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5° Letras Profª Suéllen Pereira Miotto Lourenço Literatura Brasileira III – 1° bimestre As vanguardas europeias

5° Letras

Profª Suéllen Pereira Miotto Lourenço

Literatura Brasileira III – 1° bimestre As vanguardas europeias e sua influência no Brasil

Aluno(a):

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Data: 13/02/12

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AS VANGUARDAS EUROPEIAS E SUA INFLUÊNCIA NO MODERNISMO BRASILEIRO BELLE ÉPOQUE O período da literatura européiaRimbaud , Verlaine, Zola, Anatole France e Balzac, uma referência existencial para os que estavam sintonizados com os ares da Belle Époque.” 2 " id="pdf-obj-1-3" src="pdf-obj-1-3.jpg">

AS VANGUARDAS EUROPEIAS E SUA INFLUÊNCIA NO MODERNISMO BRASILEIRO

BELLE ÉPOQUE

O período da literatura européia que se estende de 1886 a 1914, corresponde ao que se denomina ‘belle époque’. Esse período caracteriza-se, principalmente, pelas múltiplas tendências filosóficas, científicas, sociais e literárias que apresenta. Essas tendências advêm do realismo-naturalismo e darão origem aos inúmeros –ismos que marcaram o desenvolvimento das artes neste século.

Na Europa, esse movimento, ou podemos dizer também ‘momento’, ganhou mais forças na França, onde foi encarado como o florescimento total do belo, dos avanços e da paz entre aquele território e as demais nações européias.

As ligações culturais entre Brasil e França eram profundas nesta época. Era inconcebível um membro da elite brasileira não ir à França ao menos uma vez ao ano para estar a par das mais recentes inovações. Por isso, não tardou que essa ‘brisa’ de novos costumes alcançasse essas terras.

Já o cenário político internacional contrastava com a harmonia do mundo artístico, como afirma SANTANA (2009):

“(

...

)

este período testemunhou a escalada do socialismo organizado

e dos militantes operários. Os confrontos criados por este novo cenário, somados às controvérsias políticas então vigentes, geraram um posicionamento dos franceses entre a esquerda e a direita. Mesmo com esta tensão no ar, o contexto desta época é lembrado como a era dourada, subitamente abalada pelo início da Primeira Guerra Mundial. Mudanças profundas marcam o cotidiano da Belle Époque, provocadas pelo aparecimento de novas tecnologias como o telefone, o telégrafo sem fio, o cinema, a bicicleta, o automóvel, o avião, entre outras invenções. Paris se torna o centro cultural mundial, com seus cafés-concertos, balés, operetas, livrarias, teatros, boulevards e a alta costura inspirando e influenciando várias regiões

do Planeta. Toda a elite intelectual consome avidamente os livros de Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Zola, Anatole France e Balzac, uma referência existencial para os que estavam sintonizados com os ares da Belle Époque.”

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VANGUARDA O vocábulo ‘vanguarda’ possui formação híbrida (avant, latim; garde, germânico) e significa, ao pé da

VANGUARDA

O vocábulo ‘vanguarda’ possui formação híbrida (avant, latim; garde, germânico) e significa, ao pé da letra, esperar, aguardar, cuidar. Ao parafrasear Giulio Carlo Argan, crítico de arte italiano, NICOLA (2007) diz que:

“entende-se com este termo um movimento que investe um interesse ideológico na arte, preparando e anunciando deliberadamente uma subversão radical da cultura e até dos costumes sociais, negando em bloco todo o passado e substituindo a pesquisa metódica por uma ousada experimentação na ordem estilística e técnica.”

Segundo TELES (1997), “o termo significava a parte mais radical dos movimentos literários e estéticos”. A vanguarda interpretou todo o sentimento de experimentação que irradiava na belle époque e reproduziu nas artes, principalmente na literatura, um espírito de choque, de ruptura com o passado e, ao mesmo tempo, de mudança, de inovações e sucessões.

A vanguarda demonstra o sentimento de constante inovação que permeia os sentimentos humanos no mundo moderno. E isso se deve, muito, à Revolução Industrial, que trouxe para o mundo, até então predominantemente rural, uma noção positiva sobre ousadia, rompimento. Antes da era industrial, os critérios estéticos eram bastante conservadores. Era considerado um bom artista aquele que conseguia reproduzir obras já existentes ou relê-las belamente. No mundo moderno, porém, a lógica foi invertida: o bom artista é aquele que inova, inventa e corre riscos.

O surgimento de um movimento de vanguarda indica que ao menos um artista entende que o modelo vigente precisa ser sacudido, mudado, reinventado. Muitos autores da literatura brasileira foram ousados. Há de se citar como exemplos Bernardo Guimarães, da poesia erótica e pornográfica, assim como Castro Alves, ao denunciar a situação desumana em viveram os escravos no Brasil. Mas não se pode dizer que eles de fato tenham sido vanguardistas.

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Vanguarda mesmo, no sentido mais preciso do termo, só aconteceu nas terras tupiniquins no século XX,

Vanguarda mesmo, no sentido mais preciso do termo, só aconteceu nas terras tupiniquins no século XX, em momentos de intensa inventividade.

VANGUARDAS EUROPEIAS

Como já explicitado anteriormente, o início do século XX na Europa é marcado por um salto no desenvolvimento científico-tecnológico, o que cria as condições propícias para profundas mudanças em todos os campos das atividades humanas. Paralelo a isso, grande parcela da população, não beneficiada pelos avanços tecnológicos do capitalismo, resolve lutar por melhores condições de vida e pelo direito de ficarem à margem desse processo. E é nesse pano de fundo que surgem as vanguardas europeias, movimentos artísticos que questionam o passado e buscam novos caminhos.

Todo esse painel no âmbito político e social pelo qual o mundo passava, colabora para a caracterização dos movimentos artísticos que marcaram o período, pois, como afirma TELES (1997),

“mais do que simples tendência, a vanguarda representa a mudança

de crenças experimentada no pensamento e na arte do mundo ( ) ... Toda vanguarda se caracteriza pela sua agressividade, manifestada

no antilogismo, no culto a valores estranhos (

...

),

os poderes mágicos,

a beleza da anarquia, o instantaneísmo, o dinamismo, a imaginação

sem fio( )” ...

Aparentemente, a maioria dos movimentos vanguardistas surgidos na Europa originou-se de pensamentos filosóficos. É possível notar a popularidade de certos textos, como ‘Do espiritual na Arte’, de Kandinsky, entre os círculos de vanguardistas da época. Esses movimentos possuíam frentes opostas, mas, ao mesmo tempo, unidas por um mesmo ideal: a renovação literária.

FUTURISMO

A história do futurismo de mistura com a de seu líder, Filippo Marinetti (1876- 1944). Com os vários manifestos que publicou, as conferência e polêmicas em se envolveu, esse italiano exerceu imensa influência na literatura moderna.

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Marinetti assinou o manifesto que marcou a fundação do movimento futurista, publicado no jornal Le Figaro,

Marinetti assinou o manifesto que marcou a fundação do movimento futurista, publicado no jornal Le Figaro, de Paris, em 20 de fevereiro de 1909.

No referido manifesto, Marinetti enumera as primeiras vontades do movimento futuristas, conforme transcreve CHIPP (1999):

“1. Queremos cantar o amor do perigo, o hábito

da energia

e

da

temeridade. 2. A coragem, a audácia e a rebelião serão elementos essenciais da nossa poesia.

  • 3. Até hoje a literatura tem exaltado a imobilidade pensativa,

o

êxtase, o sono. Queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia

febril, a velocidade, o salto mortal, a bofetada e o murro.

(

...

)

Bem-vindos, pois os alegres incendiários com seus dedos

carbonizados! Ei-los! ...

Aqui! ...

Ponham fogo nas estantes das

bibliotecas!

Desviem o curso dos canais para inundar os museus! ...

... Oh, a alegria de ver flutuar à deriva, rasgadas e descoradas sobre as

águas, as velhas telas gloriosas!

Empunhem as picaretas, os

... machados, os martelos e destruam sem piedade as cidades veneradas!”

Outro trecho do Manifesto Futurista mostra a ironia com que a famosa

escultura exposta no museu do Louvre, em Paris, é tratada. “(

...

) um automóvel

rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que Vitória de Samotrácia.” Isso porque os futuristas consideravam mais importantes as máquinas, o automóvel e todas as inovações da época que as esculturas, veneradas pelos clássicos e tradicionais.

Não custa lembrar que Marinetti é um italiano de formação cultural francesa, numa época em que a França era o centro cultural do mundo. Nesse ambiente propício, ele encontrou lugar para suas idéias inovadoras junto a decadentistas e simbolistas empenhados na teoria do verso livre.

Segundo a atuação do seu fundador, o movimento futurista pode ser dividido em três fases: de 1905 a 1909, em que o princípio estético defendido é o verso livre; de 1909 a 1914, quando se luta pela imaginação sem fios e pelas palavras em liberdade; e de 1919 em diante, quando foi fundado o fascismo e, a partir de então, o futurismo se torna um porta-voz do partido político, o que,

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de certa forma, afastou alguns de seus adeptos e gerou a dispersão dos grupos de artistas.

de certa forma, afastou alguns de seus adeptos e gerou a dispersão dos grupos de artistas.

O futurismo foi, em linhas gerais, um movimento estético mais de manifestos que de obras. Procurou exaltar a vida moderna, estabelecendo o culto à máquina e à velocidade, pregando a destruição do passado e dos meios tradicionais de produção literária.

A INFLUÊNCIA DO FUTURISMO NO BRASIL

No Brasil, jovens artistas procuravam romper com as tradições impostas até então. Um deles, Oswald de Andrade, tomou conhecimento do Futurismo em suas viagens à Europa. Essas viagens aconteceram antes de 1919, ou seja, anterior à ligação do movimento com o fascismo. Após essa data, muitos modernistas brasileiros recuaram em face do movimento. Eles concordavam prontamente com seus ideais artísticos, mas repugnavam seu posicionamento político.

Posteriormente, o vocábulo Futurismo passou a designar qualquer movimento inovador. Diante disso, Oswald lança um artigo denominado O meu poeta futurista, para homenagear Mário de Andrade. Porém, temendo ver seu nome ligado ao fascismo, Mário vem a público negar sua ligação com o movimento, e o faz através do prefácio de seu livro Pauliceia desvairada, onde afirma: “Não sou futurista (de Marinetti). Disse e repito-o. Tenho pontos de contato com o futurismo. Oswald de Andrade, chamando-me futurista, errou.” (ANDRADE,

1922)

Percebe-se, então, que Mário de Andrade não demonstrava a influência que sofreu das vanguardas européias, principalmente do futurismo. Mas, suas obras falam por si, mantendo, em muitas delas, ‘pontos de contato’, como disse o próprio autor, com esses movimentos.

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Como visto, os futuristas prezavam pela liberdade estrutural e semântica das palavras. Mário utilizou essa mesma

Como visto, os futuristas prezavam pela liberdade estrutural e semântica das palavras. Mário utilizou essa mesma técnica futurista no poema “Ode ao burguês”, usando palavras como “burguês-níquel”, “homem-nádegas”. Assim, o autor cria novas expressões e ainda critica a burguesia com suas inovações.

No poema Inspiração, Mário também usou o mesmo recurso. Ele reúne palavras pelo som, ou formando imagens contrastantes, que, ao mesmo tempo, atraem-se umas às outras.

São Paulo! Comoção de minha vida ...

Os meus amores são flores feitas de original ...

Arlequinal!

... Luz e bruma

Traje de losangos

...

Cinza e ouro

... Forno e inverno morno

...

...

Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes ...

Perfumes de Paris

...

Arys!

Bofetadas líricas no Trianon

Algodoal!

... São Paulo! Comoção de minha vida ... Galicismo a berrar nos desertos da América! (ANDRADE, 1922)

...

O movimento futurista defendia também a sequência desordenada de elementos, o que é possível perceber em outro poema de Mário de Andrade, onde lê-se: “Torres, torreões, torrinhas e tolices”. O poeta utiliza substantivos no aumentativo e no diminutivo com o intuito de construir uma frase com elementos desordenados, exatamente como os futuristas.

Algumas características do futurismo, como a tensão entre as palavras, a multiplicidade dos movimentos e nova sintaxe estrutural, são retomadas no Brasil no anos 1950, com o movimento da poesia concreta. Exemplo disso é o poema de Ronaldo Azeredo, que fala da beleza da velocidade, tema tão defendido pelos futuristas.

VVVVVVVVVV VVVVVVVVVE VVVVVVVVEL VVVVVVVELO VVVVVVELOC VVVVVELOCI VVVVELOCID VVVELOCIDA VVELOCIDAD VELOCIDADE (AZEREDO, 1957)

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O futurismo valorizava, também, o espaço em branco, a relação entre a palavra e o espaço

O futurismo valorizava, também, o espaço em branco, a relação entre a palavra e o espaço de página. Essa característica é percebida na capa da revista Klaxon, veículo de grande importância para o Modernismo brasileiro que serviu de divulgação para o movimento.

O futurismo valorizava, também, o espaço em branco, a relação entre a palavra e o espaço

EXPRESSIONISMO

O termo expressionismo é difícil de ser definido, pois é multifacetado e vasto. Ao que parece, o movimento, que se apresentou com mais vigor na Alemanha, tinha como rejeição as estruturas políticas e sociais vigentes. Seu auge aconteceu entre 1905 e 1920. Os artistas adeptos do movimento tinham como maior preocupação a expressão, o ato de exprimir. Segundo TELES (1997),

Na obra expressionista a realidade não devia

ser percebida em

planos distintos (físico, psíquico etc) porque tudo se prendia a uma única realidade: a expressão. O artista perdia o controle da expressão, os elementos é que expressavam a si mesmos. Se o mundo interior era obscuro e analógico, assim também devia ser a sua expressão.

Apesar de alguns autores defenderem o Expressionismo como um movimento supranacional, ele foi particularmente alemão. “Tanto por suas referências exteriores, contra o positivismo e contra o naturalismo, como pela dimensão da

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problemática ( )”, afirma TELES (1997). O alemão estava bastante descontente com a atual realidade e

problemática (

)”,

afirma

TELES

(1997).

O

alemão

estava

bastante

descontente com a atual realidade e queria encontrar na vida interior uma

saída.

Isso

faz

com

que

o

Expressionismo

seja

mais

que

um simples

movimento artístico. Foi uma verdadeira revolução cultural, deixando seus rastros nas artes, na política, na filosofia e na religião.

O movimento pode ser dividido em três fases: o pré-expressionismo da pintura, com Van Gogh e Cézanne; o expressionismo propriamente dito, que vai de 1910 a 1920, quando o movimento alcança uma grande produção, motivado, principalmente, pela guerra; e o término do movimento, em torno de 1933, quando se dá a ascensão de Hitler ao poder. Isso de deve ao fato de o ditador exigir uma arte ‘pura, limpa, que retratasse a superioridade germânica.

As obras do movimento manifestavam emoções de medo, angústia, dor e ansiedade por meio das cores vibrantes, distorções e exagero de formas. As figuras humanas retratadas não têm traços bem definidos, apresentando corpo e rosto distorcidos, assemelhando-se a máscaras e caricaturas.

Em Numa rua de Berlim, Ernst Ludwig Kirchner apresenta sua visão do mundo moderno , às portas da Primeira Guerra: olhares perdidos e as feições distorcidas contrastando com a ostentação das vestimentas; o choque provocado pelas cores vibrantes das figuras que aparecem em primeiro plano contrastando com a dispersão da multidão em segundo plano. (NICOLA, 2007)

Já na literatura o expressionismo se estendeu à poesia, ao teatro, ao romance e ao ensaio. São muitos os poemas inspirados na catástrofe da guerra, traduzindo os sentimentos de horror, sofrimento e solidariedade humana, como pode ser observado no texto a seguir. George Trakl foi um dos mais importantes escritores desse movimento Outros escritores foram Gottfried Bemn, George Heym e Jakob van Hoddis.

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Fim do Mundo O chapéu do burguês está voando de sua aguda cabeça, Em todos os

Fim do Mundo

O chapéu do burguês está voando de sua aguda cabeça, Em todos os ares está ecoando a gritaria. Os telhadores estão caindo e despedaçando-se, E no litoral – lê-se – está subindo a preamar.

A tempestade aí está, os mares selvagens saltam Para a terra, para destroçar os grossos diques. A maioria dos homens têm um defluxo. Os trens de ferro despenham-se das pontes. (HODDIS, 1911)

A INFLUÊNCIA DO EXPRESSIONISMO NO BRASIL

Uma das grandes pintoras e idealizadoras do movimento modernista no Brasil sofre profunda influência do movimento expressionista. Anita Malfatti, jovem paulista de 16 anos, viajou para a Alemanha, em 1916, para estudar na Escola de Belas Artes de Berlim. Lá, entra em contato com o movimento e volta ao Brasil maravilhada. Em 1914 realiza sua primeira exposição, em São Paulo. Sua segunda exposição acontece em 1917, desencadeando fortes reações, inclusive do escritor Monteiro Lobato, que critica a estética da jovem pintora. Essa exposição acabou sendo o fato gerador da mostra de arte moderna que se concretizaria em 1922.

Na literatura, o único autor que possui em sua obra traços do movimento expressionista é Augusto dos Anjos, apesar de não ter tido contato com a tendência de vanguarda. No poema Budismo moderno, o poeta utiliza vocabulário carregado de indefinição e morbidez. Um exemplo é o famoso verso “Ah! Um urubu pousou na minha sorte!” Para HELENA (1993),

A poesia de Augusto dos Anjos apresenta esse clima de agonia universal, tão claro aos expressionistas. A atmosfera de densidade psicológica, de dor, lamento e destruição constitui muitos de seus textos e caracteriza um modo de apreensão da realidade deformada pelo sentimento subjetivo.

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CUBISMO No ambiente revolucionário em que estava a Europa, vivendo a explosão de tantos –ismos, uma

CUBISMO

No ambiente revolucionário em que estava a Europa, vivendo a explosão de tantos –ismos, uma característica marcante foi a união de todas as formas de arte. Foi o que aconteceu, por exemplo, no expressionismo alemão, em que a pintura influenciou a escultura, a literatura, a música e a arquitetura. Na França não foi diferente, onde poetas e pintores partilhavam um ideal comum de renovação artística. Isso fez com que o termo ‘cubista’, inicialmente associado à pintura, passasse também a designar um tipo de poesia em que a realidade era fracionada e expressa através de planos superpostos.

TELES (1997) afirma que “(

)

é inegável que a pessoa que motivou a reunião

... de pintura e poesia sob uma mesma designação foi Apollinaire, em torno de cujas idéias os pintores desenvolveram as suas concepções de decomposição da realidade em figuras geométricas.”

A pintura cubista, que desenvolveu o construtivismo de Cézanne, encontrou em Picasso o seu maior representante. A sua técnica é a da representação da realidade através de estruturas geométricas, desmontando os objetos para que, remontados, deixasse transparecer uma figura superior, a forma essencial e verdadeira da beleza. Desejando transmitir a estrutura total dos objetos, os cubistas desmontam os mesmos para expô-los sob diferentes ângulos e aspectos, em suma, na sua totalidade.

Durante 500 anos, desde o início da Renascença italiana, os artistas tinham sido guiados pelos princípios da perspectiva matemática e científica, de acordo com os quais o artista via o seu modelo ou objeto de um único ponto de vista estacionário. Agora, é como se Picasso tivesse andado 180 graus em redor do seu modelo e tivesse sintetizado suas sucessivas impressões numa única imagem. O rompimento com a perspectiva tradicional resultaria, nos anos seguintes, no que os críticos da época chamaram visão ‘simultânea’ – a fusão de várias vistas de uma figura ou objeto numa única imagem. (GOLDING, 2000)

Não existe, efetivamente, um manifesto da poesia cubista, mas Apollinaire diz em um artigo, datado de 1913, que os grandes poetas e os grandes artistas cubistas têm por função remover a aparência que reveste a natureza de

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monotonia. Apollinaire é o mais importante poeta do cubismo. Em homenagem a ele, os pintores Amedée

monotonia. Apollinaire é o mais importante poeta do cubismo. Em homenagem a ele, os pintores Amedée Ozenfant e Le Corbusier fundaram, em 1920, a revista L’Esprit nouveau, onde refletiram sobre a esperança de um ‘espírito novo’ no mundo pós-guerra.

A literatura cubista defende a aproximação das várias formas de manifestação artísticas (pintura, música, literatura, escultura), preocupando-se com a construção do texto e ressaltando a importância dos espaços da folha de papel. Apollinaire valorizava as ‘palavras em liberdade’ e a ‘invenção das palavras’, propondo ‘a destruição das estruturas sintáticas condenadas pelo uso’, criando textos com palavras, principalmente os substantivos, aparentemente jogadas ao acaso, menosprezando verbos, adjetivo e pontuação. Era comum em suas obra a utilização do verso livre e a negação de estrofes, rimas e métricas.

Observe no poema a seguir, do próprio Apollinaire, como as colagens e o reaproveitamento de materiais, característica da pintura cubista, aparecem também na poesia.

monotonia. Apollinaire é o mais importante poeta do cubismo. Em homenagem a ele, os pintores Amedée

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A INFLUÊNCIA DO C UBISMO NO B RASIL Mário de Andrade, um dos mentores do Modernismo

A INFLUÊNCIA DO CUBISMO NO BRASIL

Mário de Andrade, um dos mentores do Modernismo no Brasil, possuiu uma coleção da revista L’Esprit nouveau, um dos principais veículos dos ideais cubistas. Segundo estudo e comprovação de autores renomados, Mário retirou dessa revista grande parte de suas teorias poéticas, primeiramente expostas no ‘Prefácio Interessantíssimo’ e ampliadas depois no ‘A escrava que não é Isaura’. O primeiro texto mencionado, prefácio do livro Pauliceia Desvairada (1922) menciona o nome da maior parte dos escritores que colaboravam na produção da revista.

É importante também considerar que a expressão L’Esprit nouveau, de Apollinaire, foi muito comum na imprensa brasileira na época da Semana de Arte Moderna, traduzida como ‘espírito moderno’. É este, inclusive, o título da conferência de Graça Aranha na Academia Brasileira de Letras, em 1924, publicada em um livro homônimo, em 1925.

Na pintura, percebemos a influência das vanguardas européias na obra de Ismael Nery (1900-1934). No quadro representado a seguir, intitulado Figura, prevalece a perspectiva simultânea, largamente utilizada por Pablo Picasso. Há dois planos: o rosto é mostrado de frente e de perfil, além da geometrização da figura humana.

A INFLUÊNCIA DO C UBISMO NO B RASIL Mário de Andrade, um dos mentores do Modernismo

A poesia de Apollinaire e a estética cubista influenciaram Oswald de Andrade, na década de 1920, e a chamada poesia concreta da década de 1960 no

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Brasil. Autores como Augusto de Campos e Millôr Fernandes, para citar apenas dois, reproduziram em seus

Brasil. Autores como Augusto de Campos e Millôr Fernandes, para citar apenas dois, reproduziram em seus poemas concretos os conceitos apregoados pela vanguarda européia.

Brasil. Autores como Augusto de Campos e Millôr Fernandes, para citar apenas dois, reproduziram em seus

CAMPOS, Augusto de. Poesia 1949-1979. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 193

DADAÍSMO

Há quem diga que o Dadaísmo foi um movimento internacional, pois surgiu ao mesmo tempo em vários centros culturais da Europa. Porém, seu epicentro se deu em Zurique, pois lá se reuniram cinco intelectuais amantes da paz e revoltados contra a sociedade.

Em fevereiro de 1916, o escritor alemão Hugo Ball e sua mulher, a atriz Emmy Henings, fundaram o Cabaret Voltaire, em Zurique, na Suíça. Nesse café desenvolveram noitadas literárias e musicais que atraíram intelectuais e artistas, que iam se divertir, beber e trocar

idéias. (

)No

Cabaret foi publicado e lançado o único número da

... Revista Cabaret Voltaire, no qual foi divulgado o “Manifesto do Senhor Antipirina”. As atividades literárias no Cabaret eram poemas dos cubistas Apollinare e Max Jacob e discutiam sobre o futurismo. O Cabaret era um lugar propício para fazerem a propaganda de suas novidades culturais. (SANTOS, 2009)

O Manifesto do Senhor Antipirina foi a primeira manifestação dadaísta. Foram usadas palavras bem vulgares, para atrair a atenção das pessoas, como é possível perceber no trecho transcrito a seguir: “Dadá permanece no quadro europeu de fraquezas, no fundo é tudo merda, mas nós queremos doravante cagar em cores diferentes ” ...

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O surgimento da palavra ‘dadaísmo’ possui várias versões. Uma delas diz que Dadá significa, em romeno,

O surgimento da palavra ‘dadaísmo’ possui várias versões. Uma delas diz que Dadá significa, em romeno, ‘sim, sim (certamente)’, em francês ‘cavalinho’, em alemão ‘um sinal de ingenuidade’. Para outras dadá não significa nada. Tristan Tzara (1896-1963), líder do movimento Dadaísta, diz ter encontrado esse nome ao acaso, ao abrir um dicionário aleatoriamente e procurar a palavra mais estranha.

Para TELES (1997),

O dadaísmo foi o mais radical movimento intelectual dos últimos tempos, superando pela intensidade e dimensões estéticas os

grandes movimentos de pessimismo e ruptura(

...

)

O futurismo lançou-

se contra o passado e sonhou uma superliteratura no século da velocidade; o expressionismo via a destruição do mundo, mas sabendo que do caos se organizaria uma estrutura superior, que era a verdadeira beleza. Para os dadaístas, entretanto, não havia passado, nem futuro: o que havia era a guerra, o nada; e a única coisa que restava ao artista era produzir uma antiarte, uma antiliteratura: ‘Dadá não significa nada’; ‘a obra não tem causa nem teoria’ e ‘eu estou contra os sistemas; o mais aceitável dos sistemas é o de não ter princípio algum’, frase que nos lembra a dos nossos modernistas: ‘Não sabemos o que queremos; sabemos o que não queremos: não queremos o passado’.

A obra dadaísta caracterizou, então, pela improvisação, falta de ordem e oposição ao equilíbrio. O líder do movimento, Tzara, em um de seus manifestos, indica como se faz uma obra dadaísta: pegue um jornal e uma tesoura, escolha um artigo, recorte algumas palavras que formam esse artigo e coloque-as em um saco. Agite suavemente, tire palavra por palavra, copie na ordem em que elas são tiradas e estará pronto um poema parecido com você, um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.

Destruindo todas as tradições intelectuais, os escritores dadás caíram no irracionalismo, inventando palavras sem significação e textos sem sentido. O poema representado a seguir mostra bem essa vertente, em que o efeito expressivo da poesia fonética, salvou o texto de Ludwig Kassak, intitulado A batalha:

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Berr ... bum, bumbum, bum ... Ssi bum, papapa bum, bumm Zazzau Dum, bum, bumbumbum ...

Berr

...

bum,

bumbum, bum

...

Ssi

bum,

papapa bum, bumm

Zazzau

Dum,

bum, bumbumbum

 

...

rá,

ah-ah, AA

...

Haho! ...

 

Além disso, outras características como o menosprezo à coerência do texto e pela participação do leitor, tornam a obra dadaísta afastada do público, que não conseguia acompanhar a linguagem dos novos poetas. O apogeu do movimento acontece em 1920 com a morte de Apollinaire e a decadência do Cubismo. Nesse período, os dadaístas fizeram as suas exposições públicas, embora não tenham deixado nada de grande valor literário.

A INFLUÊNCIA DO DADAÍSMO NO BRASIL

Apesar da falta de coerência das obras desse movimento de vanguarda, percebe-se que foi de grande importância para a literatura. Basta ver, por exemplo, que a idéia de fazer uma Semana de Arte Moderna, maior evento do Modernismo brasileiro, foi copiada da idéia de um Congresso do Espírito Moderno, programada um ano antes por André Breton, que ocasionou uma briga entre este e Tzara e, consequentemente, o desaparecimento do dadaísmo.

Além disso, a Revista Antropofagia foi a mais violenta manifestação do modernismo brasileiro. O manifesto antropófago, publicado na revista por Oswald de Andrade, manteve um diálogo com o dadaísmo. Ele também utilizou outra técnica do dadaísmo, “uma forma de linguagem pronta, não criativa, a técnica chamada ready-made”, como afirma SANTOS (2009).

SURREALISMO

O movimento surrealista foi, cronologicamente, o último a se manifestar entre as vanguardas européias. Surgiu em 1924, com André Breton, que brigara com Tzara dentro do movimento dadaísta. Consequentemente, muitas

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características do movimento dadaísta foi incorporada a este novo movimento. Como o Dadá negava tudo, até

características do movimento dadaísta foi incorporada a este novo movimento. Como o Dadá negava tudo, até ele mesmo, o Surrealismo pregava um desejo de reconstrução, até porque o mundo vivia as cinzas do fim da Primeira Guerra Mundial.

Breton era médico e apreciador das teorias de Freud, o que levou os seguidores do Surrealismo a uma aproximação com estas teorias e um envolvimento entre arte e ciência. Era comum a recorrência ao ocultismo, alquimia e magia, na tentativa de se descobrir um homem primitivo, ainda não maculado. Os surrealistas exploraram a ligação entre linguagem e arte com o inconsciente, sonhos e técnicas de escrita automática, em que o autor não pensa para escreve, apenas vai lançando as palavras pelo impulso de sua imaginação.

Com relação a Freud, Compagnon (1996) expõe:

Freud se interessava pelo sonho e pela livre associação de maneira bem diferente da de Breton e a incompreensão mútua foi grande. Ela se baseia no fato de os elementos do sonho não oferecem, para a psicanálise, interesse em si mesmos, mas em um contexto, que é constituído, ao mesmo tempo, pelas circunstâncias da vida e pelas associações que o paciente fará a respeito deles.O surrealismo, ao contrário, corta, isola esses elementos do processo de sua produção e de sua interpretação, e os dá a ler ou a ver tais como se apresentam.

A intenção do Surrealismo era explorar o inconsciente, os sonhos, as alucinações, o sobrenatural, o maravilhoso, a loucura, enfim, tudo que fosse contrário à lógica. Isso fez com que restabelecesse o contato da poesia com a ciência elevada à categoria mágica: a poesia se torna um instrumento da ciência, que apela para a alquimia, transformando-se em metamorfose poética, num círculo vicioso de belas realizações. O esoterismo, o inconsciente, a telepatia e a exploração mental se transformaram nos grandes motivos dos poetas e pintores surrealistas, que influenciaram bastante a literatura e as artes deste século.

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Para Chipp (1999), O Surrealismo repousa na crença na realidade superior de certas formas de associações

Para Chipp (1999),

O Surrealismo repousa na crença na realidade superior de certas formas de associações antes negligenciadas, na onipotência do sonho, no jogo desinteressado do pensamento. Tende a arruinar definitivamente todos os outros mecanismos psíquicos e substituí-los na resolução dos principais problemas da vida.

Além da ligação com a ciência, o Surrealismo também enveredou-se pelo partidarismo político. Breton acreditava que a arte autêntica era aquele que estava ligada ao movimento revolucionário, o que alguns elementos do grupo não concordaram. Alguns membros do movimento filiaram ao Partido Comunista, inclusive Breton. Isso fez com que o grupo se desagregasse, inclusive no Brasil, onde houve a separação dos surrealistas entre comunistas e não-comunistas.

O sexo, a memória, o sono e o sonho são temas recorrentes nas obras de Salvador Dalí, o mais extravagante dos surrealistas e um grande seguidor de Freud.

A INFLUÊNCIA DO SURREALISMO NO BRASIL

A ligação de alguns membros do movimento Surrealista com o Partido Comunista fez com que fosse quase impossível a permanência desse movimento em terras brasileiras, onde o governo fazia o que podia para evitar o crescimento desse partido político. Por isso, são poucas as obras que podem ser claramente citadas como influenciadas por este movimento de vanguarda.

Tem-se como destaque a escultora Maria Martins, a obra Eu Vi o Mundo, Ele Começava no Recife, do artista pernambucano Cícero Dias, o quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral, assim como algumas obras de Ismael Nery possuem características surrealistas.

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