Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

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Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

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 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

O BGB. Causalidade Significa que. é abstracto. não depende da sua fonte – o negócio jurídico. regras. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos.. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. 4 . p. antes de terem as coisas. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. vários artigos em que podemos detectar esta orientação. Mas há zonas periféricas. daí tal importância. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. 4. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. O Direito das Obrigações é super estável. Romano-germânico Sistema centrado no BGB. baseada num conceito vago. nesse caso. analítica. (448º. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. 947º. É muito elegante linguística e estilisticamente. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. 809º. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade. 457º. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. defesa do consumidor). 2. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. XIX. No entanto. todavia. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. O Direito das Obrigações alemão é líder. as obrigações. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. que merecem reforma em Portugal. renunciem aos seus direitos. que nascem de uma determinada fonte. 994º). A responsabilidade civil é ampla. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. Se a fonte for inválida. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. a obrigação não subsiste. ex. Protegem-se as pessoas contra si próprias. doutrina. para não darem o que não têm. Não se quer que as pessoas. prescrição. O legislador optou por emitir leis avulsas. É um código típico do início do séc. É muito difícil mexer nele. A codificação da boa-fé. 863º. O BGB é de 1900. transposição de directivas comunitárias. A responsabilidade civil é fechada. 942º. A causalidade contrapõe-se à abstracção.Existem. no Código Civil. Resulta do movimento da pandectística. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. O Direito civil é muito estável. A validade de um cheque. por regra. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. 812º. Foi muito pouco mexido.

O Código de Seabra é. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos.3. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. 4. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. Mas. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. entre os conceitos desta família e os das anteriores. canónica. No Brasil. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. há um período de pré-codificação. 5 . Este sistema não é codificado. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. Mas tem uma organização e conceptualização originais. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. Antes da aprovação do Código de Seabra. Mas foi uma novidade científica que vingou. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. Chinês É muito antigo. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. muito avançado. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. Há pouca influência romana. não havendo negócio jurídico separado dos contratos. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. sequer. sendo revigorados os já conhecidos. O Direito português é aberto ao exterior. na China não aconteceu isso. sendo uma enorme influência. 5. Naturalmente. Anglo-saxónico É um mundo à parte. XIX. a partir de 1911. Há união entre religião e Estado. islâmica. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. tal como a cultura chinesa. no entanto. O Código não é de inspiração alemã. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. Não há correspondência. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. Além da redistribuição germânica das matérias. mantiveram-se em vigor as Ordenações. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. surgem institutos até então desconhecidos. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente.

permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. Com a independência. com Teixeira de Freitas. voltou a vigorar o Direito português. mas já havia recepção do pandectismo. vigora também o código de 1966. quando ocorreu a ocupação. Em Cabo Verde. Na Guiné. foi aprovado um Código Comercial novo. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. como membro da OEA. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. Foi necessário recomeçar. 6 . Em Moçambique. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. Há algum atraso na sua aprovação. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. numa segunda fase. O Código de 1966 vigora actualmente. houve maior inteligência política. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. Todavia. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. O Código brasileiro aparece só em 1916. marcaram as primeiras reconstruções do CC. mas havia a barreira linguística. com algumas alterações após a independência. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. XIX. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. ainda em meados do séc. O português era a segunda língua. Em Timor. Em África Em Angola. um período de exegese. logo em meados de oitocentos. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. As revisões ministeriais do Prof. mas começa a ser preparado no pósguerra. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. Em Macau. sendo substituída pelo inglês. O CC de 1916 tem já influência germânica. Antes da entrega de Macau. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. Houve. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro.No Brasil Na doutrina brasileira. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. verificou-se a invasão indonésia em 1975. tendo-os traduzido para chinês. depois da aprovação. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. Ele é de 1966. O Prof. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). Tem influência germânica e do Código de 1966. numa primeira fase.

Turquia. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. etc. Mais tarde. O caso português é singular. Quanto a autonomia doutrinária. a directriz não vigora. p. Mas na área do Direito não é assim. provêm de regulamento. Coreia do Sul. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono. ganha pelo mérito. Mas havia uma grande projecção ultramarina. A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. que suportou a nossa independência. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. mesmo quando escritos em inglês. Somos. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong.O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. um pequeno país na Europa.) de sistemas próximos do germânico. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. francês e alemão. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. a grande influência. ao contrário do que acontece no Direito português. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. É um Direito que tem uma evolução histórica. ex. até. também com as operacionais: inglês. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. uma enorme barreira linguística. De um modo geral. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. As regras sobre a moeda única. predomina o inglês. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. O Direito lusófono não tem só essa influência. Brasil. Em termos planetários.. estão em causa relação inter-pessoais. No Direito francês há distinção. que é do final de Oitocentos). Se não o fizerem. é diferente. A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. língua. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. Assiste-se à implantação (Portugal. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial. não havendo confusão com os sistemas da pandectística. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. Nas obrigações. Há 23 línguas oficiais na Europa. quantidade de falantes da língua. Todavia. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. Há as directrizes e os regulamentos. Ciência do Direito. Cumpre saber que língua é utilizada. Há. não são de common law. de Common Law. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). entre interpretação e integração. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. na área dos negócios e nas relações entre povos. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. hoje. O Prof. foi do Direito alemão. evolução histórica. Japão. 7 .

Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. a vantagem é o bem que será prestado. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. O melhor Direito é o interno. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. Se A tem direito. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. ele começa a desaparecer. e não a totalidade. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. havia um domínio de alguém sobre outrem. MENEZES CORDEIRO. Para o Prof. Não teve consequências. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. Nós. nem uma política externa comum. como a falta de competência dos órgãos europeus. há 500 milhões de pessoas. forçar a vontade humana. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. quando existia obrigação. não há um Governo europeu.No tempo do ius commune. juristas portugueses. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. era o poder da vontade. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. Antigamente. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. O Prof. Esta noção presta-se a críticas. há muitos constrangimentos. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. dada a insuficiência da língua inglesa. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo). não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. Fala de um bem a prestar. 8 . mas com exagero. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. intra muros. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. havia um Direito europeu das obrigações. No espaço europeu. O direito subjectivo. No plano oficial. para SAVIGNY. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações.

Pode ser um facere ou um non facere. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). A ideia remonta ao antigo Direito romano. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. 9 . independentemente de terem culpa). Primeiro. Assim. pode-se atingir o seu património. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. mas o seu património. no início. No séc. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. Na prescrição. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). independentemente de ser cumprida ou não. Em regra. mas as suas obrigações permaneciam. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. As pessoas morriam. Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati).Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. obrigações. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. A obrigação não é apenas um bem a prestar. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. o dever é sempre um constrangimento ético. Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. assentes apenas em deveres acessórios. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). Se o devedor não cumprir. surgiu a respondência. sim. A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. já é um valer em si. surge a nova noção de obrigação. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. extingue-se a haftung. as obrigações são cumpridas. todavia. Depois. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. Há. XIX. Ela. Pode haver obrigações sem prestação. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. pelo que é excepção o recurso ao património. um direito ao património do devedor. Os romanistas diziam que não havia.

sabe-se hoje. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. O credor fica adstrito a deveres de segurança. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. A obrigação. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. não podendo servir para construir. pelo que obrigação não é uma prestação. noutros. Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. um conceito de obrigação. é o fiador que deve cumprir. compreende um dever de prestar principal. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. Se é assim. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. noutros ainda.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. O BGB já não exige natureza patrimonial. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. Estas construções são úteis. etc. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. pode ainda não existir. a responsabilidade é patológica. Se não são. cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. Se o devedor principal não cumprir. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. com dois regimes). A obrigação do fiador é secundária. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. em termos pragmáticos. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. Se são. pode haver nulidade. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. por si só. Mas. A prestação pode não existir. não tendo interesse para o Direito nesse caso. Em certos casos. colaboração. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. tratado mais à frente. não interessam. deveres secundários e deveres acessórios. com o credor e vice-versa. 10 . outra concepção diz que há um direito real de garantia. só. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. O regime é solicitado para um tratamento unitário. linguística. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. A obrigação pressupõe um dever específico..

boa educação) que não relevam para o direito. compensação – e não de equivalência. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. de sistema. Pode haver execução específica. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. 11 . será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. As relações de obsequiosidade não são. A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). há sanções pecuniárias compulsórias. Como são ressarcíveis. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. O 397º define obrigação. O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. mas pode receber dinheiro. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. o 398/2. Não tem de haver natureza patrimonial (398º). não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. Tudo pode ser avaliado em dinheiro. É assim ao nível global. acção directa. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. mas havendo danos. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. Direito. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). Hoje isso não é assim.Se um artista se obriga a entoar uma ária. ela é avaliável em dinheiro. pode haver responsabilidade pela deferência. à partida. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). 2ª parte remete para o interesse. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. há ressarcibilidade dos danos morais. não necessariamente em todas as situações. tem conteúdo económico. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial.

diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. Deve-se sempre perguntar qual a origem. no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. Se a prestação for um serviço. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. o direito real é uma situação absoluta. Uma última. mas não se pode esfarrapar o par de dança. Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. Esta noção vale o que vale.Há também deveres de protecção. erga omnes. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). Nas obrigações. são para cumprir – se não forem. por exemplo). duas partes. nos direitos pessoais de gozo. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. não. Assim. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). Os direitos potestativos são absolutos. Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. há figuras como a execução específica. contrapondo-se aos direitos reais. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. Noutra acepção. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. relações de vizinhança. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. Os créditos não são sempre relativos. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. seria sempre necessária a mediação. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. que são absolutos? Em termos estruturais. Em direitos reais há só uma. A convida B para dançar. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). mas não se pode retirar daí uma regra. o que tem de surgir é o serviço. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. Em obrigações. Os acordos de cavalheiros são relevantes. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. encontramos sempre uma dança a dois. a relatividade existe quando há relação jurídica. Quanto aos acordos de cavalheiros. no caso dos direitos reais). o credor aproveita imediatamente a coisa. Podem fazê-lo? Em princípio. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. absoluta. A obrigação é uma relação jurídica. 12 . há créditos potestativos que não carecem de intermediação. há créditos absolutos.

Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. dão lugar a responsabilidade civil. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. com MANUEL DE ANDRADE. No sentido forte. A nossa jurisprudência acordou em 1964. Há contratos com protecção de terceiros. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. PESSOA JORGE).A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. Deveres acessórios. se incumpridos. a externa é perante terceiros. que se manifestam predominantemente perante o devedor. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. Mas há outras regras. Na Alemanha diz-se que não. Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. As obrigações são vínculos. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. pode existir oponibilidade em sentido forte. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. Se é assim. A eficácia interna é entre credor e devedor. Mas há também deveres no tráfego que. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. Mas inverteu-se a tendência. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. Havia uma quebra maliciosa do contrato. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. A doutrina tem evoluído nesse domínio. Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. 13 . Se é assim. Há uma acção. É o que acontece com os chamados deveres de tráfego. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão.. com os pactos de preferência. Faz sentido que haja defesa contra terceiros. p. o que lhes daria uma tutela relativa. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. ex. A regra é de que a eficácia é meramente interna. Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. então há oponibilidade média. Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. a figura do terceiro cúmplice). Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. relações jurídicas. No início. médio ou fraco.

Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. O terceiro não pode. Quando existe um devedor. descrevendo as condutas. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. mas há várias vias para o conseguir. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. Outros dizem que só o devedor pode incumprir. não estão assim tão mal. Quando a lei recorre a descrição da realidade. O legislador pode dar uma série de exemplos. aplicam-se os artigos 798º e ss. as economias britânica e francesa. há responsabilidade. Se A contrata com B. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. Se existe uma descrição típica das condutas. Noutros casos é mesmo normativa. Num ramo típico. Se ele for atingido. Contratar-se-ia menos. recorre a tipos – tipicidade. ao atribui direitos subjectivos. como o penal ou o fiscal. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar.  Diz que existe numerus clausus. países que admitem a figura. protecção jurídica. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. não havendo lacuna. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. proíbe autotutela. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. um terceiro faz-se passar por credor. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. Está tudo ligado. em princípio inatingíveis. Só pode estatuir com recurso a tipos. Todavia. Argumentos a favor. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. pois. há um numerus clausus – o número de factos é finito. Quando existe uma previsão normativa. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. Há tipicidade exemplificativa. diz-se. Isso justifica-se em ramos agressivos. Mas esses não se aplicam a terceiros. os factos são descritos concretamente.  Diz que está proibida a analogia. Isso em princípio. Dá. 14 . poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. é muito mais restrita. O Direito objectivo.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia.

de facto. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. Isto é o núcleo duro – há desvios. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. etc. Há. Mas tem regras especiais. o regime tem um desvio. Nas obrigações isso não existe. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. Aí. O conteúdo das obrigações é sempre. Mas existem muitas obrigações nessa área. invariavelmente. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. aqui. Os direitos reais têm. direito a uma coisa corpórea. tipicidade exemplificativa. também. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. um princípio de tipicidade. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. obrigações naturais. Há tipicidades de tipo científico. por conjunções históricas. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. 15 . tudo é parecido com o Direito das obrigações. Há situações de direitos reais que. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). p. O mediato é também designado por objecto. Há. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. venire contra factum proprio. por via de condicionalismos históricos. Obrigações.). Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. O conteúdo distingue-se do objecto. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação.Nos contratos há descrição abstracta. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. ex. não há numerus clausus e pode haver lacunas. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. ao contrário. O Direito comercial é outro ramo especial. Autonomizou-se do Direito das obrigações. um direito e um dever. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). É muito especial. O contrato de trabalho é um contrato como os outros. em princípio. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade.

Só é exigível que se esforce até esse ponto. De dare. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. é um homem médio colocado no caso concreto. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra.: o médico não tem obrigação de curar. Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). A de dare consiste na entrega de uma coisa. 16 . Por vezes. O devedor está obrigado à diligência média. as partes pretendem uma determinada conduta. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei. aquilo que for normal num homem médio. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. por um esforço de análise. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta. Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. tendo em conta as circunstâncias do caso. A prestação principal é o núcleo da obrigação. É o critério do bonus paterfamiliae. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. Temos de saber o que é exigível. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. Podemos. Todavia. São instrumentais em relação a ela. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. É o homem médio.) e a aquiliana (483º e ss. apenas de fazer tudo ao seu alcance. Seguem o regime da prestação principal. As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. Foi o critério escolhido pelo legislador. tem culpa. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. De pati. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). mas à prestação de um serviço com determinada diligência. São prestações que complementam a prestação principal. Uma prestação inclui necessariamente o esforço.). Se se comportar abaixo da bitola. Não se obrigam a resultados. noutras pretendem o resultado. Não se trata de um non facere. Ex.

nos deveres acessórios são ambos. segurança. contratuais e pós-contratuais. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. A indemnização é uma consequência de segunda linha. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. mas há deveres acessórios pré-contratuais.  Círculo externo. determinável. Está em causa o princípio da tutela da confiança. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. são soluções para problemas novos. só depois a indemnização. 17 . Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. Como decorrem da boa fé. O legislador quer primeiro cumprimento. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património.. Podem ser deveres de lealdade. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. é preciso cumprir de boa fé. integração de lacunas. a obrigação é uma realidade muito complexa. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. A base legal é o 762/2. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. A culpa in contrahendo. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo. depois a reconstituição natural. informação.O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. possível. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida. observando os deveres acessórios. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. Os deveres acessórios são imprevisíveis. rerum sic stantibus. etc. Não basta cumprir a obrigação. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. Substancializam a obrigação. tal como se não cumprir o dever acessório.

Não é o mesmo que coisa fungível. nas mistas há vários deveres. trata-se de obrigação complexa. transferência de propriedade. A regra é da fungibilidade. Absolutas. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). se consigo exprimir com uma única expressão é simples. como concessão. p. Em princípio. porteiro. 18 . outros não. Se sou obrigado a recorrer a perífrases. prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis.  Obrigação de abstenção (simples.Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. etc. ex. 2. Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. mas são regularmente utilizadas no sector. Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço.). Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei. Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei. suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. ambos). combinadas quando estejam associadas a direitos reais. 5. Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos.  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples). não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. uns relacionados. na relativa há. A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. atípica resulta da autonomia privada. 3. 4.).

pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. em que havia obrigações perpétuas. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. É um contrato em especial. era instantânea. E relações perpétuas. É necessário. Há lacuna. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. se tiver poder de representação celebra também os negócios). Se fosse logo satisfeito. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. O Direito civil é um direito prático. Obrigações duradouras Partimos da prestação. forma de cessação de um contrato duradouro. Implica especialidade quanto à sua cessação. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. como reacção ao regime feudal. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. e outras que se cumprem no tempo. para tutela da confiança. surge na periferia. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. o principal. mas pessoais.6. também. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. um pré-aviso. O DL 178/86 trata da cessação da agência. A retribuição é a renda ou aluguer. 19 . Não se extinguem com o cumprimento. pelo menos. O Prof. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. O conteúdo tem de ser sempre. ao contrário das obrigações comuns. A denúncia seria um dos esquemas. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. claro está. Tipos de obrigações 1. entre o agente e o principal há relação duradoura. quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. com dilação temporal juridicamente relevante. sob pena de nulidade (280º). Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. Havendo agência. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. 2. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. Hoje. determinável. As questões sociais vieram pugnar por protecção. não obstante. A denúncia.

Chegou-se a um regime vinculístico. inícios do séc. XX. Chegou-se a este panorama aos poucos. Mas também não explica o que é o gozo. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. etc. por exemplo. O 1743º do CC francês determina que. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real. Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos. 20 . Obrigação de deixar usar? Seria negativo. contraindo empréstimos. Surgem teorias mistas (entre nós. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. XIX. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. Se é assim. porque ele é sempre real). Em 1990 tentou-se de novo. Em 1985 tentou-se reformar. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. Em 2006 houve um projecto. impedindo actualização das rendas.  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). Há subúrbios. Nos finais do séc.  Congelamento das rendas. A solução de quem chega ao mercado é comprar. Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. com a industrialização e grande pressão urbanística. Quanto mais baixa a renda. havendo transmissão da coisa arrendada. é figura real o direito de locatário. económicos. actualizando as rendas. as rendas vão degradando. maior o lucro do trespasse. centros das cidades abandonados. No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. É um direito real. para o futuro). Se houver inflação. menor taxa de natalidade. Logo. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção). Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais.No arrendamento domina a autonomia privada. políticos. surgiram fenómenos e problemas de natureza social. mas também não chegou a bom porto. Há bloqueios ideológicos. trânsito caótico.

Comportam-se. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. Mas mudou de ideias. com recurso aos tribunais). Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. defender o seu direito face a terceiros. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. A pessoa estava obrigada a fazer algo. A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. mas sem shuld. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. tendo um direito de preferência sobre a coisa. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. Uns são pessoais e outros são reais. Estabelece que prevalece o direito real. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. por ser figura próxima do direito de crédito. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. Em geral. Juridicamente não tinha personalidade. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. Admitese a existência de direitos de gozo. Mas pode ser integrado no Livro II. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). de forma similar aos direitos reais. Obrigações naturais É figura muito estudada. pelo que ele se pode defender sozinho. no conflito com outros direitos. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. Não tem uma grande relevância prática. nesta matéria o regime dos direitos reais. No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. Seguem. O Direito dizia que ele estava obrigado. o que os aproxima dos direitos de crédito. porque não era uma pessoa. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. Essa tese é inaceitável. 21 . mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. Era um débito sem respondência. o locatário pode fazer obras. como direitos reais. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. já que é ela que as explica. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. na locação. em regra. 3. Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). pois. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. entre os direitos reais e os de crédito. é histórica.

Aparentemente. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. A justiça é aquilo que o Direito consagra. não posso pedir devolução do que paguei. No período medieval. Noção legal (402º). A obrigação natural deve ser. Esta matéria está regulada no 402º. Havia ligação entre o Direito e a moral. jurídica. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. porque elas são típicas.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. etc. transformando-as em naturais. Mas são aqueles os dois momentos cruciais. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. Mas isto não pode ser. aplica-se o regime das obrigações civis. mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. É jurídico. etc. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. Não pode ser exigível judicialmente. Tiveram uma evolução muito atormentada. Não podem ser constituídas por contrato. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano.  As obrigações naturais são típicas (809º). Isso não é verdade. Todavia. Ser jurídica é estar prevista como obrigação.A isso chamaram obrigações naturais. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. pois. As obrigações naturais. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. Hoje.  O 404º. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. com base no 404º. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei. a moral é uma coisa e o Direito outra. sociais. não têm valor patrimonial. mas também as obrigações 22 . Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos.  Não exigibilidade judicial do cumprimento.. A lei. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. diferente de um Direito moralmente enformado. diz-se por vezes. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais. não jurídicas.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. Em tudo o resto. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida. Se eu pagar.

As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis. dare ou pati. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. escolhe o devedor. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. As obrigações genéricas são muito importantes. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. que podem ser de facere. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. rege o favor debitoris. O problema que surge é o da determinação do objecto. Logo. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa.civis podem não ser cumpridas. o critério deve ser o da mediania. Deve-se escolher a coisa média. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. é fungível. A escolha e o risco O 539º estabelece que. Não havendo convenção. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. há obrigação genérica. dando lugar a obrigações genéricas. Na falta de acordo. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. Só se determina o género. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. 4. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. Ele é determinável mas não está determinado. Os contraentes podem estipular diferentemente. o critério é o da mediania. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. No Direito romano eram desconhecidas. se nada for estipulado. quantidade ou qualidade. Não é o sentido do 400º. com a massificação das transacções. 23 . Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. podendo ser qualquer litro de azeite. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. há uma lacuna negocial. Desde que a coisa a entregar não seja única.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

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7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

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porque também temos de tratar das relações internas.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. a lei estabelece solidariedade. Aumenta a garantia do credor. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. Em resumo. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal. na falta de estipulação em contrário. de modo a assegurar o cumprimento. Rege o 512º . Existe uma presunção de igualdade das quotas. É só uma. Na prática. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. quando há vários sujeitos numa obrigação. por exemplo). mas complexa. todos têm de prestar ao mesmo tempo. para proteger o lesado. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. Presume-se que as partes de cada um são iguais. os credores). isso não multiplica a obrigação. No Direito comercial. que é sempre singular). O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. Ao contrário da parciariedade. Nestes casos. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. há outras que só o são se as partes acordarem. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. a regra supletiva é a da solidariedade. O credor só pode exigir de cada um essa parte. seja porque o regime é unitário. O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota. É um regime mais duro para o devedor. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. Há obrigações que são à partida divisíveis. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. Os vários sujeitos têm relações entre si. seja porque existe expressão linguística unitária. Quando vão cumprir. MENEZES CORDEIRO defende que. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento.noção. um concerto de orquestra. Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. 27 .

Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. Uma prestação pode. tem regime diferente.). No período da pré-codificação francesa. Precisa de um facto jurídico para nascer. tal como os direitos reais. à estatuição de uma norma. se não houver outro acordo. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. p. um credor e um credor pignoratício. quando alguém contrata a solidariedade. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. o do devedor e o do fiador. aqui. Surgiu o esforço de sistematização. pessoal seria a prescrição. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. é natural que existam meios de defesa dos devedores. 28 . Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. um A. acrescentou a lei. ex. ex. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. São duas fontes fundamentais de obrigações.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. presunção de igualdade (516º). só dele (não os meios pessoais de outro). uma classificação das fontes. ex. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. ter duplo aproveitamento. concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores. Eram fontes que. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. Também existe. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. A lei poderia ser fonte de obrigações. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. Mas é uma pluralidade heterogénea. Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. Normalmente. O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. Na solidariedade há co-devedores. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. significa que há alguma coisa a mais. não sendo nem uma nem outra. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. p. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. há “gato”. já que o fraccionamento é feito posteriormente. É uma bipartição importante. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. p. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito.

fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. a gestão de negócios. mas enumeração. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. Enumera algumas fontes. então. Com o CC de 1966 também não existe classificação. o enriquecimento sem causa. Mas ele é mesmo muito reduzido. O direito privado tem 2000 anos. Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. Faz-se.). Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. a melhor técnica é a tipológica. enquanto a lei é norma heterónoma. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. a partir do 405º. no tempo e no espaço. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. O Código de Seabra faia um elenco original. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. As divisões não significam. de se autodeterminarem. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade. Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. ex. 29 . Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. em vez de adoptar a repartição tradicional. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. como se usou em 1867 e 1966. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). Em termos estatísticos. desde logo. o negócio unilateral. p. Há um encadeamento. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. Já nos sécs. apesar de não haver classificação qua tale. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. todavia. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. É difícil unificar. referência à tetrapartição. enumera-se o contrato. que é comum a todos os direitos europeus. O que se deve. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes. nuns e noutros a mesma coisa.

veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. Assim. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. Os romanos conheciam figuras equivalentes. se a sociedade é subdesenvolvida. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. É o sistema de tipo francês. para o Prof. com SAVIGNY.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. diz-se muitas vezes. D. No Direito sucessório é mais raro. Passava a ser vinculativo por isso. nas Obrigações é o contrato. Dinis. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. já o negócio obtém-se pela razão. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). Menezes Cordeiro. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. É necessário que haja propriedade. O socialismo ataca o contrato. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. Mais tarde. 30 . É um diploma bem feito. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. consensual – basta haver contrato. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. surgindo os contratos que hoje são básicos. o contrato está sempre subjacente. mas se lemos artigos sobre negócios. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. O contrato tem um papel muito alargado. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. de acordo com a escola histórica e a pandectística. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). tem menos aplicação. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. mas existe pacto sucessório. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. em lei de Maio de 1352. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). No Direito da Família também: contrato de casamento. Dá-se uma grande explosão. Daria frutos no período jusnaturalista. igualmente. manifestação da importância do contrato. o próprio contrato perde espaço. O CCP trata da matéria. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. a bona fides perderá o seu significado. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. O contrato valia por si. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. vai na direcção do contrato. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. O contrato. É importante considerar o canonismo. está em crise. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico.

É uma visão pessimista. Não houve. O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. os observadores previram explosão dos contratos. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna. Mas isso não aconteceu. A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação. valores mobiliários. O contrato tem peso em si. 31 . O 56º/3 garante a contratação colectiva.  Áreas reguladas. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. É óbvia. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. como o da boa fé. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios.  Intervenção judicial nos contratos. O contrato é um véu que tapa os olhos. não se trata de um recuo do contrato. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. etc. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada. diminuindo a liberdade contratual (banca. pecuniários. no artigo 8º/2. mas de certos contratos. à partida. Todavia. pelo menos para coisas úteis. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. etc. Tutela constitucional do contrato A CRP. necessidade de consagrar na CRP. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. O contrato é. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico. Com a queda do Muro. incluindo direitos de créditos). porque não foi necessário. pois. Graças às convenções internacionais. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. plurais. Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. Se a lei não dissesse nada.No séc.). existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos.). racionalidade. Tecnicamente. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. não relevaria: eles devem ser cumpridos. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português. seguros.

Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. Pode haver tipo social e tipo legal. 2. em princípio também não o regula. fica fragilizada. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. Todos os negócios são contratos bilaterais. no entanto. bem como diminui as dúvidas. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. vindo a aperfeiçoar-se. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. o contrato é bilateral. 5. por vezes. regulando com especialidade. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. reais quoad constitutionem e quoad effectum. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. nominados e inominados. Consensuais.1. Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. Segundo. mas a lei não o disciplinou. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. 32 . já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada. maior equilíbrio. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. Fala-se. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. Quando a lei não lhe dá um nome. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. consideradas mais sensíveis. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. É distinção relativa. O contrato de hospedagem. é nominado mas atípico. Perante o conceito de negócio jurídico. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. 3. não dá para classificar em abstracto. Terceiro. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional.

Se o contribuinte celebra contratos atípicos. A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. 7. uma delas não fica obrigada. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). Embora o 405º seja muito abrangente. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. Tipologias de contratos Contratos típicos. O problema é que. Os gratuitos são. uma vez que domina a autonomia privada. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. É sinalagmático. Fica com o direito potestativo de. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. se as partes celebram contratos mistos. As partes querem dar. O estudo desta matéria não é fácil. Em regra. A generalidade das normas é supletiva. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. a parte geral é muito restrita. Há 16 contratos regulados no Código Civil. O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. À luz do 405º. tendo em conta o relevo de que se revestem. 33 . Nos monovinculantes há duas partes. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. reciprocidade. as partes têm liberdade de celebrar livremente. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. O problema é que. 6. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. no entanto. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. em regra. hoje. Há.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. querendo. passa entre as gotas da chuva. pois. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. podemos distinguir entre negócios típicos. É diferente da vinculatividade. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. atípicos e mistos Os negócios jurídicos. solicitar ao outro a efectuação da prestação. Tendo em conta este facto.

devolve-lha. Não tem salário. Complementados – aqueles em que existe um tipo base. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. Ex. não havendo uma principal. comida. A tem dívida para com B. Ex. quando acabar. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). o locador. o negócio aproxima-se da gratuitidade. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto. Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção). em troca de explicações. 2. próprias de vários contratos. aplicando todos.: A arrenda um quarto a B. B tem de guardar a casa enquanto A não paga. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. 4. Isto só resulta se houver confiança. Em troca do preço recebe um quarto (locação). não para que se porte como proprietário. na prática.: A comprou 15 dias num cruzeiro. Há mistura. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. que lava também a roupa de cama. Os combinados distinguem-se dos complementados. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. os serviços de limpeza. que absorverá os outros. Não pode ser um mero pormenor. A autonomia privada é o pano de fundo. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. embora tenha havido preço. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. entretenimento. mas como tendo a casa como refém. Ex.: A recebe habitação. Ex. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. O resto é extra. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos.: A compra por preço muito baixo. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. etc. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa. Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. 34 . comida. 3. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. mas recebe em géneros. cama.

O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. tal como o da vontade das partes. Pode. Mas isso é raro. O que é específico é a marca. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). Recorre-se ao regime da agência. Pode haver várias funções: simulação. gestão do centro. Regra geral. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. segurança. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. aplica-se essa solução. é também acompanhado de distribuição. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. bem como sinergia do ponto de vista económico. Hoje.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. a primeira solução é a da vontade das partes. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. mas o contrato é usado para uma função diferente.2. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. É contrato de agência que foi encontrado. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. Se ele corresponder ao tipo x. publicidade. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. aplica-se o regime do tipo x. 35 . nomeia concessionários. sem intenção de enganar). o arrendamento tem muitas normas imperativas. Se não for suficiente. no entanto. A solução foi a da analogia. a solução também foi a da analogia. 3. Quando nada se diz. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. O método foi o da analogia. P. e também com a agência. ex. 4. Há semelhança entre a agência e a concessão. O limite é o das normas imperativas. A seguir temos de resolver com analogia. é esse que se aplica. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. Aqui. aplicam-se as regras desse tipo. O promotor é remunerado através da renda. Em Portugal. para que os distribua. é uma área vinculística. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. por analogia. Mas não é normal. então celebra-se o y). o combinado e o híbrido. a quem entrega os bens. No caso do porteiro isso é evidente. Quando há lacuna contratual. mas os serviços que o centro proporciona. acabavam os centros comerciais. se na lei houver solução. a outra também.

36 . Mas. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. na contratação alternada valia ou um ou o outro. No Direito português. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). era o proprietário da coisa. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. já que o Direito existe para proteger os fracos. porque doações de bens futuros não são permitidas. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. em benefício de quem a entregava. O fiduciário é proprietário.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. aplica-se o regime correspondente. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. Procura-se o centro de gravidade. mas para o de terceiro. Descobrindo-o. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados. se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. M. ao contrário do alemão. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. a fidúcia é muito violenta para o devedor. teremos uma figura real não prevista na lei. Ele é permitido se não violar regras imperativas.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. Se ela tem natureza real. Se for à falência. O fiduciante é só entre outros. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. interna e alternada. Quem recebia a coisa com fidutia. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. São óbices consideráveis. negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. O fiduciário é de execução prolongada. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia. não permite divisão da coisa entregue. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. Mas o Prof. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. o fiduciário.

Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. A promessa por escrito era válida na hora. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. sem recorrer à escritura pública. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. 442º. Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. de tipo não processual. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. homogéneos e heterogéneos. No Direito português tem grande importância. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. a promessa valia apenas como prestação de facto. a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). Um contrato remete para certas cláusulas de outro. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. para o sinal. Hodiernamente.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). causais. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. por exemplo. rege nos contratos mistos. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários.. Mas nunca é irrelevante. dependentes e independentes. de tipo processual. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. tem eficácia real. É uma ideia relativamente recente. execução específica). Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. 830º. O contrato prometido e o contrato definitivo. Segundo o Código de 1867. A figura da absorção. Importou do BGB a execução específica. há centros de gravidade múltiplos. devia ser celebrado por escrito. A celebração de uma escritura pública demora tempo. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. Há muita jurisprudência sobre isto. sendo diferente o regime. 37 .

Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. Como no Direito alemão. um modo geral de celebrar outros contratos. 1. Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. na promessa sabe-se). A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. mitigada.As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. um modus vivendi. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo). por vezes. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. não podem ser objecto de promessa. regulativa autónoma. É a função preparatória. na promessa tem de haver negociação). Mitigada ou mitigadora. é possível a execução específica no caso de incumprimento. etc. Por vezes. 2. financiamento. Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. P. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. 5. ex. do convite a contratar (A solicita a B que contrate). do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo.. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. 38 . 4. os contratos são dotados de prometibilidade forte. Regulativa autónoma. É usado. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. Há contratos que. Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa. O contrato-promessa distingue-se da proposta. É um formato. Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. Função preliminar. Quanto à prometibilidade fraca. sobre a entrega. Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. do contrato preparatório material. do exercício de preferência. tendo isso em conta.). acabamento da coisa. Meramente obrigacional. do dever legal de contratar. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. uma vez prometido. para preparar o contrato definitivo. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. desformalização. transacção meramente obrigacional. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. ex. Regra geral. p. 3. Desformalização. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa.

mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. mas ineficaz quanto às prestações principais.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. e o outro não cumprir. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. a obrigar a algo que poderia revogar. 39 . Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. mas a situação subjacente é diferente. etc. o que está em causa não é a regulação de um contrato. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. O nome é parecido.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa. à partida. Não há contrato-promessa de doação. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. O problema é que. diferente do regime do contrato-promessa. do 1591º e SS. tendo em conta o regime. Pode fazê-lo. até é possível haver excepções ao que se disse. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada. Isso não vem na lei. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. Mas. No contrato-promessa. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa. Não vincula o promitente a doar. Isso não é correcto. Com o não cumprimento. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. imperativo.) que conduz à possibilidade de revogação. proximidade. O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade. É verdade que existe um regime jurídico. É um contrato à parte.. etc. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. como executo? Os clássicos diziam que não era possível. a proposta ainda não foi feita. também não há uma regra expressa que o diga. mas que tinha um regime especial. Não se trata de um contrato-promessa. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). às consequências pela ingratidão. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. se não houve entrega da coisa. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. estão nos antípodas. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim.

o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. outros a conversão. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. aplica-se a regra geral. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. o regime é o do 219º liberdade de forma. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. Por isso. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. é preciso o acordo de ambas). Na normalidade dos casos. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. para ser quantos se obrigam. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. Se for livre também o contrato-promessa é livre. não se precisa é de assinar. Estipulações acessórias são válidas.Hoje em dia. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. O 410º/2 regula a forma. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. ainda que não tenham as duas assinaturas. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. A conversão. é a solução. Se para o prometido for necessário documento. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. Se o documento é a materialização do acordo. Mas isso é errado. autêntico ou particular. não se entende porque só um assina. MENEZES CORDEIRO em princípio. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. Para o prof. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. 40 . O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. tendo enorme relevância. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. Uns defendem a redução. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. Na prática. A questão das assinaturas é meramente formal. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. nos termos do 293º. O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. Assim. em regra o promitente alienante. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. Não haveria problema de prova nem dúvidas.

O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. por sua razão de ser. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. Trata-se. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. se nada disserem. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. no 3. Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. MC sugere a ideia de modus contrahendo. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. Surgiu na década de 1980. Admite que. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. concretização e boa fé. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. possa reduzir-se o negócio. Se a promessa for monovinculante. também. com excepção das relativas à forma e as disposições que. A parte geral também tem regras. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. ficando com um contrato-promessa monovinculante. Havendo contrato-promessa. ex. Este princípio. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. de invalidade mista. p. o regime é o da reforma de 1986. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida.Mas não é fundamentalista. 41 . havendo grandes atropelos ao direito. integralidade. Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. Nestes casos. este deve adquiri-la. Obedece a normas: os princípios da correspondência. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. Há. Pode ser paralisada através do abuso de direito. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. a se. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). em certos casos. Neste momento. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa.

Isto é uma trapalhada. Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. aplica-se o 280º.). inclui-se a coisa no cumprimento. declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). lugar. não foi. etc. MC entende que isso não pode ficar assim. etc. alterando as palavras. O promitente fiel é o que é prejudicado. Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss. Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. prazo. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. Legitimidade. O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). Se isto não for possível. que resolvem inovar. se não for cumprido. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. violação de deveres acessórios. Se não houver. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes. imputação. O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. se forem válidas e eficazes. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). O incumprimento extingue a prestação principal. Muitas vezes há AA. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação. Incumprimento há quando. Pode haver recusa antecipada a cumprir. À partida. violação positiva do contrato. Pode haver uma impossibilidade superveniente. o faltoso é o que não cumpre. se for cumprido. impossibilidade superveniente.). O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. Pode acontecer que seja lacunar. O definitivo está previsto no contrato-promessa. Ou há mora. há inadimplemento. a lei prevê a interpelação admonitória. local. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. se o contrato-promessa permitir. O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º). Se houver situação de mora. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé.. devolve-se em dobro. o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. uma via crucis. Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. pode haver resolução. 42 . no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. mantendo-se o contrato-promessa.

Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). mas o valor actual da coisa. ajudava a provar a existência do contrato. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados. O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. Quando mexeu no 442º. celebrando-se contratos-promessas. Quando metido no contrato-promessa. Tem um direito de liquidação judicial. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. penal. faziam-se casas. O Governo resolveu intervir. vender a coisa e recolher o preço. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. Assim. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. O imobiliário estava sempre a subir. Afastouse a possibilidade de execução específica. o sinal tinha alcance coercivo. que chegava aos 20. A ideia era: como a inflação é muito alta. com a inflação. 43 . No Direito romano tinha um sentido confirmatório. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). O que estava em causa eram casas de habitação. a indemnização já não é o sinal em dobro.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa.No Direito grego antigo. Houve várias propostas para resolver a situação. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. os sinais deixavam de valer tanto. se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. Tornava-se compensador não cumprir. na fase executiva. mexeu no regime do sinal. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. começou a resolver o problema diferentemente. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980). penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. O retentor pode. se houve incumprimento. 30%. o sinal ganha coloração particular. Enganou-se e mexeu em tudo. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas.  Quando há tradição da coisa prometida. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. O problema viria a ser resolvido em 1986. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. Em 1980 havia grande inflação. recebiam-se sinais. A jurisprudência. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. no entanto. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. Assim.

é mais selectivo. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. ficou consagrada a indemnização pelo valo. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. Além disso. Lobo Xavier. É um esquema complicado. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. não sendo necessária a interpelação admonitória. mesmo que anteriormente registada. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. Tentou-se limar algumas arestas. Tentou-se. A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. ele é deduzido do preço. a primeira consequência é entrar em mora (805º). o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. introduzir correcções. Assim.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. pela interpretação). vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. É uma “excepção de cumprimento”. Vários AA. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. a indemnização seria o valor actualizado da coisa. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. O hipotecário ver-se-ia preterido. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. Tendo havido mora. Assim. Se houver mora.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. Em 1986 o legislador interveio novamente. congelando o direito ao valor da coisa. perderam a objectividade. Todavia. O Prof. Se houver morar. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. com a solução do Prof. não há logo incumprimento definitivo. Se houver sinal. ainda assim. a favor do promitente adquirente traditário. doutrinariamente. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. exige mais garantias. Houve excessos legislativos. Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. 44 . fixa-se um novo prazo. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável.

quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. A menos que. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). Se for possuidor tem defesas possessórias. no entanto. O contrato-promessa já é um contrato misto. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. quando haja incumprimento. É posse semelhante à do arrendatário. O Prof. A resolução. destrói o contrato retroactivamente. O sinal visa uma função compensatória. No Direito funciona-se com prazos. 3. Alguns autores dizem que. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. se há sinal. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. É uma posse muito elementar. porque tem uma cláusula daquelas. tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. É verdade. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. Neste momento. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. Um contrato de comodato. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. A distinção é importante. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. Se for um representante. bem entendido. o que deve fazer é resolver o contrato. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. 2. Se é esse o sentido da cláusula. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. operando o sinal. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. deve ser tomado seriamente. É celebrado contrato-promessa. não há posse. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. Se resolve o contrato por incumprimento. Assim.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. 45 . O que é que as partes pretenderam? 1. a troco da entrega da casa. Tradição da coisa Tecnicamente. É um contrato que dá direitos muito precários. Pode ser uma gentileza mais demorada. desaparece também o sinal.

A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. Consoante o tipo de posse. Já está tudo pago. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. já vinha de trás. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). também. para além da tradição.4. Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. Mas isso já estava subentendido. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. através dos seus meios. Passa até à frente do credor pignoratício. O interessado pode ainda optar pela execução específica. A solução mais normal é a execução específica. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. Estamos perante um facto. Se tivesse havido incumprimento definitivo. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966. é muito difícil determinar a indemnização. Assim. Foi uma ideia prussiana. muda o regime. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. 46 . dir-se-á que não podemos obrigar. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. pelo que há entrega da coisa. Assim. houver sinal. Aqui temos posse em termos de propriedade. Se de facto houve perda do interesse. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. mas não especificou. Contudo. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). por maioria de razão também há sinal comum. seria impossível apresentar-se a cumprir. Em 1980 o regime foi alterado. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. colocando no terreno. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. houve incumprimento. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. Leva ao mesmo. Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. soluções alternativas à indemnização. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. Quando se trata de acções humanas. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. Se houve. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. Se há excepção do cumprimento.

A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. as custas ficaram por sua conta. O tribunal não emite. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. Simplesmente. Nos outros a questão não se colocava. Os riscos são compensados pela presença do tribunal.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. é muito difícil calcular a indemnização. Aí. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. ex. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. verdadeiramente. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. Perante o incumprimento. Simplesmente.Houve soluções doutrinárias. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. Contudo. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. O Prof. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). Mas nem sempre. Conquanto que o conteúdo seja determinável. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos.  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. contudo. Não valerá a pena recorrer à execução. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. já que a prestação se tornou impossível. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. 47 . p. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. no momento em que é decretada a execução específica. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. mas vende a C. Haverá consequências indemnizatórias. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. a declaração faltosa. em 1980 o legislador foi desastrado.

o 830/1 admite a possibilidade. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias. Mas a lei admite mandato irrevogável. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. p. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. Quando nem sequer há prometibilidade (doação. Não faria sentido a execução de um contrato que. Já no penhor ou no mútuo faz sentido. Mas aí não cabe execução específica. No caso do contrato de trabalho. Quando seja celebrado um contrato-promessa. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. tão pouco. depois. A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. O comodato pode cessar a qualquer altura. E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. ex. demissão). mesmo que houvesse. limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. não se iria muito longe (despedimento. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora.  A exclusão convencional. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. já não é de todo possível a execução. por sua natureza. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. Mas. se verifique uma alteração das circunstâncias.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. Se houver situação de inexistência. poderia ser revogado. Não pode haver execução de contrato que não existe. Nessa altura. Contudo. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). Igualmente. Contudo. Todavia. MC entende que sim. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. Tem de haver ponderação de interesses. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. pode acontecer que. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito.) também não pode haver execução. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. in fine). comodato). 48 . Aí já faz sentido. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias.

Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. ficando privada do preço.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. 49 . que a foi buscar ao Direito alemão. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. não é norma de excepção. qual a solução? Normalmente. Se o preço não for pago há injustiça. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. Deixou de se exigir a escritura. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo. O Prof. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. outros recusam essa solução.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. vendendo a terceiro. Promove logo a transmissão da propriedade. a lei alemã permite um pré-registo. Assim. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. Se não for cumprido. alguns entendem que cabe execução específica.  Há execução específica. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. escritura pública. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. Vaz Serra. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. Através da eficácia real conseguir-se-ia. execução específica. reforçando-se o registo. A outra parte pode não ter sido paga. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. convenção expressa de atribuição de eficácia real. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante.Depósito do preço A sentença é translativa. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra. O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade. mas contra o terceiro (Dias Marques). registo da promessa. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. O que está em causa é que o dever seja cumprido. Ora. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia.

a execução específica não é puramente executiva. continua a ser um verdadeiro contrato. no entanto. uma vez concluída. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. com o contrato definitivo. apenas. em função dele. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. em definitivo. tão-só. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. em relação ao definitivo. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. à negação da própria promessa. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. por vezes.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. ainda que devido e pré-regulamentado. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. tão-pouco é declarativa. A primeira opção explicativa leva. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. Justamente por. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. a contratar. a celebração das promessas. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). no fundo. delimitando.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. levar ao apagamento do definitivo. uma vez que dela nada sai de preexistente. De seguida. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. A lei proíbe. o contrato definitivo não perde em categoria. as partes regularem. um acto de execução do que já estaria combinado. de facto. Nos extremos. 50 . na promessa. Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. Mau grado a primazia reguladora da promessa. pelo menos em parte. como contrato autónoma. as partes obrigam-se. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. Ao celebrar o contrato-promessa. o que esteja em causa.

a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. essencialmente. O direito de preferência. a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado).O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. As preferências no sistema jurídico No Código Civil. desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). A favor do co-herdeiro (2130º). A favor do senhorio (1112º/4). O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável. caso queira vender um prédio a alguém. 1519º e 1523º). antes. um dia. ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. tem. A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. com o qual o negócio fora ajustado. por χ. pelo artigo 1535º (1901º). isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. A favor da pessoa designada em testamento (2235º). A favor do comproprietário (1409º e 1410º). O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. 1380º e 1381º). Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. perdendo a plena disposição do seu bem. as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato. em Direito. A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). Por exemplo: o obrigado. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. ao preferente. A favor do fundeiro (1535º). caso este queira. enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). deve vendê-lo. Da mesma forma. o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto.  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. De resto. pelo preço em causa. Diz-se. Em regra. 51 . uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente). quando convencionalmente estabelecido. nesse sentido.

a preferência real confere. uma indemnização. apenas uma das partes fica obrigada. nos termos do 414º. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência. sejam.  A preferência obrigacional. a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. Modalidades. violado o pacto. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso. permite ao preferente exigir. Na segunda. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais. a um direito real de aquisição. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele. ainda e por elas.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º).Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. As preferências convencionais são ora obrigacionais. ora reais. nesta última hipótese. ao obrigado faltoso. uma vez que a outra emite logo a declaração final. Na primeira. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1.  A opção – figura inominada e atípica. a preferência legal advém da lei. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. 52 . a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real. na opinião dominante. através de uma acção de preferência (1410º/1). tem cabimento recorrer à acção de preferência. consoante a opção das partes e isso desde que. ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. todavia. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. ao preferente. quando violada. não podendo o preferente fazer seu o negócio.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. observadas determinadas formalidades. relativo à acção da preferência. a real.

se o pacto for bivinculante (bilateral). é afectado de algum modo. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. como a de fazer a competente comunicação. Com uma prevenção: numa situação de preferência. Todavia. das regras aplicáveis à capacidade. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. os ónus e os encargos envolvidos. de liberdade de forma. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. o terceiro deve-se abster de contratar. como cláusula num pacto mais vasto. O modus praelationis. por ele. de onde promanam deveres para ambas as partes. por definição.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. próprio do contrato-promessa. E sendo este o caso. pretenda contratar com o obrigado à preferência. a menos que ambas as partes se vinculem. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. daí resulta a aplicação. 53 .Forma O artigo 415º manda aplicar. de acordo com as regras gerais (219º). deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. desencadeando o funcionamento do pacto. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas. o artigo 410º/2. quando o contrato preferível exija documento. ao pacto de preferência. Num pacto de preferência comum. quer autêntico quer particular. do princípio da equiparação. em regra. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. por parte de um terceiro. ao pacto de preferência. perante o Direito vigente. Tendo conhecimento do pacto de preferência. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. a essa luz. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. eventualmente. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). deve-se lidar com os deveres acessórios. Bastaria a assinatura deste. Pergunta-se se o terceiro que. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. podendo. Propõe-se a aplicação. recebem os deveres. próprias do contrato preferível.  Porém. mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. à preferência.

afinal. o terceiro ficará com o negócio. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. o represente. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada.  Ou o preferente rejeita. Havendo aceitação da comunicação de preferência. Finalmente. perfila-se o contrato definitivo. É o que dispõe o artigo 416º/1. declarando que não está interessado. Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. de pleno direito. ficando o contrato por celebrar. convicto de que. por parte do preferente. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que.  Ou renuncia à preferência. envolve. não o quer. pelo menos. por opção do beneficiário. pelo menos. A “aceitação” da comunicação para preferência.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. se vem mesmo a concluir na esfera deste. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. e estará enganado. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou. quer autêntico. deixando o negócio para o terceiro que. a renúncia. por lei expressa. na presença de um projecto de contrato firme e sério.  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. quer particular. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que. na mesma linha. A não se verificarem tais requisitos. esta deve ser feita ao preferente. isto é. A comunicação não está sujeito. exige-se forma escrita. a comunicação para preferência deve ser feita a todos. 54 . modificações ou reticencias. com alterações. por aplicação do 410º/2. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. o contrato. com base nela. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. Havendo vários preferentes. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir. A resposta do preferente. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou. uma de duas:  Ou o preferente prefere.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. se não o fizer. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente.Na posse dessa proposta. já que o terceiro não celebraria tal contrato. com poderes bastantes. ao seu direito.

o preferente desiste ou prefere em conjunto. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. Existem três possibilidades básicas. Prestação acessória. não o sendo. o contrato será seguramente único.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. Não o sendo. Observar-se-á. ou não. De todo o modo. dependendo das circunstâncias. é excluída da preferência. nenhum princípio de especialidade. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras. apontam. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. ou não.  Não sendo avaliável em dinheiro. recebida a comunicação. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva. As valorações subjacentes ao artigo 417º. A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. pode. 55 . Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. podem umas e outros ser desagregados. 1ª parte). antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. sem prejuízo para o interessado. no nosso Direito da compra e venda. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro. quando se reporte a uma universalidade. o que terá que provar. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. então. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode. divisível?  E não sendo divisível.

A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. a todos os preferentes. com isso. sem seguir o procedimento da preferência. É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. sempre. desde que este as acompanhe. abre-se licitação. A acção de preferência permite ao preferente. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles. 1ª parte). em termos de aquisição.  Concluir o contrato em causa. com o preferente. A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. Havendo eficácia real. Em termos de comunicação: ela deve ser feita. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. 56 . a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. os restantes: não havendo processo de escolha. afastando. seguramente. A prestação principal é. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. ao preço e à identidade do requerente. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). Segundo o artigo 1410º/1. A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. esta última: trata-se de um facere jurídico. em caso de violação de uma preferência real. Verificados os pressupostos. fazer seu o negócio faltoso. nas condições fixadas. feito no artigo 410º/2. a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”.

57 . da posição de contratante e do valor que ela representa. perante o concreto contrato definitivo em causa. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa. a opção cessa. passando a integrar o definitivo. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. o artigo 411º: o vinculado pede. que exigirá. só será válida e eficaz se. por uma simples manifestação da sua vontade.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. excepto no que tanja ao cumprimento deste. só deverá ter lugar se uma das partes quiser. execução e incumprimento No que toca ao optante. do definitivo. o qual. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. aqui.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. que fixe um prazo razoável para o seu exercício.  Quanto à execução. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”. Aplicam-se aqui. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. ao tribunal. a celebração.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. ora. por analogia. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. na conclusão. esta não depende da intervenção da parte vinculada. na opção basta a declaração do beneficiário. dá azo ao contrato definitivo. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. na opção. por ambas as partes. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. directamente ou por analogia. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). por mera declaração unilateral. um verdadeiro contrato-promessa. Direito e deveres.  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. no cumprimento. Haverá que aplicar. o titular ou o optante) recebe o direito de. declarações de ambas as partes. na execução. A opção. provocar o aparecimento do contrato definitivo. todavia. ele recebe o direito potestativo de. Logo. tendentes à conformação do contrato definitivo.

quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). por via dos artigo 295º e 221º/2. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. Ambas as partes ficam . respectivamente. no mercado. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. a qual adquire um direito à prestação. partes no contrato. No plano do seu conteúdo. do optante e do adstrito. natureza e aplicações Celebrando uma opção. surge o contrato definitivo. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que.todavia. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. o qual deve ser cumprido. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção. designadamente para a parte optante. O risco desaparece. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. uma das partes (o promitente) assume. que exercerá o seu direito se o entender. Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). no memento escolhido. dando-a em garantia ou alienando-a. Ainda o mesmo optante pode colocar. há que lhe aplicar. a cargo. Funções. directamente. Assim. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. o artigo 272º: na pendência da opção. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. Actuada a opção. O obrigado. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. o artigo 762º/2 e. as partes congelam as condições da venda. por analogia. a sua opção. Como princípio geral. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). por seu turno. perante a outra (promissário).O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. 58 . envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. com relevo para o pagamento do preço da opção. pode facturar o premio da opção. entre outros aspectos. do definitivo.

excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2).  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. as prestações ou outras vantagens que. A posição do terceiro O terceiro adquire. porventura. imediatamente. 1ª parte). a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. a efectivação da promessa ao terceiro.  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem. lhe possam advir da relação básica (405º). pelo contrário. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. a prestação principal O promitente tem. Tal permite excluir. A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro.A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. pelo contrato a seu favor. contratos como o casamento ou a doação. o direito à prestação: independentemente da aceitação.  A de exigir. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. perante o terceiro. especificamente. do promitente. fundamentalmente. deste cerne. do promitente. por exigência deste e do promissário. O regime concreto de tais prestações. de forma geral. A posição do promitente. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. devam ser trocadas entre os mesmos. porventura. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal.  A de exigir. independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. As prestações que. nessa altura. a contrario e 448º/1. a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1). 59 . A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. O terceiro adquire o direito à prestação. se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte. ao promitente. quando esse seja o conteúdo da promessa.

admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. Eligendus: o terceiro. não sendo parte do contrato. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. ao abrigo das regras gerais (217º). de lealdade e de informação. de adesão. O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado.  O promissário. As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1. através da regra da boa fé (762º/2). a contrario). a fiscalização da contraparte.Perante um contrato a favor de terceiro. falsificar a conduta a que se encontra adstrito. nada fazer. por não ter sido celebrado com o terceiro é. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. Esta apenas consolida um contrato que. no limite. logo. 60 . Desde modo. Amicus: o terceiro. desconhece os precisos termos envolvidos. ainda. a contrario e fortiori). quando se desempenhe perante o terceiro. o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou. Na linguagem desde subsector. antes de ter ocorrido a sua nomeação. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. Num primeiro tempo. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. pode desinteressar-se dela ou. instável. Pode-se. pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. sobre si. pode ser menos diligente ou até. por não ser o destinatário da prestação acordada.  Torna a promessa firme (446º/1.  O terceiro. antes dela. não tem. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação. Electio ou electio amici: a escolha. porém.

O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato. em princípio. Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. As fontes paracontratuais Ao longo da História. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). ao outro contraente. altura em que o contrato ficará sem efeito. concordância do amicus e electio. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. a cláusula “pessoa a nomear”. Feita regularmente e comunicada a designação. do próprio contrato que a contenha. a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto.Regime. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira). seja em moldes sócio culturais. foram surgindo figuras que. A electio tem. que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa. Embora a lei não o diga. Como tratá-las? Com o tempo. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). 61 .  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. eficácia retroactiva. num todo coerente. Ele implica. tal como sucede com a ratificação (262º/2). o negócio consolida-se na esfera do stipulans. efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta. seja em termos técnicos. pois. quando superior (454º/2). Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. Concluído o contrato para pessoa a nomear. produz efeitos em relação ao contraente originário. dele se aproximavam. Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. não reunindo as características perfeitas do contrato.

com ele. seja na formação. Sublinha-se que. no tráfego moderno de massas. postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique. depois. muitas vezes. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos. esta relação fundir-se-ia nele. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. derivada do facto simples de um contacto social. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que.  Situações de proximidade contratual. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. execução de relações duradouras. Relações paracontratuais em especial 1. para certos fins. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). chega-se.  Situações de relações jurídicas complexas.  Os contratos com protecção de terceiros. 62 . sem integrar previsões contratuais. em termos rigorosos. o contrato. na sua origem. isolam-se:  As relações contratuais de facto. pelo menos. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual.  Inserção em organizações comunitárias. através de meros comportamentos materiais.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. Surgindo. uma parte razoável do seu regime. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social.  As relações contratuais sem contrato. ser reconduzidas ao contrato mas que. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. seja nos preliminares. no espaço jurídico. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais. tivesse ocorrido qualquer contrato. de lealdade e de informação. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais.

Com as devidas adaptações. 3. Havendo proximidade. Em termos analíticos. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. no contrato considerado. ainda. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. Há impossibilidade inicial da prestação. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. Em termos gerais. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. O contrato é anulado. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. Também está claro e assente que. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. 2. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. nele. tenha uma proximidade visível. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. que veicula os valores fundamentais do sistema. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. para terceiros. e existe. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. mercê dos contratos preliminares. pelas partes. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. Surge uma impossibilidade superveniente.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. perante a prestação principal e em face do credor. independentemente de qualquer especial vontade. nas protecções dispensadas. revogado ou denunciado. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. ainda que insubsistente. igualmente. promane deveres acessórios (de segurança. o Direito manda proteger. por qualquer razão. A “fonte”. em face de um contrato:  Alguém que. por estar vulnerabilizada. O círculo interior. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. 63 . que se reporta aos bens postos em jogo. não seja parte. o círculo interior. O contrato é resolvido. no caso de violação. De novo há um círculo exterior.

ad nutum. ainda se poderiam manter determinados deveres. por sua livre e exclusiva vontade. 5. O artigo 457º proclama. operando o contrato. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se. para as partes. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. “negócio” engloba. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. as normas típicas. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. o inerente instituto. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. quando violados. em termos jurídico-positivos. dando origem. tais deveres não têm origem contratual. uma regra de tipicidade. o proprio acto unilateral (457º-463º). aqui. obrigações que (só) irão pensar depois.Tecnicamente. uma vez que ele não é partes. 4. cessado o contrato. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. No que se lhe reporta. De facto. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta.  Um numerus clausus de realidades relevantes. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. aplicar. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. que explique os deveres resultantes. São os deveres pós-eficazes. fora de série. nesse sentido nuclear. de obrigações futuras. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. O negócio unilateral implica que alguém. no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. o que (ainda) não têm e subscreverem. fique adstrito a realizar uma prestação. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes.  A proibição de. podendo. ser globalmente denominado culpa post factum finitum. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. Antes de fundam na lei. Mas têm moldagem contratual. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. como um simples facto stricto sensu. por analogia. mas noutros locais. Em rigor. aparentemente. 64 . Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. com facilidade. de lealdade e de informação. com ligeireza. perante eles. a responsabilidade obrigacional.  Os perigos da adstrição ad nutum.

por força de qualquer outra fonte. A regra não origina nenhuma obrigação nova. já antiga. Assim:      Da proposta de contrato. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. quanto à existência de adequada fonte das mesmas. ainda. pois. até prova em contrário (pelo devedor). de resto. sem indicação da sua fonte. Deve-se ter também em conta os terceiros que. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. a tipicidade dos negócios unilaterais. é aparente. pode-se admitir tipos abertos. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). Em bom rigor. no Direito português. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. a primazia da materialidade subjacente que. para além da concreta eficácia suscitada. pelo princípio da causalidade. limitada à inversão do ónus da prova. existe aqui. ainda. Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida. com a promessa pública como modelo. De contratos com apenas uma assinatura. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. também aqui.Mantém-se. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se. Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. Os negócios unilaterais distinguem-se.  Fonte essa cuja existência se presume. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. deve sublinhar-se. Negócios unilaterais em especial 1. devidas. No que tange ao autor do acto. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. a afirmação. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. passando pela tradição de uma coisa. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. Dogmática geral O negócio unilateral. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. sobretudo quando interessados. importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. de que. Do testamento. fica o credor dispensado de a exibir. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. igualmente por via da boa fé. Quanto muito. numa segunda vertente. isto é. Da oferta ao público (230º/3). 65 . deve imperar. Do anúncio público (225º). cabe salientar a confiança que. anteriormente. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. proclamada no artigo 457º.

Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. aqui. A situação distingue-se. A justa causa será. Concurso público O artigo 463º. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. aqui. exclusivamente. surgindo alguém nas condições nela previstas. perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. a título de prémio. da indeterminação do destinatário. por justa causa (461º/1. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. tendo prazo. a sua obrigação. ainda. ele extinga. desde logo. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). da oferta ao público (230º/3): nesta. Feita a promessa. às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. constitui uma especial modalidade de promessa pública. só nessa altura se constituindo. apenas. objectiva ou subjectivamente. relativo a concursos púbicos. acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. Até que. não tendo prazo. muito claramente. na sua falta. seja revogada. seja revogada (461º/1). por anúncio público. propriamente obrigado. que torne a promessa inexigível. um motivo atendível. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo.  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. naquela.2. constituir o contrato. pela aceitação. 66 . o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º).     Até que expire o prazo nela fixado (460º). o concurso ficaria indefinidamente aberto. in fine). o promitente fica obrigado:  Até que. deriva. antes dele. 3. fica vinculado desde logo à promessa”. Até que. ficando. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. pelo cumprimento. pode. O público. o promitente adstrito à sua efectivação.

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