INVESTIGAÇÕES

GRÁFICOS PARA AVALIAÇÃO ANTROPOMÉTRICA DE PARÂMETROS FÍSICOS DETERMINADOS

SÉRGIO AUGUSTO CABRAL 1 GERSON CARAKUSHANSKY 2

RESUMO

Foram realizadas medições para cinco parámetros físicos (tamanho da orelha, distancia intercantal interna, distancia intercantal externa, perímetro torácico e distancia intermamilar) em 500 individuos. A partir desses dados foram elaborados gráficos com a média e dois desvios padrões para cada parâmetro estudado. Ê feita uma revisão sobre o estudo antropométrico no Brasil e em outros países. São comentados trabalhos ¡á realizados sobre o assunto comparando-se seus resultados com os obtidos pelos autores.

mente utilizados no diagnóstico das síndromes genéticas. O atendimento genético ambulatorial expõe o médico à uma infinidade de defeitos morfológicos os mais variados. São as deformações, as anomalias, as síndromes e associações que vão demandar um alto senso de observação e capacidade de julgamento para a correta avaliação do grau de anormalidade e da necessidade de exames complementares ao diagnóstico 15 816 . Esses exames, pela sua complexidade e alto custo 10, nem sempre são fáceis de obter o que aumenta a responsabilidade do profissional de saúde que deve chegar a um diagnóstico o mais acurado possível com a simples observação das alterações morfológicas que lhe são evidenciadas. Assim, a genética, enquanto atividade clínica, procura detectar as malformações encontradas no paciente examinado intercorrelacionando-as, visando estabelecer um diagnóstico sindrômico. Esses diagnósticos irá depender em muito da experiência do examinador, havendo em centros mais avançados serviços de interconsultas para a análise dos dados de um determinado paciente procurando, através da multiplicidade de observações, chegar a um diagnóstico de maior precisão 4 . Fica patente, dessa forma, a utilidade de um ou mais sistemas que permitam ao clínico ou geneticista o julgamento mais exato do padrão de desvio da normalidade de determinados parâmetros físicos de uso corrente no exame de seus pacientes.

O pediatra, ao lidar diariamente com seus pacientes, defronta-se por vezes com crianças portadoras de malformações de definição duvidosa. São os fácies sindrômicos, as orelhas pequenas, enfim, uma série de dados de observação clínica direta sem uma base verdadeiramente científica. Foi nosso propósito, neste trabalho, elaborar gráficos representando valores médios normais para determinados parâmetros físicos mais comu-

Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Disciplina de Pediatria do Departamento de Medicina Geral da UNI-RIO. 1 Auxiliar de Ensino (UNI-RIO) e Mestre em Pediatria pela UFRJ. 2 Professor Titular e Chefe do Departamento de Pediatria (UFRJ). Aceito para publicação em 05 de dezembro de 1983.

b) Distância intercantal interna — Medida com régua plástica milimetrada tomandose como pontos de referência os ângulos internos dos olhos. Os logarítimos utilizados foram: Nosso trabalho não visou a comparação de grupos etários diversos quanto ao crescimento nos parâmetros físicos selecionados e sim o estabelecimento de uma população heterogênea que traduzisse a média dos pacientes atendidos diariamente nos hospitais e ambulatórios de nossa cidade. . As fitas métricas plásticas utilizadas eram aferidas com um padrão rígido para evitar distorções pelo seu uso continuado. Cada medida foi tomada por três vezes seguidas. Colégio Sara Dawsey. Técnica utilizada a) Tamanho da orelha — Medido com régua plástica milimetrada em seu maior eixo. na expiração. RESULTADOS A distribuição de valores para orelha direita. Os pacientes portadores de síndroma genética definida. Serviço de Emergência do Hospital Central do IASERJ. Análise estatística Processamos a princípio os parâmetros estatísticos básicos como média. distância intercantal externa.MATERIAL E MÉTODOS se como pontos de referência os ângulos externos dos olhos. Origem dos pacientes As medições foram realizadas no Rio de Janeiro. c) Distância intercantal externa — Medida com régua plástica milimetrada tomando- Para a confecção da curva para cada idade usamos um desvio padrão para englobar ± 70% dos dados e dois desvios englobando 95% dos dados. desvio padrão. Dividimos os resultados em grupos de trinta dias até um ano e de trezentos e sessenta e cinco dias de um a seis anos. distância intermamilar e perímetro torácico são exibidas na Tabela 1 assim como seus desvios padrões. A fim de conferir maior precisão aos resultados obtidos. distância intercantal interna. no período de dois anos. malformações múltiplas ou isoladas também foram excluídos. Foram medidas 500 crianças. tomando-se como pontos de referência a borda superior e a borda do lóbulo. d) Perímetro torácico — Medido com fita métrica plástica ao nível do apêndice xifóide. anotando-se até a primeira casa decimal. As medições foram feitas sempre pelo mesmo observador utilizando-se critérios uniformes para cada parâmetro estudado. Berçário da 33? Enfermaria da Santa Casa e Consultório particular. Os pais foram esclarecidos quanto ao propósito das observações realizadas sendo solicitada sua permissão para a inclusão do paciente no estudo. Serviço de Urgências Pediátricas da Policlínica de Botafogo. variância e padrão médio amostrai para todos os indivíduos de mesma faixa etária e para todos os parâmetros. em seis lugares distintos: Ambulatório de Pediatria Geral do Hospital Universitário Gama Filho. A padronização foi feita apenas tomando-se como critério o estado nutricional dos pacientes sendo excluídos do estudo aqueles que apresentavam sinais clínicos de desnutrição protéico-calórica ou os que se situavam abaixo ou acima de dois desvios-padrões para a média de peso e altura segundo a tabela elaborada por Marcondes & cols 8 e 9 . As medições foram feitas sempre pelo mesmo observador. e) Distância intermamilar — Medido com fita métrica plástica tomando-se como pontos de referência o centro de ambos os mamilos na expiração. Os gráficos respectivos são apresentados nas figuras 1 a 5. sendo anotada como valor definitivo a média aritmética das três medidas obtidas. a cor ou classe sócio-econômica dos elementos estudados. acrescentamos a essa variação o intervalo de confiança de 95% para a média. A separação dos diversos grupos avaliados foi feita exclusivamente baseada na idade cronológica dos pacientes não sendo considerado o sexo.

para efeito desse tipo de comparação. 270 pacientes examinados eram de raça negra. Foram utilizados os valores referentes à orelha direita para a confecção do gráfico correspondente ao comprimento do pavilhão auricular. O grupo com maior número de elementos foi o de zero a trinta dias. Esses dados foram utilizados para incluir ou excluir os pacientes do estudo. Para construir curvas mais suaves foi feito aplanamento gráfico. . diferença significativa entre o tamanho da orelha esquerda e direita.5. altura e perímetro cefálico. a amostragem seria insuficiente. Os gráficos resultantes de nosso estudo fornecem um método simples para a valiação de normalidade nos parâmetros estudados. a exemplo do trabalho de Feingold & cois. O menor grupo foi o de crianças com seis meses de idade. Quanto à raça. A proporção entre pacientes do sexo feminino e masculino foi de 1:1. Os demais eram de cor branca. Não houve.A construção dos gráficos obedeceu aos valores encontrados para cada parâmetro com seus desvios e intervalos de confiança. Bastará ao clínico assinalar a idade cronológica do paciente em relação à medição realizada tal como é feito com os gráficos de peso e comprimento. Não foram feitas relações entre os parâmetros estudados e o sexo e cor dos pacientes pois. Não foram feitos gráficos para peso.

A validade do estabelecimento de uma referência nacional encontra base na existência de diferenças raciais entre os diversos povos. necessitando pois de parâmetros que indiquem o correto desenvolvimento somático de seus pacientes. o comprimento e o perímetro cefálico. Em 1979. São eles o peso. limitam-se às principais variáveis utilizadas na prática diária do profissional de saúde. . 8e9 No que se refere à avaliação de caracteres somáticos específicos.DISCUSSÃO Os estudos antropométricos são bastante conhecidos pelo pediatra visto lidar ele com uma população em crescimento em constante mutação. Esses estudos. Carakushansky 3 na sua tese "Subsídios ao Diagnóstico do Mongolismo em Recémnascidos e Lactentes" estabeleceu um índice diagnóstico baseado em doze variáveis clínicas. Nesse trabalho — assim como nos demais estudos nacionais envolvendo a análise de medidas físicas selecionadas — as comparações são feitas baseadas em padrões norte-americanos. As tabelas de Ema de Azevedo 2 e Marcondes são exemplos de esforço no sentido de se obterem dados antropométricos nacionais visando o estudo do crescimento e desenvolvimento do brasileiro. em sua maioria. acompanhando o observado nos demais países onde predominam os setudos sobre peso e altura. pertinentes ao exame clínico-genético mais especializado nossa literatura é pobre.

Ela ressaltava a importância da avaliação de medidas físicas na observação dos desvios da normalidade em crescimento. sob anestesia. Pryor 13 analisa a medição da distância interpupilar avaliada a partir de cálculo baseado na distância intercantal interna e externa. concluiu pela interferência de fatores sócio-econômicos. Optamos por estabelecer o limite de seis anos como idade máxima para ingresso na pesquisa. facilitou enormemente a atividade operacional na coleta de dados. distância nasolabial. Na determinação do comprimento do pavilhão auricular. Em 1974. Deve-se a Pryor 12 um dos primeiros estudos antropométricos na avaliação da distância interpupilar. em 1969. Feingold & Bossert 5 publicam gráficos para a avaliação do crescimento normal de parâmetros selecionados.403 crianças de zero a quatorze anos. as quais derivam de sua descendência comum11. Lucas & Pryor 7 também apresentam resultados referentes a medidas antropométricas especiais. comprimento da orelha e perímetro torácico. Aase & cois. Nessa análise se encontrou uma maior interferência da distância intercantal interna sobre a distância interpupilar. similares aos nossos sendo ligei- ramente inferiores para o sexo feminino. atuando de maneira geral em ambulatórios usualmente carentes de recursos técnicos sofisticados. não fornece os dados absolutos sobre os valores médios encontrados o que impossibilita uma comparação estatística com os dados obtidos em nossa tese. especialmente não adaptativas. Não houve diferença nos achados para comprimento do pavilhão auricular. distância intermamilar e comprimento da mão. Acreditamos que nosso trabalho tenha cumprido o papel a que se havia proposto: o de estabelecer um padrão amostrai de normalidade nos parâmetros selecionados. Sua monografia entretanto. enquanto Pryor 12 apresentou valores mais elevados a partir do terceiro ano de vida. publicam gráficos estabelecendo valores normais para distância intercantal interna e distância orbital externa. demonstrou a importância do tamanho do pavilhão auricular e sua comparação com grupo controle normal no diagnóstico clínico da doença. Considera-se de maneira arbitrária que um grupo de trinta elementos por faixa etária. Laestadius & cois. em seu estudo sobre o peso e estatura de crianças americanas. Outro problema foi o da abrangência do estudo. visando facilitar sua aplicação pelo médico não especializado. distância intermamilar. O material escolhido para utilização nas medições foi o mais simples possível. Foram analisados 2. embora com variações individuais. Laestadius & cois. . perímetro torácico e distância intermamilar. atendidos em ambulatório de Genética Humana. Ele utilizou o método de interpolação linear para aproximar o tamanho de cada medição a fim de substituir erros de aproximação. Essa faixa mais estreita. Seus valores para a distância intercantal externa são mais elevados que os encontrados nesse estudo. do estado nutricional. citado por Meredith. Feingold & Bossert 5 apresentam o trabalho mais completo em termos de medição antropométrica aplicada à Genética. Em nosso trabalho. encontram valores cerca de 9% inferiores aos verificados em nosso trabalho.6. A principal dificuldade na execução desse trabalho foi o estabelecimento de um número adequado de medições que representassem uma amostra significativa. distância intercantal interna distância intercantal externa. perímetro torácico. São estudados o perímetro cefálico. Esse autor. se por um lado diminui o espectro de avaliação possível. é feita uma revisão da fórmula proposta por Pryor. Aase. comprimento da orelha distância intercantal interna e externa.1 apresentam resultados praticamente iguais aos nossos para os primeiros doze meses de vida. Ela frisa a maior fidelidade da distância interpupilar na análise do hipertelorismo ocular. estudando 53 pacientes portadores de mongolismo. distância interpupilar. bem como. Scott & cols. deverá ser objeto de trabalhos posteriores.14 encontraram valores para perímetro torácico. define raça como uma grande divisão da humanidade cujos membros.6 medindo indivíduos de ambos os sexos para determinar sua distância intercantal interna. definem-se como um grupo pela combinação de características morfológicas e métricas. perímetro torácico e distância intercantal interna. por outro. raciais e geográficos sobre os valores encontrados. para pesquisa biológica constitui uma amostra razoável para fins de estudo estatístico. pois é nessa faixa que vamos encontrar a imensa maioria dos pacientes com problemas de dismorfismo. A extensão desses dados a crianças com mais de seis anos e a ampliação do número de casos estudados. região palmar e dedo. realizamos um projeto de pesquisa abrangendo crianças de zero a seis anos de idade para o estabelecimento de valores médios normais para o tamanho da orelha. Segundo os dados de medição direta da distância interpupilar.Hooton.

— Normal inner cant hal and outer orbital dimensions. AZEVEDO. 8. 62: 909. Dis. D. J. & FERGUSON.D. B. 1973. M. 1975. H. 1971. 1 e 2 — São Paulo. H. SCOTH. 1982. 1971.M. Med. 7: 533. — Primer on certain elements of medical decision making. N. — Contribuição para o estudo do peso e estatura das crianças de São Paulo — Tese Faculdade de Medicina. McNEIL. J. Tese. 68: 615. 1966. D. J. 9. Based on these results graphics were made with two standard deviations for each studied parameter. MARCONDES. Vols. 121: 82.W. 1932. Pediatrics 44: 973.J. — Objective measurement of ¡nterpupillary distance. Brigadeiro Trompowsky s/n Ilha Universitária Rio de Janeiro — RJ — CEP = 21941 Brasil . 1982. et al. Ed. inner canthal distance. 3. 1969. Birth Defects. — Small ears ¡n Down's Syndrome: A helpfull diagnostic aid. 293: 211. 1979. comparing his results with those from other reports. Pediat.. 11. São Paulo. W. Am. — Syndrome identification and consultation service. FEINGOLD.H. A.S. Annais Nestle n9 84. 6. 1974. & SMITH. 16. 82: 845. UFRJ. — Normal values for selected physical parameters. 1975. 15. 5.. M. J. PRYOR. 10. Wilson. H. Child. J. SMITH. 1962. D. SMITH.B. CARAKUSHANSKY. W. J.B. 1941.W. & SMITH. E. E. Chid. S. Brasileira de Ciências. making a comement on other works dealing with the same subject. J.B.W. nomenclature and naming of morphologic defects J. MARCONDES.P. Pediat. — Stature and weigth of children on the United States. R. 10: 13. — Estudo Antropométrico em Crianças Brasileiras de Zero a Doze Anos de Idade. LUCAS.C.V. outer canthal distance thoracic cincumference and internipple distance) on 500 subjects. Endereço para correspondência: Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira Av. E. LAESTADIUS. N. Pediat. REFERÊNCIAS 1. — Classification. The authors make a revision on the anthropometrical study in Brazil and other countries. 74: 465. 2. MEREDITH. AASE.M. e colaboradores — Crescimento e Desenvolvimento Pubertário em Crianças e Adolescentes Brasileiros. 4. Eng. 87: 162.. H.W. 12. Am. Dis. 14. Pediat. Saunders. — Recognizable pattern of human malformations. — Charts of normal body measurement and revised width-weight tables in graphic form. J. G. 7. Pediatrics 29: 65.SUMMARY Five selected physical parameters were measured (ear lenght. & GELLIS. Pediat. H. 1935. A. 13. — Growth and development of negro infants. 1969.H. & BOSSERT. & PRYOR. L. Philadelphia. FEINGOLD. PRYOR. — Subsídios ao Diagnóstico do Mongolismo em Recém-nascidos e Lactentes. HIATT. — Range and standard deviations of certain physical measurements in healthy children. J.D.B. AASE.

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