Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

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Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

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 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. XIX. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. O Direito das Obrigações alemão é líder. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. Se a fonte for inválida. daí tal importância. (448º. A responsabilidade civil é ampla. Resulta do movimento da pandectística. O BGB é de 1900. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. Foi muito pouco mexido. 4 . O Direito civil é muito estável. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. é abstracto.. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. 942º. todavia. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. O legislador optou por emitir leis avulsas. nesse caso. que nascem de uma determinada fonte. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. Mas há zonas periféricas. baseada num conceito vago. regras. que merecem reforma em Portugal. Causalidade Significa que. transposição de directivas comunitárias. não depende da sua fonte – o negócio jurídico. analítica. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. No entanto. vários artigos em que podemos detectar esta orientação. por regra. doutrina. renunciem aos seus direitos. 994º). antes de terem as coisas. 809º. O Direito das Obrigações é super estável. a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade. 457º. Romano-germânico Sistema centrado no BGB. defesa do consumidor). p. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. A codificação da boa-fé. as obrigações. 4. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. no Código Civil. É um código típico do início do séc. A causalidade contrapõe-se à abstracção. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. É muito elegante linguística e estilisticamente. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. Protegem-se as pessoas contra si próprias. A validade de um cheque. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. Não se quer que as pessoas. 2. É muito difícil mexer nele. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa.Existem. O BGB. 947º. A responsabilidade civil é fechada. 863º. prescrição. a obrigação não subsiste. para não darem o que não têm. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. ex. 812º.

não havendo negócio jurídico separado dos contratos. a partir de 1911. islâmica. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. 5 . Há união entre religião e Estado. O Código não é de inspiração alemã. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. XIX. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. Mas. sequer. O Direito português é aberto ao exterior. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. surgem institutos até então desconhecidos.3. Não há correspondência. Além da redistribuição germânica das matérias. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. Mas tem uma organização e conceptualização originais. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. canónica. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. Há pouca influência romana. 5. Este sistema não é codificado. Anglo-saxónico É um mundo à parte. Naturalmente. entre os conceitos desta família e os das anteriores. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. sendo uma enorme influência. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. No Brasil. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso. no entanto. Mas foi uma novidade científica que vingou. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. há um período de pré-codificação. tal como a cultura chinesa. Antes da aprovação do Código de Seabra. na China não aconteceu isso. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. O Código de Seabra é. muito avançado. sendo revigorados os já conhecidos. Chinês É muito antigo. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. 4. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. mantiveram-se em vigor as Ordenações.

Em Moçambique. logo em meados de oitocentos. Em Macau. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. Todavia. Há algum atraso na sua aprovação. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. O Prof. numa primeira fase. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). numa segunda fase. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. mas já havia recepção do pandectismo. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo. depois da aprovação. Na Guiné. O português era a segunda língua. O Código de 1966 vigora actualmente. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. sendo substituída pelo inglês. 6 . com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. um período de exegese. Tem influência germânica e do Código de 1966. O CC de 1916 tem já influência germânica.No Brasil Na doutrina brasileira. Em África Em Angola. Ele é de 1966. Foi necessário recomeçar. verificou-se a invasão indonésia em 1975. houve maior inteligência política. marcaram as primeiras reconstruções do CC. mas começa a ser preparado no pósguerra. Antes da entrega de Macau. quando ocorreu a ocupação. O Código brasileiro aparece só em 1916. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. tendo-os traduzido para chinês. com algumas alterações após a independência. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. XIX. Em Timor. Com a independência. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. ainda em meados do séc. voltou a vigorar o Direito português. com Teixeira de Freitas. Em Cabo Verde. foi aprovado um Código Comercial novo. Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. Houve. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. como membro da OEA. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. Fazer um CC em democracia demora muito tempo. As revisões ministeriais do Prof. vigora também o código de 1966. mas havia a barreira linguística.

A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. Coreia do Sul. quantidade de falantes da língua. Quanto a autonomia doutrinária. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. Nas obrigações. é diferente. Japão. ao contrário do que acontece no Direito português. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono. também com as operacionais: inglês. O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. Mais tarde. a directriz não vigora. O caso português é singular. na área dos negócios e nas relações entre povos. de Common Law. foi do Direito alemão. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. uma enorme barreira linguística. predomina o inglês. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. p. a grande influência. que é do final de Oitocentos). já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). Há as directrizes e os regulamentos. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. No Direito francês há distinção. A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). É um Direito que tem uma evolução histórica. um pequeno país na Europa. O Direito lusófono não tem só essa influência. 7 . Mas havia uma grande projecção ultramarina. até..O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. Ciência do Direito. Há. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial.) de sistemas próximos do germânico. Assiste-se à implantação (Portugal. O Prof. Turquia. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. evolução histórica. Se não o fizerem. ganha pelo mérito. Cumpre saber que língua é utilizada. Em termos planetários. Há 23 línguas oficiais na Europa. hoje. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. entre interpretação e integração. que suportou a nossa independência. Somos. mesmo quando escritos em inglês. estão em causa relação inter-pessoais. ex. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. De um modo geral. não são de common law. provêm de regulamento. etc. As regras sobre a moeda única. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. francês e alemão. não havendo confusão com os sistemas da pandectística. Todavia. língua. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. Mas na área do Direito não é assim. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. Brasil.

não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo). O melhor Direito é o interno. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. dada a insuficiência da língua inglesa. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. havia um domínio de alguém sobre outrem. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. há muitos constrangimentos.No tempo do ius commune. era o poder da vontade. Esta noção presta-se a críticas. ele começa a desaparecer. Para o Prof. O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. nem uma política externa comum. havia um Direito europeu das obrigações. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico. não há um Governo europeu. intra muros. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. Nós. juristas portugueses. Não teve consequências. Fala de um bem a prestar. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. O direito subjectivo. Antigamente. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. O Prof. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. 8 . é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. forçar a vontade humana. e não a totalidade. Se A tem direito. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. como a falta de competência dos órgãos europeus. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. mas com exagero. quando existia obrigação. No plano oficial. No espaço europeu. a vantagem é o bem que será prestado. para SAVIGNY. há 500 milhões de pessoas. MENEZES CORDEIRO. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada.

chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. Assim. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). mas o seu património. todavia. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. Primeiro.Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. assentes apenas em deveres acessórios. A obrigação não é apenas um bem a prestar. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. Pode haver obrigações sem prestação. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. surgiu a respondência. as obrigações são cumpridas. Há. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. Em regra. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. pelo que é excepção o recurso ao património. já é um valer em si. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. independentemente de terem culpa). As pessoas morriam. independentemente de ser cumprida ou não. A ideia remonta ao antigo Direito romano. Os romanistas diziam que não havia. Depois. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. o dever é sempre um constrangimento ético. Ela. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. XIX. No séc. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. obrigações. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. sim. extingue-se a haftung. Pode ser um facere ou um non facere. Se o devedor não cumprir. no início. um direito ao património do devedor. A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. surge a nova noção de obrigação. mas as suas obrigações permaneciam. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). pode-se atingir o seu património. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). 9 . Na prescrição.

E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. O credor fica adstrito a deveres de segurança. Se é assim. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. pode ainda não existir. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. por si só.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. 10 . pelo que obrigação não é uma prestação. cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. Estas construções são úteis. A prestação pode não existir. A obrigação do fiador é secundária. Mas. Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. Se não são. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. não interessam. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. deveres secundários e deveres acessórios. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. só. Se são. etc. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. outra concepção diz que há um direito real de garantia. tratado mais à frente. linguística. não podendo servir para construir. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas. Se o devedor principal não cumprir. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. pode haver nulidade. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. é o fiador que deve cumprir. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. Em certos casos. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. O BGB já não exige natureza patrimonial. A obrigação. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. com dois regimes). MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. O regime é solicitado para um tratamento unitário. A obrigação pressupõe um dever específico. compreende um dever de prestar principal. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. sabe-se hoje. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. colaboração. em termos pragmáticos. um conceito de obrigação. com o credor e vice-versa. noutros. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. a responsabilidade é patológica. que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. noutros ainda.. não tendo interesse para o Direito nesse caso.

Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. acção directa. O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. Não tem de haver natureza patrimonial (398º). Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. à partida. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. O 397º define obrigação. há sanções pecuniárias compulsórias. compensação – e não de equivalência. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. 2ª parte remete para o interesse. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. há ressarcibilidade dos danos morais. o 398/2. A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). não necessariamente em todas as situações. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. ela é avaliável em dinheiro. No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. É assim ao nível global. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. Tudo pode ser avaliado em dinheiro. boa educação) que não relevam para o direito. mas pode receber dinheiro. tem conteúdo económico. Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). pode haver responsabilidade pela deferência. Hoje isso não é assim. Pode haver execução específica. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. de sistema. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. Direito.Se um artista se obriga a entoar uma ária. Como são ressarcíveis. 11 . o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. mas havendo danos. As relações de obsequiosidade não são.

no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. Em obrigações. Quanto aos acordos de cavalheiros. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. o credor aproveita imediatamente a coisa. A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. o direito real é uma situação absoluta. Nas obrigações. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. não. contrapondo-se aos direitos reais. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. relações de vizinhança. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. mas não se pode retirar daí uma regra. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. Os créditos não são sempre relativos. nos direitos pessoais de gozo. Em direitos reais há só uma. mas não se pode esfarrapar o par de dança. erga omnes. Os acordos de cavalheiros são relevantes. o que tem de surgir é o serviço. A convida B para dançar. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. Noutra acepção. A obrigação é uma relação jurídica. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. Uma última. O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. 12 . Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. no caso dos direitos reais). há figuras como a execução específica. Os direitos potestativos são absolutos. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). duas partes. seria sempre necessária a mediação. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. que são absolutos? Em termos estruturais. Se a prestação for um serviço. encontramos sempre uma dança a dois. a relatividade existe quando há relação jurídica. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). Podem fazê-lo? Em princípio. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. absoluta. há créditos absolutos. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. são para cumprir – se não forem. Deve-se sempre perguntar qual a origem. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. Esta noção vale o que vale. Assim.Há também deveres de protecção. por exemplo).

Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. com os pactos de preferência. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. ex. o que lhes daria uma tutela relativa. dão lugar a responsabilidade civil. Mas inverteu-se a tendência. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. com MANUEL DE ANDRADE. Havia uma quebra maliciosa do contrato. Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. No sentido forte. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. Deveres acessórios. A nossa jurisprudência acordou em 1964. médio ou fraco. A regra é de que a eficácia é meramente interna. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. Há uma acção. se incumpridos. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. Se é assim. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. A doutrina tem evoluído nesse domínio. A eficácia interna é entre credor e devedor. As obrigações são vínculos. Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. Mas há outras regras. p. o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). Faz sentido que haja defesa contra terceiros. dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. a figura do terceiro cúmplice). É o que acontece com os chamados deveres de tráfego. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. PESSOA JORGE). Mas há também deveres no tráfego que. que se manifestam predominantemente perante o devedor. relações jurídicas. Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. então há oponibilidade média. No início. 13 . Se é assim. pode existir oponibilidade em sentido forte. Na Alemanha diz-se que não. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa.. a externa é perante terceiros. Há contratos com protecção de terceiros.A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão.

Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. Noutros casos é mesmo normativa. um terceiro faz-se passar por credor. Mas esses não se aplicam a terceiros. há responsabilidade. recorre a tipos – tipicidade. mas há várias vias para o conseguir. diz-se. Dá. O legislador pode dar uma série de exemplos. descrevendo as condutas. 14 . Contratar-se-ia menos. Quando existe um devedor. ao atribui direitos subjectivos. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. pois. aplicam-se os artigos 798º e ss. Só pode estatuir com recurso a tipos. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. as economias britânica e francesa. há um numerus clausus – o número de factos é finito.  Diz que existe numerus clausus.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. Isso justifica-se em ramos agressivos. O terceiro não pode. Se A contrata com B. proíbe autotutela. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. Todavia. países que admitem a figura. Num ramo típico. protecção jurídica. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. não estão assim tão mal. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. os factos são descritos concretamente. é muito mais restrita. Se ele for atingido. como o penal ou o fiscal. Argumentos a favor. Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. Está tudo ligado. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. Quando existe uma previsão normativa. ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. Há tipicidade exemplificativa. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida.  Diz que está proibida a analogia. O Direito objectivo. Isso em princípio. Se existe uma descrição típica das condutas. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. Outros dizem que só o devedor pode incumprir. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. Quando a lei recorre a descrição da realidade. em princípio inatingíveis. não havendo lacuna.

O conteúdo distingue-se do objecto. etc. o regime tem um desvio. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. um direito e um dever. Há tipicidades de tipo científico. O conteúdo das obrigações é sempre. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. aqui. Mas existem muitas obrigações nessa área. direito a uma coisa corpórea. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). É muito especial. Nas obrigações isso não existe. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. em princípio. por conjunções históricas. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. Aí. O mediato é também designado por objecto. também. O Direito comercial é outro ramo especial. de facto. O contrato de trabalho é um contrato como os outros. Há situações de direitos reais que. por via de condicionalismos históricos. Há. Os direitos reais têm. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. Há. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece. Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). Mas tem regras especiais. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. p.Nos contratos há descrição abstracta. Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque.). Obrigações. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. tipicidade exemplificativa. um princípio de tipicidade. obrigações naturais. venire contra factum proprio. ex. ao contrário. invariavelmente. não há numerus clausus e pode haver lacunas. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. Isto é o núcleo duro – há desvios. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. Autonomizou-se do Direito das obrigações. tudo é parecido com o Direito das obrigações. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. 15 . Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação.

As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família. tendo em conta as circunstâncias do caso. Foi o critério escolhido pelo legislador. É o critério do bonus paterfamiliae.: o médico não tem obrigação de curar. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei.). Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. Uma prestação inclui necessariamente o esforço. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção. A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. aquilo que for normal num homem médio.) e a aquiliana (483º e ss. Podemos. São instrumentais em relação a ela. 16 . distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado. É o homem médio. por um esforço de análise. É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. São prestações que complementam a prestação principal. apenas de fazer tudo ao seu alcance. as partes pretendem uma determinada conduta. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. Por vezes. Ex.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. A prestação principal é o núcleo da obrigação. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). A de dare consiste na entrega de uma coisa. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. mas à prestação de um serviço com determinada diligência. Só é exigível que se esforce até esse ponto. Temos de saber o que é exigível. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. é um homem médio colocado no caso concreto. De dare. noutras pretendem o resultado. Se se comportar abaixo da bitola. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. Não se trata de um non facere. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra. De pati. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. Não se obrigam a resultados. tem culpa. O devedor está obrigado à diligência média. Seguem o regime da prestação principal. Todavia. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece.

informação. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. etc. 17 . Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. Substancializam a obrigação. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor. O legislador quer primeiro cumprimento. integração de lacunas. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes).O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. determinável. tal como se não cumprir o dever acessório. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito.. Podem ser deveres de lealdade.  Círculo externo. a obrigação é uma realidade muito complexa. Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. A indemnização é uma consequência de segunda linha. rerum sic stantibus. nos deveres acessórios são ambos. Os deveres acessórios são imprevisíveis. A culpa in contrahendo. Está em causa o princípio da tutela da confiança. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. contratuais e pós-contratuais. Não basta cumprir a obrigação. segurança. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. é preciso cumprir de boa fé. só depois a indemnização. possível. Como decorrem da boa fé. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. depois a reconstituição natural. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo. observando os deveres acessórios. são soluções para problemas novos. mas há deveres acessórios pré-contratuais. A base legal é o 762/2. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações.

nas mistas há vários deveres.  Obrigação de abstenção (simples. porteiro.  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). uns relacionados. 2. Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente. Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. p.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. como concessão. mas são regularmente utilizadas no sector. Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. outros não. 18 . prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis. atípica resulta da autonomia privada. Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples). Absolutas. relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica. na relativa há. 5.Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. Em princípio.). 4. 3. Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei. Não é o mesmo que coisa fungível. Se sou obrigado a recorrer a perífrases. etc. se consigo exprimir com uma única expressão é simples. A regra é da fungibilidade.). ex. ambos). trata-se de obrigação complexa. suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir). transferência de propriedade. combinadas quando estejam associadas a direitos reais.

Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. também. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. surge na periferia. ao contrário das obrigações comuns. É um contrato em especial. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. era instantânea. pelo menos. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. Havendo agência. O Direito civil é um direito prático. O DL 178/86 trata da cessação da agência. Tipos de obrigações 1. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. determinável. E relações perpétuas. A denúncia. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. forma de cessação de um contrato duradouro. O Prof. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. se tiver poder de representação celebra também os negócios).6. Se fosse logo satisfeito. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. não obstante. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. e outras que se cumprem no tempo. como reacção ao regime feudal. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. 19 . não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. Há lacuna. claro está. Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. entre o agente e o principal há relação duradoura. com dilação temporal juridicamente relevante. Não se extinguem com o cumprimento. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. em que havia obrigações perpétuas. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. para tutela da confiança. sob pena de nulidade (280º). Hoje. quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. o principal. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. O conteúdo tem de ser sempre. As questões sociais vieram pugnar por protecção. Obrigações duradouras Partimos da prestação. Implica especialidade quanto à sua cessação. um pré-aviso. A retribuição é a renda ou aluguer. É necessário. 2. A denúncia seria um dos esquemas. mas pessoais.

é figura real o direito de locatário. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário. políticos. Em 1990 tentou-se de novo. A solução de quem chega ao mercado é comprar. Nos finais do séc. trânsito caótico. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. porque ele é sempre real). O 1743º do CC francês determina que.No arrendamento domina a autonomia privada. Há subúrbios. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. maior o lucro do trespasse. No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. etc. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. inícios do séc. actualizando as rendas. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer. Surgem teorias mistas (entre nós. Se houver inflação. Obrigação de deixar usar? Seria negativo. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. para o futuro). Chegou-se a um regime vinculístico. por exemplo. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas. Quanto mais baixa a renda. Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. menor taxa de natalidade. Logo. transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. contraindo empréstimos. Em 2006 houve um projecto. impedindo actualização das rendas. surgiram fenómenos e problemas de natureza social. as rendas vão degradando. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real. Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. É um direito real. havendo transmissão da coisa arrendada. Mas também não explica o que é o gozo. Se é assim.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção).  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). XIX. centros das cidades abandonados. Há bloqueios ideológicos. mas também não chegou a bom porto. económicos.  Congelamento das rendas. Em 1985 tentou-se reformar. 20 . XX.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio. Chegou-se a este panorama aos poucos. com a industrialização e grande pressão urbanística. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos.

Em geral. no conflito com outros direitos. mas sem shuld. entre os direitos reais e os de crédito.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. de forma similar aos direitos reais. Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. Admitese a existência de direitos de gozo. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. tendo um direito de preferência sobre a coisa. já que é ela que as explica. pois. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. porque não era uma pessoa. No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. Obrigações naturais É figura muito estudada. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. em regra. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. pelo que ele se pode defender sozinho. Mas mudou de ideias. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. o que os aproxima dos direitos de crédito. Comportam-se. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. 3. Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). Não tem uma grande relevância prática. com recurso aos tribunais). como direitos reais. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. na locação. defender o seu direito face a terceiros. Estabelece que prevalece o direito real. Seguem. A pessoa estava obrigada a fazer algo. Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. o locatário pode fazer obras. é histórica. Era um débito sem respondência. nesta matéria o regime dos direitos reais. O Direito dizia que ele estava obrigado. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. por ser figura próxima do direito de crédito. Mas pode ser integrado no Livro II. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. Essa tese é inaceitável. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. Uns são pessoais e outros são reais. 21 . Juridicamente não tinha personalidade.

diferente de um Direito moralmente enformado. sociais. mas também as obrigações 22 .) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais.  As obrigações naturais são típicas (809º). a moral é uma coisa e o Direito outra. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo.. não têm valor patrimonial. No período medieval. Mas são aqueles os dois momentos cruciais. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. Tiveram uma evolução muito atormentada. Isso não é verdade. não posso pedir devolução do que paguei. porque elas são típicas. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. É jurídico. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). Esta matéria está regulada no 402º. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei. Aparentemente. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais. jurídica. pois. Não podem ser constituídas por contrato. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. transformando-as em naturais. Hoje.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. A lei. etc. não jurídicas. Em tudo o resto. Ser jurídica é estar prevista como obrigação.  Não exigibilidade judicial do cumprimento.  O 404º. Mas isto não pode ser.A isso chamaram obrigações naturais. As obrigações naturais. Havia ligação entre o Direito e a moral. Todavia. A justiça é aquilo que o Direito consagra. Noção legal (402º). A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. Não pode ser exigível judicialmente. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. com base no 404º. aplica-se o regime das obrigações civis. Se eu pagar. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. etc. Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. A obrigação natural deve ser. diz-se por vezes. mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade.

Os contraentes podem estipular diferentemente. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. Ele é determinável mas não está determinado. Deve-se escolher a coisa média. A escolha e o risco O 539º estabelece que.civis podem não ser cumpridas. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. há obrigação genérica. Não havendo convenção. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). podendo ser qualquer litro de azeite. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. dare ou pati. com a massificação das transacções. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. dando lugar a obrigações genéricas. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. 23 . A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. quantidade ou qualidade. Não é o sentido do 400º. escolhe o devedor. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. que podem ser de facere. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. Na falta de acordo. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. Logo. o critério é o da mediania. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. Desde que a coisa a entregar não seja única. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. há uma lacuna negocial. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. O problema que surge é o da determinação do objecto. rege o favor debitoris. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. Só se determina o género. o critério deve ser o da mediania. se nada for estipulado. Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. No Direito romano eram desconhecidas. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. 4. é fungível. As obrigações genéricas são muito importantes.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

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7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

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Rege o 512º . Há obrigações que são à partida divisíveis. há outras que só o são se as partes acordarem. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. Quando vão cumprir. Os vários sujeitos têm relações entre si. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. a lei estabelece solidariedade. O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota. Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. MENEZES CORDEIRO defende que. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. mas complexa. a regra supletiva é a da solidariedade. Ao contrário da parciariedade. Presume-se que as partes de cada um são iguais. Aumenta a garantia do credor. de modo a assegurar o cumprimento. No Direito comercial. seja porque existe expressão linguística unitária.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. um concerto de orquestra. Em resumo. isso não multiplica a obrigação. Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. para proteger o lesado. porque também temos de tratar das relações internas. na falta de estipulação em contrário. Existe uma presunção de igualdade das quotas. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro.noção. que é sempre singular). O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação. A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. 27 . Nestes casos. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. quando há vários sujeitos numa obrigação. Na prática. É só uma. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. O credor só pode exigir de cada um essa parte. por exemplo). seja porque o regime é unitário. todos têm de prestar ao mesmo tempo. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. os credores). É um regime mais duro para o devedor.

O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. acrescentou a lei. A lei poderia ser fonte de obrigações. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. tal como os direitos reais. há “gato”. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. No período da pré-codificação francesa. ex. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. ter duplo aproveitamento. ex. Comuns seriam as nulidades (vício de forma. São duas fontes fundamentais de obrigações. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. Normalmente. à estatuição de uma norma. um credor e um credor pignoratício. tem regime diferente. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. Uma prestação pode. o do devedor e o do fiador. já que o fraccionamento é feito posteriormente. É uma bipartição importante. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. p. significa que há alguma coisa a mais. presunção de igualdade (516º). O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. é natural que existam meios de defesa dos devedores. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. aqui. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento. Precisa de um facto jurídico para nascer. concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. não sendo nem uma nem outra.O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva.). 28 . p. ex. uma classificação das fontes. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. se não houver outro acordo. pessoal seria a prescrição. um A. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. Surgiu o esforço de sistematização. p. quando alguém contrata a solidariedade. Mas é uma pluralidade heterogénea. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. Eram fontes que. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. só dele (não os meios pessoais de outro). Na solidariedade há co-devedores. Também existe.

Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. o enriquecimento sem causa. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. nuns e noutros a mesma coisa. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. Em termos estatísticos. Já nos sécs. apesar de não haver classificação qua tale. o negócio unilateral. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica. Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. O direito privado tem 2000 anos. enumera-se o contrato. em vez de adoptar a repartição tradicional. O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. Enumera algumas fontes. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico.). enquanto a lei é norma heterónoma. Há um encadeamento. desde logo. referência à tetrapartição. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. no tempo e no espaço. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. É difícil unificar. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. As divisões não significam. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. ex. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. de se autodeterminarem. Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. a partir do 405º. 29 . como se usou em 1867 e 1966. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade. Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. O Código de Seabra faia um elenco original. então. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. Com o CC de 1966 também não existe classificação.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. mas enumeração. que é comum a todos os direitos europeus. todavia. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. O que se deve. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. Faz-se. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes. a melhor técnica é a tipológica. p. Mas ele é mesmo muito reduzido. a gestão de negócios. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes).

Menezes Cordeiro. o próprio contrato perde espaço. tem menos aplicação. 30 . É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. No Direito da Família também: contrato de casamento. É necessário que haja propriedade. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. de acordo com a escola histórica e a pandectística. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. D. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus. Os romanos conheciam figuras equivalentes. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. mas existe pacto sucessório. No Direito sucessório é mais raro. surgindo os contratos que hoje são básicos. É importante considerar o canonismo. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. igualmente. a bona fides perderá o seu significado. O contrato. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. está em crise. O socialismo ataca o contrato. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. O contrato tem um papel muito alargado. Passava a ser vinculativo por isso. vai na direcção do contrato. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. diz-se muitas vezes. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. Dinis. O CCP trata da matéria. Daria frutos no período jusnaturalista. O contrato valia por si. É um diploma bem feito. consensual – basta haver contrato. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. em lei de Maio de 1352. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. com SAVIGNY. nas Obrigações é o contrato. para o Prof. Dá-se uma grande explosão. Assim. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. já o negócio obtém-se pela razão. se a sociedade é subdesenvolvida. manifestação da importância do contrato. É o sistema de tipo francês. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. Mais tarde. o contrato está sempre subjacente. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. mas se lemos artigos sobre negócios. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos.

valores mobiliários. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos. seguros.). O contrato é. Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. não se trata de um recuo do contrato. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. 31 . Mas isso não aconteceu.  Áreas reguladas.No séc.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. O contrato tem peso em si. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda.  Intervenção judicial nos contratos. pois. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação. incluindo direitos de créditos). nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. O 56º/3 garante a contratação colectiva. pecuniários. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. Não houve. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações. mas de certos contratos. não relevaria: eles devem ser cumpridos. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. Com a queda do Muro. plurais. os observadores previram explosão dos contratos. Tecnicamente. O contrato é um véu que tapa os olhos. à partida. como o da boa fé. necessidade de consagrar na CRP. porque não foi necessário. É óbvia. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força. Graças às convenções internacionais. É uma visão pessimista. pelo menos para coisas úteis. O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos. diminuindo a liberdade contratual (banca. Se a lei não dissesse nada. no artigo 8º/2. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico. etc. racionalidade. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada. A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. Tutela constitucional do contrato A CRP. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna. etc. Todavia.).

3. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. 2. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. consideradas mais sensíveis. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. maior equilíbrio. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. mas a lei não o disciplinou. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. no entanto. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4.1. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. Consensuais. Fala-se. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. regulando com especialidade. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. por vezes. Todos os negócios são contratos bilaterais. nominados e inominados. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. Perante o conceito de negócio jurídico. bem como diminui as dúvidas. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. Pode haver tipo social e tipo legal. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. 32 . formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. em princípio também não o regula. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. Quando a lei não lhe dá um nome. não dá para classificar em abstracto. o contrato é bilateral. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. Terceiro. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. Segundo. reais quoad constitutionem e quoad effectum. vindo a aperfeiçoar-se. É distinção relativa. é nominado mas atípico. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. 5. O contrato de hospedagem. fica fragilizada. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro.

33 . vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). O estudo desta matéria não é fácil. Tipologias de contratos Contratos típicos. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. as partes têm liberdade de celebrar livremente. tendo em conta o relevo de que se revestem. no entanto. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados. A generalidade das normas é supletiva. À luz do 405º. pois. Os gratuitos são. uma vez que domina a autonomia privada. Nos monovinculantes há duas partes. passa entre as gotas da chuva. podemos distinguir entre negócios típicos. a parte geral é muito restrita. em regra. Há. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. 7.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. Embora o 405º seja muito abrangente. Em regra. 6. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. atípicos e mistos Os negócios jurídicos. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. Tendo em conta este facto. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. O problema é que. Fica com o direito potestativo de. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. É sinalagmático. uma delas não fica obrigada. se as partes celebram contratos mistos. hoje. solicitar ao outro a efectuação da prestação. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. Há 16 contratos regulados no Código Civil. O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. É diferente da vinculatividade. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. As partes querem dar. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. O problema é que. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. reciprocidade. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. querendo. A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados.

A tem dívida para com B. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. 34 . Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. Não tem salário. comida. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. cama. mas como tendo a casa como refém. entretenimento. em troca de explicações. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa. que lava também a roupa de cama. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. o locador.: A compra por preço muito baixo. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos.: A arrenda um quarto a B. etc.: A comprou 15 dias num cruzeiro. embora tenha havido preço. devolve-lha. Não pode ser um mero pormenor. B tem de guardar a casa enquanto A não paga. os serviços de limpeza. Isto só resulta se houver confiança. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. mas recebe em géneros. aplicando todos. Ex. Ex. Os combinados distinguem-se dos complementados.: A recebe habitação. Em troca do preço recebe um quarto (locação). não para que se porte como proprietário. que absorverá os outros. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. 2. não havendo uma principal. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. A autonomia privada é o pano de fundo. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. Ex. 4. Há mistura. comida. Estas teorias estão marcadas pela sua origem.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1. quando acabar. o negócio aproxima-se da gratuitidade. na prática. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção). Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. Complementados – aqueles em que existe um tipo base. próprias de vários contratos. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. Ex. O resto é extra. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. 3.

4. acabavam os centros comerciais. publicidade. é uma área vinculística. Em Portugal. tal como o da vontade das partes. Recorre-se ao regime da agência. Pode haver várias funções: simulação. Quando nada se diz. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. então celebra-se o y). Se não for suficiente. Hoje. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. o arrendamento tem muitas normas imperativas. a outra também. aplicam-se as regras desse tipo. Regra geral. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. é esse que se aplica. Aqui. Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. gestão do centro. a solução também foi a da analogia. ex. A seguir temos de resolver com analogia. a quem entrega os bens. Há semelhança entre a agência e a concessão. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. O que é específico é a marca. aplica-se o regime do tipo x. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. O limite é o das normas imperativas. para que os distribua. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. segurança. Mas não é normal. Quando há lacuna contratual. é também acompanhado de distribuição. É contrato de agência que foi encontrado. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. No caso do porteiro isso é evidente.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. no entanto. mas os serviços que o centro proporciona. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. Se ele corresponder ao tipo x. nomeia concessionários. 3. se na lei houver solução. que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. Mas isso é raro. por analogia. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. O método foi o da analogia. bem como sinergia do ponto de vista económico. o combinado e o híbrido. Pode. aplica-se essa solução. O promotor é remunerado através da renda. sem intenção de enganar).2. mas o contrato é usado para uma função diferente. Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. e também com a agência. P. a primeira solução é a da vontade das partes. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). 35 . A solução foi a da analogia. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC.

Procura-se o centro de gravidade. Mas. se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. era o proprietário da coisa. mas para o de terceiro. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. na contratação alternada valia ou um ou o outro. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. aplica-se o regime correspondente. Descobrindo-o. Mas o Prof. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia. Se ela tem natureza real. já que o Direito existe para proteger os fracos. ao contrário do alemão. não permite divisão da coisa entregue. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. porque doações de bens futuros não são permitidas. negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse. Ele é permitido se não violar regras imperativas. 36 . a fidúcia é muito violenta para o devedor. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. teremos uma figura real não prevista na lei. Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. interna e alternada. M. Quem recebia a coisa com fidutia. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. O fiduciante é só entre outros. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. Se for à falência. O fiduciário é de execução prolongada. O fiduciário é proprietário.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. em benefício de quem a entregava. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). No Direito português. São óbices consideráveis. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. o fiduciário. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro.

pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. Hodiernamente. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. Segundo o Código de 1867. A promessa por escrito era válida na hora. 37 . A figura acabaria por aparecer no Código italiano. A figura da absorção. de tipo processual. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). O contrato prometido e o contrato definitivo.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). sendo diferente o regime. há centros de gravidade múltiplos. devia ser celebrado por escrito. a promessa valia apenas como prestação de facto. Há muita jurisprudência sobre isto. rege nos contratos mistos. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. execução específica). Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. para o sinal. de tipo não processual. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma. causais. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. É uma ideia relativamente recente. tem eficácia real. por exemplo. 830º. sem recorrer à escritura pública. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. homogéneos e heterogéneos. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. Importou do BGB a execução específica. 442º. O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. A celebração de uma escritura pública demora tempo. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. dependentes e independentes. Mas nunca é irrelevante. No Direito português tem grande importância..

p. para preparar o contrato definitivo. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. Como no Direito alemão. Regulativa autónoma.As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. Mitigada ou mitigadora. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. 3. do convite a contratar (A solicita a B que contrate). Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. Meramente obrigacional. Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. 5. Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa. um modo geral de celebrar outros contratos. 1. etc. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. Quanto à prometibilidade fraca. ex. Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”.). na promessa sabe-se). do dever legal de contratar. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. transacção meramente obrigacional.. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa. 4. Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. O contrato-promessa distingue-se da proposta. do exercício de preferência. um modus vivendi. Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. é possível a execução específica no caso de incumprimento. do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. Há contratos que. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). na promessa tem de haver negociação). mitigada. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. por vezes. É um formato. não podem ser objecto de promessa. ex. desformalização. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. Por vezes. os contratos são dotados de prometibilidade forte. do contrato preparatório material. do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. Desformalização. P. acabamento da coisa. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo). 2. financiamento. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. 38 . regulativa autónoma. tendo isso em conta. É usado. É a função preparatória. sobre a entrega. Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. Função preliminar. Regra geral. uma vez prometido.

No contrato-promessa.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. estão nos antípodas.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. até é possível haver excepções ao que se disse. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. mas a situação subjacente é diferente. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. a obrigar a algo que poderia revogar. É um contrato à parte.) que conduz à possibilidade de revogação. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa. Mas. e o outro não cumprir. também não há uma regra expressa que o diga. O problema é que.. Pode fazê-lo. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. Com o não cumprimento. Não se trata de um contrato-promessa. o que está em causa não é a regulação de um contrato. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada. do 1591º e SS. É verdade que existe um regime jurídico. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. Não vincula o promitente a doar. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. se não houve entrega da coisa. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. a proposta ainda não foi feita. Isso não vem na lei. proximidade. como executo? Os clássicos diziam que não era possível. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. não é possível qualificá-lo como contrato-promessa. imperativo. É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade. às consequências pela ingratidão. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. Não há contrato-promessa de doação. mas ineficaz quanto às prestações principais. etc. mas que tinha um regime especial. diferente do regime do contrato-promessa. tendo em conta o regime. etc. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. Isso não é correcto. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. à partida. O nome é parecido. 39 . O contrato de doação é um contrato com dogmática própria.

Não haveria problema de prova nem dúvidas. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. em regra o promitente alienante. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. Se o documento é a materialização do acordo. MENEZES CORDEIRO em princípio. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. A questão das assinaturas é meramente formal. O 410º/2 regula a forma. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. Na normalidade dos casos. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. Se para o prometido for necessário documento. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. Para o prof. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. outros a conversão. Assim. Uns defendem a redução. Estipulações acessórias são válidas. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. para ser quantos se obrigam. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. não se entende porque só um assina. Mas isso é errado. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono.Hoje em dia. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. Por isso. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. Se for livre também o contrato-promessa é livre. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. tendo enorme relevância. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. A conversão. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. não se precisa é de assinar. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. é preciso o acordo de ambas). Na prática. aplica-se a regra geral. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. nos termos do 293º. ainda que não tenham as duas assinaturas. o regime é o do 219º liberdade de forma. Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. autêntico ou particular. 40 . o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. é a solução.

prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. A parte geral também tem regras. possa reduzir-se o negócio. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. Há. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. p. concretização e boa fé. integralidade. admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. de invalidade mista. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. havendo grandes atropelos ao direito. 41 . As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. este deve adquiri-la. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. por sua razão de ser. o regime é o da reforma de 1986. Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. ex. se nada disserem. Surgiu na década de 1980. Pode ser paralisada através do abuso de direito. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. no 3. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir. Trata-se. Havendo contrato-promessa. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. Se a promessa for monovinculante. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. em certos casos. ficando com um contrato-promessa monovinculante. Nestes casos. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. a se. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. com excepção das relativas à forma e as disposições que. também. Este princípio. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido.Mas não é fundamentalista. Neste momento. Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. Admite que. Obedece a normas: os princípios da correspondência. MC sugere a ideia de modus contrahendo.

O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). se for cumprido. Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º).O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé. MC entende que isso não pode ficar assim. se não for cumprido. À partida. declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. lugar. se forem válidas e eficazes. imputação. violação de deveres acessórios. Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. Muitas vezes há AA. violação positiva do contrato. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes. inclui-se a coisa no cumprimento. Incumprimento há quando. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. local. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto.). mantendo-se o contrato-promessa..). O incumprimento extingue a prestação principal. O promitente fiel é o que é prejudicado. Ou há mora. Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). se o contrato-promessa permitir. Isto é uma trapalhada. o faltoso é o que não cumpre. O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. pode haver um destrate (acordo de ambas as partes). O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. O definitivo está previsto no contrato-promessa. Se isto não for possível. 42 . uma via crucis. O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo. Se não houver. alterando as palavras. pode haver resolução. devolve-se em dobro. o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss. Pode acontecer que seja lacunar. e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. etc. impossibilidade superveniente. O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. Pode haver recusa antecipada a cumprir. Se houver situação de mora. há inadimplemento. que resolvem inovar. a lei prevê a interpelação admonitória. etc. prazo. Legitimidade. Pode haver uma impossibilidade superveniente. aplica-se o 280º. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação. não foi.

Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. 30%. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). Houve várias propostas para resolver a situação. que chegava aos 20. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. Afastouse a possibilidade de execução específica. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. A jurisprudência.  Quando há tradição da coisa prometida. Assim. o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). celebrando-se contratos-promessas. os sinais deixavam de valer tanto. ajudava a provar a existência do contrato.No Direito grego antigo. no entanto. Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. Quando mexeu no 442º. penal. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. 43 . O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. começou a resolver o problema diferentemente. o sinal tinha alcance coercivo. O que estava em causa eram casas de habitação. mas o valor actual da coisa. com a inflação. na fase executiva. Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados. O problema viria a ser resolvido em 1986. vender a coisa e recolher o preço. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. No Direito romano tinha um sentido confirmatório. Tornava-se compensador não cumprir. O Governo resolveu intervir. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980). se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. o sinal ganha coloração particular. faziam-se casas. se houve incumprimento. O imobiliário estava sempre a subir. recebiam-se sinais. A ideia era: como a inflação é muito alta. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. Tem um direito de liquidação judicial. Quando metido no contrato-promessa. Assim. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se. Enganou-se e mexeu em tudo. Em 1980 havia grande inflação. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. mexeu no regime do sinal. a indemnização já não é o sinal em dobro. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. O retentor pode. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue.

congelando o direito ao valor da coisa. Medidas desse género são negativas para quem vem depois. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. com a solução do Prof. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas. Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. Se houver mora. Assim. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. ainda assim. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa. Tentou-se. O Prof. Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. 44 . o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos. doutrinariamente. Se houver sinal. exige mais garantias. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. É uma “excepção de cumprimento”. Tentou-se limar algumas arestas. ele é deduzido do preço. Vários AA.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. Lobo Xavier.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve. fixa-se um novo prazo. Houve excessos legislativos. introduzir correcções. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. ficou consagrada a indemnização pelo valo. é mais selectivo. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. O hipotecário ver-se-ia preterido. Em 1986 o legislador interveio novamente. a favor do promitente adquirente traditário.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. perderam a objectividade. Além disso. É um esquema complicado. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. Assim. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. mesmo que anteriormente registada. Se houver morar. não sendo necessária a interpelação admonitória. Tendo havido mora. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. a indemnização seria o valor actualizado da coisa. não há logo incumprimento definitivo. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. Todavia. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. a primeira consequência é entrar em mora (805º). pela interpretação).

A menos que. Neste momento. É uma posse muito elementar. destrói o contrato retroactivamente. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. É posse semelhante à do arrendatário. Alguns autores dizem que. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. no entanto. É celebrado contrato-promessa. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. 2. Um contrato de comodato. Se for possuidor tem defesas possessórias. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. a troco da entrega da casa. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. bem entendido. Se for um representante. 3. A resolução. pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal. quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. A distinção é importante. o que deve fazer é resolver o contrato. se há sinal. Tradição da coisa Tecnicamente. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. O contrato-promessa já é um contrato misto. No Direito funciona-se com prazos. desaparece também o sinal. Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. Pode ser uma gentileza mais demorada. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. O que é que as partes pretenderam? 1. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). deve ser tomado seriamente. Se é esse o sentido da cláusula. O sinal visa uma função compensatória. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. É um contrato que dá direitos muito precários. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). não há posse. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. Assim. 45 . operando o sinal. porque tem uma cláusula daquelas. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. Se resolve o contrato por incumprimento. O Prof. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. É verdade. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. quando haja incumprimento.

Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). Mas isso já estava subentendido. A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. Aqui temos posse em termos de propriedade. para além da tradição. é muito difícil determinar a indemnização. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. pelo que há entrega da coisa. Assim. soluções alternativas à indemnização. por maioria de razão também há sinal comum. Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). Contudo. Consoante o tipo de posse. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. Se houve. houver sinal. seria impossível apresentar-se a cumprir. Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966. mas não especificou. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. já vinha de trás. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. Se de facto houve perda do interesse. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. também.4. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. houve incumprimento. O interessado pode ainda optar pela execução específica. Se há excepção do cumprimento. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. muda o regime. Foi uma ideia prussiana. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. Leva ao mesmo. colocando no terreno. Em 1980 o regime foi alterado. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. 46 . Quando se trata de acções humanas. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. Estamos perante um facto. Assim. A solução mais normal é a execução específica. Passa até à frente do credor pignoratício. através dos seus meios. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. Já está tudo pago. Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. dir-se-á que não podemos obrigar. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). Se tivesse havido incumprimento definitivo.

no momento em que é decretada a execução específica. em 1980 o legislador foi desastrado.  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos. O tribunal não emite. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. 47 . a declaração faltosa. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. verdadeiramente. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo. já que a prestação se tornou impossível. A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. contudo. Conquanto que o conteúdo seja determinável. Não valerá a pena recorrer à execução. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica. Haverá consequências indemnizatórias.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. ex. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. O Prof. Simplesmente. p. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. Aí. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. Contudo. é muito difícil calcular a indemnização. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro. Os riscos são compensados pela presença do tribunal. mas vende a C. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. Nos outros a questão não se colocava. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). Perante o incumprimento. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. Simplesmente. Mas nem sempre. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. as custas ficaram por sua conta.Houve soluções doutrinárias. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica.

Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. Todavia. mesmo que houvesse. se verifique uma alteração das circunstâncias. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. Contudo. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. MC entende que sim. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. Tem de haver ponderação de interesses. por sua natureza. o 830/1 admite a possibilidade. pode acontecer que. O comodato pode cessar a qualquer altura. Nessa altura. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. já não é de todo possível a execução. Mas. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada. comodato). Já no penhor ou no mútuo faz sentido. p. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. Se houver situação de inexistência. Mas aí não cabe execução específica. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. poderia ser revogado. No caso do contrato de trabalho. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora. Contudo. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. Não pode haver execução de contrato que não existe. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. depois. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. Aí já faz sentido. tão pouco. Quando seja celebrado um contrato-promessa. Quando nem sequer há prometibilidade (doação. limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. ex. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). demissão). 48 . Não faria sentido a execução de um contrato que. Igualmente. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. não se iria muito longe (despedimento.) também não pode haver execução. Mas a lei admite mandato irrevogável. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. in fine).  A exclusão convencional.

49 . ficando privada do preço. convenção expressa de atribuição de eficácia real. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. O que está em causa é que o dever seja cumprido. qual a solução? Normalmente. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. Se o preço não for pago há injustiça. execução específica.  Há execução específica. Vaz Serra. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. vendendo a terceiro. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. MC propõe a integração através da bilateralidade da regra. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. Através da eficácia real conseguir-se-ia. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. escritura pública. Assim. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. a lei alemã permite um pré-registo. Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. reforçando-se o registo.Depósito do preço A sentença é translativa. outros recusam essa solução.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo. A outra parte pode não ter sido paga. Se não for cumprido. Ora. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade. alguns entendem que cabe execução específica. mas contra o terceiro (Dias Marques). pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. Promove logo a transmissão da propriedade. que a foi buscar ao Direito alemão. O Prof. Deixou de se exigir a escritura. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. registo da promessa. não é norma de excepção. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido.

resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa. Mau grado a primazia reguladora da promessa. ainda que devido e pré-regulamentado. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. Ao celebrar o contrato-promessa. a celebração das promessas. as partes obrigam-se. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. uma vez que dela nada sai de preexistente. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. o contrato definitivo não perde em categoria. 50 . a execução específica não é puramente executiva. apenas. A primeira opção explicativa leva. por vezes. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. pelo menos em parte. Nos extremos. de facto. Justamente por. as partes regularem. a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. à negação da própria promessa. em definitivo. uma vez concluída. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. o que esteja em causa. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. tão-só. a contratar. um acto de execução do que já estaria combinado. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. De seguida. continua a ser um verdadeiro contrato. como contrato autónoma. com o contrato definitivo. na promessa. levar ao apagamento do definitivo. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. no fundo. delimitando. no entanto. em relação ao definitivo. A lei proíbe. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória. tão-pouco é declarativa.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. em função dele.

o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. caso este queira. o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente). ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. As preferências no sistema jurídico No Código Civil. antes. Diz-se. as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato. 51 . essencialmente. deve vendê-lo. O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. Em regra. em Direito. quando convencionalmente estabelecido. tem. A favor do comproprietário (1409º e 1410º). pelo artigo 1535º (1901º). uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. caso queira vender um prédio a alguém. com o qual o negócio fora ajustado. A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. Por exemplo: o obrigado. o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto. O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. pelo preço em causa. um dia. isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. Da mesma forma.O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. A favor do senhorio (1112º/4). nesse sentido. 1519º e 1523º). O direito de preferência. a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz.  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). 1380º e 1381º). A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). perdendo a plena disposição do seu bem. De resto. desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). ao preferente. A favor da pessoa designada em testamento (2235º). por χ. A favor do co-herdeiro (2130º). Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável. A favor do fundeiro (1535º).

ainda e por elas.  A opção – figura inominada e atípica. a real.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. Na primeira. apenas uma das partes fica obrigada. Na segunda.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito. violado o pacto. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real. uma vez que a outra emite logo a declaração final. Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. nesta última hipótese. relativo à acção da preferência. consoante a opção das partes e isso desde que. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau. a preferência real confere. uma indemnização. a preferência legal advém da lei. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. a um direito real de aquisição. ora reais. nos termos do 414º. 52 . um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. na opinião dominante. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência. sejam. ao preferente. ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. não podendo o preferente fazer seu o negócio. quando violada. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso. através de uma acção de preferência (1410º/1). permite ao preferente exigir. ao obrigado faltoso. As preferências convencionais são ora obrigacionais. Modalidades.  A preferência obrigacional. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização. observadas determinadas formalidades.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais. tem cabimento recorrer à acção de preferência. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita. todavia.

à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. de onde promanam deveres para ambas as partes. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. por ele. daí resulta a aplicação. Propõe-se a aplicação. o artigo 410º/2. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. Todavia. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma. mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. podendo. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. à preferência. próprio do contrato-promessa. Com uma prevenção: numa situação de preferência. de liberdade de forma. a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. pretenda contratar com o obrigado à preferência.  Porém. Num pacto de preferência comum. quer autêntico quer particular. a essa luz. próprias do contrato preferível. em regra. E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. a menos que ambas as partes se vinculem. deve-se lidar com os deveres acessórios. 53 . Tendo conhecimento do pacto de preferência. o terceiro deve-se abster de contratar. recebem os deveres. desencadeando o funcionamento do pacto. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. como a de fazer a competente comunicação. os ónus e os encargos envolvidos. como cláusula num pacto mais vasto. quando o contrato preferível exija documento. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. O modus praelationis. é afectado de algum modo. por definição. de acordo com as regras gerais (219º). das regras aplicáveis à capacidade. do princípio da equiparação. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. ao pacto de preferência. eventualmente. Pergunta-se se o terceiro que.Forma O artigo 415º manda aplicar. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. ao pacto de preferência. E sendo este o caso. Bastaria a assinatura deste. se o pacto for bivinculante (bilateral). perante o Direito vigente.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. por parte de um terceiro.

 Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. envolve. e estará enganado. quer autêntico. a comunicação para preferência deve ser feita a todos. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada. modificações ou reticencias. a renúncia. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou. A resposta do preferente. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal. se vem mesmo a concluir na esfera deste. por aplicação do 410º/2. declarando que não está interessado. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. se não o fizer. Havendo aceitação da comunicação de preferência. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou. ao seu direito. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. na presença de um projecto de contrato firme e sério. por parte do preferente. pelo menos. uma de duas:  Ou o preferente prefere. quer particular.  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. na mesma linha. não o quer. perfila-se o contrato definitivo. isto é. deixando o negócio para o terceiro que. afinal. A não se verificarem tais requisitos. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente. o contrato.Na posse dessa proposta. É o que dispõe o artigo 416º/1. por lei expressa.  Ou o preferente rejeita. com alterações. convicto de que. de pleno direito. ficando o contrato por celebrar. já que o terceiro não celebraria tal contrato. 54 . Finalmente. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento.  Ou renuncia à preferência. exige-se forma escrita. o terceiro ficará com o negócio. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. por opção do beneficiário. o represente. A “aceitação” da comunicação para preferência. Havendo vários preferentes. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que. A comunicação não está sujeito. Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. com base nela. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. com poderes bastantes. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. pelo menos. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. esta deve ser feita ao preferente.

o que terá que provar.  Não sendo avaliável em dinheiro. sem prejuízo para o interessado. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos. quando se reporte a uma universalidade. ou não. então. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. 1ª parte). apontam. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. podem umas e outros ser desagregados. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode. recebida a comunicação. pode.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras. Existem três possibilidades básicas. o preferente desiste ou prefere em conjunto. o contrato será seguramente único. ou não. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. divisível?  E não sendo divisível. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. Observar-se-á. dependendo das circunstâncias. nenhum princípio de especialidade. é excluída da preferência. não o sendo. Não o sendo. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa. Prestação acessória. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro. 55 . As valorações subjacentes ao artigo 417º. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto. no nosso Direito da compra e venda. De todo o modo.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial.

 Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. A prestação principal é. com o preferente.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”. em caso de violação de uma preferência real. Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). A acção de preferência permite ao preferente. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. 56 . fazer seu o negócio faltoso. os restantes: não havendo processo de escolha. em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. feito no artigo 410º/2. sempre. A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. seguramente. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele. A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. Segundo o artigo 1410º/1. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência.  Concluir o contrato em causa. esta última: trata-se de um facere jurídico. Havendo eficácia real. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). desde que este as acompanhe. com isso. Verificados os pressupostos. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. em termos de aquisição. É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. afastando. abre-se licitação. 1ª parte). Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles. nas condições fixadas. sem seguir o procedimento da preferência. moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. a todos os preferentes. ao preço e à identidade do requerente. Em termos de comunicação: ela deve ser feita.

a opção cessa. aqui. na conclusão. esta não depende da intervenção da parte vinculada. ele recebe o direito potestativo de. o qual. execução e incumprimento No que toca ao optante. um verdadeiro contrato-promessa. tendentes à conformação do contrato definitivo. mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. na opção. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”. no cumprimento.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. passando a integrar o definitivo. todavia. Direito e deveres. na execução. perante o concreto contrato definitivo em causa. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. o artigo 411º: o vinculado pede. por uma simples manifestação da sua vontade. excepto no que tanja ao cumprimento deste.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. 57 .  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo.  Quanto à execução. por mera declaração unilateral. directamente ou por analogia. da posição de contratante e do valor que ela representa. Logo. Aplicam-se aqui. que exigirá. por analogia. do definitivo. dá azo ao contrato definitivo. ao tribunal. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. provocar o aparecimento do contrato definitivo. que fixe um prazo razoável para o seu exercício. só será válida e eficaz se. declarações de ambas as partes. Haverá que aplicar. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. ora. o titular ou o optante) recebe o direito de. a celebração. na opção basta a declaração do beneficiário. por ambas as partes.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção. A opção. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. só deverá ter lugar se uma das partes quiser.

Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. que exercerá o seu direito se o entender. Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. o artigo 762º/2 e. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). uma das partes (o promitente) assume. o qual deve ser cumprido. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. a cargo. por via dos artigo 295º e 221º/2. Funções. há que lhe aplicar. partes no contrato. Como princípio geral. o artigo 272º: na pendência da opção. entre outros aspectos. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa.O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. directamente. por analogia. pode facturar o premio da opção. surge o contrato definitivo. 58 . no memento escolhido. por seu turno. do definitivo. Assim. surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que.todavia. do optante e do adstrito. natureza e aplicações Celebrando uma opção. dando-a em garantia ou alienando-a. no mercado. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. a qual adquire um direito à prestação. com relevo para o pagamento do preço da opção. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção. Ambas as partes ficam . O risco desaparece. respectivamente. Actuada a opção. O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. No plano do seu conteúdo. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. a sua opção. O obrigado. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. perante a outra (promissário). o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. as partes congelam as condições da venda. Ainda o mesmo optante pode colocar. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. designadamente para a parte optante.

a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. O terceiro adquire o direito à prestação. Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. pelo contrário. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. as prestações ou outras vantagens que. a efectivação da promessa ao terceiro. nessa altura. lhe possam advir da relação básica (405º). a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1). independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). imediatamente. a contrario e 448º/1. perante o terceiro. o direito à prestação: independentemente da aceitação. especificamente. 59 . pelo contrato a seu favor. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. A posição do terceiro O terceiro adquire. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso. de forma geral. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal. devam ser trocadas entre os mesmos. quando esse seja o conteúdo da promessa. 1ª parte). Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte. ao promitente.  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. deste cerne. O regime concreto de tais prestações.  A de exigir. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. a prestação principal O promitente tem.  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem. Tal permite excluir. excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). porventura. por exigência deste e do promissário.A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. do promitente. fundamentalmente.  A de exigir. do promitente. porventura. contratos como o casamento ou a doação. A posição do promitente. As prestações que.

desconhece os precisos termos envolvidos. a contrario). falsificar a conduta a que se encontra adstrito. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. logo. porém. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. antes dela. ainda. de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. sobre si. Desde modo. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1.  Torna a promessa firme (446º/1. Amicus: o terceiro. Pode-se. nada fazer. pode ser menos diligente ou até. de adesão. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. antes de ter ocorrido a sua nomeação. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. Electio ou electio amici: a escolha. não tem. por não ser o destinatário da prestação acordada. ficando em inferioridade no momento do cumprimento. Na linguagem desde subsector. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. Esta apenas consolida um contrato que. O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. não sendo parte do contrato. através da regra da boa fé (762º/2). em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. ao abrigo das regras gerais (217º). quando se desempenhe perante o terceiro. Eligendus: o terceiro. pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. 60 . o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou. instável. a fiscalização da contraparte. Num primeiro tempo. O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. de lealdade e de informação. por não ter sido celebrado com o terceiro é.  O terceiro. pode desinteressar-se dela ou. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme. admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e.  O promissário. no limite. a contrario e fortiori).Perante um contrato a favor de terceiro. As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança.

Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. A electio tem. tal como sucede com a ratificação (262º/2). dele se aproximavam. o negócio consolida-se na esfera do stipulans. não reunindo as características perfeitas do contrato. a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. quando superior (454º/2). no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. pois. 61 . efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta. altura em que o contrato ficará sem efeito. a cláusula “pessoa a nomear”. Ele implica. inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. foram surgindo figuras que.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira). Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos.Regime. A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. ao outro contraente. Concluído o contrato para pessoa a nomear. seja em moldes sócio culturais. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato. concordância do amicus e electio. O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. seja em termos técnicos. do próprio contrato que a contenha. eficácia retroactiva. As fontes paracontratuais Ao longo da História. que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa. Como tratá-las? Com o tempo. num todo coerente. produz efeitos em relação ao contraente originário. Feita regularmente e comunicada a designação.  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. Embora a lei não o diga. em princípio.

postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas. Surgindo. tivesse ocorrido qualquer contrato. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique.  Inserção em organizações comunitárias. execução de relações duradouras. para certos fins. Relações paracontratuais em especial 1. derivada do facto simples de um contacto social. uma parte razoável do seu regime. sem integrar previsões contratuais. no tráfego moderno de massas. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais. na sua origem. Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. muitas vezes. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que.  Os contratos com protecção de terceiros. seja na formação. o contrato. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). Teria de se admitir uma relação de tipo contratual. no espaço jurídico. depois. através de meros comportamentos materiais. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais.  As relações contratuais sem contrato. esta relação fundir-se-ia nele. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. seja nos preliminares. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital. ser reconduzidas ao contrato mas que. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social. Sublinha-se que. 62 .  Situações de proximidade contratual. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram.  Situações de relações jurídicas complexas. em termos rigorosos. com ele. pelo menos. chega-se. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual. de lealdade e de informação. isolam-se:  As relações contratuais de facto.

relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. O círculo interior. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. que veicula os valores fundamentais do sistema. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. por qualquer razão. Em termos analíticos. A “fonte”. ainda. tenha uma proximidade visível.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. para terceiros. 63 . De novo há um círculo exterior. promane deveres acessórios (de segurança. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. no caso de violação. Também está claro e assente que. O contrato é resolvido. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. o Direito manda proteger. Havendo proximidade. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. Em termos gerais. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. 2. perante a prestação principal e em face do credor. O contrato é anulado. que se reporta aos bens postos em jogo. mercê dos contratos preliminares. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. e existe. revogado ou denunciado. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. em face de um contrato:  Alguém que. nele. por estar vulnerabilizada. Há impossibilidade inicial da prestação. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. nas protecções dispensadas. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. o círculo interior. pelas partes. Surge uma impossibilidade superveniente. Com as devidas adaptações. independentemente de qualquer especial vontade. 3. ainda que insubsistente. no contrato considerado. não seja parte. igualmente. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé.

Mas têm moldagem contratual.  Um numerus clausus de realidades relevantes. cessado o contrato. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. que explique os deveres resultantes.Tecnicamente. aqui. as normas típicas. dando origem. 4. com ligeireza. aparentemente. 64 . operando o contrato. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo. aplicar. “negócio” engloba. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. fora de série. De facto. fique adstrito a realizar uma prestação. tais deveres não têm origem contratual. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. podendo. O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. obrigações que (só) irão pensar depois. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes. uma regra de tipicidade. o inerente instituto. quando violados. ser globalmente denominado culpa post factum finitum. perante eles. No que se lhe reporta. o proprio acto unilateral (457º-463º). no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. a responsabilidade obrigacional. de obrigações futuras. por analogia. mas noutros locais. de lealdade e de informação. 5. o que (ainda) não têm e subscreverem. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. para as partes. ad nutum. nesse sentido nuclear. Antes de fundam na lei.  Os perigos da adstrição ad nutum. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. com facilidade. ainda se poderiam manter determinados deveres.  A proibição de. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se. uma vez que ele não é partes. O artigo 457º proclama. O negócio unilateral implica que alguém. São os deveres pós-eficazes. Em rigor. por sua livre e exclusiva vontade. como um simples facto stricto sensu. em termos jurídico-positivos. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente.

até prova em contrário (pelo devedor). Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida. ainda. limitada à inversão do ónus da prova. a tipicidade dos negócios unilaterais. a primazia da materialidade subjacente que. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se. Negócios unilaterais em especial 1. igualmente por via da boa fé. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. A regra não origina nenhuma obrigação nova. é aparente. sobretudo quando interessados.Mantém-se. Em bom rigor. importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. Quanto muito. Do testamento. deve sublinhar-se. pois. existe aqui. quanto à existência de adequada fonte das mesmas. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. fica o credor dispensado de a exibir. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). pelo princípio da causalidade. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. para além da concreta eficácia suscitada. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. No que tange ao autor do acto. a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. devidas. anteriormente. 65 . numa segunda vertente. que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. cabe salientar a confiança que. pode-se admitir tipos abertos. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. de que. proclamada no artigo 457º. Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. Deve-se ter também em conta os terceiros que. Os negócios unilaterais distinguem-se. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. Do anúncio público (225º). Assim:      Da proposta de contrato. Dogmática geral O negócio unilateral. já antiga. no Direito português. passando pela tradição de uma coisa. sem indicação da sua fonte. por força de qualquer outra fonte. de resto. Da oferta ao público (230º/3). a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. a afirmação. deve imperar. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. isto é. ainda. também aqui. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. De contratos com apenas uma assinatura. com a promessa pública como modelo.  Fonte essa cuja existência se presume.

da indeterminação do destinatário. perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. pelo cumprimento. Feita a promessa. ficando. Concurso público O artigo 463º.2. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. a sua obrigação. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º). desde logo. pela aceitação. Até que. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. muito claramente. propriamente obrigado. 66 . objectiva ou subjectivamente. Até que. pode. o promitente fica obrigado:  Até que. constituir o contrato. que torne a promessa inexigível. ainda. in fine). apenas. só nessa altura se constituindo. tendo prazo. aqui. relativo a concursos púbicos. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). não tendo prazo. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. por anúncio público. seja revogada. O público. naquela. seja revogada (461º/1). aqui. da oferta ao público (230º/3): nesta. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. constitui uma especial modalidade de promessa pública. um motivo atendível. às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. A justa causa será. o promitente adstrito à sua efectivação. deriva. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. 3. exclusivamente. surgindo alguém nas condições nela previstas.  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. A situação distingue-se. o concurso ficaria indefinidamente aberto. a título de prémio. fica vinculado desde logo à promessa”. na sua falta. ele extinga. antes dele. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir. por justa causa (461º/1.     Até que expire o prazo nela fixado (460º). acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida.

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