Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

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Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

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 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

no Código Civil. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. Causalidade Significa que. vários artigos em que podemos detectar esta orientação. transposição de directivas comunitárias. é abstracto. A validade de um cheque. 4 . O Direito das Obrigações é super estável. 994º). XIX. Foi muito pouco mexido. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. nesse caso. 812º. as obrigações. Protegem-se as pessoas contra si próprias. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade.Existem. A responsabilidade civil é fechada.. No entanto. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. 947º. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. 2. A responsabilidade civil é ampla. 809º. (448º. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. analítica. 942º. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. regras. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. 863º. prescrição. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. Resulta do movimento da pandectística. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. não depende da sua fonte – o negócio jurídico. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. defesa do consumidor). doutrina. 4. antes de terem as coisas. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. Mas há zonas periféricas. renunciem aos seus direitos. É um código típico do início do séc. todavia. que merecem reforma em Portugal. O legislador optou por emitir leis avulsas. 457º. daí tal importância. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. por regra. que nascem de uma determinada fonte. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. ex. É muito elegante linguística e estilisticamente. É muito difícil mexer nele. Romano-germânico Sistema centrado no BGB. Se a fonte for inválida. p. A causalidade contrapõe-se à abstracção. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. O BGB é de 1900. baseada num conceito vago. O BGB. a obrigação não subsiste. para não darem o que não têm. O Direito civil é muito estável. Não se quer que as pessoas. A codificação da boa-fé. O Direito das Obrigações alemão é líder. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão.

As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. 5 . O Direito português é aberto ao exterior. Mas foi uma novidade científica que vingou. Mas. a partir de 1911. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. mantiveram-se em vigor as Ordenações. surgem institutos até então desconhecidos. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. Antes da aprovação do Código de Seabra. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. no entanto. sequer. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. não havendo negócio jurídico separado dos contratos. na China não aconteceu isso. tal como a cultura chinesa. Anglo-saxónico É um mundo à parte. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. Há pouca influência romana. há um período de pré-codificação. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes.3. 4. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. 5. islâmica. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. sendo uma enorme influência. Chinês É muito antigo. muito avançado. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. No Brasil. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. Este sistema não é codificado. Não há correspondência. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. O Código não é de inspiração alemã. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. Além da redistribuição germânica das matérias. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. sendo revigorados os já conhecidos. XIX. canónica. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. entre os conceitos desta família e os das anteriores. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. Há união entre religião e Estado. Mas tem uma organização e conceptualização originais. O Código de Seabra é. Naturalmente. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos.

Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. Houve. numa segunda fase. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. quando ocorreu a ocupação. houve maior inteligência política. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. 6 . como membro da OEA. marcaram as primeiras reconstruções do CC. tendo-os traduzido para chinês. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. Foi necessário recomeçar. foi aprovado um Código Comercial novo. Tem influência germânica e do Código de 1966. Todavia. O Código brasileiro aparece só em 1916. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. sendo substituída pelo inglês. numa primeira fase. mas havia a barreira linguística. Em Cabo Verde. Há algum atraso na sua aprovação. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. O português era a segunda língua. mas já havia recepção do pandectismo. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade.No Brasil Na doutrina brasileira. Em Moçambique. Em África Em Angola. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. depois da aprovação. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. com Teixeira de Freitas. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. Na Guiné. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. O Código de 1966 vigora actualmente. voltou a vigorar o Direito português. Em Macau. Antes da entrega de Macau. mas começa a ser preparado no pósguerra. com algumas alterações após a independência. Em Timor. logo em meados de oitocentos. verificou-se a invasão indonésia em 1975. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. ainda em meados do séc. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. vigora também o código de 1966. O CC de 1916 tem já influência germânica. As revisões ministeriais do Prof. Com a independência. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. XIX. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. um período de exegese. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). O Prof. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. Ele é de 1966.

Brasil. As regras sobre a moeda única. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial. Mas na área do Direito não é assim. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. que é do final de Oitocentos). estão em causa relação inter-pessoais. Há. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. Assiste-se à implantação (Portugal. Mas havia uma grande projecção ultramarina. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono. francês e alemão. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). de Common Law. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. Há 23 línguas oficiais na Europa. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. Nas obrigações. Se não o fizerem. O Direito lusófono não tem só essa influência. língua. ex. na área dos negócios e nas relações entre povos. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. quantidade de falantes da língua. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. Turquia. 7 . é diferente. provêm de regulamento. Cumpre saber que língua é utilizada. Somos. É um Direito que tem uma evolução histórica. Japão. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. Mais tarde. Ciência do Direito. Coreia do Sul. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. Há as directrizes e os regulamentos.O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. Todavia. Quanto a autonomia doutrinária. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. entre interpretação e integração. p. O Prof. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. predomina o inglês. Em termos planetários. que suportou a nossa independência. um pequeno país na Europa. uma enorme barreira linguística.) de sistemas próximos do germânico. A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. não são de common law. O caso português é singular. foi do Direito alemão. hoje. No Direito francês há distinção. mesmo quando escritos em inglês. a directriz não vigora. ganha pelo mérito. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. não havendo confusão com os sistemas da pandectística. De um modo geral. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa.. também com as operacionais: inglês. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. evolução histórica. até. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. a grande influência. etc. ao contrário do que acontece no Direito português.

No plano oficial. Para o Prof. MENEZES CORDEIRO. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. para SAVIGNY. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo). No espaço europeu. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. dada a insuficiência da língua inglesa. Nós. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. quando existia obrigação. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. era o poder da vontade. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. forçar a vontade humana. há muitos constrangimentos. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. Não teve consequências. e não a totalidade. nem uma política externa comum. como a falta de competência dos órgãos europeus. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. intra muros. havia um domínio de alguém sobre outrem. há 500 milhões de pessoas. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. Se A tem direito. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações.No tempo do ius commune. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. não há um Governo europeu. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. O melhor Direito é o interno. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. Antigamente. juristas portugueses. havia um Direito europeu das obrigações. ele começa a desaparecer. MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. mas com exagero. 8 . Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. Esta noção presta-se a críticas. a vantagem é o bem que será prestado. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. Fala de um bem a prestar. O Prof. O direito subjectivo. não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras.

Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver.Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. Na prescrição. obrigações. O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). no início. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. Pode haver obrigações sem prestação. Em regra. mas o seu património. Pode ser um facere ou um non facere. sim. XIX. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). independentemente de ser cumprida ou não. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). Se o devedor não cumprir. Os romanistas diziam que não havia. pode-se atingir o seu património. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. pelo que é excepção o recurso ao património. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. extingue-se a haftung. o dever é sempre um constrangimento ético. surge a nova noção de obrigação. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. já é um valer em si. um direito ao património do devedor. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. Ela. No séc. independentemente de terem culpa). A obrigação não é apenas um bem a prestar. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. As pessoas morriam. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. surgiu a respondência. Assim. mas as suas obrigações permaneciam. Há. 9 . assentes apenas em deveres acessórios. as obrigações são cumpridas. Primeiro. todavia. Depois. A ideia remonta ao antigo Direito romano.

O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. O credor fica adstrito a deveres de segurança. Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. O regime é solicitado para um tratamento unitário. pelo que obrigação não é uma prestação. com o credor e vice-versa. outra concepção diz que há um direito real de garantia. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. A prestação pode não existir. compreende um dever de prestar principal. 10 . Mas. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. linguística. só. O BGB já não exige natureza patrimonial. A obrigação. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras.. é o fiador que deve cumprir. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. A obrigação do fiador é secundária. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. noutros ainda. sabe-se hoje. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. Se não são. tratado mais à frente. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. Se é assim. não podendo servir para construir. com dois regimes). O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. noutros. colaboração. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. Estas construções são úteis. em termos pragmáticos. Se são. deveres secundários e deveres acessórios. não interessam. pode ainda não existir. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. por si só. não tendo interesse para o Direito nesse caso. A obrigação pressupõe um dever específico. um conceito de obrigação. etc. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. pode haver nulidade. Se o devedor principal não cumprir. a responsabilidade é patológica.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. Em certos casos. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal.

É assim ao nível global. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. Não tem de haver natureza patrimonial (398º). será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. Pode haver execução específica. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. ela é avaliável em dinheiro. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. Como são ressarcíveis. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. boa educação) que não relevam para o direito. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. As relações de obsequiosidade não são. A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). 2ª parte remete para o interesse. mas pode receber dinheiro. Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. há ressarcibilidade dos danos morais. há sanções pecuniárias compulsórias. acção directa. compensação – e não de equivalência. à partida. O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. pode haver responsabilidade pela deferência. tem conteúdo económico. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. Tudo pode ser avaliado em dinheiro. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. Hoje isso não é assim. O 397º define obrigação. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. Direito. No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. não necessariamente em todas as situações.Se um artista se obriga a entoar uma ária. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. de sistema. o 398/2. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. 11 . É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. mas havendo danos.

O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). há figuras como a execução específica. por exemplo). o direito real é uma situação absoluta. Uma última. Quanto aos acordos de cavalheiros.Há também deveres de protecção. A obrigação é uma relação jurídica. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). Se a prestação for um serviço. 12 . o credor aproveita imediatamente a coisa. Em obrigações. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). Nas obrigações. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. relações de vizinhança. o que tem de surgir é o serviço. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. nos direitos pessoais de gozo. seria sempre necessária a mediação. Podem fazê-lo? Em princípio. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. Noutra acepção. Os direitos potestativos são absolutos. no caso dos direitos reais). Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. há créditos absolutos. no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. a relatividade existe quando há relação jurídica. absoluta. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. Os acordos de cavalheiros são relevantes. mas não se pode retirar daí uma regra. são para cumprir – se não forem. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. não. contrapondo-se aos direitos reais. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. Deve-se sempre perguntar qual a origem. Assim. encontramos sempre uma dança a dois. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. erga omnes. Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. A convida B para dançar. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. Os créditos não são sempre relativos. que são absolutos? Em termos estruturais. mas não se pode esfarrapar o par de dança. Em direitos reais há só uma. Esta noção vale o que vale. duas partes.

dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. Mas há também deveres no tráfego que. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. Havia uma quebra maliciosa do contrato. Há uma acção.A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. p. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. A eficácia interna é entre credor e devedor. então há oponibilidade média. que se manifestam predominantemente perante o devedor. com os pactos de preferência. a figura do terceiro cúmplice). PESSOA JORGE). médio ou fraco. Se é assim. A nossa jurisprudência acordou em 1964. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão. Mas há outras regras. Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. pode existir oponibilidade em sentido forte. Mas inverteu-se a tendência. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. A regra é de que a eficácia é meramente interna. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. É o que acontece com os chamados deveres de tráfego. As obrigações são vínculos. 13 . o que lhes daria uma tutela relativa. Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. com MANUEL DE ANDRADE. A doutrina tem evoluído nesse domínio. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa.. Se é assim. se incumpridos. No sentido forte. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. dão lugar a responsabilidade civil. Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. Na Alemanha diz-se que não. Faz sentido que haja defesa contra terceiros. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. ex. Há contratos com protecção de terceiros. a externa é perante terceiros. relações jurídicas. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). Deveres acessórios. em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). No início. Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa.

os factos são descritos concretamente. há um numerus clausus – o número de factos é finito. protecção jurídica. países que admitem a figura. Isso em princípio. Todavia.  Diz que está proibida a analogia. O Direito objectivo.  Diz que existe numerus clausus. Há tipicidade exemplificativa. 14 . Isso justifica-se em ramos agressivos. descrevendo as condutas. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. Quando existe um devedor. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. em princípio inatingíveis. proíbe autotutela. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. Quando existe uma previsão normativa. Se A contrata com B. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. O terceiro não pode. O legislador pode dar uma série de exemplos. ao atribui direitos subjectivos. pois. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. não estão assim tão mal. mas há várias vias para o conseguir. como o penal ou o fiscal. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. Argumentos a favor. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). Outros dizem que só o devedor pode incumprir. as economias britânica e francesa. Num ramo típico. Contratar-se-ia menos. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. Quando a lei recorre a descrição da realidade. é muito mais restrita. aplicam-se os artigos 798º e ss. há responsabilidade. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. Se ele for atingido. Está tudo ligado. Mas esses não se aplicam a terceiros. recorre a tipos – tipicidade. não havendo lacuna. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. Dá. um terceiro faz-se passar por credor.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. Noutros casos é mesmo normativa. diz-se. Se existe uma descrição típica das condutas. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. Só pode estatuir com recurso a tipos. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida.

Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. obrigações naturais. tipicidade exemplificativa. Autonomizou-se do Direito das obrigações. Isto é o núcleo duro – há desvios. O conteúdo distingue-se do objecto. também. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. um direito e um dever. O contrato de trabalho é um contrato como os outros.Nos contratos há descrição abstracta. Há. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. O Direito comercial é outro ramo especial. ao contrário. Os direitos reais têm.). Mas existem muitas obrigações nessa área. não há numerus clausus e pode haver lacunas. etc. o regime tem um desvio. O conteúdo das obrigações é sempre. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. p. Obrigações. Mas tem regras especiais. ex. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. tudo é parecido com o Direito das obrigações. Aí. Nas obrigações isso não existe. por conjunções históricas. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. aqui. 15 . Há situações de direitos reais que. Há. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. por via de condicionalismos históricos. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. direito a uma coisa corpórea. É muito especial. venire contra factum proprio. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. em princípio. O mediato é também designado por objecto. um princípio de tipicidade. de facto. invariavelmente. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). Há tipicidades de tipo científico. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo.

É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. De pati. Ex. O devedor está obrigado à diligência média. por um esforço de análise. Não se trata de um non facere. Não se obrigam a resultados.: o médico não tem obrigação de curar. São prestações que complementam a prestação principal. tem culpa. São instrumentais em relação a ela.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. Todavia. 16 . Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. apenas de fazer tudo ao seu alcance. tendo em conta as circunstâncias do caso. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento.). A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. A prestação principal é o núcleo da obrigação. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado. Uma prestação inclui necessariamente o esforço. Se se comportar abaixo da bitola. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. É o critério do bonus paterfamiliae. Temos de saber o que é exigível. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. Foi o critério escolhido pelo legislador. mas à prestação de um serviço com determinada diligência. De dare. aquilo que for normal num homem médio. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção. Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece. Podemos. Seguem o regime da prestação principal. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. Só é exigível que se esforce até esse ponto. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei. noutras pretendem o resultado.) e a aquiliana (483º e ss. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). é um homem médio colocado no caso concreto. A de dare consiste na entrega de uma coisa. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. as partes pretendem uma determinada conduta. Por vezes. É o homem médio. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra.

O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. tal como se não cumprir o dever acessório. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. nos deveres acessórios são ambos. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. possível. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. é preciso cumprir de boa fé. a obrigação é uma realidade muito complexa. segurança. O legislador quer primeiro cumprimento. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. A base legal é o 762/2. A indemnização é uma consequência de segunda linha. Os deveres acessórios são imprevisíveis. informação. contratuais e pós-contratuais. observando os deveres acessórios. Como decorrem da boa fé. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. determinável. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. rerum sic stantibus. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). são soluções para problemas novos. só depois a indemnização. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. 17 . Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. A culpa in contrahendo. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno.. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. depois a reconstituição natural. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. Não basta cumprir a obrigação. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. Podem ser deveres de lealdade. mas há deveres acessórios pré-contratuais. integração de lacunas. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida. etc. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo.  Círculo externo. Está em causa o princípio da tutela da confiança. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. Substancializam a obrigação.

não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. 3.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. 18 . Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei. combinadas quando estejam associadas a direitos reais.  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. 2. p. como concessão. porteiro. suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). Absolutas. uns relacionados. prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis. nas mistas há vários deveres. Se sou obrigado a recorrer a perífrases. etc. relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. ex. 4. atípica resulta da autonomia privada. Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. transferência de propriedade. mas são regularmente utilizadas no sector. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). Em princípio. trata-se de obrigação complexa. 5. A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. A regra é da fungibilidade. Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei.Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples). ambos).). outros não.).  Obrigação de abstenção (simples. na relativa há. Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente. Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos. se consigo exprimir com uma única expressão é simples. Não é o mesmo que coisa fungível.

Tipos de obrigações 1. É necessário. um pré-aviso. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. A retribuição é a renda ou aluguer. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. Se fosse logo satisfeito. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. se tiver poder de representação celebra também os negócios). existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. era instantânea. como reacção ao regime feudal. sob pena de nulidade (280º). mas pessoais. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. A denúncia. O DL 178/86 trata da cessação da agência. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. não obstante. também. com dilação temporal juridicamente relevante. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. Não se extinguem com o cumprimento. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. O Prof. pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. Obrigações duradouras Partimos da prestação. determinável. quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. O Direito civil é um direito prático. 2. em que havia obrigações perpétuas. Havendo agência. o principal. Implica especialidade quanto à sua cessação. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). surge na periferia. forma de cessação de um contrato duradouro. É um contrato em especial. 19 . Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. pelo menos. E relações perpétuas. ao contrário das obrigações comuns. As questões sociais vieram pugnar por protecção. Hoje. Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição.6. para tutela da confiança. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. Há lacuna. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. entre o agente e o principal há relação duradoura. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. A denúncia seria um dos esquemas. e outras que se cumprem no tempo. claro está. O conteúdo tem de ser sempre.

Logo. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer. as rendas vão degradando. 20 . Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. trânsito caótico. surgiram fenómenos e problemas de natureza social. Há bloqueios ideológicos. Há subúrbios. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. Mas também não explica o que é o gozo. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. Surgem teorias mistas (entre nós. económicos. É um direito real. Quanto mais baixa a renda. Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. Em 1985 tentou-se reformar.  Congelamento das rendas. Se é assim. A solução de quem chega ao mercado é comprar. maior o lucro do trespasse. políticos. Chegou-se a este panorama aos poucos. Em 2006 houve um projecto. porque ele é sempre real). O 1743º do CC francês determina que.No arrendamento domina a autonomia privada. etc. Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. XX. menor taxa de natalidade. No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. inícios do séc. Em 1990 tentou-se de novo. Chegou-se a um regime vinculístico. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. Obrigação de deixar usar? Seria negativo. com a industrialização e grande pressão urbanística. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário. contraindo empréstimos. centros das cidades abandonados. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio.  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). havendo transmissão da coisa arrendada. mas também não chegou a bom porto. actualizando as rendas. Se houver inflação. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos. por exemplo. Nos finais do séc. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. XIX. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real. impedindo actualização das rendas. é figura real o direito de locatário. para o futuro).  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção).

com recurso aos tribunais). Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. porque não era uma pessoa. pelo que ele se pode defender sozinho. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. já que é ela que as explica. No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. por ser figura próxima do direito de crédito. 21 .Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). o locatário pode fazer obras. na locação. Não tem uma grande relevância prática. Comportam-se. Mas pode ser integrado no Livro II. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. Em geral. de forma similar aos direitos reais. o que os aproxima dos direitos de crédito. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. é histórica. nesta matéria o regime dos direitos reais. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. no conflito com outros direitos. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. tendo um direito de preferência sobre a coisa. defender o seu direito face a terceiros. Essa tese é inaceitável. como direitos reais. Estabelece que prevalece o direito real. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. Juridicamente não tinha personalidade. Obrigações naturais É figura muito estudada. mas sem shuld. Era um débito sem respondência. entre os direitos reais e os de crédito. Mas mudou de ideias. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. A pessoa estava obrigada a fazer algo. em regra. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. Admitese a existência de direitos de gozo. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. 3. pois. Seguem. O Direito dizia que ele estava obrigado. A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. Uns são pessoais e outros são reais. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal.

Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos. mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. Se eu pagar.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. A justiça é aquilo que o Direito consagra. Não podem ser constituídas por contrato. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. Todavia. diz-se por vezes. Noção legal (402º). aplica-se o regime das obrigações civis. As obrigações naturais. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). Não pode ser exigível judicialmente. a moral é uma coisa e o Direito outra.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça.  Não exigibilidade judicial do cumprimento. transformando-as em naturais. Mas isto não pode ser. Hoje. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. mas também as obrigações 22 . No período medieval. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. Em tudo o resto. Aparentemente. Ser jurídica é estar prevista como obrigação. A obrigação natural deve ser. Tiveram uma evolução muito atormentada. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. Esta matéria está regulada no 402º. jurídica. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. diferente de um Direito moralmente enformado. Isso não é verdade. sociais. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. É jurídico. A lei. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. não jurídicas. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais.. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. com base no 404º. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. Havia ligação entre o Direito e a moral. porque elas são típicas.  As obrigações naturais são típicas (809º). mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente. pois. Mas são aqueles os dois momentos cruciais. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais. etc. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. não têm valor patrimonial.A isso chamaram obrigações naturais. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. não posso pedir devolução do que paguei. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. etc. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas.  O 404º.

Não havendo convenção. Não é o sentido do 400º. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. escolhe o devedor. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. é fungível. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis.civis podem não ser cumpridas. O problema que surge é o da determinação do objecto. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. que podem ser de facere. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. Desde que a coisa a entregar não seja única. Ele é determinável mas não está determinado. quantidade ou qualidade. o critério é o da mediania. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. A escolha e o risco O 539º estabelece que. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. Os contraentes podem estipular diferentemente. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. Só se determina o género. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. 4. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. se nada for estipulado. Logo. o critério deve ser o da mediania. Deve-se escolher a coisa média. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. Na falta de acordo. há uma lacuna negocial. dare ou pati. As obrigações genéricas são muito importantes. há obrigação genérica. Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. com a massificação das transacções. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. No Direito romano eram desconhecidas. podendo ser qualquer litro de azeite. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. 23 . dando lugar a obrigações genéricas. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. rege o favor debitoris. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

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7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

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que é sempre singular). MENEZES CORDEIRO defende que. Ao contrário da parciariedade. na falta de estipulação em contrário. Nestes casos. O credor só pode exigir de cada um essa parte. Na prática. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. para proteger o lesado. de modo a assegurar o cumprimento. mas complexa. Há obrigações que são à partida divisíveis.noção. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal. Quando vão cumprir. Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. Os vários sujeitos têm relações entre si. 27 . As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. É só uma. os credores). Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. Existe uma presunção de igualdade das quotas. porque também temos de tratar das relações internas. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. todos têm de prestar ao mesmo tempo. seja porque o regime é unitário. Presume-se que as partes de cada um são iguais. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. Rege o 512º . O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. É um regime mais duro para o devedor. há outras que só o são se as partes acordarem. isso não multiplica a obrigação. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. por exemplo). a lei estabelece solidariedade. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. Em resumo. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. Aumenta a garantia do credor. quando há vários sujeitos numa obrigação. a regra supletiva é a da solidariedade. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. No Direito comercial. seja porque existe expressão linguística unitária. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. um concerto de orquestra.

concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. não sendo nem uma nem outra. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. No período da pré-codificação francesa. à estatuição de uma norma. acrescentou a lei. presunção de igualdade (516º). Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. é natural que existam meios de defesa dos devedores. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. um A. tal como os direitos reais. Normalmente. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. Eram fontes que. ex. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. pessoal seria a prescrição. Também existe. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. Uma prestação pode. ex. São duas fontes fundamentais de obrigações. tem regime diferente. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. o do devedor e o do fiador. Surgiu o esforço de sistematização. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento. aqui. já que o fraccionamento é feito posteriormente. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. p. p. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito.). ter duplo aproveitamento. só dele (não os meios pessoais de outro). Mas é uma pluralidade heterogénea. ex. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. Precisa de um facto jurídico para nascer. É uma bipartição importante. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. significa que há alguma coisa a mais. Na solidariedade há co-devedores. p. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. um credor e um credor pignoratício. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. 28 . há “gato”. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. se não houver outro acordo. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. quando alguém contrata a solidariedade. uma classificação das fontes. A lei poderia ser fonte de obrigações. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais.

Em termos estatísticos. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes. enumera-se o contrato. É difícil unificar. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. no tempo e no espaço. Mas ele é mesmo muito reduzido. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica.). O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. Há um encadeamento. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. As divisões não significam. desde logo. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. enquanto a lei é norma heterónoma. Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. O direito privado tem 2000 anos. 29 . de se autodeterminarem. a melhor técnica é a tipológica. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. como se usou em 1867 e 1966. mas enumeração. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. Faz-se. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. em vez de adoptar a repartição tradicional. o negócio unilateral. p. o enriquecimento sem causa. O Código de Seabra faia um elenco original. nuns e noutros a mesma coisa. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade. Enumera algumas fontes. então. referência à tetrapartição. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. apesar de não haver classificação qua tale. Já nos sécs. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. a partir do 405º. a gestão de negócios. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). que é comum a todos os direitos europeus. O que se deve. Com o CC de 1966 também não existe classificação. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. todavia. ex. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada.

Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. mas se lemos artigos sobre negócios. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. O contrato tem um papel muito alargado. de acordo com a escola histórica e a pandectística. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. mas existe pacto sucessório. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. em lei de Maio de 1352. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). É necessário que haja propriedade. o próprio contrato perde espaço. É importante considerar o canonismo. Menezes Cordeiro. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. surgindo os contratos que hoje são básicos. Dá-se uma grande explosão. consensual – basta haver contrato. O CCP trata da matéria. Mais tarde. se a sociedade é subdesenvolvida. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. vai na direcção do contrato. já o negócio obtém-se pela razão. Daria frutos no período jusnaturalista. É um diploma bem feito. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. No Direito sucessório é mais raro. O contrato. a bona fides perderá o seu significado. manifestação da importância do contrato.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. D. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. com SAVIGNY. Passava a ser vinculativo por isso. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. No Direito da Família também: contrato de casamento. 30 . que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. É o sistema de tipo francês. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. tem menos aplicação. O contrato valia por si. O socialismo ataca o contrato. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. para o Prof. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. Dinis. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. está em crise. igualmente. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. Assim. nas Obrigações é o contrato. diz-se muitas vezes. o contrato está sempre subjacente. A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. Os romanos conheciam figuras equivalentes. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental.

Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. não relevaria: eles devem ser cumpridos. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos. necessidade de consagrar na CRP. mas de certos contratos.). Não houve. pois. Tecnicamente. Graças às convenções internacionais. O contrato é. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. os observadores previram explosão dos contratos. diminuindo a liberdade contratual (banca. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. racionalidade. Mas isso não aconteceu. 31 .  Intervenção judicial nos contratos. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. pecuniários. porque não foi necessário. É uma visão pessimista. Se a lei não dissesse nada. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português. como o da boa fé. Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. O contrato tem peso em si. no artigo 8º/2. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força.). Todavia. etc. O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. incluindo direitos de créditos). É óbvia. etc. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. valores mobiliários.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico. Tutela constitucional do contrato A CRP. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. O contrato é um véu que tapa os olhos.No séc.  Áreas reguladas. O 56º/3 garante a contratação colectiva. não se trata de um recuo do contrato. à partida. Com a queda do Muro. pelo menos para coisas úteis. plurais. seguros.

formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. em princípio também não o regula. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. bem como diminui as dúvidas. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada.1. por vezes. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. é nominado mas atípico. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. o contrato é bilateral. reais quoad constitutionem e quoad effectum. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. Segundo. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). 32 . os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. no entanto. 3. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. Pode haver tipo social e tipo legal. Quando a lei não lhe dá um nome. vindo a aperfeiçoar-se. Fala-se. É distinção relativa. regulando com especialidade. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. Terceiro. 2. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. Consensuais. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. Perante o conceito de negócio jurídico. 5. consideradas mais sensíveis. Todos os negócios são contratos bilaterais. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. mas a lei não o disciplinou. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. fica fragilizada. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. O contrato de hospedagem. não dá para classificar em abstracto. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. nominados e inominados. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. maior equilíbrio. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão.

tendo em conta o relevo de que se revestem. O estudo desta matéria não é fácil. As partes querem dar. 6. passa entre as gotas da chuva. Em regra. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. querendo. É diferente da vinculatividade. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. solicitar ao outro a efectuação da prestação. uma vez que domina a autonomia privada. uma delas não fica obrigada. a parte geral é muito restrita. A generalidade das normas é supletiva. se as partes celebram contratos mistos. atípicos e mistos Os negócios jurídicos. Fica com o direito potestativo de. reciprocidade. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. pois. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. hoje. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. 33 . O problema é que. Os gratuitos são. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. as partes têm liberdade de celebrar livremente. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). 7. podemos distinguir entre negócios típicos. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. Há 16 contratos regulados no Código Civil. Há. À luz do 405º. Tipologias de contratos Contratos típicos. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. em regra.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. Tendo em conta este facto. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. Nos monovinculantes há duas partes. É sinalagmático. Embora o 405º seja muito abrangente. no entanto. O problema é que. A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados.

próprias de vários contratos. Não tem salário. Isto só resulta se houver confiança. não havendo uma principal. Ex. etc. 4. o negócio aproxima-se da gratuitidade. Em troca do preço recebe um quarto (locação). quando acabar. B tem de guardar a casa enquanto A não paga.: A comprou 15 dias num cruzeiro. Ex. que absorverá os outros. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. A tem dívida para com B. devolve-lha. 34 . Ex. O resto é extra. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção). mas como tendo a casa como refém. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos. na prática. Há mistura. os serviços de limpeza. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. A autonomia privada é o pano de fundo. Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. Os combinados distinguem-se dos complementados. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. Ex. Não pode ser um mero pormenor. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. 3. que lava também a roupa de cama. comida. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante.: A arrenda um quarto a B. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. Complementados – aqueles em que existe um tipo base.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1.: A compra por preço muito baixo. não para que se porte como proprietário. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. comida. 2. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. o locador. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto. entretenimento. cama.: A recebe habitação. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. aplicando todos. Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. embora tenha havido preço. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. em troca de explicações. mas recebe em géneros. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa.

Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. Se não for suficiente. se na lei houver solução. No caso do porteiro isso é evidente. a outra também. aplicam-se as regras desse tipo. Há semelhança entre a agência e a concessão. Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. sem intenção de enganar). que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. é também acompanhado de distribuição. Hoje. Pode. Regra geral. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). Aqui. o arrendamento tem muitas normas imperativas. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. Recorre-se ao regime da agência. a primeira solução é a da vontade das partes. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. O método foi o da analogia. para que os distribua. 3. nomeia concessionários. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. aplica-se o regime do tipo x. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. acabavam os centros comerciais. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. é esse que se aplica. A seguir temos de resolver com analogia. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. Pode haver várias funções: simulação. no entanto. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. a solução também foi a da analogia. Mas não é normal. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. aplica-se essa solução. É contrato de agência que foi encontrado. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. Quando nada se diz. P. 4. ex. Mas isso é raro. Se ele corresponder ao tipo x. 35 . que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. Quando há lacuna contratual. tal como o da vontade das partes. Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. a quem entrega os bens. então celebra-se o y). O limite é o das normas imperativas. A solução foi a da analogia. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. O que é específico é a marca. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. mas o contrato é usado para uma função diferente. mas os serviços que o centro proporciona. Em Portugal. e também com a agência.2. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. é uma área vinculística. o combinado e o híbrido. O promotor é remunerado através da renda. por analogia. gestão do centro. bem como sinergia do ponto de vista económico. publicidade. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. segurança.

se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. 36 . O fiduciário é proprietário. M. Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. ao contrário do alemão. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). era o proprietário da coisa. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. em benefício de quem a entregava. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. Se ela tem natureza real.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. interna e alternada. a fidúcia é muito violenta para o devedor. já que o Direito existe para proteger os fracos. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. No Direito português. Quem recebia a coisa com fidutia. O fiduciário é de execução prolongada. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. não permite divisão da coisa entregue. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. Procura-se o centro de gravidade. Descobrindo-o.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. porque doações de bens futuros não são permitidas. aplica-se o regime correspondente. negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos. o fiduciário. O fiduciante é só entre outros. Mas. Se for à falência. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. Ele é permitido se não violar regras imperativas. na contratação alternada valia ou um ou o outro. São óbices consideráveis. teremos uma figura real não prevista na lei. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. Mas o Prof. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. mas para o de terceiro. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados.

sendo diferente o regime.. No Direito português tem grande importância. O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. há centros de gravidade múltiplos. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. por exemplo. tem eficácia real. O contrato prometido e o contrato definitivo. Hodiernamente. de tipo não processual. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). É uma ideia relativamente recente. dependentes e independentes. homogéneos e heterogéneos. rege nos contratos mistos. causais. 442º. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. Segundo o Código de 1867. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. Importou do BGB a execução específica. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. 830º. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. devia ser celebrado por escrito. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. A celebração de uma escritura pública demora tempo. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. de tipo processual. Mas nunca é irrelevante. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. para o sinal. sem recorrer à escritura pública. 37 .Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. Há muita jurisprudência sobre isto. execução específica). a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente. A promessa por escrito era válida na hora. A figura da absorção. a promessa valia apenas como prestação de facto. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica.

Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. O contrato-promessa distingue-se da proposta. ex. transacção meramente obrigacional. É um formato. ex. 2. sobre a entrega. uma vez prometido. 38 . Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. Quanto à prometibilidade fraca. do exercício de preferência. não podem ser objecto de promessa. financiamento.. É usado. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. os contratos são dotados de prometibilidade forte. Mitigada ou mitigadora. 5. é possível a execução específica no caso de incumprimento. regulativa autónoma. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. Como no Direito alemão. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”. 1. desformalização. p. 3. Desformalização. Meramente obrigacional. etc. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. na promessa tem de haver negociação).). O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa. mitigada. um modus vivendi. do dever legal de contratar. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida.As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. acabamento da coisa. É a função preparatória. 4. tendo isso em conta. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa. Regra geral. Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo). do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. Há contratos que. Por vezes. por vezes. do contrato preparatório material. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. do convite a contratar (A solicita a B que contrate). P. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. Função preliminar. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. na promessa sabe-se). Regulativa autónoma. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. um modo geral de celebrar outros contratos. para preparar o contrato definitivo. Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”.

até é possível haver excepções ao que se disse. É um contrato à parte.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa. mas ineficaz quanto às prestações principais. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. O nome é parecido. É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. se não houve entrega da coisa.) que conduz à possibilidade de revogação. proximidade. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. Não há contrato-promessa de doação. como executo? Os clássicos diziam que não era possível. às consequências pela ingratidão. diferente do regime do contrato-promessa. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. Mas.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. O problema é que. também não há uma regra expressa que o diga. imperativo. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. Isso não é correcto. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. à partida. Não vincula o promitente a doar. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. a obrigar a algo que poderia revogar. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. É verdade que existe um regime jurídico. o que está em causa não é a regulação de um contrato. O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. Pode fazê-lo. No contrato-promessa. etc. 39 . mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. do 1591º e SS. e o outro não cumprir. etc. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. Não se trata de um contrato-promessa.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. Com o não cumprimento. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. Isso não vem na lei. mas que tinha um regime especial. tendo em conta o regime.. mas a situação subjacente é diferente. estão nos antípodas. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º. a proposta ainda não foi feita. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa.

existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. Assim. O 410º/2 regula a forma. Se for livre também o contrato-promessa é livre. é preciso o acordo de ambas). A questão das assinaturas é meramente formal. não se entende porque só um assina. em regra o promitente alienante. Uns defendem a redução. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato.Hoje em dia. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. Por isso. Para o prof. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. tendo enorme relevância. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. Se para o prometido for necessário documento. Na prática. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. Estipulações acessórias são válidas. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). outros a conversão. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. o regime é o do 219º liberdade de forma. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. MENEZES CORDEIRO em princípio. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. nos termos do 293º. para ser quantos se obrigam. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. Mas isso é errado. Se o documento é a materialização do acordo. autêntico ou particular. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. é a solução. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. não se precisa é de assinar. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. aplica-se a regra geral. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. Na normalidade dos casos. A conversão. ainda que não tenham as duas assinaturas. 40 . Não haveria problema de prova nem dúvidas.

A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º.Mas não é fundamentalista. ficando com um contrato-promessa monovinculante. concretização e boa fé. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. Surgiu na década de 1980. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. Neste momento. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. Se a promessa for monovinculante. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. Obedece a normas: os princípios da correspondência. de invalidade mista. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. Nestes casos. Trata-se. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. Havendo contrato-promessa. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. possa reduzir-se o negócio. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. havendo grandes atropelos ao direito. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. Pode ser paralisada através do abuso de direito. se nada disserem. Há. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. por sua razão de ser. MC sugere a ideia de modus contrahendo. no 3. 41 . o regime é o da reforma de 1986. em certos casos. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). com excepção das relativas à forma e as disposições que. Admite que. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. também. Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. a se. p. Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. Este princípio. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. ex. integralidade. A parte geral também tem regras. este deve adquiri-la.

se for cumprido. Se houver situação de mora. Pode haver uma impossibilidade superveniente. alterando as palavras. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação. se forem válidas e eficazes.). declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). 42 . Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss.). À partida. impossibilidade superveniente. violação positiva do contrato. Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. MC entende que isso não pode ficar assim. O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. não foi. Se não houver. o faltoso é o que não cumpre. devolve-se em dobro. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. Incumprimento há quando. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. inclui-se a coisa no cumprimento. Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. uma via crucis. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes. O promitente fiel é o que é prejudicado. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. Muitas vezes há AA. etc. Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. Se isto não for possível. Pode haver recusa antecipada a cumprir. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé. O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. prazo. pode haver resolução. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. a lei prevê a interpelação admonitória. O definitivo está previsto no contrato-promessa. O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. aplica-se o 280º. Pode acontecer que seja lacunar. há inadimplemento. que resolvem inovar. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. local. O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo. etc. lugar. se o contrato-promessa permitir. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação).. e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). O incumprimento extingue a prestação principal. imputação. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. Legitimidade.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. Isto é uma trapalhada. o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. se não for cumprido. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. violação de deveres acessórios. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º). Ou há mora. mantendo-se o contrato-promessa.

mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. o sinal tinha alcance coercivo. a indemnização já não é o sinal em dobro. 43 . A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. Assim. penal. mexeu no regime do sinal. os sinais deixavam de valer tanto. se houve incumprimento. Enganou-se e mexeu em tudo. No Direito romano tinha um sentido confirmatório. 30%. começou a resolver o problema diferentemente. Houve várias propostas para resolver a situação. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980). O problema viria a ser resolvido em 1986. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. A jurisprudência. se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados. Tem um direito de liquidação judicial. A ideia era: como a inflação é muito alta. recebiam-se sinais. O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. Em 1980 havia grande inflação. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. Quando metido no contrato-promessa.No Direito grego antigo. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). que chegava aos 20. O imobiliário estava sempre a subir. Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo.  Quando há tradição da coisa prometida. Quando mexeu no 442º. Afastouse a possibilidade de execução específica. com a inflação. celebrando-se contratos-promessas. vender a coisa e recolher o preço. O que estava em causa eram casas de habitação. o sinal ganha coloração particular. faziam-se casas. no entanto. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. O Governo resolveu intervir. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. ajudava a provar a existência do contrato.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. na fase executiva. O retentor pode. Assim. Tornava-se compensador não cumprir. mas o valor actual da coisa.

Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. Tentou-se limar algumas arestas. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. pela interpretação). Todavia. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. introduzir correcções. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. Tentou-se. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. É uma “excepção de cumprimento”. O Prof. a primeira consequência é entrar em mora (805º). Se houver mora. com a solução do Prof. A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. Assim. É um esquema complicado. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. Houve excessos legislativos.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. a favor do promitente adquirente traditário. Lobo Xavier. Se houver morar. Se houver sinal. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. a indemnização seria o valor actualizado da coisa.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. Além disso. não sendo necessária a interpelação admonitória. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. Em 1986 o legislador interveio novamente. congelando o direito ao valor da coisa. Assim. doutrinariamente. mesmo que anteriormente registada. é mais selectivo. Tendo havido mora. ele é deduzido do preço. perderam a objectividade. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. O hipotecário ver-se-ia preterido. 44 . ficou consagrada a indemnização pelo valo. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. não há logo incumprimento definitivo. Vários AA. exige mais garantias. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. ainda assim. fixa-se um novo prazo. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal.

O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. Tradição da coisa Tecnicamente. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. É uma posse muito elementar. A menos que. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. Assim. 45 . a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). É um contrato que dá direitos muito precários. O que é que as partes pretenderam? 1. O sinal visa uma função compensatória. o que deve fazer é resolver o contrato. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. desaparece também o sinal. Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. destrói o contrato retroactivamente. O Prof. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. No Direito funciona-se com prazos. no entanto. É verdade. operando o sinal. se há sinal. Se for possuidor tem defesas possessórias. A distinção é importante. Neste momento. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. porque tem uma cláusula daquelas. Alguns autores dizem que. Pode ser uma gentileza mais demorada. bem entendido. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. Se for um representante. Se é esse o sentido da cláusula. quando haja incumprimento. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. A resolução. não há posse. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. deve ser tomado seriamente. É posse semelhante à do arrendatário. 2. 3. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. Um contrato de comodato. a troco da entrega da casa. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. É celebrado contrato-promessa. O contrato-promessa já é um contrato misto. Se resolve o contrato por incumprimento.

Contudo. também.4. Se de facto houve perda do interesse. Estamos perante um facto. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. Já está tudo pago. Assim. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. pelo que há entrega da coisa. Quando se trata de acções humanas. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. dir-se-á que não podemos obrigar. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. é muito difícil determinar a indemnização. Assim. já vinha de trás. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). muda o regime. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. através dos seus meios. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. Se há excepção do cumprimento. houve incumprimento. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. Em 1980 o regime foi alterado. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. mas não especificou. 46 . Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. Aqui temos posse em termos de propriedade. Se houve. houver sinal. colocando no terreno. Passa até à frente do credor pignoratício. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. para além da tradição. soluções alternativas à indemnização. A solução mais normal é a execução específica. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. O interessado pode ainda optar pela execução específica. Consoante o tipo de posse. Leva ao mesmo. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). Mas isso já estava subentendido. A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. Se tivesse havido incumprimento definitivo. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. seria impossível apresentar-se a cumprir. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. Foi uma ideia prussiana. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. por maioria de razão também há sinal comum.

 Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. Simplesmente. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. é muito difícil calcular a indemnização. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. mas vende a C. a declaração faltosa. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. em 1980 o legislador foi desastrado. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. Conquanto que o conteúdo seja determinável. as custas ficaram por sua conta. 47 . contudo. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo. p. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. O Prof. Não valerá a pena recorrer à execução. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. Aí. Nos outros a questão não se colocava. no momento em que é decretada a execução específica. verdadeiramente. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. já que a prestação se tornou impossível. Haverá consequências indemnizatórias. O tribunal não emite. Simplesmente. ex. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. Contudo. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. Mas nem sempre.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica.Houve soluções doutrinárias. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. Perante o incumprimento. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. Os riscos são compensados pela presença do tribunal. O 830º/1 voltou a ter a redacção original.

depois. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. Aí já faz sentido. Nessa altura. ex. poderia ser revogado. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. Quando nem sequer há prometibilidade (doação. não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). por sua natureza. comodato). Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. demissão). limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. 48 . in fine). Quando seja celebrado um contrato-promessa. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. se verifique uma alteração das circunstâncias. Contudo. Todavia. Não faria sentido a execução de um contrato que. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora. não se iria muito longe (despedimento. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. Contudo. MC entende que sim. mesmo que houvesse. pode acontecer que. Mas a lei admite mandato irrevogável. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. No caso do contrato de trabalho. O comodato pode cessar a qualquer altura. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo.  A exclusão convencional. tão pouco. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. Se houver situação de inexistência.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. Já no penhor ou no mútuo faz sentido. Não pode haver execução de contrato que não existe. p. o 830/1 admite a possibilidade.) também não pode haver execução. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. já não é de todo possível a execução. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. Igualmente. E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. Tem de haver ponderação de interesses. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. Mas. Mas aí não cabe execução específica. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. a sentença tem de decretar a entrega da coisa.

Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. que a foi buscar ao Direito alemão. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. Vaz Serra.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. Ora. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. convenção expressa de atribuição de eficácia real. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. escritura pública. O que está em causa é que o dever seja cumprido. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. Se não for cumprido. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. outros recusam essa solução. registo da promessa. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa.Depósito do preço A sentença é translativa. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. Se o preço não for pago há injustiça. Deixou de se exigir a escritura. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo. a lei alemã permite um pré-registo. qual a solução? Normalmente. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. alguns entendem que cabe execução específica.  Há execução específica. A outra parte pode não ter sido paga. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. vendendo a terceiro. mas contra o terceiro (Dias Marques). O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. O Prof. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. reforçando-se o registo. Promove logo a transmissão da propriedade. Assim.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. Através da eficácia real conseguir-se-ia. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. execução específica. não é norma de excepção. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. 49 . pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade. ficando privada do preço.

Ao celebrar o contrato-promessa.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. A primeira opção explicativa leva. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria. pelo menos em parte. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. no entanto. um acto de execução do que já estaria combinado. ainda que devido e pré-regulamentado. como contrato autónoma. apenas. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. de facto. tão-só. o contrato definitivo não perde em categoria. uma vez que dela nada sai de preexistente. em função dele. Justamente por. A lei proíbe. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa. De seguida. uma vez concluída. a contratar. Mau grado a primazia reguladora da promessa. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. a execução específica não é puramente executiva. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. na promessa. o que esteja em causa. as partes obrigam-se. Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. em relação ao definitivo. com o contrato definitivo. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). no fundo. tão-pouco é declarativa. as partes regularem. à negação da própria promessa. delimitando. 50 . A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. por vezes. a celebração das promessas. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. continua a ser um verdadeiro contrato. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. em definitivo. levar ao apagamento do definitivo. Nos extremos.

o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. A favor do comproprietário (1409º e 1410º). A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). caso este queira. deve vendê-lo. essencialmente.O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. em Direito. 1380º e 1381º). por χ. pelo preço em causa. ao preferente. As preferências no sistema jurídico No Código Civil. Em regra. uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. pelo artigo 1535º (1901º).  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. De resto. Diz-se. isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. antes. o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente). nesse sentido. A favor da pessoa designada em testamento (2235º). 51 . com o qual o negócio fora ajustado. as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato. perdendo a plena disposição do seu bem. a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. um dia. O direito de preferência. 1519º e 1523º). A favor de proprietários contíguos (1379º/2. que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). caso queira vender um prédio a alguém. A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). Da mesma forma. A favor do senhorio (1112º/4). ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. tem. quando convencionalmente estabelecido. desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). A favor do co-herdeiro (2130º). O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. A favor do fundeiro (1535º). Por exemplo: o obrigado. Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável.

Modalidades. permite ao preferente exigir. a preferência real confere. a um direito real de aquisição. nesta última hipótese. uma vez que a outra emite logo a declaração final. ao obrigado faltoso. quando violada. ora reais. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real. a preferência legal advém da lei. Na segunda.  A opção – figura inominada e atípica.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º).Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso. a real.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito. Na primeira. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. violado o pacto. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau. tem cabimento recorrer à acção de preferência. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência. através de uma acção de preferência (1410º/1). As preferências convencionais são ora obrigacionais. ao preferente. ainda e por elas. ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo.  A preferência obrigacional. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. apenas uma das partes fica obrigada. uma indemnização. 52 . observadas determinadas formalidades.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. todavia. nos termos do 414º. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais. na opinião dominante. relativo à acção da preferência. não podendo o preferente fazer seu o negócio. sejam. consoante a opção das partes e isso desde que. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita.

quer autêntico quer particular. perante o Direito vigente. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. ao pacto de preferência. o artigo 410º/2. quando o contrato preferível exija documento. Propõe-se a aplicação. Todavia. eventualmente. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. de liberdade de forma. ao pacto de preferência. de onde promanam deveres para ambas as partes. Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. Com uma prevenção: numa situação de preferência. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). pretenda contratar com o obrigado à preferência. próprio do contrato-promessa. mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. como a de fazer a competente comunicação.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. recebem os deveres. próprias do contrato preferível. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). como cláusula num pacto mais vasto. os ónus e os encargos envolvidos. desencadeando o funcionamento do pacto. a essa luz. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. à preferência. das regras aplicáveis à capacidade. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. do princípio da equiparação. a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. E sendo este o caso. por ele.Forma O artigo 415º manda aplicar. 53 . por parte de um terceiro. se o pacto for bivinculante (bilateral). o terceiro deve-se abster de contratar. de acordo com as regras gerais (219º). podendo. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui.  Porém. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. Tendo conhecimento do pacto de preferência. é afectado de algum modo. por definição. Num pacto de preferência comum. em regra. daí resulta a aplicação. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. Bastaria a assinatura deste. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. a menos que ambas as partes se vinculem. Pergunta-se se o terceiro que. O modus praelationis. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. deve-se lidar com os deveres acessórios.

por parte do preferente. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. a comunicação para preferência deve ser feita a todos. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou. A comunicação não está sujeito. e estará enganado. na mesma linha. modificações ou reticencias. por aplicação do 410º/2. por lei expressa.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. afinal.  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou. se vem mesmo a concluir na esfera deste. por opção do beneficiário. uma de duas:  Ou o preferente prefere. não o quer. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). quer autêntico. convicto de que. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal. 54 . ficando o contrato por celebrar. isto é. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. deixando o negócio para o terceiro que. com alterações.Na posse dessa proposta. pelo menos. na presença de um projecto de contrato firme e sério. Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. esta deve ser feita ao preferente. com poderes bastantes. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. se não o fizer. declarando que não está interessado. já que o terceiro não celebraria tal contrato. A “aceitação” da comunicação para preferência. ao seu direito. Havendo aceitação da comunicação de preferência. A resposta do preferente. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada. pelo menos. É o que dispõe o artigo 416º/1. exige-se forma escrita. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. o terceiro ficará com o negócio. perfila-se o contrato definitivo. o contrato. com base nela. A não se verificarem tais requisitos.  Ou renuncia à preferência. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. a renúncia. de pleno direito. Finalmente. o represente. envolve. Havendo vários preferentes.  Ou o preferente rejeita. quer particular. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir.

Não o sendo.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. dependendo das circunstâncias. não o sendo. sem prejuízo para o interessado. no nosso Direito da compra e venda. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. ou não. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. então. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva. podem umas e outros ser desagregados. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. recebida a comunicação. Existem três possibilidades básicas. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. quando se reporte a uma universalidade. pode. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. o preferente desiste ou prefere em conjunto. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. As valorações subjacentes ao artigo 417º. A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. Prestação acessória. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro.  Não sendo avaliável em dinheiro. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa. De todo o modo. o que terá que provar. 55 . pelo preço que proporcionalmente lhe caiba.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras. divisível?  E não sendo divisível. ou não.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode. nenhum princípio de especialidade. é excluída da preferência. 1ª parte). Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. apontam. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. Observar-se-á. o contrato será seguramente único. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos.

fazer seu o negócio faltoso. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles. sempre. A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele. a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). em caso de violação de uma preferência real. Verificados os pressupostos. 1ª parte). moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. em termos de aquisição. A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. Segundo o artigo 1410º/1. Havendo eficácia real. abre-se licitação. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. feito no artigo 410º/2. sem seguir o procedimento da preferência. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. nas condições fixadas.  Concluir o contrato em causa. É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes. afastando. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. ao preço e à identidade do requerente. 56 . Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. a todos os preferentes. com o preferente.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. com isso. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. seguramente. esta última: trata-se de um facere jurídico. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. os restantes: não havendo processo de escolha. A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). A prestação principal é. Em termos de comunicação: ela deve ser feita. A acção de preferência permite ao preferente.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. desde que este as acompanhe.

aqui. A opção. no cumprimento. o artigo 411º: o vinculado pede. provocar o aparecimento do contrato definitivo. que fixe um prazo razoável para o seu exercício. na execução. na opção basta a declaração do beneficiário. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. 57 .  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. do definitivo.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. declarações de ambas as partes. da posição de contratante e do valor que ela representa. o titular ou o optante) recebe o direito de. a opção cessa. ora.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. esta não depende da intervenção da parte vinculada. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. excepto no que tanja ao cumprimento deste. passando a integrar o definitivo. dá azo ao contrato definitivo. Aplicam-se aqui. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”. por ambas as partes. um verdadeiro contrato-promessa. perante o concreto contrato definitivo em causa. Direito e deveres. o qual. ele recebe o direito potestativo de. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado.  Quanto à execução. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. na opção. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. que exigirá. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa. ao tribunal. tendentes à conformação do contrato definitivo. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. execução e incumprimento No que toca ao optante. só deverá ter lugar se uma das partes quiser. Haverá que aplicar. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). todavia. só será válida e eficaz se. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. na conclusão. Logo. por uma simples manifestação da sua vontade. directamente ou por analogia. a celebração.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. por analogia. por mera declaração unilateral.

O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. o artigo 762º/2 e. Funções. 58 . partes no contrato. quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). por via dos artigo 295º e 221º/2. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. a sua opção. há que lhe aplicar. uma das partes (o promitente) assume. O obrigado. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. Actuada a opção. a cargo. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. perante a outra (promissário). o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. por analogia. no mercado.O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. entre outros aspectos. a qual adquire um direito à prestação. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. as partes congelam as condições da venda. no memento escolhido. Ainda o mesmo optante pode colocar. o artigo 272º: na pendência da opção. Ambas as partes ficam . A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. respectivamente. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. por seu turno. Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. Como princípio geral. dando-a em garantia ou alienando-a. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. O risco desaparece.todavia. o qual deve ser cumprido. No plano do seu conteúdo. designadamente para a parte optante. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. natureza e aplicações Celebrando uma opção. que exercerá o seu direito se o entender. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção. do definitivo. do optante e do adstrito. directamente. com relevo para o pagamento do preço da opção. surge o contrato definitivo. Assim. pode facturar o premio da opção.

deste cerne. O terceiro adquire o direito à prestação. excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2).A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. a efectivação da promessa ao terceiro. O regime concreto de tais prestações. 59 . especificamente. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. porventura. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal.  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. lhe possam advir da relação básica (405º). fundamentalmente. quando esse seja o conteúdo da promessa. ao promitente. se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte. imediatamente. A posição do terceiro O terceiro adquire. porventura. do promitente. a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1). A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. o direito à prestação: independentemente da aceitação. A posição do promitente. As prestações que. nessa altura. independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). de forma geral. 1ª parte). a prestação principal O promitente tem. pelo contrário. a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. perante o terceiro. pelo contrato a seu favor. A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. devam ser trocadas entre os mesmos. Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. contratos como o casamento ou a doação. do promitente. por exigência deste e do promissário.  A de exigir. a contrario e 448º/1. as prestações ou outras vantagens que.  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem.  A de exigir. Tal permite excluir.

pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. logo. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. por não ter sido celebrado com o terceiro é. desconhece os precisos termos envolvidos. ao abrigo das regras gerais (217º). Electio ou electio amici: a escolha. instável. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação.  O terceiro. pode desinteressar-se dela ou. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. falsificar a conduta a que se encontra adstrito. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. antes dela. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. porém. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. de lealdade e de informação. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. não tem. Esta apenas consolida um contrato que. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. Eligendus: o terceiro. ainda. sobre si. quando se desempenhe perante o terceiro. O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. não sendo parte do contrato. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. Desde modo. o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou.  O promissário. através da regra da boa fé (762º/2). Na linguagem desde subsector. no limite. a contrario e fortiori). O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. por não ser o destinatário da prestação acordada.  Torna a promessa firme (446º/1. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1. nada fazer. antes de ter ocorrido a sua nomeação.Perante um contrato a favor de terceiro. 60 . As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. Amicus: o terceiro. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. a contrario). Pode-se. de adesão. admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. a fiscalização da contraparte. pode ser menos diligente ou até. Num primeiro tempo.

Ele implica. produz efeitos em relação ao contraente originário. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. o negócio consolida-se na esfera do stipulans. Feita regularmente e comunicada a designação.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. altura em que o contrato ficará sem efeito. ao outro contraente. Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. em princípio. foram surgindo figuras que. Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato. a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. eficácia retroactiva. tal como sucede com a ratificação (262º/2). 61 . a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira). no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. A electio tem. quando superior (454º/2).  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. seja em termos técnicos. Como tratá-las? Com o tempo. seja em moldes sócio culturais. Concluído o contrato para pessoa a nomear. num todo coerente. dele se aproximavam. O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma.Regime. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. As fontes paracontratuais Ao longo da História. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios. Embora a lei não o diga. do próprio contrato que a contenha. não reunindo as características perfeitas do contrato. concordância do amicus e electio. inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. pois. que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa. a cláusula “pessoa a nomear”. A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta.

muitas vezes. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos.  Os contratos com protecção de terceiros. seja nos preliminares. em termos rigorosos. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social. de lealdade e de informação. pelo menos. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual. Surgindo. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. tivesse ocorrido qualquer contrato. Relações paracontratuais em especial 1. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais. o contrato. com ele. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais. na sua origem. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique. no espaço jurídico. sem integrar previsões contratuais. uma parte razoável do seu regime.  Situações de proximidade contratual.  Situações de relações jurídicas complexas. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança.  Inserção em organizações comunitárias.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual. seja na formação. ser reconduzidas ao contrato mas que. através de meros comportamentos materiais. 62 . isolam-se:  As relações contratuais de facto.  As relações contratuais sem contrato. chega-se. para certos fins. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas. execução de relações duradouras. postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. Sublinha-se que. esta relação fundir-se-ia nele. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. depois. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. derivada do facto simples de um contacto social. no tráfego moderno de massas.

as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. Há impossibilidade inicial da prestação. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. o círculo interior. por estar vulnerabilizada. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. O contrato é resolvido. tenha uma proximidade visível. Também está claro e assente que. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé. promane deveres acessórios (de segurança. nas protecções dispensadas. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. não seja parte. Surge uma impossibilidade superveniente. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. em face de um contrato:  Alguém que. O círculo interior. Em termos analíticos. 63 . perante a prestação principal e em face do credor. por qualquer razão. no caso de violação. 2. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. mercê dos contratos preliminares. igualmente. ainda que insubsistente. e existe. A “fonte”. Havendo proximidade.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. no contrato considerado. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. Com as devidas adaptações. 3. ainda. que se reporta aos bens postos em jogo. nele. independentemente de qualquer especial vontade. De novo há um círculo exterior. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. revogado ou denunciado. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. O contrato é anulado. Em termos gerais. que veicula os valores fundamentais do sistema. para terceiros. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. o Direito manda proteger. pelas partes.

Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção.  A proibição de. no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro.  Os perigos da adstrição ad nutum. obrigações que (só) irão pensar depois. uma regra de tipicidade. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. tais deveres não têm origem contratual. o proprio acto unilateral (457º-463º). uma vez que ele não é partes. “negócio” engloba. por analogia. aqui. fora de série. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. nesse sentido nuclear. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. Mas têm moldagem contratual. São os deveres pós-eficazes. o inerente instituto. como um simples facto stricto sensu. ser globalmente denominado culpa post factum finitum. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. o que (ainda) não têm e subscreverem. dando origem. ad nutum. podendo. operando o contrato. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. fique adstrito a realizar uma prestação. O negócio unilateral implica que alguém. aplicar. De facto. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. para as partes. de obrigações futuras. ainda se poderiam manter determinados deveres. mas noutros locais. aparentemente. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. cessado o contrato.Tecnicamente. com ligeireza.  Um numerus clausus de realidades relevantes. perante eles. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes. quando violados. Antes de fundam na lei. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se. 64 . 4. Em rigor. as normas típicas. com facilidade. que explique os deveres resultantes. 5. por sua livre e exclusiva vontade. a responsabilidade obrigacional. em termos jurídico-positivos. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. de lealdade e de informação. No que se lhe reporta. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. O artigo 457º proclama.

é aparente. igualmente por via da boa fé. de que. No que tange ao autor do acto. De contratos com apenas uma assinatura. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. cabe salientar a confiança que. deve sublinhar-se. de resto. Dogmática geral O negócio unilateral. Do testamento. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida. Deve-se ter também em conta os terceiros que. A regra não origina nenhuma obrigação nova. também aqui. a primazia da materialidade subjacente que. numa segunda vertente. existe aqui. devidas. ainda. por força de qualquer outra fonte. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se.  Fonte essa cuja existência se presume. sem indicação da sua fonte. com a promessa pública como modelo. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. para além da concreta eficácia suscitada. 65 . pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. passando pela tradição de uma coisa. Negócios unilaterais em especial 1. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. Assim:      Da proposta de contrato. pode-se admitir tipos abertos. pelo princípio da causalidade. fica o credor dispensado de a exibir. já antiga. quanto à existência de adequada fonte das mesmas. a afirmação. Em bom rigor. Da oferta ao público (230º/3). sobretudo quando interessados. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. no Direito português. Quanto muito. proclamada no artigo 457º. pois.Mantém-se. isto é. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). anteriormente. ainda. deve imperar. Do anúncio público (225º). a tipicidade dos negócios unilaterais. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. Os negócios unilaterais distinguem-se. limitada à inversão do ónus da prova. até prova em contrário (pelo devedor). importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico.

constitui uma especial modalidade de promessa pública. seja revogada. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que.2. a sua obrigação. não tendo prazo. só nessa altura se constituindo. deriva. in fine). que torne a promessa inexigível. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. Concurso público O artigo 463º. ainda. Até que. A justa causa será. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). a título de prémio. um motivo atendível. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. pelo cumprimento. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. por justa causa (461º/1. aqui. Até que. o concurso ficaria indefinidamente aberto. por anúncio público. ele extinga.     Até que expire o prazo nela fixado (460º). objectiva ou subjectivamente. perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé).  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. surgindo alguém nas condições nela previstas. 66 . apenas. pode. Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. constituir o contrato. ficando. relativo a concursos púbicos. desde logo. O público. pela aceitação. o promitente adstrito à sua efectivação. acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. o promitente fica obrigado:  Até que. muito claramente. naquela. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. da oferta ao público (230º/3): nesta. Feita a promessa. tendo prazo. antes dele. A situação distingue-se. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. da indeterminação do destinatário. exclusivamente. propriamente obrigado. seja revogada (461º/1). na sua falta. fica vinculado desde logo à promessa”. aqui. 3. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º).