Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

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Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

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 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

É um código típico do início do séc. antes de terem as coisas. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade. No entanto. para não darem o que não têm. vários artigos em que podemos detectar esta orientação. as obrigações. defesa do consumidor). O BGB. não depende da sua fonte – o negócio jurídico. 457º. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. 994º). transposição de directivas comunitárias. Se a fonte for inválida. Causalidade Significa que. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. Foi muito pouco mexido. (448º. Mas há zonas periféricas. O BGB é de 1900. 947º. A validade de um cheque. analítica.Existem. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. a obrigação não subsiste. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. XIX. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. O Direito das Obrigações é super estável. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. que merecem reforma em Portugal. é abstracto. Resulta do movimento da pandectística. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. que nascem de uma determinada fonte. doutrina. É muito difícil mexer nele. 4 . Romano-germânico Sistema centrado no BGB. O legislador optou por emitir leis avulsas. por regra. A responsabilidade civil é fechada. todavia. O Direito das Obrigações alemão é líder. O Direito civil é muito estável. 812º. baseada num conceito vago. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. daí tal importância. 2. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. A responsabilidade civil é ampla. Protegem-se as pessoas contra si próprias. A codificação da boa-fé.. prescrição. 809º. A causalidade contrapõe-se à abstracção. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. 863º. p. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. renunciem aos seus direitos. regras. no Código Civil. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. 4. É muito elegante linguística e estilisticamente. Não se quer que as pessoas. ex. nesse caso. 942º. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil.

O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. Há pouca influência romana. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. O Código não é de inspiração alemã. O Direito português é aberto ao exterior. não havendo negócio jurídico separado dos contratos. Naturalmente. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. 5 . sequer. Este sistema não é codificado. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. Além da redistribuição germânica das matérias. No Brasil. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. Anglo-saxónico É um mundo à parte. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. Mas foi uma novidade científica que vingou. Há união entre religião e Estado. Mas tem uma organização e conceptualização originais. surgem institutos até então desconhecidos. entre os conceitos desta família e os das anteriores. Chinês É muito antigo. no entanto. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. Antes da aprovação do Código de Seabra. na China não aconteceu isso. canónica. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana.3. 5. Mas. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. há um período de pré-codificação. a partir de 1911. sendo revigorados os já conhecidos. muito avançado. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. XIX. tal como a cultura chinesa. islâmica. Não há correspondência. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. sendo uma enorme influência. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. O Código de Seabra é. mantiveram-se em vigor as Ordenações. 4. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos.

verificou-se a invasão indonésia em 1975. O Código brasileiro aparece só em 1916. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. tendo-os traduzido para chinês. O português era a segunda língua. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. mas começa a ser preparado no pósguerra. sendo substituída pelo inglês. mas havia a barreira linguística. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. vigora também o código de 1966. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. Em Cabo Verde. numa primeira fase. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. depois da aprovação. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. Em Moçambique. Há algum atraso na sua aprovação. Em África Em Angola. Foi necessário recomeçar. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). Em Timor. Houve. Em Macau. Antes da entrega de Macau. Todavia. Tem influência germânica e do Código de 1966. como membro da OEA. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. Com a independência. O Código de 1966 vigora actualmente. O CC de 1916 tem já influência germânica. logo em meados de oitocentos. com Teixeira de Freitas. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. com algumas alterações após a independência. quando ocorreu a ocupação. um período de exegese. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. numa segunda fase. houve maior inteligência política. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. mas já havia recepção do pandectismo. XIX. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. ainda em meados do séc. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. Na Guiné. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. As revisões ministeriais do Prof.No Brasil Na doutrina brasileira. voltou a vigorar o Direito português. foi aprovado um Código Comercial novo. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. marcaram as primeiras reconstruções do CC. 6 . Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. O Prof. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. Ele é de 1966. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo.

7 . Mais tarde. Há 23 línguas oficiais na Europa. predomina o inglês. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. uma enorme barreira linguística. não havendo confusão com os sistemas da pandectística. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. provêm de regulamento. Brasil. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. Somos. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono.. Assiste-se à implantação (Portugal. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. evolução histórica. ao contrário do que acontece no Direito português. ex. De um modo geral. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. não são de common law. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. Há as directrizes e os regulamentos. Todavia. Turquia. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. Há. Japão.) de sistemas próximos do germânico. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. hoje. O Prof.O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. francês e alemão. Mas na área do Direito não é assim. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. que é do final de Oitocentos). Em termos planetários. que suportou a nossa independência. foi do Direito alemão. Cumpre saber que língua é utilizada. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. é diferente. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial. Nas obrigações. Mas havia uma grande projecção ultramarina. É um Direito que tem uma evolução histórica. A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. O Direito lusófono não tem só essa influência. de Common Law. entre interpretação e integração. p. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. No Direito francês há distinção. quantidade de falantes da língua. etc. As regras sobre a moeda única. a grande influência. um pequeno país na Europa. na área dos negócios e nas relações entre povos. estão em causa relação inter-pessoais. língua. Se não o fizerem. ganha pelo mérito. mesmo quando escritos em inglês. Coreia do Sul. até. a directriz não vigora. também com as operacionais: inglês. Quanto a autonomia doutrinária. O caso português é singular. A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. Ciência do Direito.

havia um Direito europeu das obrigações. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. Nós. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. O direito subjectivo. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. No plano oficial. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo). há 500 milhões de pessoas. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. Não teve consequências. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. mas com exagero. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. Fala de um bem a prestar. havia um domínio de alguém sobre outrem. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. não há um Governo europeu.No tempo do ius commune. MENEZES CORDEIRO. O Prof. juristas portugueses. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. era o poder da vontade. intra muros. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. para SAVIGNY. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. como a falta de competência dos órgãos europeus. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. Antigamente. dada a insuficiência da língua inglesa. Para o Prof. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. nem uma política externa comum. e não a totalidade. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. 8 . Esta noção presta-se a críticas. O melhor Direito é o interno. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. quando existia obrigação. há muitos constrangimentos. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. ele começa a desaparecer. a vantagem é o bem que será prestado. forçar a vontade humana. No espaço europeu. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. Se A tem direito.

surge a nova noção de obrigação. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. Se o devedor não cumprir. o dever é sempre um constrangimento ético. um direito ao património do devedor. sim. Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. Há. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção.Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. No séc. mas as suas obrigações permaneciam. já é um valer em si. pode-se atingir o seu património. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. Pode ser um facere ou um non facere. assentes apenas em deveres acessórios. Pode haver obrigações sem prestação. O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). 9 . Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. obrigações. Primeiro. independentemente de terem culpa). A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. A obrigação não é apenas um bem a prestar. no início. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. Em regra. Os romanistas diziam que não havia. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. XIX. todavia. surgiu a respondência. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. Assim. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). extingue-se a haftung. As pessoas morriam. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. Depois. Na prescrição. mas o seu património. independentemente de ser cumprida ou não. A ideia remonta ao antigo Direito romano. as obrigações são cumpridas. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. pelo que é excepção o recurso ao património. Ela. Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente.

antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. compreende um dever de prestar principal. com o credor e vice-versa. com dois regimes). qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. Estas construções são úteis. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. não tendo interesse para o Direito nesse caso. etc. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. um conceito de obrigação. Se não são. O regime é solicitado para um tratamento unitário. O BGB já não exige natureza patrimonial. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. só. A obrigação. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. pode ainda não existir. Se são. A obrigação pressupõe um dever específico. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. em termos pragmáticos. O credor fica adstrito a deveres de segurança. deveres secundários e deveres acessórios. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. Mas. outra concepção diz que há um direito real de garantia. noutros ainda. pode haver nulidade. não podendo servir para construir. colaboração. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. Se é assim. A prestação pode não existir. é o fiador que deve cumprir. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial.. Em certos casos. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. A obrigação do fiador é secundária. MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. por si só. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. Se o devedor principal não cumprir. não interessam. pelo que obrigação não é uma prestação. linguística. sabe-se hoje. 10 . Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. tratado mais à frente. noutros. a responsabilidade é patológica.

o 398/2. Não tem de haver natureza patrimonial (398º). mas havendo danos. compensação – e não de equivalência. ela é avaliável em dinheiro. O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. Hoje isso não é assim. será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. É assim ao nível global. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. acção directa. mas pode receber dinheiro. 11 . ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. 2ª parte remete para o interesse. de sistema. Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. pode haver responsabilidade pela deferência. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. boa educação) que não relevam para o direito. O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. Direito. Tudo pode ser avaliado em dinheiro. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo.Se um artista se obriga a entoar uma ária. Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. não necessariamente em todas as situações. No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. Como são ressarcíveis. Pode haver execução específica. As relações de obsequiosidade não são. há ressarcibilidade dos danos morais. tem conteúdo económico. O 397º define obrigação. há sanções pecuniárias compulsórias. à partida.

Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. Uma última. Nas obrigações. Deve-se sempre perguntar qual a origem. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. 12 . Os créditos não são sempre relativos. nos direitos pessoais de gozo. Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. A convida B para dançar. Quanto aos acordos de cavalheiros. o credor aproveita imediatamente a coisa. Em obrigações. por exemplo). O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. a relatividade existe quando há relação jurídica.Há também deveres de protecção. Noutra acepção. no caso dos direitos reais). Em direitos reais há só uma. Os direitos potestativos são absolutos. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). há créditos absolutos. Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. o que tem de surgir é o serviço. Esta noção vale o que vale. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. mas não se pode esfarrapar o par de dança. A obrigação é uma relação jurídica. Se a prestação for um serviço. Podem fazê-lo? Em princípio. Assim. duas partes. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. relações de vizinhança. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. há figuras como a execução específica. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). erga omnes. contrapondo-se aos direitos reais. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. Os acordos de cavalheiros são relevantes. no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. que são absolutos? Em termos estruturais. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. o direito real é uma situação absoluta. encontramos sempre uma dança a dois. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. mas não se pode retirar daí uma regra. absoluta. seria sempre necessária a mediação. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. não. são para cumprir – se não forem. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito.

Deveres acessórios. PESSOA JORGE). em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). médio ou fraco. ex. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor).. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. A eficácia interna é entre credor e devedor. Havia uma quebra maliciosa do contrato. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. Há contratos com protecção de terceiros. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. Há uma acção. A nossa jurisprudência acordou em 1964. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. p. Mas inverteu-se a tendência. Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. No início. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. relações jurídicas. Mas há outras regras. se incumpridos. então há oponibilidade média. a externa é perante terceiros. 13 . A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. Se é assim. com os pactos de preferência. No sentido forte. Mas há também deveres no tráfego que. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão. a figura do terceiro cúmplice). dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. dão lugar a responsabilidade civil. Faz sentido que haja defesa contra terceiros. A doutrina tem evoluído nesse domínio. É o que acontece com os chamados deveres de tráfego. Se é assim. com MANUEL DE ANDRADE. pode existir oponibilidade em sentido forte.A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. que se manifestam predominantemente perante o devedor. A regra é de que a eficácia é meramente interna. As obrigações são vínculos. Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. Na Alemanha diz-se que não. o que lhes daria uma tutela relativa.

descrevendo as condutas. não havendo lacuna. Só pode estatuir com recurso a tipos. Num ramo típico. os factos são descritos concretamente. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. as economias britânica e francesa. O legislador pode dar uma série de exemplos. há responsabilidade. Quando existe uma previsão normativa. não estão assim tão mal. Todavia. Mas esses não se aplicam a terceiros. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. diz-se. Se existe uma descrição típica das condutas. Outros dizem que só o devedor pode incumprir. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. Se A contrata com B. O Direito objectivo. Quando a lei recorre a descrição da realidade. aplicam-se os artigos 798º e ss. protecção jurídica. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. 14 . como o penal ou o fiscal. O terceiro não pode. mas há várias vias para o conseguir. recorre a tipos – tipicidade. Isso justifica-se em ramos agressivos. proíbe autotutela. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. Contratar-se-ia menos. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. países que admitem a figura. Noutros casos é mesmo normativa.  Diz que existe numerus clausus. em princípio inatingíveis. Argumentos a favor. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. Há tipicidade exemplificativa. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. ao atribui direitos subjectivos. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. um terceiro faz-se passar por credor. Se ele for atingido. Isso em princípio. é muito mais restrita. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. Quando existe um devedor. Dá. pois. há um numerus clausus – o número de factos é finito. Está tudo ligado.  Diz que está proibida a analogia.

15 . Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece.). também. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. por conjunções históricas. Isto é o núcleo duro – há desvios. p. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. O mediato é também designado por objecto. por via de condicionalismos históricos. o regime tem um desvio. aqui. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). não há numerus clausus e pode haver lacunas. Autonomizou-se do Direito das obrigações. Nas obrigações isso não existe. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. venire contra factum proprio. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. O contrato de trabalho é um contrato como os outros. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). Há tipicidades de tipo científico. Mas existem muitas obrigações nessa área. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. O conteúdo distingue-se do objecto. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. Aí. de facto. etc. tipicidade exemplificativa. Há situações de direitos reais que. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. em princípio. Obrigações. tudo é parecido com o Direito das obrigações. Mas tem regras especiais. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. direito a uma coisa corpórea. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. um princípio de tipicidade. Há. obrigações naturais. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. ex. É muito especial. O Direito comercial é outro ramo especial.Nos contratos há descrição abstracta. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. O conteúdo das obrigações é sempre. ao contrário. invariavelmente. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. Os direitos reais têm. Há. um direito e um dever.

É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. Ex. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece. São instrumentais em relação a ela. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. Foi o critério escolhido pelo legislador. Não se trata de um non facere. A prestação principal é o núcleo da obrigação.) e a aquiliana (483º e ss. tendo em conta as circunstâncias do caso. é um homem médio colocado no caso concreto. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei.: o médico não tem obrigação de curar. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. Podemos. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. É o critério do bonus paterfamiliae. O devedor está obrigado à diligência média. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. Só é exigível que se esforce até esse ponto. por um esforço de análise. apenas de fazer tudo ao seu alcance. Por vezes. as partes pretendem uma determinada conduta. tem culpa. mas à prestação de um serviço com determinada diligência. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. A de dare consiste na entrega de uma coisa.). Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. Seguem o regime da prestação principal. É o homem médio. aquilo que for normal num homem médio. São prestações que complementam a prestação principal. Não se obrigam a resultados. Todavia. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. Temos de saber o que é exigível. De dare. noutras pretendem o resultado. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado. Uma prestação inclui necessariamente o esforço. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. 16 . Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. De pati. As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. Se se comportar abaixo da bitola. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta.

são soluções para problemas novos. segurança. 17 . O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito.. Como decorrem da boa fé. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. observando os deveres acessórios. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). Substancializam a obrigação. A base legal é o 762/2. informação. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. O legislador quer primeiro cumprimento. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. a obrigação é uma realidade muito complexa.O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. rerum sic stantibus. etc. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. Não basta cumprir a obrigação. só depois a indemnização. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia. mas há deveres acessórios pré-contratuais. A culpa in contrahendo. Podem ser deveres de lealdade. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. possível. A indemnização é uma consequência de segunda linha. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. é preciso cumprir de boa fé. determinável. contratuais e pós-contratuais. integração de lacunas. nos deveres acessórios são ambos. depois a reconstituição natural. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. tal como se não cumprir o dever acessório. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo. Está em causa o princípio da tutela da confiança. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno.  Círculo externo. Os deveres acessórios são imprevisíveis.

ambos). relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. 3. Absolutas. 18 . A regra é da fungibilidade.  Obrigação de abstenção (simples.). Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples). como concessão. transferência de propriedade. suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). Em princípio. 4. Se sou obrigado a recorrer a perífrases. prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis. mas são regularmente utilizadas no sector.  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa.). Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. nas mistas há vários deveres. Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei. Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. atípica resulta da autonomia privada. ex.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. na relativa há. p. 2. uns relacionados. combinadas quando estejam associadas a direitos reais. etc. se consigo exprimir com uma única expressão é simples.Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. 5. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). Não é o mesmo que coisa fungível. Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei. Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos. trata-se de obrigação complexa. A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. outros não. porteiro.

pelo menos. E relações perpétuas. sob pena de nulidade (280º). surge na periferia. era instantânea. A retribuição é a renda ou aluguer. Se fosse logo satisfeito. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. um pré-aviso. Há lacuna. o principal. também. O DL 178/86 trata da cessação da agência. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. como reacção ao regime feudal. Obrigações duradouras Partimos da prestação. É necessário. Havendo agência. pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. e outras que se cumprem no tempo. com dilação temporal juridicamente relevante. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. O Direito civil é um direito prático. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. Tipos de obrigações 1. O Prof. mas pessoais. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. Implica especialidade quanto à sua cessação. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. claro está. se tiver poder de representação celebra também os negócios).6. forma de cessação de um contrato duradouro. para tutela da confiança. 2. Não se extinguem com o cumprimento. As questões sociais vieram pugnar por protecção. A denúncia. Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. não obstante. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. entre o agente e o principal há relação duradoura. ao contrário das obrigações comuns. É um contrato em especial. 19 . não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. O conteúdo tem de ser sempre. quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. determinável. Hoje. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. A denúncia seria um dos esquemas. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. em que havia obrigações perpétuas. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação.

mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. mas também não chegou a bom porto. menor taxa de natalidade. Logo. impedindo actualização das rendas. Chegou-se a um regime vinculístico. para o futuro).  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio. Obrigação de deixar usar? Seria negativo. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas. Em 1990 tentou-se de novo. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. 20 . contraindo empréstimos. Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento.No arrendamento domina a autonomia privada. as rendas vão degradando. actualizando as rendas. etc. Chegou-se a este panorama aos poucos. inícios do séc. é figura real o direito de locatário. havendo transmissão da coisa arrendada. XX. por exemplo. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. É um direito real.  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). Quanto mais baixa a renda. Se houver inflação. centros das cidades abandonados. Se é assim. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. maior o lucro do trespasse. com a industrialização e grande pressão urbanística. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real.  Congelamento das rendas. Há bloqueios ideológicos. A solução de quem chega ao mercado é comprar. Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. políticos. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. XIX. No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. trânsito caótico. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. económicos. Há subúrbios. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos. Em 1985 tentou-se reformar. O 1743º do CC francês determina que. Mas também não explica o que é o gozo. surgiram fenómenos e problemas de natureza social. Em 2006 houve um projecto.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção). Surgem teorias mistas (entre nós. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário. porque ele é sempre real). Nos finais do séc. Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge.

Não tem uma grande relevância prática. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. entre os direitos reais e os de crédito. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). Admitese a existência de direitos de gozo. na locação. Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. O Direito dizia que ele estava obrigado. Juridicamente não tinha personalidade. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. é histórica. Comportam-se. Estabelece que prevalece o direito real. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. por ser figura próxima do direito de crédito. pois. como direitos reais. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. o que os aproxima dos direitos de crédito. mas sem shuld. o locatário pode fazer obras. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. A pessoa estava obrigada a fazer algo. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. Obrigações naturais É figura muito estudada. Mas mudou de ideias. defender o seu direito face a terceiros. de forma similar aos direitos reais. Em geral. Uns são pessoais e outros são reais. Era um débito sem respondência. Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. já que é ela que as explica. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. Mas pode ser integrado no Livro II. 3. em regra. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. porque não era uma pessoa. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. com recurso aos tribunais). o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. tendo um direito de preferência sobre a coisa. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. Seguem. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. no conflito com outros direitos. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). 21 . nesta matéria o regime dos direitos reais. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. Essa tese é inaceitável. pelo que ele se pode defender sozinho.

 Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. porque elas são típicas. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. Hoje. Esta matéria está regulada no 402º. não jurídicas. sociais. com base no 404º.. Todavia. A obrigação natural deve ser. aplica-se o regime das obrigações civis.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. No período medieval. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. a moral é uma coisa e o Direito outra. Noção legal (402º). Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais. Aparentemente. mas também as obrigações 22 . mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente.  O 404º. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida. etc. jurídica. Em tudo o resto. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei. transformando-as em naturais. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. Não podem ser constituídas por contrato. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. pois. Tiveram uma evolução muito atormentada. diferente de um Direito moralmente enformado. Não pode ser exigível judicialmente. A lei. Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos. Ser jurídica é estar prevista como obrigação. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. Isso não é verdade. não posso pedir devolução do que paguei. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. A justiça é aquilo que o Direito consagra. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais. não têm valor patrimonial. Se eu pagar.  As obrigações naturais são típicas (809º). Mas são aqueles os dois momentos cruciais. etc. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. As obrigações naturais. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. Mas isto não pode ser. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. É jurídico.A isso chamaram obrigações naturais. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. diz-se por vezes. Havia ligação entre o Direito e a moral. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas.  Não exigibilidade judicial do cumprimento.

As obrigações genéricas são muito importantes. é fungível. dare ou pati. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. há uma lacuna negocial. No Direito romano eram desconhecidas.civis podem não ser cumpridas. Ele é determinável mas não está determinado. A escolha e o risco O 539º estabelece que. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. Só se determina o género. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. escolhe o devedor. Logo. dando lugar a obrigações genéricas. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. que podem ser de facere. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. com a massificação das transacções. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. Na falta de acordo. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. Deve-se escolher a coisa média. o critério é o da mediania. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. 23 . As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. se nada for estipulado. Não é o sentido do 400º. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. podendo ser qualquer litro de azeite. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. Não havendo convenção. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). 4. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. Desde que a coisa a entregar não seja única. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. Os contraentes podem estipular diferentemente. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. quantidade ou qualidade. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. O problema que surge é o da determinação do objecto. há obrigação genérica. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. o critério deve ser o da mediania. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. rege o favor debitoris. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

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7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

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Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. isso não multiplica a obrigação. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. É só uma. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. No Direito comercial. É um regime mais duro para o devedor. a regra supletiva é a da solidariedade. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. seja porque existe expressão linguística unitária. porque também temos de tratar das relações internas. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. todos têm de prestar ao mesmo tempo. Na prática. Nestes casos.noção. O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. Quando vão cumprir. um concerto de orquestra. 27 . ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal. seja porque o regime é unitário. de modo a assegurar o cumprimento. para proteger o lesado. mas complexa. na falta de estipulação em contrário. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. Aumenta a garantia do credor. O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. Rege o 512º . Presume-se que as partes de cada um são iguais. os credores). Ao contrário da parciariedade. Em resumo. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. a lei estabelece solidariedade. O credor só pode exigir de cada um essa parte. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. Há obrigações que são à partida divisíveis. MENEZES CORDEIRO defende que. quando há vários sujeitos numa obrigação.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. que é sempre singular). por exemplo). Existe uma presunção de igualdade das quotas. Os vários sujeitos têm relações entre si. há outras que só o são se as partes acordarem. Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas.

A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. um A. tal como os direitos reais. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico.). p. ex. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. quando alguém contrata a solidariedade. A lei poderia ser fonte de obrigações. 28 . acrescentou a lei. há “gato”. significa que há alguma coisa a mais. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento. à estatuição de uma norma. presunção de igualdade (516º). o do devedor e o do fiador. ex. É uma bipartição importante. Uma prestação pode. Normalmente. se não houver outro acordo. Mas é uma pluralidade heterogénea. é natural que existam meios de defesa dos devedores. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. No período da pré-codificação francesa. ex. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. Também existe. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. Surgiu o esforço de sistematização. um credor e um credor pignoratício. p. Precisa de um facto jurídico para nascer. uma classificação das fontes. só dele (não os meios pessoais de outro). A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. ter duplo aproveitamento. pessoal seria a prescrição. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. já que o fraccionamento é feito posteriormente. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. p. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. aqui. Eram fontes que. não sendo nem uma nem outra. Na solidariedade há co-devedores. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. São duas fontes fundamentais de obrigações. tem regime diferente. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores.

Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. Faz-se. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. As divisões não significam. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade. que é comum a todos os direitos europeus. no tempo e no espaço. p. desde logo. a gestão de negócios. como se usou em 1867 e 1966. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). Onde se avançou mais foi na matéria contratual. O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. o enriquecimento sem causa. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. nuns e noutros a mesma coisa. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. O que se deve. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. em vez de adoptar a repartição tradicional. a partir do 405º. enumera-se o contrato. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. o negócio unilateral.). Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. 29 . Mas ele é mesmo muito reduzido. Enumera algumas fontes. mas enumeração. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. ex. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica. Já nos sécs. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. enquanto a lei é norma heterónoma. Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. Há um encadeamento. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. É difícil unificar. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. então. O Código de Seabra faia um elenco original. O direito privado tem 2000 anos. Em termos estatísticos. de se autodeterminarem. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. apesar de não haver classificação qua tale. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. Com o CC de 1966 também não existe classificação. todavia. referência à tetrapartição. a melhor técnica é a tipológica. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas.

No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. mas existe pacto sucessório. Mais tarde. vai na direcção do contrato. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. No Direito sucessório é mais raro. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). Assim. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. O contrato tem um papel muito alargado. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. É o sistema de tipo francês. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. Passava a ser vinculativo por isso. O CCP trata da matéria. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. O socialismo ataca o contrato. com SAVIGNY. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. está em crise. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). mas se lemos artigos sobre negócios. O contrato. para o Prof. O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. surgindo os contratos que hoje são básicos. É necessário que haja propriedade. Os romanos conheciam figuras equivalentes. já o negócio obtém-se pela razão. diz-se muitas vezes. 30 . consensual – basta haver contrato. Dinis.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. nas Obrigações é o contrato. Menezes Cordeiro. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. No Direito da Família também: contrato de casamento. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). É importante considerar o canonismo. Dá-se uma grande explosão. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. É um diploma bem feito. É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. a bona fides perderá o seu significado. igualmente. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. o próprio contrato perde espaço. o contrato está sempre subjacente. tem menos aplicação. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. de acordo com a escola histórica e a pandectística. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. Daria frutos no período jusnaturalista. O contrato valia por si. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. em lei de Maio de 1352. se a sociedade é subdesenvolvida. D. Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. manifestação da importância do contrato. A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas.

O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos.). Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes.). mas de certos contratos. O contrato tem peso em si. pecuniários. Tecnicamente. à partida. plurais. Mas isso não aconteceu.No séc. racionalidade. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos. os observadores previram explosão dos contratos. O contrato é. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. O 56º/3 garante a contratação colectiva. Tutela constitucional do contrato A CRP. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português. etc. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. É óbvia.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. Todavia. Graças às convenções internacionais. A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. etc. pois. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. não relevaria: eles devem ser cumpridos. no artigo 8º/2. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. incluindo direitos de créditos). diminuindo a liberdade contratual (banca. O contrato é um véu que tapa os olhos. Não houve. Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. seguros. não se trata de um recuo do contrato.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação.  Intervenção judicial nos contratos. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. Com a queda do Muro. porque não foi necessário. necessidade de consagrar na CRP. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada.  Áreas reguladas. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. como o da boa fé. valores mobiliários. 31 . pelo menos para coisas úteis. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. Se a lei não dissesse nada. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. É uma visão pessimista.

O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada. fica fragilizada. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. Segundo. consideradas mais sensíveis. regulando com especialidade. o contrato é bilateral. 2. é nominado mas atípico. não dá para classificar em abstracto. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. em princípio também não o regula. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. vindo a aperfeiçoar-se. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. nominados e inominados. Terceiro. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. mas a lei não o disciplinou. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. Fala-se. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. É distinção relativa. maior equilíbrio. Consensuais. Quando a lei não lhe dá um nome. bem como diminui as dúvidas. Todos os negócios são contratos bilaterais. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. Perante o conceito de negócio jurídico. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário.1. O contrato de hospedagem. 3. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. por vezes. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. Pode haver tipo social e tipo legal. no entanto. 5. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. 32 . reais quoad constitutionem e quoad effectum.

A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. Nos monovinculantes há duas partes. podemos distinguir entre negócios típicos. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. Fica com o direito potestativo de. no entanto. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. as partes têm liberdade de celebrar livremente. querendo. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. reciprocidade. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. O problema é que.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. uma vez que domina a autonomia privada. Há. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. Há 16 contratos regulados no Código Civil. A generalidade das normas é supletiva. O estudo desta matéria não é fácil. a parte geral é muito restrita. hoje. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. uma delas não fica obrigada. Tendo em conta este facto. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. É diferente da vinculatividade. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. 33 . O problema é que. É sinalagmático. atípicos e mistos Os negócios jurídicos. 7. À luz do 405º. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. 6. As partes querem dar. Os gratuitos são. Tipologias de contratos Contratos típicos. passa entre as gotas da chuva. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. solicitar ao outro a efectuação da prestação. Embora o 405º seja muito abrangente. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. em regra. tendo em conta o relevo de que se revestem. pois. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. Em regra. se as partes celebram contratos mistos. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam.

Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. Não tem salário. entretenimento. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. Ex. Há mistura. mas recebe em géneros.: A arrenda um quarto a B. Complementados – aqueles em que existe um tipo base. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. Em troca do preço recebe um quarto (locação). Ex. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). Ex. Não pode ser um mero pormenor. 2. comida. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. 34 . A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. Isto só resulta se houver confiança. Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. 3. não para que se porte como proprietário. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. quando acabar. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa. em troca de explicações. próprias de vários contratos. cama.: A recebe habitação. comida. o negócio aproxima-se da gratuitidade. Ex. mas como tendo a casa como refém. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. A tem dívida para com B. Os combinados distinguem-se dos complementados. A autonomia privada é o pano de fundo.: A comprou 15 dias num cruzeiro. B tem de guardar a casa enquanto A não paga. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. devolve-lha. 4. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. etc. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos. embora tenha havido preço. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção). A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante. aplicando todos. Aplica-se o seu regime a todo o contrato.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1. o locador. os serviços de limpeza. O resto é extra. que absorverá os outros. Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. que lava também a roupa de cama. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. na prática.: A compra por preço muito baixo. não havendo uma principal.

Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. P. Regra geral. Quando há lacuna contratual. No caso do porteiro isso é evidente. Quando nada se diz. Aqui. publicidade. gestão do centro. segurança. no entanto. A solução foi a da analogia. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. sem intenção de enganar). a outra também. se na lei houver solução. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. para que os distribua. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. O limite é o das normas imperativas. Mas isso é raro. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. o arrendamento tem muitas normas imperativas. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. Se não for suficiente. acabavam os centros comerciais. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. O método foi o da analogia. Pode haver várias funções: simulação. 4. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). aplica-se o regime do tipo x. Pode.2. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. Hoje. ex. e também com a agência. por analogia. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. a primeira solução é a da vontade das partes. bem como sinergia do ponto de vista económico. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. o combinado e o híbrido. A seguir temos de resolver com analogia. Há semelhança entre a agência e a concessão. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. 3. mas os serviços que o centro proporciona.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. é também acompanhado de distribuição. a solução também foi a da analogia. tal como o da vontade das partes. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. Recorre-se ao regime da agência. nomeia concessionários. aplicam-se as regras desse tipo. mas o contrato é usado para uma função diferente. Em Portugal. O promotor é remunerado através da renda. Mas não é normal. é uma área vinculística. a quem entrega os bens. aplica-se essa solução. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. Se ele corresponder ao tipo x. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. então celebra-se o y). Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. é esse que se aplica. O que é específico é a marca. 35 . É contrato de agência que foi encontrado.

negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. São óbices consideráveis. ao contrário do alemão. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. Descobrindo-o. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. o fiduciário. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. teremos uma figura real não prevista na lei. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. na contratação alternada valia ou um ou o outro. já que o Direito existe para proteger os fracos. O fiduciante é só entre outros. O fiduciário é de execução prolongada. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. interna e alternada. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. Mas o Prof. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. M. Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). mas para o de terceiro. Ele é permitido se não violar regras imperativas. O fiduciário é proprietário. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). Mas. Quem recebia a coisa com fidutia. era o proprietário da coisa. porque doações de bens futuros não são permitidas. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. aplica-se o regime correspondente. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. 36 . Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. a fidúcia é muito violenta para o devedor. em benefício de quem a entregava. Se for à falência. não permite divisão da coisa entregue. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. No Direito português. Procura-se o centro de gravidade. se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. Se ela tem natureza real. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse.

É uma ideia relativamente recente. de tipo processual. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. 442º. Hodiernamente. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. No Direito português tem grande importância. rege nos contratos mistos. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. O contrato prometido e o contrato definitivo. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. Mas nunca é irrelevante. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. Segundo o Código de 1867. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). No domínio das Ordenações havia pouco espaço. A celebração de uma escritura pública demora tempo. devia ser celebrado por escrito. 830º. Importou do BGB a execução específica. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. 37 . A figura da absorção. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. tem eficácia real. sem recorrer à escritura pública. a promessa valia apenas como prestação de facto. O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. por exemplo. homogéneos e heterogéneos. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. há centros de gravidade múltiplos. execução específica). Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. para o sinal. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. de tipo não processual. Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. A promessa por escrito era válida na hora. sendo diferente o regime. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. causais. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. Há muita jurisprudência sobre isto.. dependentes e independentes. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função).

É usado. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa.). Desformalização. mitigada. Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. na promessa sabe-se). P.As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. Por vezes. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa. ex. os contratos são dotados de prometibilidade forte. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo). ex. 3. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. sobre a entrega. transacção meramente obrigacional. desformalização. 4. 1. do exercício de preferência. Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. para preparar o contrato definitivo. 38 . do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. um modus vivendi. acabamento da coisa. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. Como no Direito alemão. financiamento. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. é possível a execução específica no caso de incumprimento. Mitigada ou mitigadora. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. Quanto à prometibilidade fraca. Regulativa autónoma. 2. Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. É um formato.. Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). Função preliminar. O contrato-promessa distingue-se da proposta. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. É a função preparatória. regulativa autónoma. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. não podem ser objecto de promessa. tendo isso em conta. na promessa tem de haver negociação). O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. Há contratos que. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”. Regra geral. do convite a contratar (A solicita a B que contrate). do dever legal de contratar. do contrato preparatório material. por vezes. Meramente obrigacional. 5. uma vez prometido. um modo geral de celebrar outros contratos. p. etc.

etc. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. se não houve entrega da coisa. do 1591º e SS. Não vincula o promitente a doar. e o outro não cumprir. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. Isso não é correcto. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. diferente do regime do contrato-promessa. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. às consequências pela ingratidão. Com o não cumprimento. o que está em causa não é a regulação de um contrato. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º.) que conduz à possibilidade de revogação. também não há uma regra expressa que o diga. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. tendo em conta o regime. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. Isso não vem na lei. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. 39 . Mas. a obrigar a algo que poderia revogar. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. etc. proximidade. mas a situação subjacente é diferente. É verdade que existe um regime jurídico. Não há contrato-promessa de doação.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. à partida. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. No contrato-promessa. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. Pode fazê-lo. É um contrato à parte. imperativo. estão nos antípodas. O problema é que. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. Não se trata de um contrato-promessa. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. como executo? Os clássicos diziam que não era possível. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). O nome é parecido. É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade.. O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. a proposta ainda não foi feita. mas que tinha um regime especial. mas ineficaz quanto às prestações principais. até é possível haver excepções ao que se disse.

E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. Se for livre também o contrato-promessa é livre. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. não se precisa é de assinar. Assim. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. Para o prof. A conversão. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. ainda que não tenham as duas assinaturas. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. tendo enorme relevância. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. para ser quantos se obrigam. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. nos termos do 293º. MENEZES CORDEIRO em princípio. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. o regime é o do 219º liberdade de forma. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. outros a conversão. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. 40 . A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. em regra o promitente alienante. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. A questão das assinaturas é meramente formal. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. autêntico ou particular. não se entende porque só um assina. Uns defendem a redução. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. O 410º/2 regula a forma. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. Não haveria problema de prova nem dúvidas. O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. Na prática. o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. Mas isso é errado. é preciso o acordo de ambas). existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º).Hoje em dia. aplica-se a regra geral. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. Estipulações acessórias são válidas. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. Na normalidade dos casos. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. Se para o prometido for necessário documento. é a solução. Se o documento é a materialização do acordo. Por isso.

Mas não é fundamentalista. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. com excepção das relativas à forma e as disposições que. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). havendo grandes atropelos ao direito. Se a promessa for monovinculante. Admite que. este deve adquiri-la. p. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. 41 . Surgiu na década de 1980. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. Nestes casos. por sua razão de ser. Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. Este princípio. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. Neste momento. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. Havendo contrato-promessa. de invalidade mista. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. A parte geral também tem regras. MC sugere a ideia de modus contrahendo. também. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. no 3. integralidade. Há. ficando com um contrato-promessa monovinculante. Obedece a normas: os princípios da correspondência. possa reduzir-se o negócio. em certos casos. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. se nada disserem. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. o regime é o da reforma de 1986. Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. a se. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. Pode ser paralisada através do abuso de direito. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. Trata-se. ex. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. concretização e boa fé.

Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º).). que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). O promitente fiel é o que é prejudicado. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. lugar. mantendo-se o contrato-promessa. se forem válidas e eficazes. violação de deveres acessórios. O definitivo está previsto no contrato-promessa. a lei prevê a interpelação admonitória. inclui-se a coisa no cumprimento. O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. se não for cumprido. O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. uma via crucis. O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. devolve-se em dobro. Pode haver uma impossibilidade superveniente. local. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. À partida. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé. Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. não foi. O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo. Muitas vezes há AA. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. há inadimplemento. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo.). Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. prazo. 42 . o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. etc. impossibilidade superveniente. Legitimidade. pode haver resolução. se for cumprido. Se isto não for possível. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. o faltoso é o que não cumpre. etc. aplica-se o 280º. Ou há mora. Isto é uma trapalhada. Pode acontecer que seja lacunar. se o contrato-promessa permitir. alterando as palavras. Incumprimento há quando. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação. Se não houver. Se houver situação de mora. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes.. Pode haver recusa antecipada a cumprir. pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). imputação. MC entende que isso não pode ficar assim. Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. que resolvem inovar. violação positiva do contrato. O incumprimento extingue a prestação principal.

A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. ajudava a provar a existência do contrato. no entanto. Tornava-se compensador não cumprir.  Quando há tradição da coisa prometida. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). recebiam-se sinais. 30%. com a inflação. O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. o sinal tinha alcance coercivo. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. mas o valor actual da coisa. No Direito romano tinha um sentido confirmatório. Em 1980 havia grande inflação. penal. Assim. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. Quando mexeu no 442º. O que estava em causa eram casas de habitação. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. faziam-se casas. 43 . Assim. se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. A jurisprudência. Tem um direito de liquidação judicial. celebrando-se contratos-promessas. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980).No Direito grego antigo. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. mexeu no regime do sinal. O imobiliário estava sempre a subir. se houve incumprimento. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. que chegava aos 20. começou a resolver o problema diferentemente. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. os sinais deixavam de valer tanto. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. Enganou-se e mexeu em tudo. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. A ideia era: como a inflação é muito alta. Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. vender a coisa e recolher o preço. O Governo resolveu intervir. Afastouse a possibilidade de execução específica. a indemnização já não é o sinal em dobro. Houve várias propostas para resolver a situação. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). na fase executiva. o sinal ganha coloração particular. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. O problema viria a ser resolvido em 1986. Quando metido no contrato-promessa. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. O retentor pode.

pode o credor ter perdido o interesse na prestação. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. perderam a objectividade. Se houver mora. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. Se houver morar. Tentou-se limar algumas arestas. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. É uma “excepção de cumprimento”. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. Em 1986 o legislador interveio novamente. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. é mais selectivo. congelando o direito ao valor da coisa. a primeira consequência é entrar em mora (805º). Lobo Xavier. exige mais garantias. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. não sendo necessária a interpelação admonitória. O Prof. Vários AA. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. Assim. fixa-se um novo prazo. não há logo incumprimento definitivo. pela interpretação). É um esquema complicado. ficou consagrada a indemnização pelo valo. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. Tendo havido mora. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. a indemnização seria o valor actualizado da coisa.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. O hipotecário ver-se-ia preterido. Tentou-se. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. ainda assim. ele é deduzido do preço. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção. Se houver sinal. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. Assim. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. a favor do promitente adquirente traditário. 44 .  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. Houve excessos legislativos. mesmo que anteriormente registada. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. Todavia. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. Além disso. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. doutrinariamente. introduzir correcções. com a solução do Prof.

Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. destrói o contrato retroactivamente. É um contrato que dá direitos muito precários. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. Se resolve o contrato por incumprimento. No Direito funciona-se com prazos. O que é que as partes pretenderam? 1. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. bem entendido. 3. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. 45 . É posse semelhante à do arrendatário. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. Se é esse o sentido da cláusula. É uma posse muito elementar. se há sinal. A menos que. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. quando haja incumprimento. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. Tradição da coisa Tecnicamente. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. A distinção é importante. Alguns autores dizem que.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. no entanto. O Prof. Assim. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. desaparece também o sinal. quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. O sinal visa uma função compensatória. a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. a troco da entrega da casa. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). É celebrado contrato-promessa. Se for possuidor tem defesas possessórias. Um contrato de comodato. O contrato-promessa já é um contrato misto. A resolução. Pode ser uma gentileza mais demorada. o que deve fazer é resolver o contrato. 2. tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. Neste momento. porque tem uma cláusula daquelas. deve ser tomado seriamente. operando o sinal. não há posse. É verdade. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. Se for um representante.

já vinha de trás. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. é muito difícil determinar a indemnização. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. 46 . O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. colocando no terreno. Leva ao mesmo. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. Passa até à frente do credor pignoratício. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. houver sinal. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). Quando se trata de acções humanas. Se há excepção do cumprimento. dir-se-á que não podemos obrigar. Foi uma ideia prussiana. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966. Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. A solução mais normal é a execução específica. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. Se houve. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. seria impossível apresentar-se a cumprir. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). O interessado pode ainda optar pela execução específica. Em 1980 o regime foi alterado. também.4. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. por maioria de razão também há sinal comum. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. Contudo. para além da tradição. Mas isso já estava subentendido. Consoante o tipo de posse. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. muda o regime. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. soluções alternativas à indemnização. através dos seus meios. Se tivesse havido incumprimento definitivo. Aqui temos posse em termos de propriedade. Se de facto houve perda do interesse. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. Já está tudo pago. mas não especificou. Assim. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. Estamos perante um facto. Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. houve incumprimento. pelo que há entrega da coisa. Assim.

 Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. Aí. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. verdadeiramente. Contudo. ex. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. O tribunal não emite. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. Nos outros a questão não se colocava. Perante o incumprimento. Não valerá a pena recorrer à execução. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. é muito difícil calcular a indemnização. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. Haverá consequências indemnizatórias. a declaração faltosa. Simplesmente. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. já que a prestação se tornou impossível. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. O Prof. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. Conquanto que o conteúdo seja determinável. p. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo. as custas ficaram por sua conta. mas vende a C. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. no momento em que é decretada a execução específica. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. Mas nem sempre. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. contudo. Simplesmente. em 1980 o legislador foi desastrado. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei.Houve soluções doutrinárias. Os riscos são compensados pela presença do tribunal. 47 .

Já no penhor ou no mútuo faz sentido. Contudo. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. ex. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. in fine). o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. Todavia. poderia ser revogado. Não pode haver execução de contrato que não existe. Se houver situação de inexistência. O comodato pode cessar a qualquer altura. A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. 48 . pode acontecer que. não se iria muito longe (despedimento. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. o 830/1 admite a possibilidade. E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. MC entende que sim. No caso do contrato de trabalho. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. depois. mesmo que houvesse. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. Mas aí não cabe execução específica. tão pouco. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. se verifique uma alteração das circunstâncias.  A exclusão convencional.) também não pode haver execução. Mas a lei admite mandato irrevogável. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. Contudo. Nessa altura. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. comodato). não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). por sua natureza. Quando seja celebrado um contrato-promessa. p. Tem de haver ponderação de interesses. já não é de todo possível a execução. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. Quando nem sequer há prometibilidade (doação.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. Aí já faz sentido. Igualmente. Não faria sentido a execução de um contrato que. demissão). Mas.

Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. O Prof. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof.  Há execução específica. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. qual a solução? Normalmente. outros recusam essa solução. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. reforçando-se o registo. registo da promessa. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. mas contra o terceiro (Dias Marques). MC propõe a integração através da bilateralidade da regra. 49 . Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. Se o preço não for pago há injustiça. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. Através da eficácia real conseguir-se-ia. Se não for cumprido. escritura pública. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. que a foi buscar ao Direito alemão.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. O que está em causa é que o dever seja cumprido. pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. ficando privada do preço. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. vendendo a terceiro. Promove logo a transmissão da propriedade. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. A outra parte pode não ter sido paga. convenção expressa de atribuição de eficácia real. não é norma de excepção. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. Assim. execução específica. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. alguns entendem que cabe execução específica. Vaz Serra. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. a lei alemã permite um pré-registo. Ora. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração.Depósito do preço A sentença é translativa. O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. Deixou de se exigir a escritura.

em definitivo. tão-pouco é declarativa. Mau grado a primazia reguladora da promessa. pelo menos em parte. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. no entanto. Ao celebrar o contrato-promessa. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. apenas. o que esteja em causa. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa. delimitando. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). continua a ser um verdadeiro contrato. uma vez concluída. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. no fundo. a celebração das promessas. a execução específica não é puramente executiva. uma vez que dela nada sai de preexistente. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. em relação ao definitivo. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria. as partes regularem. à negação da própria promessa.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. 50 . Desta primazia dogmática do contrato-promessa. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. como contrato autónoma. as partes obrigam-se. De seguida. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. A primeira opção explicativa leva. tão-só. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. de facto. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. em função dele. Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. Nos extremos. por vezes. a contratar. na promessa. levar ao apagamento do definitivo. Justamente por. ainda que devido e pré-regulamentado. com o contrato definitivo. um acto de execução do que já estaria combinado. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. o contrato definitivo não perde em categoria. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. A lei proíbe.

a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. A favor do comproprietário (1409º e 1410º). As preferências no sistema jurídico No Código Civil. A favor do fundeiro (1535º). tem. as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato. enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. A favor do senhorio (1112º/4). nesse sentido. ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. A favor da pessoa designada em testamento (2235º). o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. Diz-se. o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). 51 . desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). pelo preço em causa. Por exemplo: o obrigado. que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). caso este queira.O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. em Direito.  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. ao preferente. pelo artigo 1535º (1901º). a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. A favor do co-herdeiro (2130º). isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente). De resto. com o qual o negócio fora ajustado. Em regra. O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. por χ. quando convencionalmente estabelecido. Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável. um dia. caso queira vender um prédio a alguém. uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. O direito de preferência. 1380º e 1381º). caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). essencialmente. Da mesma forma. antes. perdendo a plena disposição do seu bem. 1519º e 1523º). O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. deve vendê-lo.

a preferência legal advém da lei. 52 . Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais.  A opção – figura inominada e atípica. uma vez que a outra emite logo a declaração final. permite ao preferente exigir. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). consoante a opção das partes e isso desde que. nos termos do 414º. apenas uma das partes fica obrigada.  A preferência obrigacional. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. quando violada. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau. Modalidades. a preferência real confere. todavia. relativo à acção da preferência. observadas determinadas formalidades. através de uma acção de preferência (1410º/1). ora reais. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele. a um direito real de aquisição. a real.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. Na primeira.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito. tem cabimento recorrer à acção de preferência. não podendo o preferente fazer seu o negócio. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso. ao obrigado faltoso. a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. Na segunda. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. uma indemnização. ao preferente. nesta última hipótese. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. violado o pacto. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita. sejam. As preferências convencionais são ora obrigacionais. ainda e por elas. ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. na opinião dominante.

como cláusula num pacto mais vasto. se o pacto for bivinculante (bilateral). quer autêntico quer particular. das regras aplicáveis à capacidade. a menos que ambas as partes se vinculem. mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. à preferência. podendo. perante o Direito vigente. próprias do contrato preferível. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. em regra. recebem os deveres. Tendo conhecimento do pacto de preferência. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. por parte de um terceiro. Num pacto de preferência comum. O modus praelationis. a essa luz. daí resulta a aplicação. a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. por ele. como a de fazer a competente comunicação. Pergunta-se se o terceiro que. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. de acordo com as regras gerais (219º). Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. de onde promanam deveres para ambas as partes. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. próprio do contrato-promessa. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. por definição. Todavia. Com uma prevenção: numa situação de preferência.Forma O artigo 415º manda aplicar. eventualmente. E sendo este o caso. 53 . Bastaria a assinatura deste. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). o artigo 410º/2. o terceiro deve-se abster de contratar. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). os ónus e os encargos envolvidos. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas. ao pacto de preferência. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. de liberdade de forma. Propõe-se a aplicação. do princípio da equiparação.  Porém. ao pacto de preferência. deve-se lidar com os deveres acessórios. é afectado de algum modo. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. pretenda contratar com o obrigado à preferência.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. desencadeando o funcionamento do pacto. quando o contrato preferível exija documento.

de pleno direito. envolve. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. a comunicação para preferência deve ser feita a todos. pelo menos. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. se vem mesmo a concluir na esfera deste. por lei expressa. não o quer. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal. com alterações. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente. já que o terceiro não celebraria tal contrato. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. deixando o negócio para o terceiro que. A resposta do preferente. ficando o contrato por celebrar. na mesma linha. por aplicação do 410º/2. por opção do beneficiário. com poderes bastantes. quer autêntico. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir. pelo menos. Havendo vários preferentes. declarando que não está interessado. esta deve ser feita ao preferente.  Ou renuncia à preferência.  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. Havendo aceitação da comunicação de preferência. ao seu direito. o terceiro ficará com o negócio. quer particular. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou. uma de duas:  Ou o preferente prefere. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada. modificações ou reticencias. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). A não se verificarem tais requisitos. a renúncia. perfila-se o contrato definitivo. na presença de um projecto de contrato firme e sério. É o que dispõe o artigo 416º/1. e estará enganado.Na posse dessa proposta. A “aceitação” da comunicação para preferência. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou.  Ou o preferente rejeita. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. convicto de que. por parte do preferente. Finalmente. o represente.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. com base nela. exige-se forma escrita. 54 . A comunicação não está sujeito. se não o fizer. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que. o contrato.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. afinal. isto é.

recebida a comunicação. Observar-se-á. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. 1ª parte). o contrato será seguramente único. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. dependendo das circunstâncias. pode.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. divisível?  E não sendo divisível. De todo o modo. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro. A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. não o sendo. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. podem umas e outros ser desagregados. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. então.  Não sendo avaliável em dinheiro. As valorações subjacentes ao artigo 417º. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. é excluída da preferência. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode. nenhum princípio de especialidade. ou não.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva. quando se reporte a uma universalidade. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. Prestação acessória. sem prejuízo para o interessado. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. no nosso Direito da compra e venda. apontam. o preferente desiste ou prefere em conjunto.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras. ou não. o que terá que provar. Existem três possibilidades básicas. 55 . Não o sendo.

o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. abre-se licitação. Havendo eficácia real. Segundo o artigo 1410º/1. Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. desde que este as acompanhe.  Concluir o contrato em causa. A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. feito no artigo 410º/2. a todos os preferentes. em termos de aquisição. É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. em caso de violação de uma preferência real. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. 1ª parte). fazer seu o negócio faltoso. A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). Em termos de comunicação: ela deve ser feita. com o preferente. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). com isso. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. sempre. Verificados os pressupostos. A acção de preferência permite ao preferente. afastando. moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. seguramente.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. ao preço e à identidade do requerente. os restantes: não havendo processo de escolha.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. A prestação principal é. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. nas condições fixadas. 56 . a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”. sem seguir o procedimento da preferência. esta última: trata-se de um facere jurídico. A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros.

só será válida e eficaz se. todavia. dá azo ao contrato definitivo. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. Haverá que aplicar. que exigirá. o titular ou o optante) recebe o direito de. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. ora. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa. do definitivo. na opção. na execução. a opção cessa. só deverá ter lugar se uma das partes quiser.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). na conclusão. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. por mera declaração unilateral. passando a integrar o definitivo. Aplicam-se aqui. o qual. Direito e deveres. A opção. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. Logo. da posição de contratante e do valor que ela representa. um verdadeiro contrato-promessa. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. provocar o aparecimento do contrato definitivo.  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. o artigo 411º: o vinculado pede. declarações de ambas as partes. na opção basta a declaração do beneficiário. que fixe um prazo razoável para o seu exercício. ele recebe o direito potestativo de. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. tendentes à conformação do contrato definitivo. excepto no que tanja ao cumprimento deste. directamente ou por analogia. a celebração.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. ao tribunal. no cumprimento. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”. 57 . perante o concreto contrato definitivo em causa. por analogia. execução e incumprimento No que toca ao optante. por uma simples manifestação da sua vontade. aqui. por ambas as partes. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo.  Quanto à execução. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. esta não depende da intervenção da parte vinculada.

com relevo para o pagamento do preço da opção. quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). o qual deve ser cumprido. por seu turno. Ambas as partes ficam . dando-a em garantia ou alienando-a. natureza e aplicações Celebrando uma opção. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. Assim. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. do definitivo. no mercado. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. a qual adquire um direito à prestação. as partes congelam as condições da venda. O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. partes no contrato. surge o contrato definitivo. O obrigado. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. por analogia. o artigo 272º: na pendência da opção. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção. entre outros aspectos.O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. a sua opção. há que lhe aplicar. por via dos artigo 295º e 221º/2. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). perante a outra (promissário). de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. No plano do seu conteúdo. Ainda o mesmo optante pode colocar. designadamente para a parte optante. Actuada a opção. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. O risco desaparece. Funções. Como princípio geral. que exercerá o seu direito se o entender. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. directamente. respectivamente. 58 . Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. do optante e do adstrito. pode facturar o premio da opção.todavia. a cargo. o artigo 762º/2 e. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. uma das partes (o promitente) assume. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. no memento escolhido.

A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. pelo contrário. do promitente. A posição do terceiro O terceiro adquire. lhe possam advir da relação básica (405º). a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1). independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte. perante o terceiro.  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem. o direito à prestação: independentemente da aceitação. o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. O regime concreto de tais prestações. A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. imediatamente. por exigência deste e do promissário. ao promitente. A posição do promitente. se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). contratos como o casamento ou a doação. a contrario e 448º/1. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa.  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. O terceiro adquire o direito à prestação. devam ser trocadas entre os mesmos.A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. deste cerne.  A de exigir. porventura. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal. pelo contrato a seu favor. a prestação principal O promitente tem. 59 . a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). As prestações que. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. 1ª parte). a efectivação da promessa ao terceiro. nessa altura. especificamente. Tal permite excluir.  A de exigir. as prestações ou outras vantagens que. fundamentalmente. de forma geral. quando esse seja o conteúdo da promessa. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. do promitente. porventura.

quando se desempenhe perante o terceiro. não tem. pode desinteressar-se dela ou. o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou. desconhece os precisos termos envolvidos.  O promissário. ainda. Desde modo. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação. por não ter sido celebrado com o terceiro é. a fiscalização da contraparte. O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. de lealdade e de informação.  Torna a promessa firme (446º/1. por não ser o destinatário da prestação acordada.  O terceiro. O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. a contrario e fortiori). ao abrigo das regras gerais (217º). Num primeiro tempo. antes dela. instável. no limite. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. a contrario). pode ser menos diligente ou até. As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança.Perante um contrato a favor de terceiro. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. não sendo parte do contrato. Electio ou electio amici: a escolha. através da regra da boa fé (762º/2). Esta apenas consolida um contrato que. falsificar a conduta a que se encontra adstrito. pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. nada fazer. porém. Amicus: o terceiro. 60 . de adesão. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. logo. Pode-se. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1. antes de ter ocorrido a sua nomeação. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. Eligendus: o terceiro. sobre si. Na linguagem desde subsector.

Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. 61 . a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. As fontes paracontratuais Ao longo da História. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios. não reunindo as características perfeitas do contrato. tal como sucede com a ratificação (262º/2). Embora a lei não o diga.Regime. seja em termos técnicos. Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. a cláusula “pessoa a nomear”. ao outro contraente. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira). pois. Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato. dele se aproximavam. Como tratá-las? Com o tempo. produz efeitos em relação ao contraente originário. A electio tem. foram surgindo figuras que. inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. altura em que o contrato ficará sem efeito. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. eficácia retroactiva. O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. em princípio.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). quando superior (454º/2). Ele implica. Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. Feita regularmente e comunicada a designação. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). concordância do amicus e electio. efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta. o negócio consolida-se na esfera do stipulans. seja em moldes sócio culturais. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. do próprio contrato que a contenha.  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa. Concluído o contrato para pessoa a nomear. num todo coerente.

Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais. chega-se.  Os contratos com protecção de terceiros. no espaço jurídico.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. com ele. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos.  Inserção em organizações comunitárias. na sua origem. uma parte razoável do seu regime. o contrato.  Situações de proximidade contratual. através de meros comportamentos materiais. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social.  Situações de relações jurídicas complexas. seja na formação. sem integrar previsões contratuais. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. derivada do facto simples de um contacto social. muitas vezes. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual. seja nos preliminares. ser reconduzidas ao contrato mas que. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual. em termos rigorosos. 62 . execução de relações duradouras. Relações paracontratuais em especial 1. Surgindo. Sublinha-se que. no tráfego moderno de massas. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados.  As relações contratuais sem contrato. tivesse ocorrido qualquer contrato. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. depois. esta relação fundir-se-ia nele. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique. de lealdade e de informação. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais. isolam-se:  As relações contratuais de facto. para certos fins. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que. pelo menos.

A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. O círculo interior. ainda que insubsistente. 2. O contrato é resolvido. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. Em termos gerais. 3. nele. por estar vulnerabilizada. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. promane deveres acessórios (de segurança.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. que veicula os valores fundamentais do sistema. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. por qualquer razão. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. Com as devidas adaptações. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. não seja parte. tenha uma proximidade visível. Havendo proximidade. De novo há um círculo exterior. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. O contrato é anulado. A “fonte”. mercê dos contratos preliminares. para terceiros. em face de um contrato:  Alguém que. igualmente. revogado ou denunciado. e existe. nas protecções dispensadas. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé. perante a prestação principal e em face do credor. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. Surge uma impossibilidade superveniente. independentemente de qualquer especial vontade. o Direito manda proteger. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. Também está claro e assente que. o círculo interior. pelas partes. ainda. 63 . que se reporta aos bens postos em jogo. Há impossibilidade inicial da prestação. no contrato considerado. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. Em termos analíticos. no caso de violação. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal.

a responsabilidade obrigacional. o proprio acto unilateral (457º-463º). nesse sentido nuclear.  A proibição de. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. Mas têm moldagem contratual. ad nutum. Antes de fundam na lei. ainda se poderiam manter determinados deveres. fora de série. como um simples facto stricto sensu. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. com ligeireza. 5. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. aplicar. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. aparentemente. fique adstrito a realizar uma prestação.  Os perigos da adstrição ad nutum. de lealdade e de informação. ser globalmente denominado culpa post factum finitum. no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. para as partes. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. “negócio” engloba. São os deveres pós-eficazes. obrigações que (só) irão pensar depois. tais deveres não têm origem contratual. No que se lhe reporta. as normas típicas. 64 . Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato.Tecnicamente. O artigo 457º proclama. uma regra de tipicidade. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. operando o contrato. dando origem. de obrigações futuras. De facto. por analogia. em termos jurídico-positivos. Em rigor. o que (ainda) não têm e subscreverem. podendo. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. uma vez que ele não é partes. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. O negócio unilateral implica que alguém. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. por sua livre e exclusiva vontade. com facilidade.  Um numerus clausus de realidades relevantes. quando violados. aqui. mas noutros locais. que explique os deveres resultantes. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. o inerente instituto. 4. perante eles. cessado o contrato. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se.

de que. No que tange ao autor do acto. cabe salientar a confiança que. até prova em contrário (pelo devedor). Do testamento. devidas. no Direito português. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. isto é. sobretudo quando interessados. Quanto muito.Mantém-se. De contratos com apenas uma assinatura. Da oferta ao público (230º/3). comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). anteriormente. a primazia da materialidade subjacente que. por força de qualquer outra fonte. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. ainda. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. a tipicidade dos negócios unilaterais.  Fonte essa cuja existência se presume. Do anúncio público (225º). Dogmática geral O negócio unilateral. pode-se admitir tipos abertos. igualmente por via da boa fé. proclamada no artigo 457º. Em bom rigor. quanto à existência de adequada fonte das mesmas. deve sublinhar-se. passando pela tradição de uma coisa. de resto. pelo princípio da causalidade. Assim:      Da proposta de contrato. com a promessa pública como modelo. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. a afirmação. sem indicação da sua fonte. Deve-se ter também em conta os terceiros que. também aqui. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. A regra não origina nenhuma obrigação nova. importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se. existe aqui. já antiga. pois. é aparente. Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida. Os negócios unilaterais distinguem-se. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. 65 . deve imperar. Negócios unilaterais em especial 1. numa segunda vertente. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. limitada à inversão do ónus da prova. ainda. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. para além da concreta eficácia suscitada. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. fica o credor dispensado de a exibir. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo.

perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). deriva. Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. surgindo alguém nas condições nela previstas. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. Feita a promessa. Até que. por anúncio público. in fine). que torne a promessa inexigível. um motivo atendível. apenas. muito claramente. Até que. na sua falta. antes dele. aqui. ele extinga. naquela. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. aqui. por justa causa (461º/1. o concurso ficaria indefinidamente aberto. A justa causa será.2. seja revogada (461º/1). O público. A situação distingue-se. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. ainda. a título de prémio. tendo prazo. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. pelo cumprimento. 3. não tendo prazo. constitui uma especial modalidade de promessa pública. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º). 66 . pode. desde logo. o promitente adstrito à sua efectivação. só nessa altura se constituindo. propriamente obrigado. exclusivamente. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. o promitente fica obrigado:  Até que. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. da indeterminação do destinatário. a sua obrigação. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. ficando. pela aceitação.  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. constituir o contrato. relativo a concursos púbicos. da oferta ao público (230º/3): nesta.     Até que expire o prazo nela fixado (460º). fica vinculado desde logo à promessa”. objectiva ou subjectivamente. Concurso público O artigo 463º. seja revogada. às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou.