EXPERIMENTO PARA DEMONSTRAÇÃO DE CALCULO DE CORREÇÃO DO FATOR DE POTÊNCIA Felipe Rautter Neto - frautter@gmail.

com Marcio Antonio Gomes – mukai.gomes@gmail.com Sadi Roberto Schiavon – srschiavon@gmail.com Orientador: Marcella S. Ribeiro Martins – marcella@kmm.com.br CESCAGE – Centro de Ensino Superior dos Campos Gerais Resumo: Em circuitos de corrente alternada (CA), puramente resistivos, as ondas de tensão e de corrente elétrica estão em fase, porém, quando cargas reativas estão presentes, como capacitores e indutores, o armazenamento de energia dessas cargas resulta em uma defasagem entre tensão e corrente. Uma vez que essa energia armazenada retorna para a fonte e não produz trabalho útil, um circuito com baixo fator de potência terá corrente elétrica maior para realizar o mesmo trabalho do que um circuito com alto fator de potência. O objetivo deste artigo é demonstrar de forma prática os cálculos e aplicações de capacitores na correção do fator de potência em cargas indutivas. Para tanto, foi montado um experimento em que foram colocadas algumas cargas de características indutivas de forma a obter um baixo fator de potência e na seqüência serão associados capacitores de modo a melhorar este fator, demonstrando o que ocorreria na prática em industrias, etc. Palavras chave: Corrente Alternada, Circuitos Elétricos, Correção do Fator de Potência. Abstract: In circuits of alternating current (AC) purely resistive, the waves of voltage and electric current are in phase, however, when reactive loads are present, such as capacitors and inductors, energy storage of cargo results in a lag between voltage and current . Since this stored energy returns to the source and produces no useful work, a circuit with low power factor will have higher electrical currents for the same work than a circuit with high power factor. The aim of this paper is to demonstrate in a practical calculation and application of capacitors to correct power factor for inductive loads. Therefore, an experiment was set up in which they were asked some inductive loads of features in order to obtain a low power factor and as a result will be associated capacitors to improve this factor, showing what would happen in practice in industries, etc. 1 Introdução Atualmente a preocupação com a Qualidade da Energia tem aumentado muito. Entende-se por Qualidade de Energia o grau no qual tanto a utilização quanto a distribuição de energia elétrica afetam o desempenho dos equipamentos elétricos e podem ser considerados como distúrbios na Qualidade da Energia. A seguir será apresentado um estudo sobre Fator de Potência, onde será possível entender o seu significado prático e também os benefícios da sua correção. 1.1 O que é Fator de Potência? Antes de iniciar o estudo sobre Fator de Potência (FP), é necessário rever alguns conceitos fundamentais e muito importantes para a compreensão das causas e efeitos do FP.  W  Esta é a unidade que representa a energia que está sendo convertida em trabalho no equipamento. É chamada de Potência Ativa ou também de Potência Real.  VAr  Esta é a unidade que representa a energia que está sendo utilizada para produzir os campos elétrico e magnético necessários para o funcionamento de alguns tipos de cargas 1

Essa espuma está ocupando lugar no copo.2 O que causa baixo Fator de Potência? Com o entendimento do que é Fator de Potência. junto com a cerveja vem uma parte de espuma. Para melhor entender o real significado dessas três potências. Com base nos conceitos básicos apresentados pode se dizer que o Fator de Potência é a grandeza que relaciona a Potência Ativa e a Potência Aparente. O conteúdo total do copo representa a Potência Aparente.Quanto menos espuma tiver no copo. relembrando a analogia da cerveja. transformadores. porém não é utilizada para matar a sede. VAR deve ser muito pequena (a espuma deve se aproximar de zero) com W e VA praticamente iguais. Da mesma maneira.Fator de Potência A analogia da cerveja pode ser utilizada para as seguintes conclusões iniciais: .Se um sistema não consome Potência Reativa. tiristores. representada pela Potência Reativa (VAR). toda a potência drenada da fonte (rede elétrica) é convertida em trabalho. faremos a seguinte analogia: Figura 1 – Analogia da Cerveja Como pode ser visto na Figura 1. diminuindo a real capacidade de transmissão de potência ativa da rede. com menos espuma e mais cerveja. ou seja. 1. a parte que realmente será utilizada para matar a sede. Também é resultado de cargas onde a corrente é “chaveada” através de transistores. conclui-se que FP baixo representa baixo valor de Potência Ativa em relação à Potência Aparente. Uma vez que Fator de Potência (FP) é definido como sendo a razão entre Potência Ativa e Aparente. quanto menos Potência Reativa for consumida. abaixo: Equação 1 .  VA  Esta é a unidade da Potência Aparente. diodos. motores. a Potência Ativa (W) representa a porção líquida do copo. possui um Fator de Potência unitário. em função de potência reativa ali presente. É chamada de Potência Reativa. etc. por exemplo. retificadores industriais etc. pode-se analisar o que causa a redução no seu valor. conforme é observado na Equação 1. A seguir podem ser observados os tipos de cargas que produzem baixos valores de FP: 2 . Como na vida nem tudo é perfeito. ou seja. Tanto espuma quanto cerveja ocupam espaço no copo. . Em um mundo ideal. que é obtida pela “soma vetorial” das Potências Ativa e Reativa. Desta forma há um melhor aproveitamento da capacidade do copo (rede elétrica). da mesma forma que potência ativa e reativa ocupam a rede elétrica. maior será o Fator de Potência. cargas não-lineares. haverá mais cerveja.como.

Tipos de Cargas As cargas acima relacionadas foram divididas em dois blocos devido à forma como a sua Potência Reativa se manifesta e também a forma utilizada para reduzir o seu consumo.: motores. pois há momentos em que a carga consome energia da rede e outros onde “devolve” energia à rede. As cargas do Bloco 01 são as lineares e as do Bloco 02 as não-lineares. Existem basicamente 3 tipos de cargas que podem ser ligadas em uma rede elétrica: cargas resistivas (ex. Em outras palavras. Seu fator de potência é cargas distintas são ligadas à rede elétrica. Primeiramente serão analisadas as cargas do Bloco 01 (lineares). verificando-se seu comportamento quando ligadas à rede elétrica. ou seja. uma carga produziu menos trabalho que a outra. pois há momentos em que ela “devolve” energia à rede. ou seja.: ferros de passar roupa. lâmpadas incandescentes.Tabela 1 . Essas cargas provocam uma defasagem entre tensão e corrente. Gerando uma parcela de potência ativa e outra reativa. pode haver uma redução da Potência Ativa da carga indutiva devido à defasagem entre tensão e corrente. Essas cargas podem ser classificadas ainda como indutivas ou capacitivas. dependendo de como é a defasagem entre tensão e corrente. sincronizadas. computadores). cargas indutivas (ex. O valor médio da potência instantânea é o valor que se converte em trabalho na carga. a corrente que se circula por essa carga também é alternada e acompanha exatamente a tensão aplicada. Toda carga puramente resistiva possui Fator de Potência 1. Através do produto da tensão pela corrente.: banco de capacitores. Quando isso ocorre diz-se que a tensão e a corrente estão em fase. Embora determinadas cargas apresentem a mesma Potência Aparente. Quando se é pico na tensão é pico na corrente e quando é vale na tensão é vale na corrente. sendo uma puramente resistiva e outra indutiva. Fator de Potência é 1. Logo a defasagem é de zero graus e cosseno de zero é 1. lâmpadas fluorescentes. transformadores) e cargas capacitivas (ex. chuveiros). 3 . se obtém a Potência Instantânea. é a Potência Ativa. Quando se liga em uma rede uma carga resistiva.

Toda carga puramente indutiva possui Fator de Potência zero. Nesse caso o cosseno de 90º é zero. Fator de potência é zero. a corrente comece a circular apenas quando se completa ¼ de ciclo.Já uma carga indutiva. Toda carga puramente capacitiva possui Fator de Potência zero. Ela faz com que. Isso ocorre devido a campos elétricos criados pelos capacitores existentes nessas cargas. Fator de potência é zero. Ela faz com que. Isso ocorre devido a campos magnéticos criados pelos enrolamentos de fios (bobinas) existentes nas cargas indutivas. 4 . uma carga capacitiva provoca um atraso na tensão. a tensão só começa a aparecer apenas quando se completa ¼ de ciclo. Em contrapartida. Nesse caso o cosseno de 90º é zero. ao ser ligada. 90º. 90º. da corrente. ela provoca um atraso da corrente. ao ser ligada. da tensão.

elaboramos um experimento conforme o circuito esquemático abaixo: 5 . A potência reativa (Q) é a potência em VAR. 1. No primeiro caso. Deste modo.• • • O triângulo de potências reflete a relação entre as potências aparente. 1. Para esses casos tem-se como principal solução a instalação de bancos de capacitores que corrigem o fator de potência para níveis aceitáveis pelas concessionárias (0.3 Porque melhorar o Fator de Potência? Observando a demonstração anterior destaca-se que ao elevar-se o valor do Fator de Potência ocorre um melhor aproveitamento da energia drenada da rede de energia elétrica. o Fator de Potência é afetado tanto pela defasagem angular entre a corrente e a tensão como pela presença de componentes harmônicas na tensão e na corrente.92 no Brasil) e livres de multas. é necessário ser analisado qual dos problemas deve ser atacado quando se pensa em uma solução para os baixos valores de Fator de Potência de uma instalação elétrica. A potência aparente (S) é a potência total do sistema indicada em VA. Isso se deve a redução do valor RMS da corrente para um mesmo valor de Potência Ativa. reduzindo as perdas na fiação e também evitando a sobrecarga do sistema de potência da rede elétrica. A potência ativa (P) é a potência em Watts (W). 2 Desenvolvimento Para comprovar a teoria exposta. e a mesma é determinada pelo cosseno do ângulo entre a potência ativa e a aparente. ativa e reativa. Porém. o baixo fator de potência é causado especialmente por cargas indutivas como transformadores e motores de indução. Entre essas potências existe uma relação conhecida como fator de potência.4 Como pode ser melhorado o Fator de Potência? Como exposto anteriormente. esta solução se mostra ineficiente em sistemas que apresentam cargas com característica de elevado conteúdo harmônico como a maioria dos retificadores industriais e cargas de informática.

foram ativadas as cargas Z1 a Z4 individualmente e registradas as leituras indicadas no medidor. Este procedimento é especialmente importante para demonstrar que nem sempre cargas indicadas como indutivas. verificou-se que a mesma possuía uma pequena carga reativa indutiva resultante do próprio processo construtivo da mesma. 60 Hz monofásico. No nosso caso. Ângulo de defasagem da Tensão em relação à entrada. O aparato montado ficou como indicado abaixo:    Medidor Eletrônico Spectrum S Interruptores Banco Capacitores Banco de Capacitores Interruptores Cargas A. durante os ensaios. Corrente. porém. Tensão. são “puramente” indutivas (geralmente elas apresentam uma resistividade).B. Entre os dados fornecidos. Todas as leituras podem ser acompanhadas nas tabelas a seguir: 6 . Medidor: é um equipamento eletrônico capaz de efetuar diversas medições do circuito de carga. os que mais nos interessam no momento são: Potências Ativa e Reativa. Ângulo de defasagem da Corrente em relação à entrada.Onde:  Ve: representa a tensão de entrada da rede. Cada carga pode ser incluída ou removida do circuito através de chaves (Liga/Desliga). C e D Carga A (Indutiva) Carga B (Indutiva) Carga C (Resistiva) Carga D (Indutiva) 3 Resultados e Aplicações Durante o experimento. Fator de Potência. a carga Z4 é (por definição) uma carga resistiva. Z1. na prática. C1 e C2: representam cargas capacitivas. simulando um banco de capacitores em uma indústria e que também podem ser acionadas e desligadas através de chaves (Liga/Desliga). assim poderemos modificar as condições gerais do circuito e conseqüentemente o Fator de Potência total do circuito. no caso deste experimento Ve=126 V. Z3 e Z4: representam as cargas normalmente encontradas em uma indústria. Z2.

21º FP2 = 0...126 2 C = 1.5(1.95 ⇒ Cos −1 = 18.19 º = 0.. Reativa(VAR) = 11.5 + 12 j ) Ω S1 = P 2 + Q 2 ⇒ S1 = 13.95 .33 ) ∴ ϖ.95 ⇒ Cos −1 = 18.Memória de cálculo – Capacitor Representação Gráfica FP1 = 0.17 Cos ϕ 1 = 0.60 .V 2 2π.19 º tg 1 80 ..83 µF C= Carga Z2 ..V 2 2π .19 º tg 1 61 .77VA P(tg 1 − tg 2 ) 2(5.8 tg 2 18 .17 ⇒ Cos −1 = 80..33 Z 1 = ( P + Qj ) ∴( 2 + 11..63 µF C= Carga Z3 ..Grandezas Medidas. Ativa(W) = 6.Memória de cálculo – Capacitor Representação Gráfica FP1 = 0.17 Cos ϕ 2 = 0....48 Cos ϕ 2 = 0. Tensão(V) = 126V Corrente(A) = 96mA Pot. Tensão(V) = 126V Corrente(A) = 110mA Pot..95 ..Carga Z1 ...48 Cos ϕ 1 = 0..Grandezas Medidas. Reativa(VAR) = 0.8 − 0.48 ⇒ Cos −1 = 61.126 2 C = 1.83 − 0. Tensão(V) = 126V Corrente(A) = 1.33 Z 1 = ( P + Qj ) ∴(6.65VA P (tg 1 − tg 2 ) 6.. Reativa(VAR) = 12VAR ºFase (tensão) = 0º ºFase (corrente) = -61º FP1 = 0....19 º = 0. visto que o FP=1 7 ..Memória de cálculo – Capacitor Representação Gráfica Não se faz necessário.6 j ) Ω S1 = P 2 + Q 2 ⇒ S1 = 11. 31 º =1.5W Pot. Ativa(W) = 2W Pot.60 .31º FP2 = 0.6VAR ºFase (tensão) = 0º ºFase (corrente) = -80º FP1 = 0. Ativa(W) = 178W Pot. 83 tg 2 18 ..7VAR ºFase (tensão) = 0º ºFase (corrente) = 0º FP1 = 1 .21 º = 5.Grandezas Medidas..33 ) ∴ ϖ ..43A Pot.

94 º = 3.94 º FP2 = 0. e registramos que o FP ficou em 0.Cos ϕ 1 = 1 Carga Z4 Grandezas Medidas Tensão(V) = 126V Corrente(A) = 1. aproximadamente.12A Pot.91º FP2 = 0.82 Cos ϕ 1 = 0.95.5W Pot.91 º = 0. Acionando o Capacitor C1. Z2.126 2 C = 14 . o FP do conjunto ficou em 0.5(3. 4 Conclusão Observamos pelo experimento que realmente a inclusão de cargas Indutivas e Capacitivas em um circuito altera significativamente o FP do conjunto e em algumas 8 .07 tg 2 18 . Acionando o Capacitor C1.34.4VA P(tg1 − tg 2 ) 236 (0.95 ⇒ Cos −1 = 18. Ativa(W) = 42. Ativa(W) = 236W Pot.92.95 de cada um dos elementos. Z2. Reativa(VAR) = 127.60 . o FP do conjunto passou para 0. Z2 e Z3. Z3 e Z4. Z3 e Z4 Grandezas Medidas Tensão(V) = 126V Corrente(A) = 2.33 Z 1 = ( P + Qj ) ∴(42 .33 ) ∴ ϖ.33 ) ∴ ϖ . Ativamos Z1. por exemplo.95 .33 Z 1 = ( P + Qj ) ∴( 236 + 164 j ) Ω S1 = P 2 + Q 2 ⇒ S1 = 287.Memória de cálculo – Capacitor Representação Gráfica FP1 = 0. o FP do conjunto passou para 0.31 ⇒ Cos −1 = 71.4VA P (tg 1 − tg 2 ) 42 .60 .82 Cos ϕ 2 = 0.38A Pot.7 − 0. Reativa(VAR) = 164VAR ºFase (tensão) = 0º ºFase (corrente) = -34º FP1 = 0.19 º = 0. foi calculado qual a carga capacitiva necessária para corrigir o fator de potência para 0.5 j ) Ω S1 = P 2 + Q 2 ⇒ S1 = 134 .19 º tg 1 71.07 − 0. Passamos então a ativar as cargas em conjunto.7 tg 2 18 . o FP do conjunto passou para 0.31 Cos ϕ 2 = 0.95 . Z1 e Z2.5 + 127 .126 2 C = 19 . Acionando o Capacitor C2.V 2 2π.82.78. o FP do conjunto ficou em 0.82 ⇒ Cos −1 = 34.85. Acionando o Capacitor C1.31 Cos ϕ 1 = 0.19 º = 0.Memória de cálculo – Capacitor Representação Gráfica FP1 = 0.95 ⇒ Cos −1 = 18.53.19 º tg 1 34 .V 2 2π .6µF C= Após a coleta de dados de todas as cargas.45 µF C= Carga Z1.5VAR ºFase (tensão) = 0º ºFase (corrente) = -71º FP1 = 0. Ativamos Z1. o FP do conjunto passou para 0.

só pode ser “amenizada” quando conseguimos um equilíbrio entre as cargas Indutivas e Capacitivas de forma que se anulem. apesar da melhora. O mais eficiente seria ter um Banco de capacitores com atuação automática. porém a magnitude das cargas Z3 e Z4 eram muito maiores que Z1 e Z2.com/doc/4872904/Fator-de-Potência-em-ACModelos-Real-e-Ideal. O contra-ponto disso é a existência de cargas capacitivas ociosas e. no caso de aumento de carga. pois o FP de 0. Como. as cargas indutivas são acionadas e desligadas a qualquer momento. na verdade era do conjunto todo (Z1. A situação ideal de um circuito totalmente resistivo onde toda a potência fornecida é consumida.Z2. Matthew Sadiku .scribd.2004 9 . Cargas Capacitivas e Indutivas geram efeitos reativos opostos e indesejados no contexto geral de um circuito elétrico. a situação do conjunto era a pior possível. os capacitores deveriam atuar (entrar em ação) somente para corrigir as cargas entrantes logo a melhor maneira de contornar o problema seria que cada carga tivesse seu próprio conjunto de capacitores de forma que quando entrasse em ação já estariam com o FP ajustado como desejado.Z3 e Z4). e alteração do FP do sistema.82. não haveria um sistema economicamente viável. sendo assim acabavam por “mascarar” a influência de Z1 e Z2 no conjunto total. – Charles Alexander. na realidade.situações. estes atuariam sobre todo o conjunto. portanto. 5 Bibliografia http://www. Fundamentos de Circuitos Elétricos 6ª Ed. ou seja.