Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

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Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

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 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

p.Existem. 4 . 4. O Direito civil é muito estável. 812º. é abstracto. Se a fonte for inválida. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. defesa do consumidor). A responsabilidade civil é fechada. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. No entanto. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. O Direito das Obrigações alemão é líder. Romano-germânico Sistema centrado no BGB. doutrina. O legislador optou por emitir leis avulsas. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. para não darem o que não têm. a obrigação não subsiste. É muito difícil mexer nele. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade. transposição de directivas comunitárias. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. 947º. Resulta do movimento da pandectística. baseada num conceito vago. O Direito das Obrigações é super estável. É muito elegante linguística e estilisticamente. Protegem-se as pessoas contra si próprias. 994º). É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. 942º. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. Mas há zonas periféricas. analítica. 457º. no Código Civil. daí tal importância. todavia. 809º. 2. A codificação da boa-fé. A validade de um cheque. A responsabilidade civil é ampla. vários artigos em que podemos detectar esta orientação. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. (448º. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. prescrição. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. renunciem aos seus direitos. XIX. O BGB. ex. por regra. regras. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. É um código típico do início do séc. O BGB é de 1900. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. que merecem reforma em Portugal. as obrigações. antes de terem as coisas. nesse caso. 863º. que nascem de uma determinada fonte. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. A causalidade contrapõe-se à abstracção. não depende da sua fonte – o negócio jurídico.. Causalidade Significa que. Foi muito pouco mexido. Não se quer que as pessoas.

Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. sendo uma enorme influência. canónica. Anglo-saxónico É um mundo à parte. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. surgem institutos até então desconhecidos. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. Mas foi uma novidade científica que vingou. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. No Brasil. muito avançado. Antes da aprovação do Código de Seabra. na China não aconteceu isso. Chinês É muito antigo. tal como a cultura chinesa. não havendo negócio jurídico separado dos contratos. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. Naturalmente. Não há correspondência. entre os conceitos desta família e os das anteriores. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. no entanto. Mas tem uma organização e conceptualização originais. Há união entre religião e Estado. a partir de 1911. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. mantiveram-se em vigor as Ordenações. Este sistema não é codificado. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. O Direito português é aberto ao exterior. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. XIX. O Código de Seabra é. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. 4. 5 . islâmica. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. 5. O Código não é de inspiração alemã. Mas. sendo revigorados os já conhecidos. Além da redistribuição germânica das matérias. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. sequer. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. há um período de pré-codificação.3. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. Há pouca influência romana.

Em Macau. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. com algumas alterações após a independência.No Brasil Na doutrina brasileira. O Código brasileiro aparece só em 1916. foi aprovado um Código Comercial novo. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. com Teixeira de Freitas. Ele é de 1966. vigora também o código de 1966. ainda em meados do séc. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. Com a independência. numa primeira fase. mas começa a ser preparado no pósguerra. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. um período de exegese. tendo-os traduzido para chinês. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. como membro da OEA. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. voltou a vigorar o Direito português. logo em meados de oitocentos. verificou-se a invasão indonésia em 1975. XIX. Foi necessário recomeçar. sendo substituída pelo inglês. mas havia a barreira linguística. Na Guiné. quando ocorreu a ocupação. depois da aprovação. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. numa segunda fase. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. Antes da entrega de Macau. Em Cabo Verde. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. O Prof. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. 6 . permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. Há algum atraso na sua aprovação. Em Moçambique. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. Em África Em Angola. O CC de 1916 tem já influência germânica. Houve. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. O português era a segunda língua. mas já havia recepção do pandectismo. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. Tem influência germânica e do Código de 1966. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. houve maior inteligência política. Todavia. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. marcaram as primeiras reconstruções do CC. O Código de 1966 vigora actualmente. Em Timor. As revisões ministeriais do Prof.

As regras sobre a moeda única. É um Direito que tem uma evolução histórica. Somos. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. Ciência do Direito. Coreia do Sul. Quanto a autonomia doutrinária. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). Há as directrizes e os regulamentos. Mais tarde. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. etc. uma enorme barreira linguística. ganha pelo mérito. Brasil. O caso português é singular. a grande influência. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. Turquia. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. língua.O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. hoje. foi do Direito alemão. não são de common law. No Direito francês há distinção. Japão. também com as operacionais: inglês. O Prof. Se não o fizerem. predomina o inglês. é diferente. 7 . Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial. entre interpretação e integração. Há 23 línguas oficiais na Europa. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. estão em causa relação inter-pessoais. provêm de regulamento. Assiste-se à implantação (Portugal. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). Em termos planetários. ao contrário do que acontece no Direito português. na área dos negócios e nas relações entre povos. Há. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. Cumpre saber que língua é utilizada. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. até. um pequeno país na Europa. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. francês e alemão. evolução histórica. Nas obrigações. mesmo quando escritos em inglês.. O Direito lusófono não tem só essa influência. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. que é do final de Oitocentos). de Common Law. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. Mas havia uma grande projecção ultramarina.) de sistemas próximos do germânico. quantidade de falantes da língua. p. que suportou a nossa independência. Mas na área do Direito não é assim. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. ex. De um modo geral. Todavia. a directriz não vigora. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. não havendo confusão com os sistemas da pandectística.

Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. juristas portugueses. Não teve consequências. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. há muitos constrangimentos. era o poder da vontade. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida.No tempo do ius commune. Esta noção presta-se a críticas. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. havia um domínio de alguém sobre outrem. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. como a falta de competência dos órgãos europeus. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. O direito subjectivo. e não a totalidade. intra muros. Antigamente. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. não há um Governo europeu. há 500 milhões de pessoas. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. Fala de um bem a prestar. para SAVIGNY. forçar a vontade humana. MENEZES CORDEIRO. No plano oficial. não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. havia um Direito europeu das obrigações. ele começa a desaparecer. Nós. Se A tem direito. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. Para o Prof. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. mas com exagero. nem uma política externa comum. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo). quando existia obrigação. No espaço europeu. dada a insuficiência da língua inglesa. a vantagem é o bem que será prestado. 8 . O Prof. O melhor Direito é o interno.

Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. A ideia remonta ao antigo Direito romano. independentemente de ser cumprida ou não. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. obrigações. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. surge a nova noção de obrigação. Na prescrição. Se o devedor não cumprir. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. assentes apenas em deveres acessórios. XIX. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. independentemente de terem culpa). A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. pode-se atingir o seu património. Em regra. todavia. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). surgiu a respondência. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. extingue-se a haftung. As pessoas morriam. A obrigação não é apenas um bem a prestar. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. pelo que é excepção o recurso ao património. Pode haver obrigações sem prestação. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. No séc. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. Ela. as obrigações são cumpridas. mas o seu património. já é um valer em si. Pode ser um facere ou um non facere. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). Os romanistas diziam que não havia. no início. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). o dever é sempre um constrangimento ético. Depois. Primeiro. Há. sim. um direito ao património do devedor. Assim. mas as suas obrigações permaneciam. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). 9 . As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta.

O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. compreende um dever de prestar principal. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. Se o devedor principal não cumprir. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. O BGB já não exige natureza patrimonial. cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. Mas.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. O regime é solicitado para um tratamento unitário. Se é assim. Se não são. não podendo servir para construir. pelo que obrigação não é uma prestação. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. noutros ainda. um conceito de obrigação. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. 10 . não tendo interesse para o Direito nesse caso. colaboração. A prestação pode não existir. com o credor e vice-versa. A obrigação do fiador é secundária. não interessam. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. deveres secundários e deveres acessórios. O credor fica adstrito a deveres de segurança. Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. Em certos casos. A obrigação. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. com dois regimes). mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. tratado mais à frente. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. por si só. a responsabilidade é patológica. pode haver nulidade. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. linguística. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. é o fiador que deve cumprir. pode ainda não existir. noutros. Estas construções são úteis. Se são. outra concepção diz que há um direito real de garantia. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. só. A obrigação pressupõe um dever específico. em termos pragmáticos.. qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. sabe-se hoje. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. etc.

O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. tem conteúdo económico. O 397º define obrigação.Se um artista se obriga a entoar uma ária. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. Como são ressarcíveis. No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. ela é avaliável em dinheiro. compensação – e não de equivalência. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. 11 . As relações de obsequiosidade não são. será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. mas pode receber dinheiro. Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. Tudo pode ser avaliado em dinheiro. É assim ao nível global. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). há sanções pecuniárias compulsórias. à partida. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). mas havendo danos. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. não necessariamente em todas as situações. 2ª parte remete para o interesse. A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). boa educação) que não relevam para o direito. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. o 398/2. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. acção directa. há ressarcibilidade dos danos morais. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. Não tem de haver natureza patrimonial (398º). Pode haver execução específica. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. pode haver responsabilidade pela deferência. Direito. de sistema. O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. Hoje isso não é assim. Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade).

o que tem de surgir é o serviço.Há também deveres de protecção. A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. Esta noção vale o que vale. relações de vizinhança. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. encontramos sempre uma dança a dois. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. Uma última. seria sempre necessária a mediação. que são absolutos? Em termos estruturais. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. no caso dos direitos reais). nos direitos pessoais de gozo. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. há figuras como a execução específica. há créditos absolutos. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. absoluta. Assim. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. A obrigação é uma relação jurídica. não. Podem fazê-lo? Em princípio. Quanto aos acordos de cavalheiros. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. duas partes. Nas obrigações. Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. a relatividade existe quando há relação jurídica. erga omnes. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. mas não se pode esfarrapar o par de dança. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). Deve-se sempre perguntar qual a origem. A convida B para dançar. Os direitos potestativos são absolutos. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). 12 . Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. Se a prestação for um serviço. Os créditos não são sempre relativos. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. o direito real é uma situação absoluta. por exemplo). contrapondo-se aos direitos reais. Em obrigações. Noutra acepção. mas não se pode retirar daí uma regra. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. Os acordos de cavalheiros são relevantes. são para cumprir – se não forem. Em direitos reais há só uma. no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. o credor aproveita imediatamente a coisa.

Mas há também deveres no tráfego que. É o que acontece com os chamados deveres de tráfego. 13 . A regra é de que a eficácia é meramente interna. Há uma acção. pode existir oponibilidade em sentido forte. Há contratos com protecção de terceiros. No sentido forte. A eficácia interna é entre credor e devedor. No início. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. a externa é perante terceiros. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). Mas inverteu-se a tendência. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. com os pactos de preferência. dão lugar a responsabilidade civil. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. Havia uma quebra maliciosa do contrato. ex. Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. Na Alemanha diz-se que não. Mas há outras regras.A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. p. PESSOA JORGE). Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. o que lhes daria uma tutela relativa. As obrigações são vínculos. que se manifestam predominantemente perante o devedor. a figura do terceiro cúmplice). então há oponibilidade média. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. Faz sentido que haja defesa contra terceiros. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. se incumpridos. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão. A nossa jurisprudência acordou em 1964. A doutrina tem evoluído nesse domínio. com MANUEL DE ANDRADE. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. médio ou fraco. Se é assim. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. relações jurídicas. Se é assim. Deveres acessórios. dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente..

Está tudo ligado. há responsabilidade. Noutros casos é mesmo normativa. descrevendo as condutas. não estão assim tão mal. países que admitem a figura. O terceiro não pode. não havendo lacuna. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. Contratar-se-ia menos. Num ramo típico. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. os factos são descritos concretamente. Isso em princípio. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida. Outros dizem que só o devedor pode incumprir. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). Se existe uma descrição típica das condutas. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. Argumentos a favor. Isso justifica-se em ramos agressivos. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. 14 . Se ele for atingido. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. Se A contrata com B. Há tipicidade exemplificativa. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. Dá. pois. diz-se. O Direito objectivo. Quando existe um devedor. é muito mais restrita. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. há um numerus clausus – o número de factos é finito. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. Mas esses não se aplicam a terceiros. ao atribui direitos subjectivos. aplicam-se os artigos 798º e ss. proíbe autotutela. O legislador pode dar uma série de exemplos. protecção jurídica.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. Só pode estatuir com recurso a tipos. as economias britânica e francesa.  Diz que está proibida a analogia. Quando a lei recorre a descrição da realidade. recorre a tipos – tipicidade.  Diz que existe numerus clausus. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. mas há várias vias para o conseguir. em princípio inatingíveis. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. Todavia. como o penal ou o fiscal. Quando existe uma previsão normativa. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. um terceiro faz-se passar por credor.

casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). invariavelmente. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. Isto é o núcleo duro – há desvios. 15 . venire contra factum proprio. direito a uma coisa corpórea. o regime tem um desvio. O conteúdo das obrigações é sempre. um direito e um dever. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. Obrigações. tipicidade exemplificativa.). Autonomizou-se do Direito das obrigações.Nos contratos há descrição abstracta. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). por conjunções históricas. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. aqui. ao contrário. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. É muito especial. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. O Direito comercial é outro ramo especial. Aí. O mediato é também designado por objecto. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. Há situações de direitos reais que. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. obrigações naturais. de facto. Os direitos reais têm. por via de condicionalismos históricos. Mas existem muitas obrigações nessa área. em princípio. etc. p. também. tudo é parecido com o Direito das obrigações. O conteúdo distingue-se do objecto. Há. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. um princípio de tipicidade. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. Há. O contrato de trabalho é um contrato como os outros. Há tipicidades de tipo científico. Nas obrigações isso não existe. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. Mas tem regras especiais. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. ex. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. não há numerus clausus e pode haver lacunas. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário.

A prestação principal é o núcleo da obrigação. Podemos. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei. tendo em conta as circunstâncias do caso. por um esforço de análise. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. tem culpa. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. De dare. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. noutras pretendem o resultado. É o critério do bonus paterfamiliae. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado. Seguem o regime da prestação principal. São prestações que complementam a prestação principal. São instrumentais em relação a ela. As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). A de pati consiste em alguém ter de suportar algo.) e a aquiliana (483º e ss. Todavia. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. Não se obrigam a resultados. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. Só é exigível que se esforce até esse ponto. Uma prestação inclui necessariamente o esforço. É o homem médio. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. Não se trata de um non facere. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. aquilo que for normal num homem médio.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. Se se comportar abaixo da bitola. Temos de saber o que é exigível. O devedor está obrigado à diligência média. A de dare consiste na entrega de uma coisa. apenas de fazer tudo ao seu alcance. Por vezes. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta. mas à prestação de um serviço com determinada diligência. é um homem médio colocado no caso concreto. Foi o critério escolhido pelo legislador. as partes pretendem uma determinada conduta. É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. Ex. 16 . correspondendo a afinamentos do interesse do credor.: o médico não tem obrigação de curar. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra. De pati.).

os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia. é preciso cumprir de boa fé. Como decorrem da boa fé. determinável. Podem ser deveres de lealdade. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico.  Círculo externo.O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). contratuais e pós-contratuais. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. A culpa in contrahendo. 17 .. Está em causa o princípio da tutela da confiança. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). integração de lacunas. a obrigação é uma realidade muito complexa. informação. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. mas há deveres acessórios pré-contratuais. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. só depois a indemnização. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. segurança. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida. tal como se não cumprir o dever acessório. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo. etc. O legislador quer primeiro cumprimento. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. depois a reconstituição natural. rerum sic stantibus. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita. observando os deveres acessórios. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. possível. Os deveres acessórios são imprevisíveis. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. Substancializam a obrigação. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. Não basta cumprir a obrigação. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. A base legal é o 762/2. A indemnização é uma consequência de segunda linha. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. são soluções para problemas novos. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. nos deveres acessórios são ambos.

A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. A regra é da fungibilidade. Absolutas. Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples). 2. como concessão. Não é o mesmo que coisa fungível. uns relacionados. Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. p. outros não. 3. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. transferência de propriedade. 4. etc. combinadas quando estejam associadas a direitos reais. trata-se de obrigação complexa. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). nas mistas há vários deveres.  Obrigação de abstenção (simples. Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei. Se sou obrigado a recorrer a perífrases.  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). ex. ambos). prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis. atípica resulta da autonomia privada. 5. Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. na relativa há. porteiro.). Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos. mas são regularmente utilizadas no sector. Em princípio.). se consigo exprimir com uma única expressão é simples. 18 . Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei.Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis.

ao contrário das obrigações comuns. mas pessoais. Havendo agência. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. Implica especialidade quanto à sua cessação. É necessário. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. Não se extinguem com o cumprimento. A denúncia. pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. claro está. Tipos de obrigações 1. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. Hoje. Obrigações duradouras Partimos da prestação. com dilação temporal juridicamente relevante. para tutela da confiança. O DL 178/86 trata da cessação da agência. e outras que se cumprem no tempo. É um contrato em especial. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. determinável.6. O conteúdo tem de ser sempre. O Direito civil é um direito prático. era instantânea. E relações perpétuas. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. As questões sociais vieram pugnar por protecção. quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. também. 2. o principal. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. não obstante. pelo menos. surge na periferia. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. se tiver poder de representação celebra também os negócios). A denúncia seria um dos esquemas. 19 . Se fosse logo satisfeito. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. entre o agente e o principal há relação duradoura. em que havia obrigações perpétuas. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. forma de cessação de um contrato duradouro. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. sob pena de nulidade (280º). Há lacuna. O Prof. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). como reacção ao regime feudal. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. A retribuição é a renda ou aluguer. um pré-aviso.

Se houver inflação. Se é assim.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção). Logo. O 1743º do CC francês determina que. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. Em 1985 tentou-se reformar. inícios do séc. Em 1990 tentou-se de novo. políticos. Há bloqueios ideológicos. com a industrialização e grande pressão urbanística. 20 . actualizando as rendas. Chegou-se a este panorama aos poucos.No arrendamento domina a autonomia privada.  Congelamento das rendas. É um direito real. económicos.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário. Obrigação de deixar usar? Seria negativo. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos. por exemplo. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real. Mas também não explica o que é o gozo. Chegou-se a um regime vinculístico. Quanto mais baixa a renda. surgiram fenómenos e problemas de natureza social. centros das cidades abandonados. havendo transmissão da coisa arrendada. A solução de quem chega ao mercado é comprar. etc. Em 2006 houve um projecto. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. para o futuro). XX. contraindo empréstimos. menor taxa de natalidade. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. as rendas vão degradando. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer. Surgem teorias mistas (entre nós. mas também não chegou a bom porto. Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge.  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. é figura real o direito de locatário. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. trânsito caótico. impedindo actualização das rendas. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. porque ele é sempre real). XIX. maior o lucro do trespasse. Há subúrbios. Nos finais do séc.

ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. Seguem. Era um débito sem respondência. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. no conflito com outros direitos. com recurso aos tribunais). Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. Comportam-se. Admitese a existência de direitos de gozo. Mas mudou de ideias. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. entre os direitos reais e os de crédito. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. Juridicamente não tinha personalidade. 3. O Direito dizia que ele estava obrigado. de forma similar aos direitos reais. A pessoa estava obrigada a fazer algo. Mas pode ser integrado no Livro II. A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. por ser figura próxima do direito de crédito. como direitos reais. mas sem shuld. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. 21 . há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). Em geral. o locatário pode fazer obras. defender o seu direito face a terceiros. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. Obrigações naturais É figura muito estudada. Uns são pessoais e outros são reais. Estabelece que prevalece o direito real. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. em regra. o que os aproxima dos direitos de crédito. tendo um direito de preferência sobre a coisa. já que é ela que as explica. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. pelo que ele se pode defender sozinho. Não tem uma grande relevância prática. na locação. porque não era uma pessoa. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. nesta matéria o regime dos direitos reais. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. pois. é histórica. Essa tese é inaceitável.

As obrigações naturais. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. aplica-se o regime das obrigações civis. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente.A isso chamaram obrigações naturais. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida.  As obrigações naturais são típicas (809º). Mas são aqueles os dois momentos cruciais. não têm valor patrimonial. etc. A obrigação natural deve ser. Noção legal (402º). outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. Mas isto não pode ser. Ser jurídica é estar prevista como obrigação. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). Não pode ser exigível judicialmente. A justiça é aquilo que o Direito consagra. etc. não posso pedir devolução do que paguei. Hoje.. No período medieval. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. a moral é uma coisa e o Direito outra. transformando-as em naturais. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. porque elas são típicas. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei.  Não exigibilidade judicial do cumprimento. Se eu pagar. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. mas também as obrigações 22 . sociais. Em tudo o resto. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. pois. Não podem ser constituídas por contrato.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. A lei. diferente de um Direito moralmente enformado. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos. não jurídicas.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. Tiveram uma evolução muito atormentada. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas. Esta matéria está regulada no 402º. Todavia. É jurídico. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. diz-se por vezes. Isso não é verdade.  O 404º. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. jurídica. Havia ligação entre o Direito e a moral. Aparentemente. com base no 404º.

Os contraentes podem estipular diferentemente. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. Deve-se escolher a coisa média. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. No Direito romano eram desconhecidas. quantidade ou qualidade. As obrigações genéricas são muito importantes.civis podem não ser cumpridas. escolhe o devedor. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis. se nada for estipulado. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. que podem ser de facere. 4. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. O problema que surge é o da determinação do objecto. é fungível. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. rege o favor debitoris. Ele é determinável mas não está determinado. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. há obrigação genérica. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. Desde que a coisa a entregar não seja única. Na falta de acordo. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. dare ou pati. A escolha e o risco O 539º estabelece que. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. Não havendo convenção. podendo ser qualquer litro de azeite. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. Só se determina o género. há uma lacuna negocial. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. Não é o sentido do 400º. 23 . As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. o critério é o da mediania. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. com a massificação das transacções. Logo. dando lugar a obrigações genéricas. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. o critério deve ser o da mediania. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

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7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

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Nestes casos. porque também temos de tratar das relações internas. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. É só uma. Ao contrário da parciariedade. na falta de estipulação em contrário. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. Aumenta a garantia do credor. todos têm de prestar ao mesmo tempo. É um regime mais duro para o devedor. quando há vários sujeitos numa obrigação. O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. isso não multiplica a obrigação. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. seja porque o regime é unitário. Há obrigações que são à partida divisíveis. MENEZES CORDEIRO defende que. Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. No Direito comercial. 27 . Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. os credores). Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. Na prática. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. por exemplo). um concerto de orquestra. Os vários sujeitos têm relações entre si. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. a regra supletiva é a da solidariedade. a lei estabelece solidariedade. de modo a assegurar o cumprimento. que é sempre singular). é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. Quando vão cumprir. seja porque existe expressão linguística unitária. O credor só pode exigir de cada um essa parte. para proteger o lesado. Existe uma presunção de igualdade das quotas. há outras que só o são se as partes acordarem. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. Presume-se que as partes de cada um são iguais.noção. Rege o 512º . Em resumo. mas complexa. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema.

quando alguém contrata a solidariedade. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. p. o do devedor e o do fiador. p. Uma prestação pode. São duas fontes fundamentais de obrigações. O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso.). A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. tem regime diferente. uma classificação das fontes. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. um credor e um credor pignoratício. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. há “gato”. p. tal como os direitos reais. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. ex. um A. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. se não houver outro acordo. Mas é uma pluralidade heterogénea. O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. A lei poderia ser fonte de obrigações. presunção de igualdade (516º). é natural que existam meios de defesa dos devedores. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. Surgiu o esforço de sistematização. já que o fraccionamento é feito posteriormente. Eram fontes que. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. pessoal seria a prescrição. ex. aqui. Também existe. só dele (não os meios pessoais de outro). Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. à estatuição de uma norma. significa que há alguma coisa a mais. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. Normalmente. No período da pré-codificação francesa. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. Na solidariedade há co-devedores. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. Precisa de um facto jurídico para nascer. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. ter duplo aproveitamento. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. não sendo nem uma nem outra. É uma bipartição importante. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. 28 . ex. acrescentou a lei.

enquanto a lei é norma heterónoma. nuns e noutros a mesma coisa. É difícil unificar. Mas ele é mesmo muito reduzido. Em termos estatísticos. enumera-se o contrato. Com o CC de 1966 também não existe classificação. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. ex. que é comum a todos os direitos europeus. O Código de Seabra faia um elenco original. todavia. Enumera algumas fontes. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. a melhor técnica é a tipológica.). A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica. Há um encadeamento. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. como se usou em 1867 e 1966. As divisões não significam. o negócio unilateral. p. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. de se autodeterminarem. no tempo e no espaço. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. em vez de adoptar a repartição tradicional. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. desde logo. a gestão de negócios. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. então. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. 29 . a partir do 405º. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. referência à tetrapartição. O direito privado tem 2000 anos. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. mas enumeração. Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. o enriquecimento sem causa. apesar de não haver classificação qua tale. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. O que se deve. Já nos sécs. Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. Faz-se.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade.

É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. No Direito da Família também: contrato de casamento. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. É o sistema de tipo francês. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. tem menos aplicação. O contrato tem um papel muito alargado. A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. surgindo os contratos que hoje são básicos. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). Também a contratação pública é hoje uma manifestação. diz-se muitas vezes. o contrato está sempre subjacente. Daria frutos no período jusnaturalista. em lei de Maio de 1352. para o Prof. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. se a sociedade é subdesenvolvida. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. consensual – basta haver contrato. Passava a ser vinculativo por isso. mas se lemos artigos sobre negócios. a bona fides perderá o seu significado. O socialismo ataca o contrato. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. O CCP trata da matéria. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. Mais tarde. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. 30 . O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. O contrato valia por si. Os romanos conheciam figuras equivalentes. Assim. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. está em crise.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. nas Obrigações é o contrato. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. igualmente. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. O contrato. É necessário que haja propriedade. já o negócio obtém-se pela razão. É importante considerar o canonismo. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. É um diploma bem feito. D. o próprio contrato perde espaço. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. Dá-se uma grande explosão. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. Menezes Cordeiro. manifestação da importância do contrato. Dinis. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. vai na direcção do contrato. com SAVIGNY. No Direito sucessório é mais raro. de acordo com a escola histórica e a pandectística. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. mas existe pacto sucessório.

pois. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos. necessidade de consagrar na CRP. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico. Tecnicamente. porque não foi necessário. etc. Tutela constitucional do contrato A CRP. Todavia. como o da boa fé. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos. Mas isso não aconteceu. 31 . XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força. racionalidade. etc. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. não relevaria: eles devem ser cumpridos. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. não se trata de um recuo do contrato. diminuindo a liberdade contratual (banca. É óbvia. à partida. Não houve. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. mas de certos contratos.No séc. no artigo 8º/2.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação. O contrato é. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial.). Graças às convenções internacionais. incluindo direitos de créditos). Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português. valores mobiliários. O contrato tem peso em si. É uma visão pessimista. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna. pecuniários.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. pelo menos para coisas úteis.  Áreas reguladas. Com a queda do Muro. Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. plurais. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. os observadores previram explosão dos contratos. seguros. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. O 56º/3 garante a contratação colectiva. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. Se a lei não dissesse nada.).  Intervenção judicial nos contratos. O contrato é um véu que tapa os olhos.

1. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. por vezes. regulando com especialidade. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. vindo a aperfeiçoar-se. mas a lei não o disciplinou. reais quoad constitutionem e quoad effectum. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. em princípio também não o regula. Pode haver tipo social e tipo legal. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. consideradas mais sensíveis. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. é nominado mas atípico. Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. não dá para classificar em abstracto. 5. o contrato é bilateral. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. Consensuais. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. Quando a lei não lhe dá um nome. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. Segundo. 2. bem como diminui as dúvidas. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada. É distinção relativa. O contrato de hospedagem. 3. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. 32 . os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. no entanto. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. nominados e inominados. Fala-se. Todos os negócios são contratos bilaterais. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. Perante o conceito de negócio jurídico. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. maior equilíbrio. fica fragilizada. Terceiro. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional.

6. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. passa entre as gotas da chuva. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. no entanto. Nos monovinculantes há duas partes. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. As partes querem dar. 33 . Os gratuitos são. Tipologias de contratos Contratos típicos. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. O problema é que. as partes têm liberdade de celebrar livremente. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. uma delas não fica obrigada. 7. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. a parte geral é muito restrita. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. Em regra. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. em regra. Tendo em conta este facto. O estudo desta matéria não é fácil. É sinalagmático. A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. O problema é que. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. pois. hoje. À luz do 405º. Fica com o direito potestativo de. atípicos e mistos Os negócios jurídicos. solicitar ao outro a efectuação da prestação. podemos distinguir entre negócios típicos. Há 16 contratos regulados no Código Civil. reciprocidade. se as partes celebram contratos mistos. O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. Há. uma vez que domina a autonomia privada. Embora o 405º seja muito abrangente. querendo. tendo em conta o relevo de que se revestem. É diferente da vinculatividade. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. A generalidade das normas é supletiva.

não havendo uma principal. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. Isto só resulta se houver confiança. comida. B tem de guardar a casa enquanto A não paga. A autonomia privada é o pano de fundo. Ex. os serviços de limpeza. entretenimento. mas como tendo a casa como refém. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. 34 . quando acabar. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto. não para que se porte como proprietário. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. devolve-lha. próprias de vários contratos.: A recebe habitação. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. Ex. Em troca do preço recebe um quarto (locação). Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. o locador. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção). O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. 4. A tem dívida para com B. O resto é extra. cama. Não pode ser um mero pormenor.: A comprou 15 dias num cruzeiro. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos. 2. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. Há mistura. mas recebe em géneros. Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). O caso paradigmático é o da alienação em garantia. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. etc.: A compra por preço muito baixo. Não tem salário.: A arrenda um quarto a B. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. em troca de explicações. comida. o negócio aproxima-se da gratuitidade. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. Complementados – aqueles em que existe um tipo base. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa. Ex. aplicando todos. que absorverá os outros. Ex. na prática. 3. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. Os combinados distinguem-se dos complementados.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1. que lava também a roupa de cama. embora tenha havido preço.

por analogia. O método foi o da analogia. publicidade. Se ele corresponder ao tipo x. é também acompanhado de distribuição. é uma área vinculística. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. mas os serviços que o centro proporciona. segurança. aplica-se essa solução. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. A seguir temos de resolver com analogia. a primeira solução é a da vontade das partes. a quem entrega os bens. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. 35 . Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. Hoje. P. 3. aplica-se o regime do tipo x. no entanto. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). Aqui. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. sem intenção de enganar). deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. O limite é o das normas imperativas. Se não for suficiente. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. O promotor é remunerado através da renda. Mas isso é raro. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. nomeia concessionários. mas o contrato é usado para uma função diferente. para que os distribua. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. o combinado e o híbrido. Quando nada se diz. Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. gestão do centro. Pode. se na lei houver solução. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro.2. o arrendamento tem muitas normas imperativas. Quando há lacuna contratual. é esse que se aplica. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. então celebra-se o y). Mas não é normal. O que é específico é a marca. A solução foi a da analogia. Em Portugal. acabavam os centros comerciais. bem como sinergia do ponto de vista económico. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. Recorre-se ao regime da agência. Há semelhança entre a agência e a concessão. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. ex. a outra também. Regra geral. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. Pode haver várias funções: simulação. No caso do porteiro isso é evidente. É contrato de agência que foi encontrado.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. tal como o da vontade das partes. e também com a agência. aplicam-se as regras desse tipo. 4. a solução também foi a da analogia. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores.

O fiduciante é só entre outros. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados. negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. a fidúcia é muito violenta para o devedor. Mas o Prof. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. 36 . No Direito português. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. aplica-se o regime correspondente.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. M. Se ela tem natureza real. Ele é permitido se não violar regras imperativas. Mas.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. na contratação alternada valia ou um ou o outro. Descobrindo-o. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. Procura-se o centro de gravidade. Quem recebia a coisa com fidutia. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. O fiduciário é proprietário. Se for à falência. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. já que o Direito existe para proteger os fracos. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. São óbices consideráveis. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. o fiduciário. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. em benefício de quem a entregava. Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. interna e alternada. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. O fiduciário é de execução prolongada. porque doações de bens futuros não são permitidas. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. ao contrário do alemão. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. teremos uma figura real não prevista na lei. era o proprietário da coisa. não permite divisão da coisa entregue. mas para o de terceiro.

Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. sem recorrer à escritura pública. A figura da absorção. A promessa por escrito era válida na hora. 37 . Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. Mas nunca é irrelevante. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. É uma ideia relativamente recente. O contrato prometido e o contrato definitivo. No Direito português tem grande importância. por exemplo. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). execução específica). devia ser celebrado por escrito. para o sinal. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. Hodiernamente. rege nos contratos mistos. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). Há muita jurisprudência sobre isto. 830º. Segundo o Código de 1867. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. homogéneos e heterogéneos.. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. a promessa valia apenas como prestação de facto. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. A celebração de uma escritura pública demora tempo. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). O Código de Seabra veio consagra um regime diferente. de tipo não processual. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. dependentes e independentes. Importou do BGB a execução específica. de tipo processual. tem eficácia real. há centros de gravidade múltiplos. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. causais. sendo diferente o regime. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. 442º. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto.

O contrato-promessa distingue-se da proposta. na promessa tem de haver negociação). Há contratos que. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. acabamento da coisa. os contratos são dotados de prometibilidade forte. 2.As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. Quanto à prometibilidade fraca. para preparar o contrato definitivo. 38 . as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). do contrato preparatório material. do exercício de preferência. desformalização. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. uma vez prometido. um modo geral de celebrar outros contratos. Mitigada ou mitigadora. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. ex. tendo isso em conta. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. 3. é possível a execução específica no caso de incumprimento. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo.). P. do dever legal de contratar. transacção meramente obrigacional. não podem ser objecto de promessa. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. É um formato. na promessa sabe-se). Por vezes. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. p. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”. regulativa autónoma. 4. Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. Desformalização. Meramente obrigacional. etc. Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. do convite a contratar (A solicita a B que contrate). O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. financiamento. Função preliminar. Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. 1. Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa. Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo.. um modus vivendi. É a função preparatória. 5. É usado. ex. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo). Regra geral. sobre a entrega. Como no Direito alemão. Regulativa autónoma. mitigada. Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. por vezes. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa.

O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. Mas. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa. No contrato-promessa. até é possível haver excepções ao que se disse. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. Não vincula o promitente a doar. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. tendo em conta o regime.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa. O problema é que. Pode fazê-lo.. Não há contrato-promessa de doação. o que está em causa não é a regulação de um contrato. estão nos antípodas. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada. mas que tinha um regime especial. às consequências pela ingratidão. É um contrato à parte. do 1591º e SS. etc. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade. Com o não cumprimento.) que conduz à possibilidade de revogação. como executo? Os clássicos diziam que não era possível. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. O nome é parecido. a obrigar a algo que poderia revogar. se não houve entrega da coisa. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). Isso não é correcto.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. etc. e o outro não cumprir. É verdade que existe um regime jurídico. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. também não há uma regra expressa que o diga. 39 . Contrato-promessa e doação são dois contratos que. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. mas a situação subjacente é diferente. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. diferente do regime do contrato-promessa. imperativo. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. Não se trata de um contrato-promessa. proximidade. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. a proposta ainda não foi feita. mas ineficaz quanto às prestações principais. Isso não vem na lei. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. à partida.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação.

não se entende porque só um assina. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. A conversão. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. Para o prof. Se para o prometido for necessário documento. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. Na normalidade dos casos. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. é a solução. O 410º/2 regula a forma. para ser quantos se obrigam. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. outros a conversão. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. não se precisa é de assinar. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. autêntico ou particular. A questão das assinaturas é meramente formal. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. Por isso. aplica-se a regra geral. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. 40 . o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º.Hoje em dia. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. Se o documento é a materialização do acordo. ainda que não tenham as duas assinaturas. tendo enorme relevância. Se for livre também o contrato-promessa é livre. O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. Estipulações acessórias são válidas. o regime é o do 219º liberdade de forma. em regra o promitente alienante. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. MENEZES CORDEIRO em princípio. Mas isso é errado. Assim. nos termos do 293º. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. é preciso o acordo de ambas). Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. Uns defendem a redução. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. Não haveria problema de prova nem dúvidas. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. Na prática. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido.

Redunda essencialmente numa directriz metodológica. se nada disserem. ex. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. de invalidade mista. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. concretização e boa fé. este deve adquiri-la. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. Obedece a normas: os princípios da correspondência. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. integralidade. Havendo contrato-promessa. o regime é o da reforma de 1986. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. também. p. Este princípio. MC sugere a ideia de modus contrahendo. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. ficando com um contrato-promessa monovinculante. Nestes casos. a se. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. Pode ser paralisada através do abuso de direito. Admite que. com excepção das relativas à forma e as disposições que. Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. Surgiu na década de 1980. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. 41 . não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. Há. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. Trata-se.Mas não é fundamentalista. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. possa reduzir-se o negócio. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. em certos casos. havendo grandes atropelos ao direito. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. por sua razão de ser. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. no 3. A parte geral também tem regras. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. Se a promessa for monovinculante. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. Neste momento.

Muitas vezes há AA. devolve-se em dobro. etc. o faltoso é o que não cumpre. pode haver resolução. violação positiva do contrato. há inadimplemento. violação de deveres acessórios. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. se não for cumprido. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). Isto é uma trapalhada. Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. local. se o contrato-promessa permitir. se for cumprido. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação. e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. O incumprimento extingue a prestação principal. uma via crucis. se forem válidas e eficazes. Se não houver. À partida. etc. prazo. O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. Legitimidade. não foi. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. lugar. Se houver situação de mora. o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). imputação. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé. alterando as palavras. O definitivo está previsto no contrato-promessa.. que resolvem inovar.). Se isto não for possível.). 42 . impossibilidade superveniente. mantendo-se o contrato-promessa. O promitente fiel é o que é prejudicado. aplica-se o 280º.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º). O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo. Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss. Incumprimento há quando. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. MC entende que isso não pode ficar assim. a lei prevê a interpelação admonitória. Ou há mora. inclui-se a coisa no cumprimento. Pode haver recusa antecipada a cumprir. Pode acontecer que seja lacunar. declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). Pode haver uma impossibilidade superveniente. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço.

A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. vender a coisa e recolher o preço. a indemnização já não é o sinal em dobro. O retentor pode. Quando mexeu no 442º. o sinal tinha alcance coercivo. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. mas o valor actual da coisa. No Direito romano tinha um sentido confirmatório.No Direito grego antigo. na fase executiva. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). que chegava aos 20. A ideia era: como a inflação é muito alta. A jurisprudência. O que estava em causa eram casas de habitação. O problema viria a ser resolvido em 1986. 43 . o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). O Governo resolveu intervir. Afastouse a possibilidade de execução específica. faziam-se casas. Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. começou a resolver o problema diferentemente. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980). mexeu no regime do sinal. 30%. com a inflação. O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. recebiam-se sinais. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados. ajudava a provar a existência do contrato. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. Assim. Houve várias propostas para resolver a situação. celebrando-se contratos-promessas. Quando metido no contrato-promessa. O imobiliário estava sempre a subir. A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. Enganou-se e mexeu em tudo. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. os sinais deixavam de valer tanto. penal. se houve incumprimento. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. Em 1980 havia grande inflação. Assim. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se.  Quando há tradição da coisa prometida. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. Tornava-se compensador não cumprir. se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. Tem um direito de liquidação judicial. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. no entanto. o sinal ganha coloração particular.

Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. ainda assim. Se houver mora. congelando o direito ao valor da coisa. introduzir correcções.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. com a solução do Prof. mesmo que anteriormente registada. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. Tentou-se limar algumas arestas. exige mais garantias. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. não há logo incumprimento definitivo. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. Houve excessos legislativos. não sendo necessária a interpelação admonitória. ficou consagrada a indemnização pelo valo. Assim. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. Se houver morar. ele é deduzido do preço. O Prof. Tentou-se. a favor do promitente adquirente traditário. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. Tendo havido mora. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. É uma “excepção de cumprimento”. O hipotecário ver-se-ia preterido. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. doutrinariamente. Todavia. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. Assim. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. Lobo Xavier. é mais selectivo. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. Além disso. pela interpretação). Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. É um esquema complicado. a indemnização seria o valor actualizado da coisa. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. Vários AA. 44 . A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. a primeira consequência é entrar em mora (805º). fixa-se um novo prazo.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. Se houver sinal. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. Em 1986 o legislador interveio novamente. perderam a objectividade.

É um contrato que dá direitos muito precários. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. porque tem uma cláusula daquelas. A resolução. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. se há sinal. no entanto. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). deve ser tomado seriamente. operando o sinal. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. Se for possuidor tem defesas possessórias. Neste momento. A menos que. Se é esse o sentido da cláusula. desaparece também o sinal. A distinção é importante. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. Um contrato de comodato.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. O Prof. 3. No Direito funciona-se com prazos. bem entendido. tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. É uma posse muito elementar. Tradição da coisa Tecnicamente. o que deve fazer é resolver o contrato. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). Assim. É posse semelhante à do arrendatário. quando haja incumprimento. É celebrado contrato-promessa. 45 . Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. destrói o contrato retroactivamente. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. Alguns autores dizem que. O sinal visa uma função compensatória. Pode ser uma gentileza mais demorada. 2. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. Se for um representante. O contrato-promessa já é um contrato misto. não há posse. a troco da entrega da casa. O que é que as partes pretenderam? 1. Se resolve o contrato por incumprimento. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. É verdade. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento.

Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. é muito difícil determinar a indemnização. através dos seus meios. Se tivesse havido incumprimento definitivo. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. pelo que há entrega da coisa. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966. Aqui temos posse em termos de propriedade. Assim. Contudo. seria impossível apresentar-se a cumprir. também. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. colocando no terreno. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. Quando se trata de acções humanas. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo.4. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. Já está tudo pago. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. Estamos perante um facto. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). para além da tradição. Em 1980 o regime foi alterado. dir-se-á que não podemos obrigar. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. muda o regime. Assim. Se há excepção do cumprimento. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. houve incumprimento. A solução mais normal é a execução específica. soluções alternativas à indemnização. Mas isso já estava subentendido. Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. já vinha de trás. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. Foi uma ideia prussiana. por maioria de razão também há sinal comum. mas não especificou. 46 . Se de facto houve perda do interesse. Se houve. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). houver sinal. O interessado pode ainda optar pela execução específica. Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). Passa até à frente do credor pignoratício. Consoante o tipo de posse. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. Leva ao mesmo. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa.

Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. O tribunal não emite. p. Conquanto que o conteúdo seja determinável. Contudo.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. já que a prestação se tornou impossível. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. em 1980 o legislador foi desastrado. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. contudo. as custas ficaram por sua conta. Nos outros a questão não se colocava. no momento em que é decretada a execução específica. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. Simplesmente. Perante o incumprimento. verdadeiramente. O Prof. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. Os riscos são compensados pela presença do tribunal. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. 47 . O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. Simplesmente. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. ex. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. é muito difícil calcular a indemnização. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1).Houve soluções doutrinárias. a declaração faltosa. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. Haverá consequências indemnizatórias. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. Mas nem sempre. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos. Aí. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. mas vende a C. Não valerá a pena recorrer à execução. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável.  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo.

E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. Já no penhor ou no mútuo faz sentido.) também não pode haver execução. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. Todavia. Mas a lei admite mandato irrevogável. Contudo. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. Mas. poderia ser revogado. se verifique uma alteração das circunstâncias. Não faria sentido a execução de um contrato que. No caso do contrato de trabalho. Aí já faz sentido. não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. mesmo que houvesse. Quando nem sequer há prometibilidade (doação. Mas aí não cabe execução específica. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. Tem de haver ponderação de interesses. ex. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. Igualmente. não se iria muito longe (despedimento. MC entende que sim. Não pode haver execução de contrato que não existe. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. demissão). o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. 48 . A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias. pode acontecer que. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito.  A exclusão convencional. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. Contudo. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora. comodato). já não é de todo possível a execução. por sua natureza. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. Se houver situação de inexistência. depois.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. tão pouco. Quando seja celebrado um contrato-promessa. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. O comodato pode cessar a qualquer altura. p. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. in fine). o 830/1 admite a possibilidade. Nessa altura.

Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. Através da eficácia real conseguir-se-ia. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. execução específica. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. O Prof. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. Deixou de se exigir a escritura. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. a lei alemã permite um pré-registo. alguns entendem que cabe execução específica. Se o preço não for pago há injustiça. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra. qual a solução? Normalmente. não é norma de excepção. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. registo da promessa. Promove logo a transmissão da propriedade. Vaz Serra. reforçando-se o registo. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. convenção expressa de atribuição de eficácia real. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo.  Há execução específica. Se não for cumprido. O que está em causa é que o dever seja cumprido. 49 . que a foi buscar ao Direito alemão.Depósito do preço A sentença é translativa. mas contra o terceiro (Dias Marques). Assim. vendendo a terceiro. A outra parte pode não ter sido paga.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. ficando privada do preço. escritura pública. pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. O promitente faltoso poderá readquirir o bem.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. outros recusam essa solução. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. Ora. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo.

A lei proíbe. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa. Justamente por. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. uma vez que dela nada sai de preexistente. Nos extremos. as partes regularem. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. ainda que devido e pré-regulamentado. a contratar. levar ao apagamento do definitivo. à negação da própria promessa. como contrato autónoma. no fundo. delimitando. uma vez concluída. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. na promessa. quando firma o princípio da equiparação (410º/1).  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. um acto de execução do que já estaria combinado. tão-só. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. a celebração das promessas. A primeira opção explicativa leva. apenas. as partes obrigam-se. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. o contrato definitivo não perde em categoria. Mau grado a primazia reguladora da promessa. com o contrato definitivo. De seguida. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. o que esteja em causa. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. em função dele. 50 . pelo menos em parte. de facto. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. a execução específica não é puramente executiva. continua a ser um verdadeiro contrato. tão-pouco é declarativa. em relação ao definitivo. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. Ao celebrar o contrato-promessa. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. por vezes. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria. em definitivo. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. no entanto.

o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. Da mesma forma.O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. deve vendê-lo. a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. As preferências no sistema jurídico No Código Civil. a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. quando convencionalmente estabelecido. O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. A favor do comproprietário (1409º e 1410º). o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente). A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. em Direito. Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. por χ. enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. antes. 51 . nesse sentido. Diz-se. A favor da pessoa designada em testamento (2235º). A favor do fundeiro (1535º). desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). 1380º e 1381º). A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. Por exemplo: o obrigado. O direito de preferência. com o qual o negócio fora ajustado. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). caso queira vender um prédio a alguém. A favor do senhorio (1112º/4). caso este queira. uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. tem. Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável. Em regra. que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). A favor de proprietários contíguos (1379º/2. De resto. ao preferente. as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato.  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. pelo artigo 1535º (1901º). A favor do co-herdeiro (2130º). isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. pelo preço em causa. perdendo a plena disposição do seu bem. essencialmente. O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. um dia. 1519º e 1523º).

Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita. tem cabimento recorrer à acção de preferência. consoante a opção das partes e isso desde que. nos termos do 414º.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais. ora reais. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. na opinião dominante. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. a preferência real confere. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele. Na primeira. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real.  A opção – figura inominada e atípica.  A preferência obrigacional. ainda e por elas. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização. observadas determinadas formalidades. violado o pacto. a real.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. Modalidades. uma vez que a outra emite logo a declaração final. a um direito real de aquisição. relativo à acção da preferência. ao obrigado faltoso.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência. As preferências convencionais são ora obrigacionais. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau. apenas uma das partes fica obrigada. Na segunda. sejam. não podendo o preferente fazer seu o negócio. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. quando violada. através de uma acção de preferência (1410º/1). nesta última hipótese. uma indemnização. ao preferente. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. permite ao preferente exigir. 52 . todavia. a preferência legal advém da lei.

 Porém. em regra. a essa luz. desencadeando o funcionamento do pacto. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. o artigo 410º/2. por ele. do princípio da equiparação. mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma.Forma O artigo 415º manda aplicar. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. próprio do contrato-promessa. próprias do contrato preferível. se o pacto for bivinculante (bilateral). daí resulta a aplicação. eventualmente. a menos que ambas as partes se vinculem. das regras aplicáveis à capacidade. ao pacto de preferência. pretenda contratar com o obrigado à preferência. Pergunta-se se o terceiro que. recebem os deveres. deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. é afectado de algum modo. Com uma prevenção: numa situação de preferência. podendo. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. ao pacto de preferência. por parte de um terceiro. como cláusula num pacto mais vasto. quando o contrato preferível exija documento. 53 . os ónus e os encargos envolvidos. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. como a de fazer a competente comunicação. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). E sendo este o caso. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. Tendo conhecimento do pacto de preferência. o terceiro deve-se abster de contratar. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. O modus praelationis. à preferência. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º).  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. Num pacto de preferência comum. de onde promanam deveres para ambas as partes. de acordo com as regras gerais (219º). deve-se lidar com os deveres acessórios. de liberdade de forma. quer autêntico quer particular. Todavia. por definição. Bastaria a assinatura deste. perante o Direito vigente. Propõe-se a aplicação.

de pleno direito. convicto de que. A resposta do preferente. afinal.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. Havendo aceitação da comunicação de preferência. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. 54 .  Ou o preferente rejeita. uma de duas:  Ou o preferente prefere. na presença de um projecto de contrato firme e sério. na mesma linha. por opção do beneficiário. já que o terceiro não celebraria tal contrato. A “aceitação” da comunicação para preferência. pelo menos. o represente. se vem mesmo a concluir na esfera deste. exige-se forma escrita. por parte do preferente. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. não o quer. envolve. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que. com alterações. quer particular. ao seu direito. o terceiro ficará com o negócio. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. esta deve ser feita ao preferente. por aplicação do 410º/2. modificações ou reticencias. pelo menos. ficando o contrato por celebrar. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. com base nela. Finalmente. a renúncia.  Ou renuncia à preferência. perfila-se o contrato definitivo. É o que dispõe o artigo 416º/1. quer autêntico. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou. Havendo vários preferentes. A comunicação não está sujeito. deixando o negócio para o terceiro que. com poderes bastantes. declarando que não está interessado. isto é. a comunicação para preferência deve ser feita a todos.Na posse dessa proposta.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada. Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. se não o fizer. e estará enganado. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal. A não se verificarem tais requisitos. por lei expressa. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir. o contrato.  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. A renúncia antecipada não é válida (809º/1).

1ª parte).  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto.  Não sendo avaliável em dinheiro. não o sendo. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva. sem prejuízo para o interessado. o contrato será seguramente único. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. podem umas e outros ser desagregados. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. dependendo das circunstâncias. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. recebida a comunicação. A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. Observar-se-á. Existem três possibilidades básicas. no nosso Direito da compra e venda. nenhum princípio de especialidade. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. As valorações subjacentes ao artigo 417º. então. ou não. ou não. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. Prestação acessória. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro. o que terá que provar. De todo o modo. o preferente desiste ou prefere em conjunto. divisível?  E não sendo divisível. quando se reporte a uma universalidade. é excluída da preferência. Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. 55 . pode. apontam. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. Não o sendo.

1ª parte). fazer seu o negócio faltoso. feito no artigo 410º/2. A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. seguramente. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. esta última: trata-se de um facere jurídico. É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles. em caso de violação de uma preferência real. Verificados os pressupostos. A prestação principal é. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). ao preço e à identidade do requerente. Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. A acção de preferência permite ao preferente. nas condições fixadas. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real.  Concluir o contrato em causa. os restantes: não havendo processo de escolha. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. com isso. sempre. a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”. Havendo eficácia real. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele. afastando. Em termos de comunicação: ela deve ser feita. Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. desde que este as acompanhe. abre-se licitação.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. 56 . sem seguir o procedimento da preferência.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. em termos de aquisição. a todos os preferentes. Segundo o artigo 1410º/1. com o preferente. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1.

 Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. na execução. ora. por analogia. a opção cessa. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. por mera declaração unilateral. que fixe um prazo razoável para o seu exercício. o artigo 411º: o vinculado pede. da posição de contratante e do valor que ela representa. só deverá ter lugar se uma das partes quiser. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. dá azo ao contrato definitivo. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. ele recebe o direito potestativo de. Aplicam-se aqui. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). que exigirá. na conclusão. declarações de ambas as partes. aqui. perante o concreto contrato definitivo em causa. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. provocar o aparecimento do contrato definitivo. na opção basta a declaração do beneficiário.  Quanto à execução.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. Haverá que aplicar. por ambas as partes. todavia. excepto no que tanja ao cumprimento deste.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”. esta não depende da intervenção da parte vinculada. o qual. execução e incumprimento No que toca ao optante. a celebração. no cumprimento. 57 . Direito e deveres. tendentes à conformação do contrato definitivo. ao tribunal. na opção. directamente ou por analogia. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. do definitivo. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. Logo.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. passando a integrar o definitivo. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo. por uma simples manifestação da sua vontade. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. A opção. um verdadeiro contrato-promessa. o titular ou o optante) recebe o direito de. só será válida e eficaz se.

quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). dando-a em garantia ou alienando-a. por seu turno. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. a sua opção. Assim. há que lhe aplicar. que exercerá o seu direito se o entender. O obrigado. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. a cargo. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte.todavia. entre outros aspectos. o artigo 272º: na pendência da opção. Funções. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). surge o contrato definitivo. O risco desaparece. no mercado. partes no contrato. do optante e do adstrito. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. 58 . Como princípio geral. a qual adquire um direito à prestação. do definitivo. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. por analogia.O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. respectivamente. O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. com relevo para o pagamento do preço da opção. Actuada a opção. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). natureza e aplicações Celebrando uma opção. por via dos artigo 295º e 221º/2. directamente. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção. o qual deve ser cumprido. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. Ambas as partes ficam . designadamente para a parte optante. perante a outra (promissário). Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. as partes congelam as condições da venda. pode facturar o premio da opção. uma das partes (o promitente) assume. no memento escolhido. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. No plano do seu conteúdo. O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. o artigo 762º/2 e. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. Ainda o mesmo optante pode colocar.

Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte. Tal permite excluir. perante o terceiro. nessa altura. independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). deste cerne. a prestação principal O promitente tem.  A de exigir. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. pelo contrário. porventura. a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. O regime concreto de tais prestações.  A de exigir. contratos como o casamento ou a doação. A posição do terceiro O terceiro adquire. o direito à prestação: independentemente da aceitação. A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. lhe possam advir da relação básica (405º). se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). pelo contrato a seu favor. As prestações que. especificamente. 1ª parte).  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem. a contrario e 448º/1. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal. de forma geral. quando esse seja o conteúdo da promessa. excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. do promitente. ao promitente. imediatamente.A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. O terceiro adquire o direito à prestação. fundamentalmente. a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1).  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. devam ser trocadas entre os mesmos. 59 . a efectivação da promessa ao terceiro. A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. A posição do promitente. porventura. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. do promitente. por exigência deste e do promissário. as prestações ou outras vantagens que.

instável.  O promissário. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro.Perante um contrato a favor de terceiro. de adesão. no limite. pode desinteressar-se dela ou. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. sobre si. por não ser o destinatário da prestação acordada. quando se desempenhe perante o terceiro. Pode-se. nada fazer.  O terceiro. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato.  Torna a promessa firme (446º/1. falsificar a conduta a que se encontra adstrito. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. logo. Esta apenas consolida um contrato que. Desde modo. As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. de lealdade e de informação. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1. Eligendus: o terceiro. a contrario e fortiori). desconhece os precisos termos envolvidos. a contrario). O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. a fiscalização da contraparte. Amicus: o terceiro. Electio ou electio amici: a escolha. através da regra da boa fé (762º/2). por não ter sido celebrado com o terceiro é. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. pode ser menos diligente ou até. ao abrigo das regras gerais (217º). Num primeiro tempo. antes de ter ocorrido a sua nomeação. ainda. não tem. o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou. O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. não sendo parte do contrato. antes dela. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação. Na linguagem desde subsector. 60 . admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. porém.

quando superior (454º/2). produz efeitos em relação ao contraente originário. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. a cláusula “pessoa a nomear”. Como tratá-las? Com o tempo. As fontes paracontratuais Ao longo da História. Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). concordância do amicus e electio. Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. dele se aproximavam. A electio tem. inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. seja em termos técnicos. eficácia retroactiva. tal como sucede com a ratificação (262º/2). Concluído o contrato para pessoa a nomear. pois. 61 . não reunindo as características perfeitas do contrato. num todo coerente. foram surgindo figuras que. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa. altura em que o contrato ficará sem efeito.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta. em princípio. Ele implica. Embora a lei não o diga.Regime. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato. a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. ao outro contraente. O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. Feita regularmente e comunicada a designação. seja em moldes sócio culturais. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios. o negócio consolida-se na esfera do stipulans. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira).  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. do próprio contrato que a contenha.

seja na formação. muitas vezes. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual. o contrato. através de meros comportamentos materiais. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos.  Situações de proximidade contratual. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique. ser reconduzidas ao contrato mas que. seja nos preliminares. para certos fins.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. com ele. sem integrar previsões contratuais. tivesse ocorrido qualquer contrato. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que.  Os contratos com protecção de terceiros. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais. postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social.  As relações contratuais sem contrato.  Situações de relações jurídicas complexas. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. uma parte razoável do seu regime. Relações paracontratuais em especial 1. derivada do facto simples de um contacto social. em termos rigorosos. Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. esta relação fundir-se-ia nele. chega-se. execução de relações duradouras. Sublinha-se que. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas. de lealdade e de informação. na sua origem. isolam-se:  As relações contratuais de facto. pelo menos.  Inserção em organizações comunitárias. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). no espaço jurídico. 62 . no tráfego moderno de massas. Surgindo. depois.

3. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. no contrato considerado. que se reporta aos bens postos em jogo. que veicula os valores fundamentais do sistema. para terceiros. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. por qualquer razão. tenha uma proximidade visível. De novo há um círculo exterior.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. independentemente de qualquer especial vontade. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. Havendo proximidade. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. nele. Há impossibilidade inicial da prestação. O contrato é anulado. 2. O contrato é resolvido. Surge uma impossibilidade superveniente. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. nas protecções dispensadas. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. em face de um contrato:  Alguém que. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. 63 . relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. Em termos gerais. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. perante a prestação principal e em face do credor. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. o Direito manda proteger. ainda. Com as devidas adaptações. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. promane deveres acessórios (de segurança. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. pelas partes. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. Em termos analíticos. no caso de violação. Também está claro e assente que. mercê dos contratos preliminares. não seja parte. A “fonte”. igualmente. por estar vulnerabilizada. ainda que insubsistente. O círculo interior. o círculo interior. e existe. revogado ou denunciado.

de lealdade e de informação. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se. para as partes. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. dando origem. De facto. o proprio acto unilateral (457º-463º). no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. fora de série. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes.  Um numerus clausus de realidades relevantes.Tecnicamente. 5. Em rigor. o inerente instituto. Antes de fundam na lei. 4. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. uma vez que ele não é partes. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. aplicar. operando o contrato. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. ser globalmente denominado culpa post factum finitum. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. O negócio unilateral implica que alguém. 64 . por sua livre e exclusiva vontade. aqui. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. as normas típicas. tais deveres não têm origem contratual. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. obrigações que (só) irão pensar depois. O artigo 457º proclama. São os deveres pós-eficazes. ad nutum. “negócio” engloba. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. aparentemente. perante eles. em termos jurídico-positivos. a responsabilidade obrigacional. cessado o contrato.  Os perigos da adstrição ad nutum. com facilidade. por analogia. que explique os deveres resultantes. com ligeireza. fique adstrito a realizar uma prestação. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. No que se lhe reporta. Mas têm moldagem contratual. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. nesse sentido nuclear. como um simples facto stricto sensu. podendo. quando violados. o que (ainda) não têm e subscreverem. mas noutros locais. de obrigações futuras. ainda se poderiam manter determinados deveres. uma regra de tipicidade.  A proibição de.

Assim:      Da proposta de contrato. Os negócios unilaterais distinguem-se. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. é aparente. também aqui. isto é. para além da concreta eficácia suscitada. Dogmática geral O negócio unilateral. Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. no Direito português. igualmente por via da boa fé. passando pela tradição de uma coisa. Do testamento. Da oferta ao público (230º/3). Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. a afirmação. ainda. sem indicação da sua fonte. Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida. por força de qualquer outra fonte. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. Do anúncio público (225º). numa segunda vertente. quanto à existência de adequada fonte das mesmas. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. existe aqui. 65 . A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. Quanto muito. cabe salientar a confiança que.Mantém-se. deve sublinhar-se. proclamada no artigo 457º. fica o credor dispensado de a exibir. Em bom rigor. pode-se admitir tipos abertos.  Fonte essa cuja existência se presume. até prova em contrário (pelo devedor). anteriormente. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. a primazia da materialidade subjacente que. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. já antiga. sobretudo quando interessados. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. limitada à inversão do ónus da prova. De contratos com apenas uma assinatura. Negócios unilaterais em especial 1. Deve-se ter também em conta os terceiros que. No que tange ao autor do acto. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. de que. ainda. de resto. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. devidas. deve imperar. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. pelo princípio da causalidade. A regra não origina nenhuma obrigação nova. pois. a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. com a promessa pública como modelo. a tipicidade dos negócios unilaterais. importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas.

o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. a título de prémio. objectiva ou subjectivamente. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo.     Até que expire o prazo nela fixado (460º). às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. naquela. o promitente adstrito à sua efectivação. pelo cumprimento. que torne a promessa inexigível. seja revogada. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º). deriva. não tendo prazo. acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. 3. fica vinculado desde logo à promessa”. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. um motivo atendível. antes dele. exclusivamente. só nessa altura se constituindo. tendo prazo. o promitente fica obrigado:  Até que.  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. desde logo. apenas. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. Até que. pode. 66 . aqui. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. ficando. por justa causa (461º/1. Feita a promessa. propriamente obrigado. seja revogada (461º/1). podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. a sua obrigação. aqui. Até que. in fine). pela aceitação. Concurso público O artigo 463º.2. ele extinga. O público. ainda. muito claramente. na sua falta. A situação distingue-se. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). surgindo alguém nas condições nela previstas. da indeterminação do destinatário. relativo a concursos púbicos. A justa causa será. da oferta ao público (230º/3): nesta. Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. por anúncio público. o concurso ficaria indefinidamente aberto. constituir o contrato. constitui uma especial modalidade de promessa pública.