ACOLHIMENTO A MULHER VÍTIMA DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA EM UMA DELEGACIA DE POLÍCIA – Pequeno resumo.

INTRODUÇÃO A violência doméstica contra a mulher se manifesta em várias esferas do convívio social, assumindo em seu desenrolar diferentes contornos de gênero. Para o enfrentamento deste tipo de violência é primordial a interação das áreas envolvidas: segurança pública, sociedade, educação, justiça e a saúde. Assim, este estudo, nasceu do intuito de conhecer mais profundamente uma das formas alternativas de justiça disponível à mulher vítima de violência doméstica através das ações da Delegacia da Mulher, para a partir dos resultados obtidos, identificar e organizar os possíveis campos de intervenção da Terapia Ocupacional e seus desdobramentos. A relevância deste se dá na perspectiva de que a naturalização e privatização da violência dificultam uma atitude de resistência e ruptura, por parte da mulher, com a situação vivenciada (Galvão, Andrade (2004) e Grossi (1996)), e pela conformidade com o Ministério da Saúde que realiza ações de Promoção da Saúde e Prevenção da violência. DELINEAMENTO DO ESTUDO A presente pesquisa é de caráter descritivo exploratória, com abordagem qualiquantitativa dos dados. Este artigo não trás a transcrição dos dados qualitativos embora esses estejam incorporados nos resultados finais. Objetivo: Conhecer a forma que se dá a prática do acolhimento desenvolvida na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) de Porto Alegre/RS, a partir da percepção dos policiais lotados no local, bem como os dilemas vivenciados na prática do acolhimento e identificar os campos onde o Terapia Ocupacional pode intervir tecnicamente. Local: Delegacia da Mulher, localizada na Av. João Pessoa, n°2050, em Porto Alegre/RS. Amostra: Composta por 52,65% dos servidores lotados na DEAM (10 policiais de um total de 19 policiais na ativa), que assinaram espontaneamente o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), no segundo semestre de 2009. Critérios de inclusão: O servidor público concursado que faz parte do quadro funcional da Delegacia de Mulher e que assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Critérios de exclusão: Servidores não concursados ou o policial que não assinar o TCLE. Instrumentais utilizados na coleta: a) entrevista semi-estruturada, onde foi utilizado o questionário de perguntas e a gravação de voz (MP4) como recurso; b) observação simples da dinâmica do local e c) coleta de dados documentais (arquivo local). Interpretação dos dados coletados: Os dados coletados foram triangulados e compilados em planilhas, sendo inseridos no aplicativo QQSoft® que utiliza a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), permitindo quantificar e qualificar os pensamentos e/ou opiniões coletivas. (JUNIOR, 2007).

Lista de entrevistados dados de identificação e grau de instrução.1. dois banheiros. Gênero: 90% foram mulheres e 10% homens A faixa etária: entre 30 e 54 anos O grau de instrução: Ensino fundamental completo – 20% Superior incompleto – 20% Superior completo – 30% Especialização completa – 20% Especialização andamento – 10% 1.1. buscando informar à vítima seus direitos e os serviços disponíveis. A primeira Categoria gerou subcategorias capazes de identificar os caminhos propostos pela delegacia. 1.3 Funcionamento diário da DEAM Quantitativamente o Setor de Plantão representa 40% dos relatos.1 A delegacia da mulher (DEAM) Esta subcategoria trata da organização espacial da delegacia: Área judiciária: Secretaria. saberes e as ferramentas pessoais que se vale para a execução de sua atividade profissional (Schraiber. 1995).1. hoje os dados coletados mostram um efetivo ativo de 19 policiais e mais 5 policiais em licença saúde e/ou processo de aposentadoria. o quadro funcional. PERCEPÇÕES DO POLICIAL SOBRE O ACOLHIMENTO NA DELEGACIA ESPECIAL DE ATENDIMENTO À MULHER. uma copa e um pátio interno para as viaturas. para realização do acolhimento da mulher vitima de violência.RESULTADOS PRIMEIRA CATEGORIA 1. 1. sala de estar. a localização espacial.1 Subcategorias 1. Vieira descreve que entre 2004 a 2006 o efetivo da DEAM era de 30 policiais. estando atenta ao cumprimento dos atos regimentares. relataram suas ações e técnicas da função. duas salas ocupadas pelo Setor de Investigação. o Gabinete da Delegada Adjunta. Esta também identifica que a Delegacia realiza ações preventivas e educativas em várias instâncias. mostra uma redução significativa no quadro do efetivo na DEAM. . três salas individuais para o registro da queixa crime.2 Quadro funcional atual e lista de entrevistados Quadro funcional atual: Este em comparação com o estudo de Vieira (2008). Setor de Plantão: recepção. os demais setores apresentam percentuais de 20% cada. bem como seus juízos de valores. Cartório e o NPD (Núcleo de Processamento de Dados). as reflexões dos policiais sobre o que é acolhimento e como qualificam os serviços prestados pela instituição e a identificação dos dilemas (dificuldades e facilidades) enfrentados pelos policiais na prática do acolhimento à MVVD. Nesse os diversos profissionais. Cela de Contensão e Gabinete da Delegada Titular.

O fato de apenas 20% das vítimas necessitarem de ajuda real e o restante ser apenas um “acerto de contas”.1 DIFICULDADES Em reflexão. é realizar uma escuta atenta e humanizada.1. 1. uma atitude de atenção e ação de aproximação.1. já 90% dos entrevistados identificaram claramente os aspectos que dificultam suas ações: . procurando criar um elo de confiança e de segurança da vítima com o policial. Essas demandas estão diretamente ligadas aos Dilemas do Policial. Essas demandas geram. foi identificada também a necessidade da busca de soluções para as demandas oriundas do processo de acolhimento.1. pois esta permite ao policial realizar a tradução da fala da vítima . no DSC os policiais relataram valer-se de outros saberes para dar conta do acolhimento e articular suas ações.1. • • • • • • • A vítima confunde o papel da polícia esperando uma solução imediata. 60% dos policiais consideram o acolhimento muito bom e 40% o consideram que além de bom. 1. mudar a dinâmica de sua vida. conforme o DSC a necessidade de profissionais capacitados em outras áreas de atuação. 1.5 Qualificação do Acolhimento da DEAM Neste. para auxílio nas ações policiais. o procedimento mais utilizado pelos policiais. E por último a tentativa na maioria das vezes frustrada de conscientizar a vítima a buscar ajuda para seguir os caminhos proposto para resolver suas questões sociais e segundo os relatos. O DSC identifica que a delegacia possui um cotidiano marcado e pouco flexível pelas demandas das vítimas. O policial ter de estar sempre atento a si para evitar dilemas pessoais e manter o autocontrole quando há crianças envolvidas e falta de estruturação familiar. 1. impedem a total eficácia do serviço.4 Conceito de Acolhimento Em suas falas os policiais da delegacia relataram que acolher é um “estar com a vítima e perto dela”. A inaptidão das redes de apoio e proteção a MVVD. sendo a escuta.2 DILEMAS Essa subcategoria é vinculada as demandas anteriores que influenciam os dilemas diários dos policiais. 10% dos policiais relataram não terem qualquer dilema. A reincidência da vítima. com possibilidades de ser ainda melhor. que por falta de uma rede de apoio mais ativa.6 Demandas oriundas do processo de acolhimento.2.

que em entrevista a rádio Guaíba. 2. em todas as suas formas. proporcionando um melhor atendimento. qualificando a queixa crime.2. não relatarem os fatos na integra com medo de represarias. 1. são eles: Ação da DEAM como rede de apoio a MVVD oferecendo um atendimento mais humano e acolhedor.2 FACILIDADES Esta questão também foi geradora de reflexão. deixou de ser mero assunto de polícia e justiça e se transformou em caso de saúde pública. e exige uma atualização continua da sua jurisprudência e políticas públicas de apoio. pois é geradora de maior opções de escolhas na hora de decidir quais medidas quer adotar.1 IDENTIFICAÇÃO DOS CAMPOS DE INTERVENÇÃO DA TERAPIA OCUPACIONAL NO CONTEXTO DA MULHER VÍTIMA DE VIOLÊCIA DOMÉSTICA. foram evidenciadas nas subcategorias as questões socioeconômicas e de saúde pública no que se refere à mulher vítima de violência doméstica e ao policial a necessidade de prevenção na saúde do trabalhador. 2. com altos custos sociais e econômicos para a sociedade. afirmou que a violência. Positivamente: Veio a auxiliar a delegacia pois promove um amparo maior a vítima e permite uma maior autonomia da vítima. Em relação ao policial: falta de materiais de escritório. poder e de gênero relatada na percepção das entrevistadas sobre a MVVD. falta de outros profissionais capacitados para o acolhimento e a falta de estrutura da rede de apoio. não saírem da rotina e sofrimento. Confiança maior da vítima proporcionando um relato mais detalhado. O DSC identificou que 100% dos entrevistados consideram que a Lei é um dos fatores de influência na execução de sua ação policial na DEAM.2 IDENTIFICAÇÃO DOS CAMPOS DE OCUPACIONAL NO CONTEXTO DO POLICIAL INTERVENÇÃO DA TERAPIA .3 A Lei Maria da Penha: Influência direta nas ações policiais na DEAM. Márcia Gomes. de policiais em exercício.2. A TERAPIA OCUPACIONAL NESTE CONTEXTO A Segunda categoria identificou onde o Terapeuta Ocupacional pode intervir tecnicamente. Questões socioeconômicas e sociais: Nos DSC´s ficou claro o desequilíbrio das questões sociais. A boa disponibilidade interna do policial para executar sua ação da DEAM. SEGUNDA CATEGORIA 2.Em relação à vítima: expectativa de ação imediata da polícia. Para Hagedorn (1999). Questões de saúde pública: O DSC esta em conformidade com a consultora técnica do Ministério da Saúde. 20% não relatam e/ou não identificam as facilidades e 80% dos policiais entrevistados identificaram estes aspectos. Negativamente gerou: A necessidade de uma filtragem mais atenta para verificar se a vítima não esta se valendo desta de maneira imprópria e com má fé. 1.

para compreender melhor esse fenômeno. posicionando-se como profissionais e cientistas da saúde. seja na esfera da segurança pública. sendo um problema social. pela relação que existe e se dá na interatividade humana. é necessário e requer um deslocamento das questões condicionantes. Trabalho completo enviar solicitação para o e-mail: terapeutamaia@brturbo. dando atenção às questões da ocupação humana e ao fazer deste policial em seu cotidiano de trabalho. em parceria com Governo Federal. penso ser importante. Esse é fundamental para a realização e qualificação da prática do acolhimento. a Delegacia conhecer a proposta de Lourdes Bandeira e Tânia Mara Almeida (2006) que trata da metodologia de um Programa de Formação Continuada em Violência de Gênero para policias da DEAMs. nas delegacias especiais.br ou maiafm@bol. na esfera da saúde ou na esfera judicial. como exemplo.Estes DSC´s. Estadual e Municipal propondo projetos e pesquisas sobre esses desafios que são universais. Penso também que o Terapeuta Ocupacional como profissional da saúde esta capacitado para promover junto com as vítimas.br. que ultrapassa a perspectiva de gênero.com. cultural. político e uma violação dos direitos humanos. pois se observa que ambas as expressões são usadas como sinônimos. Auxiliar a dizimar a aceitação da violência contra a mulher como fato corriqueiro. mais ir além do corrigir e/ou punir os excessos e os abusos cometidos pelos “chefes de família”. OPCIONAIS: SIGNIFICADO DO ESTUDO: O estudo concomitante da violência com a saúde. Faz alusão ao fato de que policial e as vítimas estão a mercê de sofrimento e enraizados em suas questões sociais e subjetivas. é inerente lidar com os direitos e deveres. retratam a necessidade do olhar também estar voltado ao policial lotado na DEAM e não apenas a MVVD. com a liberdade e a ética. com a saúde e a doença simultaneamente. outros modos delas conceber a família. Evidenciou também. revendo valores. em conjunção com outros setores sociais. CONCLUSÃO Neste não foi possível separar o conceito do verbo acolher da concepção de prática de acolhimento.com. com a segurança pública e com a justiça. Creio ser importante ações de cuidado e prevenção focadas na saúde do trabalhador. a necessidade de capacitação periódica do pessoal envolvido nos serviços e processos referentes à violência contra a mulher. ou seja. crenças e atitudes sociais. Acredito que os Terapeutas Ocupacionais devam chamar para si à responsabilidade de também se preocuparem e intervirem no combate à violência. de atribuição da lei e dos poderes públicos. RECOMENDAÇÕES: Considerando que o estudo revela a necessidade de capacitação periódica do policial. .

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