por Ariane Minouchkine. No Brasil, o Grupo Moitará/RJ, desenvolve trabalho com máscaras desde 1988. Em Porto Velho, a recém fundada Anômade Cia. de Teatro convidou recentemente (janeiro/12) o Professor Fernando Linares2 para ministrar uma oficina de máscaras que contou também com a participação de outros grupos e artistas convidados. Infelizmente, o número de participantes é bastante limitado por ser um ensino individualmente direcionado para que haja um melhor aproveitamento, razão pela qual pretende-se oferecer outras oficinas em breve. Nesta oficina foram utilizadas as máscaras neutras, máscaras larvárias e as máscaras inteiras de anciãos, confeccionadas pelo próprio Linares. E é ele que vai falar um pouco sobre cada uma delas a partir de trechos de sua dissertação de mestrado3 que agora passo a reproduzir in verbis :
O quarto capítulo é dedicado à máscara neutra, mostrando, porém, que antes de vesti-la, os estudantes desenvolvem, a partir dos jogos de regras e sem as máscaras, as suas habilidades para o jogo cênico silencioso. Pela necessidade de entender a máscara neutra em seus aspectos práticos, são descritos, apenas para exemplificar, alguns exercícios específicos para que se tenha uma ideia mais clara dos objetivos a atingir. Por ser a primeira máscara com a qual o estudante entra em contato, são abordadas, neste primeiro encontro, as questões relativas ao contato físico e à relação que ele estabelece com este objeto como “mediador” da sua comunicação com o espectador. Neste momento, de uma importância fundamental para o desenvolvimento do trabalho, é salientada a responsabilidade desta máscara como introdutora de um tratamento codificado que, posteriormente, se manterá com todas as máscaras.

2 O professor Fernando Linares é Ator e Diretor teatral. Professor de Interpretação Teatral. Mestre em Artes pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais e Licenciado em Desenho e Plásticas pela Escola de Belas Artes da UFMG. 3 A máscara como segunda natureza do ator: o treinamento do ator como uma “técnica em ação” / Fernando Joaquin Javier Linares. – 2011. 180 f. : il. Orientador: Antonio Barreto Hildebrando Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Belas Artes, 2010.

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Esta primeira relação com uma máscara é um momento importante e é nele que nos decidimos a mudar a nós mesmos para entrar numa esfera do trabalho na qual aceitar as suas regras é o contrário de uma atitude de submissão. Portanto, firmam-se, nessa fase, os princípios fundamentais do compromisso ético com o trabalho sobre si mesmo. Trata-se de assumir o comprometimento com um recuo a um ponto zero físico-mental, de partir rumo ao novo e ao desconhecido que se encontra escondido dentro de nós mesmos como um potencial a ser descoberto e, ainda, de enfrentar os riscos dos possíveis erros, sem perder o ímpeto necessário para edificar um novo corpo. Com esta máscara se desenvolve a escuta de si, na qual se intensifica a relação com os cinco sentidos. Esta relação é necessária para o estudante/ ator se colocar ao serviço de um estado físico-mental de calma, para agir no aqui/agora, o que exige a manutenção de um absoluto controle de cada ação que se realiza. Guiado por uma atitude neutra, ele deve descobrir as dinâmicas das situações sem nenhum psicologismo e, assim, se busca o ideal: a construção de uma primeira segunda natureza orgânica, que age como se fosse um “personagem neutro”. O capítulo final é constituído pela abordagem das máscaras larvárias e das máscaras inteiras de anciãos de olhos pintados. Com estas duas máscaras, entramos progressivamente no terreno da expressividade, no qual são amalgamados os conhecimentos e as práticas realizadas nas etapas anteriores. Esta etapa do trabalho se caracteriza pela conquista dos eixos corporais das máscaras, para os quais a plasticidade do olhar da imaginação e a respiração têm um papel preponderante para a construção de corpos “artificiais” que deem a impressão de organicidade. É assim que o estudante mergulha no terreno da estética, de uma teatralidade que se tornará o seu meio de expressão. O desenvolvimento de uma inteligência cênica para jogar com todo tipo de situações, a partir do despertar de novas urgências e de intensos estado intuitivos fazem o estudante pensar com o seu corpo e, ainda, encontrar os gestos essenciais para um tipo de comunicação aberta à participação do espectador, o que, por sinal, caracteriza esta proposta de atuação com máscaras. As máscaras inteiras de anciãos de olhos pintados encerram o percurso das máscaras de base. Durante todo o trajeto foi criada uma urdidura de conceitos e de exercícios práticos que devem possibilitar ao estudante/ ator, ao vestir esta última máscara, vivenciar estados justos. Nestes, a máscara se conforma como uma segunda natureza, a partir da qual podem ser experimentadas situações que permitam explorar possibilidades dramáticas cuja extensão propicia ao estudante experimentar dinâmicas corporais e são estas que podem conduzir o gesto do melodramático ao trágico. Finalmente, proponho uma das possibilidades de utilização da capacidade de domínio das ações físicas

Máscara expressiva inteira de ancião de olhos pintados, confeccionada em papel colê, por Fernando Linares.

orgânicas, conquistadas com o aprendizado do uso das máscaras, no âmbito da construção da personagem de um texto dramático, no qual o ator não utiliza máscaras. Trata-se do emprego da máscara numa extensão que vai do pré-expressivo ao expressivo tornando-se uma valiosa ferramenta que opera a favor do ator e do seu papel. O itinerário percorrido com as máscaras neutra, larvárias e expressivas de anciãos de olhos pintados, e o treinamento pré-expressivo, se mostra eficaz num nível operativo no qual a técnica serve ao ofício do ator de forma abrangente e, portanto, está ao serviço da arte teatral, sem riscos de pautar os atores como especialistas de um estilo único de teatro.

Espero que esta matéria tenha servido para despertar o interesse de alguns leitores com relação ao estudo das máscaras e do teatro como um todo. Até o próximo Por dentro da cena!

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EXPRESSõES! Março 2012 | 24

10 DICAS DE LEITURA PARA UMA VIDA SAUDÁVEL
RAFAEL DE ANDRADE

Minha pretensão foi de escrever estas dicas de memória, sem consultar os livros que estão todos ao meu redor, no meu quarto. Não por preguiça ou por qualquer outro motivo, mas pelo fato de querer passar ao leitor uma impressão mais crua de tudo que me lembro destes textos e não referências encontradas em suas páginas ou em seus prefácios, mas o que de fato me marcou em sua leitura, tornando assim estas dicas da boa memória, daquilo que me marca mesmo após a vida moderna e líquida que somos forçados a levar. Uma boa leitura a todos.

1. A Metamorfose, de Franz Kafka. Confesso que é um velho clichê apontar a leitura de Kafka. Mas tenho um porém: ele é considerado um dos leitores da modernidade, junto com Camus, Baudelaire e poucos outros. Poucos autores são mais analisados pela academia cientifica ou pela crítica literária quanto Kafka, esta estatística aponta que o orelhudo é um revelador e uma interrogação ao mesmo tempo, por mais que seja lido, não é completamente interpretado. A Metamorfose é uma novela de apresentação e deve ser lida junto com “Carta ao Pai” para se dar o primeiro passo na interpretação do autor. Para os leitores mais casuais, Kafka é opressor e maravilhoso ao mesmo tempo: ele revela e é lúdico, características da arte que sobrevive.

2. A Trilogia do Exílio, de Oswald de Andrade. Considerado um dos primeiros romances urbanos do Brasil, na verdade é composto por 03 romances menores. Trazendo para o leitor tipos brasileiros, como o migrante nordestino, o malandro, as prostitutas, os artistas modernos e tendo como cenário de fundo as ruas de São Paulo (e não um sítio qualquer), estes romances são uma nova forma de falar o Brasil. Não podemos esquecer os amores revolucionários e franceses do mestre Oswald presentes na trama interna do romance. É possível acompanhar sua vida a partir da leitura deste romance, o que o torna ainda mais interessante para o estudioso da literatura brasileira.

EXPRESSõES! Março 2011 | 25 dez 2012

3. O Capote, de Nicolai Gogol. Quantos homens não nascem sobre uma péssima lua e estão marcados para viver sobre a perspectiva do trabalho burocrático e nunca, nunca enxergar o que há além do trabalho repetitivo das instituições públicas? Este é o destino do herói da novela do autor de Almas Mortas (outro grande texto, de leitura recomendada). Gogol faz uma reflexão sobre a vida levada pelo trabalho e para o trabalho até o seu ultimo fim e de como as pessoas podem se acostumar, e até gostar, desta única perspectiva. É uma crítica ao sistema burocrático russo e a uma nova forma de pensar o trabalho que pode ser trazido até nossa realidade.

do prazer obtido pela fricção do clitóris. Trazendo, a partir de suas personagens, várias suposições sobre a cura, sobre a influência do pecado, sobre a traição, libertação e prisão das mulheres ao desejo do homem que dominar a arte de lhe dar prazer. Este texto pode exagerar, ou não, em alguns aspectos a relação entre a mulher e a dominação pelo sexo. E tudo isso com a participação especial de Ferdinando, o corvo, que a tudo assiste.

4. O Spleen de Paris, de Charles Baudelaire. Um conjunto de pro- sas poéticas do poeta maldito. Elas descrevem os mais variados temas e não possuem um tema central. Seus temas chaves (que são alguns) são a multidão, o desenvolvimento, a diferença que surge entre os ricos e os pobres, os amores, a posição das artes elevadas e malditas, etc. O leitor fará uma viagem pela forma de “ver o mundo” daquele poeta que foi considerado “o ultimo romântico e o primeiro moderno” o primeiro a se propor enquanto revelador e analista deste mundo novo que surge com a modernização das relações sociais.

5. Primeiro Amor, de Turgueniev. Um grupo de homens se reuniu para contar suas experiências de amor que falharam, que foram dolorosas. A personagem principal da novela do russo real-naturalista Ivan Turgueniev começa a relatar sua paixão de infância. Assim se inicia uma das narrativas mais interessantes com a qual me confrontei, com um desfecho interessante e profundas reflexões sobre a aproximação entre duas ou mais pessoas.

Baudelaire

7. A Menina dos Olhos de Ouro, de Balzac. 6. O Anatomista, de Andreazzi. Este romance traz à tona uma discussão que nós, ocidentais metidos a moderninhos, podemos não tratar com tanta veemência. Ele discute uma perspectiva do prazer feminino a partir da descoberta (na idade média) Narra a estória de um jovem galã de Paris – o Don Juan Balzaquiano – Henri de Marsay, que mesmo sendo um expert na capacidade de viver bem dentro da estrutura aristocrática de Paris, sendo sedutor, persuasivo, se

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apaixona pela pequena Paquita, a menina dos olhos de ouro. Para obter a atenção de sua amada, Henri conta com a ajuda dos “Devoradores”, um grupo de amigos que sem escrúpulo algum realiza ações que tem como objetivo a satisfação dos desejos dos membros deste grupo. O desfecho do romance é surpreendente, levando ao leitor a enfrentar uma perspectiva que consideraria anacrônica, mas que Balzac já enfrenta em seu tempo.

o influenciaram nos caminhos das letras, as impressões sobre suas obras e a crítica que sofreram, homenagens e referencias à família. É uma forma de diminuir o ídolo e trazer o homem para a frente da leitura, tornando-o tão gigantesco em seu ego e diminuto no turbilhão da história quanto qualquer outro. Para aqueles que amam a literatura brasileira, se torna um ponto central de interpretação.

9. Sonho de um Dostoiévski.

Homem

Ridículo,

de

Esta é minha narrativa preferida do russo. Quando um homem que não tem nenhuma perspectiva de vida e pensa no suicídio. Quando o comete, é levado a uma viagem distante pelo universo para conhecer outra terra, semelhante a nossa. Esta nova terra não é infectada com as nossas estruturas e formas de pensar, mas a simples presença do viajante os leva a criar leis, morais, estabelecer contratos, religiões, etc. O viajante corrompe aquela terra pura com tudo aquilo que é considerado corrupto em nossa terra. É uma profunda reflexão sobre nossas estruturas sociais modernas e uma leitura quase obrigatória para aqueles que desejam conhecer nossa perspectiva de vida e literatura.

10.

Um Estudo em Vermelho, de Conan Doyle.

Dostoiévski

8. Como e Porque sou Romancista, de José de Alencar. O que pode interessar ao estudante de literatura, acadêmico ou não, neste texto é como se deu a formação deste escritor Brasileiro, analisando as suas relações sociais e suas paixões, nesta autobiografia literária de Alencar. Apresenta sua infância e as relações de seus pais, sua formação na educação básica, os homens que

O primeiro romance do conhecido Sherlock Holmes, apresentado pelo seu fiel amigo, o médico dispensado do serviço militar, o Dr. Watson. Esta apresentação e solução do seu primeiro caso é uma porta a ser aberta por aquele que deseja compreender os filmes lançados recentemente ou mesmo embarcar nas aventuras de Holmes nos livros, que é maior e mais interessante que os filmes. O poder de dedução, a dedicação à arte de interpretar, a leitura, o vício, o amante de música, tudo está presente neste livro de apresentação.

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Rosa Matiz
Se não disse certa vez, tempo, Que ainda brilhava o verniz do sorriso Não queria dizer que desbotava, denso Não queria dizer, não, preciso... Se outrora não fixei o olhar, vento, Naquela bela fachada de felicidade Não quer dizer, reforma, penso Não quer dizer, não, saudade... E outras vezes tantas, vendo Todas as tábuas gastas de rotina Não quer falar, refaz, adendo Não quer falar, queima, porfia... Em memórias minhas, dentro, Das lascas que caiam, em lilás Não quer parecer, sem cor, lembro Não quer parecer, desmerecer, aliás Como contemplo, na real vertente Abaixo da epiderme, no epicentro Não faz mostrar, sem cor, cedente Não faz mostrar, tábua rasa ao tempo E quando vi a rosa vermelha ultima Aconchegada, naquilo, dito, gasto Não fez degradê, no lilás púrpura, Não fez degradê, ou perfume astro A rosa, lembro bem, de idéias nuas Cheirava mares e campos molhados Não fez minha fachada sem pintura Não fez minha fachada, nem sobrados O lilás do meu destino, sem cuidado As lascas de meus sonhos, sem verniz A rosa não era tinta, nem reparo A rosa não era cor, era matiz.

César Augusto

Foto: Alyne Dias Reiche

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Luzes do Abismo
Tudo que é óbvio enruga minha pele Irrita minha índole As várias variáveis do mesmo Contaminam-me as veias Causam febre e tremores. Eu vi sedas e granadas nas estradas Arranquei os cravos do não-pecador Quebrei os vitrais da grande queda E com os cacos rasguei meus pulsos. Quis eu a morte digna A vida intensificada. Disse-me meu coração: Encerra os livros Esqueça as escrituras E ponha-se no caminho! Foi lá que aprendi a sangrar e gozar Com insuperável intensidade. Singrei tantos mares selvagens Tantos continentes imaginários Que me tornei borboleta Morcego e fera. Com mandíbulas de prata Corroí as vertigens da lei Com o fogo da língua Submeti as serpentes encantadas. Os néons não mais me seduzem: São apenas gases nobres em tubos pré-fabricados por mão-de-obra miserável! Tudo que é vazio me atrai: É terreno livre Planície deserta que espera ser preenchida. E eu tenho sementes, minhas mesmas, germinadas com chuvas interiores! Sei amar minha solidão Não temer meus ossos expostos, Aprendi a costurar meu próprio joelho Quando me arrebento nestes abismos de ecos profundos...

Cátia Cernov

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Abostagens Psico e Lógicas
Juro que – não queria Torna-me a mim mesmo Um morto – que palavra Um calado – sem palavra Deixar de ser eu jovem – Já fui jovem e crente Hoje em nada creio, nada Na cama, será que vivo? Será que respiro como ele? Aquele artista feliz da praça Que crê em raça, em paraíso Que tudo é mais que o visto Que vão nos receber Que vou abraçar meus mortos Vão me sorrir e dizer Tudo passou: não creio... Aquele poeta da praça é feliz E se reclama das contas que paga Que ama a família Que tem amigos; Quando eu era criança, Na rede, eu tinha medo De não acordar e pedia Perdão pelos pecadinhos de criança Que cometia: comia demais, de menos Nunca senti medo maior Não queria deixar de existir Existir era tão bom! E vejam só como invejo o poeta da praça É só pedir pecado, só não crer em pecado As coisas são tão fáceis, não crer... Pior é não querer respirar Não querer estar com eles Não gostar de praças Não sentir gosto das comidas Não rir do futebol ou do carnaval Não gostar da poesia que todos gostam Nem de prosa nenhuma deles; O velho Vazio E aquele poeta rindo Porque a mãe é boa, porque o sertão é Porque o velho que escreve é Exemplo para todos nós Porque o fumo nos faz ler melhor Escrever como Kafka, Rimbald, Na cama, não sou deste mundo Não sou filho dele Não mamo em suas tetas Não bebo seu excremento Mundo imundo, santo demagogo Não cheiro suas partes e nem pareço Não cheirar – aqueles poetas velhos Enlamados deste mundinho Parecem – somente parecem – Não beber desta fonte que amam Odeio, desprezo, ridicularizo. Toda fonte que aquele poeta da praça Ali da pracinha perto de casa Bebe, embriaga, fuma... Os filósofos não brigam mais Eles cantam o hino do ball Os anarquistas amam a nação e Os poetas amam ser o que são; Bunito – da moda, não ser igual Mas o bunito é tudo legal Descobri que não sirvo para Lidar com gente, falar com gente Veja aquela criança – ela foi Ela será – devorada por Aquele velho do saco na praça Porque ele é poeta Ele sabe de tudo E é tão nada quanto eu Tão vazio – tão saco de carne Tão saco de merda Quanto todos nós Que somos saco de esperma Receptáculo de esperma – feio ou bunito Aquilo que se solta no vaso Uma planta ou um nada Que se maquia com orgulho Imagina uma planta maquiada Com orgulho de estar no vaso É aquele poeta da praça; Juro que não queria Nem quero – tenho medo Deixar de crer nas coisas Olho para os barulhos Sinto medo de minha posição De ser contra o mundo Sozinho contra tudo Fico impressionado com aquele poeta Que é contra o mundo e ri De embriaguez de futebol Junto com os amiguinhos bêbados De novela, de cortiços, de confrarias Eu sozinho fico com medo Pego meu dedo e escrevo Contra tudo e a favor de nada A tinta é meu ódio.

Rafael de Andrade

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Curvas em linhas retas
Desaguam as curvas Em linhas retas. Nas furnas das turbinas Finge ficar as águas que eram parceiras das curvas. Antes das barreiras, das barragens. Morta é a mata, Nascente é clarão na redondeza da região. Um urro diurno em clamor: É a onça pintada na parede da sala. Nada na mesa pra jantar das caçadas, Nas calçadas descalço, Nas sombras dos postes que cobrem a região, Descobertos, os mendigos não têm o poder do disjuntor Pra desligar e queimar uma pestana, Da treva do claro da vida da morte Em pé no pé da sorte.

Dom Lauro

Foto : Ronaldo Nina EXPRESSõES! Março 2012 | 31

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Banzeiro
Olhando o Madeira, que corre, Hoje mais rápido que há tempos atrás, Penso que o tempo é um rio, Sei, já pensaram isso, já disseram isso, Não disseram, entanto, que esse rio, que corre, Que sempre corre, que sempre está correndo, Só preocupa quando é forte a correnteza E quando a tudo arrasta, Quando seu arrastão Algo nos traz, ou algo nos leva. O Madeira, que corre, que sempre correu, Arrasta paus e troncos e galhos e lixo, E não sei o que mais que esconde Nas águas profundas e tingidas de barro, Sob a superfície amarela e impenetrável, O que traz, de onde traz, para onde leva? Para quem traz, por que traz, a quem leva? “Água mineral, Skol bem geladinha...” O complexo da Estrada de Ferro está bonito, É um bom lugar para olhar o Rio que corre. De lá, olhamos o Rio, que corre, Que sempre corre, que sempre está correndo, E às nossas costas a cidade se inunda, De carros, de crimes, de pessoas, De esperanças, de desilusões, de mortes, De fraudes, de boas e más notícias, E outra correnteza a tudo arrasta, Outra correnteza, que a tudo isto arrasta, Está no asfalto, pelos prédios, nas repartições, Nos bairros, nos becos, nas cabeças e nas [ apreensões, Seu movimento, sua fome, sua sede, Os braços fortes com que transporta as coisas, Tudo isto – assusta. Olhamos o rio por muito tempo, E agora, porque um monstro de concreto Acocorou-se sobre ele, ele mordisca a cidade, Furioso, faminto, revoltado, natural... Até aqueles que rogavam por mudança, Pelo próximo passo, temem o próximo passo, E começam a rogar pela manutenção de tudo... Um barco de madeira força subir a correnteza, Que luta, que linda luta, o motor contra As águas, o barco que vence o rio, Mas não o vence, pára, espera, cede, Teima, e enfim, retorna, fica para próxima. Um barco menor tenta a travessia, Estanca, avança um pouco, vai devagar, E a constatação é feita: Hoje está mais difícil que ontem! As pessoas se reúnem e muitas delas Não entendem que não se pode parar o rio, O rio, que corre, tem pernas que não se pode deter, O rio que corre, não está nem aí, Todos os dias, coloca alguém na rua, Todos os dias, toma o emprego de alguém, Todos os dias, mexe um tanto na cidade, Tem pressa, tem ânsias, tem cobiças e ambições. Olhar a amplidão nos faz sentir pequenos, O céu, o rio, a mata sob a linha do rio, O monstro de concreto sobre o rio, os barcos Que lutam contra a correnteza, Há quem possa contra a Natureza? Olhar a amplidão nos faz sentir pequenos, O trânsito, as escolas, a migração, As greves, as altas de preço, as leis, A enorme correnteza das coisas urbanas, Há quem possa contra o Progresso? Esta tarde tudo se montou tão auspiciosamente! O cenário que se montou, hoje à tarde, Queria dizer algo? Quis o rio dizer algo? No céu enorme, sobre o monstro de concreto, As nuvens acinzavam o céu, mais para cá E mais para lá, sol, o sol daqui, Dando seu último oi, antes da noite, Seu orgulhoso oi de sol daqui... É engraçado, é preciso olhar o rio, Agora, é imprescindível que se olhe o rio, Para entender o que há na cidade Que se inunda às nossas costas, É preciso entender seus movimentos, É preciso observar suas revoltas, Entender sobre o monstro que o capturou. A cidade às nossas costas se inunda, E é preciso olhar o enorme rio, que corre, Que sobre ela corre, que sempre corre, Que sempre está correndo, que tem pressa, É preciso lutar contra o rio, É preciso enfrentar esse rio, Esse rio que desabita, que altera, que contamina, Esse rio que corrompe, que submete, Esse rio que a tudo quer arrastar. Hoje à tarde, olhando o Madeira, Natural, que é natural, que é rio, Pensei neste enorme rio, que é rio de outro modo, Que dizem natural, que chamam natural, E que inunda a cidade às nossas costas. José Danilo Rangel

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Retrato

por José Danilo Rangel

BOCA

Não é do brinca, é do VERA!!!
Ákilas Batista nasceu no dia 14 de dezembro(num domingo de manhã), na cidade de Boca do Acre - Amazonas (na beira do rio Purus), filho de dona Maria Corrêa e seu Oliveira. Com a doença da avó, dona Divina Alfaia, que já morava por aqui, veio com os pais e outros familiares, na maioria Acreanos, para Porto Velho. No começo de 1983, começou a estudar na escola Juscelino Kubitschek, onde a mãe era professora: Minha mãe se tornou professora pra me ensinar a ler, já que, nas palavras dela: “num daria essa honra pra mais ninguém”. Pelo bairro, o Nova Porto Velho de anos atrás, brincava com os primos, “todos muito avoados”: soltava papagaio e “dava decumforça” na peteca. Desenhando antes mesmo de aprender a escrever; rabiscar os desenhos que via na TV era uma atividade que tomava boa parte do seu tempo de criança e nunca perdeu a noção de que a escrita é um tipo de desenho com letras. Depois de dois anos estudando na mesma escola, e sendo muito cobrado pela mãe, pois ele tinha que dar o exemplo, foi transferido para a escola do SESC. Essa transferência lhe expôs a uma nova realidade. Até então, seus colegas de escola e de bairro eram os mesmos, todos filhos de um mesmo contexto social. Na nova escola, Ákilas se depara com o contraste até ali desconhecido. Seus colegas no local de estudo agora são filhos de outro nicho, são de uma classe econômica mais elevada, com outro nível educacional, partilham de outra realidade. E ele, entre as duas. Em 1987, outra transferência acentua ainda mais o contraste percebido. Pois agora estudava numa escola de elite e não via nada daquela abastança perto de casa... A escola de elite era o Colégio Dom
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Dona Maria Corrêa

Bosco. A partir daí cresceu entre realidades distintas, aprendendo as sábias malandragens de bairro e recebendo educação formal de “prima” ao lado dos playboys. Nesta época, recebe incentivo para o que mais gostava: desenho! E através desta paixão acaba descobrindo os quadrinhos como “fonte inesgotável de prazer estético”. Usava o dinheiro da merenda para comprar as revistas em quadrinhos e também contava com Alexandre Bezerra, um amigo que nunca esquecerá, para ter acesso a mais material, juntamente com livros. Adolescente, desenvolve um grande interesse por música, um interesse eclético: heavy metal, rock, rap, e é acompanhado pelo amigo Hammy, hoje um reconhecido tatuador. Dentre todos os ritmos que a busca adolescente o fez conhecer, foi ao rap que deu mais atenção - talvez devido ao fato de gostar muito do avô e de dividir com ele o gosto pelas rimas. Aí, já via como o grande escopo da arte, a liberdade, a possibilidade criativa. Inquieto e imaginativo como era, já se sentia desconfortável com as normas e fórmulas ainda na escola, mesmo que de maneira instintiva, - sempre tivera que aprender muitas coisas, então, pelo menos a arte tinha que ficar pura e intocada... Instintiva, sem regras! O rap aparece então como a possibilidade, pirão básico para misturar outros elementos, visuais, sonoros... elementos de vida! Então, começa um caleidoscópio vertiginoso de interligações, combinações

e religações infinitas – e tudo se tornou sedutoramente fragmentado em minha mente - como peças de um quebra-cabeça, mosaico em constante construção aleatória, vivi e JAH rio de tudo isso até hoje. Filmes, livros, artes plásticas, amigos de bairro morrendo de violência gratuita da polícia, namoradas, tudo muito díspare e simultâneo... a partir daí considero irrelevante tratar minha existência nesse mundo de uma maneira histórica/linear cronológica – pois me entreguei e me com(fundi) completamente com a miscelânea maravilhosa com.fusão de que é constituída a identidade básica portovelhense d’álma, cosmopolita e regionalista... Essa hospitalidade consangüínea do tipo B...”B” de Beradera!!! Na década de 90, termina a escola no extinto Kepler, e, como a muitos adolescentes até hoje, sua busca pelo diverso, por espaços ainda não completamente tomados por normas e regras sociais, por um lugar alternativo, leva-o à Praça Aluízio Ferreira, praça do half, para os mais íntimos. Frequentando o circuito musical da época e andando com os caras que andavam de skate, Ákilas acaba se estabelecendo ali. Tem muitos amigos, muitas festas para ir... Mas algo acontece. Vítima de uma covardia, é espancado, enquanto estava bêbado, por um dos “amigos” diante de todos os outros, que nada fizeram, Ákilas, é de súbito, apresentado a outra realidade. Sua primeira letra “com

Seu Oliveira e dona Maria Corrêa EXPRESSõES! Março 2012 | 34

Foto: Ronaldo Nina (Festival Beradeiros)

Lançando a flecha pro futuro!

alma” data de 10 de dezembro de 1994, e trata desse assunto. Com ódio, Ákilas ainda pensa em se vingar, mas acaba tomando uma decisão maior: vai seguir adiante. É o que faz: ser béra quer dizer, transmutar ódio em amor!!! Dura lição. Dita e superada. Em 2001, já escrevendo letras de rap há seis anos e também já há um bom tempo “fazendo um som com os chegados do Nova Porto Velho”, encontrou o (ou foi encontrado pelo...) MH2O-RO - MOVIMENTO HIP HOP ORGANIZADO DE RONDÔNIA. Como é prática entre os rappers ter um codinome, Ákilas se lembra do apelido de infância, e como também seria uma referência a sua cidade natal, torna-se Boca. Foi um tempo de muita aprendizagem e de grandes amizades, de onde tirou

várias lições,principalmente que política partidária é uma porcaria, que só serve pra perverter a alma dos caboco... mal completamente desnecessário, maquiavélico e diabólico! Ser esclarecido politicamente é diferente de ser politizado! E que o “querer“ artístico é criador e mantenedor de pessoas psicologicamente saudáveis e pode estreitar laços duradouros entre mentes desejosas de liberdade e justiça poética, cotidiana e divina! Um pouco mais tarde, pungido por aquele antigo senso de liberdade expressiva, acaba entendendo que ao rap que tem praticado, cujo enfoque estava na periferia, escapam alguns matizes da realidade em que vive e isso, no seu entendimento, estava fazendo com que o seu passado, as suas raízes fossem negligenciadas: Refleti sobre meu passado (e meus antepassados), meu presente (o que meus contemporâneos estavam fazendo) e resolvi apontar uma flecha pro futuro (cego, não escrito - uma tabula rasa)... Uma aposta! Um ato de fé! e um alvo... Resolve montar um trabalho que sintetizasse tudo isso: o amor pela arte, as memórias, o gosto musical, o amor por essas terras, e o que mais pudesse ser colocado em pauta... Assim, da reunião de Boca, Radar e Samuel, todos do Hip-Hop, mestre Xoroquinho (percussão), Tino Alves (percussão), Flammareon Jackson (guitarra), Laureano (bateria), Foca, Adriano, foi montada a Quilomboclada! - nome que vem da junção de Quilombo (resistência) e caboclada (habitante local), a união desses dois termos significa algo como resistência da
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Soul Quilomboclada
(Samuel)

Eu me apresento sou negro e caboclo Afro-indígena daqueles bem loucos Se você gosta de tudo que é pouco Eu e você somos apenas o oposto Já caí, já chorei, já sofri Pelo meu corpo tenho as marcas de caim Eu sigo em frente, minha aldeia é diferente Já quebramos a corrente que você me colocou Paulo freire me ensinou Hoje eu sei a diferença do oprimido e do opressor Eu “tô de boa” Eu “tô na pro” Se vacilar eu viro essa canoa (repete) Soul quilomboclada...

cultura local (cabocla)... e nossa cultura local ainda são as pessoas. Era o ano de 2004. O grupo, que fez sua primeira apresentação num baile da terceira idade, em um dos mirantes, logo estava sendo cogitado para apresentações em palcos de maior expressão, como a Amostra de Música do SESC, e agora tinha uma proposta definida - assumir a beraderice: Um dia conversando com “um amigo de som”, Boca sugeriu que explorassem uma questão chamada beraderos... Lembra-se até hoje quando o amigo riu e disse: “que é isso, boca? Os caras daqui nunca vão querer se chamados de beraderos... pelo menos não entre a galera mais jovem!”... já que esse era um assunto abordado basicamente entre pessoas mais velhas e regionalistas em suas músicas. Eu havia comentado isso com ele, porque me toquei que o sistema sempre joga fora aquilo que presta, e abraça aquilo que é perfeitamente descartável! Então, raciocinei... se tivéssemos que abraçar um emblema aqui em Porto Velho/ Rondônia/ Norte... qual seria? E me lembrei de ter eu mesmo passado várias vezes por esse suposto xingamento: seu bera! Isso era dito toda vez que alguém queria rebaixar o outro e chamá-lo de atrasado, matuto, tirado... Então o suposto xingamento deveria se tornar o nosso maior orgulho, porque a casa grande é burra

(pensando que é esperta) e tem valores invertidos e duvidosos... e aquilo que ela joga fora, deve valer alguma coisa... Uma idéia atraente! A junção de ritmos como o bumba-meuboi, o batuque africano, maracatu, cantigas de roda, coco de embolada e ainda o hip-hop resultou no grupo Quilomboclada, que tem como principal proposta resgatar e valorizar o caboclo amazônida e os ribeirinhos que habitam este rincão do Brasil (Diário da Amazônia, Porto Velho, 01 de maio de 2004). A banda que ninguém sabia classificar direito, uns chamavam de grupo de HIP-HOP, outros grupo de Rap, e que em seu som sintetizava um complexo mosaico de expressões musicais, falando a língua local, logo se tornou referência de música do Norte e fez apresentações em importantes festivais locais, como o Madeira Festival, o Rock Jipa - onde ganharam o primeiro lugar e passagens para um festival no sul, mas a falta de patrocínio não os deixou ir. A banda tocou ainda em Rio Branco (AC), Cuiabá (MT) e fez uma participação em uma coletânea de música do SESC (RO), o CD Correnteza. Em 2007, por conta de um desencontro de expectativas, Boca se retira da Quilomboclada. Mantendo-se, no entanto, fiel aos seus primeiros interesses,

Arrudeia
(Rafael Altomar, Carlos Serrão, Ákilas Moreira e Giovani Viecili)

Arrudeia, arrudeia, arrudeia, Que esta ideia não pára na aldeia Arrudeira, arrudeia, arrudeia Que é melhor respeitar os da beira Uma ideia de outro planeta Na cabeça do cometa Esperança de fé e alegria No planeta beradelia Chame toda a caboclada Pro centro da roda, na roda Espalha energia batendo palma E leva contigo a semente
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a sua busca. Com o fim da Quilomboclada, em 2008, participa do Projeto Família Somzala, que tinha em sua formação, além dele, Anízia, mestre Xoroquinho, MC Giovani e Flávio Nascimento. A banda encabeçava o que na verdade era um ambicioso projeto artístico e cultural, com a predominância da temática afroindígena. Sobre o escopo desta iniciativa temos o excerto retirado do blog Família Somzala: a Família Somzala abrange uma gama de segmentos artísticos, como artistas de rua, arte circense, poesia, grafite, dança de rua, artesanato, artes plásticas, artes visuais, artes cênicas, desenhos underground, e atitudes anarcopacifistas; tudo isso a ser demonstrado através de todas as formas de expressões artísticas. É um imenso caldeirão no meio da floresta, que aponta sua flecha na fusão, na diversidade de elementos variados para chegar a uma proposta maior. A Família Somzala tem como papel principal dar continuidade, a essa jornada da procura da edificação de uma proposta verdadeiramente beradera, ou seja, que possa representar o norte a onde quer que vá. Vários artistas da cidade participaram do contexto de artes integradas: Hely Chateaubrind, Andréa Melo, Téo Nascimento, Paola Maeda e Nega do Leite Artesanato. Em 2009, dificuldades operacionais acabaram tornando o projeto inviável. E seus participantes tomaram rumos diferentes. Nesse período, Boca se concentra na atividade literária e no desenvolvimento de quadrinhos. Em 2010, ainda concentrado nas atividades literárias e quadrinistas , é convidado por Rafael Altomar, a participar da banda Beradelia, cujo nome deriva de uma música da Família Somzala: “... manisfetação da mente,

Beradelia...”. A banda foi a junção dos participantes da Banda Bicho do Lodo, formada por: Rafael Altomar, Dênnis Russelakis, Raoni Ferreira e Alexandre Rotuno, Com a saída de Alexandre (atualmente na Banda NEC), entra Carlos Serrão assumindo a bateria da nova formação. Depois, entraram Cleyton Lira (percussão) e Giovanni Viecili (metais e instrumentos de sopro), contando ainda com mestre Xoroquinho em algumas participações especiais. Um dos primeiros shows da Beradelia aconteceu numa conferência de Tecnologias Sociais. No começo de 2011, gravaram no estúdio Line Rec, do Paulo, que co-produziu o disco, Planeta Beradelia. Depois a banda apresentou-se no Grito Rock 2011, que aconteceu no Pioneiros Pub, no festival Casarão, escadaria da Unir, Cantina do Porto, Batkaverna, Pimenta’s Rock, Festival Poraquê (Ji-paraná), Festival Até o Tucupi (Manaus), Festival Quebramar (Macapá), e no Congresso Fora do Eixo (São Paulo). Foi um período muito importante para mim porque trabalhei com pessoas muito talentosas e criativas e, pessoalmente, pude depurar, várias idéias, como uma continuação coerente do trabalho que eu vinha realizando durante esses anos. Entrei com a contribuição temática beradera. Depois que apreendeu a realidade daqui, Boca tem lutado continuamente e persistentemente como um dos representantes de uma mesma e enorme proposta, que vem evoluindo e tomando formas cada vez mais influentes não apenas na música, mas também nas outras artes, como literatura, teatro, e pintura. Sua revolta, sua vontade de agregar, de sintetizar, estão presentes em seus trabalhos passados, presentes e futuros, tudo isso, junto no mesmo caldeirão, fervendo o pirão bem temperado.

design: Rafael Altomar

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deira água do Ma onga no ebeu a PBÉRA...B-RO...acende a por ... B/M ro mar...MPessa flecha pro futu do coração do povo) m corre p que todo rioVOLTAR!!! Aponta rigin’álma (do sagra e dizer, que ningué JAH veio m VAI tida o JAUéra... (vindo) na raiz da ba lada digital. O boto escuro...ou io bem vindo da cabocentão... um prenúnce ele pode aparecer, acredita qu

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DEIA! respeita o é melhor o, sobe ladeira. ARRU Por iss ce bec ! Nossa campo, des ido da baladera. o...na PAZ r é contud moleque do ada pesada, a floresta. Que flo em JAH ma rem 100 dó...u quinem borboleta n sede é essa de qu , bo é ue lata Nosso carim e, leve e suave, racuJAH? Qe cabeça com Dub na eradelia! a canoa é livr tem cor e sabor de ma’Inágua, bat egria...B ar! C ...que uita fé e al esta? com m eradeliz ar? Vamos b om o bumbo dos loco/ sabe vo s bate c caboco..ma

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a da tude e prim a o CAO da ARTE Que respeit IA! (irmã NARQU oda... tia Ana? A ce minha que tá na m Conhe . cer ao .. deixa obedea Porresia) ia!Tu que num me e me lev Ah! Anarqu Subversiva, que sempr rro CABOCA r pu-RO) longe do e pra passe(a

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em é tu essa canoa a(CIENTE). O que v t tá de nota que n p igh nte, por mos em fre idéia. Se pá/ seJAH certo...a jamBÉRAn uma linda caboca Siga assa eé mos o pano, repe fazer tudo aquilo quvia - láctea, encontra arra nesse soul. Soul é o bem, d . Nessa viagem pela ga nesse som e se am ..Vai(a) casa-grande 100% ZEN ck’n Roll...que se plu alma... SOCIALMA! chamada Roul das praças, som de de casa, so a pra SOMZALA! O... palm ...PROSSIG e bate PRAZO ...FIM DO ! AVISO ! ÙLTIMO ! CHAMA O CLÃ mente sã... ULTIMATOmado do clã loco da a o cha O GERAL: Só caboco Ouç ÇÃ CONVOCA

ROS!! ... ERADE ADERA MOS B O BER SO OLUÇA ! REV LUÊRA REVO
nela e fora essa pa ! Joga Salve, Salve é.com.fusão água no feijão. rF periferia!! ORTE, temos que te ais visita, bota Nós OSDONeirão...tá chegando m abre o cald eu irmão... Revoluir, m )vocês Revolu(são s nós Revolusomo Revolusol Revoluchuva ...Revolua! RevoluSOULde Jesus... Na benção Don José! Salve Seu a Maria ssos a e, Salve no ! Salv njos da

!!! LUZ EVO R

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ENTREVISTA

B eradeiro O rganizado C om A titude
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1. QUANDO O ÁKILAS SE TORNOU O BOCA? R. Salve,Salve Beradage!!! Bem... eu soul de Boca do Acre (AM), e esse apelido vem comigo desde pequeno. Quando fui me envolver no Hip Hop, era prática o uso de codinomes, eu lembrei esse apelido, e resolvi assumilo, publicamente. Este apelido tem várias leituras, que só pode ser entendido por camadas. Mais tarde, eu fiz dele uma sigla – B.O.C.A., que em primeiro momento significa Beradero Organizado Com Atitude, mas evoluiu...

Eu acredito no poder do amor e na recusa do ódio.

2. EVOLUIU? R. Revoluiu... teve ganho em complexidade de significado. B.O.C.A. quer dizer Beradero Por Natureza, Organizado Pela Necessidade de Sobrevivência, Consciência Humana, Coletivo Caos, Criative Comons... & ARTETUDE Anarcopacifista.

5. O QUE TEM A VER O SEU AVÔ COM O GOSTO PELO RAP? R. O ponto focal é a rima. Tem muito a ver com o repente, que o meu avô, nordestino, gostava, que se baseia no improviso, e, por isso, é bem parecido com o Freestyle do Hip Hop, que é um estilo de rima livre em que o MC (mestre de cerimônia) improvisa uma letra em cima de uma batida, feita por equipamento ou pela boca, o beat box. Meu bera, o que quer dizer R.A.P.? Quer dizer Ritmo and Poetry, isso em inglês, aí é só mudar o “a” prum “e” fica o mesmo R.E.P., Ritmo e Poesia, aí é só complementar com “ente” e pronto: R.E.P. ente - repente. Esse é o significado de rap, que é um dos elementos do Hip Hop.

3. ARTETUDE ANARCOPACIFISTA? R. Cara, aí, é que tá. Meu pensamento não é o acadêmico, pois está mais próximo do pensamento punk: Faça você mesmo! Boto fé na parada autodidata! E tudo que num obedeceu a esse princípio na minha vida, me deu dor de cabeça! A ideia de Anarquia, para mim, que é por muitos, considerado como bagunça, é o caos, mas o caos não é uma bagunça, e vejo como algo mais próximo de seguir a naturalidade das coisas de acordo com sua realidade imediata e local. Já o anarcopacifismo é aquela questão JAH citada, da desobediência civil. Tipo, eu posso não ser contra você, te xingar, ou ser abertamente contrário, mas não tenho a obrigação de te obedecer. Essa foi uma ideia utilizada, por exemplo, pelo Gandhi, através da nãoviolência. Porque eu penso que o Estado, por contrato social, tem as pessoas no horário de trabalho, mas não as tem no seu momento de folga, nem a sua alma. Mas isso é uma teorização, porque na prática, isso se manifesta de muitas maneiras. SOUL a favor das coisas boas!!!

6. ENTÃO O RAP É SÓ UMA PARTE DO HIP HOP? R. O RAP é um dos elementos do Hip Hop... O Hip Hop é formado por quatro elementos o RAP, que fica por conta do MC, na rima, a dança, que é com o b-boy, ou a b-girl, a batida, com o DJ, e o grafite, com grafiteiro - que são as artes plásticas visuais. E o quinto elemento, que dá

4. COMO VOCÊ PRATICA ESSE PENSAMENTO? R. Pensar positivamente JAH é uma prática! E tento externar isso de maneira eficiente sempre que possível e agir da forma mais independente. E tudo começa com o desejo consciente de manter o máximo de liberdade possível em tudo o que se faz. Essa ação consciente pode ser chamada de ARTETUDE que é anarquista porque não concorda com o controle do sistema sobre a alma do indivíduo e pacifista por acreditar na não- violência.

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significado aos outros quatro elementos. Uns dizem que o quinto elemento é a consciência humana, outros dizem que é a consciência social. Particularmente, eu considero o quinto elemento a MENSAGEM, que, não por acaso, tem em uma das suas origens a cultura religiosa judaicocristã, cuja base pode ser resumida em uma frase: FAÇA AOS OUTROS O QUE GOSTARIA QUE OS OUTROS FIZESSEM COM VOCÊ (que seria o resumo da lei de Moisés e dos ensinamentos dos profetas, pregadas e vividas pela figura que considero o Rei dos Beraderos: JESUS.)

que passava a idéia de melhoria de condições de vida do oprimido, possa sintetizar os desejos e necessidades do povo Beradeiro. Isto é, precisado de amor e de consciência social. Creio que o que Jesus fez foi Arte. Uma Arte que consistia em depender o mínimo possível de César (outro nome para sistema vigente opressor). JESUS usava parábolas (que era considerada literatura menor pelos doutores da lei, ou seja, era a língua do povo), que significa “comparação” para transmitir uma ideia, já sabendo do alcance limitado da compreensão humana através de uma linguagem rígida, tradicional demais. A estrutura das parábolas é de alcance subjetivo e foge da opressão impiedosa da língua padrão, que, além do mais, “padrão”, significa língua do patrão, isto é a língua de César, o Sistema. Eu pago meu tributo à César porque pago impostos, mas ele não pode ter minha alma e eu procuro expressar isso através da Arte, que é diferente de cultura que é uma estrutura baseada em regras. Já a arte é à exceção da regra. Minha identificação maior com a figura de JESUS é justamente porque considero o rap uma parábola moderna.

7. O REI DOS BERADEROS? R. Esse é um pensamento bem particular que só costumo externar quando alguém pergunta. Seria assim: desconheço uma figura histórica mais polêmica e creio que a pessoa de JESUS foi uma das mais iluminadas, porque, mais do que morrer, ele viveu pelo semelhante, mesmo sendo pouco reconhecido pelos seus. E Rei dos Bera seria um prosseguimento dessa lógica: se beradero é sinônimo de tirado, excluído, marginalizado, então, faz sentido, para mim, que a figura representativa de JESUS,

8. QUEM É O POVO BERADERO? R. Em minha opinião o povo beradero está espalhado pelo mundo inteiro. Considero beradero qualquer um que reaja positivamente diante de uma opressão. Não obedece à regra literal de beradeiro, que seria aquele que mora às margens do rio. Tomo por beradero aquele que tem um pensamento que foge dos limites da regra social, logo, aquele que está à margem da sociedade. Faz parte da sociedade, mas não está preso a ela. Isso faz parte da minha própria concepção de artista. Que artista, para mim, é aquele que, muitas vezes é desfavorecido monetariamente e que busca lutar de maneira tranquila e persistente (isto é a minha definição de resistência) pelo valor da dignidade humana. Sempre rola uma pequena confusão na definição desses termos. Para mim, ribeirinho é um termo técnico que designa aquele que mora geograficamente na beira do rio, ou seja, a partir de certa metragem à margem do rio. E beradero é um termo subjetivo para designar aquele que não se adequa às regras tradicionais da sociedade. Por exemplo, a pessoa que mora no triângulo, ou no bairro da balsa, pode ser chamada de ribeirinho, mas vai dizer que quem mora lá no Ulisses Guimarães não é beradero.

desenho : Boca

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9. O QUE É ESSA ARTE COMO EXCEÇÃO DA REGRA? R. Eu considero a arte como um ato subversivo...que pode servir pra abrir a mente das pessoas. Uma vez alguém disse que a arte é tudo aquilo que foge da mera sobrevivência, porque todos querem se expressar. E expressão é diferente de repetição, logo a arte para mim é um ato criador e se é um ato criador é quebrador de regras, essa, para mim, é a dança entre o objetivo e o subjetivo. Por exemplo, eu tenho que me alimentar, mas a maneira como levo à colher a boca é que dá significado a um ato necessário.

de ter uma religião específica, uma linha de pensamento específica, nisso consiste a arte da beradage.

13. O QUE É A ARTE DA BERADAGE? R. A arte da beradage seria... Tá vendo essa pessoa do seu lado? A arte da beradage é descobrir que essa pessoa é seu irmão ou irmã, goste dela ou não, em outras palavras, amor.

10. E A MÚSICA? R. Eu costumo dizer que não faço música, gosto mais da palavra SOM, e que não gosto de show, gosto mais de FESTA. Eu não criei pedestal e a figura do superstar não combina muito comigo, porque arte para mim é uma arte de viver e fazer som é o reflexo disso. É um reflexo não condicionado disso.

14. ATÉ OS REPRESENTANTES DA ELITE? R. O que vale nesse mundo são as pessoas e não se deve confundir, por exemplo, a linha de pensamento e ação que elas vivem com o valor da vida humana. Coisas têm preço, pessoas têm valor e arte da beradage é justamente uma descoisificação. Uma volta às origens dos valores humanos. Tipo assim, o ser humano aprendeu o preço das coisas, mas será que aprendeu os valores?...

11. O QUE É MPBERA? R. Significa Música Popular Beradera. E é uma corruptela em cima da ideia já conhecida de MPB, Música Popular Brasileira, é a nossa versão (ou subversão) de um termo de fora. A MPBERA, engloba vários estilos musicais, o rap, o reggae, o rock, não é preso a nenhum estilo especificamente, surgiu como uma maneira de predesignar a junção de ritmos praticados no Norte que pegam o que vem de fora e dá uma caboclada no assunto. Nem tudo o que é bom vem de fora!!!

12. QUAL A RELAÇÃO DA POLÍTICA COM A MÚSICA OU COM FAZER SOM? R. Boa pergunta. Pensa comigo, qual o objetivo da política? Nesse caso, partidária, que é como a gente conhece a política hoje. O objetivo da política é representar o povo, só que eu não me sinto representado por nenhuma figura de autoridade. Por quê? Porque, infelizmente, os valores objetivos defendidos pela sociedade elitista e preconceituosa, como o LOBBY, a ganância, o poder do dinheiro, não me representam. Então pode ser que a acidez da subjetividade, o poder de penetração e a sutileza da arte possam conseguir aquilo que o sistema não pode me dar: a possibilidade de viver e não apenas de sobreviver. E é nesses valores tão tirados em que encontro a minha paz. E isso vai além

15. NOTEI QUE VOCÊ NÃO FAZ CITAÇÕES. R. Eu penso assim, não faço citações de autores, nem de livros, nem de letras de música, ou qualquer outro tipo de citação, porque se não for para você assumir o

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design: Sérgio P. Cruz

que tá dizendo, não diga. Eu não acredito na morte do autor, mas na morte dos direitos autorais. O mundo é CREATIVE COMMONS, hoje em dia, a internet é um exemplo disso. A Wikipédia. Agora entrou em questão o conhecimento em rede.

16. DA QUILOMBOCLADA ATÉ A BERADELIA O QUE MUDOU? R. O nome. Eu acho que foi uma evolução. Houve um despertamento para um mundo novo, quem sabe um pouco mais justo, em que, eu não seja um prisioneiro de uma gravadora, ou de museus, ou de exposições de arte.

os séculos, até onde eu sei, houve uma separação na escrita e do desenho, que se aprofundou na literatura, através da representação clássica, talvez um dia, elas voltem a se encontrar e se casar novamente. Percebo isso com a questão da internet em que muitos termos podem ser representador por uma imagem ou ícone, como no caso dos avatares, não considero a tecnologia que está aí prejudicial, mas um retorno às origens da inseparabilidade das expressões sensitivas do ser humano... Um retorno à ARTE ORIGINAL INTEGRAL.

17. E O SEU TRABALHO NA BERADELIA? R. A Beradelia surgiu em 2010 e foi uma junção do meu trabalho pessoal com a sonoridade de um grupo chamado Bicho do Lodo, do qual participava, Alexandre, Dênis, Raoni e Rafael Altomar, o bode. O termo Beradelia é uma modificação de PSICODELIA, que quer dizer manifestação da mente, logo, BERADELIA é algo como manifestação dos bera, da bêra. O símbolo da Beradelia é o muiraquitã, que significa pedra verde e tem a ver com a lenda das Amazonas. É basicamente, o que venho trabalhando desde antes da Quilomboclada, com a diferença de que na Beradelia faço participações temáticas.

19. E HOJE? R. Hoje, (mil novecentos e dois mil e doze pleno século vinte um e outros zeros)... dou meus parabéns a meus irmãos do COLETIVO CAOS (Casa Fora do Eixo Rondônia) que têm lutado por melhorias no Norte! Soul fã das BÉRA NIGHTS! No momento estou começando a montar meu projeto solo O PRIMEI-RO TAMBOR QUE A GENTE ESCUTA É O CORAÇÃO DA MÃE e sempre preparando novas camisetas BERA STYLE, também dou meus parabéns pra beradage da JAMBÉRA, ação que rola no Mercado Cultural (centro da cidade), com o envolvimento de inúmeros artistas daqui. Enfim, congratulações a todos que estão na batalha de melhorias físicas e mentais pra esse planeta chamado Terra... no mais... Fé em Deus e pau na máquina!!!

18. ALÉM DA MÚSICA, TEM OUTRAS ATIVIDADES ARTÍSTICAS, FALE UM POUCO SOBRE ELAS. R. Eu desenho e escrevo. Gosto de escrever sobre muitos tipos de assuntos e costumo escrever como quem acompanha o fluxo de pensamento, fazendo, automaticamente, uma leitura de mundo e pessoal. Para mim a escrita é uma forma de desenho que você traça com palavras. Minha atividade dita propriamente de artística foi desenhar e trato ambos com a mesma noção de estética, ou seja, a rigidez da técnica e sua fuga natural na expressão livre. Eu tenho um livro a ser publicado que é de ficção fantástica, inclusive, estou trabalhando as ilustrações desse livro, porque acredito na junção do desenho com a escrita. Isso ficou mais claro em mim, ao observar trabalhos mais antigos como William Blake que não escrevia nada sem fazer um desenho junto, e a própria escrita veio basicamente dos desenhos como é o caso por exemplo da letra M que um dia já serviu para designar o ícone de maré. Durante

20. GOSTARIA DE TRANSMITIR ALGUMA OUTRA MENSAGEM? R. Primeiro lugar: Um salve para todos os guerreiros e guerreiras que não utilizam sua mente como arma, mas como instrumento de renovação do mundo. Segundo: Foda-se o Governo. Foda-se a Prefeitura e que se danem todas, mas TODAS, sem exceção, Instituições que impeçam o desenvolvimento das pessoas. Somos perfeitamente capazes de REVOLUIR... Terceiro: Viva a

Revolução Beradera!!! A remada continua...
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CONTATO: tequilanis@hotmail.com

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ISSO É POESIA?
Texto: José Danilo Rangel Fotos: Isabel Almeida e Douglas Diógenes

POESIA PRA QUÊ? POR QUÊ? PRA QUEM? PERGUNTAR É PRECISO!

No dia 5 de fevereiro, domingo, diversos artistas se apresentaram na quarta edição do ISSO É POESIA?, acontecida no Mercado Cultural. O evento, organizado originalmente por mim e minha namorada, Vanessa Galvão, recebeu apoio e incentivo, e acabou se tornando um grande mosaico de artes. Teve dança, música, teatro e, claro, poesia. Muita poesia. Começou com uma pequena apresentação da questão “expressar, para quê?”, onde discorri um pouco sobre a necessidade que temos em transmitir nossas ideias, pensamentos, sentimentos e vivências aos outros e de como, cedo ou tarde, encontramos formas para isso, às vezes, chegando à arte. Foi
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Morgana Dartibale

Rinaldo Santos

Aldine Lima e Sâmia Azevedo

TriÂÂÂÂÂÂnnnngulo! TriÂÂÂÂÂÂnnngulo! Teu passado... Teu passado... Teu passado...
da poesia do Elizeu Braga

o ensejo para a participação de vários artistas. A começar por Rinaldo Santos, músico e poeta, cuja música, sintetizada num Tablet, percorreu e aclimatou todo o evento. Morgana Dartiballe, que já havia participado do primeiro número do ISSO É POESIA?, uma poetisa com um trabalho de tons ultra românticos e matizes eróticos, declamou o seu “Ao Pastor Bucólico”, uma poesia intensa, com delineios inesperados. Ela conseguiu deixar todo mundo no mínimo intrigado. E foi muito bem aplaudida. Aldine Lima e Sâmia Azevedo, bailarinas, apresentaram uma coreografia com características das danças tribais africanas, a mistura empolgou ao público. Depois, Aldine Lima retornou ao palco e fez uma apresentação Freestyle, aproveitando o som improvisado por Rinaldo Santos e seu Tablet. Elizeu Braga, poeta com elementos modernos e regionais, e seu estilo comprometido com o social, improvisou sobre a situação do bairro Triângulo. Sua apresentação, além disso, conteve muito de teatro, da expressão, das técnicas vocais.

Elizeu Braga EXPRESSõES! Março 2012 | 49

Gabrieli Amadio e Kali Tourinho

Veja bem o céu acordar o dia pra essa noite, E enfim, vou saber, Se você ainda pensa em mim
da música Beijin’, de Thiago Mazieiro

Gabrieli Amadio e Kali Tourinho, fizeram uma apresentação delicada e comovente mesclando a serenidade de uma poesia quase cantada por Gabrieli à suavidade de uma música quase declamada por Kali e também docemente vibrada em seu violão. Elas aproximaram tão perfeitamente poesia e música que ninguém soube separar uma da outra. Foi lindo. Renata Evans, artista local ligada ao movimento LGBT, fugindo ao estereótipo das dublagens e shows de dança, apresentou uma adaptação do Monólogo Das Mãos, de Lúcio Mauro, mas inspirada em Bibi Ferreira. E concluiu com o soneto de fidelidade, de Vinícius de Moraes.

Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba! Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia!
Renata Evans

trecho de O Monólogo das Mãos, Ghiaroni
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Rubens V az Cavalvante, Binho

Nunca ouvi falar de uma promoção assim: Traga uma poesia bem bonita E ganhe dez por cento de desconto!
Trecho de Pra que Poesia?

Rubens Vaz de Cavalcante, o Binho, poeta e músico com grande histórico de produções, com seus versos curtos e o aprimorado trabalho sonoro, recitou uma poesia sobre a “Hidra Elétrica”. Depois do mix artístico, foi aberto o sarau propriamente dito com a poesia Pra que Poesia? E então, poetas e suas produções distintas se encadearam. Elias Balthazar, conhecido já da nossa revista, poeta e palestrante, apresentou duas poesias. Todos os poetas são canibais! Alimentam-se da carneverboescrita De seus ancestrais Todos os poetas são canibais! Trecho de Fome, de Elias Balthazar Boca, improvisou em cima da estrutura de Caboco Loco, no seu modo de raper, falou da cidade, e dos problemas sociais, e aproveitou o momento para também perguntar ISSO É POESIA?

Elias Balthazar

Boca EXPRESSõES! Março 2012 | 51

Foto: Luana Lopes

Cátia Cernov

Alexandre Lopes

Vou-me embora dessas fronteiras calmas que alimentam minha permanência e cristalizam em uma todas as minhas almas
Trecho de Adeus Pasárgada, de Cátia Cernov

Cátia Cernov apresentou sua poesia ácida e libertária. E, Alexandre Lopes, do Café com Arte, não aguentou ficar quieto, aproveitou o momento e foi mandar o seu recado, soltou o cabelo e o verbo. Quando planejamos qualquer coisa, assumimos um duelo contra o grande senhor dos desarranjos, o Acaso. Mas desta vez, ele se contentou em causar um atraso, em pôr uma música fora de lugar. Assim, Cecília Rodriguez e Kaká Ferreira, que deviam encerrar a primeira parte do evento, com uma pequena mostra do Samba Funkeado, criado pelo coreógrafo Jimmy de Oliveira, acabaram se apresentando durante o sarau aberto, o que, na verdade, não foi nenhum pouco ruim. Pela participação do público, pelos repetidos e empolgados aplausos podemos dizer que o evento foi divertido, tanto para quem apresentou quanto para quem assistiu e, no fim, acredito que todos nós ficamos de bem com a expressão. Até o próximo.
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Kaká Ferreira e Cecília Rodriguez EXPRESSõES! Março 2012 | 52

Foto: Luana Lopes

Agradecimentos
Isabel Almeida e Douglas Diógenes - Estúdio 1/4 Fora do Eixo Letras Rondônia (FEL/RO) Fundação Iaripuna Café com Arte TV Rondônia Luana Lopes www.odonodafesta.net

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DO LEITOR ................................

RESERVADO

expressoespvh@hotmail.com
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AO LEITOR ................................
Fevereiro foi um mês cheio de coisas, saraus, lançamentos de livro, Carnaval. Mas o que foi mais interessante foi a organização do Movimento Banzeiro e a intervenção feita por artistas locais no bairro Triângulo, depois, o protesto feito em pleno carnaval, na Banda do Vai Quem Quer. A Arte sendo um além do prazer estético e do entretenimento, servindo a uma finalidade social, chamando a atenção aos fatos ocorridos como resultado do processo de implantação das hidrelétricas. Perfeito! Para quem quiser acompanhar a atividade do Movimento Banzeiro no Facebook, é só clicar no botão abaixo:

José Danilo Rangel

expressoespvh@hotmail.com

EXPRESSõES! - mais que dizer, transmitir.

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