Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

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Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

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 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

No entanto. Protegem-se as pessoas contra si próprias. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. O legislador optou por emitir leis avulsas. A causalidade contrapõe-se à abstracção. as obrigações. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. nesse caso. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. A responsabilidade civil é ampla. no Código Civil. transposição de directivas comunitárias. XIX. A responsabilidade civil é fechada. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. Causalidade Significa que. 947º. 2. Mas há zonas periféricas. daí tal importância. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. 812º. Foi muito pouco mexido. vários artigos em que podemos detectar esta orientação. O BGB é de 1900. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade. 457º. p. defesa do consumidor). A sociedade alemã também se alterou substancialmente. A codificação da boa-fé. 4. 863º. analítica. a obrigação não subsiste. prescrição. antes de terem as coisas. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. 809º. 942º. O BGB. é abstracto. que merecem reforma em Portugal. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. O Direito civil é muito estável. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. por regra. todavia. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. não depende da sua fonte – o negócio jurídico. doutrina. A validade de um cheque. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. É muito difícil mexer nele. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. O Direito das Obrigações alemão é líder. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. ex. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. que nascem de uma determinada fonte. renunciem aos seus direitos. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. 994º). (448º. Se a fonte for inválida.. regras.Existem. Resulta do movimento da pandectística. 4 . Não se quer que as pessoas. É muito elegante linguística e estilisticamente. É um código típico do início do séc. para não darem o que não têm. baseada num conceito vago. O Direito das Obrigações é super estável. Romano-germânico Sistema centrado no BGB.

canónica. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. O Código de Seabra é. 5 . Há pouca influência romana. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. sendo uma enorme influência. Anglo-saxónico É um mundo à parte. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. há um período de pré-codificação. entre os conceitos desta família e os das anteriores. 5. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. no entanto. Este sistema não é codificado. islâmica. mantiveram-se em vigor as Ordenações. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. 4. Há união entre religião e Estado. O Código não é de inspiração alemã. XIX. Mas. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. a partir de 1911. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. Não há correspondência. Mas foi uma novidade científica que vingou. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. Naturalmente. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB.3. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. Antes da aprovação do Código de Seabra. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. Além da redistribuição germânica das matérias. não havendo negócio jurídico separado dos contratos. sendo revigorados os já conhecidos. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. No Brasil. Chinês É muito antigo. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. muito avançado. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. sequer. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. Mas tem uma organização e conceptualização originais. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. surgem institutos até então desconhecidos. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. O Direito português é aberto ao exterior. tal como a cultura chinesa. na China não aconteceu isso.

Todavia. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. tendo-os traduzido para chinês. vigora também o código de 1966. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. XIX. Em Cabo Verde. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. marcaram as primeiras reconstruções do CC. verificou-se a invasão indonésia em 1975. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). Em África Em Angola. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. com Teixeira de Freitas. Houve. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. depois da aprovação. como membro da OEA. mas começa a ser preparado no pósguerra. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. um período de exegese. Foi necessário recomeçar. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. Na Guiné. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. 6 . O Código brasileiro aparece só em 1916. houve maior inteligência política. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. Há algum atraso na sua aprovação. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. Em Moçambique. numa primeira fase. logo em meados de oitocentos. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. quando ocorreu a ocupação. Antes da entrega de Macau. Com a independência. mas havia a barreira linguística. voltou a vigorar o Direito português. ainda em meados do séc. numa segunda fase. O Prof. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. Ele é de 1966. O CC de 1916 tem já influência germânica. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. Em Macau. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. foi aprovado um Código Comercial novo. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. com algumas alterações após a independência. O português era a segunda língua. As revisões ministeriais do Prof. Em Timor. sendo substituída pelo inglês.No Brasil Na doutrina brasileira. mas já havia recepção do pandectismo. O Código de 1966 vigora actualmente. Tem influência germânica e do Código de 1966.

a directriz não vigora. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. Em termos planetários. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). Turquia. O caso português é singular. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. Japão. ex.) de sistemas próximos do germânico. Assiste-se à implantação (Portugal. O Prof. Mas havia uma grande projecção ultramarina. uma enorme barreira linguística. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial. até. também com as operacionais: inglês. Ciência do Direito. de Common Law. Há. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. De um modo geral. Há 23 línguas oficiais na Europa. entre interpretação e integração. um pequeno país na Europa. predomina o inglês. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. mesmo quando escritos em inglês. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. etc. é diferente. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. Coreia do Sul. No Direito francês há distinção. As regras sobre a moeda única. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. evolução histórica. Há as directrizes e os regulamentos. que é do final de Oitocentos).O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo.. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. Nas obrigações. 7 . O Direito lusófono não tem só essa influência. ganha pelo mérito. a grande influência. Todavia. p. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono. Brasil. não são de common law. Cumpre saber que língua é utilizada. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. que suportou a nossa independência. não havendo confusão com os sistemas da pandectística. francês e alemão. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. língua. provêm de regulamento. na área dos negócios e nas relações entre povos. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. Mais tarde. Se não o fizerem. Somos. Quanto a autonomia doutrinária. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. estão em causa relação inter-pessoais. quantidade de falantes da língua. A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. hoje. foi do Direito alemão. A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). É um Direito que tem uma evolução histórica. Mas na área do Direito não é assim. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. ao contrário do que acontece no Direito português.

A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. para SAVIGNY. há 500 milhões de pessoas. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. era o poder da vontade. havia um domínio de alguém sobre outrem. Antigamente. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. O Prof. nem uma política externa comum. MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. O direito subjectivo. 8 . Fala de um bem a prestar. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. forçar a vontade humana. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. intra muros.No tempo do ius commune. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. Não teve consequências. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. Para o Prof. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo). Esta noção presta-se a críticas. Se A tem direito. como a falta de competência dos órgãos europeus. ele começa a desaparecer. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. e não a totalidade. mas com exagero. Nós. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. MENEZES CORDEIRO. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. juristas portugueses. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. No plano oficial. há muitos constrangimentos. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. não há um Governo europeu. havia um Direito europeu das obrigações. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. dada a insuficiência da língua inglesa. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. a vantagem é o bem que será prestado. No espaço europeu. O melhor Direito é o interno. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. quando existia obrigação. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado.

Assim. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. mas o seu património. o dever é sempre um constrangimento ético. Se o devedor não cumprir. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. Ela. Na prescrição. No séc. um direito ao património do devedor. pelo que é excepção o recurso ao património. independentemente de ser cumprida ou não. já é um valer em si. no início. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). surge a nova noção de obrigação. mas as suas obrigações permaneciam. extingue-se a haftung. A obrigação não é apenas um bem a prestar. XIX. todavia. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. Pode ser um facere ou um non facere. Há. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). Primeiro. As pessoas morriam. A ideia remonta ao antigo Direito romano. Os romanistas diziam que não havia. assentes apenas em deveres acessórios. obrigações. as obrigações são cumpridas. Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. independentemente de terem culpa). Depois. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação.Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. pode-se atingir o seu património. 9 . Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. Em regra. sim. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. Pode haver obrigações sem prestação. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. surgiu a respondência.

Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. Mas. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. A obrigação pressupõe um dever específico. O credor fica adstrito a deveres de segurança. só. qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. um conceito de obrigação. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. A obrigação do fiador é secundária. Se não são. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. não interessam. não tendo interesse para o Direito nesse caso. linguística. colaboração. pode haver nulidade. etc. sabe-se hoje. por si só. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. a responsabilidade é patológica. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. compreende um dever de prestar principal. A obrigação. outra concepção diz que há um direito real de garantia. noutros ainda. O BGB já não exige natureza patrimonial. Se é assim. Em certos casos. A prestação pode não existir. 10 . MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial.. tratado mais à frente.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. com dois regimes). A obrigação continua a ter unidade – desde logo. pelo que obrigação não é uma prestação. não podendo servir para construir. noutros. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. Se o devedor principal não cumprir. Estas construções são úteis. O regime é solicitado para um tratamento unitário. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. com o credor e vice-versa. em termos pragmáticos. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. Se são. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. é o fiador que deve cumprir. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. pode ainda não existir. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. deveres secundários e deveres acessórios.

Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. mas pode receber dinheiro. É assim ao nível global. ela é avaliável em dinheiro. de sistema. Não tem de haver natureza patrimonial (398º). o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. Pode haver execução específica. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. O 397º define obrigação. não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. não necessariamente em todas as situações. Como são ressarcíveis. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. há ressarcibilidade dos danos morais. mas havendo danos. à partida. O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. 11 . não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. boa educação) que não relevam para o direito. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. 2ª parte remete para o interesse. compensação – e não de equivalência. será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. acção directa. há sanções pecuniárias compulsórias. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. pode haver responsabilidade pela deferência. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. Tudo pode ser avaliado em dinheiro. As relações de obsequiosidade não são. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). tem conteúdo económico. A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. o 398/2. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. chegando-se à natureza patrimonial das obrigações.Se um artista se obriga a entoar uma ária. Direito. Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). Hoje isso não é assim.

não. Se a prestação for um serviço. Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. o credor aproveita imediatamente a coisa. Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. há créditos absolutos. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. a relatividade existe quando há relação jurídica. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. absoluta. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. 12 . nos direitos pessoais de gozo. Esta noção vale o que vale. A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). duas partes. contrapondo-se aos direitos reais. que são absolutos? Em termos estruturais. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. Assim. Os acordos de cavalheiros são relevantes. há figuras como a execução específica. por exemplo). Em direitos reais há só uma. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). mas não se pode retirar daí uma regra. Quanto aos acordos de cavalheiros. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. o que tem de surgir é o serviço. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. Os créditos não são sempre relativos. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. A obrigação é uma relação jurídica. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. Os direitos potestativos são absolutos. no caso dos direitos reais). seria sempre necessária a mediação. relações de vizinhança. encontramos sempre uma dança a dois.Há também deveres de protecção. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. Nas obrigações. mas não se pode esfarrapar o par de dança. Podem fazê-lo? Em princípio. erga omnes. Deve-se sempre perguntar qual a origem. no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. o direito real é uma situação absoluta. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. A convida B para dançar. Em obrigações. Noutra acepção. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. Uma última. são para cumprir – se não forem.

dizia-se que a eficácia também poderia ser externa.. com MANUEL DE ANDRADE. Deveres acessórios. médio ou fraco. em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). A doutrina tem evoluído nesse domínio. Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão. o que lhes daria uma tutela relativa. Se é assim. Faz sentido que haja defesa contra terceiros. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. Na Alemanha diz-se que não. a figura do terceiro cúmplice). A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. p. No início. Se é assim. a externa é perante terceiros. Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. No sentido forte. PESSOA JORGE). pode existir oponibilidade em sentido forte. Mas inverteu-se a tendência. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. então há oponibilidade média. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. As obrigações são vínculos. É o que acontece com os chamados deveres de tráfego.A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. A regra é de que a eficácia é meramente interna. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). 13 . se incumpridos. que se manifestam predominantemente perante o devedor. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. dão lugar a responsabilidade civil. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. relações jurídicas. Mas há também deveres no tráfego que. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. Há uma acção. Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. Havia uma quebra maliciosa do contrato. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. A nossa jurisprudência acordou em 1964. A eficácia interna é entre credor e devedor. ex. Mas há outras regras. com os pactos de preferência. Há contratos com protecção de terceiros. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte.

Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. é muito mais restrita. as economias britânica e francesa. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. Quando existe um devedor. Se A contrata com B. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. Quando existe uma previsão normativa. proíbe autotutela. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. como o penal ou o fiscal. Outros dizem que só o devedor pode incumprir. diz-se. mas há várias vias para o conseguir. Todavia. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. Isso em princípio.  Diz que está proibida a analogia. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. não havendo lacuna. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). Isso justifica-se em ramos agressivos. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. não estão assim tão mal. Num ramo típico. pois. Está tudo ligado. ao atribui direitos subjectivos. Se existe uma descrição típica das condutas. há um numerus clausus – o número de factos é finito. aplicam-se os artigos 798º e ss. O terceiro não pode. descrevendo as condutas. recorre a tipos – tipicidade. em princípio inatingíveis. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. Noutros casos é mesmo normativa. O Direito objectivo. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. Mas esses não se aplicam a terceiros. Argumentos a favor. Dá. Há tipicidade exemplificativa.  Diz que existe numerus clausus. há responsabilidade. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. países que admitem a figura. Só pode estatuir com recurso a tipos. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. Contratar-se-ia menos. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida. os factos são descritos concretamente. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. O legislador pode dar uma série de exemplos. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. um terceiro faz-se passar por credor. protecção jurídica. 14 . Quando a lei recorre a descrição da realidade. Se ele for atingido.

O mediato é também designado por objecto. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece. o regime tem um desvio. O Direito comercial é outro ramo especial.).Nos contratos há descrição abstracta. por via de condicionalismos históricos. aqui. etc. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. ao contrário. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. Há situações de direitos reais que. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. um direito e um dever. p. Aí. Há. de facto. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. Os direitos reais têm. direito a uma coisa corpórea. Obrigações. Há. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. também. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. Nas obrigações isso não existe. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). obrigações naturais. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. É muito especial. tipicidade exemplificativa. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). um princípio de tipicidade. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. em princípio. Mas existem muitas obrigações nessa área. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. Isto é o núcleo duro – há desvios. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. invariavelmente. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. venire contra factum proprio. não há numerus clausus e pode haver lacunas. Autonomizou-se do Direito das obrigações. Mas tem regras especiais. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. ex. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. 15 . Há tipicidades de tipo científico. O contrato de trabalho é um contrato como os outros. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. por conjunções históricas. O conteúdo distingue-se do objecto. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. tudo é parecido com o Direito das obrigações. O conteúdo das obrigações é sempre.

É o homem médio. Foi o critério escolhido pelo legislador. Não se trata de um non facere. De pati. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. Uma prestação inclui necessariamente o esforço.) e a aquiliana (483º e ss.: o médico não tem obrigação de curar. 16 . Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). tendo em conta as circunstâncias do caso. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. São instrumentais em relação a ela. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção. Só é exigível que se esforce até esse ponto. Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. apenas de fazer tudo ao seu alcance. Temos de saber o que é exigível. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. por um esforço de análise. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado. O devedor está obrigado à diligência média. mas à prestação de um serviço com determinada diligência. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. Por vezes. Não se obrigam a resultados. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. Podemos. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. Todavia. Seguem o regime da prestação principal. é um homem médio colocado no caso concreto. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. A prestação principal é o núcleo da obrigação. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). tem culpa. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. Ex. É o critério do bonus paterfamiliae. noutras pretendem o resultado.). Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece. É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. De dare.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. São prestações que complementam a prestação principal. Se se comportar abaixo da bitola. A de dare consiste na entrega de uma coisa. aquilo que for normal num homem médio. as partes pretendem uma determinada conduta. correspondendo a afinamentos do interesse do credor.

 Círculo externo. depois a reconstituição natural. nos deveres acessórios são ambos.. 17 . Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. mas há deveres acessórios pré-contratuais. contratuais e pós-contratuais. é preciso cumprir de boa fé. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida. são soluções para problemas novos. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. Como decorrem da boa fé. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. A indemnização é uma consequência de segunda linha. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. rerum sic stantibus.O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. Podem ser deveres de lealdade. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). informação. integração de lacunas. A base legal é o 762/2. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). Está em causa o princípio da tutela da confiança. O legislador quer primeiro cumprimento. Não basta cumprir a obrigação. determinável. só depois a indemnização. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. Substancializam a obrigação. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. etc. tal como se não cumprir o dever acessório. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. a obrigação é uma realidade muito complexa. A culpa in contrahendo. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita. segurança. Os deveres acessórios são imprevisíveis. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. observando os deveres acessórios. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. possível. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo.

Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente. porteiro.). uns relacionados. ambos). Se sou obrigado a recorrer a perífrases. Em princípio. nas mistas há vários deveres. 2. 3. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). se consigo exprimir com uma única expressão é simples. Absolutas. prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis. atípica resulta da autonomia privada. combinadas quando estejam associadas a direitos reais. p.). Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos. outros não. A regra é da fungibilidade. relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. 4. 5. Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. etc. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos.  Obrigação de abstenção (simples.Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. como concessão. na relativa há. Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei. Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. transferência de propriedade. 18 .  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). ex. mas são regularmente utilizadas no sector.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. Não é o mesmo que coisa fungível. trata-se de obrigação complexa. suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples). Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei.

O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. determinável. entre o agente e o principal há relação duradoura. A denúncia seria um dos esquemas. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras.6. Implica especialidade quanto à sua cessação. É um contrato em especial. sob pena de nulidade (280º). para tutela da confiança. Havendo agência. Hoje. ao contrário das obrigações comuns. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. E relações perpétuas. como reacção ao regime feudal. forma de cessação de um contrato duradouro. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. surge na periferia. se tiver poder de representação celebra também os negócios). pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. O Prof. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. com dilação temporal juridicamente relevante. um pré-aviso. 2. claro está. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. É necessário. Não se extinguem com o cumprimento. 19 . Tipos de obrigações 1. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. A denúncia. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. O conteúdo tem de ser sempre. mas pessoais. também. Se fosse logo satisfeito. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. não obstante. Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. Há lacuna. O Direito civil é um direito prático. A retribuição é a renda ou aluguer. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. e outras que se cumprem no tempo. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. Obrigações duradouras Partimos da prestação. era instantânea. o principal. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. pelo menos. O DL 178/86 trata da cessação da agência. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. em que havia obrigações perpétuas. As questões sociais vieram pugnar por protecção.

Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. inícios do séc. menor taxa de natalidade. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer. Quanto mais baixa a renda. É um direito real. Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. havendo transmissão da coisa arrendada. Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. Obrigação de deixar usar? Seria negativo. Se é assim. as rendas vão degradando. A solução de quem chega ao mercado é comprar. Nos finais do séc. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. Em 2006 houve um projecto. 20 . Em 1990 tentou-se de novo. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção). Mas também não explica o que é o gozo. com a industrialização e grande pressão urbanística. surgiram fenómenos e problemas de natureza social.  Congelamento das rendas. mas também não chegou a bom porto. O 1743º do CC francês determina que.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos.No arrendamento domina a autonomia privada. Há subúrbios. actualizando as rendas. XX. porque ele é sempre real). para o futuro). Logo. Chegou-se a este panorama aos poucos. No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. políticos. Se houver inflação. Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. centros das cidades abandonados. impedindo actualização das rendas. Em 1985 tentou-se reformar. XIX. maior o lucro do trespasse. Chegou-se a um regime vinculístico. por exemplo. trânsito caótico. etc.  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. Há bloqueios ideológicos. é figura real o direito de locatário. Surgem teorias mistas (entre nós. económicos. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário. contraindo empréstimos.

Mas mudou de ideias. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. Em geral. Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. como direitos reais. 3.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. defender o seu direito face a terceiros. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. Essa tese é inaceitável. A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. tendo um direito de preferência sobre a coisa. Mas pode ser integrado no Livro II. A pessoa estava obrigada a fazer algo. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. com recurso aos tribunais). o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. Comportam-se. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. 21 . Seguem. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. porque não era uma pessoa. Era um débito sem respondência. Uns são pessoais e outros são reais. Juridicamente não tinha personalidade. é histórica. o que os aproxima dos direitos de crédito. entre os direitos reais e os de crédito. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. Obrigações naturais É figura muito estudada. O Direito dizia que ele estava obrigado. pois. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. pelo que ele se pode defender sozinho. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). mas sem shuld. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. o locatário pode fazer obras. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. em regra. Não tem uma grande relevância prática. no conflito com outros direitos. por ser figura próxima do direito de crédito. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. já que é ela que as explica. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. na locação. Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. Estabelece que prevalece o direito real. de forma similar aos direitos reais. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. nesta matéria o regime dos direitos reais. Admitese a existência de direitos de gozo. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica).

No período medieval. Em tudo o resto. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. Hoje. não jurídicas. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. etc. Não podem ser constituídas por contrato. Tiveram uma evolução muito atormentada. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas. Todavia. A lei. Isso não é verdade. Aparentemente. Havia ligação entre o Direito e a moral. pois. a moral é uma coisa e o Direito outra.. etc. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei. transformando-as em naturais. As obrigações naturais. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. porque elas são típicas. Esta matéria está regulada no 402º. Noção legal (402º). Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos.  As obrigações naturais são típicas (809º). apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. diz-se por vezes. com base no 404º. É jurídico. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. não têm valor patrimonial. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). aplica-se o regime das obrigações civis. jurídica. Se eu pagar. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. A justiça é aquilo que o Direito consagra. diferente de um Direito moralmente enformado.A isso chamaram obrigações naturais. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente.  O 404º. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. mas também as obrigações 22 . Não pode ser exigível judicialmente. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. A obrigação natural deve ser.  Não exigibilidade judicial do cumprimento. Mas são aqueles os dois momentos cruciais. sociais. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. não posso pedir devolução do que paguei. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. Mas isto não pode ser. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. Ser jurídica é estar prevista como obrigação.

se nada for estipulado. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. Só se determina o género. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. rege o favor debitoris. é fungível. Ele é determinável mas não está determinado. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. há obrigação genérica. dare ou pati. Logo. Deve-se escolher a coisa média. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis. Não é o sentido do 400º. Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. O problema que surge é o da determinação do objecto. Na falta de acordo. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. escolhe o devedor. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. o critério deve ser o da mediania. 23 . podendo ser qualquer litro de azeite.civis podem não ser cumpridas. As obrigações genéricas são muito importantes. que podem ser de facere. quantidade ou qualidade. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. com a massificação das transacções. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. Os contraentes podem estipular diferentemente. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). dando lugar a obrigações genéricas. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. A escolha e o risco O 539º estabelece que. 4. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. Desde que a coisa a entregar não seja única. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. No Direito romano eram desconhecidas. há uma lacuna negocial. o critério é o da mediania. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. Não havendo convenção. cujo universo pode ser mais ou menos amplo.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

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7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

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cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. que é sempre singular). Nestes casos. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. Presume-se que as partes de cada um são iguais. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. Existe uma presunção de igualdade das quotas. a regra supletiva é a da solidariedade. seja porque existe expressão linguística unitária. isso não multiplica a obrigação. a lei estabelece solidariedade. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. Na prática. mas complexa. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. de modo a assegurar o cumprimento. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. Quando vão cumprir. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. Ao contrário da parciariedade. O credor só pode exigir de cada um essa parte. para proteger o lesado. seja porque o regime é unitário. Os vários sujeitos têm relações entre si. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. 27 . O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota. há outras que só o são se as partes acordarem. os credores). todos têm de prestar ao mesmo tempo.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. É só uma. um concerto de orquestra. por exemplo). Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. porque também temos de tratar das relações internas. MENEZES CORDEIRO defende que.noção. É um regime mais duro para o devedor. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. na falta de estipulação em contrário. quando há vários sujeitos numa obrigação. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. Em resumo. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal. No Direito comercial. Aumenta a garantia do credor. Há obrigações que são à partida divisíveis. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. Rege o 512º .

presunção de igualdade (516º). O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. uma classificação das fontes. ex. significa que há alguma coisa a mais. São duas fontes fundamentais de obrigações. No período da pré-codificação francesa. há “gato”. não sendo nem uma nem outra. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento. Uma prestação pode. Precisa de um facto jurídico para nascer. Normalmente. Eram fontes que. é natural que existam meios de defesa dos devedores. p. um A. O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. p. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. p. à estatuição de uma norma. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. pessoal seria a prescrição. Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. acrescentou a lei.). ter duplo aproveitamento. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. o do devedor e o do fiador. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. Também existe. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. Na solidariedade há co-devedores. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. A lei poderia ser fonte de obrigações. aqui. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. Mas é uma pluralidade heterogénea.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. 28 . se não houver outro acordo. já que o fraccionamento é feito posteriormente. só dele (não os meios pessoais de outro). Surgiu o esforço de sistematização. ex. ex. um credor e um credor pignoratício. É uma bipartição importante. tal como os direitos reais. quando alguém contrata a solidariedade. concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores. tem regime diferente. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores.

que é comum a todos os direitos europeus. Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. ex.). p. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica. Em termos estatísticos. o negócio unilateral. a gestão de negócios. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. todavia. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. no tempo e no espaço. a partir do 405º. enquanto a lei é norma heterónoma. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. Enumera algumas fontes. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. mas enumeração.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. então. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. nuns e noutros a mesma coisa. Já nos sécs. Com o CC de 1966 também não existe classificação. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. O que se deve. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade. É difícil unificar. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. a melhor técnica é a tipológica. As divisões não significam. O direito privado tem 2000 anos. Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. como se usou em 1867 e 1966. Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. em vez de adoptar a repartição tradicional. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. desde logo. referência à tetrapartição. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). 29 . XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. Faz-se. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. o enriquecimento sem causa. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. de se autodeterminarem. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. apesar de não haver classificação qua tale. O Código de Seabra faia um elenco original. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. enumera-se o contrato. Mas ele é mesmo muito reduzido. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. Há um encadeamento.

Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. É o sistema de tipo francês. O contrato tem um papel muito alargado. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. No Direito da Família também: contrato de casamento. Mais tarde. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). está em crise. a bona fides perderá o seu significado. se a sociedade é subdesenvolvida. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. O contrato valia por si. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. o próprio contrato perde espaço. Menezes Cordeiro. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). o contrato está sempre subjacente. surgindo os contratos que hoje são básicos. tem menos aplicação. Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. diz-se muitas vezes. O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. com SAVIGNY. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. consensual – basta haver contrato. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. É importante considerar o canonismo. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. É necessário que haja propriedade. O CCP trata da matéria. Dinis. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. É um diploma bem feito. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. para o Prof. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). mas se lemos artigos sobre negócios. vai na direcção do contrato. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. O socialismo ataca o contrato. Os romanos conheciam figuras equivalentes. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. igualmente. Dá-se uma grande explosão. Passava a ser vinculativo por isso. em lei de Maio de 1352. Assim. D. No Direito sucessório é mais raro. já o negócio obtém-se pela razão. O contrato. 30 . mas existe pacto sucessório. manifestação da importância do contrato. Daria frutos no período jusnaturalista. de acordo com a escola histórica e a pandectística. A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. nas Obrigações é o contrato. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais.

não relevaria: eles devem ser cumpridos. É óbvia. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. etc. no artigo 8º/2.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação. Tecnicamente. Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força.). racionalidade. diminuindo a liberdade contratual (banca. pois. mas de certos contratos. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. O contrato é. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. seguros. O contrato tem peso em si.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico.No séc. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. O contrato é um véu que tapa os olhos. pelo menos para coisas úteis. É uma visão pessimista. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna. Não houve.). plurais. Graças às convenções internacionais. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. pecuniários. à partida. Todavia.  Áreas reguladas. incluindo direitos de créditos). porque não foi necessário. etc. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. necessidade de consagrar na CRP. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. valores mobiliários. 31 . Tutela constitucional do contrato A CRP. A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. Se a lei não dissesse nada. Com a queda do Muro. os observadores previram explosão dos contratos. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações.  Intervenção judicial nos contratos. não se trata de um recuo do contrato. O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos. como o da boa fé. O 56º/3 garante a contratação colectiva. Mas isso não aconteceu. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada.

Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. no entanto. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada. Perante o conceito de negócio jurídico. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. Quando a lei não lhe dá um nome. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado.1. Fala-se. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. por vezes. consideradas mais sensíveis. mas a lei não o disciplinou. É distinção relativa. o contrato é bilateral. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. é nominado mas atípico. bem como diminui as dúvidas. Pode haver tipo social e tipo legal. O contrato de hospedagem. em princípio também não o regula. 5. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. reais quoad constitutionem e quoad effectum. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. Consensuais. nominados e inominados. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. Terceiro. não dá para classificar em abstracto. 3. fica fragilizada. Todos os negócios são contratos bilaterais. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. 32 . No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. Segundo. 2. maior equilíbrio. vindo a aperfeiçoar-se. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. regulando com especialidade. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado.

tendo em conta o relevo de que se revestem. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. solicitar ao outro a efectuação da prestação. A generalidade das normas é supletiva. 7. Em regra. 33 . O problema é que. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. Fica com o direito potestativo de. À luz do 405º. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. É sinalagmático. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. a parte geral é muito restrita. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. as partes têm liberdade de celebrar livremente. atípicos e mistos Os negócios jurídicos. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. em regra. Os gratuitos são. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. 6.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. uma delas não fica obrigada. no entanto. podemos distinguir entre negócios típicos. querendo. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. Embora o 405º seja muito abrangente. uma vez que domina a autonomia privada. Há 16 contratos regulados no Código Civil. passa entre as gotas da chuva. reciprocidade. Nos monovinculantes há duas partes. pois. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. É diferente da vinculatividade. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. O estudo desta matéria não é fácil. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. Tipologias de contratos Contratos típicos. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. As partes querem dar. Tendo em conta este facto. O problema é que. Há. hoje. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. se as partes celebram contratos mistos. O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações.

Ex. 2. mas como tendo a casa como refém. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. Ex. na prática.: A recebe habitação. Há mistura. não para que se porte como proprietário. B tem de guardar a casa enquanto A não paga. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). 34 . comida. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. aplicando todos. A tem dívida para com B. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1. Os combinados distinguem-se dos complementados. o negócio aproxima-se da gratuitidade. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. que absorverá os outros. Complementados – aqueles em que existe um tipo base. em troca de explicações. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. o locador. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. etc. os serviços de limpeza. cama. mas recebe em géneros. próprias de vários contratos. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. quando acabar. Em troca do preço recebe um quarto (locação). Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. Isto só resulta se houver confiança. comida. entretenimento.: A comprou 15 dias num cruzeiro. 4. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção). Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante.: A compra por preço muito baixo. não havendo uma principal. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. Não pode ser um mero pormenor. A autonomia privada é o pano de fundo. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. embora tenha havido preço. Ex.: A arrenda um quarto a B. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. Ex. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa. 3. Não tem salário. que lava também a roupa de cama. O resto é extra. devolve-lha.

a outra também. mas o contrato é usado para uma função diferente. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. A solução foi a da analogia. nomeia concessionários. O que é específico é a marca. acabavam os centros comerciais. é esse que se aplica. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. Se ele corresponder ao tipo x. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. 35 . tal como o da vontade das partes. Pode haver várias funções: simulação. A seguir temos de resolver com analogia. aplica-se o regime do tipo x. o arrendamento tem muitas normas imperativas. a quem entrega os bens. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. segurança. a primeira solução é a da vontade das partes. P. aplica-se essa solução. 3. Aqui. No caso do porteiro isso é evidente. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. 4. Mas não é normal. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. se na lei houver solução. Pode. O promotor é remunerado através da renda. por analogia. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato.2. Quando há lacuna contratual. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). e também com a agência. Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. aplicam-se as regras desse tipo. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. É contrato de agência que foi encontrado. então celebra-se o y). Recorre-se ao regime da agência. bem como sinergia do ponto de vista económico. O limite é o das normas imperativas. Em Portugal. Há semelhança entre a agência e a concessão. o combinado e o híbrido. para que os distribua. O método foi o da analogia. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. Regra geral.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. a solução também foi a da analogia. no entanto. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. gestão do centro. é também acompanhado de distribuição. é uma área vinculística. Quando nada se diz. Mas isso é raro. Hoje. Se não for suficiente. ex. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. mas os serviços que o centro proporciona. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. sem intenção de enganar). Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. publicidade. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja).

Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. No Direito português. O fiduciante é só entre outros. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. interna e alternada. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. já que o Direito existe para proteger os fracos. era o proprietário da coisa. O fiduciário é de execução prolongada. não permite divisão da coisa entregue. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). 36 . Procura-se o centro de gravidade. mas para o de terceiro. São óbices consideráveis. a fidúcia é muito violenta para o devedor. aplica-se o regime correspondente. M. Quem recebia a coisa com fidutia. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. Ele é permitido se não violar regras imperativas. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. Mas o Prof. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. teremos uma figura real não prevista na lei. em benefício de quem a entregava. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. Descobrindo-o. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. Mas. Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. o fiduciário. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. O fiduciário é proprietário. ao contrário do alemão. porque doações de bens futuros não são permitidas. na contratação alternada valia ou um ou o outro. Se ela tem natureza real. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. Se for à falência. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia.

A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. homogéneos e heterogéneos. 442º.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. de tipo processual. dependentes e independentes. A celebração de uma escritura pública demora tempo. sendo diferente o regime. O contrato prometido e o contrato definitivo. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. No Direito português tem grande importância. 37 . A figura da absorção. causais. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. de tipo não processual. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. para o sinal. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. há centros de gravidade múltiplos.. tem eficácia real. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. Importou do BGB a execução específica. 830º. execução específica). Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. Segundo o Código de 1867. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. Hodiernamente. a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). rege nos contratos mistos. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. por exemplo. devia ser celebrado por escrito. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente. Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. Mas nunca é irrelevante. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. A promessa por escrito era válida na hora. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. É uma ideia relativamente recente. sem recorrer à escritura pública. Há muita jurisprudência sobre isto. a promessa valia apenas como prestação de facto. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial.

3. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. do exercício de preferência. por vezes. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. do contrato preparatório material. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”. do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. 1. ex. na promessa tem de haver negociação). A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. 2. um modus vivendi. p. financiamento. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. É usado. 5. É um formato. Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. não podem ser objecto de promessa.. O contrato-promessa distingue-se da proposta. um modo geral de celebrar outros contratos. desformalização. etc. Regra geral. mitigada. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo). do dever legal de contratar. sobre a entrega.). uma vez prometido. Regulativa autónoma. Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. os contratos são dotados de prometibilidade forte. Quanto à prometibilidade fraca. para preparar o contrato definitivo. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. acabamento da coisa. tendo isso em conta. Mitigada ou mitigadora. Desformalização. P. 38 .As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. 4. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). Meramente obrigacional. regulativa autónoma. é possível a execução específica no caso de incumprimento. Há contratos que. transacção meramente obrigacional. É a função preparatória. ex. do convite a contratar (A solicita a B que contrate). Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. Função preliminar. Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa. Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. Por vezes. na promessa sabe-se). Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. Como no Direito alemão. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa.

Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. como executo? Os clássicos diziam que não era possível. Não há contrato-promessa de doação. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. imperativo. se não houve entrega da coisa. etc. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. a proposta ainda não foi feita. até é possível haver excepções ao que se disse. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. O nome é parecido. do 1591º e SS. tendo em conta o regime. É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade..) que conduz à possibilidade de revogação. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. e o outro não cumprir. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. mas a situação subjacente é diferente. 39 . etc. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. à partida. É verdade que existe um regime jurídico. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. também não há uma regra expressa que o diga. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. proximidade. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. estão nos antípodas. o que está em causa não é a regulação de um contrato. Pode fazê-lo. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. mas que tinha um regime especial.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. Isso não vem na lei. No contrato-promessa. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º. É um contrato à parte. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. Mas.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). Não vincula o promitente a doar. Com o não cumprimento. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. mas ineficaz quanto às prestações principais. Isso não é correcto. Não se trata de um contrato-promessa. às consequências pela ingratidão. O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. O problema é que. diferente do regime do contrato-promessa. a obrigar a algo que poderia revogar.

Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. Na prática. Na normalidade dos casos. é a solução. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono.Hoje em dia. Uns defendem a redução. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. é preciso o acordo de ambas). Mas isso é errado. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. nos termos do 293º. A questão das assinaturas é meramente formal. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. Estipulações acessórias são válidas. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. Para o prof. para ser quantos se obrigam. Se para o prometido for necessário documento. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. aplica-se a regra geral. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. Assim. Se for livre também o contrato-promessa é livre. ainda que não tenham as duas assinaturas. A conversão. Por isso. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. O 410º/2 regula a forma. Não haveria problema de prova nem dúvidas. autêntico ou particular. tendo enorme relevância. 40 . Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. não se entende porque só um assina. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. o regime é o do 219º liberdade de forma. não se precisa é de assinar. outros a conversão. Se o documento é a materialização do acordo. em regra o promitente alienante. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. MENEZES CORDEIRO em princípio.

possa reduzir-se o negócio. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. Neste momento. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. Há. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. com excepção das relativas à forma e as disposições que. Surgiu na década de 1980. integralidade. Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. Nestes casos. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. no 3. também. A parte geral também tem regras. se nada disserem. Pode ser paralisada através do abuso de direito. ex. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. de invalidade mista. p. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. Este princípio. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. o regime é o da reforma de 1986. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. concretização e boa fé. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas.Mas não é fundamentalista. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. havendo grandes atropelos ao direito. Havendo contrato-promessa. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. 41 . MC sugere a ideia de modus contrahendo. em certos casos. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. a se. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. ficando com um contrato-promessa monovinculante. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. Obedece a normas: os princípios da correspondência. este deve adquiri-la. Trata-se. Se a promessa for monovinculante. por sua razão de ser. Admite que.

Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. Pode haver recusa antecipada a cumprir. Se isto não for possível. se o contrato-promessa permitir. e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. uma via crucis. que resolvem inovar. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto.. Se houver situação de mora. impossibilidade superveniente. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º). Pode acontecer que seja lacunar. etc. mantendo-se o contrato-promessa. O definitivo está previsto no contrato-promessa. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. a lei prevê a interpelação admonitória. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. devolve-se em dobro. alterando as palavras. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. há inadimplemento. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. inclui-se a coisa no cumprimento. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes. Legitimidade.). O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. Isto é uma trapalhada. declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. local. Incumprimento há quando. O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé. Ou há mora. não foi. se não for cumprido. violação de deveres acessórios.). Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. O incumprimento extingue a prestação principal. pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). aplica-se o 280º. lugar. Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss. Pode haver uma impossibilidade superveniente. 42 . prazo. À partida. imputação. etc. O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. violação positiva do contrato. O promitente fiel é o que é prejudicado. Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo. se for cumprido. Se não houver. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). pode haver resolução. Muitas vezes há AA. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). MC entende que isso não pode ficar assim. se forem válidas e eficazes. o faltoso é o que não cumpre.

Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. penal. Quando mexeu no 442º. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. faziam-se casas. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980). a indemnização já não é o sinal em dobro. 43 . O imobiliário estava sempre a subir.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. No Direito romano tinha um sentido confirmatório. 30%. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. na fase executiva. Houve várias propostas para resolver a situação. O problema viria a ser resolvido em 1986.  Quando há tradição da coisa prometida. Assim. os sinais deixavam de valer tanto. que chegava aos 20. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. Tem um direito de liquidação judicial. no entanto. se houve incumprimento. O retentor pode. mexeu no regime do sinal. Enganou-se e mexeu em tudo. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. Assim.No Direito grego antigo. Em 1980 havia grande inflação. o sinal ganha coloração particular. A jurisprudência. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. vender a coisa e recolher o preço. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. Quando metido no contrato-promessa. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. celebrando-se contratos-promessas. Afastouse a possibilidade de execução específica. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. Tornava-se compensador não cumprir. mas o valor actual da coisa. A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. O Governo resolveu intervir. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. A ideia era: como a inflação é muito alta. O que estava em causa eram casas de habitação. ajudava a provar a existência do contrato. com a inflação. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). recebiam-se sinais. o sinal tinha alcance coercivo. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. começou a resolver o problema diferentemente.

exige mais garantias. O Prof. perderam a objectividade. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. Tendo havido mora. congelando o direito ao valor da coisa. Se houver sinal. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. Assim. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. é mais selectivo. introduzir correcções. Se houver morar. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. ele é deduzido do preço. Todavia. ainda assim. Tentou-se. Assim. 44 . não sendo necessária a interpelação admonitória. Em 1986 o legislador interveio novamente.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. Houve excessos legislativos. O hipotecário ver-se-ia preterido. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. doutrinariamente. não há logo incumprimento definitivo.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. ficou consagrada a indemnização pelo valo. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção. com a solução do Prof. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. fixa-se um novo prazo. Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. pela interpretação). mesmo que anteriormente registada. a indemnização seria o valor actualizado da coisa. A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. Lobo Xavier. a primeira consequência é entrar em mora (805º).  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. Vários AA. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. Tentou-se limar algumas arestas. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. Se houver mora. a favor do promitente adquirente traditário. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. É uma “excepção de cumprimento”. É um esquema complicado. Além disso.

É um contrato que dá direitos muito precários. desaparece também o sinal. a troco da entrega da casa. A resolução. No Direito funciona-se com prazos. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. O Prof. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. destrói o contrato retroactivamente. se há sinal. quando haja incumprimento. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. Neste momento. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. É verdade. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. Alguns autores dizem que. Tradição da coisa Tecnicamente. É posse semelhante à do arrendatário. O contrato-promessa já é um contrato misto.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. 3. não há posse. Se for um representante. O que é que as partes pretenderam? 1. A menos que. Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. porque tem uma cláusula daquelas. A distinção é importante. Se é esse o sentido da cláusula. deve ser tomado seriamente. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. 45 . 2. operando o sinal. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. É uma posse muito elementar. Se resolve o contrato por incumprimento. Um contrato de comodato. Assim. o que deve fazer é resolver o contrato. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. É celebrado contrato-promessa. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. Se for possuidor tem defesas possessórias. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. O sinal visa uma função compensatória. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. Pode ser uma gentileza mais demorada. bem entendido. no entanto.

O interessado pode ainda optar pela execução específica. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. Leva ao mesmo. Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. Se de facto houve perda do interesse. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. Assim. pelo que há entrega da coisa. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). Contudo. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. muda o regime. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. seria impossível apresentar-se a cumprir.4. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. também. dir-se-á que não podemos obrigar. 46 . A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. Se houve. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). houver sinal. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. Mas isso já estava subentendido. soluções alternativas à indemnização. Consoante o tipo de posse. é muito difícil determinar a indemnização. Quando se trata de acções humanas. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. houve incumprimento. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. A solução mais normal é a execução específica. Se tivesse havido incumprimento definitivo. Em 1980 o regime foi alterado. Aqui temos posse em termos de propriedade. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). Foi uma ideia prussiana. Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. já vinha de trás. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. Estamos perante um facto. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. Se há excepção do cumprimento. por maioria de razão também há sinal comum. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. Passa até à frente do credor pignoratício. através dos seus meios. mas não especificou. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. Assim. Já está tudo pago. para além da tradição. colocando no terreno.

Perante o incumprimento. Conquanto que o conteúdo seja determinável. Haverá consequências indemnizatórias. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. Mas nem sempre. p. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. no momento em que é decretada a execução específica. O Prof. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. ex. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. contudo. O tribunal não emite. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo.Houve soluções doutrinárias. 47 . em 1980 o legislador foi desastrado. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. Contudo. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica. Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. Aí. Simplesmente. a declaração faltosa. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. é muito difícil calcular a indemnização. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. mas vende a C. Simplesmente. as custas ficaram por sua conta. Não valerá a pena recorrer à execução. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). Nos outros a questão não se colocava. verdadeiramente. já que a prestação se tornou impossível.  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. Os riscos são compensados pela presença do tribunal.

Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. poderia ser revogado. Contudo. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. Não pode haver execução de contrato que não existe. p. No caso do contrato de trabalho. Contudo. limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. Nessa altura. pode acontecer que. não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). Quando nem sequer há prometibilidade (doação. Igualmente. Mas a lei admite mandato irrevogável. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. não se iria muito longe (despedimento. Todavia. mesmo que houvesse. 48 . MC entende que sim. o 830/1 admite a possibilidade. ex. A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias. comodato).  A exclusão convencional. E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. depois. Tem de haver ponderação de interesses. Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato.) também não pode haver execução. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. in fine). O comodato pode cessar a qualquer altura. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. Mas.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. por sua natureza. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. Não faria sentido a execução de um contrato que. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. se verifique uma alteração das circunstâncias. Quando seja celebrado um contrato-promessa. Aí já faz sentido. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. tão pouco. demissão). É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. Se houver situação de inexistência. Mas aí não cabe execução específica. já não é de todo possível a execução. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. Já no penhor ou no mútuo faz sentido. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora.

Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. a lei alemã permite um pré-registo. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo. ficando privada do preço. A outra parte pode não ter sido paga. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. Se não for cumprido. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. Vaz Serra. mas contra o terceiro (Dias Marques). Ora. 49 . execução específica. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. Assim. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. outros recusam essa solução. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. O que está em causa é que o dever seja cumprido. Se o preço não for pago há injustiça.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo. Deixou de se exigir a escritura. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração.Depósito do preço A sentença é translativa. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade. O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção.  Há execução específica. vendendo a terceiro. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. registo da promessa. qual a solução? Normalmente. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. Através da eficácia real conseguir-se-ia. reforçando-se o registo. O Prof. Promove logo a transmissão da propriedade. alguns entendem que cabe execução específica. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. convenção expressa de atribuição de eficácia real. pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. que a foi buscar ao Direito alemão. escritura pública. não é norma de excepção.

haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. A primeira opção explicativa leva. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa. uma vez que dela nada sai de preexistente.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. à negação da própria promessa. delimitando. no fundo. na promessa. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. de facto. a celebração das promessas. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria. tão-só. pelo menos em parte. as partes regularem. tão-pouco é declarativa. em relação ao definitivo. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. Nos extremos. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). a contratar. 50 . Ao celebrar o contrato-promessa. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. o que esteja em causa. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. Mau grado a primazia reguladora da promessa. a execução específica não é puramente executiva. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. continua a ser um verdadeiro contrato. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. o contrato definitivo não perde em categoria. as partes obrigam-se. com o contrato definitivo. em função dele. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. por vezes. no entanto. em definitivo. ainda que devido e pré-regulamentado. um acto de execução do que já estaria combinado. De seguida. Justamente por. A lei proíbe. apenas. uma vez concluída. levar ao apagamento do definitivo. como contrato autónoma.

A favor do fundeiro (1535º). Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável. A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). por χ. Em regra. enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. Da mesma forma. o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente). A favor do comproprietário (1409º e 1410º). essencialmente. uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. tem. deve vendê-lo. a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. caso queira vender um prédio a alguém. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). As preferências no sistema jurídico No Código Civil. pelo artigo 1535º (1901º). O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato.  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. 1380º e 1381º). Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. O direito de preferência. caso este queira. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). A favor do co-herdeiro (2130º). 1519º e 1523º). perdendo a plena disposição do seu bem.O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. antes. 51 . Diz-se. que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). Por exemplo: o obrigado. isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. A favor da pessoa designada em testamento (2235º). em Direito. com o qual o negócio fora ajustado. De resto. nesse sentido. um dia. quando convencionalmente estabelecido. O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. pelo preço em causa. ao preferente. A favor do senhorio (1112º/4).

a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. nos termos do 414º. tem cabimento recorrer à acção de preferência.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. Na primeira. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. nesta última hipótese. ora reais.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). apenas uma das partes fica obrigada. sejam. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real. ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência. consoante a opção das partes e isso desde que. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso. uma vez que a outra emite logo a declaração final.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. Na segunda.  A opção – figura inominada e atípica. ao preferente. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. não podendo o preferente fazer seu o negócio. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. permite ao preferente exigir. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau. As preferências convencionais são ora obrigacionais. a um direito real de aquisição. relativo à acção da preferência.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito. na opinião dominante. a real. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. uma indemnização. ainda e por elas. a preferência legal advém da lei.  A preferência obrigacional. violado o pacto. 52 . a preferência real confere. ao obrigado faltoso. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização. quando violada. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais. todavia. observadas determinadas formalidades. Modalidades. através de uma acção de preferência (1410º/1). Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele.

Forma O artigo 415º manda aplicar. deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. pretenda contratar com o obrigado à preferência. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. quando o contrato preferível exija documento. Pergunta-se se o terceiro que. ao pacto de preferência. desencadeando o funcionamento do pacto. o terceiro deve-se abster de contratar. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. podendo. a menos que ambas as partes se vinculem. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas. eventualmente. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. como cláusula num pacto mais vasto. quer autêntico quer particular. Tendo conhecimento do pacto de preferência. o artigo 410º/2. E sendo este o caso. à preferência. a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. por definição. ao pacto de preferência. Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. os ónus e os encargos envolvidos. perante o Direito vigente. deve-se lidar com os deveres acessórios. é afectado de algum modo. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). por ele. Com uma prevenção: numa situação de preferência. daí resulta a aplicação. Bastaria a assinatura deste. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. a essa luz. próprio do contrato-promessa. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. de acordo com as regras gerais (219º). por parte de um terceiro. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). Num pacto de preferência comum. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. O modus praelationis.  Porém. de liberdade de forma. Todavia. em regra. 53 . das regras aplicáveis à capacidade. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. recebem os deveres. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. próprias do contrato preferível. mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. do princípio da equiparação. Propõe-se a aplicação. se o pacto for bivinculante (bilateral). de onde promanam deveres para ambas as partes. como a de fazer a competente comunicação.

não o quer. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que.  Ou renuncia à preferência. quer particular. a renúncia. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente.Na posse dessa proposta. de pleno direito. envolve. quer autêntico. por lei expressa. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal. com base nela. a comunicação para preferência deve ser feita a todos. já que o terceiro não celebraria tal contrato. o represente. ao seu direito. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada. e estará enganado. o contrato. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. uma de duas:  Ou o preferente prefere. pelo menos. exige-se forma escrita. modificações ou reticencias.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. A resposta do preferente. se vem mesmo a concluir na esfera deste. na mesma linha. ficando o contrato por celebrar. com alterações. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. pelo menos. por parte do preferente. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou.  Ou o preferente rejeita. por opção do beneficiário. declarando que não está interessado. É o que dispõe o artigo 416º/1. com poderes bastantes. Havendo aceitação da comunicação de preferência. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. Havendo vários preferentes. na presença de um projecto de contrato firme e sério. A não se verificarem tais requisitos. A comunicação não está sujeito. se não o fizer. esta deve ser feita ao preferente. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. o terceiro ficará com o negócio. 54 .  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. isto é. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. Finalmente. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. perfila-se o contrato definitivo. deixando o negócio para o terceiro que. convicto de que. afinal. por aplicação do 410º/2. A “aceitação” da comunicação para preferência.

não o sendo. divisível?  E não sendo divisível. o preferente desiste ou prefere em conjunto. As valorações subjacentes ao artigo 417º. Não o sendo. 55 . ou não. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. 1ª parte). A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. nenhum princípio de especialidade. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa.  Não sendo avaliável em dinheiro. apontam. no nosso Direito da compra e venda.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. De todo o modo. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. então. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode. Observar-se-á. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos. Existem três possibilidades básicas. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. é excluída da preferência. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. dependendo das circunstâncias. o contrato será seguramente único. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. Prestação acessória. Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. o que terá que provar. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. sem prejuízo para o interessado. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro. ou não. recebida a comunicação. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. quando se reporte a uma universalidade.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. podem umas e outros ser desagregados. pode.

É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. com o preferente. nas condições fixadas. abre-se licitação. desde que este as acompanhe.  Concluir o contrato em causa. em caso de violação de uma preferência real. a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes. fazer seu o negócio faltoso. Em termos de comunicação: ela deve ser feita. moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. em termos de aquisição. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. ao preço e à identidade do requerente. Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. afastando. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. Segundo o artigo 1410º/1. 56 . A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. com isso. seguramente. feito no artigo 410º/2. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. Havendo eficácia real. Verificados os pressupostos. A acção de preferência permite ao preferente. sem seguir o procedimento da preferência. a todos os preferentes. esta última: trata-se de um facere jurídico. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. sempre. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. A prestação principal é. os restantes: não havendo processo de escolha. 1ª parte). só depois se abrindo o processo de escolha entre eles. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2).  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito.

por analogia. declarações de ambas as partes.  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. que exigirá.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. Direito e deveres. aqui. na opção basta a declaração do beneficiário. na opção. na conclusão. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. que fixe um prazo razoável para o seu exercício.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. o artigo 411º: o vinculado pede. todavia. por ambas as partes. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo. do definitivo. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. um verdadeiro contrato-promessa. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”. Aplicam-se aqui. passando a integrar o definitivo. por uma simples manifestação da sua vontade. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. execução e incumprimento No que toca ao optante. A opção. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. perante o concreto contrato definitivo em causa. na execução. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. Haverá que aplicar. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa. por mera declaração unilateral. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. tendentes à conformação do contrato definitivo. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. o titular ou o optante) recebe o direito de. Logo.  Quanto à execução. ora. dá azo ao contrato definitivo. só deverá ter lugar se uma das partes quiser. só será válida e eficaz se. ele recebe o direito potestativo de. directamente ou por analogia. provocar o aparecimento do contrato definitivo. no cumprimento. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). a celebração. 57 . esta não depende da intervenção da parte vinculada. ao tribunal. da posição de contratante e do valor que ela representa. excepto no que tanja ao cumprimento deste. a opção cessa. o qual.

com relevo para o pagamento do preço da opção. Funções. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. o artigo 272º: na pendência da opção. Como princípio geral. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. que exercerá o seu direito se o entender. O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. no memento escolhido. Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. no mercado. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). as partes congelam as condições da venda. O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. o qual deve ser cumprido. a qual adquire um direito à prestação. Assim. há que lhe aplicar. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. a cargo. a sua opção. pode facturar o premio da opção. por via dos artigo 295º e 221º/2. por seu turno. O risco desaparece. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. Actuada a opção. 58 . ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. do definitivo. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção. O obrigado. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes.todavia. o artigo 762º/2 e. No plano do seu conteúdo. do optante e do adstrito. natureza e aplicações Celebrando uma opção. uma das partes (o promitente) assume. directamente. entre outros aspectos. dando-a em garantia ou alienando-a. Ainda o mesmo optante pode colocar. Ambas as partes ficam . partes no contrato. respectivamente. por analogia. surge o contrato definitivo. designadamente para a parte optante. perante a outra (promissário). de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º).O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito.

 A de exigir. As prestações que. pelo contrato a seu favor. de forma geral. O terceiro adquire o direito à prestação.  A de exigir. ao promitente. deste cerne. a prestação principal O promitente tem. devam ser trocadas entre os mesmos. fundamentalmente. as prestações ou outras vantagens que. o direito à prestação: independentemente da aceitação. por exigência deste e do promissário. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. porventura. a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1). 59 . nessa altura. se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. 1ª parte). O regime concreto de tais prestações.  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. quando esse seja o conteúdo da promessa. imediatamente. Tal permite excluir. contratos como o casamento ou a doação. lhe possam advir da relação básica (405º). pelo contrário. independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. especificamente. A posição do promitente. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal.  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem. A posição do terceiro O terceiro adquire. a contrario e 448º/1. perante o terceiro. do promitente. porventura. excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte.A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. do promitente. o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. a efectivação da promessa ao terceiro.

Na linguagem desde subsector. nada fazer. quando se desempenhe perante o terceiro. pode ser menos diligente ou até. no limite.  Torna a promessa firme (446º/1. de lealdade e de informação. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. pode desinteressar-se dela ou. Pode-se. por não ter sido celebrado com o terceiro é. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. sobre si. desconhece os precisos termos envolvidos. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios.Perante um contrato a favor de terceiro. falsificar a conduta a que se encontra adstrito. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1. não tem. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. ao abrigo das regras gerais (217º). 60 . a contrario e fortiori).  O promissário. admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme.  O terceiro. antes dela. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. Num primeiro tempo. por não ser o destinatário da prestação acordada. O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. a contrario). Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. instável. porém. Electio ou electio amici: a escolha. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. ainda. através da regra da boa fé (762º/2). a fiscalização da contraparte. não sendo parte do contrato. Eligendus: o terceiro. Desde modo. Esta apenas consolida um contrato que. antes de ter ocorrido a sua nomeação. o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou. pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. logo. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. de adesão. Amicus: o terceiro.

Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato. Ele implica. produz efeitos em relação ao contraente originário.  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. num todo coerente. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. pois. efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta. em princípio. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios. 61 . inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. A electio tem. Embora a lei não o diga. seja em termos técnicos. Como tratá-las? Com o tempo. Feita regularmente e comunicada a designação. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). do próprio contrato que a contenha. a cláusula “pessoa a nomear”. não reunindo as características perfeitas do contrato. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. Concluído o contrato para pessoa a nomear. eficácia retroactiva. Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. tal como sucede com a ratificação (262º/2).Regime. quando superior (454º/2). A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. concordância do amicus e electio. o negócio consolida-se na esfera do stipulans. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira). no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. altura em que o contrato ficará sem efeito. As fontes paracontratuais Ao longo da História. ao outro contraente. dele se aproximavam. foram surgindo figuras que. que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. seja em moldes sócio culturais.

 Situações de relações jurídicas complexas.  Os contratos com protecção de terceiros.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. esta relação fundir-se-ia nele. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. chega-se. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos. muitas vezes.  As relações contratuais sem contrato. sem integrar previsões contratuais. Sublinha-se que. ser reconduzidas ao contrato mas que. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique. o contrato. 62 . A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual. uma parte razoável do seu regime. postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. de lealdade e de informação.  Inserção em organizações comunitárias. no tráfego moderno de massas. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. seja nos preliminares. Relações paracontratuais em especial 1. pelo menos. depois. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). na sua origem. tivesse ocorrido qualquer contrato. seja na formação. Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. através de meros comportamentos materiais. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social. no espaço jurídico. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que. com ele.  Situações de proximidade contratual. para certos fins. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. em termos rigorosos. isolam-se:  As relações contratuais de facto. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais. derivada do facto simples de um contacto social. execução de relações duradouras. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. Surgindo. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual.

as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. não seja parte. igualmente. Havendo proximidade. nele. no caso de violação. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. independentemente de qualquer especial vontade. De novo há um círculo exterior. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. por estar vulnerabilizada. que veicula os valores fundamentais do sistema. O contrato é anulado. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. Também está claro e assente que. Em termos gerais. 3. promane deveres acessórios (de segurança. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. revogado ou denunciado.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. e existe. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. Com as devidas adaptações. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. por qualquer razão. ainda que insubsistente. 63 . as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. o Direito manda proteger. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. A “fonte”. mercê dos contratos preliminares. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. em face de um contrato:  Alguém que. Em termos analíticos. Surge uma impossibilidade superveniente. no contrato considerado. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. perante a prestação principal e em face do credor. Há impossibilidade inicial da prestação. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. que se reporta aos bens postos em jogo. o círculo interior. tenha uma proximidade visível. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. ainda. nas protecções dispensadas. pelas partes. para terceiros. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. 2. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. O círculo interior. O contrato é resolvido.

por analogia. com facilidade. o inerente instituto. operando o contrato. por sua livre e exclusiva vontade.  Um numerus clausus de realidades relevantes. podendo. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. ad nutum. Mas têm moldagem contratual. 5. para as partes. No que se lhe reporta. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. fique adstrito a realizar uma prestação. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão.Tecnicamente. uma vez que ele não é partes. 64 . Em rigor. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. com ligeireza. uma regra de tipicidade. tais deveres não têm origem contratual. de obrigações futuras. as normas típicas. no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. ser globalmente denominado culpa post factum finitum.  Os perigos da adstrição ad nutum. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. aqui. São os deveres pós-eficazes. aplicar. de lealdade e de informação. o proprio acto unilateral (457º-463º). diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. a responsabilidade obrigacional. 4. “negócio” engloba. cessado o contrato. o que (ainda) não têm e subscreverem. perante eles. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. nesse sentido nuclear. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. aparentemente. De facto. O artigo 457º proclama. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se. obrigações que (só) irão pensar depois. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. dando origem. que explique os deveres resultantes. em termos jurídico-positivos. mas noutros locais. como um simples facto stricto sensu. ainda se poderiam manter determinados deveres. quando violados. Antes de fundam na lei.  A proibição de. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. O negócio unilateral implica que alguém. fora de série. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta.

Em bom rigor. Do testamento. é aparente. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. deve imperar. proclamada no artigo 457º. Do anúncio público (225º). Deve-se ter também em conta os terceiros que. Quanto muito. Assim:      Da proposta de contrato. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. até prova em contrário (pelo devedor). a primazia da materialidade subjacente que. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). No que tange ao autor do acto. devidas. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. também aqui. importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. sem indicação da sua fonte. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. igualmente por via da boa fé. ainda. com a promessa pública como modelo. pois.Mantém-se. isto é. Da oferta ao público (230º/3). Negócios unilaterais em especial 1. por força de qualquer outra fonte. a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. numa segunda vertente. Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. deve sublinhar-se. fica o credor dispensado de a exibir. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. Dogmática geral O negócio unilateral. pelo princípio da causalidade. para além da concreta eficácia suscitada. anteriormente. sobretudo quando interessados. quanto à existência de adequada fonte das mesmas. de que. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. a tipicidade dos negócios unilaterais. no Direito português. A regra não origina nenhuma obrigação nova. já antiga. De contratos com apenas uma assinatura. que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. cabe salientar a confiança que. ainda. Os negócios unilaterais distinguem-se. existe aqui. 65 . passando pela tradição de uma coisa. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. limitada à inversão do ónus da prova. a afirmação.  Fonte essa cuja existência se presume. pode-se admitir tipos abertos. Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. de resto. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo.

muito claramente. o concurso ficaria indefinidamente aberto. A justa causa será. aqui. seja revogada (461º/1). que torne a promessa inexigível. 3. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. Concurso público O artigo 463º. tendo prazo. ainda. ele extinga. acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º). aqui. in fine).2. 66 . pode. deriva. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. propriamente obrigado. constituir o contrato. surgindo alguém nas condições nela previstas. desde logo. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). o promitente adstrito à sua efectivação. Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. seja revogada. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. por justa causa (461º/1.  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. um motivo atendível. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. só nessa altura se constituindo. fica vinculado desde logo à promessa”. exclusivamente. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. por anúncio público. Até que. objectiva ou subjectivamente. o promitente fica obrigado:  Até que. antes dele. pela aceitação. na sua falta. relativo a concursos púbicos. pelo cumprimento.     Até que expire o prazo nela fixado (460º). da oferta ao público (230º/3): nesta. constitui uma especial modalidade de promessa pública. naquela. Feita a promessa. ficando. da indeterminação do destinatário. a sua obrigação. Até que. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. apenas. A situação distingue-se. às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). não tendo prazo. a título de prémio. O público.

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