Universidade Federal de Viçosa Departamento de Ciências Sociais Disciplina: CIS 130 – Antropologia I Semestre: 2012.

1 Docente: Douglas Mansur da Silva Discentes: Pedro (69499), Bruna (74540), Gabriela (74521), Matheus (67411), Layssa (65526), Renato (64472) e João (66857)

Estudo dirigido
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico, 21ª edição. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 2007. pp 09-63

1 – De acordo com os exemplos citados no livro, como se percebeu e se explicou, ao longo do tempo, a diversidade de comportamentos do homem em sociedade? O primeiro homem que se tem notícia a ter uma vaga noção desta diversidade humana foi Confúcio, no século IV a.C. quando afirmou “A natureza dos homens é a mesma, são os seus hábitos que os mantém separados”. A partir daí foram diversos os homens que se preocuparam com os diferentes comportamentos existentes em diversos povos, Heródoto (484-424 a.C.), Tácito (55-120), Marco Polo (1254-1324), Padre José de Anchieta (1534-1597) e Montaigne (1533-1572), só para citar alguns exemplos. Quase todos esses, puderam observar diferentes povos a partir de viagens expedicionárias que eram comuns durante o expansionismo europeu. Essas viagens foram às primeiras formas de se fazer etnografia e a partir delas que o homem pode perceber a diversidade entre seus semelhantes (no sentido de raça, homo sapiens). Assim, vemos que desde a Antiguidade, foram comuns as tentativas de explicar as diferenças de comportamento dos homens. E as primeiras formas de explicação partiram das variações de ambientes físicos e posteriormente de questões biológicas, que com o desenvolvimento das escolas antropológicas, mostram-se prerrogativas errôneas.

A espécie humana se diferencia fisiologicamente por meio do dimorfismo sexual. percebemos que o comportamento do indivíduo depende de um aprendizado. Laraia dá o exemplo dos Lapões e dos Esquimós. povos que habitam a calota polar norte. no entanto. Tais ideias estão presentes nosso cotidiano mais do que pensamos. genética. não é um determinante dos fatores culturais. tal diferença no jeito de agir e viver. mas é incorreto afirmar que tal diferenciação seja justificativa para possíveis diferenças comportamentais entre pessoas de sexos opostos.2 – O que é o “determinismo biológico” e com que argumentos o autor procura descartar este tipo de tese? O determinismo biológico é um complexo de ideias que atribui a determinadas capacidades humanas a origem inata. por exemplo. Boas vai mais além dizendo que é perfeitamente possível existir duas comunidades em um mesmo ou semelhantes espaços geográficos. . Assim. Foi através dele. vivem em espaços geográficos bem semelhantes e. por exemplo: quantas vezes já ouvimos falar que os judeus são avarentos? E o “jeitinho-brasileiro”? E a inteligência avançada do povo nórdico que se sobrepõe a inteligência dos negros? Como bem ressalta Laraia. No livro. geológica e etc. que o conceito de “diferentes raças humanas” ganhou força e produziu regimes totalitaristas como o nazismo. de um processo simbólico que a Antropologia chama de endoculturação. 3 – O que é “determinismo geográfico” e com que argumentos o autor procura descartar este tipo de tese? Tal determinismo se pauta na ideia de que lugares geograficamente distintos determinam o comportamento e as práticas de determinado grupo humano. sendo Franz Boas o que mais obteve destaque. Com isso. quem vive em regiões tropicais age e vive de forma diferente daquele que vive em regiões temperadas e frias. Somente a partir da segunda década do século passado é que antropólogos começaram a refutar esse determinismo. Boas diz que apesar do fator geográfico exercer uma pequena influência na cultura. climática. que são completamente distintas entre si. vemos que os grupos possuem práticas bastante distintas se comparadas umas com as outras. há muito tempo a Antropologia rejeita tais rótulos e afirma que as diferenças genéticas não são determinantes para explicar os diferentes tipos de comportamento e cultura entre os grupos humanos. se dá principalmente pela variação topográfica. ou seja. torna-se mulher”. nos fica claro que não é possível aceitar a ideia de “uma ação mecânica das forças naturais sobre uma humanidade puramente receptiva”. A famosa frase da filósofa francesa Simone de Beauvoir ilustra bem o que acabamos de falar “Ninguém nasce mulher. ele por si só. segundo essa linha de raciocínio. hoje a Antropologia afirma que a cultura age seletivamente e não casualmente sobre o meio ambiente.

costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. em grande parte. Em 1871 em um livro chamado Primitive Culture. mas sim uma tendência de toda a Antropologia da época. Essa observação. a ideia de evolução. ou seja. Além disso. Tylor nos mostra uma ideia que era bastante comum em sua época. o particularismo histórico. pois trata-se de um fenômeno que possui causas e regularidades. afinal. Boas desenvolve boa parte da sua crítica ao evolucionismo no artigo “The Limitation of the Comparative Method of Anthropology”. foi Franz Boas ao lançar seu método comparativo. a Europa estava sob a efervescência das ideias de Charles Darwin em sua celebre obra A Origem das Espécies. O trecho reflete não somente um pensamento isolado do autor. que a priori. faz toda a diferença ao se debater cultura e foi o principal paradigma da Antropologia ao final do século XIX e início do século XX. É curioso observar que Tylor ao definir cultura. Ao definir cultura no singular. moral. crenças artes. Boas desenvolve algo que vai ser primordial para a Antropologia. leis. enquanto. cujo desenvolvimento segue as mesmas leis.”. sua comunidade como modelo de perfeição).. como já dito.4 – Explique o conceito de cultura desenvolvido por Tylor e explicite as críticas que lhe foram dirigidas por Franz Boas. em tal artigo. Um dos primeiros antropólogos a reagir ao evolucionismo. pode parecer algo sem pé e nem cabeça. a uniformidade que tão largamente permeia entre as civilizações pode ser atribuída. ressaltou o caráter do aprendizado humano em oposição à ideia da aquisição inata e ainda procurou demonstrar que cultura pode ser objeto de um estudo sistemático. uma das tarefas da Antropologia seria a de “estabelecer. as tribos selvagens no outro e o restante da humanidade entre esses dois pontos. a uma uniformidade de ação de causas uniformes.. Ai percebe-se claramente a ideia do etnocentrismo ou eurocentrismo (Seu mundo. colocando a Europa em um dos extremos. uma escala de civilização”. 2) A comparação da vida social de diferentes povos. cunha o termo no singular. Assim. Podemos perceber essa ideia evolucionista em Tylor lendo o seguinte trecho “Por um lado. nesta época. ele agrupou em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana. Essa teoria vai dizer que cada . seus vários graus podem ser considerados como estágios de desenvolvimento ou evolução. Edward Tylor (1832-1917) cunhou pela primeira vez o termo “culture” e o definiu da seguinte forma “tomado em seu amplo sentido etnográfico é esse todo complexo que inclui conhecimentos. ele propõe a Antropologia à execução de duas tarefas: 1) A reconstrução da história de povos ou regiões particulares. grosso modo. Com tal definição. por outro lado.

ou. a forma de satisfazê-las varia em cada cultura. pensar em evolução cultural só faz sentido quando ocorre multilinearmente. assim como as aptidões específicas teriam origem biológica? Kroeber vai dizer que um dos pontos da noção de cultura que mais contraria o pensamento do senso-comum é a crença nas qualidades adquiridas graças à herança genética. visando fundamentar a teoria construída por Kroeber. Assim. Alfred Kroeber (1876-1960) vai dizer primordialmente que graças à cultura. nos alimentamos. Quantas vezes já ouvimos alguém falar que tem “a medicina no sangue”? Ou que fulano tem “dom para música assim como seu pai e avô”? Kroeber vai refutar tais impressões da vida ordinária e nos diz que o homem é resultado do meio cultural em que foi socializado. ainda comum.cultura segue seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou. urbanos. enfim. . uma das preocupações de Kroeber é justamente evitar a confusão. cultural. A partir disso. o homem se distanciou do mundo animal. assim. ocidentais. mas sim de toda uma construção coletiva. As formas como determinadas tribos indígenas se alimentam são bens distintas da forma como nós. um equilíbrio de contrários que se excluem. Uma dessas antíteses é o orgânico e o social. Laraia. o homem precisa satisfazer necessidades como a alimentação. as práticas sexuais. a manipulação adequada e criativa de tal patrimônio cultural é o que gera as inovações e invenções. que o homem passou a estar acima das suas limitações orgânicas. são executadas e possuem distintos significados em diversas cultura. são diversos os exemplos que poderíamos usar para ilustrar as diferentes funções sociais de necessidades inatas. vai dizer que uma das características fundamentais da civilização ocidental é a formulação de antíteses complementares. 6 – Com que argumentos Alfred Kroeber refuta a ideia de que os “gênios”. vida sexual e etc. Ele herda um elevado número de conhecimentos e experiências de gerações anteriores que construíram e moldaram a cultura na qual está inserido. Mas. entre o orgânico e o cultural. 5 – Explicite as teses de Alfred Kroeber segundo as quais o homem pode ser considerado um animal “superorgânico”. sono. e mais. embora essas necessidades sejam inerentes a toda espécie humana. Ele vai dizer que é inegável a dependência do ser-humano do seu equipamento biológico. não sendo estas uma ação isolada de um “gênio”.

foram as condições históricas e sociais que determinaram tal ato e não apenas sua inteligência. Uma das cientistas sociais contemporâneas que nos ajuda a entender a diferença entre comportamento cultural e comportamento inato é a Cristina Costa. assim como os esquimós. o aprendizado humano decorre da capacidade de criar um sistema de símbolos. Se Santos Dumont (1873-1932) não pertencesse a uma aristocracia local e não tivesse dinheiro para deixar o interior de Minas Gerais e ir estudar em Paris. assim.No livro temos vários exemplos de como tais aptidões não se desenvolvem por questões genéticas e sim por questões sociais e históricas. por mais que ele tivesse um intelecto desenvolvido. provavelmente não teria tido as condições materiais para inventar o avião. Segundo C. Também temos o exemplo de tribos indígenas que cometem infanticídio. . são construções culturais que perpassam os laços sanguíneos. Esses exemplos nos mostram que ser mãe e ser filho. o homem além do instinto possui a capacidade do aprendizado. por exemplo. a ponto de a ciência refutar teses. por outro lado. um dos paradigmas primordiais da Antropologia é a “conciliação da unidade biológica e a grande diversidade cultural da espécie humana”. que em seu livro “Introdução à ciência da sociedade” diz que os animais só possuem instintos. ele não teria a menor possibilidade de inventar o avião. todas as suas práticas são originárias de uma carga genética. os indígenas praticam tal ato com muita naturalidade. o pai retornará ao seio da comunidade e fazem isso sem qualquer tipo de remorso. logo. porque acreditam que mais de 2 filhos por mulher. como por exemplo. ou seja. Costa. vai criar um desarmonia na tribo. No livro. a linguagem. o 3º filho tem que ser sacrificado. que permite transmitir conhecimentos. em uma pequena cidade de Minas. 7 – Por que o ser humano pode ser considerado um animal predominantemente cultural e não instintivo. Com o desenvolvimento das escolas antropológicas. como a do “instinto materno” ou a do “instinto filial”? Como Laraia nos informa. hoje nos é possível afirmar que as práticas de vários grupos humanos são eminentemente históricas e sociais e não genéticas como se pensava anteriormente. Laraia nos fornece diversos exemplos que refutam as ideias de instinto materno e filial. como o caso dos esquimós que deixam seu pai para ser devorado por ursos e acreditam que ao comer a carne deste urso.

que é entender que a cultura surgiu subitamente. mais do que acontecimento extraordinário é. Leslie White. Assim. então. combinada com a capacidade de usar as mãos abriu um mundo tridimensional para os primatas. Passando mais especificamente para o campo da Antropologia Social. esta norma seria a proibição do incesto. inexistente para qualquer outro mamífero. Esta. a natureza não age por saltos! O . para o surgimento da cultura. Para ele. considerado uma impossibilidade científica. o resultado de um cérebro mais volumoso e complexo. atualmente. Explicações de natureza física ou social. é possível entender a cultura como um processo cumulativo de conhecimento que através da endoculturação e de um sistema de símbolos são transmitidos (os conhecimentos) geração pós-geração em cada cultura. tem origens e história. Esse ponto crítico. antropólogo norte-americano contemporâneo. tal tese foi desenvolvida por Richard Leackey e Roger Lewin. onde o faro perdeu muito da sua importância e possibilitou o desenvolvimento de uma visão estereoscópica. David Pilbeam vai atribuir o bipedismo como capacidade única dos primatas entre os mamíferos. Assim. como um verdadeiro salto na natureza humana. que proporcionou mais estímulos ao cérebro com o consequente desenvolvimento da inteligência humana. LéviStrauss vai dizer que a cultura surgiu no momento em que o homem começou a se normatizar e criou a primeira regra. vimos algumas explicações sobre o aparecimento da cultura. 9 – Explicite as diferentes teses científicas. A primeira tese que Laraia nos apresenta no livro é da que o desenvolvimento do cérebro humano se deu a partir da vida arborícola do homem. A cultura seria. conjunto esse que irá ser determinante nas práticas. Os homens de uma determinada cultura herdam das gerações anteriores um conjunto de conhecimentos e experiências. Algumas delas tendem a admitir que a cultura apareceu de repente. possibilitada pela posição erecta. pare ele tal capacidade veio de processos evolutivos e seletivos naturais. Pensar dessa forma implica em aceitar um ponto crítico. Este processo limita ou estimula as ações criativas de cada indivíduo e faz rodar o processo de transformação de uma determinada cultura. padrão de comportamento comum a todas as sociedades humanas. detalhadas no livro. considera que a passagem do estado animal para o humano ocorreu quando o cérebro foi capaz de gerar símbolos. um salto quantitativo na filogenia dos primatas. Oakley destaca a importância da habilidade manual.8 – Por que a cultura pode ser considerada como um processo cumulativo? As práticas humanas não brotam do nada. Kenneth P. crenças e demais realizações da sociedade contemporânea.

Assim. pois. Assim. tema perene da incansável reflexão humana”. pois.conhecimento científico atual está convencido de que a passagem da natureza para a cultura foi algo contínuo e incrivelmente lento. Viçosa – Minas Gerais 27 de Março de 2012 . Ainda é muito recorrente no pensamento do senso-comum. podemos perceber que tal dilema se manterá por um bom tempo. Laraia nos apresenta três visões diferentes de cultura que a Antropologia moderna traz consigo: 1 – Cultura como um sistema adaptativo 2 – Cultura como sistemas estruturais 3 – Cultura como sistemas simbólicos Estas três abordagens fazem parte de uma teoria idealista de cultura. que desde a Antiguidade até a contemporaneidade. defender e argumentar o relativismo cultural é uma atividade que sempre encontrará opositores. Ainda hoje. ideias que atribuem determinadas características ou capacidades humanas a adventos biológicos e genéticos. Por fim. só nos resta afirmar mineiramente como Murdock (1932): “Os antropólogos sabem de fato o que é cultura. simultaneamente com o próprio equipamento biológico e é. como bem ressalta Laraia “uma compreensão exata do conceito de cultura significa a compreensão da própria natureza humana. no final desta primeira parte. discuta por que o autor afirma no início do texto que um dos maiores dilemas da Antropologia seria “a conciliação da unidade biológica e a grande diversidade cultural da espécie humana”? Podemos perceber durante as 62 laudas do texto. mas divergem na maneira de exteriorizar este conhecimento” (p. No último capítulo do texto. compreendida como uma das características da espécie. Clifford Geertz nos mostra em seu artigo “A transição para a humanidade” como a paleontologia humana demonstrou que o corpo humano formou-se aos poucos.62). ao lado do bipedismo e de um elevado volume cerebral. por isso mesmo. podemos entender que a cultura desenvolveu-se. A oposição entre o inato X aprendido perpassa por um debate que envolve desde concepções científicas até visões religiosas e de ordem moral. Outro fator que colabora para a manutenção de tal dilema é o fato de que ainda hoje a Antropologia não chegou a um consenso na definição de “cultura”. teses antagônicas se defrontam na tentativa de solucionar o dilema enunciado. 10 – Com base nas respostas acima dadas.

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