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Planejando um Filme Para Som* (parte I)
Por Constantino Buteri Este espaço está aberto aos realizadores, editores, sonoplastas, compositores, cinéfilos e todos que trabalham com cinema. Sejam Bem Vindos! Inaugurando, apresento a tradução do artigo: “Designing a Film for Sound” escrito por Randy Thom em 1997. Trata-se de um texto de fácil compreensão que levanta algumas questões relacionadas a som no cinema. Traduzi esse texto em outubro de 2007, e em março de 2008 contei com a ótima ajuda de Ana Cláudia Gama Barreto para revisar a tradução. A versão original em inglês pode ser encontrada AQUI . As notas de rodapé foram incluídas por minha conta, com o intuito de fornecer algumas referências ao leitor. O artigo foi dividido em duas partes, nesta primeira estão as críticas e na próxima edição vêm as soluções. ———————— Randy Thom[1] 1999. O maior mito sobre a composição e edição de som é que estes tratam da criação de excelentes sons. Não é verdade, ou pelo menos não é verdade o suficiente. (Randy Thom 1999). O que é Sound Design[2]? Você pode pensar que trata-se de fabricar bons efeitos sonoros. Mas isso não descreve muito bem o que Ben Burtt[3] e Walter Murch[4], que inventaram esse termo fizeram em “Guerra nas Estrelas” e “Apocalipse Now” respectivamente. Nestes filmes eles viram-se envolvidos com diretores que não estavam interessados apenas em anexar sons impactantes a uma estrutura pré-concebida. Através da experimentação sonora, brincando com sons (incluindo música e diálogos e não apenas efeitos sonoros), desde a produção até a pós-produção, o que Francis Coppola e Walter Murch, George Lucas e Ben Burtt descobriram é que o som começou a determinar a imagem às vezes tanto quanto a imagem determinava o som. O resultado foi muito diferente de qualquer coisa que havia sido ouvida anteriormente. Estes filmes são marcos, e o trabalho de som neles desenvolvido mudou para sempre a forma como pensamos o som de um filme. O que é considerado hoje um “ótimo som” em filmes, muitas vezes trata-se somente de som com volume alto. Sons bem gravados de disparos e explosões, bem como vocalizações bem construídas de criaturas alienígenas não constituem, todavia, um bom design de som. Músicas bem orquestradas e bem gravadas têm valor mínimo se não são integradas ao filme

tem valor quando faz parte de um continuo. conceber o filme tendo o som em mente para permitir que o som contribua influenciando as decisões criativas em outras áreas do filme. quando a estrutura do filme já está pronta. trabalha em conjunto para apresentar uma série de comportamentos mais ou menos coerentes. música e efeitos sonoros raramente tenham oportunidade de exercer qualquer influência em áreas não sonoras? Como o diretor poderá saber como fazer o filme sem ter um plano para o uso da música? Um filme dramático que realmente funciona é. ao invés disso. a seus personagens. Mas não parece estranho. “Touro Indomável”. quase como tecidos vivos. Todo filme quer ou precisa ser como “Guerra nas Estrelas” ou “Apocalipse Now” ? Absolutamente não. musical ou não. E o produto disso estará limitado a ser menos complexo e interessante do que seria se o som pudesse ter sido de alguma forma libertado para ser um elemento ativo no processo. “Eraserhead”. como um compositor irá saber que tipo de música irá compor a menos que ele ou ela possa examinar pelo menos uma montagem bruta do trabalho final? Para alguns filmes. A visão geralmente aceita é que é útil ter um “bom” som para acentuar as imagens e enraizá-las numa espécie de realidade temporal. mas. Apenas quando cada área influencia cada uma das outras é que o filme começa a tomar vida própria. apesar de sua complexidade. O som. “O Homem Elefante”. ou contratar um sound designer ou um compositor talentoso para fabricar sons. ou ao filme. Dar falas abundantes aos atores em todas as cenas não necessariamente está ajudando a eles. Bem. Raramente funciona incrivelmente bem. O que eu proponho é que a forma do cineasta se beneficiar do som não é simplesmente tornar possível uma boa gravação no set.como um todo. e que. Mas isso não é colaboração. embora na maioria deles nenhum sound designer tenha sido creditado. como “Cidadão Kane”. quando muda no tempo. quando tem dinâmica e está em ressonância com outros sons e com outras experiências sensoriais. Filmes muito diferentes de “Guerra nas Estrelas”. Afinal. Sidney Lumet disse recentemente em uma entrevista que ele ficou impressionado com o que Francis Copolla e Walter Murch foram capazes de alcançar na mixagem de “Apocalipse Now”. Algo Quase Vivo É um mito comum que a etapa para o cineasta pensar seriamente sobre som seja o fim do processo de produção cinematográfica. Na verdade. Não faz nenhum sentido configurar um processo no qual o papel de uma . quase vivo. “Never Cry Wolf” e “Era Uma Vez No Oeste” foram meticulosamente “sound designed“. que neste ambiente supostamente colaborativo. o que foi ótimo naquela mixagem teve início muito antes de qualquer um chegar perto do estágio de dublagem. Mas muitos filmes poderiam se beneficiar desses modelos. Muitos diretores que gostam de pensar que apreciam o som ainda têm uma idéia bastante estreita do potencial do som na narrativa. uma complexa rede de elementos interconectados. é escravidão. começou no roteiro e com a disposição de Coppola de dar aos personagens de “Apocalipse” a oportunidade de ouvir o mundo ao seu redor. em certo sentido. essa metodologia é adequada.

e o cinismo em relação ao som dita as regras novamente até mais tarde na pós-produção do próximo projeto. e edições ruins para disfarçar. Alguns roteiristas pensam naturalmente nestes termos. diretor de fotografia e designer de produção. e esses aspectos quase nunca são ensinados nos cursos de roteiro. ProduçãoNo set. Então eles desenvolvem uma fé enorme e de vida curta no poder e no valor do som de tornar seus filmes toleráveis. a edição e os diálogos foram organizados de forma que nós. Considerações sérias sobre como o som será usado na estória são tipicamente deixadas a cargo do diretor. Segue-se agora uma lista de algumas realidades sombrias encaradas por aqueles de nós que trabalham com som em filmes. Em praticamente todas as escolas de cinema o som é ensinado como se fosse simplesmente uma série de operações técnicas mistificantes e entediantes. a cabeça do diretor cai. A compreensão da utilização do “PDV”. um mal necessário no caminho para fazer as partes divertidas. em geral é tarde demais. Depois eles repentinamente adquirem uma dose temporária de religião quando se dão conta de que existem “furos” na estória. Infelizmente. cenas fracas. o planejamento de produção. o público. As locações para filmagem foram escolhidas pelo diretor. A maioria das grandes seqüências de som em filmes são sequências “PDV[5]“. muito antes que qualquer um . e depois de algumas tentativas vãs de estancar a hemorragia com um esparadrapo. aquilo que eles ouvem pode nos dar muitas informações sobre quem eles são e o que eles estão sentindo. O Terreno Básico. tendem a ignorar qualquer consideração séria sobre o som (incluindo a música) durante as fases de planejamento. O grau com que o som pode eventualmente participar na tarefa de contar uma estória será mais determinado pelo uso do tempo. o som. experimentamos a ação pelo ponto de vista de um ou mais personagens daquela seqüência. seja simplesmente reagir. obedecer.área. quase todos os aspectos do trabalho da equipe de som estão submetidos às necessidades da equipe de câmera. Mas esse não é necessariamente o caso. a direção de arte. bem como o uso do espaço acústico e do elemento tempo deveriam começar pelo roteirista. filmagem e o início da edição. a maioria não. Como o que nós vemos e ouvimos está sendo filtrado pelas consciências deles. Por um lado. e algumas sugestões para melhorar essa situação. a organização dos atores. poderíamos ser tentados a concluir que se trata de um roteiro amigável ao som. ser prevenido de dialogar com o sistema do qual faz parte. espaço e ponto de vista na estória do que pela freqüência com a qual o roteiro menciona sons específicos. Infelizmente. A fotografia. ———————————————————————————————————Pré-Produção Se o roteiro faz muitas referências a sons específicos. Como está Agora Muitos diretores destacados tendem a oscilar entre dois estados de consciência ferozmente diferentes sobre o som em seus filmes. a maioria dos diretores tem apenas uma idéia vaga de como usar o som porque a eles também isso não foi ensinado.

Todos vão para as seções de dublagem já assumindo previamente que o resultado alcançado será inferior ao que foi gravado no set. ou o assoalho poderiam ter sido facilmente forrados[6] para abafar o som de passos quando os pés não estão em quadro. Raramente há discussão. Ele pontua as poucas coisas que diz com o som de uma garrafa que rola para frente e para trás numa mesa à sua frente. na sua maioria consistindo de alguns quadros. são superiores aos dublados. A iluminação gera ruídos. De qualquer forma. por exemplo. na fase de produção. As cenas são geralmente compostas. para a ação. no que diz respeito à performance dramática dos atores. na pós-produção. enquanto a gravação no set (na maioria dos casos quando dublagem é necessária) está coberta por ruídos e/ou distorcida. como foi usado em “Era uma vez no Oeste”. A maioria dos diretores e atores despreza o processo de dublagem. mas não o vemos. O teto. talvez um deles pudesse estar num canto escuro. o som cautelosamente se arrasta para fora do armário e tenta docilmente se afirmar. em geral através de um compositor e de um supervisor de edição de som[7]. O uso do som exercerá forte influência sobre a forma como a cena é configurada. Ao compositor são dadas quatro ou cinco semanas para produzir de setenta a noventa minutos de ótima música. sobre o que deveria ser ouvido ao invés de ser visto. o que resulta em que os departamentos de música. . Se muitos dos nossos personagens estão conversando num bar. Finalmente ele coloca um bilhete na garrafa e a rola pelo chão do bar escuro. ou ambos. Enquanto isso o filme está sendo continuamente re-editado. um drama. ou sequer consciência. Em quase todos os casos. Os sets são tipicamente construídos com pouca ou nenhuma preocupação. e portanto a imaginação. O ambiente desolador ao redor das gravações de dublagens de certa forma simboliza o papel secundário do som. mas não há tempo suficiente. o som está dando uma contribuição. organizadas e iluminadas com muito pouco empenho para ajudar ou a equipe de som direto ou a de pós-produção a se beneficiarem da gama de possibilidades dramáticas intrínsecas às situações. Qualquer momento que não contenha algo visualmente fascinante é rapidamente descartado. Esta abordagem poderia ser adotada para uma comédia. Ao supervisor de som são dadas de dez a quinze semanas para melhorar os diálogos captados na produção. sendo cuidadoso para cobrir cada possível opção que o diretor possa querer porque “não há tempo” para que o diretor faça escolhas antes da mixagem[9]. Todos reconhecem que os diálogos gravados no set. exceto porque estará inteligível. o critério visual determina quais cenas serão reveladas e usadas.relacionado com o som tenha sido contratado. estão fazendo ajustes meticulosos. Ela pára aos pés dos personagens que vemos. Pós-Produção Finalmente. Provocar o olhar irá inevitavelmente trazer a audição. O diretor e o editor desesperadamente procuram por alguma forma de melhorar o que eles têm. efeitos sonoros e edição de diálogos tenham de gastar um grande percentual do precioso tempo restante tentando consertar todos os problemas causados pelas novas mudanças no corte de imagem. o caminhão com gerador está estacionado muito perto. das implicações para o som. gravar e editar a dublagem[8] e tentar encaixar alguns efeitos sonoros específicos em seqüências que nunca foram planejadas para comportá-los. Nós ouvimos sua voz.

não se trata uma mídia visual?” pode ser que não haja nada que eu possa dizer para mudar sua opinião. . Da mesma forma que outras atividades centradas no som em filmes.Apocalipse Now. . Levando Som a Sério Se sua reação a tudo isso é “. 1980.Eraserhead. Seja como for… ———————————————————————————————————Fim da primeira parte. .Cidadão Kane (Citzen Kane).A atitude preguiçosa quanto à possibilidade de se obter algo maravilhoso em uma sessão de dublagem acaba por transformá-la.Touro Indomável (Raging Bull). cor. o que você esperava.Guerra nas Estrelas: Uma Nova Esperança (Star Wars: Episode IV . em lugares do “mundo real”. pb. pb. 1980. 1979. Orson Welles. Filmes citados no artigo . pb e cor. Alemanha. Minha opinião é que um filme definitivamente não é uma “mídia visual”. Dizer “o papel que o som desempenha” é até mesmo um pouco enganoso. Nunca haverá uma “fórmula” para se fazer um grande filme ou um grande som no filme. EUA. 153 min. Francis Ford Coppola. Essencialmente nenhum esforço é mobilizado no sentido de trazer para a dublagem uma experiência com o nível de ânimo. 1977. a dublagem é tratada basicamente como uma operação técnica. . porque. Martin Scorsese. cor. EUA. 128 min. na verdade. 1977. é claro. 100 min. 119 min. EUA. George Lucas. David Lynch. EUA / Inglaterra. que serviriam para inspirar os atores e disponibilizariam uma acústica realista? Isto seria levar a dublagem a sério.A New Hope). os elementos visuais e auditivos trabalham conjuntamente tão bem que é quase impossível tomá-los separadamente. Resulta disso que as performances na dublagem quase sempre percam “vida” em comparação com as originais. energia e exploração que caracterizava o set quando as câmeras estavam rodando. 1941.O Homem Elefante (The Elephant Man). EUA. David Lynch. irá compreender que importante papel o som desempenha em muitos. pb. Porque não gravar a dublagem nas locações. As sugestões que estou prestes a fazer obviamente não se aplicam a todos os filmes. senão na maioria deles. 121 min. numa profecia auto-realizadora. 125 min. quando uma cena é realmente impactante. . As dublagens ficam mais ou menos sincronizadas e estão inteligíveis. Penso que se você olhar detalhadamente e ouvir uma dúzia ou mais dos filmes que considera excelentes. para ser cumprida o mais barata e rapidamente possível. .Então.

É quando diversas fontes sonoras organizadas em grupos de canais de áudio distintos tem seus ajustem finais feitos. 105 min. Nota do tradutor. melhorando assim o som. por exemplo. Sergio Leone. significa Automated Dialog Replacement. Ele acompanha a edição avaliando e orientando o processo até a mixagem.imdb. também chamado de plano subjetivo.htm . em inglês) em: http://filmsound.imdb. mas pode distribuir as tarefas segundo outros critérios também. [3] Uma biografia sucinta Ben Burtt pode ser encontrada neste link: http://www. cor. [6] Forrado com mantas de som ou outro material absorvente com objetivo controlar reverberações. 165 min.Era uma vez no Oeste (Once Upon a Time in the West). Nota do tradutor. 1968. Nota do tradutor. normalmente com a presença do supervisor se som. normalmente é o responsável por coordenar uma equipe de sonoplastas. cor.imdb. Nota do tradutor. no trabalho de planejamento cooperativo desde o roteiro e a filmagem até edição de imagens e edição de som realizado por Walter Murch com o diretor Francis Coppola em “Apocalipse Now”. numa outra acepção. Itália / USA. [9] Mixagem é o último processo criativo no trabalho de som em cinema. EUA. [7] Supervisor de som. Continuação do artigo (original. ou editores de som.com/name/nm0858378/bio. Nota do tradutor. [8] ADR é termo em inglês para dublagem. [1] Uma biografia sucinta de Randy Thom pode ser encontrada neste link: http://www. Carroll Ballard. [5] PDV: Ponto de vista. e.org/articles/designing_for_sound. 1983.Never Cry Wolf.com/name/nm0123785/. [2] O termo sound design surgiu no cinema para definir o trabalho de produção de sons e efeitos sonoros inéditos desenvolvido por Ben Burtt em “Star Wars”. Nota do tradutor. Ele forma sua equipe e distribui o trabalho entre sonoplastas especialistas.. [4] Uma biografia sucinta de Walter Murch pode ser encontrada neste link: http://www.com/name/nm0004555/. Nota do tradutor. do diretor e do mixador ou engenheiro de mixagem. .