Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

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Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

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 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

não depende da sua fonte – o negócio jurídico. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual.Existem. Protegem-se as pessoas contra si próprias. A responsabilidade civil é fechada. antes de terem as coisas. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. por regra. para não darem o que não têm. renunciem aos seus direitos. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. A codificação da boa-fé. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. 812º. transposição de directivas comunitárias. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. regras. todavia. 4. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões.. doutrina. A validade de um cheque. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. Romano-germânico Sistema centrado no BGB. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. que merecem reforma em Portugal. Causalidade Significa que. O BGB é de 1900. 457º. no Código Civil. baseada num conceito vago. O Direito das Obrigações alemão é líder. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. 809º. É um código típico do início do séc. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade. O Direito civil é muito estável. O BGB. A responsabilidade civil é ampla. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. Resulta do movimento da pandectística. 994º). (448º. O Direito das Obrigações é super estável. Foi muito pouco mexido. 4 . vários artigos em que podemos detectar esta orientação. nesse caso. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. prescrição. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. analítica. É muito difícil mexer nele. que nascem de uma determinada fonte. Se a fonte for inválida. a obrigação não subsiste. 863º. XIX. Não se quer que as pessoas. p. O legislador optou por emitir leis avulsas. daí tal importância. 2. É muito elegante linguística e estilisticamente. A causalidade contrapõe-se à abstracção. defesa do consumidor). ex. é abstracto. No entanto. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. 947º. 942º. as obrigações. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. Mas há zonas periféricas.

não havendo negócio jurídico separado dos contratos. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. há um período de pré-codificação. sendo revigorados os já conhecidos. tal como a cultura chinesa. entre os conceitos desta família e os das anteriores. Há pouca influência romana. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. muito avançado. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. XIX. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. O Código de Seabra é. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. O Direito português é aberto ao exterior. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. Há união entre religião e Estado. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. Mas tem uma organização e conceptualização originais. 5 . assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. a partir de 1911. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. Antes da aprovação do Código de Seabra. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. mantiveram-se em vigor as Ordenações. surgem institutos até então desconhecidos. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. islâmica. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. Chinês É muito antigo. Além da redistribuição germânica das matérias. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. 5. canónica. Este sistema não é codificado. O Código não é de inspiração alemã. no entanto. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. Mas. Naturalmente. Anglo-saxónico É um mundo à parte. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. No Brasil. Mas foi uma novidade científica que vingou. sequer. 4.3. sendo uma enorme influência. na China não aconteceu isso. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. Não há correspondência.

6 . tendo-os traduzido para chinês. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. quando ocorreu a ocupação. logo em meados de oitocentos. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. numa segunda fase. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. Há algum atraso na sua aprovação. com Teixeira de Freitas. como membro da OEA. foi aprovado um Código Comercial novo. depois da aprovação. O português era a segunda língua. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. O Código de 1966 vigora actualmente. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. Em África Em Angola. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. O Código brasileiro aparece só em 1916. O Prof. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. verificou-se a invasão indonésia em 1975. As revisões ministeriais do Prof. Com a independência. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. Houve. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. Todavia. com algumas alterações após a independência. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. Em Timor. XIX. um período de exegese. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. numa primeira fase. Foi necessário recomeçar. Em Macau. mas havia a barreira linguística. Tem influência germânica e do Código de 1966. marcaram as primeiras reconstruções do CC. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. vigora também o código de 1966. mas já havia recepção do pandectismo. Ele é de 1966. ainda em meados do séc. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. O CC de 1916 tem já influência germânica. Em Cabo Verde. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. Em Moçambique. sendo substituída pelo inglês.No Brasil Na doutrina brasileira. mas começa a ser preparado no pósguerra. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. voltou a vigorar o Direito português. houve maior inteligência política. Antes da entrega de Macau. Na Guiné.

que é do final de Oitocentos). Ciência do Direito. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. que suportou a nossa independência. Há 23 línguas oficiais na Europa. ao contrário do que acontece no Direito português. a grande influência. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). ganha pelo mérito. uma enorme barreira linguística. 7 . os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. de Common Law. ex. quantidade de falantes da língua. na área dos negócios e nas relações entre povos. evolução histórica. Quanto a autonomia doutrinária. não havendo confusão com os sistemas da pandectística. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. Turquia. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. é diferente. não são de common law.O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. Há. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. também com as operacionais: inglês. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono. língua. O Direito lusófono não tem só essa influência. É um Direito que tem uma evolução histórica. Se não o fizerem. p. Mas na área do Direito não é assim. mesmo quando escritos em inglês. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. etc. Assiste-se à implantação (Portugal. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. Há as directrizes e os regulamentos. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. francês e alemão. No Direito francês há distinção. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. Coreia do Sul. O Prof. Nas obrigações. Japão. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. As regras sobre a moeda única. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial.) de sistemas próximos do germânico. O caso português é singular. Cumpre saber que língua é utilizada. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. foi do Direito alemão. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. a directriz não vigora. provêm de regulamento. estão em causa relação inter-pessoais. um pequeno país na Europa. Mas havia uma grande projecção ultramarina.. hoje. A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. Brasil. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. entre interpretação e integração. Em termos planetários. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. Somos. De um modo geral. Mais tarde. predomina o inglês. até. Todavia.

Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. Não teve consequências. mas com exagero. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. a vantagem é o bem que será prestado. havia um Direito europeu das obrigações. O Prof. dada a insuficiência da língua inglesa. O direito subjectivo. não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. Antigamente. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. como a falta de competência dos órgãos europeus. Para o Prof. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. há muitos constrangimentos. nem uma política externa comum. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. intra muros. Mas a partir dos séculos XVI e XVII.No tempo do ius commune. Nós. 8 . Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo). No espaço europeu. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. Esta noção presta-se a críticas. No plano oficial. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. há 500 milhões de pessoas. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. havia um domínio de alguém sobre outrem. ele começa a desaparecer. quando existia obrigação. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. era o poder da vontade. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. Fala de um bem a prestar. juristas portugueses. O melhor Direito é o interno. não há um Governo europeu. para SAVIGNY. e não a totalidade. forçar a vontade humana. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. Se A tem direito. MENEZES CORDEIRO. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística.

um direito ao património do devedor. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. todavia. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. sim. As pessoas morriam. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. Depois. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. pelo que é excepção o recurso ao património. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). o dever é sempre um constrangimento ético.Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. as obrigações são cumpridas. A obrigação não é apenas um bem a prestar. Em regra. mas o seu património. No séc. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). Os romanistas diziam que não havia. independentemente de ser cumprida ou não. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). Na prescrição. mas as suas obrigações permaneciam. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. pode-se atingir o seu património. surgiu a respondência. já é um valer em si. Pode ser um facere ou um non facere. O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). 9 . Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. no início. Há. Se o devedor não cumprir. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. Pode haver obrigações sem prestação. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. A ideia remonta ao antigo Direito romano. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. obrigações. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. XIX. assentes apenas em deveres acessórios. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. surge a nova noção de obrigação. Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. independentemente de terem culpa). mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. extingue-se a haftung. Primeiro. Assim. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. Ela.

terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. Em certos casos. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. sabe-se hoje. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. noutros ainda. noutros. A obrigação.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. Se são. a responsabilidade é patológica. Estas construções são úteis. A obrigação do fiador é secundária. outra concepção diz que há um direito real de garantia. A obrigação pressupõe um dever específico. pelo que obrigação não é uma prestação. não podendo servir para construir. Se não são. 10 . cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. com o credor e vice-versa. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. linguística. pode ainda não existir. um conceito de obrigação. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. Mas. A prestação pode não existir. qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. não interessam. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. compreende um dever de prestar principal. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. só. Se o devedor principal não cumprir. não tendo interesse para o Direito nesse caso. O BGB já não exige natureza patrimonial. com dois regimes). GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. Se é assim. deveres secundários e deveres acessórios. tratado mais à frente. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. por si só. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. pode haver nulidade.. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. é o fiador que deve cumprir. Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. O regime é solicitado para um tratamento unitário. em termos pragmáticos. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. etc. O credor fica adstrito a deveres de segurança. colaboração. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade.

O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. Direito. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). 11 . Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. há sanções pecuniárias compulsórias. não necessariamente em todas as situações. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. Hoje isso não é assim. Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. O 397º define obrigação. boa educação) que não relevam para o direito. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. há ressarcibilidade dos danos morais. Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. tem conteúdo económico. pode haver responsabilidade pela deferência. Não tem de haver natureza patrimonial (398º). acção directa. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível.Se um artista se obriga a entoar uma ária. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. mas pode receber dinheiro. o 398/2. compensação – e não de equivalência. mas havendo danos. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. 2ª parte remete para o interesse. ela é avaliável em dinheiro. Pode haver execução específica. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. Tudo pode ser avaliado em dinheiro. O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. É assim ao nível global. Como são ressarcíveis. de sistema. As relações de obsequiosidade não são. à partida. será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não.

A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. nos direitos pessoais de gozo. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). Deve-se sempre perguntar qual a origem. O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. A convida B para dançar. mas não se pode retirar daí uma regra. no caso dos direitos reais). Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. Os créditos não são sempre relativos. são para cumprir – se não forem. absoluta. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. Os acordos de cavalheiros são relevantes. não. que são absolutos? Em termos estruturais. duas partes. erga omnes. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. o direito real é uma situação absoluta. encontramos sempre uma dança a dois. Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. mas não se pode esfarrapar o par de dança. relações de vizinhança. seria sempre necessária a mediação. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). o que tem de surgir é o serviço. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. Uma última. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. Esta noção vale o que vale. Nas obrigações. Podem fazê-lo? Em princípio. a relatividade existe quando há relação jurídica. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. A obrigação é uma relação jurídica. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. 12 . Noutra acepção. o credor aproveita imediatamente a coisa. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. Assim. há figuras como a execução específica. Em direitos reais há só uma. Os direitos potestativos são absolutos. no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. há créditos absolutos. Quanto aos acordos de cavalheiros. contrapondo-se aos direitos reais. Em obrigações. por exemplo). Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei.Há também deveres de protecção. Se a prestação for um serviço.

Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. que se manifestam predominantemente perante o devedor. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. 13 . Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. Se é assim. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão. A nossa jurisprudência acordou em 1964. Mas há outras regras. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. ex. Na Alemanha diz-se que não. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. É o que acontece com os chamados deveres de tráfego. a figura do terceiro cúmplice). com MANUEL DE ANDRADE. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. Há contratos com protecção de terceiros. Há uma acção. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. Mas inverteu-se a tendência. Faz sentido que haja defesa contra terceiros.. dão lugar a responsabilidade civil. No início. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. o que lhes daria uma tutela relativa. relações jurídicas. Se é assim. Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. pode existir oponibilidade em sentido forte. O terceiro cúmplice é uma figura interessante.A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. A regra é de que a eficácia é meramente interna. então há oponibilidade média. Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. p. Havia uma quebra maliciosa do contrato. As obrigações são vínculos. Mas há também deveres no tráfego que. em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. A doutrina tem evoluído nesse domínio. Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. médio ou fraco. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. Deveres acessórios. No sentido forte. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. se incumpridos. PESSOA JORGE). com os pactos de preferência. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). A eficácia interna é entre credor e devedor. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. a externa é perante terceiros.

há responsabilidade. há um numerus clausus – o número de factos é finito. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. é muito mais restrita. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. Se A contrata com B. Está tudo ligado. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. Num ramo típico. os factos são descritos concretamente. Isso justifica-se em ramos agressivos. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. 14 .  Diz que existe numerus clausus. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. em princípio inatingíveis. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. não havendo lacuna. Dá. descrevendo as condutas. O legislador pode dar uma série de exemplos. Contratar-se-ia menos. diz-se. países que admitem a figura. ao atribui direitos subjectivos. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. Todavia. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. Há tipicidade exemplificativa. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. protecção jurídica. pois. Só pode estatuir com recurso a tipos. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. não estão assim tão mal. O terceiro não pode. mas há várias vias para o conseguir. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). proíbe autotutela. Mas esses não se aplicam a terceiros. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. Quando a lei recorre a descrição da realidade. Quando existe uma previsão normativa. Se ele for atingido. como o penal ou o fiscal. as economias britânica e francesa. Se existe uma descrição típica das condutas. Isso em princípio. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida. Noutros casos é mesmo normativa. recorre a tipos – tipicidade. aplicam-se os artigos 798º e ss. um terceiro faz-se passar por credor.  Diz que está proibida a analogia. O Direito objectivo. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. Argumentos a favor. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. Quando existe um devedor. Outros dizem que só o devedor pode incumprir.

O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. 15 . direito a uma coisa corpórea. um direito e um dever. Mas tem regras especiais. tipicidade exemplificativa. Nas obrigações isso não existe. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. um princípio de tipicidade. Os direitos reais têm. Há tipicidades de tipo científico. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. por conjunções históricas. obrigações naturais. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta).Nos contratos há descrição abstracta. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. Autonomizou-se do Direito das obrigações. por via de condicionalismos históricos. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. Há situações de direitos reais que. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece. de facto. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. aqui. tudo é parecido com o Direito das obrigações. O conteúdo distingue-se do objecto. venire contra factum proprio. Mas existem muitas obrigações nessa área. Há. também. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. Há. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. em princípio. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. invariavelmente. O Direito comercial é outro ramo especial. ex. p. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. não há numerus clausus e pode haver lacunas. O mediato é também designado por objecto. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). Isto é o núcleo duro – há desvios. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo.). É muito especial. ao contrário. O conteúdo das obrigações é sempre. O contrato de trabalho é um contrato como os outros. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. etc. Obrigações. Aí. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. o regime tem um desvio.

Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. mas à prestação de um serviço com determinada diligência.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. 16 . É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. tendo em conta as circunstâncias do caso. é um homem médio colocado no caso concreto. por um esforço de análise. São instrumentais em relação a ela. as partes pretendem uma determinada conduta. aquilo que for normal num homem médio. Seguem o regime da prestação principal. Só é exigível que se esforce até esse ponto. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção. Todavia. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). Podemos. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. Ex. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece. noutras pretendem o resultado. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. apenas de fazer tudo ao seu alcance. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra. Foi o critério escolhido pelo legislador. Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. Não se trata de um non facere. A prestação principal é o núcleo da obrigação. Temos de saber o que é exigível. É o critério do bonus paterfamiliae. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado. Por vezes. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. São prestações que complementam a prestação principal. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. Se se comportar abaixo da bitola. Uma prestação inclui necessariamente o esforço. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei. É o homem médio. tem culpa. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta.: o médico não tem obrigação de curar.). De dare. Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). A de dare consiste na entrega de uma coisa.) e a aquiliana (483º e ss. As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. De pati. Não se obrigam a resultados. O devedor está obrigado à diligência média.

Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. A indemnização é uma consequência de segunda linha. Está em causa o princípio da tutela da confiança. a obrigação é uma realidade muito complexa. só depois a indemnização. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível.  Círculo externo.. informação. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. depois a reconstituição natural. nos deveres acessórios são ambos. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. possível. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). A culpa in contrahendo. 17 .O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. Não basta cumprir a obrigação. Substancializam a obrigação. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno. são soluções para problemas novos. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita. Podem ser deveres de lealdade. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. tal como se não cumprir o dever acessório. Os deveres acessórios são imprevisíveis. integração de lacunas. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo. é preciso cumprir de boa fé. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito. etc. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. contratuais e pós-contratuais. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. determinável. O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. segurança. A base legal é o 762/2. Como decorrem da boa fé. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. mas há deveres acessórios pré-contratuais. observando os deveres acessórios. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. O legislador quer primeiro cumprimento. rerum sic stantibus. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente.

nas mistas há vários deveres. Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples). Em princípio. 5. A regra é da fungibilidade. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como).). Se sou obrigado a recorrer a perífrases. 3. mas são regularmente utilizadas no sector. outros não.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço.  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. atípica resulta da autonomia privada. p. ambos). Não é o mesmo que coisa fungível.Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. ex. 4. combinadas quando estejam associadas a direitos reais. Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. Absolutas. 18 .). porteiro. como concessão. A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis. Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos. se consigo exprimir com uma única expressão é simples. Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente. Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei. transferência de propriedade. Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. uns relacionados. 2. trata-se de obrigação complexa. etc. na relativa há.  Obrigação de abstenção (simples.

pelo menos. com dilação temporal juridicamente relevante. Se fosse logo satisfeito. Não se extinguem com o cumprimento. O Prof. mas pessoais. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. em que havia obrigações perpétuas. É um contrato em especial. era instantânea. entre o agente e o principal há relação duradoura. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável).6. forma de cessação de um contrato duradouro. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. Tipos de obrigações 1. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. se tiver poder de representação celebra também os negócios). É necessário. pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. O conteúdo tem de ser sempre. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. As questões sociais vieram pugnar por protecção. A retribuição é a renda ou aluguer. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. E relações perpétuas. Hoje. surge na periferia. para tutela da confiança. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. A denúncia seria um dos esquemas. sob pena de nulidade (280º). um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. 19 . e outras que se cumprem no tempo. O DL 178/86 trata da cessação da agência. ao contrário das obrigações comuns. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. Obrigações duradouras Partimos da prestação. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. Havendo agência. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. também. não obstante. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. determinável. o principal. Há lacuna. um pré-aviso. claro está. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. como reacção ao regime feudal. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. A denúncia. O Direito civil é um direito prático. Implica especialidade quanto à sua cessação. 2.

Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. Se é assim. Chegou-se a este panorama aos poucos.  Congelamento das rendas.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção).  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real. XIX. surgiram fenómenos e problemas de natureza social. mas também não chegou a bom porto.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio. Há subúrbios. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos. XX. por exemplo.No arrendamento domina a autonomia privada. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. Surgem teorias mistas (entre nós. Quanto mais baixa a renda. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. havendo transmissão da coisa arrendada. é figura real o direito de locatário. impedindo actualização das rendas. Se houver inflação. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. O 1743º do CC francês determina que. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas. Chegou-se a um regime vinculístico. A solução de quem chega ao mercado é comprar. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. trânsito caótico. actualizando as rendas. Há bloqueios ideológicos. inícios do séc. Obrigação de deixar usar? Seria negativo. políticos. económicos. Em 2006 houve um projecto. Em 1990 tentou-se de novo. 20 . No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. É um direito real. Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. Em 1985 tentou-se reformar. Logo. maior o lucro do trespasse. porque ele é sempre real). Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. etc. centros das cidades abandonados. com a industrialização e grande pressão urbanística. menor taxa de natalidade. Mas também não explica o que é o gozo. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. Nos finais do séc. as rendas vão degradando. para o futuro). Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. contraindo empréstimos. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário.

Em geral. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. porque não era uma pessoa. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. o que os aproxima dos direitos de crédito. nesta matéria o regime dos direitos reais. na locação. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. Mas mudou de ideias. entre os direitos reais e os de crédito. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). Mas pode ser integrado no Livro II. já que é ela que as explica. é histórica. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. Não tem uma grande relevância prática. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. 21 . No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. em regra. Estabelece que prevalece o direito real. por ser figura próxima do direito de crédito. Essa tese é inaceitável. A pessoa estava obrigada a fazer algo. com recurso aos tribunais). Juridicamente não tinha personalidade. Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. de forma similar aos direitos reais. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. tendo um direito de preferência sobre a coisa. Obrigações naturais É figura muito estudada. Uns são pessoais e outros são reais. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. defender o seu direito face a terceiros. Admitese a existência de direitos de gozo. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). pelo que ele se pode defender sozinho. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. como direitos reais. pois. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. mas sem shuld. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. Comportam-se. Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. Era um débito sem respondência. 3. o locatário pode fazer obras. Seguem. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. O Direito dizia que ele estava obrigado. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). no conflito com outros direitos. Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros.

Não podem ser constituídas por contrato. etc.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. não jurídicas.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. Isso não é verdade. Havia ligação entre o Direito e a moral. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. Ser jurídica é estar prevista como obrigação. Não pode ser exigível judicialmente. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei.  Não exigibilidade judicial do cumprimento. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais.  O 404º. diferente de um Direito moralmente enformado. Se eu pagar. não têm valor patrimonial. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. Aparentemente. Esta matéria está regulada no 402º. porque elas são típicas. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. No período medieval. jurídica. pois. Em tudo o resto.A isso chamaram obrigações naturais. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais.  As obrigações naturais são típicas (809º). Mas isto não pode ser. A obrigação natural deve ser. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. etc. sociais. A lei. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. com base no 404º. A justiça é aquilo que o Direito consagra. não posso pedir devolução do que paguei. a moral é uma coisa e o Direito outra. mas também as obrigações 22 . apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. Noção legal (402º). Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida. Hoje. transformando-as em naturais. diz-se por vezes.. As obrigações naturais. Mas são aqueles os dois momentos cruciais. Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. Todavia. mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente. Tiveram uma evolução muito atormentada. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. É jurídico. aplica-se o regime das obrigações civis. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas.

Não havendo convenção. há obrigação genérica. dando lugar a obrigações genéricas. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. que podem ser de facere. rege o favor debitoris. Na falta de acordo. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. o critério é o da mediania. 4. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. Deve-se escolher a coisa média. As obrigações genéricas são muito importantes. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. dare ou pati. A escolha e o risco O 539º estabelece que. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. Ele é determinável mas não está determinado. No Direito romano eram desconhecidas. Não é o sentido do 400º. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis. quantidade ou qualidade. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. Os contraentes podem estipular diferentemente. O problema que surge é o da determinação do objecto. Logo. com a massificação das transacções.civis podem não ser cumpridas. podendo ser qualquer litro de azeite. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. o critério deve ser o da mediania. 23 . Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. Desde que a coisa a entregar não seja única. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. se nada for estipulado. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. há uma lacuna negocial. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. é fungível. Só se determina o género. escolhe o devedor. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

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7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

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Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. de modo a assegurar o cumprimento. Aumenta a garantia do credor. É só uma. Em resumo. na falta de estipulação em contrário. Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. Presume-se que as partes de cada um são iguais. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal. há outras que só o são se as partes acordarem. Existe uma presunção de igualdade das quotas. O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. No Direito comercial. porque também temos de tratar das relações internas. Os vários sujeitos têm relações entre si. quando há vários sujeitos numa obrigação. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. mas complexa. Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. a regra supletiva é a da solidariedade. por exemplo). 27 . Quando vão cumprir. Rege o 512º . O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. O credor só pode exigir de cada um essa parte. um concerto de orquestra. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo.noção. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. seja porque o regime é unitário. a lei estabelece solidariedade. isso não multiplica a obrigação. Na prática. Nestes casos. Há obrigações que são à partida divisíveis. Ao contrário da parciariedade. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. que é sempre singular). todos têm de prestar ao mesmo tempo. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. MENEZES CORDEIRO defende que. os credores). para proteger o lesado. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. seja porque existe expressão linguística unitária. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. É um regime mais duro para o devedor.

significa que há alguma coisa a mais. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. ter duplo aproveitamento. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores. ex. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. tal como os direitos reais. Precisa de um facto jurídico para nascer. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. uma classificação das fontes. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. um A. o do devedor e o do fiador. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. ex. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento. ex. Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. tem regime diferente. p. é natural que existam meios de defesa dos devedores. No período da pré-codificação francesa. acrescentou a lei. aqui. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. Normalmente. Eram fontes que. Também existe. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. Uma prestação pode. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. não sendo nem uma nem outra. É uma bipartição importante. um credor e um credor pignoratício. há “gato”. Surgiu o esforço de sistematização. O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. só dele (não os meios pessoais de outro). pessoal seria a prescrição. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais.). à estatuição de uma norma. quando alguém contrata a solidariedade. presunção de igualdade (516º). já que o fraccionamento é feito posteriormente. p. se não houver outro acordo. Mas é uma pluralidade heterogénea. 28 . Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. Na solidariedade há co-devedores.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. São duas fontes fundamentais de obrigações. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. p. A lei poderia ser fonte de obrigações.

O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). desde logo. a gestão de negócios. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. Com o CC de 1966 também não existe classificação. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. mas enumeração. ex. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. o negócio unilateral. a melhor técnica é a tipológica. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. Já nos sécs. O que se deve. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. É difícil unificar. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. todavia. o enriquecimento sem causa. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. Em termos estatísticos. p. referência à tetrapartição. O direito privado tem 2000 anos. a partir do 405º. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica. 29 . em vez de adoptar a repartição tradicional. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. Há um encadeamento. que é comum a todos os direitos europeus. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. Mas ele é mesmo muito reduzido. no tempo e no espaço.). Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. Faz-se. O Código de Seabra faia um elenco original. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. como se usou em 1867 e 1966. nuns e noutros a mesma coisa. de se autodeterminarem. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. enquanto a lei é norma heterónoma. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. As divisões não significam. Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. enumera-se o contrato. então. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. apesar de não haver classificação qua tale. Enumera algumas fontes. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico.

O contrato. 30 . O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. É importante considerar o canonismo. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. O CCP trata da matéria. Assim. Passava a ser vinculativo por isso. mas existe pacto sucessório. se a sociedade é subdesenvolvida. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. mas se lemos artigos sobre negócios. o próprio contrato perde espaço. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). nas Obrigações é o contrato. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. O contrato valia por si. Dinis. tem menos aplicação. está em crise. O contrato tem um papel muito alargado. para o Prof. vai na direcção do contrato. Menezes Cordeiro. Daria frutos no período jusnaturalista. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. a bona fides perderá o seu significado. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. É o sistema de tipo francês. já o negócio obtém-se pela razão. Os romanos conheciam figuras equivalentes. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. com SAVIGNY. É necessário que haja propriedade. É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. No Direito sucessório é mais raro. Mais tarde.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. surgindo os contratos que hoje são básicos. o contrato está sempre subjacente. Dá-se uma grande explosão. igualmente. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). diz-se muitas vezes. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. manifestação da importância do contrato. No Direito da Família também: contrato de casamento. de acordo com a escola histórica e a pandectística. É um diploma bem feito. Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. em lei de Maio de 1352. D. consensual – basta haver contrato. O socialismo ataca o contrato.

O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. diminuindo a liberdade contratual (banca. Com a queda do Muro.No séc. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. necessidade de consagrar na CRP. racionalidade. O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos. Mas isso não aconteceu. É óbvia. não relevaria: eles devem ser cumpridos. no artigo 8º/2. à partida. etc. pelo menos para coisas úteis. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força. plurais. Tecnicamente.). Todavia. mas de certos contratos. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna. A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. Tutela constitucional do contrato A CRP. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. pecuniários. seguros.  Intervenção judicial nos contratos. incluindo direitos de créditos). 31 .  Áreas reguladas. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. pois. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. O contrato tem peso em si. valores mobiliários. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. É uma visão pessimista. Se a lei não dissesse nada. O contrato é um véu que tapa os olhos. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico. como o da boa fé. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. O 56º/3 garante a contratação colectiva. não se trata de um recuo do contrato.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação. O contrato é. Não houve.). Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. etc. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. os observadores previram explosão dos contratos. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. porque não foi necessário. Graças às convenções internacionais.

Os contratos típicos são tratados ao longo da história. em princípio também não o regula. bem como diminui as dúvidas. Todos os negócios são contratos bilaterais. 3. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. o contrato é bilateral. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. 32 . sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). consideradas mais sensíveis. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. nominados e inominados. Consensuais. Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. Quando a lei não lhe dá um nome. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. 2. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. Terceiro. vindo a aperfeiçoar-se. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. no entanto. mas a lei não o disciplinou. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. não dá para classificar em abstracto. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. Segundo. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. É distinção relativa. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. O contrato de hospedagem. fica fragilizada.1. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. reais quoad constitutionem e quoad effectum. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. por vezes. Fala-se. maior equilíbrio. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. 5. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. regulando com especialidade. é nominado mas atípico. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. Pode haver tipo social e tipo legal. Perante o conceito de negócio jurídico.

No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. É diferente da vinculatividade. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. tendo em conta o relevo de que se revestem. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. Fica com o direito potestativo de. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. A generalidade das normas é supletiva. Os gratuitos são. a parte geral é muito restrita. uma vez que domina a autonomia privada. À luz do 405º. É sinalagmático. Nos monovinculantes há duas partes. Há 16 contratos regulados no Código Civil. Tendo em conta este facto. podemos distinguir entre negócios típicos. O problema é que. as partes têm liberdade de celebrar livremente. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. querendo. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. em regra. 7. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). Em regra. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. pois. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. passa entre as gotas da chuva. Embora o 405º seja muito abrangente. reciprocidade. se as partes celebram contratos mistos. hoje. A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. As partes querem dar. no entanto. O problema é que. solicitar ao outro a efectuação da prestação. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. uma delas não fica obrigada. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. 33 . atípicos e mistos Os negócios jurídicos. 6. Tipologias de contratos Contratos típicos. O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. Há. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. O estudo desta matéria não é fácil.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes.

que absorverá os outros. embora tenha havido preço. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante. mas como tendo a casa como refém. Em troca do preço recebe um quarto (locação). Não tem salário. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. Não pode ser um mero pormenor. próprias de vários contratos.: A recebe habitação. aplicando todos. não havendo uma principal. 2. A tem dívida para com B. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. não para que se porte como proprietário. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. B tem de guardar a casa enquanto A não paga. Há mistura. comida. Ex. etc. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. entretenimento. 34 . esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. em troca de explicações. mas recebe em géneros. devolve-lha.: A comprou 15 dias num cruzeiro. os serviços de limpeza. cama. Complementados – aqueles em que existe um tipo base. Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. comida. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção). 3. Ex. A autonomia privada é o pano de fundo. Os combinados distinguem-se dos complementados. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto.: A arrenda um quarto a B. Isto só resulta se houver confiança. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa. que lava também a roupa de cama. quando acabar. o negócio aproxima-se da gratuitidade. o locador. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. O resto é extra. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos. Ex. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). Ex. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. na prática. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento.: A compra por preço muito baixo. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. 4.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1.

a solução também foi a da analogia. aplica-se o regime do tipo x. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. ex. O que é específico é a marca. para que os distribua. Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. mas o contrato é usado para uma função diferente. A seguir temos de resolver com analogia. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. aplica-se essa solução. mas os serviços que o centro proporciona. a quem entrega os bens. Aqui. tal como o da vontade das partes. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. é também acompanhado de distribuição. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. Se ele corresponder ao tipo x. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. sem intenção de enganar). Há semelhança entre a agência e a concessão.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. É contrato de agência que foi encontrado. a primeira solução é a da vontade das partes. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. é esse que se aplica. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). A solução foi a da analogia. o combinado e o híbrido. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. Quando há lacuna contratual. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. aplicam-se as regras desse tipo. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. e também com a agência. é uma área vinculística. por analogia. acabavam os centros comerciais. Regra geral. o arrendamento tem muitas normas imperativas. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. a outra também. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. se na lei houver solução. Mas isso é raro. Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. bem como sinergia do ponto de vista económico. segurança.2. Quando nada se diz. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. então celebra-se o y). O promotor é remunerado através da renda. no entanto. 35 . Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. P. gestão do centro. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. Mas não é normal. O método foi o da analogia. Pode haver várias funções: simulação. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. publicidade. Recorre-se ao regime da agência. 4. nomeia concessionários. Em Portugal. No caso do porteiro isso é evidente. Hoje. Pode. 3. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). O limite é o das normas imperativas. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. Se não for suficiente.

O fiduciário é proprietário. São óbices consideráveis. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. 36 . era o proprietário da coisa. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. aplica-se o regime correspondente. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. o fiduciário. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. No Direito português.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). Se for à falência. em benefício de quem a entregava. mas para o de terceiro. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. interna e alternada. O fiduciário é de execução prolongada. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia. ao contrário do alemão. Descobrindo-o. Se ela tem natureza real. Ele é permitido se não violar regras imperativas. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. Procura-se o centro de gravidade. teremos uma figura real não prevista na lei. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. porque doações de bens futuros não são permitidas. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. Mas. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. a fidúcia é muito violenta para o devedor. M. Quem recebia a coisa com fidutia. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. Mas o Prof. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. já que o Direito existe para proteger os fracos. O fiduciante é só entre outros. na contratação alternada valia ou um ou o outro. não permite divisão da coisa entregue.

causais. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. Segundo o Código de 1867. O contrato prometido e o contrato definitivo. 830º. 442º. No Direito português tem grande importância. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. Mas nunca é irrelevante. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. rege nos contratos mistos. sendo diferente o regime. tem eficácia real. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. 37 . de tipo não processual. a promessa valia apenas como prestação de facto. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. execução específica). Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). Hodiernamente. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. Um contrato remete para certas cláusulas de outro.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). A celebração de uma escritura pública demora tempo. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. para o sinal.. há centros de gravidade múltiplos. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. Há muita jurisprudência sobre isto. É uma ideia relativamente recente. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. A figura da absorção. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). homogéneos e heterogéneos. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. de tipo processual. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. devia ser celebrado por escrito. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. A promessa por escrito era válida na hora. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. por exemplo. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. sem recorrer à escritura pública. dependentes e independentes. Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. Importou do BGB a execução específica.

Como no Direito alemão. é possível a execução específica no caso de incumprimento. É a função preparatória. É um formato. tendo isso em conta. O contrato-promessa distingue-se da proposta. Por vezes. os contratos são dotados de prometibilidade forte. Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. um modus vivendi. mitigada. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. sobre a entrega. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. 1. transacção meramente obrigacional.. Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. É usado. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa. um modo geral de celebrar outros contratos. 2. Regra geral. Há contratos que. regulativa autónoma. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. financiamento. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”. P. 38 . Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. Função preliminar. para preparar o contrato definitivo. Meramente obrigacional. do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. ex. 5. por vezes. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. etc. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). do convite a contratar (A solicita a B que contrate). Quanto à prometibilidade fraca. do contrato preparatório material. na promessa sabe-se). desformalização. Desformalização. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. 3. do exercício de preferência. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido.As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. não podem ser objecto de promessa. acabamento da coisa. do dever legal de contratar. Regulativa autónoma. uma vez prometido. Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. 4. p. na promessa tem de haver negociação).). ex. Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. Mitigada ou mitigadora. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo).

até é possível haver excepções ao que se disse. 39 . pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado.. É um contrato à parte. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. etc. à partida. O problema é que. do 1591º e SS. tendo em conta o regime. imperativo. Isso não é correcto. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada.) que conduz à possibilidade de revogação. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. e o outro não cumprir.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. o que está em causa não é a regulação de um contrato. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. diferente do regime do contrato-promessa. Mas. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa. proximidade. O nome é parecido. Não se trata de um contrato-promessa. etc. mas que tinha um regime especial. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. No contrato-promessa. a proposta ainda não foi feita.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). Não há contrato-promessa de doação. Pode fazê-lo. Não vincula o promitente a doar. Com o não cumprimento. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. É verdade que existe um regime jurídico. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. estão nos antípodas. como executo? Os clássicos diziam que não era possível. às consequências pela ingratidão. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. mas a situação subjacente é diferente. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. se não houve entrega da coisa. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º. a obrigar a algo que poderia revogar. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. também não há uma regra expressa que o diga. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. mas ineficaz quanto às prestações principais. Isso não vem na lei. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa.

Hoje em dia. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. Não haveria problema de prova nem dúvidas. é a solução. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. é preciso o acordo de ambas). O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. Mas isso é errado. Na prática. 40 . o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. para ser quantos se obrigam. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. não se precisa é de assinar. A questão das assinaturas é meramente formal. Assim. aplica-se a regra geral. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. Se o documento é a materialização do acordo. Estipulações acessórias são válidas. não se entende porque só um assina. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. Se para o prometido for necessário documento. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. Se for livre também o contrato-promessa é livre. outros a conversão. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. nos termos do 293º. em regra o promitente alienante. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. ainda que não tenham as duas assinaturas. o regime é o do 219º liberdade de forma. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. Para o prof. tendo enorme relevância. Uns defendem a redução. autêntico ou particular. A conversão. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. MENEZES CORDEIRO em princípio. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. O 410º/2 regula a forma. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. Na normalidade dos casos. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. Por isso.

que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. p.Mas não é fundamentalista. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. Pode ser paralisada através do abuso de direito. Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). MC sugere a ideia de modus contrahendo. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. o regime é o da reforma de 1986. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. de invalidade mista. Havendo contrato-promessa. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. se nada disserem. também. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. ex. ficando com um contrato-promessa monovinculante. concretização e boa fé. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. havendo grandes atropelos ao direito. integralidade. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. com excepção das relativas à forma e as disposições que. Nestes casos. Surgiu na década de 1980. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. Obedece a normas: os princípios da correspondência. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. Este princípio. por sua razão de ser. Há. A parte geral também tem regras. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. Admite que. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. este deve adquiri-la. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. Trata-se. a se. no 3. Neste momento. em certos casos. Se a promessa for monovinculante. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. possa reduzir-se o negócio. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. 41 .

etc. alterando as palavras. uma via crucis. lugar. 42 . mantendo-se o contrato-promessa. Se houver situação de mora. Pode haver recusa antecipada a cumprir. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º). Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. Isto é uma trapalhada. se não for cumprido. o faltoso é o que não cumpre. inclui-se a coisa no cumprimento. À partida. o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. que resolvem inovar. não foi. se for cumprido. há inadimplemento. O promitente fiel é o que é prejudicado.). a lei prevê a interpelação admonitória. violação de deveres acessórios. Pode haver uma impossibilidade superveniente. Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss. Pode acontecer que seja lacunar. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé. O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes. imputação.). O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. aplica-se o 280º. O incumprimento extingue a prestação principal. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação. pode haver resolução. O definitivo está previsto no contrato-promessa. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. violação positiva do contrato.. Se isto não for possível. Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). MC entende que isso não pode ficar assim. O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. se o contrato-promessa permitir. O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo. Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. Ou há mora. etc. local. prazo. devolve-se em dobro. Se não houver. impossibilidade superveniente. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). se forem válidas e eficazes. Legitimidade. Muitas vezes há AA. Incumprimento há quando. O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo.

A ideia era: como a inflação é muito alta. A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. a indemnização já não é o sinal em dobro. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. vender a coisa e recolher o preço.  Quando há tradição da coisa prometida. na fase executiva. Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. se houve incumprimento.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. O Governo resolveu intervir.No Direito grego antigo. mexeu no regime do sinal. faziam-se casas. com a inflação. no entanto. 30%. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). Em 1980 havia grande inflação. o sinal tinha alcance coercivo. A jurisprudência. Assim. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. O retentor pode. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980). Assim. os sinais deixavam de valer tanto. que chegava aos 20. Tem um direito de liquidação judicial. começou a resolver o problema diferentemente. penal. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. 43 . No Direito romano tinha um sentido confirmatório. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. celebrando-se contratos-promessas. O imobiliário estava sempre a subir. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. O que estava em causa eram casas de habitação. Enganou-se e mexeu em tudo. Afastouse a possibilidade de execução específica. O problema viria a ser resolvido em 1986. Quando metido no contrato-promessa. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados. ajudava a provar a existência do contrato. Tornava-se compensador não cumprir. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. mas o valor actual da coisa. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. recebiam-se sinais. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. Houve várias propostas para resolver a situação. o sinal ganha coloração particular. Quando mexeu no 442º.

pela interpretação). exige mais garantias. Tentou-se. Lobo Xavier. não há logo incumprimento definitivo. Além disso. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. É uma “excepção de cumprimento”. mesmo que anteriormente registada. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. Tendo havido mora. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. perderam a objectividade. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. Assim.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. Vários AA. ficou consagrada a indemnização pelo valo. Tentou-se limar algumas arestas. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. É um esquema complicado. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. Se houver morar. Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. congelando o direito ao valor da coisa. Todavia. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. 44 . a indemnização seria o valor actualizado da coisa. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. Se houver sinal. Assim. ele é deduzido do preço. Em 1986 o legislador interveio novamente. a favor do promitente adquirente traditário. O Prof. introduzir correcções. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. O hipotecário ver-se-ia preterido. não sendo necessária a interpelação admonitória. a primeira consequência é entrar em mora (805º). Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. ainda assim. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. com a solução do Prof. Se houver mora. Houve excessos legislativos. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. é mais selectivo. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. fixa-se um novo prazo. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. doutrinariamente.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis.

destrói o contrato retroactivamente. A menos que. tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. No Direito funciona-se com prazos. O Prof. deve ser tomado seriamente. Se for possuidor tem defesas possessórias. a troco da entrega da casa. Neste momento. não há posse. Pode ser uma gentileza mais demorada. A resolução. O que é que as partes pretenderam? 1. O sinal visa uma função compensatória. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. Se for um representante. O contrato-promessa já é um contrato misto. Se resolve o contrato por incumprimento. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. Alguns autores dizem que. É um contrato que dá direitos muito precários. o que deve fazer é resolver o contrato. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. Um contrato de comodato. 3. É celebrado contrato-promessa. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. operando o sinal. A distinção é importante. quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. desaparece também o sinal. Assim. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. quando haja incumprimento. bem entendido. 2.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. Tradição da coisa Tecnicamente. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). É posse semelhante à do arrendatário. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. se há sinal. no entanto. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. porque tem uma cláusula daquelas. 45 . Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. É verdade. Se é esse o sentido da cláusula. É uma posse muito elementar.

é muito difícil determinar a indemnização. Quando se trata de acções humanas. Em 1980 o regime foi alterado. já vinha de trás. Passa até à frente do credor pignoratício. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). houver sinal. Aqui temos posse em termos de propriedade. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. seria impossível apresentar-se a cumprir. soluções alternativas à indemnização. Mas isso já estava subentendido. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. Já está tudo pago. Estamos perante um facto. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. para além da tradição. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). Se de facto houve perda do interesse. Se houve. Assim. Foi uma ideia prussiana. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. também. houve incumprimento.4. por maioria de razão também há sinal comum. Contudo. Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. A solução mais normal é a execução específica. colocando no terreno. Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. mas não especificou. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. Consoante o tipo de posse. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. 46 . O interessado pode ainda optar pela execução específica. Se há excepção do cumprimento. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. através dos seus meios. pelo que há entrega da coisa. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. muda o regime. A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. Leva ao mesmo. Assim. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. Se tivesse havido incumprimento definitivo. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). dir-se-á que não podemos obrigar. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966.

as custas ficaram por sua conta. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. Nos outros a questão não se colocava. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. mas vende a C. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. Haverá consequências indemnizatórias. já que a prestação se tornou impossível. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. Perante o incumprimento. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. O tribunal não emite. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei.Houve soluções doutrinárias. no momento em que é decretada a execução específica. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3.  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. a declaração faltosa. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. Simplesmente. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. 47 . Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. Conquanto que o conteúdo seja determinável. Simplesmente. ex. Mas nem sempre. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. verdadeiramente. Não valerá a pena recorrer à execução. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos. é muito difícil calcular a indemnização. Os riscos são compensados pela presença do tribunal. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo. Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. contudo.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. Contudo. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. em 1980 o legislador foi desastrado. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. O Prof. A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. p. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. Aí.

sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. in fine). não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). Todavia. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. ex. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. Não faria sentido a execução de um contrato que. por sua natureza. comodato). O comodato pode cessar a qualquer altura. Já no penhor ou no mútuo faz sentido. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. No caso do contrato de trabalho. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. Mas a lei admite mandato irrevogável. E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. Aí já faz sentido. Contudo. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. p. Tem de haver ponderação de interesses. tão pouco. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. já não é de todo possível a execução. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. se verifique uma alteração das circunstâncias. Se houver situação de inexistência. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. Quando seja celebrado um contrato-promessa. demissão). pode acontecer que. Mas aí não cabe execução específica. depois. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. Mas. Contudo. não se iria muito longe (despedimento. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. mesmo que houvesse. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. Igualmente. Quando nem sequer há prometibilidade (doação. poderia ser revogado. MC entende que sim. o 830/1 admite a possibilidade. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora.) também não pode haver execução.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. Nessa altura. A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. 48 . Não pode haver execução de contrato que não existe.  A exclusão convencional.

Depósito do preço A sentença é translativa. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. vendendo a terceiro. Assim.  Há execução específica. Vaz Serra. Se não for cumprido. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. Deixou de se exigir a escritura. registo da promessa. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. convenção expressa de atribuição de eficácia real. qual a solução? Normalmente. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. A outra parte pode não ter sido paga. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. a lei alemã permite um pré-registo. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. Se o preço não for pago há injustiça. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. não é norma de excepção. outros recusam essa solução. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. Ora. execução específica. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo. ficando privada do preço. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. alguns entendem que cabe execução específica. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. Através da eficácia real conseguir-se-ia. O que está em causa é que o dever seja cumprido. escritura pública. que a foi buscar ao Direito alemão.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. Promove logo a transmissão da propriedade. pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. reforçando-se o registo. mas contra o terceiro (Dias Marques). Não há promessa com eficácia real se não houver registo. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. O Prof. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. 49 . há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra.

Nos extremos. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. na promessa. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. ainda que devido e pré-regulamentado. tão-pouco é declarativa. a celebração das promessas. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. como contrato autónoma. uma vez que dela nada sai de preexistente. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. em definitivo. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. no entanto. delimitando. tão-só. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. com o contrato definitivo. Ao celebrar o contrato-promessa. Justamente por. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. a contratar. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. pelo menos em parte. por vezes. Mau grado a primazia reguladora da promessa. em função dele. um acto de execução do que já estaria combinado. A primeira opção explicativa leva. De seguida. no fundo. as partes regularem. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. continua a ser um verdadeiro contrato.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. de facto. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. o que esteja em causa. a execução específica não é puramente executiva. o contrato definitivo não perde em categoria. à negação da própria promessa. as partes obrigam-se. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. levar ao apagamento do definitivo. uma vez concluída. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. apenas. 50 . em relação ao definitivo. A lei proíbe.

pelo preço em causa. o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável. desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). antes. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). As preferências no sistema jurídico No Código Civil. Da mesma forma. A favor do senhorio (1112º/4). O direito de preferência. De resto. 1380º e 1381º). as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato. A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). ao preferente.O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. A favor do comproprietário (1409º e 1410º). O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. 1519º e 1523º). nesse sentido. Por exemplo: o obrigado. caso este queira. um dia. O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. quando convencionalmente estabelecido. que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. caso queira vender um prédio a alguém. A favor da pessoa designada em testamento (2235º).  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. A favor do co-herdeiro (2130º). ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente). com o qual o negócio fora ajustado. A favor do fundeiro (1535º). por χ. Em regra. 51 . o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. deve vendê-lo. pelo artigo 1535º (1901º). em Direito. perdendo a plena disposição do seu bem. tem. essencialmente. Diz-se. enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência.

 A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). sejam. ora reais. a real. a preferência legal advém da lei. ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. Modalidades. uma vez que a outra emite logo a declaração final. quando violada. relativo à acção da preferência. a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização. ainda e por elas. 52 . Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. permite ao preferente exigir. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência.  A opção – figura inominada e atípica. tem cabimento recorrer à acção de preferência.  A preferência obrigacional. ao obrigado faltoso. consoante a opção das partes e isso desde que. observadas determinadas formalidades. não podendo o preferente fazer seu o negócio. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau. nesta última hipótese. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. através de uma acção de preferência (1410º/1). Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. violado o pacto. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. uma indemnização. Na primeira. apenas uma das partes fica obrigada. As preferências convencionais são ora obrigacionais. todavia. a um direito real de aquisição. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. ao preferente. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais. nos termos do 414º. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. a preferência real confere. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real. na opinião dominante. Na segunda.

o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. desencadeando o funcionamento do pacto. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. quando o contrato preferível exija documento. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. próprio do contrato-promessa. Todavia. por definição. O modus praelationis. Com uma prevenção: numa situação de preferência.  Porém. ao pacto de preferência. pretenda contratar com o obrigado à preferência. de onde promanam deveres para ambas as partes. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. se o pacto for bivinculante (bilateral). por ele. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. Bastaria a assinatura deste. ao pacto de preferência. como cláusula num pacto mais vasto. o artigo 410º/2. deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. do princípio da equiparação.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. das regras aplicáveis à capacidade. perante o Direito vigente. podendo. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. a menos que ambas as partes se vinculem. como a de fazer a competente comunicação. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas.Forma O artigo 415º manda aplicar. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. E sendo este o caso. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. deve-se lidar com os deveres acessórios. em regra. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). de liberdade de forma. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. Num pacto de preferência comum. eventualmente. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. a essa luz. mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. daí resulta a aplicação. Tendo conhecimento do pacto de preferência. recebem os deveres. o terceiro deve-se abster de contratar. é afectado de algum modo. os ónus e os encargos envolvidos. Propõe-se a aplicação. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. à preferência. por parte de um terceiro. quer autêntico quer particular. Pergunta-se se o terceiro que. próprias do contrato preferível. de acordo com as regras gerais (219º). Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. 53 .

 Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. o terceiro ficará com o negócio. a comunicação para preferência deve ser feita a todos. por lei expressa. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente. por opção do beneficiário. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que. pelo menos. perfila-se o contrato definitivo. exige-se forma escrita. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. É o que dispõe o artigo 416º/1. já que o terceiro não celebraria tal contrato. modificações ou reticencias. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal. esta deve ser feita ao preferente. o contrato. A não se verificarem tais requisitos. Havendo vários preferentes. com poderes bastantes.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. uma de duas:  Ou o preferente prefere. ficando o contrato por celebrar.  Ou renuncia à preferência. deixando o negócio para o terceiro que. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. ao seu direito. A resposta do preferente. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir. se vem mesmo a concluir na esfera deste. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. na mesma linha. o represente. e estará enganado. Finalmente. A “aceitação” da comunicação para preferência. Havendo aceitação da comunicação de preferência. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. a renúncia. quer particular. se não o fizer.  Ou o preferente rejeita.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. quer autêntico. na presença de um projecto de contrato firme e sério. declarando que não está interessado. Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. com base nela. envolve. pelo menos. 54 . A comunicação não está sujeito. isto é. por aplicação do 410º/2. convicto de que. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. de pleno direito.Na posse dessa proposta. não o quer. por parte do preferente. afinal. com alterações. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou.

55 . Observar-se-á. quando se reporte a uma universalidade. A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa. o que terá que provar. ou não. dependendo das circunstâncias.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. nenhum princípio de especialidade. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. o contrato será seguramente único. apontam. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. recebida a comunicação. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva.  Não sendo avaliável em dinheiro. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. podem umas e outros ser desagregados. Existem três possibilidades básicas. no nosso Direito da compra e venda. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. Não o sendo. Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. não o sendo. ou não. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. De todo o modo. Prestação acessória. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. 1ª parte). divisível?  E não sendo divisível. sem prejuízo para o interessado. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. As valorações subjacentes ao artigo 417º. então.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras. o preferente desiste ou prefere em conjunto. pode. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto. é excluída da preferência.

afastando. em termos de aquisição. em caso de violação de uma preferência real. abre-se licitação. 56 . a todos os preferentes. os restantes: não havendo processo de escolha. A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). ao preço e à identidade do requerente. sem seguir o procedimento da preferência. É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. 1ª parte). a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. seguramente.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. moldadas sobre a relação obrigacional de preferência.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes. com o preferente. Segundo o artigo 1410º/1. Verificados os pressupostos. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. sempre. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. esta última: trata-se de um facere jurídico. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. desde que este as acompanhe. com isso. feito no artigo 410º/2.  Concluir o contrato em causa. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). Havendo eficácia real. A acção de preferência permite ao preferente. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele. nas condições fixadas. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles. Em termos de comunicação: ela deve ser feita. a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. A prestação principal é. fazer seu o negócio faltoso.

provocar o aparecimento do contrato definitivo. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo. que exigirá. por uma simples manifestação da sua vontade. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa. perante o concreto contrato definitivo em causa. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. passando a integrar o definitivo. ora. todavia. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). ao tribunal. execução e incumprimento No que toca ao optante. na opção. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. da posição de contratante e do valor que ela representa. esta não depende da intervenção da parte vinculada. a celebração. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”. Aplicam-se aqui. directamente ou por analogia. por analogia. dá azo ao contrato definitivo. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. Logo. 57 . o artigo 411º: o vinculado pede. na conclusão.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. excepto no que tanja ao cumprimento deste. por mera declaração unilateral. só será válida e eficaz se. na opção basta a declaração do beneficiário. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo.  Quanto à execução. por ambas as partes.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. Haverá que aplicar. que fixe um prazo razoável para o seu exercício. Direito e deveres. do definitivo. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. A opção. o qual. na execução. só deverá ter lugar se uma das partes quiser. aqui. declarações de ambas as partes. um verdadeiro contrato-promessa. o titular ou o optante) recebe o direito de. tendentes à conformação do contrato definitivo. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. ele recebe o direito potestativo de.  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. a opção cessa. no cumprimento. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante.

O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. Actuada a opção. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa.todavia. a cargo. directamente. no memento escolhido. designadamente para a parte optante. O risco desaparece. surge o contrato definitivo. No plano do seu conteúdo. O obrigado. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. Assim. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção. por analogia. O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. as partes congelam as condições da venda. por via dos artigo 295º e 221º/2. Ambas as partes ficam . 58 . no mercado. com relevo para o pagamento do preço da opção. do optante e do adstrito. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. o artigo 272º: na pendência da opção. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. Ainda o mesmo optante pode colocar. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário.O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. pode facturar o premio da opção. a sua opção. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). uma das partes (o promitente) assume. que exercerá o seu direito se o entender. por seu turno. a qual adquire um direito à prestação. respectivamente. quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). Funções. dando-a em garantia ou alienando-a. entre outros aspectos. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. perante a outra (promissário). Como princípio geral. natureza e aplicações Celebrando uma opção. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. o qual deve ser cumprido. partes no contrato. há que lhe aplicar. o artigo 762º/2 e. do definitivo. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto.

do promitente. O terceiro adquire o direito à prestação. A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. ao promitente. se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). devam ser trocadas entre os mesmos. 1ª parte). pelo contrato a seu favor.  A de exigir. a contrario e 448º/1. o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. do promitente. A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. lhe possam advir da relação básica (405º). a efectivação da promessa ao terceiro. imediatamente. 59 . perante o terceiro. contratos como o casamento ou a doação.A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte.  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. Tal permite excluir. As prestações que. a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1). O regime concreto de tais prestações.  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem. quando esse seja o conteúdo da promessa. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal. o direito à prestação: independentemente da aceitação. as prestações ou outras vantagens que. nessa altura. A posição do terceiro O terceiro adquire. por exigência deste e do promissário. deste cerne. de forma geral.  A de exigir. a prestação principal O promitente tem. especificamente. porventura. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. fundamentalmente. porventura. pelo contrário. a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). A posição do promitente. independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir.

através da regra da boa fé (762º/2). não tem. a contrario e fortiori). Esta apenas consolida um contrato que. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. quando se desempenhe perante o terceiro. desconhece os precisos termos envolvidos. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. nada fazer. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. 60 . no limite. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. ao abrigo das regras gerais (217º). de lealdade e de informação.Perante um contrato a favor de terceiro.  O terceiro. logo. Pode-se. a fiscalização da contraparte. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. Num primeiro tempo. Desde modo. pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou. falsificar a conduta a que se encontra adstrito. pode ser menos diligente ou até. por não ser o destinatário da prestação acordada. O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. sobre si. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. Na linguagem desde subsector. por não ter sido celebrado com o terceiro é.  Torna a promessa firme (446º/1. antes dela. porém. admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. a contrario). instável. antes de ter ocorrido a sua nomeação. pode desinteressar-se dela ou.  O promissário. Eligendus: o terceiro. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1. Electio ou electio amici: a escolha. ainda. não sendo parte do contrato. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. de adesão. Amicus: o terceiro.

Concluído o contrato para pessoa a nomear. tal como sucede com a ratificação (262º/2). eficácia retroactiva. As fontes paracontratuais Ao longo da História. seja em termos técnicos. ao outro contraente. quando superior (454º/2). seja em moldes sócio culturais. foram surgindo figuras que. Feita regularmente e comunicada a designação. Embora a lei não o diga. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. o negócio consolida-se na esfera do stipulans. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). altura em que o contrato ficará sem efeito. num todo coerente. Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. 61 . a cláusula “pessoa a nomear”. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. dele se aproximavam. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira). em princípio. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta.  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. concordância do amicus e electio. no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios. a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. produz efeitos em relação ao contraente originário. Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa. pois. O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. do próprio contrato que a contenha.Regime. Ele implica. Como tratá-las? Com o tempo. não reunindo as características perfeitas do contrato. A electio tem. Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato.

a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos. derivada do facto simples de um contacto social. na sua origem. através de meros comportamentos materiais. Surgindo. pelo menos. tivesse ocorrido qualquer contrato. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). seja na formação. isolam-se:  As relações contratuais de facto. ser reconduzidas ao contrato mas que. uma parte razoável do seu regime.  Os contratos com protecção de terceiros. esta relação fundir-se-ia nele. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas. Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social. sem integrar previsões contratuais.  Situações de relações jurídicas complexas.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. para certos fins.  Inserção em organizações comunitárias. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. o contrato. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. seja nos preliminares. Sublinha-se que. Relações paracontratuais em especial 1.  Situações de proximidade contratual. execução de relações duradouras. muitas vezes. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais. postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. depois. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que.  As relações contratuais sem contrato. em termos rigorosos. com ele. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique. de lealdade e de informação. no espaço jurídico. no tráfego moderno de massas. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. 62 . chega-se. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual.

para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. tenha uma proximidade visível. ainda que insubsistente. Há impossibilidade inicial da prestação. que veicula os valores fundamentais do sistema. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. que se reporta aos bens postos em jogo. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. Em termos analíticos. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. Em termos gerais. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé. 3. 63 . O contrato é anulado. Também está claro e assente que. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. O contrato é resolvido. Havendo proximidade. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. nas protecções dispensadas. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. 2. por qualquer razão. no contrato considerado. A “fonte”. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. no caso de violação. revogado ou denunciado. independentemente de qualquer especial vontade. nele. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. Com as devidas adaptações. ainda. O círculo interior. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. o Direito manda proteger. promane deveres acessórios (de segurança. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. em face de um contrato:  Alguém que. Surge uma impossibilidade superveniente. por estar vulnerabilizada. e existe. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. igualmente. perante a prestação principal e em face do credor. o círculo interior. pelas partes. para terceiros. não seja parte. mercê dos contratos preliminares. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. De novo há um círculo exterior.

o inerente instituto. uma regra de tipicidade. nesse sentido nuclear. com ligeireza. dando origem.  A proibição de. O negócio unilateral implica que alguém. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se. obrigações que (só) irão pensar depois. que explique os deveres resultantes. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes. a responsabilidade obrigacional.  Os perigos da adstrição ad nutum. de lealdade e de informação. Mas têm moldagem contratual. aparentemente. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. quando violados. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. ser globalmente denominado culpa post factum finitum.  Um numerus clausus de realidades relevantes. ad nutum. aqui. São os deveres pós-eficazes. para as partes. operando o contrato. tais deveres não têm origem contratual. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. De facto. no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro.Tecnicamente. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. Antes de fundam na lei. por sua livre e exclusiva vontade. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. O artigo 457º proclama. Em rigor. cessado o contrato. as normas típicas. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. de obrigações futuras. aplicar. 4. 5. mas noutros locais. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. podendo. fique adstrito a realizar uma prestação. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. “negócio” engloba. perante eles. o proprio acto unilateral (457º-463º). fora de série. o que (ainda) não têm e subscreverem. como um simples facto stricto sensu. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. No que se lhe reporta. em termos jurídico-positivos. por analogia. uma vez que ele não é partes. 64 . com facilidade. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. ainda se poderiam manter determinados deveres.

também aqui. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. é aparente. por força de qualquer outra fonte. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se. sobretudo quando interessados. Do anúncio público (225º). quanto à existência de adequada fonte das mesmas. Em bom rigor. a tipicidade dos negócios unilaterais. fica o credor dispensado de a exibir. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. numa segunda vertente. anteriormente. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. Os negócios unilaterais distinguem-se. limitada à inversão do ónus da prova. De contratos com apenas uma assinatura. de resto. Negócios unilaterais em especial 1.Mantém-se. proclamada no artigo 457º. até prova em contrário (pelo devedor). Do testamento. devidas. com a promessa pública como modelo. já antiga. pelo princípio da causalidade. ainda. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida).  Fonte essa cuja existência se presume. isto é. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. existe aqui. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. no Direito português. Quanto muito. deve sublinhar-se. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. A regra não origina nenhuma obrigação nova. igualmente por via da boa fé. para além da concreta eficácia suscitada. importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. pode-se admitir tipos abertos. cabe salientar a confiança que. Da oferta ao público (230º/3). O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. 65 . que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. Dogmática geral O negócio unilateral. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. passando pela tradição de uma coisa. deve imperar. sem indicação da sua fonte. de que. a afirmação. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. No que tange ao autor do acto. ainda. Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. pois. Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida. a primazia da materialidade subjacente que. Assim:      Da proposta de contrato. Deve-se ter também em conta os terceiros que.

muito claramente. naquela. seja revogada. da indeterminação do destinatário. apenas.  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. a sua obrigação. surgindo alguém nas condições nela previstas. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. da oferta ao público (230º/3): nesta. por anúncio público. ficando. tendo prazo. Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. não tendo prazo. o promitente fica obrigado:  Até que. in fine). pela aceitação. aqui. ainda. pelo cumprimento. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). ele extinga. deriva. o concurso ficaria indefinidamente aberto.     Até que expire o prazo nela fixado (460º). O público. objectiva ou subjectivamente. fica vinculado desde logo à promessa”. antes dele. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. relativo a concursos púbicos. A situação distingue-se.2. exclusivamente. por justa causa (461º/1. Até que. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. Até que. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. que torne a promessa inexigível. acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. 3. aqui. propriamente obrigado. A justa causa será. Feita a promessa. desde logo. na sua falta. seja revogada (461º/1). o promitente adstrito à sua efectivação. 66 . atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º). só nessa altura se constituindo. pode. um motivo atendível. a título de prémio. constitui uma especial modalidade de promessa pública. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. Concurso público O artigo 463º. constituir o contrato. às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou.

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