Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

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Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

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 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

2. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. É um código típico do início do séc. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. que nascem de uma determinada fonte. A validade de um cheque. que merecem reforma em Portugal. A responsabilidade civil é fechada. A causalidade contrapõe-se à abstracção. doutrina. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. O Direito das Obrigações alemão é líder. 4 . Romano-germânico Sistema centrado no BGB. Se a fonte for inválida. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. 942º. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. defesa do consumidor). No entanto. é abstracto. 812º. no Código Civil. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. Causalidade Significa que. por regra. daí tal importância. nesse caso. (448º. É muito difícil mexer nele. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. Não se quer que as pessoas. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. O Direito civil é muito estável. É muito elegante linguística e estilisticamente. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. p. Resulta do movimento da pandectística. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. O Direito das Obrigações é super estável. analítica. transposição de directivas comunitárias. 947º. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade. A responsabilidade civil é ampla. O legislador optou por emitir leis avulsas. antes de terem as coisas. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. 809º. 457º. A codificação da boa-fé. renunciem aos seus direitos. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. Foi muito pouco mexido. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. O BGB. XIX. O BGB é de 1900. 863º. as obrigações. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. 994º). para não darem o que não têm. a obrigação não subsiste. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1.Existem. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. Mas há zonas periféricas. todavia. prescrição. vários artigos em que podemos detectar esta orientação.. 4. ex. não depende da sua fonte – o negócio jurídico. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. regras. Protegem-se as pessoas contra si próprias. baseada num conceito vago.

As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. Além da redistribuição germânica das matérias. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. 5 . sendo uma enorme influência. Há pouca influência romana. Mas foi uma novidade científica que vingou. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. canónica. XIX. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. surgem institutos até então desconhecidos. Naturalmente. 4. 5. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. Antes da aprovação do Código de Seabra. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. Não há correspondência. No Brasil. a partir de 1911. no entanto. O Código de Seabra é. Mas. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. Há união entre religião e Estado. muito avançado. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. Anglo-saxónico É um mundo à parte. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. O Direito português é aberto ao exterior. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. entre os conceitos desta família e os das anteriores. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. há um período de pré-codificação. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. sequer. Mas tem uma organização e conceptualização originais. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. sendo revigorados os já conhecidos. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. tal como a cultura chinesa. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. O Código não é de inspiração alemã. islâmica.3. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. na China não aconteceu isso. Este sistema não é codificado. mantiveram-se em vigor as Ordenações. Chinês É muito antigo. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. não havendo negócio jurídico separado dos contratos. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular.

continua a vigorar o Código de Vaz Serra. sendo substituída pelo inglês. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. Antes da entrega de Macau. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. depois da aprovação. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. mas começa a ser preparado no pósguerra. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. tendo-os traduzido para chinês. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. Na Guiné. verificou-se a invasão indonésia em 1975. Todavia. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. Ele é de 1966. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia.No Brasil Na doutrina brasileira. foi aprovado um Código Comercial novo. quando ocorreu a ocupação. Há algum atraso na sua aprovação. Em Macau. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. Em Moçambique. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. As revisões ministeriais do Prof. mas havia a barreira linguística. Em África Em Angola. vigora também o código de 1966. O Código brasileiro aparece só em 1916. O Prof. com algumas alterações após a independência. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). marcaram as primeiras reconstruções do CC. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. Em Cabo Verde. O português era a segunda língua. como membro da OEA. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. ainda em meados do séc. Foi necessário recomeçar. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. logo em meados de oitocentos. 6 . O CC de 1916 tem já influência germânica. mas já havia recepção do pandectismo. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. houve maior inteligência política. voltou a vigorar o Direito português. Houve. numa primeira fase. Em Timor. numa segunda fase. um período de exegese. O Código de 1966 vigora actualmente. Com a independência. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. XIX. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. com Teixeira de Freitas. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. Tem influência germânica e do Código de 1966.

predomina o inglês. Mas havia uma grande projecção ultramarina. A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca.O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. O Prof. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU.) de sistemas próximos do germânico. provêm de regulamento. Coreia do Sul. Quanto a autonomia doutrinária. Mas na área do Direito não é assim. entre interpretação e integração. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. 7 . O caso português é singular. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. Japão. não são de common law.. mesmo quando escritos em inglês. de Common Law. a directriz não vigora. evolução histórica. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. até. Cumpre saber que língua é utilizada. ganha pelo mérito. É um Direito que tem uma evolução histórica. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. Se não o fizerem. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. Turquia. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). etc. quantidade de falantes da língua. uma enorme barreira linguística. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. Assiste-se à implantação (Portugal. que é do final de Oitocentos). Mais tarde. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. Nas obrigações. ex. Ciência do Direito. As regras sobre a moeda única. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. é diferente. um pequeno país na Europa. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial. hoje. Em termos planetários. língua. Brasil. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. Há 23 línguas oficiais na Europa. Há. que suportou a nossa independência. também com as operacionais: inglês. estão em causa relação inter-pessoais. foi do Direito alemão. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. não havendo confusão com os sistemas da pandectística. Há as directrizes e os regulamentos. De um modo geral. Todavia. O Direito lusófono não tem só essa influência. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. No Direito francês há distinção. francês e alemão. a grande influência. na área dos negócios e nas relações entre povos. Somos. ao contrário do que acontece no Direito português. p.

Não podemos também exportála para o direito das obrigações. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo). era o poder da vontade. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado.No tempo do ius commune. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. havia um domínio de alguém sobre outrem. Esta noção presta-se a críticas. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. No plano oficial. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. Fala de um bem a prestar. nem uma política externa comum. Nós. há 500 milhões de pessoas. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. dada a insuficiência da língua inglesa. intra muros. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. mas com exagero. Antigamente. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. ele começa a desaparecer. quando existia obrigação. No espaço europeu. forçar a vontade humana. 8 . MENEZES CORDEIRO. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. havia um Direito europeu das obrigações. a vantagem é o bem que será prestado. juristas portugueses. Para o Prof. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. não há um Governo europeu. há muitos constrangimentos. O melhor Direito é o interno. Não teve consequências. como a falta de competência dos órgãos europeus. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. O Prof. Se A tem direito. e não a totalidade. para SAVIGNY. O direito subjectivo.

Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. Pode ser um facere ou um non facere. 9 . porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. A obrigação não é apenas um bem a prestar. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. surge a nova noção de obrigação. um direito ao património do devedor. Assim. pelo que é excepção o recurso ao património. Na prescrição. extingue-se a haftung. Depois. já é um valer em si. A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. Pode haver obrigações sem prestação. surgiu a respondência. A ideia remonta ao antigo Direito romano. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. as obrigações são cumpridas. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. todavia. mas as suas obrigações permaneciam. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). assentes apenas em deveres acessórios. Os romanistas diziam que não havia. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). No séc. o dever é sempre um constrangimento ético. Em regra. Ela. independentemente de ser cumprida ou não. no início. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. Há. pode-se atingir o seu património. Se o devedor não cumprir. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. sim. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. As pessoas morriam. obrigações. mas o seu património. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. independentemente de terem culpa).Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. XIX. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. Primeiro. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção.

em termos pragmáticos. linguística. Estas construções são úteis. O credor fica adstrito a deveres de segurança. etc. cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. 10 . qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. pode haver nulidade. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. por si só. O BGB já não exige natureza patrimonial. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. com o credor e vice-versa. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. a responsabilidade é patológica. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. só. Em certos casos. Se são. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. deveres secundários e deveres acessórios. Se é assim. MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. O regime é solicitado para um tratamento unitário. um conceito de obrigação. noutros ainda. outra concepção diz que há um direito real de garantia. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. pode ainda não existir. A obrigação. tratado mais à frente. pelo que obrigação não é uma prestação. Se o devedor principal não cumprir. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. é o fiador que deve cumprir. Mas. Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico.. compreende um dever de prestar principal. não interessam. com dois regimes). Se não são. A prestação pode não existir. não tendo interesse para o Direito nesse caso. noutros. colaboração. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. A obrigação pressupõe um dever específico. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. A obrigação do fiador é secundária. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. sabe-se hoje. não podendo servir para construir.

O 397º define obrigação. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. 11 . Pode haver execução específica. há sanções pecuniárias compulsórias. tem conteúdo económico. será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. boa educação) que não relevam para o direito. não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. de sistema. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. Não tem de haver natureza patrimonial (398º). Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. acção directa. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). mas havendo danos. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. É assim ao nível global. Hoje isso não é assim. O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. Como são ressarcíveis. A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). não necessariamente em todas as situações. há ressarcibilidade dos danos morais.Se um artista se obriga a entoar uma ária. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. mas pode receber dinheiro. pode haver responsabilidade pela deferência. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. 2ª parte remete para o interesse. Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. Tudo pode ser avaliado em dinheiro. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. compensação – e não de equivalência. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. à partida. o 398/2. As relações de obsequiosidade não são. o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. Direito. ela é avaliável em dinheiro.

Os acordos de cavalheiros são relevantes. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. nos direitos pessoais de gozo. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. Podem fazê-lo? Em princípio. há créditos absolutos. Em obrigações. mas não se pode esfarrapar o par de dança. Em direitos reais há só uma. Nas obrigações. contrapondo-se aos direitos reais. duas partes. A convida B para dançar. seria sempre necessária a mediação. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. o que tem de surgir é o serviço. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. o credor aproveita imediatamente a coisa. Uma última. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). absoluta. Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. Assim. não. mas não se pode retirar daí uma regra. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. A obrigação é uma relação jurídica. 12 . já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. o direito real é uma situação absoluta. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. Deve-se sempre perguntar qual a origem. no caso dos direitos reais). Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. são para cumprir – se não forem. há figuras como a execução específica. Esta noção vale o que vale. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. a relatividade existe quando há relação jurídica. Noutra acepção. erga omnes. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. relações de vizinhança. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. Os direitos potestativos são absolutos. Quanto aos acordos de cavalheiros. Se a prestação for um serviço. Os créditos não são sempre relativos. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal.Há também deveres de protecção. por exemplo). A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. que são absolutos? Em termos estruturais. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. encontramos sempre uma dança a dois.

em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). se incumpridos. Mas inverteu-se a tendência. Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. Há uma acção. dão lugar a responsabilidade civil. A eficácia interna é entre credor e devedor. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. a externa é perante terceiros. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. Mas há outras regras. com os pactos de preferência. Se é assim. p.A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. A regra é de que a eficácia é meramente interna. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. a figura do terceiro cúmplice). A doutrina tem evoluído nesse domínio. Se é assim. A nossa jurisprudência acordou em 1964. que se manifestam predominantemente perante o devedor. médio ou fraco. pode existir oponibilidade em sentido forte. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). Deveres acessórios. PESSOA JORGE). Na Alemanha diz-se que não. relações jurídicas. Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. com MANUEL DE ANDRADE. o que lhes daria uma tutela relativa. No sentido forte. então há oponibilidade média. dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. É o que acontece com os chamados deveres de tráfego. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. Faz sentido que haja defesa contra terceiros. Mas há também deveres no tráfego que. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. As obrigações são vínculos. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. No início. Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato.. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. Há contratos com protecção de terceiros. Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. Havia uma quebra maliciosa do contrato. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. ex. 13 .

Quando a lei recorre a descrição da realidade.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. Está tudo ligado. pois. O terceiro não pode.  Diz que está proibida a analogia. em princípio inatingíveis. países que admitem a figura. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. Noutros casos é mesmo normativa. protecção jurídica. as economias britânica e francesa. aplicam-se os artigos 798º e ss. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. Quando existe um devedor. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. é muito mais restrita. Isso em princípio. Todavia. Isso justifica-se em ramos agressivos. há responsabilidade. Dá. Contratar-se-ia menos. como o penal ou o fiscal. descrevendo as condutas. O legislador pode dar uma série de exemplos. Há tipicidade exemplificativa. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). Se existe uma descrição típica das condutas. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. Se ele for atingido. diz-se. Se A contrata com B. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida. os factos são descritos concretamente. não estão assim tão mal. Outros dizem que só o devedor pode incumprir. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. ao atribui direitos subjectivos. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. O Direito objectivo. 14 .  Diz que existe numerus clausus. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. Argumentos a favor. Só pode estatuir com recurso a tipos. Num ramo típico. recorre a tipos – tipicidade. Quando existe uma previsão normativa. não havendo lacuna. um terceiro faz-se passar por credor. Mas esses não se aplicam a terceiros. há um numerus clausus – o número de factos é finito. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. proíbe autotutela. mas há várias vias para o conseguir. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência.

invariavelmente. direito a uma coisa corpórea.). Autonomizou-se do Direito das obrigações. um princípio de tipicidade. o regime tem um desvio. obrigações naturais. Mas existem muitas obrigações nessa área. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). Os direitos reais têm. um direito e um dever. O conteúdo das obrigações é sempre. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. ex. É muito especial. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. tipicidade exemplificativa. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. Obrigações. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. Há. tudo é parecido com o Direito das obrigações. por via de condicionalismos históricos. O mediato é também designado por objecto. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. Nas obrigações isso não existe. em princípio. também. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. de facto. p. Mas tem regras especiais. venire contra factum proprio. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. não há numerus clausus e pode haver lacunas. 15 . O contrato de trabalho é um contrato como os outros. Há. por conjunções históricas. Há situações de direitos reais que. Isto é o núcleo duro – há desvios. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece. etc. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. Há tipicidades de tipo científico. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. Aí. aqui. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. O Direito comercial é outro ramo especial.Nos contratos há descrição abstracta. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. ao contrário. O conteúdo distingue-se do objecto.

São instrumentais em relação a ela. tendo em conta as circunstâncias do caso. Podemos. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. A de dare consiste na entrega de uma coisa. Ex. noutras pretendem o resultado. Se se comportar abaixo da bitola. 16 . Não se trata de um non facere. Seguem o regime da prestação principal. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. por um esforço de análise. as partes pretendem uma determinada conduta. A prestação principal é o núcleo da obrigação. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação.: o médico não tem obrigação de curar. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece. O devedor está obrigado à diligência média. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. Todavia. Só é exigível que se esforce até esse ponto. aquilo que for normal num homem médio. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. tem culpa. Foi o critério escolhido pelo legislador.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. De pati.) e a aquiliana (483º e ss. Temos de saber o que é exigível. Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta. São prestações que complementam a prestação principal. mas à prestação de um serviço com determinada diligência. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei. apenas de fazer tudo ao seu alcance. É o critério do bonus paterfamiliae. De dare. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. é um homem médio colocado no caso concreto. Não se obrigam a resultados. Uma prestação inclui necessariamente o esforço. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. Por vezes. É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra.). Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. É o homem médio. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção.

Não basta cumprir a obrigação. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. A culpa in contrahendo. contratuais e pós-contratuais. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). é preciso cumprir de boa fé. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. possível. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. observando os deveres acessórios. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno. Está em causa o princípio da tutela da confiança. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. mas há deveres acessórios pré-contratuais. tal como se não cumprir o dever acessório. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. segurança. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito. integração de lacunas. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. determinável. só depois a indemnização.O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. a obrigação é uma realidade muito complexa.. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente.  Círculo externo. rerum sic stantibus. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). A indemnização é uma consequência de segunda linha. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. A base legal é o 762/2. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. etc. informação. 17 . Os deveres acessórios são imprevisíveis. Podem ser deveres de lealdade. depois a reconstituição natural. Como decorrem da boa fé. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia. Substancializam a obrigação. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. nos deveres acessórios são ambos. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. O legislador quer primeiro cumprimento. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo. são soluções para problemas novos. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico.

A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. Não é o mesmo que coisa fungível. Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. mas são regularmente utilizadas no sector. 3. como concessão.  Obrigação de abstenção (simples. ex. transferência de propriedade. Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. trata-se de obrigação complexa. Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos. Se sou obrigado a recorrer a perífrases. Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). se consigo exprimir com uma única expressão é simples.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. outros não. Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente. A regra é da fungibilidade. Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei. Em princípio. combinadas quando estejam associadas a direitos reais. suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). na relativa há. relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica.).Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. p.  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis. 18 . 4. porteiro. etc. ambos). Absolutas. nas mistas há vários deveres. 5. atípica resulta da autonomia privada. uns relacionados.). 2. Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples).

2. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. Há lacuna. se tiver poder de representação celebra também os negócios). e outras que se cumprem no tempo. A denúncia. É necessário. A denúncia seria um dos esquemas. Obrigações duradouras Partimos da prestação. E relações perpétuas. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. A retribuição é a renda ou aluguer. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. Se fosse logo satisfeito. era instantânea. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. É um contrato em especial. também. Implica especialidade quanto à sua cessação. Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. não obstante.6. claro está. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. As questões sociais vieram pugnar por protecção. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. Não se extinguem com o cumprimento. o principal. O conteúdo tem de ser sempre. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. forma de cessação de um contrato duradouro. O DL 178/86 trata da cessação da agência. Tipos de obrigações 1. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. O Prof. quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. para tutela da confiança. O Direito civil é um direito prático. Hoje. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. com dilação temporal juridicamente relevante. entre o agente e o principal há relação duradoura. como reacção ao regime feudal. 19 . determinável. pelo menos. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. Havendo agência. ao contrário das obrigações comuns. mas pessoais. um pré-aviso. sob pena de nulidade (280º). em que havia obrigações perpétuas. surge na periferia. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação.

Chegou-se a um regime vinculístico. inícios do séc. por exemplo. XIX. com a industrialização e grande pressão urbanística. etc. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. Em 1985 tentou-se reformar.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção). detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos.No arrendamento domina a autonomia privada. Obrigação de deixar usar? Seria negativo. contraindo empréstimos. Nos finais do séc. No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer.  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). Em 2006 houve um projecto. 20 . maior o lucro do trespasse. as rendas vão degradando. porque ele é sempre real). O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. Há bloqueios ideológicos. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. É um direito real. Surgem teorias mistas (entre nós.  Congelamento das rendas. Há subúrbios. XX. Mas também não explica o que é o gozo. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário. actualizando as rendas. centros das cidades abandonados. é figura real o direito de locatário. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. surgiram fenómenos e problemas de natureza social. trânsito caótico. O 1743º do CC francês determina que. Chegou-se a este panorama aos poucos. Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. para o futuro). havendo transmissão da coisa arrendada. Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. económicos. mas também não chegou a bom porto. Se houver inflação. Quanto mais baixa a renda. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. Em 1990 tentou-se de novo. Logo. Se é assim.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. menor taxa de natalidade. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. políticos. impedindo actualização das rendas. A solução de quem chega ao mercado é comprar. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas.

Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. em regra. 21 . A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. O Direito dizia que ele estava obrigado. Comportam-se. no conflito com outros direitos. defender o seu direito face a terceiros. já que é ela que as explica. Juridicamente não tinha personalidade. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. Não tem uma grande relevância prática. Estabelece que prevalece o direito real. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. por ser figura próxima do direito de crédito. entre os direitos reais e os de crédito. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. A pessoa estava obrigada a fazer algo. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. 3. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. Admitese a existência de direitos de gozo. o locatário pode fazer obras. Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. como direitos reais. Mas pode ser integrado no Livro II. na locação. Mas mudou de ideias. Essa tese é inaceitável. mas sem shuld. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. é histórica. Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. de forma similar aos direitos reais.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). pois. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. Obrigações naturais É figura muito estudada. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. Era um débito sem respondência. pelo que ele se pode defender sozinho. nesta matéria o regime dos direitos reais. porque não era uma pessoa. tendo um direito de preferência sobre a coisa. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. com recurso aos tribunais). mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. Seguem. Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). o que os aproxima dos direitos de crédito. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. Uns são pessoais e outros são reais. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. Em geral.

diz-se por vezes. Isso não é verdade. aplica-se o regime das obrigações civis. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. pois. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. Se eu pagar. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. etc. Aparentemente. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. mas também as obrigações 22 . Não podem ser constituídas por contrato. com base no 404º. Tiveram uma evolução muito atormentada. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição.. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais. porque elas são típicas. não jurídicas. Mas são aqueles os dois momentos cruciais. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei.  O 404º. Noção legal (402º). Hoje.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça.A isso chamaram obrigações naturais. As obrigações naturais. Em tudo o resto. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida. A obrigação natural deve ser. não posso pedir devolução do que paguei. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais. No período medieval. sociais. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. Esta matéria está regulada no 402º. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente. Não pode ser exigível judicialmente.  Não exigibilidade judicial do cumprimento. Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. jurídica. A justiça é aquilo que o Direito consagra.  As obrigações naturais são típicas (809º). não têm valor patrimonial. mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. A lei. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. Ser jurídica é estar prevista como obrigação. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. diferente de um Direito moralmente enformado. etc. transformando-as em naturais. É jurídico. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. a moral é uma coisa e o Direito outra. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. Mas isto não pode ser. Todavia. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. Havia ligação entre o Direito e a moral.

o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. há obrigação genérica.civis podem não ser cumpridas. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. Não havendo convenção. Logo. que podem ser de facere. 4. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. O problema que surge é o da determinação do objecto. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. há uma lacuna negocial. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. Os contraentes podem estipular diferentemente. A escolha e o risco O 539º estabelece que. Ele é determinável mas não está determinado. o critério deve ser o da mediania. rege o favor debitoris. se nada for estipulado. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis. Na falta de acordo. 23 . A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. dare ou pati. o critério é o da mediania. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. Desde que a coisa a entregar não seja única. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. Não é o sentido do 400º. Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. com a massificação das transacções. dando lugar a obrigações genéricas. As obrigações genéricas são muito importantes. quantidade ou qualidade. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. escolhe o devedor. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. Só se determina o género. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. podendo ser qualquer litro de azeite. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). Deve-se escolher a coisa média. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. No Direito romano eram desconhecidas. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. é fungível.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

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7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

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Os vários sujeitos têm relações entre si. Nestes casos. No Direito comercial. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. 27 . A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. quando há vários sujeitos numa obrigação. por exemplo). a regra supletiva é a da solidariedade. Em resumo.noção. Na prática. seja porque existe expressão linguística unitária. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. Existe uma presunção de igualdade das quotas. Ao contrário da parciariedade. de modo a assegurar o cumprimento. na falta de estipulação em contrário. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. É um regime mais duro para o devedor. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. seja porque o regime é unitário. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. que é sempre singular). O credor só pode exigir de cada um essa parte. os credores). Há obrigações que são à partida divisíveis. Quando vão cumprir. isso não multiplica a obrigação. todos têm de prestar ao mesmo tempo. porque também temos de tratar das relações internas. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. MENEZES CORDEIRO defende que. O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. Aumenta a garantia do credor. um concerto de orquestra. há outras que só o são se as partes acordarem. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. a lei estabelece solidariedade. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. Presume-se que as partes de cada um são iguais. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. É só uma. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. mas complexa. Rege o 512º . para proteger o lesado. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas.

à estatuição de uma norma. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. É uma bipartição importante. Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. uma classificação das fontes.). Uma prestação pode. só dele (não os meios pessoais de outro). concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. quando alguém contrata a solidariedade. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. Precisa de um facto jurídico para nascer. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. Também existe. se não houver outro acordo. significa que há alguma coisa a mais. um credor e um credor pignoratício. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. Surgiu o esforço de sistematização. O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. já que o fraccionamento é feito posteriormente. p. 28 . A lei poderia ser fonte de obrigações. São duas fontes fundamentais de obrigações. presunção de igualdade (516º). ter duplo aproveitamento. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento. Mas é uma pluralidade heterogénea. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. p. p. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. No período da pré-codificação francesa. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. Na solidariedade há co-devedores. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. aqui. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. o do devedor e o do fiador. tem regime diferente. ex. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. acrescentou a lei. há “gato”. não sendo nem uma nem outra.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. um A. pessoal seria a prescrição. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. é natural que existam meios de defesa dos devedores. ex. Normalmente. tal como os direitos reais. ex. Eram fontes que.

O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade. que é comum a todos os direitos europeus. desde logo. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. a melhor técnica é a tipológica. Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. referência à tetrapartição. Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. como se usou em 1867 e 1966. enquanto a lei é norma heterónoma. p. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. Há um encadeamento. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. O que se deve. 29 . Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. Enumera algumas fontes. Mas ele é mesmo muito reduzido. Em termos estatísticos. ex. no tempo e no espaço. O Código de Seabra faia um elenco original. Com o CC de 1966 também não existe classificação. em vez de adoptar a repartição tradicional. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. enumera-se o contrato.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. a partir do 405º. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. todavia. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. a gestão de negócios. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. nuns e noutros a mesma coisa. mas enumeração. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. então. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. apesar de não haver classificação qua tale. o enriquecimento sem causa. de se autodeterminarem. Faz-se. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica.). O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. o negócio unilateral. É difícil unificar. As divisões não significam. Já nos sécs. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. O direito privado tem 2000 anos.

O CCP trata da matéria. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. O contrato tem um papel muito alargado. de acordo com a escola histórica e a pandectística. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). Também a contratação pública é hoje uma manifestação. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. mas se lemos artigos sobre negócios. É o sistema de tipo francês. mas existe pacto sucessório. Menezes Cordeiro. É importante considerar o canonismo. D. Mais tarde. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. manifestação da importância do contrato.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. tem menos aplicação. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. Dá-se uma grande explosão. Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. O contrato valia por si. diz-se muitas vezes. com SAVIGNY. Passava a ser vinculativo por isso. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. Dinis. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. em lei de Maio de 1352. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. O socialismo ataca o contrato. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. já o negócio obtém-se pela razão. É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. se a sociedade é subdesenvolvida. para o Prof. o próprio contrato perde espaço. Os romanos conheciam figuras equivalentes. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. No Direito sucessório é mais raro. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. surgindo os contratos que hoje são básicos. vai na direcção do contrato. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. É um diploma bem feito. O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. Daria frutos no período jusnaturalista. está em crise. o contrato está sempre subjacente. No Direito da Família também: contrato de casamento. Assim. a bona fides perderá o seu significado. nas Obrigações é o contrato. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. consensual – basta haver contrato. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. É necessário que haja propriedade. igualmente. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). O contrato. 30 .

Tutela constitucional do contrato A CRP. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. diminuindo a liberdade contratual (banca. à partida. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. Com a queda do Muro. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. O contrato tem peso em si. porque não foi necessário. O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos. É óbvia. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. como o da boa fé. seguros. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força.No séc. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. racionalidade. Todavia. pelo menos para coisas úteis. plurais. pecuniários. É uma visão pessimista.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação. Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. os observadores previram explosão dos contratos.  Intervenção judicial nos contratos. Graças às convenções internacionais. não se trata de um recuo do contrato. no artigo 8º/2.). Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. Não houve. não relevaria: eles devem ser cumpridos. Tecnicamente. 31 . necessidade de consagrar na CRP. pois. Se a lei não dissesse nada. Mas isso não aconteceu.). existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. etc.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. O 56º/3 garante a contratação colectiva. incluindo direitos de créditos). mas de certos contratos. etc. O contrato é. valores mobiliários. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. O contrato é um véu que tapa os olhos.  Áreas reguladas. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português.

em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada.1. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. consideradas mais sensíveis. Terceiro. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. o contrato é bilateral. regulando com especialidade. nominados e inominados. bem como diminui as dúvidas. vindo a aperfeiçoar-se. maior equilíbrio. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. Consensuais. mas a lei não o disciplinou. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. Perante o conceito de negócio jurídico. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). É distinção relativa. Pode haver tipo social e tipo legal. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. 32 . fica fragilizada. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. 3. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. em princípio também não o regula. reais quoad constitutionem e quoad effectum. O contrato de hospedagem. não dá para classificar em abstracto. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. 5. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. Segundo. Quando a lei não lhe dá um nome. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. é nominado mas atípico. por vezes. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. Fala-se. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. no entanto. Todos os negócios são contratos bilaterais. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. 2. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada.

querendo. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. hoje. Tipologias de contratos Contratos típicos. O estudo desta matéria não é fácil. Em regra. reciprocidade. O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. Nos monovinculantes há duas partes. no entanto. em regra. uma vez que domina a autonomia privada.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. solicitar ao outro a efectuação da prestação. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. O problema é que. É sinalagmático. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. podemos distinguir entre negócios típicos. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. Há. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. passa entre as gotas da chuva. 33 . atípicos e mistos Os negócios jurídicos. 7. A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. Fica com o direito potestativo de. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. Tendo em conta este facto. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. a parte geral é muito restrita. Embora o 405º seja muito abrangente. Os gratuitos são. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. É diferente da vinculatividade. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. se as partes celebram contratos mistos. A generalidade das normas é supletiva. pois. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. 6. O problema é que. Há 16 contratos regulados no Código Civil. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. As partes querem dar. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. as partes têm liberdade de celebrar livremente. tendo em conta o relevo de que se revestem. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. uma delas não fica obrigada. À luz do 405º. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas).

na prática.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. Em troca do preço recebe um quarto (locação).: A arrenda um quarto a B. 3. o negócio aproxima-se da gratuitidade. 2. Não tem salário. devolve-lha. 34 . Ex. Complementados – aqueles em que existe um tipo base. 4. mas como tendo a casa como refém. Ex. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. B tem de guardar a casa enquanto A não paga. Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. os serviços de limpeza. comida. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. Os combinados distinguem-se dos complementados. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. Há mistura. Ex. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa. Ex. Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto. Isto só resulta se houver confiança. comida. quando acabar. embora tenha havido preço. o locador.: A recebe habitação. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. entretenimento. A autonomia privada é o pano de fundo. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos. Não pode ser um mero pormenor. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção). Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. O resto é extra. aplicando todos. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante. mas recebe em géneros.: A compra por preço muito baixo. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). próprias de vários contratos.: A comprou 15 dias num cruzeiro. não havendo uma principal. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. A tem dívida para com B. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. não para que se porte como proprietário. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. em troca de explicações. cama. que absorverá os outros. etc. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. que lava também a roupa de cama.

bem como sinergia do ponto de vista económico.2. A seguir temos de resolver com analogia. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. sem intenção de enganar). A solução foi a da analogia. a outra também. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. O limite é o das normas imperativas. Há semelhança entre a agência e a concessão. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. o combinado e o híbrido. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. 35 . Regra geral. aplicam-se as regras desse tipo. para que os distribua. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. nomeia concessionários.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. publicidade. aplica-se essa solução. então celebra-se o y). 3. segurança. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. no entanto. Se não for suficiente. a quem entrega os bens. Quando há lacuna contratual. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. Pode. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. O promotor é remunerado através da renda. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). Mas isso é raro. mas o contrato é usado para uma função diferente. Pode haver várias funções: simulação. É contrato de agência que foi encontrado. Recorre-se ao regime da agência. Se ele corresponder ao tipo x. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. é esse que se aplica. O que é específico é a marca. é também acompanhado de distribuição. aplica-se o regime do tipo x. se na lei houver solução. Mas não é normal. Em Portugal. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. O método foi o da analogia. Hoje. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. 4. Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. e também com a agência. mas os serviços que o centro proporciona. é uma área vinculística. tal como o da vontade das partes. P. gestão do centro. Quando nada se diz. a solução também foi a da analogia. Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. No caso do porteiro isso é evidente. o arrendamento tem muitas normas imperativas. Aqui. por analogia. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. ex. a primeira solução é a da vontade das partes. acabavam os centros comerciais.

teremos uma figura real não prevista na lei. aplica-se o regime correspondente. Quem recebia a coisa com fidutia. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. não permite divisão da coisa entregue. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. M. No Direito português.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. o fiduciário. já que o Direito existe para proteger os fracos. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. Se ela tem natureza real. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. Se for à falência. era o proprietário da coisa. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. mas para o de terceiro. ao contrário do alemão. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. na contratação alternada valia ou um ou o outro.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia. Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. Mas. Ele é permitido se não violar regras imperativas. porque doações de bens futuros não são permitidas. Mas o Prof. O fiduciário é de execução prolongada. O fiduciário é proprietário. interna e alternada. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. Descobrindo-o. em benefício de quem a entregava. O fiduciante é só entre outros. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. Procura-se o centro de gravidade. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. São óbices consideráveis. 36 . Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. a fidúcia é muito violenta para o devedor.

Mas nunca é irrelevante. causais. A celebração de uma escritura pública demora tempo. No Direito português tem grande importância. tem eficácia real. Hodiernamente. sem recorrer à escritura pública. por exemplo. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. a promessa valia apenas como prestação de facto. A promessa por escrito era válida na hora. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. 830º. sendo diferente o regime. Há muita jurisprudência sobre isto. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. Importou do BGB a execução específica. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. de tipo não processual. execução específica). A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). O contrato prometido e o contrato definitivo. Segundo o Código de 1867. rege nos contratos mistos. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). dependentes e independentes. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. há centros de gravidade múltiplos. Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. 37 . A figura acabaria por aparecer no Código italiano. devia ser celebrado por escrito. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. para o sinal. de tipo processual. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. homogéneos e heterogéneos.. Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. 442º.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. A figura da absorção. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. É uma ideia relativamente recente.

Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo). 2. ex. um modus vivendi. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. p. do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. é possível a execução específica no caso de incumprimento. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. do dever legal de contratar. Como no Direito alemão. É um formato. do convite a contratar (A solicita a B que contrate). Função preliminar. regulativa autónoma. transacção meramente obrigacional. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. do exercício de preferência. 4. Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. não podem ser objecto de promessa. mitigada. É a função preparatória. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. os contratos são dotados de prometibilidade forte. Mitigada ou mitigadora. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa. desformalização. financiamento. Meramente obrigacional. 38 . do contrato preparatório material. 1. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. Quanto à prometibilidade fraca. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. por vezes. um modo geral de celebrar outros contratos. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. etc. ex. na promessa sabe-se).As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. uma vez prometido. É usado. Regulativa autónoma. Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. P. sobre a entrega.. Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa. Desformalização. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). 5. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”. tendo isso em conta.). Por vezes. O contrato-promessa distingue-se da proposta. Há contratos que. acabamento da coisa. para preparar o contrato definitivo. na promessa tem de haver negociação). Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. 3. Regra geral. Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo.

É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. se não houve entrega da coisa.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa. Com o não cumprimento. Não se trata de um contrato-promessa. No contrato-promessa. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. imperativo. mas ineficaz quanto às prestações principais. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. etc.) que conduz à possibilidade de revogação. a obrigar a algo que poderia revogar. como executo? Os clássicos diziam que não era possível. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. O nome é parecido. também não há uma regra expressa que o diga. do 1591º e SS. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. até é possível haver excepções ao que se disse. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. diferente do regime do contrato-promessa. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. mas que tinha um regime especial. estão nos antípodas. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. É um contrato à parte. às consequências pela ingratidão. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. o que está em causa não é a regulação de um contrato. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. 39 . Não vincula o promitente a doar. e o outro não cumprir. a proposta ainda não foi feita. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. Não há contrato-promessa de doação. Pode fazê-lo. à partida. É verdade que existe um regime jurídico. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição.. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. Isso não é correcto. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. Mas. etc. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. proximidade. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. O problema é que. mas a situação subjacente é diferente. tendo em conta o regime. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. Isso não vem na lei.

O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. outros a conversão. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. tendo enorme relevância. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. A conversão. nos termos do 293º. O 410º/2 regula a forma. Estipulações acessórias são válidas. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). Não haveria problema de prova nem dúvidas. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. ainda que não tenham as duas assinaturas. Se para o prometido for necessário documento. o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. é preciso o acordo de ambas). A questão das assinaturas é meramente formal. em regra o promitente alienante. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. Para o prof. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. Se for livre também o contrato-promessa é livre. Assim. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. autêntico ou particular. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. Na prática. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação.Hoje em dia. o regime é o do 219º liberdade de forma. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. Uns defendem a redução. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. não se precisa é de assinar. o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. Se o documento é a materialização do acordo. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. não se entende porque só um assina. é a solução. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. 40 . quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. MENEZES CORDEIRO em princípio. Por isso. para ser quantos se obrigam. Mas isso é errado. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. Na normalidade dos casos. aplica-se a regra geral. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico.

ficando com um contrato-promessa monovinculante. Obedece a normas: os princípios da correspondência. p. de invalidade mista. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. havendo grandes atropelos ao direito. Se a promessa for monovinculante. Neste momento. Há. em certos casos. 41 . A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”.Mas não é fundamentalista. também. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. o regime é o da reforma de 1986. Admite que. por sua razão de ser. Surgiu na década de 1980. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. no 3. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. A parte geral também tem regras. se nada disserem. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. Pode ser paralisada através do abuso de direito. a se. possa reduzir-se o negócio. Nestes casos. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. concretização e boa fé. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. Este princípio. com excepção das relativas à forma e as disposições que. ex. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. Havendo contrato-promessa. integralidade. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. MC sugere a ideia de modus contrahendo. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. Trata-se. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. este deve adquiri-la. Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar).

impossibilidade superveniente.). Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. aplica-se o 280º. local. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação. o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. Pode haver uma impossibilidade superveniente. há inadimplemento. Incumprimento há quando. não foi. O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo. o faltoso é o que não cumpre. O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. violação de deveres acessórios. alterando as palavras. imputação. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. Isto é uma trapalhada. Se não houver. se forem válidas e eficazes. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. inclui-se a coisa no cumprimento. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. Pode acontecer que seja lacunar. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. O definitivo está previsto no contrato-promessa. se for cumprido. etc. Legitimidade.. Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss. Pode haver recusa antecipada a cumprir. MC entende que isso não pode ficar assim. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. prazo. O promitente fiel é o que é prejudicado. Ou há mora. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. etc. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. devolve-se em dobro.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. Se isto não for possível. Muitas vezes há AA. se não for cumprido. se o contrato-promessa permitir. violação positiva do contrato. O incumprimento extingue a prestação principal. 42 . O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. À partida. uma via crucis. lugar. Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. mantendo-se o contrato-promessa. a lei prevê a interpelação admonitória. Se houver situação de mora.). pode haver resolução. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). que resolvem inovar. e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º). O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé.

os sinais deixavam de valer tanto. O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. A ideia era: como a inflação é muito alta. Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. o sinal tinha alcance coercivo. O retentor pode. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. Tem um direito de liquidação judicial. O Governo resolveu intervir. faziam-se casas. 43 . Houve várias propostas para resolver a situação. A jurisprudência. Assim.  Quando há tradição da coisa prometida. mas o valor actual da coisa. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. a indemnização já não é o sinal em dobro. que chegava aos 20. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. O que estava em causa eram casas de habitação. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. com a inflação. no entanto. 30%. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. penal. Quando mexeu no 442º. Em 1980 havia grande inflação. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. celebrando-se contratos-promessas. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980). O imobiliário estava sempre a subir. Enganou-se e mexeu em tudo. começou a resolver o problema diferentemente. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. se houve incumprimento. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). Quando metido no contrato-promessa. ajudava a provar a existência do contrato. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício.No Direito grego antigo. No Direito romano tinha um sentido confirmatório. vender a coisa e recolher o preço. recebiam-se sinais. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. mexeu no regime do sinal. na fase executiva. A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. O problema viria a ser resolvido em 1986. Assim. Tornava-se compensador não cumprir. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. o sinal ganha coloração particular. Afastouse a possibilidade de execução específica. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas.

Assim. doutrinariamente. Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. Assim. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. a indemnização seria o valor actualizado da coisa.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. Vários AA. não há logo incumprimento definitivo. É um esquema complicado. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. É uma “excepção de cumprimento”. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. Se houver sinal. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. com a solução do Prof. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. fixa-se um novo prazo. ele é deduzido do preço.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. introduzir correcções. Tentou-se limar algumas arestas. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. 44 . ficou consagrada a indemnização pelo valo. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. exige mais garantias. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. Se houver morar. perderam a objectividade. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. é mais selectivo. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. a primeira consequência é entrar em mora (805º). Tentou-se. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. Além disso. o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. Tendo havido mora. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção. Todavia. pela interpretação). congelando o direito ao valor da coisa. Lobo Xavier. Houve excessos legislativos. mesmo que anteriormente registada. Se houver mora. a favor do promitente adquirente traditário.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. ainda assim. Em 1986 o legislador interveio novamente. não sendo necessária a interpelação admonitória. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. O Prof. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. O hipotecário ver-se-ia preterido. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa.

quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. No Direito funciona-se com prazos. Se for um representante. É verdade. se há sinal. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. o que deve fazer é resolver o contrato. É posse semelhante à do arrendatário. Se for possuidor tem defesas possessórias. Tradição da coisa Tecnicamente. É uma posse muito elementar. A resolução. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. Se é esse o sentido da cláusula. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. a troco da entrega da casa. deve ser tomado seriamente. O sinal visa uma função compensatória. É um contrato que dá direitos muito precários. não há posse. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. Assim. Um contrato de comodato. no entanto. 45 . a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. O que é que as partes pretenderam? 1. desaparece também o sinal. bem entendido. A menos que. quando haja incumprimento. operando o sinal. Se resolve o contrato por incumprimento. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. O contrato-promessa já é um contrato misto. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião).Passa-se logo ao incumprimento definitivo. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. porque tem uma cláusula daquelas. Pode ser uma gentileza mais demorada. Neste momento. Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. A distinção é importante. destrói o contrato retroactivamente. Alguns autores dizem que. 2. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. É celebrado contrato-promessa. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. O Prof. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. 3. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal.

Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. Passa até à frente do credor pignoratício. soluções alternativas à indemnização. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). houver sinal. Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. Estamos perante um facto. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. para além da tradição. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. através dos seus meios. muda o regime. Assim. Quando se trata de acções humanas. Se tivesse havido incumprimento definitivo. colocando no terreno. Já está tudo pago. Contudo. Aqui temos posse em termos de propriedade. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. 46 .4. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. é muito difícil determinar a indemnização. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. Consoante o tipo de posse. Leva ao mesmo. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. pelo que há entrega da coisa. Se há excepção do cumprimento. já vinha de trás. também. Mas isso já estava subentendido. mas não especificou. O interessado pode ainda optar pela execução específica. por maioria de razão também há sinal comum. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. Em 1980 o regime foi alterado. seria impossível apresentar-se a cumprir. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. Se de facto houve perda do interesse. Se houve. Foi uma ideia prussiana. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. A solução mais normal é a execução específica. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. houve incumprimento. Assim. dir-se-á que não podemos obrigar. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966.

A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. O tribunal não emite. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. ex. Não valerá a pena recorrer à execução. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. Mas nem sempre. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. Haverá consequências indemnizatórias. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. Contudo. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. Conquanto que o conteúdo seja determinável. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. Simplesmente. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. é muito difícil calcular a indemnização. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica. em 1980 o legislador foi desastrado.Houve soluções doutrinárias. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela.  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). já que a prestação se tornou impossível. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. a declaração faltosa. Os riscos são compensados pela presença do tribunal. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. contudo. no momento em que é decretada a execução específica. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. verdadeiramente. p. Perante o incumprimento. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. Aí. Nos outros a questão não se colocava. mas vende a C. as custas ficaram por sua conta.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. Simplesmente. O Prof. 47 .

Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. Todavia. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. Não faria sentido a execução de um contrato que.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos.) também não pode haver execução. Igualmente. poderia ser revogado. Quando seja celebrado um contrato-promessa. Já no penhor ou no mútuo faz sentido. p. ex. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. in fine). Mas a lei admite mandato irrevogável. não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). Mas aí não cabe execução específica. mesmo que houvesse. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. comodato). E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. O comodato pode cessar a qualquer altura. depois. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. o 830/1 admite a possibilidade. tão pouco. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. Contudo. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. No caso do contrato de trabalho. Não pode haver execução de contrato que não existe. MC entende que sim. se verifique uma alteração das circunstâncias. Quando nem sequer há prometibilidade (doação. não se iria muito longe (despedimento. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. Mas. Nessa altura. Contudo. Tem de haver ponderação de interesses. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. Aí já faz sentido. por sua natureza. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática.  A exclusão convencional. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. demissão). pode acontecer que. já não é de todo possível a execução. Se houver situação de inexistência. 48 .

Se o preço não for pago há injustiça. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. Promove logo a transmissão da propriedade. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo. Assim. A outra parte pode não ter sido paga. mas contra o terceiro (Dias Marques). É possível (830/5) que se recorra a esta figura. alguns entendem que cabe execução específica. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. reforçando-se o registo. registo da promessa. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. 49 . Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. vendendo a terceiro. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. execução específica. não é norma de excepção. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. O Prof. Vaz Serra. Através da eficácia real conseguir-se-ia. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma.  Há execução específica. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. outros recusam essa solução. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. Deixou de se exigir a escritura. qual a solução? Normalmente.Depósito do preço A sentença é translativa. Se não for cumprido. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. escritura pública.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. convenção expressa de atribuição de eficácia real. a lei alemã permite um pré-registo. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. que a foi buscar ao Direito alemão. Ora. O que está em causa é que o dever seja cumprido. ficando privada do preço.

Nos extremos. à negação da própria promessa. tão-pouco é declarativa. apenas.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. A primeira opção explicativa leva. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. no fundo. a execução específica não é puramente executiva. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. A lei proíbe. Ao celebrar o contrato-promessa. 50 . Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. como contrato autónoma. por vezes. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. um acto de execução do que já estaria combinado. a contratar. o contrato definitivo não perde em categoria. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. com o contrato definitivo. Justamente por. pelo menos em parte. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. levar ao apagamento do definitivo. de facto. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. a celebração das promessas. em função dele. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. em relação ao definitivo. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. o que esteja em causa. uma vez que dela nada sai de preexistente. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. ainda que devido e pré-regulamentado. De seguida. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). continua a ser um verdadeiro contrato. Mau grado a primazia reguladora da promessa. em definitivo. as partes regularem. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. uma vez concluída. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa. no entanto. delimitando. na promessa. tão-só. as partes obrigam-se. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato.

um dia. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). Por exemplo: o obrigado. Em regra. isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. caso este queira. essencialmente. em Direito. uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. A favor da pessoa designada em testamento (2235º). ao preferente. As preferências no sistema jurídico No Código Civil. desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). 1519º e 1523º). A favor do senhorio (1112º/4). Diz-se. De resto. pelo preço em causa. A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º.O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). A favor do fundeiro (1535º). perdendo a plena disposição do seu bem. Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável.  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato. caso queira vender um prédio a alguém. Da mesma forma. a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. 1380º e 1381º). ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. nesse sentido. A favor do comproprietário (1409º e 1410º). tem. a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. com o qual o negócio fora ajustado. por χ. o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente). quando convencionalmente estabelecido. que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). A favor do co-herdeiro (2130º). O direito de preferência. deve vendê-lo. O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. pelo artigo 1535º (1901º). antes. 51 .

ora reais. Na primeira.  A preferência obrigacional. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais. Modalidades. violado o pacto. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. permite ao preferente exigir. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. uma vez que a outra emite logo a declaração final. através de uma acção de preferência (1410º/1). observadas determinadas formalidades. As preferências convencionais são ora obrigacionais. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). ainda e por elas. todavia. ao preferente. tem cabimento recorrer à acção de preferência. a preferência legal advém da lei. relativo à acção da preferência. apenas uma das partes fica obrigada. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito.  A opção – figura inominada e atípica. nesta última hipótese. nos termos do 414º. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência. ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. a real. não podendo o preferente fazer seu o negócio. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. a preferência real confere. a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. a um direito real de aquisição. ao obrigado faltoso. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele. uma indemnização. sejam. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real. quando violada.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito. consoante a opção das partes e isso desde que. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. Na segunda. 52 . na opinião dominante. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau.

Tendo conhecimento do pacto de preferência. Num pacto de preferência comum. é afectado de algum modo. o artigo 410º/2. próprias do contrato preferível. podendo. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º).  Porém. deve-se lidar com os deveres acessórios. os ónus e os encargos envolvidos. 53 . das regras aplicáveis à capacidade. a menos que ambas as partes se vinculem. quando o contrato preferível exija documento. quer autêntico quer particular. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. Propõe-se a aplicação. recebem os deveres. como a de fazer a competente comunicação. Bastaria a assinatura deste. eventualmente. Todavia. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). O modus praelationis. por ele. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. de liberdade de forma. por parte de um terceiro. perante o Direito vigente. a essa luz. por definição. E sendo este o caso. desencadeando o funcionamento do pacto. se o pacto for bivinculante (bilateral). do princípio da equiparação. o terceiro deve-se abster de contratar. à preferência. daí resulta a aplicação. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas. como cláusula num pacto mais vasto. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. próprio do contrato-promessa. de acordo com as regras gerais (219º). Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. ao pacto de preferência. a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. Com uma prevenção: numa situação de preferência. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. de onde promanam deveres para ambas as partes. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis.Forma O artigo 415º manda aplicar.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. ao pacto de preferência. em regra. Pergunta-se se o terceiro que. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. pretenda contratar com o obrigado à preferência.

a renúncia. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada.  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. por aplicação do 410º/2. ficando o contrato por celebrar. com base nela.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. quer particular. 54 . por lei expressa. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que. de pleno direito. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal.Na posse dessa proposta. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente. se vem mesmo a concluir na esfera deste. já que o terceiro não celebraria tal contrato. e estará enganado. A não se verificarem tais requisitos. afinal. Finalmente. convicto de que. com poderes bastantes. modificações ou reticencias. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. Havendo aceitação da comunicação de preferência. a comunicação para preferência deve ser feita a todos. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. quer autêntico. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. esta deve ser feita ao preferente.  Ou renuncia à preferência. Havendo vários preferentes. A resposta do preferente. A “aceitação” da comunicação para preferência. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. ao seu direito. perfila-se o contrato definitivo. o que significa a aceitação pura e simples do contrato.  Ou o preferente rejeita. por parte do preferente. com alterações. pelo menos. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou. por opção do beneficiário. na mesma linha. isto é. deixando o negócio para o terceiro que. Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. exige-se forma escrita. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. uma de duas:  Ou o preferente prefere. não o quer. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. na presença de um projecto de contrato firme e sério. o terceiro ficará com o negócio. o represente. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). declarando que não está interessado. pelo menos. o contrato. envolve. É o que dispõe o artigo 416º/1. A comunicação não está sujeito. se não o fizer.

recebida a comunicação. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. não o sendo. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. nenhum princípio de especialidade. ou não. o que terá que provar. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva. sem prejuízo para o interessado. quando se reporte a uma universalidade. no nosso Direito da compra e venda. 1ª parte). A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. então. 55 . caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. Prestação acessória. ou não. pode. o contrato será seguramente único. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. Existem três possibilidades básicas.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras.  Não sendo avaliável em dinheiro. divisível?  E não sendo divisível. As valorações subjacentes ao artigo 417º. Não o sendo. o preferente desiste ou prefere em conjunto. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. dependendo das circunstâncias. podem umas e outros ser desagregados. apontam. Observar-se-á. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro. De todo o modo. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. é excluída da preferência.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro.

afastando. 56 . A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. fazer seu o negócio faltoso. Havendo eficácia real. a todos os preferentes. os restantes: não havendo processo de escolha. Verificados os pressupostos. a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”. 1ª parte). sem seguir o procedimento da preferência.  Concluir o contrato em causa.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. sempre. A acção de preferência permite ao preferente. Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele. feito no artigo 410º/2. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). desde que este as acompanhe.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes. abre-se licitação. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. nas condições fixadas.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. com o preferente. esta última: trata-se de um facere jurídico. Em termos de comunicação: ela deve ser feita. Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. em termos de aquisição. A prestação principal é. A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. com isso. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. em caso de violação de uma preferência real. seguramente. Segundo o artigo 1410º/1. ao preço e à identidade do requerente. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência.

isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. na execução. esta não depende da intervenção da parte vinculada. na opção basta a declaração do beneficiário. dá azo ao contrato definitivo. execução e incumprimento No que toca ao optante. A opção.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. tendentes à conformação do contrato definitivo. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). Haverá que aplicar. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa. do definitivo. Direito e deveres. por uma simples manifestação da sua vontade. da posição de contratante e do valor que ela representa.  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. provocar o aparecimento do contrato definitivo. por ambas as partes. directamente ou por analogia.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. a celebração. só será válida e eficaz se. na conclusão. ao tribunal. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. Logo. o artigo 411º: o vinculado pede. a opção cessa. passando a integrar o definitivo. declarações de ambas as partes. aqui. no cumprimento. excepto no que tanja ao cumprimento deste. que fixe um prazo razoável para o seu exercício. perante o concreto contrato definitivo em causa. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. ora. todavia. na opção. por analogia. ele recebe o direito potestativo de.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. Aplicam-se aqui. um verdadeiro contrato-promessa. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”. que exigirá. o qual. só deverá ter lugar se uma das partes quiser. o titular ou o optante) recebe o direito de. 57 .  Quanto à execução. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. por mera declaração unilateral.

directamente. Ambas as partes ficam . que exercerá o seu direito se o entender. do optante e do adstrito. surge o contrato definitivo. O risco desaparece. quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). o qual deve ser cumprido. perante a outra (promissário). a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. partes no contrato. a cargo. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. por via dos artigo 295º e 221º/2. no mercado. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. o artigo 762º/2 e. uma das partes (o promitente) assume. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. respectivamente. Como princípio geral.O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. natureza e aplicações Celebrando uma opção. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). por analogia. O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. No plano do seu conteúdo. 58 . Ainda o mesmo optante pode colocar. O obrigado. designadamente para a parte optante. as partes congelam as condições da venda. o artigo 272º: na pendência da opção. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. com relevo para o pagamento do preço da opção. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. pode facturar o premio da opção. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. dando-a em garantia ou alienando-a. no memento escolhido. entre outros aspectos. O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. Assim. a sua opção. do definitivo. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. a qual adquire um direito à prestação. Actuada a opção.todavia. por seu turno. Funções. há que lhe aplicar.

Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro.  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. pelo contrato a seu favor. O terceiro adquire o direito à prestação. do promitente. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. devam ser trocadas entre os mesmos. Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal.  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem. independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). O regime concreto de tais prestações. a prestação principal O promitente tem. de forma geral. quando esse seja o conteúdo da promessa.  A de exigir. perante o terceiro. o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. imediatamente. a efectivação da promessa ao terceiro. contratos como o casamento ou a doação. se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2).A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. porventura. deste cerne. porventura. do promitente. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). As prestações que. por exigência deste e do promissário. 59 . especificamente. A posição do terceiro O terceiro adquire. Tal permite excluir.  A de exigir. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. fundamentalmente. ao promitente. nessa altura. a contrario e 448º/1. o direito à prestação: independentemente da aceitação. a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1). a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. pelo contrário. A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. A posição do promitente. 1ª parte). apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. as prestações ou outras vantagens que. lhe possam advir da relação básica (405º).

A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. através da regra da boa fé (762º/2). indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. de lealdade e de informação. Amicus: o terceiro.  O terceiro.  Torna a promessa firme (446º/1. o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou. Desde modo. Na linguagem desde subsector. falsificar a conduta a que se encontra adstrito. O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. logo. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. Pode-se. Eligendus: o terceiro. ainda. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. porém. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação. 60 . no limite. desconhece os precisos termos envolvidos. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. por não ser o destinatário da prestação acordada. antes de ter ocorrido a sua nomeação. quando se desempenhe perante o terceiro. Esta apenas consolida um contrato que. não tem. de adesão. pode ser menos diligente ou até. instável. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. pode desinteressar-se dela ou. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. não sendo parte do contrato. Num primeiro tempo. a fiscalização da contraparte. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. antes dela. Electio ou electio amici: a escolha.Perante um contrato a favor de terceiro. sobre si. por não ter sido celebrado com o terceiro é. a contrario e fortiori).  O promissário. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. nada fazer. a contrario). ao abrigo das regras gerais (217º).

que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa. Ele implica.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios. Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. dele se aproximavam. não reunindo as características perfeitas do contrato. 61 . pois. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira). inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. Feita regularmente e comunicada a designação. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. seja em termos técnicos. tal como sucede com a ratificação (262º/2). num todo coerente. quando superior (454º/2). a cláusula “pessoa a nomear”. eficácia retroactiva. efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta.  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). seja em moldes sócio culturais. Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. A electio tem. o negócio consolida-se na esfera do stipulans. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. em princípio. O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. produz efeitos em relação ao contraente originário. Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato. ao outro contraente. As fontes paracontratuais Ao longo da História. Embora a lei não o diga. altura em que o contrato ficará sem efeito. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). concordância do amicus e electio. foram surgindo figuras que. no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. Concluído o contrato para pessoa a nomear. A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato.Regime. do próprio contrato que a contenha. Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. Como tratá-las? Com o tempo.

postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual. Relações paracontratuais em especial 1. na sua origem. no tráfego moderno de massas. através de meros comportamentos materiais. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que. no espaço jurídico. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. chega-se. sem integrar previsões contratuais. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). tivesse ocorrido qualquer contrato. isolam-se:  As relações contratuais de facto.  Situações de relações jurídicas complexas. depois. pelo menos. 62 . esta relação fundir-se-ia nele. seja nos preliminares.  Situações de proximidade contratual.  Inserção em organizações comunitárias. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos. Sublinha-se que. execução de relações duradouras. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. muitas vezes. para certos fins. seja na formação.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique.  Os contratos com protecção de terceiros. em termos rigorosos. Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. derivada do facto simples de um contacto social. Surgindo. com ele. de lealdade e de informação. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. uma parte razoável do seu regime. o contrato. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual. ser reconduzidas ao contrato mas que. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais.  As relações contratuais sem contrato.

não seja parte. que se reporta aos bens postos em jogo. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. O contrato é resolvido. Havendo proximidade. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. que veicula os valores fundamentais do sistema. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. O contrato é anulado. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. e existe. 3. mercê dos contratos preliminares. por qualquer razão. De novo há um círculo exterior. Há impossibilidade inicial da prestação. Com as devidas adaptações. igualmente. pelas partes. no contrato considerado. nas protecções dispensadas. tenha uma proximidade visível. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. ainda. perante a prestação principal e em face do credor. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. Em termos gerais. no caso de violação. independentemente de qualquer especial vontade. Também está claro e assente que. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. Surge uma impossibilidade superveniente. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. revogado ou denunciado. o círculo interior. promane deveres acessórios (de segurança. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. Em termos analíticos. O círculo interior. A “fonte”. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé. em face de um contrato:  Alguém que. o Direito manda proteger. nele. 63 . por estar vulnerabilizada. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. 2. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. para terceiros. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. ainda que insubsistente. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados.

Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. com facilidade. de lealdade e de informação. obrigações que (só) irão pensar depois. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se.Tecnicamente. mas noutros locais. nesse sentido nuclear. que explique os deveres resultantes. o inerente instituto. podendo. o proprio acto unilateral (457º-463º). O artigo 457º proclama. a responsabilidade obrigacional. 5. fique adstrito a realizar uma prestação. No que se lhe reporta. para as partes. aqui. ainda se poderiam manter determinados deveres.  Um numerus clausus de realidades relevantes. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. com ligeireza. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. fora de série. operando o contrato. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. 4. Em rigor. De facto. O negócio unilateral implica que alguém. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. cessado o contrato. aparentemente. “negócio” engloba. no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. 64 . As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. o que (ainda) não têm e subscreverem. como um simples facto stricto sensu. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. perante eles. em termos jurídico-positivos. uma vez que ele não é partes. por analogia. por sua livre e exclusiva vontade. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. Antes de fundam na lei. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes. dando origem.  Os perigos da adstrição ad nutum. ser globalmente denominado culpa post factum finitum.  A proibição de. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. aplicar. de obrigações futuras. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. ad nutum. São os deveres pós-eficazes. uma regra de tipicidade. tais deveres não têm origem contratual. Mas têm moldagem contratual. quando violados. as normas típicas.

Os negócios unilaterais distinguem-se. isto é. já antiga. a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. Em bom rigor. 65 . Dogmática geral O negócio unilateral. devidas. Negócios unilaterais em especial 1. limitada à inversão do ónus da prova. é aparente. pelo princípio da causalidade. a primazia da materialidade subjacente que. importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas.  Fonte essa cuja existência se presume. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. cabe salientar a confiança que. numa segunda vertente. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. A regra não origina nenhuma obrigação nova. Assim:      Da proposta de contrato. no Direito português. a tipicidade dos negócios unilaterais. igualmente por via da boa fé. anteriormente. deve imperar. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. No que tange ao autor do acto. proclamada no artigo 457º. Quanto muito. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. por força de qualquer outra fonte. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. até prova em contrário (pelo devedor). Deve-se ter também em conta os terceiros que. que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. deve sublinhar-se. existe aqui. sem indicação da sua fonte. fica o credor dispensado de a exibir. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. para além da concreta eficácia suscitada. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. De contratos com apenas uma assinatura. sobretudo quando interessados. passando pela tradição de uma coisa. a afirmação. de que. também aqui. quanto à existência de adequada fonte das mesmas. ainda. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. pois. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. Do testamento. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. Da oferta ao público (230º/3). Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida. de resto. com a promessa pública como modelo. Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. ainda. pode-se admitir tipos abertos. Do anúncio público (225º).Mantém-se.

por justa causa (461º/1. perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. a sua obrigação. in fine).2. naquela. acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. da indeterminação do destinatário. Feita a promessa. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). o concurso ficaria indefinidamente aberto. a título de prémio. Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. da oferta ao público (230º/3): nesta. constitui uma especial modalidade de promessa pública. pode. muito claramente. na sua falta. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. fica vinculado desde logo à promessa”. não tendo prazo. A justa causa será. apenas. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. ele extinga. O público. o promitente fica obrigado:  Até que. só nessa altura se constituindo. exclusivamente. ficando. por anúncio público. pela aceitação. propriamente obrigado. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. A situação distingue-se. às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. Até que. Até que.  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. objectiva ou subjectivamente. aqui. o promitente adstrito à sua efectivação. tendo prazo. que torne a promessa inexigível.     Até que expire o prazo nela fixado (460º). ainda. relativo a concursos púbicos. desde logo. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º). seja revogada. surgindo alguém nas condições nela previstas. seja revogada (461º/1). podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. pelo cumprimento. um motivo atendível. deriva. 66 . constituir o contrato. 3. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. antes dele. aqui. Concurso público O artigo 463º.

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