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Sindicatos esperam a maior greve de sempre de

professores
03.12.2008, Isabel Leiria e Clara Viana

Nenhuma das partes se mostra disponível para mudar a sua posição. Mas o nível da
adesão à greve pode ser decisivo

Será a sexta greve de professores contra a política educativa do Governo de José Sócrates, mas a de
hoje será "histórica", confiam os dirigentes das duas maiores federações sindicais (Fenprof e FNE).
Ambos falam numa adesão "superior a 90 por cento", com milhares de alunos a ficarem sem aulas,
na que esperam ser a "maior" paralisação de sempre desta classe.

"Desde 2006 que os professores não recorrem à greve, que é uma forma de luta muito dura, muito
violenta. Têm feito os seus protestos à noite, aos fins-de-semana. Mas agora atingiram o ponto limite
da insatisfação, da indignação, da revolta mesmo", afirma Mário Nogueira, secretário-geral da
Fenprof e porta-voz da plataforma que reúne os 11 sindicatos do sector, todos apoiantes da
paralisação.

No centro de mais uma das várias acções de contestação aprovadas a 8 de Novembro, dia em que 120
mil docentes (quatro quintos da classe) se manifestaram em Lisboa, continua a estar o modelo de
avaliação de desempenho dos professores, contemplado no novo Estatuto da Carreira Docente.

Os sindicatos impõem a suspensão como condição para a negociação de um sistema transitório para
este ano lectivo e de uma versão definitiva a aplicar a partir do próximo. A tutela diz que não está
disposta por agora a ir mais longe do que a simplificação do modelo (a segunda nos dois anos de
vigência do novo sistema). Ministra e secretários de Estado têm garantido que as medidas
anunciadas resolvem as dificuldades que foram sentidas nas escolas.

"O ME diz que só negoceia se for a simplificação do seu modelo. Para o futuro, aceita ajustes no seu
modelo. Acabar com a divisão da carreira em duas categorias, nem pensar.
Há uma completa insensibilidade. Não percebem que isto não é um braço-
-de-ferro com os sindicatos, mas com os professores todos. Não se pode ter um conflito com todos os
docentes", defende Mário Nogueira.

Entre acusações mútuas de intransigência, a adesão à greve poderá determinar uma evolução neste
impasse. O líder da Fenprof acredita que a resposta maciça dos professores fará com que "as
condições políticas do Governo para manter a sua intransigência diminuam ainda mais".

Se a adesão ficar aquém das expectativas, então os sindicatos tirarão as suas ilações. Mas aí estamos
no domínio da "pura ficção", acredita Mário Nogueira. "Na véspera de uma greve ou de outro
protesto, conseguimos sentir o que vai ser o dia de amanhã. Percebemos quando há silêncio e
quando há entusiasmo."

Concentrações nas escolas

"Se esta greve falha, falha tudo!". Maria Eduarda Luz, professora de Economia na Escola Secundária
Eça de Queiroz, em Lisboa, está convicta de que o dia de hoje é decisivo para o que vier a ser o futuro
da escola em Portugal. Não só, nem sobretudo, por causa do modelo de avaliação, mas devido àquilo
que está na sua base, o Estatuto da Carreira Docente, que resume assim: consubstanciou a divisão da
classe em duas categorias, os titulares e aqueles que o não são, contando apenas para o efeito os
últimos sete anos de actividade, e valorizando o exercício de cargos em detrimento da parte lectiva.

"É esta divisão que criou o mau clima que se está a viver nas escolas", sublinha Maria Eduarda,
docente há 25 anos, lembrando que já em 2007 a maioria dos professores da Eça de Queiroz se
pronunciou contra esta medida. Mas apesar dos antecedentes, ontem não escondia receios: "Há
muitos a desmobilizar, sobretudo em Lisboa". Foi uma das razões que a levaram a deitar mão a
O'Neill, lembrando em cadeia, via e-mail: "O medo vai ter tudo/ quase tudo/ e cada um por seu
caminho/ havemos todos de chegar/ quase todos a ratos".

Tem sido uma espécie de corrente, que foi ganhando corpo na blogosfera e agora parece ser já um
movimento de norte a sul: muitos professores em greve vão começar o dia concentrados frente às
suas escolas e desfilar depois até ao largo da câmara municipal. É o que está previsto, entre outros
locais, para Setúbal, Sintra, Portimão ou Ponte de Lima.

É o que está combinado também entre os docentes da Secundária da Póvoa de Lanhoso: "Desta vez
são as direcções sindicais que estão a reboque dos professores", diz Daniel Martins, docente de
Informática nesta escola, que está "no início da cadeia". Hoje vai ser a sua primeira greve como
professor (ensina há dois anos) e está optimista.

Um mandato de protestos

Na Escola Básica 2-3 José Cardoso Pires, na Amadora, sempre se participou muito pouco em greves.
Mas Francisco Santos, professor de Educação Física, espera que hoje se quebre a tradição. Um sinal
que lhe dá "alguma confiança": já depois das novas medidas de simplificação da avaliação
anunciadas pela ministra da Educação, 115 dos 120 professores presentes numa assembleia geral
votaram pela suspensão daquele processo.

A paralisação de hoje é mais um capítulo numa história que dura há quatro anos e que tem levado
sindicatos e milhares de professores a contestar as políticas da equipa liderada por Maria de Lurdes
Rodrigues. Meses depois de ter assumido a pasta, em 2005, a ministra da Educação enfrentou a
primeira greve e na mais complicada das alturas: a semana dos exames nacionais. Em causa estava o
congelamento das carreiras dos professores durante ano e meio e o aumento da idade da reforma dos
60 para os 65 anos de idade e 40 de serviço.

Para garantir que os alunos não eram prejudicados, o Ministério da Educação recorreu à requisição
de serviços mínimos e o protesto acabou por ter poucas consequências. Apenas duas centenas de
alunos se viram impedidos de estrear os exames nacionais do 9.º ano, fazendo-os semanas mais
tarde.

A alteração da organização dos horários dos professores foi o segundo grande foco de conflito,
levando à realização de novas greves, em Novembro desse mesmo ano e em Fevereiro de 2006.

Mas foi a revisão do estatuto da carreira docente que acabou por precipitar a ruptura definitiva. A
divisão da carreira de professor em duas categorias, a imposição de quotas para aceder à mais
elevada (a de titular) e a criação de um sistema de avaliação com critérios "subjectivos" passaram a
ser os motes de uma contestação que não parou de agravar--se. Em Junho de 2006 saíram sete mil
docentes à rua. Em Novembro de 2008, foram cerca de 120 mil.
Ministra e secretários de Estado têm garantido que as medidas anunciadas resolvem as dificuldades