Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

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Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

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 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

É muito elegante linguística e estilisticamente.Existem. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. XIX. No entanto. p. as obrigações. 994º). nesse caso. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. não depende da sua fonte – o negócio jurídico. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. A validade de um cheque. 457º. é abstracto. transposição de directivas comunitárias. daí tal importância. Protegem-se as pessoas contra si próprias. antes de terem as coisas. O Direito civil é muito estável. no Código Civil. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. O legislador optou por emitir leis avulsas. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. renunciem aos seus direitos. Foi muito pouco mexido. a obrigação não subsiste. Mas há zonas periféricas. Causalidade Significa que. O Direito das Obrigações é super estável. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. É muito difícil mexer nele. defesa do consumidor).. doutrina. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. 812º. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. que nascem de uma determinada fonte. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. 4. É um código típico do início do séc. O BGB é de 1900. Resulta do movimento da pandectística. baseada num conceito vago. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. 809º. Não se quer que as pessoas. O Direito das Obrigações alemão é líder. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. 947º. para não darem o que não têm. A causalidade contrapõe-se à abstracção. 4 . É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. 863º. Se a fonte for inválida. todavia. 942º. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. A responsabilidade civil é fechada. O BGB. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. ex. 2. vários artigos em que podemos detectar esta orientação. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. que merecem reforma em Portugal. Romano-germânico Sistema centrado no BGB. por regra. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. A codificação da boa-fé. prescrição. A responsabilidade civil é ampla. regras. analítica. (448º.

Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. Antes da aprovação do Código de Seabra. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. tal como a cultura chinesa. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. no entanto. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. a partir de 1911. XIX. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. Há pouca influência romana.3. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. sequer. 5. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. Mas. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. Não há correspondência. O Direito português é aberto ao exterior. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. 4. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. Além da redistribuição germânica das matérias. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. mantiveram-se em vigor as Ordenações. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. surgem institutos até então desconhecidos. há um período de pré-codificação. islâmica. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. Naturalmente. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. Chinês É muito antigo. O Código não é de inspiração alemã. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. Mas tem uma organização e conceptualização originais. 5 . Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. sendo revigorados os já conhecidos. Este sistema não é codificado. Mas foi uma novidade científica que vingou. Há união entre religião e Estado. canónica. muito avançado. entre os conceitos desta família e os das anteriores. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. não havendo negócio jurídico separado dos contratos. O Código de Seabra é. No Brasil. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. Anglo-saxónico É um mundo à parte. sendo uma enorme influência. na China não aconteceu isso.

numa primeira fase. Todavia. com Teixeira de Freitas. Em África Em Angola. vigora também o código de 1966. sendo substituída pelo inglês. O português era a segunda língua. voltou a vigorar o Direito português. foi aprovado um Código Comercial novo. quando ocorreu a ocupação. Ele é de 1966. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. depois da aprovação. O Código de 1966 vigora actualmente. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). verificou-se a invasão indonésia em 1975. 6 . Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. Tem influência germânica e do Código de 1966. O Código brasileiro aparece só em 1916. ainda em meados do séc. logo em meados de oitocentos. marcaram as primeiras reconstruções do CC. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso.No Brasil Na doutrina brasileira. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. houve maior inteligência política. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. O Prof. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. mas havia a barreira linguística. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. Foi necessário recomeçar. numa segunda fase. um período de exegese. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. Com a independência. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. Em Cabo Verde. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. Na Guiné. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. As revisões ministeriais do Prof. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. como membro da OEA. Houve. Em Timor. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. Em Macau. mas começa a ser preparado no pósguerra. Em Moçambique. Antes da entrega de Macau. tendo-os traduzido para chinês. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. XIX. Há algum atraso na sua aprovação. mas já havia recepção do pandectismo. com algumas alterações após a independência. O CC de 1916 tem já influência germânica.

Assiste-se à implantação (Portugal. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. Há as directrizes e os regulamentos. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. p. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. Há 23 línguas oficiais na Europa. ex. Há. etc. O Direito lusófono não tem só essa influência. Somos. O caso português é singular. No Direito francês há distinção. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. Quanto a autonomia doutrinária. não havendo confusão com os sistemas da pandectística. de Common Law. 7 . até. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial. predomina o inglês. De um modo geral. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. Coreia do Sul. entre interpretação e integração. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. a directriz não vigora. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. O Prof. provêm de regulamento. na área dos negócios e nas relações entre povos. francês e alemão. é diferente. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. Se não o fizerem. língua. Em termos planetários. uma enorme barreira linguística. Mas havia uma grande projecção ultramarina. ganha pelo mérito. hoje. também com as operacionais: inglês. Brasil. A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística.) de sistemas próximos do germânico. a grande influência. As regras sobre a moeda única. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). mesmo quando escritos em inglês. Turquia. foi do Direito alemão. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono. A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). Nas obrigações. que é do final de Oitocentos). Ciência do Direito. evolução histórica. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães..O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. não são de common law. ao contrário do que acontece no Direito português. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. Mais tarde. quantidade de falantes da língua. Mas na área do Direito não é assim. um pequeno país na Europa. É um Direito que tem uma evolução histórica. Japão. Todavia. que suportou a nossa independência. estão em causa relação inter-pessoais. Cumpre saber que língua é utilizada.

SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. havia um Direito europeu das obrigações. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. intra muros. Nós. Fala de um bem a prestar.No tempo do ius commune. a vantagem é o bem que será prestado. Esta noção presta-se a críticas. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. há muitos constrangimentos. como a falta de competência dos órgãos europeus. era o poder da vontade. e não a totalidade. No espaço europeu. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. há 500 milhões de pessoas. quando existia obrigação. não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. juristas portugueses. ele começa a desaparecer. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. O Prof. forçar a vontade humana. não há um Governo europeu. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. para SAVIGNY. O direito subjectivo. Se A tem direito. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo). Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. 8 . Não podemos também exportála para o direito das obrigações. Para o Prof. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. No plano oficial. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. MENEZES CORDEIRO. mas com exagero. MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. O melhor Direito é o interno. Antigamente. dada a insuficiência da língua inglesa. havia um domínio de alguém sobre outrem. Não teve consequências. nem uma política externa comum. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria.

Há. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. Em regra. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. independentemente de ser cumprida ou não. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. todavia. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. Assim. obrigações. Pode haver obrigações sem prestação. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. mas as suas obrigações permaneciam. XIX. Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). Primeiro. Depois. Ela. 9 . Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente.Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. assentes apenas em deveres acessórios. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. sim. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. pode-se atingir o seu património. As pessoas morriam. independentemente de terem culpa). Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. no início. o dever é sempre um constrangimento ético. extingue-se a haftung. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). A obrigação não é apenas um bem a prestar. as obrigações são cumpridas. Na prescrição. mas o seu património. A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. surge a nova noção de obrigação. Se o devedor não cumprir. surgiu a respondência. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. Os romanistas diziam que não havia. já é um valer em si. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. um direito ao património do devedor. pelo que é excepção o recurso ao património. O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). A ideia remonta ao antigo Direito romano. Pode ser um facere ou um non facere. No séc.

. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. em termos pragmáticos. 10 . outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. não podendo servir para construir. etc. Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. pode haver nulidade. com dois regimes). não tendo interesse para o Direito nesse caso. colaboração. Em certos casos. tratado mais à frente. sabe-se hoje. com o credor e vice-versa. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. compreende um dever de prestar principal. Estas construções são úteis. é o fiador que deve cumprir. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. A prestação pode não existir.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. O BGB já não exige natureza patrimonial. MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. só. linguística. Se é assim. A obrigação pressupõe um dever específico. O regime é solicitado para um tratamento unitário. O credor fica adstrito a deveres de segurança. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. pode ainda não existir. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. A obrigação. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. Se não são. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. um conceito de obrigação. A obrigação do fiador é secundária. Se o devedor principal não cumprir. noutros. pelo que obrigação não é uma prestação. por si só. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. noutros ainda. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. deveres secundários e deveres acessórios. outra concepção diz que há um direito real de garantia. Se são. a responsabilidade é patológica. não interessam. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. Mas.

o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A).Se um artista se obriga a entoar uma ária. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. Tudo pode ser avaliado em dinheiro. Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. As relações de obsequiosidade não são. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. Hoje isso não é assim. não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. É assim ao nível global. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. acção directa. No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. Direito. Como são ressarcíveis. o 398/2. ela é avaliável em dinheiro. 11 . há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. 2ª parte remete para o interesse. Pode haver execução específica. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. mas pode receber dinheiro. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. de sistema. pode haver responsabilidade pela deferência. Não tem de haver natureza patrimonial (398º). há sanções pecuniárias compulsórias. tem conteúdo económico. há ressarcibilidade dos danos morais. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. mas havendo danos. à partida. boa educação) que não relevam para o direito. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. compensação – e não de equivalência. Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. O 397º define obrigação. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). não necessariamente em todas as situações. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito.

Os direitos potestativos são absolutos. A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. nos direitos pessoais de gozo. 12 . o credor aproveita imediatamente a coisa. contrapondo-se aos direitos reais. Os créditos não são sempre relativos. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. há créditos absolutos. Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. a relatividade existe quando há relação jurídica. no caso dos direitos reais). duas partes. Assim. relações de vizinhança. são para cumprir – se não forem. Se a prestação for um serviço. o que tem de surgir é o serviço. encontramos sempre uma dança a dois. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. Uma última. Nas obrigações. Podem fazê-lo? Em princípio. mas não se pode esfarrapar o par de dança. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. mas não se pode retirar daí uma regra. que são absolutos? Em termos estruturais. O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. erga omnes. Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. A convida B para dançar. Deve-se sempre perguntar qual a origem. Os acordos de cavalheiros são relevantes. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). A obrigação é uma relação jurídica. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. absoluta. por exemplo). A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. Quanto aos acordos de cavalheiros. seria sempre necessária a mediação. há figuras como a execução específica. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. Noutra acepção. o direito real é uma situação absoluta. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). Em direitos reais há só uma. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. não. Esta noção vale o que vale. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não.Há também deveres de protecção. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. Em obrigações. no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra.

Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. Mas inverteu-se a tendência..A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. Há uma acção. então há oponibilidade média. As obrigações são vínculos. Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. No sentido forte. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. a figura do terceiro cúmplice). Deveres acessórios. a externa é perante terceiros. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. p. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão. Mas há outras regras. ex. PESSOA JORGE). relações jurídicas. Mas há também deveres no tráfego que. Há contratos com protecção de terceiros. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. A regra é de que a eficácia é meramente interna. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. Se é assim. Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. A eficácia interna é entre credor e devedor. se incumpridos. No início. dão lugar a responsabilidade civil. Na Alemanha diz-se que não. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. Faz sentido que haja defesa contra terceiros. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). A nossa jurisprudência acordou em 1964. Havia uma quebra maliciosa do contrato. com MANUEL DE ANDRADE. pode existir oponibilidade em sentido forte. em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). É o que acontece com os chamados deveres de tráfego. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. que se manifestam predominantemente perante o devedor. com os pactos de preferência. A doutrina tem evoluído nesse domínio. 13 . Se é assim. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. o que lhes daria uma tutela relativa. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. médio ou fraco.

Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. recorre a tipos – tipicidade. Isso justifica-se em ramos agressivos. em princípio inatingíveis. Mas esses não se aplicam a terceiros. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. O terceiro não pode. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. Está tudo ligado. aplicam-se os artigos 798º e ss. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. é muito mais restrita. não estão assim tão mal. há um numerus clausus – o número de factos é finito. como o penal ou o fiscal. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. há responsabilidade. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. Contratar-se-ia menos. 14 . Noutros casos é mesmo normativa. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. Todavia. Quando existe uma previsão normativa. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos.  Diz que está proibida a analogia. Outros dizem que só o devedor pode incumprir. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. Se A contrata com B. protecção jurídica. ao atribui direitos subjectivos. Argumentos a favor. O Direito objectivo. Num ramo típico. Se existe uma descrição típica das condutas. Se ele for atingido. mas há várias vias para o conseguir. Quando existe um devedor. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida. diz-se. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. proíbe autotutela. Há tipicidade exemplificativa. O legislador pode dar uma série de exemplos. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. pois. Só pode estatuir com recurso a tipos. não havendo lacuna. as economias britânica e francesa.  Diz que existe numerus clausus. países que admitem a figura. um terceiro faz-se passar por credor. Dá. Quando a lei recorre a descrição da realidade. Isso em princípio. descrevendo as condutas. os factos são descritos concretamente.

O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. ex. direito a uma coisa corpórea. Há tipicidades de tipo científico. invariavelmente. O conteúdo distingue-se do objecto. O Direito comercial é outro ramo especial. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. venire contra factum proprio. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). não há numerus clausus e pode haver lacunas. por conjunções históricas. O conteúdo das obrigações é sempre. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. em princípio. O contrato de trabalho é um contrato como os outros.). O mediato é também designado por objecto. Isto é o núcleo duro – há desvios. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. obrigações naturais. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. p. Obrigações. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. Mas existem muitas obrigações nessa área. Aí. ao contrário. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. Há.Nos contratos há descrição abstracta. aqui. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. 15 . também. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. um direito e um dever. um princípio de tipicidade. Mas tem regras especiais. de facto. Nas obrigações isso não existe. etc. Há. Há situações de direitos reais que. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). tipicidade exemplificativa. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. Autonomizou-se do Direito das obrigações. tudo é parecido com o Direito das obrigações. Os direitos reais têm. por via de condicionalismos históricos. o regime tem um desvio. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. É muito especial.

apenas de fazer tudo ao seu alcance. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. De pati. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado. tem culpa. tendo em conta as circunstâncias do caso. É o critério do bonus paterfamiliae. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta.). mas à prestação de um serviço com determinada diligência. 16 . A de dare consiste na entrega de uma coisa. Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. as partes pretendem uma determinada conduta.) e a aquiliana (483º e ss. Se se comportar abaixo da bitola. Uma prestação inclui necessariamente o esforço. Todavia. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção. Não se obrigam a resultados. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. A prestação principal é o núcleo da obrigação. O devedor está obrigado à diligência média. Por vezes.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. Seguem o regime da prestação principal. Podemos. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. Ex. aquilo que for normal num homem médio. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. Não se trata de um non facere. De dare. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. São prestações que complementam a prestação principal. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. é um homem médio colocado no caso concreto. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei. Temos de saber o que é exigível. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece. É o homem médio. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. noutras pretendem o resultado. São instrumentais em relação a ela. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. Foi o critério escolhido pelo legislador. Só é exigível que se esforce até esse ponto. por um esforço de análise. Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo).: o médico não tem obrigação de curar.

mas há deveres acessórios pré-contratuais. tal como se não cumprir o dever acessório. possível. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. é preciso cumprir de boa fé. etc.. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia. a obrigação é uma realidade muito complexa. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. rerum sic stantibus. 17 . depois a reconstituição natural. O legislador quer primeiro cumprimento. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas.  Círculo externo. são soluções para problemas novos. A base legal é o 762/2. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível.O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. observando os deveres acessórios. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo. Como decorrem da boa fé. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. determinável. Os deveres acessórios são imprevisíveis. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. A culpa in contrahendo. Não basta cumprir a obrigação. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. Podem ser deveres de lealdade. integração de lacunas. Substancializam a obrigação. A indemnização é uma consequência de segunda linha. nos deveres acessórios são ambos. só depois a indemnização. segurança. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). contratuais e pós-contratuais. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. Está em causa o princípio da tutela da confiança. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). informação. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno.

etc. A regra é da fungibilidade. 4. se consigo exprimir com uma única expressão é simples. A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos. Absolutas.  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei.). Não é o mesmo que coisa fungível.Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei. combinadas quando estejam associadas a direitos reais. Em princípio. trata-se de obrigação complexa. uns relacionados. como concessão. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). ambos). 18 . 2. relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. nas mistas há vários deveres. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. p. 5.  Obrigação de abstenção (simples.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples). 3. mas são regularmente utilizadas no sector. ex. Se sou obrigado a recorrer a perífrases. Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente. transferência de propriedade. porteiro. outros não. na relativa há.). atípica resulta da autonomia privada. prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis.

A denúncia seria um dos esquemas. se tiver poder de representação celebra também os negócios). quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. não obstante. É um contrato em especial. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. É necessário. Obrigações duradouras Partimos da prestação. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. o principal.6. A denúncia. Se fosse logo satisfeito. O DL 178/86 trata da cessação da agência. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. Hoje. pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. As questões sociais vieram pugnar por protecção. A retribuição é a renda ou aluguer. 2. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. ao contrário das obrigações comuns. O conteúdo tem de ser sempre. O Direito civil é um direito prático. forma de cessação de um contrato duradouro. surge na periferia. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. E relações perpétuas. mas pessoais. para tutela da confiança. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. entre o agente e o principal há relação duradoura. como reacção ao regime feudal. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. determinável. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. em que havia obrigações perpétuas. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. Tipos de obrigações 1. Não se extinguem com o cumprimento. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. Implica especialidade quanto à sua cessação. e outras que se cumprem no tempo. pelo menos. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. sob pena de nulidade (280º). Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. O Prof. também. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. 19 . Havendo agência. com dilação temporal juridicamente relevante. Há lacuna. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. claro está. um pré-aviso. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. era instantânea.

as rendas vão degradando. Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. contraindo empréstimos. Surgem teorias mistas (entre nós. Em 1990 tentou-se de novo. com a industrialização e grande pressão urbanística. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas. Logo. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos. 20 . A solução de quem chega ao mercado é comprar. maior o lucro do trespasse. porque ele é sempre real). trânsito caótico. por exemplo.  Congelamento das rendas. Chegou-se a um regime vinculístico. mas também não chegou a bom porto. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. impedindo actualização das rendas. Mas também não explica o que é o gozo. Se é assim. Em 1985 tentou-se reformar. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. menor taxa de natalidade. económicos. actualizando as rendas. é figura real o direito de locatário. Nos finais do séc. Há bloqueios ideológicos.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio.No arrendamento domina a autonomia privada. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário. políticos. Se houver inflação. O 1743º do CC francês determina que. No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos.  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. Há subúrbios. Chegou-se a este panorama aos poucos. Em 2006 houve um projecto. Quanto mais baixa a renda. centros das cidades abandonados. Obrigação de deixar usar? Seria negativo. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real. XIX. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. para o futuro). surgiram fenómenos e problemas de natureza social. havendo transmissão da coisa arrendada. É um direito real. Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção). etc. XX. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. inícios do séc. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim.

Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. já que é ela que as explica. pelo que ele se pode defender sozinho. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. 3. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. Comportam-se. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. Juridicamente não tinha personalidade. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. Estabelece que prevalece o direito real. Obrigações naturais É figura muito estudada. Mas mudou de ideias. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. o locatário pode fazer obras. de forma similar aos direitos reais. Essa tese é inaceitável. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). Mas pode ser integrado no Livro II. é histórica. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. Admitese a existência de direitos de gozo. na locação. no conflito com outros direitos. com recurso aos tribunais). tendo um direito de preferência sobre a coisa. Era um débito sem respondência. pois. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. defender o seu direito face a terceiros. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). Uns são pessoais e outros são reais. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. por ser figura próxima do direito de crédito. mas sem shuld. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. o que os aproxima dos direitos de crédito. A pessoa estava obrigada a fazer algo. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. nesta matéria o regime dos direitos reais. Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. Em geral. 21 . Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. entre os direitos reais e os de crédito. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. Seguem. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. O Direito dizia que ele estava obrigado. porque não era uma pessoa. Não tem uma grande relevância prática. como direitos reais. em regra.

etc. diz-se por vezes. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. A lei. As obrigações naturais. Aparentemente.  Não exigibilidade judicial do cumprimento. Mas são aqueles os dois momentos cruciais. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais. Esta matéria está regulada no 402º. a moral é uma coisa e o Direito outra. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. Não podem ser constituídas por contrato.  O 404º. Ser jurídica é estar prevista como obrigação. porque elas são típicas. É jurídico. Noção legal (402º).A isso chamaram obrigações naturais. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. Hoje. mas também as obrigações 22 . Havia ligação entre o Direito e a moral. aplica-se o regime das obrigações civis. A obrigação natural deve ser. Isso não é verdade. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei. Não pode ser exigível judicialmente. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente. Em tudo o resto. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). etc. Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos. não posso pedir devolução do que paguei. com base no 404º. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida. Tiveram uma evolução muito atormentada.  As obrigações naturais são típicas (809º). sociais. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. diferente de um Direito moralmente enformado. mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. No período medieval. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. não têm valor patrimonial. jurídica. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. pois. Mas isto não pode ser.. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais. transformando-as em naturais. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. Se eu pagar. não jurídicas. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. Todavia.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. A justiça é aquilo que o Direito consagra. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo.

Não havendo convenção. que podem ser de facere. Deve-se escolher a coisa média. 4. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. Não é o sentido do 400º.civis podem não ser cumpridas. Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. 23 . Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. Ele é determinável mas não está determinado. com a massificação das transacções. As obrigações genéricas são muito importantes. podendo ser qualquer litro de azeite. Logo. O problema que surge é o da determinação do objecto. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. dare ou pati. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. dando lugar a obrigações genéricas. o critério é o da mediania. No Direito romano eram desconhecidas. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. se nada for estipulado. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis. o critério deve ser o da mediania. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. Os contraentes podem estipular diferentemente. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. A escolha e o risco O 539º estabelece que. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. quantidade ou qualidade. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). é fungível. rege o favor debitoris. escolhe o devedor. há obrigação genérica. há uma lacuna negocial. Na falta de acordo. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. Só se determina o género. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. Desde que a coisa a entregar não seja única. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

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7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

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O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. Em resumo. os credores). de modo a assegurar o cumprimento. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. É um regime mais duro para o devedor. Nestes casos. MENEZES CORDEIRO defende que. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. por exemplo). Quando vão cumprir. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. na falta de estipulação em contrário. a lei estabelece solidariedade. Existe uma presunção de igualdade das quotas. Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. É só uma. 27 . isso não multiplica a obrigação. porque também temos de tratar das relações internas. seja porque o regime é unitário. para proteger o lesado. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. Ao contrário da parciariedade. Os vários sujeitos têm relações entre si. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota. um concerto de orquestra. quando há vários sujeitos numa obrigação. Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. Presume-se que as partes de cada um são iguais. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. No Direito comercial. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. a regra supletiva é a da solidariedade. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. que é sempre singular). mas complexa. Aumenta a garantia do credor. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. O credor só pode exigir de cada um essa parte.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. Na prática. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. todos têm de prestar ao mesmo tempo. Rege o 512º . Há obrigações que são à partida divisíveis. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. há outras que só o são se as partes acordarem. seja porque existe expressão linguística unitária.noção.

p. tal como os direitos reais. aqui. um A. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. Normalmente. à estatuição de uma norma. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. só dele (não os meios pessoais de outro). O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. um credor e um credor pignoratício. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. 28 . significa que há alguma coisa a mais. presunção de igualdade (516º). se não houver outro acordo. pessoal seria a prescrição. o do devedor e o do fiador. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento. Na solidariedade há co-devedores. O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. Mas é uma pluralidade heterogénea. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. ex. há “gato”. A lei poderia ser fonte de obrigações. acrescentou a lei. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. já que o fraccionamento é feito posteriormente. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. Precisa de um facto jurídico para nascer. tem regime diferente. é natural que existam meios de defesa dos devedores. Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. p. São duas fontes fundamentais de obrigações. ter duplo aproveitamento. No período da pré-codificação francesa. ex. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. Eram fontes que. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. uma classificação das fontes. não sendo nem uma nem outra. Também existe. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. p. Uma prestação pode. quando alguém contrata a solidariedade. É uma bipartição importante. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. ex.). Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. Surgiu o esforço de sistematização.

Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica. desde logo. enumera-se o contrato. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. todavia. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. Já nos sécs. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. As divisões não significam. em vez de adoptar a repartição tradicional. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. a partir do 405º. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. O direito privado tem 2000 anos. 29 . apesar de não haver classificação qua tale. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. O Código de Seabra faia um elenco original. que é comum a todos os direitos europeus. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. como se usou em 1867 e 1966. Enumera algumas fontes. o negócio unilateral. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. de se autodeterminarem. referência à tetrapartição. então. Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. Com o CC de 1966 também não existe classificação. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. nuns e noutros a mesma coisa. Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos.). O Direito português está mergulhado no universo comunitário. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). É difícil unificar. a gestão de negócios. no tempo e no espaço. O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. a melhor técnica é a tipológica. enquanto a lei é norma heterónoma. Em termos estatísticos. p. Mas ele é mesmo muito reduzido. Há um encadeamento. o enriquecimento sem causa. Faz-se. O que se deve. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. ex. mas enumeração. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade.

A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. É importante considerar o canonismo. em lei de Maio de 1352. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. vai na direcção do contrato. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. Assim. manifestação da importância do contrato. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. consensual – basta haver contrato. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. No Direito da Família também: contrato de casamento. mas se lemos artigos sobre negócios. para o Prof. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. está em crise. Dá-se uma grande explosão. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. o próprio contrato perde espaço. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. a bona fides perderá o seu significado. O contrato. mas existe pacto sucessório. nas Obrigações é o contrato. 30 . igualmente. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. surgindo os contratos que hoje são básicos. se a sociedade é subdesenvolvida. Os romanos conheciam figuras equivalentes. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. o contrato está sempre subjacente. É necessário que haja propriedade. Mais tarde. Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. diz-se muitas vezes. É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. O contrato valia por si. com SAVIGNY. É o sistema de tipo francês. O CCP trata da matéria.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. Passava a ser vinculativo por isso. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). Dinis. Daria frutos no período jusnaturalista. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). O contrato tem um papel muito alargado. tem menos aplicação. Menezes Cordeiro. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. já o negócio obtém-se pela razão. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. É um diploma bem feito. O socialismo ataca o contrato. No Direito sucessório é mais raro. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. de acordo com a escola histórica e a pandectística. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. D. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas.

Mas isso não aconteceu. os observadores previram explosão dos contratos. valores mobiliários. A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. O contrato tem peso em si. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada. não se trata de um recuo do contrato. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português. 31 . diminuindo a liberdade contratual (banca. O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos. É óbvia. É uma visão pessimista. Com a queda do Muro. Graças às convenções internacionais. racionalidade. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força. não relevaria: eles devem ser cumpridos. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. Todavia. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar.  Áreas reguladas. à partida.No séc.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação. Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. Se a lei não dissesse nada. incluindo direitos de créditos). Tutela constitucional do contrato A CRP. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes.  Intervenção judicial nos contratos. como o da boa fé. etc. Tecnicamente. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. O contrato é um véu que tapa os olhos. necessidade de consagrar na CRP. O contrato é. Não houve. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. porque não foi necessário. O 56º/3 garante a contratação colectiva. pecuniários. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna. pelo menos para coisas úteis. etc.). plurais. seguros. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. mas de certos contratos. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. pois. no artigo 8º/2.). Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos.

Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. 2. nominados e inominados. o contrato é bilateral. consideradas mais sensíveis. reais quoad constitutionem e quoad effectum. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. 3. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. por vezes. vindo a aperfeiçoar-se. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. Todos os negócios são contratos bilaterais. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. Pode haver tipo social e tipo legal. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. mas a lei não o disciplinou. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. Fala-se. em princípio também não o regula. Perante o conceito de negócio jurídico. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. é nominado mas atípico. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). As pessoas só têm de compor os elementos necessários.1. O contrato de hospedagem. Terceiro. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. 32 . regulando com especialidade. Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. Quando a lei não lhe dá um nome. no entanto. bem como diminui as dúvidas. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. fica fragilizada. 5. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. maior equilíbrio. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. É distinção relativa. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. Segundo. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. Consensuais. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. não dá para classificar em abstracto. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais.

tendo em conta o relevo de que se revestem. pois. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. as partes têm liberdade de celebrar livremente. a parte geral é muito restrita. É sinalagmático. reciprocidade. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. solicitar ao outro a efectuação da prestação. Os gratuitos são. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. O estudo desta matéria não é fácil. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. A generalidade das normas é supletiva. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. Em regra. 6. uma vez que domina a autonomia privada.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. atípicos e mistos Os negócios jurídicos. A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. O problema é que. no entanto. 33 . passa entre as gotas da chuva. 7. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. hoje. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. Embora o 405º seja muito abrangente. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. Tendo em conta este facto. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. É diferente da vinculatividade. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. se as partes celebram contratos mistos. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. À luz do 405º. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. Há. uma delas não fica obrigada. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. em regra. Nos monovinculantes há duas partes. podemos distinguir entre negócios típicos. Há 16 contratos regulados no Código Civil. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. O problema é que. Tipologias de contratos Contratos típicos. O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. As partes querem dar. querendo. Fica com o direito potestativo de.

O resto é extra. o locador. Ex. não havendo uma principal. comida. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. Ex. mas como tendo a casa como refém. os serviços de limpeza. quando acabar. que lava também a roupa de cama. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. aplicando todos. Não pode ser um mero pormenor. Há mistura. 2. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. Não tem salário. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. comida. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. Isto só resulta se houver confiança. Os combinados distinguem-se dos complementados. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. Ex. que absorverá os outros. Ex. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. A autonomia privada é o pano de fundo.: A compra por preço muito baixo. 3.: A arrenda um quarto a B. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção). B tem de guardar a casa enquanto A não paga. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. próprias de vários contratos. na prática. não para que se porte como proprietário. embora tenha havido preço. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. Em troca do preço recebe um quarto (locação). Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. devolve-lha. cama. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa. etc.: A recebe habitação. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. em troca de explicações. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto. Complementados – aqueles em que existe um tipo base. o negócio aproxima-se da gratuitidade. A tem dívida para com B. 34 . entretenimento. 4. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. mas recebe em géneros.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1.: A comprou 15 dias num cruzeiro.

35 . nomeia concessionários.2. Mas não é normal. aplica-se o regime do tipo x. se na lei houver solução. é esse que se aplica. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. No caso do porteiro isso é evidente. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. tal como o da vontade das partes. O promotor é remunerado através da renda. mas os serviços que o centro proporciona. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. 4. A seguir temos de resolver com analogia. a quem entrega os bens. o arrendamento tem muitas normas imperativas. mas o contrato é usado para uma função diferente. É contrato de agência que foi encontrado. gestão do centro. 3. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. A solução foi a da analogia. é também acompanhado de distribuição. então celebra-se o y). bem como sinergia do ponto de vista económico. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. Em Portugal. sem intenção de enganar). Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. O limite é o das normas imperativas. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. Mas isso é raro. Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. Se não for suficiente. Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. a outra também. Há semelhança entre a agência e a concessão. a primeira solução é a da vontade das partes. Recorre-se ao regime da agência. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. e também com a agência. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). aplicam-se as regras desse tipo. Quando há lacuna contratual. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). Pode haver várias funções: simulação. publicidade. acabavam os centros comerciais. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. P. Pode. O método foi o da analogia. para que os distribua. no entanto. o combinado e o híbrido. Aqui. O que é específico é a marca. Hoje. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. aplica-se essa solução. Quando nada se diz. segurança. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. por analogia. Se ele corresponder ao tipo x. Regra geral. ex. é uma área vinculística. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. a solução também foi a da analogia. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato.

em benefício de quem a entregava. o fiduciário. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. não permite divisão da coisa entregue. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. mas para o de terceiro. ao contrário do alemão. M. já que o Direito existe para proteger os fracos. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). teremos uma figura real não prevista na lei. 36 . negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. Se for à falência. Ele é permitido se não violar regras imperativas. porque doações de bens futuros não são permitidas. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. Descobrindo-o. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. Procura-se o centro de gravidade. interna e alternada. No Direito português. aplica-se o regime correspondente. O fiduciante é só entre outros. O fiduciário é de execução prolongada. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. Se ela tem natureza real. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados. O fiduciário é proprietário. Mas o Prof. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. era o proprietário da coisa. a fidúcia é muito violenta para o devedor.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). São óbices consideráveis. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. Mas. Quem recebia a coisa com fidutia. na contratação alternada valia ou um ou o outro. Os nossos clássicos dizem que não é permitido.

Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. Segundo o Código de 1867. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. rege nos contratos mistos. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). há centros de gravidade múltiplos. para o sinal. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. a promessa valia apenas como prestação de facto. de tipo processual. A figura da absorção. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. sendo diferente o regime. homogéneos e heterogéneos. tem eficácia real. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. A promessa por escrito era válida na hora. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. 830º. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. Há muita jurisprudência sobre isto. Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. Importou do BGB a execução específica. de tipo não processual. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários..Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). Mas nunca é irrelevante. por exemplo. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. O contrato prometido e o contrato definitivo. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. causais. execução específica). sem recorrer à escritura pública. 37 . A celebração de uma escritura pública demora tempo. No Direito português tem grande importância. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. Hodiernamente. devia ser celebrado por escrito. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. 442º. É uma ideia relativamente recente. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. dependentes e independentes. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação.

não podem ser objecto de promessa. É a função preparatória. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. acabamento da coisa. os contratos são dotados de prometibilidade forte. na promessa sabe-se). O contrato-promessa distingue-se da proposta. P. Função preliminar. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. Regra geral. na promessa tem de haver negociação). ex. financiamento. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo.. Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. Como no Direito alemão. ex. um modo geral de celebrar outros contratos. do dever legal de contratar. regulativa autónoma. Meramente obrigacional. 38 . Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar.As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. Quanto à prometibilidade fraca. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. Desformalização. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”. p. desformalização. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. Por vezes. Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. 3. é possível a execução específica no caso de incumprimento. do convite a contratar (A solicita a B que contrate). do exercício de preferência. É um formato. mitigada. É usado. Regulativa autónoma. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. por vezes. sobre a entrega. 5. Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. etc. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. transacção meramente obrigacional. 1. do contrato preparatório material. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo). tendo isso em conta. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. 2.). 4. do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). Há contratos que. um modus vivendi. uma vez prometido. para preparar o contrato definitivo. Mitigada ou mitigadora. Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa.

. tendo em conta o regime. etc. mas que tinha um regime especial. imperativo. 39 .  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. também não há uma regra expressa que o diga. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. a obrigar a algo que poderia revogar. Não se trata de um contrato-promessa. e o outro não cumprir. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa. estão nos antípodas. O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. se não houve entrega da coisa. O problema é que.) que conduz à possibilidade de revogação. mas a situação subjacente é diferente. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. mas ineficaz quanto às prestações principais. O nome é parecido. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. à partida. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. Com o não cumprimento. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. Isso não é correcto. É verdade que existe um regime jurídico. do 1591º e SS. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. Mas. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. a proposta ainda não foi feita. até é possível haver excepções ao que se disse. às consequências pela ingratidão. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada. o que está em causa não é a regulação de um contrato. No contrato-promessa. etc. Não vincula o promitente a doar. proximidade. É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. Isso não vem na lei. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º. como executo? Os clássicos diziam que não era possível. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). O doador despoja-se do bem no momento em que doar. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. Pode fazê-lo. Não há contrato-promessa de doação. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. É um contrato à parte. diferente do regime do contrato-promessa.

aplica-se a regra geral. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). 40 . Não haveria problema de prova nem dúvidas. o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. nos termos do 293º. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. O 410º/2 regula a forma. Se o documento é a materialização do acordo. o regime é o do 219º liberdade de forma.Hoje em dia. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. é preciso o acordo de ambas). outros a conversão. Para o prof. tendo enorme relevância. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. autêntico ou particular. Na normalidade dos casos. ainda que não tenham as duas assinaturas. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. em regra o promitente alienante. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. Se for livre também o contrato-promessa é livre. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. não se precisa é de assinar. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. MENEZES CORDEIRO em princípio. A questão das assinaturas é meramente formal. Por isso. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. Estipulações acessórias são válidas. A conversão. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. Se para o prometido for necessário documento. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. Mas isso é errado. Uns defendem a redução. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. é a solução. o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. Assim. não se entende porque só um assina. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. para ser quantos se obrigam. Na prática.

Neste momento. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. Trata-se. p. Admite que. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. o regime é o da reforma de 1986. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. Surgiu na década de 1980. Há. havendo grandes atropelos ao direito. a se. Se a promessa for monovinculante. com excepção das relativas à forma e as disposições que. Havendo contrato-promessa. ficando com um contrato-promessa monovinculante. Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. 41 . Nestes casos. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. Este princípio. possa reduzir-se o negócio. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. ex. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. concretização e boa fé. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). também. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. MC sugere a ideia de modus contrahendo. Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. em certos casos. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. este deve adquiri-la. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. Obedece a normas: os princípios da correspondência. se nada disserem. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. Pode ser paralisada através do abuso de direito. integralidade.Mas não é fundamentalista. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. por sua razão de ser. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. de invalidade mista. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. no 3. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. A parte geral também tem regras.

Se isto não for possível. O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. Pode haver uma impossibilidade superveniente. se for cumprido. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. alterando as palavras. À partida. O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação. impossibilidade superveniente.). MC entende que isso não pode ficar assim. inclui-se a coisa no cumprimento. declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. Incumprimento há quando. que resolvem inovar. o faltoso é o que não cumpre. Se não houver. há inadimplemento. violação de deveres acessórios.). local. uma via crucis. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). Legitimidade. se forem válidas e eficazes. Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes.. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. O promitente fiel é o que é prejudicado. não foi. imputação. Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. violação positiva do contrato. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. etc. mantendo-se o contrato-promessa. se o contrato-promessa permitir. Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. se não for cumprido. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º). O incumprimento extingue a prestação principal. Pode acontecer que seja lacunar. e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé. a lei prevê a interpelação admonitória. Se houver situação de mora. 42 . pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). prazo. pode haver resolução. etc. Muitas vezes há AA. aplica-se o 280º. Pode haver recusa antecipada a cumprir. O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. Ou há mora. Isto é uma trapalhada. lugar. devolve-se em dobro. O definitivo está previsto no contrato-promessa.

Quando metido no contrato-promessa. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. o sinal ganha coloração particular. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. vender a coisa e recolher o preço. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). com a inflação. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. O que estava em causa eram casas de habitação. penal. No Direito romano tinha um sentido confirmatório. O retentor pode. se houve incumprimento. se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). O Governo resolveu intervir. começou a resolver o problema diferentemente. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados. 30%. o sinal tinha alcance coercivo. Enganou-se e mexeu em tudo. os sinais deixavam de valer tanto. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. A ideia era: como a inflação é muito alta. 43 . A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980). Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. Houve várias propostas para resolver a situação. Afastouse a possibilidade de execução específica. no entanto. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. recebiam-se sinais. mas o valor actual da coisa. Tem um direito de liquidação judicial. O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. Em 1980 havia grande inflação.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. na fase executiva. mexeu no regime do sinal. Assim. O imobiliário estava sempre a subir.  Quando há tradição da coisa prometida. Quando mexeu no 442º. a indemnização já não é o sinal em dobro. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. que chegava aos 20. O problema viria a ser resolvido em 1986. Tornava-se compensador não cumprir. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo.No Direito grego antigo. A jurisprudência. Assim. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. ajudava a provar a existência do contrato. celebrando-se contratos-promessas. faziam-se casas.

Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. Lobo Xavier. introduzir correcções. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. Se houver mora. Se houver sinal. Houve excessos legislativos. a indemnização seria o valor actualizado da coisa.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. com a solução do Prof. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. não sendo necessária a interpelação admonitória. 44 . Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. pela interpretação). Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. É uma “excepção de cumprimento”. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. Vários AA. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. não há logo incumprimento definitivo. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. Em 1986 o legislador interveio novamente. Além disso. ficou consagrada a indemnização pelo valo.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. Tendo havido mora. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção. doutrinariamente. exige mais garantias. a favor do promitente adquirente traditário. ele é deduzido do preço. o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. a primeira consequência é entrar em mora (805º). Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. Tentou-se. A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. Se houver morar. fixa-se um novo prazo. Todavia. perderam a objectividade. é mais selectivo. Assim. É um esquema complicado. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. Assim. Tentou-se limar algumas arestas. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. O Prof. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. mesmo que anteriormente registada. ainda assim. congelando o direito ao valor da coisa. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. O hipotecário ver-se-ia preterido.

MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. 45 . O contrato-promessa já é um contrato misto. Assim. O Prof. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). A resolução. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. Pode ser uma gentileza mais demorada. quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. Se for possuidor tem defesas possessórias. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. O sinal visa uma função compensatória. 2. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. É verdade. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. o que deve fazer é resolver o contrato. Se é esse o sentido da cláusula. Alguns autores dizem que. quando haja incumprimento. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. É uma posse muito elementar. a troco da entrega da casa. Tradição da coisa Tecnicamente. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. É posse semelhante à do arrendatário. No Direito funciona-se com prazos. Neste momento. desaparece também o sinal.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. A distinção é importante. 3. É celebrado contrato-promessa. O que é que as partes pretenderam? 1. Se for um representante. se há sinal. porque tem uma cláusula daquelas. deve ser tomado seriamente. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. A menos que. operando o sinal. bem entendido. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. no entanto. É um contrato que dá direitos muito precários. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. destrói o contrato retroactivamente. Se resolve o contrato por incumprimento. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. Um contrato de comodato. tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. não há posse.

A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. Se tivesse havido incumprimento definitivo. pelo que há entrega da coisa. soluções alternativas à indemnização. Leva ao mesmo. Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. Aqui temos posse em termos de propriedade. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966. houve incumprimento. Contudo. 46 . O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. mas não especificou. Consoante o tipo de posse. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. Assim. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). nas universidades deve tentar-se aumentá-la. Passa até à frente do credor pignoratício. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo.4. Mas isso já estava subentendido. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. colocando no terreno. Se há excepção do cumprimento. houver sinal. seria impossível apresentar-se a cumprir. O interessado pode ainda optar pela execução específica. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). A solução mais normal é a execução específica. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. é muito difícil determinar a indemnização. Estamos perante um facto. Se houve. Se de facto houve perda do interesse. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. por maioria de razão também há sinal comum. Assim. para além da tradição. já vinha de trás. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. dir-se-á que não podemos obrigar. também. através dos seus meios. Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). Foi uma ideia prussiana. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. Já está tudo pago. Quando se trata de acções humanas. muda o regime. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. Em 1980 o regime foi alterado.

Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. Simplesmente. Contudo. as custas ficaram por sua conta. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. Nos outros a questão não se colocava. O tribunal não emite. a declaração faltosa. Não valerá a pena recorrer à execução. Perante o incumprimento. Haverá consequências indemnizatórias.  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. p. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. Aí. 47 . mas vende a C. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. Conquanto que o conteúdo seja determinável. contudo. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. é muito difícil calcular a indemnização. Mas nem sempre. em 1980 o legislador foi desastrado. já que a prestação se tornou impossível. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica.Houve soluções doutrinárias. verdadeiramente. Simplesmente. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. no momento em que é decretada a execução específica. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. O Prof. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. ex. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. Os riscos são compensados pela presença do tribunal. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos.

A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. Contudo. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora. demissão). A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. Quando nem sequer há prometibilidade (doação. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. poderia ser revogado. Mas. p. Nessa altura.) também não pode haver execução. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas.  A exclusão convencional. in fine). Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. Tem de haver ponderação de interesses. o 830/1 admite a possibilidade. Não pode haver execução de contrato que não existe. pode acontecer que. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. já não é de todo possível a execução. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. por sua natureza. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. Não faria sentido a execução de um contrato que. O comodato pode cessar a qualquer altura. Aí já faz sentido. Se houver situação de inexistência. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. comodato). não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. se verifique uma alteração das circunstâncias. Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. Contudo. No caso do contrato de trabalho. depois. ex. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. Mas a lei admite mandato irrevogável. MC entende que sim. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. 48 . Já no penhor ou no mútuo faz sentido. Igualmente.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. tão pouco. não se iria muito longe (despedimento. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. Mas aí não cabe execução específica. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. Quando seja celebrado um contrato-promessa. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. Todavia. mesmo que houvesse. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução.

reforçando-se o registo. O que está em causa é que o dever seja cumprido. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade. pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. execução específica. O Prof. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. Deixou de se exigir a escritura. convenção expressa de atribuição de eficácia real. 49 . É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo.Depósito do preço A sentença é translativa. que a foi buscar ao Direito alemão. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. ficando privada do preço. Ora. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo. outros recusam essa solução. alguns entendem que cabe execução específica. a lei alemã permite um pré-registo. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. registo da promessa. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. Através da eficácia real conseguir-se-ia.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. vendendo a terceiro. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. não é norma de excepção. Assim. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. Se não for cumprido. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. Se o preço não for pago há injustiça. qual a solução? Normalmente. escritura pública. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. A outra parte pode não ter sido paga. Vaz Serra. mas contra o terceiro (Dias Marques). Promove logo a transmissão da propriedade. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo.  Há execução específica. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia.

no entanto. De seguida. uma vez que dela nada sai de preexistente. a contratar. com o contrato definitivo. em definitivo. por vezes. em relação ao definitivo. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. no fundo. pelo menos em parte. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. a execução específica não é puramente executiva. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria. de facto. continua a ser um verdadeiro contrato. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. tão-só. a celebração das promessas. em função dele. delimitando. Justamente por. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. 50 . O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. tão-pouco é declarativa. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). as partes regularem. Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. ainda que devido e pré-regulamentado. uma vez concluída. um acto de execução do que já estaria combinado. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. Mau grado a primazia reguladora da promessa. levar ao apagamento do definitivo. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. as partes obrigam-se. como contrato autónoma. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. o contrato definitivo não perde em categoria. à negação da própria promessa. A lei proíbe. apenas.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. Ao celebrar o contrato-promessa. A primeira opção explicativa leva. o que esteja em causa. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. na promessa. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. Nos extremos.

1380º e 1381º). ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes.  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. por χ. com o qual o negócio fora ajustado. Diz-se. A favor do fundeiro (1535º). enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. Em regra. que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. A favor da pessoa designada em testamento (2235º). 1519º e 1523º). Da mesma forma. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. Por exemplo: o obrigado. A favor do senhorio (1112º/4). um dia. caso este queira. desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável. antes. o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. nesse sentido. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). deve vendê-lo. ao preferente. O direito de preferência. O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. tem. o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente).O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. 51 . Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. De resto. caso queira vender um prédio a alguém. pelo artigo 1535º (1901º). a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. essencialmente. em Direito. perdendo a plena disposição do seu bem. pelo preço em causa. a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. As preferências no sistema jurídico No Código Civil. A favor do co-herdeiro (2130º). as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato. A favor do comproprietário (1409º e 1410º). quando convencionalmente estabelecido. A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º.

ao obrigado faltoso.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. ora reais. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. 52 . ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. relativo à acção da preferência. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização. As preferências convencionais são ora obrigacionais.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). na opinião dominante. quando violada. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. observadas determinadas formalidades. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. tem cabimento recorrer à acção de preferência. nesta última hipótese. apenas uma das partes fica obrigada. ao preferente.  A opção – figura inominada e atípica. através de uma acção de preferência (1410º/1).  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau. consoante a opção das partes e isso desde que. uma indemnização. nos termos do 414º. Na segunda. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência. todavia. Modalidades. violado o pacto. a real. Na primeira. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso. permite ao preferente exigir. não podendo o preferente fazer seu o negócio.  A preferência obrigacional. a preferência real confere. a um direito real de aquisição.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. ainda e por elas. sejam. uma vez que a outra emite logo a declaração final. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real. a preferência legal advém da lei. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais.

quer autêntico quer particular. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. de onde promanam deveres para ambas as partes. próprio do contrato-promessa. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. próprias do contrato preferível. é afectado de algum modo. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. Num pacto de preferência comum. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. ao pacto de preferência. à preferência. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. Todavia. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. a essa luz. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). recebem os deveres. os ónus e os encargos envolvidos. Propõe-se a aplicação. Com uma prevenção: numa situação de preferência. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas. daí resulta a aplicação. a menos que ambas as partes se vinculem. desencadeando o funcionamento do pacto. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. eventualmente. por parte de um terceiro. 53 . a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. podendo. E sendo este o caso.Forma O artigo 415º manda aplicar. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. Tendo conhecimento do pacto de preferência. Pergunta-se se o terceiro que. mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. do princípio da equiparação. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. por ele. como a de fazer a competente comunicação. o artigo 410º/2. de acordo com as regras gerais (219º). o terceiro deve-se abster de contratar.  Porém. de liberdade de forma. como cláusula num pacto mais vasto. ao pacto de preferência. perante o Direito vigente. em regra. Bastaria a assinatura deste. se o pacto for bivinculante (bilateral). quando o contrato preferível exija documento. por definição. pretenda contratar com o obrigado à preferência. deve-se lidar com os deveres acessórios. das regras aplicáveis à capacidade. deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. O modus praelationis.

É o que dispõe o artigo 416º/1. deixando o negócio para o terceiro que. A comunicação não está sujeito. com alterações. A não se verificarem tais requisitos. com base nela. por parte do preferente. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal.  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. exige-se forma escrita. a renúncia. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou.Na posse dessa proposta.  Ou renuncia à preferência. já que o terceiro não celebraria tal contrato. pelo menos. por opção do beneficiário. por aplicação do 410º/2. e estará enganado. na presença de um projecto de contrato firme e sério. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. envolve. quer particular. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. o terceiro ficará com o negócio. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada. de pleno direito. se vem mesmo a concluir na esfera deste. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente. o represente. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir. Havendo aceitação da comunicação de preferência. se não o fizer. afinal. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. Havendo vários preferentes. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. ao seu direito.  Ou o preferente rejeita. pelo menos. esta deve ser feita ao preferente. com poderes bastantes. uma de duas:  Ou o preferente prefere. convicto de que. A resposta do preferente. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. o contrato. não o quer. ficando o contrato por celebrar. A “aceitação” da comunicação para preferência. modificações ou reticencias. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou. a comunicação para preferência deve ser feita a todos.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. isto é. perfila-se o contrato definitivo. na mesma linha. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. quer autêntico. 54 .  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. declarando que não está interessado. por lei expressa. Finalmente.

ou não. Existem três possibilidades básicas. o contrato será seguramente único. ou não. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba. 1ª parte). é excluída da preferência.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. Prestação acessória. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. no nosso Direito da compra e venda. Observar-se-á. o que terá que provar. De todo o modo. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos. pode. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. As valorações subjacentes ao artigo 417º. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. Não o sendo. recebida a comunicação. nenhum princípio de especialidade. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. então. o preferente desiste ou prefere em conjunto. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. apontam. dependendo das circunstâncias.  Não sendo avaliável em dinheiro. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. quando se reporte a uma universalidade. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras. não o sendo. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. divisível?  E não sendo divisível. 55 . sem prejuízo para o interessado. A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto. podem umas e outros ser desagregados.

Havendo eficácia real. Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2).  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. Verificados os pressupostos. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles. afastando. A acção de preferência permite ao preferente. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. sempre. os restantes: não havendo processo de escolha. a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”. desde que este as acompanhe. a todos os preferentes. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. esta última: trata-se de um facere jurídico. fazer seu o negócio faltoso. Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. Segundo o artigo 1410º/1. em termos de aquisição. A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir.  Concluir o contrato em causa. com isso. com o preferente. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes. A prestação principal é.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. seguramente. 56 . moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. 1ª parte). A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. nas condições fixadas. sem seguir o procedimento da preferência. feito no artigo 410º/2. ao preço e à identidade do requerente. abre-se licitação. em caso de violação de uma preferência real. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. Em termos de comunicação: ela deve ser feita.

ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo. ao tribunal. esta não depende da intervenção da parte vinculada. perante o concreto contrato definitivo em causa. aqui. o artigo 411º: o vinculado pede. por ambas as partes. na execução. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”.  Quanto à execução. Haverá que aplicar. provocar o aparecimento do contrato definitivo. só deverá ter lugar se uma das partes quiser. a opção cessa. ora. o qual. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. A opção. Aplicam-se aqui. por mera declaração unilateral. execução e incumprimento No que toca ao optante. que exigirá. um verdadeiro contrato-promessa. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. no cumprimento. por uma simples manifestação da sua vontade. Logo. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. dá azo ao contrato definitivo. directamente ou por analogia. todavia. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. na opção basta a declaração do beneficiário. ele recebe o direito potestativo de. excepto no que tanja ao cumprimento deste. do definitivo. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. na conclusão. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. declarações de ambas as partes. que fixe um prazo razoável para o seu exercício.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. 57 .  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. tendentes à conformação do contrato definitivo. da posição de contratante e do valor que ela representa.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. o titular ou o optante) recebe o direito de. por analogia. Direito e deveres. na opção. passando a integrar o definitivo.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. a celebração. só será válida e eficaz se.

surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. o artigo 272º: na pendência da opção. natureza e aplicações Celebrando uma opção. dando-a em garantia ou alienando-a. O obrigado. directamente. a cargo. a sua opção. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção. pode facturar o premio da opção. o artigo 762º/2 e. Como princípio geral. no memento escolhido. 58 . entre outros aspectos. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. O risco desaparece.O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. no mercado. por via dos artigo 295º e 221º/2. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. as partes congelam as condições da venda. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. perante a outra (promissário). Actuada a opção. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. que exercerá o seu direito se o entender. No plano do seu conteúdo. com relevo para o pagamento do preço da opção. Assim. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. Ambas as partes ficam . designadamente para a parte optante. a qual adquire um direito à prestação. por seu turno. respectivamente. do definitivo.todavia. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). Ainda o mesmo optante pode colocar. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. do optante e do adstrito. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. por analogia. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. partes no contrato. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. há que lhe aplicar. quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. o qual deve ser cumprido. Funções. surge o contrato definitivo. uma das partes (o promitente) assume.

porventura. a prestação principal O promitente tem. pelo contrato a seu favor.  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. especificamente. devam ser trocadas entre os mesmos.  A de exigir. as prestações ou outras vantagens que. a contrario e 448º/1. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. Tal permite excluir. de forma geral. Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte. o direito à prestação: independentemente da aceitação. A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). perante o terceiro. imediatamente. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. lhe possam advir da relação básica (405º). a efectivação da promessa ao terceiro. excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). do promitente. pelo contrário. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. ao promitente.  A de exigir. 1ª parte). O regime concreto de tais prestações. 59 . deste cerne. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal. independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). porventura. As prestações que. o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. do promitente. por exigência deste e do promissário.A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. O terceiro adquire o direito à prestação. A posição do promitente. quando esse seja o conteúdo da promessa. contratos como o casamento ou a doação. fundamentalmente. Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. A posição do terceiro O terceiro adquire. a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1). nessa altura.  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem.

A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1. sobre si. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. Num primeiro tempo.  O terceiro. As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. Electio ou electio amici: a escolha.  O promissário. Na linguagem desde subsector. falsificar a conduta a que se encontra adstrito. quando se desempenhe perante o terceiro. a contrario e fortiori). porém. pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. 60 . A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação. de adesão. Desde modo. pode desinteressar-se dela ou. O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou.Perante um contrato a favor de terceiro. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. no limite. pode ser menos diligente ou até. ao abrigo das regras gerais (217º). antes dela. não tem. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. Amicus: o terceiro. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. a contrario). Eligendus: o terceiro. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. logo. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. Pode-se. a fiscalização da contraparte. por não ter sido celebrado com o terceiro é. por não ser o destinatário da prestação acordada. antes de ter ocorrido a sua nomeação. de lealdade e de informação. ainda. nada fazer. Esta apenas consolida um contrato que. O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. não sendo parte do contrato. desconhece os precisos termos envolvidos. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. através da regra da boa fé (762º/2). A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. instável.  Torna a promessa firme (446º/1. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado.

dele se aproximavam. altura em que o contrato ficará sem efeito. do próprio contrato que a contenha. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta. a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. concordância do amicus e electio. seja em moldes sócio culturais. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). a cláusula “pessoa a nomear”. A electio tem. tal como sucede com a ratificação (262º/2). Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. Feita regularmente e comunicada a designação. seja em termos técnicos. Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato. o negócio consolida-se na esfera do stipulans. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira). Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa.  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. Embora a lei não o diga. Concluído o contrato para pessoa a nomear. ao outro contraente. em princípio. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. eficácia retroactiva. Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. 61 . inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. Ele implica. Como tratá-las? Com o tempo. As fontes paracontratuais Ao longo da História. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios. num todo coerente. não reunindo as características perfeitas do contrato. A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. quando superior (454º/2). pois. no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. produz efeitos em relação ao contraente originário.Regime. foram surgindo figuras que.

através de meros comportamentos materiais.  Inserção em organizações comunitárias. isolam-se:  As relações contratuais de facto. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual. Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança.  As relações contratuais sem contrato. Relações paracontratuais em especial 1. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas. Surgindo. muitas vezes. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que. postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. esta relação fundir-se-ia nele.  Os contratos com protecção de terceiros. tivesse ocorrido qualquer contrato. para certos fins. de lealdade e de informação. no tráfego moderno de massas. depois. pelo menos. em termos rigorosos. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. na sua origem.  Situações de relações jurídicas complexas. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). Sublinha-se que. chega-se. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual. seja nos preliminares. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. com ele. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais.  Situações de proximidade contratual. sem integrar previsões contratuais. execução de relações duradouras. derivada do facto simples de um contacto social. 62 . seja na formação. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais. ser reconduzidas ao contrato mas que. uma parte razoável do seu regime.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. no espaço jurídico. o contrato. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato.

o círculo interior. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. 2. Em termos analíticos. pelas partes. para terceiros. tenha uma proximidade visível. 63 . surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. independentemente de qualquer especial vontade. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. o Direito manda proteger. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. promane deveres acessórios (de segurança.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. ainda que insubsistente. em face de um contrato:  Alguém que. Também está claro e assente que. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé. ainda. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. O círculo interior. revogado ou denunciado. por qualquer razão. não seja parte. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. no caso de violação. que veicula os valores fundamentais do sistema. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. por estar vulnerabilizada. A “fonte”. Em termos gerais. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. mercê dos contratos preliminares. no contrato considerado. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. nele. que se reporta aos bens postos em jogo. O contrato é anulado. nas protecções dispensadas. Há impossibilidade inicial da prestação. perante a prestação principal e em face do credor. Com as devidas adaptações. 3. O contrato é resolvido. De novo há um círculo exterior. Havendo proximidade. igualmente. Surge uma impossibilidade superveniente. e existe.

“negócio” engloba. as normas típicas. uma vez que ele não é partes. o proprio acto unilateral (457º-463º). por analogia. a responsabilidade obrigacional. 64 . ad nutum. de lealdade e de informação. 4. com facilidade.  Os perigos da adstrição ad nutum.  A proibição de. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. o inerente instituto. ainda se poderiam manter determinados deveres. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. em termos jurídico-positivos.Tecnicamente. fique adstrito a realizar uma prestação. aparentemente. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. perante eles. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. O artigo 457º proclama. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. mas noutros locais. obrigações que (só) irão pensar depois.  Um numerus clausus de realidades relevantes. O negócio unilateral implica que alguém. tais deveres não têm origem contratual. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. Em rigor. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. uma regra de tipicidade. 5. quando violados. podendo. operando o contrato. aqui. Antes de fundam na lei. aplicar. o que (ainda) não têm e subscreverem. São os deveres pós-eficazes. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. para as partes. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. com ligeireza. nesse sentido nuclear. dando origem. que explique os deveres resultantes. De facto. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se. no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. como um simples facto stricto sensu. fora de série. No que se lhe reporta. ser globalmente denominado culpa post factum finitum. cessado o contrato. de obrigações futuras. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. Mas têm moldagem contratual. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. por sua livre e exclusiva vontade.

ainda. Quanto muito. pois. passando pela tradição de uma coisa. também aqui. existe aqui. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. a afirmação. no Direito português. deve imperar. a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. por força de qualquer outra fonte. devidas. já antiga. A regra não origina nenhuma obrigação nova. quanto à existência de adequada fonte das mesmas. Em bom rigor.  Fonte essa cuja existência se presume. cabe salientar a confiança que. com a promessa pública como modelo. Os negócios unilaterais distinguem-se. Dogmática geral O negócio unilateral. Assim:      Da proposta de contrato. 65 . para além da concreta eficácia suscitada. Deve-se ter também em conta os terceiros que. sem indicação da sua fonte. de resto. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. numa segunda vertente. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. Da oferta ao público (230º/3). proclamada no artigo 457º. importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. limitada à inversão do ónus da prova. Negócios unilaterais em especial 1. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. Do testamento. De contratos com apenas uma assinatura.Mantém-se. No que tange ao autor do acto. Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. fica o credor dispensado de a exibir. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. pode-se admitir tipos abertos. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. a tipicidade dos negócios unilaterais. sobretudo quando interessados. de que. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. deve sublinhar-se. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. até prova em contrário (pelo devedor). anteriormente. que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. ainda. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. a primazia da materialidade subjacente que. Do anúncio público (225º). é aparente. isto é. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). igualmente por via da boa fé. pelo princípio da causalidade.

Até que. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. pelo cumprimento. ainda. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). ficando. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. não tendo prazo. um motivo atendível. seja revogada (461º/1). prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. in fine). acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. Concurso público O artigo 463º. aqui. 66 . ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. da indeterminação do destinatário. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. só nessa altura se constituindo. que torne a promessa inexigível. perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). pode. muito claramente. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. por anúncio público. por justa causa (461º/1. Feita a promessa. apenas. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. Até que. Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. o concurso ficaria indefinidamente aberto.  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete.2. a sua obrigação. seja revogada. naquela. deriva. a título de prémio. ele extinga. propriamente obrigado. na sua falta. 3. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. A situação distingue-se. da oferta ao público (230º/3): nesta. aqui. pela aceitação. constituir o contrato. objectiva ou subjectivamente. fica vinculado desde logo à promessa”. A justa causa será. exclusivamente. o promitente fica obrigado:  Até que. relativo a concursos púbicos. O público. surgindo alguém nas condições nela previstas. desde logo. tendo prazo. o promitente adstrito à sua efectivação.     Até que expire o prazo nela fixado (460º). às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º). constitui uma especial modalidade de promessa pública. antes dele.

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