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Primeiro trimestre de 2008 Discipulado cristão

Comentário da Lição da Escola Sabatina Lição 2: Discipulado naquele tempo e agora

5 a 12 de janeiro Por Berndt D. Wolter Discípulos naquele tempo e agora O envolvimento pessoal, o pagar o preço, o comprometimento para vida ou para morte é a grande diferença do discipulado de Jesus para com o discipulado entre outras culturas. Entre os gregos, o costume era de que os alunos buscassem o mestre. Os mestres aceitavam os alunos quando eram promissores e mostravam uma capacidade mínima, ou eram indicados pelos pais que queriam ver os filhos sendo influenciados pelos mestres. No livro O Desejado de Todas as Nações, Ellen White fala que Jesus não escolheu os discípulos pela capacidade exibida, mas por aquilo que eles poderiam se tornar, sob Sua influência. Jesus não escolheu os discípulos pelo potencial intelectual ou pel status social, mas pelo critério do potencial espiritual. Na verdade, nenhum dos discípulos tinha algo que os recomendasse. Eles eram um bando pelo menos incapaz e improvável para cumprir a tarefa de mudar o mundo. Se você tivesse que mudar o mundo, quem escolheria para sua equipe de trabalho? Não seriam os mais influentes, os mais ricos, aqueles que tivessem projeção social internacional? Em sã consciência, você escolheria para essa obra um bando de iletrados, incapazes, de um humor instável? Jesus fez isso. Ele olhou a flexibilidade do coração, a disponibilidade para ser moldado, a disposição de se comprometer com o Mestre. Diz o Professor Valdecir Lima: “Se amássemos como Jesus amou, leríamos os corações como Jesus fez!” O Mestre via traços no coração que ficam encobertos para nós, que temos segundas intenções, vaidades, prioridades próprias e desejos de grandeza. Jesus tinha uma obra a cumprir na Terra e precisava fazer confluir todas as ações e recursos humanos para alcançar esse objetivo. Por isso, decidiu: “Minha prioridade não é evangelizar as massas, mas implantar um sonho, transferir uma visão a um grupo de homens que vivam esse sonho e incorporarem em cada fibra de seu ser a realidade e as necessidades do reino de Deus, sem medo de perder a própria vida!” Discipulado entre os gregos

Embora a vinda de Jesus tivesse um alvo claro: trazer as boas novas da vinda do Messias para Seu próprio povo (povo de Israel), Ele nunca desprezou pessoas de outras nações. Não havia ainda chegado o momento de transmitir a responsabilidade de pregar o evangelho do povo de Israel para os gentios, nem era ainda a hora de evangelizar o mundo. ““A estes doze enviou Jesus, dando-lhes as seguintes instruções: Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos; mas, de preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel;” (Mateus 10:5-6 RA). ““Mas Jesus respondeu: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”(Mt 15:24). Entretanto, Jesus deu a atenção que cada estrangeiro necessitava. Falou com a samaritana junto ao poço de Jacó, com a mulher cananéia, com os gregos etc. No caso dos gregos, eles estavam cansados da estrutura religiosa e filosófica de seu país.Todos os sistemas religiosos estavam falidos, e uma fome da verdade e de salvação estava presente em todos os países do mundo conhecido. O mundo estava pronto para receber o prometido Filho de Deus. Leia o contexto da época em O Desejado de Todas as Nações, E.G. White, a partir da página 31 (capítulo “A Plenitude dos Tempos”). Os gregos, bem como todos os povos num raio considerável de distância, haviam ouvido falar do Deus único de Israel. Quando os judeus que viviam em outros países foram às festas anuais em Israel, seus vizinhos nos países em que viviam ouviram notícias sobre um Mestre que dizia ter vindo da parte de Deus. Procurando conforto para o coração ansioso e desnorteado, um grupo de gregos foi a Jerusalém. Notemos o preço que as pessoas daquela época e também de hoje estão dispostas a pagar para encontrar paz na vida. São pelo menos 1.800 km por terra e 1.200 por mar. Para uma época em que não havia os meios de transporte como temos hoje, isto é uma busca de vida. Partindo de sua compreensão de que o aluno tem que procurar o mestre, eles foram a Jerusalém. O tumulto era grande, pois chegaram ali em plena festa da Páscoa. Jesus havia entrado triunfalmente em Jerusalém, e o povo havia saudado o Filho de Davi com hosanas e aleluias. Tendo visto ou apenas ouvido toda aquela celebração para aquele homem, informaram-se para saber quem era Ele. A multidão era grande e tentaram chegar até Jesus por meio de Felipe. “Queremos ver Jesus". Aqui se cumpriu a palavra prometida: “Buscar-Me-eis, e Me achareis, quando Me buscardes de todo o vosso coração” (Jr 29:13). Jesus não pareceu dar-lhes muita atenção e já os confrontou com a realidade do discipulado: “Respondeu-lhes Jesus: É chegada a hora de ser glorificado o Filho do homem. Em verdade, em verdade vos digo: Se o

grão de trigo caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida, perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna” (Jo 12:23-25). Deveríamos fazer mais este tipo de apelo para as pessoas hoje: O Mestre morreu e se você amar a sua vida mais do que ao Mestre, você vai perdê-la. Ele ama você e o convida: “Siga-me!” Discipulado entre os judeus Desde o Antigo Testamento, a Bíblia apresenta a relação mestrediscípulo. Era, sim, de ensino e aprendizado clássico, isto é, o professor ensina e o aluno aprende dentro de um espaço para isto destinado. Mas havia convívio, havia compartilhamento de vida. Veja o caso de Samuel e Eli (Leia 1Sm 1). Ainda menino, Samuel desempenhava funções muito corriqueiras e tinha que aprender a servir o mestre. Convivia com o mestre aprendendo por preceito (ou seja, ensino), mas principalmente por exemplo. Pela contemplação somos transformados, diz Ellen White à página 36 do livro O Desejado de Todas as Nações. “Ao contemplarmos o que é belo e grande na Natureza, nossas afeições crescem para com Deus. Ao mesmo tempo em que o espírito se enche de reverente respeito, a alma se fortalece ao pôr-se em contato com o Infinito (DTN, 71). Todos os seres humanos são transformados naquilo que mais contemplam. E a contemplação ocorre tanto em momentos nos quais estamos conscientemente prestando atenção e nos momentos em que a contemplação ocorre inconscientemente. É claro que cada mestre era diferente um do outro, e educava ou influenciava de maneira diferente seus alunos, mas a educação integral, que preparava para a vida e envolvia o ser como um todo, é ressaltada dezenas de vezes como tendo sido a educação dada pelos mestres na Bíblia. O que seria esta educação integral? Como alguém aprende de maneira integral? Você já viu um grupo de alunos entediados, enfastiados com aulas que apelam primordialmente ao intelecto? Este fastio não ocorre quando a educação é integral. O ser humano é atingido como um todo. O conteúdo a ser aprendido penetra em seu ser e não o abandona jamais. O item aprendido incorpora-se ao sistema de valores e rege a vida como um todo de tal maneira que, quando esse discípulo é questionado de onde teve aquela idéia, muitas vezes ele já não mais sabe a origem, mas usa-a com propriedade e a idéia interage com as outras habilidades físicas, mentais e espirituais a ponto de prover vida, e esta em abundância. Pessoas que aprendem a aprender integralmente vivem com entusiasmo e na certeza de suas convicções, em paz com Deus, pois aquilo que aprendem invade cada célula de seu ser. A esta aprendizagem integral o

modelo judeu se refere e dela Jesus fez uso e ainda o faz. Seu convite para segui-Lo é para que sejamos imersos neste aprendizado (discipulado) integral – corpo, mente, espírito, emoções, etc. Discipulado com João Batista A coisa mais grandiosa que pode ocorrer é quando um mestre não apenas ensina algum conteúdo, mas vive o propósito de Deus para sua vida. Um mestre que pratica aquilo que ensina e ensina aquilo que vive e ninguém vê nele nenhuma contradição possui um tremendo poder . João Batista havia sido chamado para preparar o caminho do Senhor. Isaías havia profetizado dele: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus” (Is 40:3). Ele havia nascido para cumprir este propósito de Deus. Sua vida e morte cumpriram este desígnio eterno. Ele viveu integralmente o propósito para o qual havia sido criado. Há alguma escola mais intensiva que esta? Há algum método de ensino mais adequado? Há algum poder maior do que uma vida consagrada para satisfazer o intento de Deus? Há palavra ou a multiplicação delas que possa substituir a influência de uma vida focada na vontade específica de Deus para essa vida? Os discípulos de Jesus foram atraídos a Ele. João Batista não foi atrás de nenhum de seus ouvintes e conversos. Fico imaginando se nos dias de hoje alguém começasse a pregar em meio a um lugar ermo, vivesse daquilo que o lugar oferece, sem luxo e sem comodidade, pregando apenas aquilo que Deus pediu que pregasse, e o fizesse com convicção, se não atrairia, ainda hoje, milhares de pessoas sedentas pela verdade e pelo amor restaurador de Deus. É notável a humildade deste profeta e mestre ao apresentar o Messias ao mundo e, pouco a pouco, cair no anonimato e fazê-lo sem relutar. Ao contrário, fazia-o de modo intencional: “Convém que Ele cresça e que eu diminua” (Jo 3:30). Em seus momentos de fraqueza, já preso e esquecido, não se esqueceu daquilo para o que sua vida havia sido criada e quis a última confirmação para que sua vida fosse entregue no altar do serviço: És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro? E Jesus, respondendo, disselhes: Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho.” (Mateus 11:3-5 RA)” (Mt 11:3-5). Disse Jesus: “Queridos discípulos, vão até João e animem-no, não com teorias mirabolantes ou com frases engenhosamente montadas; falem

aquilo que vocês estão vivendo na educação integral que estão recebendo. Contem o que viram, ouviram, e mais, aquilo que vocês experimentaram juntamente com o Messias. Discipulado com Jesus A mais completa ilustração dos métodos de Cristo como Mestre é encontrada em Seu treinamento dos doze primeiros discípulos. Sobre estes homens deveriam repousar pesadas responsabilidades. Ele os escolheu como pessoas a quem Ele poderia conceder Seu Espírito e que seriam indicados para promover Seu trabalho sobre a Terra quando Ele tivesse que deixá-los. Para eles, acima de todos os outros, Ele deu a vantagem de Seu companheirismo. ... “a vida se manifestou”, disse João o amado, “e nós a vimos e damos testemunho” (1Jo 1:12). “Somente por meio daquela comunhão – do espírito com o espírito e do coração com o coração, do humano com o divino – se pode comunicar a energia vitalizadora que a verdadeira educação tem por objetivo comunicar. É unicamente a vida que pode produzir vida. No ensino de Seus discípulos, o Salvador seguiu o sistema de educação estabelecida ao princípio. Os primeiros doze escolhidos, juntamente com alguns poucos outros que mediante o auxílio às suas necessidades tinham de quando em quando ligação com eles, formavam a família de Jesus” (Ellen G. White, Educação, 84). Dentro de cada ser humano existe um descompasso, uma desarmonia, uma dissonância entre o que quer e o que faz (Rm 7:24), um desacerto entre intenção e ação, entre pensamento e sentimento, entre desejo e prática. É por este desconcerto que a autoridade de nosso ser é afetada e queremos compensar com a autoridade da palavra, ou às vezes pior, com o poder de um cargo. Jesus, nosso eterno exemplo, crescia em estatura e graça diante de Deus e dos homens (Lc 2:52). Sob a guia do Espírito Santo e a educação de uma família piedosa, conseguiu não desalinhar o eu interior. Havia integridade (vem da palavra integral, não corrompido, não quebrado), coerência e grandeza de caráter desde Sua mais tenra infância. Quando estas qualidades se encontram em um mesmo ser, geralmente temos como efeito colateral o orgulho e vaidade, coisas que nosso Mestre não tinha em Si. Um mestre, e especialmente um mestre como o Mestre dos mestres, ensina mais com aquilo que é, do que possivelmente poderia ensinar com aquilo que fala. Transmitimos apenas 7% de toda nossa comunicação através de palavras. Dessa comunicação, 93% se dão por aquilo que somos e os gestos, tom de voz e expressões faciais que fluem de nosso ser. Há quem

treine estes 93% para ser mais eficazes, mas algumas vezes resulta em uma artificialidade que não convence. Jesus arrastava multidões com Seu magnetismo. Ele não convencia, transformava. Ele não apenas falava, envolvia com a atmosfera celestial. Ele era íntegro por que Se mantinha em comunhão com Aquele que é eternamente íntegro. Não havia coração nem mente dividida; tudo o que fazia era feito com o ser por inteiro. Segui-Lo deveria quase ser irresistível. Ser discípulo deste Homem era estar envolto com a atmosfera celestial que influenciava o ser como um todo em todos os momentos. Pela contemplação, os discípulos eram transformados pouco a pouco naquilo que seu próprio Mestre era. Não é de se admirar que logo fossem chamados pelo próprio nome do Mestre: cristãos (At 11:26). Discipulado contemporâneo Muito tempo se passou, e a influência de Deus se empalideceu, dizem alguns, enquanto muitos pensam assim sem que o admitam abertamente. Perguntas penetrantes que sempre vêm à tona com outras questões politicamente (eclesiasticamente) mais corretas, são: Já ouviu algumas destas? Por que Deus não mais faz milagres como antigamente? Ser discípulo de Jesus vendo todas aquelas maravilhas era muito fácil, queria ver Pedro, João e Tiago hoje, em meio às lutas que temos que enfrentar. Cadê aquele Deus da Bíblia? Como posso seguir um Deus que Se mostra de uma maneira na Bíblia e de outra na minha vida? Muitos estão presos em uma religião mágica, esperando sempre algo que Deus não tem que apresentar só porque no passado Ele Se manifestou assim. Outros estão decepcionados com Deus ou talvez com a igreja. Uma oração importante não atendida ou uma questão vital sem aparente intervenção da parte de Deus... Como continuar a confiar e submeter minha vida a um Deus que aparentemente nos deixa na mão quando mais precisamos dEle? Não pretendo exaurir os assuntos aqui tocados nem sarar as feridas aqui mencionadas. O fato é que, por questões como estas, muitos não assumem completamente seu discipulado. São desmotivados por frustrações que relutamos em admitir, pois quem em sã consciência acusaria Deus de estar falhando conosco? Nossa vida fica encalhada em um patamar de maturidade espiritual e audácia de fé que há tempo já deveríamos ter deixado para trás. Ou o leitor realmente pensa que os discípulos de Jesus teriam revolucionado e marcado o mundo e a história se eles tivessem sido fiéis freqüentadores de igreja, sábado após sábado? É claro que não!

Parece-me que há algo mais a ser alcançado, degraus a serem transpostos, desafios a serem enfrentados, que em nossa comodidade do século 21 já não mais queremos encarar. Eis algumas respostas que nos podem ajudar: 1. Deus sabe o que está fazendo. Se Ele em algum momento aparentemente não atendeu seu pedido, por mais importante que fosse para você, Deus sabe como, no quebra-cabeças do grande conflito entre o bem e o mal, esta situação colaborou para o bem. Confie! O justo viverá pela fé (Rm 1:17; Gl 3:11; Hb 10:38). 2. Nossa entrega deve ser como a de João Huss. Sua morte contribuiu mais para o reino de Deus do que a sua vida. Enquanto viveu, trabalhou, escreveu e falou de Jesus, mas, com a morte dele, o evangelho se esparramou como fogo na palha seca pela Europa de então. Se a minha morte, ou a morte de algum querido, contribuir para solucionar mais um pedaço do conflito entre o bem e o mal, eu confio na decisão de Deus. Esta é a minha decisão! Qual é a sua? 3. Deus vê a imagem toda, a foto maior. Ficamos tão presos no tempo e espaço, que nossa visão das coisas, principalmente das espirituais, se restringe àquilo que os nossos sentidos podem perceber. Veja o conselho bíblico: “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória acima de toda comparação; não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas” (2Co 4:17). 4. Quanto à nossa experiência pessoal com Deus e os altos e baixos que ela traz consigo: “Tenho certeza disto mesmo, que Aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus.” Que segurança no nosso jornadear nos dá essa promessa! 5. Notemos como, ao longo da história, Deus dificilmente Se manifestou duas vezes da mesma forma. Quantas vezes o mesmo milagre se repetiu? Quantas vezes tocou as pessoas da mesma forma? Pedro foi chamado das redes, Mateus de uma mesa de cobrador de impostos, Paulo de um modo sobrenatural. Foi o chamado de Pedro menos real que o de Paulo? Quantas vezes Deus Se manifestou no monte Sinai? Quantas vezes o Mar Vermelho se abriu? Quantas vezes é relatado que um machado flutuou ou que um gigante caiu pela funda de um jovem? Não exija que Deus Se manifeste como Ele o fez no passado. Como discípulos, cabe a nós ficar de olhos e ouvidos abertos para ver as surpresas e viver as

aventuras com Deus, assim como Ele o quer fazer em sua vida de maneira específica. Na próxima semana abordaremos o assunto da paganização de nossa fé e como esta paganização nos faz ter expectativas erradas a respeito de Deus e daquilo que Ele quer e pode fazer em nossa vida. _______________ O Dr. Berdnt Wolter é professor de Missiologia no SALT-Unasp Campus 2. e-mail: berndt.wolter@unasp.edu.br