A ser publicado em: SILVA, Kelly C.; SOUSA, Lúcio. Ita maun Alin: o livro do irmão mais novo.

Lisboa: Edições Colibri. 2011 (no prelo).

Sensibilidade jurídica e diversidade cultural: dilemas timorenses em perspectiva comparada1
Daniel Schroeter Simião Uma rápida olhada na lista de detentos do presídio de Becora, em Díli, no ano de 2009, chamava a atenção de qualquer observador. Mais da metade deles respondia por crimes contra a vida, e mais de três quartos eram casos que envolviam algum tipo de violência.2 Esse quadro podia inspirar reações de preocupação ou entusiasmo, a depender de como se decidisse interpretá-lo. Por um lado, podia-se dizer que uma prevalência tal de crimes violentos entre os detentos refletiria uma sociedade desagregada, marcada pelo trauma e pela instabilidade, em que reações violentas e desproporcionais eram comuns. Por outro, o fato de pequenos delitos não se fazerem representar significativamente nos números de detenções poderia indicar que a sociedade timorense encontrara bons mecanismos locais para lidar com delitos de pequeno potencial ofensivo, resolvendo os conflitos bem antes de sua judicialização e de uma eventual prisão do culpado. Afinal, os dados de Becora indicariam uma sociedade esgarçada e marcada pelo trauma da violência ou, ao contrário, uma sociedade bem integrada, com mecanismos alternativos de justiça vigentes e funcionais em nível local? Embora o dilema acima possa ser facilmente desconstruído (especialmente se problematizarmos grandes categorias como “integração social” ou “cultura de violência”), ele tem o mérito de chamar a atenção para o tipo de conflito que tem sido capturado pelo sistema judicial timorense, trazendo à tona a importância de formas locais de resolução de conflitos e a complexidade envolvida em se pensar o seu reconhecimento por parte do Estado nacional.
A pesquisa contou com o apoio fundamental do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e do INCT-InEAC (Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos), aos quais aqui agradeço. 2 Em levantamento feito junto à Defensoria Pública, em janeiro de 2009, encontrei os seguintes números: de um total de 185 detentos (entre sentenciados e detentos em prisão preventiva), 100 respondiam por crime de homicídio, 25 por violação sexual e 15 por tentativa de homicídio. Ofensa corporal grave, rixas e incêndios totalizavam 16, e apenas 5 respondiam por furto. Dos restantes, 21 eram os “peticionários” de 2006, que respondiam por “crime contra o Estado”.
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os conflitos que emergiam entre as características próprias destas formas de justiça (orientada para a reconciliação e para a manutenção de uma ordem social geral) e aquela da justiça estatal (orientada por direitos individuais e para a punição de culpados). 2008). os recursos ao sistema formal de justiça. 2007) também pude evidenciar o quanto as expectativas de usuários e operadores do sistema formal de justiça dialogavam com os valores das formas locais de justiça. JSMP. Estudos como os de Höhe e Nixon (2003) indicavam. 2006a. 2 . Tais discursos costumam caracterizar as formas locais pela negativa – elas não garantem o direito de grupos vulneráveis. por meio de números.7% que tiveram contato com formas locais de justiça (Avocats. por vezes.Há de se reconhecer que pequenas disputas e mesmo alguns crimes muito dificilmente chegam a ingressar no sistema judicial timorense. 12% dos entrevistados tiveram algum contato com os tribunais. ministério público. não são escritas etc. seria preciso buscar compreensões que aproximassem o sistema formal de justiça (legitimado pelo Estado. O problema de tais definições negativas está no fato de que pouco se explica acerca do potencial de tais mecanismos para a resolução efetiva de conflitos. não têm padrões impessoais e objetivos. 2003. produzindo práticas híbridas e. Para isso. 2002). Recentes pesquisas acerca do acesso à Justiça em Timor-Leste têm confirmado. não observam princípios internacionais de direitos humanos. Um estudo semelhante realizado pela Asia Foundation indicou que a confiança na equidade dos resultados obtidos pelas formas de justiça é maior para os mecanismos locais (85%) do que para a justiça formal (77%) (Asia Foundation. os valores e as formas dos mecanismos locais de justiça são criticados no discurso de ONGs e autoridades justamente por não seguirem as orientações dos direitos individuais. Em textos anteriores (Simião. O recurso a formas locais de justiça (nahe biti boot ou tesi lia) tem sido objeto de estudos já há algum tempo. paralegais. contra 32. 2008). mas sem credibilidade local) das práticas sancionadas pelo costume (mas não pela lei). a partir de uma perspectiva etnográfica. Segundo um survey nacional realizado pela organização Advogados Sem Fronteiras. defensoria pública e tribunais) junto à população em todos os Distritos. contudo. (IRC. em nível local. como tampouco ajudam na busca por formas que tornem mais usuais (para não dizer legítimos). aquilo que algumas etnografias já vinham indicando: uma baixa penetração dos mecanismos estatais de justiça (polícia. Em geral.

recentemente. 1999. Ao mesmo tempo. ou nahe biti/ lulun biti) ou julgamento (tesi lia) conservam uma preocupação comum: a 3 . Timor-Leste. Deve o Estado sancionar práticas usuais de administração de conflitos ou deve insistir em uma vocação “civilizadora” do direito positivo? A análise dessa dimensão dos desafios postos para o sistema judicial timorense pode ganhar nova perspectiva se comparada com dilemas semelhantes no campo judicial brasileiro. A partir da análise de alguns casos julgados no Tribunal de Díli. aprovaram-se. especialmente à luz do que. Soares. os modos locais de mediação (biti boot. tem sido chamado de “justiça restaurativa”. os códigos de processo civil e penal. pretendo esboçar uma aproximação dessas realidades. proponho que o dilema posto para a Justiça em Timor-Leste não é tanto o de aproximar o direito (normas legais) da vida (costumes). 2006b. a comparação com pesquisas realizadas no Brasil ajuda a colocar em perspectiva uma visão por vezes edulcorada acerca de modelos locais. Williams Van Klinken. no Brasil. restaurativos e focados na mediação para a resolução de conflitos. diversidade cultual e igualdade jurídica Nos últimos cinco anos. Neste texto.No momento em que se discute uma legislação específica que regulamente o chamado “direito costumeiro” em Timor-Leste. um conjunto de práticas e disposições que guarda semelhanças com princípios evocados nas formas locais de resolução de conflitos usuais em Timor-Leste. indicando pontos de tensão entre as mesmas e os princípios da justiça formal (Simião. Timor-Leste vem consolidando seu sistema judiciário por meio de formação de quadros e elaboração de legislação própria. Pesquisas anteriores já caracterizaram vários aspectos de tais formas locais de resolução de conflitos. bem como o código penal. Embora variem muito em forma de região para região. Por outro lado. esta questão se torna ainda mais oportuna. mas sim o de construir pontes entre diferentes sensibilidades jurídicas que permitam traduzir adequadamente expectativas e atitudes fundadas na cultura para a linguagem jurídica do Estado. 2003). e voltadas para valores nem sempre vistos como coerentes com uma modernidade específica. Com a forte presença da cooperação internacional (notadamente portuguesa). o país é fortemente marcado por formas locais de resolução de conflitos orientadas por uma sensibilidade jurídica bastante diversa daquela proposta para o sistema formal.

não é de espantar que casos levados aos tribunais estatais sejam dificilmente percebidos pelas partes como capazes de gerar uma resolução justa. tanto por parte da polícia (Simião. a quem caberá. eles mesmos. 2007) quanto por parte de juízes. a enunciação de narrativas é feita perante os lia na'in (literalmente. Com isso. sempre homens. mas seus grupos de pertencimento. ele mesmo. entender um processo judicial como artefato cultural significa pressupor que: a) qualquer processo jurídico envolve um movimento no sentido de simplificar os fatos vividos para que os mesmos possam ser emparelhados às normas – movimento de redução a termos. 2006a. bastante diversas. A maneira para a mediação ou o julgamento pelas lideranças tradicionais pressupõe o resgate das narrativas de cada parte. Na tradição ocidental. portanto”). contudo. As sensibilidades jurídicas e a própria concepção de mundo que orientam a Justiça de Estado e as formas locais de resolução de conflitos são. assim. pesando as palavras ditas nas narrativas. portanto”). então”) para aquela da interpretação dos fatos (do “como.reconciliação entre os grupos em conflito. feitas em reuniões solenes em uma grande esteira (biti boot). 2006b). um sistema de descrição do mundo – a descrição jurídica do fato (lembrando que os “fatos” analisados são. assim como 2. Tal tensão tem levado a práticas híbridas. Recolocando a questão: o sentido de equidade e as sensibilidades jurídicas Para Clifford Geertz (1983). cortá-las (tesi) na justa medida. os “donos da palavra”). promotores e defensores (Simião. está em questão resolver um atrito entre famílias. contudo. então”) para aquela do fato (do “como. essa tradução é feita pela perspectiva de que: 1. que Benda-Beckmann define como de tradução da linguagem da norma (do “se. interpretações) já é normativa (trata-se de uma interpretação/narrativa que é feita tendo em vista um dever-ser). é apenas uma forma 4 . Nos casos de julgamento. as partes em conflito nunca são vistas como iguais. ainda não há perspectivas de integração entre essas formas de justiça. 2005. existem regras para separar o certo do errado (o julgamento). há métodos para definir o real do irreal (as provas). Ao mesmo tempo. Esta. em que se faz necessária uma sentença. as narrativas são normalmente enunciadas por representantes dos grupos. Como a unidade central desse processo não são os indivíduos. Mais do que uma disputa entre pessoas. b) o que faz com que o processo judicial seja. O desafio para uma etnografia de tais práticas estaria em interpretar a maneira pela qual as instituições legais traduzem a linguagem da norma (do “se.

em Ermera. não temos apenas uma sensibilidade jurídica operante. entremeados com observações feitas já há alguns anos. quando estive fazendo um campo de 12 meses em Timor-Leste para minha tese de doutorado. seu pressuposto moral/ ontológico. mesmo dentro do sistema judicial patrocinado pelo Estado. Nessa perspectiva. No ensaio ao qual me refiro. índica e malaia). uma maneira de construir interpretações válidas do mundo – repor e ordenar cosmologias. No caso de TimorLeste. os desafios postos para o processo jurídico e as soluções que cada uma dessas sensibilidades jurídicas encontrou para conceber situações de tomada de decisões de modo a que as leis possam ser aplicadas. Um caso expressivo de sensação de injustiça decorrente da dificuldade de tradução entre as sensibilidades jurídicas é o da jovem I. As formas locais de justiça operam com sensibilidades jurídicas próprias. fora antecedido de negociações familiares entre os tios da moça e os parentes dos acusados. é uma “visão de mundo”. Para tornar isto mais claro.possível de operar aquela tradução entre fato e norma. a jovem. identificando para cada uma delas sua ideia central de justiça. teria sido levada a um cafezal. Trata-se de um caso de violação sexual que. Neste caso. impede um sentido de equidade (fairness). Muitos dos problemas de aceitação da justiça estatal por parte da população vêm desta diferença de sensibilidades jurídicas – um desencontro que impede que o resultado final seja percebido como justo. traduzindo plano normativo e interpretação dos fatos por meio de outras gramáticas. 2005). proponho aqui a análise de dois casos judiciais que pude presenciar no início de 2009. por três jovens de um suco 5 . Geertz compara três dessas visões de mundo (islâmica. como outros observados em 2003 (Simião. Casos criminais: os limites das traduções O caso de I. contudo. É apenas uma sensibilidade jurídica entre outras que podem ser encontradas em diferentes lugares. uma moça de 17 anos. o “direito” é mais do que uma forma de resolver conflitos.

Quando o caso se tornou público. a cena ficou: “Ela foi para o cafezal de braços dados com G. Este movimento de deslocamento semântico é homólogo ao que ocorre na narrativa da defensoria. uma cena é assim descrita: “Hau hare de’it sira hakuak hau nia biin no rasta hau nia biin too iha cafe laran”.vizinho onde. quando o acordo já estava para ser cumprido. o hakuak e o rasta (que conotam uso de força) tornouse um cândido “de braços dados”. assim descreveu a mesma cena: “puseram-se em fuga. de acordo com a denúncia do Ministério Público. apoiados por intérpretes timorenses. ela teria sido violada sequencialmente pelos três. 6 . Contudo. o halai sae ba uma (seguiram às pressas para casa) tornou-se um “puseram-se a correr para a vila”. no processo. e o caso entrou em juízo. na construção da acusação. mediada pelos interesses de promotoria e defensoria) em si já seria motivo para boas reflexões. Na tradução do defensor (brasileiro). Assim. contudo. O promotor (caboverdiano).. depois sira nain rua tu`un filafali ba hodi dada hau nia biin kontinua halo seksual. não se deu de imediato. O problema da tradução de sensibilidades jurídicas emerge com força quando se tenta interpretar. É bem verdade que o fato de defensores e promotores serem estrangeiros. conotando fuga e culpa. Em casos como estes. para a vila de Ermera”. a correr. No depoimento da irmã.!!!”.. por razões que não ficam claras. o que interessa aqui é mais do que a construção da fábula. Com isso. torna essa tradução ainda mais distante das interpretações dos próprios envolvidos. um depoimento importante no processo é o da irmã da jovem. que a acompanhava quando foram abordadas pelos três rapazes. a família da jovem negociou com a família dos agressores o casamento desta com um dos rapazes. o irmão da jovem acompanhou-a à delegacia para registrar queixa. depois de hotu sira halai sae mai ba uma”. a negociação familiar prévia. O recurso à polícia. A análise da construção das narrativas nos autos (a transposição dos fatos para a lógica jurídica. feita com base em outra gramática. conotando intenção e cumplicidade. Dez dias depois. Ao descrever parte dos acontecimentos. Por exemplo. temos um movimento de tradução comum no processo judicial: a construção de “fábulas” – como a elas se refere Mariza Correa (1983) – nas narrativas de defesa e acusação. a irmã diz: “.

” 7 . Para a Justiça. com isto desqualificando seu depoimento: “O depoimento de I. a jovem foi responsabilizada por uma quebra de acordo e. contudo.” Nenhum dos atores jurídicos. e a família dos outros dois pagaria à família do escolhido para noivo uma multa de um porco e duas peças de tecido cada. que a intervenção da família era indício de que a narrativa da jovem sofrera interferências indevidas. e usou isto como argumento para decretar a prisão preventiva dos acusados. para o que a família do rapaz escolhido entraria com um barlaque (o bridewealth) de 3 mil dólares. teve de abandonar a casa dos pais e acabou acolhida por uma instituição de Díli que atende a crianças vítimas de violência. um caso dramático levado a juízo entre 2008 e 2009. em seu recurso.).3 Por outro lado. mais ainda. que podemos chamar aqui de “caso do suposto ninja”. por exemplo. É este. ocorrido em janeiro de 2009. O julgamento. contudo. na perspectiva da vítima. seus problemas estão só no começo. sentença da qual a defensoria recorre até o momento. .. as famílias já tinham feito um acordo para que a jovem se casasse com um dos rapazes. Aos olhos de sua comunidade. Casos como este evidenciam os dramas que podem emergir quando não se consegue uma tradução adequada entre a interpretação legal e aquela feita à luz de uma gramática moral sensivelmente diferente. buscou traduzir o significado de tal negociação em seu contexto original – a gramática própria das formas locais de resolução de conflitos. Expulsa de sua comunidade moral e impossibilitada de voltar à sua aldeia. Dificilmente se pode dizer que a solução final tenha sido justa. o caso está encerrado. O juiz interpretou as negociações familiares como tentativa de interferir no andamento das investigações.Segundo o depoimento de um dos acusados. foi cheio de incoerências e demonstrando claramente que estava sob a influência de acontecimentos posteriores (a forte intervenção da família que tentou o tempo todo ‘negociar’ o barlaque. pela prisão dos rapazes. O caso ninja 3 “No caso concreto verifico que as circunstâncias desse processo existe (sic) perigo para recolha da prova porque estão os arguidos tentaram de dar barlaque (sic) para a lesada para que um dos arguidos casar com a lesada (sic). Para I. I. sentenciou os dois jovens maiores de idade a 6 e 5 anos de prisão cada um. Então há a possibilidade de que a lesada e as testemunhas serão influenciadas na recolha das provas nesta fase da investigação. a Defensoria interpretou..

Sem identificar a língua em que o jovem falava. pois. Quando esta história é transposta para a lógica judicial. dois sobrinhos e três vizinhos foram indiciados (e posteriormente condenados) por homicídio e ocultação de cadáver. para aqueles homens. aqui. enterrado em um bananal próximo. morador de Díli. quando a polícia investigava o desaparecimento do jovem. o marido amarra a vítima. o jovem era uma ameaça real. Com a ajuda de outros filhos e vizinhos. cuja queixa havia sido feita por sua família. chegaram mesmo a chamar um vizinho. As investigações apuraram o caso relatado acima. Na sentença. O corpo. derrubando-o e o imobilizando. oriundo do distrito de Oecussi. só poderia tratar-se de um ninja. Como não entendiam o que ele dizia. segundo vários depoimentos dos autos. a ideia de que. e o marido decidiu que a única saída seria matar o suspeito. no momento de concluir pelos “fatos provados” (distinguir real e irreal) sequer aventou a possibilidade de considerar real a interpretação que fazia da vítima um “ninja”. Mito. A deficiência mental do jovem tido como ninja impedia-o de falar com clareza. O Ministério Público construiu uma narrativa de crime bárbaro e a sangue frio. Acorda o marido. A esposa da casa acorda com o barulho e se assusta. e conclui que esta. um jovem com problemas mentais. Tendo um bebê pequeno em casa (seu filho mais novo. ou seja. a esposa julga que o vulto intruso possa ser de alguém que quisesse levar seu bebê. chama a atenção que em momento algum se discutiram. que surpreende o jovem e o ataca. deixa a casa de sua família para assistir a uma partida de futebol. Já de noite. ganhou apenas a 8 . o veredito de “ninja” pareceu-lhes ainda mais apropriado. as motivações que levaram os acusados a agir do modo como agiram. A figura do “ninja” ganhou aos poucos um estatuto quase mítico. ele voltaria depois para se vingar e matar as pessoas da aldeia”. perde-se e vai parar em um bairro distante. de apenas uma semana). tenta entrar em uma casa que julga ser a sua. “se não o matassem. E assim foi feito. só foi descoberto semanas depois. fundada em um mito urbano de Díli. pois imaginaram que o jovem poderia estar falando baiqueno. nos autos. o painel de juízes. envolvendo assassinatos e raptos de crianças. trajada de preto e (segundo depoimentos dos acusados) usando uma máscara.Em maio de 2008. Cabe aqui observar que durante a ocupação indonésia eram comuns relatos de ataques de grupos de homens de preto (ninjas) durante a noite. e o marido. No retorno. A estratégia da defesa assentou-se no silêncio dos acusados (para não produzirem prova contra si) e em alegações de inconsistência das investigações.

a motivação dos acusados. afinal. contudo. sendo que apenas parte do barlaque foi devolvido. o processo formal acaba produzindo resultados que dificilmente são percebidos como justos por parte daqueles que o experimentam. Assim. com ainda maior potencial de diálogo com sensibilidades jurídicas locais. Um exemplo disto é um processo de divórcio.5 mil entregues para cerimônias nas montanhas. é óbvio que bruxas não podem existir. 21 cabeças de gado.4 Tratei aqui apenas de casos criminais (públicos. acerca da proliferação de acusações de bruxaria em Java Oriental logo após a queda de Suharto. O caso terminou em acordo entre as partes. Nestes casos. do avô e da prima da esposa. em parte. contudo. a um modo de vida atrasado. O que fazer com a “tradição”? A postura dos atores judiciais reflete. demandariam mais etnografia para se compreender o sentido de tais acusações em nível local. a ser transformado Os casos de bruxaria. A expressão narrativa de uma cosmologia local e a força simbólica de que se reveste não mereceu dos atores jurídicos nenhum esforço de tradução para os autos. por exemplo. uma visão mais geral na esfera pública timorense que reluta em reconhecer como legítimas representações de obrigação e justiça que escapem aos modelos formalizados em lei. no discurso de alguns desses atores. explicada por eles em depoimentos à polícia como de defesa contra as ameaças de uma bruxa. em que o marido pedia a devolução do barlaque. Ao ignorar as sensibilidades jurídicas locais. já são três os casos de julgamento por homicídio de pessoas que teriam assassinado supostas bruxas (dois no Tribunal de Díli e um no de Suai). incluindo o funeral da mãe. entre outros. Um estudo dos casos cíveis abriria ainda outras portas. nunca é caracterizada como tal nos autos.conotação de ilusão. para a racionalidade que inspira a sensibilidade jurídica do Estado. constava dos autos uma lista de bens que incluía. indicam que em contextos de rápidas mudanças políticas em nível nacional o sentido de tais acusações não pode ser interpretado apenas à luz das representações locais sobre bruxas e feiticeiros vigentes em tal ou qual aldeia. Isto fica ainda mais evidente em processos que envolvem acusações de bruxaria. 56 cavalos. 20 cabritos e mais de 30 mil dólares – entre os quais 10 mil entregues aos pais da esposa e 17. portanto). Até onde esta pesquisa pode constatar. ocorrido no Tribunal de Díli em 2005. 4 9 . A palavra “tradição” é associada. Reflexões como as de Siegel (2001).

Mas a capacidade econômica das pessoas não é igual. Isso se aplica em alguns lugares das montanhas. Quem quer faz. a adat. As pessoas dizem que estão cumprindo algo superior. Então. em tétum). Agora. fazem muito dinheiro. umane [os irmãos da esposa] tem que responder com tais. a pressão dos liurais era forte.. contra sua possibilidade econômica. Querem 10 mil dólares. cabritos. isso mudou. Isso não condiz com os tempos modernos. Pedem dinheiro. realizada em 2009 (trata-se de uma tradução livre do original. sobre a relação entre liurai e povo. Eles são obrigados. e em 2000 fora nomeado juiz pela administração transitória das Nações Unidas. em uma universidade indonésia. Isso ainda não existe. na cidade. Quando as pessoas vieram para Díli. Eles trabalham muito. Mas. por exemplo. da agricultura. mas eles não mudam o modo de vida. arroz. Em 1975 [. em alguns lugares. o povo não podia se vestir da mesma forma que um liurai. tem o barlaque. mas ainda é preciso legislação específica para regular sua aplicação. conhecimento. pedem animais. Um exemplo desse tipo de contemporização é a interpretação dada por um juiz de Díli ao lugar da “lei costumeira” na administração de conflitos. E em outros lugares. Transcrevo abaixo um longo. porcos. isso se perdeu. Mas algumas pessoas ainda continuam com o atraso dos costumes. Tem que se adaptar a uma situação nova.pela ação disciplinadora do Estado. A Constituição regula vários princípios – igualdade entre homens e mulheres. A lei costumeira em Timor é reconhecida pela Constituição. a relação fetosan-umane. como o liurai. Mas a lei costumeira. isso acabou. as pessoas têm que comprar coisas.. As mulheres são como objetos de transação. livre escolha. isso afeta sua economia. para seguir a tradição. pois as pessoas já têm uma outra visão. este formara-se em direito na década de 1990. E se a pessoa não tiver? [..] os liurais não queriam que o povo das montanhas se desenvolvesse como eles. Como outros juízes timorenses. Nas montanhas as pessoas não tinham acesso à educação. por exemplo. por exemplo – princípios universais dos tempos modernos. Elas não têm liberdade de agir. porém elucidativo. ainda não tem essa evolução moderna. Por exemplo. Isso acontece mais nas montanhas. ele mandava tirar. trecho da entrevista com o juiz. tem obrigação de dar dinheiro. mas. quando eu estava no ensino primário. Às vezes alguns da montanha têm muito dinheiro. mas entre os familiares dizem que tem que cumprir isso e aquilo. mas têm que fazer. gado. Esta perspectiva deve ser contemporizada constantemente com o reconhecimento constitucional da valorização dos “costumes” e da “cultura” timorense. contra sua vontade. Oportunidade de ter educação. Nas montanhas. com o tempo. Esse atraso ocorre porque as pessoas das montanhas ainda não tiveram oportunidade. Depois. Mas. A população de lá cumpre a lei costumeira como antigamente. Então. gente que entra para a família de uma mulher. Alguns não têm capacidade econômica para isso. pelo que se consideram os costumes do lugar. com o tempo. mas não precisa. tradições. Isso não acompanha a evolução de agora. mas não usam esse dinheiro para 10 . Tinha que vestir uma lipa. como consequência. Antigamente. Se alguém usasse uma calça.] Em Díli isso não é obrigatório. as pessoas têm que fazer. Fetosan. cavalos. viviam muito atrasados.. os direitos humanos falam nos direitos das pessoas. esse cumprimento já se reduziu. como quando morre alguém. Por exemplo.

fortalecem em nível local demandas por direitos diferenciados e autonomias jurídico-administrativas. 2008). Embora perfeitamente compreensível à luz de um projeto desenvolvimentista – sem se fazer aqui nenhum juízo de valor acerca das consequências de tais projetos – discursos deste tipo. 2010b). marcado por obrigações que não respeitam direitos individuais e servem a interesses de controle e poder de autoridades locais. esta política tem passado por rápidas e radicais transformações. mandar o filho para escola. em novos termos. Ver também Henley e Davidson. 2010a. Pegam o dinheiro e fazem festa. Isso é algo antigo que impede o avanço. bebem tudo. em grande parte em função do crescimento de movimentos de defesa de “comunidades tradicionais” (masiarakat adat) que. por exemplo. O primeiro deve ser superado. por meio do acesso à educação ou pelo convívio com o ambiente urbano de Díli. Disputas de sentido em torno da Cultura A valorização de “usos e costumes” culturais por políticas públicas no Sudeste asiático é um processo multifacetado e. e outro “moderno”. chama a atenção o lugar folclorizado dado às diferenças culturais durante o período de Suharto – época em que Timor-Leste esteve submetido à política de Jacarta. uma valorização do “direito costumeiro”. de certa forma. como indicam os diversos artigos da recente coletânea de Jamie Davidson e David Henley (2007. Fazem festa com muitos búfalos. Tal política minimizava a agência de valores locais em favor de um Estado forte e centralizador. assim. A fala do juiz erige dois universos de valores opostos: um “atrasado”. reemergente. comprar roupas para eles.preparação do futuro. e parte da retórica de integração nacional dos primeiros anos da 11 . Em tais estudos. tornam difícil a comunicação entre expectativas de justiça oriundas de sensibilidades jurídicas bem diversas. Para atender aos espíritos do animismo. já bem analisada por Kelly Silva (Silva. “evoluído”. Desde a queda de Suharto. quando transpostos para o campo jurídico. Os filhos pelo menos tinham que ir para a escola (grifos meus). apoiados por uma trama movimentalista global de defesa de direitos de povos indígenas e tradicionais. propalada pela academia holandesa do início do século XX. marcado pela liberdade individual e preocupado com o desenvolvimento futuro da nação. pagam obrigações para o clã. Retoma-se. Falas como esta são características de uma oposição Díli-Montanha.

O slogan “Violência de gênero não é parte da cultura timorense”. seja a de sua promoção – assentam-se sobre o encapsulamento da alteridade por meio da reificação de um “local” ou de uma “comunidade” em torno das ideias de “tradição” e “cultura”. é um bom exemplo disto. 2010b). Em comum. visando à sua integração na ordem jurídica nacional. no primeiro ano de restauração da independência. então capitaneado por Maria Domingues Fernandes Alves. contudo. 2006. o artigo de Ricardo Roque (Roque. mas ao mesmo tempo positivava identidades locais. por exemplo (Simião. em grande medida. a “cultura” encerra – quais. não por acaso. exatamente. o Estado buscava domesticar uma alteridade potencialmente ameaçadora. a defesa da diversidade cultural local. que mais recentemente financiam estudos sobre o “direito costumeiro” em Timor-Leste. o modelo judicial pensado para Timor-Leste nunca previu formas de pluralismo jurídico. habilidosamente se recusava a opor “modernidade” e “tradição”. mas com poucos efeitos sobre a gestão da administração pública. Silva. No caso timorense. os valores e as práticas “tradicionais” timorenses? A esfera pública que vem sendo construída em Timor-Leste desde 2002 apresenta diversos exemplos de disputas em torno dos conteúdos e das valências da “cultura” – questões sobre o sentido do barlaque e seu papel na violência doméstica.independência indonésia (quando a diversidade era então amalgamada na ideia de gotong royong). Por meio delas. como o UNDP. Neste contexto. A administração transitória das Nações Unidas em Timor-Leste promoveu. Projetos com títulos como “Community Empowerment Project” reforçavam o compromisso com a valorização de formas sociais locais – e. tema da campanha de combate à violência contra as mulheres em 2002. 12 . são agências da ONU. Contudo. sublinhando as práticas miméticas de justiça e administração adotadas a partir do governo de Celestino da Silva. o Estado colonial português também apresentou diferentes posições ao longo do tempo em relação ao que se entendia como “usos e costumes” locais. Por meio dele. Sinais dessa disputa já eram visíveis em 2002. 2011) aponta para a importância deste tópico. restaria então a pergunta acerca de que conteúdo. o Gabinete para Promoção da Igualdade. preferindo uma estratégia de reinscrição da “tradição” em uma moldura igualitarista moderna (Simião. todas essas práticas – seja a de domesticação da diversidade cultural. Na presente coletânea. afinal.

que uma mirada para o Brasil pode ser interessante. por evocar claramente a oposição cidade-montanha – expressa. e aparentemente ainda estamos. Estávamos. seja para condená-lo. o dilema aqui parece ser outro. entre outros elementos. o caso de I. 2005:9). Na qualificação de tais iniciativas. diante de uma prática inescapável de reificação da “cultura”. é emblemático. uma vez que se valorize a posição de um Estado nacional unitário e moderno. essa disputa encerra discursos como aquele do juiz de Díli e que resultam em práticas pouco abertas à negociação de diferentes sentidos de justiça. É o próprio lugar da diversidade cultural que é. que se segue a uma disputa sobre o que seja o seu conteúdo socialmente legitimado. O caso do suposto ninja traz à luz outra dimensão desse problema: a dificuldade de o Estado implementar uma linguagem comum para a gestão de conflitos entre os habitantes de Díli. Mais do que uma oposição cidade-montanha / moderno-atrasado. à constatação de uma crescente demanda por acesso ao Judiciário que não vinha sendo acompanhada de um crescimento equivalente na oferta de Justiça. Apontados como recomendação internacional das Nações Unidas. iniciativas do poder público e da sociedade civil brasileira têm enfatizado a importância da utilização e do aprimoramento de formas alternativas de resolução de conflitos como acesso à Justiça. em parte. 2005). surgia um discurso que defendia a adoção destes mecanismos como condição para o alcance do que era definido como democratização do “acesso a um sistema de justiça que garanta o cumprimento de direitos e promova a equidade” como “elemento fundamental para a paz social” (Ministério da Justiça. na negociação de um barlaque que é interpretada como pressão indevida da família sobre os indivíduos. É neste ponto.posto em causa. “o 13 . Em 2005. seja para promovê-lo. Nesse sentido. No judiciário. como nos casos analisados anteriormente. A dimensão moral dos conflitos e sua judicialização Na última década. Tais iniciativas procuravam responder.2005). e pensando sobre a dificuldade de aproximar a justiça das expectativas de reconhecimento moral por parte de seus usuários. a Secretaria da Reforma do Judiciário (Ministério da Justiça) publicou um “mapeamento nacional de programas públicos e não-governamentais” de sistemas alternativos de administração de conflitos (Ministério da Justiça.

. nos casos estudados. também chamado dissuasório é aquele normalmente utilizado em sistemas de Justiça criminal. a pesquisa confirmou a adequação dos chamados Núcleos de Cidadania como espaço para a elaboração simbólica de conflitos. em contraposição aos modelos adjudicatório e retributivo da Justiça comum”5 (Ministério da Justiça. 2010). ou de compensação. 2003. inexistente no sistema judicial. definia-se administração alternativa de conflitos como “iniciativas pautadas por um modelo de mediação de conflitos por via negociada. 2007). mais do que como indivíduo (Mauss. A aplicação pura e simples de regras ou protocolos de atendimento parecia ser. a perspectiva da mediação e da restauração na resolução de conflitos foi criticada não apenas por setores do Judiciário refratários a mudanças no modelo tradicional de justiça. No contexto desse debate. Por um lado. interpretada como gesto de desconsideração ou de humilhação. Isto apontava para o fato de que a relação burocratizada com o Estado mostrava-se incapaz de lidar com expectativas de tratamento por parte dos cidadãos que os reconhecessem como pessoa. e permitia um maior sentido de satisfação com o resultado. 5 Modelo retributivo. Cardoso do Oliveira. 2002). A experiência de mediação próxima ao local de residência abria espaço para a valorização da interpretação das partes acerca do sentido de seus atos. Em paralelo às abordagens feitas por profissionais do direito. pesquisas nas ciências sociais têm sugerido que formas extrajudiciais e “alternativas” de resolução de conflitos permitiriam a emergência de dimensões da justiça frequentemente ausentes nas formas judicializadas (Cardoso de Oliveira. pudemos observar alguns dos limitantes de práticas extrajudiciais de mediação. ou restaurativa. 2005:12). Debert & Oliveira. Por outro lado. Em pesquisa recente (Simião et al. 1994) – especialmente em casos que envolviam desigualdades de gênero (Machado. 2005). como por setores da academia e da sociedade civil que viam com receio a utilização do paradigma da mediação em situações de clara assimetria entre as partes (Nader. centrado na punição ao agressor como forma de prevenção e combate ao crime. Vários usuários chegavam aos Núcleos ressentidos com o que poderíamos chamar de déficit de reconhecimento por parte de agentes do Estado (cf. 14 . 1974).desenvolvimento de procedimentos alternativos ao processo judicial tradicional e a formulação de políticas de mediação e de justiça restaurativa” eram tidos como fundamentais para “o desenvolvimento de uma cultura favorável a sistemas alternativos de resolução de conflitos nas autoridades judiciais” (Ministério da Justiça. 1989).

especialmente nos casos relativos à pensão alimentícia. para além dos problemas de morosidade e inconclusividade de casos. no limite. mas em punir. A pensão funcionaria aqui com o sentido oposto a um valor de vínculo (Godbout. ou seja. A motivação para se procurar justiça. 2004). nos termos de reparação a uma ofensa. Se os poucos casos que pude citar aqui forem expressivos de dezenas de outros que passam pelos tribunais timorenses. é este desencontro de expectativas que explica boa parte dessa insatisfação. podemos. de 81% para 77%. um desrespeito por uma das partes das expectativas da outra – em geral quando o ex-cônjuge casava-se novamente. era comum. Assim. caminhar para uma crise de legitimidade no judiciário. em muitos desses casos. que de um direito legal dos filhos passa a ser uma forma de reparação a uma ofensa moral percebida por um dos cônjuges. Creio que. a evocação do direito com um sentido de punição à outra parte. Em Timor-Leste temos uma sociedade que comporta diferentes sensibilidades jurídicas.Por outro lado. Um survey comparativo da Asia Foundation (2008) indica que o nível de confiança no judiciário caiu. avaliações comumente apologéticas ao potencial da chamada “justiça restaurativa” (cf. entre 2004 e 2008. 1998) – algo como uma resposta à altura para a ofensa por meio de uma “reciprocidade negativa”. o desafio de tratar de tais traduções deve merecer cuidado especial por parte do judiciário. parece subverter também (ou ao menos tornar mais complexa) uma avaliação comum no campo das formas alternativas de justiça acerca do potencial da mediação como instrumento de reconciliação social. Conclusões Justiça e senso de justiça Os casos aqui analisados parecem indicar que a não-mediação entre lógicas jurídicas cria situações trágicas e que impedem uma percepção de equidade por parte dos envolvidos. 2006) acabariam minimizando o fato de que. nesses casos. Essa subversão do sentido jurídico da pensão. Em uma sociedade multicultural como a timorense. o interesse maior do demandante não está em reconciliar. começava com a percepção do não-reconhecimento. que se traduziria por uma espécie de vínculo negativo (Cardoso de Oliveira. não apenas diferentes descrições do plano normativo (leis modernas versus convenções 15 . Ministério da Justiça.

sejam elas modernas ou não). ________. O desafio. mas de reconhecer diferentes formas de traduzir os planos normativo e interpretativo e procurar pontes entre elas de modo a evitar o agravamento de situações já percebidas como trágicas. a análise deve seguir no sentido de aproximar sentidos de justiça. parece estar em construir uma escuta adequada dos demandantes. Tese de doutorado. em processos judicializados. University microfilms international (8923299). alerta para a necessidade de se evitar a caracterização de formas de justiça local ou alternativas como essencialmente mais “conciliatórias” ou “restaurativas”. 2002. Não se trata de aproximar o direito do que “é”. como operar uma tradução cultural entre sensibilidades jurídicas aparentemente divergentes. capaz de incorporar crítica e profundamente suas próprias interpretações dos acontecimentos. CARDOSO DE OLIVEIRA. à revelia. Posta nestes termos. Ou ainda. Díli. mas diferentes modos de traduzir os fatos (as práticas sociais) na linguagem das normas (leis ou convenções. Access to Legal Aid in Timor-Leste: Survey Report. por aquilo que se convencionou chamar de “cultura”). Referências bibliográficas AVOCATS Sans Frontière. tal como no caso brasileiro. Rio de Janeiro: Relume Dumará. 1989. ou mesmo daqueles envolvidos. perguntar-se por mecanismos que aproximem a Justiça formal das expectativas de justiça daqueles que recorrem aos tribunais.tradicionais/ “usos e costumes”). enfim. a questão deixa de ser a de como opor ou aproximar o sistema formal de justiça das práticas sancionadas pelo “costume” (ou pela “tradição” ou. Quebec e EUA. Harward University. ou seja. Luís Roberto. 2006. Em vez disso. contudo. Ann Arbor. Fairness and Communication in Small Claim Courts. Direito Legal e Insulto Moral: dilemas da cidadania no Brasil. Desafio este que não deixa de ser comum ao direito e à antropologia. O que se tem visto no caso brasileiro. 16 .

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