trê s n o ve las

L Ã T ISO E O OT I

A MORTE DE IVÃ ILITCH SONATA A KREUTZER A FELICIDADE CONJUGAL

Tradução do russo Ê prefácio de

Boris Schnaiderman

Ilustrações de HERBERT HORN

Peça este livro pelo número 1204

EDIÇÕES DE OURO

P r e f á c io
Já se afirmou mais de uma vez que a obra tolstoiana é em grande parte autobiográfica, e que os seus personagens são frequentemente projeção da personalidade do autor. Tal asserção parece, à primeira vista, arbitrária, mas, examinando-se mais detidamente o problema, pode-se comprovar-lhe a justeza. Com exceção das obras puramente autobiográficas e de argumentação pessoal, essa projeção ãa personalidade do autor não se faz com um caráter direto e imediato, a transposição e elaboração estética imprimem a esses personagens uma grande variedade, mas eles são sempre os representantes de determinadas concepções que preocupavam Tolstói, chegando muitas vezes a verdadeira obsessão. Neste sentido, o vasto mundo tolstoiano constitui, numa escala maior que no caso de outros escritores, um reflexo aos seus profundos dramas morais, e a complexidade daí resultante é o produto de uma elaboração artística,, a partir de um núcleo de ideias bastante singelo. Isto evidencia-se particularmente nas suas novelas. No conto curto, muitas vezes, a necessidade de expor didàticamen-te uma ideia, em forma de relato, liem como a apresentação alegórica, diminuem o impacto da preocupação moral. No romance, uma fabulação mais complexa, a apresentação de vastos panoramas, o emaranhado da trama, a riqueza de elementos acessórios admiravelmente elaborados, chegam também a afastar o autor da exposição dramática de um caso de consciência. Por conseguinte, é nas novelas que essa característica da obra tolstoiana, o remoer contínuo de casos de consciência, apresenta-se em sua forma pura e candente, e encontra a sua máxima realização estética. Três novelas de Tolstói foram, reunidas no presente volume. Poderia-mos ter escolhido outras, sem deixar de apresentar a mesma característica. Neste sentido, são numerosas as combinações possíveis. A primeira, «A Felicidade Conjugal», foi escrita em 1859, as outras em 1884-86 e 1887-89, respectivamente. E, no caso, a cronologia marca o desenvolvimento de uma crise. A primeira novela é bem anterior ao Aprofundo drama de consciência sofrido por Tolstói, após o qual formularia, o seu sistema ético-filosófico-religioso. Ela precedeu até o período da. sua intensíssima preocupação com os problemas pedagógicos. É muitas vezes considerada típica de uma visão idílica da vida, de uma exaltação da assistência simples, da felicidade familiar. Mas. será plenamente idílica esta visão? Os problemas que aí aparecem, os dramas interiores esboçados, embora ainda longe das profundas tragédias çne Tolstói expressaria mais tarde, illfii-iiltam. um pouco a sua definição como obra apenas bucólica. E verdade que o próprio autor referiu-se a esta novela, pouco após a sua impressão, como «uma baixeza vergonhosa-», mas ela pode ser alinhada ao lado de outras obras suas do mesmo período. Algumas revelam maior preocupação com determinados problemas sociais e filosóficos. No entanto, o acento peculiar de «A Felicidade Conjugal», e que lhe imprime um caráter especifico, é o contraste entre uma apresentação poética da vida, no campo russo, da existência cotidiana de uma família da nobreza rural, e o que havia de dramático na situação social. O fato de que esta situação apareça apenas esboçada não diminui o alcance literário da novela. Outras apresentaram o problema de modo mais drástico e numa exposição mais didática. E esta novela talvez seja uma das partes da obra tolstoiana que mais se aproximam daquilo que o próprio autor definiria em suas patéticas confissões como um ideal de simplesmente viver bem com a respectiva família, e que ele se censuraria atrozmente. Mas, não estará nessa definição um dos exemplos extremados da. típica auto-flagelação tolstoiana? Mesmo nas suas obras em que a preocupação moral e moralizante é menos aparente, ela subsiste, constituindo muitas vezes o próprio núcleo inicial. Quanto à t A Morte de Ivã Ilitch», como seu caráter de meditação profunda sobre a morte, com o seu contraste entre a hipocrisia do meio em que vivia o personagem e a sua tragédia, com a impecável realização literária, é uma dessas obras que convidam à veneração. Após a sua leitura, compreende-se melhor o crítico russo V. V. Stassov, que afirmava perder toda vontade de escrever, depois de ter lido pela centésima-quinqua-gésima vez certas páginas de Tolstói. Com a «Sonata a Kreutzer», chega-se a um dos pontos culminantes da tragédia interior do autor. Não importa que seja difícil, virtualmente impossível, aceitar a argumentação anticientifica do personagem central, expressão de um purita-nismo feroz em matéria de sexo. A veemência do drama humano que ali se narra dá um acento convincente a concepções que, em sã consciência, é impossível subscrever hoje em dia, embora certas passagens revelam uma sagacidade extraordinária na abordagem do tema, a característica lucidez tolstoiana. O próprio escritor arrepender-se-ia, depois de publicada a novela, de algumas das suas formulações. Segundo narra o seu filho Sierguiéi Tolstói, no livro póstumo «Crónicas do Passado» (ôtchercki Bilovo, Editora Estatal de Belas Letras, Moscou, 1955), após a publicação da novela, o autor mudou de opinião sobre a sensualidade que apontara na sonata de Beethoven, e disse então que a música não podia expressar determinado : -. itimento, mas sentimentos em geral, e que a melodia por ele citada expressava um sentimento intenso e nítido, mas impossível de definir. Que importa, porém, tudo isto? Diante da realização estupenda da novela, da veemência do drama interior nela expresso, o núcleo inicial pode ter estes ou aqueles defeitos, mas eles não invalidam em nada a obra. Criado o clima interior, ela passa a ter a sua verdade específica, a verdade suprema da criação artística. E a ficção de Tolstói constitui um testemunho magnífico da realidade e vwéncia da obra literária, quaisquer que sejam as restrições ao seu conteúdo. As ideias expressas pelo autor estão superadas, não convencem? Não importa. Os tipos que ele criou, as situações de conflito, os dramas profundos estão aí, mais convincentes do que quaisquer transposições diretas e fiéis da realidade objetiva.
o o o

Tolstói elaborou um estilo em contínua evolução, indo da opulência ao despojamento, e da simplicidade autêntica ao aproveitamento das riquezas do linguajar do povo. Enfim, um estilo estudado e marcado pela experimentação, reflexo de um temperamento tipicamente requintado e que na própria simplicidade conseguia encontrar uma forma de requinte.

O tumultuar do seu mundo interior, na primeira fase de criação artística, encontrou expressão numa forma rica de matizes, maleável, própria para expressar tanto os estados íntimos como o deslumbramento com a natureza. Este fato patenteia-se particularmente na primeira das novelas incluídas neste volume. Alguns críticos já apontaram a semelhança entre ela e algumas obras de Turguiêniev. A comparação tem realmente fundamento, pois Turguiêniev levaria ao máximo as possibilidades de expressão da língua russa, na arte de reproduzir a vida no campo, a natureza de seu país. Mas, em algumas novelas e romances, Tolstói alcança o mesmo efeito, embora também chegue bem mais longe no trato do humano, Depois de atravessar a sua grande crise, ele passaria a advogar a necessidade de um estilo simples, direto, expressão de uma arte essencialmente didática. O escritor, na sua Opi nião, devia aprender com o povo a sua simplicidade e sabedoria, o que seria 'bem mais importante que muitas obras de Púshkin, de Shakespeare, etc. Os contos populares tolstoianos constituem a melhor demonstração prática das suas formulações teóricas. Escritos com um propósito moralizante declarado, eles narram, geralmente em forma de parábola ou de apólogo oriental, uma história singela, com uma economia extrema dos meios expressivos. A sua simplicidade e nitidez tornaram-nos até material quase obrigatório nos livros de leitura do curso primário na Rússia e nos manuais de língua russa para estrangeiros. No entanto, é preciso observar: a par desse ãespojamento, há certo requinte no uso que Tolstói faz de alguns vocábulos .« construções sintáticas populares. Eles constituem exemplo flàí grante da transformação do que é banal e cotidianõ na lin* guagem coloquial em algo elaborado e altamente artístico, quando empregado por um grande escritor. Com todo o seu didatismo, Tolstói, ao escrever, tem plena consciência dos va-lor\es quer musicais, quer de sugestão, de cada vocábulo, de cada locução, e assim o seu estilo, que, segundo D. S. Mirsky (A History of Russian Literatura From Its Beginnings to 1900, Vintage Bõoks, 1958), «é o melhor exemplo (depois da prosa epistolar de Griboiedov e de Púshkin) do russo falado pela nobreza», a par de um ãespojamento, de uma simplificação, ganha um novo requinte, baseado no linguajar do povo. Ao contar as suas historietas, o velho voluptuoso não podia deixar de dar vazão a uma sensualidade vocabular e sintática, -mesmo através da aparente indigência dos meios de expressão. JS, depois de passar por esta prova, todo o seu estilo literário ganhou ainda maior concisão e harmonia, que se revelam plenamente nas obras menos «populares» que então escreveu, como «A Morte de Ivã Ilitch», «Sonata a Kreutzer» e outras. A primeira, certamente um dos pontos máximos atingidos pela novelística mundial, constitui campo muito fecundo para a especulação literária. Um dos seus aspectos mais originais, em relação ao conjunto, consista sem- dúvida no seguinte: a obra de Tolstói está completamente impregnada péla sua tendência didática, pela, sua crítica das condições da sociedade vigente, em nome de um ideal ético e filosófico; colocando diante do leitor o problema da morte, o autor ainda acena, no final desta novela, com uma sugestão mística; mas, ao descrever a vacuidade da existência cotidiana das camadas abastadas ou quase abastadas da sociedade, ele usa de ironia, afastando-se bastante ao pregdor e doutrinário, para se acercar muito mais de uma exposição mordaz, quase cética. E, nestas passagens, circunstância que nos parece muito curiosa, ele aproxima-se dos grandes ironistas da literatura, inclusive Machado de Assis. Isolemos, por exemplo, o seguinte trecho: <Dizer que Ivã Ilitch casou-se porque se apaixonara pela noiva e encontrara nela compreensão para as suas concepções sobre a existência seria tão injusto como afirmar que se casuu porque as pessoas das suas relações aprovaram aquele partido. Ivã Ilitch casou-se de de acordo com os stus próprios cálculos: conseguindo tal esposa, fazia o que era dói seu próprio agrado, e, ao mesmo tempo, executava aquilo que as pessoas mais altamente colocadas consideravam correio». Semelhantes torneios de frase, tais construções um tanto complexcs, destinadas a expressar o contraste entre a vacuidade da existência exterior, aparente, e os grandes dramas interiores, com a sua realidade severa e implacável, são bem comuns no nosso Machado de Assis, o que se comprovai facilmente. Aí vai, como exemplo, um trecho do conto «Uma Senhora»: «No tumulto desta marcha contínua entre o nascimento e a morte, ela apegava-se à ilusão da estabilidade. Só se lhe podia exigir que não fosse ridícula, e não o era. Dir-me-á o leitor que a beleza vive de si mesma, e que a preocupação do calendário mostra que esta senhora vivia principalmente com os olhos na opinião. Ê verdade; mas como quer que vivam, as mulheres do nosso tempo? > Esta aproximação no tom geral e até, em certa medida, na construção literária não anula, é verdade, a distância que medeia entre o iluminado, o pregador, e o observador malicioso das fraquezas humanas. Esta distância aparece de modo flagrante sobretudo na parte final da novela, quando o moribundo Ivã Ilitch encontra conforto na ajuda que lhe presta o criado Guerássim te, por fim, avista a luz, esta luz sem a qual Tolstói não poderia abordar o tema da morte. No entanto, não deixa de ser interessante esta coincidência nos processos literários. Terreno igualmente fecundo é o que se pisa na «.Sonata a Kreutzeru*. Desenvolvendo-se como um monólogo do personagem central, ela apresenta um contraste nítido entre o estado de exasperação, de alucinação do personayem, e a forma lúcida, estritamente lógica, segundo a qual foi construída a novela. Isto, aliás, está de todo coerente com a observação de Tolstói, contida no texto, sobre a plena lucidez com. que o seu personagem praticou o crime, a grande lucidez dos que se afastam do que se considera normal e cotidianõ. Compare-se, por exemplo, esta nitidez estilística e de estrutura da novela com o estilo quase arrevesado, a /ala por vezes desconexa, deste outro grande alucinado da literatura, o «para-doxalista» que Dostoiévski apresentou nas «Memórias do Subsolo». Enfim, há um mundo de sugestões nessas três novelas de Tolstói. Mas, num preâmbulo, pode-se apenas aflorar o tema. O mais cabe ao leitor.

BORIS SCHNAIDERMAN AF L ID D C N G L E IC A E O JU A .

N. Quando Kátia procurava convencer-me a ocupar-me disso ou daquilo. sempre alegre. a sós com Kátia e Sônia . Kátia começou a temer pela minha saúde e resolveu levar-me a todo custo para o estrangeiro.Bem. não . dirigi-me às pressas para a sala de visitas e quis fingir que de modo algum o esperava. A perda de mamãe foi para mim um grande desgosto.e passamos quase todo o inverno sem ir a nenhuma parte. Sierguiéi Mikháilitch era nosso vizinho próximo e amigo de meu falecido pai. Fazia um tempo frio. eu me acostumara desde criança a amá-lo e respeitá-lo. Todos tinham rostos tristes. Passamos um inverno sombrio e triste em nossa velha casa de Pokróvskoie. não posso. ao aconselhar-me a vir a mim. antes de me deitar. olhando-me e sobretudo à pequena Kátia. que morrera no * ^ outono. O quarto de nossa mãe estava trancado. e que eu amava e de quem me lembrava desde os meus primeiros anos. mas. mas. e em meu íntimo algo dizia: para quê? Para que fazer alguma coisa. apenas dobrou a esquina. minha mãe quisera mudar-se para a cidade. e os montes de neve aglomeravam-se mais alto que as janelas. descarnado. embora essas palavras de minha mãe ficassem gravadas em minha imaginação. ouvindo na ante-sala um bater de pés. cresceu a tal ponto que eu não deixava mais o quarto. Mas. Isto me parecera então surpreendente e até desagradável. de todos os conhecidos. a sua pessoa tinha para mim uma importância especial. com seu vesti-dinho preto. quando eu passava por ele. ao qual Kátia acrescentara doces. o meu herói era de todo diferente: magro. sem uma ocupação. (2) (3) Corruptela de Mikháilovitch. Parecia-se sentir ainda a morte naquela casa. . a tristeza e o horror da morte pairavam no ar. precisava-se de dinheiro. e mesmo os que vinham não acrescentavam alegria a nossa casa. E Sierguiéi Mikháilitch era um homem já entrado em anos. Tinha então dezessete anos. Sierguiéi Mikháilitch chegou antes do jantar. como me parecia. ainda seis anos atrás. do T. o que vai pensar de você? Ele gostava tanto de vocês todos. Kátia era velha amiga da casa. não riam. no próprio ano de sua morte. estas geralmente ficavam geladas e foscas. graças a Deus! -. e que já estava passando inutilmente o segundo inverno. como que temendo Acordar alguém. de vento. minha Máchetchka (3) . mas isto nem me despertava a atenção. Eu vi pela janela como ele se aproximou de nossa casa num trenó pequeno. a começar por Kátia e Sônia. a fim de me introduzir na sociedade. isolada na roça. Mas. Diminutivo de Maria. suspiravam e choravam amiúde. sem um desejo Sierguiéi Mikháilitch (2) chegou. Além de que a vinda dele alterava os nossos planos e dava a possibilidade de deixar a roça. brincava comigo e chamava-me de menina-violeta. como todos me diziam. Raramente alguém nos visitava. para isto. Por volta do fim do inverno. mandou saber de nossa saúde e quis vir jantar conosco. Além de eu gostar dele por hábito. a sua voz sonora e os passos de Kátia. quando o meu tempo melhor se perde assim em vão? Para quê? E não havia outra resposta a este para quê a não ser as lágrimas. suas afilhadas. até o último dos cocheiros. da qual eu mesma não tinha força nem vontade de sair. bonita. e todos os dias esperávamos o tutor. Para quê? Para quem? Tinha a impressão de que toda a minha vida devia passar nesta solidão. neste canto perdido. eu sentia medo. . a exemplo de todos em casa. creme e molho de espinafre. devido a certas palavras ditas por minha mãe na minha presença. Diziam-me que eu emagrecera e ficara mais feia nesse tempo. corpulento e. O tutor chegou em março. governanta que nos criara a todos. não era sem temor que eu às vezes perguntava a mim mesma o que faria se ele de repente quisesse casar comigo. nesta angústia impotente. e. todos falavam baixo. era diante de Sierguiéi Mikháilitch que eu mais sofreria por me apresentar sob um aspecto desfavorável. como uma sombra. quando eu tinha onze anos e ele tratava-me por tu. que devia chegar e verificar a nossa situação financeira. Kátia adivinhara que. Sônia era a minha irmã menor. e.A FELICIDADE CONJUGAL PRIMEIRA PARTE I ESTÁVAMOS de luto por nossa mãe. este sentimento de angústia.acrescentou senão. e algo impelia-me a espiar pnra aquele quarto frio e vazio. Venha a si. eu respondia: não quero. solidão e simplesmente de fastio. pálido e tristonho. Antes de acabar o inverno. N. alto. do T. mas devo confessar que esse desgosto fazia-me sentir também que eu era jovem. sem um pensamento. e eu passei todo o inverno no campo.disse-me Kátia de uma feita em que eu andava de um canto a outro. e nós quase não sabíamos o que nos ficara após a morte de nossa mãe. não abria o piano e não pegava um livro sequer. embora muito mais moço que este. Ela dissera que gostaria de um marido assim para mim.

envelhecera. inclusive para os criados. disse quieto e pensativo. Comportava-se de maneira completamente diversa dos vizinhos. e fiquei grata por esta. o sorriso carinhoso. Cinco minutos depois. de traços graúdos. Segurando a mão de Kátia. Ah! Será possível que é você? disse ele com a sua maneira decidida e singela. mostre-me os seus brinquedos acrescentou depois de algum tempo e foi para o salão. Quando ele saiu. acima dos . no mesmo instante. Kátia sentou-se para servir o chá. que nos visitaram após a morte de minha mãe e que julgavam necessário calar-se e chorar. olhou para ele. quando se pensa! 18 disse ele parando. que.É um amigo tão bom! disse ela. ele falava alto e sorria. Mudara muito. ² Penso que se lembra do seu pai ? ² Pouco respondi. À noitinha. Mas depois eu compreendi que não era indiferença. abrindo os braços e apro ximando-se de mim. como que infantil. o que não lhe ia nada bem. os olhos repletos de lágrimas. e. e cheguei a inclinar-me para ele. ² Sim replicou Kátia com um suspiro e. honesto. olhando-me a cabeça. pôs o guardanapo sobre a chaleira. há mudanças tremendas nesta casa repetiu ele. Quantas mudanças tremendas nesta casa. olhei para Kátia. tornando-se uma pessoa de casa para todos nós. mas sinceridade. .eu sentamo-nos perto dela. e eu tive a impressão de que E Deus tomou-a para si! disse Kátia e. Com a sua grande mão segurou a minha e apertou-a com força. Fazia seis anos que eu não o via. ele se pôs a caminhar pela sala. pelo contrário. interrompeu-se e passou algum tempo olhando para mim. sem me cumprimentar. Fiquei encabulada e senti que enrubescia. e não se referia sequer a minha mãe. deixara de ser visita. . E realmente senti algo bom e tépido em consequência do interesse manifestado por esse homem estranho e bondoso. os olhos inteligentes e brilhantes. tinha o mesmo rosto franco. fitou-me bem nos olhos. honestamente. alegravam-se particularmente com a sua vinda. pronta a romper em pranto. apanhou um lenço e pôs-se a chorar. Vendo-me. Sônia e . mas as suas maneiras singelas eram sempre as mesmas. de modo que a princípio esta indiferença me pareceu estranha e até inconveniente da parte de uma pessoa tão chegada. a julgar pela presteza em servi-lo. virando o rosto. Eu pensei que fosse beijar-me a mão.E como estaria agora bem com ele! meus olhos. . escurecera e cobrira-se com umas suíças. na sala de visitas. o velho Grigóri trouxe para ele um cachimbo que pertencera a meu pai e que se conseguiu encontrar. Sônia. com olhar firme e alegre.me contive e fui ao seu encontro. enquanto permaneciam em nossa casa. acrescentou ainda mais baixo. como outrora. como fazia enquanto mamãe era viva. cobrindo o samovar com a tampa pequena. quase provocando dor. dirigiu-se ele a mim. alegre.Eu gostava muito do seu pai! os seus olhos brilharam. Como é possível mudar assim?! Como cresceu! Isto é que é violeta! Tornou-se na realidade uma roseira. Sim. ele estava falador. mas apertou-a mais uma vez e. no seu lugar de sempre.

e. falasse comigo a sós. já será tarde. para não se lamentar mais tarde. Sentia certa leveza. com seriedade. disse. O adágio estava no tom daquele sentimento de recordação despertado pela conversa à mesa de chá. em você existe algo e o seu olhar bondoso. Mandei-lhe chá. acercando-se de mim deixe isto. os livros. Agradava-me o fato de que ele se dirigisse a mim com tamanha simplicidade e de maneira amistosa e autoritária. da sala. através do seu relato. recusar e dizer circunlóquios. contra a minha vontade. e vai passar. sentei-me submissa ao teclado e comecei a tocar como sabia. no sentido de que eu tocava mal. com o adágio da sonata quasi una fantasia. mas um homem sério. a vida inteira pela frente. capaz de amor. não deve aborrecer-se disse ele tem a música que você compreende. depois de um curto silêncio Não é à toa que se parece com o seu pai. Tendo deitado Sônia. mas o primeiro não estava ruim. é tudo para exibir. levantei-me e aproximei-me dele. mas que já passara e até não existira nunca. era agradável. embora temesse o julgamento. você toca isto mal disse. na sua companhia. Kátia foi para cima. de como se conheceram e de como viveram alegres no tempo em que eu ainda ficava sentada com os meus livros e brinquedos. e ouviu-se ainda como ele se sentou ao piano e pôs-se a bater nas teclas com as mãozinhas de Sônia. atento. e por quem eu sentia involuntariamente respeito e simpatia. como eu não o conhecera até então. abrindo um caderno de música. disse ele. este olhar que era o único a possuir: a princípio claro. . toque alguma coisa. o que lia. Ele me falou de meu pai. deixou-se abater e nada lhe agrada. . a fim de deitar Sônia para dormir." Este elogio discreto alegrou-me tanto que até corei. Maria Alieksándrovna! ressoou a voz dele. para a qual agora é que pode preparar-se. Toque isto de Beethoven. Agora. um sentimento forçado. amigo e igual de meu pai. ao falar com ele. nada para si mesma.Ouviram-se da sala de visitas o pipilar de Sônia e o rebuliço que ele fazia brincando com a menina. e deu-me conselhos. e apenas ficou sozinha. o que pretendia fazer. Kátia juntou-se a nós e queixou-se a ele da minha apatia.É uma mocinha má. como fizera antes. sorrindo e acenando para mim a cabeça. Daqui a um ano. e parece-me que toquei razoavelmente. o estudo. Contar o quê ?! disse eu Isto é muito cacete. depois cada vez mais concentrado e um tanto tristonho. Era muito novo e agradável para mim o fato de que ele. e nós dois ficamos na sala. apenas para não ficar calada. Você não pode. sabendo que ele compreendia e amava a música. Mas ele não me deixou executar o scherzo. Parece-me que compreende a música. . tinha muita vontade de merecer eu mesma o seu amor.Ela deixou de me contar o principal numa censura. meu pai me aparecia pela primeira vez como uma pessoa simples e simpática. Bonita opinião tem a meu respeito . tornou a lisonjear-me e perturbou-me agradavelmente.Não! disse eu. Somente então notei. por trás do seu rosto alegre à primeira vista. Vejamos como toca acrescentou e afastou-se com o seu copo para um canto Não sei por quê. Venha cá. sobre a qual eu não dissera nada. que já conseguira unicamente pelo fato de ser filha de meu pai.) . e ao mesmo tempo eu tinha. singelo. Eu temia cada uma das minhas palavras. "Não.É ruim não saber suportar a solidão Você não é já uma mocinha? Claro que sim respondi rindo. que vive só enquanto a admiram. disse ele. e não como se fala com uma criança. ele era já para mim não alguém brincalhão e alegre. senti ser impossível para mim. retrucou ele. que me provocava e fazia gracejos. Interrogou-me também sobre os meus gostos. (Tinha realmente a impressão de que não só a minha angústia haveria de passar.

passava água fervente nas xícaras com as suas mãos rechonchudas. queridas amigas tomando-me a mão. e agradável. No terraço. que era preciso viver a fim de ser feliz.s lembro." Todavia. Era como se de repente a nossa velha e sombria casa de Pokróvskoie se tivesse enchido de vida e luz. cheguei a ir de noite para o campo e dar Mò/. eu passava noites a Cio. continuando a segurar-me a mão irei a Danílovka (a outra aldeia que possuíamos). e. e um jacto de água fria. vestindo a pelica. ainda pela janela. espesso. Kátia e eu passamos muito tempo sem poder adormecer. saía l»ira o jardim e corria sobre o chão orvalhado até o açude. saía frequâentemente para o jardim e passava muito. levantando-se. com a música. Ah! Sierguiéi Mikháilitch! exclamou E nós que acabamos de falar a seu respeito! Levantei-me e quis ir trocar-me. o samovar bem areado brilhava e fervia sobre a toalha branca. chegou a primavera. Quando nos veremos de novo? disse ele por fim. não desanime disse ele.. A folhagem na alameda de bétulas era do todo transparente ao pôr do sol. ² na primavera. além do jardim. ocupe-se mais. Às vezes. essa noite. enegrecia a terra revolvida junto aos caules das dálias e suas estacas. eu comia pão com creme fresco. desta vez por causa dos meus negócios. porque ele me considerava inferior a si. de. falando não dele. No quintal. broinhas. . Embora eu não vivesse como no início do inverno e me ocupasse com Sônia. Kátia. . para ficar no meu nível. havia creme de leite. Aquela noite. II No entretanto. mas de como haveríamos de passar aquele verão e como viveríamos no inverno. vou fazer-lhe um exame acrescentou. A terrível pergunta: para quê? não se apresentava mais a mim. Em fins de maio. saindo em círculos do regador. quando absolutamente não o esperávamos. conforme prometera. preparando-nos para tomar chá. e aparecia-me muita felicidade no futuro. mas não passa disso. Tão estranhos eram eles. e nos canteiros cobertos de vegetação os rouxinóis instalaram-se para passar todo o mês de junho.. passou o resto do tempo tratando de negócios com Kátia. As moitas densas dos lilases apareciam como que polvilhadas de branco e roxo. é difícil lembrar e compreender os sonhos que me enchiam então a imaginação. Atualmente. O jardim já estava todo verde. A minha angústia primeira passou.inha a volta a todo o jardim. mas ele me encontrou à porta. "Ele esforça-se em vão! pensei. o ar de dona de casa. muito tempo a vaguear sozinha pela alameda ou ficava sentada sobre um banco. por que tanto tempo? disse eu com profunda tristeza: realmente já esperava vê-lo todos 03 dias.. e de repente tive tanta pena e medo de que voltasse a minha angústia. de quando em quando. e vamos encontrar-nos novamente no verão. ouviam-se os derradeiros sons do dia. darei um pulo a Moscou. um barril pelo caminho diante do terraço.sobre a erva. isto se refletiu em meu olhar e no tom da voz. sentada até o amanhecer à janela do meu quarto.sobretudo se fazia luar. Eram as flores que se preparavam para desabrochar. Havia uma sombra fresca no terraço.Bem. O denso orvalho noturno cairia ainda . biscoitos. com u leitura. Provavelmente. com muita simplicidade e nitidez. sendo substituída pela angústia dos devaneios primaveris. a angústia dos desejos e esperanças incompreensíveis.uma feita. ² Sim. vou pôr em ordem o que puder. soberba apenas com um casaquinho. porque somente por minha causa ele considerava necessário esforçar-se em ser outro. às escon-didfiH de Kátia. adeus. pensativa. soltando-me a mão e sem me olhar. Era ofensivo. e tornou a percorrer-me com o olhar. Faminta depois do banho. o barulho do rebanho tangido de volta. Parecia-me. Mesmo quando o. Acreditará realmente ser tão agradável para mim que ele me olhe? É uma pessoa de bem. verificarei lá as coisas. sem esperar que me servissem chá. não consigo acreditar que tenham sido justamente estes os meus sonhos.Falou comigo como um pai ou um tio. tão afastados da vida. Kátia foi a primeira a vê-lo. e eu senti que ele continuamente se controlava. Na ante-sala onde paramos acompanhando-o. A primeira vez chegou à noitinha. ele se apressou. o pateta Nícon passava com. e tinha os cabelos molhados amarrados com um lenço. acercando-se de mim e perguntou Kátia Na primavera respondeu ele. Estávamos sentadas no terraço. desejando e ríípcrando Deus sabe o quê. num tom que me pareceu demasiado frio e singelo. de mangas abertas. Sierguiéi Mikháilitch regressou da nua viagem. muito bom mesmo. . Vestia uma blusa de linho. ² Mas.

Ele estava sentado à mesa e relatava a Kátia as nossas condições financeiras. Maria Alieksándrovna. E eu mesmo ainda mais. só devíamos passar o verão na roça e. E minha minha mãe? E os negócios? disse. Só tenho vontade de ficar sentado. E nós dois vamos alegrar-nos por eles. Segundo dizia. e já se considera liquidado disse Kátia. interrompendo a conversa. Daria um marido excelente. é preciso outra coisa. estou muito contente por que isto me saiu assim. um rouxinol cantou numa moita de lilases nas proximidades. Bem. . ficamos no terraço. Depois de me lançar um olhar. e desde então me sinto tão bem.. graças a Deus que ele veio. não escondendo que me apressara.me com a cabeça. igualmente depressa e sem ruído. me casasse com uma menina de dezessete anos. isto ficará mais alegre!" E. gritou na minha direção Parece uma moçoila do Mas o que há de ruim nisto aqui?! . olhando a minha cabeça amarrada com Você não se envergonha de Grigóri. em consequência de algum acaso infeliz. imagine prosseguiu. Ri e não consegui compreender por que ele estava tão contente e o que estava saindo assim. indicando*. corri alegre escada abaixo e.. Kátia e eu também não dissemos nada. ² E como me liquidei! continuou ele. trocando-me às pressas no segundo andar. Percebi que escurecera somente porque um morcego penetrou de súbito. Seria bom se viajasse conosco para o estrangeiro como que perdidas numa floresta. . e a conversa era tão interesante para mim que nem percebi como se aquietaram em volta de nós os ruídos humanos. mas o bicho mergulhou. Porque gosto de ficar sentado riu ele.depois. c o m o diante de um sacerdote. para casar.. fique assim sentado disse Kátia. não é disto que se trata. nós dois não vamos mais casar. por exemplo a Mach (6). de Pokróvskoíe disse ele. recolhidos apetrechos de chá. ou para o estrangeiro. O anoitecer era tão agradável que. como se tivesse direito a isto. palavra. Calou-se algum tempo. que cerimónias são estas na roça? lenço e sorrindo disse. Será possível que tornou a fraquejar? Quando lhe contei que na sua ausência eu estudara E não me aborrecera. Eis um belo exemplo. por causa dos estudos de Sônia. rir mo elogiou e acarinhou-me com o olhar. . "Ele me dirigiu um olhar tão estranho pensei. entrei ofegante no terraço. Encolhi-me junto à parede e já queria gritar. n ão. conte-me como passou o tempo. um rocio abundante molhou a erva. por baixo do toldo e sumiu no lusco-fusco do jardim. E. tudo o que podia deixá-lo descontente. Bem.. Agora. Parecia-me indispensável comunicar-lhe minuciosamente e com particular franquezaa tudo o que eu fazia de bom. Katierina (5) Kárlovna. Mas justamente nesse momento tive a impressão de que ele me olhava de maneira completamente diversa do que o faria Grigóri. Elo . fique-se sentado disse ele a vida não espera. meio Façamos a volta ao mundo. eu sou Grigóri . Como eu gosto daqui. virando-se na cadeira se eu de repente. e confessar-lhe. o céu estrelado parecia terdescido sobre nós.Voltarei daqui a um instante campo. Pergunte a ela acrescentou. Bem. como a uma criança. viajar para Petersbur-go. sem ruído. passar a vida inteira sentado assim no terraço..Ah! Que bom seria viajar com vocês em volta do inundo! sério. e senti constrangimento. mas calou-se apenas ouviu as nossas vozes. De todos os lados. Tive a impressão de que dizia isto de certa maneira cativante e pouco natural. para você. é o melhor dos exemplos. meio brincalhão. realmente. Há muito tempo que todos deixaram de me encarar como alguém passível de se casar. E então? disse eu disse ele. Seria capaz de ² Pois sim. No tom da sua voz. havia uma tristeza oculta e algo forçado. ² Isto é que serve! Trinta e seis anos. o que foi confirmado por Kátia. afastando-me dele. sorriu e continuou falando. os nossos negócios estavam excelentes. as flores desprenderam odor mais forte. que não me escapou. Não. ² Por que não se casa? disse Kátia. e. disse Kátia pois sozinhas estaremos disse.. sob a lona do terraço o ngitou-se perto do meu lenço branco.Ora. Temos que casar essa gente.sorriu c meneou a cabeça. .Ora. depois de me olhar no espelho.

uma terceira. já vivido. a fim de mandar pôr a mesa para a ceia. Tornamos a calar-nos e fiquei novamente constrangida. ele vinha visitar-nos duas ou três vezes por semana. Acompanhei-o com Kátia até a saída. e tudo tornou a aquietar-se. em meio à névoa orvalhada. e por muito tempo aind? vi e ouvi.Tornou a interromper-me. um outro lhe respondeu. Na penumbra. N. está vendo. difundindo-se. e lamentei isto. ignoto para nós. interrompendo-se. interrogava-me. aquilo que eu queria ver e ouvir. dava-me conselhos. eu começava a sentir o peso de minha vida solitária.. Quando não se ouvia mais o passo do seu cavalo. Sim. e isto mais que tudo sustinha em mim o respeito por ele e me atraía. isto seria para ruim a maior infelicidade acrescentou ele. e gorjeou ainda mais abruptamente. com quem disse eu. acostumei-me a ele tanto que. (5) (6) Corruptela de lecatierina (Catarina). Olhei para ele. provocava-me à maior franqueza. e. quase não a vi replicou-me com frieza. ² Mas não seria bom concluiu ele. e de longe. Eu sabia por meio de Kátia e dos vizinhos que. em seu mundo noturno. algo cheiroso chegou até ali. ele não considerava necessário introduzir-me. eu lhe fjco agradecido pela franqueza e muito contente porque tivemos esta conversa. enquanto você tem Deus sabe que ideias fervilhando na mente. o que falar. O jardineiro pas. Mas. e bem que isto seria uma infelicidade? ² Uma infelicidade não. os seus olhos brilhantes voltaram-se para mim. indeciso. e o constrangimento. Alguém assobiou fortemente duas vezes.Bem. e em volta tudo estava quieto também. não é com um marido assim que sonha quando. O mais próximo calou-se. . E essas vozes ressoavam tranquilas. E ainda é pouco. Eu me constrangia de ficar calada depois do que fora dito.. do fundo da ravina. concordando com ele que era velho. disse. enchendo o jardim de sons. dei a volta à casa. num gracejo não seria para você uma infelicidade unir a sua vida a um homem velho. passeia sozinha pela alameda. porém. tranquilo. ² O quê? É tão bom viver no mundo! repeti. balançando-se no ar. No decorrer do verão. do T. proveniente da estranha conversa ocorrida entre nós. mas não sabia. foi a minha impressão. ² É tão bom viver no mundo! disse ele. Calamo-nos ambos depois que Kátia saiu. Macha é um diminutivo de Maria. em que pairavam os sons noturnos. Uma folha tremeu quase imperceptivelmente. a mão no coração disse ele. Suspirei por alguma razão. até a vista hoje. ÍIK vezes censurava-me e detinha-me. N. se tardava. além dos cuidados com a velha mãe. que só quer ficar sentado.. vendo como ele se afastava pela estrada. diga-me a verdade. zangava-me com ele e achava que se portava mal. fui para o terraço e fiquei olhando novamente o jardim. estimulava. não mudou em nada disse Kátia e saiu do terraço. Tratava-me como um jovem amigo de quem se gosta. espalhando o seu canto sonoro. soberanas. à noitinha.. ² Eu não lhe estou propondo casamento disse ele rindo mas. E eu queria tocar para você uma nova sonata Outro dia Até a vista. Deus sabe que vontades? Fiquei constrangida. indo dormir na estufa. Vinha-me sem cessar à mente que eu o ofendera. ressoaram sobre o caminho os seus passos que se afastavam. sem se apressar. desapareceu de todo e não voltou mais. e ficamos ambas paradas. em que. dirigindo-se a mim. ficavá todo um mundo ignorado. com mais esforço. ao pé do morro. a primeira vez naquela noite. e ela tem toda a razão. diga-me a verdade. abandonando-me. agitou-se o pano do terraço. marcados por botas Krossas. ² Como você é estranho. Bem. do T. mas eu posso me enga. Ele veio mais uma vez.HOU . mas não sabia como fazê-lo. apesar de todos os seus esforços para tratar-me como sua igual. Fortaleceu-se em mini a impressão de que o ofendera. sem saber o que responder. como que prestando atenção por um instante. eu sentia que por trás daquilo que eu compreendia nele. levantando-se minha mãe espera-me para a ceia. ² Bem. comecei. e queria consolá-lo. isto é. Somente o rouxinol trinou não mais como o faz à noitinha. calei-me. mas à maneira noturna.

tornaramse de repente novos e belos para mim. mas até os dezessete anos eu vivera em meio a essa gente. na sua presença. comiseração. com que intuição extraordinária eu percebia então tudo o que era bom e que se devia amar. Sônia. ou porque preferia Mozart a Schulhof.vivia. Grande parte dos meus hábitos e gostos anteriores não lhe agradavam. Queria acreditar ']ii o em mim não havia coquetismo. e passei a amá-la ainda mais. tocava quarenta vezes o mesmo trecho. ele apenas queria aconselhar-me algo. tinha em alto preço este amor. ele tinha uns casos seus. estava contente comigo. transformara-se aos meus olhos. contrariando os seus hábitos. que eu conhecia e amava como a mim mesma. Penso que se. que ofendiam a boa Kátia e a princípio. o coquetismo da simplicidade. Se me formulava uma pergunta. pelo contrário. e como que desdém pela minha aparência. sim. e eu não me aborrecia absolutamente. e. quer eu estivesse com os cabelos para cima ou para baixo: conheciame toda e. ele fazia uma careta. apareceu. aos gestos habituais. Os vestidos da moda e os penteados. Sentia o quanto era melhor e mais digno para mim exibir-lhe as melhores partes do meu espírito que os do corpo. os criados. fitandome nos olhos. aos meus cabelos. o que tem a ver com isto?" e mudava de assunto. As mesmas velhas sonatas agora fraseavam-se de maneira totalmente diversa. os nossos campos. crescia e desenvolvia-se: era nisto que eu podia enganá-lo e o enganava. ao rosto. Compreendi toda a abnegação e devotamento dessa criatura repassada de amor. E que leveza eu senti na sua companhia. ele me dissesse de repente. ele me via. É uma moça simpática. relacionados com a sua condição de fidalgo. ficava ofendida.. porque os lemos juntos e porque ele trazia-os para mim. à qual procurava infundir um tom brincalhão: ² Sim. Eu sabia que ele me amava ‡² como uma criança ou como mulher. O nosso jardim. eram pensamentos e sentimentos dele. Mas. eu não compreendia isto. sentada ou em pé. que me enchiam o coração de alegria e orgulho? Porque eu dizia simpatizar com o amor do velho Grigóri por sua neta. após alguma palavra minha. com um movimento das sobrancelhas ou com um olhar. embora eu então decididamente não soubesse o que era bom e o que se devia amar. E por que eu recebia então tamanhas recompensas. escrava. nunca pensara que. passei a achar agradável a sua completa indiferença. depois que percebi isto com nitidez! Desapareceram em mim de todo os constrangimentos sem motivo. quais eram as suas convicções. E. Às vezes. por um olhar ou por uma palavra. e acompanhar os sucessos de Sônia tornou-se para mim uma alegria. com os quais Kátia gostava de me enfeitar nos dias solenes. Tendo decidido em seu íntimo que eu agradava a ele. alguém me chamava de bonitinha. pensei. mas depois. Pareciame antes impossível aprender toda uma peça de música. mas depois me acostumei a tal ponto com isto que nós sempre conversávamos unicamente de assuntos referentes a mim. não podia deixar de desejar que esta mentira permanecesse nele. cosido a linha branca. ele assistiu. e que provocavam às vezes situações bem desagradáveis. quase desdenhosa. nos penteados. e conhecia-os tão bem que eu nada poderia acrescentar ao meu físico. e. lastimável. sentindo que ele me considerava como a melhor das moças no mundo. Todos os meus pensamentos. às mãos. e eu tinha já a impressão de não gostar mais da--quilo de que eu gostava antes. Parecia-me então estranho. e depois me olhar fixamente. A princípio não me agradou. porque eu me comovia até as lágrimas com a poesia ou o romance que acabava de ler. tornaram-se de súbito para mim um dos maiores prazeres da existência. a uma aula. eu mesma tornava-me melhor. Eu sentia que. que lhe era peculiar. os estudos com Sônia. na mesma época. além da sua propriedade e da tutela sobre nós. que eu conhecia desde tanto tempo. tal como eu. fazia careta e ria se. porém. É ridículo dizê-lo. Os livros. a voz perturbada. Mas ele não conhecia o meu espírito. por favor. os nossos bosques. de modo que a pobre Kátia enfiava algodão nos ouvidos. em compensação. Somente agora eu compreendi que ela não era de nenhum modo obrigada a ser mãe. que claridade. projetos. além de um desejo de enganar. eram para mim uma obrigação penosa. como fora até então conosco. todos os meus sentimentos de então não eram meus. Kátia não conseguia de modo algum compreender como se podia deixar de apreciar que uma mulher do nosso gosto nos aparecesse sob a aparência mais favorável. ser eu bonita. deixavam-me desnorteada. as aulas que eu lhe dava. os nossos criados. saíam bem diferentes e muito me lhores. eu não me alegraria um pouco sequer. Não era em vão que ele dizia existir na vida apenas uma felicidade indiscutível: viver para outrem. despertavam somente as suas zombarias. que de repente se tornaram meus. passaram para a minha vida e iluminaram-na. Mas eu logo compreendi o que ele necessitava. E era surpreendente. e. que eu tinha um rosto lindo. amiga. como os demais. Mal eu orientava a conversa para os seus negócios. mas eu nunca pude saber por meio dele como encarava tudo isto. eu ainda não me interrogava. eu mesma. pelo contrário. em compensação. o seu olhar puxava para fora de mim o pensamento que ele queria. apareciam-me na alma quando. mas 'agora. que eu me esforçava em cumprir unicamente por consciência do dever. numa época em que eu ain da não podia ser simples. compreendi tudo o que lhe devia. A princípio. Mesmo Kátia. esperanças. E. porquanto o amava e porque este. você tem algo. as minhas ocupações. realmente não sobrou em mim nern sombra « I n coquetismo nos trajes. devo dizer-lhe. bastava que apresentasse a sua expressão peculiar. desagradar-lhe aquilo que eu pretendia dizer. Ele atribuirá imediatamente o devido valor. as empregadas domésticas de maneira totalmente nova. parecia-me. Também ele ensinou-me a olhar os nossos camponeses. que eu lera até então unicamente para combater o tédio. bons ou maus. passei a encarar com outros olhos tudo: Kátia. enganando-o. estando de frente ou de lado. como que dizendo: "Chega. involuntariamente. sabendo que ele a ouviria e que talvez me elogiasse. mas . De maneira de todo imperceptível para mim. a meu ver. os movimentos freados. e eu já considerava isto natural. mais estranha a ela que em relação às pessoas que eu jamais conhecera. eles tinham amores. depois que eu compreendi isto. Nunca me sugeria. e tudo isto unicamente porque eu conversara com ele sobre livros. e eu já parecia saber o que ele diria. Mas. ele me dizia. Gostava até de encontrar em mim defeitos de físico e espicaçava-me com eles. e bastava que ele mostrasse. quaisquer que fossem. nos movimentos. como eu era. desejos. Antes. que prazer. eu o enganava.

Era um dia sem vento. mas ficava no ar. o que. incessantemente. abaixavam-se e agitavam os braços. depois do jantar. indo até o chão. embaixo. o campo ceifado aparecia cada vez mais aberto. ora se arrastavam devagar altas e ran-gentes carroças. ora telegas vazias vinham ao seu encontro. mas bastava que ele chegasse. que pairavam sobre mim. levantava-me para uma oração. e somente num canto da paisagem ressoavam uns ribombos. pensamentos e rezas eram seres vivos. eu me virava e murmurava. Era mais de uma. Era evidente que. E eu tinha vontade de nunca sair desse quartinho. como o fora desde a minha infância. ali voavam no ar e. Eu estava perturbada. enxotava-me do seu leito e adormecia. com fiaxas de losna crescidas nos intervalos. Ele desvendou para mim toda uma existência de alegrias no presente. parecia-me tão indispensável e justo que todos fossem felizes. aos meus olhos. sentava-me na cama de Kátia e dizialhe ser inteiramente feliz. moviam-se também as telegas. as nuvens tinham começado a desfazer-se pelos bordos. segundo lembro agora. e se dissipasse essa atmosfera interior. Não conseguia adormecer. O quarto pequeno estava quieto. Sobre a estrada que se via a trechos além do jardim. e às vezes. e o campo emaranhado ficava mais' limpo. além da cerca. além de si mesmo. abanando Kátia. para o jardim. e que se confundia com a poeira dos campos. e vinham igualmente de longe sons de telegas. a tempestade não se formaria. sobre a ravina. outras vezes rezava com as minhas próprias palavras. sobre o campo ceifado. e apossava-se de mim. E cada pensamento era um pensamento dele. por ocasião do transporte do trigo. Sônia estava construindo um caramanchão de bonecas. em meio a esta poeira e este calor abrasador. fui com Kátia e Sônia. na direção do campo de centeio. entre a folhagem transparente das árvores do jardim. e eu ainda passava muito tempo examinando aquilo que me fazia tão feliz. pela qual ele devia chegar. Tinha a impressão de que os meus sonhos. sobre o campo empoeirado. A porta estava fechada. deitava-me no leito. uma de cada vez. Mas acontecia também estar Kátia cuidando de dormir. o relógio tiquetaqueava ao seu lado. e beijavame. perfuravam de raro em raro a densa nuvem parada sobre o horizonte. Arranquei um galho torto e achatado de tília. e tudo passava a falar. e enchiam-na de felicidade. o mesmo ranger de rodas. e os mesmos feixes amarelos. à sombra das tílias. que me molhou a mão. Mais à di reita. depressa. À minha volta. Na frente. Mas. de que ele gostava muito. como sempre antes de uma tempestade. e dirigimo-nos para o nosso banco predileto. a fim de agradecer a Deus toda a felicidade que me concedera. as nuvens uniam-se e negrejavam. Nesse verão. quando o vimos passar a cavalo. viam-se as roupas coloridas de mulheres que faziam tricô. pelo menos onde estávamos. deitou-se num banco e cochilou. em toda parte com exce-ção do nosso lugarzinho predileto no jardim. que esvoaçavam junto ao meu leito. eu subia frequentemente ao meu quarto. Às vezes. III De uma feita. ela até se fingia zangada. era de todo desnecessário dizer-lhe: ela mesma podia vê-lo. e viam-se os mesmos feixes amarelos. fazendo barulho. A poeira densa não se afastava nem pousava. onde havia um emaranhado deselegante. Então a inda não sabia que era amor. a partir de meio-dia. vozes e canções. Kátia mandou trazer pêssegos e cerejas. o sol deslizara para o céu limpo. com bonitos feixes distribuídos sobre ele a pequenos intervalos. tanto mais que o nosso administrador dissera que ele prometera ir ao nosso campo. Mais longe. cada sentimento também. sobre a eira. Havia poeira e calor. alguma mosca ou mosquito balançavam-se e zuniam no mesmo lugar. cresciam casas ovais. e os vultos dos mujiques afanavam-se sobre eles. todas as coisas pediam entrada em minh'alma. sem alterar nada em minha vida. fazia barulho e movia-se vindo de todos os lados. mais do que a ideia. que me rodeava. somente Kátia respirava sonolenta e regularmente. havia persianas nas janelas. que este sentimento nos era dado gratuitamente. carregadas de feixes. em lugar da anterior angústia primaveril dos desejos e esperanças no futuro. tudo era quieto. já me penetrava o coração. O povo trabalhador conversava. a cada impressão. afastando a todo momento os olhos e dirigindo-os para a estrada do campo. que viviam comigo ali na treva. e o esperávamos aquele dia. De uma banda. não queria que chegasse a manhã. Fazia uns três dias que Sierguiéi Mikháilitch não nos visitava. ou persignava-me e beijava a cruz que me pendia do pescoço. ouviam-se as vozes. de folhas suculentas e casca também suculenta. levantava-me. Depois de me olhar sorrindo. uma tempestade armara va-se desde manha. um sobressalto de felicidade no presente. que era também muito feliz. destacavam-se os seus telhados pontudos.essa convicção. Mas ela dizia-me não precisar de nada. sem acrescentar nada. pensava que isto podia ser apenas assim. Eu acreditava nela. e. que se moviam lentamente junto ao nosso muro. e ziguezagues pálidos de raio. pernas tremiam e camisas apareciam desfraldadas ao vento. O verão como que se transformou aos meus olhos em outono. . além da qual se viam campos e florestas. abrasador. continuei a ler. junto à raiz de uma velha tília.

as nossos roupas eram tão frescas e limpas. três novos. a água brilhava na caneca. do lado pelo qual eu não o esperava (fizera um rodeio pela ravina). Boa tarde. telegas passaram a toda velocidade. mulheres com ancinhos nos ombros e com laços no cinto passaram a caminho de casa. tão irisada e tão clara. acompanhadas de altos gritos. respondendo a uma pergunta minha tenho hoje treze anos. De repente. aproximando-se e apertando-me a mão. estou admiravelmente bem disse. os passos rápidos. a poeira deitava-se no campo. as cerejas pretejavam tão brilhantes e suculentas no prato. mordeu o lábio. percebi no mesmo instan te que ele estava naquela sua disposição peculiar de alegria sem motivo. ' Com um entusiasmo selvagem? disse eu. todo o seu ser. Tendo tirado o chapéu. bater no nariz de Katierina-Kárlovna ? Mas. embora eu o tivesse visto havia muito descer o declive.Sim respondeu ele piscando o olho e contendo um sorriso.. e os mu-jiques desceram deles. e eu me sentia tão bem! "O que fazer? -.E Kátia ia ressonando tão docemente sob um lenci-nho branco de cambraia. o rosto alegre. caminhava na minha direção. . Parecia um escolar fazendo gazeta. deitada sobre o nosso banco sombreado. do semblante aos pés. para que precisa . entoando alto uma canção. os longes apareciam mais nítidos e claros com a iluminação lateral. porém. felicidade e uma vivacidade infantil. de que eu gostava tremendamente. Vendo Kátia adormecida. espiando os seus olhos risonhos e sentindo que aquele eníw-siasmo selvagem comunicava-se a mim. como vai.telhados de medas. o seu vulto apareceu na alameda. provavelmente pela última vez. respirava satisfação. e que nós chamávamos de entusiasmo selvagem. e Sierguiéi Mikháilitch não vinha ainda. Quanto a mim. com toda esta felicidade?.. e quero brincar de cavalinho e trepar nas árvores. fechou os olhos e caminhou nas pontas dos pés.pensei Que culpa eu tenho de ser feliz? Mas como partilhar a felicidade com outrem? Como e a quem entregar-me toda.. viam-se por entre as árvores. na eira. cintilante.. as nuvens já se dispersavam completamente." O sol já se pusera além dos topos da alameda de bé-tulas. jovem violeta? Bem? disse num murmúrio.

e eu já miltava para o chão do depósito. Mas desta vez ouvi distintamente essas duas palavras. mas na realidade por outro motivo: simplesmente. . ainda baixo. onde ele era mais baixo. eu estava olhando do jardim os trabalhos do campo. que tal as cerejas? O depósito estava fechado e não se encontrava por :ili nenhum dos jardineiros (ele os enviava todos para os trabalhos no campo). eu simplesmente não queria perdê-lo de vista nem um instante. como que para não acordar Kátia. e senti um aroma de violeta. depois de voltar a si. Dei risada. antes que voltasse. calor. como olhava tudo. . Bem. eu mesma quero apanhar. Devolveuas e dirigiu-se a mim com gravidade. "Macha querida!" repetiu ele mais baixo e com mais carinho ainda.pensei com despeito. Tendo tirado o chapéu. . com as suas velhas árvores tortas e com as largas folhas dentadas. Dê-me o prato. Sônia corria atrás de nós. eu mesma quero apanhar as» frutas disse eu e. Que Deus a livre de exibir-se com isto.Admiravelmente! Este povo é magnífico em toda parte. que ninguém o estava vendo. os olhos fechados. Provavelmente. Vendo o prato das cerejas. era uma pessoa igual a mim. como se eu já estivesse falando tão baixo que não se conseguisse ouvir nada. enfiando a cabeça sob a rede. tornou-se sombrio. arremedando-me. sorriu. Ela zangou-se a princípio. antes de você chegar. escurinha.Não. ergueu a rede que havia ali e pulou para o outro ludo. Sorri também.. permanecia sentado sobre as ruínas de uma velha árvore e diligentemente rolava numa bolinha um pouco de resina de cerejeira. Moveu os lábios. de repente sério. Sônia correu para buscar a chave. ele trepou sobre um canto da parede. . e fomos os três em direção de um depósito. depois de toda essa poeira. e ele. pensava que eu fora embora. trepando sobre uma tina vazia. novamente num tom paternal. de experimentar sobre ele a minha força . vi Sierguiéi Mikháilitch por baixo do galho tortuoso de uma velha cerejeira. Todo. inclinei-me para dentro do depósito. então não é uma violeta? disse-me. mas. que me acarinhara e me orientara. os frutos negros. corri sobre urtigas e rodeei o depósito pelo lado oposto. de repente. .. tendo arrancado o lenço de Kátia. puxando-o pelo sobretudo. . ao mesmo tempo. pulei para cima do muro. pesados e retos. . abriu os olhos. sumarentas. olhou em volta assustado. . Rindo. e ele dirigiu-se a mim com frieza.Não. agarrando-me ao galho mais próximo. envolveu-me de repente que eu me agarrei com ambos os braços à parede a fim de não cair e não me trair. . mas fitando-me com carinho nos olhos é uma causa sagrada. minha amiga .Diga-me: tudo vai bem na propriedade? perguntei. agarrou-o como que às escondidas. Ele percebeu o movimento.o seu rosto brilhou de alegria.Olhando para ele e continuando a agitar o ramo. Ele apanhou o prato. que me causaram as suas palavras. E no mesmo instante veio-me um desejo invencível de perturbá-lo mais uma vez. para esconder a confusão de júbilo. desapareceram-lhe o sorriso e o brilho dos olhos. . depois de combinar uma competição para se ver quem comeria as cerejas mais depressa. que cheira a neve derretida e a erva de primavera. Aquela palavra e aquele sorriso eram tão inusitados nele que eu me envergonhei de o estar espionando. para que devolvesse as bonecas. Quanto melhor a gente o conhece. Ele não era mais um velho tio.Sim disse eu hoje. E dê um jeito no cabelo. como que proibida. caminhou na direção da tília sob a qual estava Sônia e sentou-se sobre as suas bonecas. como se movia supondo que ninguém o visse. roçava-lhe o rosto com as folhas. O coração bateu-me com tamanha força e uma alegria tão perturbadora. Mas desça daí. eu nem notara que. sentou nele as bonecas. Mas. "Por que ele finge? Por que procura magoar-me?" . vou mandar trazer mais disse eu ou então vamos nós buscar. "Não pode ser" pensei.. Se quiser. quis ver o que ele estava fazendo ali.Sim. e.E ela vai dizer que não dormiu murmurei. De repente. mas não conseguia. embora não houvesse já a quem acordar mal me aproximei de você.Mas é apenas a você que o digo. Nessa ocasião. baixou de chofre os olhos e corou como uma criança. Pondo-me nas pontas dos pés.. E não foi a violeta perfumosa. deu de ombros. e o seu rosto abrasava-se cada vez mais. eu sei. veja o que parece. trabalhos. . me aconselhasse a fazer o mesmo. vou buscar a chave disse eu Sônia não a encontrará. Todavia. de modo que a parede me ficou abaixo do peito. mais gosta dele. como se tivéssemos feito algo ruim. vai machucar-se disse ele.Quer? ouvi de lá a sua voz. agradava-me falar com ele em murmúrio. Meus olhos percorreram o interior. que me amava e me temia e a quem eu também temia e amava.Não faça coquetismo com isto. ao olhar-me. e. Queria dizer-me algo. mas sabe? a violeta primeira.interrompeu-me ele. por trás das quais pendiam. Mas. Tive a impressão de que a palavra era: Macha. Ele não teve tempo de me apoiar. e de repente fiquei tão constrangida porque eles trabalham e eu estou tão bem que. disse algo e sorriu.Ora. mas logo ele fez as pazes. Não dissemos nada e apenas ficamos olhando-nos.

² Ora. fugindo ao seu olhar e não sabendo o que dizer. corei e. Leonor!" ² e ao pensar que deverá ocorrer de súbito algum fato incomum. .Um homem pode dizer que ele ama. porém desta vez o seu estado de confusão não me alegrou. eu me . lembrando aquela conversa. mas assustou-me. e nada acontece nem com ela nem com ele: são os mesmos olhos. Depois disso. ² Isto eu não sei ² respondeu ele ² cada um tem as suas próprias palavras. deva acontecer algo fora do comum. uma mulher afirmou ela. que trouxera correndo a chave." No decorrer de todo o serão. se não lhe disserem isto? ² perguntou Kátia. passamos muito tempo sem nos falar. em nome de nobres ideais. eu via amor e não duvidava deste. E todos os seus esforços de aparentar indiferença não me convencerão do contrário. é tudo o mesmo. eu sei. enganam a outrem. este há de se expressar. relativo a mim. Que novidade há em um homem estar amando? É como se. se existe sentimento. tinha medo. E como vai sair daqui? Estava ainda mais confuso que antes. apenas ele diga isto. tornando a corar e procurando ocultar a sua perturbação sob o aspecto de uma irritação.. e ele esforçou-se em readquirir o seu tom paternal o protetor. tirou-nos dessa difícil situação. algo bata com estrépito: bumba ² ele ama. mas não o conseguia e não enganava mais.E eu tenho a impressão de que também o homem não deve e não pode dizer que ama replicou ele. o que é pior ainda. Kátia falava de como era mais fácil a um homem do que a uma mulher amar e expressar o seu amor. ele conversou comigo pouco. comecei a apanhar as frutas. É como se. a par da impressão de que me destruirá para sempre aos seus olhos com aquela ação. ² Nunca disse isto. Já então. que procurou convencer-n. arrependia-me.Os seus eternos paradoxos ² disse ela. em cada um dos seus movimentos e olhares. . Parece-me ² continuou ele ² que homens que proferem solenemente essas palavras: "Eu a amo" ² enganam a si mesmos ou. Ele comunicou-se a mim. Quando voltamos para junto de Kátia. Eu me censurava.os de que não dormira e que ouvira tudo. você mesmo nunca disse a uma mulher que a amava? lo. que não tinha onde pôr. e ambos nos dirigíamos a Sônia. apenas ele pronuncie essa palavra. imagin) sempre o rosto preocupado que devem ter o tenente Strélski ou Alfredo. mas Kátia não permitia que se tratasse com ligeireza os heróis de romance. ² Porque isto será sempre uma mentira. . eu percebera nesse gracejo algo sério. Eu somente me aborrecia e tinha pena dele rporque ainda considerava necessá . nunca pus um joelho em terra . ² Por quê? ² perguntei. mas em cada uma das suas palavras a Kátia. ² Ele me ama. E. Bem que podia machucar-se. a Sônia. o mesmo nariz. ambos com um sentimento penso. Ficamos calados. Quando leio romances. ele não precisa dizer que me ama ² pensei agora com vivacidade. diga a verdade. ² Mas como vai saber uma mulher que ela é amada. Ixjmbrei-me então vivamente de uma conversa que tivemos alguns dias antes. e canhões sem conta disparem no mesmo instante. Sônia.respondeu ele rindo ² e nunca hei de fazê- "Sim. ao dizer: "Amo-te.Você está fazendo tanta bobagem! disse ele.acalmei.

preso sob a janela. argêntea. provavelmente. A noite clara de verão espiava pelas janelas abertas. indiferente e assustador. na penumbra da sala. repercutia-me no coração. O largo caminho entre as flores. Nas alamedas. ele afirmou que eu nunca tocara tão bem. em compensação. que estava parada ao meu lado. e quando seria tão fácil e simples tornarse tão impossivelmente feliz. Ele estava sentado com a cabeça apoiada nas mãos e fitava-me fixamente. eu fingia um rosto sério e continha à força o riso. e sim casas transparentes e trémulas. Eu estava tocando a sonatafanta-sia de Mozart. e metade das sombras do telhado. Vejam que noite! o jardim. dos postes e da lona do terraço deita-vase. meneou a cabeça e sorriu. Eu não pensava absolutamente no que estava tocando. aberta para Acercamo-nos dele e realmente era uma noite como eu nunca mais vi. e apenas riu um pouco na minha direção.. mas que ele não sentia força para tanto. erguera-se alto. a par da luz débil das velas. O que aconteceu hoje com ela? perguntou-lhe Kátia. Mas atormentava-me como um crime o fato de eu ter saltado para perto dele. O seu olhar dizia que era preciso censurar-me. ² Porque não lhe obedeci. as sombras das dálias e das estacas. ² Não aconteceu nada. e desta de novo para o salão. que se tornava mais claro. alongava-se. faz tempo que não a ouço ² disse ele. alcançando-me na sala de visitas. para o céu azulado que se afastava. destacava-se ainda mais claro nessa treva o topo estranhamente espalhado do choupo. em mim mesma. voltando com frequência a cabeça para mim e sorrindo. e punha-me a beijá-la no meu lugarzinho predileto. a sombra e a luz fundiam-se de tal maneira que elas não pareciam mais árvores e caminhos. Com-pletamente sem querer e continuando inconscientemente a mover os dedos. pelo contrário. em vez de partir voando para alhures. mal ele regressava. parando diante da porta do balcão. toquei bem. Cada olhar seu. atrás de nós. brilhando com o pedregulho irregular. nos sons. sobre o caminho de areia e o círculo do relvado. mas recomendou que eu calçasse galochas. apenas os passos de Kátia rangiam a intervalos na sala de visitas às escuras. e uma névoa crescente erguia-se da ravina. tinha até vontade de rir sem nenhuma razão. A sua cabeça destacava-se sobre o fundo da noite. estavam iluminados até os últimos galhos. de modo que não se podia vê-la. Eu sorria também. Kátia disse que era inconcebível como eu me detivera na parte melhor. passou do . os olhos brilhantes. Tudo estava quieto. disse ele da sala de visitas. banhado de luz viva em cima. ² Era o que eu queria fazer. dirigi-me para o piano. cada movimento. Mas ele não respondeu. indicando-me que continuasse. sentia o seu olhar fixado em minhas costas. e tive a impressão de que ele gostara. e o cavalo dele. Sierguiéi Mikháilitch! ² disse eu. ² Como não! ² disse ele. e já estava penetrando no salão. sob o queixo. tudo era negro. ² Toque alguma coisa. Ele sorriu também e meneou com censura a cabeça. inundado pela prata do orvalho e do luar. na sombra da casa. eu abraçava Kátia. que eu não via.de viés. eu me virei na sua direção. mas. penetrava na neblina. de um lado. já um tanto desnudados.. Tinha incessantemente a impressão de que. e parei de tocar. Sabia o que me acontecera. todo claro e frio. Mas. de teto alto. quando tudo já era tão evidente. Kátia concordou. Sorri vendo esse olhar. mas sentia-lhe a presença em toda parte. ele me seguiu. que incidia no soalho. Depois do chá. ao longe. que por algum motivo detivera-se de maneira esquisita ali. Apenas ele desaparecia atrás da porta. o espaço restante estava na penumbra. em raccourci <7 >.. no depósito. A lua-cheia estava sobre a casa. sobre o qual se deitavam de viés. ²Não está zangado comigo? ² Por quê? ² perguntou ele. de modo que eu não o via. a lua estava mais clara. sem voltar a cabeça. sentando-me ao piano. por causa disso. Vamos caminhar um pouco disse eu. Via-se por trás das árvores o telhado claro da estufa. e pôs-se a andar pela casa. No salão grande. somos de novo amigos ²disse eu. e que tocara mal. todas umedecidas de orvalho.io disfarçar e fingir-se frio. Quando acabei de tocar. Os tufos de lilases. perto da casa. mas. na direção dos cadernos de música. ele deixaria de me respeitar e que estava zangado comigo. uma outra. havia apenas duas velas sobre o piano.. à tardinha ² disse eu. fitando-o de repente bem nos olhos. Tudo o mais estava claro. junto ao piano.salão para a sala de visitas às escuras. Ele estava sentado atrás de mim. Podia-se distinguir cada flor. fungava e batia nas bardanas com o casco. Eu percebia o prazer que ele estava experimentando e. tão contente estava com algo que sucedera instantes atrás. . corando. no pescoço cheio. que ele me trouxera e que eu aprendera na sua presença e para ele. À direita. Ele me compreendeu.

que ali terminara o mundo do possível. e a luz. eram diferentes dos que eu conhecera até então. Kátia repliquei. abaixe até ela a cabeça e diga: amo. Ele nunca me dera o braço. caminhando co-nosco. e então eu lhe direi tudo. nem uma tal manhã. de que ela temia as rãs. ficamos sentados. a cada passo. provavelmente. o seu braço. Uma rãzinha saltara e imobilizara-se diante de mim. sem dizer nada de especial. vi o erguer do sol e as primeiras horas matinais. pisando nos círculos de luz e sombra. os caminhos. Ela ficou contente e comovida com o que lhe contei. Despediu-se como de costume. amparasse cautelosamente o meu braço. e que não o perderia. e eu cessava de acreditaram que se podia ir mais longe ainda.. Dissera: "Não tem medo?" e eu ouvira: "Amo você. Que enrubesça e baixe os olhos ante mim. Amo! amo! Percorremos todo o jardim. Ou não lhe direi. nesse mesmo dia.. E você não tem medo? disse ele. Mas nós avançávamos. fizesse algum ruído. quando tudo é tão simples e belo? Por que ele perde um tempo precioso. desde aquele instante. Olhei-o. E esse rosto estava tão belo. e arfava cansada. Para quê? Por quê? Como isto devia ocorrer? Eu não sabia nada. como esta noite e como ele e eu?" Voltamos para casa. Quando eu olhava para frente. e também ali. chama a si mesmo de velho. quando ele partiu. e a sua sombra pequena via-se sobre o barro claro do caminho. Mas. o jardim. parecia. então. que me tome a mão na sua. não obstante já tivessem cantado os galos. faltava uma tília da alameda. o dia já clareava de todo e as pessoas de casa começavam a levantar-se. estava o jardim nosso conhecido. Todo esse mundo. e nós. deixava-nos entrar. coitada. Disse que estava na hora de voltar. e começava a alvorecer. conversando sobre as coisas mais tolas. Como se isto pudesse impedir-me de molhar os pés. e olhei para baixo. que o diga com palavras. Decidi jejuar a partir de então. deixava de acreditar em tudo o que existia. e ele não o estranhou. "Por que ela não sente o mesmo que nós? pensei. o céu. Lágrimas jorraram-me dos olhos. Ah! Uma rã! exclamou Kátia. e como se fosse Kátia quem. Sierguiéi Mikháilitch vai dar-me o braço. com as árvores. já estivessem dormindo todos em casa. mas dessa vez eu mesma o tomei. Logo depois de confessar a mim mesma que o amava. quando eu pulara para dentro do depósito. era a lua no céu que enviava essa luz por entre os galhos imóveis. acreditava e sabia que assim ia acontecer. querida jovem!" repetiam o seu olhar. tornar-me sua noiva. eu via nitidamente o rosto dele. Mas. lembrei-me da minha perturbação e da sua. pela primeira vez na vida. o ar. pisando regular e docemente ao meu lado. mas ele ainda ficou ali muito tempo. lembrando cada palavra.Não é preciso. mas. sem sabê-lo. nem todos estão felizes. E nós como que andávamos pelos caminhos. Descemos do terraço os três. com os seus passinhos miúdos. mas eu sabia que a partir daquele dia ele era meu. e como que a folhagem seca farfalhava-nos sob os pés e um galho novo roçava-me o rosto. Por que ele inventa não sei que dificuldades. mas a coitada pôde adormecer nessa noite. e pus-me a rezar. e apenas o abraçarei. pesado. contei tudo a Kátia. as folhas secas. em seguida. E vieram-me um pensamento e uma esperança estranhos. Mas. Não dormi toda essa noite e. o que será se eu me engano e ele não me ama?" acudiu-me de súbito à mente. o ar. a sombra. cada movimento. apertar-me-ei contra ele e chorarei. Kátia caminhava ao nosso lado. percorri as mesmas alamedas pelas quais andara com ele. No lugar em que estávamos. IV .. E era como se fosse ele quem. lembrei-me de que era Kátia. que talvez não volte nunca mais? Que ele me diga: amo. repetiam o mesmo. fui ao jardim e. "Mas por que ele não me diz simplesmente que me ama? pensei. Os galos já cantavam a terceira vez. até depois das duas da madrugada. e não nos pareceu de modo algum estranho. E. Por que nem todos são jovens. e eu tive pena. e eu passei ainda muito tempo caminhando pelo terraço. muita pena dela. comungar no dia dos meus anos e. novamente se fechava atrás e em frente de nós a muralha encantada. E nunca mais vi uma tal noite. Mas. tinha continuadamente a impressão de que não se podia ir mais longe. Assustei-me com o meu sentimento: Deus sabe onde ele poderia levar-me. e senti o coração pesado.. Kátia não nos lembrava que já era tarde. sobre a alameda pela qual caminhávamos. que me acalmaram. tão feliz. "Quem diz isto e para quê?" pensei. que tudo isso devia ficar para sempre acorrentado em sua beleza. Quando voltei ao meu quarto. nós três o compreendíamos. e a muralha encantada da beleza abria-se. e o seu cavalo batesse cada vez mais frequentemente nas bardanas e fungasse sob a janela.

mas. Naquela época.Estávamos no jejum da Assunção. examinava mentalmente os pecados da véspera e refletia sobre o que devia fazer aquele dia. Tinha a impressão de que bastava esforçar-me um pouco. eu me lembrava sempre de que as orações se fazem por todos "os que entram com temor a Deus". havia nessas ocasiões não mais de umas dez cam . não me alarmava e não me zangava com ele. Na igreja. pelo contrário. Entrando no templo. levantava-me cedo e. a três vers-tas. eu sentava-me com Kátia ou com uma das criadas na liniéika e íamos à igreja. cobertos de erva. e esperava-o apenas para o dia dos meus anos. a fim de ficar satisfeita com ele e não pecar nenhuma vez. A semana toda ele nenhuma vez viera a nossa casa. e eu não só me surpreendia. estava contente porque ele não vinha. e por isto ninguém se espantou com a minha intenção de jejuar. enquanto me arreavam o cavalo. e procurava pisar justamente com este sentimento os dois degraus do adro. No decorrer da semana. Chegavam os cavalos. parecia-me muito fácil viver absolutamente sem pecado.

"Mas eles são assim pobres?" perguntei. do T. corri para casa. como uma criminosa. e a mesma velhota. pedia mentalmente a Deus que me iluminasse ou inventava uma oração minha para substituir a que eu ouvira mal. ouvi como o administrador. sacrificar-me por alguém. rezava. e amava tão ardente. bordada por minha mãe. quando. A mesma voz trémula do sacristão ressoava no coro. e que me pareciam tão grandes quando eu era menina. à noitinha. e. era chegado a mim não só pelas recordações: tudo isto era agora santo e grande aos meus olhos e parecia-me repleto de um profundo significado. Através da Porta Real via-se a coberta do altar. e ao mesmo tempo eu como que me alegrei. erguendo-me de junto do livro. nesses momentos.ponesas e empregadas domésticas em jejum. N. Pensei também no que diria Sierguiéi Mikháilitch. Alguém saiu da isbá. em que eu mesma fora batizada e tantas vezes batizara filhos da nossa criadagem. que a ideia da morte acudia-me como um sonho de felicidade. Eu prestava atenção a cada palavra da oração. nas palavras com que eles se refeririam à pessoa que depositara o dinheiro. E tudo isto não me despertava mais a curiosidade. N. mas ao mesmo tempo sentia que tudo seria perdoado e que. Não sei que luz e calor como que penetravam-me de repente o coração. mas eu agradecia-lhe comovida aquilo que ele pretendia. olhava com tamanha cordura para mim e para todos. ao saber desta ação. Ela ficava no limite da aldeia. ficava parada junto à parede. e fiquei com pena de não o ter entregue pessoalmente. a todos no mundo e a mim mesma. a fim de colocá-las nos castiçais. passado. senhora. ante todos os que encontrava e procurando uma oportunidade de auxiliar. com humildade. no enterro de minha mãe. nas exéquias de meu pai. curvada. Quando se proferiam orações de arrependimento. ao oficiar. o arrependimento me seria ainda mais doce. fazer por mim. e alegrei-me com o fato de que ninguém jamais o saberia. se não compreendia. ao fazer o seu relatório a Kátia. não têm nem com que comprar sal" respondeu o administrador. Enganei Kátia. que eu lembrava ter visto sempre na igreja. se celebrara o ofício em nossa casa: no batizado de Sônia. e murmurava algo com a boca sem dentes. e eu empé-nhava-me em ser humilde. O velho sacerdote aparecia envergando a casula feita com a cobertura do caixão do meu pai. Depois da missa. incapaz de fazer algo. dirigindo os olhos lacrimosos para o ícone do coro. mais comoventes e mais singelas as histórias dessa existência divina. e mais terríveis e impenetráveis as profundezas de sentimento e de pensamento que eu encontrava na sua doutrina. a pensar nela. ao ouvir isto. Parecia tão difícil viver em maldade . e. Quando.eu tinha a impressão de experimentar no no mesmo instante um sentimento físico de bem-estar. dirigindo-mè para a isbá de Siemion. e tinha. apanhei todo o meu dinheiro (muito pouco. a mesma voz com que sempre. apanhar com o velho soldado. e que ele acedera ao pedido. mesmo que tivesse mais pecados. em compensação. inclinando-me profundamente. para não cometer o pecado do orgulho. "Muito pobres. eu recordava o meu (8) (9) Tipo de carruagem aberta.A senhora mesma quer dar-se ao trabalho? dizia ele. quão simples e claro parecia-me tudo. e a que horas devia fazê-lo. sobre a iconóstase havia dois anjos de madeira com estrelas. velas num caixote. Atrás do coro aparecia a amassada pia ba-tismal. incapaz de dar conta do meu sentimento a mim mesma. e. o que me parecia uma façanha. balançar uma criança. sem ser vista por ninguém. coloquei sobre esta o dinheiro e bati. e este passado infantil e inocente parecia-me tão negro em comparação com a condição luminosa do meu espírito que eu chorava e horrorizava-me comigo mesma. apertava os dedos dobrados contra o xale desbotado. que me deixara na mesma época muito interessada. Kátia me perguntou onde eu estivera e o que tinha. Pensei também na alegria de toda a família. desde os primeiros tempos de que me lembro. starosta da igreja W. Eu sorria. e uma pombinha com uma auréola amarela. chorava. atravessei sozinha o terraço e o jardim. mas tudo o que possuía). O ofício terminava e o padre vinha falar comigo. e dizia-lhe que viria à igreja. terminando o ofício. Lia o Evangelho no intervalo dos ofícios. corri para cima. t rémula e fria de medo. de pensar. procurava responder às suas saudações. voltava sozinha a pé. mas não compreendi sequer o que ela me dizia e não lhe respondi. O encarregado de zelar por uma igreja. na aldeia. f ez ra nger a port a e grit ou para mim. em cada ofício. tornava a fitar a vida que me rodeava. eu sempre dispensava os cavalos. e ia pessoalmente. se estava sem Kátia. E havia em mim tamanha alegria. tão apaixonadamente. N. (10) Nas igrejas russas. pensava eu. tão maus pareciam-me todos e eu mesma. Mas. do T. Tudo me pareceu de repente tão insignificante e mesquinho. . E eu não sabia o que responder. ajudar a erguer uma carga. a entrada para o altar. dizendo-lhe que ia dar uma volta. ceder passagem e sujar-me. do T. perguntava se precisava ir oficiar as vésperas em nossa casa. Tranquei-me no quarto e por muito tempo caminhei de um lado para outro. procurava responder a esta com o sentimento. o sacerdote dizia: "A bênção do Senhor está convosco" . De uma feita. viera pedir umas tábuas para o caixão da filha e um rublo para as exéquias. Algo apertou-me o coração. aconselhar. acerquei-me de uma janela. depois de me persignar. dizia que o mujique Siemion. e esse livro tornava-se cada vez mais compreensível para mim.

da altura da minha disposição espiritual. na roça. em resposta a uma pergunta feita com tanta sinceridade. Ele compreendia provavelmente por que isto acontecia. arrancava as folhas deste. Tinha a impressão de que. baixando os olhos. Acerquei-me do piano. religiosamente respeitoso. estivera tão tranquila e independente com ele. quando voltava nesse dia da igreja. Se lhe faço esta pergunta. Mas eu pensava nele agora de maneira completamente diversa daquela noite em que soubera pela primeira vez que o amava. e ele teve que esperar que ela acordasse. não é para demonstrar simpatia (sabe . e que. mas no momento exato em que nos sentamos. Não podia proceder de outro modo e até não considerava isto um pecado. no sentido de que a felicidade consiste unicamente em viver para ou-trem. não o brilho. nenhuma característica na conversa. e quando ainda não se dissera nada. vizinha. reconhecendo a minha culpa e pedindo-lhe perdão. até Sônia. deixara de nos visitar. mas Kátia. "Por que todos eles são tão bons comigo? Com que foi que eu mereci tamanho amor ? " perguntava a mim mesma. mas ele trancou-o e escondeu a chave no bolso. em dois. por isto. Eu mesma não compreendo de onde me surgiam tamanha tranquilidade. nem mais tarde. e. lembrava-me de Sierguiéi Mikháilitch e passava muito tempo pensando nele. Como se não eu. assim eram todos comigo. Você tem agora na alma a melhor música do mundo. Sentia em mim todo um mundo novo. Via nele agora. temi toda impressão. e eu vi Sierguiéi Mikháilitch. a quem eu devia pedir perdão. quieta. disse que viera dar-me os parabéns e também despedir-se. quando tudo o que sucede parece que já existiu antes. a quem eu continuava a dar aulas. no dia dos meus anos. seríamso tão infinita e tranquilamente felizes. Agora. à entrada da casa. que eu experimentava na sua presença. que temi a vida. desaparecera completamente da minha imaginação. mas algo independente da minha vontade. fora deitar-se um pouco. familiar. com um eterno amor mútuo e com a eterna consciência da Providência. ligando-o sem querer a cada pensamento sobre o meu futuro. Não sentia na sua proximidade a menor perturbação. por isto. Apenas nos sentamos. Involuntariamente. era completamente outra. A nossa ama chorou. Ele é muito importante por inúmeras razões. os cotovelos sobre a balaustrada. com nitidez. Ele estava sentado na minha frente. que ele não compreendia. sempre pronta a acudir em socorro. tendo puxado para si um ramo de lilás. quando lhe pedi perdão. porque ia no dia seguinte para Moscou. Como o sabia? Não posso agora explicá-lo de modo algum a mim mesma. Ouça disse eu você sabe o que o dia de hoje significa para mim. desde que eu o conhecia. mas uma vida completamente diversa. como nessa manhã. Durante o jantar. mas. cordato. tudo o que pudesse estorvar essa felicidade. conforme planejara. Quando comecei a falar. de quem eu rira um ano atrás na presença de visitas. Respondeu-me com outra em que ela mesma pedia-me perdão e perdoava-me. e entramos juntos para a sala de visitas. Escrevi-lhe uma carta. Fiquei grata por isto. Negócios! proferiu depois. mas depois lançou-me um olhar de relance. e ao m esm o tem po me era um pouco desagradável que ele compreendesse demasiado fácil e claramente em meu íntimo tudo o que devia permanecer secreto a todos. Havia muito sol no chão e.e tão simples amar a todos e ser amada. que se cansara na missa. Não estrague o humor disse. Eu estava como que num sonho feliz. Comunguei. Jamais. Passando mentalmente em revista os meus inimigos. a sociedade. aquilo que antes me parecera estranho. Mas não me espantei. antes da confissão. comecei a dizer com a máxima tranquilidade aquilo que devia decidir a sorte do meu amor. com um eterno autosacrif ício. olhando-o bem de frente. eu pensava nele como em mim mesma. Mas apenas descemos da liniéika. nesse dia memorável. Para que viaja? perguntei significativa e pausadamente. compreendia-o plenamente. Sòfriente agora eu compreendia o porquê das suas palavras. não me alarmei. E eu imaginava não viagens ao estrangeiro. ele soltou o ramo e apoiou a cabeça no braço. e era comigo terno. A influência opressiva. lendo aquelas linhas singelas. como se nós o conhecêssemos desde muito tempo e soubéssemos também o que o futuro nos reserva. procurava compreender-me. Tal como eu era. E não comecei a dizê-lo mais cedo. ressoou sobre a ponte o cabriole tão conhecido. Isto podia ser a posição de um homem absolutamente tranquilo ou muito perturbado. e eu notei como ele temia perceber uma perturbação em meu rosto. Ele queria partir logo depois do jantar. que pudesse estorvar aquilo que eu queria dizer. tinha a impressão de saber tudo o que acontecera e que ainda haveria de acontecer. Eu sabia que ele o diria. agradar-me e não me causar aborrecimento. lembrei fora de nossa casa apenas uma moça. Deu-me os parabéns. espírito decidido e precisão nas expressões. falasse em mim. não lhe perguntei sequer se era por muito tempo. e agora concordava plenamente com ele. olhou para Kátia. Tinha no peito uma felicidade tão completa. Compreendi como lhe era difícil mentir para mim. Dizendo isto. Todos me tratavam com tanta doçura e bondade. saímos para o terraço. a fim de se despedir. sentia-me igual a ele e. Chorei de alegria. sempre suave. um mundo mais elevado que ele. Tardou em responder. e sabia também que não haveria de partir. em que percebi então um sentimento tão profundo e tocante. e ainda não havia nenhum tom.

e se gosta de mim não me fará mais perguntas. foi culpado ² respondeu ele. Foi A. embora isto me seja penoso. mas que não seja comigo. vamos fazer de conta disse ele um homem velho e vivido. e isto será mau para mim. Mas. ² Ora! disse eu. por amor ao dia de hoje. ele colocou a mão sobre a minha. vou procurar explicá-lo a você acrescentou com uma careta. e decidiu-«e a uma viagem. como que por acaso. pelo amor de Deus. sim. dizer-lhe que não se atrevesse a falar por mim.. . E ela apenas riu. sem me olhar que era fácil passar a amá-la de outra maneira. pesado como o arrependimento. mas você compreende por que vou viajar. depois de uma pausa e com uma voz que procurava em vão aparentar firmeza embora isto seja tolo e impossível de contar com palavras. e não temeu amá-la de outra maneira. mas simplesmente porque preciso saber. Você compreende por que o faço. provavelmente. e disse-lhe isto. e a voz saiu-me regular. . Ele amava-a ou não? Não respondeu. ² Imagine que existiram um dia certo senhor A.. O coração bateu-me com força. Dizendo-o.muito bem que me acostumei a você. Em consequência de determinadas relações familiares. antes que isto acontecesse. Calou-se. olhou-me e tornou a puxar para si o ramo. e decidi que preciso partir daqui. pelo amor de Deus. e para ele era um assunto vital. ele amou-a como uma filha. e eu preciso de outra coisa. Respondeu num tom que parecia ofendido. e você acabará envergonhando-se de tê-lo feito. que ainda não vira as pessoas nem a vida. Esta semana. A. e lágrimas tremeram-me na voz. ² Sim. Teve medo de que se rompessem as suas relações amistosas. . Não posso compreender disse eu não posso. que eu gosto de você). e que isto a divertiria. tudo isto é tolice. mas. Para que viaja? É muito difícil para mim dizer a você a verdadeira raxão da minha viagem disse ele. não me interrompa e compreenda-me tranquilamente. E não falemos mais sobre isto. decidido. perdeu o juízo. Esfregou a testa com a mão fechou com esta os olhos. ² Existem dois desfechos diferentes. Mas por que ele teve medo de amá-la de outra maneira? disse eu quase imperceptivelmente. interrompendo-me às pressas ² mas tudo acabou. pareceulhe zombeteira. depressa. levantando-se e tendo um sorriso doentio. e assustei-me com o que dissera. por que brincou com ela como se brinca com uma criança? ² disse eu. e diga-me você. Para ela. tornou. eu penseiÍ muito em você e em mim. e certa senhora B. ² Sim. Isto me é penoso E você o compreende. Brinque. penoso ² alguns dizem que A. . Mas ele esqueceu que B.Mas isto é horrível! Será possível que não exista outro desfecho? ² mal consegui proferir. quem disse isto ² acrescentou ² bem. jovem. e assustou-se. ² E se não a amava. Estremeci e quis interrompê-lo. Aliás disse. porém não o interrompi. existe ² disse ele. Você quer brincar. eu não o sou mais. Alguns dizem -. feliz. Ele enganou-se e de repente sentiu que um outro sentimento. apaixonou-se loucamente por B. diga-me isto1 eu posso ouvir tudo tranquila. contendo a perturbação. esgueirava-se para o seu íntimo.começou ele. Ele mudou de posição. Por favor! ² Não! Não! Falemos! ² disse eu. contendo-me. a esfregar os olhos e cerrou-os. era tão jovem ainda que a vida constituía para ela um brinquedo prosseguiu de repente. Você é jovem. como que provocada por uma dor física. senão vou acreditar. como amigos. isto não passava de brincadeira. mas. e eles separaram-se . o rosto perturbado e fitando-me bem de frente.

a mais inteligente. às escondidas dele. acreditou. provavelmente incapaz de dizer mais. ² E o terceiro desfecho ² disse eu e detive-me. viajou para longe e ainda tinha orgulho de algo. ele estava pálido e tinha o lábio inferior trémulo. Nicolau. Ele mS contou como a sua mãe ficara descontente pelo fato de que o casamento devia realizar-se sem música. apesar daquilo que dizia. considerando-a a melhor. eu amei-o.² Espere ² disse. sem convidados. e nem eu nem ele o queríamos. não nos tratávamos por tu (12). Ele vinha jantar e ficava até meianoite. sem montanhas de baús e sem uma reforma de toda a casa. que havia nele. já que era tão indispensável. pareceu-me que ela queria fazer-me sentir que eu não era dos melhores partidos para o seu filho. apenas fazíamos dengos e insignificâncias. falei com uma voz baixa. e se celebrasse o casamento duas semanas depois do meu aniversário. Ele dissera: "Não falemos nisto" ² mas eu via que esperava a minha palavra com todas as forças da sua alma. sem enxoval. mas agora eu me sentia com-pletamente igual a ele. mas ele permaneceu calado ² e o terceiro desfecho consiste em que ele não a amava. é verdade. antes de casar. de maneira bem diversa do casamento dela. já se percebia entre elas certa diplomacia um tanto hostil. mas não pude. imaginou.s e foi ôle ou eu que mudamos. e que ele a enganara também. a voz trémula ² outros dizem que ela compadeceu-se dele. Mas. ao remexer(11) baús na despensa. . ao falarmos do nosso futuro. Entre o dia do Sudário e a festa de S. algo apertou-me o peito. E não se podia falar disso com ela num tom de brincadeira. Kátia fazia o mesmo com a ama-sêca Kuzmínischna. com a qual eu travara agora relações mais íntimas. e que não me faria mal lembrar sempre esta circunstância. a mais bondosa. e estava contente porque o filho ia casar-se. uma grã-senhora dos velhos tempos. Kátia. se eu soubesse! ² disse ele. a mais afetuosa mulher no mundo. ² Por quê? Por quê? ² continuava eu a repetir sempre. mas ela mesma viu que o enganara . com que eu mesma me assustei. sentindo que sufocava de lágrimas más. que me acorrentara. Lancei-lhe um olhar. Tinha a cabeça no meu colo. não encontrava nele o arremedo dr simplicidade. ele nunca passava o dia inteiro comigo e procurava continuar ocupado com os negócios. Fiz um esforço e de repente. interior. Sônia corria escada acima. em conferenciara seriamente. . Víamo-nos diariamente nessas duas semanas derradeiras. e pôs-se a andar em silêncio na minha frente. Tatiana Siemiónovna ora sempre boa conosco e particularmente comigo. Tatiana Siemiónovna. mas fê-la sofrer. . sem padrinhos. e as suas lágrimas molhavam-nas. Você e não eu está brincando. e como ela. Era como se temesse entregar-se à ternura demasiado grande. e na alma eu tinha felicidade. Não falemos mais sobre isto ² concluiu ele. champanha e todos êste§i acessórios convencionais do ato matrimonial. OH seus lábios beijavam ainda as minhas mãos trêmu-líis. sem barulho. a um grito selvagem. ceias. Até o casamento. era uma dona de casa altiva e severa. mas ambos insistimos em que se deixasse isto para mais tarde. uma criança dócil. mas. e concordou em ser sua esposa. o lábio tremia-lhe cada vez com mais força. Quis falar. e duas lágrimas desceram-lhe sobre as faces. e pensou estar com a razão. e embora.KO a sós. ele adquirisse uma nova carruagem e mobília e que forrasse a casa com papel de parede novo. a qual. como é peculiar às pessoas nesta condição. Estava firmemente convicta de que nós dois. uma felicidade que não voltaria jamais. que custara trinta mil rublos. e eu sabia que estava dizendo a verdade ao afirmar que não podia viver sem mim. quando a visitei como noiva. Ele estava pálido na minha frente. por obrigação. ele não me beijava sequer a mão. e nessa palavra "amei" a minha voz passou involuntariamente de suave. Mas ele não me deixou. ainda que sutilíssima. aparentemente. em lugar de um liomem que inspirava respeito e medo. ² Por quê? ² exclamei. o louco. e gritava por toda a casa que Macha queria casar com Sierguiéi Mikháilovitch v Não havia razão para adiar o nosso casamento. a mãe dele. Ele amava-a não só como um filho. enfim. temia eu. sofrer. amei-o desde o primeiro dia ² repeti. e ergui-me a fim de me afastar dele. E ele. com a governanta Máriuschka .. e não só não procurava. nociva. Não sei. ² Meu Deus. rompendo a força do silêncio. acreditou que toda a sua vida começaria de novo. comunicaram-se algumas vezes ao dia notícias confidenciais sobre o que estava sendo preparado e onde. Do meu lado. ² Isto é ruim! ² quase gritei. a fim de comprar e encomendar peças para o enxoval. para junto de Kátia. a coitada que não vira o mundo. cortinas e bandejas indispensáveis à nossa felicidade. que ela também podia amá-lo. quisera ir a Moscou. as nossas colações exteriores continuaram as mesmas de antes. K u a compreendia totalmente e concordava com ela. e a mãe dele exigira que. que me desagradara antes. não-choradas.. sobre certos tapetes. mas que a nossa felicidade efetiva dependeria exclusivamente do corte e da costura corretos das camisas e do ponto com que se bordariam as orlas de toalhas de mesa e guardanapos. mas também como uma pessoa humana. Tive pena dele. por sentimento.. e frequentemente via deliciada na minha frente. mas até evitava ficar comi. interior. ia romper-se a cada momento. Cinco minutos depois. as relações entre Kátia e a mãe dele fossem das mais carinhosas.

Até os seus planos sobre como iríamos viver juntos eram os meus próprios planos. eles se tratam por vós. "Mas somente isto é que existia urlo! pensava eu com frequência Ele é uma pessoa oxatamente igual a mim. do T No texto original. mais um pouco e toda a minha felicidade pereceria por minhas próprias mãos. apenas definidos mais claramente e melhor com as suas palavras. eu argumentava mal. não é verdade que devia mesmo pensar um pouco. está certo. adivinhando no mesmo instante o meu pensamento. eu quis argumentar. As melhores palestras íntimas tinham lugar num canto. depois daquela noite lembra-se? Foi quando passeamos até tarde pelo jardim eu me assustei. Enquanto você tocava. a minha felicidade atual pareceu-me demasiado grande e impossível. e somente na sua . antes de dizer que a amava? O que lhe dou? O amor. na direção do seu quarto." Parecia-me agora que ele estava todo diante de mim e que eu passara Ji conhecê-lo completamente. E o nosso canto parecia mais claro. mas eu mesmo não sabia o que ia fazer. Havia batidas no telhado. Eu tinha e não tinha esperança. nem ouvirei a sua sonora gargalhada? Será possível que a partir de hoje me tornarei estranha a mim mesma. depois de fazer sobre mim o sinal da cruz: "Boa noite. que ficaram para mim unicamente as obrigações do final de uma existência. Sim. conhecer era tão simples e tão concorde comigo mesma.sêca e não a ouvirei dizer. Depois de todos os meus erros e decepções. quero acabar de dizer o que pretendia.? ² Como não lembrar essa história tola? Ainda bem que tudo acabou assim. Então. E tudo o que eu começava a (11) Diminutivo de Maria. e B. ² Para que argumentar?! ~ disse eu. segundo um velho costume. ora me parecia que você estava procedendo com coquetismo. eu pensava apenas em mim mesmo. era-me penoso ficar sozinha com esses pensamentos. será pouco ? disse eu. porque sou um reles egoísta. a água soltava borrifos na poça sob a calha. ² Sim. não amei. . mas de repente tive medo da sua" resposta. Mas.. Você ainda é criança. entre o piano e a janela pequena. Posso responder. ² Sim. diga-me: o que é ? perguntei. . e agora preciso do seu coração para ter direito de amá-la disse ele entristecido. Permaneceu algum tempo em silêncio. ² Trata-se do seguinte: lembra-se de quando lhe contei aquela-história sobre A. (12) N. . ² Não tenha medo disse ele. Naqueles dias. Quando comecei a falar. de modo que por muito tempo não dava conta a mim mesmo do que significava o meu sentimento por você e onde ele podia levar-me. Ele sorriu. Mas o mais importante é que eu não parei de mentir então. os olhos fixos em mim. e gotas escorriam de raro em raro sobre o vidro lustroso. quando voltei para a roça. é a primeira vez que ama. Preciso apenas defender-me. que é o tratamento russo menos íntimo. Você me salvou. do T. e em vão? Mas. e eu.acrescentei. nem baterei na parede de manhã. e nós ficávamos quase sempre dentro de casa. não precisa . o tempo estava feio. não falemos nisso. Eu tomo tanto de você e posso dar tão pouco. por favor. sem Kátia? Não beijarei mais. Mas. naturalmente. ² Não diga nada. sem o velho Grigóri.. diga-me com franqueza retruquei. o que Hiicederia se eu me permitisse ter esperança. Não. Não. "Será possível que â partir de hoje viverei lá com a sogra. não parei de pensar nisso. E sabe? Há muito. N. a minha ama-. Nunca tive nada que se assemelhasse a este sentimento. e agora estou envergonhado. e que se abra diante de mim uma nova vida de realização das minhas esperanças e desejos? Será possível que esta vida nova é para sempre?" Esperei-o impaciente. ² Sim. ² Mas. disse a mim mesmo decididamente que o amor acabara para mim. ² por um instante e tornava a duvidar. A luz das velas refletia-se perto. ² Ah. ora me surgia a esperança. a umidade esgueirava-se pela janela. fitando-o nos olhos. não precisa. ² Se eu já amei antes? Sim? disse ele. Ora. eu queria dizer-lhe uma coisa disse ele de uma feita em que ficamos até tarde. de repente. ² Não. deve nunca.perdida de felicidade.. Bem que eu podia e devia ter medo. é verdade. Não se. mais tépido e alegre. sei tudo disse eu. é um botão que ainda há de desabrochar. uma lembrança penosa pareceu passar-lhe de relance na imaginação. ² Mas não era apenas tolice o que eu dizia então. na janela negra. Ele chegou cedo. não mais que isto. sem Nadiojda. Não. senhorita"? Não darei mais aulas a Sônia e não brincarei com ela. antes de dormir. sorrindo. senta dos a sós nesse canto.

o campo degelado de outono pretejava. de-teve-se em mim. cada vez mais larga. eu quis dizer-te "tu" replicou. a tristeza. e apoei-me em silêncio no braço do homem que fora o melhor amigo daquele em que eu pensava. as esperanças. que tive a impressão de mesmo nesses momentos estar ali aquela alma. passada a ravina. Eu a chamava então de Macha. ² Antes do jantar.sl. e nem pensava que me seriam tão caros por si mesmos. mesmo sem nomeá-lo.mente minha e o seu olhar tranquilo. e este pensamento deixou de me assustar. . ao voltarmos para casa. caíam-nos dentro dos olhos. Tenho somente agora a impressão de que és completa. calado. encostando a cabeça à pedra fria do chão da capela. sozinhas sob esta cúpula azul. Mas ele falou de meu pai. Estávamos todos caminhando por uma vereda não batida. "E se ele falar de assunto diverso daquele em que penso?" acudiu-me à mente. em meio aos restolhos amassados. Elas voavam à nossa volta e depositavam-se sobre a palha ressecada pelo frio. teias de aranha longas. As recordações. e aqui e ali já apresentava faixas verdejantes. de imã. não sei se alegria. apertando com mais força contra mim o braço que estava apoiando o meu. mas impotentes. Eu também queria tratá-lo por tu.² companhia acreditei plenamente em que seria sua esposa naquele dia. acreditei tanto em que a sua alma compreendia-me e abençoava a minha escolha. ² Sim. e de sentir sobre mim a sua bênção. Tinha a impressão de que aquele ao lado de quem eu caminhava compreendia e partilhava o meu sentimento. ² E um dia ele me disse brincando: "Case-se com a minha Macha!" ² Como ele seria feliz agora! disse eu. feliz. fundiam-se em mim num único sentimento triunfal e agradável. Quando falávamos. um tanto afastado de nós. estendiam-se sobre as coisas todas. q ue eu espiava de raro em raro expressava não sei se tristeza. um mujique recortava com o arado uma faixa negra. mas envergonhava-me. e através do qual.ivessem sozinhas em meio do mundo inteiro. estendia-se até o bos que distante e despido o campo coberto de palha pardacenta. e o seu rosto. imaginei tão vivamente o meu pai. mas algo importante que existia tanto na natureza como no meu coração. que aparecia atrás dele. a quietude. De um lado. a nudez dos campos e o céu pálido. as nossas vozes ressoavam e detinham-se sobre nós no ar imóvel. sobre a qual tremia e resplandecia um sol sem calor. indo até o jardim e a nossa casa. e ouvíamos somente os nossos passos e vozes. Um rebanho de cavalos. De repente. pisados. voltou-se para mini. Brilhava por toda parte um sol não muito quente. através do campo. como se e. Ele caminhava suavemente. espiando os meus olhos eu beijava então estes olhos e amava-os somente porque se pareciam com os dele.. "Se ele estivesse vivo agora!" ² pensei. em cuja direção tendiam aquele ar fresco e imóvel. onduladas. espalhado sob a montanha. sobro OB cabelos e a roupa. ² Ainda agora. a felicidade.do qual caíam sobre todas as coisas raios brilhantes. a fim de ceebrar missa em memória de meu pai. que tentavam queimar-me a face. você ainda era criança prosseguiu ele. voando sobre nós. fomos à nossa igreja. No decorrer da oração. parecia próximo. ² Trate-me por "tu" disse eu. vi que pretendia dizer algo. Do outro lado e na frente.

Mas. Os nossos sonhos sobre como ia arranjar-se a nossa vida na roça realizaram-se de maneira completamente diversa do que esperávamos. eu não acreditei que isto pudes se acontecer respondeu ele com doçura ao meu olhar. quase num murmúrio. e este beijo foi tão esquisito. Saímos para o adro as rodas ressoaram pesadamente sob a cúpula da igreja. Não conseguia rezar e dirigia um olhar embotado para os ícones. sem as quais não podíamos passar. Encolhida num canto. Senti que lhe pertencia toda e que era feliz com o poderio dele sobre mim. ainda mais forte e carinhoso que o unterior. ereta sobre um tapetinho junto ao coro. existia pelo contrário um sentimento de amor a si mesmo. da mãe dele. humilhante. um desejo de ser amado. na mão dele. depois sobre a estrada macia. Eu lia. tão estranho ao nosso sentimento. SEGUNDA PARTE Os dias. Somente ele existia para mim.disse -?u depressa. do qual eu tanto esperara" pensei. Eu não olhava para ele. o eu senti de repente que não o temia. dariam para a vida inteira os sentimentos. o cumprimento de um dever de abnegação. ² Sim. e não compreendia nada. mas ele davame felicidade e elevava-me muito acima do mundo inteiro. com a intenção de dizer-lhe algo. como parecia então. o ar fresco soprou-nos no rosto. e até o momento de sairmos da igreja e sentarmo-nos na carruagem. Pareceu-me como que ofensiva a auto-confi-ança com que ele o fizera. agora. mas eu estou assustada não sei por quê disse eu. sem vida. e. que esse medo era amor. ocupava-me da música. as velas. Não havia esse trabalho severo. minha amiga? disse ele. foi só isto que me deu este instante. ele pôs o chapéu e segurou-me o braço. o coração de repente bateu-me mais forte. "E então. sentia-o ali. Quando voltamos para casa. a fim de ajudar-me a subir para o carro. Quando o sacerdote com a cruz voltou-se para nós. as rodas bateram sobre o pedregulho. dois meses de solitária vida na roça passaram imperceptíveis. repetia-as. não ficamos a sós. eu olhava pela janela para os campos distantes e claros e para a estrada. os olhos procuravam na penumbra o seu olhar. correspondente ao mistério operado sobre mini. apanhando-me a mão e baixando sobre ela a cabeça. mais alegre e feliz. fiquei com calor. e continuou a parecerme como que ofensivo. Sentia somente que me acontecia algo inaudito. por vezes partia para tratar de negócios na cidade ou saía a cuidar da administração. mas sentia a sua presença ao meu lado. e avançamos. de amor a mim mesma. É só isso pensei. a janela da igreja. Algo espetou-me o coração. Sim murmurei. uma alegria contínua e sem motivo e o esquecimento de tudo no mundo. Mas as palavras não saíam. as semanas. Voltei-me na sua direção. Beijamo-nos. ao meu lado. ² Até este momento. mas eu via o quanto lhe era difícil arrancar-se de perto de mim. Ele caminhou mais devagar e olhou-me de maneira ainda mais carinhosa. A minha mão permaneceu deitada. mas nada me repercutia na alma. a fim de ir a Nikólskoie. de viver para ou-trem. que me olhavam curiosos. em nosso amor um pelo outro. e involuntariamente corei. sem olhar para ele. Kátia e a mãe dele beijaram-nos. a cruz bordada nas costas do sacerdote. que eu imaginara quando noiva. substituído que fora por sentimentos de ofensa e medo. onde eu não estava. Deus lhe concedera também me casar. E ele mesmo confessava depois que tudo no mundo. as minhas mãos descaíam e parecia-me tão divertido pensar que existia no mundo algo além dele. Sentou-se ao meu lado e fechou a portinhola. mas apenas o pensamento nele não se acrescentava a alguma tarefa. Kátia de touca co mfitas lilases e lágrimas sobre as faces e dois ou três criados. a iconóstase. porém tudo isto unicamente porque cada uma dessas ocupações estava ligada a ele e merecia a sua aprovação. eu vi com um olho somente a mãe dele. que chamava a carruagem. vi a lua frígida. um amor novo. ficar sentada sozinha. no entanto. como se não existisse mais em mim o anterior sentimento de ternura. da escola. e em meu espírito não se processara nada de extraordinário. A igreja estava quase vazia. a perturbação e a felicidade desses dois meses. já estavam ali sua mãe e visitas. parecia-lhe tamanha tolice que não conseguia compreender como alguém podia tratar daquilo. A voz de Kátia gritoume que cobrisse a cabeça. a mão tremeu e apertou a sua. e eu . A minha vida decorria como antes. tão perto dele. eu me espantei e assustei-me porque tudo já estava terminado. Mas a nossa existência não era pior que os nossos sonhos. e ouviu-se a voz de Grigóri. no mesmo instante. E. rodeada de um círculo. Talvez isto fosse um sentimento ruim.Por que andas com essa velocidade? -. É verdade. que fugia em meio ao brilho frio do luar. Prestava atenção às palavras da oração. ² Tem medo de mim. e o meu coração foi ficando dolorido de frio. ele às vezes ia ocupar-se de algo em seu escritório. Da janela. deu os parabéns e disse que ele me batizara e.

reze comigo. só vivia para ser aos seus olhos aquilo. Meu querido. eu exigia qu e m e contasse o que fizera de manhã. lia sozinha. estava naquela peculiar disposição alegre que nós chamávamos de entusiasmo selvagem. pôs-se a rezar. como um velho amigo. impedindo-a de dormir. Mas toda essa gente. sem saltos (Tatiana Siemiónovna considerava o ranger das solas de sapato e o bater de saltos como a coisa mais desagradável no mundo). Quando terminou. Não se pode dizer que tudo fosse bonito e elegante. E ele. ressoava tão estranhamente aquela voz vinda de um outro canto. tomava chá sozinha e só nos cumprimentava por meio de embaixadores. para mim e meu marido com um carinho condescendente e pareciam executar as suas tarefas com particular prazer. mas detive-o. apenas me alegrava de vê-lo e ouvir-lhe a voz. era tudo farto. procurava em meu rosto ajuda e aprovação. convidancLo-se todos os vizinhos. Procurou sair dali sem responder. cruzando os braços. Frequentemente. E tudo isto se fazia invariavelmente desde os primeiros tempos de que T. a mais bela dentre as mulheres. que tomávamos a sós. mais sem pecados no mundo. Voltava-se de raro em raro para mim. do seu filho (e o meu. as quais. arrumado graças aos cuidados de Tatiana Siemiónovna. Bem. A nossa casa era uma dessas velhas casas de aldeia em que viveram algumas gerações da mesma família. palpitavam ante a velha senhora. ² Tu rezas? Espero que sim. às vezes. mas ficava muito atarefado. Continua. pela primeira vez nesse outono) . Eu fitava-o nos olhos. levantava-se muito cedo. amando-se e respeitando-se. Em nosso mundinho peculiar. Como se não me fosse indiferente tudo o que fazia por lá. apenas eu entrara ali. no chão. ² Já rezaste? perguntei. e quase sempre nessa ocasião. de diferentes séculos e modelos. mas.atiana Siemiónovna se lembrava. considerava-me a primeira. em resposta à criada que. e infundia respeito. e ele o fazia. por favor. Na sala de repouso. Eu tocava piano. Colocou-se ao meu lado e. e justamente por isso eu não conseguia viver para mais nada. Na sala de visitas. e não compreendia nada. Tatiana Siemiónovna não saía do quarto antes do jantar. mas. celebrava-se uma festança. sempre que uma criança recebia o nome de Tatiana Siemiónovna. divãs e mesinhas com latão e incrustações. eu não o encontrava mais. ao acordar. olhavam. tornaram-se como que também minhas recordações. sempre tu! Como se eu tivesse de novo dez anos disse ele corando e beijando-me as mãos. Era tão engraçado que ele me contasse coisas que não se referiam. Somente bem mais tarde. ele escrevia. toda essa gente parecia orgulhosa da sua condição. a fim de não me estorvar. baixando desajeitado os braços. e pediu para observar que não foi Taras quem as preparou. contendo o sorriso. eu soltei uma risada e não consegui prosseguir na oração. gaguejando. depois das correrias e preocupações decorrentes dos seus afazeres. sólido. que possuía todas as virtudes possíveis.considerava-o como a pessoa mais bela. e tornei a virar-me. . Tatiana Siemiónovna arrumava e administrava a casa à moda antiga. e saiu-se nada mal. Mesmo no inverno. mas que depois se tornou caro para mim. a mobília estava disposta simetricamente." Até o jantar. Tudo cheirava a boas e honestas recordações familiares. comecei a compreender um pouco as suas preocupações e a interessar-me por elas. porém tudo em casa funcionava como um relógio. ² Sim. Ele sorriu. que eu frequentemente não me continha e somente dava gargalhada. nos lábios que se moviam. Mas eu era incapaz de fazê-lo. havia um velho piano de cauda. eu vou embora. e ele me dizia tais absurdos que quase morríamos de rir. que usava botas macias. Não se ouvia Tatiana Siemiónovna. que ele esperava de mim. pendiam retratos e. por sua vez. repassado de gravidade e boas maneiras. passávamos pouco tempo juntos. estendiam-se tapetes caseiros e passadeiras. e eu procurava ser essa mulher aos olhos do primeiro e do melhor homem do mundo. O meu marido não se imiscuia na administração da casa e ocupava-se somente com as coisas agrícolas e os camponeses. armários de dois modelos diversos. comunicava pausadamente que Tatiana Siemiónovna mandara saber como dormimos depois do passeio da véspera e comunicar que tivera a noite inteira uma dor do lado e que um cachorro estúpido da aldeia latira. Todos os sábados. mas não tirou as torradas a tempo do forno. loucamente feliz. Voltei-me para olhálo e continuei a rezar. ri e abracei-o. o rosto sério. asseado. o que foi que eu disse? Repita perguntava ele. eu exigia um relato sério. infalivelmente. embora houvesse muita gente supérflua. Voltava geralmente para o chá. de modo que. Mas tive a impressão de que me olhava. faça isto por mim. cada dia primeiro celebrava-se um ofício e esparzia-se água benta. De uma feita. o Nicolacha <13 >. Ele sentou-se à mesa. ele entrou no meu quarto quando eu estava rezando a Deus. desde a criadagem até a mobília e a comida. estava a mobília melhor. a mim e a ele. No meu escritório. lavava-se o chão da casa e batiam-se os tapetes. com exceção dele. Sempre tu. além de um velho tremo. principalmente com as rosquinhas. tornava a sair. para o qual eu a princípio não podia olhar sem ficar encabulada. arrumado. por experiência. pela primeira vez. "E ainda mandou perguntar se gostaram das bolachas de hoje. e abriu um livro.

N. a fim de apanhar fumo numa gaveta. meu marido. tenho medo. Medo de que é preciso viver. Dmítri Sídorov. mas não o compreendia. Todos os dias infalivelmente. seguindo velho costume. para mim agora não existem coisas ruins. e era de se ver 6 medo alegre com que Sierguiéi Mikháilitch acercava-se de mim na ponta dos pés e. ele sentava-se num divã afastado. que não suspeitava de modo algum estar sendo visto. quando recebo uma carta ou simplesmente acordo. reuníamo-nos na sala de visitas. "É como uma criança que não ousa mostrar a sua vontade!" ² pensava eu. ficávamos sentados até depois de meia-noite. meu marido dizia que eu era uma pérola e beijava-me. e não pode existir nada melhor que esta nossa vida de. os quadros. eu erguiame do piano. Depois do jantar. Depois do chá. fazia sobre nós o sinal da cruz. Quando eu tocava as suas peças prediletas. e a conversa era sempre conveniente. existia em alguma parte uma outra felicidade. O criado de mamãe. para o jantar. ainda que não maior. quando ele menos esperava. às vezes filosofávamos e procurávamos dizer tudo a meia voz. Não só eu. e infalivelmente. grande apreciador do cachimbo. minha amiga ² respondeu-me de uma feita em que lhe disse estar surpreendida com a sua fraqueza ² pode-se acaso estar descontente com alguma coisa. e íamos para o nosso quarto. mas os criados. tinham lugar entre o filho e a mãe discussões e caçoadas. provavelmente temerosa de nos constranger. dos na entrada da sala. e por vergonha do sentimento. quando estávamos na sala de repouso. . a fim de conduzi-la para o jantar. em meu escritório. mas ela exigia que me desse o outro. que nos amarrava. quando se é tão feliz como eu? É mais fácil nós mesmos cedermos do que subjugar a outrem. ao mesmo tempo. mas. Às vezes. perguntar: "Está doce?" e deixar torrões de açúcar para a ama-sêca e os criados mais merecedores. como das vezes anteriores. aproximava-me dele e procurava surpreender-lhe no rosto os vestígios de perturbação. Acreditas? Quando ouço a campainha. lê mieux est Vennemi du bien <14>. líamos muito. e isto perturbava-me ainda mais. Também a mãe presidia à mesa. de que algo vai mudar. o brilho pouco natural e os olhos úmi-dos. cruzava a sala com um rosto fingidamente sério e indiferente. procurava esconder a impressão que a música lhe causava. e com a distribuição de copos e xícaras. Não apenas ela. A mãe frequentemente tinha vontade de olhar para nós na sala de repouso. que exigia de nós que deitássemos cedo. embora tudo isto fosse assim. para virar a torneira de um samovar tão grande. essa como que indiferença: eu não percebia que o mesmo existia em mim. E nós estamos tão bem! Não posso ficar zangado. na grande sala de visitas. só existe o que é lastimável e o que é divertido. contente porque tudo acabara bem. para junto do piano.mas. quase sempre. bem como o de Tatiana Siemiónovna. tinha a impressão de que. sobretudo. mas frequentemente. E quando Dmítri Sídorov ia embora sem nos ter percebido. com fome. não dávamos mostra de que algo nos desagradava. mas a música era o nosso melhor e mais amado prazer. No entanto. apontava Dmítri Sídorovitch. onde eu quase não o via. naquele tempo. a Maria Mínitchna". eu ficava perturbada com esta sessão solene. As palavras simples que eu trocava com meu marido destruíam agradavelmente a solenidade dessas sessões de jantar. pois havia sempre umas duas ou três hospedadas em casa. ao escritório de meu marido. Ele parecia até esconder-se do que era ruim. e apareciam umas pobres fidalgas em peregrinação. íamos às escondidas para a cozinha. Sentia-me bem. e às vezes parecendo não nos olhar. Às vezes. a mãe dele deslizava para fora do seu quarto. de ser demasiado jovem e fútil. bonito acrescentava muitas vezes meu marido parece gente grande". eu gostava disso particularmente. fazendo ameaças com o dedo e piscando um olho. do T. atingindo cada vez novas cordas em nossos corações e como que tornando a desvendar-nos um ao outro. em que pairava sobre todas as coisas o espírito severo do antigo. mas. e a comíamos à luz de uma só vela. e não existe uma situação em que não se possa ser feliz. obtí-nhamos a ceia fria. Eu acreditava. todos os dias. e nós líamos em voz alta ou íamos à sala de repouso. e este era o nosso tempo melhor e mais agradável. juntos. ma-man sentava-se numa grande poltrona na sala de visitas e picava fumo ou cortava as páginas de livros recém-recebidos. ² Ah. ficávamos comprimidos e atrapalhaDiminutivo de Nicolai. mas eu sabia que ela não tinha motivo para ir ao seu quarto e voltar tão depressa. desagradavam-me essa tranquilidade. certo medo e a consciência de que estávamos um pouco fora do nosso lugar. já me convenci disso há muito tempo. esse perdão de tudo. para que não nos ouvissem em cima e não fossem denunciar-nos a Tatiana Siemiónovna. Ao lembrar agora aqueles dias. agora. mas. a mobília. e considerava-o uma fraqueza. 'e que precisávamos viver ali com muito cuidado e atenção. pois nelas é que se expressava com mais força o amor terno e firme que os unia. às quatro horas. graças à proteção de Nikita. judiciosa e um tanto solene. as solteironas. Eu tinha continuamente a impressão de ser ainda indigna dessa honra. ia regularmente todos os dias. aquela infinidade de pessoas ociosas e indiscretas em nossa casa era incómoda e pesada. e novamente todos se reuniam à mesa. Ele me contava o seu passado. que ele procurava em vão esconder de mim. E. mas também ele. o próprio constrangimento em que vivíamos vivificava ainda mais o nosso amor. Vivíamos os dois como estranhos nessa casa grande e velha. dava o braço à mãe. fazíamos planos. suscitavam o meu respeito. Nessa época. depois nos beijava a ambos. Era eu quem servia o chá da noite. maman espalhava o jogo da paciência ou ouvia as adivinhações de Maria Mínitchna. Durante muito tempo. "Bonito. junto ao espelho do samovar. vejo que muita coisa aquela invariável ordem. Às vezes. depois do jantar. colocar o copo sobre a bandeja de Nikita e dizer: "A Piotr Ivánovitch.

De manhã. também eu tenho razão quando sinto tédio e vacuidade. e existe algo para o qual somente agora eu tenho força . nenhum sacrifício. E. Mas. "Ó bem!. comecei a sentir que a vida se repetia. me faziam sofrer. a neve escondia cada vez mais as paredes da casa. mas eu lhe pedi para não o fazermos. O pior para mim consistia em que eu sentia como. Queria inquietação. E realmente eu era feliz.N. calei-me e mandei chamar para o chá Maria Mínitchna. pelo contrário. Meu marido não pudera ainda aceitar tudo isto como apenas ridículo e insignificante. mas atormentavame o fato de que essa felicidade não me custava nenhum trabalho. além do amor. e não que a vida dirigisse o sentimento. quero algo novo. a ponto de meu coração ficar gelado. e eu lhe mostrarei que é tudo uma insignificância. de tudo o que ele amava. ² N. que me impedissem de amá-lo e que eu o amasse assim mesmo. Não. como ele diz. não alterar a nossa felicidade. acompanhei-a à sala de repouso e pus-me a falar alto com ela de não sei que tolices. que desaparecia. Por que ele me disera que podíamos ir à cidade. Quero ir para frente e. toda a minha alegria desapareceu num átimo. que não poderia compreender o que o preocupava. Mas eu tive a impressão de que era porque me considerava uma criança. Ele começou a ocupar-se de ne- (14) Em francês: o melhor é o inimigo do bom. dizendo que aquilo não valia a pena. o que raramente lhe acontecia. Eu amava-o não menos que antes. enquanto isto. a fim de não mudar o nosso modo de vida. É excelente praticar o bem e viver honestamente. mas ainda teremos tempo para isto. que não encontrava lugar em nossa vida sossegada. e nós sempre vivíamos sozinhos. de modo que Maria Mínitchna ficou surpreendida e começou a perguntar o que eu tinha. em meio ao brilho e ao ruído. na hora do jantar respeitosos. Ele caminhou pela sala. aqueles olhares atuavam sobre mim de tal maneira que eu tinha uma vontade cada vez maior de falar e. Esse estado afetou até a minha saúde e meus nervos começaram a ficar abalados. e. embora ele estivesse comigo. e alhures. que estava hospedada em nossa casa. nós como que voltávamos ao antigo. e éramos sempre os mesmos um em relação ao outro. e. Alguma tolice. sentei-me no divã e tive vontade de chorar. me tomasse em seus braços vigorosos. Sem lhe responder. e. eu me senti pior que de costume. ti nhã escrúpulos e lamentava arrancá-lo. do T. de rir. o tempo ia passando. para vantagem minha. Assaltavam-me repentes de angústia. precisa humilhar-me com a sua tranquilidade altiva e sempre ter razão contra mim. dirigindo raramente os olhos para nós. mas submetia-se à fluência regular. Certa manhã. depois que eu experimentara a felicidade de apaixonar-me por ele. ele foi para o escritório e fechou a porta atrás de si. em compensação. multidões humanas inquietas sofriam e alegravam-Se. e novamente passou a parecer-me que havia em seu íntimo certo mundo peculiar. estava irritado e por isto não queria falar comigo. ao longe. . e consistia em sufocar aquele sentimento. mas havia outro sentimento: de juventude. gócios mais que antes. eu necessitava que o sentimento nos dirigisse na vida. mas o meu amor deteve-se e não crescia mais. mais um movimento e estou perdida e que ele empalidecesse à beira do abismo. reprimidas. mesmo. Eu queria chegar com ele até um abismo e dizer: mais um passo e vou lançar-me ali. à noitinha carinhosos. e não havia quer em mim quer nele nada de novo. nós éramos alegres. que o assustavam. bem como tudo o que dizia Maria Mínitchna. por antipatia ao meu mari- (15) Chefe da polícia de um distrito. Percebi isto no mesmo instante e perguntei-lhe o que tinha. talvez eu tivesse compreendido que o sentimento que me fazia sofrer era um absurdo pernicioso. e me levasse para onde quisesse. ele precisa pensar que eu não compreenderei. de necessidade de movimento. e ele quer deter-se e . cada hora. que eu terminei com peculiar rapidez. Por algum motivo. mas eu queria que todos vissem o nosso amor. cada dia. A sua tranquilidade de sempre irritava-me. do T. me segurasse um pouco sobre o precipício. no qual ele não me queria deixar penetrar. ele viera mal-humorado do escritório da propriedade. Voltei-lhe o rosto.. e repentes de ternura desenfreada e alegria. bem próximo. Amava-o e via que era tudo para ele. chegou o inverno com os seus frios e tempestades de neve. ao mesmo tempo. sem pensar em nós nem em nossa existência. Amar era pouco para miro. Eu queria movimento. dia a dia. enquanto as forças do trabalho e do sacrifício. não sei que novo sentimento inquieto começava a penetrarme furtivamente na alma. Vinha-me involuntariamente o pensamento de que eu só podia salvar-me da angústia mudando para a cidade. e que. Quando deixamos de ouvi-lo. mas de luta. como o nosso sentimento se tornava não livre. Depois do chá. Sem me dizer nada. Ele notou ainda antes de mim o meu estado e propôs-me irmos para a cidade. "E o que ele está remoendo agora? pensei. Conforme eu soube mais tarde. os hábitos da vida acorrentavam a nossa existência numa forma determinada. comecei a sentir-me solitária.Assim decorreram dois meses. que eu procurava esconder dele." Não era disto que eu precisava. e. mas é só ele dizermo. quando quero viver. que o sacrifício procurado por mim estava ali. e não uma fluência tranquila da vida. e que não encontrava satisfação em nossa vida quieta. do qual eu era culpada. o isprávnik cis) reunira os nossos mujiques. dizia eu a mim mesma. Mas ele não me quis contá-lo. desapaixonada. que lhe parece importante. do. exigira deles certos atos ilegais e ameaçara-os. que eram nada divertidas para mim. A minha inteligência e até o meu sentimento estavam ocupados.. Havia em mim um excesso de força. parecia-me engraçado tudo o que eu dizia. do tempo. e não menos que antes era feliz com o seu amor. logo que eu o quisesse? Se não me dissesse isto. na Rússia czarlst*. movimentar-me pensei em vez de ficar parada no mesmo lugar e sentir como o tempo passa por cima de mim. como algo ruim. perigos e auto-eacrifício em prol do sentimento.

contigo. Eu penso que não posso viver sem ti. Atingira o meu objetivo. disse eu.. Não se trata de saber se tu ou eu temos razão. Não só tu me ajudas em tudo. Macha! Estás de mau humor? Respondi com um olhar frio. Somente tu me fazes viver. tudo. mas de algo muito diverso: o que tens contra mim? Não fales de repente. bastante mesmo acrescentei. o meu sorriso não respondeu ao seu. mas. para isto precisa ser apenas uma pessoa como eu. . Estava sentado no escritório. ² Tens sempre razão! disse eu. pus-me a olhar este. tu a possuis bastante. sua tranquilidade desaparecera. novamente. quero viver do mesmo modo que tu. Ele desviou mais uma vez os olhos do trabalho. ² Compreende-me. dirigindo-os para mim. escrevendo. interrompendo-me. não posso deixar de querer livrar-te das inquietações. Simplesmente. que eu fosse novamente uma criança perante ele e que eu nada pudesse fazer que ele não compreendesse e não tivesse previsto. estás vendo do que se trata? começou ele apressado. não se violentar. não me impeças também de viver. Não tenho nada contra ti. por conseguinte. e tão profunda. ² Para quê? ² Por que pensas que eu nunca posso ajudar-te em nada? ² Como: penso? disse ele. Mas agora. neste caso. mas ele mesmo não é simples. ocupo-me com o 'isprávmJc e com mujiques bêbados?. ² Por que não me contaste isso naquela hora em que te perguntei. havia sofrimento e medo em seu rosto. Estás descontente comigo.. foram à cidade. É exatamente isto que ele me aconselha.Mas era justamente então que eu precisava disso.. Ouvindo os meus passos. Mas como podia eu expressar-lhe a minha alma? Perturbou-me ainda mais que ele me tivesse compreendido com tanta rapidez. mas também fazes tudo. mas. Eu não quero tranquilidade. não se frear. E como o contrário seria fácil para ele! Para isto. Eu te amo e. evidentemente com medo de me deixar dizer tudo Como o resolverias ? ² Agora não quero respondi. Mas não consegui dizer até o fim o que pretendia: o seu rosto expressou tanta tristeza. agradava-me tanto destruir a sua tranquilidade. Aí é que está!" Senti que lágrimas assediavam-me o coração e que eu estava irritada com meu marido. Eu sentia despeito pelo fato de que. porque preciso de ti. ² Sim. ² E onde esta a falta de concórdia na tua vida comigo? disse ele. pela primeira vez. tudo estava claro e tranquilo em sua alma. posso contar-te. olhou-me por um instante. Assusteime com esta irritação e fui para junto dele. Este olhar não me agradou. abrindo um livro. Por que não me contaste? ² São bobagens! Um pequeno aborrecimento. que é preciso tranquilizar -. em lugar de acercar-me dele. Que coisa imaginaste! riu ele. Dois mujiques . Embora eu tivesse vontade de ouvi-lo. não precisava levar-me para a cidade. ² Não é só nisto disse eu. Mas tu dizes que assim é que deve ser e. Calou-se um pouco. mas viver com simplicidade. mais uma vez. eu vivi e aprendi isto. tenho tédio. Macha! O que tens ? disse ele.. e continuou a escrever. Nisso consiste a minha vida. .disse eu com tal entonação que ele me olhou surpreso. largando a pena. meu bem prosseguiu ele eu sei que as inquietações sempre nos causam sofrimento. estava então muito zangado. Estará no fato de que eu. onde tudo se reflitia tão rápida e vivamente. eu sei. pelo amor de Deus.. ² Bem. Tenho a impressão de que tudo está bem unicamente porque estás aqui. sem olhá-lo. expressou dor e uma atenção concentrada. como se visse algo pela primeira vèí. ² O que foi que te aconteceu hoje? perguntei. Mas eu não deixei que terminasse. que significava: "Não precisas perguntar! Que amabilidades são essas?" Ele meneou a cabeça e sorriu com timidez e carinho. e não tu.. Eu não quero brincar de vida. e não quero senti-lo. com indiferença e tranquilidade. e tens provavelmente razão. O seu rosto. mas deixa-me compreender qual é a minha culpa. cheguei-me à mesa em que escrevia e. Quero viver contigo em concórdia. enquanto em mim havia amargura e um sentimento que se assemelhava a remorso. tens razão! Dito isto. pensa um pouco. para me dizeres tudo o que pensas. durante o chá? ² Teria dito alguma tolice. sou uma criança querida.deter-me com ele. olhei para ele. . no amor por ti.

eram versos. Para meu grande espanto. Tudo isto era tão variado. a semana passada em Moscou. ele sempre me respondia exatamente o que murmurara: na maioria dos casos. murmurando algo. todos me recebiam com um carinho tão sincero. para a sala de jantar. e. com tamanha alegria (não só os parentes. Sim ? perguntou. os rostos novos tudo isto passou como um sonho. a estrada. Duas semanas depois. perturbada. ele sabe tudo! pensei Como não o amar?!". e frequentemente era-me estranho e desagradável ouvir dele juízos severos sobre algumas dessas pessoas. a instalação no (16) O poeta romântico russo M. depois de pensar um pouco. apartamento novo. os parentes dele e os meus. Abraçou-me e beijou-me. . e não sei que disposição alegre apossou-se de nós ambos. que falasse em mim. Eu tinha pena dele. Sou culpado em relaçãoa ti. Sim. e dávamos passos cada vez maiores. Tinha o hábito de murmurar. como se não fosse eu. nesse momento. Liérmontov (1814-41) N. através de toda a casa. Perdoa-me disse ele. sorrindo. Como se nela houvesse paz! "Não. Levantei-me. mas algum mau espírito. ² Se soubesses o que fazes! disse ele. De maneira igualmente inesperada para mim. os nossos olhos riam. dei-lhe o braço e pus-me a andar com ele. e dizias a verdade. em lugar da altivez mundana e da frieza que eu esperara encontrar nas pessoas. do T. Por que pretendes atormentar-me? Mas eu o interrompi. Não o olhava. e eu perguntava-lhe com frequência o que murmurava. procurando acertar o passo. e cada vez nos erguíamos mais nas pontas dos pés. pensou um pouco e. Parou. O que estás murmurando hoje? respondeu com dois versos de Liérmontov . Ele estava sentado ao meu lado. E o insensato quer tormenta. ele é mais que uma pessoa. Como queiras disse eu. O quê? perguntei. dirigimo-nos com o mesmo passo. como que pedindo perdão. toquei piano para ele longamente. Sim disse eu. I. e dos quais ele nunca me falara. pelo seu amor. já estávamos em Petersburgo. mas também os estranhos) que. ele devia olhar-me severo ou com perplexidade. todos eles só haviam pensado em mim e era só a mim que esperavam. novo. para que eles mesmos também se sentissem bem. Que devemos viajar para Petersburgo disse ele. Peço-te não responder nada e prestar muita atenção. que me pareciam tão bondosas. . O que fazemos agora não é uma brincadeira. e ele ficou caminhando pelo quarto. olhamo-nos e soltamos uma gargalhada. a voz baixa. segundo parecia. num murmúrio. silencioso. terno. tens razão disse eu com frieza. a voz trémula. vergonha por mim e aborrecimento por aquilo que acabava de fazer. Está-se decidindo o nosso destino. onde nos detivemos. apareceram para meu marido muitos conhecidos mesmo no círculo da sociedade que me parecia mais elevado.Macha começou ele. olhando-me com um sorriso. E para grande indignação de Grigóri e espanto de mamãe. que a pacata vida de roça pareceu-me algo muito distante no tempo e insignificante. mas tolices pelas quais eu ficava conhecendo o seu estado de espírito. ² Sei que terás razão. perguntei. É melhor não falares. que estava espalhando a sua paciência na sala de visitas. nas vésperas de um feriado. as novas cidades. Não temos mais o que fazer aqui. VII A nossa viagem para Petersburgo. Tinha a impressão de que. . tudo isto aparecia tão cálida e intensamente iluminado pela sua presença. . Chorei e me senti aliviada. às vezes umas tolices tremendas. alegre. Nessa noite. Espiei: estava fixo em mim um olhar humilde. Tomei-lhe a mão e disse: ² ² ² ² Perdoa-me! Eu mesma não sei o que disse. mas eu sei o que disseste.

num instante. quando me chamou para acrescentar umas linhas. somos pequenos Cre-sos. Para que a sociedade? respondia eu Vamos apenas visitar os parentes. Todos estão entusiasmados com ela. além do jeito amável? E tudo isto simples. um me dizia que em Petersburgo não havia mulheres como eu. acrescentei. qualquer sentimento partilhado. E senti bem-estar e alegria. Quando. singelo e encantador. ou tendo renunciado a isto. O amor pelo marido tornou-se mais repousado. "Aquilo foi tudo à toa. com um riso bonachão. a prima convidou-me para um baile e pediu isto a meu marido. que me perturbavam na roça. cumpria a função de dona de casa. da roça. a todo o meu passado e a todos os projetos desse passado. eu não podia duvidar de seu amor. e por isto devemos morar na cidade somente até a Semana Santa e não frequentar a sociedade. consistia em que eu era de todo diferente das demais mulheres e que havia em mim algo peculiar. Todos. que se extasiava comigo. "A senhora não reconhecerá Macha escrevia ele e eu mesmo não a reconheço. e mesmo uma inteligência típica da sociedade. "e isto para me fartar bem deles". antes de deixarmos a aldeia Aqui. ² Para ser franca contigo ² retruquei ² eu desejava este baile mais que tudo no mundo. porém. e. não quis deixar ler o que escrevera. e que me foi transmitida pela prima. com um sorriso ladino. ² É melhor ficar em casa. depois de uma visita. junto ao qual tudo se movimentava. A opinião geral que se formou a meu respeito nesse baile. que renunciei num átimo. mas eis a vida de verdade! E o que mais vai acontecer?" pensava eu . assim é que eu sou!" -. quase imperceptível. amá-la^ía mais ainda. ainda não começara. . interesses tão novos surgiram diante de mim.. ainda que inconscientemente. e também para ti eu nãp gostaria. e o prazer que experimentei superou todas as minhas expectativas. Encontrei-me de repente num mundo tão novo e feliz. umas brincadeiras. com medo de errar. tremendo interiormente.pensei. e iremos ² concluiu decidido. Este êxito lisonjeou-me tanto que eu disse francamente ao meu marido como gostaria de nesse ano ir ainda a uns dois ou três bailes. Palavra que está bom!" E eu ficava muito contente. antes da Páscoa. de travar relações com alguém ou de uma recepção em nossa casa. ² Se tens muita vontade. Ademais. Temos que ir sem falta. bonachão. como que por milagre. dizia-me mais que todos coisas lisonjeiras. Mal chegamos a Petersburgo.. qualquer pensamento meu era compreendido imediatamente. se fosse possível. senão vamos encalacrar-nos. Não respondi. estes planos ficaram esquecidos. que somente para mim estava iluminado aquele grande salão. ² Parece uma criminosa confessando o que tem vontade de fazer ² disse ele. qualquer vontade satisfeita por ele. esta afabilidade. desapareceram por completo. Acenei afirmativamente a cabeça e senti que corava. e que de repente se apaixonara por mim. Sobretudo uma prima de meu marido. tive a impressão de ser o centro. ² Mas tu dizias que nós não podemos frequentar a sociedade. Frequentemente. com uma dose de fingimento íntimo. completamente esquecido do que afirmara antes. ele escrevera uma carta à mãe. voltaremos para a roça. ele dizia: "Mas que menina! Que bonito! Não se atemorize. quando eu. vamos ² disse ele. tocava a música e se reunira toda aquela gente. e ali nunca me acudiu à mente a pergunta de se ele me amava menos. nos primeiros tempos. e. sor rindo e dirigindo-lhe um olhar súplice. De todos os lados me diziam ora que eu agradara particularmente ao titio. palavra. No baile ainda mais que antes. mulher da sociedade já entrada em anos. segundo parecia. No meu entender. ² A sociedade ainda não é grande mal ² prosseguiu ² mas o que é ruim e feio são os desejos sociais insatisfeitos. que me faziam girar a cabeça. eu sentia que.agradável. pareceu-me até que o amava ainda mais. acompanhou-me com evidente prazer. e eu mesmo não me canso de extasiar-me. em consequência do que eu naturalmente o exigi e li. Fomos. De onde lhe vem esta simpática e graciosa confiança em si.. pareciam dizer-me ou dar-me a entender que me amavam.Eu não podia compreender por que ele tratava-os tão secamente e por que evitava muitas relações que me pare-eiam lisonjeiras. a condessa D. ouvir boa música. Meu marido concordou de bom grado e. além do seu amor por mim» ele também se extasiava comigo. A inquietação e um começo de angústia. . ² Mas queres? Muito? ² tornou ele a perguntar. fui envolvida por tantas alegrias. a primeira vez. quanto mais pessoas bondosas se conhecesse." "Ah! Então. perguntou se eu queria ir. assistir à ópera. a lá seremos nada ricos. A sua tranquilidade desaparecera ali ou não me irritava mais. alegrando-se com os meus êxitos e. O meu êxito junto a todas as nossas relações foi completamente inesperado para mim. uma outra me afirmava que me bastava querer para me tornar a mulher mais fina da sociedade. a começar pelo cabeleireiro e pela empregada e acabando com os dançarinos e com os velhos que cruzavam o salão. frequentar teatros. ele dirigiu-se a mim e. ora que a tia estava completamente louca por mim. e. e também não gostas disso ² respondi. melhor. Ademais. Pouco depois da nossa chegada. e todos eram bondosos. Está vendo como nos instalaremos? disse ele.

ameaçando-o com o dedo e nomeando uma das damas conhecidas de Petersburgo.Então. o resto do tempo parecia-me sentir-se tão bem como eu. Assim decorreu o inverno. Como isto não combina conosco! Deixa isto para os demais. Eu dissera-o para sacudi-lo um pouco. pois estava particularmente silencioso e entediado. Mas. depois de dirigir um olhar ao meu marido. conversando com alguém. ele virou apressadamente o rosto. virá. ainda no baile anterior manifestara a intenção de conhecer-me. de modo mais independente. Deus queira disse ele disse eu. meu marido. e tornava a minha maneira de tratá-lo mais auto-confiante e como que mais descuidada. tudo voltará a ser como antes. que experimentava tamanha alegria e contentamento. que me esmagava. encontrava-se num estado de ânimo particularmente carinhoso e alegre. que estava comprando presentes e obje-tos para amenizar a vida na aldeia. Eu experimentava o sentimento novo para mim de orgulho e auto-satisfação. ² Ah. de prazer e de novidade. contrariamente aos nossos planos. a tal ponto desaparecera de súbito a influência moral dele. fixado interrogativamente em mim. e nós já fizemos as malas .Vou convencê-lo a ficar Certo? me. perigo da sociedade não me atemorizava. o seu vulto não notado. quando. imperceptivelmente para mim. N. com uma careta. seria muito feio se eu não comparecesse. no fundo do salão. que mesmo o único. . às vezes expressando tédio ² espere ! ² pensava ² chegaremos em casa e compreenderás e verás para quem eu me esforcei em ser bonita e brilhante. e por isto amá-lo ainda mais. e dizia que eu era a mulher mais bonitinha de toda a Rússia. Mas ele só me disse isto uma vez. eu não lhe compreendia a significação. . e quando ele. ² Seria melhor que ela fosse esta noite saudar o príncipe disse o meu marido da outra disse a prima e nós vamos deixar todo mundo tonto no sábado. Voltarão essas relações. passamos em Petersburgo mesmo a Semana Santa. Nós queríamos voltar depois de amanhã para a roça respondi vacilante. como que se constrangendo de confessar perante a multidão a sua posse sobre mim. que eu não conseguia compreender o que ele podia ver de desagradável para mim na vida em sociedade. tornou-se claro que ele se aborrecia e achava penosa a vida que levávamos. mas até colocar-me acima dele. Estava tão ofuscada com este amor que eu. logo que fiquemos a sós com Tatiana Siemiónovna. pareciame. só podia tornar-se nociva se eu me sentisse atraída por algum dos homens que eu encontrava ali e assim despertasse o ciúme do meu marido. mas ele confiava tanto em mim. e. parecia tão tranquilo e indiferente. e o que eu amo em tudo o que me rodeia esta noite. Na semana seguinte. Envergonhei-me e fiquei calada.Ulteriormente. a fim de ir à recepção da condessa R. subitamente despertara em todos os estranhos. em nossa casa de Nikólskoie. com quem ele realmente conver sara aquela noite. não obstante isso. A cidade inteira estaria lá. "Espere! ² pensava eu com frequência. era para mim tão agradável não só igualar-me a ele nesse mundo. . que parecia causada por uma dor física. Mas eu tinha mais em que pensar. numa palavra. disse eu de uma feita em que voltávamos de um baile. ² Eu te vi conversar muito animado com N. então em Petersburgo. entrando num baile. a atenção de muitos homens que encontrava dava-me prazer. Machá? Qual é a tua impressão? perguntou ele. lisonjeava o meu amor-pró-prio. para que eu estivesse em condições de sacrificá-los por ele. e eu ainda tenho a esperança de que voltemos às verdadeiras. e era justamente a minha pois já é tempo de voltarmos para a roça. e se as nossas relações chegaram a modificar-se uni pouco..Elas nunca se estragaram. respondi. para que falar assim ? E ainda mais tu. A vida em sociedade. as malas feitas. Marie? perguntou a prima." Eu mesma tinha sinceramente a impressão de que os meus êxitos alegravam-me unicamente por causa dele. Os nossos olhos encontraram-se. com este ar de elegância. via todos os olhos dirigidos para mim. estas relações falsas podem estragar as nossas verdadeiras. Meu marido estava então na outra ponta da sala de visitas. somente por isto ia à recepção. começando a render- ² Isso estragaria os nossos planos. quando já nos preparávamos para viajar. E se às vezes ele se aborrece consolava-me eu também eu me entediei por sua causa na roça. obrigava a pensar que havia certo mérito em meu amor pelo meu marido. Ela dizia que esta insistia muito na minha presença. pensava eu. apressava-se a deixar-me e perdia-se na turba negra dos fraques. Macha! deixou ele escapar entre os dentes. A prima inesperadamente veio visitar-nos e pediu que ficássemos até sábado. procurando com os olhos. mesmo notando às vezes o seu olhar atento e sério. a meu ver. que o príncipe M. e. e eu via todos aqueles jovens tão insignificantes em comparação com ele. nem vão se estragar opinião na época. que eu respirava ali pela primeira vez.

de repente. aparentemente assustado com ò som rude da sua voz. por favor. Eu não partirei. se tens vontade. nunca falara comigo tão friamente. os campos. é a primeira vez que vejo isto riu a prima. com um tom irónico que nunca usaste comigo. Quis dizerlhe que não iria à recepção. no qual não podia ver nada de ruim. pôs-se a caminhar nervoso pelo quarto. Mas não é por causa do príncipe. Vai. de modo que ele precisava passar perto de mim. sem olhar para mim. e a exasperação não me assustou. Em que sou culpada diante de ti? Não é essa recepção e sim algo mais velho e diferente que tens contra mim no coração. não te compreendo disse eu. Tu mudaste muito disse eu. os serões na sala de repouso e as misteriosas ceias noturnas. A sua zombaria não me envergonhou. lembrando envaidecida que não tinha nada a me censurar em todo aquele inverno. que não tinha vontade. Para que então felicidade familiar? Era a primeira vez que eu lhe ouvia palavras tão exasperadamente zombeteiras. ele que sempre temera uma frase que pudesse prejudicar as nossas relações. ² Continuas não compreendendo? perguntou. Apenas ela partiu. Vi que estava mais perturbado que de costume. é por causa de nós todos. com lágrimas de indignação. Como a condêsse R. disse ele por isto podes Tal como sempre nas ocasiões de perturbação. O que queres. Não queria que eu visse nele uma pessoa comum. ele se voltou e. e tudo estará acabado" acudiu-me à mente . o que pode haver de melhor? A luta da grandeza de alma. Não partirei antes de terça-feira. as malas já estão feitas acrescentei. Para que a insinceridade? Não era. ele que era sempre simples e franco? E por quê? Exatamente porque eu quisera sacrificarlhe um prazer. insistiu em que ela viesse! ² Depende dela disse meu marido com frieza e saiu. pela primeira vez tenho nojo do que sinto e não posso deixar de sentir. Mas ele parou na extremidade do quarto e me olhou. vou dizer-te uma coisa. mas ofendeu-me. Nunca ele me olhara com tamanha frieza. E. Decididamente. mim. Era ele quem me dizia isto. Ele estava caminhando pensativo de um canto a outro e não me viu nem ouviu entrar na sala nas pontas dos pés. vendo-me. e porque um instante antes disso eu o compreendia e amava tanto. pelos seus suaves carinhos". mas comunicou-se a mim. Fui para o centro do quarto. "Vai aproximar-se. porque não queria permanecer do jeito como eu o amava. "Ele já está imaginando a nossa querida casa de Nikólskoie pensei. Não! decidi comigo mesma Trocarei todos os bailes do mundo e a lisonja de todos os príncipes pela sua alegre perturbação. e mandarei desfazer as malas ir. minha amiga? perguntou. votando-se descuidada e tranquilamente para Não respondi. quando. . depois de uni suspiro. ² Não. O seu olhar tornou a expressar penetração. ² Ah! Ele está enciumado. ² Neste caso. Deteve-se. e fiquei olhando para ele. que eu vá. ² E então? perguntei. Tenho nojo. fui ter com o meu marido. Fiquei magoada porque ele escondia-se de mim. e tu me exiges. precisava apresentar-se sempre perante mim como um semi-deus sobre um pedestal.s tu quem a temia tanto em outros tempos ? Deves dizer francamente: o que tens contra mim? "O que terá para dizer?" pensei. olhando para ele o café matinal na clara sala de visitas. Trocaram-se os nossos papéis: ele evitava as palavras simples e diretas. parada no mesmo lugar e seguindo-o com os olhos dizes que estás sempre tão calmo (ele jamais o dissera).ponta da sala. E então?! Tu fazes sacrifício (deu uma entonação peculiar a essa frase). Por que falas comigo de modo tão estranho? Estou pronta a sacrificar por ti este prazer. que eu nunca lhe ouvira. e eu faço sacrifício também.e tive até pena de que não fosse mais necessário demonstrar-lhe que não tinha razão. os mujiques. num tom de irritação contida. sabedoria e uma serenidade protetora. Sierguiéi Mikháilovitch. abraçar-me-á. ² Eu queria respondi mas isto não te agrada. além disso. ² Queres ir sábado à recepção? perguntou-me. enquanto eu as procurava. que eu a estou convencendo. isto me atormentou e eu não disse nada à prima. ficou so\nbrio e mudou a expressão humilde e pensativa do rosto.

Tomei-lhe a mão. Tive medo. Irei sábado à recepção. mas eu não me submeterei a eles. lembrando horrorizada cada palavra da conversa que tivéramos. não é verdade? disse. a partir desse dia.. eu tinha medo.. por que ele. Sim respondi. senti que. Eu temia-o e odiava-o nesse instante." Dirigi-me não para ele. S. mas. e lembrando novamente. ² Eu já o esperava há muito disse fala. ficará preocupada.. que eu tanto amei. mas tudo está acabado entre nós dois! gritou ele. como que temendo uma cena sentimental." Não. um sorriso trémulo apareceu-me no rosto. mas ele retirou a mão e. Não sei o que esperavas proseguiu ele quanto a mim. mas os dele somente . aproximou-se de mim e estendeu-me a mão. Assustei-me com o som dessa voz singela e olhei timidamente para meu marido. cairia em pranto e diminuir-me-ia perante ele. quando eu lhe estender em silêncio a mão e olhar para ele? pensei.. Nisso é que consistem os direitos do marido. perguntou-me quando viajaríamos. por causa disso.. para compreender-me. fitando-o nos olhos. chorando. quando a tua amiga penetrou-me no coração com as suas mãos sujas e pôs-se a falar de ciúme.. se abrisse a boca. e a explicação. que era toda a minha felicidade. a dignidade de mulher. E tu. aceitar o meu arrependimento e me perdoar? E por que. em meio ao luxo da sociedade estúpida . podia esperar o pior. porque parecia romper-se para sempre aquela ligação. mas eu a sacrifico. sentou-se na poltrona. E que Deus te conceda grande prazer. Uma sacrificada! repetiu ele. bem como o pedido'de não ir àquela recepção detiveram-se sobre a minha língua. mordaz1. com horror e um sentimento de ofensa. corres ao encontro dele. Tu vais mesmo. oomo se fosse de propósito. depois da recepção respondeu. um abismo cavara-se entre nós." Quanto mais ele falava. Alcancei o seguinte: hoje. Eu nunca o vira nem esperara ver desse jeito. Não tive tempo de lhe responder. mais se inflamava com o som da própria voz. à noitinha. "Ah! Então é este o poder do marido penseL Ofender e humilhar uma mulher sem nenhuma culpa. grosseiro. Terça-feira. tudo o que sucedera.. Mas tu não me atormentarás mais. que soava com um tom áspero. Mais tarde. quando ficamos a sós. Compreenderá a minha generosidade? E o que acontecerá se ele chamar a minha aflição de fingimento? Ou certo de estar com a razão. e lágrimas estavam prontas a escorrer-me dos olhos. "Mas estará ele suficientemente tranquilizado. e por quem? Por um homem que nem eu nem tu conhecemós. mas ao mesmo tempo perturbava-me um sentimento de vergonha imerecida e de amor-próprio ofendido. Calada.. e acabei por alcançá-lo. com um orgulho tranquilo. ² ² ² ² Temos que escrever a mamãe que adiamos a partida disse ele senão. o sangue afluiu-me ao coração. o olhar era mau e zombeteiro. fala. dor por mim. e não queres compreender o que deve sentir em teu lugar o teu marido. ofendeu-me tão cruelmente?. e quis voltar. que já tinha pronta.pensei. saí para o chá e. "apresentar-me perante Sua Alteza é uma grande felicidade para mim. Tenho vergonha por ti. Quando. na presença de S. "Será possível que ele continue a julgar-se com a razãr . onde quei muito tempo sentada sozinha. mas para o meu quarto. irei sem falta. isto é. Mas apenas deixei de ouvir os seus passos.. de concluir o que começara. acrescentando palavras de bondade. senti vergonha e dor como nunca. vendo-te diariamente nessa lama e ociosidade. se em ti mesma não existe sentimento de dignidade. e ele conteve-se. com evidente esforço. saí do quarto. Espero que não seja por minha causa disse eu. bastante afastado de mim. por favor. esquecendo o marido. substituindo esses termos por outros. não queres compreender-me e queres sacrificar-me o quê?. Os seus olhos estavam fixos diretamente em mim. que nos visitava. tudo o que eu te disse. sentindo dilatarem-se desmesuradamente as narinas e o sangue abandonar-me o rosto. pelo contrário. mas tremeram-lhe os lábios. a voz fria e regular.² Tenho nojo porque o príncipe achou-te bonitinha e porque. e vinha-me uma vontade de vingar-me do meu marido. Fui um tolo porque. Terça-f eira respondeu meu marido nós ainda iremos à recepção da condessa R. do meu ciúme. Esquece. E quando pretendes partir? perguntei. fiquei horrorizada com o que fizéramos. vens dizer ao marido que fazes sacrifício. começou novamente. a ti mesma. pela tua humilhação!. já num acesso de incontido furor.. Queria dizer-lhe muita coisa e vingar-me de todas as ofensas. dirigindo-se a mim. encontrei-me com meu marido. eu não sacrifico nada a ti disse eu..

Acostumamo-nos com esta ideia. bem como a estranha conduta do meu marido. não estariam mesmo ao par da minha conversa com ele? A prima acompanhou-me até a nossa casa. quando toda ação. desapareceram o seu perdão e indiferença em relação a tudo. de alegria. toda palavra dele pareciam-me um exemplo de perfeição. As nossas relações de antes. a fim de não tocar nas suas fraquezas. e. percebi que ele não acrescentava mais à minha vida o que lhe acrescentara outrora. Não havia mais entre nós cenas e desavenças. quando nos encarávamos. que não deixaria vestígios. Ambos evitávamos conversas diretas sobre esses temas. ao olharmo-nos. eu estava entre umas senhoras. não insisti muito e fiquei. ele me olhava. Deus sabe como podiam explicá-la. Ela procurou acalmar-me. manifestou o desejo de conhecer o meu marido. como que toldados com algo. pareciam novamente estabelecidas entre nós. em segredo. como se temesse pela minha saúde. e relações boas. e eu senti que o abismo entre nós tornara-se ainda maior. Mas depois. Deixou de confundir-nos o fato de que cada um tinha o seu mundo isolado. quando voltou. e eu os vi conversando na outra extremidade do salão. porquanto. senti tanta vergonha e mágoa que me confundi morbidamente. Havia problemas que evitávamos com circunlóquios. Eu estava certa de que ele era orgulhoso e irritadiço e que devia tomar cuidado. quando eu falava com ele. Ele tinha certeza de que eu não podia viver longe da sociedade. e se . sempre me deixava confusa e me alegrava. dizendo que era uma desavença insignificante e muito comum. nem perturbação. A conversa versou sobre o baile anterior.raramente. senti vazio e solidão. Mas eu tive de ficar ali de pé e ouvir o que ele me dizia. mas um homem bom. os êxtases em comum. essas relações transformaram-se tão imper-ceptivelmente que nem o notamos. amistosas. nãc lamentava deixar-me sozinha. concordei com ela. Não sentíamos o mesmo prazer de outrora em ficar a sós. e fazíamos juízo falso um sobre o outro. e tive a impressão de que eu mesma passara a compreendê-lo melhor. e conversávamos mais facilmente em presença de um terceiro. no outro canto da sala. e provavelmente percebeu que eu me sentia muito constrangida. sobretudo. Apareceram para cada um de nós interesses e preocupações próprios. Desapareceram completamente os seus acessos de alegria na minha presença. desconhecido. Levantando-me. e parecíamos amar-nos. onde não precisava dele. este juízo a seu respeito ficou como um crime sobre a minha consciência. e como olharia. explicou-me também. quando todo pensamento ou impressão não comunicados a ele pesavam-se como um crime.diria. e temêssemos aproximarnos dele. Percebi que o seu temor não era pela saúde. mas que estava com medo de que não viveríamos bem na roça. ele satisfazia todas as minhas vontades. mudamo-nos para o campo. quando. Era como se ambos sentíssemos o lugar onde ficava o abismo que nos separava. O príncipe. transformaram-se completamente a nossa vida e as nossas relações. tive vergonha da ideia que o pr-íncipe faria de mim e. dava-nos vontade de rir. nesse momento. procurei involuntariamente meu marido com os olhos e vi que. o comportamento juvenil. eu já me restabelecera o suficiente para acompanhá-lo. em lugar de irmos para a roça. examinando-me de cima. etc. Não me contive e contei-lhe tudo o que sucedera entre nós por causa dessa infeliz recepção. provavelmente. ficávamos atordoados e com vergonha de olhar um para o outro. não le apareceu mais o olhar profundo que. deixamos até de ver-nos com frequência. e que não tentávamos mais fazer comuns. de onde meu marido viajou sozinho para junto da mãe.estavam olhando e não me diziam nada. e que. e um ano depois até deixamos de ficar atordoados. Apenas se abordava a nossa vida na aldeia ou o baile. Estava certa de saber tudo o que ele faria e. Eu sabia muito bem que ele era o meu marido. O meu marido de repente corou. A nossa conversa foi breve. e não temia. sorriu e olhou na minha direção. não algum homem novo. em meio à conversa. que a vida de roça não me aprazia e que era preciso submeter-se a este gosto infeliz. que eu conhecia como a mim mesma. mas essas relações eram de todo diferentes das anteriores. Tive a impressão de que todos notaram o meu embaraço. VIII A partir desse dia. estranho para o outro. de meu marido. conversamos sobre o meu marido. que antes me indignavam. o seu rosto pareceume velho e desagradável. mas ele convenceu-me a ficar ali. fez uma saudação profunda e afastou-se do príncipe. achou que ele se tornara muito arredio e orgulhoso. Ao afastar-se de mim. Corei também. nem encabulamento. de modo que eu tive de me levantar. Fomos à recepção. Havia muito tempo já que deixáramos de ser um para o outro a pessoa mais perfeita do mundo. nas proximidades. quando o príncipe acercou-se de mim. sumiram as orações. antes. ele estava continuamente de viagem. disse algo a meu respeito. o que já acontecia . a fim de conversar com ele. a sós com ele. do seu ponto de vista. Fiquei adoentada antes do dia da partida e. como se estivesse a sós comigo mesma. eu procurava agradar-lhe. mais tranquilamente. mas. Na recepção. virava a cabeça. o caráter do meu marido. De repente. julgávamos um ao outro. Na sua ausência. eu não experimentava alegria. ele não tinha um lugar para se sentar junto a mim. e um rubor cobriu-me o rosto e o pescoço. sobre o lugar em que eu passava o verão. já fazíamos comparações com gente conhecida e. eu aparecia continuamente na sociedade. específicos. pelo caminho. Quando ficávamos a sós. Quando ele estava de partida. sob o olhar do príncipe. De súbito. o 'meu marido.

O meu marido conhecia-o e tratava-o com frieza e altivez. Passamos a maior parte daqueles três anos na cidade. sobretudo. tornou-se um hábito. de passear comigo a cavalo. voltou a ser o homem tranquilo. embora fosse muito mais belo. o marquês italiano D. era meu marido e nada mais. quando ele chegava. Não era a mesma alegria que em Nikólskoie. Isto não me alegrava nem entediava mais. elegante e. assustava-me. mas todos indispensáveis. em lugar da encantadora expressão de bondade e de tranquilidade ideal do meu marido. e não podiam já tornar-se melhores ou piores. no decorrer dos quais as nossas relações permaneceram as mesmas. nos lábios. este sentimento. quando eu sentia ser feliz no próprio imo. tinha a impressão de que fora ele quem se enganara. Não esperava dele nada. estratificaram-se. Numa palavra. com uma orgulhosa comiseração. chamou a minha atenção mais que os restantes. dos seus olhos brilhantes obrigava-me a enrubescer e a desviar o rosto. mais tranquilo. nosso embaixador. e da vida familiar eu não exigia nada além daquilo que ela me dava. Ele espantava-me com esta semelhança. e encontrando ali meu marido. Eu supunha então que ele me amasse apaixonadamente. eu tinha a impressão de que algo não estava bem. eu ia à aldeia somente por dois meses. estava repleta. Todo o meu tempo. Nos primeiros tempos. pelo contrário. eu me sentia solitária. bonito. Eram todos vultos igualmente indiferentes. soube que. pensava nele com frequência. que algo me machucava o coração. Embora não desse conta disso a mim mesma. mesmo que eu não saísse de casa. quê"a princípio me deixou ofuscada com o brilho e com as li-sonjas ao amor-próprio. e a minha consciência parecia tranquila. mas de via ser ainda maior. que não existiam relações de outro tipo e que elas nunca existiram entre nós. mas. todos os nossos conhecidos pareciam gostar de mim. houve em nossa vida familiar dois acontecimentos importantes. eu me sentia bem. e que eu não podia transpor. meio amigável. transformou-se num hábito e na fria execução de um dever.ele fazia algo ou olhava de maneira diversa da que eu esperava. na minha ausência. Assim se passaram três anos. no queixo comprido. e no terceiro ano viajamos para o estrangeiro. para os quais ele era apenas o marido da sua mulher. contra a minha vontade. desde tarde da manhã até tarde da noite. o sentimento maternal apossou-se de mim com tamanha força e causou-me um êxtase tão inesperado que eu pensei estar em vias de iniciar-se para mim uma vida nova. Formou-se junto a mim um círculo. impôs sobre mim as suas cadeias e ocupou em minha alma todo o lugar disponível ali para o sentimento. como que se detiveram. os meus vestidos eram os melhores na estação de águas. e de dizer-me . embora duas horas depois esquecesse completamente essa alegria e não tivesse mais o que falar com ele. o tempo estava lindo. No verão íamos a estações de águas. Quando ele partia. adoeci e passei duas semanas sem sair de casa. Parecia-me que tudo devia ser assim mesmo. graças à ousadia com que expressou o seu entusiasmo por mim. ao entrar de vestido de baile no quarto da criança. por ocasião do nascimento de nosso primeiro filho." A morte da mãe causou-lhe grande aflição. pensava. era-lhe penoso.que eu era bela. Agora. frequentemente desagradável. Eu sentia essa fronteira da ternura que ele agora como que não queria.. Era moço. Vi-o da janela algumas vezes. nas proximidades da nossa casa. Quando. Apenas um deles. Não perdia nenhuma ocasião de estar comigo.. a fim de fazer sobre esta o sinal da cruz. mas que não alteraram a minha existência. eram florescentes. de maneira ainda mais acentuada do que em relação aos nossos demais conhecidos. Muitas vezes. e de modo algum vou fingir. que havia entre nós. cercava-me uma atmosfera de elegância e beleza e eu me sentia muito alegre. Entre a mocidade dessa estação não havia nenhum homem que eu distinguisse de algum modo dos demais. mas.. Então. antes que adormecesse. as nossas finanças. Hor-rizava-me de repente com a minha indiferença pela criança e perguntava de mim para mim: "Serei eu pior que as outras mulheres? Mas o que fazer? Amo o meu filho. tenho tédio. chegara lady S. era-me agora mais agradável. o inglês muito louro e o francês de barbicha. tinha boa saúde. viver na roça. e o olhar fixo. e ficava envergonhada. mesmo nesse verão. a minha vida. feliz por ter merecido essa felicidade. e parecia-me ler o mesmo nos seus olhos. depois disso. de dançar. logo apossou-se totalmente dos meus gestos. todos eram iguais para mim. não esperava nada. era outra coisa. Não queria nada. e que me fazia a corte. de acompanharme ao cassino. eu sabia que era bonita. eu temia aquele homem e. O meu marido. pacato e caseiro de antes e transferiu para a criança toda a sua ternura e alegria de outros tempos. mas não havia tempo para se ficar pensando fosse no que fosse. diminuindo sempre. O jovem e o velho. que o meu sentimento era grande. Foram o nascimento de meu primeiro filho e a morte de Tatiana Siemiónovna. conforme dizia. e eu procurava esquecer essa tristeza da mudança confusamente percebida. levá-lo a um tom de confiança tranquila. havia muito esperada e famosa pela sua beleza. entregando-me a divertimentos que estavam continuamente à minha disposição. e embora eu a lastimasse e partilhasse o desgosto do meu marido. A vida de sociedade. guando sentia desejar mais e mais felicidade. Queria às vezes acalmá-lo. no olhar. decorridos dois meses. lembrava o meu marido pelo sorriso e pela expressão da fronte. mas dava a impressão de que tudo sempre devia ser assim e não de outra maneira. nunca mais ficava a* sós comigo mesma e temia pensar na minha situação. depois da doença. mas ele repelia abruptamente todas essas tentativas e continuava a perturbar-me desagradàvelmente com a sua paixão incon-fessada. atirava-me de alegria ao seu pescoço. algo animal e grosseiro. viver em Nikólskoie. mas sempre pronta a confessar-se. mas não posso ficar sentada com ele dias a fio. eu notava o seu olhar como que de censura e severamente atento. parecia-me. ainda que tivesse de modo geral. quando tornei a frequentar a sociedade. etc. Isso entristecia-me às vezes. moderada. e pensava nele às vezes. Nesses três anos. na sua ausência sentia mais intensamente a significação do seu apoio para mim. Apenas nos momentos de uma ternura quieta. . que formavam a alegre atmosfera de vida ao redor de mim. fixo em mim. mesmo do velho príncipe K. não temia nada. saí pela primeira vez à noitinha a fim de ouvir música. Eu tinha então vinte e um anos. sobretudo nos primeiros tempos. estava ocupado e não me pertencia. No fim da estação.

Sob o influxo deste mesmo sentimento sério. M. Que feliz mortal! Ele ainda pode amar! riu o francês. e. ouviam-se passos e vozes. e eu fomos visitar o castelo. entre os quais se viam ao longe as bonitas e elegantes redondezas de Baden-Baden. não sei se de prazer. instantes mais tarde. diminuía obstinadamente o passo. e realmente era encantadora. mas o sangue afluiu-me ao coração." Concluiu dizendo que eu fazia muito bem não tentando lutar com lady S. dobrou uma curva da estrada e ficamos completamente a sós. do T. M. O francês comparava-me com ela e pormenorizava a beleza de ambas. e apressava-me para chegar o quanto antes ao meu quarto solitário no Hotel de Bode. deixei de aparecer em sociedade numerosa. Meu marido fora passar alguns dias em Heidelberg. aproximou-se de mim e fiquei com medo quando. e dirigimo-nos para a caleça. Comecei a prestar atenção e involuntariamente ouvi tudo que se dizia. Sentamo-nos para descansar e olhamos em silêncio o sol que se punha. em cima. sobre a felicidade inesperada de me encontrar e alguma coisa mais. como numa moldura. com um riso alegre e cruel. Pela porta. Quase ninguém ficou para me fazer companhia. Desciam a escada e. secretamente. c om eça mo s a conv ersar a sério. onde esperaria o fim do meu tratamento. No dia seguinte. mas as palavras do marquês surpreenderam-me e deixaram-me indignada com a sua brutalidade. e de um francês. eu tinha trança mais bela. porém eu não o ouvia. e eu tive a impressão de distinguir o meu sobrenome. sozinha. mas frio para nós. lady S. M. somente de manhã ia de raro em raro tomar as águas. Eu estava ofendida com o que dissera de mim o francês. via-se o panorama de Baden. Mas (17 Em francês: boa sorte. a fim de expressar com . apesar disso.. cintilava o sol. e os seus dedos sem luva tocaram-me o braço. e também este eu hei de levar ao fim. caminhava suavemente. e até me apertava o braço. ele me deu o braço. apareceu-me então pela primeira vez como uma mulher boa. estava com dezenove" anos. e o meu cavalheiro. mas o círculo formado junto à leoa recém-chegada era ainda melhor. seguindo L. e tudo se alterou definitivamente aos meus olhos. vou segui-la disse rudemente uma voz com sotaque italiano. "Não pode ser!" pensei e apressei-me decididamente. mas. em meio aos castanheiros seculares. Desculpe disse eu com frieza e tentei retirar o braço. Não podia recusá-lo. e eu disse isto. M. Um sentimento novo para mim. inteligente. ² Bonne chance.. embora tivesse consciência. e do francês. que ia na frente com o amigo dele. M. russos. atraiu toda a sociedade para uma caçada e. não sei se de horror. no filho. ainda estávamos longe da caleça. Corei quando o marquês D. M. Só se ela não quiser consolar-se com você acrescentou ele. enquanto esta "sua disse ele é mais ou menos uma dessas princesinhas russas que deram para aparecer aqui com tanta frequência. Eu não posso deixar de amar! Sem isto. As vozes eram conhecidas: tratava-se do marquês D. penetramos no castelo. Falamos de família. N. quando distingui as suas palavras. Alegando que estava fraca. belo. frescor. para a roça. mas a renda da minha manga prendeu-se num botão dele. Não dizia nada de ofensivo. mas eu ainda não o confessava a mim mesma. Tinha asco de senti-lo tão perto. O meu romance nunca se interrompe no meio. Tinha no íntimo certo sentimento mau. a fim de voltarmos para a Rússia. tivemos vontade de voltar para a Rússia. O marquês inclinou para mim o peito. e que eu conhecia também. do vazio daquela vida na estacão de águas. como jamais o fizéramos.fui recebida com satisfação. Explicava minuciosamente o que eu tinha de bonito e o que havia de bonito em lady S. e sentimos ao mesmo tempo tristeza e bem-estar. L. Mas L. Enquanto avançávamos a passo em nossa ca-leça. caminhei apressada atrás de L. em liberdade. À minha volta.. O marquês dizia algo sobre a vista magnífica. mon ami d1 ?) disse o francês. meu amigo. pôs-se a separar a manga do botão. pois eles dobraram uma esquina. terminar o quanto antes a cura de águas e regressar à Eússia. de filhos. De uma feita. Falavam de mim e de lady S. ² Amar! disse a voz e calou-se um pouco. ou visitava as redondezas. M. todos só falavam dela e da sua beleza. eu estava morta e enterrada. Não ouvimos mais nada. na Rússia. e que em Baden-Baden. Eu tinha já um filho. Atormentava-me o pensamento de que eu ouvira as suas palavras e que. organizou uma excursão a um castelo. queria algo. surgiram por uma porta lateral e ficaram muito surpreendidos ao encontrar-nos. L. Nessa ocasião. ele não me temia. percorreu-me frígido a espádua. sobre a estrada tortuosa de macadame. As vozes ressoaram com maior nitidez. Tudo e todos me pareceram estúpidos e enfadonhos.. envergonhava-me de algo. Se ela partir daqui. que eu conhecia desde muito tempo. em tudo o que acabara de se levantar em meu íntimo. procurando segurar o braço de modo a não sentir o contato. mas impressionou-m e d esfavoravelm ente a presun ção em seu rosto. sem olhar para ele. Olhei-o. a fim de refletir bem. e raramente vinha visitar-me. Tive medo. não há vida. lady S. uma russa minha conhecida. com quem se podia falar a respeito de tudo e de quem era agradável ser amiga. ao sairmos do castelo. mas recusei-me a participar. Fazer da vida um romance é o que pode haver de bom. L. pensava em meu marido. sem lhe responder. ² ² ² ² sem dúvida alguma ele me retinha. como que tentando deter-me. seu amigo. Entre os seus muros. de que ele apenas nomeara o que eu mesma sentia. havia sombra. e os seus passos ressoaram do outro lado. e lady S. pareceu-me aborrecido tudo o que antes era tão alegre. depois do jantar. a lady era uma grande dama. ilum ina da s pelo poent e. Ela me foi mostrada. Nesse dia. quis chorar. Tenho pena dela. sobre as ruínas. na companhia de L. em compensação. a lady possuía um vulto mais gracioso. parecia-me.

a minha visão obscurecia-se. toda trémula e fria. senti um beijo sobre a face e. com que eu queria detê-lo. Por que não utilizou sobre mim o poderio do seu amor? Ou não me amava?" Mas. ao carinho dessas mãos brancas de veias finas e com anéis nos dedos. bem junto ao meu rosto. o meu pescoço. desde o dia da nossa mudança para Petersburgo. por que evitou explicações. que tivessem existido havia muito tempo e com as quais eu tivesse acabado qualquer relação. os nossos projetos. esses bigodes compridos. comecei a voltar ao normal e a representar melhor para mim mesma o meu passado e o meu futuro. Lembrei-me do meu marido e do filho como criaturas queridas. o abismo das delícias proibidas. o beijo de um homem estranho estava ali sobre a minha face. Aquele beijo queimava-me a face com a vergonha. Tudo isto durou um instante. úmidos. em cada olhar seu. quando o trem partiu e recebi ar fresco pela janela. não tinha o que confessar nem motivo para lhe pedir perdão. por mais culpa que ele tivesse. de narinas dilatadas. resgatarei tudo perante ele com lágrimas de arrependimento pensei e ele há de me perdoar. "Que mais e mais vergonha e pecado se acumulem sobre a minha cabeça. olhavam-me apaixonados. repercutiam tão fortemente em meu íntimo a perturbação e a paixão desse homem odioso. mas eu não compreendia as suas palavras. Mas. e as palavras. eu esperava e desejava algo. as alegrias dele no decorrer de todo esse tempo? E me senti culpada perante ele. para a Rússia. nem que seja amanhã." pensei pois bem. Em cada palavra. Quanto mais eu me aproximava de Heidelberg. lembrei vivamente os nossos primeiros tempos na aldeia. Tirara o chapéu e perguntava algo. ² Como foi que tiveste esta ideia? disse ele Imagina que eu pretendia ir amanhã para junto de ti. pus-me no mesmo instante a arrumar as malas para viajar naquela noite para Heidelberg. o meu peito. eu esperava refletir sobre a minha situação. por que me ofendeu? perguntei a mim mesma. Toda a minha vida de casada. ainda que surpreendido. Voltei a mim. A aflição inconfessada e o arrependimento deviam conservar-se dentro de mim. M. desvencilhei ò braço e. que eu era tudo para ele. por que foi insincero comigo.um olhar frio todo o desprezo que sentia por ele. pouco acima do punho.. Sentamo-nos na caleça e somente então olhei-o. e. que lhe aparecia sob o chapéu de palha e que lembrava a testa do meu marido. com uma pressa febril.. A minha vida pareceu-me tão infeliz. sorrindo. eu o via inteiro e tão bem. as suas mãos apertavam-me os braços com mais força e queimavam-me. "Mas por que ele não me deteve. que mais e mais desgraças se acumulem sobre a minha Ele me envolveu com um dos braços e abaixou-se para o meu rosto. senti que não tinha nada a dizer-lhe. Mas apenas entrei no quarto do meu marido e vi o seu rosto tranquilo. mas tinha medo de estar sozinha. e esses lábios aproximavam-se de mim. porém o meu olhar expressou outra coisa: susto e perturbação. olhando para ele." Je vous aime (18 ) murmurou ele com uma voz que era tão parecida com a voz do meu marido. nesse momento. eu parecia perceber esse desprezo e uma comiseração ofensiva. os seus lábios abertos diziam algo. Pela primeira vez. examinando mais de perto o meu rosto. pela primeira vez surgiu-me na cabeça a pergunta: quais foram. sem olhar para ele. Ficando sozinha no quarto. apareceu-me de repente sob uma luz nova e depositou-se sobre a minha consciência como uma censura. e não acreditava em que ele me perdoasse. untados. horrorizada. Tinha a impressão de que ela falava comigo unicamente por compaixão. pareceu assustar-se. mal contendo as lágrimas. estranho para mim! Eu queria tão incoercivelmente entregar-me aos beijos dessa boca rude e bonita. afinal. secavam-se-me na garganta. O fogo percorria-me as veias. (18) Em francês: amo-a. reto. essa barbicha. Sem forças para falar. Mas esse instante foi terrível! Nesse instante. mas. a fim de reunir-me ao meu marido. De repente. e que me atraía. M. mais nitidamente imaginava o meu marido e tanto mais terrível me parecia a próxima entrevista. Os seus olhos incendiados. O que tens? O que te aconteceu? ² Nada respondi. eu tremia. e era insuportável para mim a lembrança de meu marido e do filho. eu mesma sem saber para quê. que me chamava. estaquei. diziam que ele me amava. nem para me mexer. Tinha tanta vontade de me atirar de cabeça no abismo de repente aberto. Vamos para casa. o futuro tão sem esperança. falava comigo. "Dir-lhe-ei tudo. Odiava-o e temia-o. e eu o sentia. o passado tão negro! L. quase corri na direção de L. "Sou tão infeliz cabeça.. M. a fim de ocultar o desprezo que eu suscitava nela. Mas eis que ressoou além da curva a voz de L. esse nariz bonito. Não acabei de tomar o chá que me serviram. Vim de vez. essas faces bem escanhoadas e esse pescoço queimado. ele me era tão estranho. tudo." Mas eu mesma não sabia o que era aquele "tudo" que eu lhe diria. em ponta. Quando me sentei com a empregada no vagão vazio. as suas mãos mexiam em meu braço. . O seu rosto era tão compreensível para mim: essa testa abrupta e baixa. Não compreendia a repugnância inexprimíveí que eu sentia por ele nesse instante.

E ele é sempre o mesmo. apenas se tornou mais funda a ruga que tem entre as sobrancelhas. não nos espantamos com o porquê é o para quê de sermos tão felizes. e não pretendemos. a fim de me atormentar. Tive vontade de ficar sozinha e chorar. tudo.Olhou-me bastante tempo. E também sei que dirás uma coisa e farás outra. As minhas relações com o marido continuavam também a ser friamente amistosas. o seu olhar indeciso e coma que envergonhado. ou para lhe pedir que rezasse comigo umas orações. os mesmos cantos de rouxinol vinham do açude. das cortinas. com os meus sonhos de moça. Às vezes. ela até nos constrangia.. E onde estavam aquelas visões? Onde estavam as canções queridas e suaves ? Realizara-se tudo o que eu mal ousara esperar. como outrora. Os sonhos impreciso». nós o julgamos. Vamos para a roça. todas as vezes. nas quais eu não precisava e não queria agora participar. como se me suspeitasse de fingimento e temesse. o mesmo caminho. ² Ah! meu bem. e a mesma lua estava parada sobre a casa. e pensei muito em ti e na nossa vida em comum. As crianças ainda eram demasiado pequenas e não podiam unir-nos. chorar. das paredes. O inverno foi tanto pior para mim que eu estive doente e só me refiz após o nascimento do meu segundo filho. pela centésima vez. como se não a tivesse mais. não há o que dizer. na aldeia. possui mais cabelos grisa- . Ele com as suas ocupações. tão impossível! Era tão frio'tudo o que podia ter sido tão próximo e querido ! Tal como outrora. chorar. Ali. com o meu antigo quarto de cortinas brancas. Assustei-me com os pensamentos que podiam acudir-lhe à mente. Mas agora não precisávamos da solidão. sem alegria. Já se podia perceber entre nós determinadas relações de conveniência. os mesmos lilases apareciam em plena floração. sej também tudo o que tu queres dizer. Chegou. é apenas um sonho. contar a todo mundo aquilo que estamos pensando. em silêncio e com atenção. e na qual eu de noite fazia o sinal da cruz sobre ô gorducho Kokocha <19>. mas que nele estava ainda vivo o sentimento de antes. inclusive porque estamos com pouco dinheiro. e de súbito erguiam-se de todos os cantos. Mas conta-me o que te aconteceu. vinha-me à mente que ele apenas fingia ser asim. porém não reviveu aquilo que a habitava. mas expressam comiseração. ficamos murmurando como conspiradoras. sobre a qual o rostinho de Vânia (20) espiava dentre os cueiros. Eu sei que não vais tolerar. livra-me de cenas sentimentais disse ele com frieza é excelente que tu queiras ir para a roça. Corei sem querer e baixei os olhos. e disse com uma força de fingimento que nem suspeitava em mim: ² Não aconteceu nada. mas não a entregava também a nada nem a ninguém. tristeza e simpatia. que não o ofendia nem entristecia. mas.. E tudo era como dantes: viam-se pela janela o mesmo jardim. tornaram-se realidade. amarelou. Eu imaginava tudo o que ele podia estar pensando a meu respeito. de Nikólskoie reviveu. como em outros tempos. toma o teu chá. era como se ele me castigasse por algo e fingisse não o perceber. Mas. fixo em mim. mas. a primavera. como outrora. A princípio. Vivíamos cada um do seu lado. quanto a viver lá para sempre. isto será melhor concluiu. era a mesma casa velha com terraço. erguendo-se para chamar o garção. quando encontrei. a minha língua não se moveria para lhe dizer de repente que o amava. parecia evitar a franqueza. e sim falta de uma necessidade de sinceridade. os olhos não lhe brilham mais de esperança e alegria. como outrora. Faz tanto tempo que sou culpada diante de ti! Por que viajas comigo para lugares que não te atraem? Faz muito tempo que sou culpada diante de ti repeti. o mesmo banco ali sobre a ravina. com a mesa dobradiça e um piano no salão claro. no entanto. tudo se transformara de maneira tão terrível. a nossa casa em Ni-kólskoie entrou em reforma e mudamos para Pokróvskoie. Agora. eu muitas vezes parava em meio ao quieto quartinho. antigas e esquecidas visões da mocidade. porém. mas depois habituei-me à ideia de que não era insinceri-dade. difícil. Depois de fazer sobre eles o sinal da cruz. perguntamos uma à outra por que tudo se transformou tão tristemente. Mamãe não existia mais e estávamos a sós. estou sentada com Kátia na sala de visitas. como ridícula. que pareciam esquecidos ali. cada parede e cada divã lembravam-me o que ele era para mim e o que eu perdera. e a realidade transformou-se numa vida pesada. Havia neste pequeno quarto duas caminhas: uma que fora minha. como nos tempos da nossa vida na cidade. a fim de passar o verão. Não! Ele não queria e não podia compreender-me! Eu disse que ia olhar a criança. de braços e pernas espalhados. Kátia e Sônia vieram ao campo. eu com o meu ócio. toda sensibilidade. apenas senti tristeza e tédio sozinha. e ofendi-me com os pensamentos terríveis que atribuí a ele. cada taco do assoalho. confusos. e lágrimas voltaram-me aos olhos. e afastei-me dele. e que seja para sempre. e. e a outra pequena. Vozes de outrora entoa" vam canções de moça. ou então chamá-lo para ouvir-me tocar piano. IX A casa vazia. Não nos extasiamos mais com ele. há muito não aquecida. conversando a respeito dele. não me dando toda a sua alma. a mesma área. Mas Kátia ficou enrugada. Nos dele um sentimento de ofensa e ira. e eu procurava suscitálo. Havia entre nós como que uma ofensa não perdoada. E agora. Não havia por que pedir perdão: ele me castigava apenas não se entregando a mim totalmente. frente a frente. O seu olhar e o tom da sua voz diziam: sei tudo. faiscou disse. eu ficava ofendida com este medo da sinceridade.

Apoiei ambos os braços sobre o piano. fui para baixo e. Era em vãp que eu procurava acalmar-me: esperava e desejava algo. ora enfraquecia de repente. que me ficaram no rosto. procurando esquecer e não pensar. Por que para outrem. N. e. o antigo amor por ele. não se movia uma folha. via-se pela janela um tufo de lilases sobre o poente claro. vozes conhecidas e cautelosas ouviram-se à entrada da casa. fino e incessante. uma nuvenzinha escura de primavera estava suspensa sobre a casa e o jardim. e ressoaram na sala os sons conhecidos. ou então ensina-me o que fazer e como viver agora. as janelas estavam abertas para o jardim. quando não se tem vontade de viver mesmo para si? Eu abandonara completamente a música desde que nos mudamos para Petersburgo. De uma feita. Kátia e Sônia foram com ele a Nikólskoie. de génio brando. do T lhos nas têmporas. Mas ele não estava. Não há necessidade de trabalho. Rouxinóis dialogavam a intervalos. eu mesma não sabia o que mais me faltava. As dálias e tufos de roseiras. Mas foi um sentimento diferente dos de outrora que respondeu ao som desses passos conhecidos. os passos ouviram-se atrás de mim e certa mão pousoume no ombro. Quando terminei. Terminada a primeira parte. mas o seu olhar profundo e atento está continuamente afastado de mim por uma nuvem que o tolda. a cadeira. esperando-os. Elas virão nesse instante. somente atrás das árvores via-se uma faixa limpa de. bom marido. "Será possível que já vivi minha vida?" pensei. de modo que dava vontade de fechar os olhos. Ele voltou de cima e sentou-se a meu lado. disse ele. soergui horrorizada a cabeça e.Sim retruquei. porém não há em mim amor. e sempre o mesmo andante. ouvi que ele se mudara para além da alameda. um rouxinol tentou instalar-se numa moita sob a janela. Vamos esperá-las retruquei. os velhos cadernos de notas. Como foste inteligente em tocar esta sonata Continuei calada. e elas vêm a pé desde a estrada principal disse ele. nem desejo de amor. mas agora o velho piano. de uma dolência solene. A mesa estava posta para o chá. e saí para o terraço. começava a escurecer. depois sobre o terraço. e só sentir esse doce aroma. onde trinara uma vez e calara-se. fiquei sozinha em casa. pareciam subir lentamente sobre os seus brancos e lisos tutores. E parecem-me tão distantes e impossíveis os antigos êxtases religiosos. Mas parecia não existir mais nada pela frente. pus-me novamente a tocar. O vento imobilizara-se. Eu sou a mesma. (20) Diminutivo de Ivã. Não tomaste chá? Meneei negativamente a cabeça e não me voltei para ele. e tudo estava à espera da suave chuva de primavera. alongados e imóveis no seu canteiro negro e revolvido. N. quando eu saí. pairava sobre este grito. do T. Passei muito tempo sentada assim. espiei de todo inconsciente. e o frescor noturno jorrava pelas janelas abertas. não ver nem ouvir nada. a sua voz singela. no fundo da ravina." Rodas ressoaram sobre a erva. sobre o mesmo banco em que estivera sentada no dia da nossa declaração. e ouvia-se como voavam sobressaltados de um lugar a outro. o irreversível. bondosa. Saí para o balcão e sentei-me sob a lona do terraço. . há muito não mexida. como se todo o ar florisse. mas ele perguntou pelas crianças e foi vê-las. Novamente nesta primavera. era como se eu nada mais desejasse nem esperasse. Um indefinido som aquático. O sol'já se pusera. calando-se em seguida. e inventando timidamente algo novo. a fim de não revelar os sinais de perturbação. Abri a sonata quasí una. céu. Parece que os nossos vão se molhar. e ficamos muito tempo calados. por ondas. Não se via nem se ouvia ninguém. ouvindo-me. lembrando com sofrimento o passado.(19) Diminutivo brincalhão de Nicolai. para o canto em que ele costumava ficar sentado. esperando que me seguisse. . sentindo-me adoentada. desmentiu que eu tivesse perdido algo. "Meu Deus! pensei Perdoa-me se eu sou culpada. permanecia no mesmo canto. fantasia e pus-me a tocá-la. Novamente a sua presença. sentei-me ao piano. nem satisfação comigo mesma. a antiga plenitude da existência. ainda sem flores. igualmente em expectativa. ora se fortalecia. por um velho costume. rãs coaxavam. que acabava de se acender. que as enxotaria para a água. fechei o rosto com as mãos e fiquei pensativa. com o poente que se apagava e uma estrelinha noturna. e. A sombra da nuvenzinha leve pairava sobre todas as coisas. esgoelan-do-se como se fossem os seus últimos gritos antes da chuva. O que mais eu tinha a desejar? Ele era bondoso. em uníssono e com um som penetrante. Eu não compreenderia agora aquilo que antes me parecia tão claro e justo: ser uma felicidade viver para outrem. o aroma do lilás e da cereja-brava pairava tão intenso no jardim e sobre o terraço. bom pai. a fim de olhar a construção. o cavalo começou a fazer das suas. atraíram-me novamente. um talo de erva. ou devolve-me tudo o que eu tirtha de tão belo em meu íntimo.

² E não lamentas nada do que passou ? continuei a perguntar. Que bom! meus cabelos molhados. A chuvinha fresca borrifou-me irregularmente os cabelos e o pescoço. Ê preciso mandar para elas um guarda-chuva e galochas. a folhagem. perto do terraço. completamente feliz! disse ele. Do que mais precisa o homem? de nada. há tanto desejo de algo. sentando-se sobre a balaustrada e passando a mão sobre os Esse carinho singelo atuou sobre mim como uma censura. como que lembrando alguma coisa. agora. Não se pode! . novamente coaxa-ram as rãs. escorregadia. querias algo mais e mais." Também me sinto bem disse eu mas dá tristeza justamente o fato de que tudo seja tão bom diante de mim. Clareando e tornando-se mais rala. Estou agora tão contente que não preciso "Não foi assim que falaste um dia sobre a tua felicidade pensei. a chuva. embora me fosse muito doloroso ouvir isto. ² Não é verdade! Não é verdade! disse eu. ² Não! respondeu ele. como me alegro com tudo o que é belo. e gotejou uma chuvinha graúda. Não quero isto. soltava com regularidade duas notas monótonas. passando-me novamente a mão sobre os cabelos invejas as folhas e a erva. Quanto a ti. querendo e esperando algo. ² Sim. retendo-o. de dentro das moitas molhadas. uma outra esfacelou-se sobre o pedregulho do caminho. e ficamos junto à balaustrada do terraço. como não quero que me cresçam asas disse. e certo pássaro. porque são molhadas pela chuva. a chuva já vai passar. ² Mas não gostarias de fazê-lo voltar? Ele virou a cabeça e pôs-se a olhar para o jardim. tive vontade de chorar. fresca. então. maa não o lamento. Não precisa. principalmente na primavera disse ele. ainda que parecesse mais distante por causa da chuva. Ficou pensativo e tornou a calar-se. Por maior que ela fosse. tudo se tornava mais quieto. Será possível que também em ti uma angústia não se acrescente ao deleite com a natureza. Ele se levantou e quis afastar-se.. gostarias de ser a erva. tenho tanta incoerência. disse ele. adivinhando o meu sentimento. e eram noites boas!. E agora estás tranquilo e satisfeito. estás aí molhando a cabeça acrescentou. o som regular da chuva foi substituído por umas gotas espaçadas. como se quisesses algo impossível e lamentasses algo que passou? Ele retirou a mão da minha cabeça e calou-se algum tempo. Não lamentas o passado? ² Não! repetiu. dizias. Aonde vais? perguntei. tudo estava pela frente. provavelmente escondido entre as folhas secas. tudo é tão incompleto. Tudo se aclarou na nossa frente. percebendo em meu coração um sentimento cada vez mais penoso. É tão bom aqui. voltando-me para ele e fitando-o nos olhos. E eu apenas me alegro com elas. Também eu passei noites sentado. na ausência de vento. a tal ponto que. Mas. e sinto-me bem concluiu com um tom convictamente descuidado. basta-me o que tenho. mantinha-se sempre parado no ar. acariciando-me como a uma criança. rouxinóis tornaram a se sacudir e passaram a responder um ao outro. aquático. tudo é tão belo e sossegado. antes isto me acontecia também. mais cheiroso e imóvel. ² E não te faz falta nada? perguntei. que caíam de cima e das folhas. Concordou. e de repente uma gota caiu e como que saltou sobre o toldo de lona do terraço. cada vez mais forte. Sou grato por ele. lacónico. ² Nada que seja impossível respondeu ele. a nuvem descia cada vez mais.No entretanto. jovem e feliz no mundo. Dentro. houve um estalo sobre as bardanas. Vi que procurava responder com toda franqueza. e aqui. acreditei que dizia verdade. Apoiei a mão numa barra molhada. enquanto eu tenho na alma como que um arrependimento in-confessado e lágrimas não choradas. ora de um ora de outro lado. apenas o som fino. a nuvenzinha desfazia-se em água sobre nós. Embaixo. Rãs e rouxinóis calaram-se de todo.. e agora tudo ficou para trás. e pus a cabeça para fora.

Sim disse ele. rompendo.. como se não compreendesses o que eu quero. ² Mas como foi que eu te mostrei isto? perguntou ele. comigo. com espanto e um susto sincero. acabei de chorar as minhas lágrimas e me senti aliviada. depois do que aconteceu. para que se voltasse para mim. se me orientasses de outra maneira. carinhosa. coração ?! disse ele. por que deixaste de me ensinar? Se quisesses. "Está acabado o nosso amor de outros tempos" dizia-me certa voz no coração. O seu olhar voltou-se pensativo para mim. e queria dizer algo. "Será possível que ele não compreenda ou. bato-me por voltar para junto de ti. "Aí está como ele me compreendeu!" pensei. ² Nisso têm culpa o tempo e nós mesmos.. ² Que eu não te amo ? Fala! Fala! concluí. Estava ofendido com o que eu dissera. em maior abundância ainda. ² O que é isto. passei noites sem dormir.. Nesse ínterim. não queira compreender?" pensei e lágrimas apareceram-me nos olhos. devemos viajar novamente para Petersburgo. devemos viver sozinhos todo o absurdo da existência. e lágrimas correram-me dos olhos. vai fazer um ano já. Cada época tem o seu amor. que me é odioso? continuei. ² Não sei o que me censuras começou ele. mas apenas suspirou pesadamente e tornou à posição anterior. Muito bem acrescentou com um sorriso. fosse castigada com a tua indiferença. me tivesses retirado de repente tudo o que me era caro. que me atormentava. Serei culpada porque nesse momento. preciso dizer de uma vez tudo o que me atormenta há muito tempo interrompi-o novamente. quando eu tiver caído de vez. ² Não disseste ainda ontem. com uma voz em que se expressava cada vez mais fortemente uma fria mágoa e censura. e lágrimas amargas escorreram sobre este. Ainda estavas longe de ter vivido então . mas. silenciaram e saíram no mesmo instante. evitas toda franqueza. e.. Tornei a romper em pranto e escondi o rosto. Kátia e Sônia entravam no terraço. vendo-nos. e eu sou culpada e infeliz ao mesmo tempo?! Sim. não me consolou. Eu não o destruí.. mas destruí somente aquilo que me torturava. procurando conter os soluços. Não. porque eu não acreditarei que me ames agora. apesar de tudo. ² Sim. Calou-se um pouco. Passamos ainda muito tempo calados. já que tu queres franqueza ? Assim como naquele ano em que eu apenas te conheci. no inverno. não teria acontecido nada. Estava sentado. eu não teria vergonha. o amor. que eu não sabia usar. Não teria acontecido que. e tudo se passa de tal maneira que não se pode censurar-te nada. Não. Todos nós. amo ainda. Escuta: por que nunca me disseste o que querias. tu me repeles.. se ele te parecia tão pernicioso que deixaste de me amar por causa dele? ² Não foi o mundo. quando eu. Está tudo bem. a cabeça apoiada no braço. não me mataste? Seria melhor para mim agora que privar-me de tudo o que constituía a minha felicidade. quando eu mesma compreendi o que é preciso. e não dizes sempre. Sentei-me num banco e fechei o rosto com um lenço. Se é o fato de que te amei menos que antes. em nada culpada diante de ti. sem qualquer culpa minha. como que dando prosseguimento à sua reflexão. exa-tamente do mesmo modo em Petersburgo e no estrangeiro eu passei noites terríveis de insónia. e tu me deixaste sozinha a fazer investigações ?. para que eu vivesse exatamente de acordo com a tua vontade. Em lugar de me apoiar.. Isto apenas demonstra que estás mal disposta em relação a mim. espera disse ele com severidade e frieza é ruim o que dizes agora. que tu não. pensando em ti e criando eu mesmo o meuamor. que me comprimiam. falando alto e rindo. e particularmente vós outras mulheres.. toda palavra sincera. e este amor crescia-me mais e mais no coração. e não se pode crer em outra coisa. vais censurar-me e alegrar-te-ás com a minha queda. a fim de voltar à própria vida. Aproximei-me dele e afastei-lhe o braço.. ² Amou! disse eu para dentro do meu lenço. que não consigo viver aqui e que. Tiraste-me a tua confiança. A sua voz era tranquila e seca. Dizer-te toda a verdade. minha amiga disse ele. ² Escuta! disse eu. o que é pior ainda. virando-se na minha direção. destruindo este amor. como que não compreendendo o que eu dizia. ² Por que não usaste a tua autoridade prossegui não me amarraste.. com o teu desprezo até disse eu de repente. a consideração até. em resposta ao meu olhar. ² Espera. Ele não se aproximou de mim. Serei eu culpada porque não conhecia a vida. deixa-me falar até o fim. acalmei-me. chamas isto de amor. Olhei para ele. por que me deste liberdade. tocando-lhe o braço. mas é um outro amor. Por que me permitiste viver no mundo. mas é uma tortura disse eu. ² O que não teria acontecido então? perguntou surpreso. seria bom para mim. queres atirar-me de novo num tipo de existência que poderia ter feito a minha -infelicidade e a tua. ² Não teria acontecido que eu. E depois. em lugar do antigo amor. nada disse eu. alegres e molhadas.² não corriges o passado? Não censuras a ti mesmo ou a mim? ² Nunca! Tudo aconteceu para melhor.

novamente. e que ainda não acabei de viver. ² Tudo já voltou disse eu. argumentavas muito disse eu.. como se pro curasse ou lembrasse algo. mas não aquele. Olhei-o e. A partir desse dia. . humilde.. pondo-lhe a mão no ombro. sobrou o seu lugar. Coloquei-me em silêncio ao seu lado. meu. faiscou neles uma fagulha de pensamento. que seja graças a Deus! Não temos o que procurar. não tem-mais força nem suculência. mas até penoso e constrangedor. as estrelas acendiam-se no céu com maior frequência. ² Mas. seria mesmo tão bom aquele tempo que me parecia tão feliz ? E tudo isto acontecera havia tanto. Meu marido aproximou-se de mim. eu lamento. continuando a sorrir do mesmo jeito. ficaram as recordações e a gratidão. a barriguinha. e que fazê-lo voltar seria não só impossível. ² É cruel o que acabaste de dizer. sim. íião existe mais aquilo que procuras. é verdade. interrompi-o. Agora. para não lhe causar dor. Calamo-nos de novo por algum tempo. ao dizer que não lamento o passado. meu!" pensei com uma tensão feliz em todos os membros. ² Tu argumentavas. é impossível fazê-lo voltar e. Teve um sorriso tranquilo. o sentimento antigo tornou-se uma recordação querida. ² Não. À porta. os làbiozinhos rechonchudos. embora para mim o tempo já tivesse passado havia muito. inclinando para si a minha cabeça e beijando-a. os seus olhos riam. eu sentia leveza e alegria ao olhá-los. Assim é. Olhei para meu marido. e olhavam dentro dos meus sem profundidade. fechei depressa o rosto da criança e tornei a descobri-lo. mal encostando os lábios. ² Não fales assim..me amar-te. e o novo sentimento de amor aos filhos e ao pai dos meus filhos deu início a uma nova vida. e coube-nos felicidade bastante.todo o absurdo simpático e encantador com que eu me extasiava em ti. nem motivo para ficar perturbados. Quem me beijava não era um amante.. Bem que isto pode ser assim? Não é mesmo ? perguntei. cobri as suas perninhas vermelhas e desnudas. Eu não devia permitir . Ninguém além de mim devia olhá-lo por muito tempo. e pela primeira vez. tranquilos. Já encontramos. a sua voz abrandou-se. não. e senti maior tranquilidade interior. mas é verdade disse ele. algo impossível de trazer de volta. era como se me tivessem tirado o nervo moral doente. de repente. arrepanhados.. tanto tempo! Mas já está na hora do chá! disse ele e fomos juntos para a sala de visitas. Como que dormindo. Fui culpado! acrescentou. eu estava mentindo. encontrei novamente a nutriz com Vânia. parando em frente de mim. senti a alma leve.. Enquanto eu falava. Mas. e eu te deixei acabar de vivê-lo e senti não ter o direito de te constranger. de uma felicidade completamente diversa. e o conheceste. fitando os meus. tocando-o com o dedo abaixo do queixinho. não há de voltar. E quanto ao fato de não termos mais os sobressaltos e inquietações de outros tem pos. cobri depressa Ivã Sierguiéitch. êssses olhinhos de-tiveram-se sobre mim. "É meu. Mas eles eram límpidos. eu choro aquele amor passado. mas um velho amigo. ainda que quisesses acreditar em mim. Não procuremos repetir a vida prosseguiu ele não mintamos a nós mesmos. E ademais. querida amiga concluiu. Tomei nos braços a criança. apontando a nutriz que se acercara com Vânia e parara à porta do terraço. E pus-me a beijar-lhe as perninhas frias. ao dizer isto.. apertando-o ao peito e contendo-me a custo. erguendo-se de repente e pondose a caminhar pelo terraço sim. assim como o próprio tempo. Que tudo seja de novo como antes. Percebi de repente. para que se enganar? acrescentou. de repente. mas o amor ficou totalmente dolorido. que o sentimento daquele tempo passara irrevogàvelmente. e que me pareceu senil. que não existe nem pode existir mais. começaram a mexer-se e abriram-se num sorriso.. já temos que nos apagar e dar caminho aí está a quem disse. terminou o meu romance com meu marido. fitando-o nos olhos. ² Esqueçamos tudo disse eu timidamente. Amavas pouco. Quem é culpado disso? Não sei. os sons e o silêncio tornavam-se cada vez mais solenes. com nitidez e tranquilidade. que me obrigara a sofrer. Como és jovem ainda e como sou velho disse ele. ² Não. Em mim. depois de muito tempo. E do jardim erguia-se cada vez mais intensamente e com maior doçura o frescor cheiroso da noite. apertei-a contra mim e beijei-a. por que vivias comigo e me deixavas viver este absurdo? disse eu. Afastou a minna mão e apertou-a. não o conseguirias. o que passou. os braços e a cabecinha em que mal despontavam cabelos. mas. senti que já era impossível aquilo que eu queria e que pedia a ele. ele moveu a mãozinha de dedos enrugados e muito afastados e abriu os olhinhos turvos. ² Porque. devias conhecê-lo por ti mesma. ou devia amar mais simplesmente. Ivã Sierguiéitch <21>! disse meu marido. se me amas. Sobrou o amor.

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