Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

1

Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

2

 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

doutrina. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. renunciem aos seus direitos. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade. Mas há zonas periféricas. A causalidade contrapõe-se à abstracção. É muito elegante linguística e estilisticamente. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. analítica. que merecem reforma em Portugal. O Direito civil é muito estável. todavia. que nascem de uma determinada fonte. Causalidade Significa que. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. O legislador optou por emitir leis avulsas. 4 . prescrição. É muito difícil mexer nele. é abstracto. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. Foi muito pouco mexido. É um código típico do início do séc. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. Romano-germânico Sistema centrado no BGB. XIX. 809º. A codificação da boa-fé. antes de terem as coisas. no Código Civil. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. 457º. nesse caso. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. transposição de directivas comunitárias. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. A responsabilidade civil é ampla. 812º. 942º. regras. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. 994º). 947º. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. baseada num conceito vago. p. 2. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. Resulta do movimento da pandectística. as obrigações. vários artigos em que podemos detectar esta orientação. por regra. ex. Protegem-se as pessoas contra si próprias. O BGB é de 1900. daí tal importância. Não se quer que as pessoas. para não darem o que não têm. O BGB. a obrigação não subsiste. 863º. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. 4. defesa do consumidor). doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. (448º.Existem. Se a fonte for inválida. O Direito das Obrigações é super estável. A responsabilidade civil é fechada. A validade de um cheque. No entanto. não depende da sua fonte – o negócio jurídico. O Direito das Obrigações alemão é líder. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento..

Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. Anglo-saxónico É um mundo à parte. canónica. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. 5. No Brasil. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. Além da redistribuição germânica das matérias. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. na China não aconteceu isso. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. Mas. Naturalmente. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. Este sistema não é codificado. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. sendo uma enorme influência. 5 . mantiveram-se em vigor as Ordenações. Chinês É muito antigo. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. O Direito português é aberto ao exterior. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. Mas foi uma novidade científica que vingou.3. entre os conceitos desta família e os das anteriores. surgem institutos até então desconhecidos. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. O Código não é de inspiração alemã. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. XIX. Há pouca influência romana. Há união entre religião e Estado. a partir de 1911. islâmica. Não há correspondência. O Código de Seabra é. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. 4. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. no entanto. Antes da aprovação do Código de Seabra. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. Mas tem uma organização e conceptualização originais. sendo revigorados os já conhecidos. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. há um período de pré-codificação. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. muito avançado. não havendo negócio jurídico separado dos contratos. sequer. tal como a cultura chinesa.

a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. O português era a segunda língua. Há algum atraso na sua aprovação. houve maior inteligência política. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. Em Moçambique. O CC de 1916 tem já influência germânica. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. Em África Em Angola. marcaram as primeiras reconstruções do CC. como membro da OEA. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. O Código brasileiro aparece só em 1916. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. Em Macau. O Código de 1966 vigora actualmente. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. numa primeira fase. quando ocorreu a ocupação. As revisões ministeriais do Prof. mas havia a barreira linguística. Na Guiné. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. 6 . procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. tendo-os traduzido para chinês. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. Tem influência germânica e do Código de 1966. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. Ele é de 1966. mas começa a ser preparado no pósguerra. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade.No Brasil Na doutrina brasileira. voltou a vigorar o Direito português. foi aprovado um Código Comercial novo. sendo substituída pelo inglês. ainda em meados do séc. Antes da entrega de Macau. mas já havia recepção do pandectismo. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. Em Cabo Verde. verificou-se a invasão indonésia em 1975. um período de exegese. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. XIX. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. Em Timor. vigora também o código de 1966. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. depois da aprovação. com Teixeira de Freitas. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. O Prof. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. numa segunda fase. Todavia. Com a independência. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). Foi necessário recomeçar. logo em meados de oitocentos. com algumas alterações após a independência. Houve. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge.

na área dos negócios e nas relações entre povos. também com as operacionais: inglês. Se não o fizerem. Em termos planetários. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. Há as directrizes e os regulamentos. Todavia. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. Mais tarde. A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). entre interpretação e integração. Mas havia uma grande projecção ultramarina. um pequeno país na Europa.. Turquia. Coreia do Sul. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. Ciência do Direito. Nas obrigações. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. mesmo quando escritos em inglês. a grande influência.O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. a directriz não vigora. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). que é do final de Oitocentos). quantidade de falantes da língua. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. hoje.) de sistemas próximos do germânico. As regras sobre a moeda única. provêm de regulamento. etc. 7 . evolução histórica. O caso português é singular. O Direito lusófono não tem só essa influência. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono. Brasil. ex. De um modo geral. ganha pelo mérito. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. Quanto a autonomia doutrinária. uma enorme barreira linguística. Há. ao contrário do que acontece no Direito português. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. Mas na área do Direito não é assim. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. predomina o inglês. foi do Direito alemão. No Direito francês há distinção. Assiste-se à implantação (Portugal. A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. até. não havendo confusão com os sistemas da pandectística. É um Direito que tem uma evolução histórica. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. Japão. que suportou a nossa independência. estão em causa relação inter-pessoais. Somos. língua. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. não são de common law. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. Há 23 línguas oficiais na Europa. é diferente. O Prof. de Common Law. francês e alemão. p. Cumpre saber que língua é utilizada.

O Prof. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. não há um Governo europeu. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. Antigamente. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. Fala de um bem a prestar. há muitos constrangimentos. No espaço europeu. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. mas com exagero. dada a insuficiência da língua inglesa. havia um domínio de alguém sobre outrem. forçar a vontade humana. ele começa a desaparecer. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local.No tempo do ius commune. intra muros. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. No plano oficial. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. Nós. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. como a falta de competência dos órgãos europeus. há 500 milhões de pessoas. O melhor Direito é o interno. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. quando existia obrigação. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. para SAVIGNY. e não a totalidade. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. juristas portugueses. Não teve consequências. 8 . O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. Esta noção presta-se a críticas. MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. MENEZES CORDEIRO. nem uma política externa comum. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo). não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. Para o Prof. O direito subjectivo. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. Se A tem direito. a vantagem é o bem que será prestado. havia um Direito europeu das obrigações. era o poder da vontade.

no início. A obrigação não é apenas um bem a prestar. As pessoas morriam. independentemente de terem culpa). Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. assentes apenas em deveres acessórios. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. Pode ser um facere ou um non facere. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. Assim. surge a nova noção de obrigação. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). surgiu a respondência. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. Primeiro. o dever é sempre um constrangimento ético. já é um valer em si. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. Na prescrição. 9 . pode-se atingir o seu património. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. Pode haver obrigações sem prestação. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. pelo que é excepção o recurso ao património. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). mas o seu património. sim. Depois. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. as obrigações são cumpridas. um direito ao património do devedor. No séc. O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. todavia. extingue-se a haftung. XIX. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. A ideia remonta ao antigo Direito romano. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. obrigações. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. Ela. Em regra. Os romanistas diziam que não havia.Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. Se o devedor não cumprir. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. Há. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. mas as suas obrigações permaneciam. independentemente de ser cumprida ou não.

A obrigação. 10 . por si só. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. Se são. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. Se é assim. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. em termos pragmáticos. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. deveres secundários e deveres acessórios. Se não são. com o credor e vice-versa. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. A obrigação pressupõe um dever específico. noutros. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. é o fiador que deve cumprir. Em certos casos. pode ainda não existir. etc. não interessam. um conceito de obrigação. a responsabilidade é patológica.. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. outra concepção diz que há um direito real de garantia. O credor fica adstrito a deveres de segurança. pode haver nulidade. A prestação pode não existir. colaboração. Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. Mas. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. com dois regimes). cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. O BGB já não exige natureza patrimonial. qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. A obrigação do fiador é secundária. Estas construções são úteis. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. tratado mais à frente. sabe-se hoje. O regime é solicitado para um tratamento unitário. só. não tendo interesse para o Direito nesse caso. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. pelo que obrigação não é uma prestação. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. linguística. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. noutros ainda. não podendo servir para construir. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. Se o devedor principal não cumprir. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. compreende um dever de prestar principal.

O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. mas pode receber dinheiro.Se um artista se obriga a entoar uma ária. No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. há sanções pecuniárias compulsórias. há ressarcibilidade dos danos morais. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. de sistema. Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). não necessariamente em todas as situações. O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. o 398/2. Hoje isso não é assim. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. à partida. o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. É assim ao nível global. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. 11 . As relações de obsequiosidade não são. Pode haver execução específica. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. acção directa. mas havendo danos. Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. boa educação) que não relevam para o direito. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. pode haver responsabilidade pela deferência. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. compensação – e não de equivalência. Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. tem conteúdo económico. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. 2ª parte remete para o interesse. não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. Não tem de haver natureza patrimonial (398º). Tudo pode ser avaliado em dinheiro. O 397º define obrigação. Direito. Como são ressarcíveis. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. ela é avaliável em dinheiro.

que são absolutos? Em termos estruturais. Noutra acepção. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. por exemplo). Quanto aos acordos de cavalheiros. A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. A convida B para dançar. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. não. Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. relações de vizinhança. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. a relatividade existe quando há relação jurídica. Uma última. Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. Nas obrigações. mas não se pode esfarrapar o par de dança. Deve-se sempre perguntar qual a origem.Há também deveres de protecção. contrapondo-se aos direitos reais. 12 . mas não se pode retirar daí uma regra. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. Em obrigações. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). há figuras como a execução específica. Em direitos reais há só uma. Os direitos potestativos são absolutos. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. absoluta. Assim. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). o que tem de surgir é o serviço. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. são para cumprir – se não forem. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. seria sempre necessária a mediação. no caso dos direitos reais). Os créditos não são sempre relativos. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. encontramos sempre uma dança a dois. no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. A obrigação é uma relação jurídica. Se a prestação for um serviço. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. Os acordos de cavalheiros são relevantes. há créditos absolutos. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. o credor aproveita imediatamente a coisa. nos direitos pessoais de gozo. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. erga omnes. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. Podem fazê-lo? Em princípio. duas partes. o direito real é uma situação absoluta. Esta noção vale o que vale.

Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. No início. PESSOA JORGE). Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. pode existir oponibilidade em sentido forte. relações jurídicas. A doutrina tem evoluído nesse domínio. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). Deveres acessórios. Há uma acção. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. com os pactos de preferência. o que lhes daria uma tutela relativa. com MANUEL DE ANDRADE. Mas há também deveres no tráfego que. Se é assim. médio ou fraco. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. que se manifestam predominantemente perante o devedor.A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos.. A eficácia interna é entre credor e devedor. Havia uma quebra maliciosa do contrato. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. Se é assim. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. Mas inverteu-se a tendência. Há contratos com protecção de terceiros. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. se incumpridos. As obrigações são vínculos. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão. p. dão lugar a responsabilidade civil. Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. No sentido forte. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. a figura do terceiro cúmplice). Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. A nossa jurisprudência acordou em 1964. Mas há outras regras. Na Alemanha diz-se que não. a externa é perante terceiros. 13 . em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). A regra é de que a eficácia é meramente interna. Faz sentido que haja defesa contra terceiros. ex. então há oponibilidade média. É o que acontece com os chamados deveres de tráfego.

recorre a tipos – tipicidade. países que admitem a figura. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. O terceiro não pode. protecção jurídica. Se existe uma descrição típica das condutas. Há tipicidade exemplificativa. Se ele for atingido. Quando faz descrição abstracta há atipicidade.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. pois. Quando a lei recorre a descrição da realidade. O legislador pode dar uma série de exemplos. não estão assim tão mal. Isso em princípio. aplicam-se os artigos 798º e ss. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. Quando existe um devedor. há responsabilidade. as economias britânica e francesa. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. como o penal ou o fiscal. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. em princípio inatingíveis. um terceiro faz-se passar por credor. Se A contrata com B. Argumentos a favor. Só pode estatuir com recurso a tipos. Isso justifica-se em ramos agressivos. 14 . Está tudo ligado. diz-se. Mas esses não se aplicam a terceiros. Noutros casos é mesmo normativa. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. é muito mais restrita. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. Dá. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. não havendo lacuna. Outros dizem que só o devedor pode incumprir. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. ao atribui direitos subjectivos. Todavia. Num ramo típico. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito.  Diz que está proibida a analogia. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. proíbe autotutela. descrevendo as condutas. há um numerus clausus – o número de factos é finito. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. Contratar-se-ia menos.  Diz que existe numerus clausus. os factos são descritos concretamente. Quando existe uma previsão normativa. mas há várias vias para o conseguir. O Direito objectivo. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal).

Nas obrigações isso não existe. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário.). Mas existem muitas obrigações nessa área. o regime tem um desvio. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. não há numerus clausus e pode haver lacunas. por via de condicionalismos históricos. por conjunções históricas. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. O Direito comercial é outro ramo especial. Obrigações. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. Há situações de direitos reais que. Isto é o núcleo duro – há desvios. O conteúdo distingue-se do objecto. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. um princípio de tipicidade. em princípio. ex. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. Mas tem regras especiais. O conteúdo das obrigações é sempre. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. p. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. tipicidade exemplificativa. O mediato é também designado por objecto. um direito e um dever. também. Há tipicidades de tipo científico. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. O contrato de trabalho é um contrato como os outros. Há. Os direitos reais têm. aqui. 15 . de facto. direito a uma coisa corpórea. invariavelmente. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade.Nos contratos há descrição abstracta. Aí. obrigações naturais. etc. ao contrário. tudo é parecido com o Direito das obrigações. Autonomizou-se do Direito das obrigações. venire contra factum proprio. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. É muito especial. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). Há. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho.

) e a aquiliana (483º e ss. Todavia. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. A de dare consiste na entrega de uma coisa. é um homem médio colocado no caso concreto. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. Uma prestação inclui necessariamente o esforço.: o médico não tem obrigação de curar. as partes pretendem uma determinada conduta. Temos de saber o que é exigível. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. Se se comportar abaixo da bitola. As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. São prestações que complementam a prestação principal. tendo em conta as circunstâncias do caso. É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. É o homem médio. É o critério do bonus paterfamiliae. Seguem o regime da prestação principal. Por vezes. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece. Foi o critério escolhido pelo legislador. Ex. noutras pretendem o resultado. Não se obrigam a resultados. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado. Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). Só é exigível que se esforce até esse ponto. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. São instrumentais em relação a ela. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra. Podemos. De pati. tem culpa. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. aquilo que for normal num homem médio. 16 . O devedor está obrigado à diligência média. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). De dare. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. A prestação principal é o núcleo da obrigação. Não se trata de um non facere. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família.). Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. por um esforço de análise. apenas de fazer tudo ao seu alcance. mas à prestação de um serviço com determinada diligência. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss.

segurança. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. nos deveres acessórios são ambos. Está em causa o princípio da tutela da confiança. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. Substancializam a obrigação. são soluções para problemas novos. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. Como decorrem da boa fé. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita. possível. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). A base legal é o 762/2. O legislador quer primeiro cumprimento. A indemnização é uma consequência de segunda linha. contratuais e pós-contratuais.  Círculo externo. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. A culpa in contrahendo. 17 . mas há deveres acessórios pré-contratuais. Os deveres acessórios são imprevisíveis. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo.. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. Não basta cumprir a obrigação. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. tal como se não cumprir o dever acessório. é preciso cumprir de boa fé. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). a obrigação é uma realidade muito complexa. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. determinável. integração de lacunas. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. só depois a indemnização. etc. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. depois a reconstituição natural. rerum sic stantibus. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno.O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. informação. observando os deveres acessórios. O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. Podem ser deveres de lealdade. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida.

5. 18 .  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). ex. Se sou obrigado a recorrer a perífrases. Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente.  Obrigação de abstenção (simples. Absolutas. A regra é da fungibilidade. prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis. atípica resulta da autonomia privada. A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei. etc. Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. porteiro. ambos).Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. Em princípio. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples). Não é o mesmo que coisa fungível.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. na relativa há. mas são regularmente utilizadas no sector.). outros não. relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. trata-se de obrigação complexa. p. combinadas quando estejam associadas a direitos reais. se consigo exprimir com uma única expressão é simples. 4. nas mistas há vários deveres. como concessão. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. 3. 2. Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos.). uns relacionados. Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei. transferência de propriedade.

Há aquelas que se concretizam momentaneamente. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. pelo menos. não obstante. também. com dilação temporal juridicamente relevante. para tutela da confiança. O Prof. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. É necessário. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. E relações perpétuas. ao contrário das obrigações comuns. 19 . existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. O DL 178/86 trata da cessação da agência. Obrigações duradouras Partimos da prestação. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor.6. Implica especialidade quanto à sua cessação. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. Há lacuna. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. Havendo agência. como reacção ao regime feudal. pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. o principal. mas pessoais. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). Hoje. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. Tipos de obrigações 1. As questões sociais vieram pugnar por protecção. entre o agente e o principal há relação duradoura. determinável. O Direito civil é um direito prático. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. A denúncia seria um dos esquemas. Se fosse logo satisfeito. um pré-aviso. O conteúdo tem de ser sempre. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. se tiver poder de representação celebra também os negócios). O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. surge na periferia. 2. A denúncia. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. era instantânea. forma de cessação de um contrato duradouro. Não se extinguem com o cumprimento. sob pena de nulidade (280º). em que havia obrigações perpétuas. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. A retribuição é a renda ou aluguer. claro está. e outras que se cumprem no tempo. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. É um contrato em especial. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição.

maior o lucro do trespasse. menor taxa de natalidade. por exemplo. económicos. actualizando as rendas. É um direito real. etc.  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). Em 2006 houve um projecto. Chegou-se a um regime vinculístico. Mas também não explica o que é o gozo. trânsito caótico. Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. é figura real o direito de locatário. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. Quanto mais baixa a renda. Em 1990 tentou-se de novo. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. contraindo empréstimos. as rendas vão degradando. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. Logo. inícios do séc. centros das cidades abandonados. Há bloqueios ideológicos. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. surgiram fenómenos e problemas de natureza social. A solução de quem chega ao mercado é comprar. Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. impedindo actualização das rendas. No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. porque ele é sempre real). detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos. Se houver inflação. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento.  Congelamento das rendas. Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário.No arrendamento domina a autonomia privada. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer. havendo transmissão da coisa arrendada. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio. políticos. O 1743º do CC francês determina que. mas também não chegou a bom porto. XIX. Em 1985 tentou-se reformar. Se é assim. XX. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção). Chegou-se a este panorama aos poucos. 20 . Surgem teorias mistas (entre nós. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas. Nos finais do séc. Há subúrbios. com a industrialização e grande pressão urbanística. Obrigação de deixar usar? Seria negativo. para o futuro).

Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. é histórica. Admitese a existência de direitos de gozo. A pessoa estava obrigada a fazer algo. Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. Em geral. com recurso aos tribunais). Obrigações naturais É figura muito estudada. em regra. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. pelo que ele se pode defender sozinho. Juridicamente não tinha personalidade. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. tendo um direito de preferência sobre a coisa. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. no conflito com outros direitos. como direitos reais. nesta matéria o regime dos direitos reais. de forma similar aos direitos reais. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. porque não era uma pessoa. Mas mudou de ideias. na locação. pois. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. mas sem shuld. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). Essa tese é inaceitável. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. entre os direitos reais e os de crédito. já que é ela que as explica. por ser figura próxima do direito de crédito. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. Seguem. Comportam-se. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). Uns são pessoais e outros são reais. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. Mas pode ser integrado no Livro II. Era um débito sem respondência. Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). Não tem uma grande relevância prática. defender o seu direito face a terceiros. o que os aproxima dos direitos de crédito. 3. 21 . o locatário pode fazer obras. O Direito dizia que ele estava obrigado. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. Estabelece que prevalece o direito real.

Hoje. aplica-se o regime das obrigações civis. Havia ligação entre o Direito e a moral. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. com base no 404º. não posso pedir devolução do que paguei. Isso não é verdade. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. mas também as obrigações 22 . Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. As obrigações naturais. jurídica.A isso chamaram obrigações naturais. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. Noção legal (402º).) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos. A lei. Aparentemente. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. É jurídico. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente. não jurídicas. A obrigação natural deve ser. sociais. pois. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas. diz-se por vezes. Mas isto não pode ser.  Não exigibilidade judicial do cumprimento. Ser jurídica é estar prevista como obrigação. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. Não pode ser exigível judicialmente. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. Se eu pagar. diferente de um Direito moralmente enformado.  O 404º. a moral é uma coisa e o Direito outra. No período medieval. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. Em tudo o resto. Todavia. Mas são aqueles os dois momentos cruciais.  As obrigações naturais são típicas (809º). O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. Não podem ser constituídas por contrato. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. A justiça é aquilo que o Direito consagra. Tiveram uma evolução muito atormentada. etc. mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. etc. Esta matéria está regulada no 402º. transformando-as em naturais. porque elas são típicas. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. não têm valor patrimonial. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais..

que podem ser de facere. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. podendo ser qualquer litro de azeite. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. é fungível. Ele é determinável mas não está determinado. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. dando lugar a obrigações genéricas. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. Só se determina o género. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. Não é o sentido do 400º. rege o favor debitoris. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. há uma lacuna negocial. 4. Os contraentes podem estipular diferentemente. Desde que a coisa a entregar não seja única. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. quantidade ou qualidade. As obrigações genéricas são muito importantes. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género.civis podem não ser cumpridas. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. 23 . escolhe o devedor. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. Na falta de acordo. com a massificação das transacções. Logo. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. Não havendo convenção. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. há obrigação genérica. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. No Direito romano eram desconhecidas. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. O problema que surge é o da determinação do objecto. o critério deve ser o da mediania. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. se nada for estipulado. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. o critério é o da mediania. Deve-se escolher a coisa média. dare ou pati. A escolha e o risco O 539º estabelece que. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

24

7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

26

Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. para proteger o lesado. Os vários sujeitos têm relações entre si. na falta de estipulação em contrário. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. porque também temos de tratar das relações internas. Presume-se que as partes de cada um são iguais. 27 . Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. Em resumo. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. mas complexa. Existe uma presunção de igualdade das quotas. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. a lei estabelece solidariedade. Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. Nestes casos. O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota.noção. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. a regra supletiva é a da solidariedade. isso não multiplica a obrigação. É só uma. os credores). Quando vão cumprir. seja porque o regime é unitário. MENEZES CORDEIRO defende que. por exemplo). O credor só pode exigir de cada um essa parte. um concerto de orquestra. Na prática. Rege o 512º . seja porque existe expressão linguística unitária. de modo a assegurar o cumprimento. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. todos têm de prestar ao mesmo tempo. Aumenta a garantia do credor. há outras que só o são se as partes acordarem. que é sempre singular). Ao contrário da parciariedade.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. É um regime mais duro para o devedor. quando há vários sujeitos numa obrigação. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. No Direito comercial. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. Há obrigações que são à partida divisíveis.

Também existe. só dele (não os meios pessoais de outro). um credor e um credor pignoratício. o do devedor e o do fiador. A lei poderia ser fonte de obrigações. ter duplo aproveitamento. quando alguém contrata a solidariedade. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. É uma bipartição importante. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. pessoal seria a prescrição. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. No período da pré-codificação francesa. se não houver outro acordo. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. Surgiu o esforço de sistematização. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. presunção de igualdade (516º). p. p. uma classificação das fontes. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento. Mas é uma pluralidade heterogénea. há “gato”. acrescentou a lei. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. Na solidariedade há co-devedores. ex. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. Eram fontes que. significa que há alguma coisa a mais. não sendo nem uma nem outra. Normalmente. Precisa de um facto jurídico para nascer. São duas fontes fundamentais de obrigações. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. aqui. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. Uma prestação pode. tal como os direitos reais. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. ex. um A. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. tem regime diferente. já que o fraccionamento é feito posteriormente. p. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. ex. 28 . é natural que existam meios de defesa dos devedores. à estatuição de uma norma. O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS.). concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito.

O que se deve. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes. O Código de Seabra faia um elenco original. Faz-se. Enumera algumas fontes. a gestão de negócios. enumera-se o contrato. mas enumeração. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. Com o CC de 1966 também não existe classificação. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. O direito privado tem 2000 anos. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. em vez de adoptar a repartição tradicional. no tempo e no espaço. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. o enriquecimento sem causa. Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. nuns e noutros a mesma coisa. Já nos sécs. todavia. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. a partir do 405º. Em termos estatísticos. de se autodeterminarem. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. enquanto a lei é norma heterónoma. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. É difícil unificar. desde logo. que é comum a todos os direitos europeus. apesar de não haver classificação qua tale. 29 . Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. Mas ele é mesmo muito reduzido. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. referência à tetrapartição. o negócio unilateral. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. Há um encadeamento. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. ex. p. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). As divisões não significam. a melhor técnica é a tipológica. então.). Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. como se usou em 1867 e 1966.

vai na direcção do contrato. Daria frutos no período jusnaturalista. o próprio contrato perde espaço. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. de acordo com a escola histórica e a pandectística. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. É importante considerar o canonismo. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. Dá-se uma grande explosão. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. O CCP trata da matéria. 30 . O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. nas Obrigações é o contrato. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. tem menos aplicação. em lei de Maio de 1352. É um diploma bem feito. É necessário que haja propriedade. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. manifestação da importância do contrato. No Direito sucessório é mais raro. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. Os romanos conheciam figuras equivalentes. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. Mais tarde. Passava a ser vinculativo por isso. O contrato. consensual – basta haver contrato. D. a bona fides perderá o seu significado. É o sistema de tipo francês. O contrato valia por si. com SAVIGNY. O contrato tem um papel muito alargado. já o negócio obtém-se pela razão. mas se lemos artigos sobre negócios. No Direito da Família também: contrato de casamento. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. para o Prof. diz-se muitas vezes. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. O socialismo ataca o contrato. o contrato está sempre subjacente. Dinis. se a sociedade é subdesenvolvida. surgindo os contratos que hoje são básicos. mas existe pacto sucessório. está em crise. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. igualmente. Menezes Cordeiro. A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. Assim.

valores mobiliários. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. É óbvia. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. Tecnicamente. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. não se trata de um recuo do contrato. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos.  Áreas reguladas. Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. Tutela constitucional do contrato A CRP. racionalidade. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força. O contrato é um véu que tapa os olhos. mas de certos contratos. Graças às convenções internacionais. como o da boa fé. pois. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. pelo menos para coisas úteis. Mas isso não aconteceu. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico. O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos. etc. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. Não houve. necessidade de consagrar na CRP. no artigo 8º/2. Todavia.).  Intervenção judicial nos contratos. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português. porque não foi necessário. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. 31 . É uma visão pessimista. incluindo direitos de créditos). Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. os observadores previram explosão dos contratos. O contrato é. diminuindo a liberdade contratual (banca.). A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. seguros. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada.No séc. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. Se a lei não dissesse nada. pecuniários. não relevaria: eles devem ser cumpridos. O contrato tem peso em si. plurais. O 56º/3 garante a contratação colectiva. à partida. etc. Com a queda do Muro.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato.

consideradas mais sensíveis. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. vindo a aperfeiçoar-se. o contrato é bilateral. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. 2. em princípio também não o regula. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. Terceiro. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. Fala-se. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. Quando a lei não lhe dá um nome. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. Perante o conceito de negócio jurídico. maior equilíbrio. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. O contrato de hospedagem. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. nominados e inominados. regulando com especialidade. Consensuais. no entanto.1. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. fica fragilizada. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. mas a lei não o disciplinou. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. por vezes. 5. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. 3. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. é nominado mas atípico. Pode haver tipo social e tipo legal. bem como diminui as dúvidas. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. Todos os negócios são contratos bilaterais. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. reais quoad constitutionem e quoad effectum. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. não dá para classificar em abstracto. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. 32 . É distinção relativa. Segundo. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda).

O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. 33 . Tipologias de contratos Contratos típicos. 7. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. É sinalagmático. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. querendo. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). A generalidade das normas é supletiva. O problema é que. atípicos e mistos Os negócios jurídicos. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. Nos monovinculantes há duas partes. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. O estudo desta matéria não é fácil. uma vez que domina a autonomia privada. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. tendo em conta o relevo de que se revestem. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. O problema é que. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. a parte geral é muito restrita. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. se as partes celebram contratos mistos. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. as partes têm liberdade de celebrar livremente. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. no entanto. hoje. pois. As partes querem dar. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. Há. reciprocidade. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. em regra. A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. solicitar ao outro a efectuação da prestação. Tendo em conta este facto. É diferente da vinculatividade. Os gratuitos são. Em regra. Embora o 405º seja muito abrangente. Fica com o direito potestativo de. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. À luz do 405º. passa entre as gotas da chuva. 6. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. uma delas não fica obrigada. Há 16 contratos regulados no Código Civil. podemos distinguir entre negócios típicos.

34 . aplicando todos. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. mas como tendo a casa como refém. Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. Ex. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1. O resto é extra. mas recebe em géneros. não para que se porte como proprietário. embora tenha havido preço. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção). Estas teorias estão marcadas pela sua origem. devolve-lha. comida.: A compra por preço muito baixo. que lava também a roupa de cama. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa. em troca de explicações. B tem de guardar a casa enquanto A não paga.: A comprou 15 dias num cruzeiro. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. que absorverá os outros. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. cama. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. A tem dívida para com B. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. A autonomia privada é o pano de fundo.: A recebe habitação. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. etc. Complementados – aqueles em que existe um tipo base. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas.: A arrenda um quarto a B. Há mistura. na prática. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante. Ex. comida. próprias de vários contratos. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). entretenimento. Não pode ser um mero pormenor. não havendo uma principal. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. Ex. o locador. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. 4. Isto só resulta se houver confiança. Não tem salário. Ex. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. os serviços de limpeza. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos. quando acabar. 2. o negócio aproxima-se da gratuitidade. 3. Os combinados distinguem-se dos complementados. Em troca do preço recebe um quarto (locação). Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo.

ex. bem como sinergia do ponto de vista económico. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). O método foi o da analogia. a outra também. por analogia.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. P. Há semelhança entre a agência e a concessão. Em Portugal. se na lei houver solução. 4. sem intenção de enganar). 3. mas os serviços que o centro proporciona. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. Pode haver várias funções: simulação. aplica-se essa solução. é esse que se aplica. A seguir temos de resolver com analogia.2. Aqui. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. para que os distribua. Se ele corresponder ao tipo x. nomeia concessionários. e também com a agência. publicidade. no entanto. a quem entrega os bens. Mas não é normal. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. Pode. segurança. é uma área vinculística. Hoje. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). O que é específico é a marca. Regra geral. Quando nada se diz. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. o combinado e o híbrido. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. Recorre-se ao regime da agência. Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. A solução foi a da analogia. É contrato de agência que foi encontrado. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. aplicam-se as regras desse tipo. então celebra-se o y). gestão do centro. é também acompanhado de distribuição. 35 . Se não for suficiente. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. o arrendamento tem muitas normas imperativas. O limite é o das normas imperativas. a solução também foi a da analogia. Quando há lacuna contratual. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. a primeira solução é a da vontade das partes. O promotor é remunerado através da renda. acabavam os centros comerciais. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. Mas isso é raro. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. tal como o da vontade das partes. aplica-se o regime do tipo x. No caso do porteiro isso é evidente. mas o contrato é usado para uma função diferente. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime.

se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. interna e alternada. O fiduciário é proprietário. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. mas para o de terceiro. teremos uma figura real não prevista na lei. Ele é permitido se não violar regras imperativas. Descobrindo-o. Se ela tem natureza real. na contratação alternada valia ou um ou o outro. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. já que o Direito existe para proteger os fracos. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. aplica-se o regime correspondente. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. ao contrário do alemão. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. o fiduciário. Quem recebia a coisa com fidutia. Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. porque doações de bens futuros não são permitidas. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. a fidúcia é muito violenta para o devedor. São óbices consideráveis. No Direito português. era o proprietário da coisa. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. 36 . não permite divisão da coisa entregue. M. O fiduciário é de execução prolongada. Mas o Prof. O fiduciante é só entre outros. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. Se for à falência. Procura-se o centro de gravidade. Mas. em benefício de quem a entregava. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba.

a promessa valia apenas como prestação de facto. Há muita jurisprudência sobre isto. O contrato prometido e o contrato definitivo. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. Segundo o Código de 1867. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. por exemplo. tem eficácia real. Hodiernamente. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. devia ser celebrado por escrito. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. A celebração de uma escritura pública demora tempo. 442º. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral.. sem recorrer à escritura pública. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. No Direito português tem grande importância. de tipo processual. homogéneos e heterogéneos. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. há centros de gravidade múltiplos. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. Importou do BGB a execução específica. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente. 830º. É uma ideia relativamente recente. rege nos contratos mistos. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. de tipo não processual. para o sinal. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. A figura da absorção. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. execução específica). causais. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. sendo diferente o regime. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. dependentes e independentes. Mas nunca é irrelevante. A promessa por escrito era válida na hora. 37 .

Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. Regulativa autónoma. Desformalização. 5. Há contratos que. uma vez prometido. ex. na promessa tem de haver negociação). Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. os contratos são dotados de prometibilidade forte. É um formato. transacção meramente obrigacional. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo.). é possível a execução específica no caso de incumprimento. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). Mitigada ou mitigadora. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. para preparar o contrato definitivo. na promessa sabe-se). Quanto à prometibilidade fraca. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. do dever legal de contratar. O contrato-promessa distingue-se da proposta. P. Regra geral. Meramente obrigacional. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. Como no Direito alemão. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. mitigada. Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa. É a função preparatória. financiamento. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. regulativa autónoma.. p. por vezes. acabamento da coisa. tendo isso em conta. um modus vivendi. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. Por vezes.As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. do exercício de preferência. 38 . É usado. do contrato preparatório material. Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. sobre a entrega. Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo). 2. 4. desformalização. não podem ser objecto de promessa. do convite a contratar (A solicita a B que contrate). Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. etc. Função preliminar. do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. 1. 3. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. ex. um modo geral de celebrar outros contratos. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”.

Não se trata de um contrato-promessa. proximidade. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. tendo em conta o regime. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. e o outro não cumprir. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. etc. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. O problema é que. a proposta ainda não foi feita. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. Não vincula o promitente a doar. O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. etc. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. estão nos antípodas. mas que tinha um regime especial.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. às consequências pela ingratidão.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa. até é possível haver excepções ao que se disse. Pode fazê-lo. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. se não houve entrega da coisa. imperativo. É verdade que existe um regime jurídico. Mas. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. No contrato-promessa. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. a obrigar a algo que poderia revogar. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. Isso não vem na lei. Não há contrato-promessa de doação. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. mas ineficaz quanto às prestações principais. também não há uma regra expressa que o diga. 39 . O nome é parecido. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º).) que conduz à possibilidade de revogação.. como executo? Os clássicos diziam que não era possível. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. É um contrato à parte. à partida. do 1591º e SS. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. diferente do regime do contrato-promessa. mas a situação subjacente é diferente. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. Com o não cumprimento. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. Isso não é correcto. o que está em causa não é a regulação de um contrato.

aplica-se a regra geral. Por isso. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. tendo enorme relevância. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos.Hoje em dia. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. autêntico ou particular. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. Para o prof. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. é a solução. nos termos do 293º. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. Na prática. 40 . Se o documento é a materialização do acordo. ainda que não tenham as duas assinaturas. Se for livre também o contrato-promessa é livre. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. Mas isso é errado. O 410º/2 regula a forma. Assim. MENEZES CORDEIRO em princípio. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. é preciso o acordo de ambas). para ser quantos se obrigam. não se precisa é de assinar. o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. o regime é o do 219º liberdade de forma. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. não se entende porque só um assina. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. Na normalidade dos casos. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. Estipulações acessórias são válidas. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. em regra o promitente alienante. A questão das assinaturas é meramente formal. Uns defendem a redução. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. A conversão. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. Se para o prometido for necessário documento. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. outros a conversão. Não haveria problema de prova nem dúvidas.

Se a promessa for monovinculante. ficando com um contrato-promessa monovinculante. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. com excepção das relativas à forma e as disposições que. Trata-se. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. Pode ser paralisada através do abuso de direito. a se. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. Obedece a normas: os princípios da correspondência. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida.Mas não é fundamentalista. Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. de invalidade mista. possa reduzir-se o negócio. se nada disserem. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. este deve adquiri-la. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. MC sugere a ideia de modus contrahendo. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. p. integralidade. Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. por sua razão de ser. Surgiu na década de 1980. havendo grandes atropelos ao direito. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. também. A parte geral também tem regras. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. Nestes casos. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. concretização e boa fé. no 3. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). Havendo contrato-promessa. Neste momento. Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. o regime é o da reforma de 1986. em certos casos. ex. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. Este princípio. Há. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. 41 . Admite que.

se forem válidas e eficazes. violação de deveres acessórios.). O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. O incumprimento extingue a prestação principal.). que resolvem inovar. O definitivo está previsto no contrato-promessa. inclui-se a coisa no cumprimento. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º). declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss. local. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). Pode haver uma impossibilidade superveniente. Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. Se houver situação de mora. se não for cumprido. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé. mantendo-se o contrato-promessa. À partida. a lei prevê a interpelação admonitória. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. Pode haver recusa antecipada a cumprir. Pode acontecer que seja lacunar. O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo. não foi. O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. Muitas vezes há AA. lugar. há inadimplemento. aplica-se o 280º.. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. 42 . o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. Se isto não for possível. Ou há mora. Isto é uma trapalhada. Se não houver. Legitimidade. e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). etc. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. uma via crucis. se for cumprido. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes. O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. violação positiva do contrato. imputação. prazo. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). devolve-se em dobro.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. impossibilidade superveniente. Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. O promitente fiel é o que é prejudicado. etc. alterando as palavras. o faltoso é o que não cumpre. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. MC entende que isso não pode ficar assim. O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. pode haver resolução. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. Incumprimento há quando. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. se o contrato-promessa permitir.

a indemnização já não é o sinal em dobro. Afastouse a possibilidade de execução específica.  Quando há tradição da coisa prometida. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. A ideia era: como a inflação é muito alta. celebrando-se contratos-promessas. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. penal. Enganou-se e mexeu em tudo. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. O Governo resolveu intervir.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). se houve incumprimento. começou a resolver o problema diferentemente. o sinal ganha coloração particular. 30%. Assim. no entanto.No Direito grego antigo. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. Tornava-se compensador não cumprir. Tem um direito de liquidação judicial. Assim. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. ajudava a provar a existência do contrato. O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. na fase executiva. os sinais deixavam de valer tanto. o sinal tinha alcance coercivo. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. vender a coisa e recolher o preço. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. Em 1980 havia grande inflação. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. mas o valor actual da coisa. Quando metido no contrato-promessa. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). recebiam-se sinais. faziam-se casas. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. O retentor pode. O que estava em causa eram casas de habitação. que chegava aos 20. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. 43 . No Direito romano tinha um sentido confirmatório. com a inflação. mexeu no regime do sinal. O imobiliário estava sempre a subir. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980). Quando mexeu no 442º. A jurisprudência. O problema viria a ser resolvido em 1986. Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados. Houve várias propostas para resolver a situação.

O hipotecário ver-se-ia preterido. Se houver mora. Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. com a solução do Prof.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. Vários AA. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. Lobo Xavier. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. perderam a objectividade. pela interpretação). exige mais garantias. ainda assim. Tentou-se. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. é mais selectivo. Assim. Tendo havido mora. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. Assim. O Prof. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. congelando o direito ao valor da coisa. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. Além disso. Em 1986 o legislador interveio novamente. a favor do promitente adquirente traditário.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. não há logo incumprimento definitivo. Se houver sinal. É um esquema complicado. doutrinariamente. Tentou-se limar algumas arestas. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. Houve excessos legislativos. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. Todavia. a primeira consequência é entrar em mora (805º). É uma “excepção de cumprimento”. não sendo necessária a interpelação admonitória. ele é deduzido do preço. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. introduzir correcções. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. ficou consagrada a indemnização pelo valo. Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. Se houver morar. a indemnização seria o valor actualizado da coisa. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. fixa-se um novo prazo.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. mesmo que anteriormente registada. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção. 44 .

É verdade. Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. 45 . desaparece também o sinal. no entanto. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). Assim. tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. O sinal visa uma função compensatória. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. Um contrato de comodato. É posse semelhante à do arrendatário. Tradição da coisa Tecnicamente. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. Se é esse o sentido da cláusula. quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. bem entendido. Se resolve o contrato por incumprimento. quando haja incumprimento. É celebrado contrato-promessa. operando o sinal. A resolução. A distinção é importante. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. 2. O que é que as partes pretenderam? 1. O contrato-promessa já é um contrato misto. Pode ser uma gentileza mais demorada. a troco da entrega da casa. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. Se for possuidor tem defesas possessórias. Neste momento. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. deve ser tomado seriamente.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. É um contrato que dá direitos muito precários. 3. No Direito funciona-se com prazos. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. Se for um representante. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. destrói o contrato retroactivamente. se há sinal. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). não há posse. O Prof. A menos que. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. Alguns autores dizem que. o que deve fazer é resolver o contrato. É uma posse muito elementar. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. porque tem uma cláusula daquelas.

Mas isso já estava subentendido. A solução mais normal é a execução específica. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. Assim. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. houve incumprimento. para além da tradição. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. pelo que há entrega da coisa. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. é muito difícil determinar a indemnização. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). houver sinal. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. Estamos perante um facto. dir-se-á que não podemos obrigar. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). já vinha de trás. Se houve. Aqui temos posse em termos de propriedade. Consoante o tipo de posse. 46 . O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). colocando no terreno. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966. Se há excepção do cumprimento. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. Passa até à frente do credor pignoratício. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. Foi uma ideia prussiana.4. Em 1980 o regime foi alterado. O interessado pode ainda optar pela execução específica. também. soluções alternativas à indemnização. Quando se trata de acções humanas. seria impossível apresentar-se a cumprir. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. Já está tudo pago. Contudo. Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. muda o regime. através dos seus meios. Se de facto houve perda do interesse. Leva ao mesmo. Se tivesse havido incumprimento definitivo. por maioria de razão também há sinal comum. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. Assim. mas não especificou. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta.

Simplesmente. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. Os riscos são compensados pela presença do tribunal. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. a declaração faltosa. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. 47 .  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. contudo. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. mas vende a C. é muito difícil calcular a indemnização. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo. Conquanto que o conteúdo seja determinável. Simplesmente. já que a prestação se tornou impossível.Houve soluções doutrinárias. Contudo. A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. em 1980 o legislador foi desastrado. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. Nos outros a questão não se colocava. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. Mas nem sempre.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. O Prof. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. Não valerá a pena recorrer à execução. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. O tribunal não emite. ex. p. no momento em que é decretada a execução específica. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. Haverá consequências indemnizatórias. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. Aí. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. as custas ficaram por sua conta. Perante o incumprimento. verdadeiramente. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica.

No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. pode acontecer que. Aí já faz sentido. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. depois. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. Se houver situação de inexistência. Não pode haver execução de contrato que não existe. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora. mesmo que houvesse. Contudo. Quando seja celebrado um contrato-promessa.  A exclusão convencional. por sua natureza. Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. Nessa altura. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. MC entende que sim. ex. o 830/1 admite a possibilidade. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. já não é de todo possível a execução. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. p. Mas aí não cabe execução específica. Todavia. tão pouco. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. Igualmente. Tem de haver ponderação de interesses. E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. Mas. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. comodato). Não faria sentido a execução de um contrato que. Mas a lei admite mandato irrevogável. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. Já no penhor ou no mútuo faz sentido. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada.) também não pode haver execução. demissão). Quando nem sequer há prometibilidade (doação. in fine). não se iria muito longe (despedimento. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. 48 . Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. Contudo. se verifique uma alteração das circunstâncias. poderia ser revogado. O comodato pode cessar a qualquer altura. No caso do contrato de trabalho. A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória.

O que está em causa é que o dever seja cumprido. Vaz Serra. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. Ora. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre.Depósito do preço A sentença é translativa. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. qual a solução? Normalmente. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. Se não for cumprido.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. outros recusam essa solução. convenção expressa de atribuição de eficácia real. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. mas contra o terceiro (Dias Marques). Se o preço não for pago há injustiça. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. execução específica.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade.  Há execução específica. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. que a foi buscar ao Direito alemão. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. ficando privada do preço. reforçando-se o registo. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. 49 . Através da eficácia real conseguir-se-ia. escritura pública. Promove logo a transmissão da propriedade. Deixou de se exigir a escritura. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra. vendendo a terceiro. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. O Prof. registo da promessa. a lei alemã permite um pré-registo. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. Assim. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. alguns entendem que cabe execução específica. não é norma de excepção. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. A outra parte pode não ter sido paga. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias.

De seguida. uma vez que dela nada sai de preexistente. levar ao apagamento do definitivo. em definitivo. uma vez concluída. com o contrato definitivo. Ao celebrar o contrato-promessa. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. à negação da própria promessa. de facto. ainda que devido e pré-regulamentado. o contrato definitivo não perde em categoria. em função dele. no entanto. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. o que esteja em causa. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. Nos extremos. A lei proíbe. apenas. a contratar. a celebração das promessas. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. no fundo. continua a ser um verdadeiro contrato. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. tão-pouco é declarativa. a execução específica não é puramente executiva. em relação ao definitivo. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. as partes regularem. Mau grado a primazia reguladora da promessa. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. delimitando. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. um acto de execução do que já estaria combinado. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. na promessa. como contrato autónoma. A primeira opção explicativa leva. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. as partes obrigam-se. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. Justamente por. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). pelo menos em parte. por vezes. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. 50 . tão-só. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória.

essencialmente. a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. 51 . O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. um dia. A favor do comproprietário (1409º e 1410º). a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. A favor da pessoa designada em testamento (2235º). As preferências no sistema jurídico No Código Civil. isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). perdendo a plena disposição do seu bem. que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). De resto. tem. 1519º e 1523º). A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. caso este queira. Diz-se. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. ao preferente. O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. caso queira vender um prédio a alguém. as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato. quando convencionalmente estabelecido. o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente). nesse sentido. O direito de preferência. Da mesma forma. pelo preço em causa.  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. Por exemplo: o obrigado. 1380º e 1381º). Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável. com o qual o negócio fora ajustado. deve vendê-lo. Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua.O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). Em regra. A favor do fundeiro (1535º). em Direito. pelo artigo 1535º (1901º). por χ. A favor do co-herdeiro (2130º). o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. A favor do senhorio (1112º/4). uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. antes.

na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização.  A opção – figura inominada e atípica. a preferência real confere. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau. nesta última hipótese. a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele. observadas determinadas formalidades. a preferência legal advém da lei. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais. 52 . a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. ao preferente. a um direito real de aquisição. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. ora reais. todavia. não podendo o preferente fazer seu o negócio. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. consoante a opção das partes e isso desde que.  A preferência obrigacional. Modalidades. permite ao preferente exigir. relativo à acção da preferência. nos termos do 414º. uma vez que a outra emite logo a declaração final.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). uma indemnização.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. a real. Na segunda. violado o pacto. quando violada. sejam. na opinião dominante. ainda e por elas. Na primeira. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita. através de uma acção de preferência (1410º/1). ao obrigado faltoso. As preferências convencionais são ora obrigacionais. ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. apenas uma das partes fica obrigada. tem cabimento recorrer à acção de preferência.

eventualmente. em regra. ao pacto de preferência. os ónus e os encargos envolvidos. podendo. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. deve-se lidar com os deveres acessórios. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. Com uma prevenção: numa situação de preferência. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). desencadeando o funcionamento do pacto. por ele. a menos que ambas as partes se vinculem. O modus praelationis. à preferência. quando o contrato preferível exija documento. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. de onde promanam deveres para ambas as partes. das regras aplicáveis à capacidade. E sendo este o caso. 53 . chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. próprio do contrato-promessa.Forma O artigo 415º manda aplicar. Num pacto de preferência comum. por parte de um terceiro. Todavia.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. quer autêntico quer particular. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). Bastaria a assinatura deste. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas. se o pacto for bivinculante (bilateral). ao pacto de preferência. a essa luz. do princípio da equiparação. Pergunta-se se o terceiro que. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. de liberdade de forma. perante o Direito vigente. como a de fazer a competente comunicação. daí resulta a aplicação. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. pretenda contratar com o obrigado à preferência. mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. Tendo conhecimento do pacto de preferência. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. o terceiro deve-se abster de contratar. por definição. Propõe-se a aplicação. de acordo com as regras gerais (219º). recebem os deveres. é afectado de algum modo. como cláusula num pacto mais vasto. o artigo 410º/2. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. próprias do contrato preferível.  Porém. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes.

 Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta.  Ou renuncia à preferência. quer particular. o terceiro ficará com o negócio. pelo menos. a renúncia. por aplicação do 410º/2. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou. com alterações. modificações ou reticencias. por parte do preferente. se vem mesmo a concluir na esfera deste. afinal. se não o fizer. a comunicação para preferência deve ser feita a todos. na mesma linha.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente. A comunicação não está sujeito. ao seu direito. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada. Havendo aceitação da comunicação de preferência. convicto de que. A resposta do preferente. A não se verificarem tais requisitos. Finalmente. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que. quer autêntico. exige-se forma escrita. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal. A “aceitação” da comunicação para preferência. o represente. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. ficando o contrato por celebrar. com base nela. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou. e estará enganado. declarando que não está interessado. deixando o negócio para o terceiro que. já que o terceiro não celebraria tal contrato. Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. esta deve ser feita ao preferente. com poderes bastantes. na presença de um projecto de contrato firme e sério. envolve. pelo menos. de pleno direito. uma de duas:  Ou o preferente prefere. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. não o quer. isto é. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. por lei expressa.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente.  Ou o preferente rejeita. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento.Na posse dessa proposta. Havendo vários preferentes. 54 . o contrato. por opção do beneficiário. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. perfila-se o contrato definitivo. É o que dispõe o artigo 416º/1.

Existem três possibilidades básicas. o preferente desiste ou prefere em conjunto. apontam. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. recebida a comunicação. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. nenhum princípio de especialidade. não o sendo. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos. Prestação acessória. dependendo das circunstâncias. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. De todo o modo. pode. no nosso Direito da compra e venda. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa. 1ª parte). divisível?  E não sendo divisível. 55 . Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. Observar-se-á.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras. sem prejuízo para o interessado. o contrato será seguramente único.  Não sendo avaliável em dinheiro. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. é excluída da preferência. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. podem umas e outros ser desagregados. então. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. ou não. o que terá que provar. A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. As valorações subjacentes ao artigo 417º. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro. Não o sendo. ou não. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. quando se reporte a uma universalidade.

É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. ao preço e à identidade do requerente. com isso. sem seguir o procedimento da preferência. A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. Verificados os pressupostos. com o preferente. a todos os preferentes. nas condições fixadas. sempre. 1ª parte). abre-se licitação. A prestação principal é. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. seguramente. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. 56 . Havendo eficácia real.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. em termos de aquisição. a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes. em caso de violação de uma preferência real. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. afastando. esta última: trata-se de um facere jurídico. feito no artigo 410º/2. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. desde que este as acompanhe. A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. Segundo o artigo 1410º/1.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro.  Concluir o contrato em causa. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele. Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. A acção de preferência permite ao preferente. Em termos de comunicação: ela deve ser feita. fazer seu o negócio faltoso. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles. os restantes: não havendo processo de escolha. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo.

tendentes à conformação do contrato definitivo. A opção. a celebração. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. dá azo ao contrato definitivo. passando a integrar o definitivo. que fixe um prazo razoável para o seu exercício. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. excepto no que tanja ao cumprimento deste. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. declarações de ambas as partes.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. provocar o aparecimento do contrato definitivo. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. na opção basta a declaração do beneficiário. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa.  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. o qual. só deverá ter lugar se uma das partes quiser. o titular ou o optante) recebe o direito de. ao tribunal. Direito e deveres. na conclusão. directamente ou por analogia. um verdadeiro contrato-promessa. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo. que exigirá. por ambas as partes. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. Logo.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. aqui.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. todavia. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). Aplicam-se aqui. ele recebe o direito potestativo de. no cumprimento. 57 . por mera declaração unilateral. a opção cessa. esta não depende da intervenção da parte vinculada. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. execução e incumprimento No que toca ao optante. ora. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”. o artigo 411º: o vinculado pede. do definitivo. na execução. por uma simples manifestação da sua vontade. perante o concreto contrato definitivo em causa. por analogia.  Quanto à execução. Haverá que aplicar. só será válida e eficaz se. da posição de contratante e do valor que ela representa. na opção.

ele deve agir segundo os ditames da boa fé. por seu turno. surge o contrato definitivo. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. Como princípio geral. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). O risco desaparece. dando-a em garantia ou alienando-a. directamente. Assim. o artigo 762º/2 e. designadamente para a parte optante. partes no contrato. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. 58 .O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). por analogia. O obrigado. que exercerá o seu direito se o entender. Ambas as partes ficam . e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. Actuada a opção. a sua opção. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. natureza e aplicações Celebrando uma opção. a cargo. pode facturar o premio da opção. perante a outra (promissário). no memento escolhido. as partes congelam as condições da venda. no mercado. há que lhe aplicar. uma das partes (o promitente) assume. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. do optante e do adstrito. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. a qual adquire um direito à prestação. Ainda o mesmo optante pode colocar. Funções. o qual deve ser cumprido. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). respectivamente. No plano do seu conteúdo. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção.todavia. O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. com relevo para o pagamento do preço da opção. por via dos artigo 295º e 221º/2. do definitivo. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. o artigo 272º: na pendência da opção. entre outros aspectos.

A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. do promitente. a efectivação da promessa ao terceiro. pelo contrato a seu favor. porventura. quando esse seja o conteúdo da promessa. excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). do promitente. ao promitente. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. A posição do promitente. as prestações ou outras vantagens que. O terceiro adquire o direito à prestação. fundamentalmente. Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte. Tal permite excluir. As prestações que. pelo contrário. independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). deste cerne. 1ª parte). se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2).  A de exigir. devam ser trocadas entre os mesmos. contratos como o casamento ou a doação. lhe possam advir da relação básica (405º). A posição do terceiro O terceiro adquire.  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. 59 .A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário.  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal. especificamente. por exigência deste e do promissário. a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1).  A de exigir. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. imediatamente. nessa altura. a contrario e 448º/1. A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. de forma geral. porventura. a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. O regime concreto de tais prestações. a prestação principal O promitente tem. perante o terceiro. o direito à prestação: independentemente da aceitação.

ao abrigo das regras gerais (217º). sobre si. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. não sendo parte do contrato. pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. logo. Amicus: o terceiro. desconhece os precisos termos envolvidos.  O terceiro. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. através da regra da boa fé (762º/2). antes de ter ocorrido a sua nomeação. O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação.Perante um contrato a favor de terceiro. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. Pode-se. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. falsificar a conduta a que se encontra adstrito. não tem. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. instável. Na linguagem desde subsector. a contrario). quando se desempenhe perante o terceiro. admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. 60 . pode ser menos diligente ou até. por não ser o destinatário da prestação acordada.  O promissário. Electio ou electio amici: a escolha.  Torna a promessa firme (446º/1. o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou. As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. Eligendus: o terceiro. ainda. Num primeiro tempo. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. Esta apenas consolida um contrato que. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. antes dela. de lealdade e de informação. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. de adesão. O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. pode desinteressar-se dela ou. a contrario e fortiori). por não ter sido celebrado com o terceiro é. a fiscalização da contraparte. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1. nada fazer. no limite. porém. Desde modo.

Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira). ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes.Regime. Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. foram surgindo figuras que. no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta. 61 . tal como sucede com a ratificação (262º/2). O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. quando superior (454º/2). não reunindo as características perfeitas do contrato.  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. dele se aproximavam. Embora a lei não o diga. Como tratá-las? Com o tempo. seja em termos técnicos. o negócio consolida-se na esfera do stipulans. Ele implica. concordância do amicus e electio. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). num todo coerente. que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios. Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. altura em que o contrato ficará sem efeito. seja em moldes sócio culturais. As fontes paracontratuais Ao longo da História. inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. eficácia retroactiva. do próprio contrato que a contenha. A electio tem. pois. a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. ao outro contraente. produz efeitos em relação ao contraente originário. em princípio. Feita regularmente e comunicada a designação. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. a cláusula “pessoa a nomear”. Concluído o contrato para pessoa a nomear.

ser reconduzidas ao contrato mas que. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. Sublinha-se que. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). chega-se. Surgindo. seja nos preliminares. através de meros comportamentos materiais. no espaço jurídico.  As relações contratuais sem contrato. pelo menos. com ele. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais. derivada do facto simples de um contacto social. sem integrar previsões contratuais. postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais. muitas vezes. 62 . no tráfego moderno de massas. para certos fins. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas.  Inserção em organizações comunitárias. o contrato. depois. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. de lealdade e de informação. Relações paracontratuais em especial 1. isolam-se:  As relações contratuais de facto. seja na formação. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos. em termos rigorosos. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual. na sua origem.  Os contratos com protecção de terceiros.  Situações de relações jurídicas complexas. execução de relações duradouras. uma parte razoável do seu regime. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem.  Situações de proximidade contratual. tivesse ocorrido qualquer contrato. esta relação fundir-se-ia nele.

2. O contrato é anulado. Com as devidas adaptações. Há impossibilidade inicial da prestação. revogado ou denunciado. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. Surge uma impossibilidade superveniente. De novo há um círculo exterior. e existe. para terceiros. tenha uma proximidade visível. promane deveres acessórios (de segurança. que veicula os valores fundamentais do sistema. ainda que insubsistente. que se reporta aos bens postos em jogo. o círculo interior. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. independentemente de qualquer especial vontade. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. por qualquer razão. Em termos analíticos. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. O círculo interior. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. 63 . Também está claro e assente que. O contrato é resolvido. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. Em termos gerais. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. 3. nas protecções dispensadas. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. o Direito manda proteger. pelas partes. em face de um contrato:  Alguém que. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. no caso de violação.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. igualmente. perante a prestação principal e em face do credor. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. no contrato considerado. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. A “fonte”. nele. ainda. Havendo proximidade. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. mercê dos contratos preliminares. por estar vulnerabilizada. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. não seja parte.

fique adstrito a realizar uma prestação. o proprio acto unilateral (457º-463º). ser globalmente denominado culpa post factum finitum. com ligeireza. De facto. São os deveres pós-eficazes. obrigações que (só) irão pensar depois. uma regra de tipicidade. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. fora de série. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. 4. 64 . 5. O artigo 457º proclama. operando o contrato. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime.  A proibição de. tais deveres não têm origem contratual.  Os perigos da adstrição ad nutum. dando origem. com facilidade. que explique os deveres resultantes. O negócio unilateral implica que alguém. por analogia. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. para as partes. o inerente instituto. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada.  Um numerus clausus de realidades relevantes. quando violados. de lealdade e de informação. podendo. como um simples facto stricto sensu. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. “negócio” engloba. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. ainda se poderiam manter determinados deveres. mas noutros locais. de obrigações futuras. uma vez que ele não é partes. a responsabilidade obrigacional. no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. No que se lhe reporta. nesse sentido nuclear. ad nutum. Mas têm moldagem contratual. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. Em rigor. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. o que (ainda) não têm e subscreverem. por sua livre e exclusiva vontade. Antes de fundam na lei.Tecnicamente. as normas típicas. aparentemente. em termos jurídico-positivos. perante eles. aqui. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. aplicar. cessado o contrato.

Em bom rigor. também aqui. No que tange ao autor do acto. Negócios unilaterais em especial 1. anteriormente. deve sublinhar-se. Os negócios unilaterais distinguem-se. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. Deve-se ter também em conta os terceiros que. Dogmática geral O negócio unilateral. Da oferta ao público (230º/3). a tipicidade dos negócios unilaterais. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. a afirmação. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. numa segunda vertente. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). isto é. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. devidas. é aparente. Quanto muito. pode-se admitir tipos abertos. deve imperar. importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. por força de qualquer outra fonte. De contratos com apenas uma assinatura. limitada à inversão do ónus da prova. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. Do testamento. pois. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. sobretudo quando interessados. de resto. no Direito português. até prova em contrário (pelo devedor). A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. de que. existe aqui. já antiga. com a promessa pública como modelo. pelo princípio da causalidade. que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. igualmente por via da boa fé. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida. Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. proclamada no artigo 457º. Assim:      Da proposta de contrato.  Fonte essa cuja existência se presume. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. ainda. Do anúncio público (225º). ainda. fica o credor dispensado de a exibir. 65 . para além da concreta eficácia suscitada. a primazia da materialidade subjacente que. a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. sem indicação da sua fonte. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se.Mantém-se. passando pela tradição de uma coisa. quanto à existência de adequada fonte das mesmas. cabe salientar a confiança que. A regra não origina nenhuma obrigação nova.

seja revogada. pelo cumprimento. pode. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º).     Até que expire o prazo nela fixado (460º). Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. apenas. o concurso ficaria indefinidamente aberto. por anúncio público. que torne a promessa inexigível. propriamente obrigado. A situação distingue-se. 3. um motivo atendível. o promitente fica obrigado:  Até que. antes dele. O público. constitui uma especial modalidade de promessa pública. exclusivamente. surgindo alguém nas condições nela previstas. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. relativo a concursos púbicos. só nessa altura se constituindo. fica vinculado desde logo à promessa”. deriva. não tendo prazo. na sua falta. A justa causa será. aqui. a sua obrigação. seja revogada (461º/1). ficando.2. 66 . objectiva ou subjectivamente. o promitente adstrito à sua efectivação. da oferta ao público (230º/3): nesta. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. tendo prazo. Até que. Feita a promessa. in fine). às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. ainda. pela aceitação.  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). por justa causa (461º/1. Até que. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. Concurso público O artigo 463º. a título de prémio. desde logo. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. ele extinga. da indeterminação do destinatário. naquela. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. muito claramente. constituir o contrato. aqui. perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé).

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful