Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

1

Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

2

 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

(448º. 809º. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. O legislador optou por emitir leis avulsas. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. analítica. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. 457º. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. no Código Civil. por regra. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. O Direito das Obrigações alemão é líder. O BGB é de 1900. A causalidade contrapõe-se à abstracção. não depende da sua fonte – o negócio jurídico. É muito difícil mexer nele. No entanto. Mas há zonas periféricas. É muito elegante linguística e estilisticamente. 942º. para não darem o que não têm. É um código típico do início do séc. Romano-germânico Sistema centrado no BGB. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. regras. Se a fonte for inválida. A responsabilidade civil é ampla. A responsabilidade civil é fechada. daí tal importância. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. a obrigação não subsiste. antes de terem as coisas. 947º. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade.. 812º. prescrição. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. Não se quer que as pessoas. doutrina. A validade de um cheque. A codificação da boa-fé. é abstracto. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. 2. todavia. 863º. 4. p. baseada num conceito vago. nesse caso. que merecem reforma em Portugal. ex. Causalidade Significa que. defesa do consumidor). renunciem aos seus direitos. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. 994º).Existem. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. Protegem-se as pessoas contra si próprias. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. que nascem de uma determinada fonte. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. vários artigos em que podemos detectar esta orientação. Resulta do movimento da pandectística. XIX. O BGB. 4 . das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. transposição de directivas comunitárias. Foi muito pouco mexido. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. O Direito civil é muito estável. O Direito das Obrigações é super estável. as obrigações.

Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. canónica. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. surgem institutos até então desconhecidos. sequer. 5. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. islâmica. entre os conceitos desta família e os das anteriores. Chinês É muito antigo.3. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. mantiveram-se em vigor as Ordenações. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. na China não aconteceu isso. tal como a cultura chinesa. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. Mas. no entanto. Este sistema não é codificado. sendo revigorados os já conhecidos. Além da redistribuição germânica das matérias. XIX. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. No Brasil. Anglo-saxónico É um mundo à parte. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. há um período de pré-codificação. Antes da aprovação do Código de Seabra. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. 4. Há união entre religião e Estado. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. O Código de Seabra é. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. 5 . Naturalmente. O Código não é de inspiração alemã. muito avançado. não havendo negócio jurídico separado dos contratos. Mas foi uma novidade científica que vingou. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. Mas tem uma organização e conceptualização originais. a partir de 1911. sendo uma enorme influência. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. Há pouca influência romana. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. Não há correspondência. O Direito português é aberto ao exterior. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica.

A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. verificou-se a invasão indonésia em 1975. Há algum atraso na sua aprovação. mas havia a barreira linguística. logo em meados de oitocentos. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. Todavia. Em Macau. voltou a vigorar o Direito português. Em Cabo Verde. As revisões ministeriais do Prof. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. foi aprovado um Código Comercial novo. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. Ele é de 1966. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. O Código brasileiro aparece só em 1916. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. tendo-os traduzido para chinês. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. Em África Em Angola. Foi necessário recomeçar. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. numa segunda fase. Com a independência. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. O CC de 1916 tem já influência germânica. numa primeira fase. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. O Prof. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. depois da aprovação. houve maior inteligência política. marcaram as primeiras reconstruções do CC. vigora também o código de 1966. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. 6 . O Código de 1966 vigora actualmente. ainda em meados do séc. XIX. com Teixeira de Freitas. Em Moçambique. como membro da OEA. mas já havia recepção do pandectismo. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. sendo substituída pelo inglês. um período de exegese.No Brasil Na doutrina brasileira. Antes da entrega de Macau. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. Na Guiné. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. mas começa a ser preparado no pósguerra. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. Houve. quando ocorreu a ocupação. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. O português era a segunda língua. Tem influência germânica e do Código de 1966. Em Timor. com algumas alterações após a independência. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada.

No Direito francês há distinção. O Direito lusófono não tem só essa influência. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. quantidade de falantes da língua. hoje. que é do final de Oitocentos). A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). Há. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. de Common Law. Somos. a directriz não vigora. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. Brasil. entre interpretação e integração. mesmo quando escritos em inglês. etc. língua. um pequeno país na Europa. Quanto a autonomia doutrinária. é diferente. estão em causa relação inter-pessoais. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo.O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. na área dos negócios e nas relações entre povos. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. não são de common law. Há 23 línguas oficiais na Europa. A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. Mais tarde. O Prof. Japão. Em termos planetários. Mas havia uma grande projecção ultramarina. até. 7 . os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. É um Direito que tem uma evolução histórica. a grande influência. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. ex. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). predomina o inglês. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono.. Assiste-se à implantação (Portugal. que suportou a nossa independência. Se não o fizerem.) de sistemas próximos do germânico. O caso português é singular. não havendo confusão com os sistemas da pandectística. também com as operacionais: inglês. Todavia. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. Nas obrigações. provêm de regulamento. evolução histórica. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. ganha pelo mérito. Coreia do Sul. uma enorme barreira linguística. Há as directrizes e os regulamentos. p. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. francês e alemão. As regras sobre a moeda única. Mas na área do Direito não é assim. foi do Direito alemão. ao contrário do que acontece no Direito português. Ciência do Direito. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. Turquia. Cumpre saber que língua é utilizada. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. De um modo geral.

Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. mas com exagero. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. ele começa a desaparecer. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. Para o Prof. há muitos constrangimentos. dada a insuficiência da língua inglesa. Nós. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. Se A tem direito. No espaço europeu. O Prof. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. havia um domínio de alguém sobre outrem. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. Antigamente. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. não há um Governo europeu. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. para SAVIGNY. e não a totalidade. juristas portugueses. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. como a falta de competência dos órgãos europeus. O melhor Direito é o interno. Esta noção presta-se a críticas. era o poder da vontade. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. MENEZES CORDEIRO. 8 . Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. quando existia obrigação. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo). havia um Direito europeu das obrigações. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. No plano oficial. nem uma política externa comum. Não teve consequências. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. intra muros. a vantagem é o bem que será prestado. Fala de um bem a prestar. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. O direito subjectivo. forçar a vontade humana. há 500 milhões de pessoas. cabendo ao credor recorrer aos tribunais.No tempo do ius commune.

Em regra. No séc. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. Pode ser um facere ou um non facere. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. um direito ao património do devedor. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. pode-se atingir o seu património. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. XIX. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. A obrigação não é apenas um bem a prestar. já é um valer em si. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. Há. Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. Se o devedor não cumprir. sim. A ideia remonta ao antigo Direito romano. assentes apenas em deveres acessórios. Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. Depois. extingue-se a haftung. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. Na prescrição. independentemente de ser cumprida ou não. surgiu a respondência. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. Ela. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. no início. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. independentemente de terem culpa). O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. mas o seu património. Primeiro. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). o dever é sempre um constrangimento ético. 9 . mas as suas obrigações permaneciam. As pessoas morriam. surge a nova noção de obrigação. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa.Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. todavia. Os romanistas diziam que não havia. obrigações. Assim. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). as obrigações são cumpridas. Pode haver obrigações sem prestação. pelo que é excepção o recurso ao património.

etc. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. não interessam. um conceito de obrigação. Estas construções são úteis. Se não são. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial.. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. tratado mais à frente. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. noutros. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. A obrigação. Se o devedor principal não cumprir. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. Se é assim. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. só. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. outra concepção diz que há um direito real de garantia. Se são. sabe-se hoje. O credor fica adstrito a deveres de segurança. A obrigação do fiador é secundária. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. com dois regimes). é o fiador que deve cumprir. Em certos casos. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. a responsabilidade é patológica. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. deveres secundários e deveres acessórios. linguística. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. O regime é solicitado para um tratamento unitário. colaboração. Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. com o credor e vice-versa. A obrigação pressupõe um dever específico. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. noutros ainda. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. compreende um dever de prestar principal. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. em termos pragmáticos. pelo que obrigação não é uma prestação. pode ainda não existir. O BGB já não exige natureza patrimonial. cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. A prestação pode não existir. Mas. não podendo servir para construir. 10 . pode haver nulidade. não tendo interesse para o Direito nesse caso. por si só.

Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. há ressarcibilidade dos danos morais. Pode haver execução específica. O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. É assim ao nível global. à partida. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. acção directa. o 398/2. compensação – e não de equivalência. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. há sanções pecuniárias compulsórias. Não tem de haver natureza patrimonial (398º). de sistema. Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). O 397º define obrigação. tem conteúdo económico. Tudo pode ser avaliado em dinheiro. chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. Direito. não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. Como são ressarcíveis. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. 2ª parte remete para o interesse. não necessariamente em todas as situações. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. mas havendo danos. As relações de obsequiosidade não são. boa educação) que não relevam para o direito. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). 11 . mas pode receber dinheiro.Se um artista se obriga a entoar uma ária. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. ela é avaliável em dinheiro. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. pode haver responsabilidade pela deferência. será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. Hoje isso não é assim. O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal.

A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. Os créditos não são sempre relativos. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. Quanto aos acordos de cavalheiros. a relatividade existe quando há relação jurídica. Em direitos reais há só uma. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. Se a prestação for um serviço. Esta noção vale o que vale. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). o que tem de surgir é o serviço. A convida B para dançar. mas não se pode retirar daí uma regra. no caso dos direitos reais). 12 . contrapondo-se aos direitos reais. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. A obrigação é uma relação jurídica. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). encontramos sempre uma dança a dois. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. o credor aproveita imediatamente a coisa. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. seria sempre necessária a mediação. no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. Em obrigações. erga omnes. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. não. Nas obrigações. Uma última. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. que são absolutos? Em termos estruturais. Podem fazê-lo? Em princípio. relações de vizinhança. há figuras como a execução específica. Assim. Os acordos de cavalheiros são relevantes. Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. há créditos absolutos. duas partes. por exemplo).Há também deveres de protecção. O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. Noutra acepção. Os direitos potestativos são absolutos. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. o direito real é uma situação absoluta. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. absoluta. são para cumprir – se não forem. Deve-se sempre perguntar qual a origem. nos direitos pessoais de gozo. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. mas não se pode esfarrapar o par de dança.

Deveres acessórios. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). A doutrina tem evoluído nesse domínio. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. que se manifestam predominantemente perante o devedor. em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). se incumpridos. No sentido forte. É o que acontece com os chamados deveres de tráfego. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. a externa é perante terceiros. Mas inverteu-se a tendência. PESSOA JORGE).A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. Na Alemanha diz-se que não.. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. As obrigações são vínculos. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. Mas há outras regras. A regra é de que a eficácia é meramente interna. então há oponibilidade média. com MANUEL DE ANDRADE. No início. pode existir oponibilidade em sentido forte. A eficácia interna é entre credor e devedor. Havia uma quebra maliciosa do contrato. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. dão lugar a responsabilidade civil. o que lhes daria uma tutela relativa. médio ou fraco. relações jurídicas. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão. Há uma acção. p. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. A nossa jurisprudência acordou em 1964. Há contratos com protecção de terceiros. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. com os pactos de preferência. a figura do terceiro cúmplice). Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. Se é assim. Faz sentido que haja defesa contra terceiros. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. 13 . ex. Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. Mas há também deveres no tráfego que. dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. Se é assim.

O Direito objectivo. os factos são descritos concretamente. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida. Isso em princípio. um terceiro faz-se passar por credor. Argumentos a favor. Noutros casos é mesmo normativa. Mas esses não se aplicam a terceiros. Num ramo típico. não estão assim tão mal. protecção jurídica. pois. há um numerus clausus – o número de factos é finito. Se existe uma descrição típica das condutas. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. Quando a lei recorre a descrição da realidade. Só pode estatuir com recurso a tipos. mas há várias vias para o conseguir. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. ao atribui direitos subjectivos. Outros dizem que só o devedor pode incumprir. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. Contratar-se-ia menos.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. há responsabilidade. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. como o penal ou o fiscal.  Diz que existe numerus clausus. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. 14 . recorre a tipos – tipicidade. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. não havendo lacuna. Dá. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. O legislador pode dar uma série de exemplos. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). países que admitem a figura. em princípio inatingíveis. Quando existe uma previsão normativa. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. diz-se. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. Está tudo ligado. é muito mais restrita. Se ele for atingido. as economias britânica e francesa. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. Se A contrata com B. Isso justifica-se em ramos agressivos. descrevendo as condutas. proíbe autotutela.  Diz que está proibida a analogia. Há tipicidade exemplificativa. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. O terceiro não pode. Todavia. aplicam-se os artigos 798º e ss. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. Quando existe um devedor.

Há. tudo é parecido com o Direito das obrigações. por conjunções históricas. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. aqui. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. Aí. Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. Obrigações. obrigações naturais. ex. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. Nas obrigações isso não existe. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. em princípio. o regime tem um desvio. ao contrário. Os direitos reais têm. Autonomizou-se do Direito das obrigações. É muito especial. O conteúdo distingue-se do objecto. O Direito comercial é outro ramo especial. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). Mas existem muitas obrigações nessa área. Há. O conteúdo das obrigações é sempre. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. Mas tem regras especiais. p. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. Há situações de direitos reais que. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. 15 . venire contra factum proprio. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. não há numerus clausus e pode haver lacunas. também. Isto é o núcleo duro – há desvios. O mediato é também designado por objecto. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. invariavelmente. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. direito a uma coisa corpórea. por via de condicionalismos históricos. um princípio de tipicidade. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. Há tipicidades de tipo científico. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. tipicidade exemplificativa. O contrato de trabalho é um contrato como os outros.).Nos contratos há descrição abstracta. um direito e um dever. de facto. etc. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece.

De pati. as partes pretendem uma determinada conduta. De dare. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. Por vezes. Seguem o regime da prestação principal. Só é exigível que se esforce até esse ponto. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. tendo em conta as circunstâncias do caso. São prestações que complementam a prestação principal. É o homem médio. A de dare consiste na entrega de uma coisa. A prestação principal é o núcleo da obrigação. É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. Se se comportar abaixo da bitola. Não se obrigam a resultados. aquilo que for normal num homem médio. por um esforço de análise. Ex. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. Foi o critério escolhido pelo legislador. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss.: o médico não tem obrigação de curar. Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo).) e a aquiliana (483º e ss. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção. É o critério do bonus paterfamiliae.). Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta. O devedor está obrigado à diligência média. tem culpa. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). mas à prestação de um serviço com determinada diligência. é um homem médio colocado no caso concreto. Todavia. Uma prestação inclui necessariamente o esforço. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. noutras pretendem o resultado. Temos de saber o que é exigível. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. São instrumentais em relação a ela. apenas de fazer tudo ao seu alcance. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra. Podemos. Não se trata de um non facere.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. 16 . A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta.

Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. Os deveres acessórios são imprevisíveis. Não basta cumprir a obrigação. 17 . determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. só depois a indemnização. A base legal é o 762/2. etc. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. determinável. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. Substancializam a obrigação. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). a obrigação é uma realidade muito complexa. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. é preciso cumprir de boa fé. possível. O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. Podem ser deveres de lealdade. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. nos deveres acessórios são ambos. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito. são soluções para problemas novos. rerum sic stantibus. O legislador quer primeiro cumprimento. segurança. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. tal como se não cumprir o dever acessório. contratuais e pós-contratuais. Está em causa o princípio da tutela da confiança. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo. observando os deveres acessórios. A culpa in contrahendo.  Círculo externo.. Como decorrem da boa fé. mas há deveres acessórios pré-contratuais. depois a reconstituição natural. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. A indemnização é uma consequência de segunda linha. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. integração de lacunas. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. informação. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita.O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra.

como concessão. outros não.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. atípica resulta da autonomia privada. trata-se de obrigação complexa.). Absolutas. Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. uns relacionados. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei. Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei. 4. p. Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos. mas são regularmente utilizadas no sector. porteiro.). A regra é da fungibilidade.  Obrigação de abstenção (simples. combinadas quando estejam associadas a direitos reais. 3. Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples). prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis. suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir).Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. Se sou obrigado a recorrer a perífrases. na relativa há. transferência de propriedade. A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. Em princípio. 5. nas mistas há vários deveres. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). ambos).  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente. se consigo exprimir com uma única expressão é simples. Não é o mesmo que coisa fungível. etc. ex. Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. 18 . relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. 2.

As questões sociais vieram pugnar por protecção. Implica especialidade quanto à sua cessação. se tiver poder de representação celebra também os negócios). Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. determinável. Obrigações duradouras Partimos da prestação. Hoje. O Prof. Se fosse logo satisfeito. Há lacuna. pelo menos. O Direito civil é um direito prático. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. Tipos de obrigações 1. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. A denúncia seria um dos esquemas. ao contrário das obrigações comuns. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. E relações perpétuas. não obstante. pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. Havendo agência. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. como reacção ao regime feudal. claro está. em que havia obrigações perpétuas. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. A denúncia. Não se extinguem com o cumprimento. mas pessoais. também. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. A retribuição é a renda ou aluguer. um pré-aviso.6. O conteúdo tem de ser sempre. e outras que se cumprem no tempo. surge na periferia. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. com dilação temporal juridicamente relevante. o principal. O DL 178/86 trata da cessação da agência. era instantânea. 2. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. sob pena de nulidade (280º). para tutela da confiança. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. forma de cessação de um contrato duradouro. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. É necessário. entre o agente e o principal há relação duradoura. 19 . É um contrato em especial. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição.

Em 1990 tentou-se de novo. Em 2006 houve um projecto. É um direito real. Logo. etc. Há bloqueios ideológicos. políticos. trânsito caótico. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer.  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio. é figura real o direito de locatário. O 1743º do CC francês determina que. Nos finais do séc. A solução de quem chega ao mercado é comprar. Surgem teorias mistas (entre nós. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. Há subúrbios. centros das cidades abandonados. contraindo empréstimos. actualizando as rendas. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. XIX. havendo transmissão da coisa arrendada. 20 . Chegou-se a este panorama aos poucos. Se houver inflação. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento.No arrendamento domina a autonomia privada. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. as rendas vão degradando. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário. por exemplo. XX. mas também não chegou a bom porto. Em 1985 tentou-se reformar. Quanto mais baixa a renda. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas. Chegou-se a um regime vinculístico. maior o lucro do trespasse. económicos.  Congelamento das rendas. inícios do séc. com a industrialização e grande pressão urbanística. menor taxa de natalidade. porque ele é sempre real). surgiram fenómenos e problemas de natureza social. Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. para o futuro). No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. Se é assim. Obrigação de deixar usar? Seria negativo. Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção). impedindo actualização das rendas. Mas também não explica o que é o gozo. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas.

No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. Estabelece que prevalece o direito real. com recurso aos tribunais). Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. como direitos reais. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. Seguem. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. na locação. em regra. já que é ela que as explica. tendo um direito de preferência sobre a coisa. A pessoa estava obrigada a fazer algo. Essa tese é inaceitável. pois. porque não era uma pessoa. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. Uns são pessoais e outros são reais. Em geral. entre os direitos reais e os de crédito. Não tem uma grande relevância prática. Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. pelo que ele se pode defender sozinho. por ser figura próxima do direito de crédito. Mas mudou de ideias. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. o locatário pode fazer obras. Mas pode ser integrado no Livro II. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). Admitese a existência de direitos de gozo. Era um débito sem respondência. Juridicamente não tinha personalidade. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. é histórica. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. defender o seu direito face a terceiros. no conflito com outros direitos. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. de forma similar aos direitos reais. Obrigações naturais É figura muito estudada. Comportam-se. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). nesta matéria o regime dos direitos reais. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. O Direito dizia que ele estava obrigado. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. 21 . 3. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. mas sem shuld. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. o que os aproxima dos direitos de crédito.

No período medieval. As obrigações naturais. É jurídico. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. Hoje. Havia ligação entre o Direito e a moral.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. sociais.  Não exigibilidade judicial do cumprimento. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos. mas também as obrigações 22 .  As obrigações naturais são típicas (809º). Todavia. Isso não é verdade. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas. diferente de um Direito moralmente enformado. não têm valor patrimonial. etc.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. Aparentemente. A obrigação natural deve ser. mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei. não jurídicas. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial.. a moral é uma coisa e o Direito outra. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). pois. jurídica. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais. com base no 404º. diz-se por vezes. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. Esta matéria está regulada no 402º.  O 404º. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. Não podem ser constituídas por contrato. não posso pedir devolução do que paguei. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. Se eu pagar. A lei. Ser jurídica é estar prevista como obrigação. Em tudo o resto. Tiveram uma evolução muito atormentada. Mas são aqueles os dois momentos cruciais. etc. transformando-as em naturais. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida. Não pode ser exigível judicialmente. aplica-se o regime das obrigações civis. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. Mas isto não pode ser. Noção legal (402º). porque elas são típicas. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente.A isso chamaram obrigações naturais. A justiça é aquilo que o Direito consagra. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português.

23 . Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. Na falta de acordo. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. quantidade ou qualidade. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. Não havendo convenção. O problema que surge é o da determinação do objecto. com a massificação das transacções. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). que podem ser de facere. é fungível. dando lugar a obrigações genéricas. podendo ser qualquer litro de azeite. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. Desde que a coisa a entregar não seja única. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. As obrigações genéricas são muito importantes.civis podem não ser cumpridas. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. rege o favor debitoris. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. há obrigação genérica. No Direito romano eram desconhecidas. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. 4. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. há uma lacuna negocial. Logo. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. Não é o sentido do 400º. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. Ele é determinável mas não está determinado. o critério é o da mediania. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. A escolha e o risco O 539º estabelece que. se nada for estipulado. Os contraentes podem estipular diferentemente. dare ou pati. o critério deve ser o da mediania. Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. Só se determina o género. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. Deve-se escolher a coisa média. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. escolhe o devedor. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

24

7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

26

A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. mas complexa. É só uma. há outras que só o são se as partes acordarem. isso não multiplica a obrigação. O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. Existe uma presunção de igualdade das quotas. por exemplo). A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. Os vários sujeitos têm relações entre si. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. Há obrigações que são à partida divisíveis. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. porque também temos de tratar das relações internas. os credores). Nestes casos. um concerto de orquestra. 27 . O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota. a regra supletiva é a da solidariedade. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. a lei estabelece solidariedade. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. seja porque o regime é unitário. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. que é sempre singular). É um regime mais duro para o devedor. Aumenta a garantia do credor. seja porque existe expressão linguística unitária. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. Ao contrário da parciariedade. para proteger o lesado.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. na falta de estipulação em contrário. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. Presume-se que as partes de cada um são iguais. quando há vários sujeitos numa obrigação. Em resumo. Na prática. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. MENEZES CORDEIRO defende que. Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal. de modo a assegurar o cumprimento. todos têm de prestar ao mesmo tempo. O credor só pode exigir de cada um essa parte. Rege o 512º . No Direito comercial.noção. Quando vão cumprir.

O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. 28 . tinham mais afinidades com esta ou com aquela. É uma bipartição importante. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. Normalmente. acrescentou a lei. o do devedor e o do fiador. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. uma classificação das fontes. um credor e um credor pignoratício. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. à estatuição de uma norma. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. Precisa de um facto jurídico para nascer. A lei poderia ser fonte de obrigações. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. significa que há alguma coisa a mais. um A. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. p. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. ter duplo aproveitamento. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. ex. concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. São duas fontes fundamentais de obrigações. Uma prestação pode. Na solidariedade há co-devedores. aqui. já que o fraccionamento é feito posteriormente. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. não sendo nem uma nem outra. No período da pré-codificação francesa. p. tem regime diferente. ex. só dele (não os meios pessoais de outro). Também existe. presunção de igualdade (516º).). é natural que existam meios de defesa dos devedores. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento. p. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. Mas é uma pluralidade heterogénea. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. há “gato”. tal como os direitos reais. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. se não houver outro acordo. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. Eram fontes que. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. pessoal seria a prescrição. ex. Surgiu o esforço de sistematização. quando alguém contrata a solidariedade.

Já nos sécs. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica. todavia. que é comum a todos os direitos europeus. Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. em vez de adoptar a repartição tradicional. O que se deve. apesar de não haver classificação qua tale. a gestão de negócios. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. no tempo e no espaço. nuns e noutros a mesma coisa. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. O Código de Seabra faia um elenco original. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. o negócio unilateral. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. de se autodeterminarem. referência à tetrapartição. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. como se usou em 1867 e 1966. mas enumeração. Enumera algumas fontes. o enriquecimento sem causa.). desde logo. O direito privado tem 2000 anos. a partir do 405º. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. Com o CC de 1966 também não existe classificação. então. 29 . Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. As divisões não significam. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. enquanto a lei é norma heterónoma. É difícil unificar. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. ex. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). Faz-se. Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. Há um encadeamento. a melhor técnica é a tipológica. enumera-se o contrato. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. Mas ele é mesmo muito reduzido. Em termos estatísticos. p. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes.

É um diploma bem feito. o contrato está sempre subjacente. o próprio contrato perde espaço. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. vai na direcção do contrato. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. Dá-se uma grande explosão.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. Passava a ser vinculativo por isso. É importante considerar o canonismo. Os romanos conheciam figuras equivalentes. É necessário que haja propriedade. Assim. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. mas se lemos artigos sobre negócios. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). O contrato valia por si. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). mas existe pacto sucessório. nas Obrigações é o contrato. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). está em crise. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. No Direito da Família também: contrato de casamento. D. se a sociedade é subdesenvolvida. Daria frutos no período jusnaturalista. igualmente. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. manifestação da importância do contrato. O contrato tem um papel muito alargado. tem menos aplicação. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. surgindo os contratos que hoje são básicos. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. com SAVIGNY. 30 . para o Prof. É o sistema de tipo francês. Mais tarde. diz-se muitas vezes. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. a bona fides perderá o seu significado. O socialismo ataca o contrato. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. de acordo com a escola histórica e a pandectística. consensual – basta haver contrato. É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. Menezes Cordeiro. em lei de Maio de 1352. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. Dinis. No Direito sucessório é mais raro. já o negócio obtém-se pela razão. Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. O CCP trata da matéria. A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. O contrato.

O 56º/3 garante a contratação colectiva. racionalidade. não se trata de um recuo do contrato. A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português. não relevaria: eles devem ser cumpridos. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. mas de certos contratos. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. O contrato é um véu que tapa os olhos. incluindo direitos de créditos). como o da boa fé. Se a lei não dissesse nada. O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos. Graças às convenções internacionais. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. Tecnicamente. valores mobiliários. plurais. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos. diminuindo a liberdade contratual (banca. necessidade de consagrar na CRP. pelo menos para coisas úteis. pois. etc. É uma visão pessimista.). Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. no artigo 8º/2. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. à partida. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. 31 . os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. Não houve. seguros. os observadores previram explosão dos contratos. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico.  Intervenção judicial nos contratos. etc. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não.). Com a queda do Muro.No séc. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação. porque não foi necessário. Mas isso não aconteceu. Tutela constitucional do contrato A CRP. É óbvia. Todavia. pecuniários. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada.  Áreas reguladas. O contrato tem peso em si. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. O contrato é.

32 . nominados e inominados. o contrato é bilateral. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. Fala-se. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. 5. 2. bem como diminui as dúvidas. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. em princípio também não o regula. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. é nominado mas atípico. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. não dá para classificar em abstracto. Pode haver tipo social e tipo legal. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. maior equilíbrio. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. por vezes. Segundo. reais quoad constitutionem e quoad effectum. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). vindo a aperfeiçoar-se. no entanto. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. Consensuais. regulando com especialidade. Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. consideradas mais sensíveis. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. 3. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. O contrato de hospedagem. Todos os negócios são contratos bilaterais. Perante o conceito de negócio jurídico. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. mas a lei não o disciplinou. Quando a lei não lhe dá um nome. Terceiro. É distinção relativa. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”.1. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. fica fragilizada.

Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. a parte geral é muito restrita. Tipologias de contratos Contratos típicos. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. passa entre as gotas da chuva. Nos monovinculantes há duas partes. as partes têm liberdade de celebrar livremente. A generalidade das normas é supletiva. solicitar ao outro a efectuação da prestação. O problema é que. podemos distinguir entre negócios típicos. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. uma delas não fica obrigada. O problema é que. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. em regra. O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. Fica com o direito potestativo de. 7. Tendo em conta este facto. Os gratuitos são. À luz do 405º. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. O estudo desta matéria não é fácil. tendo em conta o relevo de que se revestem. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. Em regra. Há 16 contratos regulados no Código Civil. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. reciprocidade. É diferente da vinculatividade. hoje. A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. 33 . No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. se as partes celebram contratos mistos. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. no entanto. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. atípicos e mistos Os negócios jurídicos. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. É sinalagmático. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. As partes querem dar. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. Há. Embora o 405º seja muito abrangente. querendo. 6. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. pois. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). uma vez que domina a autonomia privada.

Há mistura. devolve-lha. embora tenha havido preço. Não pode ser um mero pormenor. aplicando todos. Os combinados distinguem-se dos complementados. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. 4. Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto.: A comprou 15 dias num cruzeiro.: A arrenda um quarto a B. comida. comida. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. Não tem salário. Complementados – aqueles em que existe um tipo base. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. mas como tendo a casa como refém. 2. que absorverá os outros. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção). na prática. etc. Ex. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). 3. quando acabar.: A recebe habitação. Em troca do preço recebe um quarto (locação). em troca de explicações. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante. A tem dívida para com B. não havendo uma principal. O resto é extra. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. Ex. o negócio aproxima-se da gratuitidade. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. entretenimento. não para que se porte como proprietário. Isto só resulta se houver confiança. os serviços de limpeza. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. próprias de vários contratos. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa. Ex. A autonomia privada é o pano de fundo. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. 34 . Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. mas recebe em géneros. Ex. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. cama. que lava também a roupa de cama. B tem de guardar a casa enquanto A não paga. o locador. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos.: A compra por preço muito baixo.

Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. mas os serviços que o centro proporciona. acabavam os centros comerciais. aplica-se o regime do tipo x. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. se na lei houver solução. A solução foi a da analogia. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. 4. no entanto. a outra também. é também acompanhado de distribuição. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. e também com a agência. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. No caso do porteiro isso é evidente. O método foi o da analogia. Se não for suficiente. Em Portugal. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. tal como o da vontade das partes.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. segurança. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. o arrendamento tem muitas normas imperativas. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). a solução também foi a da analogia. nomeia concessionários. O limite é o das normas imperativas. 3. Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. é esse que se aplica. O promotor é remunerado através da renda. para que os distribua. Quando nada se diz. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. mas o contrato é usado para uma função diferente. A seguir temos de resolver com analogia. 35 . Há semelhança entre a agência e a concessão. Mas não é normal. Pode. P. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. Mas isso é raro. Quando há lacuna contratual. é uma área vinculística. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. por analogia. aplicam-se as regras desse tipo. ex. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. Hoje.2. gestão do centro. a quem entrega os bens. aplica-se essa solução. a primeira solução é a da vontade das partes. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. Regra geral. publicidade. O que é específico é a marca. É contrato de agência que foi encontrado. Se ele corresponder ao tipo x. então celebra-se o y). o combinado e o híbrido. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. Pode haver várias funções: simulação. sem intenção de enganar). Aqui. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. bem como sinergia do ponto de vista económico. Recorre-se ao regime da agência. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes.

À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. interna e alternada. já que o Direito existe para proteger os fracos. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. Se for à falência. em benefício de quem a entregava. No Direito português. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. Ele é permitido se não violar regras imperativas. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. porque doações de bens futuros não são permitidas. negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. São óbices consideráveis. teremos uma figura real não prevista na lei.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. Mas o Prof. mas para o de terceiro. Mas. O fiduciário é proprietário. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). a fidúcia é muito violenta para o devedor. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. Procura-se o centro de gravidade. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. ao contrário do alemão. Se ela tem natureza real. se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. não permite divisão da coisa entregue. era o proprietário da coisa. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. Descobrindo-o. na contratação alternada valia ou um ou o outro. Quem recebia a coisa com fidutia.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. o fiduciário. 36 . Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. aplica-se o regime correspondente. O fiduciário é de execução prolongada. M. O fiduciante é só entre outros.

É uma ideia relativamente recente. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. Importou do BGB a execução específica.. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. Mas nunca é irrelevante. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. dependentes e independentes. O contrato prometido e o contrato definitivo. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. execução específica). homogéneos e heterogéneos. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. 442º. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente. O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. tem eficácia real. sem recorrer à escritura pública. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. rege nos contratos mistos. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. Hodiernamente. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. há centros de gravidade múltiplos. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. de tipo não processual. de tipo processual. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. devia ser celebrado por escrito. para o sinal. Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. a promessa valia apenas como prestação de facto. a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). No Direito português tem grande importância. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. 830º. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). A celebração de uma escritura pública demora tempo. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). por exemplo. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. Segundo o Código de 1867. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. sendo diferente o regime. Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. A figura da absorção. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. 37 . A promessa por escrito era válida na hora. Há muita jurisprudência sobre isto. causais.

p. um modo geral de celebrar outros contratos. não podem ser objecto de promessa. para preparar o contrato definitivo. É a função preparatória. por vezes.. Regulativa autónoma. 3. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. regulativa autónoma. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro.). dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo). 38 . Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. transacção meramente obrigacional. é possível a execução específica no caso de incumprimento. 5. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). uma vez prometido. Meramente obrigacional. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. tendo isso em conta. É usado. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”. Desformalização. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. Mitigada ou mitigadora. sobre a entrega. desformalização. ex. Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa. do convite a contratar (A solicita a B que contrate). 1. do dever legal de contratar. O contrato-promessa distingue-se da proposta. Função preliminar.As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. na promessa sabe-se). 2. P. etc. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. acabamento da coisa. Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. do exercício de preferência. financiamento. Quanto à prometibilidade fraca. na promessa tem de haver negociação). Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. Regra geral. É um formato. os contratos são dotados de prometibilidade forte. Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. 4. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. um modus vivendi. ex. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. Como no Direito alemão. Por vezes. Há contratos que. do contrato preparatório material. mitigada.

O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. Mas. o que está em causa não é a regulação de um contrato. Com o não cumprimento. Isso não vem na lei. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. Não há contrato-promessa de doação. mas a situação subjacente é diferente. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. se não houve entrega da coisa. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º. O problema é que.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa. O nome é parecido. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. à partida. É verdade que existe um regime jurídico. como executo? Os clássicos diziam que não era possível.) que conduz à possibilidade de revogação. a obrigar a algo que poderia revogar. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada. No contrato-promessa. até é possível haver excepções ao que se disse. É um contrato à parte. também não há uma regra expressa que o diga. mas ineficaz quanto às prestações principais. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). O doador despoja-se do bem no momento em que doar. proximidade.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. mas que tinha um regime especial.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. imperativo. Isso não é correcto. etc. 39 . do 1591º e SS. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. às consequências pela ingratidão. tendo em conta o regime. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim.. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. a proposta ainda não foi feita. Pode fazê-lo. Não vincula o promitente a doar. diferente do regime do contrato-promessa. e o outro não cumprir. etc. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. estão nos antípodas. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade. Não se trata de um contrato-promessa. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador.

Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. ainda que não tenham as duas assinaturas. A conversão. outros a conversão. não se entende porque só um assina. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. tendo enorme relevância. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura.Hoje em dia. O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. MENEZES CORDEIRO em princípio. nos termos do 293º. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. Assim. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. Na prática. Para o prof. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. 40 . Se para o prometido for necessário documento. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. autêntico ou particular. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. Se for livre também o contrato-promessa é livre. Estipulações acessórias são válidas. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. Por isso. aplica-se a regra geral. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. Não haveria problema de prova nem dúvidas. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. é a solução. Se o documento é a materialização do acordo. é preciso o acordo de ambas). o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. não se precisa é de assinar. Mas isso é errado. Na normalidade dos casos. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. o regime é o do 219º liberdade de forma. o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. O 410º/2 regula a forma. A questão das assinaturas é meramente formal. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. Uns defendem a redução. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. em regra o promitente alienante. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. para ser quantos se obrigam.

Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. A parte geral também tem regras. também. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. de invalidade mista. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. se nada disserem. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. Pode ser paralisada através do abuso de direito. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. Surgiu na década de 1980.Mas não é fundamentalista. por sua razão de ser. Se a promessa for monovinculante. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. 41 . Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. ficando com um contrato-promessa monovinculante. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. Este princípio. a se. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). no 3. em certos casos. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. Admite que. ex. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. com excepção das relativas à forma e as disposições que. o regime é o da reforma de 1986. Obedece a normas: os princípios da correspondência. concretização e boa fé. p. integralidade. Nestes casos. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. Havendo contrato-promessa. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. este deve adquiri-la. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. MC sugere a ideia de modus contrahendo. Há. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). havendo grandes atropelos ao direito. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. Neste momento. Trata-se. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. possa reduzir-se o negócio.

mantendo-se o contrato-promessa. MC entende que isso não pode ficar assim. O definitivo está previsto no contrato-promessa. alterando as palavras. Pode acontecer que seja lacunar.O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação.). local. inclui-se a coisa no cumprimento. À partida. violação positiva do contrato. uma via crucis. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. O incumprimento extingue a prestação principal. se forem válidas e eficazes. o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. Pode haver uma impossibilidade superveniente. Legitimidade. etc. Pode haver recusa antecipada a cumprir. Ou há mora. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss. O promitente fiel é o que é prejudicado. a lei prevê a interpelação admonitória. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes. violação de deveres acessórios. Se não houver. não foi. se o contrato-promessa permitir. Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). lugar. pode haver resolução. etc. se for cumprido. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). devolve-se em dobro. se não for cumprido. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. Muitas vezes há AA. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. imputação. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º). prazo.. aplica-se o 280º. Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. Se houver situação de mora. 42 . impossibilidade superveniente. Incumprimento há quando. pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). Se isto não for possível. há inadimplemento. Isto é uma trapalhada. que resolvem inovar. Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. o faltoso é o que não cumpre. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé. O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo.). O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação.

na fase executiva. A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. mas o valor actual da coisa. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados. No Direito romano tinha um sentido confirmatório. Assim. A jurisprudência. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. Houve várias propostas para resolver a situação. Tem um direito de liquidação judicial. Quando mexeu no 442º. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). Assim. O problema viria a ser resolvido em 1986. penal. com a inflação. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980). se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. faziam-se casas. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção.  Quando há tradição da coisa prometida. Tornava-se compensador não cumprir. O retentor pode. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. O que estava em causa eram casas de habitação. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. mexeu no regime do sinal. 30%.No Direito grego antigo. a indemnização já não é o sinal em dobro. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. A ideia era: como a inflação é muito alta. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. recebiam-se sinais. Afastouse a possibilidade de execução específica. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). começou a resolver o problema diferentemente. que chegava aos 20. celebrando-se contratos-promessas. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. o sinal tinha alcance coercivo. ajudava a provar a existência do contrato. vender a coisa e recolher o preço. o sinal ganha coloração particular. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. Em 1980 havia grande inflação. se houve incumprimento. O imobiliário estava sempre a subir. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. os sinais deixavam de valer tanto. no entanto. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. 43 . Enganou-se e mexeu em tudo. O Governo resolveu intervir. Quando metido no contrato-promessa.

não sendo necessária a interpelação admonitória. Em 1986 o legislador interveio novamente. a primeira consequência é entrar em mora (805º). É um esquema complicado. ficou consagrada a indemnização pelo valo. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. não há logo incumprimento definitivo. doutrinariamente. é mais selectivo. perderam a objectividade. Assim. a indemnização seria o valor actualizado da coisa. ele é deduzido do preço. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. Se houver sinal. fixa-se um novo prazo. pela interpretação). Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. É uma “excepção de cumprimento”. Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. introduzir correcções. A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. Tendo havido mora. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. mesmo que anteriormente registada. com a solução do Prof. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. O hipotecário ver-se-ia preterido. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. Tentou-se limar algumas arestas. Assim. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. Todavia. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. Lobo Xavier. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. Houve excessos legislativos. congelando o direito ao valor da coisa. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção. 44 . Fica com o valor da coisa mas paga o preço. a favor do promitente adquirente traditário. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. ainda assim. exige mais garantias. Tentou-se. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. Se houver morar. o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. Vários AA. Se houver mora. Além disso. O Prof.

bem entendido. É posse semelhante à do arrendatário. 3. Um contrato de comodato. O que é que as partes pretenderam? 1. se há sinal. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. É celebrado contrato-promessa. É um contrato que dá direitos muito precários. no entanto. O sinal visa uma função compensatória. A resolução. o que deve fazer é resolver o contrato. Pode ser uma gentileza mais demorada. Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. Neste momento. Assim. A menos que. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. Se resolve o contrato por incumprimento. quando haja incumprimento. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. porque tem uma cláusula daquelas. 45 . O contrato-promessa já é um contrato misto. Alguns autores dizem que. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. deve ser tomado seriamente. No Direito funciona-se com prazos. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. A distinção é importante. 2. Tradição da coisa Tecnicamente. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. destrói o contrato retroactivamente. desaparece também o sinal. a troco da entrega da casa. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. Se for possuidor tem defesas possessórias. É uma posse muito elementar. Se for um representante.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. É verdade. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. não há posse. O Prof. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. Se é esse o sentido da cláusula. operando o sinal. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse.

A solução mais normal é a execução específica. é muito difícil determinar a indemnização. Aqui temos posse em termos de propriedade. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). 46 . também. houver sinal. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. Assim. Se houve. colocando no terreno. Já está tudo pago. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. Se de facto houve perda do interesse. seria impossível apresentar-se a cumprir. Contudo. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. Quando se trata de acções humanas. já vinha de trás. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. Assim.4. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. O interessado pode ainda optar pela execução específica. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. muda o regime. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. Leva ao mesmo. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. Estamos perante um facto. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. mas não especificou. Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. soluções alternativas à indemnização. Em 1980 o regime foi alterado. através dos seus meios. Se tivesse havido incumprimento definitivo. Passa até à frente do credor pignoratício. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). Consoante o tipo de posse. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. por maioria de razão também há sinal comum. dir-se-á que não podemos obrigar. Se há excepção do cumprimento. houve incumprimento. pelo que há entrega da coisa. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. Foi uma ideia prussiana. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. para além da tradição. A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. Mas isso já estava subentendido. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966.

pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. Os riscos são compensados pela presença do tribunal. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível.  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. verdadeiramente. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. mas vende a C. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. já que a prestação se tornou impossível. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. em 1980 o legislador foi desastrado. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. no momento em que é decretada a execução específica. p. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. O tribunal não emite. Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. Simplesmente. contudo. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. 47 . Mas nem sempre. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). depois do contrato-promessa e antes da execução específica. Aí. Contudo. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. Perante o incumprimento. ex. Nos outros a questão não se colocava. Não valerá a pena recorrer à execução. é muito difícil calcular a indemnização. O Prof. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. Haverá consequências indemnizatórias.Houve soluções doutrinárias. as custas ficaram por sua conta. a declaração faltosa. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. Conquanto que o conteúdo seja determinável.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. Simplesmente. A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica.

Aí já faz sentido. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. Contudo. demissão). se devem considerar excluídos desse regime (830/1. Já no penhor ou no mútuo faz sentido. Todavia. A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. Igualmente. Não faria sentido a execução de um contrato que. tão pouco. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias. Quando nem sequer há prometibilidade (doação. Se houver situação de inexistência.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. Quando seja celebrado um contrato-promessa. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. pode acontecer que. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. Mas a lei admite mandato irrevogável. não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. não se iria muito longe (despedimento. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. MC entende que sim. depois.) também não pode haver execução. já não é de todo possível a execução. O comodato pode cessar a qualquer altura. Nessa altura. poderia ser revogado. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. ex. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. 48 . E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. comodato). Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. Mas. por sua natureza. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. se verifique uma alteração das circunstâncias. mesmo que houvesse. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu.  A exclusão convencional. limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. Tem de haver ponderação de interesses. Contudo. Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. o 830/1 admite a possibilidade. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. Não pode haver execução de contrato que não existe. p. Mas aí não cabe execução específica. No caso do contrato de trabalho. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. in fine).

reforçando-se o registo.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. Através da eficácia real conseguir-se-ia. O Prof. Promove logo a transmissão da propriedade. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa.  Há execução específica. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo. não é norma de excepção. Ora. alguns entendem que cabe execução específica. Assim. O que está em causa é que o dever seja cumprido. Se não for cumprido. vendendo a terceiro. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. A outra parte pode não ter sido paga. mas contra o terceiro (Dias Marques). Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. ficando privada do preço. convenção expressa de atribuição de eficácia real. 49 . registo da promessa. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda.Depósito do preço A sentença é translativa. a lei alemã permite um pré-registo. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade. O promitente faltoso poderá readquirir o bem.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. escritura pública. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. que a foi buscar ao Direito alemão. Se o preço não for pago há injustiça. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra. Deixou de se exigir a escritura. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. execução específica. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. outros recusam essa solução. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. Vaz Serra. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. qual a solução? Normalmente.

A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. tão-só. 50 . a contratar. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. no fundo. a execução específica não é puramente executiva. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. um acto de execução do que já estaria combinado. à negação da própria promessa. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. na promessa. como contrato autónoma. levar ao apagamento do definitivo. tão-pouco é declarativa. no entanto. delimitando. as partes obrigam-se. Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. as partes regularem. por vezes. Mau grado a primazia reguladora da promessa. o que esteja em causa. uma vez que dela nada sai de preexistente. Nos extremos. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. com o contrato definitivo. apenas. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. ainda que devido e pré-regulamentado. A lei proíbe. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. continua a ser um verdadeiro contrato. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. de facto. em função dele. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. o contrato definitivo não perde em categoria. em definitivo. Justamente por.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. a celebração das promessas. De seguida. Ao celebrar o contrato-promessa. em relação ao definitivo. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). uma vez concluída. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria. pelo menos em parte. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. A primeira opção explicativa leva. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade.

a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. nesse sentido. A favor do co-herdeiro (2130º). A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. A favor do senhorio (1112º/4). A favor do fundeiro (1535º). pelo artigo 1535º (1901º). a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. caso este queira. o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável. as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato. O direito de preferência. A favor do comproprietário (1409º e 1410º). tem. As preferências no sistema jurídico No Código Civil. 51 . uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. antes. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). De resto. A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. com o qual o negócio fora ajustado. isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). 1380º e 1381º). perdendo a plena disposição do seu bem. Diz-se.  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. ao preferente. quando convencionalmente estabelecido. um dia. Da mesma forma. em Direito. o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente). que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). por χ. O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. Por exemplo: o obrigado. pelo preço em causa. 1519º e 1523º). O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. caso queira vender um prédio a alguém. A favor da pessoa designada em testamento (2235º). Em regra. deve vendê-lo.O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. essencialmente.

a preferência legal advém da lei.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). a preferência real confere. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele. a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. quando violada. violado o pacto. relativo à acção da preferência. ao preferente. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. apenas uma das partes fica obrigada. a real. sejam. ainda e por elas. observadas determinadas formalidades. tem cabimento recorrer à acção de preferência. uma vez que a outra emite logo a declaração final. ora reais. através de uma acção de preferência (1410º/1). a um direito real de aquisição. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real. Modalidades. Na segunda.  A opção – figura inominada e atípica. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização. todavia. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência. não podendo o preferente fazer seu o negócio.  A preferência obrigacional. As preferências convencionais são ora obrigacionais. consoante a opção das partes e isso desde que.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. permite ao preferente exigir. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. nos termos do 414º. na opinião dominante. Na primeira. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. uma indemnização. nesta última hipótese.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito. ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. 52 . ao obrigado faltoso. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso.

se o pacto for bivinculante (bilateral). Com uma prevenção: numa situação de preferência. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. à preferência. de liberdade de forma.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. como a de fazer a competente comunicação. como cláusula num pacto mais vasto. os ónus e os encargos envolvidos. próprias do contrato preferível. deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. Pergunta-se se o terceiro que. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. de acordo com as regras gerais (219º). por ele. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. de onde promanam deveres para ambas as partes. pretenda contratar com o obrigado à preferência. do princípio da equiparação. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. recebem os deveres. Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas. podendo. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. quando o contrato preferível exija documento. em regra. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. Propõe-se a aplicação. a menos que ambas as partes se vinculem. E sendo este o caso. eventualmente. ao pacto de preferência.Forma O artigo 415º manda aplicar. Num pacto de preferência comum. Tendo conhecimento do pacto de preferência. o artigo 410º/2. por parte de um terceiro. das regras aplicáveis à capacidade. daí resulta a aplicação. perante o Direito vigente. Bastaria a assinatura deste. a essa luz. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. próprio do contrato-promessa. O modus praelationis.  Porém. quer autêntico quer particular. deve-se lidar com os deveres acessórios. 53 . a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. por definição. o terceiro deve-se abster de contratar. desencadeando o funcionamento do pacto. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. Todavia. ao pacto de preferência. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). é afectado de algum modo. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta.

se vem mesmo a concluir na esfera deste. Havendo vários preferentes.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. na mesma linha. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. por opção do beneficiário. pelo menos. quer particular. na presença de um projecto de contrato firme e sério. pelo menos. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. Finalmente. 54 . o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada.Na posse dessa proposta. É o que dispõe o artigo 416º/1. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente. A resposta do preferente. exige-se forma escrita. afinal. com poderes bastantes. o contrato. já que o terceiro não celebraria tal contrato. isto é. não o quer. ao seu direito.  Ou renuncia à preferência. Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que.  Ou o preferente rejeita. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. com base nela. de pleno direito. deixando o negócio para o terceiro que. convicto de que. uma de duas:  Ou o preferente prefere. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. esta deve ser feita ao preferente. quer autêntico. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir. Havendo aceitação da comunicação de preferência. com alterações. A não se verificarem tais requisitos. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal. A “aceitação” da comunicação para preferência. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou.  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. por lei expressa. e estará enganado. perfila-se o contrato definitivo. ficando o contrato por celebrar. a comunicação para preferência deve ser feita a todos. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. o represente. modificações ou reticencias. A comunicação não está sujeito. envolve. a renúncia. declarando que não está interessado. se não o fizer. por parte do preferente. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. o terceiro ficará com o negócio. por aplicação do 410º/2.

o contrato será seguramente único. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. As valorações subjacentes ao artigo 417º. divisível?  E não sendo divisível. então. dependendo das circunstâncias.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras. 55 . Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. apontam. podem umas e outros ser desagregados. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro. ou não. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. Prestação acessória. ou não. é excluída da preferência. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. o preferente desiste ou prefere em conjunto. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos. pode. quando se reporte a uma universalidade. De todo o modo. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba. Não o sendo. o que terá que provar. nenhum princípio de especialidade. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva. sem prejuízo para o interessado. Existem três possibilidades básicas.  Não sendo avaliável em dinheiro. 1ª parte). antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. recebida a comunicação. não o sendo.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. Observar-se-á. A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. no nosso Direito da compra e venda.

através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. sem seguir o procedimento da preferência.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes. A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. Segundo o artigo 1410º/1. Em termos de comunicação: ela deve ser feita. Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele. Verificados os pressupostos. Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. desde que este as acompanhe. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. nas condições fixadas. com isso. sempre. moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. Havendo eficácia real. A prestação principal é. feito no artigo 410º/2. em caso de violação de uma preferência real.  Concluir o contrato em causa. em termos de aquisição.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles. afastando. A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. abre-se licitação. ao preço e à identidade do requerente. esta última: trata-se de um facere jurídico. com o preferente. A acção de preferência permite ao preferente. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). a todos os preferentes. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). os restantes: não havendo processo de escolha. a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”. A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. 1ª parte). 56 . fazer seu o negócio faltoso. seguramente.

por mera declaração unilateral. na execução. declarações de ambas as partes. ora. directamente ou por analogia. Haverá que aplicar. dá azo ao contrato definitivo. o qual. tendentes à conformação do contrato definitivo. da posição de contratante e do valor que ela representa. na opção basta a declaração do beneficiário. passando a integrar o definitivo. provocar o aparecimento do contrato definitivo. no cumprimento. perante o concreto contrato definitivo em causa. um verdadeiro contrato-promessa. ao tribunal. todavia. ele recebe o direito potestativo de. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. por ambas as partes. A opção. excepto no que tanja ao cumprimento deste. que fixe um prazo razoável para o seu exercício. 57 . A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. a celebração. na opção.  Quanto à execução. por uma simples manifestação da sua vontade. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. a opção cessa.  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. que exigirá. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). o titular ou o optante) recebe o direito de. por analogia. execução e incumprimento No que toca ao optante. Logo. Aplicam-se aqui.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. na conclusão. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. o artigo 411º: o vinculado pede. aqui. só deverá ter lugar se uma das partes quiser. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. do definitivo. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. esta não depende da intervenção da parte vinculada. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. Direito e deveres. só será válida e eficaz se.

O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. por analogia. por via dos artigo 295º e 221º/2.O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. Ainda o mesmo optante pode colocar. entre outros aspectos. No plano do seu conteúdo. Assim. o artigo 272º: na pendência da opção. O risco desaparece. O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. a qual adquire um direito à prestação. por seu turno. O obrigado. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. que exercerá o seu direito se o entender. 58 . a sua opção. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. as partes congelam as condições da venda. uma das partes (o promitente) assume. o artigo 762º/2 e. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. do optante e do adstrito. do definitivo. Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. Funções. surge o contrato definitivo. há que lhe aplicar.todavia. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. natureza e aplicações Celebrando uma opção. no memento escolhido. respectivamente. pode facturar o premio da opção. quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. designadamente para a parte optante. no mercado. com relevo para o pagamento do preço da opção. a cargo. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção. Actuada a opção. Ambas as partes ficam . partes no contrato. Como princípio geral. O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. dando-a em garantia ou alienando-a. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). directamente. perante a outra (promissário). A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). o qual deve ser cumprido.

nessa altura. O regime concreto de tais prestações. a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1).  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. lhe possam advir da relação básica (405º). o direito à prestação: independentemente da aceitação. do promitente. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). perante o terceiro. as prestações ou outras vantagens que. O terceiro adquire o direito à prestação. 59 . O promitente fica adstrito à realização da prestação principal. devam ser trocadas entre os mesmos. de forma geral. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. a contrario e 448º/1. A posição do promitente. a prestação principal O promitente tem. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. especificamente. As prestações que.  A de exigir. pelo contrário. Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte. A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. porventura. porventura. Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. por exigência deste e do promissário.  A de exigir. do promitente. A posição do terceiro O terceiro adquire. a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. Tal permite excluir. excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. ao promitente. fundamentalmente. pelo contrato a seu favor. A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. a efectivação da promessa ao terceiro. imediatamente. deste cerne. quando esse seja o conteúdo da promessa. 1ª parte). independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1).A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. contratos como o casamento ou a doação.  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem.

O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. por não ter sido celebrado com o terceiro é. pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. Amicus: o terceiro. Num primeiro tempo. Na linguagem desde subsector. O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. logo. não tem. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1. ao abrigo das regras gerais (217º). As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. a contrario e fortiori). admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. de adesão. quando se desempenhe perante o terceiro. por não ser o destinatário da prestação acordada. pode ser menos diligente ou até. ainda. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. sobre si. o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou. nada fazer. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. desconhece os precisos termos envolvidos. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. instável. não sendo parte do contrato. de lealdade e de informação. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. Electio ou electio amici: a escolha. a contrario).Perante um contrato a favor de terceiro. 60 . ficando em inferioridade no momento do cumprimento. antes dela. Esta apenas consolida um contrato que. através da regra da boa fé (762º/2).  O promissário. pode desinteressar-se dela ou. Pode-se.  Torna a promessa firme (446º/1. falsificar a conduta a que se encontra adstrito. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. Desde modo. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar.  O terceiro. no limite. a fiscalização da contraparte. antes de ter ocorrido a sua nomeação. Eligendus: o terceiro. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. porém.

eficácia retroactiva. no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. Feita regularmente e comunicada a designação. A electio tem.  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. o negócio consolida-se na esfera do stipulans. que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa. inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. concordância do amicus e electio. Ele implica. Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. altura em que o contrato ficará sem efeito. a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. Embora a lei não o diga. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. pois. seja em moldes sócio culturais. 61 . A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. seja em termos técnicos. Concluído o contrato para pessoa a nomear.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. As fontes paracontratuais Ao longo da História. dele se aproximavam. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). quando superior (454º/2). O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. produz efeitos em relação ao contraente originário. efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta. Como tratá-las? Com o tempo. tal como sucede com a ratificação (262º/2). do próprio contrato que a contenha. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios. a cláusula “pessoa a nomear”. não reunindo as características perfeitas do contrato. foram surgindo figuras que. Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito.Regime. ao outro contraente. num todo coerente. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira). em princípio. Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato.

É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. depois. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais. no espaço jurídico. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas. 62 . Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. Sublinha-se que. esta relação fundir-se-ia nele. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. Surgindo. Relações paracontratuais em especial 1.  Inserção em organizações comunitárias. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. uma parte razoável do seu regime. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. o contrato. derivada do facto simples de um contacto social. através de meros comportamentos materiais. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). para certos fins. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual. execução de relações duradouras.  Situações de relações jurídicas complexas. com ele. seja nos preliminares. de lealdade e de informação. chega-se. ser reconduzidas ao contrato mas que. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que.  As relações contratuais sem contrato. isolam-se:  As relações contratuais de facto. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais. pelo menos. tivesse ocorrido qualquer contrato. na sua origem. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social. postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. no tráfego moderno de massas. seja na formação. muitas vezes. em termos rigorosos.  Situações de proximidade contratual. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos.  Os contratos com protecção de terceiros. sem integrar previsões contratuais. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital.

e existe. nas protecções dispensadas. Em termos analíticos. A “fonte”. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. igualmente. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. não seja parte. nele. Havendo proximidade. Há impossibilidade inicial da prestação. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. o círculo interior. 3. Com as devidas adaptações. no caso de violação. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. O contrato é resolvido. que veicula os valores fundamentais do sistema. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. independentemente de qualquer especial vontade. revogado ou denunciado. por estar vulnerabilizada. tenha uma proximidade visível. pelas partes. perante a prestação principal e em face do credor. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé. mercê dos contratos preliminares. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. que se reporta aos bens postos em jogo. 2. Surge uma impossibilidade superveniente. Em termos gerais. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. Também está claro e assente que. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. ainda que insubsistente. em face de um contrato:  Alguém que. 63 . promane deveres acessórios (de segurança. De novo há um círculo exterior. O contrato é anulado. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. O círculo interior. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. para terceiros. ainda. o Direito manda proteger. no contrato considerado. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. por qualquer razão.

no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. as normas típicas. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. com facilidade. Em rigor. que explique os deveres resultantes. o que (ainda) não têm e subscreverem. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. o proprio acto unilateral (457º-463º).  Os perigos da adstrição ad nutum. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. aplicar. por sua livre e exclusiva vontade. obrigações que (só) irão pensar depois. No que se lhe reporta. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. aparentemente. mas noutros locais. operando o contrato. de obrigações futuras. ser globalmente denominado culpa post factum finitum. “negócio” engloba. ainda se poderiam manter determinados deveres. aqui. ad nutum. O negócio unilateral implica que alguém. de lealdade e de informação. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes. De facto. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. para as partes. o inerente instituto. podendo. O artigo 457º proclama. com ligeireza. fique adstrito a realizar uma prestação. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se. 5. dando origem.  A proibição de. quando violados.Tecnicamente. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. São os deveres pós-eficazes. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. a responsabilidade obrigacional. tais deveres não têm origem contratual. cessado o contrato. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. 4.  Um numerus clausus de realidades relevantes. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. em termos jurídico-positivos. perante eles. uma vez que ele não é partes. Mas têm moldagem contratual. Antes de fundam na lei. como um simples facto stricto sensu. 64 . fora de série. nesse sentido nuclear. por analogia. uma regra de tipicidade. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade.

A regra não origina nenhuma obrigação nova. a tipicidade dos negócios unilaterais. passando pela tradição de uma coisa. numa segunda vertente. cabe salientar a confiança que. sobretudo quando interessados. pode-se admitir tipos abertos. para além da concreta eficácia suscitada.  Fonte essa cuja existência se presume. No que tange ao autor do acto. por força de qualquer outra fonte. que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. pelo princípio da causalidade. ainda. Negócios unilaterais em especial 1. é aparente. anteriormente. até prova em contrário (pelo devedor). a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. Os negócios unilaterais distinguem-se. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. a afirmação. pois. fica o credor dispensado de a exibir. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. com a promessa pública como modelo. Quanto muito. Em bom rigor. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. Assim:      Da proposta de contrato. de que. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. Deve-se ter também em conta os terceiros que. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. já antiga. Dogmática geral O negócio unilateral. a primazia da materialidade subjacente que. De contratos com apenas uma assinatura. 65 . no Direito português. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. deve sublinhar-se. proclamada no artigo 457º. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. limitada à inversão do ónus da prova. também aqui. igualmente por via da boa fé. Da oferta ao público (230º/3). a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. existe aqui. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). devidas. Do testamento. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se.Mantém-se. quanto à existência de adequada fonte das mesmas. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. isto é. de resto. deve imperar. ainda. sem indicação da sua fonte. Do anúncio público (225º). Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida.

um motivo atendível. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. da oferta ao público (230º/3): nesta. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). da indeterminação do destinatário. A situação distingue-se. pela aceitação. desde logo.     Até que expire o prazo nela fixado (460º). exclusivamente. só nessa altura se constituindo. Até que. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. constituir o contrato. às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. objectiva ou subjectivamente. Até que. o promitente adstrito à sua efectivação. na sua falta. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. deriva. naquela. Feita a promessa. constitui uma especial modalidade de promessa pública. antes dele. 3. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º). perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). aqui. por justa causa (461º/1. 66 . seja revogada (461º/1). surgindo alguém nas condições nela previstas. pode. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. ainda. ele extinga. seja revogada. Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. o concurso ficaria indefinidamente aberto. pelo cumprimento. a título de prémio. tendo prazo. por anúncio público. a sua obrigação. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. O público. aqui. A justa causa será. ficando. Concurso público O artigo 463º. fica vinculado desde logo à promessa”.2. relativo a concursos púbicos. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. muito claramente. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. apenas.  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. in fine). acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. propriamente obrigado. não tendo prazo. o promitente fica obrigado:  Até que. que torne a promessa inexigível.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful