You are on page 1of 25

Sebenta de Textos de

Psicolo gia do Desen volviment o

Psicologia do Desenvolvimento
© Celeste Duque (celeste.duque@gmail.com) & Pedro Zany Caldeira, 2004 1

1. INTRODUÇÃO
O presente texto2 tem como objectivo fornecer aos alunos do Curso de Terapêutica da Fala, da
Universidade do Algarve, da ESSaF, uma forma sintética de estudar as Teorias da Personalidade
consideradas mais adequadas no enquandramento do programa da disiciplina da Psicologia do
Desenvolvimento. Por mais longo que possa parecer o desenvolvimento das mesmas, muito mais
haveria a dizer sobre o assunto, pelo que se recomenda a leitura das obras originais que constam
da bibliografia ao aluno interessado em aprofundar um pouco mais os diversos conceitos.
Aconselha-se igualmente a presença nas aulas, quer teóricas quer teórico-práticas já que nestas, e
apesar de se fornecer o texto síntese da teoria apresentada, são referidos inúmeros exemplos e a
verbalização utilizada vai sempre de encontro às necessidades, dúvidas e interesses dos alunos
presentes, pelo que são únicas e irrepetíveis. Fornecendo toda uma informação que não está
escrita em nenhum livro, nem mesmo nos apontamentos da disciplina, já que aí se tem o cuidado
de relacionarem conceitos do âmbito da Psicologia do Desenvolvimento apresentando uma
contextualização histórica, e sócio-cultural, socorrendo-se igualmente de outras áreas de saber
sempre que isso se mostre relevante para a melhor explicação e integração do conceito, por parte
dos alunos.
Posto isto passamos a apresentar uma síntese teórica elaborada em 2001, e que foi totalmente
revista para melhor se adaptar ao Curso de Terapêutica da Fala do ESSaF.
Recomenda-se ainda a consulta dos apontamentos (Textos de Apoio) fornecidos na disciplina de
Introdução à Psicologia3, em 2003-2004.

2. TEORIAS DA PERSONALIDADE
Antes de se abordarem as Teorias da Personalidade, propriamente ditas é necessário definir-se o
que se entende por personalidade.

2.1. Personalidade
São padrões ou elementos relativamente constantes, duradouros e permanentes de percepcionar,
pensar, sentir e comportar-se que atribuem ou parecem atribuir aos sujeitos identidades
separadas. Personalidade é um ‘constructo sumário’ que inclui pensamentos, motivos, emoções,
interesses, atitudes, capacidades e outros fenómenos semelhantes.

1 Como citar este texto:


Caldeira, P. Z., & Duque, C. (2004). Sebenta de Textos da disciplina de Psicologia do Desenvolvimento –
Curso Terapêutica da Fala. Faro: UAlg-ESSaF. Retrieved on (data em que se acedeu; ex. 12-
12-2008) from (copiar link internet) at (hora).

2 Texto de Apoio da autoria de Prof. Doutor Pedro Zany Caldeira, Universidade Lusíada de Lisboa, em colaboração com Dra.
Celeste Duque, 2002. Arranjo gráfico e revisão e actualização da responsabilidade de Celeste Duque, em Setembro de 2004.
3 Sobre Metodologia em Psicologia e em Saúde, bem como os textos referentes à Personalidade (Teorias da Personalidade e a

Perspectiva Psicanalítica).

CDuque 08-12-2008 1
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

2.2. Instrumentos de estudo e metodologias


Os diferentes autores que se debruçam sobre o estudo da personalidade tentam compreender a
sua natureza geral e, assim, explicar as diferenças inter-individuais.
Para o estudo da personalidade de sujeitos específicos existem diversos instrumentos e
metodologias. Nos primeiros incluímos as entrevistas e os testes de personalidade (testes
objectivos e projectivos). Nos segundos, os métodos clínico e experimental e a observação
controlada (ver Texto de Apoio da disciplina de Introdução à Psicologia).
As páginas que se seguem são traduções mais ou menos livres de escritos de Sigmund Freud, de
Margaret Mahler e colaboradores. É igualmente utilizado o Vocabulário de Psicanálise, da
autoria de Laplanche e Pontalis, para maior clarificação de alguns dos conceitos psicanalíticos
aqui abordados.

3. Teoria Psicanalítica de Sigmund Freud

3.1. Primeira Tópica do Aparelho Psíquico (1ª Tópica)


A divisão da vida psíquica em consciente e inconsciente constitui a premissa fundamental da
psicanálise, sem a qual ela seria incapaz de compreender os processos patológicos, tão frequentes
e graves, da vida psíquica e de os fazer entrar no quadro da ciência. Mais uma vez, e por outras
palavras: a psicanálise recusa-se a considerar o consciente como constituindo a verdadeira
essência da vida psíquica, mas vê no consciente uma qualidade simples desta última, podendo
coexistir com outras qualidades, ou não surgir de todo.
‘Estar consciente’ é antes de mais uma expressão puramente descritiva e relaciona-se com a
percepção mais imediata e segura. Mas a experiência mostra-nos que um elemento psíquico
(uma representação, por exemplo) nunca é consciente de forma permanente. O que caracteriza
melhor os elementos psíquicos é o desaparecimento rápido do seu estado consciente. Uma
representação, consciente num dado momento, não o é mais no momento seguinte, mas pode
retomar ao consciente sob certas condições, fáceis de compreender. No intervalo ignoramos o
que ela é. Podemos dizer que está “latente”, entendendo com isto que é capaz de se “tornar
consciente” a qualquer momento. Dizendo que uma representação ficou, no intervalo,
“inconsciente” formulamos ainda uma definição correcta: este estado inconsciente coincide com o
estado latente e a capacidade de retornar ao consciente.
Obtivemos o termo ou a noção de inconsciente utilizando experiências vividas em que intervém
o “dinamismo” psíquico. Relembremo-nos que a teoria psicanalítica declara que se há algumas
representações que são incapazes de se tomarem conscientes isto se deve a uma determinada
força que se lhes opõe. Sem essa força elas poderiam tomar-se conscientes, o que nos permite
constatar a reduzida diferença com outros elementos psíquicos oficialmente reconhecidos como
tais. O que toma esta teoria irrefutável é que ela encontrou na técnica psicanalítica um meio que
permite vencer a força de oposição e de trazer ao consciente estas representações inconscientes.
Ao estado em que estas representações se encontram, antes de voltarem ao consciente, damos o
nome de “recalcamento”. E quanto à força que produz e mantém o recalcamento dizemos que a
sentimos, durante o trabalho analítico (terapêutico), sob a forma de “resistência”.
A noção de recalcamento deduz-se, deste modo, da teoria do recalcamento. O que é recalcado é o
protótipo do inconsciente. Sabemos entretanto que existem duas variedades de inconsciente: os
factos psíquicos latentes, mas susceptíveis de se tomarem conscientes, e os factos psíquicos
recalcados que, como tal, entregues a si mesmos, são incapazes de chegarem ao consciente. Esta

CDuque 08-12-2008 2
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

maneira de encarar o dinamismo psíquico não pode deixar de influenciar a terminologia e a


descrição. Assim, dizemos que os factos psíquicos latentes, isto é, inconscientes ao nível
descritivo mas não ao nível dinâmico, são factos “pré-conscientes”. E reservamos a palavra
“inconsciente” para os factos psíquicos recalcados, isto é, dinamicamente inconscientes. Deste
modo, estamos na posse de três termos: consciente, pré-consciente e inconsciente, em que o
significado não é mais puramente descritivo.
Estes três termos (consciente, pré-consciente e inconsciente) são fáceis de manipular e dão-nos
uma grande liberdade de movimentos, sob a condição de não esquecermos que, se do ponto de
vista descritivo há duas variedades de inconsciente, só há uma do ponto de vista dinâmico.
Nalguns casos podemos fazer uma exposição negligenciando estas distinções mas noutros ela é
indispensável. Seja como for, estamos suficientemente acostumados a este duplo significado de
inconsciente.

3.2. Segunda Tópica do Aparelho Psíquico (2ª Tópica)


Mas as pesquisas posteriores mostraram que estas distinções eram, elas também, insuficientes e
insatisfatórias.
Admitimos que a vida psíquica é função dum aparelho ao qual atribuímos uma extensão espacial
e que supomos formado por diversas partes, Vemo-lo como uma espécie de telescópio, de
microscópio ou algo do género. A construção e o acabamento duma tal concepção são uma
novidade científica, apesar das tentativas análogas que já foram feitas.
Foi o estudo da evolução dos indivíduos que permitiu o conhecimento deste aparelho psíquico.
À mais arcaica das instâncias psíquicas constituintes deste aparelho damos o nome de Id. O seu
conteúdo abrange tudo o que o ser traz consigo ao nascer, tudo o que é constitucionalmente
determinado, isto é e antes de mais, as pulsões emanadas da organização somática e que
encontram no Id, sob formas que nos são desconhecidas, um primeiro modo de expressão
psíquica. Todo o material que se encontra no Id está sob a forma inconsciente. No Id encontram-
se quer as pulsões de auto-conservação quer as pulsões de destruição.
Sob influência do mundo exterior real que nos cerca, uma fracção do Id sofre uma evolução
particular. A partir da camada cortical original, fornecida com órgãos aptos a percepcionar os
estímulos assim como a se proteger contra eles, estabelece-se uma organização especial que,
desde logo, vai servir de intermediário entre o Id e o exterior, É a esta fracção do nosso
psiquismo que damos o nome de Ego.

3.2.1. Principais características do Ego


No seguimento das relações já estabelecidas entre a percepção sensorial e as acções musculares, o
Ego dispõe do controlo dos movimentos voluntários. Assegura a auto-conservação e, no que diz
respeito ao exterior, assegura a sua tarefa aprendendo a conhecer os estímulos, acumulando (na
memória) as experiências que eles lhe fornecem, evitando os estímulos demasiado fortes (pela
fuga), acomodando-se aos estímulos moderados &ela adaptação) e, por fim, chegando a
modificar de forma apropriada e para seu próprio proveito o mundo exterior (através da
actividade). No interior, dirige uma acção contra o Id, adquirindo o controlo das exigências
pulsionais e decidindo se elas podem ser satisfeitas ou se convém adiar esta satisfação até ao
momento mais favorável, ou ainda se é necessário simplesmente sufocá-las completamente. Na
sua actividade, o Ego guia-se pela tomada em consideração das tensões provocadas pelos
estímulos de dentro e de fora. Um acréscimo de tensão provoca geralmente o desprazer e a sua
diminuição gera o prazer.

CDuque 08-12-2008 3
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

De qualquer modo, o prazer e o desprazer não dependem provavelmente do grau absoluto das
tensões mas mais do ritmo das variações destas últimas. O Ego tende para o prazer e a evitar o
desprazer. A todo o aumento esperado (previsto) de desprazer corresponde um sinal de angústia,
e o que dispara este sinal, de dentro ou de fora, denomina-se perigo. De tempos a tempos o Ego,
quebrando os laços que o unem ao mundo exterior, retira-se para o sono, onde modifica
notavelmente a sua organização. O estado de sono permite constatar que este modo de
organização consiste numa certa repartição particular de energia psíquica.
Durante o longo período de infância que o indivíduo atravessa e durante o qual depende dos
seus pais o indivíduo em curso de evolução vê formar-se no seu Ego, como que por uma espécie
de precipitado, uma instância particular através da qual se prolonga a influência parental. Esta
instância é o Super-Ego. Na medida em que se destaca do Ego ou se opõe a ele, o Super-Ego
constitui um terceiro poder que o Ego é obrigado a ter em conta.
É considerado como correcto todo o comportamento do Ego que satisfaz em simultâneo as
exigências do Id, do Super-Ego e da realidade, que se produz quando o Ego consegue conciliar
estas diversas exigências. Sempre e seja qual for o contexto social, as particularidades das
relações entre o Ego e o Super-Ego tomam-se melhor compreensíveis se as relacionarmos com as
relações da criança com os pais. É evidente que não é só a personalidade dos pais que age sobre a
criança mas, transmitidas através deles, a influência das tradições familiares, raciais e nacionais,
assim como as exigências do meio social imediato que eles representam. Ao longo da sua
evolução, o Super-Ego dum sujeito modela-se também pelos sucessores ou substitutos dos pais
(certos educadores ou personalidades que representam no seio da sociedade ideais respeitados,
por exemplo). Vemos que, apesar da sua diferença funcional, o Id e o Super-Ego têm um ponto
em comum: ambos representam o papel do passado. O Id, o papel da hereditariedade. O Super-
Ego, o papel que pediu “emprestado” a outros. Pelo seu lado, o Ego é sobretudo determinado
pelo que o indivíduo viveu, isto é, o acidental, o actual.
Segundo Freud, há dois princípios que regem o funcionamento mental: o princípio do prazer e o
princípio da realidade. Segundo o princípio do prazer, a actividade psíquica no seu conjunto tem
por objectivo evitar o desprazer e proporcionar o prazer. Na medida em que o desprazer está
ligado ao aumento das quantidades de excitação e o prazer à sua redução, o princípio do prazer é
um princípio económico, O princípio da realidade forma par com o princípio do prazer e
modifica-o. Na medida em que o princípio da realidade se consegue impor como princípio
regulador, a procura da satisfação já não se efectua pelos caminhos mais curtos, mas toma por
desvios e adia o seu resultado em função das condições impostas pelo mundo exterior.

3.3. A Evolução Psicossexual


A expressão ‘relação de objecto’ é própria da psicanálise e pode desorientar um pouco aqueles
não familiarizados com os textos psicanalíticos. “Objecto deve ser neles tomado no sentido específico
que possui em psicanálise em expressões como ‘escolha de objecto’ ou ‘amor de objecto’”. É sabido que
uma pessoa, na medida em que é visada pelas pulsões, é qualificada de objecto. Isto nada tem de
pejorativo, nada em especial que implique que a qualidade de sujeito seja por esse facto recusada
à pessoa em causa.
Relação deve ser tomado na plena acepção da palavra: trata-se de facto de uma inter-relação, isto
é, não apenas da forma como o sujeito constitui os seus objectos, mas também da forma como
estes modelam a sua actividade.
“O de” (que está onde poderíamos esperar um com o) vem acentuar esta inter-relação.
Efectivamente, falar de relação com o objecto ou com os objectos implicaria que estes preexistem
à relação do sujeito com eles e, simetricamente, que o sujeito está já constituído.

CDuque 08-12-2008 4
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

“É sabido que Freud, numa preocupação de análise do conceito de pulsão, distinguiu a fonte, o objecto e o
alvo pulsionais. A fonte é a zona ou aparelho somático sede da excitação sexual; a sua importância aos olhos
de Freud é demonstrada pelo facto das diversas fases da evolução libidinal serem designadas pelo nome da
zona erógena predominante” (Laplanche & Pontalis, 1990, pp. 577-578).
As fases pré-genitais da evolução libidinal apoiam-se inicialmente em actividades directamente
relacionadas com as pulsões de auto-conservação.
A primeira fase da evolução libidinal é a fase oral: o prazer sexual está então ligado de forma
predominante à excitação da cavidade bucal e dos lábios que acompanha a alimentação. A
actividade de nutrição fornece as significações electivas pelas quais se exprime e se organiza a
relação de objecto. Por exemplo, a relação de amor com a mãe será marcada pelas seguintes
significações: comer e ser comido.
A actividade de chupar assume a partir da época de amamentação um valor exemplar, que
permite a Freud mostrar como a pulsão sexual (que a princípio se satisfaz apoiada numa função
vital) adquire autonomia e se satisfaz de forma auto-erótica (auto-satisfação das necessidades
sexuais).
A segunda fase da evolução libidinal, segundo Freud, é a fase anal-sádica que podemos situar
aproximadamente entre os 2 e os 4 anos. Esta fase é caracterizada por uma organização da líbido
sob o primado da zona erógena anal; a relação de objecto está impregnada de significações
ligadas à função de defecção (expulsão-retenção) e ao valor simbólico das fezes.
A fase fálica é a fase da organização da líbido que vem depois das fases oral e anal, e e
caracterizada por uma unificação das pulsões parciais sob o primado dos orgãos genitais. Mas, o
que já não será o caso da organização genital pubertária, a criança (de sexo masculino ou de sexo
feminino) só conhece um único órgão genital, o órgão masculino, e a oposição dos sexos é
equivalente à oposição fálico-castrado. A fase fálica corresponde ao momento culminante e ao
declínio do complexo de Édipo. O complexo de castração é aqui dominante.
Por fim, a fase genital é a fase do desenvolvimento psicossexual caracterizada pela organização
das pulsões parciais sob o primado das zonas genitais. Esta fase compreende dois períodos,
separados pelo período de latência: o período fálico (ou organização genital infantil – fase fálica)
e a organização genital, propriamente dita, que se institui na puberdade.
Em termos do desenvolvimento psicossexual, e caso o sujeito se fixe numa das fases pré-genitais
acima descritas (fixação libidinal), ele fica marcado por experiências infantis, mantém-se ligado
de forma mais ou menos disfarçada a modos arcaicos de satisfação, a tipos arcaicos de objecto ou
de relação.
A fixação liga-se à teoria da líbido e define-se pela persistência, particularmente manifesta nas
perversões, de características anacrónicas de sexualidade: o indivíduo exerce certos tipos de
actividade ou então permanece ligado a algumas características do ‘objecto’ cuja origem se pode
encontrar em certo e determinado momento da vida sexual infantil.
Com o desenvolvimento da teoria das fases pré-genitais do desenvolvimento psicossexual (fases
oral, anal-sádica e fálica) a noção de fixação assume nova extensão: pode não incidir apenas
sobre um alvo ou um objecto libidinal parcial, mas também sobre toda a estrutura da actividade
característica de uma dada fase. Assim, a fixação na fase anal está na origem da neurose
obsessiva e de certo tipo de carácter.
A fixação libidinal desempenha um papel predominante na etiologia dos diversos distúrbios
psíquicos, o que levou a determinar a sua função nos mecanismos neuróticos. A fixação está na

CDuque 08-12-2008 5
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

origem do recalcamento e pode mesmo ser considerada como o primeiro momento do


recalcamento tomado no sentido lato.

4. MARGARET MAHLER

4.1. Nascimento psicológico do ser humano


O momento do nascimento biológico do recém-nascido e o momento do nascimento psicológico
do indivíduo não coincidem. O primeiro é um acontecimento dramático, observável e bem
circunscrito. O segundo é um processo intra-psíquico que se desenvolve lentamente.
O adulto normal, ou quase normal, considera como um dom inato, como sendo natural, a
experiência que tem de si mesmo como de um ser ao mesmo tempo e bem separado do ‘mundo
exterior’. Ele oscila, com mais ou menos facilidade e segundo diferentes ritmos de alternância e
de simultaneidade, entre a consciência de si e a receptividade sem tomada de consciência de si.
Mas, também aqui, estamos face a um processo que se desenvolve lentamente.
Chamamos ao nascimento psicológico do indivíduo o processo de separação-individuação: face a um
mundo de realidade, é a aquisição do sentimento, em simultâneo, de estar separado e em relação,
sobretudo no que diz respeito ao seu próprio corpo e ao objecto de amor primário, que é o principal
representante do universo tal como ele é experimentado pelo recém-nascido, Como todos os
processos intrapsíquicos, possui repercussões ao longo de toda a vida. Não tem fim e está
sempre activo: as novas fases do ciclo da vida são ocasiões para novas derivações dos primeiros
processos sempre em construção. Mas as realizações psicológicas principais deste processo
completam-se ao longo do período que vai do 4º-5º mês até ao 35º-36º mês de vida. Este período
designa-se por fase de separacão-individuação.
Desde o início a criança forma-se e desenvolve-se na matriz de unidade dual mãe-bebé. Sejam
quais forem as adaptações ao seu bebé que a mãe possa realizar, quer ela seja sensitiva e
empática quer não, continuamos firmemente, convencidos que a capacidade de adaptação da
criança, nova e flexível, e a sua necessidade de adaptação (tendo em vista a obtenção da
satisfação), ultrapassam largamente as capacidades da mãe, cuja personalidade, com todos os
seus padrões de carácter e de defesa, está finalizada e estabelecida, e muitas vezes é rígida. O
bebé modula-se em harmonia e em contraponto à maneira e ao estilo da mãe (representando ela
mesmo, para uma tal adaptação, um objecto são ou patológico).
De um ponto de vista metapsicológico, o aspecto dinâmico – o conflito entre pulsão e defesa –
revela-se muito menos importante nos primeiros meses de vida do que mais tarde, pois que a
estruturação da personalidade criará conflitos intra e intersistémicos de primeira importância. A
tensão, a angústia traumática, a fome biológica, o aparelho do Ego e a homeostasia são conceitos
quase biológicos, pertinentes nos primeiros meses e precursores, respectivamente, da angústia de
conteúdo psicológico, do sinal de angústia, das pulsões orais e outras, das funções do Ego e dos
mecanismos de regulação interna (defesa e traços do carácter), O ponto de vista da adaptação é
dos mais pertinentes na primeira infância – o bebé nascendo da própria convergência das
exigências de adaptação a que é submetido. Felizmente, estas exigências encontram no bebé, com
personalidade flexível pois ainda não está formada, uma capacidade de se deixar modelar pelo e
a se conformar ao seu ambiente. Esta capacidade do bebé se conformar aos elementos do seu
ambiente encontra-se já presente desde a primeira infância.
O trabalho desenvolvido por Margaret Mahler trata essencialmente da realização cognitivo-
afectiva da consciência de ser separado (condição essencial a uma verdadeira relação de objecto)

CDuque 08-12-2008 6
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

e do papel dos aparelhos do Ego por exemplo, a motilidade, a memória e a percepção) e de


funções do Ego mais complexas (a prova da realidade, por exemplo) no acesso a um tal
consciente. Mahler tenta mostrar como a relação de objecto se desenvolve depois do narcisismo
infantil, simbiótico ou primário, e em paralelo com a realização da separação e da individuação,
Como o funcionamento do Ego e o narcisismo secundário nascem na relação com a mãe, de
início narcísica e depois objectal.
Antes de mais, emprega-se o termo separação ou sentimento de estar separado em referência à
realização intra-psíquica dum sentimento de estar separado da mãe e, deste modo, do universo no
seu conjunto. Este sentimento de estar separado leva gradualmente a representações intra-
psíquicas claras do Eu distinto das representações do mundo objectal. Naturalmente, no curso
normal dos acontecimentos que marcam o desenvolvimento (as separações físicas reais da mãe –
de rotina ou outras – por exemplo) são, para a criança, contribuições importantes para o seu
sentimento de ser uma pessoa separada. Mas o objecto dos estudos de Margaret Mahler é o
sentimento de ser um indivíduo separado e não o facto de estar fisicamente separado de alguém.
(Com efeito, nalgumas condições anormais o facto físico da separação pode conduzir a uma
negação com cada vez maior pânico ao facto de estar separado e ao delírio de união simbiótica).
Em segundo lugar, e de modo semelhante, recorre-se ao termo simbiose para designar uma
condição intra-pessoal e não um comportamento. Este estado é fruto duma dedução, pois está
para além da observação directa.
Em terceiro lugar, descrevem-se o autismo infantil e a psicose simbiótica como dois distúrbios
extremos da personalidade. O termo identidade é empregue no sentido da primeira consciência
dum sentimento de ser, de entidade – sentimento que compreende em parte um investimento de
energia libidinal dirigida para o corpo. O que está em jogo não é o sentimento de quem eu sou
mas o sentimento de ser. E por isso é o primeiro passo dum processo de desenvolvimento da
individualidade.
Qual é a ‘maneira normal’ de vir a ser um indivíduo separado, a que as crianças psicóticas não
têm acesso? A que se parece o ‘processo de eclosão’ no bebé normal? Como compreender ao
pormenor as contribuições da mãe para este processo – como catalisadora, iniciadora,
organizadora?

4.1.1. Fases anteriores ao Processo de separação-individuação


Nas semanas que antecedem a evolução para a simbiose, o recém-nascido conhece mais
correntemente os estados próximos do sono que os estados de vigília. Estes estados lembram o
estado arcaico de distribuição libidinal que predomina ao longo da vida intra-uterina sob o
modelo dum sistema monádico fechado, autosuficiente na satisfação alucinatória do desejo.
Na fase autistica normal, temos uma ausência relativa de investimento dos estímulos exteriores
(especialmente da percepção à distância). É o período onde aparece mais claramente a barreira
de protecção contra os estímulos, a tendência inata do bebé a não responder aos estímulos
exteriores, O bebé passa a maior parte do seu dia num estado meio acordado, meio a dormir:
acorda sobretudo quando a fome ou outras tensões o levam a gritar, para de seguida cair de
novo no sono quando está saciado, isto é, quando há um alívio da sobrecarga de tensões. São os
fenómenos fisiológicos, mais que os psicológicos, que predominam e a função deste período
concebe-se melhor em termos fisiológicos. O bebé encontra-se protegido contra as estimulações
extremas, numa situação próxima do estado pré-natal, tendo em vista facilitar o seu crescimento
fisiológico.
Conceptualizando metaforicamente este estado sensorial, utilizamos a expressão autismo normal
para caracterizar as primeiras semanas de vida. São os próprios cuidados maternais que fazem

CDuque 08-12-2008 7
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

com que o bebé efectue gradualmente a passagem duma tendência inata á regressão vegetativa
para uma consciência sensorial acrescida do meio envolvente e um melhor contacto com ele. Em
termos de energia ou de investimento libidinal, isto pode traduzir-se pela necessidade de operar
um deslocamento da líbido desde o interior do corpo particularmente dos órgãos abdominais)
para a sua periferia.
Ao autismo normal segue-se uma etapa de consciência difusa para o bebé de que não pode
satisfazer as suas próprias necessidades, que esta satisfação vem de alguma parte exterior a si. E
isto designa-se por narcisismo primário da fase simbiótica nascente.
A vida acordada do recém-nascido concentra-se em tomo dos seus esforços incessantes para
realizar a homeostasia. O bebé não consegue nem isolar os efeitos dos cuidados matemos, que
lhe reduzem a fome, nem os diferenciar dos seus esforços para reduzir a tensão pelos seus
próprios meios, tal como urinar, defecar, tossir, arrotar, vomitar – meios pelos quais a criança
tenta desfazer-se de uma tensão desagradável. O efeito destes fenómenos de expulsão, tanto
como a gratificação obtida pelos cuidados matemos, ajudam o bebé, no momento oportuno, a
diferenciar uma qualidade de experiência ‘boa’/’agradável’ de uma outra ‘má’/’dolorosa’.
A partir do 2º mês, uma consciência difusa do objecto de satisfação das necessidades marca o
começo da fase de simbiose normal, na qual o bebé se comporta e funciona como se a sua mãe e ele
formassem um sistema omnipotente – uma unidade dual no interior dum só limite comum.
É neste momento que começam a haver falhas na barreira quase sólida (negativa porque não
investida) de protecção contra os estímulos – é a concha autística que parava os estímulos
exteriores, Graças ao deslocamento do investimento para a periferia sensório-perceptiva,
começa-se a formar um pára-excitações, protector mas também receptivo e selectivo, investido
positivamente, que começa a envolver a esfera simbiótica da unidade dual mãe-criança.
É evidente que se o bebé depende de maneira absoluta do parceiro simbiótico, a simbiose toma
um sentido diferente para o parceiro adulto da unidade dual. A necessidade que o bebé tem da
sua mãe é absoluta; a necessidade que a mãe tem do seu bebé é relativa.
Neste contexto, o termo simbiose é uma metáfora. Não descreve, como o conceito biológico de
simbiose, o que se passa realmente numa relação mútua benéfica entre dois indivíduos separados
de espécies diferentes. Descreve antes um estado de indiferenciação, de fusão com a mãe, no qual
o ‘eu’ não se diferencia ainda do ‘não-eu e onde o dentro e o fora só vêm gradualmente a serem
sentidos como diferentes. Toda a percepção desagradável, interna ou externa, é projectada para
lá do limite comum do meio interior simbiótico que inclui a gestalt do parceiro adulto durante os
cuidados maternos. E somente de maneira passageira que o bebé parece receber os estímulos
provenientes do exterior do meio simbiótico. O investimento libidinal fixado na esfera simbiótica
substitui a barreira inata de protecção contra os estímulos e protege o Ego rudimentar de toda a
tensão prematura e não adaptada, de todo o traumatismo de tensão.
O carácter essencial da simbiose é uma fusão somato-psíquica omnipotente, alucinatória ou
delirante, à representação da mãe e, em particular, à ideia delirante dum limite comum entre
dois indivíduos fisicamente separados. E a este mecanismo que regride o Ego nos casos mais
graves de individuação e de desorganização psicótica, descritos como ‘psicose simbiótica da
criança’.
A função e os meios de auto-conservação estão atrofiados na espécie humana. O Ego rudimentar
(ainda não funcional) do recém-nascido e do jovem bebé deve receber em complemento o apoio
emocional dos cuidados atentos da mãe, espécie de simbiose social. É no seio desta dependência
fisiológica e sócio-biológica da mãe que se opera a diferenciação estrutural que conduz à
organização adaptativa do indivíduo: o Ego no seu conjunto de funções.

CDuque 08-12-2008 8
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

O autismo normal e a simbiose normal são os dois primeiros estádios de não indiferenciação, o
primeiro an-objectal, o segundo pré-objectal. Ambos aparecem antes da diferenciação da matriz
indiferenciada, isto é, antes que sejam produzidas a separação e a individuação e a emergência
do Ego rudimentar como estrutural funcional.
A fase simbiótica normal caracteriza-se no bebé por um acréscimo do investimento preceptivo e
afectivo de estímulos que definimos como provenientes do mundo exterior, mas que o bebé,
segundo a nossa concepção, não reconhece claramente a origem exterior. O bebé começa por
estabelecer ‘ilhotas mnésicas’ mas não ainda uma diferenciação entre o interior e o exterior, o Eu
e o outro.
O mundo torna-se cada vez mais investido, sobretudo a pessoa da mãe, mas como unidade dual,
com um Eu ainda não claramente demarcado, nem cercado de fronteiras, nem experimentado. O
investimento na mãe representa a principal realização psicológica desta fase. Mas há, ainda,
continuidade com o que se passará de seguida.
Sabemos que o bebé responde de modo diferenciado aos estímulos provenientes do interior e aos
do exterior (a luz, por exemplo, será objecto duma experiência diferente da fome). Mas, se não
queremos postular a existência de representações inatas, temos boas razões para presumir que a
criança não tem nem conceito nem esquema de si e do outro ao qual atribuir e assimilar essas
diferenças de estímulos. Pensamos que a experiência do interior e do exterior se encontra ainda
vaga: o objecto mais investido, a mãe, é ainda um objecto parcial.
Os cuidados matemos e “o jogo” com a criança (segurá-la, apoiá-la, pegá-la ao colo, sustentá-la,
limpá-la, mexer nela...) são essenciais para a demarcação do Eu corporal no interior da matriz
simbiótica. Estas representações constituem o ‘esquema corporal’. A partir deste momento, as
representações do corpo que fazem parte do Ego rudimentar formam uma ligação entre as
percepções internas e externas. Isto corresponde à ideia de Freud que o Ego se modela pelo
impacto da realidade, por um lado, e pelas pulsões, por outro, O Eu corporal compreende dois
tipos de representações de si: um núcleo interno do esquema corporal, em que o limite se volta
para o interior do corpo e o separar do Ego; e um envelope externo de engramas sensório-
perceptivos, que contribuem para os limites do corpo próprio’.
As sensações internas do bebé constituem o núcleo do Eu. Elas permanecem o ponto central,
cristalizadas, do ‘sentimento de si’ em tomo do qual se estabelecerá um ‘sentimento de
identidade, O órgão sensório-perceptivo (‘o envelope externo do Ego’ – Freud) contribui
essencialmente para delimitar o Eu do mundo objectal. As duas espécies de estruturas
intrapsíquicas formam em conjunto o quadro de auto-orientação.
No seio da esfera simbiótica comum, pode-se dizer que os dois parceiros ou pólos da diade
polarizam os processos de organização e de estruturação. As estruturas derivadas deste duplo
quadro de referência representam uma base à qual todas as experiências deverão ser associadas
antes de se tornarem no Ego representações claras e unificadas do Eu e do mundo objectal. Spitz
diz que a mãe é o Ego auxiliar do bebé. Do mesmo modo, o ‘comportamento de apoio’ do
parceiro materno, a sua preocupação materna primária’ é o organizador simbiótico, a parteira da
individuação, do nascimento psicológico.

4.1.2. Processo de separação-individuação


O processo de separação-individuação ocorre em quatro sub-fases. Numa primeira sub-fase
verifica-se a diferenciação e desenvolvimento corporal. Na segunda sub-fase é sinónimo de
“ensaios”. Ao nível da terceira sub-fase verifica-se a procura da “reaproximação” em relação à
mãe ou aos objectos. E, por fim, na quarta sub-fase observa-se a “consolidação da
individualidade e início da permanência do objecto emocional”

CDuque 08-12-2008 9
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

4.1.2.1. 1ª Subfase: Diferenciação e desenvolvimento do esquema corporal


Por altura do 4º ou 5º mês, no momento culminante da simbiose, os fenómenos do
comportamento parecem indicar o começo da primeira subfase da separação-individuação, isto
é, a diferenciação. Ao longo dos meses de simbiose, o bebé familiarizou-se com a metade ma
terna do seu Eu simbiótico, tal como indica o sorriso não específico e social. Esse sorriso toma-se
gradualmente a resposta específica preferencial do sorriso da mãe, sinal decisivo que um laço
específico se estabeleceu entre o bebé e a sua mãe.
Freud sublinha o facto de que as percepções interiores são mais fundamentais e mais elementares
que as percepções exteriores. Estas percepções interiores são respostas do corpo a si mesmo e aos
órgãos internos, Greenacre sustenta que os estados de troca entre a tensão e a relaxação
‘parecem... constituir uma espécie de núcleo duma consciência difusa do corpo’.
Os padrões do que constitui o núcleo não são acessíveis através da observação, mas esta permite
estudar os comportamentos que, pelo mecanismo de reflexo em espelho, servem para a
demarcação do Eu e do ‘outro’. Jacobson sublinha o facto de que a capacidade de distinguir os
objectos se desenvolve mais rapidamente que a capacidade de distinguir entre o ‘eu’ e os
objectos. Podemos ver o bebé moldar-se ao corpo da sua mãe ou distanciando-se dele, Sentir o
seu próprio corpo e o da mãe, e manipular os objectos transicionais. Hofier acentua a
importância do tocar e mexer no processo de formação dos limites e igualmente a importância da
libidinização do corpo do bebé pela sua mãe, Greenacre chama a atenção sobre a ‘aproximação
dum sentimento de unicidade sob o efeito do corpo quente da mãe, que representa um grau
relativamente pequeno de diferença de temperatura, textura e odor. Estas diferenças
relativamente pequenas podem provavelmente ser facilmente assimiladas pelos esquemas
sensório-motores do bebé.
Quando o prazer interior originado numa fixação segura na esfera simbiótica continua e que o
prazer ligado à percepção sensorial exterior (visão ou olhar e, provavelmente, audição ou escuta
exterior), em via de maturação crescente, estimula o investimento da atenção dirigida para o
exterior, então estas duas formas de investimento da atenção podem oscilar livremente. O
resultado deveria ser um estado simbiótico óptimo. de onde pode nascer uma diferenciação sem
dor uma expansão fora da esfera simbiótica,
O ‘processo de eclosão’ é uma evolução ontogenética gradual do sensório – o sistema percepção-
consciência – que favorece no bebé, desde que esteja acordado, um sensório mais constantemente
alerta.
Noutros termos, a atenção do bebé, que nos primeiros meses da simbiose era dirigida em larga
medida para o interior, ou concentrada duma maneira vagamente cinestésica no interior da esfera
simbiótica, expande-se progressivamente com o começo de uma actividade perceptiva dirigida
para o exterior ao longo dos períodos de vigília cada vez maiores do bebé. E uma mudança mais
de grau que de espécie porque, no estado simbiótico, o bebé certamente que se manteve atento á
figura materna.
Mas esta atenção combina-se gradualmente com um stock crescente de traços mnésicos das idas
e vindas da mãe, das experiências ‘boas’ e ‘más’, sendo que estas últimas não podiam de
nenhuma maneira ser aliviadas pelo Eu, mas o bebé podia ‘antecipar com confiança’ o alivio
trazido pelos cuidados da mãe,
A partir dos 6 meses começa, a título de tentativa, a experimentação da separação-individuação.
Podemos fazer a observação a partir dos comportamentos do bebé, tais como puxar os cabelos, as
orelhas e o nariz, meter os alimentos na boca da mãe, tentar afastar o seu corpo do da mãe a fim
de ter uma melhor visão dela, explorar visualmente a sua mãe e o ambiente. Isto contrasta com o
simples facto de se moldar ao corpo da mãe, sendo pegado por ela. Há sinais precisos do facto de

CDuque 08-12-2008 10
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

que o bebé começa a diferenciar o seu próprio corpo do da sua mãe. Entre os é e os 7 meses é o
ponto culminante da exploração manual, táctil e visual do rosto da mãe e das suas partes tanto
cobertas como descobertas. E ao longo destas semanas que o bebé vai descobrir, com fascínio, um
colar, um par de óculos ou outro adorno usado pela mãe. Podem existir jogos de esconde-
esconde (O bebé não está. Está! Está!) nos quais o bebé joga ainda um papel passivo. Estes padrões
de exploração transformam-se mais tarde numa função cognitiva de verificação do não familiar
oposto ao já conhecido. Tocar e absorver as diversas partes do corpo pelos olhos (visão) ajuda a
reunir o corpo numa imagem central para além do nível da simples consciência sensorial
imediata.
É ao longo da primeira subfase da separação-individuação que todos os bebés normais efectuam
as suas primeiras tentativas de ruptura, no sentido corporal, com o seu estado (até agora
completamente passivo) de bebé-ainda-ao-colo – o estado de unidade dual com a mãe. Todas as
crianças gostam de se aventurar e continuar a uma distância ligeira dos braços envolventes da
mãe. Desde que tenham a capacidade motora, gostam de se deixar deslizar pelos joelhos da mãe,
mas têm tendência a ficar o mais perto possível da mãe, ou a ela retomarem para brincar.
A partir dos 7 ou 8 meses é o padrão visual de ‘reverificação junto da mãe’ o sinal relativamente
estável mais importante do começo da diferenciação somato-psíquica. Parece ser, de facto, o
padrão normal do desenvolvimento cognitivo e afectivo mais importante.
O bebé inicia uma exploração comparativa. Começa a interessar-se pela ‘mãe’ e parece compará--
la com o ‘outro’, o não familiar com o familiar, característica por característica. Parece
familiarizar-se de modo mais aprofundado com o que é a mãe, lhe dá a mesma sensação, tem o
mesmo gosto e cheira como ela, se parece com ela e faz o mesmo ‘som’ que ela. A par da
aprendizagem da ‘mãe enquanto mãe’, faz também a descoberta do que pertence ou não
pertence ao corpo da mãe – um colar ou uns óculos, Começa a estabelecer uma discriminação
entre a sua mãe e aquela ou aquele que se lhe parece ou não, que lhe dá uma sensação parecida
ou não e se desloca da mesma maneira ou diferente da da mãe.
Os primeiros padrões de diferenciação parecem não ser só duma grande racionalidade em
termos da relação mãe-criança e do talento particular de cada criança, mas parecem igualmente
desencadear os padrões de organização da personalidade que aparentemente persistem no
desenvolvimento futuro do processo de separação-individuação, e provavelmente mais além. E a
necessidade específica inconsciente da mãe que, a partir das potencialidades infinitas do bebé,
vai acordar aquelas em particular que criam para cada mãe ‘a criança’ que reflecte as suas
próprias necessidades únicas e individuais. Este processo desenvolve-se nos limites dos talentos
inatos da criança.
Os bebés e as mães que tiveram prazer numa fase simbiótica sem demasiados conflitos, aqueles
bebés que ficaram saturados, mas não super-saturados, ao longo deste período de unicidade
importante com a sua mãe, começam no momento normal a mostrar os sinais de diferenciação
activa, afastando-se ligeiramente do corpo da mãe. Pelo contrário, nos casos em que havia
ambivalência e parasitismo, intrusão, ‘sufocamento’ por parte da mãe a diferenciação mostra
perturbações em diversos graus e sob diferentes formas. Noutros casos, em que a mãe agia
claramente segundo as suas próprias necessidades simbiótico-parasitárias mais do que em
função do bebé, a diferenciação instala-se de modo quase veemente.
É no fim do primeiro ano e nos primeiros meses do segundo que podemos ver que há no
processo intrapsíquico da separação-individuação duas linhas de desenvolvimento, interligadas
mas não tendo sempre a mesma amplitude ou uma progressão proporcional. Uma destas linhas
é a individuação, a evolução da autonomia, da percepção, da memória, da cognição, da prova da
realidade. A outra e a linha intrapsíquica do desenvolvimento da separação, que leva à
diferenciação, à distanciação, á formação dos limites e ao afastamento da mãe. Todos estes

CDuque 08-12-2008 11
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

processos de estruturação culminarão eventualmente em representações interiorizadas do Eu,


que são distintas das representações interiores do objecto.
Os fenómenos comportamentais superficiais do processo de separação-individuação podem ser
observados em inúmeras variações subtis como acompanhando o desenvolvimento psíquico. As
situações óptimas parecem ser aquelas em que a consciência da separação corporal em termos da
diferenciação da mãe seguem paralelamente (isto é, não estão muito para trás nem muito para a
frente) ao desenvolvimento do funcionamento autónomo do bebé – cognição, percepção, memória,
prova da realidade, etc., isto é, as funções do Ego que servem à individuação.

4.1.2.2. 2ª Subfase: Ensaios


O período dos ensaios segue-se à subfase de diferenciação. Podemos subdividir o período dos
ensaios em duas partes:
1. O primeiro período dos ensaios, que se caracteriza pela capacidade do bebé em se afastar
fisicamente da sua mãe rastejando, gatinhando, trepando, e pondo-se em pé – demorando-se
sempre
2. O período dos ensaios propriamente dito, caracterizado do ponto de vista fenomenológico pela
locomoção livre em posição vertical.

Há pelo menos três desenvolvimentos interligados mas identificáveis que contribuem para os
primeiros progressos da criança para a consciência de estar separada e para a identificação: a
diferenciação corporal face á mãe; o estabelecimento duma ligação específica com ela; o crescimento e o
funcionamento dos aparelhos autónomos do Ego em relação estreita com a mãe.
Este desenvolvimento parece abrir a possibilidade ao bebé de estender o seu interesse pela mãe
para objectos inanimados apresentados por ela – cobertor, almofada, brinquedo, o biberão antes
da separação para a noite. O bebé explora visualmente estes objectos e examina o seu gosto, a sua
textura e o seu odor através dos órgãos perceptivos de contacto, em particular a boca e as mãos,
Seja qual for a fase de diferenciação, é característico deste primeira etapa de ensaios que, apesar
do interesse e da absorção destas actividades, é o interesse pela mãe que parece tomar
decisivamente a prioridade.
A maturação da locomoção e das outras funções ao longo do primeiro período de ensaios tem
um efeito dos mais salutares nas crianças que conheceram uma relação simbiótica intensa mas
inconfortável. Parece plausível que isto esteja ligado, pelo menos em parte, a um processo
simultâneo de desprendimento satisfatório por parte das mães. Estas mães, que estavam
angustiadas por não poderem acalmar a aflição dos seus bebés ao longo das fases de simbiose e
de diferenciação, ficam agora mais aliviadas por verem os seus filhos tomarem-se menos frágeis,
menos vulneráveis e um pouco mais independentes. Estas mães e os seus filhos não conseguiram
ter prazer no contacto físico estreito, mas podem ambos ter agora prazer a uma distância
ligeiramente maior. Estas mesmas crianças tornam-se mais calmas e mais capazes de recorrerem
às suas mães para encontrarem conforto e segurança.
Pelo contrário, podemos observar um outro padrão de interacção mãe-criança ao longo do
primeiro período dos ensaios naquelas crianças que procuravam mais activamente a
proximidade física da mãe, crianças cujas mães tinham a maior dificuldade em entrar em relação
com elas ao longo do processo de diferenciação activo. Estas mães apreciavam a proximidade da
fase simbiótica, mas uma vez esta fase passada, elas gostariam de ver os seus filhos tomarem-se
‘grandes duma só vez. E interessante notar que estas crianças acham difícil crescer. São incapazes
de ter prazer na sua capacidade nascente de se distanciarem e reclamam muito activamente a
proximidade.

CDuque 08-12-2008 12
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

A capacidade de locomoção crescente ao longo da primeira subfase dos ensaios alarga o universo
da criança. Não só tem um papel mais activo na determinação da proximidade e da distância à
mãe, mas as modalidades utilizadas até ai para explorar um ambiente relativamente familiar
expõem-no, de súbito, a um maior segmento da realidade: há mais para ver, mais para ouvir,
mais para tocar. O modo de experimentar este universo novo parece subtilmente ligado à mãe,
ainda o centro deste universo da criança, donde ela sai gradualmente por círculos cada vez mais
largos.
As primeiras explorações servem para:
1. Estabelecer uma familiaridade com um segmento maior do universo;
2. Percepcionar e reconhecer a mãe, a ter prazer com ela a uma distância maior. São as crianças que
têm um melhor ‘contacto à distância com a mãe que se aventuram mais longe dela.

Um bebé que esteja neste período dos ensaios ocupa-se alegremente a explorar por si mesmo o
seu ambiente físico. De tempos a tempos volta à sua mãe para efectuar uma recarga emocional.
Normalmente, a mãe aceita este desprendimento gradual do seu bebé e encoraja o seu interesse
pelos ensaios. Está emocionalmente disponível, atenta às necessidades da criança, e assegura este
apoio materno necessário a um desenvolvimento óptimo das funções autónomas do Ego.
Quando a criança, graças à maturação do seu aparelho de locomoção, se tenta aventurar a uma
maior distância em relação à sua mãe, Está muitas vezes tão absorvida nas suas próprias
actividades que, durante longos períodos de tempo, esquece aparentemente a presença da mãe.
Contudo, volta a ela regularmente, parecendo ter necessidade de vez em quando da sua
proximidade física.
A distância óptima, neste primeiro período dos ensaios, parece ser aquela que dá à criança a
liberdade de se deslocar, de explorar gatinhando e a oportunidade de explorar a uma certa
distância física da mãe. E necessário notar, contudo, que ao longo de toda a subfase dos ensaios a
mãe continua a ser necessária como ponto fixo, ‘porto de abrigo’, para preencher a necessidade
de recarga por contacto físico. Os bebés de 7 a 10 meses gatinham ou arrastam-se rapidamente
em direcção à sua mãe, apoiando-se ao longo da sua perna, tocando-a, ou simplesmente
apoiando-se nela. É o que se designa por ‘recarga emocional’. É fácil de constatar a rapidez com
que o bebé abatido e cansado se ‘revigora’ após o contacto com a mãe: volta rapidamente à sua
exploração e deixa-se mais uma vez absorver pelo prazer que tem com o seu funcionamento.
Com o desenvolvimento das funções autónomas, como a cognição, e mais particularmente a
locomoção em posição vertical começa ‘a história de amor com o mundo’, O bebé passa o maior
degrau da individuação humana. Caminha livremente em posição vertical. Por isso, o plano da
sua visão muda. Dum ponto de vista completamente novo, descobre perspectivas, prazeres e
frustrações inesperados e novos. A posição em pé trás um nível visual novo.
Durante estes preciosos 6 a 8 meses (dos 10 ou 12 meses aos 16-18 meses), o mundo é a ostra do
bebé. O investimento libidinal desloca-se de modo substancial para se meter ao serviço do Ego
autónomo, em vias de crescimento rápido, e das suas funções. E a criança parece intoxicada pelas
suas próprias faculdades e da imensidade do seu próprio universo, O narcisismo encontra-se no
ponto auge! Os primeiros passos independentes da criança em posição vertical marcam o início
dos ensaios por excelência, com um alargamento substancial do seu universo e da sua prova da
realidade. Há um investimento libidinal, crescendo de maneira estável, dos talentos motores
para os ensaios, da exploração do ambiente que se expande, tanto humano como inanimado. A
principal característica deste período dos ensaios é, na criança, o grande investimento narcísico
das suas próprias fincões, do seu próprio corpo enquanto objecto e objectivos da sua ‘realidade’
em crescimento. Paralelamente, constatasse uma impermeabilidade relativamente grande aos
golpes, quedas e frustrações (o facto de outra criança agarrar um brinquedo, por exemplo).

CDuque 08-12-2008 13
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

A criança fica maravilhada com os seus próprios talentos, continuamente orgulhosa das
descobertas que faz no seu universo em vias de expansão e quase apaixonado pelo universo e
pela sua própria grandeza e omnipotência.
A importância de caminhar para o desenvolvimento emocional da criança é inestimável. Andar
dá ao bebé muito mais possibilidade de descobrir a realidade e de fazer a prova do universo, sob
o seu próprio controlo e poder mágico.
Ao longo do mês que se segue imediatamente à aquisição da locomoção livre e activa, a criança
faz sérios progressos na afirmação da sua individualidade. Parece ser o primeiro grande passo
para a formação da identidade, A locomoção livre em posição vertical parece tomar-se para
numerosas mães a prova suprema de que os seus bebés ‘conseguiram’.
Resumindo, andar parece ter, tanto para a mãe como para o bebé, uma grande significação
simbólica: é como se o bebé que anda tivesse a prova, pela sua locomoção independente em
posição vertical, de que ele já foi promovido ao mundo dos seres humanos independentes. A
antecipação e a confiança fornecidas pela mãe, que tem um sentimento de que o seu filho pode
‘conseguir’, parecem servir de despoletadores importantes para o próprio sentimento de
segurança da criança e constituir o encorajamento inicial para que ela troque uma parte da sua
magia omnipotente pelo prazer ligado à sua própria autonomia e à estima de si crescente.

4.1.2.3. 3ª Subfase: reaproximação


Graças à aquisição da locomoção livre em posição vertical e à realização, pouco tempo depois, do
estádio do desenvolvimento que Piaget considera como o início da inteligência representativa
(que culminará no jogo simbólico e no discurso), o ser humano emergiu como pessoa separada e
autónoma. Estas duas ‘forças organizadoras’ são as parteiras do nascimento psicológico. Neste
estádio final do processo de ‘eclosão’ o bebé atinge o primeiro nível de identidade – ser uma
entidade individual separada.
Durante o 2º ano de vida, o bebé torna-se cada vez mais consciente do facto de estar fisicamente
separado e utiliza este facto cada vez mais extensivamente. Contudo, paralelamente ao
crescimento das suas faculdades cognitivas e à diferenciação crescente da sua vida emocional, há
uma diminuição assinalável da sua anterior imperturbabilidade à frustração e, igualmente, uma
diminuição do que foi uma tendência relativa a esquecer a presença da sua mãe.
Podemos observar um aumento da angústia de separação: no início consiste essencialmente no
medo de perder o objecto, e que podemos inferir a partir de numerosos comportamentos das
crianças. A ausência relativa de preocupação relacionada com a presença da mãe, característica
da subfase dos ensaios, encontra-se agora substituída por uma preocupação aparentemente
constante relacionada com as idas e vindas da mãe e por um comportamento activo de
aproximação. A medida que se desenvolve no bebé a sua consciência de ser separado –
estimulada pela sua capacidade, adquirida por maturação, de se afastar fisicamente da mãe e
pelo seu crescimento cognitivo – parece haver uma necessidade acrescida, um desejo maior de
ver a sua mãe partilhar com ela cada um dos seus talentos e das suas novas experiências, e um
desejo muito grande do amor do objecto.
Como já foi descrito anteriormente, a necessidade de proximidade entrou em declínio durante o
período dos ensaios. É por esta razão que esta subfase se designa por reaproximação.
O género de aproximação corporal ‘de recarga que caracterizou a criança durante o período dos
ensaios, é substituída (a partir dos 15-24 meses) pela procura deliberada, ou o evitamento, do
contacto corporal estreito. Isto é agora marcado pela interacção do bebé e da sua mãe a um nível

CDuque 08-12-2008 14
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

muito mais elevado: a linguagem simbólica, tanto vocal como sob outros modos de comunicação,
e o jogo tomam-se cada vez mais predominantes.
Ao longo da subfase de reaproximação observam-se reacções à separação em todas as crianças
Os dois padrões característicos do comportamento do bebé nestas idades – o seguimento da mãe
(o hábito incessante da criança de vigiar e seguir cada um dos movimentos da mãe) e a partida
precipitada para longe dela, com a expectativa de ser perseguida e pegada nos seus braços –
indicam o seu desejo de reunião com o objecto de amor e o seu medo de ser reincorporada.
Observa-se no bebé um padrão de ‘afastamento’ dirigido contra todo o impedimento sobre a sua
autonomia recentemente adquirida. Mais, o seu medo nascente de perder o amor representa um
elemento de conflito com a interiorização. Na idade da reaproximação, certas crianças parecem
ser já mais sensíveis á desaprovação. Apesar de tudo, a autonomia é defendida pelo ‘não’, assim
como pela agressividade acrescida e o negativismo da fase anal.
Durante o período dos ensaios, e paralelamente à aquisição dos talentos primitivos e das
faculdades perceptivas cognitivas, produziu-se uma diferenciação cada vez mais clara, uma
separação entre a representação intrapsíquica do objecto e a representação do Eu. No apogeu do
seu domínio sobre o mundo, no final do período dos ensaios, o bebé começou a entrever que o
universo não era uma ostra, que tinha de o enfrentar mais ou menos ‘por ele mesmo’, muitas
vezes como indivíduo relativamente sem defesas, pequeno e separado, incapaz de solicitar apoio
ou assistência pelo simples facto de sentir a necessidade ou mesmo de dar voz a essa
necessidade.
A qualidade e o grau do comportamento de solicitação do bebé face á sua mãe ao longo desta
subfase fornece indicadores importantes relacionados com a normalidade do processo de
individuação. O medo da perda do amor do objecto (mais do que o medo da perda do objecto)
toma-se cada vez mais evidente,
É normal a existência de incompatibilidades e incompreensões entre a mãe e o seu filho. Estas
incompatibilidades e incompreensões estão enraizadas nalgumas contradições desta subfase. A
exigência do bebé de ver a sua mãe constantemente implicada parece contraditória para a mãe:
agora que ele já não é tão dependente e não está tão desarmado em comparação com seis meses
atrás, e que o deseja ser cada vez menos, manifesta, contudo e com cada vez maior insistência, o
desejo de ver a sua mãe partilhar com ele todos os aspectos da sua vida.
Ao longo desta 3ª subfase, o da reaproximação, quando a individuação se efectua muito
rapidamente e que a criança a exerce até ao limite, a criança toma-se igualmente cada vez mais
consciente de estar e de ser separada, e recorre a todos os mecanismos a fim de resistir a, e a
desfazer, esta realidade de separação em relação à mãe. É um facto, entretanto, que, seja qual for
a influência exercida pela criança sobre a mãe, os dois não podem funcionar efectivamente mais
como uma unidade dual – isto é, a criança já não pode sustentar o delírio da força omnipotente
parental que, espera ele em determinados momentos, vai restaurar o status quo simbiótico.
A comunicação verbal toma-se cada vez mais necessária. A utilização dos gestos por parte da
criança e a empatia pré-verbal mútua entre a mãe e a criança não são mais suficientes para
atingirem o objectivo comunicacional. O bebé apercebe-se pouco a pouco que os seus objectos de
amor (os seus pais) são indivíduos separados, tendo os seus próprios interesses pessoais. Ele
deve, pouco a pouco e não sem sofrimento, abandonar o seu delírio sobre a sua própria
grandeza, muitas vezes através de lutas dramáticas com a mãe – e em grau menor com o pai. É
este cruzamento que se designa por ‘crise de reaproximação’.
Se a mãe está ‘discretamente disponível’, com uma provisão acessível de líbido objectal, se ela
partilha as explorações aventureiras do seu bebé, se ela interage com ele nos jogos e nas
brincadeiras, e facilita deste modo os seus esforços salutares para imitar e se identificar, então a

CDuque 08-12-2008 15
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

interiorização da relação entre a mãe e o bebé pode progredir até ao ponto onde, no momento
previsto, a comunicação verbal se toma relevante, mesmo se há ainda predominância dum
comportamento gestual bem saliente, No final do 2º ano e início do 3º, a implicação emocional
previsível por parte da mãe parece facilitar o desenvolvimento florescente dos processos mentais
do bebé, a prova da realidade e os comportamentos para os realizar. Por outro lado, o
crescimento emocional da mãe na sua função materna, a sua vontade emocional de deixar ir o
bebé – de lhe dar, como a mãe-pássaro, um ligeiro empurrão, um encorajamento para a
independência – ajuda grandemente. Pode mesmo ser uma condição sine qua non da
individuação normal e sã.
Aquilo que se designa por ‘seguimento’ da mãe parece, até certo ponto, necessário ao bebé (ou o
seu contrário, a partida precipitada), muitas vezes verificada no início desta subfase). Nos casos
normais, o ‘seguimento’ faz parte, na segunda metade do 3º ano, dum certo grau de permanência
do objecto. Entretanto, quanto menos a mãe se mostra disponível no momento da reaproximação
mais o bebé tentará solicitá-la intensamente e desesperadamente. Em certos casos, este processo
canaliza de tal modo a energia disponível da criança para o desenvolvimento que não restará
suficiente energia, nem de líbido nem de agressividade construtiva (ambas neutralizadas), para a
evolução das numerosas funções ascendentes do Ego.
Pelos quinze meses, regista-se uma mudança importante na qualidade da relação da criança com
a sua mãe. Ao longo do período dos ensaios a mãe representava o ‘porto de abrigo’ para o qual a
criança retomava quando necessitava – necessidade de comida, de reconforto ou de ‘recarga’,
quando estava cansada. Mas, ao longo deste período, a mãe não parecia ser reconhecida como
pessoa separada de pleno direito. Para algumas, perto dos 15 meses, a mãe não é somente o porto
de abrigo’. Parecia transformar-se numa pessoa com quem o bebé deseja partilhar as suas
descobertas do mundo cada vez mais alargado. O sinal de comportamento mais importante neste
novo modo de relação é o facto, para o bebé, de trazer incessantemente coisas à mãe, cobrindo os
seus joelhos de objectos que ele encontra no seu universo em vias de expansão. Todos eles têm
interesse para ele, mas o investimento emocional principal repousa na necessidade da criança os
partilhar com a sua mãe. Ao mesmo tempo, o bebé indica à sua mãe, por palavras, sons ou
gestos, o seu desejo de a ver interessada nas suas ‘descobertas’ e partilhar o prazer que ele tem.
Ao mesmo tempo que começa a ter consciência de ser separada, a criança apercebe-se que os
desejos da sua mãe não parecem sempre idênticos aos seus – ou, pelo contrário, que os seus
desejos não coincidem sempre com os da sua mãe. Esta constatação representa um desafio
imenso ao seu sentimento de grandeza e de omnipotência do período dos ensaios, quando a
criança se sentia nos ‘píncaros do universo’. E dado um grande golpe na crença da sua
omnipotência e é perturbada a beatitude da unidade dual!
A fonte de maior prazer da criança desloca-se da locomoção independente e da exploração do
universo inanimado em vias de expansão para a interacção social. Os jogos de esconde-esconde,
assim como os jogos de imitação, tomam-se nos passatempos favoritos. O reconhecimento da
mãe como pessoa separada do grande universo faz-se paralelamente à tomada de consciência da
existência separada de outras crianças, do facto de que elas são parecidas e, em simultâneo,
diferentes do seu próprio Eu. A prova é dada pelo facto das crianças manifestarem um maior
desejo de ter e de fazer o que outra criança tem ou faz – isto é, um desejo de reflectir em espelho,
de imitar e de se identificar, até certo ponto, com outra criança. Ao mesmo tempo que se
desenvolvem estas novas características, aparece a ira especifica dirigida a um objectivo, a
agressividade se o objectivo não puder ser atingido. Não podemos esquecer que estes
desenvolvimentos se dão a meio da fase anal, com as suas características de aquisitividade, de
ciúme e de inveja.

CDuque 08-12-2008 16
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

Nesta subfase, o bebé parece experimentar o seu corpo como sua possessão. Deixa de gostar de
ser manipulado: resiste a ser segurado numa posição passiva quando o vestem, E não gosta de
ser acarinhado e abraçado, a não ser que esteja preparado.
O desejo da criança por uma autonomia acrescida tem expressão não só no negativismo face aos
outros e à mãe, mas também se traduz numa extensão activa do universo mãe-criança:
principalmente a inclusão do pai. O pai, como objecto de amor, pertence muito cedo a uma categoria
de objectos de amor inteiramente diferente da da mãe. Se bem que ele não esteja completamente
fora da união simbiótica também não faz completamente parte. Mais, o bebé percebe
provavelmente cedo uma relação especial do pai com a mãe.
Mas na altura da reaproximação a criança desenvolve relações com outras pessoas que não o pai
e a mãe.
Durante a primeira fase de reaproximação, regista-se uma mudança interessante nas reacções das
crianças face à presença ou ausência da sua mãe. Estão agora cada vez mais conscientes da
ausência da mãe e perguntam onde ela está. Por outro lado, contudo, são capazes igualmente de
se manterem cada vez mais absorvidas pelas suas próprias actividades, e muitas vezes não
gostam de ser interrompidas. Querem ‘ir ver’ a mãe, mas sem a intenção de se demorarem perto
dela, só um momento, para de seguida continuarem com as suas ocupações.
À medida que progridem na subfase de reaproximação, as crianças encontram novas maneiras
activas de enfrentarem a ausência da mãe (considerando a hiperactividade e a agitação motora
como uma actividade defensiva precoce contra a tomada de consciência do afecto doloroso da
tristeza): entram em relação com substitutos adultos e absorvem-se nos jogos simbólicos.
Numerosas formas de jogo traduzem a sua identificação precoce à mãe ou ao pai – por exemplo,
a sua forma de segurar as bonecas ou os ursos. Parece instalar-se o início da interiorização da
representação do objecto.
Para a maioria das crianças, o primeiro período da reaproximação conhece o seu apogeu perto
dos 17-18 meses, pelo que parece uma consolidação e uma aceitação temporárias da consciência
de ser separada. Isto é acompanhado por um grande prazer em partilhar objectos e actividades
com a mãe e com o pai e, cada vez mais, com o universo social agora em vias de expansão,
compreendendo não só os adultos mas também outros bebés, crianças da sua idade e mais
velhas. Ao longo do período dos ensaios a palavra ‘adeus’ era a mais importante. A palavra mais
importante neste período de reaproximação é ‘olá’.
Aos 18 meses, as crianças parecem muito impacientes por exercerem em toda a sua extensão a
sua autonomia rapidamente crescente. Cada vez mais, preferem não ser lembradas que em
determinados momentos não se conseguem desembaraçar sozinhas, Seguem-se conflitos que se
parecem articular no desejo de ser separada, grande e omnipotente, por um lado, e, por outro, de
ver a sua mãe concretizar magicamente os seus desejos, sem ter de reconhecer que a ajuda vem
do exterior, do outro.
É característico desta idade que as crianças recorram à sua mãe como extensão do seu Eu –
processo pelo qual negam a consciência dolorosa de estarem separadas. Um comportamento
típico deste género consiste em pegar na mão da mãe e usá-la como instrumento para ir buscar o
objecto desejado.
Aos 21 meses podemos observar uma atenuação dos esforços de reaproximação. Verifica-se, a
reivindicação por um controlo omnipotente, os períodos extremos de angústia de separação, a
alternância das exigências de proximidade e de autonomia diminuem. Enquanto isso acontece,
parece que cada criança procura, mais uma vez, encontrar a distância óptima à sua mãe, A
distância a partir da qual a criança pode funcionar melhor.

CDuque 08-12-2008 17
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

Os elementos de individuação crescente que parecem tomar possível esta capacidade de


funcionar melhor a uma distância maior, e sem a presença da mãe, são os seguintes:
1. O desenvolvimento da linguagem, no sentido de nomear os objectos e de exprimir os seus desejos
com palavras precisas. A possibilidade de nomear os objectos parece fornecer à criança um maior
sentimento de controlo do seu ambiente;
2. O processo de interiorização, que podemos inferir a partir de actos de identificação com a ‘boa’
mãe ou o ‘bom’ pai, fontes de aprovisionamento, e a partir da interiorização de regras e de
exigências (início do Super-Ego);
3. Um progresso na capacidade de exprimir os seus desejos e os seus fantasmas pelo jogo simbólico e
a utilização do jogo com fins de domínio da realidade.

Quando as crianças atingem o 21º mês constata-se que já não é possível reagrupá-las segundo os
critérios gerais anteriores. As vicissitudes dos seus processos de individuação são tão diferentes e
produzem-se com tal rapidez que não são mais específicos duma fase mas, antes, muito distintas
individualmente e diferentes de criança para criança. O ponto principal não é tanto a consciência de
ser separada mas antes como essa consciência é afectada pela, e afecta a relação mãe-criança, a
relação pai-criança (esta última muito claramente diferente da primeira), e a integração da
personalidade individual e total da criança. Existem grandes diferenças entre rapazes e
raparigas. Enquanto que os rapazes manifestam uma maior tendência para se separarem da mãe
e terem prazer no seu funcionamento no universo em expansão, as raparigas exigem uma maior
proximidade e fixam-se nos aspectos ambivalentes da relação.
Ao 23º mês, parece que a capacidade dos crianças enfrentarem a consciência da separação, tanto
quanto ao facto físico da separação, depende, em cada caso, da história da relação mãe-criança e
do seu estado actual.
Sejam quais forem as diferenças sexuais que pré-existam no domínio dos aparelhos do Ego e dos
primeiros modos do Ego, elas são certamente complexas e marcadas geralmente pelos efeitos da
descoberta pela criança das diferenças dos sexos. Isto produz-se ao 20º-21º meses, por vezes antes (16º-
l7º meses).
A descoberta pelo rapaz do seu próprio pénis dá-se mais cedo. A componente sensório-táctil
desta descoberta pode dar-se no 1º ano de vida, mas subsistem dúvidas quanto ao seu impacto
emocional. Aos 12-14 meses a posição vertical facilita a exploração visual e sensório-motriz do
pénis.
Quando as raparigas descobrem o pénis são confrontadas com qualquer coisa que lhes falta. Esta
descoberta origina alguns comportamentos que indicam claramente a angústia, a cólera e a
desconfiança das raparigas. Elas desejam desfazer a diferença sexual.
Resumindo, parece que a tarefa de se tomar um indivíduo separado parece, neste momento, ser
geralmente mais difícil para as raparigas que para os rapazes, porque as raparigas descobrindo
as diferenças dos sexos têm tendência a revoltarem-se contra a mãe, a responsabilizá-la, a exigir
dela, estão desapontados e, apesar de tudo, permanecem ligadas a ela de maneira ambivalente,

4.1.2.4. 4ª Subfase: Consolidação da individualidade e início da Permanência do


objecto emocional
Do ponto de vista do processo de separação-individuação, a tarefa principal da 4ª subfase
apresenta-se em dois elementos: 1) a aquisição duma individualidade bem definida e, sob certos
aspectos, para toda a vida; e 2) a realização dum certo grau de permanência do objecto.
No que diz respeito ao Eu, há uma estruturação extensiva do Ego e há sinais precisos da
interiorização das interdições parentais, que indicam a formação dos precursores do Super-Ego.

CDuque 08-12-2008 18
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

A realização da permanência do objecto afectivo (emocional) depende da interiorização gradual


duma imagem interior da mãe, imagem constante e investida de energia positiva. Para começar,
Isso permite à criança funcionar separadamente num ambiente familiar, apesar dum certo grau
(moderado) de tensão e de desconforto. A permanência do objecto emocional será fundada, em
primeiro lugar, na aquisição cognitiva do objecto permanente, mas todos os outros aspectos do
desenvolvimento da personalidade da criança participam igualmente nesta evolução. A última
subfase (o 3º ano de vida) é um período extremamente importante do ponto de vista do
desenvolvimento intrapsíquico: um sentimento estável de identidade é atingido (limites do Eu).
Parece também ser nesta subfase que se dá uma consolidação primitiva da identidade sexual.
Mas a permanência do objecto implica mais que a manutenção da representação do objecto de
amor ausente. Implica também a unificação do bom’ e do ‘mau’ objectos numa só representação
global. Isto favorece a intrincação das pulsões agressivas e libidinais, e ameniza o ódio ao objecto,
quando a agressividade é intensa. Num estado de permanência do objecto, um objecto de amor
não será rejeitado ou trocado por outro se já não dá satisfação. Neste estado, a nostalgia do
objecto subsiste sempre e este não é rejeitado (odiado) como sendo insatisfatório simplesmente
por causa da sua ausência.
Os principais factores que determinam a permanência do objecto são: 1) a confiança e a
segurança adquiridas graças à experiência repetida do alívio da tensão por um agente de
satisfação das necessidades e tão precocemente como a fase simbiótica. Ao longo das subfases do
processo de separação-individuação, o alívio da tensão da necessidade é gradualmente atribuída
ao objecto total (a mãe), fonte de satisfação das necessidades, e de seguida transferida, por meio
da interiorização, para a representação intrapsíquica da mãe; e 2) a aquisição cognitiva da
representação simbólica interior do objecto permanente (segundo o significado puramente
cognitivo de Piaget), de objecto único de amor, a mãe.
A maturidade plena da relação, própria da criança em idade escolar e do adulto revela-se por
uma relação do objecto de amor sob a forma de uma troca mútua (dar e receber).
Uma vez que é neste período que a criança aprende a exprimir-se verbalmente, podemos traçar
algumas vicissitudes do processo intrapsíquico da separação com a mãe, e os respectivos
conflitos, por intermédio do material verbal e pela fenomenologia do comportamento. A
comunicação verbal, que se Iniciou ao longo da 3 subfase, desenvolve-se rapidamente nesta 4
subfase da separação-individuação e substitui lentamente as outras formas de comunicação. A
linguagem gestual do corpo continua, contudo, presente. Começa a ser constituído um
significado da temporalidade, e com ela uma maior capacidade de tolerar um adiamento da
gratificação e de prolongar a separação. A criança compreende e utiliza os conceitos de ‘mais
tarde’ e ‘amanhã’.
A 4ª subfase caracteriza-se pelo desenvolvimento das funções cognitivas complexas:
comunicação verbal, fantasmatização e prova da realidade. Ao longo deste período de
diferenciação rápida do Ego (dos 20 ou 22 meses até aos 30 ou 36 meses), a individualização
desenvolve-se rapidamente e a aquisição das representações mentais do Eu como distintamente
separadas das representações do objecto, abre a via à formação da identidade do Eu.
Ao longo da segunda metade do 3º ano, e nos casos ideais, o investimento libidinal persiste
mesmo na ausência de satisfação imediata e mantém o equilíbrio emocional da criança durante
as ausências temporárias do objecto.
As principais condições da saúde mental, no que diz respeito ao desenvolvimento pré-edipiano,
repousam na aquisição pela criança duma capacidade contínua de manter e de restaurar a estima
de si, no contexto duma relativa permanência do objecto libidinal. Na 4ª subfase, que não tem
fim, as duas estruturas internas – a permanência do objecto libidinal e também a imagem

CDuque 08-12-2008 19
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

unificada do Eu baseada nas verdadeiras identificações do Ego – devem-se começar a


desenvolver.

5. TEORIA DO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO


“A aprendizagem era outrora o domínio privilegiado das teorias comportamentais. Também actualmente é
estudada no quadro das teorias do desenvolvimento cognitivo” (Vandenplas-Holper, 1982, p. 231), que
analisam as interacções entre desenvolvimento e aprendizagem (Coll, 1984; Furth, 1974; Inhelder,
Sinclair & Bovet, 1974; Piaget, 1973; Piaget & Chomsky, 1987; Piaget & Gréco, 1974; Pontecorvo,
1988; Tavares & Alarcão, 1989; Vygotsky, 1977).
Segundo Vandenplas-Holper (1982), enquanto que as teorias da aprendizagem social insistem
sobretudo na acção determinante do meio, os teóricos do desenvolvimento cognitivo põem a tónica
quase exclusivamente na actividade estruturante do sujeito que, do interior, organiza os dados do
mundo físico e social (Inhelder, Sinclair, & Bovet, 1974; Perret-Clermont, 1979; Piaget, 1973; 1974;
1976a; 1976b; 1978; Piaget & Chomsky, 1987; Piaget & Gréco, 1974).
À semelhança da observação de Lewin, também Piaget (Piaget & Chomsky, 1987) e Inhelder,
Sinclair e Bovet (1974), interrogando-se sobre a validade das experiências realizadas sobre o
primado das teorias associacionistas da aprendizagem, também consideram que estas são
“fenómenos particulares que devem ser inseridos num sistema explicativo muito mais geral
(Inhelder, Sinclair, & Bovet, 1974, p. 34), nomeadamente através de uma rigorosa experimentação
realizada segundo os pressupostos de uma epistemologia estrutural e genética (Piaget & Gréco,
1974; Inhelder, Sinclair, & Bovet, 1974).

5.1. Desenvolvimento Cognitivo da Inteligência

5.1.1. Interaccionismo piagetiano


Vandenplas-Holper (1982, p. 27) acentua que “a teoria de Piaget é uma teoria interaccionista e
constructivista”, isto é, o desenvolvimento cognitivo é visto em função das interacções que o
sujeito estabelece com os objectos, físicos e sociais (Inhelder, Sinclair, & Bovet, 1974; Piaget, 1973;
1976a; 1976b; Vandenplas-Holper, 1987). “O sujeito humano constrói o seu conhecimento dos
objectos, incluindo os outros humanos, interagindo activamente com eles” (Vandenplas-Holper,
1987, p. 19), que é um processo no qual “o indivíduo é em parte agente da sua própria mudança
e participa na orientação do desenvolvimento” (Gilly & Piolat, 1986, p. 22) e onde o
conhecimento é construído em sucessivas etapas evolutivas e adaptativas, visando sucessivos
'equilíbrios majorantes' (Piaget, 1987), equilíbrios que correspondem a modos estruturais
diferentes e superiores de compreensão e apreensão da realidade do meio físico e social.
Por outro lado, Inhelder, Sinclair e Bovet (1974, p. 14) consideram que a contribuição de Piaget se
caracteriza por “três traços dominantes:
1. A dimensão biológica;
2. A interacção dos factores sujeito-meio...;
3. O construtivismo psicogenético”.

CDuque 08-12-2008 20
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

5.1.2. Adaptação e Evolução


Condenando o empirismo, Piaget (1973; 1974; 1987) tem como ponto de partida para a sua teoria
de desenvolvimento cognitivo os fundamentos filosóficos preconizados por Kant sobre a origem
do conhecimento humano: os conhecimentos 'a priori' (Piaget & Chomsky, 1987).
Para Piaget (1973; Piaget & Chomsky, 1987; Piaget & Gréco; 1974; Inhelder, Sinclair, & Bovet,
1974) o desenvolvimento cognitivo da inteligência rege-se por processos de adaptação e evolução
análogos aos processos adaptativos e evolutivos encontrados em Biologia e analisados noutros
seres vivos.
À nascença a criança possui estruturas orgânicas hereditárias (Inhelder, Sinclair, & Bovet, 1974)
ou, como nos diz Piaget (Piaget & Chomsky, 1987, p. 395), “...o funcionamento (da estrutura
cognitiva) implica mecanismos nervosos hereditários”.

5.1.3. Assimilação e Acomodação


Segundo Inhelder, Sinclair e Bovet (1974), as primeiras condutas de adaptação cognitiva
processam-se através de assimilação funcional a partir de estruturas biologicamente pré-
existentes. Assimilação no sentido do sujeito incorporar elementos novos nas estruturas
programadas hereditariamente.
Por outro lado, esta actividade de assimilação ou de incorporação, na medida em que se
reproduz e se generaliza, conduz a mudanças na cognição sensório-motora, através da
acomodação diferenciadora. Deste modo, essa assimilação está na “origem dos primeiros
esquemas de conhecimento do sujeito e da sua integração constituem-se as novas condutas que
não estão inscritas nas estruturas orgânicas hereditárias” (Inhelder, Sinclair, & Bovet, 1974, p. 15).
Essas estruturas hereditárias não determinam em absoluto o desenvolvimento cognitivo do
sujeito (Inhelder, Sinclair, & Bovet, 1974), pressupõem antes uma “...hereditariedade de
funcionamento das próprias construções” (Piaget, 1987, p. 281), isto é, o conhecimento concreto não está
inscrito e biologicamente pré-programado (Eibl-Eibesfeldt, 1978), o modo estrutural de
funcionamento cognitivo de aquisição e construção do conhecimento, físico ou lógico-
matemático, é que é hereditário (Inhelder, Sinclair, & Bovet, 1974; Piaget & Chomsky, 1987).
Deste modo, Piaget não se situa no campo estritamente apriorístico: “Do ponto de vista
epistemológico, a ausência de toda a aprendizagem das estruturas lógicas, seria então
naturalmente favorável a uma interpretação apriorística. Recorrendo a um puro
desenvolvimento interno, a redução possível de tal aprendizagem, reconhecida como existente, à
das estruturas físicas, conduziria pelo contrário a uma interpretação empirista, enquanto o
circulo presumido das estruturas lógicas aprendidas e das estruturas anteriores constituindo a
condição dessa aprendizagem sugeriria uma interpretação interaccionista, na qual seria
necessário aliás precisar o papel de existência e das actividades do sujeito” (Piaget, 1975, p. 25).

5.1.4. Construtivismo piagetiano


Em epistemologia genética, o sujeito e o objecto não são dissociáveis (Inhelder, Sinclair, & Bovet,
1974). O sujeito só pode conhecer o objecto através das relações e acções que exerce sobre esse
mesmo objecto, realizando 'aproximações sucessivas' ao conhecimento deste (Inhelder, Sinclair,
& Bovet, 1974).
O conhecimento dos objectos não é um dado imediato, o sujeito elabora o objecto segundo duas
direcções complementares e interdependentes: “aquela que conduz à elaboração de formas de
conhecimento ou estruturas lógico-matemáticas e aquelas que conduzem ao conhecimento dos objectos e das

CDuque 08-12-2008 21
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

relações espacio-temporais e causais que os constituem” (Inhelder, Sinclair, & Bovet, 1974), ou às
estruturas lógicas e às estruturas físicas (Piaget, 1974).

5.1.5. Estádios do Desenvolvimento Cognitivo


Obviamente, que a construção desse conhecimento é feito em sucessivas etapas, que Piaget
baptizou de estádios de desenvolvimento cognitivo, que mais não são, cada um deles, que
formas bem diferenciadas de esquemas, e de coordenação de esquemas de apreensão e
construção da realidade (física e social), que correspondem a formas dinâmicas de equilíbrio da
estrutura cognitiva.

5.1.6. Coordenação de Esquemas e Equilibração


No início os esquemas cognitivos só são parcialmente coordenados, o que origina julgamentos
contraditórios ou incompatíveis entre si (Inhelder, Sinclair, & Bovet, 1974) e que correspondem a
uma forma determinada de equilíbrio da estrutura cognitiva (Piaget, 1973; 1974; 1987). Com a
subsequente construção de esquemas lógico-matemáticos melhor coordenados entre si e que
correspondem a formas superiores de apreensão lógica dos objectos físicos e sociais (que são
testemunhos da capacidade organizativa da estrutura cognitiva – Inhelder, Sinclair e Bovet, 1974
–, através de sucessivos equilíbrios ou processos de equilibração – Piaget, 1978 – ou equilibração
cognitiva – Piaget e Chomsky, 1987 – ampliadores ou majorantes – Piaget e Chomsky, 1987) estes
conduzem, não a retornos a formas anteriores de equilíbrio, mas sim a formas superiores de
equilíbrio, “caracterizada pelo aumento das dependências mútuas ou implicações necessárias” (Piaget,
1987, p. 60).

5.1.7. Desenvolvimento e Aprendizagem


As teorias do estímulo-resposta, S – R, ou a sua evolução estímulo-organismo-resposta, S – O –
R, de Hull, são acusadas por Smesdlund (Piaget & Gréco, 1974) de imprecisão na definição de S e
de R (que acusa de ser tão precisa como a utilização de esquemas causas-efeitos). Piaget (1974)
considera, por sua vez, que “o esquema S – R constituiria uma verificação do empirismo se (se
pudesse) reduzir o estímulo S às propriedades do objecto e se (se pudesse) reciprocamente
reduzir a parte do sujeito no conhecimento às respostas R” (Piaget & Gréco, 1974, pp. 20-21).
Deste modo, e transpondo a epistemologia interaccionista em termos de estímulos e respostas, o
esquema preconizado por Piaget é S(O) R, “onde o estímulo S é indissociável do organismo O,
o qual, antes mesmo de fornecer a resposta R, percebe e interpreta esse estímulo S em função das
actividades (perceptivas ou outras), intervindo necessariamente na sua qualificação ... nesse caso
o problema epistemológico situa-se primeiramente ao nível da relação SO” (Piaget & Gréco,
1974, p. 21).
De qualquer modo, os processos de aprendizagem analisados pelos associacionistas e
comportamentalistas, apesar de não explicarem o desenvolvimento cognitivo dos sujeitos, estão
sujeitos às suas leis (Piaget & Chomsky, 1987), pois o estímulo ou um padrão de estímulos não
actua no vazio, a sua acção supõe a presença de um esquema (Inhelder, Sinclair, &e Bovet, 1974;
Piaget & Chomsky, 1987), que é na realidade a fonte da resposta (Piaget & Chomsky, 1987).

CDuque 08-12-2008 22
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

5.1.8. Estrutura Cognitiva e 'inconsciente cognitivo'


“O que caracteriza (...) o aspecto cognitivo dos comportamentos é a sua estrutura, quer se trate de
esquemas de acção elementares, de operações concretas de classificação ou de seriação, etc., ou da lógica das
proporções com os seus diferentes foncteurs (implicações, etc.)” (Piaget, 1972, p. 42).
Assim, e em relação ao aspecto meramente cognitivo do comportamento e da acção, o factor que
Piaget realça é a estrutura cognitiva do sujeito. Estrutura cognitiva que Piaget (1972) caracteriza
por uma relativa consciência do resultado (embora bastante pobre), e total inconsciência dos
mecanismos que conduzem os comportamentos e as acções: é o “inconsciente cognitivo” (Piaget,
1972).
Esse inconsciente cognitivo representa os mecanismos (ou estruturas) que fazem funcionar o
aparelho cognitivo, transformando o pensamento: “O pensamento do indivíduo é orientado por
estruturas cuja existência ignora e que determinam não só o que ele é capaz ou incapaz de 'fazer' (...) mas
ainda o que é 'obrigado' a fazer (...) (A) estrutura cognitiva é o sistema de ligações que o indivíduo pode e
deve utilizar, não se reduzindo de forma alguma ao conteúdo do seu pensamento consciente” (Piaget,
1972, p. 43).
O problema não está em relação à consciência do conteúdo do pensamento mas sim às razões
estruturais e funcionais que levam o sujeito a pensar deste ou daquele modo, isto é, do mecanismo
íntimo que dirige o pensamento (Piaget, 1972). Por outro lado, a consciência dos resultados obtidos
pelo pensamento não dá indicação nenhuma dos mecanismos íntimos que transformam o
pensamento, permanecendo as suas estruturas inconscientes enquanto estruturas.
Podemos dizer que a estrutura cognitiva “é uma forma de organização da experiência” (Piaget;
op. cit. Battro, 1978, p. 98). É, simultaneamente, um produto e um processo, modo de
funcionamento, onde se inscrevem os mecanismos que transformam o pensamento,
determinando as formas desse pensamento, e, uma vez que as determina, não podemos
distinguir as estruturas do seu conteúdo.

5.1.9. Estrutura Cognitiva e Equilíbrio


“Cada estrutura é de conceber como uma forma particular de equilíbrio, mais ou menos estável no seu
domínio restrito e tornando-se instável nos limites deste. Mas estas estruturas, escalonadas em estádios,
devem ser consideradas como sucedendo-se segundo uma lei da evolução tal que cada uma delas assegure
um equilíbrio mais lato e mais estável aos processos que intervinham já dentro da precedente. A
inteligência torna-se, assim, um mero termo designando as formas superiores de organização ou de
equilíbrio das estruturas cognitivas” (Piaget, 1978, p. 15).
Mas se os mecanismos que transformam o pensamento funcionam de modo inconsciente,
podemos, partindo da própria acção, tentar perceber como actuam esses mecanismos e quais as
estruturas que lhes estão subjacentes. Deste modo, “para atingir o funcionamento real da inteligência
é importante, pois, inverter este movimento natural do espírito e de nos recolocarmos na perspectiva da
própria acção” (Piaget, 1978, p. 44; grifo dos autors).

5.1.10. Acção e Sistema de Operações


Por um lado, Piaget considera que o comportamento ou acção se baseia num sistema de
operações. Psicologicamente, essas operações têm dois aspectos paralelos: exteriormente tratam-
se de acções coordenadas entre si (comportamentos observáveis ou mentalizados) e
interiormente, isto é, para a consciência, tratam-se de relações que se implicam umas às outras.
Por outro lado, essas operações, em termos logiciais, são o produto de uma abstração reflexiva

CDuque 08-12-2008 23
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

(Inhelder, Sinclair, & Bovet, 1974; Piaget, 1976b; Piaget & Gréco, 1974) do processo que resulta
em acção ou comportamento: o esquema da acção.
“O esquema de uma acção é, por definição, o conjunto estruturado dos caracteres generalizáveis da acção,
isto é, dos que permitem repetir a mesma acção e aplicá-la a novos conteúdos. Mas o esquema de uma acção
não é nem perceptível (percebe-se uma acção particular mas não o seu esquema) nem directamente
introspectável e só se toma consciência das suas implicações repetindo a acção e comparando os seus
resultados” (Piaget; op. cit. Battro, 1978, p. 92).
Deste modo, o esquema é o modo particular de apreensão da realidade, o modo de
funcionamento da estrutura cognitiva, organizador da experiência (Piaget, 1976a). Através do
esquema da acção pode-se inferir o papel da operação (acção interior, como designou Piaget, em
1976a) ou sistema de operações.
Mas a realidade psicológica, tal como é percebida pelo sujeito “...consiste em sistemas operatórios de
conjunto e não em operações isoladas concebidas a título de elementos anteriores a esses sistemas: é
portanto unicamente quando as acções ou representações (...) se organizam em sistemas tais que elas
adquirem (...) a natureza de 'operações'” (Piaget, 1978, p. 48).
Mas as operações não são apenas acções interiorizadas: para que existam operações é necessário
que essas acções se tornem reversíveis e se coordenem em estruturas de conjunto (Piaget, 1973).

5.1.11. Socialização da Inteligência Individual


As estruturas próprias relativas ao pensamento, e que designamos por cognitivas, também estão
sujeitas a uma socialização, que Piaget (1978) designou por socialização da inteligência individual.

5.1.12. Conflito Sociocognitivo


Nos estudos sobre conflito sociocognitivo (Coll, 1984; Gilly, 1988; Perret-Clermont, 1978;
Pontecorvo, 1988) há uma tentativa de se pôr em evidência a importância de certas interacções
sociais na mudança da estrutura cognitiva do sujeito. O que está em jogo são “os processos de
reorganização interna” que são desencadeadas pelas interacções sociais. “Ao abordar o problema
dos laços existentes entre interacções sociais e estruturas cognitivas, Piaget (...) elabora um modelo que
demonstra o isomorfismo entre as estruturas operatórias e as estruturas subjacentes às interacções sociais
de troca de ideias e de valores” (Perret-Clermont. 1978, p. 66).
Segundo Piaget, a interacção social favorece o desenvolvimento do raciocínio lógico e a aquisição
dos conteúdos escolares (Coll, 1984) graças aos processos de reorganização cognitiva
despoletados pelos conflitos cognitivos e respectiva superação.
Deste modo, o conceito socialização da inteligência individual possui uma dupla articulação: a
simbólica, influenciando o nível simbólico do pensamento e agrupando conceitos próximos das
representações sociais de Moscovici (Leyens, 1985); a objectiva, influenciando o nível objectivo
ou lógico do pensamento, constituído por 'agrupamentos' de operações e de acções lógicas
exercidas pelo indivíduo sobre o mundo exterior. “É indispensável, para tratar das relações entre as
funções cognitivas e os factores sociais, começar por opôr as 'coordenações gerais' das acções colectivas às
transmissões culturais particulares que se cristalizam de maneira diferente em cada sociedade” (Piaget,
1972, p. 65).
Sem troca de pensamento e cooperação com os outros o indivíduo não conseguiria agrupar as
suas operações “num todo coerente”: neste sentido, o agrupamento operatório supõe a vida
social (Piaget, 1978). Deste modo, é a socialização da inteligência individual do sujeito que torna
o seu pensamento objectivo.

CDuque 08-12-2008 24
Sebenta de Textos de
Psicolo gia do Desen volviment o

6. BIBLIOGRAFIA
Battro (1978).
Ceci, S.; & Williams, W. (Eds.) (1999). The Nature-Nurture Debate. Oxford: Blackwell.
Coll (1984)
Dolle, J.-M. (1999). Para Compreender Jean Piaget. Lisboa: Instituto Piaget.
Eibl-Eibesfeldt, (1978)
Feldman, R. S. (2001). Compreender a Psicologia. Amadora: McGraw-Hill.
Furth, (1974)
Gilly, M. & Piolat, M. (1986). p. 22
Gilly, M. (1978)
Inhelder, Sinclair, & Bovet, (1974);
Leyens, J-P. (1985).
Matta, I. (2001). Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem. Lisboa: Universidade Aberta.
Perret-Clermont, A. N. (1998). Desenvolvimento da Inteligência e Interacção Social. Lisboa: Instituto Piaget.
Piaget, J. (1972).
Piaget, J. (1974).
Piaget, J. (1975).
Piaget, J. (1976).
Piaget, J. (1976a).
Piaget, J. (1978).
Piaget, J. (1982)
Piaget, J. (1973)
Piaget, J. (1976b).
Piaget, J., & Chomsky, (1987).
Piaget, J., & Gréco, (1974)
Pontecorvo (1988).
Slater, A., & Muir, D. (Eds.) (2001). The Blackwell Reader in Developmental Psychology. Oxford: Blackwell.
Smith, P., Cowie, H., & Blades, M. (2001). Compreender o Desenvolvimento da Criança. Lisboa: Instituto
Piaget.
Sroufe, L., Cooper, R., & DeHart, G. (1996). Child Development: Its Nature and Course. New York: McGraw-
Hill.
Tavares & Alarcão, (1989).
Vandenplas-Holper, (1987). p. 19
Vygotsky, (1977)

Nota: Perderam-se partes de texto e as referências (utilizadas para a escrita da actual sebenta),
devido a problemas informáticos.

CDuque 08-12-2008 25