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CARTA ABERTA

No início de mais uma época desportiva, importa partilhar


uma reflexão sobre o primeiro ano de mandato federativo
sob a presidencia de João Salgado.

Trata-se de uma avaliação pessoal sobre o que de mais relevante


importa fazer para corrigir erros e lacunas estruturais federativas, tendo
em conta mais três anos de executivo para actual Direcção. A minha
opinião vale pelo intuito participativo, na qualidade de agente
desportivo activo e interessado, envolvido que estou na vida politica e
desportiva da FNK-P, desde a sua fundação.

Salvaguardando desde já aspectos significativamente positivos da


gestão personalizada pelo actual Presidente, tais como a consolidação
financeira, a dinâmica formativa e uma imagem de maior presença
internacional, não posso deixar de apontar áreas de grande fragilidade
para o futuro da modalidade, vulnerabilidades crescentes onde urge
debater e construir modelos com regra.

REGIONALIZAÇÃO

Apesar de consagrado no programa de candidatura da lista


vencedora e nos estatutos federativos, o tema passou em silêncio
durante toda a época desportiva transata, sem que fossem promovidos
os prometidos debates sobre a matéria. Certamente a questão mais
estrutural para o futuro da modalidade, face ao panorama desportivo
nacional das grandes modalidades federadas, em especial de
desportos dos combate congéneres. O deserto de iniciativas, reflecte o
tabu imposto ao tema, por evidente interesse de alguns sócios
maioritários, sobre o caminho a seguir.
Esta paralisia no debate e na construção da regionalização, traduz a
imposição do modelo associativo na organização federativa, caduco e
desactualizado face à real dinâmica clubéstica da modalidade,
mantendo-se aquém das novas orientações jurídico-políticas vigentes. É
urgente debater que objectivos, modelos e prazos para a tão
idealizada regionalização.

SELECÇÕES NACIONAIS

Este é provavelmente o Departamento federativo que conheceu maior


investimento técnico e pessoal dos seus responsáveis, mérito político e
de projecto digno, na verdadeira revolução incutida nos modelos de
trabalho e estruturação nacional. A evidência de uma equipa técnica
coordenada, regionalizada e de uma mobilização rejuvenescida,
colocaram o trabalho das selecções nacionais no topo da agenda
federativa.

No entanto, se na área do Kumite é irrepreensível o dedicado esforço


do Seleccionador Nacional, não só pela sua qualidade académica,
como também pela sua mais valia curricular desportiva no Kumite, a
área do Kata está por cumprir.

Não existe Seleccionador de Kata, pelo que não foi elevada à mesma
dignidade estrutural, esta prova tão ou mais específica que é, do que o
Kumite. Não se vislumbra a promessa eleitoral que a alguns técnicos foi
feita, da nomeação de um Seleccionador de Kata, com curriculo
académico ou desportivo credível na área, a tempo ainda de corrigir
as linguagens e interpretações empíricas que parecem tender a moldar
a nova geração de atletas seleccionáveis, incutindo doutrina
desadequada e impreparada sobre o trabalho de Kata.

No mínimo triste, a não inclusão da equipa de Kata masculina sénior


Campeã Nacional, na selecção que se deslocou aos Campeonatos da
Europa e do Mundo, revela a secundarização deste assumido parente
pobre aos olhos do actual executivo. Diria mesmo, que ao fim de vários
anos, Portugal voltou a ter uma Equipa de Kata de nível internacional,
com provas dadas nos eventos oficiais nacionais. Esta especial nota,
releva na incompreensão da sua não inclusão nas comitivas federativas
para campeonatos da EKF e FMK, prova pela qual tenho um conhecido
particular apreço, pelo que é rotulável de vergonhoso o persistente
ostracismo imposto a estes atletas.

ARBITRAGEM

Se no aspecto formativo genérico, a arbitragem federativa tem


mantido o rumo dos CA anteriores, na componente específica, os
indicadores são de tendente relaxamento facilitador na aplicação dos
critérios arbitrais, em particular no ajuizamento da prova de Kata, talvez
com vista a diminuir protestos dos treinadores.

Na vertente específica dos cursos de formação, se a qualidade teórica


e modelo pedagógico na regras de Kumite foi incrementada, tal não se
regista, conforme opinião generalizada dos formandos e TA, no que
respeita à pratica de Shitei Kata, onde os padrões de excelência
atingidos em formações anteriores, foram recentemente alterados, com
a introdução de novos formadores, cujos conteúdos transmitidos entram
em contradição com os modelos e paradigmas técnicos anteriormente
desenvolvidos. A confusão gerada nas referências técnicas, só pode
induzir a desacertos avaliativos que podem colocar em causa o
ajuizamento e a verdade do resultado desportivo, além do desajuste
face aos padrões avaliativos dos restantes TA que frequentaram
anteriores cursos e formações.

Se por um lado o universo de TA cresceu, fruto do trabalho formativo


realizado, por outro há evidentes sinais de diferenciação no
entendimento dos critérios de juízo, que variam de painel em painel
durante as provas, bem como na medida valorativa dos avaliadores
designados. Ora, precisamente aqui, não é transparente, nem pública,
a formula aplicada na valoração das notações indicadas, sobre que
número de valores e em que valores mínimos ou máximos a média
aritemética têm sido concretizada. Isto é, a mesma formula deveria ser
aplicada de forma idêntica, aos TA, pelo mesmo número de avaliações
a que foram sujeitos. No entanto, parece não ser assim, contabilizando-
se todas as avaliações, resultando em dados percentuais desiguais.
Além disso, se efectivamente são ponderadas as notas médias sobre um
mesmo número de avaliações, aplica-se ariteméticamente sobre as
avaliações maiores, ou menores? São pequenas diferenças não
esclarecidas, que podem produzir resultados muito diferentes, para um
ranking que se diz meramente indicativo, mas que a público, pode ser
usado como justificativo de muitas decisões politicas sobre os TA, e caso
a caso.

Precisamente aplicável, a questão da promoção na carreira de


arbitragem, da nacional à internacional, é matéria que continua no
plano da pura decisão polética de quem gere a FNK-P e não resultado
de alguma regra estabelecida de forma clara e transparente, criteriosa
de lei ou de mérito para o efeito.

As carreiras de arbitragem na FNK-P, conforme regulamento, estão


definidas por categorias escalonadas em sistema progressivo. Pelo
mesmo regulamento, são definidos os requisitos para fequência dos
cursos de progressão na carreira de arbitragem, encimando o percurso
nacional com o maior grau de exigência, no nível de Árbitro Nacional
de Kumite ou Juíz Nacional de Kata e ainda, a progressão para a
carreira internacional da EKF e da FMK.

Temos desta forma, a estipulação regulamentar da continuidade da


carreira de arbitragem da FNK-P, para a EKF, sob requisitos de exigência
técnica (categoria na carreira e graduação em Karate) e idade dos
candidatos, não sem que, os mesmos tenham tempo mínimo entre
categorias (antiguidade), durante a sua progressão até ao nível
máximo nacional e depois transitem, de forma contínua, para o nível
internacional. Todos os TA, ao atingirem a categoria de Árbitro ou Juíz
Nacional, mantêm expectativas de progressão na carreira para o
seguinte nível, o internacional, conforme regimentado no próprio
regulamento de arbitragem. Os TA da FNK-P não culminam ou finalizam
a sua carreira de arbitragem na ultima categoria nacional, mas sim
transferem a sua continuidade formal para a carreira na EKF,

Implicitamente, a antiguidade é exigida durante o percurso nas


categorias, atendendo aos requisitos previstos de tempo em cada
categoria, na forma de épocas consecutivas na Lista oficial de TA.
Explicitamente, estando a FNK-P tutelada pelo regime jurídico da
administração pública, os modelos de progressão nas carreiras de
treinador e de arbitragem, deveriam, na omissão do direito privado e
por analogia ao direito público, prestar submissão ao princípio de
antiguidade e classificação, nomeadamente na escolha proposta ou
indicação de candidatos a progredirem na carreira ao nível nacional,
ou internacional. Ora, tal não acontece e a escolha é perfeitamente
aleatória e sem qualquer regra objectiva. Seria altura de regimentar o
sistema.

Nada mais está explicitado sobre os critérios de escolha, selecção ou


convocatória de entre os TA que reunam requisitos previstos no
regulamento, para frequência de cursos internacionais, tendo a FNK-P,
ao abrigo do seu regime de autoridade administrativa, derivada do
estatuto de utilidade pública desportiva, o dever subsidiário de aplicar o
regime vigente na administração pública, para o efeito de progressão
nas carreiras. Mas a actual Direcção ignora tais pressupostos,
entendendo o livre e pessoal arbítrio dos dirigentes, como critério
interessado de escolha dos TA.
Temos assim, que nem o regulamento de Arbitragem da FNK-P define os
critérios de diferenciação para escolha ou indicação, no caso de
existirem vários candidatos concorrentes a promoção na carreira, nem
sequer tem sido prática das sucessivas administrações federativas, o
cumprimento das previsões do ordenamento jurídico geral do Estado
português para os casos concretos. Ora, vigora no regime jurídico da
administração pública e precisamente para efeito de diferenciação
objectiva em respeito pelos princípios supra, acrescidos dos valores de
transparência, a aplicação do Princípio da Antiguidade, isto é, da
contagem do tempo na categoria.

No caso presente, a classificação não se coloca como pertinente,


considerando que os TA de nível Nacional em condições de progressão
para o nível internacional, possuem antiguidades diferentes, estando
imediatamente escalonados em ordem diferente para o efeito
pretendido. A valorização da classificação como critério distintivo dos
candidatos, só se coloca entre TA com a mesma antiguidade, para
efeito diferenciador qualitativo. A antiguidade é substantiva, desde logo
pela dignidade de mérito obtido na categoria, há mais tempo e com
prestação mais duradoura, portadora de tal responsabilidade
desportiva. A complexidade do seu estatuto deriva precisamente dos
níveis de exigência que estão atribuídos aquela categoria de que é
detentor há mais tempo.

Daqui resulta uma total arbitrariedade, ou verdadeira manipulação, na


indicação dos TA para progressão na carreira, comportamento
transversal a todas as adminsitrações da FNK-P desde 1998. Julgo ser
chegado o momento, para oportunamente se regular esta omissão tão
ingrata a tantos TA mais antigos no activo e que comportam
expectativas de progressão na carreira, alguns, desde 1992.

Tratam-se de ilegalidades a que o universo dos TA continuam a estar


sujeitos, em matéria de indicação para progressão na sua carreira. O
peso do critério político continua nefastamente a ser o decisivo, com
base em apreciações pessoais impostas pela libertinagem orgânica no
seio da FNK-P, regra sistemática que o caduco modelo estrutural
permite, sob a tutela imperial de alguns sócios ordinários.

A falta de transparência política e administrativa na nossa modalidade,


ainda tem especial evidencia nesta matéria, ao não existirem garantias
legais que protegem os direitos de classe, num universo tão
fundamental como é o da arbitragem federativa. Alerto para que se
acabe com este regime sem regra, no mínimo ingrato para com os TA
que desta forma, têm de aguardar por um favor político de quem
dirige.

FORMAÇÃO

Este tem-se apresentado como o Departamento mais perene em


sistema de funcionamento, numa lógica de continuidade entre as
diferentes administrações directivas, desde 1998 e cujos inegáveis
resultados são visíveis na solicitação por parte dos treinadores, bem
como na qualificação pedagógica da instrução da modalidade.

Mas se por um lado a estatéstica dos resultados é avassaladora, o


conteúdo e matéria com a qual ela é produzida, continua a suscitar
dúvidas e incredibilidade em boa da sua parte. Refiro-me em concreto,
à falta de certificação dos níveis de conhecimento em Karate, que os
candidatos a Monitores e Treinadores carecem de apresentar. Resulta
daqui, que a inoperância propositada do Conselho de Graduções, que
pelo seu conteúdo funcional, devia atestar do conhecimento de Karate
dos candidatos. Tal permite a muitos Kyus, camuflados pelas
declarações associativas, atingirem níveis de treinador, sem que
possuam conhecimentos reais ou efectivos de Karate para ensinar, num
fraudulento resultado institucional, que só prejudica praticantes e a
imagem da modalidade.
NOVO REGIME JURIDICO DAS FEDERAÇÕES DESPORTIVAS

Aprovado recentemente, vem estabelecer um novo universo


organizacional interno para as federações de modalidades individuais,
que como a FNK-P, têm seis meses para se adequarem estatutária e
organicamente.

Representa de facto, uma oportunidade única para a reestruturação


da nossa federação, sendo necessário proporcionar um franco e
empenhado diálogo entre todos os agentes desportivos, sobre o que
mudar e como mudar, desde o sistema representativo e eleitoral, à
dinâmica das classes e metodologias regulamentares internas.

Na verdade, tendo todos os sócios plena consciência que apenas


algumas associações votaram a favor da eleição da actual Direcção
da FNK-P, inclusive recorrendo ao contestado artifício das procurações
de sócios não presentes, mecanismo agora explicitamente proibido
pelo novo regime jurídico, é lícito questionar a legitimidade
democrática do actual executivo. Na verdade, os pressupostos que o
permitiram, estão ultrapassados, pela letra e espírito da lei agora
vigente.

O novo regime jurídico, consagra finalmente a igualdade entre sócios


de pleno direito, com apenas um voto por cada um, a ser exercido pelo
seu delegado presente e proíbe o voto por procuração, tão do agrado
que foi do actual Presidente.

Talvez seja o momento, aproveitando os prazos impostos pela lei, para a


adaptação jurídica estatutária das federações ao novo regime, para se
legitimar uma nova Direcção e os restantes órgãos sociais, quiça com os
mesmos dirigentes eleitos, cujas novas regras específicas impõem.
Nota Final

Como bem sabe o meu amigo João Salgado, não são muitos os
desafios inteligentes por parte daqueles que banalizam a pertinência
do acto crítico.

Estas minhas reflexões são exactamente o alerta amigo e interessado


numa Federação mais forte ao serviço da modalidade e onde todas as
opiniões e contributos têm lugar. Só assim entendo o Karate como me
foi ensinado e como o pratico, entre amigos responsáveis que procuram
dignificar a nossa modalidade.

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Nuno B. Lança Cardeira