You are on page 1of 11

MUNDOS INVISÍVEIS

Da alquimia à física de partículas

Marcelo Gleiser
capítulo 1

do que tudo é feito? 10

capítulo 2

o elixir da longa vida 34

capítulo 3

da alquimia à química 66

capítulo 4

a evolução da química 90

capítulo 5

a química cósmica 118
capítulo 6

os átomos 146

capítulo 7

einstein e a relatividade 172

capítulo 8

a misteriosa luz e
o átomo 200

capítulo 9

o núcleo atômico 220

capítulo 10

do micro ao macro 248

epílogo 280
8 PREFÁCIO

Lembro que, quando criança, eu era um
daqueles “perguntadores” infernais, que ficam
sempre querendo saber mais.
“Pai, o que acontece se eu cortar uma pedra com uma faca?”
“Ah filho, você fica com duas pedras.”
“Mas, pai, e se eu continuar cortando, cortando, até não
poder enxergar mais nada? Para onde vai a pedra?”
“Ih, agora complicou. A matéria é feita de pedacinhos
minúsculos chamados átomos. Se você for cortando cada vez
mais, acabará chegando aos átomos.”
“Pera aí, pai. Mas a faca também não é feita de átomos?
Então como é que ela corta? E por que os átomos não podem
ser cortados? Ou podem? Esse corta-corta não pára nunca?”
“OK, filho, agora já chega. Vá jogar bola com seus primos!”
Meu pai sabia quando parar de responder, uma grande dádiva.
Assim, não dava explicações erradas. E, como grande pai que
era, no mesmo dia ia a uma livraria e me comprava um livri-
nho que respondesse às minhas perguntas. Foi assim que, mais
tarde, nasceu o desejo de tornar-me um cientista. Eram eles, os
cientistas, que tentavam responder a essas perguntas, sempre
curiosos sobre a natureza, sobre o mundo e seus mistérios. Que
carreira mais fascinante a desses Peter Pans adultos, que conti-
nuam fazendo as mesmas perguntas que as crianças fazem! Com
a vantagem de volta e meia poderem responder a algumas delas.
Neste livro, conto como homens e mulheres tentaram – e con-
tinuam tentando – responder à primeira pergunta científica:
do que é feito o mundo? Como veremos, foi Tales que se fez
essa pergunta em torno de 650 a.C, na Grécia Antiga. Desde
MUNDOS INVISÍVEIS 9

então, essa pergunta atravessou o mundo e a imaginação de
milhões de pessoas. Os alquimistas tentaram desvendar os
mistérios da matéria e do espírito através do fogo e do seu
efeito sobre as substâncias; químicos revelaram que tudo o
que existe no universo é feito de menos de cem elementos, do
hidrogênio ao ferro e ao plutônio; físicos mostraram que os
átomos têm propriedades estranhas e que não são indivisíveis,
sendo compostos por partículas ainda menores. A cada avanço
tecnológico, do microscópio aos aceleradores de partículas da
física moderna, damos mais um passo em direção ao coração
da matéria. E o que descobrimos nesse percurso mudou a
história da humanidade: da energia nuclear que cria bombas
destruidoras e terapias de combate ao câncer à digitalização
da sociedade moderna, grande parte de nossa vida depende
do nosso conhecimento da matéria e das suas propriedades.
Somos feitos de mundos invisíveis.
Será que essa busca terá um fim? Não sabemos. Arrisco
dizer que não. Isso talvez choque muita gente, especialmente
os que acham que os cientistas têm a obrigação de encontrar
todas as respostas. Na verdade, os cientistas têm apenas a
obrigação de continuar a perguntar. É dessa nossa curiosidade
que nasce o conhecimento. Mantê-la viva, nutrir o desejo de
aprender cada vez mais sobre o mundo e sobre nós mesmos, é
o único caminho capaz de nos tornar melhores. Devemos isso
ao nosso planeta e às futuras gerações.

Marcelo Gleiser
Plainfield, 24 de janeiro de 2008
capítulo 1

do que tudo
é feito?

Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio.
Heráclito de Éfeso (c. 500 a.C.)
12 DO QUE TUDO É FEITO?

A primeira pergunta
O pensamento científico nasceu com a
pergunta: “Do que tudo é feito?”. Tales
de Mileto, o responsável por ela, viveu na
Grécia Antiga por volta de 600 a.C. Muitos
o consideram o primeiro dos filósofos. Mileto é a cidade
onde passou grande parte de sua vida, na costa oeste da
Turquia moderna. Tales é famoso por ter declarado que o
mundo está vivo e as coisas estão cheias de deuses. Só que
esses “deuses” a que se referia não eram os deuses da mito-
logia grega. Eram as causas ocultas dos fenômenos naturais.
Aristóteles, o grande filósofo grego de quem falaremos em
breve, escreveu que Tales foi o primeiro dos phusikoi, palavra
que, em grego, significa, “os que estudam a natureza” (deri-
vada de “phusis”, “natureza”). Portanto, o primeiro dos filó-
sofos queria entender a essência de todas as coisas, os “deu-
ses” que se escondiam nelas, as características que determi-
navam seu comportamento. Sua resposta, ao contrário das
de seus antecessores, não apelava para mitos ou explicações
sobrenaturais. Tales sugeriu que a essência das coisas é
determinada pela matéria que as compõe.
Para compreender o mundo à nossa volta, diria Tales,
precisamos refletir sobre sua essência material. A razão, e
não a fé, deve explicar os mistérios do mundo. Não é à toa
que ele é considerado o primeiro dos filósofos. Seu pen-
samento iniciou a grande aventura intelectual que levaria
MUNDOS INVISÍVEIS 13

ao nascimento da física. Aliás, a física moderna continua
tentando buscar respostas para a mesma pergunta feita por
Tales. Mudaram os métodos, aprendemos muita coisa sobre
a matéria e suas propriedades nos últimos 2.500 anos, mas a
mesma pergunta continua sendo feita. Do que tudo é feito?
Como não poderia deixar de ser, Tales não deixou sua
pergunta sem resposta. Propôs que tudo é feito de água.
Temos que entender que a resposta de Tales é mais meta-
fórica do que concreta. Ele sabia muito bem que pedra é
pedra e água é água. Porém, via nas propriedades da água
um símbolo da sua visão orgânica da natureza: a capacidade
que ela tem de se transformar, respondendo a mudanças de
temperatura; de se reciclar, ora subindo para os céus ao se
evaporar, ora descendo em forma de chuva. Via que todos
os seres vivos precisam de água para sobreviver, e que, sem
ela, a vida é impossível. Para Tales, esse dinamismo da água
representava a essência da natureza, uma entidade sempre
em transformação, sempre se renovando, viva.

Começam as disputas
Como todo bom pensador, Tales teve
seus discípulos. Dentre eles, vale mencio-
nar Anaximandro, também de Mileto.
Tales havia inaugurado a tradição filosófica
na Grécia, uma conseqüência, segundo vários historiadores,
14 DO QUE TUDO É FEITO?

do desenvolvimento do comércio e de uma classe rica e
ociosa. Em outras palavras, a filosofia nasceu porque as pes-
soas com mais dinheiro tinham tempo para pensar em
assuntos de natureza menos imediata e necessária.
Anaximandro levou esse conceito ao extremo. Aban-
donou o materialismo de seu mestre e propôs uma solução
bem mais abstrata para a questão da composição física do
mundo. Segundo ele, a essência material das coisas não era
uma substância comum, como a água. Anaximandro postu-
lou a existência de uma substância abstrata, o Ilimitado, de
onde tudo nascia e para onde tudo fluía. Esse fluxo constan-
te de criação e destruição não se restringia às coisas da Terra.
Nos céus também mundos surgiam do Ilimitado e para ele
voltavam, dissolvendo-se na imensidão do tempo. Mesmo
que, com seus conceitos bem mais abstratos, Anaximandro
tenha se afastado da descrição original de Tales, sua preocu-
pação com a composição material das coisas era a mesma.
Mais importante, sua visão da natureza como uma entidade
dinâmica, sempre em transformação, era ainda mais inspi-
radora do que a de seu mestre.
Anaximandro tem outra distinção. Foi o primeiro pen-
sador a propor um modelo mecânico para os céus. Segundo
ele, a Terra, no centro de tudo, era cercada por rodas seme-
lhantes às de uma carruagem. Cada roda carregava fogo em
seu interior. À medida que giravam, fogo escapava-lhes de
um furo. O Sol, a Lua e as estrelas eram o fogo que escapava
desses furos. Apesar de sua aparente inocência, ao menos
Mileto e as outras cidades gregas
Muito do que se conhece como Grécia Antiga não está
mais em terras gregas nos dias de hoje. Só no território
turco atual existem pelo menos 130 cidades que
fizeram parte da história da grande civilização grega da
Antiguidade, como é o caso de Mileto, a terra de Tales.
Muitos historiadores costumam localizar a Grécia Antiga
entre 776 a.C., ano da primeira Olimpíada, e 146 a.C.,
data da conquista romana. F.N.