I CONGRESSO INTERNACIONAL DE MUSEOLOGIA

Sociedade e Desenvolvimento
21 a 23 de outubro de 2009

A CÓPIA DA ARTE NO ESPAÇO DO MUSEU
Pedro Moreira da Silva Neto1

INTRODUÇÃO

Compreende-se que o sentido de cópia possui na sua referência ontológica a condição de quantidade, de possibilidade desta quantidade e que não é necessariamente realizada através do artista que idealizou a obra de arte e desenvolveu a concepção. A obra depois de realizada no material considerado final pelo artista em seu suporte torna-se por si mesma um arcabouço de constatações sócio-críticas que desvelam várias vertentes culturais e científicas em planos distintos. A obra pode ter em princípio uma conotação estética, histórica, física, química, crítica social, entre tantas outras probabilidades. O enriquecimento de seu sentido no espaço museu demanda uma ordem de eleição não exatamente definida senão pelo instituto que a considera como objeto museológico. Pertence a um momento cujas referências devem abarcar a sua localização neste tempo histórico, cultural, artístico que solicita a sua permanência em maior ou menor tempo, mas que sua presença no museu, em seu catálogo remeta a se pensar os vários sentidos que a determinam. A obra teria perdido a sua aura, o seu espaço e tempo que determinariam a sua autenticidade no que se refere ao imediato da percepção, o seu local de referência onde estaria integrada. Com o desenvolvimento de novas tecnologias que favoreceram de uma parte a facilitação nos processos de execução, e por outro a pulverização do conhecimento e a recepção da obra de arte em maior quantidade e possibilidade; os fatores técnicos
Pedro Moreira da Silva Neto, formado em artes cênicas pela PUC/PR, especialista em Metodologia do Ensino da Arte, dramaturgo, escritor, trabalha no museu Casa Erbo Stenzel da Fundação Cultural de Curitiba, é professor responsável pelo Setor Cultural das Faculdades Santa Cruz de Curitiba.
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principalmente as eletrônicas como a televisão. é bem possível que as novas tecnologias permitam que essa condição esteja presente em variados espaços. originalidade. que esteja tomado por cópias. (BENJAMIN. O fator que parece determinante a respeito da cópia se dá no que ela pode servir de forma pedagógica como operação didática. DESENVOLVIMENTO A desvinculação do museu com o seu objeto de correspondência em autenticidade. e outros equipamentos puderam facilitar a obtenção desses saberes multiplicados. pela facilitação em se ter no mesmo espaço o duplicado. computadores. e museográficos no sentido de que é no ambiente do museu que se dá a sua apresentação pública. qualquer lugar que sustente legitimamente a exposição. guarda das obras originais em reservas técnicas ou em outros espaços também públicos facilitando a manobra técnica que as protege. pelo fator autoral e também histórico se da pela reprodução técnica. 1955) A presença do artista na atividade produtiva se realiza pelos processos do conhecimento. Ao multiplicar o reproduzido. Na medida em que permite à reprodução ir ao encontro de quem apreende. educadores em ações educativas no ambiente do museu. 2 . Esta desvinculação se deu no que se refere principalmente aos espaços expográficos e museográficos. Compreendendo que aqui se trata de expográficos. actualiza o reproduzido em cada uma das suas situações. 4. as novas mídias. inclusive nos museus como agentes disseminadores do conhecimento. Poderia caracterizar-se a técnica de reprodução dizendo que liberta o objeto reproduzido do domínio da tradição. legitimidade.tornaram-se mediadores dessa apresentação em escala. pode-se pensar que possibilita a aproximação estética e corrobora para a manutenção. Nesse sentido compreendemos que a tecnologia intermedeia o objeto do conhecimento com o seu receptor. coloca no lugar de ocorrência única a ocorrência em massa. Em relação ao museu em particular. proteção.

que trabalha no atelier e se utiliza de técnicas milenares para a elaboração de esculturas através do método da cera perdida.Mas a princípio. voluntária ou involuntariamente. “as cópias são como gabaritos 3 . a autoria está defendida. Assim também se dá com o público em geral que se remete a personalidades. inclusive os da cópia. a descoberta estética. compreendendo também os momentos presentes. no caso específico de Erbo Stenzel. Segundo o artista Elvo Benito Damo. é a condição de cópia que se apresenta como um bem possível de ser preservado. É de fato uma obra da obra do artista vinculada ao processo de execução da obra de arte. (BENJAMIN. os fatores estética. ainda que num sentido menor. Com a crescente especialização do trabalho. situações e reconhecimentos de época. A cópia deve ser cuidada porque nela estão presentes em sua exeqüibilidade as técnicas que possibilitaram o registro do gesto do artista. crítica e o momento histórico da concepção artística continuam na mesma importância e necessidade. A possibilidade de se ter em mãos numa proximidade valiosa a obra de arte através da cópia aumenta a sua popularidade. especialistas numa dada área. p. esteticamente definido. O museu que é próximo do atelier de Esculturas da Cidade de Curitiba e de modo direto auxilia os estudantes no trato com os materiais. O fato de mais pessoas terem acesso à obra de arte ocasionou um estrato novo na cultura que é o sentir-se capaz de realizar um feito por si mesmo porque também se sente autor. 1955) O público e mais especificamente os artistas que freqüentam o museu Casa Erbo Stenzel vêem em busca dos processos e também. evidentemente da atividade artística em seu tempo. assim tendo acesso à condição de autor. também é possível realizar a arte. o período histórico ilustrado a obra artística reapresentada. a possibilidade de se conhecer princípios ativos em sua elaboração e desenvolvimento de um período. esta quantidade que se determina no espaço do museu Casa Erbo Stenzel está de forma diferente. Isso quer dizer que em nada ou quase nada a cópia seria engano ou atrapalho. A cópia facilita a mensuração dos processos de criação da obra de arte. 13. o que determina ação do artista sobre o material. A construção da obra de arte evidentemente não perdeu sua razão de ser. todos os indivíduos tiveram de se tornar. trata-se de uma referência que promove comparação de estilos ou de busca que enseja descobertas pessoais.

A construção de edifícios tem uma recepção de dois tipos: através do uso ou através da sua percepção. não mais uma antropologia de possuir a alma do artista e impregná-la de uma aura invencível. e sócio histórica a respeito 4 . evidentemente é essa a função primordial do museu. Melhor dizendo: táctil e óptica. Mas a necessidade humana de um abrigo é duradoura. o que ao contrário neste caso. O que está presente no ambiente parece confundir com os que lá estiveram a família. e a sua capacidade de se atualizar é importante para qualquer tentativa de compreensão da relação das massas com a obra de arte. que a obra em toda a sua singularidade é levada ao plural múltiplo da comunidade. o artista. também é o bem. possuir a obra não é mais um ser/ter o bem. A arquitetura nunca parou. A sua história é mais antiga do que a de qualquer outra arte. possível. do colecionador. Na cópia os valores flutuantes de mercado a posicionam como um ícone dinamizado. 19. Por outro lado outorga a facilitação de se desmembrar legitimidade. possuir a peça única do artista é uma exclusividade de poucos que estão em alta posição econômica social é uma visão de raridade. a presença dos que visitaram e visitam o lugar. devolver à comunidade o seu atributo de dignidade e responsabilidade civil. a desmistificação do bem cultural que elegido é levado a todos. entre outras categorias para se dar presença valorada da obra de arte a quem possa adquirila. A conquista do bem artístico se faz pela reificação do sentido realizado por uma opção de se ter ou não a obra. (BENJAMIM. e ela mesma que é museu. oferecer à comunidade o seu pensar. O museu integral recomendado à UNESCO através da Mesa Redonda de Santiago do Chile em 1972 solicita ações que possibilitam a difusão do bem cultural. A casa é a exposição do bem cultural.dos processos técnicos utilizados por Erbo Stenzel”. originalidade. (porque há também colecionadores de cópia) é desdobrado por uma quantidade imanente. 1955) A tendência pela cópia na modernidade se faz pelo desenvolvimento (quali)quantitativo da ação cultural em museu. O fato sociológico de que na cultura ocidental em maior ou menor grau. e assim tornam-se facilitadoras da atividade no atelier. Instaura no possuidor da arte uma condição que o diferencia ou o coloca em situação única. A obra de arte colocada na situação de cópia como uma representação configurada da criação é um caminho a mais no sentido da experienciação do sujeito. resgatando para si parte de sua experiência.

a terceira e última é a cópia propriamente cuja funcionalidade a reapresenta. Mas se deve propor aqui categorias essenciais que podem fazer compreender a trajetória do pensamento dos meios de disseminação da obra de arte. apresenta os índices que se relacionam no tempo e espaço com a vida e obra do artista. não se determina nos meios operantes que fazem do museu o lugar da guarda. 1972) Não atingindo a reserva técnica a preservação é duplicada no museu devido à cópia. retomada pelo seu caráter intrínseco de reavivá-la ao seu modo. No primeiro caso a obra de arte em sua originalidade estaria vinculada a todo um processo que a determinou pelo trabalho do artista. a segunda é a realização da réplica que neste caso determina a mão do artista. O museu Casa Erbo Stenzel (que passa por um momento de inventariação para novos processos museológicos) apresenta ao público essencialmente a presença de dois ausentes: o artista. Ela sugere que a UNESCO utilize os meios de difusão que se encontram à sua disposição para incentivar esta nova tendência. buscou-se entender o sentido que se tem da obra de arte. A segunda é uma posição do artista em reaplicar os processos realizados na obra original a uma quantidade replicada. educação.dos bem que lhe pertencem. a réplica e cópia em relação a museu. No entanto. a ação sócio-educativa se amplia e a possibilidade de mais interessados pela arte em possuíla é dinamizada. conservação. As peças copiadas estão instaladas em expografia própria na casa onde viveu. Erbo Stenzel e a obra original. A tomada de uma visão do bem que é pertencente ao sujeito é uma retórica que pode ser destituída de valor quando não se adianta. A primeira é a obra propriamente em sua instância original. Em 5 . (Mesa Redonda de Santiago do Chile. destinado a proporcionar à comunidade uma visão de conjunto de seu meio material e cultural. Para se estabelecer critério sobre o arranjo museológico neste museu. ratifica e determina os mesmos aspectos essenciais presentes no gesto do artista que a concebeu. Um dos resultados mais importantes a que chegou a mesa-redonda foi a definição e proposição de um novo conceito de ação dos museus: o museu integral. proteção. a terceira é a cópia propriamente. O museu realizado em maiores proporções a partir de uma integral presença maciça dos legítimos interessados é um modo de socialização do conhecimento que a cópia reifica.

pertencentes à família e ao artista) que atuam como contraponto de um tempo em família no ambiente da casa. a percepção da obra é também uma localização de um espaço/tempo contíguo indeterminado no sujeito que a observa ou a tem de memória. Essa medição de um real provisório que sustentaria um real indeterminado no interior do sujeito provoca uma idéia de que os espaços reais são construções objetivas de uma realidade subjetiva. o espaço é inserido nos corpos e os corpos no espaço como um lugar indeterminado posto que a obra sendo móvel se localiza em dois territórios. O espaço se dissolve quando se percebe que em tudo há um espaço que não determinado se apresenta como possível para o sujeito. no entanto aparente perceptivo como realidade. A cópia das obras em resina – (material diferente do que o artista usou na época). O que faz validar o museu Casa Erbo Stenzel como espaço museológico é o objeto casa. o objeto casa (enquanto móvel – a casa foi desmontada. os documentos são fotocópias coloridas dos originais. Compreende-se que a quantidade dos objetos estabelecem vários lugares que estão mergulhados as obras de arte. um ato que se realiza num tempo muito exíguo. Ele mesmo presente no espaço da observação é no espaço dissolvido. elas se avolumaram no espaço e se apresentam nele. fotocópias de documentos pessoais e hemerográficos presentes em leitoras específicas no ambiente do museu. arquitetura em madeira do início do século passado restaurada e renovada em alguns aspectos. transportada em partes e restaurada no lugar onde se encontra hoje) recebe a exposição permanente. Trata-se de um museu cuja eleição é a arquitetura em madeira. a réplica da obra é o trato do artista em se utilizar os processos reaplicados e cópia é a reapresentação da obra feita por terceiros. Há um espaço ampliado quando a obra é localizada no sujeito que a percebe. alguns móveis de época (nem todos comprovadamente. 6 . A nossa presença no mundo é justamente um fenômeno. mas em resina patinada). as formas realizadas que estabilizaram as cópias (não em gesso.primeiro lugar a obra de arte é o resultado de um processo criativo elaborado e executado pelo artista. apresenta o gesto do artista em todo o seu dinamismo. Podemos compreender que se trata de uma casa museu. é a materialidade documental (memorial presentificado na cópia). um geográfico do lugar onde ela guarda em si um espaço e outro do espaço onde ela se manifesta pelo lado de fora. é o imaterial materializado na cópia.

A obra de arte não possui uma definição a partir de um senso local.. o lugar se torna cada vez mais fantasmagórico: isto é. O que estrutura o local não é simplesmente o que está presente na cena. O sentido da obra perpassa o racional instigando interpretações. 22. mas de um juízo socialmente sintonizado. O sujeito frente à obra perscruta conhecer do emaranhado sígnico o que faz o objeto se relacionar efetivamente com a realidade. Não se trata de uma soma de fruições intencionadas. a "forma visível" do local oculta as relações distanciadas que determinam sua natureza. isto é.) a obra de arte afastou-se do mundo das coisas úteis e perigosas. onde se localiza o acontecimento. e o que poderia a obra levar a um desejo conclusivo. 1996) CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir de uma percepção de modernidade em Giddens (1991). 245. É devido a força de 7 .(LUHMAN in OLINTO. relacionadas com a realidade se equivalham definitivamente. como não se reduz a um pensar porque não se estabelece uma motivação evidente. 1991) O sujeito singular realiza ações plurais num universo que alcançou distâncias epistemológicas e perdeu o espaço e com ele a estrutura de um tempo cujas determinações numa localidade eram circundantes.. a sua localização está na manifestação de um espaço que se dissolve no tempo e um tempo que não irradia o sentido espacial devido a sua complexidade. (Giddens. os locais são completamente penetrados e moldados em termos de influências sociais bem distantes deles. onde se dá a junção entre obra e sujeito. colocando o sujeito num não-espaço-tempo em que as ações do artista. A obra de arte como fator de crítica social se relaciona com o sujeito como um arcabouço de significados cujas percepções são mais ou menos definidas enquanto comunicacionais. Em condições de modernidade. (. Parece ser produzida especialmente para provocar processos de comunicação. Como o espaço da obra está efetivo no indeterminado.imaginada. a tradição se desloca em lentidão frente aos novos processos da modernidade. que encontra seu sentido em si próprio. uma realidade em funcionamento cujos operantes partícipes são partes da singularidade que se expressa. isoladas.

o espaço museológico de alguns museus e este em particular Casa Erbo Stenzel que não possui reserva técnica com documental original. W. poucos marcadores temporais e espaciais em cujos termos a mudança pode ter alguma forma significativa. no entanto. registrar. 8 . 1991) O museu na modernidade está apto a receber não tão somente a cópia como os acontecimentos de momento que estão direta ou indiretamente relacionados aos processos museológicos. mesmo o David de Miguelangelo também foi copiado para a função de sua preservação original. publicar. O Museu Nacional da Dinamarca possui cópias de parte de seu acervo escultórico. que um fazer tal qual se fez que a tradição se desloca e que necessita de contraforças para abrir caminho a novos pensamentos para a melhor e ampla mobilização do conhecimento. porque ela tem que ser reinventada a cada nova geração conforme esta assume sua herança cultural dos precedentes. a compreensão de um tempo histórico reificado na cópia onde se percebe a “mão” do artista é uma necessidade objetiva na modernidade. o tem em quantidade copiada e qualidade primada. Brasiliense. guardar. como para manter e preservar a arte do artista utilizando-se da cópia para o ambiente público. A tradição não é inteiramente estática. Evidentemente que a ação museal não tem um sentido exclusivamente expográfico como o é a Casa Erbo Stenzel. Isso não configura a perda de um museu cuja ação é científica e necessária. conservar. separados. REFERÊNCIAS BENJAMIM.sistemas peritos de vigilância da preservação. curar entre tantas outras necessidades que se assomam a outras disciplinas numa transversalidade múltipla. Magia e técnica. A tradição não só resiste à mudança como pertence a um contexto no qual há. 1985. O acesso a arte no sentido estético. (GIDDENS. 38. SP: Ed. atender. pesquisar. arte e política: A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. e se faz constante no sentido museológico enquanto ciência que procura preservar.

e DIEZ. 1998. Disponível em: http://revistas. 1958. B.php/cadernosociomuseologia/article/viewFile/335/244 DAMO.CADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA Nº 15. São Paulo: Ática. História da filosofia.) História de Literatura. C. Técnicas de Investigación en la História del Arte. as novas teorias alemãs. I.br . As conseqüências da modernidade. A. SP: Cortez Editora. Metodologia de Pesquisa. Casa Erbo Stenzel. L.pt/index. Paraná: IESDE. Disponível em: www. 1991. 1996. Metodologia do Ensino de Arte. 1976.hpg. 2002. 1999. B. XV. A. VOL. 2006. Fundição artística . 1991. PR: Arte & Texto. L. E.ciberfil.Congresso Internacional de Museologia de Santiago do Chile. Monumentos e Obras de Arte em Logradouros Públicos I. Registro. Erbo Stenzel. Boletim Informativo da Casa Romário Martins. PR: FCC. FUSARI. M. 2005. C. A Ordem do Discurso. Casa Erbo Stenzel. 9 . Buenos Aires: Editorial Nova. São Paulo: Editorial Presença Ltda. Maria F.ig.fundição pelo processo de cera perdida. v. São Paulo: UNESP. O. OLINTO. NESSI. a obra de arte e a autorreprodução da arte. H. Praça Tiradentes.111. FOUCAULT.com. PIRES. HORN. G. (Org. p.ulusofona. C. GIDDENS. Paraná: FCC. et alii. LACERDA. A. De Rezende. NICOLA A. Nº 82 AGO/1988.

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