Universidade Federal do Rio de Janeiro | Centro de Letras e Artes Faculdade de Letras | Departamento de Ciência da Literatura Disciplina: Teoria Literária

III | Código: LEL 200 Ano/período: 2012/1 Professora: Maria Clara Carneiro Proposta de trabalho 1 Redigir um ensaio comparando o mito Cinderela apresentado por Perrault e pelos irmãos Grimm, à luz das teorias de Vladimir Propp. Referência bibliográfica sugerida: PROPP, Vladimir. “As transformações dos contos fantásticos”. In: EIKHEMBAUM, CHKLOVSKI et alii. Teoria da Literatura. Formalistas russos. Porto Alegre: Editora Globo, 1978. Páginas 245-270.

As 31 Funções do Conto Maravilhoso (Vladimir Propp) 1. 2. 3. 4. DISTANCIAMENTO: um membro da família deixa o lar (o Herói é apresentado); PROIBIÇÃO: uma interdição é feita ao Herói ('não vá lá', 'vá a este lugar'); INFRAÇÃO: a interdição é violada (o Vilão entra na história); INVESTIGAÇÃO: o Vilão faz uma tentativa de aproximação/reconhecimento (ou tenta encontrar os filhos, as jóias, ou a vítima interroga o Vilão); 5. DELAÇÃO: o Vilão consegue informação sobre a vítima; 6. ARMADILHA: o Vilão tenta enganar a vítima para tomar posse dela ou de seus pertences (ou seus filhos); o Vilão está traiçoeiramente disfarçado para tentar ganhar confiança; 7. CONIVÊNCIA: a vítima deixa-se enganar e acaba ajudando o inimigo involuntariamente; 8. CULPA: o Vilão causa algum mal a um membro da família do Herói; alternativamente, um membro da família deseja ou sente falta de algo (poção mágica, etc.); 9. MEDIAÇÃO: o infortúnio ou a falta chegam ao conhecimento do Herói (ele é enviado a algum lugar, ouve pedidos de ajuda, etc.); 10. CONSENSO/CASTIGO: o Herói recebe uma sanção ou punição; 11. PARTIDA DO HERÓI: o Herói sai de casa; 12. SUBMISSÃO/PROVAÇÃO: o Herói é testado pelo Ajudante, preparado para seu aprendizado ou para receber a magia; 13. REAÇÃO: o Herói reage ao teste (falha/passa, realiza algum feito, etc.); 14. FORNECIMENTO DE MAGIA: o Herói adqüire magia ou poderes mágicos; 15. TRANSFERÊNCIA: o Herói é transferido ou levado para perto do objeto de sua busca; 16. CONFRONTO: o Herói e o Vilão se enfrentam em combate direto; 17. HERÓI ASSINALADO: ganha uma cicatriz, ou marca, ou ferimento 18. VITÓRIA sobre o Antagonista 19. REMOÇÃO DO CASTIGO/CULPA: o infortúnio que o Vilão tinha provocado é desfeito; 20. RETORNO DO HERÓI: (a maior parte da narrativas termina aqui, mas Propp identifica uma possível continuação)
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21. PERSEGUIÇÃO: o Herói é perseguido (ou sofre tentativa de assassinato); 22. O HERÓI SE SALVA, ou é resgatado da perseguição; 23. O HERÓI CHEGA INCÓGNITO EM CASA ou em outro país; 24. PRETENSÃO DO FALSO HERÓI, que finge ser o Herói; 25. PROVAÇÃO: ao Herói é imposto um dever difícil; 26. EXECUÇÃO DO DEVER: o Herói é bem-sucedido; 27. RECONHECIMENTO DO HERÓI (pela marca/cicatriz que recebeu); 28. o Falso Herói é exposto/desmascarado; 29. TRANSFIGURAÇÃO DO HERÓI; 30. PUNIÇÃO DO ANTAGONISTA 31. NÚPCIAS DO HERÓI: o Herói se casa ou ascende ao trono.

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Personagens (actantes) Agressor (malvado)

Esferas de ação (funções) 8 CULPA 16 CONFRONTO 21 PERSEGUIÇÃO o Herói é perseguido (ou sofre tentativa de assassinato) o Herói é testado pelo Ajudante, preparado para seu aprendizado ou para receber a magia o Herói adquire magia ou poderes mágicos o Herói é transferido ou levado para perto do objeto de sua busca o infortúnio que o Vilão tinha provocado é desfeito DO ou é resgatado da perseguição o Herói é bem-sucedido O Vilão causa algum mal a um membro da família do Herói; alternativamente, um membro da família deseja ou sente falta de algo (poção mágica, etc.) O Herói e o Vilão se enfrentam em combate direto

Doador (provedor)

12 SUBMISSÃO/ PROVAÇÃO 14 FORNECIMENTO DE MAGIA

Auxiliar

15 TRANSFERÊNCIA 19 REMOÇÃO CASTIGO/CULPA 22 HERÓI É SALVO 26 EXECUÇÃO DO DEVER 29

TRANSFIGURAÇÃO DO HERÓI ganha uma ferimento cicatriz, ou marca, ou

Princesa (personagem 17 procurado) e seu pai HERÓI ASSINALADO 25 PROVAÇÃO 27 RECONHECIMEN-TO HERÓI 28 30 PUNIÇÃO ANTAGONISTA 31
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ao Herói é imposto um dever difícil pela marca/cicatriz que recebeu DO o Falso Herói é exposto/desmascarado

DO

Mandante

9 MEDIAÇÃO 10 CONSENSO/ CASTIGO 13 REAÇÃO 31 NÚPCIAS DO HERÓI

o infortúnio ou a falta chegam ao conhecimento do Herói (ele é enviado a algum lugar, ouve pedidos de ajuda, etc.) o Herói recebe uma sanção ou punição (início da ação de busca para reparar a ação) o Herói reage ao teste (falha/passa, realiza algum feito, etc.) o Herói se casa ou ascende ao trono. o Herói recebe uma sanção ou punição (início da ação de busca para reparar a ação) o Herói reage ao teste (falha/passa, realiza algum feito, etc.) que finge ser o Herói DO FALSO

Herói

Falso herói

10 CONSENSO/ CASTIGO 13 REAÇÃO 24 PRETENSÃO HERÓI,

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Cinderela; ou A Pequena Sandália de Cristal Charles Perrault Havia um cavalheiro que se casou, pela segunda vez, com a mulher mais orgulhosa e arrogante já vista. Ela tinha, de seu marido anterior, duas filhas que eram, de fato, exatamente como ela em tudo. Ele também tinha, de sua outra esposa, uma jovem filha, mas de uma bondade e doçura de temperamento sem paralelo, que ela havia herdado de sua mãe que fora a melhor criatura do mundo. Nem bem terminaram as cerimônias do casamento e a madrasta começou a mostrar sua verdadeira face. Ela não conseguia suportar as qualidades desta bela garota, até porque elas faziam suas próprias filhas parecerem ainda mais odiosas. Ela a colocou nos piores trabalhos da casa. Ela lavava as louças, mesas, etc., e limpava os quartos da madame e de suas donzelas, as filhas dela. Ela dormia em um triste sótão, em uma miserável cama de palha, enquanto suas irmãs dormiam em bons quartos, com um piso todo ornado, em camas que estavam na última moda, e onde elas tinham espelhos tão grandes que podiam se ver inteiras, da cabeça aos pés. A pobre menina suportava tudo pacientemente, e não ousava dizer a seu pai, que a teria censurado já que sua esposa o dominava completamente. Quando terminava seu trabalho, ela costumava ir para o canto da chaminé e sentar-se junto às cinzas. Por isso a chamavam de rameira das cinzas. Só sua irmã mais jovem, que não era tão rude e incivilizada como a mais velha, a chamava de Cinderela, que quer dizer garota das cinzas. Entretanto, a Cinderela, não obstante suas vestes grosseiras, era cem vezes mais bonita que suas irmãs, mesmo elas sempre estando ricamente vestidas. Aconteceu que o filho do rei ofereceu um baile, e convidou todas as pessoas de estilo a irem. Nossas jovens donzelas também foram convidadas porque formavam uma grande figura entre os de qualidade. Elas estavam deliciadas com este convite, e maravilhosamente ocupadas escolhendo os vestidos, anáguas e penteados que melhor cairiam nelas. Isto era mais uma dificuldade para a Cinderela; é que era ela quem passava o linho de suas irmãs e dobrava suas pregas. Elas só falavam, o dia todo, de como deveriam se vestir. "De minha parte", disse a mais velha, "vou usar meu conjunto de veludo vermelho com enfeites franceses". "E eu", disse a mais nova "devo usar meu saiote; mas então, para compensar, vou pôr minha capa com flores de ouro, e meu cinto com diamantes, que está longe de ser o mais comum do mundo." Elas mandaram chamar o melhor cabeleireiro que conseguiram para fazer seus penteados e enfeites, e elas usaram suas escovas vermelhas da Madame de la Poche.
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Elas também consultaram a Cinderela sobre todas estas questões já que ela tinha excelentes idéias , e seus conselhos eram sempre bons. De fato, ela até ofereceu seus serviços para consertar seus cabelos, o que elas aceitaram com prazer. Enquanto ela estava ajudando elas disseram para ela "Cinderela, você não gostaria de ir ao baile?" "Ah!" ela disse, "vocês só estão zombando de mim; até parece que eu iria a um lugar como este." "Você está muito certa", elas responderam. "Todos iriam rir de ver uma rameira das cinzas em um baile". Qualquer um teria deixado seus cabelos tortos, um menos a Cinderella, ela era muito boa e os arrumou perfeitamente bem. Elas estavam tão excitadas que não tinham comido nada por quase dois dias. Então elas arrebentaram mais de uma dúzia de espartilhos tentando apertar firme o suficiente para lhes dar uma bela forma esbelta. Elas estavam continuamente em frente a seus espelhos. Finalmente o dia feliz chegou. Elas foram para a corte e a Cinderela as seguiu com seus olhos o quanto pôde. Quando ela as perdeu de vista começou a chorar. Sua madrinha, que a viu em prantos, perguntou qual era o problema. "Eu queria tanto. Eu queria tanto". Ela não era capaz de dizer o resto porque era interrompida por suas lágrimas e soluços. Esta madrinha dela, que era uma fada, disse para ela, "Você gostaria de poder ir ao baile, não é verdade?" "Sim", disse Cinderela, com um grande suspiro. "Bem", disse sua madrasta, "apenas seja uma boa garota, e eu vou arrumar um jeito para você ir". Então ela a levou para seu quarto e disse a ela "Corra para o jardim e me traga uma abóbora." Cinderela foi imediatamente buscar a melhor que pôde encontrar e a trouxe para sua madrinha, mesmo sem ser capaz de imaginar como esta abóbora poderia ajudá-la a ir ao baile. Sua madrinha jogou fora todo o conteúdo, não deixando nada além da casca. Tendo feito isto, ela bateu na abóbora com sua varinha e ela se transformou instantaneamente em uma boa carruagem, toda ornada em ouro. Ela então foi olhar em sua ratoeira, onde ela encontrou seis ratinhos, todo vivos, e ordenou que a Cinderela levantasse um pouco a porta da ratoeira. Ela deu para cada ratinho, conforme saíam, uma
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batidinha com sua varinha e os ratinhos iam se transformando na hora em belos cavalos, que juntos compunham um conjunto de seis cavalos salpicados de lindas pintas cinzas da cor dos ratinhos. Só está faltando o cocheiro, disse a Cinderela, "Eu vou ver se não há um ratinho na ratoeira que possa ser transformado em um cocheiro." "Isso mesmo", disse a madrinha, "Vá dar uma olhada". A Cinderela trouxe a ratoeira para ela, e dentro havia três grandes ratos. A fada escolheu o que tinha a maior barba e o tocou com a varinha, transformando-o em um cocheiro gordo e feliz, que tinha os bigodes mais elegante jamais vistos. Depois disso, ela lhe disse, "Vá novamente ao jardim, e você encontrará seis lagartos atrás do regador. Traga-os para mim." Nem bem ela os tinha trago e a madrinha os tornou em seis criados, que saltaram imediatamente para trás do cocheiro, com suas fardas enfeitadas com ouro e prata, e juntaram-se tão próximos uns aos outros que era como se eles nunca tivessem feito outra coisa em suas vidas. A fada então disse para a Cinderela, "Bem, temos aqui um tudo o que você precisa para ir ao baile; você não está feliz com isso?" "Ah, sim" ela disse; "mas eu tenho que ir com estes trapos nojentos?" Sua madrinha então a tocou com sua varinha e, no mesmo instante, suas roupas se tornaram de ouro e prata, decoradas com suas jóias. Isto feito, ela entregou a ela um par de sandálias, as mais bonitas de todo o mundo. Estando toda elegante, ela subiu na carruagem; mas sua madrinha, acima de tudo, ordenou que ela não demorasse além da meia noite, dizendo a ela, ao mesmo tempo, que se ela ficasse um momento a mais, a carruagem voltaria a ser uma abóbora, seu cavalos, ratos, seu cocheiro um rato, seus criados lagartos, e aquelas suas roupas voltariam a ser como eram. Ela prometeu a sua madrinha sair do baile antes da meia noite; e então saiu. Ela mal podia se conter de tanta alegria. O filho do rei, que tinha sido avisado de que uma grande princesa, que ninguém conhecia, tinha chegado, correu para recebê-la. Ele deu a ela sua mão para que desembarcasse da carruagem e a levou para o foyer, em meio a todos os convidados. Houve imediatamente um profundo silêncio. Todos pararam de dançar. Os violinos cessaram de tocar. Todos estavam deslumbrados com a singular beleza da recém chegada. Não se escutava nada além de um cochichos confusos de, "Como ela é linda! Como ela é linda!"

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O próprio rei, velho como era, não conseguia parar de olhar para ela, e disse à rainha docemente que fazia muito tempo que ele não via uma criatura tão bonita e amável. Todas as senhoras estavam ocupadas estudando suas roupas e penteados, com a esperança de que fazer para si no dia seguinte outros com o mesmo padrão, se conseguissem encontrar materiais tão finos e mão tão habilidosas. O filho do rei deixou para ela o mais honroso dos assentos, e depois a retirou para dançar com ele. Ela dançou tão graciosamente que eles a admiravam mais e mais. Um belo jantar foi servido, mas o jovem príncipe não comeu nem um bocado de tanto que estava ocupado fitando ela. Ela foi se sentar com suas irmãs, demonstrando mil e uma cortesias, dando parte das laranjas e mixiricas com as quais o príncipe a havia presenteado, o que as surpreendeu muito, porque não a reconheceram. Enquanto a Cinderela estava assim entretendo suas irmãs, ela ouviu o relógio bater onze e quarenta e cinco, pelo que ela imediatamente fez uma cortesia a sua companhia e apressouse a sair tão rápido quanto pôde. Chegando em casa ela correu para procurar sua madrinha e, após a ter agradecido, ela disse que não podia evitar pedir, de todo coração, que pudesse ir novamente ao baile no dia seguinte, porque o filho do rei a havia convidado. Enquanto ela estava contando avidamente a sua madrinha tudo o que tinha acontecido no baile, suas duas irmãs bateram na porta. Cinderela correu e abriu. "Vocês ficaram tanto tempo!" ela disse, bocejando, roçando seus olhos e se esticando como se estivesse dormindo; ela não tinha, entretanto, tido qualquer intenção de dormir enquanto elas estiveram fora de casa. "Se você tivesse estado no baile", disse uma de suas irmãs, "você não teria se cansado dele. A mais fina princesa estava lá, a mais bonita em que qualquer mortal já pôs os olhos. Ela nos fez mil e uma cortesias e nos deu laranjas e mixiricas." A Cinderela parecia muito indiferente sobre isso. De fato, ela perguntou a elas o nome da princesa; mas elas disseram que não sabiam, e que o filho do rei estava muito intrigado com ela e daria tudo no mundo para saber quem ela era. Com isto a Cinderela respondeu sorrindo, "Ela deve, então, ser mesmo muito bonita; como vocês tiveram sorte! Será que eu poderia vê-la? Ah, querida Charlotte, me empresta aquele seu vestido amarelo que você usa todos os dias." "Sim, é claro!" disse Charlotte; "emprestar minhas roupas para uma rameira das cinzas como você!
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Só se eu fosse muito tola." A Cinderela, de fato, bem que esperava uma resposta assim, e estava feliz com a recusa; porque ela o vestiria com tristeza se sua irmã tivesse emprestado o que ela tinha pedido de brincadeira. No dia seguinte as duas irmãs estavam no baile, bem como a Cinderela, mas vestida de uma forma ainda mais magnífica que antes. O filho do rei estava sempre do lado dela, e seus elogios e palavras doces a ela nunca cessavam. Tudo isto era tudo, menos cansativo, para ela e, de fato, ela até se esqueceu daquilo que sua madrinha havia dito. Ela pensava que não passava das onze quando ela contou o relógio bater doze. Ela saltou e fugiu, ágil como uma gazela. O príncipe a seguiu, mas não conseguiu alcançá-la. Ela deixou uma de suas sandálias de cristal, que o príncipe pegou com o maior dos cuidados. Ela chegou em casa, mas sem fôlego e em suas roupas sujas, não tendo nada mais de seus adornos senão uma de suas sandálias, o par daquela que ela havia deixado cair. Os guardas no portão do palácio foram perguntados se não viram uma princesa sair. Eles responderam que não haviam visto ninguém a não ser uma jovem, muito esfarrapada, e que tinha mais a aparência de uma pobre camponesa do que de uma nobre. Quando as duas irmãs voltaram do baile a Cinderela perguntou a elas se elas tinham se divertido, e se a bela dama havia estado lá. Disseram que sim, mas que ela fugiu imediatamente quando bateu meia-noite, e com tanta pressa que deixou cair uma de suas pequenas sandálias de cristal, a mais bonita de todo o mundo, que o filho do rei pegou; que ele não fez nada além de olhar para ela durante todo o baile, e que certamente ele estava muito apaixonado pela bela pessoa que era dona da sandália de cristal. O que elas disseram era verdade; porque alguns dias depois o filho do rei fez que se proclamasse, com o som de trombetas, que ele se casaria com aquela cujo pé servisse perfeitamente àquela sandália. Eles começaram a experimentar com as princesas, então as duquesas e toda a côrte, mas em vão; a sandália foi trazida às duas irmãs, que fizeram tudo o que puderam para forçar seus pés a entrar na sandália, mas não conseguiram. A Cinderela, que viu tudo isto, e sabia que era sua sandália, disse a elas, rindo, "Deixe-me ver se não me serve". Suas irmãs caíram na gargalhada e começaram a zombar dela. O nobre que fôra enviado para experimentar a sandália olhou a sério para a Cinderela e, achando-a muito simpática, disse que não era senão justo que ela também tentasse, e que ele tinha ordens para deixar que todas experimentassem.
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Ele fez com que a Cinderela se sentasse e, colocando a sandália em seu pé, descobriu que calçava muito facilmente, servindo nela como se tivesse sido feita de cera. Suas duas irmãs ficaram atônita, mas o ficaram ainda mais quando a Cinderela tirou de seu bolso a outra sandália, e pôs no outro pé. Então entrou sua madrinha e tocou com sua varinha as roupas da Cinderela, tornando-as mais ricas e magníficas do que aquelas que ela tinha vestido antes. E agora suas duas irmãs descobriram ser ela aquela fina e bela dama que elas tinham visto no baile. Elas se atiraram a seus pés implorando seu perdão por todo o mau tratamento que tinham imposto sobre ela. Cinderela as levantou e, abraçando-as, disse que as perdoava de todo o coração, e que queria que sempre a amassem. Ela foi levada ao jovem príncipe, vestida como estava. Ele a achou ainda mais encantadora do que antes e, alguns dias depois, casou-se com ela. A Cinderela, que era tão boa quanto bonita, deu a suas duas irmãs apartamentos no palácio, e naquele mesmo dia as apresentou a dois grandes senhores da corte. Moral: A beleza de uma mulher é um tesouro raro que sempre será admirado. A graciosidade, entretanto, não tem preço e é de valor ainda maior. É isto que a madrinha da Cinderela deu a ela quando a ensinou que deveria se comportar como uma rainha. Jovens mulheres, para ganhar o coração é mais importante a graciosidade do que um penteado bonito. É um verdadeiro presente das fadas. Sem isso nada é possível; com isso pode-se qualquer coisa. Outra moral: Sem dúvida é uma grande vantagem ter inteligência, coragem, boas maneiras e bom senso. Estes e talentos similares vêem apenas dos céus, e é bom tê-los. Entretanto, mesmo estes podem falhar em lhe trazer sucesso sem a bênção de uma madrinha ou padrinho.

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Cinderella Irmãos Grimm A mulher de um homem rico ficou muito doente. Quando ela percebeu que a morte se aproximava, chamou sua única filha ao seu leito e disse "Filha querida, seja boa e piedosa que o bom deus sempre lhe protegerá. Eu estarei no céu olhando pra você e nunca te abandonarei." Dito isso, ela fechou os olhos e morreu. Todos os dias a moça visitava o túmulo de sua mãe. Ela chorava e se mantinha piedosa e boa. Quando o inverno veio, a neve cobriu o túmulo com uma manta branca e quando o sol da primavera a derreteu, o homem encontrou uma nova esposa. A mulher trouxe consigo duas filhas que eram bonitas e agradáveis de rosto, mas más e feias de coração. Começava um período ruim para a pobre moça. "Essa pata-tonta vai sentar-se na sala de visitas conosco?," elas perguntavam. "Se quer comer o pão, terá que trabalhar para ganhá-lo. Trabalhará na cozinha." Elas tiraram suas belas roupas, vestiram-na com um camisolão cinza e velho e lhe calçaram com sapatos de madeira. "Olhem só para a princesa orgulhosa! Como está fora de moda," elas gritavam, riam e a levavam para a cozinha. Lá ela tinha que trabalhar pesado durante todo o dia, se acordava antes de o sol nascer, carregava água, acendia o fogo, cozinhava e lavava. Além disso, as irmãs ainda a maltratavam de todas as formas imagináveis - gozavam dela e derramavam as ervilhas e lentilhas nas cinzas do fogão para que ela tivesse que catar tudo de novo. Ao anoitecer, quando ela já estava cansada de tanto trabalhar, ela não tinha uma cama onde dormir e acabava deitando-se ao lado do forno, nas cinzas. Por isso ela sempre parecia suja e empoeirada e foi então que começaram a chamá-la Cinderela. Um dia, o pai estava indo para a feira e perguntou às duas irmãs o que queriam que ele trouxesse para elas. "Belos vestidos," disse uma delas, "Pérolas e jóias," disse a outra. "E você, Cinderela," perguntou ele, "o que você quer?" "Pai, traga-me o primeiro galho de árvore que bater em seu chapéu quando estiver voltando para a casa." Então ele comprou belos vestidos, pérolas e jóias para as enteadas, voltando para a casa, quando
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cavalgava por um bosque, um ramo de uma aveleira passou pelo seu chapéu. Então ele quebrou o ramo e levou consigo. Quando chegou em casa, ele deu às enteadas o que haviam pedido, e para Cinderela ele deu o ramo da aveleira. Cinderela agradeceu, foi até o túmulo de sua mãe, plantou o ramo que ganhou de seu pai, e chorou tanto que as lágrimas chegaram ao chão e regaram a planta. O pequeno ramo cresceu e transformou-se em uma árvore frondosa. Três vezes por dia Cinderela sentava-se sob a árvore, chorava e rezava. Um passarinho branco sempre vinha para a árvore e se Cinderela expressasse um desejo, o passarinho jogava para ela o que ela pedira. Um dia o rei anunciou que haveria uma festa que duraria três dias para a qual todas as moças jovens e bonitas do reino estavam convidadas para que o príncipe escolhesse sua noiva. Quando as duas irmãs souberam que estavam convidadas, ficaram eufóricas, chamavam Cinderela e diziam, "penteei nossos cabelos, engraxe nossos sapatos e ajude-nos a nos vestir, porque nós vamos ao casamento no palácio real." Cinderela obedecia e chorava, porque ela queria ir com elas para o baile, e implorava à madastra que deixasse-a ir. "Você, Cinderela," disse ela, "coberta de pó e sujeira como você sempre está. Você não tem roupas nem sapatos, e nem ao menos sabe dançar." E mesmo assim Cinderela continuava pedindo. Depois de um tempo a madrasta disse, "E despejei um prato de lentilhas nas cinzas, se você conseguir catar todas em duas horas, deixarei você vir conosco." A moça foi até a porta dos fundos e chamou "Mansas pombinhas e rolinhas E todas as aves do céu Venham me ajudar a catar as lentilhas. As boas no prato, As ruins no papo." Logo duas pombinhas brancas entraram pela janela da cozinha, em seguida as rolinhas, e por último todas as aves do céu, vieram numa revoada e pousaram nas cinzas. As pombinhas balançavam a cabeça e começaram a catar e os outros passarinhos fizeram o mesmo. Logo juntaram todos o grãos bons no prato. Não tinha passado nem uma hora quando acabaram o serviço e se foram. A moça, contente, levou o prato para a madrasta. Ela acreditava que com isso poderia ir ao baile com elas. Mas a madrasta disse, "Não, Cinderela, você não tem roupas e não sabe dançar. Você seria motivo de risos." Como Cinderela começou a chorar, a madrasta disse: se você conseguir catar dois pratos
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de lentilhas das cinzas em uma hora, poderá ir conosco. Ela achava que desta vez, Cinderela não conseguiria. Quando a madrasta derramou os dois pratos de lentilhas nas cinzas, a moça foi até a porta dos fundos e chamou "Mansas pombinhas e rolinhas E todas as aves do céu Venham me ajudar a catar as lentilhas. As boas no prato, As ruins no papo." Logo duas pombinhas brancas entraram pela janela da cozinha, em seguida as rolinhas, e por último todas as aves do céu, vieram numa revoada e pousaram nas cinzas. As pombinhas balançavam a cabeça e começaram a catar e os outros passarinhos fizeram o mesmo. Logo juntaram todos o grãos bons no prato. Não tinha passado nem meia hora quando acabaram o serviço e se foram. A moça estava muito feliz achando que agora ela teria permissão para ir ao baile. Mas a madrasta disse: "Isso não adianta nada. Você não pode ir conosco, pois não tem roupas e não sabe dançar. Só nos faria passar vergonha." Dito isso, ela virou as costas e partiu com suas orgulhosas filhas. Enquanto não tinha ninguém em casa, Cinderela foi ao túmulo de sua mãe, sentou-se sob a árvore e disse "Balance e se agite, árvore adorada, Me cubra toda de ouro e prata." O passarinho entregou-lhe um vestido de ouro e prata e sapatos de seda com bordados de prata. Ela vestiu-se com pressa e foi ao baile. A madrasta e as irmãs não a reconheceram e pensaram que deveria ser uma princesas estrangeira de tão bela que ela estava em seu vestido dourado. Elas nem imaginavam que podia ser Cinderela, e acreditavam que ela estava suja em casa, sentada ao lado do fogão catando lentilhas. O príncipe se aproximou dela, pegou sua mão e dançou com ela. Ele não quis dançar com nenhuma outra moça, não soltou a mão dela por um único instante e, se alguém a convidava para dançar, ele dizia "Ela é minha dama." Dançaram até tarde da noite, e então ela quis ir embora. Mas o príncipe disse: "Eu te acompanho," pois ele queria saber a que família tão bela moça pertencia. Ela conseguiu escapar-se dele e se escondeu no pombal. O príncipe esperou em frente à casa até que o pai de Cinderela veio e ele disse que a moça desconhecida havia se escondido no pombal.
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O pai de Cinderela pensou, "Deve ser Cinderela" Trouxeram um machado e uma picareta e quebraram o pombal em pedacinhos, mas já não tinha ninguém lá dentro. Quando chegaram em casa, encontraram Cinderela com suas roupas sujas deitada nas cinzas à luz mortiça de uma lamparina. O que aconteceu foi que Cinderela se escapou rápido pela parte de trás do pombal e correu até a aveleira. Lá ela tirou suas belas vestes, deixou-as sobre o túmulo de sua mãe e o passarinho as levou. Então ela voltou pra casa e deitou-se nas cinzas vestida com seu camisolão. No dia seguinte, a festa recomeçou. A madrasta e as irmãs foram de novo. Cinderela foi até a aveleira e disse "Balance e se agite, árvore adorada, Me cubra toda de ouro e prata." Logo o passarinho lhe entregou um vestido ainda mais bonito que o da noite anterior. E quando Cinderela apareceu no baile com seu vestido, todos ficaram espantados com tanta beleza. O príncipe, que estava esperando por ela, logo pegou sua mão e não dançou com nenhuma outra moça. Quando outros vinham e a convidavam para dançar, ele dizia "Ela é minha dama." Quando anoiteceu, ela quis ir embora e o príncipe a seguiu para ver em que casa ela entraria. Mas ela se escapou se escondendo no jardim de sua casa. Lá havia uma árvore alta e bela que dava peras maravilhosas. Ela subiu ágil como um esquilo e o príncipe não sabia onde ela estava. Ele esperou até que o pai dela veio e disse a ele, "A moça desconhecida se escapou de mim e acredito que ela tenha subido na pereira." O pai pensou: "Deve ser Cinderela" Trouxeram um machado e derrubaram a árvore, mas já não havia ninguém lá. Quando chegaram em casa, encontraram Cinderela com suas roupas sujas deitada nas cinzas à luz mortiça de uma lamparina. O que aconteceu foi que Cinderela se escapou rápido pela parte de trás do pombal e correu até a aveleira. Lá ela tirou suas belas vestes, deixou-as sobre o túmulo de sua mãe e o passarinho as levou. Então ela voltou pra casa e deitou-se nas cinzas vestida com seu camisolão.

No terceiro dias, quando madrasta e as irmãs já tinham saído, Cinderela foi mais uma vez até o túmulo de sua mãe e disse para a aveleira "Balance e se agite, árvore adorada, Me cubra toda de ouro e prata." E o passarinho lhe trouxe um vestido que ainda mais esplêndido e magnificente que os outros e
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sapatinhos de ouro. E quando ela chegou ao baile, todos emudeceram de admiração. O príncipe dançou apenas com ela e para todos que a convidavam para dançar, ele dizia: "Ela é minha dama". Quando a noite chegou, Cinderela quis ir embora e o príncipe estava ansioso para ir com ela. Mas ela escapou-se tão rápido que ele não conseguiu segui-la. O príncipe, desta vez, usou a inteligência: mandou que passassem piche na escadaria e, quando a moça passou, o sapato do pé esquerdo ficou grudado. O príncipe pegou o sapatinho: era pequenino, gracioso e todo de ouro. Na manhã seguinte, ele disse a seu pai que não se casaria com nenhuma moça, a não ser a dona do pé que coubesse neste sapato. As duas irmãs estavam felizes pois tinham pás pequenos. A mais velha entrou no quarto com o sapato e tentava calçá-lo enquanto sua mãe olhava. Mas ela não conseguiu colocar o sapato por causa de seu dedão do pé. O sapato era muito pequeno para ela. Então a mãe lhe deu uma faca e disse: "Corta o dedão, quando você for rainha, não precisará andar muito a pé." A moça cortou fora o dedão, forçou o pé para dentro do sapato, disfarçou a dor e foi ver o príncipe. Ele colocou-a na garupa de seu cavalo e saiu com ela como se fosse sua noiva. Eles tinham que passar pelo túmulo da mãe de Cinderela, e quando por lá passaram, da aveleira duas pombinhas cantaram "Olhe para trás, olhe para trás, há sangue no sapato, o sapato é pequeno demais, sua noiva lhe espera muito atrás." Então ele olhou para o pé dela e viu o sangue pingando. Ele deu meia volta com o cavalo e levou a falsa noiva de volta para a casa, e disse para a outra irmã calçar o sapato. Ela colocou seus dedos do pé sem problemas, mas deu calcanhar era largo demais. A madrasta deu-lhe uma faca e disse: "Corta fora um pedaço do teu calcanhar, quando fores rainha não precisarás andar a pé." A moça cortou um pedaço de seu calcanhar, forçou seu pé para dentro do sapato, disfarçou a dor e foi ver o príncipe. Ele colocou-a na garupa de seu cavalo e saiu com ela como se fosse sua noiva. Quando passaram pela aveleira, duas pombinhas cantaram "Olhe para trás, olhe para trás, há sangue no sapato, o sapato é pequeno demais, sua noiva lhe espera muito atrás." Ele olhou para o pé dela e viu o sangue escorrendo pelo sapato e manchando a meia de vermelho.
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Ele deu meia volta com o cavalo e levou a noiva falsa de volta para casa. "Esta também não é a noiva certa," disse ele, "vocês não têm outra filha?" "Não," disse o homem, "temos apenas a pequena e raquítica ajudante de cozinha, filha de minha exmulher, mas não é possível que ela seja a noiva." O príncipe pediu para vê-la, mas a mulher disse "oh, não! Ela está sempre muito suja. Não está apresentável. Mas o príncipe insistiu e Cinderela foi chamada. Ela primeiro lavou suas mãos e o rosto, e curvou-se diante do príncipe que entregou-lhe o sapatinho de ouro. Ela sentou-se em um banquinho, tirou o pesado sapato de madeira, e calçou o sapatinho de ouro, que serviu como uma luva. Ela ergueu-se e o príncipe olhou para o seu rosto e reconheceu a bela moça com quem tinha dançado e disse: "Esta é a noiva verdadeira." A madrasta e suas filhas estavam horrorizadas e ficaram pálidas de raiva, ele, entretanto, colocou Cinderela sobre seu cavalo e levou-a consigo Quando passaram´pela aveleira, as duas pombinha cantaram: "Olhe para trás, olhe para trás, não tem sangue no sapato, que não lhe é apertado, É com a noiva certa que estás." E depois de cantar, as duas pombinhas pousaram nos ombros de Cinderela, uma no direito, a outra no esquerdo, e ficaram sentadinhas lá. Na cerimônia do casamento do príncipe, as duas irmãs falsas foram e queriam ficar de bem com Cinderela e dividir com ela a boa fortuna que teve. Quando os noivos chegaram à igreja, a mais velha estava à direita e a mais nova à esquerda, e as pombinhas arrancaram um olho de cada uma das irmãs. Depois, quando voltavam, a mais velha estava à esquerda e a mais nova à direita, e as pombinhas arrancaram o outro olho de cada uma delas. E então, por sua maldade e falsidade, elas foram punidas com a cegueira até o fim de suas vidas.

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