Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

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Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

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 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

prescrição. 863º. Causalidade Significa que. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. a obrigação não subsiste. p. 994º). vários artigos em que podemos detectar esta orientação. É um código típico do início do séc.Existem. por regra. O Direito das Obrigações é super estável. para não darem o que não têm. A validade de um cheque. que nascem de uma determinada fonte. Não se quer que as pessoas. regras. todavia. doutrina. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. 809º. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. XIX. nesse caso. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos.. A responsabilidade civil é fechada. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. não depende da sua fonte – o negócio jurídico. renunciem aos seus direitos. 812º. analítica. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade. (448º. A codificação da boa-fé. 942º. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. defesa do consumidor). 2. que merecem reforma em Portugal. O legislador optou por emitir leis avulsas. Mas há zonas periféricas. 4. No entanto. Romano-germânico Sistema centrado no BGB. antes de terem as coisas. ex. 947º. A responsabilidade civil é ampla. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. O Direito das Obrigações alemão é líder. transposição de directivas comunitárias. É muito difícil mexer nele. O BGB é de 1900. é abstracto. A causalidade contrapõe-se à abstracção. É muito elegante linguística e estilisticamente. no Código Civil. baseada num conceito vago. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. Foi muito pouco mexido. Protegem-se as pessoas contra si próprias. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. O BGB. O Direito civil é muito estável. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. as obrigações. 4 . Se a fonte for inválida. Resulta do movimento da pandectística. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. daí tal importância. 457º.

na China não aconteceu isso. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. Mas tem uma organização e conceptualização originais. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. O Código de Seabra é. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. sendo revigorados os já conhecidos. sequer. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes.3. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. surgem institutos até então desconhecidos. canónica. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. mantiveram-se em vigor as Ordenações. islâmica. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. não havendo negócio jurídico separado dos contratos. há um período de pré-codificação. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. 4. Anglo-saxónico É um mundo à parte. Além da redistribuição germânica das matérias. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. O Código não é de inspiração alemã. muito avançado. XIX. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. 5 . Este sistema não é codificado. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. Antes da aprovação do Código de Seabra. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. Mas foi uma novidade científica que vingou. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. No Brasil. 5. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. a partir de 1911. no entanto. Naturalmente. Mas. Há união entre religião e Estado. entre os conceitos desta família e os das anteriores. Chinês É muito antigo. sendo uma enorme influência. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. Não há correspondência. Há pouca influência romana. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. tal como a cultura chinesa. O Direito português é aberto ao exterior. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado.

Todavia. marcaram as primeiras reconstruções do CC. Antes da entrega de Macau. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. O Código de 1966 vigora actualmente. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. tendo-os traduzido para chinês. mas havia a barreira linguística. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. sendo substituída pelo inglês. Com a independência. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. Houve. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. O Prof. Em Cabo Verde. voltou a vigorar o Direito português. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. 6 . Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. verificou-se a invasão indonésia em 1975. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. mas começa a ser preparado no pósguerra. vigora também o código de 1966. O CC de 1916 tem já influência germânica. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. houve maior inteligência política. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. XIX. Ele é de 1966. logo em meados de oitocentos. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. numa segunda fase. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. ainda em meados do séc. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. Na Guiné. numa primeira fase. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. Em Macau.No Brasil Na doutrina brasileira. Em África Em Angola. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. como membro da OEA. foi aprovado um Código Comercial novo. Tem influência germânica e do Código de 1966. com algumas alterações após a independência. Há algum atraso na sua aprovação. Em Moçambique. O Código brasileiro aparece só em 1916. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. O português era a segunda língua. depois da aprovação. um período de exegese. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. Foi necessário recomeçar. As revisões ministeriais do Prof. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. quando ocorreu a ocupação. Em Timor. mas já havia recepção do pandectismo. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. com Teixeira de Freitas.

ex. de Common Law. Mas na área do Direito não é assim. Brasil. Coreia do Sul. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. provêm de regulamento. evolução histórica. um pequeno país na Europa. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. Nas obrigações. não havendo confusão com os sistemas da pandectística. Há as directrizes e os regulamentos. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono. francês e alemão. que é do final de Oitocentos). O Prof. As regras sobre a moeda única. que suportou a nossa independência. etc. Em termos planetários. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão).. predomina o inglês.O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. Mais tarde. é diferente. A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. Japão. hoje. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. Somos. Se não o fizerem. até. Mas havia uma grande projecção ultramarina. ganha pelo mérito. Assiste-se à implantação (Portugal. foi do Direito alemão. uma enorme barreira linguística. É um Direito que tem uma evolução histórica. a grande influência. na área dos negócios e nas relações entre povos. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. mesmo quando escritos em inglês. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. quantidade de falantes da língua. estão em causa relação inter-pessoais. Quanto a autonomia doutrinária. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. 7 . A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. entre interpretação e integração. Ciência do Direito. p. De um modo geral. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. O caso português é singular.) de sistemas próximos do germânico. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. Há. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial. Há 23 línguas oficiais na Europa. O Direito lusófono não tem só essa influência. Turquia. também com as operacionais: inglês. No Direito francês há distinção. não são de common law. língua. ao contrário do que acontece no Direito português. Cumpre saber que língua é utilizada. Todavia. a directriz não vigora. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães.

A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. O direito subjectivo. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. como a falta de competência dos órgãos europeus. era o poder da vontade. Antigamente. dada a insuficiência da língua inglesa. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. juristas portugueses. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. há muitos constrangimentos. No plano oficial. havia um Direito europeu das obrigações. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. e não a totalidade. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. mas com exagero. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. há 500 milhões de pessoas. Se A tem direito. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. No espaço europeu. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo).No tempo do ius commune. a vantagem é o bem que será prestado. O melhor Direito é o interno. Para o Prof. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. Não teve consequências. MENEZES CORDEIRO. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. Fala de um bem a prestar. Nós. O Prof. nem uma política externa comum. havia um domínio de alguém sobre outrem. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. 8 . intra muros. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. ele começa a desaparecer. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. quando existia obrigação. para SAVIGNY. não há um Governo europeu. forçar a vontade humana. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. Esta noção presta-se a críticas.

Pode haver obrigações sem prestação. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). extingue-se a haftung. todavia. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. A ideia remonta ao antigo Direito romano. assentes apenas em deveres acessórios. Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. já é um valer em si. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. independentemente de terem culpa). A obrigação não é apenas um bem a prestar. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. Em regra. pode-se atingir o seu património. mas o seu património. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. pelo que é excepção o recurso ao património. 9 . Pode ser um facere ou um non facere. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). Primeiro. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. Os romanistas diziam que não havia. Na prescrição. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. surgiu a respondência. Depois. Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. obrigações. Assim. mas as suas obrigações permaneciam. Há. um direito ao património do devedor. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. Ela. Se o devedor não cumprir. sim. O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). No séc. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. independentemente de ser cumprida ou não. no início. surge a nova noção de obrigação. XIX. as obrigações são cumpridas.Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. o dever é sempre um constrangimento ético. As pessoas morriam. A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável.

deveres secundários e deveres acessórios. compreende um dever de prestar principal. com dois regimes). pode ainda não existir. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. O regime é solicitado para um tratamento unitário. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. a responsabilidade é patológica. Estas construções são úteis. A obrigação pressupõe um dever específico. noutros ainda. linguística. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. com o credor e vice-versa. Mas. Se são. A obrigação. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. outra concepção diz que há um direito real de garantia. colaboração. Se é assim. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. é o fiador que deve cumprir. A prestação pode não existir. em termos pragmáticos. não interessam. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. A obrigação continua a ter unidade – desde logo.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. só. sabe-se hoje. tratado mais à frente. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. pelo que obrigação não é uma prestação. não podendo servir para construir. pode haver nulidade. O credor fica adstrito a deveres de segurança. A obrigação do fiador é secundária. por si só.. não tendo interesse para o Direito nesse caso. O BGB já não exige natureza patrimonial. Se não são. Se o devedor principal não cumprir. um conceito de obrigação. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. noutros. 10 . terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. Em certos casos. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. etc. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são.

11 . pode haver responsabilidade pela deferência. o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. 2ª parte remete para o interesse. O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. de sistema. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. O 397º define obrigação. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. há sanções pecuniárias compulsórias. Pode haver execução específica. compensação – e não de equivalência. será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. mas pode receber dinheiro. As relações de obsequiosidade não são. não necessariamente em todas as situações. tem conteúdo económico. Hoje isso não é assim. o 398/2. Direito. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). Tudo pode ser avaliado em dinheiro. Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. ela é avaliável em dinheiro. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. É assim ao nível global. acção directa. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. Como são ressarcíveis. boa educação) que não relevam para o direito. Não tem de haver natureza patrimonial (398º). Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. há ressarcibilidade dos danos morais. à partida. Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. mas havendo danos.Se um artista se obriga a entoar uma ária.

No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). Os acordos de cavalheiros são relevantes. o direito real é uma situação absoluta. Podem fazê-lo? Em princípio. Esta noção vale o que vale. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. Nas obrigações. que são absolutos? Em termos estruturais. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. Os direitos potestativos são absolutos. por exemplo). Quanto aos acordos de cavalheiros. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. contrapondo-se aos direitos reais. não. A convida B para dançar. relações de vizinhança. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. encontramos sempre uma dança a dois. 12 . Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. no caso dos direitos reais). A obrigação é uma relação jurídica. Uma última. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. mas não se pode retirar daí uma regra. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. Em obrigações. Noutra acepção. Os créditos não são sempre relativos. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. Assim. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). erga omnes. há créditos absolutos. o credor aproveita imediatamente a coisa. seria sempre necessária a mediação. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. o que tem de surgir é o serviço. Se a prestação for um serviço. a relatividade existe quando há relação jurídica.Há também deveres de protecção. absoluta. mas não se pode esfarrapar o par de dança. Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. há figuras como a execução específica. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. nos direitos pessoais de gozo. Em direitos reais há só uma. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). duas partes. são para cumprir – se não forem. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. Deve-se sempre perguntar qual a origem.

Mas inverteu-se a tendência. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. A regra é de que a eficácia é meramente interna. médio ou fraco. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão. É o que acontece com os chamados deveres de tráfego. PESSOA JORGE). dão lugar a responsabilidade civil. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. No início. A doutrina tem evoluído nesse domínio. p. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. a figura do terceiro cúmplice). Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. Deveres acessórios. com MANUEL DE ANDRADE. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. ex. 13 .A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. Havia uma quebra maliciosa do contrato. pode existir oponibilidade em sentido forte. se incumpridos.. Faz sentido que haja defesa contra terceiros. Se é assim. com os pactos de preferência. Se é assim. então há oponibilidade média. Na Alemanha diz-se que não. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. A eficácia interna é entre credor e devedor. dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. relações jurídicas. Há contratos com protecção de terceiros. em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. No sentido forte. As obrigações são vínculos. Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. A nossa jurisprudência acordou em 1964. Há uma acção. a externa é perante terceiros. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. Mas há também deveres no tráfego que. que se manifestam predominantemente perante o devedor. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). Mas há outras regras. o que lhes daria uma tutela relativa.

Isso justifica-se em ramos agressivos. Isso em princípio. Noutros casos é mesmo normativa. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. Há tipicidade exemplificativa.  Diz que está proibida a analogia. há responsabilidade. Quando existe uma previsão normativa. um terceiro faz-se passar por credor. Quando a lei recorre a descrição da realidade. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida. aplicam-se os artigos 798º e ss. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). proíbe autotutela.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. Outros dizem que só o devedor pode incumprir. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. Dá. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. recorre a tipos – tipicidade. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. descrevendo as condutas.  Diz que existe numerus clausus. O terceiro não pode. pois. há um numerus clausus – o número de factos é finito. não estão assim tão mal. diz-se. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. protecção jurídica. em princípio inatingíveis. Se ele for atingido. Está tudo ligado. Argumentos a favor. Num ramo típico. Quando existe um devedor. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. O legislador pode dar uma série de exemplos. 14 . é muito mais restrita. Só pode estatuir com recurso a tipos. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. os factos são descritos concretamente. como o penal ou o fiscal. Mas esses não se aplicam a terceiros. mas há várias vias para o conseguir. Se existe uma descrição típica das condutas. Contratar-se-ia menos. não havendo lacuna. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. O Direito objectivo. ao atribui direitos subjectivos. Todavia. as economias britânica e francesa. Se A contrata com B. países que admitem a figura.

O Direito comercial é outro ramo especial. Os direitos reais têm. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. por conjunções históricas. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. Autonomizou-se do Direito das obrigações. Mas existem muitas obrigações nessa área. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. Aí. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. também. o regime tem um desvio. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. Há. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). aqui. por via de condicionalismos históricos. Nas obrigações isso não existe. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. um princípio de tipicidade. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. É muito especial. em princípio. O conteúdo distingue-se do objecto. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta).Nos contratos há descrição abstracta. O mediato é também designado por objecto. 15 . Isto é o núcleo duro – há desvios. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. um direito e um dever. O conteúdo das obrigações é sempre. Há. ao contrário. tipicidade exemplificativa. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. ex. de facto. O contrato de trabalho é um contrato como os outros. tudo é parecido com o Direito das obrigações. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. Obrigações. etc. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. p. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. Há tipicidades de tipo científico. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece. obrigações naturais. Mas tem regras especiais. não há numerus clausus e pode haver lacunas. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. invariavelmente. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. direito a uma coisa corpórea. venire contra factum proprio. Há situações de direitos reais que.).

tendo em conta as circunstâncias do caso.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. Não se obrigam a resultados. as partes pretendem uma determinada conduta. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. A prestação principal é o núcleo da obrigação. Podemos. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. é um homem médio colocado no caso concreto. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece.) e a aquiliana (483º e ss. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. noutras pretendem o resultado. Todavia. Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado. A de dare consiste na entrega de uma coisa. Temos de saber o que é exigível. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra. De dare. Foi o critério escolhido pelo legislador. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. apenas de fazer tudo ao seu alcance. Uma prestação inclui necessariamente o esforço. tem culpa. 16 . De pati.: o médico não tem obrigação de curar. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. Por vezes. Ex. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento.). Seguem o regime da prestação principal. É o homem médio. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção. mas à prestação de um serviço com determinada diligência. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. Não se trata de um non facere. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. São instrumentais em relação a ela. São prestações que complementam a prestação principal. Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). por um esforço de análise. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. O devedor está obrigado à diligência média. Se se comportar abaixo da bitola. aquilo que for normal num homem médio. É o critério do bonus paterfamiliae. Só é exigível que se esforce até esse ponto.

etc. Os deveres acessórios são imprevisíveis. informação. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). mas há deveres acessórios pré-contratuais. só depois a indemnização. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as.  Círculo externo. A culpa in contrahendo. depois a reconstituição natural. Substancializam a obrigação. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. Está em causa o princípio da tutela da confiança. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. observando os deveres acessórios. é preciso cumprir de boa fé. possível. segurança. Não basta cumprir a obrigação. são soluções para problemas novos. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. 17 . O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. Como decorrem da boa fé. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida.O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem.. rerum sic stantibus. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. determinável. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. a obrigação é uma realidade muito complexa. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. O legislador quer primeiro cumprimento. A base legal é o 762/2. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia. tal como se não cumprir o dever acessório. nos deveres acessórios são ambos. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. contratuais e pós-contratuais. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. Podem ser deveres de lealdade. A indemnização é uma consequência de segunda linha. integração de lacunas.

Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples). etc. 5. p. 18 . transferência de propriedade. atípica resulta da autonomia privada.  Obrigação de abstenção (simples. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). uns relacionados. mas são regularmente utilizadas no sector. relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). ex. como concessão. 2. trata-se de obrigação complexa. Se sou obrigado a recorrer a perífrases. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer.). se consigo exprimir com uma única expressão é simples.). Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei. combinadas quando estejam associadas a direitos reais. 3. 4. porteiro. na relativa há. Absolutas.  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos. prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis. outros não. A regra é da fungibilidade. nas mistas há vários deveres. Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. Em princípio. Não é o mesmo que coisa fungível. Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1.Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. ambos). Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente.

ao contrário das obrigações comuns. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. sob pena de nulidade (280º). As questões sociais vieram pugnar por protecção. era instantânea. entre o agente e o principal há relação duradoura. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. e outras que se cumprem no tempo. É necessário. Há lacuna. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. Se fosse logo satisfeito. um pré-aviso. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. Não se extinguem com o cumprimento. E relações perpétuas. Obrigações duradouras Partimos da prestação. surge na periferia. em que havia obrigações perpétuas. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. 19 . A retribuição é a renda ou aluguer. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). claro está. Havendo agência. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. A denúncia. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. como reacção ao regime feudal. com dilação temporal juridicamente relevante. A denúncia seria um dos esquemas. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. também. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. O Prof. pelo menos. Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. O DL 178/86 trata da cessação da agência. 2. para tutela da confiança. O conteúdo tem de ser sempre.6. O Direito civil é um direito prático. mas pessoais. Tipos de obrigações 1. pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. Implica especialidade quanto à sua cessação. não obstante. Hoje. É um contrato em especial. forma de cessação de um contrato duradouro. o principal. determinável. se tiver poder de representação celebra também os negócios).

Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. Em 1985 tentou-se reformar. inícios do séc.No arrendamento domina a autonomia privada. Chegou-se a um regime vinculístico. Obrigação de deixar usar? Seria negativo. económicos. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. Quanto mais baixa a renda. surgiram fenómenos e problemas de natureza social. XIX. Surgem teorias mistas (entre nós. havendo transmissão da coisa arrendada. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos. centros das cidades abandonados. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. Se é assim. O 1743º do CC francês determina que. mas também não chegou a bom porto. Chegou-se a este panorama aos poucos. Nos finais do séc. Mas também não explica o que é o gozo. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário. Em 1990 tentou-se de novo. Se houver inflação. impedindo actualização das rendas. actualizando as rendas. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real. Há subúrbios. porque ele é sempre real). etc. Logo.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. políticos. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. as rendas vão degradando. Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. A solução de quem chega ao mercado é comprar. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção). com a industrialização e grande pressão urbanística. É um direito real. XX. menor taxa de natalidade. contraindo empréstimos.  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). 20 . para o futuro). Em 2006 houve um projecto. Há bloqueios ideológicos. trânsito caótico.  Congelamento das rendas. é figura real o direito de locatário. Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. por exemplo. maior o lucro do trespasse. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer.

Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. Seguem. Essa tese é inaceitável. entre os direitos reais e os de crédito. Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. Estabelece que prevalece o direito real. No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. nesta matéria o regime dos direitos reais. Obrigações naturais É figura muito estudada. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. por ser figura próxima do direito de crédito. defender o seu direito face a terceiros. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. de forma similar aos direitos reais. O Direito dizia que ele estava obrigado. é histórica. A pessoa estava obrigada a fazer algo. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. com recurso aos tribunais). A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. o que os aproxima dos direitos de crédito. 21 . Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. pelo que ele se pode defender sozinho. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). Mas mudou de ideias. Em geral. como direitos reais. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. Comportam-se. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. Admitese a existência de direitos de gozo. na locação. Não tem uma grande relevância prática. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. Juridicamente não tinha personalidade. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. no conflito com outros direitos. tendo um direito de preferência sobre a coisa. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. Uns são pessoais e outros são reais. mas sem shuld. porque não era uma pessoa. o locatário pode fazer obras. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. pois. Mas pode ser integrado no Livro II. em regra. Era um débito sem respondência. já que é ela que as explica. 3. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história.

porque elas são típicas. sociais. com base no 404º. A lei. Esta matéria está regulada no 402º. Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos. A obrigação natural deve ser. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. Tiveram uma evolução muito atormentada. Não podem ser constituídas por contrato. etc. não posso pedir devolução do que paguei.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. aplica-se o regime das obrigações civis. Se eu pagar. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). Mas são aqueles os dois momentos cruciais. Em tudo o resto. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. não jurídicas. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. Ser jurídica é estar prevista como obrigação. É jurídico. transformando-as em naturais. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos.  As obrigações naturais são típicas (809º).. Noção legal (402º). diferente de um Direito moralmente enformado. Hoje. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. As obrigações naturais. pois. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais. não têm valor patrimonial. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português.A isso chamaram obrigações naturais. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. Isso não é verdade. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. Não pode ser exigível judicialmente. Todavia. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. Havia ligação entre o Direito e a moral. jurídica. diz-se por vezes.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. etc. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas. a moral é uma coisa e o Direito outra. Aparentemente. No período medieval.  O 404º. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente. mas também as obrigações 22 . mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais.  Não exigibilidade judicial do cumprimento. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. A justiça é aquilo que o Direito consagra. Mas isto não pode ser. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida.

antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. 4. Na falta de acordo. o critério é o da mediania. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. podendo ser qualquer litro de azeite. se nada for estipulado. dare ou pati. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. Os contraentes podem estipular diferentemente. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. Deve-se escolher a coisa média. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. Só se determina o género. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. A escolha e o risco O 539º estabelece que. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. Ele é determinável mas não está determinado. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. Não é o sentido do 400º. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. que podem ser de facere. rege o favor debitoris. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. escolhe o devedor. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. há uma lacuna negocial. Não havendo convenção. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha.civis podem não ser cumpridas. há obrigação genérica. O problema que surge é o da determinação do objecto. Desde que a coisa a entregar não seja única. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis. dando lugar a obrigações genéricas. o critério deve ser o da mediania. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. No Direito romano eram desconhecidas. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. 23 . Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. Logo. quantidade ou qualidade. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. é fungível. As obrigações genéricas são muito importantes. com a massificação das transacções.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

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7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

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Os vários sujeitos têm relações entre si. seja porque existe expressão linguística unitária. No Direito comercial. na falta de estipulação em contrário. os credores). Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. 27 . Há obrigações que são à partida divisíveis. todos têm de prestar ao mesmo tempo. Nestes casos. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. um concerto de orquestra. porque também temos de tratar das relações internas. há outras que só o são se as partes acordarem. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro.noção. MENEZES CORDEIRO defende que. que é sempre singular). É só uma. O credor só pode exigir de cada um essa parte. quando há vários sujeitos numa obrigação. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. a lei estabelece solidariedade. É um regime mais duro para o devedor. O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. Na prática. O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota. Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. seja porque o regime é unitário. Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. Presume-se que as partes de cada um são iguais. Quando vão cumprir. para proteger o lesado. a regra supletiva é a da solidariedade. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. Ao contrário da parciariedade. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. Existe uma presunção de igualdade das quotas. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. Rege o 512º . por exemplo). mas complexa. de modo a assegurar o cumprimento. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. isso não multiplica a obrigação. Em resumo. Aumenta a garantia do credor. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva.

não sendo nem uma nem outra. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. 28 . quando alguém contrata a solidariedade. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. A lei poderia ser fonte de obrigações. Precisa de um facto jurídico para nascer. É uma bipartição importante. Também existe. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. significa que há alguma coisa a mais. à estatuição de uma norma. Normalmente. um A. São duas fontes fundamentais de obrigações. Mas é uma pluralidade heterogénea. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. tal como os direitos reais. tem regime diferente. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. presunção de igualdade (516º). concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. uma classificação das fontes. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. se não houver outro acordo. é natural que existam meios de defesa dos devedores. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores.). O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. Comuns seriam as nulidades (vício de forma.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. ex. pessoal seria a prescrição. já que o fraccionamento é feito posteriormente. Na solidariedade há co-devedores. p. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. ter duplo aproveitamento. Surgiu o esforço de sistematização. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. p. acrescentou a lei. um credor e um credor pignoratício. o do devedor e o do fiador. aqui. Eram fontes que. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. só dele (não os meios pessoais de outro). No período da pré-codificação francesa. ex. Uma prestação pode. p. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. há “gato”. ex. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento.

Com o CC de 1966 também não existe classificação. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. Já nos sécs. de se autodeterminarem. que é comum a todos os direitos europeus. o negócio unilateral. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. desde logo. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. É difícil unificar. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. Mas ele é mesmo muito reduzido. mas enumeração. no tempo e no espaço. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. apesar de não haver classificação qua tale. a melhor técnica é a tipológica. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. 29 . referência à tetrapartição. Enumera algumas fontes. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). O direito privado tem 2000 anos. Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. como se usou em 1867 e 1966. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. todavia. O Código de Seabra faia um elenco original. ex. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. p. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. enumera-se o contrato. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. Faz-se. O que se deve.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. As divisões não significam. Em termos estatísticos.). Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. nuns e noutros a mesma coisa. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. a gestão de negócios. em vez de adoptar a repartição tradicional. o enriquecimento sem causa. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. Há um encadeamento. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. enquanto a lei é norma heterónoma. então. a partir do 405º.

No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. o contrato está sempre subjacente. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. No Direito da Família também: contrato de casamento. No Direito sucessório é mais raro. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). Daria frutos no período jusnaturalista. É importante considerar o canonismo. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. diz-se muitas vezes. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. se a sociedade é subdesenvolvida. surgindo os contratos que hoje são básicos. Assim. Dá-se uma grande explosão. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. nas Obrigações é o contrato. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. O contrato tem um papel muito alargado. É um diploma bem feito. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. está em crise. O contrato valia por si. Menezes Cordeiro. O socialismo ataca o contrato. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. já o negócio obtém-se pela razão. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. manifestação da importância do contrato. em lei de Maio de 1352. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. o próprio contrato perde espaço. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. Dinis. a bona fides perderá o seu significado. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. tem menos aplicação. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. vai na direcção do contrato. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). O CCP trata da matéria. Os romanos conheciam figuras equivalentes. consensual – basta haver contrato. com SAVIGNY. de acordo com a escola histórica e a pandectística. mas se lemos artigos sobre negócios. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. É o sistema de tipo francês. O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. O contrato. 30 . mas existe pacto sucessório. D. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. para o Prof. igualmente. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. Passava a ser vinculativo por isso. Mais tarde. É necessário que haja propriedade.

diminuindo a liberdade contratual (banca. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. não relevaria: eles devem ser cumpridos. O 56º/3 garante a contratação colectiva. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força. Todavia. necessidade de consagrar na CRP. Tecnicamente. pois. É óbvia. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. O contrato é um véu que tapa os olhos.). não se trata de um recuo do contrato. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico.No séc.). 31 . Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. etc. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. Se a lei não dissesse nada.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. O contrato é.  Áreas reguladas. Com a queda do Muro. É uma visão pessimista. valores mobiliários. Não houve. plurais. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português. seguros. racionalidade. porque não foi necessário. A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada. Tutela constitucional do contrato A CRP. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. à partida. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos. pelo menos para coisas úteis. Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. mas de certos contratos. O contrato tem peso em si. no artigo 8º/2. Graças às convenções internacionais.  Intervenção judicial nos contratos. etc. incluindo direitos de créditos). os observadores previram explosão dos contratos. como o da boa fé. pecuniários. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. Mas isso não aconteceu. O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos.

Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. por vezes. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. Pode haver tipo social e tipo legal. Quando a lei não lhe dá um nome. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. não dá para classificar em abstracto. no entanto. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. mas a lei não o disciplinou. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. 3. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. Todos os negócios são contratos bilaterais. Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. fica fragilizada. Segundo. é nominado mas atípico. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. maior equilíbrio. reais quoad constitutionem e quoad effectum. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). 2. O contrato de hospedagem. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. É distinção relativa. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. Consensuais. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. Perante o conceito de negócio jurídico. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. 32 . em princípio também não o regula. consideradas mais sensíveis. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. o contrato é bilateral. bem como diminui as dúvidas. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. Terceiro. 5. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. regulando com especialidade. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada. Fala-se. vindo a aperfeiçoar-se. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. nominados e inominados. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada.1.

O estudo desta matéria não é fácil. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. hoje. podemos distinguir entre negócios típicos. Os gratuitos são. É sinalagmático. O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. uma delas não fica obrigada. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. Há 16 contratos regulados no Código Civil. As partes querem dar. É diferente da vinculatividade. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. A generalidade das normas é supletiva. Tendo em conta este facto. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. passa entre as gotas da chuva. À luz do 405º. uma vez que domina a autonomia privada. Nos monovinculantes há duas partes. reciprocidade. Embora o 405º seja muito abrangente. se as partes celebram contratos mistos. O problema é que. no entanto. atípicos e mistos Os negócios jurídicos. 33 . Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. solicitar ao outro a efectuação da prestação. 7. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. pois. 6. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. Há. Em regra. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. Fica com o direito potestativo de. as partes têm liberdade de celebrar livremente. Tipologias de contratos Contratos típicos. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. O problema é que. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. em regra. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. tendo em conta o relevo de que se revestem. A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. querendo. a parte geral é muito restrita. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal.

obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). Não tem salário. comida. quando acabar. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. na prática. Ex. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. A tem dívida para com B. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto. Há mistura. Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. A autonomia privada é o pano de fundo. os serviços de limpeza. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. Os combinados distinguem-se dos complementados. aplicando todos. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. em troca de explicações. que absorverá os outros. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa.: A compra por preço muito baixo. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. o negócio aproxima-se da gratuitidade. etc. Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. Ex. não havendo uma principal. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. o locador. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. 4. que lava também a roupa de cama. Isto só resulta se houver confiança. devolve-lha. 3. mas como tendo a casa como refém. não para que se porte como proprietário. embora tenha havido preço. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. entretenimento. Não pode ser um mero pormenor. comida. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos. Ex. Em troca do preço recebe um quarto (locação). Ex. mas recebe em géneros. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente.: A comprou 15 dias num cruzeiro. próprias de vários contratos. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção). Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. B tem de guardar a casa enquanto A não paga.: A recebe habitação. cama. O resto é extra. 34 . Complementados – aqueles em que existe um tipo base.: A arrenda um quarto a B. 2. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1.

P. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. aplica-se essa solução. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. Aqui. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. e também com a agência. a solução também foi a da analogia. ex. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. Se ele corresponder ao tipo x. a primeira solução é a da vontade das partes. O limite é o das normas imperativas. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. O que é específico é a marca. segurança. gestão do centro. Regra geral. No caso do porteiro isso é evidente. a quem entrega os bens. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. o arrendamento tem muitas normas imperativas. 35 . Quando há lacuna contratual. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). O promotor é remunerado através da renda. é esse que se aplica. por analogia. bem como sinergia do ponto de vista económico. 3. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. É contrato de agência que foi encontrado. publicidade. Em Portugal. se na lei houver solução. mas os serviços que o centro proporciona. aplicam-se as regras desse tipo. Recorre-se ao regime da agência. acabavam os centros comerciais. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. Pode. Mas não é normal. Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. mas o contrato é usado para uma função diferente. Pode haver várias funções: simulação. A solução foi a da analogia. O método foi o da analogia. tal como o da vontade das partes. nomeia concessionários.2. para que os distribua. Hoje. aplica-se o regime do tipo x. a outra também. Mas isso é raro. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. é uma área vinculística. sem intenção de enganar). Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. no entanto. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. então celebra-se o y). o combinado e o híbrido. Se não for suficiente. Quando nada se diz. 4. Há semelhança entre a agência e a concessão. é também acompanhado de distribuição. A seguir temos de resolver com analogia.

MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). na contratação alternada valia ou um ou o outro. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. não permite divisão da coisa entregue. Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. teremos uma figura real não prevista na lei. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. M. a fidúcia é muito violenta para o devedor. era o proprietário da coisa. O fiduciário é proprietário. Mas. Se ela tem natureza real. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia. ao contrário do alemão. mas para o de terceiro. No Direito português. em benefício de quem a entregava. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. aplica-se o regime correspondente. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados. já que o Direito existe para proteger os fracos. 36 . o fiduciário.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. O fiduciário é de execução prolongada. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. interna e alternada. O fiduciante é só entre outros. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos. Mas o Prof. porque doações de bens futuros não são permitidas.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. Descobrindo-o. São óbices consideráveis. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. Quem recebia a coisa com fidutia. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. Se for à falência. Procura-se o centro de gravidade. Ele é permitido se não violar regras imperativas.

Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). Mas nunca é irrelevante. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. há centros de gravidade múltiplos. por exemplo. a promessa valia apenas como prestação de facto. O contrato prometido e o contrato definitivo. de tipo não processual. 830º. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. Há muita jurisprudência sobre isto. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). de tipo processual. 37 . O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. No Direito português tem grande importância. rege nos contratos mistos. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. devia ser celebrado por escrito. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. sendo diferente o regime. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. A promessa por escrito era válida na hora. É uma ideia relativamente recente. Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. homogéneos e heterogéneos. para o sinal. A celebração de uma escritura pública demora tempo. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. sem recorrer à escritura pública. A figura da absorção. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. tem eficácia real. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. Segundo o Código de 1867. O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. dependentes e independentes. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. execução específica). causais.. Hodiernamente. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. Importou do BGB a execução específica. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. 442º. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma.

mitigada. 38 . são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. regulativa autónoma. não podem ser objecto de promessa. desformalização. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. 2. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. 3. Como no Direito alemão. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. um modo geral de celebrar outros contratos. sobre a entrega. tendo isso em conta. financiamento. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. Regra geral. Meramente obrigacional. 5. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. Desformalização. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”.As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. na promessa tem de haver negociação). O contrato-promessa distingue-se da proposta. ex. Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. ex. Por vezes.). Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. p. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. P. do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. 4. por vezes. um modus vivendi. para preparar o contrato definitivo. É a função preparatória. Função preliminar. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo). É um formato. Regulativa autónoma. do dever legal de contratar. do convite a contratar (A solicita a B que contrate).. os contratos são dotados de prometibilidade forte. Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. etc. na promessa sabe-se). O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa. do contrato preparatório material. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. transacção meramente obrigacional. Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. É usado. uma vez prometido. do exercício de preferência. Quanto à prometibilidade fraca. Mitigada ou mitigadora. Há contratos que. é possível a execução específica no caso de incumprimento. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. acabamento da coisa. 1.

No contrato-promessa. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. também não há uma regra expressa que o diga. Não há contrato-promessa de doação. e o outro não cumprir. É verdade que existe um regime jurídico. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. 39 . Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. mas ineficaz quanto às prestações principais. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. É um contrato à parte. imperativo. O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. mas a situação subjacente é diferente. mas que tinha um regime especial. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. O problema é que. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. estão nos antípodas. o que está em causa não é a regulação de um contrato. se não houve entrega da coisa. à partida.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. Isso não é correcto. Não se trata de um contrato-promessa. Não vincula o promitente a doar.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. O nome é parecido. Isso não vem na lei. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. Mas. até é possível haver excepções ao que se disse. como executo? Os clássicos diziam que não era possível. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada.) que conduz à possibilidade de revogação.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. do 1591º e SS. etc. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). já que a lei diz que não há contrato sem entrega. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. Pode fazê-lo. diferente do regime do contrato-promessa.. etc. a obrigar a algo que poderia revogar. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º. tendo em conta o regime. às consequências pela ingratidão. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa. a proposta ainda não foi feita. proximidade. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. Com o não cumprimento.

E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. Para o prof. Não haveria problema de prova nem dúvidas. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. para ser quantos se obrigam. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. outros a conversão. O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. Mas isso é errado. tendo enorme relevância. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. é a solução. Se for livre também o contrato-promessa é livre. autêntico ou particular. nos termos do 293º. aplica-se a regra geral. Uns defendem a redução. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. não se precisa é de assinar. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. Por isso. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. ainda que não tenham as duas assinaturas. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. O 410º/2 regula a forma. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. Na prática. 40 . Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. Assim. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. A conversão. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). Se o documento é a materialização do acordo. é preciso o acordo de ambas). em regra o promitente alienante. o regime é o do 219º liberdade de forma. não se entende porque só um assina. Na normalidade dos casos. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. Estipulações acessórias são válidas. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. MENEZES CORDEIRO em princípio. o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. Se para o prometido for necessário documento. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois.Hoje em dia. A questão das assinaturas é meramente formal. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3.

Pode ser paralisada através do abuso de direito. Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. A parte geral também tem regras. MC sugere a ideia de modus contrahendo. Obedece a normas: os princípios da correspondência. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. Este princípio. em certos casos. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. Admite que. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. integralidade. Se a promessa for monovinculante. 41 . Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. Trata-se. no 3. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. este deve adquiri-la. possa reduzir-se o negócio. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. p. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. se nada disserem. havendo grandes atropelos ao direito. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). Havendo contrato-promessa. Neste momento. ex. a se. Surgiu na década de 1980. de invalidade mista. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. concretização e boa fé. Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. Nestes casos. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. por sua razão de ser. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. Há. o regime é o da reforma de 1986. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. ficando com um contrato-promessa monovinculante. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). também. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro.Mas não é fundamentalista. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. com excepção das relativas à forma e as disposições que.

O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo. etc. violação positiva do contrato. não foi. e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. local. Muitas vezes há AA.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. que resolvem inovar. uma via crucis. Pode haver recusa antecipada a cumprir. Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. Se isto não for possível. pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. Isto é uma trapalhada. lugar. O incumprimento extingue a prestação principal. etc. Se houver situação de mora. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. Incumprimento há quando. À partida. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. 42 . Ou há mora. se não for cumprido. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação. o faltoso é o que não cumpre. aplica-se o 280º. Se não houver.). há inadimplemento. O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. imputação. se o contrato-promessa permitir. impossibilidade superveniente. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). devolve-se em dobro. violação de deveres acessórios. Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. se forem válidas e eficazes. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. mantendo-se o contrato-promessa. a lei prevê a interpelação admonitória. declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º). MC entende que isso não pode ficar assim. Pode haver uma impossibilidade superveniente. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. O promitente fiel é o que é prejudicado. Legitimidade. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. O definitivo está previsto no contrato-promessa. se for cumprido. alterando as palavras. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes.). prazo.. inclui-se a coisa no cumprimento. Pode acontecer que seja lacunar. pode haver resolução. o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação.

A jurisprudência. O retentor pode. começou a resolver o problema diferentemente. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. 30%. Afastouse a possibilidade de execução específica. O que estava em causa eram casas de habitação. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). O problema viria a ser resolvido em 1986. os sinais deixavam de valer tanto. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. com a inflação. O imobiliário estava sempre a subir. penal. se houve incumprimento. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. recebiam-se sinais. O Governo resolveu intervir. Assim. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. que chegava aos 20. Tem um direito de liquidação judicial. vender a coisa e recolher o preço. Quando metido no contrato-promessa. A ideia era: como a inflação é muito alta.No Direito grego antigo. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. mexeu no regime do sinal. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. Quando mexeu no 442º. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados. Enganou-se e mexeu em tudo. na fase executiva. no entanto. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. 43 . o sinal ganha coloração particular. Houve várias propostas para resolver a situação. o sinal tinha alcance coercivo.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. Tornava-se compensador não cumprir. faziam-se casas. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980).  Quando há tradição da coisa prometida. ajudava a provar a existência do contrato. celebrando-se contratos-promessas. No Direito romano tinha um sentido confirmatório. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. mas o valor actual da coisa. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. a indemnização já não é o sinal em dobro. Assim. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. Em 1980 havia grande inflação. O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção.

Se houver mora. Em 1986 o legislador interveio novamente. Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. Lobo Xavier. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. O Prof. ainda assim. Se houver sinal.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. Todavia. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. Assim. Assim. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. Tentou-se. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. a primeira consequência é entrar em mora (805º). Tentou-se limar algumas arestas. não há logo incumprimento definitivo. com a solução do Prof. o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. exige mais garantias. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. doutrinariamente. congelando o direito ao valor da coisa. perderam a objectividade. não sendo necessária a interpelação admonitória.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. Se houver morar. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. Tendo havido mora. O hipotecário ver-se-ia preterido. Vários AA. fixa-se um novo prazo. a indemnização seria o valor actualizado da coisa. pela interpretação). Fica com o valor da coisa mas paga o preço. É um esquema complicado. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. Além disso. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. Houve excessos legislativos. É uma “excepção de cumprimento”. a favor do promitente adquirente traditário. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção. ele é deduzido do preço. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. 44 . O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. ficou consagrada a indemnização pelo valo. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. introduzir correcções. mesmo que anteriormente registada. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. é mais selectivo.

A resolução. deve ser tomado seriamente. Se for possuidor tem defesas possessórias. Alguns autores dizem que. bem entendido. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. O Prof. No Direito funciona-se com prazos. quando haja incumprimento. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. 45 . O sinal visa uma função compensatória. A menos que. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. Um contrato de comodato. porque tem uma cláusula daquelas. destrói o contrato retroactivamente. a troco da entrega da casa. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. A distinção é importante. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. Se resolve o contrato por incumprimento. Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. É celebrado contrato-promessa.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. É um contrato que dá direitos muito precários. Pode ser uma gentileza mais demorada. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). desaparece também o sinal. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. Se é esse o sentido da cláusula. o que deve fazer é resolver o contrato. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. 3. 2. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. Neste momento. no entanto. O contrato-promessa já é um contrato misto. Assim. tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. O que é que as partes pretenderam? 1. se há sinal. operando o sinal. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). Se for um representante. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. É posse semelhante à do arrendatário. Tradição da coisa Tecnicamente. não há posse. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. É verdade. É uma posse muito elementar. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples.

Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. Se tivesse havido incumprimento definitivo. Foi uma ideia prussiana. A solução mais normal é a execução específica. por maioria de razão também há sinal comum. Quando se trata de acções humanas. para além da tradição. Se de facto houve perda do interesse. Já está tudo pago. muda o regime. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. Contudo. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. Em 1980 o regime foi alterado. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. seria impossível apresentar-se a cumprir. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. Se houve.4. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). Consoante o tipo de posse. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. houver sinal. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. Passa até à frente do credor pignoratício. O interessado pode ainda optar pela execução específica. 46 . Aqui temos posse em termos de propriedade. dir-se-á que não podemos obrigar. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. Assim. Estamos perante um facto. pelo que há entrega da coisa. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. Se há excepção do cumprimento. já vinha de trás. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. é muito difícil determinar a indemnização. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. mas não especificou. soluções alternativas à indemnização. Assim. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). Leva ao mesmo. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). houve incumprimento. Mas isso já estava subentendido. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. também. através dos seus meios. colocando no terreno.

p. já que a prestação se tornou impossível. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. Contudo. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. Haverá consequências indemnizatórias. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. contudo. no momento em que é decretada a execução específica. Simplesmente. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. Aí. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. Perante o incumprimento. as custas ficaram por sua conta. 47 . Não valerá a pena recorrer à execução. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. Os riscos são compensados pela presença do tribunal. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. O Prof. Simplesmente. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. em 1980 o legislador foi desastrado. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. mas vende a C. O tribunal não emite. verdadeiramente. Nos outros a questão não se colocava.  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. a declaração faltosa. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. é muito difícil calcular a indemnização. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo.Houve soluções doutrinárias. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. Conquanto que o conteúdo seja determinável. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. depois do contrato-promessa e antes da execução específica.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. Mas nem sempre. ex. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo.

ex. E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). comodato). in fine). Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. O comodato pode cessar a qualquer altura. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. pode acontecer que. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. tão pouco. A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. mesmo que houvesse. Quando nem sequer há prometibilidade (doação. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora. 48 . Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. Aí já faz sentido. Já no penhor ou no mútuo faz sentido.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. p. Contudo. por sua natureza. Quando seja celebrado um contrato-promessa. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação.  A exclusão convencional. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias. já não é de todo possível a execução. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim.) também não pode haver execução. Não pode haver execução de contrato que não existe. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. Todavia. poderia ser revogado. não se iria muito longe (despedimento. Contudo. Igualmente. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. Mas. o 830/1 admite a possibilidade. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. demissão). Nessa altura. No caso do contrato de trabalho. se verifique uma alteração das circunstâncias. Mas aí não cabe execução específica. MC entende que sim. depois. Não faria sentido a execução de um contrato que. Se houver situação de inexistência. Tem de haver ponderação de interesses. limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. Mas a lei admite mandato irrevogável.

vendendo a terceiro. O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. Se não for cumprido. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. alguns entendem que cabe execução específica. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo. ficando privada do preço. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. Deixou de se exigir a escritura. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. Vaz Serra.  Há execução específica. mas contra o terceiro (Dias Marques). execução específica. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. que a foi buscar ao Direito alemão. Através da eficácia real conseguir-se-ia. Se o preço não for pago há injustiça. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade. O que está em causa é que o dever seja cumprido. A outra parte pode não ter sido paga. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. Ora. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. registo da promessa. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. qual a solução? Normalmente. escritura pública. Assim. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra. reforçando-se o registo. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. outros recusam essa solução. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. O Prof. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. convenção expressa de atribuição de eficácia real. a lei alemã permite um pré-registo.Depósito do preço A sentença é translativa. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. não é norma de excepção. 49 . Promove logo a transmissão da propriedade. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre.

tão-pouco é declarativa. apenas. pelo menos em parte. em função dele. na promessa. levar ao apagamento do definitivo. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. no entanto. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. de facto. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. a contratar. o que esteja em causa. a celebração das promessas. tão-só. como contrato autónoma. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria. A lei proíbe. Justamente por. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. por vezes.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. Mau grado a primazia reguladora da promessa. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. em relação ao definitivo. De seguida. ainda que devido e pré-regulamentado. 50 . quando firma o princípio da equiparação (410º/1). A primeira opção explicativa leva. com o contrato definitivo. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. as partes regularem. uma vez que dela nada sai de preexistente. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. à negação da própria promessa. Ao celebrar o contrato-promessa. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. uma vez concluída. um acto de execução do que já estaria combinado. no fundo.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. continua a ser um verdadeiro contrato. as partes obrigam-se. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. em definitivo. Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. delimitando. a execução específica não é puramente executiva. Nos extremos. o contrato definitivo não perde em categoria. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof.

 A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. ao preferente. ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. Em regra. Por exemplo: o obrigado. isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. tem. a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. por χ. que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). O direito de preferência.O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. A favor do fundeiro (1535º). a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. caso este queira. 51 . 1519º e 1523º). caso queira vender um prédio a alguém. A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. A favor do senhorio (1112º/4). As preferências no sistema jurídico No Código Civil. Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável. pelo artigo 1535º (1901º). deve vendê-lo. O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato. pelo preço em causa. A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). A favor da pessoa designada em testamento (2235º). Diz-se. antes. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. 1380º e 1381º). A favor do comproprietário (1409º e 1410º). com o qual o negócio fora ajustado. essencialmente. o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. quando convencionalmente estabelecido. Da mesma forma. nesse sentido. A favor do co-herdeiro (2130º). um dia. De resto. em Direito. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). perdendo a plena disposição do seu bem. enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente).

ao obrigado faltoso. apenas uma das partes fica obrigada. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele.  A opção – figura inominada e atípica. não podendo o preferente fazer seu o negócio. uma indemnização.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. As preferências convencionais são ora obrigacionais. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. observadas determinadas formalidades. a preferência real confere.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito. a um direito real de aquisição. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. todavia. através de uma acção de preferência (1410º/1). ora reais. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real. violado o pacto. ainda e por elas. Modalidades. na opinião dominante. ao preferente. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso. Na primeira. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. a preferência legal advém da lei. tem cabimento recorrer à acção de preferência. nos termos do 414º. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais.  A preferência obrigacional. ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. relativo à acção da preferência. Na segunda. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. permite ao preferente exigir. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. uma vez que a outra emite logo a declaração final. a real.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. nesta última hipótese. sejam. consoante a opção das partes e isso desde que. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência. quando violada. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização. 52 .

a essa luz. Com uma prevenção: numa situação de preferência. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. deve-se lidar com os deveres acessórios. por definição. ao pacto de preferência. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). Todavia. recebem os deveres. o terceiro deve-se abster de contratar. perante o Direito vigente. de onde promanam deveres para ambas as partes. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas.  Porém. próprio do contrato-promessa. próprias do contrato preferível. do princípio da equiparação. 53 . chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. E sendo este o caso. ao pacto de preferência. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. Propõe-se a aplicação. de liberdade de forma. quer autêntico quer particular. daí resulta a aplicação. por ele. O modus praelationis. se o pacto for bivinculante (bilateral).Forma O artigo 415º manda aplicar. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). como a de fazer a competente comunicação. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. Tendo conhecimento do pacto de preferência. a menos que ambas as partes se vinculem. por parte de um terceiro. deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. Bastaria a assinatura deste. podendo. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. como cláusula num pacto mais vasto. desencadeando o funcionamento do pacto. é afectado de algum modo. em regra. pretenda contratar com o obrigado à preferência. das regras aplicáveis à capacidade. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. os ónus e os encargos envolvidos. de acordo com as regras gerais (219º). mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. quando o contrato preferível exija documento. à preferência. Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. o artigo 410º/2. eventualmente. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. Num pacto de preferência comum. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. Pergunta-se se o terceiro que.

com alterações. não o quer. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou.  Ou o preferente rejeita. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. deixando o negócio para o terceiro que. Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. pelo menos. o terceiro ficará com o negócio. por opção do beneficiário. perfila-se o contrato definitivo.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir. já que o terceiro não celebraria tal contrato. Finalmente. o contrato. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que. com poderes bastantes. A resposta do preferente. de pleno direito. com base nela. ficando o contrato por celebrar. ao seu direito. esta deve ser feita ao preferente. se não o fizer. exige-se forma escrita. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. A comunicação não está sujeito. Havendo vários preferentes. pelo menos. isto é. quer particular. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. o represente. A não se verificarem tais requisitos. a comunicação para preferência deve ser feita a todos.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. e estará enganado. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada. por aplicação do 410º/2. A “aceitação” da comunicação para preferência. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. convicto de que. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). na mesma linha. envolve. por parte do preferente. É o que dispõe o artigo 416º/1. por lei expressa. Havendo aceitação da comunicação de preferência. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente. declarando que não está interessado. 54 .Na posse dessa proposta. afinal.  Ou renuncia à preferência. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. uma de duas:  Ou o preferente prefere. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal. modificações ou reticencias.  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. a renúncia. se vem mesmo a concluir na esfera deste. quer autêntico. na presença de um projecto de contrato firme e sério.

que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. não o sendo.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. As valorações subjacentes ao artigo 417º.  Não sendo avaliável em dinheiro. recebida a comunicação. quando se reporte a uma universalidade. ou não. 1ª parte). nenhum princípio de especialidade. pode. Prestação acessória. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. dependendo das circunstâncias. De todo o modo. no nosso Direito da compra e venda. Existem três possibilidades básicas.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. ou não. então. o contrato será seguramente único. Observar-se-á. 55 . A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. é excluída da preferência. apontam. sem prejuízo para o interessado. Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro. o que terá que provar. o preferente desiste ou prefere em conjunto. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. Não o sendo. divisível?  E não sendo divisível. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. podem umas e outros ser desagregados.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras.

em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”. A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. 56 . A acção de preferência permite ao preferente. esta última: trata-se de um facere jurídico. em termos de aquisição. afastando. com isso. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). em caso de violação de uma preferência real. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. Em termos de comunicação: ela deve ser feita. os restantes: não havendo processo de escolha. sempre. sem seguir o procedimento da preferência.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. Havendo eficácia real. fazer seu o negócio faltoso. Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. feito no artigo 410º/2. nas condições fixadas. A prestação principal é. Segundo o artigo 1410º/1. a todos os preferentes.  Concluir o contrato em causa. com o preferente. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele. A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. seguramente. abre-se licitação. Verificados os pressupostos.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes. É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). ao preço e à identidade do requerente. desde que este as acompanhe. 1ª parte).  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir.

esta não depende da intervenção da parte vinculada. ao tribunal. directamente ou por analogia. todavia. passando a integrar o definitivo. o artigo 411º: o vinculado pede. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. na opção basta a declaração do beneficiário. só deverá ter lugar se uma das partes quiser. que fixe um prazo razoável para o seu exercício. tendentes à conformação do contrato definitivo. ele recebe o direito potestativo de. na execução.  Quanto à execução. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. a opção cessa. por uma simples manifestação da sua vontade. do definitivo. A opção. por mera declaração unilateral. no cumprimento.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. da posição de contratante e do valor que ela representa. por analogia. que exigirá. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”. na opção.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. na conclusão.  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. só será válida e eficaz se. o titular ou o optante) recebe o direito de. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. ora. dá azo ao contrato definitivo. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo. provocar o aparecimento do contrato definitivo. o qual. Logo. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). declarações de ambas as partes.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. um verdadeiro contrato-promessa. aqui. Aplicam-se aqui. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. Haverá que aplicar. execução e incumprimento No que toca ao optante. por ambas as partes. perante o concreto contrato definitivo em causa. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. 57 . a celebração. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa. excepto no que tanja ao cumprimento deste. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. Direito e deveres.

a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. o artigo 762º/2 e. pode facturar o premio da opção. Como princípio geral. designadamente para a parte optante. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção. quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. do optante e do adstrito. as partes congelam as condições da venda. há que lhe aplicar. uma das partes (o promitente) assume. no mercado. 58 . No plano do seu conteúdo. Ambas as partes ficam . o artigo 272º: na pendência da opção. partes no contrato. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. entre outros aspectos. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. do definitivo. O risco desaparece. o qual deve ser cumprido. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). Ainda o mesmo optante pode colocar. Actuada a opção.todavia. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. directamente. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. a sua opção. perante a outra (promissário). O obrigado. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. com relevo para o pagamento do preço da opção. dando-a em garantia ou alienando-a. Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. por seu turno. a qual adquire um direito à prestação. no memento escolhido. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. surge o contrato definitivo. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. que exercerá o seu direito se o entender. Funções. O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. a cargo. natureza e aplicações Celebrando uma opção. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. Assim. por via dos artigo 295º e 221º/2. respectivamente.O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. por analogia.

especificamente. do promitente. o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal. Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. nessa altura. a contrario e 448º/1. a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro.A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário.  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. perante o terceiro. do promitente. As prestações que. A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. A posição do terceiro O terceiro adquire. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. devam ser trocadas entre os mesmos. porventura. porventura.  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem. por exigência deste e do promissário. 59 . Tal permite excluir. se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). de forma geral. fundamentalmente.  A de exigir. pelo contrário.  A de exigir. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. o direito à prestação: independentemente da aceitação. imediatamente. a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1). Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. a prestação principal O promitente tem. A posição do promitente. a efectivação da promessa ao terceiro. lhe possam advir da relação básica (405º). quando esse seja o conteúdo da promessa. O terceiro adquire o direito à prestação. ao promitente. 1ª parte). A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). contratos como o casamento ou a doação. pelo contrato a seu favor. as prestações ou outras vantagens que. deste cerne. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. O regime concreto de tais prestações.

de lealdade e de informação. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. antes dela. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. ao abrigo das regras gerais (217º). pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. Amicus: o terceiro. a fiscalização da contraparte. pode desinteressar-se dela ou. pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. quando se desempenhe perante o terceiro. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou. a contrario). desconhece os precisos termos envolvidos. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. no limite. logo. sobre si. antes de ter ocorrido a sua nomeação. Desde modo. nada fazer. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. Na linguagem desde subsector.  O terceiro. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. Num primeiro tempo.  Torna a promessa firme (446º/1. 60 . O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. a contrario e fortiori). falsificar a conduta a que se encontra adstrito.Perante um contrato a favor de terceiro. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. de adesão. por não ser o destinatário da prestação acordada.  O promissário. por não ter sido celebrado com o terceiro é. instável. As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. Eligendus: o terceiro. não tem. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. ainda. Electio ou electio amici: a escolha. através da regra da boa fé (762º/2). não sendo parte do contrato. O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação. pode ser menos diligente ou até. Pode-se. Esta apenas consolida um contrato que. porém.

As fontes paracontratuais Ao longo da História. no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). o negócio consolida-se na esfera do stipulans. A electio tem. inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. Feita regularmente e comunicada a designação.  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. Embora a lei não o diga. dele se aproximavam. a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios. em princípio. tal como sucede com a ratificação (262º/2). efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta. num todo coerente. Como tratá-las? Com o tempo. quando superior (454º/2). Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). altura em que o contrato ficará sem efeito. Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira).Regime. foram surgindo figuras que. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. eficácia retroactiva. que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa. não reunindo as características perfeitas do contrato. Ele implica. pois. A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. Concluído o contrato para pessoa a nomear. seja em termos técnicos. seja em moldes sócio culturais. Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato. ao outro contraente. O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. do próprio contrato que a contenha. 61 . a cláusula “pessoa a nomear”. produz efeitos em relação ao contraente originário. Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. concordância do amicus e electio.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável.

As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos.  Inserção em organizações comunitárias. chega-se. com ele. ser reconduzidas ao contrato mas que. o contrato. na sua origem. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. Sublinha-se que. Surgindo. de lealdade e de informação. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. seja na formação. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual.  Os contratos com protecção de terceiros. através de meros comportamentos materiais. Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social. isolam-se:  As relações contratuais de facto. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1).  Situações de proximidade contratual. depois. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais. uma parte razoável do seu regime. no espaço jurídico.  As relações contratuais sem contrato.  Situações de relações jurídicas complexas. no tráfego moderno de massas. 62 . Teria de se admitir uma relação de tipo contratual. sem integrar previsões contratuais. em termos rigorosos. esta relação fundir-se-ia nele. pelo menos. para certos fins. tivesse ocorrido qualquer contrato. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas. muitas vezes. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais. Relações paracontratuais em especial 1. postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. execução de relações duradouras. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. derivada do facto simples de um contacto social. seja nos preliminares.

revogado ou denunciado. A “fonte”. pelas partes. que veicula os valores fundamentais do sistema. o Direito manda proteger. Com as devidas adaptações. mercê dos contratos preliminares. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. nele. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. Há impossibilidade inicial da prestação. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. igualmente. tenha uma proximidade visível. O contrato é anulado. por estar vulnerabilizada. no contrato considerado. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. 63 . se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. que se reporta aos bens postos em jogo. para terceiros. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. Também está claro e assente que. Surge uma impossibilidade superveniente. O contrato é resolvido. 3. no caso de violação. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. nas protecções dispensadas. em face de um contrato:  Alguém que. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. Havendo proximidade. por qualquer razão. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. promane deveres acessórios (de segurança. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. Em termos gerais. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. Em termos analíticos. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. o círculo interior. 2. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. perante a prestação principal e em face do credor. independentemente de qualquer especial vontade. ainda. O círculo interior. De novo há um círculo exterior. e existe.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. não seja parte. ainda que insubsistente. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé.

Em rigor. ainda se poderiam manter determinados deveres. podendo. a responsabilidade obrigacional. operando o contrato. dando origem. mas noutros locais. com ligeireza. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. fique adstrito a realizar uma prestação. aplicar. “negócio” engloba. com facilidade. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. 64 . Mas têm moldagem contratual. perante eles. aparentemente. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. o proprio acto unilateral (457º-463º). por sua livre e exclusiva vontade. o que (ainda) não têm e subscreverem. cessado o contrato. o inerente instituto. que explique os deveres resultantes.Tecnicamente. O negócio unilateral implica que alguém. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. como um simples facto stricto sensu. obrigações que (só) irão pensar depois. aqui. 5. 4. uma regra de tipicidade. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. tais deveres não têm origem contratual. ser globalmente denominado culpa post factum finitum. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes.  A proibição de. São os deveres pós-eficazes. ad nutum. nesse sentido nuclear.  Os perigos da adstrição ad nutum. por analogia. No que se lhe reporta. uma vez que ele não é partes. O artigo 457º proclama. fora de série. as normas típicas. de obrigações futuras. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. em termos jurídico-positivos. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. Antes de fundam na lei. de lealdade e de informação. para as partes. quando violados.  Um numerus clausus de realidades relevantes. De facto. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo.

numa segunda vertente. a primazia da materialidade subjacente que. sem indicação da sua fonte. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida. Os negócios unilaterais distinguem-se. de que. isto é. Em bom rigor. é aparente. já antiga. ainda. pelo princípio da causalidade. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. igualmente por via da boa fé. Da oferta ao público (230º/3). passando pela tradição de uma coisa. fica o credor dispensado de a exibir. A regra não origina nenhuma obrigação nova. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. sobretudo quando interessados. para além da concreta eficácia suscitada. no Direito português. a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. pois. De contratos com apenas uma assinatura. 65 . Dogmática geral O negócio unilateral. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se. quanto à existência de adequada fonte das mesmas. que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte.  Fonte essa cuja existência se presume. a tipicidade dos negócios unilaterais. Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. também aqui. com a promessa pública como modelo. limitada à inversão do ónus da prova. Assim:      Da proposta de contrato. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. ainda. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. deve imperar. proclamada no artigo 457º. deve sublinhar-se. devidas. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. a afirmação.Mantém-se. cabe salientar a confiança que. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. Quanto muito. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. existe aqui. pode-se admitir tipos abertos. Deve-se ter também em conta os terceiros que. anteriormente. de resto. Do testamento. até prova em contrário (pelo devedor). No que tange ao autor do acto. Do anúncio público (225º). por força de qualquer outra fonte. Negócios unilaterais em especial 1.

tendo prazo. objectiva ou subjectivamente. propriamente obrigado. pelo cumprimento. O público. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º). in fine). deriva. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. pela aceitação. Concurso público O artigo 463º. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. ele extinga. o concurso ficaria indefinidamente aberto. que torne a promessa inexigível. aqui. exclusivamente. surgindo alguém nas condições nela previstas. A justa causa será. ficando.  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. seja revogada. 66 . a título de prémio. da oferta ao público (230º/3): nesta. às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. aqui. acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. um motivo atendível. relativo a concursos púbicos. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. a sua obrigação. Feita a promessa. antes dele. por anúncio público. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. da indeterminação do destinatário. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. o promitente adstrito à sua efectivação. na sua falta. só nessa altura se constituindo. o promitente fica obrigado:  Até que. desde logo.2. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). por justa causa (461º/1. apenas. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. muito claramente. naquela. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. constituir o contrato. constitui uma especial modalidade de promessa pública. seja revogada (461º/1).     Até que expire o prazo nela fixado (460º). fica vinculado desde logo à promessa”. ainda. não tendo prazo. Até que. Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). A situação distingue-se. 3. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. Até que. pode.

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