Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

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Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

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 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

A causalidade contrapõe-se à abstracção. É um código típico do início do séc. Causalidade Significa que. (448º. 4. nesse caso. por regra. 947º. defesa do consumidor). para não darem o que não têm. É muito elegante linguística e estilisticamente. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. analítica. O BGB. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. 4 . as obrigações. que nascem de uma determinada fonte. a obrigação não subsiste. A responsabilidade civil é ampla. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. Romano-germânico Sistema centrado no BGB. no Código Civil. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil.Existem. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade. regras. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. Não se quer que as pessoas. 457º. O legislador optou por emitir leis avulsas. XIX. Protegem-se as pessoas contra si próprias. todavia. O Direito das Obrigações alemão é líder. 942º. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. 2. renunciem aos seus direitos. doutrina. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. prescrição. No entanto. não depende da sua fonte – o negócio jurídico. A validade de um cheque.. 994º). Se a fonte for inválida. baseada num conceito vago. ex. A codificação da boa-fé. é abstracto. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. antes de terem as coisas. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. vários artigos em que podemos detectar esta orientação. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. É muito difícil mexer nele. O Direito das Obrigações é super estável. O Direito civil é muito estável. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. Resulta do movimento da pandectística. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. que merecem reforma em Portugal. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. O BGB é de 1900. 812º. transposição de directivas comunitárias. A responsabilidade civil é fechada. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. 863º. Foi muito pouco mexido. Mas há zonas periféricas. p. 809º. daí tal importância.

Há pouca influência romana. O Código de Seabra é. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. surgem institutos até então desconhecidos. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. Há união entre religião e Estado. no entanto. entre os conceitos desta família e os das anteriores. 4. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. O Código não é de inspiração alemã. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. Mas foi uma novidade científica que vingou. islâmica. tal como a cultura chinesa. mantiveram-se em vigor as Ordenações. não havendo negócio jurídico separado dos contratos. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. Mas tem uma organização e conceptualização originais.3. Além da redistribuição germânica das matérias. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. sendo revigorados os já conhecidos. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. Mas. Chinês É muito antigo. Este sistema não é codificado. sendo uma enorme influência. No Brasil. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. há um período de pré-codificação. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. canónica. a partir de 1911. sequer. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. XIX. 5 . O Direito português é aberto ao exterior. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. na China não aconteceu isso. Anglo-saxónico É um mundo à parte. 5. Antes da aprovação do Código de Seabra. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. Naturalmente. Não há correspondência. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. muito avançado.

um período de exegese. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. mas havia a barreira linguística. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. vigora também o código de 1966. Na Guiné. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. As revisões ministeriais do Prof. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. tendo-os traduzido para chinês. ainda em meados do séc. Em Macau. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. Tem influência germânica e do Código de 1966. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. como membro da OEA. O Código de 1966 vigora actualmente. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. O CC de 1916 tem já influência germânica. O português era a segunda língua. Em Timor. Em África Em Angola. numa segunda fase. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem.No Brasil Na doutrina brasileira. numa primeira fase. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. Todavia. Ele é de 1966. O Código brasileiro aparece só em 1916. Foi necessário recomeçar. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). Em Cabo Verde. sendo substituída pelo inglês. houve maior inteligência política. quando ocorreu a ocupação. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. 6 . depois da aprovação. Antes da entrega de Macau. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. marcaram as primeiras reconstruções do CC. com algumas alterações após a independência. logo em meados de oitocentos. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. O Prof. voltou a vigorar o Direito português. Há algum atraso na sua aprovação. Com a independência. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. Houve. mas começa a ser preparado no pósguerra. verificou-se a invasão indonésia em 1975. mas já havia recepção do pandectismo. foi aprovado um Código Comercial novo. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. Em Moçambique. com Teixeira de Freitas. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. XIX.

predomina o inglês. A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). etc. quantidade de falantes da língua. um pequeno país na Europa. Turquia. Assiste-se à implantação (Portugal. língua. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. ganha pelo mérito. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono. Quanto a autonomia doutrinária. Há as directrizes e os regulamentos. de Common Law. mesmo quando escritos em inglês. a grande influência. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. O Direito lusófono não tem só essa influência. Nas obrigações. até. p. As regras sobre a moeda única. O caso português é singular. De um modo geral. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). Coreia do Sul. na área dos negócios e nas relações entre povos.. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. não havendo confusão com os sistemas da pandectística. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. Ciência do Direito. francês e alemão. Japão. hoje. que suportou a nossa independência. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. 7 . a directriz não vigora. Em termos planetários. É um Direito que tem uma evolução histórica. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. Mas havia uma grande projecção ultramarina. evolução histórica. Todavia. Se não o fizerem. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong.) de sistemas próximos do germânico. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. Mas na área do Direito não é assim. ao contrário do que acontece no Direito português. O Prof. também com as operacionais: inglês. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. foi do Direito alemão. estão em causa relação inter-pessoais. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. entre interpretação e integração. ex. uma enorme barreira linguística. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira.O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. Brasil. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. que é do final de Oitocentos). Mais tarde. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial. é diferente. Cumpre saber que língua é utilizada. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. Somos. provêm de regulamento. não são de common law. No Direito francês há distinção. Há 23 línguas oficiais na Europa. Há. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação.

havia um domínio de alguém sobre outrem. e não a totalidade. dada a insuficiência da língua inglesa. quando existia obrigação. Fala de um bem a prestar. nem uma política externa comum. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida.No tempo do ius commune. Esta noção presta-se a críticas. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. como a falta de competência dos órgãos europeus. 8 . Antigamente. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. era o poder da vontade. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. Nós. No plano oficial. Não teve consequências. há 500 milhões de pessoas. juristas portugueses. O direito subjectivo. Se A tem direito. ele começa a desaparecer. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. MENEZES CORDEIRO. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. O melhor Direito é o interno. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo). Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. O Prof. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. mas com exagero. havia um Direito europeu das obrigações. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. não há um Governo europeu. intra muros. há muitos constrangimentos. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. Para o Prof. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. No espaço europeu. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. forçar a vontade humana. para SAVIGNY. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. a vantagem é o bem que será prestado. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade.

todavia. no início. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra).Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. As pessoas morriam. as obrigações são cumpridas. independentemente de ser cumprida ou não. Na prescrição. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. Primeiro. obrigações. Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. 9 . o dever é sempre um constrangimento ético. Pode haver obrigações sem prestação. No séc. um direito ao património do devedor. Ela. assentes apenas em deveres acessórios. Se o devedor não cumprir. já é um valer em si. mas as suas obrigações permaneciam. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. Os romanistas diziam que não havia. surgiu a respondência. extingue-se a haftung. sim. Em regra. surge a nova noção de obrigação. mas o seu património. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. Há. Assim. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. XIX. independentemente de terem culpa). pelo que é excepção o recurso ao património. pode-se atingir o seu património. Depois. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. Pode ser um facere ou um non facere. A ideia remonta ao antigo Direito romano. A obrigação não é apenas um bem a prestar.

MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. com o credor e vice-versa. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. A obrigação do fiador é secundária. 10 . noutros ainda. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. só. sabe-se hoje. Se são. A prestação pode não existir. Estas construções são úteis. linguística. outra concepção diz que há um direito real de garantia. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. a responsabilidade é patológica. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. por si só. com dois regimes). colaboração. O regime é solicitado para um tratamento unitário. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. não interessam. O credor fica adstrito a deveres de segurança.. Se o devedor principal não cumprir. tratado mais à frente. noutros. Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. é o fiador que deve cumprir. não podendo servir para construir. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. em termos pragmáticos. Se é assim. pode ainda não existir. A obrigação pressupõe um dever específico. O BGB já não exige natureza patrimonial. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. Mas. pelo que obrigação não é uma prestação. Em certos casos. não tendo interesse para o Direito nesse caso. deveres secundários e deveres acessórios.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. pode haver nulidade. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. um conceito de obrigação. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. compreende um dever de prestar principal. A obrigação. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. etc. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. Se não são.

O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. o 398/2. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. 11 . há ressarcibilidade dos danos morais. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). mas pode receber dinheiro. acção directa. Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. Direito.Se um artista se obriga a entoar uma ária. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). à partida. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. há sanções pecuniárias compulsórias. Não tem de haver natureza patrimonial (398º). não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. O 397º define obrigação. 2ª parte remete para o interesse. não necessariamente em todas as situações. O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). compensação – e não de equivalência. mas havendo danos. Hoje isso não é assim. pode haver responsabilidade pela deferência. tem conteúdo económico. É assim ao nível global. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). Pode haver execução específica. Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. boa educação) que não relevam para o direito. de sistema. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. As relações de obsequiosidade não são. Tudo pode ser avaliado em dinheiro. Como são ressarcíveis. ela é avaliável em dinheiro. o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo.

Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. não. A obrigação é uma relação jurídica. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. Se a prestação for um serviço. O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. Quanto aos acordos de cavalheiros. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. Assim. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. Os créditos não são sempre relativos. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. duas partes. A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. contrapondo-se aos direitos reais. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. há figuras como a execução específica. Nas obrigações. relações de vizinhança. Deve-se sempre perguntar qual a origem. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social.Há também deveres de protecção. são para cumprir – se não forem. Esta noção vale o que vale. encontramos sempre uma dança a dois. 12 . Em obrigações. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). Podem fazê-lo? Em princípio. Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. que são absolutos? Em termos estruturais. o direito real é uma situação absoluta. seria sempre necessária a mediação. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. mas não se pode retirar daí uma regra. Uma última. Os direitos potestativos são absolutos. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. A convida B para dançar. o que tem de surgir é o serviço. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. a relatividade existe quando há relação jurídica. no caso dos direitos reais). Em direitos reais há só uma. Os acordos de cavalheiros são relevantes. há créditos absolutos. por exemplo). Noutra acepção. nos direitos pessoais de gozo. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. absoluta. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. mas não se pode esfarrapar o par de dança. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. o credor aproveita imediatamente a coisa. erga omnes.

Mas há também deveres no tráfego que. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). Mas inverteu-se a tendência. Faz sentido que haja defesa contra terceiros. É o que acontece com os chamados deveres de tráfego. A nossa jurisprudência acordou em 1964. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. Havia uma quebra maliciosa do contrato. ex. A doutrina tem evoluído nesse domínio. em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). 13 . Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. No sentido forte. Deveres acessórios. Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. Se é assim. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. pode existir oponibilidade em sentido forte. Há uma acção. a externa é perante terceiros. o que lhes daria uma tutela relativa. Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. relações jurídicas. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão. p. com MANUEL DE ANDRADE. Na Alemanha diz-se que não. A eficácia interna é entre credor e devedor. PESSOA JORGE).A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. a figura do terceiro cúmplice). Há contratos com protecção de terceiros. com os pactos de preferência. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. A regra é de que a eficácia é meramente interna. As obrigações são vínculos. Mas há outras regras. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. médio ou fraco.. então há oponibilidade média. que se manifestam predominantemente perante o devedor. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. Se é assim. No início. Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. se incumpridos. dão lugar a responsabilidade civil. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”.

Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável.  Diz que existe numerus clausus. Está tudo ligado. Se existe uma descrição típica das condutas. um terceiro faz-se passar por credor. Mas esses não se aplicam a terceiros. Isso em princípio. países que admitem a figura. aplicam-se os artigos 798º e ss. O Direito objectivo. Só pode estatuir com recurso a tipos. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. protecção jurídica. Se A contrata com B. proíbe autotutela. não estão assim tão mal. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. as economias britânica e francesa. ao atribui direitos subjectivos. mas há várias vias para o conseguir. há responsabilidade. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. Argumentos a favor. pois. Num ramo típico. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. os factos são descritos concretamente. Quando a lei recorre a descrição da realidade. diz-se. Se ele for atingido. em princípio inatingíveis. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. Isso justifica-se em ramos agressivos. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal).  Diz que está proibida a analogia. é muito mais restrita. O terceiro não pode. há um numerus clausus – o número de factos é finito. Noutros casos é mesmo normativa. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida. recorre a tipos – tipicidade. O legislador pode dar uma série de exemplos. Contratar-se-ia menos. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. não havendo lacuna. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. Há tipicidade exemplificativa. como o penal ou o fiscal. Outros dizem que só o devedor pode incumprir. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. Dá. Quando existe uma previsão normativa. Quando existe um devedor. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. 14 . descrevendo as condutas. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. Todavia.

de facto. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. o regime tem um desvio. Mas tem regras especiais. também. ao contrário. por via de condicionalismos históricos. etc.). um princípio de tipicidade. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. tipicidade exemplificativa. por conjunções históricas. p. O contrato de trabalho é um contrato como os outros. venire contra factum proprio. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. O conteúdo distingue-se do objecto. O conteúdo das obrigações é sempre. em princípio. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. ex. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. Há. O mediato é também designado por objecto. Autonomizou-se do Direito das obrigações. Há tipicidades de tipo científico. O Direito comercial é outro ramo especial. Nas obrigações isso não existe. Há. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. Mas existem muitas obrigações nessa área. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. um direito e um dever. Obrigações. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. Aí. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. tudo é parecido com o Direito das obrigações. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. direito a uma coisa corpórea. invariavelmente. Isto é o núcleo duro – há desvios.Nos contratos há descrição abstracta. Os direitos reais têm. aqui. É muito especial. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. obrigações naturais. Há situações de direitos reais que. 15 . não há numerus clausus e pode haver lacunas. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei).

São instrumentais em relação a ela. apenas de fazer tudo ao seu alcance. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. Por vezes. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. Só é exigível que se esforce até esse ponto. as partes pretendem uma determinada conduta. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. Seguem o regime da prestação principal. Não se obrigam a resultados. É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. É o homem médio. É o critério do bonus paterfamiliae. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. Ex. A prestação principal é o núcleo da obrigação. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção.). O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. por um esforço de análise. São prestações que complementam a prestação principal. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra.: o médico não tem obrigação de curar. Foi o critério escolhido pelo legislador. 16 .) e a aquiliana (483º e ss. mas à prestação de um serviço com determinada diligência. Todavia. Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). é um homem médio colocado no caso concreto. tendo em conta as circunstâncias do caso. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). noutras pretendem o resultado. Temos de saber o que é exigível. Uma prestação inclui necessariamente o esforço. Não se trata de um non facere. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. Se se comportar abaixo da bitola. tem culpa. De dare. aquilo que for normal num homem médio. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei. De pati. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece. As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. A de dare consiste na entrega de uma coisa. Podemos. O devedor está obrigado à diligência média. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta.

O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. só depois a indemnização. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno. O legislador quer primeiro cumprimento. são soluções para problemas novos. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. rerum sic stantibus. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito.. etc. A indemnização é uma consequência de segunda linha. segurança. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. A culpa in contrahendo. possível. é preciso cumprir de boa fé. determinável. Os deveres acessórios são imprevisíveis. contratuais e pós-contratuais. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. A base legal é o 762/2. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. mas há deveres acessórios pré-contratuais. depois a reconstituição natural. 17 . informação. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. Substancializam a obrigação. Não basta cumprir a obrigação. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita. Como decorrem da boa fé. integração de lacunas. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. Está em causa o princípio da tutela da confiança.O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. nos deveres acessórios são ambos. a obrigação é uma realidade muito complexa. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. Podem ser deveres de lealdade. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo. tal como se não cumprir o dever acessório. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida.  Círculo externo. observando os deveres acessórios. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia.

5. mas são regularmente utilizadas no sector. Não é o mesmo que coisa fungível. relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. 4. 3. prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis.Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. atípica resulta da autonomia privada. ambos).  Obrigação de abstenção (simples. A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. ex. nas mistas há vários deveres. A regra é da fungibilidade. Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. Em princípio. trata-se de obrigação complexa. Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples). Se sou obrigado a recorrer a perífrases. Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente. se consigo exprimir com uma única expressão é simples. uns relacionados. porteiro. combinadas quando estejam associadas a direitos reais. suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei. Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. 2. etc.). Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. na relativa há.). 18 .  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). como concessão. Absolutas. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). p. transferência de propriedade. outros não. Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos.

É necessário. O conteúdo tem de ser sempre. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. 19 . surge na periferia. Não se extinguem com o cumprimento. E relações perpétuas. Obrigações duradouras Partimos da prestação. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. o principal. Tipos de obrigações 1. sob pena de nulidade (280º). em que havia obrigações perpétuas. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. O DL 178/86 trata da cessação da agência. Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. para tutela da confiança. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. Implica especialidade quanto à sua cessação. As questões sociais vieram pugnar por protecção. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. claro está. pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. ao contrário das obrigações comuns. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. e outras que se cumprem no tempo. Se fosse logo satisfeito. Hoje. É um contrato em especial. A retribuição é a renda ou aluguer.6. A denúncia. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. pelo menos. um pré-aviso. determinável. O Direito civil é um direito prático. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. O Prof. como reacção ao regime feudal. com dilação temporal juridicamente relevante. também. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. mas pessoais. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. entre o agente e o principal há relação duradoura. era instantânea. não obstante. quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. se tiver poder de representação celebra também os negócios). As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. Há lacuna. Havendo agência. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. A denúncia seria um dos esquemas. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). forma de cessação de um contrato duradouro. 2. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se.

Há bloqueios ideológicos. por exemplo. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário.  Congelamento das rendas.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção). etc. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II.No arrendamento domina a autonomia privada. trânsito caótico. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. 20 . Se é assim. XIX. O 1743º do CC francês determina que. Se houver inflação. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer. havendo transmissão da coisa arrendada. Chegou-se a um regime vinculístico. Logo. A solução de quem chega ao mercado é comprar. políticos. Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. Surgem teorias mistas (entre nós. Quanto mais baixa a renda. é figura real o direito de locatário. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas. No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. mas também não chegou a bom porto. Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. maior o lucro do trespasse.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio. económicos. centros das cidades abandonados. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. menor taxa de natalidade. porque ele é sempre real). Em 1990 tentou-se de novo. com a industrialização e grande pressão urbanística. actualizando as rendas. Nos finais do séc. É um direito real. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real. Chegou-se a este panorama aos poucos. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. Em 2006 houve um projecto. Há subúrbios. Obrigação de deixar usar? Seria negativo. Mas também não explica o que é o gozo.  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). contraindo empréstimos. XX. surgiram fenómenos e problemas de natureza social. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos. inícios do séc. impedindo actualização das rendas. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. Em 1985 tentou-se reformar. para o futuro). as rendas vão degradando.

defender o seu direito face a terceiros. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. tendo um direito de preferência sobre a coisa. como direitos reais. Uns são pessoais e outros são reais. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. Obrigações naturais É figura muito estudada. A pessoa estava obrigada a fazer algo. Estabelece que prevalece o direito real. o que os aproxima dos direitos de crédito. já que é ela que as explica. Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. Era um débito sem respondência. mas sem shuld. 3. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. Mas mudou de ideias. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. O Direito dizia que ele estava obrigado. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. Admitese a existência de direitos de gozo. na locação. o locatário pode fazer obras. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. em regra. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). Em geral. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. Não tem uma grande relevância prática. Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. pois. A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. porque não era uma pessoa. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. Seguem. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. de forma similar aos direitos reais. entre os direitos reais e os de crédito. Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. nesta matéria o regime dos direitos reais. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). por ser figura próxima do direito de crédito. no conflito com outros direitos.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. com recurso aos tribunais). Mas pode ser integrado no Livro II. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. 21 . é histórica. pelo que ele se pode defender sozinho. Essa tese é inaceitável. Comportam-se. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. Juridicamente não tinha personalidade.

mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. Aparentemente. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas. Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. não posso pedir devolução do que paguei. No período medieval. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais.  Não exigibilidade judicial do cumprimento. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei. Não podem ser constituídas por contrato. com base no 404º.  O 404º. A justiça é aquilo que o Direito consagra. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. não têm valor patrimonial. Hoje. etc. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. Se eu pagar. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. jurídica. Ser jurídica é estar prevista como obrigação. diferente de um Direito moralmente enformado. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. Noção legal (402º). Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula.. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). A obrigação natural deve ser. Todavia. transformando-as em naturais. pois. Não pode ser exigível judicialmente. Em tudo o resto. mas também as obrigações 22 . porque elas são típicas.  As obrigações naturais são típicas (809º). Esta matéria está regulada no 402º. Havia ligação entre o Direito e a moral. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. não jurídicas. a moral é uma coisa e o Direito outra. Tiveram uma evolução muito atormentada. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. etc. Mas são aqueles os dois momentos cruciais. É jurídico. diz-se por vezes.A isso chamaram obrigações naturais. sociais. aplica-se o regime das obrigações civis. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. A lei. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida. Isso não é verdade. As obrigações naturais. Mas isto não pode ser.

Deve-se escolher a coisa média. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. Só se determina o género. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. 23 . quantidade ou qualidade. há obrigação genérica. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). No Direito romano eram desconhecidas. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. escolhe o devedor. Desde que a coisa a entregar não seja única. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. dare ou pati. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. As obrigações genéricas são muito importantes. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. se nada for estipulado. Não é o sentido do 400º. que podem ser de facere. o critério é o da mediania. rege o favor debitoris. 4. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. com a massificação das transacções. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. há uma lacuna negocial. O problema que surge é o da determinação do objecto. Não havendo convenção. o critério deve ser o da mediania. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. Ele é determinável mas não está determinado. podendo ser qualquer litro de azeite. A escolha e o risco O 539º estabelece que. dando lugar a obrigações genéricas. Os contraentes podem estipular diferentemente. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. Logo. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género.civis podem não ser cumpridas. Na falta de acordo. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. é fungível.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

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7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

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A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. mas complexa. Existe uma presunção de igualdade das quotas. de modo a assegurar o cumprimento. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. Ao contrário da parciariedade. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. 27 . implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. MENEZES CORDEIRO defende que. Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. Os vários sujeitos têm relações entre si. que é sempre singular). a regra supletiva é a da solidariedade. Quando vão cumprir.noção. Em resumo. O credor só pode exigir de cada um essa parte. É um regime mais duro para o devedor. todos têm de prestar ao mesmo tempo. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. os credores). seja porque existe expressão linguística unitária. para proteger o lesado. isso não multiplica a obrigação. No Direito comercial. Nestes casos. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. quando há vários sujeitos numa obrigação. porque também temos de tratar das relações internas. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. há outras que só o são se as partes acordarem. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. Presume-se que as partes de cada um são iguais. Há obrigações que são à partida divisíveis. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. seja porque o regime é unitário. um concerto de orquestra. É só uma. Rege o 512º . cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. a lei estabelece solidariedade. por exemplo). O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota. Na prática. Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. na falta de estipulação em contrário. Aumenta a garantia do credor. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro.

Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. não sendo nem uma nem outra. São duas fontes fundamentais de obrigações. Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. p. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. aqui. ex. alguns anos depois acrescentou uma figura residual.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. quando alguém contrata a solidariedade. A lei poderia ser fonte de obrigações. já que o fraccionamento é feito posteriormente. uma classificação das fontes. 28 . Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. só dele (não os meios pessoais de outro). Eram fontes que. p. Precisa de um facto jurídico para nascer. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. há “gato”. No período da pré-codificação francesa. Normalmente. se não houver outro acordo. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. é natural que existam meios de defesa dos devedores. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. Também existe. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. Na solidariedade há co-devedores. ter duplo aproveitamento. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. Uma prestação pode. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. um A. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. ex. tem regime diferente. Surgiu o esforço de sistematização. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento. É uma bipartição importante. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. ex. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. significa que há alguma coisa a mais. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. p. tal como os direitos reais. acrescentou a lei. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. um credor e um credor pignoratício. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. pessoal seria a prescrição. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. Mas é uma pluralidade heterogénea.). A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. presunção de igualdade (516º). o do devedor e o do fiador. à estatuição de uma norma.

Faz-se. O que se deve.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. Há um encadeamento. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. apesar de não haver classificação qua tale. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. como se usou em 1867 e 1966. que é comum a todos os direitos europeus. 29 . Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. mas enumeração. a partir do 405º. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). ex. todavia. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. a melhor técnica é a tipológica. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. o enriquecimento sem causa. Em termos estatísticos. O Código de Seabra faia um elenco original. Mas ele é mesmo muito reduzido. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. no tempo e no espaço. O direito privado tem 2000 anos. Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. em vez de adoptar a repartição tradicional. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. As divisões não significam. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. nuns e noutros a mesma coisa. enquanto a lei é norma heterónoma. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. referência à tetrapartição. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. Já nos sécs. É difícil unificar. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes. então.). desde logo. O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. enumera-se o contrato. o negócio unilateral. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. Enumera algumas fontes. de se autodeterminarem. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. Com o CC de 1966 também não existe classificação. p. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. a gestão de negócios.

Passava a ser vinculativo por isso.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. com SAVIGNY. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. É um diploma bem feito. Daria frutos no período jusnaturalista. A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. vai na direcção do contrato. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. No Direito da Família também: contrato de casamento. No Direito sucessório é mais raro. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. o próprio contrato perde espaço. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. É necessário que haja propriedade. Os romanos conheciam figuras equivalentes. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. O contrato tem um papel muito alargado. em lei de Maio de 1352. se a sociedade é subdesenvolvida. consensual – basta haver contrato. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. O socialismo ataca o contrato. O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. Menezes Cordeiro. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. para o Prof. mas existe pacto sucessório. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. surgindo os contratos que hoje são básicos. o contrato está sempre subjacente. nas Obrigações é o contrato. está em crise. O contrato valia por si. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. É importante considerar o canonismo. É o sistema de tipo francês. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. já o negócio obtém-se pela razão. tem menos aplicação. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. manifestação da importância do contrato. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). a bona fides perderá o seu significado. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. de acordo com a escola histórica e a pandectística. D. O contrato. diz-se muitas vezes. Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. Dá-se uma grande explosão. Dinis. mas se lemos artigos sobre negócios. O CCP trata da matéria. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. 30 . Assim. igualmente. Mais tarde. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual).

O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada.No séc. pois. plurais. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força. seguros. 31 . Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. O contrato é. no artigo 8º/2. racionalidade. à partida. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. incluindo direitos de créditos). A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. Graças às convenções internacionais.  Intervenção judicial nos contratos. Todavia. Se a lei não dissesse nada. É óbvia. valores mobiliários. O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos. Não houve. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. os observadores previram explosão dos contratos. não se trata de um recuo do contrato. etc.). Tecnicamente.  Áreas reguladas. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. não relevaria: eles devem ser cumpridos. pecuniários. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados.). Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos. É uma visão pessimista. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico. O 56º/3 garante a contratação colectiva. Tutela constitucional do contrato A CRP. Mas isso não aconteceu. mas de certos contratos. O contrato é um véu que tapa os olhos.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação. diminuindo a liberdade contratual (banca. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português. Com a queda do Muro. pelo menos para coisas úteis. etc. O contrato tem peso em si. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. porque não foi necessário. necessidade de consagrar na CRP. como o da boa fé.

por vezes. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. 32 . bem como diminui as dúvidas. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. consideradas mais sensíveis. fica fragilizada. É distinção relativa. mas a lei não o disciplinou. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. no entanto. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. Pode haver tipo social e tipo legal. é nominado mas atípico. Segundo. Todos os negócios são contratos bilaterais. o contrato é bilateral. maior equilíbrio. O contrato de hospedagem. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. vindo a aperfeiçoar-se. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. Consensuais. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. Quando a lei não lhe dá um nome. Terceiro. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). nominados e inominados. 3. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. Fala-se. 5. regulando com especialidade. em princípio também não o regula. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. 2. não dá para classificar em abstracto. Perante o conceito de negócio jurídico. reais quoad constitutionem e quoad effectum. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada.1. Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais.

Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. As partes querem dar. podemos distinguir entre negócios típicos. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. as partes têm liberdade de celebrar livremente. O estudo desta matéria não é fácil. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. hoje. Em regra. 33 . Há. em regra. querendo. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. no entanto. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. Há 16 contratos regulados no Código Civil. Os gratuitos são. uma delas não fica obrigada. Fica com o direito potestativo de. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. passa entre as gotas da chuva. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. a parte geral é muito restrita. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. Nos monovinculantes há duas partes. 6. Embora o 405º seja muito abrangente.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. O problema é que. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. Tendo em conta este facto. À luz do 405º. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. Tipologias de contratos Contratos típicos. se as partes celebram contratos mistos. 7. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. A generalidade das normas é supletiva. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. atípicos e mistos Os negócios jurídicos. O problema é que. É diferente da vinculatividade. tendo em conta o relevo de que se revestem. solicitar ao outro a efectuação da prestação. É sinalagmático. reciprocidade. pois. uma vez que domina a autonomia privada. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei.

devolve-lha. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos. Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. não havendo uma principal. A tem dívida para com B. Não tem salário. o locador. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto.: A comprou 15 dias num cruzeiro. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. Há mistura. Ex. embora tenha havido preço.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1. aplicando todos. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. não para que se porte como proprietário. Complementados – aqueles em que existe um tipo base. entretenimento. Os combinados distinguem-se dos complementados. Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. em troca de explicações. Em troca do preço recebe um quarto (locação). Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. Isto só resulta se houver confiança. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. 34 . Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante.: A recebe habitação. Ex. Ex. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. O resto é extra. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção). 2. B tem de guardar a casa enquanto A não paga. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho.: A compra por preço muito baixo. o negócio aproxima-se da gratuitidade. etc. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa. comida. comida. 3. os serviços de limpeza. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. mas como tendo a casa como refém. na prática. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. A autonomia privada é o pano de fundo.: A arrenda um quarto a B. que absorverá os outros. Ex. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. que lava também a roupa de cama. cama. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). quando acabar. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. próprias de vários contratos. mas recebe em géneros. 4. Não pode ser um mero pormenor.

Hoje. No caso do porteiro isso é evidente. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. O que é específico é a marca. por analogia. Há semelhança entre a agência e a concessão. é também acompanhado de distribuição. e também com a agência. acabavam os centros comerciais.2. o arrendamento tem muitas normas imperativas. nomeia concessionários. Aqui. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. O limite é o das normas imperativas. aplica-se essa solução. Pode. mas o contrato é usado para uma função diferente. É contrato de agência que foi encontrado. segurança. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. aplica-se o regime do tipo x. A solução foi a da analogia. P. a outra também. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. se na lei houver solução. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. Mas não é normal. 35 . Em Portugal. O método foi o da analogia.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. gestão do centro. então celebra-se o y). Quando há lacuna contratual. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). ex. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. 3. no entanto. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. é esse que se aplica. Se não for suficiente. Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. a solução também foi a da analogia. 4. O promotor é remunerado através da renda. mas os serviços que o centro proporciona. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. aplicam-se as regras desse tipo. A seguir temos de resolver com analogia. Se ele corresponder ao tipo x. Quando nada se diz. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. sem intenção de enganar). de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. publicidade. a primeira solução é a da vontade das partes. para que os distribua. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). Pode haver várias funções: simulação. a quem entrega os bens. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. tal como o da vontade das partes. Mas isso é raro. Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. bem como sinergia do ponto de vista económico. é uma área vinculística. Recorre-se ao regime da agência. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. o combinado e o híbrido. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. Regra geral.

se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. O fiduciário é proprietário. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. em benefício de quem a entregava. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. No Direito português. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. O fiduciário é de execução prolongada. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. ao contrário do alemão. na contratação alternada valia ou um ou o outro. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. interna e alternada. aplica-se o regime correspondente. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. teremos uma figura real não prevista na lei. Mas o Prof. Mas. São óbices consideráveis.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. Se ela tem natureza real. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. Quem recebia a coisa com fidutia. o fiduciário. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados. porque doações de bens futuros não são permitidas. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). não permite divisão da coisa entregue. O fiduciante é só entre outros. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. já que o Direito existe para proteger os fracos. Procura-se o centro de gravidade. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. M. Ele é permitido se não violar regras imperativas. Se for à falência. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. mas para o de terceiro. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. a fidúcia é muito violenta para o devedor.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. 36 . Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. era o proprietário da coisa. Descobrindo-o. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia.

830º. a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). Há muita jurisprudência sobre isto. por exemplo. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. tem eficácia real. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. devia ser celebrado por escrito. Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. Mas nunca é irrelevante. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. Importou do BGB a execução específica. 37 . Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. execução específica). já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. A promessa por escrito era válida na hora. A celebração de uma escritura pública demora tempo. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. para o sinal. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. homogéneos e heterogéneos. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. dependentes e independentes.. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). É matéria tratada em três sectores (410º e ss. sem recorrer à escritura pública. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. No Direito português tem grande importância. de tipo processual. rege nos contratos mistos. de tipo não processual.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). Segundo o Código de 1867. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. sendo diferente o regime. a promessa valia apenas como prestação de facto. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. Hodiernamente. há centros de gravidade múltiplos. causais. A figura da absorção. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. É uma ideia relativamente recente. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. 442º. O contrato prometido e o contrato definitivo. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente.

. 4. sobre a entrega. Meramente obrigacional. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. 38 . Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. Mitigada ou mitigadora. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo). É a função preparatória. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. não podem ser objecto de promessa. uma vez prometido. É um formato. Desformalização. etc. 2. Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. regulativa autónoma. p. Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. por vezes. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”. financiamento. Por vezes. na promessa tem de haver negociação). Quanto à prometibilidade fraca. O contrato-promessa distingue-se da proposta. P. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa. ex. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. 3. um modus vivendi. os contratos são dotados de prometibilidade forte. Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. do contrato preparatório material. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). do exercício de preferência. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. é possível a execução específica no caso de incumprimento. na promessa sabe-se). acabamento da coisa. Regulativa autónoma. ex. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. do convite a contratar (A solicita a B que contrate). do dever legal de contratar. Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa.). no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. um modo geral de celebrar outros contratos. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. Como no Direito alemão. tendo isso em conta.As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. 1. É usado. 5. transacção meramente obrigacional. Regra geral. para preparar o contrato definitivo. desformalização. Há contratos que. mitigada. Função preliminar. Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo.

não é possível qualificá-lo como contrato-promessa. É verdade que existe um regime jurídico. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. se não houve entrega da coisa. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. à partida. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. o que está em causa não é a regulação de um contrato. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. 39 . como executo? Os clássicos diziam que não era possível. imperativo.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. mas que tinha um regime especial. a proposta ainda não foi feita. Isso não é correcto. também não há uma regra expressa que o diga.. É um contrato à parte. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada. O nome é parecido. mas a situação subjacente é diferente. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. etc.) que conduz à possibilidade de revogação. Não vincula o promitente a doar. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. do 1591º e SS. etc. Não se trata de um contrato-promessa. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. Com o não cumprimento. mas ineficaz quanto às prestações principais. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. Isso não vem na lei. às consequências pela ingratidão. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. Mas. No contrato-promessa. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. a obrigar a algo que poderia revogar. Pode fazê-lo. estão nos antípodas. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. O problema é que. diferente do regime do contrato-promessa. Não há contrato-promessa de doação. até é possível haver excepções ao que se disse. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. tendo em conta o regime. e o outro não cumprir. proximidade.

MENEZES CORDEIRO em princípio. nos termos do 293º. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. Uns defendem a redução. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. A questão das assinaturas é meramente formal. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. Estipulações acessórias são válidas. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. não se precisa é de assinar. autêntico ou particular. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. outros a conversão. aplica-se a regra geral. Na normalidade dos casos. Se for livre também o contrato-promessa é livre. O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. para ser quantos se obrigam. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. 40 . a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. O 410º/2 regula a forma.Hoje em dia. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. Se o documento é a materialização do acordo. tendo enorme relevância. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). Para o prof. Se para o prometido for necessário documento. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. Não haveria problema de prova nem dúvidas. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. o regime é o do 219º liberdade de forma. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. em regra o promitente alienante. é preciso o acordo de ambas). Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. Mas isso é errado. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. A conversão. é a solução. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. Assim. Por isso. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. Na prática. ainda que não tenham as duas assinaturas. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. não se entende porque só um assina. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante.

41 . As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. Este princípio. este deve adquiri-la. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). Nestes casos. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. o regime é o da reforma de 1986. Admite que. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. Trata-se. Obedece a normas: os princípios da correspondência. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. em certos casos.Mas não é fundamentalista. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. no 3. p. concretização e boa fé. ex. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. com excepção das relativas à forma e as disposições que. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. possa reduzir-se o negócio. Neste momento. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. a se. Pode ser paralisada através do abuso de direito. Surgiu na década de 1980. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. Se a promessa for monovinculante. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. A parte geral também tem regras. por sua razão de ser. também. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. Havendo contrato-promessa. Há. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. se nada disserem. integralidade. ficando com um contrato-promessa monovinculante. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. havendo grandes atropelos ao direito. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. MC sugere a ideia de modus contrahendo. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. de invalidade mista.

Isto é uma trapalhada. O definitivo está previsto no contrato-promessa. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss.). Legitimidade. se o contrato-promessa permitir. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes. se forem válidas e eficazes. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé. violação de deveres acessórios. Se não houver. À partida. O incumprimento extingue a prestação principal. O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. Pode haver uma impossibilidade superveniente. inclui-se a coisa no cumprimento. Muitas vezes há AA. lugar. etc. pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). devolve-se em dobro.. local. o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. Incumprimento há quando.). Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. aplica-se o 280º. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). etc. pode haver resolução. Se houver situação de mora. violação positiva do contrato. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação. que resolvem inovar. Pode haver recusa antecipada a cumprir. há inadimplemento. Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). uma via crucis. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. se não for cumprido. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º). e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. Ou há mora. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. Pode acontecer que seja lacunar. mantendo-se o contrato-promessa. Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. se for cumprido. Se isto não for possível. O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo. a lei prevê a interpelação admonitória. o faltoso é o que não cumpre. prazo. imputação. O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. não foi. MC entende que isso não pode ficar assim. impossibilidade superveniente. alterando as palavras. 42 . O promitente fiel é o que é prejudicado.

penal. Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. no entanto.No Direito grego antigo. a indemnização já não é o sinal em dobro. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. A ideia era: como a inflação é muito alta.  Quando há tradição da coisa prometida. O problema viria a ser resolvido em 1986. Assim. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados. Houve várias propostas para resolver a situação. Tornava-se compensador não cumprir. Afastouse a possibilidade de execução específica. Quando metido no contrato-promessa. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. o sinal ganha coloração particular. Quando mexeu no 442º. se houve incumprimento. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. Enganou-se e mexeu em tudo. os sinais deixavam de valer tanto. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. mexeu no regime do sinal. Tem um direito de liquidação judicial. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. Em 1980 havia grande inflação. faziam-se casas. se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. Assim. celebrando-se contratos-promessas. começou a resolver o problema diferentemente. vender a coisa e recolher o preço. com a inflação.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. que chegava aos 20. recebiam-se sinais. O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. o sinal tinha alcance coercivo. O retentor pode. O imobiliário estava sempre a subir. 43 . dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. 30%. mas o valor actual da coisa. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980). mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. na fase executiva. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. No Direito romano tinha um sentido confirmatório. O que estava em causa eram casas de habitação. O Governo resolveu intervir. ajudava a provar a existência do contrato. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. A jurisprudência.

Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. Assim. Tendo havido mora. Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. É uma “excepção de cumprimento”. Tentou-se. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. a favor do promitente adquirente traditário. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. O Prof. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. 44 . Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. Em 1986 o legislador interveio novamente. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. Quem é prejudicado é o promitente adquirente.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. não há logo incumprimento definitivo. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. doutrinariamente. exige mais garantias. ele é deduzido do preço. Assim. A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. mesmo que anteriormente registada. Houve excessos legislativos. Se houver sinal. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. congelando o direito ao valor da coisa. pela interpretação). Se houver mora. Lobo Xavier. não sendo necessária a interpelação admonitória. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção. com a solução do Prof. a primeira consequência é entrar em mora (805º). Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. Além disso. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. fixa-se um novo prazo. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. ficou consagrada a indemnização pelo valo. Tentou-se limar algumas arestas. Vários AA. ainda assim. é mais selectivo. É um esquema complicado. perderam a objectividade. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. a indemnização seria o valor actualizado da coisa. Se houver morar. O hipotecário ver-se-ia preterido.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. Todavia. introduzir correcções. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente.

deve ser tomado seriamente. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. operando o sinal. bem entendido. 3. O Prof. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. destrói o contrato retroactivamente. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. desaparece também o sinal. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. É celebrado contrato-promessa. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. É um contrato que dá direitos muito precários. A distinção é importante. Alguns autores dizem que. A resolução. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. O sinal visa uma função compensatória. O que é que as partes pretenderam? 1. se há sinal. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. 2. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. Se é esse o sentido da cláusula. Se for um representante. a troco da entrega da casa. Se resolve o contrato por incumprimento. Tradição da coisa Tecnicamente. 45 . Um contrato de comodato. tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. Pode ser uma gentileza mais demorada. O contrato-promessa já é um contrato misto. É verdade.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. É uma posse muito elementar. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). Se for possuidor tem defesas possessórias. quando haja incumprimento. Assim. É posse semelhante à do arrendatário. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. no entanto. Neste momento. porque tem uma cláusula daquelas. A menos que. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. o que deve fazer é resolver o contrato. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. No Direito funciona-se com prazos. não há posse.

O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. Contudo. pelo que há entrega da coisa. A solução mais normal é a execução específica. Já está tudo pago. seria impossível apresentar-se a cumprir. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. 46 . Se de facto houve perda do interesse. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966. Estamos perante um facto. para além da tradição. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). é muito difícil determinar a indemnização. também. Se tivesse havido incumprimento definitivo. soluções alternativas à indemnização. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. já vinha de trás. Leva ao mesmo. Quando se trata de acções humanas. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. por maioria de razão também há sinal comum. dir-se-á que não podemos obrigar. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. Mas isso já estava subentendido. A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. colocando no terreno. Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. mas não especificou. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). Foi uma ideia prussiana. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). Assim. Se há excepção do cumprimento. através dos seus meios. Consoante o tipo de posse. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. houver sinal. Se houve. O interessado pode ainda optar pela execução específica. muda o regime. Assim. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução.4. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. houve incumprimento. Passa até à frente do credor pignoratício. Em 1980 o regime foi alterado. Aqui temos posse em termos de propriedade. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta.

Conquanto que o conteúdo seja determinável. A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. em 1980 o legislador foi desastrado. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo.  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. Aí. Não valerá a pena recorrer à execução. Simplesmente. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. O tribunal não emite. no momento em que é decretada a execução específica. Nos outros a questão não se colocava. Mas nem sempre. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. Haverá consequências indemnizatórias. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. a declaração faltosa. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. é muito difícil calcular a indemnização. O Prof. verdadeiramente. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. 47 . Simplesmente. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. Os riscos são compensados pela presença do tribunal. Perante o incumprimento. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. mas vende a C. Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. as custas ficaram por sua conta. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. ex. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. Contudo. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo. contudo. p.Houve soluções doutrinárias. já que a prestação se tornou impossível.

sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. Aí já faz sentido. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. já não é de todo possível a execução. poderia ser revogado. Nessa altura. Contudo. 48 . Tem de haver ponderação de interesses. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. se verifique uma alteração das circunstâncias. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. tão pouco. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. Mas. Já no penhor ou no mútuo faz sentido. Mas a lei admite mandato irrevogável. Contudo. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. Se houver situação de inexistência. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). demissão). A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. o 830/1 admite a possibilidade. pode acontecer que. ex. O comodato pode cessar a qualquer altura. E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. Não pode haver execução de contrato que não existe. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. depois. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. Todavia. Quando seja celebrado um contrato-promessa. p. mesmo que houvesse. por sua natureza. Mas aí não cabe execução específica. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. MC entende que sim. Quando nem sequer há prometibilidade (doação.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. não se iria muito longe (despedimento. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. comodato). No caso do contrato de trabalho. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora.) também não pode haver execução. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. Não faria sentido a execução de um contrato que.  A exclusão convencional. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. Igualmente. limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. in fine).

O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. outros recusam essa solução. 49 . Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. Promove logo a transmissão da propriedade.Depósito do preço A sentença é translativa.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. mas contra o terceiro (Dias Marques). O que está em causa é que o dever seja cumprido. A outra parte pode não ter sido paga. vendendo a terceiro. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. a lei alemã permite um pré-registo. escritura pública. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. Ora. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. Se o preço não for pago há injustiça.  Há execução específica. O Prof. execução específica. Através da eficácia real conseguir-se-ia. não é norma de excepção. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade. Se não for cumprido. que a foi buscar ao Direito alemão. reforçando-se o registo. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. Assim. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. alguns entendem que cabe execução específica. ficando privada do preço. convenção expressa de atribuição de eficácia real. qual a solução? Normalmente. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. registo da promessa. Vaz Serra. Deixou de se exigir a escritura. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo.

com o contrato definitivo. apenas. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa. a contratar. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. à negação da própria promessa. De seguida. o contrato definitivo não perde em categoria. no fundo. 50 . uma vez concluída. tão-pouco é declarativa. em relação ao definitivo. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. por vezes. um acto de execução do que já estaria combinado. levar ao apagamento do definitivo. continua a ser um verdadeiro contrato. delimitando. como contrato autónoma. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. Mau grado a primazia reguladora da promessa. em definitivo. ainda que devido e pré-regulamentado. A primeira opção explicativa leva. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). tão-só. uma vez que dela nada sai de preexistente. pelo menos em parte. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. A lei proíbe. as partes regularem.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. de facto. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. Nos extremos. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. Ao celebrar o contrato-promessa. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. em função dele. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. o que esteja em causa. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. na promessa. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. no entanto. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. a execução específica não é puramente executiva. as partes obrigam-se. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria. Justamente por. Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. a celebração das promessas.

com o qual o negócio fora ajustado. quando convencionalmente estabelecido. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. 51 . A favor do comproprietário (1409º e 1410º). O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente).O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. Diz-se. isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). caso queira vender um prédio a alguém. As preferências no sistema jurídico No Código Civil. A favor do senhorio (1112º/4). pelo artigo 1535º (1901º). ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. essencialmente. o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º).  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável. caso este queira. A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. Por exemplo: o obrigado. 1519º e 1523º). a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. A favor do fundeiro (1535º). as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato. em Direito. um dia. tem. nesse sentido. De resto. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. ao preferente. O direito de preferência. perdendo a plena disposição do seu bem. desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). Da mesma forma. Em regra. A favor do co-herdeiro (2130º). deve vendê-lo. A favor da pessoa designada em testamento (2235º). antes. 1380º e 1381º). por χ. Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. pelo preço em causa.

nesta última hipótese. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real. Modalidades. a preferência real confere. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. através de uma acção de preferência (1410º/1).  A preferência obrigacional. na opinião dominante. 52 . ao obrigado faltoso. a preferência legal advém da lei. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. relativo à acção da preferência. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. violado o pacto. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau. apenas uma das partes fica obrigada. ainda e por elas. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita. ao preferente.  A opção – figura inominada e atípica. nos termos do 414º. As preferências convencionais são ora obrigacionais. a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso. observadas determinadas formalidades.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). uma indemnização.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. uma vez que a outra emite logo a declaração final. permite ao preferente exigir. consoante a opção das partes e isso desde que. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. Na segunda.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. a real. a um direito real de aquisição. não podendo o preferente fazer seu o negócio. ora reais. sejam. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. quando violada. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência. tem cabimento recorrer à acção de preferência. Na primeira. todavia.

quer autêntico quer particular. desencadeando o funcionamento do pacto. se o pacto for bivinculante (bilateral). Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. quando o contrato preferível exija documento. próprias do contrato preferível. como a de fazer a competente comunicação. de acordo com as regras gerais (219º). a menos que ambas as partes se vinculem. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. próprio do contrato-promessa. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas. ao pacto de preferência. Pergunta-se se o terceiro que. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. E sendo este o caso. à preferência. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. o artigo 410º/2. Com uma prevenção: numa situação de preferência. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. das regras aplicáveis à capacidade. de onde promanam deveres para ambas as partes. Bastaria a assinatura deste. por parte de um terceiro. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. podendo. Todavia. pretenda contratar com o obrigado à preferência. O modus praelationis. ao pacto de preferência. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. como cláusula num pacto mais vasto. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. Propõe-se a aplicação. Tendo conhecimento do pacto de preferência.  Porém. a essa luz. por definição. do princípio da equiparação. de liberdade de forma. recebem os deveres. Num pacto de preferência comum. deve-se lidar com os deveres acessórios. mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. por ele. eventualmente. é afectado de algum modo. 53 . a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. perante o Direito vigente. deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. daí resulta a aplicação.Forma O artigo 415º manda aplicar. o terceiro deve-se abster de contratar. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). em regra. os ónus e os encargos envolvidos.

perfila-se o contrato definitivo. convicto de que. a renúncia. na presença de um projecto de contrato firme e sério. Havendo vários preferentes. de pleno direito. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente. por aplicação do 410º/2. por parte do preferente.Na posse dessa proposta.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. com poderes bastantes. não o quer. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir. se não o fizer. 54 . modificações ou reticencias. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. o terceiro ficará com o negócio. A “aceitação” da comunicação para preferência. com alterações. isto é. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal. quer particular. pelo menos.  Ou o preferente rejeita. já que o terceiro não celebraria tal contrato. o contrato. uma de duas:  Ou o preferente prefere.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. por opção do beneficiário. ao seu direito. exige-se forma escrita. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou. É o que dispõe o artigo 416º/1. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que. declarando que não está interessado. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada. A comunicação não está sujeito. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). quer autêntico. o represente. envolve. com base nela. a comunicação para preferência deve ser feita a todos. esta deve ser feita ao preferente. A não se verificarem tais requisitos. e estará enganado. afinal. pelo menos. Havendo aceitação da comunicação de preferência. se vem mesmo a concluir na esfera deste. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. Finalmente. deixando o negócio para o terceiro que. ficando o contrato por celebrar.  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. por lei expressa. A resposta do preferente. Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. na mesma linha.  Ou renuncia à preferência.

As valorações subjacentes ao artigo 417º. Não o sendo. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. Existem três possibilidades básicas. quando se reporte a uma universalidade.  Não sendo avaliável em dinheiro. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos. o preferente desiste ou prefere em conjunto. 1ª parte). A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. apontam. é excluída da preferência. dependendo das circunstâncias. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. Observar-se-á. nenhum princípio de especialidade. sem prejuízo para o interessado. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode. 55 . De todo o modo. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto. no nosso Direito da compra e venda.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. ou não. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba. o contrato será seguramente único. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. ou não. o que terá que provar. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. podem umas e outros ser desagregados.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro. não o sendo. A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. Prestação acessória. pode. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. recebida a comunicação. divisível?  E não sendo divisível.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. então.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras.

Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. sem seguir o procedimento da preferência. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. esta última: trata-se de um facere jurídico. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. desde que este as acompanhe. Verificados os pressupostos. em caso de violação de uma preferência real. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). 56 . fazer seu o negócio faltoso. 1ª parte). feito no artigo 410º/2. A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. seguramente. Segundo o artigo 1410º/1. com o preferente. em termos de aquisição. nas condições fixadas.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. afastando. com isso. A prestação principal é. a todos os preferentes. os restantes: não havendo processo de escolha. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles.  Concluir o contrato em causa. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. ao preço e à identidade do requerente. A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes. moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. Havendo eficácia real. sempre. abre-se licitação. Em termos de comunicação: ela deve ser feita. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. A acção de preferência permite ao preferente.

o qual. na execução. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. por analogia. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. declarações de ambas as partes. do definitivo. na opção basta a declaração do beneficiário. Haverá que aplicar. só deverá ter lugar se uma das partes quiser. no cumprimento. a celebração.  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. 57 . passando a integrar o definitivo. por uma simples manifestação da sua vontade. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”. todavia. directamente ou por analogia. ora. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. que fixe um prazo razoável para o seu exercício. Logo. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. Direito e deveres. um verdadeiro contrato-promessa. execução e incumprimento No que toca ao optante. tendentes à conformação do contrato definitivo. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. Aplicam-se aqui. na opção. dá azo ao contrato definitivo. na conclusão. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). o titular ou o optante) recebe o direito de. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa. excepto no que tanja ao cumprimento deste. por ambas as partes. provocar o aparecimento do contrato definitivo. esta não depende da intervenção da parte vinculada. só será válida e eficaz se. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. ao tribunal. a opção cessa. A opção. da posição de contratante e do valor que ela representa.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo.  Quanto à execução. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. o artigo 411º: o vinculado pede. perante o concreto contrato definitivo em causa. por mera declaração unilateral. que exigirá. aqui.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. ele recebe o direito potestativo de.

o qual deve ser cumprido. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). Ambas as partes ficam . Funções. a cargo. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. por analogia. Assim. O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. o artigo 272º: na pendência da opção.todavia. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). por seu turno. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. surge o contrato definitivo. respectivamente.O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. com relevo para o pagamento do preço da opção. partes no contrato. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. 58 . a sua opção. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. por via dos artigo 295º e 221º/2. designadamente para a parte optante. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. há que lhe aplicar. uma das partes (o promitente) assume. Como princípio geral. a qual adquire um direito à prestação. as partes congelam as condições da venda. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. Ainda o mesmo optante pode colocar. do definitivo. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. do optante e do adstrito. dando-a em garantia ou alienando-a. que exercerá o seu direito se o entender. O obrigado. directamente. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. Actuada a opção. no mercado. No plano do seu conteúdo. natureza e aplicações Celebrando uma opção. quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. entre outros aspectos. O risco desaparece. perante a outra (promissário). antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. o artigo 762º/2 e. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. no memento escolhido. pode facturar o premio da opção. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes.

A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. do promitente. excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1). pelo contrato a seu favor. A posição do terceiro O terceiro adquire. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. porventura. especificamente. independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). 1ª parte). O regime concreto de tais prestações. A posição do promitente. a contrario e 448º/1. pelo contrário.  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal.  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem. Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro.A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. imediatamente. a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. devam ser trocadas entre os mesmos. O terceiro adquire o direito à prestação. a efectivação da promessa ao terceiro. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. o direito à prestação: independentemente da aceitação. quando esse seja o conteúdo da promessa. perante o terceiro. nessa altura. lhe possam advir da relação básica (405º). por exigência deste e do promissário. Tal permite excluir. deste cerne. As prestações que.  A de exigir. as prestações ou outras vantagens que.  A de exigir. fundamentalmente. do promitente. a prestação principal O promitente tem. contratos como o casamento ou a doação. ao promitente. 59 . porventura. de forma geral. Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte.

Desde modo. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. ainda. Eligendus: o terceiro. através da regra da boa fé (762º/2). pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1. admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. pode desinteressar-se dela ou. nada fazer. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. logo. ao abrigo das regras gerais (217º). O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação.  O promissário. sobre si. não tem. porém.  Torna a promessa firme (446º/1. Na linguagem desde subsector. Electio ou electio amici: a escolha. O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. de lealdade e de informação. Pode-se. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. antes dela. falsificar a conduta a que se encontra adstrito. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. de adesão. Num primeiro tempo. a contrario). pode ser menos diligente ou até.  O terceiro. desconhece os precisos termos envolvidos. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. 60 . instável. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. por não ter sido celebrado com o terceiro é. quando se desempenhe perante o terceiro.Perante um contrato a favor de terceiro. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. a fiscalização da contraparte. antes de ter ocorrido a sua nomeação. a contrario e fortiori). não sendo parte do contrato. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. no limite. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. Esta apenas consolida um contrato que. As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou. por não ser o destinatário da prestação acordada. Amicus: o terceiro.

61 . Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. Concluído o contrato para pessoa a nomear. produz efeitos em relação ao contraente originário. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). Feita regularmente e comunicada a designação. não reunindo as características perfeitas do contrato. seja em termos técnicos. ao outro contraente. Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). quando superior (454º/2). a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira). Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. As fontes paracontratuais Ao longo da História. A electio tem. altura em que o contrato ficará sem efeito. que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa. dele se aproximavam. em princípio. Ele implica. concordância do amicus e electio. foram surgindo figuras que. Como tratá-las? Com o tempo. seja em moldes sócio culturais.Regime. A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. a cláusula “pessoa a nomear”. no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. o negócio consolida-se na esfera do stipulans. Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. eficácia retroactiva. Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios.  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. tal como sucede com a ratificação (262º/2). num todo coerente.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. Embora a lei não o diga. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. pois. efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta. O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. do próprio contrato que a contenha.

isolam-se:  As relações contratuais de facto. derivada do facto simples de um contacto social. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. esta relação fundir-se-ia nele. no tráfego moderno de massas. para certos fins. de lealdade e de informação. Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. ser reconduzidas ao contrato mas que. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. na sua origem. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual. com ele. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais.  Os contratos com protecção de terceiros. seja na formação. muitas vezes. uma parte razoável do seu regime.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem.  Situações de proximidade contratual. no espaço jurídico. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. através de meros comportamentos materiais.  Situações de relações jurídicas complexas. em termos rigorosos. Sublinha-se que. tivesse ocorrido qualquer contrato. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique. o contrato. seja nos preliminares. Relações paracontratuais em especial 1.  As relações contratuais sem contrato. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. chega-se. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual. pelo menos. depois. 62 . postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. sem integrar previsões contratuais.  Inserção em organizações comunitárias. execução de relações duradouras. Surgindo.

63 . no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. independentemente de qualquer especial vontade. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. nas protecções dispensadas. não seja parte. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé. De novo há um círculo exterior.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. A “fonte”. Havendo proximidade. perante a prestação principal e em face do credor. por estar vulnerabilizada. Há impossibilidade inicial da prestação. que se reporta aos bens postos em jogo. o círculo interior. tenha uma proximidade visível. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. Em termos gerais. e existe. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. promane deveres acessórios (de segurança. O contrato é anulado. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. 2. ainda que insubsistente. no contrato considerado. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. Também está claro e assente que. O círculo interior. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. que veicula os valores fundamentais do sistema. para terceiros. revogado ou denunciado. o Direito manda proteger. mercê dos contratos preliminares. O contrato é resolvido. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. Com as devidas adaptações. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. por qualquer razão. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. Em termos analíticos. igualmente. 3. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. Surge uma impossibilidade superveniente. no caso de violação. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. em face de um contrato:  Alguém que. ainda. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. pelas partes. nele. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”.

operando o contrato. o proprio acto unilateral (457º-463º). por analogia. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. De facto. que explique os deveres resultantes. Antes de fundam na lei. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes. “negócio” engloba. nesse sentido nuclear. com facilidade. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. O negócio unilateral implica que alguém. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. como um simples facto stricto sensu. de lealdade e de informação. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. São os deveres pós-eficazes. em termos jurídico-positivos.  Os perigos da adstrição ad nutum. cessado o contrato. as normas típicas.  Um numerus clausus de realidades relevantes.Tecnicamente. Em rigor. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. fique adstrito a realizar uma prestação. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. No que se lhe reporta. podendo. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. ainda se poderiam manter determinados deveres. uma vez que ele não é partes. aplicar. mas noutros locais. Mas têm moldagem contratual. a responsabilidade obrigacional. aqui. tais deveres não têm origem contratual. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. 4. obrigações que (só) irão pensar depois. ad nutum. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. uma regra de tipicidade. com ligeireza. quando violados. fora de série. O artigo 457º proclama. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. para as partes. ser globalmente denominado culpa post factum finitum. aparentemente. o que (ainda) não têm e subscreverem. o inerente instituto. por sua livre e exclusiva vontade.  A proibição de. 64 . dando origem. no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. de obrigações futuras. perante eles. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se. 5.

podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. limitada à inversão do ónus da prova. também aqui. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. já antiga. é aparente. até prova em contrário (pelo devedor). Quanto muito. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. a tipicidade dos negócios unilaterais. A regra não origina nenhuma obrigação nova. Em bom rigor. Deve-se ter também em conta os terceiros que. ainda.  Fonte essa cuja existência se presume. existe aqui. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. Do anúncio público (225º). de resto. Negócios unilaterais em especial 1. quanto à existência de adequada fonte das mesmas. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. pelo princípio da causalidade. ainda. Dogmática geral O negócio unilateral. por força de qualquer outra fonte. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. passando pela tradição de uma coisa. numa segunda vertente. para além da concreta eficácia suscitada. sobretudo quando interessados. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se. igualmente por via da boa fé. de que. deve imperar. No que tange ao autor do acto. deve sublinhar-se. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. pode-se admitir tipos abertos. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. Assim:      Da proposta de contrato. Os negócios unilaterais distinguem-se. 65 . que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. Do testamento. proclamada no artigo 457º.Mantém-se. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. Da oferta ao público (230º/3). De contratos com apenas uma assinatura. anteriormente. devidas. cabe salientar a confiança que. a primazia da materialidade subjacente que. a afirmação. fica o credor dispensado de a exibir. com a promessa pública como modelo. isto é. no Direito português. sem indicação da sua fonte. pois. Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida.

por justa causa (461º/1. antes dele. in fine). ainda. perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). pode. não tendo prazo. que torne a promessa inexigível. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. a título de prémio. da oferta ao público (230º/3): nesta. ele extinga. na sua falta. Concurso público O artigo 463º. constitui uma especial modalidade de promessa pública. propriamente obrigado. A justa causa será. surgindo alguém nas condições nela previstas. Até que. a sua obrigação. muito claramente. 66 .     Até que expire o prazo nela fixado (460º). só nessa altura se constituindo. um motivo atendível. o promitente fica obrigado:  Até que. tendo prazo. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. seja revogada. O público.2. o concurso ficaria indefinidamente aberto. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. pelo cumprimento. às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. apenas. exclusivamente. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). ficando. seja revogada (461º/1). pela aceitação. 3. aqui. acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. relativo a concursos púbicos. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. naquela. constituir o contrato. da indeterminação do destinatário. deriva. fica vinculado desde logo à promessa”. Feita a promessa. por anúncio público. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º).  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. aqui. desde logo. A situação distingue-se. o promitente adstrito à sua efectivação. Até que. objectiva ou subjectivamente. Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de.

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