Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

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Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

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 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

nesse caso. O Direito das Obrigações alemão é líder. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. 2. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. por regra. que merecem reforma em Portugal. Se a fonte for inválida. 863º. doutrina.Existem. Foi muito pouco mexido. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. 4 . A responsabilidade civil é fechada. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. É um código típico do início do séc. 942º. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. p. todavia. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. 809º. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. Protegem-se as pessoas contra si próprias. 4. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. prescrição. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. Mas há zonas periféricas. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. é abstracto. transposição de directivas comunitárias. baseada num conceito vago. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. Resulta do movimento da pandectística. 994º). analítica. as obrigações. defesa do consumidor). daí tal importância. No entanto. A responsabilidade civil é ampla. vários artigos em que podemos detectar esta orientação. O Direito das Obrigações é super estável. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. antes de terem as coisas. O legislador optou por emitir leis avulsas. renunciem aos seus direitos. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade. para não darem o que não têm. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. ex. a obrigação não subsiste. regras. A validade de um cheque. (448º. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. Causalidade Significa que. O BGB. ao longo da sua duração dependem dessa fonte.. É muito elegante linguística e estilisticamente. 457º. no Código Civil. não depende da sua fonte – o negócio jurídico. A codificação da boa-fé. XIX. A causalidade contrapõe-se à abstracção. Romano-germânico Sistema centrado no BGB. 947º. O Direito civil é muito estável. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. que nascem de uma determinada fonte. O BGB é de 1900. É muito difícil mexer nele. 812º. Não se quer que as pessoas.

5 . mantiveram-se em vigor as Ordenações. Há união entre religião e Estado. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. surgem institutos até então desconhecidos. tal como a cultura chinesa. canónica. Chinês É muito antigo. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. na China não aconteceu isso. 4. muito avançado. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. sequer. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. sendo revigorados os já conhecidos. O Código de Seabra é. O Direito português é aberto ao exterior. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. a partir de 1911. entre os conceitos desta família e os das anteriores.3. Não há correspondência. 5. Naturalmente. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. Este sistema não é codificado. Anglo-saxónico É um mundo à parte. sendo uma enorme influência. Mas tem uma organização e conceptualização originais. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. No Brasil. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. Antes da aprovação do Código de Seabra. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. Além da redistribuição germânica das matérias. XIX. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. O Código não é de inspiração alemã. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. não havendo negócio jurídico separado dos contratos. Mas. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. há um período de pré-codificação. Mas foi uma novidade científica que vingou. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. islâmica. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. no entanto. Há pouca influência romana. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias.

tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. numa primeira fase. Em África Em Angola. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. Na Guiné. Em Moçambique. XIX. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. mas havia a barreira linguística. Em Timor. Todavia. Com a independência. voltou a vigorar o Direito português. ainda em meados do séc. Houve. quando ocorreu a ocupação. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. como membro da OEA. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. mas começa a ser preparado no pósguerra. sendo substituída pelo inglês. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). O Código brasileiro aparece só em 1916. Antes da entrega de Macau. As revisões ministeriais do Prof. logo em meados de oitocentos. foi aprovado um Código Comercial novo. O Código de 1966 vigora actualmente. verificou-se a invasão indonésia em 1975. Foi necessário recomeçar. Ele é de 1966. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. O português era a segunda língua. Em Macau. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. Em Cabo Verde. tendo-os traduzido para chinês. Tem influência germânica e do Código de 1966. 6 . marcaram as primeiras reconstruções do CC. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. com Teixeira de Freitas. um período de exegese. numa segunda fase. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. mas já havia recepção do pandectismo.No Brasil Na doutrina brasileira. Há algum atraso na sua aprovação. depois da aprovação. O CC de 1916 tem já influência germânica. houve maior inteligência política. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. com algumas alterações após a independência. vigora também o código de 1966. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. O Prof.

É um Direito que tem uma evolução histórica. Somos. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação.. na área dos negócios e nas relações entre povos. predomina o inglês. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. Ciência do Direito. a directriz não vigora. ex. A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). 7 . também com as operacionais: inglês. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. Cumpre saber que língua é utilizada. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. Se não o fizerem.O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. evolução histórica. Japão. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. de Common Law. etc. francês e alemão. Em termos planetários. até. quantidade de falantes da língua. No Direito francês há distinção. O caso português é singular. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. Mas na área do Direito não é assim. As regras sobre a moeda única. é diferente. a grande influência. Brasil. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. Há 23 línguas oficiais na Europa. ao contrário do que acontece no Direito português. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. Mas havia uma grande projecção ultramarina. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. mesmo quando escritos em inglês. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). hoje. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. Quanto a autonomia doutrinária. Mais tarde. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. Há. Assiste-se à implantação (Portugal. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. língua. estão em causa relação inter-pessoais. p. foi do Direito alemão. uma enorme barreira linguística. A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. provêm de regulamento. Há as directrizes e os regulamentos. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. Coreia do Sul. que suportou a nossa independência. Turquia. entre interpretação e integração. ganha pelo mérito.) de sistemas próximos do germânico. um pequeno país na Europa. não são de common law. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial. O Direito lusófono não tem só essa influência. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. Todavia. O Prof. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. Nas obrigações. De um modo geral. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. que é do final de Oitocentos). não havendo confusão com os sistemas da pandectística.

MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. não há um Governo europeu. Nós. O Prof. e não a totalidade. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. Para o Prof. intra muros. MENEZES CORDEIRO. O melhor Direito é o interno. O direito subjectivo. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. 8 . cabendo ao credor recorrer aos tribunais. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. havia um Direito europeu das obrigações. a vantagem é o bem que será prestado. Fala de um bem a prestar. não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. Esta noção presta-se a críticas. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. dada a insuficiência da língua inglesa. Antigamente. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo).No tempo do ius commune. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. ele começa a desaparecer. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. nem uma política externa comum. forçar a vontade humana. Não teve consequências. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. havia um domínio de alguém sobre outrem. como a falta de competência dos órgãos europeus. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. No espaço europeu. juristas portugueses. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. quando existia obrigação. para SAVIGNY. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. há 500 milhões de pessoas. No plano oficial. há muitos constrangimentos. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. mas com exagero. era o poder da vontade. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. Se A tem direito.

no início. A obrigação não é apenas um bem a prestar. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. Em regra. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. independentemente de ser cumprida ou não. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. Na prescrição. Primeiro. pode-se atingir o seu património. mas o seu património. surge a nova noção de obrigação. Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. já é um valer em si. surgiu a respondência. obrigações. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. mas as suas obrigações permaneciam.Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. Se o devedor não cumprir. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. todavia. XIX. A ideia remonta ao antigo Direito romano. Ela. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). as obrigações são cumpridas. Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. Os romanistas diziam que não havia. As pessoas morriam. Pode haver obrigações sem prestação. o dever é sempre um constrangimento ético. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. pelo que é excepção o recurso ao património. independentemente de terem culpa). As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. Há. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. um direito ao património do devedor. sim. Assim. O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). Pode ser um facere ou um non facere. Depois. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. assentes apenas em deveres acessórios. extingue-se a haftung. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. No séc. 9 .

etc. deveres secundários e deveres acessórios. O credor fica adstrito a deveres de segurança. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. O regime é solicitado para um tratamento unitário. um conceito de obrigação. com o credor e vice-versa. a responsabilidade é patológica. não podendo servir para construir. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. 10 . compreende um dever de prestar principal. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. Mas. A obrigação do fiador é secundária. sabe-se hoje. Em certos casos. tratado mais à frente. com dois regimes). cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. noutros. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. em termos pragmáticos. não interessam. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. Se não são.. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. por si só. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. Estas construções são úteis. é o fiador que deve cumprir. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. não tendo interesse para o Direito nesse caso. A obrigação. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. colaboração. linguística. noutros ainda. Se é assim. A prestação pode não existir. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. Se são. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. pode haver nulidade. pelo que obrigação não é uma prestação. Se o devedor principal não cumprir. pode ainda não existir. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. só. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. A obrigação pressupõe um dever específico. outra concepção diz que há um direito real de garantia. MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. O BGB já não exige natureza patrimonial.

No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. É assim ao nível global. Direito. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. mas havendo danos. não necessariamente em todas as situações. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. Como são ressarcíveis. mas pode receber dinheiro. ela é avaliável em dinheiro. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. à partida. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). As relações de obsequiosidade não são. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. tem conteúdo económico.Se um artista se obriga a entoar uma ária. Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. de sistema. não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. Tudo pode ser avaliado em dinheiro. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. o 398/2. 2ª parte remete para o interesse. há sanções pecuniárias compulsórias. será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. compensação – e não de equivalência. Não tem de haver natureza patrimonial (398º). Hoje isso não é assim. boa educação) que não relevam para o direito. Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. pode haver responsabilidade pela deferência. 11 . Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). Pode haver execução específica. O 397º define obrigação. acção directa. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. há ressarcibilidade dos danos morais. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente.

mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. mas não se pode retirar daí uma regra. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. seria sempre necessária a mediação. Os créditos não são sempre relativos. contrapondo-se aos direitos reais. são para cumprir – se não forem. Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. Assim. não. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. Esta noção vale o que vale. há figuras como a execução específica. encontramos sempre uma dança a dois. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. absoluta. nos direitos pessoais de gozo. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. há créditos absolutos. duas partes. Uma última. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. o credor aproveita imediatamente a coisa. Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. Se a prestação for um serviço. Em obrigações. o que tem de surgir é o serviço. Os acordos de cavalheiros são relevantes. Nas obrigações. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). relações de vizinhança. A convida B para dançar. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. erga omnes. há créditos potestativos que não carecem de intermediação.Há também deveres de protecção. 12 . Os direitos potestativos são absolutos. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. mas não se pode esfarrapar o par de dança. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. a relatividade existe quando há relação jurídica. A obrigação é uma relação jurídica. no caso dos direitos reais). A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. que são absolutos? Em termos estruturais. o direito real é uma situação absoluta. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. Quanto aos acordos de cavalheiros. Podem fazê-lo? Em princípio. Em direitos reais há só uma. por exemplo). Noutra acepção. Deve-se sempre perguntar qual a origem. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição).

PESSOA JORGE). a obrigação produziu efeitos perante terceiros. a externa é perante terceiros. a figura do terceiro cúmplice). Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. que se manifestam predominantemente perante o devedor. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. No início. Se é assim.. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. médio ou fraco. relações jurídicas. É o que acontece com os chamados deveres de tráfego. Havia uma quebra maliciosa do contrato. A doutrina tem evoluído nesse domínio. Se é assim. A eficácia interna é entre credor e devedor. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. A regra é de que a eficácia é meramente interna. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão.A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. 13 . Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. As obrigações são vínculos. dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. ex. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. com os pactos de preferência. dão lugar a responsabilidade civil. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. p. pode existir oponibilidade em sentido forte. o que lhes daria uma tutela relativa. com MANUEL DE ANDRADE. Há uma acção. Deveres acessórios. se incumpridos. No sentido forte. em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. Na Alemanha diz-se que não. Mas há também deveres no tráfego que. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. Há contratos com protecção de terceiros. A nossa jurisprudência acordou em 1964. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. Mas inverteu-se a tendência. Faz sentido que haja defesa contra terceiros. então há oponibilidade média. Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. Mas há outras regras. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte.

Outros dizem que só o devedor pode incumprir. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar.  Diz que existe numerus clausus. um terceiro faz-se passar por credor.  Diz que está proibida a analogia. é muito mais restrita. O legislador pode dar uma série de exemplos. proíbe autotutela. Quando existe um devedor. descrevendo as condutas. Só pode estatuir com recurso a tipos. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. Se ele for atingido. Noutros casos é mesmo normativa. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. Mas esses não se aplicam a terceiros. há responsabilidade. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. em princípio inatingíveis. as economias britânica e francesa. Isso em princípio. recorre a tipos – tipicidade. aplicam-se os artigos 798º e ss. não estão assim tão mal. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. ao atribui direitos subjectivos. Dá. Contratar-se-ia menos. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. há um numerus clausus – o número de factos é finito. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). Num ramo típico. pois. Está tudo ligado. Se A contrata com B. Todavia. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. não havendo lacuna. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida. protecção jurídica. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. Se existe uma descrição típica das condutas. diz-se. Isso justifica-se em ramos agressivos. 14 . Há tipicidade exemplificativa. como o penal ou o fiscal. Quando existe uma previsão normativa. O terceiro não pode. os factos são descritos concretamente. Argumentos a favor. mas há várias vias para o conseguir. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. países que admitem a figura. Quando a lei recorre a descrição da realidade. O Direito objectivo.

É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. Obrigações. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. Aí. tipicidade exemplificativa. direito a uma coisa corpórea. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). Há. O conteúdo distingue-se do objecto. 15 . o regime tem um desvio. ao contrário. venire contra factum proprio. O mediato é também designado por objecto. invariavelmente. Há. por via de condicionalismos históricos. O conteúdo das obrigações é sempre. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. O Direito comercial é outro ramo especial. um princípio de tipicidade. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). tudo é parecido com o Direito das obrigações. também. aqui. É muito especial. Os direitos reais têm. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. de facto. O contrato de trabalho é um contrato como os outros. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca.Nos contratos há descrição abstracta. não há numerus clausus e pode haver lacunas. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. Mas existem muitas obrigações nessa área. obrigações naturais. Autonomizou-se do Direito das obrigações. em princípio. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. Há situações de direitos reais que. Há tipicidades de tipo científico. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea.). Isto é o núcleo duro – há desvios. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. ex. por conjunções históricas. Mas tem regras especiais. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. etc. um direito e um dever. Nas obrigações isso não existe. p. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito.

Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. tendo em conta as circunstâncias do caso. São prestações que complementam a prestação principal. tem culpa. De dare. A prestação principal é o núcleo da obrigação. as partes pretendem uma determinada conduta.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. é um homem médio colocado no caso concreto. De pati. Uma prestação inclui necessariamente o esforço. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. apenas de fazer tudo ao seu alcance. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra. Foi o critério escolhido pelo legislador. O devedor está obrigado à diligência média. Não se obrigam a resultados. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado. É o critério do bonus paterfamiliae.) e a aquiliana (483º e ss. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta. mas à prestação de um serviço com determinada diligência. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. Se se comportar abaixo da bitola. A de dare consiste na entrega de uma coisa. noutras pretendem o resultado. Por vezes. As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. É o homem médio. aquilo que for normal num homem médio. Só é exigível que se esforce até esse ponto.). Não se trata de um non facere. 16 . Podemos.: o médico não tem obrigação de curar. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. por um esforço de análise. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). Ex. São instrumentais em relação a ela. Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. Seguem o regime da prestação principal. Temos de saber o que é exigível. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). Todavia. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem.

depois a reconstituição natural. Não basta cumprir a obrigação. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. a obrigação é uma realidade muito complexa. 17 . tal como se não cumprir o dever acessório. rerum sic stantibus. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente.  Círculo externo. integração de lacunas. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. Substancializam a obrigação. informação. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. A culpa in contrahendo. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita.O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. A indemnização é uma consequência de segunda linha. mas há deveres acessórios pré-contratuais. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. são soluções para problemas novos. observando os deveres acessórios. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). possível. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. Os deveres acessórios são imprevisíveis. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. O legislador quer primeiro cumprimento. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). etc. Como decorrem da boa fé. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. é preciso cumprir de boa fé. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo. segurança. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida. Está em causa o princípio da tutela da confiança. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor.. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. nos deveres acessórios são ambos. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. contratuais e pós-contratuais. A base legal é o 762/2. só depois a indemnização. Podem ser deveres de lealdade. determinável. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia.

Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. mas são regularmente utilizadas no sector.  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). Se sou obrigado a recorrer a perífrases. transferência de propriedade. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. 4. Em princípio. etc.). prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis. Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei. Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos. porteiro.). como concessão. Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente. nas mistas há vários deveres. combinadas quando estejam associadas a direitos reais. Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples). Não é o mesmo que coisa fungível. 18 . ex. A regra é da fungibilidade. trata-se de obrigação complexa. se consigo exprimir com uma única expressão é simples. atípica resulta da autonomia privada. Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. outros não. na relativa há. ambos). Absolutas. uns relacionados. relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. p. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). 2.  Obrigação de abstenção (simples. 5. Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. 3.

um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. O DL 178/86 trata da cessação da agência. ao contrário das obrigações comuns. era instantânea. se tiver poder de representação celebra também os negócios). quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. Se fosse logo satisfeito. É um contrato em especial. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. também. um pré-aviso. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. A retribuição é a renda ou aluguer. O conteúdo tem de ser sempre. Havendo agência. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). o principal. pelo menos. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. surge na periferia. mas pessoais.6. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. Implica especialidade quanto à sua cessação. forma de cessação de um contrato duradouro. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. Não se extinguem com o cumprimento. O Prof. É necessário. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. O Direito civil é um direito prático. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. com dilação temporal juridicamente relevante. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. como reacção ao regime feudal. Tipos de obrigações 1. 19 . não obstante. claro está. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. Obrigações duradouras Partimos da prestação. A denúncia seria um dos esquemas. Há lacuna. para tutela da confiança. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. determinável. 2. em que havia obrigações perpétuas. As questões sociais vieram pugnar por protecção. entre o agente e o principal há relação duradoura. E relações perpétuas. A denúncia. e outras que se cumprem no tempo. sob pena de nulidade (280º). pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. Hoje.

actualizando as rendas. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. Quanto mais baixa a renda. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. Há subúrbios. havendo transmissão da coisa arrendada. XX. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real. económicos. políticos.No arrendamento domina a autonomia privada. mas também não chegou a bom porto. Há bloqueios ideológicos. O 1743º do CC francês determina que. etc. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. XIX. Em 1985 tentou-se reformar. Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. Chegou-se a este panorama aos poucos. Obrigação de deixar usar? Seria negativo. contraindo empréstimos. centros das cidades abandonados. Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. Em 2006 houve um projecto. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. com a industrialização e grande pressão urbanística. impedindo actualização das rendas.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção). Chegou-se a um regime vinculístico. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas. 20 . as rendas vão degradando. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. Se é assim. maior o lucro do trespasse. porque ele é sempre real).  Congelamento das rendas. inícios do séc. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. menor taxa de natalidade. Nos finais do séc. Logo. A solução de quem chega ao mercado é comprar. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer. Mas também não explica o que é o gozo. Em 1990 tentou-se de novo. para o futuro).  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). é figura real o direito de locatário. por exemplo. Se houver inflação. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. trânsito caótico. É um direito real. Surgem teorias mistas (entre nós. surgiram fenómenos e problemas de natureza social.

Mas pode ser integrado no Livro II. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. pois. Seguem. No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. na locação. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. em regra. A pessoa estava obrigada a fazer algo. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). com recurso aos tribunais). Juridicamente não tinha personalidade. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. no conflito com outros direitos. Comportam-se. Estabelece que prevalece o direito real. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). o que os aproxima dos direitos de crédito. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. Admitese a existência de direitos de gozo. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. Em geral. Essa tese é inaceitável. Mas mudou de ideias. o locatário pode fazer obras. tendo um direito de preferência sobre a coisa. defender o seu direito face a terceiros. como direitos reais. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. de forma similar aos direitos reais. é histórica. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. porque não era uma pessoa. 3. Não tem uma grande relevância prática. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. entre os direitos reais e os de crédito. Uns são pessoais e outros são reais.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. 21 . mas sem shuld. nesta matéria o regime dos direitos reais. já que é ela que as explica. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. Obrigações naturais É figura muito estudada. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. Era um débito sem respondência. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. por ser figura próxima do direito de crédito. A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. O Direito dizia que ele estava obrigado. pelo que ele se pode defender sozinho.

As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais. não têm valor patrimonial. Noção legal (402º). entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. A justiça é aquilo que o Direito consagra. Ser jurídica é estar prevista como obrigação. aplica-se o regime das obrigações civis. A lei.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. Esta matéria está regulada no 402º. porque elas são típicas.  O 404º. pois. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). a moral é uma coisa e o Direito outra. Isso não é verdade. com base no 404º. diz-se por vezes. Havia ligação entre o Direito e a moral. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas. Aparentemente.. etc. Hoje. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. No período medieval. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. mas também as obrigações 22 . mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. É jurídico. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida.  Não exigibilidade judicial do cumprimento. A obrigação natural deve ser. não jurídicas. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente.  As obrigações naturais são típicas (809º). Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei. Tiveram uma evolução muito atormentada. Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos.A isso chamaram obrigações naturais. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. Mas são aqueles os dois momentos cruciais. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. Não pode ser exigível judicialmente. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. Se eu pagar. diferente de um Direito moralmente enformado. Todavia. As obrigações naturais. Mas isto não pode ser. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. sociais. jurídica. etc. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. Não podem ser constituídas por contrato. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. não posso pedir devolução do que paguei. Em tudo o resto.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. transformando-as em naturais. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis.

Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. podendo ser qualquer litro de azeite. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. com a massificação das transacções. é fungível. dando lugar a obrigações genéricas. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. Os contraentes podem estipular diferentemente. rege o favor debitoris. o critério é o da mediania. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. há obrigação genérica. 4. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. Desde que a coisa a entregar não seja única. Não é o sentido do 400º. Na falta de acordo. A escolha e o risco O 539º estabelece que. que podem ser de facere. Deve-se escolher a coisa média. 23 . As obrigações genéricas são muito importantes. há uma lacuna negocial. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. dare ou pati. Ele é determinável mas não está determinado. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. O problema que surge é o da determinação do objecto. se nada for estipulado. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. Só se determina o género. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. escolhe o devedor. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. Não havendo convenção. o critério deve ser o da mediania. Logo. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas.civis podem não ser cumpridas. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. quantidade ou qualidade. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis. No Direito romano eram desconhecidas.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

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7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

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Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. Na prática. de modo a assegurar o cumprimento. Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. seja porque o regime é unitário. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. a regra supletiva é a da solidariedade. O credor só pode exigir de cada um essa parte. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. Quando vão cumprir. É só uma. Presume-se que as partes de cada um são iguais. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. Nestes casos. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. na falta de estipulação em contrário. todos têm de prestar ao mesmo tempo. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. a lei estabelece solidariedade. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. há outras que só o são se as partes acordarem. No Direito comercial. que é sempre singular). para proteger o lesado. É um regime mais duro para o devedor. por exemplo). Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal. Existe uma presunção de igualdade das quotas. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. Aumenta a garantia do credor. 27 . As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. seja porque existe expressão linguística unitária.noção. um concerto de orquestra. Em resumo. porque também temos de tratar das relações internas. MENEZES CORDEIRO defende que. O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota. mas complexa. os credores). O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. Os vários sujeitos têm relações entre si. Rege o 512º . Há obrigações que são à partida divisíveis. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. quando há vários sujeitos numa obrigação. Ao contrário da parciariedade. isso não multiplica a obrigação.

quando alguém contrata a solidariedade. o do devedor e o do fiador. Normalmente.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. ex. O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso.). não sendo nem uma nem outra. é natural que existam meios de defesa dos devedores. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. presunção de igualdade (516º). ex. significa que há alguma coisa a mais. uma classificação das fontes. um credor e um credor pignoratício. Mas é uma pluralidade heterogénea. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. há “gato”. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. A lei poderia ser fonte de obrigações. aqui. Também existe. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. São duas fontes fundamentais de obrigações. Uma prestação pode. Na solidariedade há co-devedores. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. Eram fontes que. um A. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. tal como os direitos reais. tem regime diferente. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. p. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. p. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. ex. à estatuição de uma norma. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. Precisa de um facto jurídico para nascer. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. se não houver outro acordo. Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. p. No período da pré-codificação francesa. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. acrescentou a lei. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. É uma bipartição importante. 28 . pessoal seria a prescrição. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. ter duplo aproveitamento. Surgiu o esforço de sistematização. só dele (não os meios pessoais de outro). já que o fraccionamento é feito posteriormente. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento.

XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. O Código de Seabra faia um elenco original. p. Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. As divisões não significam. desde logo. Há um encadeamento. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. apesar de não haver classificação qua tale. Faz-se. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). a partir do 405º. o enriquecimento sem causa. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. o negócio unilateral. Enumera algumas fontes. O que se deve. então. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada.). fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. todavia. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica. enumera-se o contrato. 29 . nuns e noutros a mesma coisa. Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. de se autodeterminarem. É difícil unificar. mas enumeração. Em termos estatísticos. como se usou em 1867 e 1966. ex. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. no tempo e no espaço. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. a melhor técnica é a tipológica. em vez de adoptar a repartição tradicional. enquanto a lei é norma heterónoma. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. O direito privado tem 2000 anos. Com o CC de 1966 também não existe classificação. Já nos sécs. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. a gestão de negócios. que é comum a todos os direitos europeus. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. referência à tetrapartição. O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. Mas ele é mesmo muito reduzido. Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito.

O contrato tem um papel muito alargado. É o sistema de tipo francês. Os romanos conheciam figuras equivalentes. vai na direcção do contrato. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. para o Prof. O contrato. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. É necessário que haja propriedade. No Direito da Família também: contrato de casamento. mas se lemos artigos sobre negócios. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. Daria frutos no período jusnaturalista. No Direito sucessório é mais raro. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). É importante considerar o canonismo. Dinis. igualmente. já o negócio obtém-se pela razão. É um diploma bem feito. consensual – basta haver contrato. Assim. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. em lei de Maio de 1352. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. Passava a ser vinculativo por isso. Menezes Cordeiro. diz-se muitas vezes. O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. de acordo com a escola histórica e a pandectística. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. está em crise. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. D. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. se a sociedade é subdesenvolvida. Dá-se uma grande explosão. o contrato está sempre subjacente. Mais tarde. surgindo os contratos que hoje são básicos. manifestação da importância do contrato. a bona fides perderá o seu significado. com SAVIGNY. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. O contrato valia por si. 30 . mas existe pacto sucessório. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. tem menos aplicação.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. O CCP trata da matéria. o próprio contrato perde espaço. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. nas Obrigações é o contrato. O socialismo ataca o contrato. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais.

mas de certos contratos. O contrato é um véu que tapa os olhos. Graças às convenções internacionais.No séc. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada. Todavia. Tecnicamente. O contrato tem peso em si. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força. É óbvia. no artigo 8º/2. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. pelo menos para coisas úteis. O contrato é. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna. Não houve.  Intervenção judicial nos contratos. necessidade de consagrar na CRP. diminuindo a liberdade contratual (banca. plurais. valores mobiliários. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português. os observadores previram explosão dos contratos. racionalidade.). Com a queda do Muro. porque não foi necessário.). Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. pois. pecuniários.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. Se a lei não dissesse nada.  Áreas reguladas. seguros. não se trata de um recuo do contrato. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. Mas isso não aconteceu. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. incluindo direitos de créditos). O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos. 31 . No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. O 56º/3 garante a contratação colectiva. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. etc. à partida. como o da boa fé. É uma visão pessimista. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. não relevaria: eles devem ser cumpridos. Tutela constitucional do contrato A CRP. etc. A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa.

Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. mas a lei não o disciplinou. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. consideradas mais sensíveis. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. fica fragilizada. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. em princípio também não o regula. Perante o conceito de negócio jurídico. Fala-se. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. reais quoad constitutionem e quoad effectum. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. não dá para classificar em abstracto. o contrato é bilateral. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). vindo a aperfeiçoar-se. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. por vezes. É distinção relativa. bem como diminui as dúvidas. Consensuais. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. no entanto. Quando a lei não lhe dá um nome. 3. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais.1. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. O contrato de hospedagem. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. regulando com especialidade. Terceiro. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. Pode haver tipo social e tipo legal. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. maior equilíbrio. 32 . Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. 2. nominados e inominados. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. Todos os negócios são contratos bilaterais. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. Segundo. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. 5. é nominado mas atípico.

tendo em conta o relevo de que se revestem. Os gratuitos são. uma delas não fica obrigada. Há 16 contratos regulados no Código Civil. Fica com o direito potestativo de. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. Embora o 405º seja muito abrangente. uma vez que domina a autonomia privada. Em regra. passa entre as gotas da chuva. 7. solicitar ao outro a efectuação da prestação. reciprocidade. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. Nos monovinculantes há duas partes. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. O problema é que. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. O estudo desta matéria não é fácil. É diferente da vinculatividade. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. podemos distinguir entre negócios típicos. em regra. À luz do 405º. 6. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. Tendo em conta este facto. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. Há. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). O problema é que. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. 33 . atípicos e mistos Os negócios jurídicos. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. no entanto. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. a parte geral é muito restrita. as partes têm liberdade de celebrar livremente. Tipologias de contratos Contratos típicos. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. pois.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. se as partes celebram contratos mistos. querendo. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. É sinalagmático. As partes querem dar. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. A generalidade das normas é supletiva. hoje. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos.

Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. o locador. etc. B tem de guardar a casa enquanto A não paga. Ex. na prática. A tem dívida para com B. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. Não tem salário. mas como tendo a casa como refém. A autonomia privada é o pano de fundo. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. o negócio aproxima-se da gratuitidade. entretenimento. próprias de vários contratos. Ex. que absorverá os outros. Não pode ser um mero pormenor. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). 3. cama. que lava também a roupa de cama. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. Complementados – aqueles em que existe um tipo base. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. os serviços de limpeza. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. Ex. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. Os combinados distinguem-se dos complementados.: A recebe habitação. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção).A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1. O caso paradigmático é o da alienação em garantia.: A comprou 15 dias num cruzeiro. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. O resto é extra. 4. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. Há mistura. comida. aplicando todos. Isto só resulta se houver confiança. devolve-lha. 2. não havendo uma principal. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. Ex.: A compra por preço muito baixo. 34 . Em troca do preço recebe um quarto (locação). embora tenha havido preço.: A arrenda um quarto a B. mas recebe em géneros. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. quando acabar. não para que se porte como proprietário. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante. Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. comida. em troca de explicações.

O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. O método foi o da analogia. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. A solução foi a da analogia. aplica-se essa solução. 3. Pode haver várias funções: simulação. O promotor é remunerado através da renda. no entanto. por analogia. O limite é o das normas imperativas. No caso do porteiro isso é evidente. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. Aqui. tal como o da vontade das partes. gestão do centro. acabavam os centros comerciais.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. o arrendamento tem muitas normas imperativas. é também acompanhado de distribuição. Pode. A seguir temos de resolver com analogia. Se ele corresponder ao tipo x. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. aplica-se o regime do tipo x. a quem entrega os bens. Mas isso é raro. publicidade. para que os distribua. segurança. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. se na lei houver solução. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. 35 . P. e também com a agência. mas os serviços que o centro proporciona. mas o contrato é usado para uma função diferente. Hoje. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). Mas não é normal. é esse que se aplica. Quando nada se diz. Há semelhança entre a agência e a concessão. a solução também foi a da analogia. então celebra-se o y). a outra também. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. nomeia concessionários. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). 4. Quando há lacuna contratual. O que é específico é a marca. o combinado e o híbrido. Em Portugal. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. a primeira solução é a da vontade das partes. ex. Regra geral.2. Se não for suficiente. é uma área vinculística. É contrato de agência que foi encontrado. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. Recorre-se ao regime da agência. aplicam-se as regras desse tipo. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. sem intenção de enganar). bem como sinergia do ponto de vista económico. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor.

Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. São óbices consideráveis. M. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. a fidúcia é muito violenta para o devedor. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. não permite divisão da coisa entregue. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. aplica-se o regime correspondente. o fiduciário.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. No Direito português. Se ela tem natureza real. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. já que o Direito existe para proteger os fracos. O fiduciário é de execução prolongada. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. Se for à falência. interna e alternada. se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. Descobrindo-o. Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). Quem recebia a coisa com fidutia. Mas o Prof. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados. 36 . era o proprietário da coisa. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. O fiduciante é só entre outros. porque doações de bens futuros não são permitidas. mas para o de terceiro. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. ao contrário do alemão. Mas. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. Ele é permitido se não violar regras imperativas.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia. Procura-se o centro de gravidade. na contratação alternada valia ou um ou o outro. O fiduciário é proprietário. teremos uma figura real não prevista na lei. em benefício de quem a entregava. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida.

No Direito português tem grande importância. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. A promessa por escrito era válida na hora. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. de tipo não processual. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). rege nos contratos mistos. É uma ideia relativamente recente. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. O contrato prometido e o contrato definitivo. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. A celebração de uma escritura pública demora tempo. dependentes e independentes. homogéneos e heterogéneos. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. 442º. de tipo processual.. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. causais. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. Importou do BGB a execução específica. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. execução específica). para o sinal. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. A figura da absorção. Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). O Código de Seabra veio consagra um regime diferente. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. Mas nunca é irrelevante. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. há centros de gravidade múltiplos. Hodiernamente. sem recorrer à escritura pública. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. 830º. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. tem eficácia real. Há muita jurisprudência sobre isto. sendo diferente o regime.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). por exemplo. a promessa valia apenas como prestação de facto. Segundo o Código de 1867. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. 37 . devia ser celebrado por escrito.

Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. P. É um formato. O contrato-promessa distingue-se da proposta. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”. acabamento da coisa. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. é possível a execução específica no caso de incumprimento. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida.. Como no Direito alemão. mitigada. por vezes. do exercício de preferência. ex. É usado. tendo isso em conta. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa. 5. do dever legal de contratar. do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. Desformalização. Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. 1. do convite a contratar (A solicita a B que contrate). dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo).As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. desformalização. É a função preparatória. ex. Meramente obrigacional. não podem ser objecto de promessa. p. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. 3. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. na promessa tem de haver negociação). um modus vivendi. para preparar o contrato definitivo. Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. 4. do contrato preparatório material. Função preliminar. 2. um modo geral de celebrar outros contratos. Por vezes. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. transacção meramente obrigacional. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. financiamento. etc. Há contratos que. Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa. Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). os contratos são dotados de prometibilidade forte. Regulativa autónoma. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. Regra geral. regulativa autónoma. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro.). uma vez prometido. 38 . sobre a entrega. na promessa sabe-se). Mitigada ou mitigadora. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. Quanto à prometibilidade fraca.

até é possível haver excepções ao que se disse. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. Não se trata de um contrato-promessa.. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa.) que conduz à possibilidade de revogação. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. a proposta ainda não foi feita.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. Isso não vem na lei.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. etc. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. etc. tendo em conta o regime. proximidade. às consequências pela ingratidão. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. mas que tinha um regime especial. Mas.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa. e o outro não cumprir. se não houve entrega da coisa. como executo? Os clássicos diziam que não era possível. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. O problema é que. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. a obrigar a algo que poderia revogar. Isso não é correcto. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. É verdade que existe um regime jurídico. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. Não vincula o promitente a doar. O nome é parecido. mas ineficaz quanto às prestações principais. No contrato-promessa. o que está em causa não é a regulação de um contrato. também não há uma regra expressa que o diga. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. 39 . à partida. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. do 1591º e SS. Com o não cumprimento. O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. mas a situação subjacente é diferente. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. imperativo. É um contrato à parte. Pode fazê-lo. estão nos antípodas. diferente do regime do contrato-promessa. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º. Não há contrato-promessa de doação.

o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. Na normalidade dos casos. o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. A questão das assinaturas é meramente formal. ainda que não tenham as duas assinaturas. Se for livre também o contrato-promessa é livre.Hoje em dia. outros a conversão. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. é a solução. Mas isso é errado. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. não se entende porque só um assina. A conversão. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. tendo enorme relevância. O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. Uns defendem a redução. O 410º/2 regula a forma. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. em regra o promitente alienante. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. é preciso o acordo de ambas). Na prática. MENEZES CORDEIRO em princípio. Estipulações acessórias são válidas. Não haveria problema de prova nem dúvidas. não se precisa é de assinar. autêntico ou particular. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. aplica-se a regra geral. Para o prof. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. para ser quantos se obrigam. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. Assim. o regime é o do 219º liberdade de forma. 40 . Se para o prometido for necessário documento. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. Por isso. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). Se o documento é a materialização do acordo. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. nos termos do 293º.

este deve adquiri-la. ficando com um contrato-promessa monovinculante. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. Há. Nestes casos. de invalidade mista. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. Este princípio. por sua razão de ser. Obedece a normas: os princípios da correspondência. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. Se a promessa for monovinculante. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. se nada disserem. a se. no 3. p.Mas não é fundamentalista. MC sugere a ideia de modus contrahendo. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. Neste momento. Surgiu na década de 1980. em certos casos. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. havendo grandes atropelos ao direito. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. A parte geral também tem regras. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). concretização e boa fé. integralidade. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. Havendo contrato-promessa. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. possa reduzir-se o negócio. Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. 41 . Pode ser paralisada através do abuso de direito. também. Admite que. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. com excepção das relativas à forma e as disposições que. ex. o regime é o da reforma de 1986. Trata-se.

Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º.). a lei prevê a interpelação admonitória. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo. prazo. não foi. Se isto não for possível. O definitivo está previsto no contrato-promessa. se o contrato-promessa permitir. etc. Incumprimento há quando. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). se não for cumprido. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º). lugar. que resolvem inovar. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. há inadimplemento. Se houver situação de mora. 42 . o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. Muitas vezes há AA. violação positiva do contrato. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss. Isto é uma trapalhada. se for cumprido. e se não cumprir passa a incumprimento definitivo.). alterando as palavras. mantendo-se o contrato-promessa. devolve-se em dobro. imputação. inclui-se a coisa no cumprimento. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé.. O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. uma via crucis. Pode haver recusa antecipada a cumprir. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. o faltoso é o que não cumpre. se forem válidas e eficazes. declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. O incumprimento extingue a prestação principal. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. O promitente fiel é o que é prejudicado. violação de deveres acessórios. Ou há mora. Pode acontecer que seja lacunar. impossibilidade superveniente. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. Se não houver. local. À partida. etc. pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). MC entende que isso não pode ficar assim. Legitimidade. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. aplica-se o 280º. Pode haver uma impossibilidade superveniente. pode haver resolução.

O Governo resolveu intervir. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980). Assim. que chegava aos 20. o sinal ganha coloração particular. Tem um direito de liquidação judicial. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. Quando metido no contrato-promessa. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. Assim. no entanto. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. mexeu no regime do sinal. 43 . A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. A jurisprudência. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. Houve várias propostas para resolver a situação. Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. penal. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. com a inflação. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. vender a coisa e recolher o preço. Tornava-se compensador não cumprir. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). começou a resolver o problema diferentemente. os sinais deixavam de valer tanto. O que estava em causa eram casas de habitação.No Direito grego antigo. mas o valor actual da coisa. o sinal tinha alcance coercivo. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal.  Quando há tradição da coisa prometida. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. Quando mexeu no 442º. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. ajudava a provar a existência do contrato. O retentor pode. se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. Em 1980 havia grande inflação. se houve incumprimento. recebiam-se sinais. a indemnização já não é o sinal em dobro. na fase executiva. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. 30%. Afastouse a possibilidade de execução específica. No Direito romano tinha um sentido confirmatório. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. O problema viria a ser resolvido em 1986. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. celebrando-se contratos-promessas. Enganou-se e mexeu em tudo. O imobiliário estava sempre a subir. faziam-se casas. A ideia era: como a inflação é muito alta. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas.

mesmo que anteriormente registada. Além disso. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. a primeira consequência é entrar em mora (805º). não há logo incumprimento definitivo. a indemnização seria o valor actualizado da coisa. fixa-se um novo prazo. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. ficou consagrada a indemnização pelo valo. Lobo Xavier. O hipotecário ver-se-ia preterido. É um esquema complicado. Assim. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. introduzir correcções. Assim. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. Tentou-se limar algumas arestas. ainda assim. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. não sendo necessária a interpelação admonitória. a favor do promitente adquirente traditário.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. Tendo havido mora. Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. com a solução do Prof. Se houver sinal. Tentou-se. Vários AA. A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. Em 1986 o legislador interveio novamente. doutrinariamente. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. é mais selectivo.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. congelando o direito ao valor da coisa. Houve excessos legislativos. exige mais garantias. Se houver mora. O Prof. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. É uma “excepção de cumprimento”. Se houver morar. pela interpretação). 44 . MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção. ele é deduzido do preço. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. Todavia. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. perderam a objectividade.

Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. Tradição da coisa Tecnicamente. se há sinal. no entanto. Se é esse o sentido da cláusula. deve ser tomado seriamente. destrói o contrato retroactivamente. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. A distinção é importante. Alguns autores dizem que. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. desaparece também o sinal. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. quando haja incumprimento. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. Pode ser uma gentileza mais demorada. porque tem uma cláusula daquelas. Se for um representante. Assim. tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. A menos que. Um contrato de comodato. bem entendido. Neste momento. O que é que as partes pretenderam? 1. a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. É uma posse muito elementar. O Prof. Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. operando o sinal. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. 3. 2. 45 . quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. É celebrado contrato-promessa. É um contrato que dá direitos muito precários. É verdade. O sinal visa uma função compensatória. É posse semelhante à do arrendatário. O contrato-promessa já é um contrato misto. a troco da entrega da casa. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. não há posse. A resolução. Se for possuidor tem defesas possessórias.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. Se resolve o contrato por incumprimento. o que deve fazer é resolver o contrato. No Direito funciona-se com prazos. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa.

Assim. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. Consoante o tipo de posse. também. é muito difícil determinar a indemnização. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. Se houve. já vinha de trás. Se há excepção do cumprimento. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. Em 1980 o regime foi alterado. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. 46 . O interessado pode ainda optar pela execução específica. por maioria de razão também há sinal comum. pelo que há entrega da coisa. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. Passa até à frente do credor pignoratício. A solução mais normal é a execução específica. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. Já está tudo pago. A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. Foi uma ideia prussiana. Assim. seria impossível apresentar-se a cumprir. para além da tradição. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. houver sinal. Quando se trata de acções humanas. Se de facto houve perda do interesse. Se tivesse havido incumprimento definitivo. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). através dos seus meios. soluções alternativas à indemnização. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. Aqui temos posse em termos de propriedade. Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes.4. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. colocando no terreno. muda o regime. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. mas não especificou. Estamos perante um facto. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. Leva ao mesmo. Contudo. dir-se-á que não podemos obrigar. houve incumprimento. Mas isso já estava subentendido. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A).

Perante o incumprimento. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. em 1980 o legislador foi desastrado. no momento em que é decretada a execução específica. Não valerá a pena recorrer à execução. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. as custas ficaram por sua conta. p. O Prof. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. já que a prestação se tornou impossível. 47 . o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). Nos outros a questão não se colocava. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. Os riscos são compensados pela presença do tribunal. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. Simplesmente. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. O tribunal não emite. verdadeiramente. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica. Aí. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. mas vende a C. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. a declaração faltosa. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. Conquanto que o conteúdo seja determinável. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. Haverá consequências indemnizatórias. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. contudo. é muito difícil calcular a indemnização.Houve soluções doutrinárias. ex. Simplesmente. Contudo.  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. Mas nem sempre. a mera alienação a terceiro não impossibilitou.

O comodato pode cessar a qualquer altura. E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. Tem de haver ponderação de interesses. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. já não é de todo possível a execução. tão pouco. comodato). Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. Mas. o 830/1 admite a possibilidade. Contudo.  A exclusão convencional. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. demissão). 48 . in fine). O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. Igualmente. se verifique uma alteração das circunstâncias. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. não se iria muito longe (despedimento. Mas aí não cabe execução específica. MC entende que sim. Mas a lei admite mandato irrevogável. Não faria sentido a execução de um contrato que. Contudo. Se houver situação de inexistência. poderia ser revogado. Aí já faz sentido. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias. por sua natureza. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. Todavia. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. No caso do contrato de trabalho. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. pode acontecer que. mesmo que houvesse. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. Quando seja celebrado um contrato-promessa. ex. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. depois. Não pode haver execução de contrato que não existe. Nessa altura. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. Já no penhor ou no mútuo faz sentido.) também não pode haver execução. p. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. Quando nem sequer há prometibilidade (doação.

Se não for cumprido. vendendo a terceiro. O Prof. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. 49 . Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. alguns entendem que cabe execução específica. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo. execução específica. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. Vaz Serra. Promove logo a transmissão da propriedade. convenção expressa de atribuição de eficácia real. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. mas contra o terceiro (Dias Marques). Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. A outra parte pode não ter sido paga. que a foi buscar ao Direito alemão. escritura pública. não é norma de excepção. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. Assim. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. Através da eficácia real conseguir-se-ia. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo. registo da promessa. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. qual a solução? Normalmente.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias.  Há execução específica. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. ficando privada do preço. O que está em causa é que o dever seja cumprido. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade. outros recusam essa solução. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido.Depósito do preço A sentença é translativa. a lei alemã permite um pré-registo. reforçando-se o registo.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. Ora. Deixou de se exigir a escritura. Se o preço não for pago há injustiça.

a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. uma vez concluída. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. uma vez que dela nada sai de preexistente. Mau grado a primazia reguladora da promessa. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. em relação ao definitivo. à negação da própria promessa. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. na promessa. com o contrato definitivo. no fundo. Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. a contratar. a celebração das promessas. a execução específica não é puramente executiva. apenas. De seguida. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. em função dele. um acto de execução do que já estaria combinado. Justamente por. A lei proíbe. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. tão-pouco é declarativa.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. 50 . o contrato definitivo não perde em categoria. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. como contrato autónoma. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. em definitivo. tão-só. ainda que devido e pré-regulamentado. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. o que esteja em causa. levar ao apagamento do definitivo. as partes obrigam-se. de facto. A primeira opção explicativa leva. Nos extremos. por vezes. no entanto. delimitando. pelo menos em parte. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). as partes regularem. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. continua a ser um verdadeiro contrato. Ao celebrar o contrato-promessa. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno.

essencialmente. A favor do senhorio (1112º/4). caso queira vender um prédio a alguém. o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente).O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. A favor do co-herdeiro (2130º). o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. A favor do comproprietário (1409º e 1410º). uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. antes. em Direito. ao preferente. De resto. 51 .  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). A favor do fundeiro (1535º). Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. O direito de preferência. perdendo a plena disposição do seu bem. O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. pelo artigo 1535º (1901º). Em regra. 1380º e 1381º). quando convencionalmente estabelecido. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. deve vendê-lo. isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. Por exemplo: o obrigado. com o qual o negócio fora ajustado. As preferências no sistema jurídico No Código Civil. pelo preço em causa. as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato. a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. tem. O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. Diz-se. um dia. A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). 1519º e 1523º). Da mesma forma. caso este queira. por χ. nesse sentido. A favor da pessoa designada em testamento (2235º). Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável.

a um direito real de aquisição. sejam. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele. a preferência real confere.  A opção – figura inominada e atípica. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais. nos termos do 414º. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real. não podendo o preferente fazer seu o negócio. observadas determinadas formalidades.  A preferência obrigacional.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. uma vez que a outra emite logo a declaração final. a real. tem cabimento recorrer à acção de preferência. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. Na segunda. apenas uma das partes fica obrigada. nesta última hipótese. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. através de uma acção de preferência (1410º/1). na opinião dominante. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização. As preferências convencionais são ora obrigacionais. relativo à acção da preferência. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau. uma indemnização. Na primeira. ainda e por elas. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita. ao preferente. permite ao preferente exigir. a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. todavia. quando violada. 52 . a preferência legal advém da lei. Modalidades. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). ora reais.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. consoante a opção das partes e isso desde que.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito. ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. violado o pacto. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. ao obrigado faltoso.

a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. perante o Direito vigente.  Porém.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. O modus praelationis. Pergunta-se se o terceiro que. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. à preferência. a menos que ambas as partes se vinculem. quando o contrato preferível exija documento. Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. E sendo este o caso. do princípio da equiparação. recebem os deveres. em regra. por ele. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. deve-se lidar com os deveres acessórios. desencadeando o funcionamento do pacto. daí resulta a aplicação. Tendo conhecimento do pacto de preferência. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. Todavia. de liberdade de forma. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). a ver com a concorrência: as condições são as mesmas.Forma O artigo 415º manda aplicar. próprio do contrato-promessa. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. o terceiro deve-se abster de contratar. Num pacto de preferência comum. como cláusula num pacto mais vasto. é afectado de algum modo. como a de fazer a competente comunicação. os ónus e os encargos envolvidos. se o pacto for bivinculante (bilateral). de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. eventualmente. próprias do contrato preferível. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. Bastaria a assinatura deste. das regras aplicáveis à capacidade. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. ao pacto de preferência. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). Bastará a assinatura do obrigado à preferência. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. o artigo 410º/2. 53 . mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. ao pacto de preferência. de acordo com as regras gerais (219º). podendo. quer autêntico quer particular. Propõe-se a aplicação. a essa luz. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. por parte de um terceiro. Com uma prevenção: numa situação de preferência. pretenda contratar com o obrigado à preferência. deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. de onde promanam deveres para ambas as partes. por definição.

 Ou o preferente rejeita. Finalmente. de pleno direito. por aplicação do 410º/2.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. exige-se forma escrita. ficando o contrato por celebrar. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir. se não o fizer. modificações ou reticencias. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que. quer particular. declarando que não está interessado. pelo menos. deixando o negócio para o terceiro que. se vem mesmo a concluir na esfera deste. quer autêntico. não o quer. o terceiro ficará com o negócio. com alterações. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). na presença de um projecto de contrato firme e sério. 54 . envolve. A comunicação não está sujeito. por lei expressa. Havendo vários preferentes. A não se verificarem tais requisitos. esta deve ser feita ao preferente. com poderes bastantes.  Ou renuncia à preferência. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. o contrato. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente. por opção do beneficiário. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada. isto é. com base nela. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. a renúncia. convicto de que.Na posse dessa proposta. Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. na mesma linha. pelo menos. por parte do preferente. já que o terceiro não celebraria tal contrato. É o que dispõe o artigo 416º/1. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou. Havendo aceitação da comunicação de preferência. A “aceitação” da comunicação para preferência. afinal. uma de duas:  Ou o preferente prefere. e estará enganado. ao seu direito. a comunicação para preferência deve ser feita a todos. o represente.  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. A resposta do preferente. perfila-se o contrato definitivo.

A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. o que terá que provar. não o sendo.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. o contrato será seguramente único. Não o sendo. dependendo das circunstâncias. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba. sem prejuízo para o interessado. A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. Prestação acessória. pode. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. no nosso Direito da compra e venda. As valorações subjacentes ao artigo 417º.  Não sendo avaliável em dinheiro. quando se reporte a uma universalidade. 55 . que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. apontam. nenhum princípio de especialidade. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa. 1ª parte). procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva. é excluída da preferência. Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. podem umas e outros ser desagregados. Observar-se-á. ou não. Existem três possibilidades básicas. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. recebida a comunicação. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto. o preferente desiste ou prefere em conjunto. De todo o modo. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos. divisível?  E não sendo divisível. ou não. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. então. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro.

Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. os restantes: não havendo processo de escolha. A prestação principal é. fazer seu o negócio faltoso. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles. em caso de violação de uma preferência real. a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”. com o preferente. A acção de preferência permite ao preferente. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. Em termos de comunicação: ela deve ser feita. ao preço e à identidade do requerente. A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele. sempre. seguramente. A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. com isso.  Concluir o contrato em causa.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. desde que este as acompanhe. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. sem seguir o procedimento da preferência. Segundo o artigo 1410º/1. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. Havendo eficácia real. a todos os preferentes.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes. afastando.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. 1ª parte). Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. Verificados os pressupostos. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. abre-se licitação. esta última: trata-se de um facere jurídico. em termos de aquisição. 56 . feito no artigo 410º/2. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. nas condições fixadas.

ele recebe o direito potestativo de. só será válida e eficaz se. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. declarações de ambas as partes. directamente ou por analogia. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). por uma simples manifestação da sua vontade. o artigo 411º: o vinculado pede. que fixe um prazo razoável para o seu exercício. provocar o aparecimento do contrato definitivo.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa. a opção cessa. A opção. o titular ou o optante) recebe o direito de. tendentes à conformação do contrato definitivo. dá azo ao contrato definitivo.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. Aplicam-se aqui. da posição de contratante e do valor que ela representa. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. só deverá ter lugar se uma das partes quiser. que exigirá. por ambas as partes. Direito e deveres. no cumprimento. Haverá que aplicar. todavia.  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”. esta não depende da intervenção da parte vinculada. por analogia. do definitivo. Logo. aqui. o qual. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. execução e incumprimento No que toca ao optante. 57 . a celebração.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. na opção basta a declaração do beneficiário. na execução. perante o concreto contrato definitivo em causa. por mera declaração unilateral. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. ao tribunal. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. excepto no que tanja ao cumprimento deste. um verdadeiro contrato-promessa. na opção. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. na conclusão.  Quanto à execução. ora. passando a integrar o definitivo.

pode facturar o premio da opção. Como princípio geral. as partes congelam as condições da venda. o artigo 762º/2 e. perante a outra (promissário). respectivamente. directamente. Actuada a opção. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. no memento escolhido. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. a cargo. por via dos artigo 295º e 221º/2. por seu turno. No plano do seu conteúdo. no mercado. que exercerá o seu direito se o entender. do definitivo. Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). do optante e do adstrito. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. Ainda o mesmo optante pode colocar.O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. uma das partes (o promitente) assume. designadamente para a parte optante. O obrigado. Assim. com relevo para o pagamento do preço da opção. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. 58 . Ambas as partes ficam . o artigo 272º: na pendência da opção.todavia. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. surge o contrato definitivo. a sua opção. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). natureza e aplicações Celebrando uma opção. entre outros aspectos. Funções. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. O risco desaparece. partes no contrato. dando-a em garantia ou alienando-a. há que lhe aplicar. O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. a qual adquire um direito à prestação. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). por analogia. o qual deve ser cumprido. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição.

do promitente. a efectivação da promessa ao terceiro. por exigência deste e do promissário. nessa altura. fundamentalmente. devam ser trocadas entre os mesmos. o direito à prestação: independentemente da aceitação. Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte. A posição do promitente. a prestação principal O promitente tem. a contrario e 448º/1.A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. porventura. ao promitente. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. pelo contrato a seu favor. excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). porventura. contratos como o casamento ou a doação. se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). especificamente. A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal.  A de exigir. A posição do terceiro O terceiro adquire. Tal permite excluir. deste cerne. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. 1ª parte).  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem. as prestações ou outras vantagens que. A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. de forma geral.  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. do promitente. As prestações que. a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1).  A de exigir. pelo contrário. a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. quando esse seja o conteúdo da promessa. lhe possam advir da relação básica (405º). O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. O terceiro adquire o direito à prestação. 59 . Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). imediatamente. O regime concreto de tais prestações. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. perante o terceiro.

Amicus: o terceiro. O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. Eligendus: o terceiro.  O terceiro. a contrario). quando se desempenhe perante o terceiro. pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. instável. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1.Perante um contrato a favor de terceiro. antes dela. nada fazer. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. sobre si. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. não tem. Na linguagem desde subsector. ao abrigo das regras gerais (217º). Num primeiro tempo. 60 . Esta apenas consolida um contrato que. Pode-se. admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. pode desinteressar-se dela ou. Electio ou electio amici: a escolha. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. logo. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. falsificar a conduta a que se encontra adstrito. de lealdade e de informação. Desde modo. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. por não ser o destinatário da prestação acordada. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. antes de ter ocorrido a sua nomeação. O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. a fiscalização da contraparte. porém. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação.  O promissário. através da regra da boa fé (762º/2). a contrario e fortiori). ainda. pode ser menos diligente ou até. desconhece os precisos termos envolvidos. de adesão. não sendo parte do contrato. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. no limite. o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou.  Torna a promessa firme (446º/1. por não ter sido celebrado com o terceiro é.

Embora a lei não o diga. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. tal como sucede com a ratificação (262º/2). inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. não reunindo as características perfeitas do contrato. Como tratá-las? Com o tempo. Concluído o contrato para pessoa a nomear. As fontes paracontratuais Ao longo da História. concordância do amicus e electio. dele se aproximavam. altura em que o contrato ficará sem efeito. produz efeitos em relação ao contraente originário. seja em termos técnicos. Ele implica. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). quando superior (454º/2). A electio tem. a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. num todo coerente. Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira). ao outro contraente. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes.Regime.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. eficácia retroactiva. A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. Feita regularmente e comunicada a designação. Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios. seja em moldes sócio culturais. Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato. a cláusula “pessoa a nomear”. 61 . em princípio. pois. Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. do próprio contrato que a contenha. que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. foram surgindo figuras que.  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. o negócio consolida-se na esfera do stipulans.

A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual. seja na formação. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas.  As relações contratuais sem contrato. na sua origem. tivesse ocorrido qualquer contrato. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social. no espaço jurídico. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. com ele. seja nos preliminares. de lealdade e de informação. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que. derivada do facto simples de um contacto social. ser reconduzidas ao contrato mas que. Relações paracontratuais em especial 1. Sublinha-se que. sem integrar previsões contratuais. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos. através de meros comportamentos materiais. pelo menos. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual. o contrato. no tráfego moderno de massas. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais.  Situações de relações jurídicas complexas. 62 . em termos rigorosos. execução de relações duradouras. chega-se. depois.  Situações de proximidade contratual. postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. uma parte razoável do seu regime. esta relação fundir-se-ia nele. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1).É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. muitas vezes. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique. Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. para certos fins. isolam-se:  As relações contratuais de facto. Surgindo. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais.  Inserção em organizações comunitárias.  Os contratos com protecção de terceiros.

em face de um contrato:  Alguém que. O contrato é anulado. Em termos analíticos. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. O contrato é resolvido. Há impossibilidade inicial da prestação. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. que veicula os valores fundamentais do sistema. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. 2. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. ainda que insubsistente. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. 63 . a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. o círculo interior. O círculo interior. pelas partes. tenha uma proximidade visível. De novo há um círculo exterior. nele. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. e existe. não seja parte. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. nas protecções dispensadas. o Direito manda proteger. no contrato considerado. revogado ou denunciado. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. por estar vulnerabilizada. Surge uma impossibilidade superveniente. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. A “fonte”. promane deveres acessórios (de segurança. Havendo proximidade. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. Também está claro e assente que.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. por qualquer razão. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. igualmente. 3. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. independentemente de qualquer especial vontade. ainda. perante a prestação principal e em face do credor. que se reporta aos bens postos em jogo. no caso de violação. para terceiros. Com as devidas adaptações. Em termos gerais. mercê dos contratos preliminares.

O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. fique adstrito a realizar uma prestação. uma regra de tipicidade. ser globalmente denominado culpa post factum finitum. por sua livre e exclusiva vontade. aparentemente. mas noutros locais. ainda se poderiam manter determinados deveres. Antes de fundam na lei. 5. como um simples facto stricto sensu. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. aplicar. O negócio unilateral implica que alguém. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes. São os deveres pós-eficazes. 4. o que (ainda) não têm e subscreverem. as normas típicas. dando origem. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. nesse sentido nuclear.  A proibição de. “negócio” engloba. cessado o contrato.Tecnicamente. de lealdade e de informação.  Os perigos da adstrição ad nutum. o inerente instituto. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. aqui. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. De facto. ad nutum. obrigações que (só) irão pensar depois. que explique os deveres resultantes. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. fora de série. Mas têm moldagem contratual.  Um numerus clausus de realidades relevantes. uma vez que ele não é partes. podendo. quando violados. perante eles. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. com ligeireza. com facilidade. operando o contrato. em termos jurídico-positivos. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. No que se lhe reporta. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se. no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. 64 . de obrigações futuras. Em rigor. a responsabilidade obrigacional. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. tais deveres não têm origem contratual. por analogia. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. O artigo 457º proclama. o proprio acto unilateral (457º-463º). para as partes.

proclamada no artigo 457º. devidas. também aqui. deve imperar. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. ainda. No que tange ao autor do acto. Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. limitada à inversão do ónus da prova. com a promessa pública como modelo. pois. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. quanto à existência de adequada fonte das mesmas.Mantém-se. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). já antiga. Deve-se ter também em conta os terceiros que. pelo princípio da causalidade. Em bom rigor. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. a primazia da materialidade subjacente que. para além da concreta eficácia suscitada.  Fonte essa cuja existência se presume. pode-se admitir tipos abertos. de resto. de que. Do testamento. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. sobretudo quando interessados. numa segunda vertente. A regra não origina nenhuma obrigação nova. Do anúncio público (225º). até prova em contrário (pelo devedor). distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. Assim:      Da proposta de contrato. sem indicação da sua fonte. 65 . Dogmática geral O negócio unilateral. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. deve sublinhar-se. a afirmação. Os negócios unilaterais distinguem-se. igualmente por via da boa fé. De contratos com apenas uma assinatura. existe aqui. Da oferta ao público (230º/3). anteriormente. cabe salientar a confiança que. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. Negócios unilaterais em especial 1. no Direito português. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. isto é. que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. ainda. a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. Quanto muito. passando pela tradição de uma coisa. a tipicidade dos negócios unilaterais. fica o credor dispensado de a exibir. é aparente. por força de qualquer outra fonte. Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa.

tendo prazo. acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. ele extinga. A justa causa será. naquela. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. ficando. pelo cumprimento.     Até que expire o prazo nela fixado (460º). desde logo. que torne a promessa inexigível. Concurso público O artigo 463º. na sua falta. da oferta ao público (230º/3): nesta. apenas. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. Até que.2. antes dele. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. ainda. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. A situação distingue-se. Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. aqui. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º). a título de prémio. o concurso ficaria indefinidamente aberto. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. a sua obrigação. por justa causa (461º/1. muito claramente. exclusivamente. O público. às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. só nessa altura se constituindo. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). constituir o contrato. seja revogada (461º/1). surgindo alguém nas condições nela previstas. o promitente adstrito à sua efectivação. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. relativo a concursos púbicos.  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. 66 . pode. Até que. por anúncio público. deriva. seja revogada. o promitente fica obrigado:  Até que. não tendo prazo. da indeterminação do destinatário. in fine). perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). Feita a promessa. objectiva ou subjectivamente. propriamente obrigado. constitui uma especial modalidade de promessa pública. pela aceitação. um motivo atendível. fica vinculado desde logo à promessa”. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. aqui. 3.

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