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A Ética e o Direito

Abandonando as definições de ética, que são inúmeras, segundo as várias opções filosóficas, procurarei abordar o assunto sob um prisma prático, pelo qual ética se apresenta como uma exigência do convívio social. Assim, eu a tenho como a verdadeira educação, que não se confunde com a instrução, nem com as chamadas boas maneiras, mas é aquilo que se exige dos homens no relacionamento social e que Fernando Sabino, em obra outra que não a biografia de uma senhora de sua amizade, define com estas letras: "P.N.O", isto é, "pensar nos outros", o que, fielmente observado, garante a harmonia social.
 
 A ética no direito não difere desse conceito. As normas até bole não superadas do direito romano - "alteram non laedere, honesta vive-re e suam cuique tribuere" - , isto é, não lesar a outrem, viver honestamente e dar a cada um o que é seu, dispensam considerações mais prolixas na observância da ética na aplicação do direito, de modo a conduzi-la à provisão da justiça, que é a sua busca e a sua explicação.
 
 Nesse propósito, concorrem juiz, advogado e Ministério Público. E errôneo estabelecer hierarquia entre esses participantes da tarefa de fazer Justiça. Nada mais contundentemente exato do que a equilibrada advertência de Calamandrei: "O juiz que falta ao respeito devido ao advogado ignora que beca e toga obedecem à lei dos vasos comunicantes: não se pode baixar o nível de um sem baixar o nível do outro." (Eles, os juízes, vistos por nós, os advogados). Se assim se deve encarar o aparelho da Justiça, não ha como ter como normal e conforme à ética a conduta do juiz que se recusa a receber os advogados e só admite a comunicação com eles por intermédio de funcionários, sacrificando a defesa de interesses que Ihe são confiados; do juiz que não se comove ante as súplicas do advogado que pleiteia a vista dos autos necessários à instrução de uma defesa em processo criminal ou para formação de precatório; do juiz que retarda decisões de rotina, apenas, talvez, para mostrar autoridade; do juiz que calunia a parte e processa criminalmente o advogado que se revolta e reage; do juiz que se supõe um monarca absoluto, esquecido de que chegou a seu posto graças à democracia, pelo que, pelo menos por gratidão, deve agir, também, democraticamente. Não tem sentido fechar-se em um bunker, mas deixar que seu gabinete seja acessível a todos interessados, porque assim distribui Justiça e concorre para seu prestigio, combatendo a

em suma. com prejuízo da parte e até com agravamento de ônus que deveria evitar ao erário. tem responsabilidade na lamentável conduta de certos magistrados. alguma vez é desculpável o erro de entendimento. em lugar de destruir esperanças e provocar o desalento no direito e a descrença naqueles que a aplicam. que só é advogado aquele que não tem receio de desagradar o poderoso para ficar com o seu dever perante o cliente.
 
 O ministro Mário Guimarães. para se conformar.
 
 Matias Ayres.iniqüidade. patrimônios respeitáveis.
 
 Uma decretal de Carlos Magno continha esta saborosa ironia: autorizava o litigante a quem o juiz retardasse a provisão judicial a transportar-se para a casa do magistrado. mas são suficientes para gerar no povo a convicção de que a classe toda merece a sua repulsa.
 
 A ação até agora. É um parto suposto. não procede de acordo com a ética e a lei o fiscal da lei que se isola em incomunicabilidade afrontosa aos advogados. à ética. erro sim. Urge maior atenção sobre os seus desvios. sem cuja observância o direito se converte em diabólica negação e passa a ser instrumento de arbítrio e tirania. ou como se houvesse uma grande diferença entre o erro e o crime: o entendimento pode errar. Querem os sábios enobrecer o erro. e também o procurador que não lê os autos e opina contra o direito condensado em suas folhas. do Supremo Tribunal Federal. são merecedores de penas severas. que frauda os clientes e o erário. cuja origem não é aquela que se dá. Forense. que retarda seu parecer por meses e meses. porém só a vontade pode delinqüir. relapsos. por sua vez. Eles não são muitos. por demais confiante. com a tardança. como se o entender mal não fosse crime. que ignora os deveres impostos pelo seu Código que. mas é porque não vêem que o que dizem procedeu ao entendimento. com o fazer vir do entendimento. Assim se desculpam comumente os julgadores. por inominável covardia. em suas Reflexões sobre a vaidade dos homens.231). E. procedeu unicamente da vontade. dos órgãos disciplinares. que esquece. que não se preocupam com prazos e deixam os autos empilharem-se nos armários. O "indefiro" sistemático é uma odiosa contratação do dever de julgar. até que este desse seguimento ao feito. senão procrastinando anseios de liberdade"(O juiz e a formação judicial. se bem se ponderar. deixou-nos estas advertências Que nunca devem ser esquecidas pelos juizes: 
 
 "Na ciência de julgar. 1958. porque estão lesando. Rio. o da vontade nunca. p. afronta a ética o advogado que pretende exercer o seu ofício sem estudar.
 
 Por seu lado. sustentou que "os juízes tardineiros. aos atropelos dos maus juizes e à grosseria do tratamento que alguns deles supõem ser prova de autoridade. não reage à denegação da Justiça. e com ele encobrir o vício que trouxe da vontade. mas quem é que deixa de não ver que o nosso entendimento quase sempre se sujeita ao que nós queremos e que .
 
 A Justiça precisa libertar-se da arrogância e da vaidade. cada vez mais.

sutilizador. sincero e paro. desejar. tirano. por eleição do gosto. Que mais é necessário para perverter um julgador? E com efeito que importa que a reputação proceda de um princípio conhecido. em tudo moderado. se lhe falta o desejo da fortuna. tem-no ao poderoso. só porque na opressão deste quer fundar a sua fama. buscar. inclinamo-nos por vontade. tem interesse de algum nome e. não vê que. nem dureza. laborioso e atento. finalmente. chegou aquele emprego . incontrastável sem furar. isto é. Não vê que. e não por arbítrio do juízo: as paixões que nos movem. por isso raras vezes se opõe. sensível ao divertimento honesto. constante sem obstinação. circunspecto. aborrecer. todos viram que tinham nele um protetor seguro da verdade e um medianeiro discreto e favorável para tudo o que fosse favor. O entendimento é a parte que temos em nós mais lisonjeira. mas vê que é vaidoso e que a vaidade basta para fazer o injusto. o dano que resulta da injustiça é igual. modesto sem desprezo. o mal que se faz por vaidade não é menor que aquele que se faz por interesse. não vê que. mas reservado por obrigação do ofício. nem amor. cruel. ou legislador. isto é. e douto sem ser interpretador. que o mesmo julgador não conhece nem percebe? O efeito da corrupção sempre é o mesmo. que ainda a nós mesmos fique parecendo que foi resolvido do entendimento aquilo que não foi senão ato da vontade.o seu maior empenho é servir a nossa inclinação. sempre é em juiz injusto. e quando foi promovido a ela todos conheceram que foi justa e acertada a eleição. a inclinação sim. ou vaidoso. inimigo de ninguém. sobra-lhe o desejo da reputação. nem ódio. inflexível sem arrogância. e o mais em que ocupa é em conformar-se de tal sorte ao nosso gosto. se não tem interesse de alguns bens. sabemos que amamos por amor que aborrecemos por ódio. generosidade. tem-no a si. o seu caráter é um animo Cândido. e não por conselho. nem malevolência. de uma vaidade. clemência. a ninguém é pesada a sua autoridade. por amor. a todas conhecemos. se não tem amor a outrem. nos inclinam. daqui vem que nem sempre segue a razão e a justiça. que buscamos por interesse e que desejamos por ambição: mas não sabemos sempre que também a vaidade nos faz amar. ou o julgador prudente: este é severo sem injúria. Que importa que o julgador se faça injusto. nem interesse. reto sem aspereza. tem ambição da glória de as desprezar e. ou de um princípio oculto. o juiz amante. e não por inteligência. é alegre e afável por natureza. mas sem uso dele por causa do lagar. nem ambição. que se não tem ódio ao litigante humilde."
 
 É ainda do primeiro dos nossos clássicos estas palavras que não poderiam ser mais atuais porque representam um verdadeiro retrato do bom juiz:
 
 "Não é assim o magistrado. só por passar por justiceiro? A conseqüência da injustiça também vem a ser a mesma. diligente. daqui vem que o julgador se engana quando se presume justo só porque não acha em si. se não tem ambição das honras. é amigo de todos.

a verdadeira idéia da convivência entre os homens. . a ele não assombra nem a grandeza dos sujeitos. a indestrutível condição humana. nem dos lagares. Nenhum infrator perde. não atende a qualidade dos rogos. Pode e deve ser punido. para satisfação de sentimentos estranhos ao poder de punir. nem das matérias. Não pode. e a aclama em qualquer lagar que a ache. mas a qualidade das coisas. um alto merecimento o fez chamar. a razão é a sua regra. e não por meio da fortuna.por meio das virtudes. e as gentes se admiram. não atende mais do que a justiça: esta tem por objeto singular. ele a segue."
 
 O direito nada pode sem a ética. que resume. com seu erro. nem o grande por poderoso. porém. com os direitos inalienáveis que lhe pertencem. e não pode haver paz sem Justiça. ser insultado pelo juiz. Toda regra de Justiça envolve amor... mas de que o não fosse mais cedo. para esta é que olha. e não por de quem são. nem o pobre por humilde. em seu mais amplo sentido. no seu conceito não valem mais. distingue as pretensões dos homens pelo que elas são. não de que fosse chamado.
 
 A justiça se faz também com a compaixão.