Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

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Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

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 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

Protegem-se as pessoas contra si próprias. O BGB é de 1900. por regra. (448º. A validade de um cheque. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. não depende da sua fonte – o negócio jurídico. A responsabilidade civil é ampla. A codificação da boa-fé. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. para não darem o que não têm. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. O BGB. É um código típico do início do séc. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. Causalidade Significa que. 2. daí tal importância. todavia. O Direito civil é muito estável. transposição de directivas comunitárias. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. A responsabilidade civil é fechada. A causalidade contrapõe-se à abstracção. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. 812º. É muito elegante linguística e estilisticamente. Romano-germânico Sistema centrado no BGB. antes de terem as coisas. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. as obrigações. 994º). tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. analítica. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. no Código Civil. A sociedade alemã também se alterou substancialmente.Existem. a obrigação não subsiste. prescrição. O Direito das Obrigações é super estável. 4. O Direito das Obrigações alemão é líder. Se a fonte for inválida. Mas há zonas periféricas. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. que nascem de uma determinada fonte. baseada num conceito vago. é abstracto. 947º. ex. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade.. 4 . É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. regras. No entanto. doutrina. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. vários artigos em que podemos detectar esta orientação. É muito difícil mexer nele. 863º. 457º. nesse caso. que merecem reforma em Portugal. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. p. 809º. Foi muito pouco mexido. O legislador optou por emitir leis avulsas. renunciem aos seus direitos. XIX. Resulta do movimento da pandectística. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. defesa do consumidor). 942º. Não se quer que as pessoas. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa.

O Código de Seabra é. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. sendo revigorados os já conhecidos. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. 4. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. entre os conceitos desta família e os das anteriores. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. Há pouca influência romana. a partir de 1911. no entanto. Anglo-saxónico É um mundo à parte. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. Mas foi uma novidade científica que vingou. Além da redistribuição germânica das matérias. islâmica. XIX. Há união entre religião e Estado. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. Não há correspondência. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. Chinês É muito antigo. canónica. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. mantiveram-se em vigor as Ordenações. O Direito português é aberto ao exterior. No Brasil. Naturalmente. Este sistema não é codificado. não havendo negócio jurídico separado dos contratos. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. na China não aconteceu isso. sendo uma enorme influência. surgem institutos até então desconhecidos. Mas tem uma organização e conceptualização originais. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. 5 . tal como a cultura chinesa. Mas. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. 5. sequer. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. Antes da aprovação do Código de Seabra. muito avançado.3. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. O Código não é de inspiração alemã. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. há um período de pré-codificação. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana.

A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. Em Cabo Verde. Foi necessário recomeçar. quando ocorreu a ocupação. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. houve maior inteligência política. com algumas alterações após a independência. mas já havia recepção do pandectismo. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. O Código brasileiro aparece só em 1916. mas começa a ser preparado no pósguerra. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. com Teixeira de Freitas. Em Timor. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. Ele é de 1966. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. um período de exegese. Com a independência. Todavia. como membro da OEA. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. Em Moçambique. logo em meados de oitocentos. Na Guiné. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. numa primeira fase. voltou a vigorar o Direito português. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. sendo substituída pelo inglês.No Brasil Na doutrina brasileira. As revisões ministeriais do Prof. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. Em África Em Angola. O Prof. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. vigora também o código de 1966. Há algum atraso na sua aprovação. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. Tem influência germânica e do Código de 1966. Antes da entrega de Macau. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. O português era a segunda língua. foi aprovado um Código Comercial novo. marcaram as primeiras reconstruções do CC. O CC de 1916 tem já influência germânica. mas havia a barreira linguística. numa segunda fase. O Código de 1966 vigora actualmente. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. ainda em meados do séc. depois da aprovação. verificou-se a invasão indonésia em 1975. tendo-os traduzido para chinês. Houve. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. 6 . com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. XIX. Em Macau. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada.

ganha pelo mérito. é diferente. estão em causa relação inter-pessoais. ao contrário do que acontece no Direito português. um pequeno país na Europa. O Prof. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. Somos. É um Direito que tem uma evolução histórica. de Common Law. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. que é do final de Oitocentos). No Direito francês há distinção. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. etc. Se não o fizerem. foi do Direito alemão. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. predomina o inglês. na área dos negócios e nas relações entre povos. hoje. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa.) de sistemas próximos do germânico. Brasil. língua. Cumpre saber que língua é utilizada. entre interpretação e integração. Mais tarde. Nas obrigações.O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística.. até. mesmo quando escritos em inglês. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. provêm de regulamento. Há 23 línguas oficiais na Europa. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. Mas na área do Direito não é assim. ex. uma enorme barreira linguística. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. 7 . a directriz não vigora. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. Todavia. Coreia do Sul. a grande influência. Em termos planetários. A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). evolução histórica. Mas havia uma grande projecção ultramarina. que suportou a nossa independência. p. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono. também com as operacionais: inglês. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. francês e alemão. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. quantidade de falantes da língua. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. Turquia. Ciência do Direito. Há. não são de common law. Há as directrizes e os regulamentos. não havendo confusão com os sistemas da pandectística. Assiste-se à implantação (Portugal. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. As regras sobre a moeda única. Quanto a autonomia doutrinária. De um modo geral. Japão. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. O Direito lusófono não tem só essa influência. O caso português é singular.

Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. juristas portugueses. Não teve consequências. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. nem uma política externa comum. e não a totalidade. há muitos constrangimentos. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. Nós. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística.No tempo do ius commune. como a falta de competência dos órgãos europeus. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. O melhor Direito é o interno. Antigamente. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. Fala de um bem a prestar. havia um Direito europeu das obrigações. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. MENEZES CORDEIRO. há 500 milhões de pessoas. 8 . ele começa a desaparecer. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo). como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. No espaço europeu. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. O direito subjectivo. havia um domínio de alguém sobre outrem. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. Esta noção presta-se a críticas. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. Para o Prof. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. O Prof. intra muros. Se A tem direito. para SAVIGNY. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. quando existia obrigação. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. forçar a vontade humana. No plano oficial. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. não há um Governo europeu. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. era o poder da vontade. a vantagem é o bem que será prestado. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. mas com exagero. dada a insuficiência da língua inglesa. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará.

Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. um direito ao património do devedor. mas as suas obrigações permaneciam. assentes apenas em deveres acessórios. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. pode-se atingir o seu património. XIX. Pode ser um facere ou um non facere. surge a nova noção de obrigação. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. independentemente de terem culpa). No séc. O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. Primeiro. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. obrigações. todavia. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. Há. as obrigações são cumpridas. Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. As pessoas morriam. extingue-se a haftung. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. Depois. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. Ela. Os romanistas diziam que não havia. o dever é sempre um constrangimento ético. 9 . Assim. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. já é um valer em si. A obrigação não é apenas um bem a prestar. Se o devedor não cumprir. mas o seu património. pelo que é excepção o recurso ao património. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). Pode haver obrigações sem prestação. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). A ideia remonta ao antigo Direito romano. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. no início. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. Na prescrição. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. surgiu a respondência. sim.Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. Em regra. independentemente de ser cumprida ou não.

O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. A prestação pode não existir. Mas. qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. pode haver nulidade. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. a responsabilidade é patológica. Estas construções são úteis. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. é o fiador que deve cumprir. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. colaboração. A obrigação pressupõe um dever específico. sabe-se hoje. O BGB já não exige natureza patrimonial. só. Se é assim. um conceito de obrigação. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. etc. Se não são. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. Se o devedor principal não cumprir. pelo que obrigação não é uma prestação. O credor fica adstrito a deveres de segurança. não interessam. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. tratado mais à frente. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. noutros ainda. outra concepção diz que há um direito real de garantia. por si só. Em certos casos. com dois regimes). Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. O regime é solicitado para um tratamento unitário. linguística. noutros. A obrigação do fiador é secundária. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. pode ainda não existir. 10 . E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor.. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. compreende um dever de prestar principal. não podendo servir para construir. não tendo interesse para o Direito nesse caso. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. Se são. em termos pragmáticos. deveres secundários e deveres acessórios. com o credor e vice-versa. A obrigação. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada.

compensação – e não de equivalência. mas havendo danos. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. Não tem de haver natureza patrimonial (398º).Se um artista se obriga a entoar uma ária. A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). mas pode receber dinheiro. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. É assim ao nível global. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. de sistema. ela é avaliável em dinheiro. boa educação) que não relevam para o direito. Direito. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). Como são ressarcíveis. à partida. As relações de obsequiosidade não são. Hoje isso não é assim. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. 2ª parte remete para o interesse. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. pode haver responsabilidade pela deferência. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. Tudo pode ser avaliado em dinheiro. acção directa. não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. O 397º define obrigação. não necessariamente em todas as situações. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. há ressarcibilidade dos danos morais. há sanções pecuniárias compulsórias. Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. tem conteúdo económico. O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. 11 . Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. o 398/2. chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. Pode haver execução específica. O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado.

duas partes. nos direitos pessoais de gozo. A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. Em obrigações. mas não se pode retirar daí uma regra. o direito real é uma situação absoluta. a relatividade existe quando há relação jurídica. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). Assim. há figuras como a execução específica. por exemplo). Em direitos reais há só uma. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. Uma última. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. Deve-se sempre perguntar qual a origem. Se a prestação for um serviço. Esta noção vale o que vale. A convida B para dançar. seria sempre necessária a mediação. no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. A obrigação é uma relação jurídica. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de.Há também deveres de protecção. o que tem de surgir é o serviço. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). Os direitos potestativos são absolutos. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. Podem fazê-lo? Em princípio. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). 12 . Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. Nas obrigações. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. Noutra acepção. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. no caso dos direitos reais). Os acordos de cavalheiros são relevantes. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. há créditos absolutos. o credor aproveita imediatamente a coisa. mas não se pode esfarrapar o par de dança. Quanto aos acordos de cavalheiros. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. Os créditos não são sempre relativos. que são absolutos? Em termos estruturais. erga omnes. relações de vizinhança. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. não. contrapondo-se aos direitos reais. encontramos sempre uma dança a dois. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. absoluta. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. são para cumprir – se não forem.

A eficácia interna é entre credor e devedor. Mas há também deveres no tráfego que. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. dão lugar a responsabilidade civil. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. A nossa jurisprudência acordou em 1964. ex. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). A doutrina tem evoluído nesse domínio. Deveres acessórios. se incumpridos. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. então há oponibilidade média. Há uma acção. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. No início. a figura do terceiro cúmplice). Faz sentido que haja defesa contra terceiros. 13 . a externa é perante terceiros. o que lhes daria uma tutela relativa. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. com os pactos de preferência. com MANUEL DE ANDRADE. As obrigações são vínculos. Se é assim. Há contratos com protecção de terceiros. p. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. A regra é de que a eficácia é meramente interna. relações jurídicas. Mas há outras regras. Se é assim. No sentido forte. médio ou fraco. Mas inverteu-se a tendência.. que se manifestam predominantemente perante o devedor. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. pode existir oponibilidade em sentido forte. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão. É o que acontece com os chamados deveres de tráfego. Havia uma quebra maliciosa do contrato. Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. PESSOA JORGE).A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. Na Alemanha diz-se que não.

Quando existe um devedor. é muito mais restrita. O terceiro não pode. como o penal ou o fiscal. Isso justifica-se em ramos agressivos. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. Dá. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. ao atribui direitos subjectivos. Se existe uma descrição típica das condutas. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. mas há várias vias para o conseguir. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. Há tipicidade exemplificativa. as economias britânica e francesa. Se ele for atingido. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida. pois. Só pode estatuir com recurso a tipos. Outros dizem que só o devedor pode incumprir. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. não estão assim tão mal. Todavia. Quando a lei recorre a descrição da realidade. um terceiro faz-se passar por credor. aplicam-se os artigos 798º e ss. diz-se. os factos são descritos concretamente. Quando existe uma previsão normativa. Noutros casos é mesmo normativa. 14 . a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. O legislador pode dar uma série de exemplos. Mas esses não se aplicam a terceiros. Está tudo ligado.  Diz que existe numerus clausus. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). Argumentos a favor. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. protecção jurídica. em princípio inatingíveis. recorre a tipos – tipicidade.  Diz que está proibida a analogia. países que admitem a figura. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. Isso em princípio. Num ramo típico. Se A contrata com B. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. não havendo lacuna. proíbe autotutela. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. descrevendo as condutas. O Direito objectivo. Contratar-se-ia menos. há um numerus clausus – o número de factos é finito. há responsabilidade.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia.

Os direitos reais têm. não há numerus clausus e pode haver lacunas. O contrato de trabalho é um contrato como os outros. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. aqui. Mas tem regras especiais. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece. de facto. etc. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). Obrigações. tudo é parecido com o Direito das obrigações. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. Há situações de direitos reais que. Aí. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. ao contrário. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. direito a uma coisa corpórea. Há tipicidades de tipo científico. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. 15 . tipicidade exemplificativa. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. ex. também. obrigações naturais. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. O conteúdo distingue-se do objecto. O conteúdo das obrigações é sempre. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. Nas obrigações isso não existe. Há. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade.). o regime tem um desvio. Há. em princípio. p. por conjunções históricas. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. Mas existem muitas obrigações nessa área. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. O mediato é também designado por objecto. por via de condicionalismos históricos. Isto é o núcleo duro – há desvios. um direito e um dever. invariavelmente. O Direito comercial é outro ramo especial. Autonomizou-se do Direito das obrigações. venire contra factum proprio. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. É muito especial.Nos contratos há descrição abstracta. um princípio de tipicidade.

noutras pretendem o resultado. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado.) e a aquiliana (483º e ss. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. Temos de saber o que é exigível. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei. O devedor está obrigado à diligência média. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. Por vezes. tem culpa. tendo em conta as circunstâncias do caso. Não se trata de um non facere. mas à prestação de um serviço com determinada diligência. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção. A prestação principal é o núcleo da obrigação. Seguem o regime da prestação principal. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra. Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. 16 . De pati. apenas de fazer tudo ao seu alcance. Só é exigível que se esforce até esse ponto. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. por um esforço de análise.: o médico não tem obrigação de curar. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). Todavia. Não se obrigam a resultados. Ex. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece. aquilo que for normal num homem médio. São prestações que complementam a prestação principal. Uma prestação inclui necessariamente o esforço. São instrumentais em relação a ela. as partes pretendem uma determinada conduta. É o homem médio. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. A de dare consiste na entrega de uma coisa. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. De dare. É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. Podemos. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. é um homem médio colocado no caso concreto. Se se comportar abaixo da bitola. Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). Foi o critério escolhido pelo legislador. É o critério do bonus paterfamiliae.).

a obrigação é uma realidade muito complexa. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. tal como se não cumprir o dever acessório. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito. mas há deveres acessórios pré-contratuais. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé.. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. O legislador quer primeiro cumprimento. só depois a indemnização.  Círculo externo. informação. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). depois a reconstituição natural. nos deveres acessórios são ambos.O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. rerum sic stantibus. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. Não basta cumprir a obrigação. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita. 17 . possível. é preciso cumprir de boa fé. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. A base legal é o 762/2. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. A culpa in contrahendo. Como decorrem da boa fé. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. determinável. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). segurança. A indemnização é uma consequência de segunda linha. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno. etc. Podem ser deveres de lealdade. contratuais e pós-contratuais. integração de lacunas. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. são soluções para problemas novos. Substancializam a obrigação. observando os deveres acessórios. Os deveres acessórios são imprevisíveis. Está em causa o princípio da tutela da confiança.

Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. Em princípio. Não é o mesmo que coisa fungível. ambos).  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). porteiro. atípica resulta da autonomia privada. etc. ex. prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis. Absolutas. nas mistas há vários deveres. mas são regularmente utilizadas no sector. 3. transferência de propriedade. 2. Se sou obrigado a recorrer a perífrases.  Obrigação de abstenção (simples.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente. combinadas quando estejam associadas a direitos reais. na relativa há. 4. uns relacionados. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). p. Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples). 18 . suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos.). Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei. relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. trata-se de obrigação complexa. 5. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. outros não. se consigo exprimir com uma única expressão é simples. Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei. Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. A regra é da fungibilidade. A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. como concessão.).

O Direito civil é um direito prático. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. como reacção ao regime feudal. pelo menos. entre o agente e o principal há relação duradoura. A denúncia seria um dos esquemas. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. com dilação temporal juridicamente relevante. É um contrato em especial. mas pessoais. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. ao contrário das obrigações comuns. Havendo agência. Se fosse logo satisfeito. É necessário. claro está. para tutela da confiança. Obrigações duradouras Partimos da prestação. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. A denúncia. As questões sociais vieram pugnar por protecção. também. em que havia obrigações perpétuas. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. O Prof. 19 . surge na periferia. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). o principal. 2. Há lacuna. O conteúdo tem de ser sempre. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. sob pena de nulidade (280º).6. determinável. O DL 178/86 trata da cessação da agência. não obstante. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. E relações perpétuas. era instantânea. Tipos de obrigações 1. Implica especialidade quanto à sua cessação. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. um pré-aviso. e outras que se cumprem no tempo. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. Hoje. Não se extinguem com o cumprimento. A retribuição é a renda ou aluguer. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. forma de cessação de um contrato duradouro. se tiver poder de representação celebra também os negócios).

Obrigação de deixar usar? Seria negativo. havendo transmissão da coisa arrendada. Chegou-se a um regime vinculístico. Se é assim.  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. É um direito real. 20 . A solução de quem chega ao mercado é comprar. para o futuro).  Congelamento das rendas. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. por exemplo.No arrendamento domina a autonomia privada. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário. menor taxa de natalidade. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos. Mas também não explica o que é o gozo. Logo. as rendas vão degradando. porque ele é sempre real). etc. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer. actualizando as rendas. impedindo actualização das rendas. Em 2006 houve um projecto. Em 1985 tentou-se reformar. mas também não chegou a bom porto. No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio. centros das cidades abandonados. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. Chegou-se a este panorama aos poucos. com a industrialização e grande pressão urbanística. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. surgiram fenómenos e problemas de natureza social. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real. maior o lucro do trespasse. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. Há bloqueios ideológicos. Surgem teorias mistas (entre nós. económicos. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. XIX. Se houver inflação.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção). mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. O 1743º do CC francês determina que. Nos finais do séc. trânsito caótico. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. Em 1990 tentou-se de novo. inícios do séc. é figura real o direito de locatário. Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. XX. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. Quanto mais baixa a renda. políticos. contraindo empréstimos. Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas. Há subúrbios.

o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. porque não era uma pessoa. Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. entre os direitos reais e os de crédito. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. em regra. 3. O Direito dizia que ele estava obrigado. tendo um direito de preferência sobre a coisa. Não tem uma grande relevância prática. no conflito com outros direitos. Admitese a existência de direitos de gozo. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). Essa tese é inaceitável. 21 . há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. pelo que ele se pode defender sozinho. A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. Estabelece que prevalece o direito real. Mas mudou de ideias. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. o que os aproxima dos direitos de crédito. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. como direitos reais. mas sem shuld. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. Em geral. pois. Era um débito sem respondência. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. de forma similar aos direitos reais. No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. na locação. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. por ser figura próxima do direito de crédito. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. Juridicamente não tinha personalidade. A pessoa estava obrigada a fazer algo.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). é histórica. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. Obrigações naturais É figura muito estudada. Comportam-se. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. nesta matéria o regime dos direitos reais. o locatário pode fazer obras. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. Uns são pessoais e outros são reais. Seguem. defender o seu direito face a terceiros. já que é ela que as explica. com recurso aos tribunais). Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. Mas pode ser integrado no Livro II. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário.

A obrigação natural deve ser. não têm valor patrimonial. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. Isso não é verdade. diz-se por vezes. Esta matéria está regulada no 402º. jurídica. Aparentemente. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. É jurídico. Não pode ser exigível judicialmente. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente. Não podem ser constituídas por contrato. Se eu pagar. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. A justiça é aquilo que o Direito consagra. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. diferente de um Direito moralmente enformado. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. Mas isto não pode ser.A isso chamaram obrigações naturais. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. mas também as obrigações 22 . Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida.  Não exigibilidade judicial do cumprimento. mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. Hoje. No período medieval. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. transformando-as em naturais. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. A lei. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º).  O 404º. pois. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula.  As obrigações naturais são típicas (809º). Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. etc. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas. Tiveram uma evolução muito atormentada. Havia ligação entre o Direito e a moral. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. Ser jurídica é estar prevista como obrigação. Noção legal (402º). etc. não posso pedir devolução do que paguei. As obrigações naturais. sociais. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais. porque elas são típicas. a moral é uma coisa e o Direito outra. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. Mas são aqueles os dois momentos cruciais. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei.. Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. Em tudo o resto. aplica-se o regime das obrigações civis. não jurídicas. Todavia.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. com base no 404º.

Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. Na falta de acordo. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. Desde que a coisa a entregar não seja única. escolhe o devedor. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. podendo ser qualquer litro de azeite. há uma lacuna negocial. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. Não havendo convenção. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. com a massificação das transacções. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. Os contraentes podem estipular diferentemente. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). Logo. o critério é o da mediania. 4.civis podem não ser cumpridas. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. quantidade ou qualidade. Deve-se escolher a coisa média. Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. dando lugar a obrigações genéricas. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. 23 . se nada for estipulado. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. rege o favor debitoris. O problema que surge é o da determinação do objecto. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. As obrigações genéricas são muito importantes. é fungível. Ele é determinável mas não está determinado. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. A escolha e o risco O 539º estabelece que. que podem ser de facere. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. há obrigação genérica. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. Não é o sentido do 400º. No Direito romano eram desconhecidas. o critério deve ser o da mediania. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. Só se determina o género. dare ou pati. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

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7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

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há outras que só o são se as partes acordarem. todos têm de prestar ao mesmo tempo. um concerto de orquestra. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. seja porque existe expressão linguística unitária. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. Ao contrário da parciariedade. Aumenta a garantia do credor. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. O credor só pode exigir de cada um essa parte. É um regime mais duro para o devedor. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. Existe uma presunção de igualdade das quotas. a regra supletiva é a da solidariedade. Quando vão cumprir.noção. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. porque também temos de tratar das relações internas. MENEZES CORDEIRO defende que. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. por exemplo). Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. É só uma. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. na falta de estipulação em contrário. para proteger o lesado. mas complexa. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. 27 . Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. os credores). ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal. de modo a assegurar o cumprimento. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. Os vários sujeitos têm relações entre si. No Direito comercial. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. Em resumo. que é sempre singular). O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. a lei estabelece solidariedade. Presume-se que as partes de cada um são iguais. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. quando há vários sujeitos numa obrigação. Rege o 512º . Há obrigações que são à partida divisíveis. O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. isso não multiplica a obrigação. Na prática. Nestes casos. seja porque o regime é unitário.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo.

Precisa de um facto jurídico para nascer. há “gato”. significa que há alguma coisa a mais. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. presunção de igualdade (516º). Uma prestação pode. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. aqui. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. ex. se não houver outro acordo. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. ex. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. um credor e um credor pignoratício. acrescentou a lei. concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores. já que o fraccionamento é feito posteriormente. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. Mas é uma pluralidade heterogénea. p. Eram fontes que. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. p. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. ter duplo aproveitamento. O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. A lei poderia ser fonte de obrigações. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. à estatuição de uma norma. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. é natural que existam meios de defesa dos devedores. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento.). Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. tem regime diferente. 28 . São duas fontes fundamentais de obrigações. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. uma classificação das fontes. o do devedor e o do fiador. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. pessoal seria a prescrição. Também existe. No período da pré-codificação francesa. ex. É uma bipartição importante. p. tal como os direitos reais. Na solidariedade há co-devedores. só dele (não os meios pessoais de outro). quando alguém contrata a solidariedade. Surgiu o esforço de sistematização. não sendo nem uma nem outra. Normalmente. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. um A.

Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. O direito privado tem 2000 anos. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. todavia. Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. como se usou em 1867 e 1966. enumera-se o contrato. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. Enumera algumas fontes. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. no tempo e no espaço. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade. Mas ele é mesmo muito reduzido. As divisões não significam. a melhor técnica é a tipológica. desde logo.). nuns e noutros a mesma coisa. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. enquanto a lei é norma heterónoma. a gestão de negócios. Há um encadeamento.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. mas enumeração. Faz-se. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. apesar de não haver classificação qua tale. a partir do 405º. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. 29 . Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. que é comum a todos os direitos europeus. referência à tetrapartição. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. então. ex. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. Em termos estatísticos. o enriquecimento sem causa. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. o negócio unilateral. em vez de adoptar a repartição tradicional. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. É difícil unificar. Já nos sécs. Com o CC de 1966 também não existe classificação. O que se deve. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. p. de se autodeterminarem. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. O Código de Seabra faia um elenco original.

30 . vai na direcção do contrato. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. a bona fides perderá o seu significado. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. No Direito sucessório é mais raro. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. Assim. O socialismo ataca o contrato. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. consensual – basta haver contrato. Mais tarde. de acordo com a escola histórica e a pandectística. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. está em crise. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). nas Obrigações é o contrato. O CCP trata da matéria. O contrato tem um papel muito alargado. É o sistema de tipo francês. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. com SAVIGNY.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. igualmente. em lei de Maio de 1352. É importante considerar o canonismo. Dá-se uma grande explosão. É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. mas existe pacto sucessório. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. tem menos aplicação. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. Menezes Cordeiro. já o negócio obtém-se pela razão. o próprio contrato perde espaço. O contrato valia por si. Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. mas se lemos artigos sobre negócios. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. É um diploma bem feito. No Direito da Família também: contrato de casamento. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). surgindo os contratos que hoje são básicos. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. Dinis. O contrato. D. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. É necessário que haja propriedade. manifestação da importância do contrato. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. Daria frutos no período jusnaturalista. Os romanos conheciam figuras equivalentes. se a sociedade é subdesenvolvida. para o Prof. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. o contrato está sempre subjacente. Passava a ser vinculativo por isso. diz-se muitas vezes.

O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos. à partida.  Intervenção judicial nos contratos. necessidade de consagrar na CRP.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação.). incluindo direitos de créditos). não se trata de um recuo do contrato. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. É uma visão pessimista. O contrato é um véu que tapa os olhos. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. Todavia. valores mobiliários. O contrato é. os observadores previram explosão dos contratos. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada. seguros. Com a queda do Muro. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português. etc. pois.  Áreas reguladas. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. Se a lei não dissesse nada. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. não relevaria: eles devem ser cumpridos.). Tecnicamente. diminuindo a liberdade contratual (banca. Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. pecuniários. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. Não houve. racionalidade. mas de certos contratos. O 56º/3 garante a contratação colectiva. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna. É óbvia. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. Graças às convenções internacionais. porque não foi necessário. no artigo 8º/2. Mas isso não aconteceu. pelo menos para coisas úteis. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. como o da boa fé. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos. etc.No séc. Tutela constitucional do contrato A CRP. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. plurais. 31 . O contrato tem peso em si.

fica fragilizada. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. em princípio também não o regula. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. Pode haver tipo social e tipo legal. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. vindo a aperfeiçoar-se. nominados e inominados. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. 5. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. por vezes. 32 . Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. Perante o conceito de negócio jurídico.1. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. Fala-se. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. não dá para classificar em abstracto. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada. É distinção relativa. Todos os negócios são contratos bilaterais. regulando com especialidade. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. consideradas mais sensíveis. no entanto. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. Terceiro. mas a lei não o disciplinou. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). 3. Segundo. 2. Quando a lei não lhe dá um nome. maior equilíbrio. reais quoad constitutionem e quoad effectum. O contrato de hospedagem. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. Consensuais. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. bem como diminui as dúvidas. é nominado mas atípico. o contrato é bilateral. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro.

O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. passa entre as gotas da chuva. O estudo desta matéria não é fácil. uma delas não fica obrigada. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. podemos distinguir entre negócios típicos. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. Fica com o direito potestativo de.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. em regra. se as partes celebram contratos mistos. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. À luz do 405º. hoje. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. solicitar ao outro a efectuação da prestação. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. as partes têm liberdade de celebrar livremente. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. atípicos e mistos Os negócios jurídicos. reciprocidade. querendo. O problema é que. O problema é que. pois. Em regra. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. Há 16 contratos regulados no Código Civil. É sinalagmático. a parte geral é muito restrita. 33 . há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. Há. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. Nos monovinculantes há duas partes. Os gratuitos são. Tipologias de contratos Contratos típicos. As partes querem dar. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. A generalidade das normas é supletiva. A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. Tendo em conta este facto. 7. 6. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. É diferente da vinculatividade. uma vez que domina a autonomia privada. tendo em conta o relevo de que se revestem. no entanto. Embora o 405º seja muito abrangente.

comida. mas recebe em géneros. próprias de vários contratos. na prática. Os combinados distinguem-se dos complementados.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1. não havendo uma principal. Há mistura. Isto só resulta se houver confiança. não para que se porte como proprietário. Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. Ex. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. O resto é extra. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. que lava também a roupa de cama. Em troca do preço recebe um quarto (locação). cama. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. que absorverá os outros. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. 3. o locador. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. Não pode ser um mero pormenor. Complementados – aqueles em que existe um tipo base. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. 4. Ex. A tem dívida para com B. em troca de explicações. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo).: A comprou 15 dias num cruzeiro. A autonomia privada é o pano de fundo. entretenimento. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa. devolve-lha. mas como tendo a casa como refém.: A arrenda um quarto a B. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto. Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante.: A recebe habitação. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. quando acabar. etc. os serviços de limpeza. 2. Ex. comida. B tem de guardar a casa enquanto A não paga. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho.: A compra por preço muito baixo. aplicando todos. embora tenha havido preço. Não tem salário. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos. 34 . o negócio aproxima-se da gratuitidade. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. Ex. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção).

deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). a primeira solução é a da vontade das partes. a solução também foi a da analogia. 3. 4. e também com a agência. bem como sinergia do ponto de vista económico. para que os distribua. 35 . Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. É contrato de agência que foi encontrado. o arrendamento tem muitas normas imperativas. se na lei houver solução.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. Há semelhança entre a agência e a concessão. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). A solução foi a da analogia. Recorre-se ao regime da agência. o combinado e o híbrido. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. O promotor é remunerado através da renda. Se não for suficiente. sem intenção de enganar).2. O método foi o da analogia. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. Em Portugal. gestão do centro. é também acompanhado de distribuição. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. no entanto. aplicam-se as regras desse tipo. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. a quem entrega os bens. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. segurança. aplica-se essa solução. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. mas os serviços que o centro proporciona. P. No caso do porteiro isso é evidente. O que é específico é a marca. nomeia concessionários. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. mas o contrato é usado para uma função diferente. é esse que se aplica. aplica-se o regime do tipo x. Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. O limite é o das normas imperativas. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. Pode haver várias funções: simulação. Regra geral. A seguir temos de resolver com analogia. publicidade. então celebra-se o y). Quando há lacuna contratual. Pode. Quando nada se diz. por analogia. Aqui. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. ex. tal como o da vontade das partes. é uma área vinculística. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. Hoje. a outra também. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. Mas isso é raro. Se ele corresponder ao tipo x. Mas não é normal. acabavam os centros comerciais.

O fiduciário é proprietário. era o proprietário da coisa. se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. Mas o Prof. No Direito português. Procura-se o centro de gravidade. O fiduciante é só entre outros. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). porque doações de bens futuros não são permitidas. O fiduciário é de execução prolongada. Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. São óbices consideráveis. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. aplica-se o regime correspondente. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). Se ela tem natureza real. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. teremos uma figura real não prevista na lei. Ele é permitido se não violar regras imperativas. Se for à falência. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. não permite divisão da coisa entregue. 36 . Mas.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. Quem recebia a coisa com fidutia. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. Descobrindo-o. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. já que o Direito existe para proteger os fracos. mas para o de terceiro. negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. interna e alternada. ao contrário do alemão. em benefício de quem a entregava. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. M. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. a fidúcia é muito violenta para o devedor. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. na contratação alternada valia ou um ou o outro. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados. o fiduciário.

Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. 442º. sendo diferente o regime. dependentes e independentes. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. É uma ideia relativamente recente. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. A figura da absorção. sem recorrer à escritura pública. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. tem eficácia real. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. a promessa valia apenas como prestação de facto. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal.. devia ser celebrado por escrito. 830º. há centros de gravidade múltiplos. No Direito português tem grande importância. de tipo processual. Hodiernamente. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. Mas nunca é irrelevante. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. Segundo o Código de 1867. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. O contrato prometido e o contrato definitivo. causais. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. A promessa por escrito era válida na hora. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. homogéneos e heterogéneos. Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. para o sinal. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. execução específica). Importou do BGB a execução específica. rege nos contratos mistos. Há muita jurisprudência sobre isto. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. de tipo não processual. a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). A celebração de uma escritura pública demora tempo. por exemplo. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. 37 . A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica.

do contrato preparatório material. Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. um modo geral de celebrar outros contratos. p. Meramente obrigacional. financiamento. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. P. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. Quanto à prometibilidade fraca. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. Desformalização. 3. do exercício de preferência. 2. do dever legal de contratar. Função preliminar. sobre a entrega. por vezes. É um formato. uma vez prometido. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. ex. É usado. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. É a função preparatória. para preparar o contrato definitivo. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente.. os contratos são dotados de prometibilidade forte. transacção meramente obrigacional. Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa.As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. Por vezes. regulativa autónoma. não podem ser objecto de promessa. Regra geral. desformalização. Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. 1. 4. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. tendo isso em conta. na promessa tem de haver negociação). Mitigada ou mitigadora. do convite a contratar (A solicita a B que contrate). as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). acabamento da coisa. Regulativa autónoma. Como no Direito alemão. Há contratos que. 5. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa. etc. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. mitigada. Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. na promessa sabe-se). O contrato-promessa distingue-se da proposta. 38 . é possível a execução específica no caso de incumprimento. um modus vivendi.). Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”. ex. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo).

à partida.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. e o outro não cumprir. diferente do regime do contrato-promessa. até é possível haver excepções ao que se disse.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. Isso não vem na lei. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º. Isso não é correcto. É verdade que existe um regime jurídico. a obrigar a algo que poderia revogar. Pode fazê-lo. mas a situação subjacente é diferente. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. também não há uma regra expressa que o diga. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. O nome é parecido. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. Não vincula o promitente a doar. mas ineficaz quanto às prestações principais. Com o não cumprimento. O problema é que. Mas. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). etc. Não há contrato-promessa de doação. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. tendo em conta o regime. É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. proximidade. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa.. se não houve entrega da coisa. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. às consequências pela ingratidão. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. É um contrato à parte. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada. a proposta ainda não foi feita. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. do 1591º e SS. Não se trata de um contrato-promessa. como executo? Os clássicos diziam que não era possível.) que conduz à possibilidade de revogação. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. 39 . etc. mas que tinha um regime especial. imperativo. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. No contrato-promessa. estão nos antípodas.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. o que está em causa não é a regulação de um contrato.

MENEZES CORDEIRO em princípio. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. Mas isso é errado. o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. O 410º/2 regula a forma. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. Na normalidade dos casos. não se entende porque só um assina. Se for livre também o contrato-promessa é livre. o regime é o do 219º liberdade de forma. Se para o prometido for necessário documento.Hoje em dia. é a solução. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. não se precisa é de assinar. Estipulações acessórias são válidas. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. Na prática. aplica-se a regra geral. tendo enorme relevância. Uns defendem a redução. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. é preciso o acordo de ambas). O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. nos termos do 293º. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. autêntico ou particular. Não haveria problema de prova nem dúvidas. Se o documento é a materialização do acordo. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. A conversão. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. em regra o promitente alienante. outros a conversão. Por isso. para ser quantos se obrigam. ainda que não tenham as duas assinaturas. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. Assim. Para o prof. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. A questão das assinaturas é meramente formal. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. 40 . a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3.

A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. de invalidade mista. MC sugere a ideia de modus contrahendo. o regime é o da reforma de 1986. Havendo contrato-promessa. Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. integralidade. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. se nada disserem. no 3.Mas não é fundamentalista. p. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). possa reduzir-se o negócio. Se a promessa for monovinculante. Neste momento. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. Surgiu na década de 1980. por sua razão de ser. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. Admite que. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. em certos casos. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. Trata-se. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. a se. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. 41 . O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. com excepção das relativas à forma e as disposições que. também. ex. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. ficando com um contrato-promessa monovinculante. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. este deve adquiri-la. Nestes casos. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). concretização e boa fé. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. Obedece a normas: os princípios da correspondência. A parte geral também tem regras. Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. havendo grandes atropelos ao direito. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. Pode ser paralisada através do abuso de direito. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. Há. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. Este princípio.

O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. prazo. imputação. Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. não foi. Incumprimento há quando. Se não houver. violação positiva do contrato. pode haver resolução. local. o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. se for cumprido. violação de deveres acessórios. Pode haver recusa antecipada a cumprir. a lei prevê a interpelação admonitória. O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. Se houver situação de mora. alterando as palavras. etc. Muitas vezes há AA. se o contrato-promessa permitir. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). uma via crucis. há inadimplemento.). Pode haver uma impossibilidade superveniente. O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. o faltoso é o que não cumpre. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. Pode acontecer que seja lacunar. se forem válidas e eficazes. O incumprimento extingue a prestação principal. Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss. Legitimidade. inclui-se a coisa no cumprimento. que resolvem inovar. O promitente fiel é o que é prejudicado. Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B.. O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço.). aplica-se o 280º. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. lugar. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. MC entende que isso não pode ficar assim. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé. 42 . se não for cumprido. impossibilidade superveniente. Isto é uma trapalhada. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. O definitivo está previsto no contrato-promessa.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação. devolve-se em dobro. e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. Ou há mora. À partida. mantendo-se o contrato-promessa. etc. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes. Se isto não for possível. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º).

Quando metido no contrato-promessa. faziam-se casas. mexeu no regime do sinal. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980). Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. Em 1980 havia grande inflação. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. O problema viria a ser resolvido em 1986. A ideia era: como a inflação é muito alta. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). Assim. se houve incumprimento. ajudava a provar a existência do contrato. O retentor pode. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo.No Direito grego antigo. O imobiliário estava sempre a subir. celebrando-se contratos-promessas. Enganou-se e mexeu em tudo. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. o sinal ganha coloração particular. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. vender a coisa e recolher o preço. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. começou a resolver o problema diferentemente. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. No Direito romano tinha um sentido confirmatório. se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. Tem um direito de liquidação judicial. Assim. penal. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. Quando mexeu no 442º. Afastouse a possibilidade de execução específica. O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. com a inflação. que chegava aos 20. O que estava em causa eram casas de habitação. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. o sinal tinha alcance coercivo.  Quando há tradição da coisa prometida. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. os sinais deixavam de valer tanto. Houve várias propostas para resolver a situação. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). na fase executiva. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. no entanto. 43 . O Governo resolveu intervir. Tornava-se compensador não cumprir. 30%. a indemnização já não é o sinal em dobro. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. mas o valor actual da coisa. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. A jurisprudência. recebiam-se sinais.

o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. Tentou-se. ele é deduzido do preço. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. Tendo havido mora. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. É um esquema complicado. é mais selectivo. Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. ficou consagrada a indemnização pelo valo. O Prof. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. Houve excessos legislativos. É uma “excepção de cumprimento”. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. pela interpretação). não sendo necessária a interpelação admonitória. com a solução do Prof. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. Além disso. a primeira consequência é entrar em mora (805º). Se houver sinal. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. Quem é prejudicado é o promitente adquirente.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. ainda assim. a indemnização seria o valor actualizado da coisa. Vários AA. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. Se houver mora. a favor do promitente adquirente traditário. Tentou-se limar algumas arestas. Lobo Xavier. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. fixa-se um novo prazo. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. O hipotecário ver-se-ia preterido. Em 1986 o legislador interveio novamente. introduzir correcções. Se houver morar. perderam a objectividade. A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. congelando o direito ao valor da coisa. Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. doutrinariamente. Assim. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. 44 . mesmo que anteriormente registada. Todavia.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. Assim. exige mais garantias. não há logo incumprimento definitivo.

tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. Se for possuidor tem defesas possessórias. 2. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. É celebrado contrato-promessa. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. Se for um representante. 3. desaparece também o sinal. a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. Se é esse o sentido da cláusula. no entanto. Assim. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. bem entendido. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. É uma posse muito elementar. Se resolve o contrato por incumprimento. É verdade. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. porque tem uma cláusula daquelas. A resolução. Pode ser uma gentileza mais demorada. A distinção é importante. Um contrato de comodato. Neste momento. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. É posse semelhante à do arrendatário. 45 . consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. O Prof. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. É um contrato que dá direitos muito precários. O sinal visa uma função compensatória. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. o que deve fazer é resolver o contrato. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). se há sinal. O que é que as partes pretenderam? 1. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. não há posse. deve ser tomado seriamente. a troco da entrega da casa. A menos que. O contrato-promessa já é um contrato misto. No Direito funciona-se com prazos. quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. Alguns autores dizem que. operando o sinal. quando haja incumprimento. Tradição da coisa Tecnicamente. destrói o contrato retroactivamente. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material.

O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. houve incumprimento. dir-se-á que não podemos obrigar. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. já vinha de trás. houver sinal. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. Foi uma ideia prussiana. soluções alternativas à indemnização. Leva ao mesmo. Passa até à frente do credor pignoratício. para além da tradição. é muito difícil determinar a indemnização. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional.4. Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. Se há excepção do cumprimento. Quando se trata de acções humanas. Aqui temos posse em termos de propriedade. 46 . Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. Já está tudo pago. pelo que há entrega da coisa. Consoante o tipo de posse. Mas isso já estava subentendido. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. Assim. também. A solução mais normal é a execução específica. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. O interessado pode ainda optar pela execução específica. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. Se de facto houve perda do interesse. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. Estamos perante um facto. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. Contudo. Assim. muda o regime. mas não especificou. Em 1980 o regime foi alterado. Se houve. por maioria de razão também há sinal comum. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. através dos seus meios. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966. colocando no terreno. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). Se tivesse havido incumprimento definitivo. A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). seria impossível apresentar-se a cumprir.

ex. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. O Prof. Mas nem sempre. A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. p. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. Simplesmente. já que a prestação se tornou impossível. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. Não valerá a pena recorrer à execução. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. Perante o incumprimento. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. em 1980 o legislador foi desastrado. 47 . as custas ficaram por sua conta. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. Aí. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. mas vende a C. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos. Conquanto que o conteúdo seja determinável. Simplesmente. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. a declaração faltosa. Contudo. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. Haverá consequências indemnizatórias. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). Nos outros a questão não se colocava. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. verdadeiramente. no momento em que é decretada a execução específica. é muito difícil calcular a indemnização. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica. contudo.Houve soluções doutrinárias. O tribunal não emite. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. Os riscos são compensados pela presença do tribunal.  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora.

o 830/1 admite a possibilidade. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. Mas aí não cabe execução específica. se verifique uma alteração das circunstâncias. p. Nessa altura. 48 . depois. Quando nem sequer há prometibilidade (doação. Tem de haver ponderação de interesses. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias.  A exclusão convencional. demissão). Contudo. pode acontecer que. in fine). Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. poderia ser revogado. A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. tão pouco. Mas a lei admite mandato irrevogável. Quando seja celebrado um contrato-promessa. Mas. Igualmente. não se iria muito longe (despedimento.) também não pode haver execução.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. ex. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. Se houver situação de inexistência. Já no penhor ou no mútuo faz sentido. Aí já faz sentido. comodato). a sentença tem de decretar a entrega da coisa. por sua natureza. Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. Contudo. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. já não é de todo possível a execução. mesmo que houvesse. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. No caso do contrato de trabalho. Todavia. O comodato pode cessar a qualquer altura. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. MC entende que sim. não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). Não faria sentido a execução de um contrato que. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. Não pode haver execução de contrato que não existe. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que.

O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. Deixou de se exigir a escritura. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. qual a solução? Normalmente. que a foi buscar ao Direito alemão. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. O que está em causa é que o dever seja cumprido. convenção expressa de atribuição de eficácia real. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. mas contra o terceiro (Dias Marques). Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. reforçando-se o registo.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. registo da promessa.  Há execução específica. vendendo a terceiro. 49 . A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. alguns entendem que cabe execução específica. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. O Prof. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. Ora. Se não for cumprido. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. Assim. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. Se o preço não for pago há injustiça. execução específica.Depósito do preço A sentença é translativa. pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. Através da eficácia real conseguir-se-ia. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. a lei alemã permite um pré-registo. Promove logo a transmissão da propriedade. A outra parte pode não ter sido paga. escritura pública. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. outros recusam essa solução. ficando privada do preço. Vaz Serra. não é norma de excepção.

MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. em relação ao definitivo.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. pelo menos em parte. Mau grado a primazia reguladora da promessa. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. delimitando. em função dele. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. Justamente por. em definitivo. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. a celebração das promessas. no fundo. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. 50 . A primeira opção explicativa leva. Ao celebrar o contrato-promessa. como contrato autónoma. as partes obrigam-se. continua a ser um verdadeiro contrato. à negação da própria promessa. tão-pouco é declarativa. Nos extremos. tão-só. a execução específica não é puramente executiva. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. A lei proíbe. por vezes. levar ao apagamento do definitivo. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). com o contrato definitivo. de facto. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. apenas. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. o que esteja em causa. De seguida. na promessa. no entanto. a contratar. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. o contrato definitivo não perde em categoria.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. ainda que devido e pré-regulamentado. uma vez concluída. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. as partes regularem. uma vez que dela nada sai de preexistente. um acto de execução do que já estaria combinado. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa.

pelo preço em causa. que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato. caso queira vender um prédio a alguém. A favor da pessoa designada em testamento (2235º). nesse sentido. perdendo a plena disposição do seu bem. Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável. A favor do comproprietário (1409º e 1410º). o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. De resto. a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário.O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. caso este queira. isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. em Direito. um dia. 1380º e 1381º). por χ. enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. 1519º e 1523º). A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. antes. com o qual o negócio fora ajustado. essencialmente. Diz-se. A favor do senhorio (1112º/4). ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. O direito de preferência. Da mesma forma. uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. Por exemplo: o obrigado. quando convencionalmente estabelecido. ao preferente. a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. tem. o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. pelo artigo 1535º (1901º). 51 . A favor do fundeiro (1535º). desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente). Em regra. A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). As preferências no sistema jurídico No Código Civil. A favor do co-herdeiro (2130º). caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível).  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. deve vendê-lo.

ao preferente.  A opção – figura inominada e atípica. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência. observadas determinadas formalidades. a preferência legal advém da lei. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. ainda e por elas. uma indemnização. relativo à acção da preferência.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). ora reais. através de uma acção de preferência (1410º/1). a preferência real confere. a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. Na segunda. tem cabimento recorrer à acção de preferência. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. uma vez que a outra emite logo a declaração final. violado o pacto. não podendo o preferente fazer seu o negócio.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. Modalidades. a um direito real de aquisição.  A preferência obrigacional. na opinião dominante. consoante a opção das partes e isso desde que. nos termos do 414º. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais. todavia. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso. Na primeira. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. permite ao preferente exigir. a real. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita. apenas uma das partes fica obrigada. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau. As preferências convencionais são ora obrigacionais. nesta última hipótese. ao obrigado faltoso. 52 . ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele. quando violada. sejam.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito.

deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. a menos que ambas as partes se vinculem. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). perante o Direito vigente. Com uma prevenção: numa situação de preferência. Pergunta-se se o terceiro que. próprio do contrato-promessa. quer autêntico quer particular. de liberdade de forma. recebem os deveres. podendo. Tendo conhecimento do pacto de preferência. pretenda contratar com o obrigado à preferência. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. por parte de um terceiro. desencadeando o funcionamento do pacto. o artigo 410º/2. à preferência.Forma O artigo 415º manda aplicar. do princípio da equiparação. o terceiro deve-se abster de contratar. 53 . de onde promanam deveres para ambas as partes. de acordo com as regras gerais (219º). porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. como a de fazer a competente comunicação. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. quando o contrato preferível exija documento. se o pacto for bivinculante (bilateral). apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. próprias do contrato preferível. Todavia. E sendo este o caso. é afectado de algum modo. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. Bastaria a assinatura deste. em regra. Propõe-se a aplicação. a essa luz.  Porém. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. daí resulta a aplicação. ao pacto de preferência. por ele. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. os ónus e os encargos envolvidos. Num pacto de preferência comum. das regras aplicáveis à capacidade. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. deve-se lidar com os deveres acessórios. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas. eventualmente. O modus praelationis. por definição. como cláusula num pacto mais vasto. ao pacto de preferência.

com alterações. não o quer. por lei expressa. Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. a renúncia. se não o fizer. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. modificações ou reticencias. Havendo vários preferentes. na mesma linha. a comunicação para preferência deve ser feita a todos. por aplicação do 410º/2. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada. se vem mesmo a concluir na esfera deste. convicto de que. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que. pelo menos. o represente.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir.Na posse dessa proposta. com base nela. por opção do beneficiário.  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. declarando que não está interessado. isto é. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. exige-se forma escrita. pelo menos. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. ficando o contrato por celebrar. afinal. o contrato. 54 . ao seu direito. deixando o negócio para o terceiro que. o terceiro ficará com o negócio. A comunicação não está sujeito. A não se verificarem tais requisitos. A resposta do preferente. esta deve ser feita ao preferente. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). quer particular. e estará enganado. quer autêntico. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. já que o terceiro não celebraria tal contrato. uma de duas:  Ou o preferente prefere. Havendo aceitação da comunicação de preferência. A “aceitação” da comunicação para preferência. envolve.  Ou o preferente rejeita. por parte do preferente. É o que dispõe o artigo 416º/1. Finalmente. com poderes bastantes. na presença de um projecto de contrato firme e sério. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou. de pleno direito. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal.  Ou renuncia à preferência. perfila-se o contrato definitivo.

o que terá que provar. 55 . procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. ou não. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. ou não. podem umas e outros ser desagregados. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode. dependendo das circunstâncias. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. 1ª parte).  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba. não o sendo. Não o sendo. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. Existem três possibilidades básicas. nenhum princípio de especialidade. apontam. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. pode. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa. quando se reporte a uma universalidade. divisível?  E não sendo divisível. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro. sem prejuízo para o interessado. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. De todo o modo. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. é excluída da preferência. Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. Prestação acessória. A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. Observar-se-á. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto. recebida a comunicação.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. o preferente desiste ou prefere em conjunto. o contrato será seguramente único. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. As valorações subjacentes ao artigo 417º.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. então. no nosso Direito da compra e venda. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos.  Não sendo avaliável em dinheiro.

abre-se licitação. Verificados os pressupostos. Em termos de comunicação: ela deve ser feita. a todos os preferentes. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes.  Concluir o contrato em causa. A acção de preferência permite ao preferente. moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. Segundo o artigo 1410º/1.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. com isso. os restantes: não havendo processo de escolha. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). seguramente. desde que este as acompanhe. Havendo eficácia real. sem seguir o procedimento da preferência. 56 . fazer seu o negócio faltoso. 1ª parte). a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. afastando. sempre. A prestação principal é.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. em termos de aquisição. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. esta última: trata-se de um facere jurídico. feito no artigo 410º/2. ao preço e à identidade do requerente.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. nas condições fixadas. em caso de violação de uma preferência real. com o preferente. É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles.

tendentes à conformação do contrato definitivo. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. o qual.  Quanto à execução.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. esta não depende da intervenção da parte vinculada. A opção. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa.  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo. Logo. na opção. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. por analogia. Direito e deveres. na conclusão. por ambas as partes. que fixe um prazo razoável para o seu exercício. só será válida e eficaz se. passando a integrar o definitivo. aqui. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. no cumprimento. do definitivo. da posição de contratante e do valor que ela representa. a celebração. 57 .  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. por mera declaração unilateral. por uma simples manifestação da sua vontade. o artigo 411º: o vinculado pede. só deverá ter lugar se uma das partes quiser. o titular ou o optante) recebe o direito de. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. declarações de ambas as partes. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. na opção basta a declaração do beneficiário. dá azo ao contrato definitivo. ora. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção).  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. ao tribunal. Aplicam-se aqui. um verdadeiro contrato-promessa. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. directamente ou por analogia. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”. que exigirá. ele recebe o direito potestativo de. a opção cessa. provocar o aparecimento do contrato definitivo. excepto no que tanja ao cumprimento deste. na execução. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. Haverá que aplicar. perante o concreto contrato definitivo em causa. todavia. execução e incumprimento No que toca ao optante.

a qual adquire um direito à prestação. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. designadamente para a parte optante. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. por seu turno. por via dos artigo 295º e 221º/2. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção.O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. O obrigado. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. Assim. natureza e aplicações Celebrando uma opção. a sua opção. O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. Como princípio geral. pode facturar o premio da opção.todavia. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. directamente. surge o contrato definitivo. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. entre outros aspectos. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). o qual deve ser cumprido. no mercado. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). uma das partes (o promitente) assume. partes no contrato. perante a outra (promissário). O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. há que lhe aplicar. No plano do seu conteúdo. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. as partes congelam as condições da venda. respectivamente. Ainda o mesmo optante pode colocar. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. com relevo para o pagamento do preço da opção. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. do optante e do adstrito. no memento escolhido. por analogia. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. Ambas as partes ficam . dando-a em garantia ou alienando-a. o artigo 272º: na pendência da opção. Actuada a opção. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). o artigo 762º/2 e. O risco desaparece. do definitivo. 58 . a cargo. que exercerá o seu direito se o entender. O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. Funções.

Tal permite excluir. pelo contrário. a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal. lhe possam advir da relação básica (405º). a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1). o direito à prestação: independentemente da aceitação. de forma geral. se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). a efectivação da promessa ao terceiro. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. especificamente. fundamentalmente.  A de exigir. as prestações ou outras vantagens que. O regime concreto de tais prestações. 1ª parte).A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. A posição do terceiro O terceiro adquire. a prestação principal O promitente tem. A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir.  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. do promitente.  A de exigir. porventura. porventura. do promitente. As prestações que. O terceiro adquire o direito à prestação. contratos como o casamento ou a doação. independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). nessa altura. pelo contrato a seu favor. A posição do promitente. A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. a contrario e 448º/1. 59 . Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte.  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem. deste cerne. Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. ao promitente. devam ser trocadas entre os mesmos. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. perante o terceiro. excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). por exigência deste e do promissário. imediatamente. o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. quando esse seja o conteúdo da promessa.

O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro.  O terceiro. antes dela. porém. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. pode desinteressar-se dela ou. quando se desempenhe perante o terceiro. a contrario). A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. por não ter sido celebrado com o terceiro é. antes de ter ocorrido a sua nomeação. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação.Perante um contrato a favor de terceiro. ainda. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. Esta apenas consolida um contrato que.  Torna a promessa firme (446º/1. não sendo parte do contrato. Eligendus: o terceiro. Amicus: o terceiro. pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. no limite. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. 60 . Na linguagem desde subsector. de adesão. por não ser o destinatário da prestação acordada. falsificar a conduta a que se encontra adstrito. logo. não tem. Desde modo.  O promissário. a fiscalização da contraparte. Num primeiro tempo. O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. pode ser menos diligente ou até. admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. através da regra da boa fé (762º/2). Pode-se. sobre si. de lealdade e de informação. nada fazer. desconhece os precisos termos envolvidos. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. Electio ou electio amici: a escolha. As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. ao abrigo das regras gerais (217º). o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1. a contrario e fortiori). instável.

foram surgindo figuras que.Regime. Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. tal como sucede com a ratificação (262º/2). A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. o negócio consolida-se na esfera do stipulans. Concluído o contrato para pessoa a nomear. eficácia retroactiva. que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa. Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. produz efeitos em relação ao contraente originário. inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. concordância do amicus e electio. Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. não reunindo as características perfeitas do contrato. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira).  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. quando superior (454º/2). essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. pois. do próprio contrato que a contenha. 61 . a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. ao outro contraente. Como tratá-las? Com o tempo.  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. num todo coerente. seja em moldes sócio culturais. a cláusula “pessoa a nomear”. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). altura em que o contrato ficará sem efeito. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). As fontes paracontratuais Ao longo da História. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. A electio tem. Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta. Feita regularmente e comunicada a designação. no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. em princípio. Ele implica. dele se aproximavam. O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. Embora a lei não o diga. seja em termos técnicos. Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato.

As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos. seja nos preliminares. execução de relações duradouras. no espaço jurídico. ser reconduzidas ao contrato mas que. Relações paracontratuais em especial 1. tivesse ocorrido qualquer contrato. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. Surgindo. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique.  Situações de relações jurídicas complexas. muitas vezes. de lealdade e de informação. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). Sublinha-se que. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas. para certos fins. isolam-se:  As relações contratuais de facto. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. pelo menos.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. através de meros comportamentos materiais.  Inserção em organizações comunitárias. sem integrar previsões contratuais. seja na formação. 62 . em termos rigorosos. Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. chega-se.  Os contratos com protecção de terceiros. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais. com ele. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social.  As relações contratuais sem contrato. no tráfego moderno de massas. uma parte razoável do seu regime. postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. na sua origem. depois.  Situações de proximidade contratual. esta relação fundir-se-ia nele. o contrato. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. derivada do facto simples de um contacto social.

Há impossibilidade inicial da prestação. igualmente. não seja parte. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. ainda. O contrato é resolvido. para terceiros. 3. por estar vulnerabilizada.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. no contrato considerado. independentemente de qualquer especial vontade. nele. que veicula os valores fundamentais do sistema. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. tenha uma proximidade visível. 2. A “fonte”. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. 63 . o círculo interior. nas protecções dispensadas. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. Surge uma impossibilidade superveniente. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. O círculo interior. Também está claro e assente que. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. pelas partes. perante a prestação principal e em face do credor. no caso de violação. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. Em termos analíticos. mercê dos contratos preliminares. o Direito manda proteger. que se reporta aos bens postos em jogo. Em termos gerais. revogado ou denunciado. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé. por qualquer razão. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. em face de um contrato:  Alguém que. ainda que insubsistente. Havendo proximidade. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. O contrato é anulado. De novo há um círculo exterior. e existe. promane deveres acessórios (de segurança. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. Com as devidas adaptações. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual.

a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes. ad nutum. obrigações que (só) irão pensar depois. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. mas noutros locais. 64 .  Os perigos da adstrição ad nutum. 4. “negócio” engloba. Mas têm moldagem contratual. uma vez que ele não é partes. quando violados. perante eles. com ligeireza. o proprio acto unilateral (457º-463º). nesse sentido nuclear.  Um numerus clausus de realidades relevantes. O negócio unilateral implica que alguém. aparentemente. dando origem. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade.Tecnicamente. Em rigor. operando o contrato. No que se lhe reporta. uma regra de tipicidade. as normas típicas. o inerente instituto. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. fora de série. no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. com facilidade. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. O artigo 457º proclama. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. que explique os deveres resultantes. 5. De facto. por sua livre e exclusiva vontade. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. cessado o contrato. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. fique adstrito a realizar uma prestação. por analogia. para as partes. aqui. São os deveres pós-eficazes. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. como um simples facto stricto sensu. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. de obrigações futuras. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se. ainda se poderiam manter determinados deveres. o que (ainda) não têm e subscreverem. aplicar. ser globalmente denominado culpa post factum finitum. Antes de fundam na lei. tais deveres não têm origem contratual. a responsabilidade obrigacional. em termos jurídico-positivos. podendo. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. de lealdade e de informação. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção.  A proibição de.

já antiga. isto é. Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida. Em bom rigor. Da oferta ao público (230º/3). Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. 65 . anteriormente. A regra não origina nenhuma obrigação nova. proclamada no artigo 457º. no Direito português. de resto. importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. Do testamento. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. a tipicidade dos negócios unilaterais. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. sem indicação da sua fonte. Quanto muito. Assim:      Da proposta de contrato. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. cabe salientar a confiança que. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. pois. De contratos com apenas uma assinatura. existe aqui. deve imperar. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. igualmente por via da boa fé. deve sublinhar-se. passando pela tradição de uma coisa. é aparente.Mantém-se. quanto à existência de adequada fonte das mesmas. a primazia da materialidade subjacente que. pelo princípio da causalidade. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. Dogmática geral O negócio unilateral. que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. Deve-se ter também em conta os terceiros que. a afirmação. fica o credor dispensado de a exibir. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. numa segunda vertente. pode-se admitir tipos abertos. por força de qualquer outra fonte.  Fonte essa cuja existência se presume. Negócios unilaterais em especial 1. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. sobretudo quando interessados. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). ainda. ainda. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. com a promessa pública como modelo. limitada à inversão do ónus da prova. de que. devidas. também aqui. No que tange ao autor do acto. para além da concreta eficácia suscitada. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se. Do anúncio público (225º). Os negócios unilaterais distinguem-se. até prova em contrário (pelo devedor).

a título de prémio. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. pela aceitação. deriva. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. o concurso ficaria indefinidamente aberto. Concurso público O artigo 463º. fica vinculado desde logo à promessa”. Feita a promessa. antes dele. às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. 3. ele extinga. O público. só nessa altura se constituindo. da indeterminação do destinatário.  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. A justa causa será. por anúncio público. ainda. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). desde logo. Até que. na sua falta.     Até que expire o prazo nela fixado (460º). propriamente obrigado. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º). da oferta ao público (230º/3): nesta. perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. que torne a promessa inexigível. objectiva ou subjectivamente. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. Até que. acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. aqui. constitui uma especial modalidade de promessa pública. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. apenas. 66 . ficando. por justa causa (461º/1. in fine). muito claramente. relativo a concursos púbicos. a sua obrigação. tendo prazo. naquela. o promitente adstrito à sua efectivação. aqui. surgindo alguém nas condições nela previstas. pode. seja revogada (461º/1). o promitente fica obrigado:  Até que. pelo cumprimento. não tendo prazo. um motivo atendível. constituir o contrato. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de.2. A situação distingue-se. seja revogada. exclusivamente.

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