REVISTA BRASILEIRA DE

ESTUDOS URBANOS
publicação da associação nacional de pós-graduação e pesquisa em planejamento urbano e regional

E REGIONAIS
ISSN 1517-4115

REVISTA BRASILEIRA DE ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Publicação semestral da ANPUR Volume 6, número 2, novembro de 2004 EDITOR RESPONSÁVEL Henri Acselrad (UFRJ) COMISSÃO EDITORIAL Geraldo Magela Costa (UFMG), Marco Aurélio A. Filgueiras Gomes (UFBA), Maria Flora Gonçalves (Unicamp), Norma Lacerda (UFPE) CONSELHO EDITORIAL Ana Fernandes (UFBA), Carlos Bernardo Vainer (UFRJ), Carlos Roberto M. de Andrade (USP/São Carlos), Circe Maria da Gama Monteiro (UFPE), Clélio Campolina Diniz (UFMG), Flávio Magalhães Villaça (USP), Frank Svensson (UnB), Frederico de Holanda (UnB), Jan Bitoun (UFPE), Lícia Valladares (IUPERJ), Marcus André B. C. de Melo (UFPE), Marta Ferreira Santos Farah (FGV/SP), Martim Smolka (UFRJ), Maurício Abreu (UFRJ), Milton Santos (USP) in memorian, Tania Bacelar (UFPE), Tânia Fischer (UFBA), Wilson Cano (Unicamp), Wrana Panizzi (UFRGS) COLABORADORES DESTE NÚMERO Antonio Pinho (EA/UFBA), Regina Pacheco (FGV/SP), Rodrigo Ferreira Simões (Cedeplar/UFMG), Jair do Amaral Filho (Ipece/UFCE), Marilia Luiza Peluso (Neur/UnB), Tereza Ximenes (NAEA/UFPA), Adauto Lucio Cardoso (Ippur/UFRJ), Decio Rigatti (Propur/UFRGS), Ana Lucia Duarte Lanna (FAU/USP), Francisco de Assis da Costa (PPGAU/FAUFBA), Cibele Saliba Rizek (USP/SC), Robert Moses Pechman (IPPUR/UFRJ), Wrana Panizzi (UFRGS), Norma Lacerda (MDU/UFPE) PROJETO GRÁFICO João Baptista da Costa Aguiar CAPA, COORDENAÇÃO E EDITORAÇÃO Ana Basaglia REVISÃO Fernanda Spinelli ASSISTENTE DE ARTE Priscylla Cabral FOTOLITOS Join Bureau de Editoração IMPRESSÃO Assahi Gráfica e Editora
Indexado na Library of Congress (E.U.A.) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais – v.6, n.2, 2004. – : Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional; editor responsável Henri Acselrad : A Associação, 2004. v. Semestral. ISSN 1517-4115 O nº 1 foi publicado em maio de 1999. 1. Estudos Urbanos e Regionais. I. ANPUR (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional). II. Acselrad, Henri 711.4(05) CDU (2.Ed.) 711.405 CDD (21.Ed.) UFBA BC-2001-098

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ESTUDOS URBANOS
publicação da associação nacional de pós-graduação e pesquisa em planejamento urbano e regional

E REGIONAIS
VO L U M E 6 - N Ú M E R O 2 - N OV E M B R O 2 0 0 4

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ARTIGOS
9 A CIDADE : O BJETO DE E STUDO E E XPERIÊNCIA V IVENCIADA – Maria Stella Bresciani 27 O S INSTRUMENTOS DA R EFORMA U RBANA E I DEAL DE C IDADANIA : A S C ONTRADIÇÕES EM C URSO – Luciana Corrêa do Lago

85 QUALIDADE DO E SPAÇO R ESIDENCIAL E S US TENTABILIDADE : (R E )D ISCUTINDO C ONCEITOS E (D ES )C ONSTRUINDO PADRÕES – Maria Conceição Barletta Scussel e Miguel Aloysio Sattler

HOMENAGEM
97 C ELSO F URTADO E O P LANEJAMENTO – T EO RIA E A ÇÃO – Hermes Magalhães Tavares

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35 PARTICIPAÇÃO C IDADÃ E R ECONFIGURAÇÕES NAS P OLÍTICAS U RBANAS NOS ANOS 90 – Flávia de Paula Duque Brasil 53 J OVENS NO M UNICÍPIO DE S ÃO PAULO : E XPLORANDO O E FEITO DAS R ELAÇÕES DE V IZI NHANÇA – Renata Mirandola Bichir, Haroldo da Gama Torres e Maria Paula Ferreira 71 T ERRITÓRIOS DA P OLÍTICA EM C ARACAS : U SOS E R EPRESENTAÇÕES DO E SPAÇO P ÚBLICO – Lorenzo González Casas

ENTREVISTA
109 O D ESENVOLVIMENTO U RBANO D EMOCRÁ TICO COMO U TOPIA – Entrevista com Ermínia Maricato, Secretária Executiva do Ministério das Cidades, por Ana Clara Torres Ribeiro e Henri Acselrad

RESENHA
123 Les nouveaux principes de l’urbanisme, de François Ascher – por Pedro de Novais Lima Junior

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL – ANPUR GESTÃO 2003-2005 PRESIDENTE Heloisa Soares de Moura Costa (IGC/UFMG) SECRETÁRIO EXECUTIVO Roberto Luis de Melo Monte-Mór (CEDEPLAR/UFMG) SECRETÁRIA ADJUNTA Jupira Gomes de Mendonça (NPGA/EA/UFMG) DIRETORES Ana Clara Torres Ribeiro (UFRJ) Ana Fernandes (UFBA) Brasilmar Ferreira Nunes (UnB) CONSELHO FISCAL Carlos Roberto Monteiro de Andrade (USP/SC) José Antônio Fialho Alonso (FEE) Sonia Marques (UFRN) Apoio .

EDITORIAL O presente fascículo da Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais reúne um conjunto de trabalhos selecionados pela Comissão Científica do XI Encontro Nacional da Anpur e pela comissão editorial da Revista como os mais destacados entre aqueles apresentados no referido evento científico. Abordando alguns tipos selecionados de riscos sociais que incidem sobre indivíduos jovens. os espaços destinados à “participação” têm levado a configurar novas linhagens de políticas urbanas. Cauquelin. que boa parte das investigações dedica-se a buscar elos significativos que elucidem as condições problemáticas de vida nas cidades contemporâneas. correspondendo a duas categorias de bem-estar. Considerando o papel da memória e da experiência. O artigo de Lorenzo González Casas examina. Tendo em conta os pressupostos de ideal igualitário contidos em tais políticas. Maria da Conceição Barletta Scussel e Miguel Aloysio Sattler. a despeito da heterogeneidade das experiências e dos limites político-institucionais encontrados. B . N . a ausência de sobreposição espacial homogênea dos diversos riscos considerados em todas as subáreas das periferias estudadas. Flávia de Paula Duque Brasil faz uma revisão do debate sobre participação nas políticas urbanas. este conjunto de artigos reflete o estado atual da reflexão da área do planejamento urbano e regional – suas questões. ressaltando a introdução recente de novas cartografias urbanas por efeito dos processos de mudança política e dos programas de descentralização governamental. Maria Stella Bresciani discute a “preocupante ambigüidade metodológica” associada à indefinição do estatuto disciplinar do pensamento e da prática urbanísticos. Como se verá. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. mas parecendo cada vez mais fugir ao seu controle e compreensão. o ideário da Reforma Urbana. 6 . por fim. Em diálogo com autores como Argan. objetos por excelência construídos pelo homem. a evolução observada no uso e representação do espaço público para os fins da participação política. Rykwert e Arantes. Luciana Corrêa do Lago revê. os autores pretendem assinalar. sustentando que. discutem os problemas relativos à definição de indicadores de “sustentabilidade” aplicáveis a espaços resiR . a autora interroga sobre a possibilidade de que as normas e os padrões específicos instituídos nos espaços em questão venham institucionalizar duas classes de cidadãos. seus desafios teóricos e metodológicos e seus resultados. violência urbana. em particular. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 5 . tais como desemprego. a autora procura localizar o desacerto e a distância que se interpuseram entre as intenções projetuais dos urbanistas. por sua vez. de direito social e de direito de propriedade. Haroldo da Gama Torres e Maria Paula Ferreira. autoridades municipais e estaduais e a cidade tal como se apresenta – como questão histórica. Perceber-se-á. no caso do município de São Paulo. bem como suas implicações para o planejamento urbano. A heterogeneidade interna das periferias urbanas é o objeto da pesquisa cujos resultados são apresentados no artigo de Renata Mirandola Bichir. baixo nível educacional e gravidez na adolescência. e tendo por base dados do Censo Demográfico de 2000. pondo foco nas políticas de regularização e urbanização de assentamentos populares. desde uma perspectiva histórica aplicada ao caso da cidade de Caracas.

Secretária-Executiva do Ministério das Cidades. 6 . 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . HENRI ACSELRAD Editor Responsável 6 R . Este fascículo contém igualmente uma entrevista com Ermínia Maricato. N . B . bem como com o compromisso de sua transformação. objetivos que têm unido também em sua prática os profissionais e instituições congregados na Anpur. que oferece uma primeira avaliação da experiência de dois anos vivida pela equipe que implantou esta nova instância ministerial. marca esta caracterizada pela busca de uma teoria e de uma ação condizentes com a complexidade específica de nossa realidade.denciais e padrões construtivos. A seção “Homenagem” destaca a marca original e duradoura do pensamento de Celso Furtado no campo do planejamento urbano e regional. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. quando considerada a diversidade de contextos socioculturais em que se definem as práticas de moradia.

A mais comum das avaliações sobre a cidade. a mesma. usando uma observação de Giulio Carlo Argan. digamos. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. na qual se vivia e na qual hoje estamos. A primeira constatação desse. a atualidade dessa constatação e/ou sensação parece repor-se há duzentos anos pelo menos. memória. desde que já faz parte dos registros dos que falaram da(s) cidade(s) desde o início do século XIX. B . É comum um cheiro sutil e passageiro. Algo como se a idéia (ou idealização) de cidade e o estar nela se apresentassem em constante descompasso. metáfora do insight captado por Walter Benjamin para falar desse passeio interno por nossas lembranças involuntárias suscitadas repentinamente. mas no pensamento que a pensa. do relativo. Conexões objetivas de moradia e trabalho. Essa constatação se repete. 1993. do consciente. de literatos. Ou. É comum a lembrança de avós. é que a cidade está em crise. ainda quando nos fazem retroceder para um momento no qual consideramos poder captar um elo significativo que elucide as pouco acolhedoras condições de vida nas cidades contemporâneas. O descompasso entre uma suposta noção e a efetividade exigia a R . do ego em contraposição à natureza sublime e dimensão do transcendente.. como se as estruturas do espaço cidade. Foi talvez a acentuada presença de expressões de espanto e sua persistente repetição nas várias formas de linguagem no decorrer de dois séculos o que inicialmente me intrigou. espaço agigantado cujas dimensões escapam à compreensão humana. nós intrincados que relacionam expectativas e imagens.212). que de tão transformada lhes escapa. tios recordando saudosos outra cidade. do superego (Argan.A CIDADE OBJETO DE ESTUDO E EXPERIÊNCIA VIVENCIADA* MARIA STELLA BRESCIANI R E S U M O Estudar a(s) cidade(s) implica estabelecer conexões de tipo variado com a própria experiência de viver em cidades. quando encontrei o uso recorrente de metáforas para falar da cidade em textos de poetas. mal-estar se deu ao estudar as cidades no século XIX. tal como a Madeleine proustiana. ainda que pouco nítida. à qual somos induzidos a vivenciar e vivenciamos de fato. imagens. O interesse intelectual pelo estudo da(s) cidade(s) procede com certeza de questões colocadas no presente. A cidade. 6 . fugindo ao seu controle. urbanismo. sempre imperiosa. de filantropos. história. uma imagem fugidia ou o ambiente de um fim de tarde cinzento trazerem num relance a sensação de uma situação vivida. A cidade que tão bem conhecíamos mudou. advogados e demais pessoas que deixaram registros escritos. L AV R A S * Este artigo é parte de pesquisa apoiada pelo CNPq. Esses registros repetitivos sugeriam que a concepção de cidade – uma imagem de cidade. diuturnamente presente na imprensa escrita e televisiva. médicos. no decorrer de gerações. pais. p. inscrita em nosso subconsciente – não mais encontrava correspondência na imagem da cidade que se tem diante dos olhos. laços afetivos tecendo espaços nos quais as lembranças compõem um acervo especial. que não está na realidade objetiva. idealizadas em grande parte e resistentes à passagem do tempo. PA - C H AV E Cidade. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 9 . não mais coincidisse com a dimensão do distinto. do absoluto. produto do homem por excelência.. No entanto. tias. sempre nova. N .

da angústia. a cidade moderna. portanto humanas. Nessa condição subordinada do homem ocorre uma inversão fundamental: “o mito do sublime e do terrífico. era o lugar fechado e seguro por antonomásia. A imagem mais forte. locus privilegiado da produção e reprodução do capital. os estranhos misturados à população local. isto é.A C I D A D E 1 Anotei esses registros em vários textos desde Londres e Paris no século XIX. na medida em que pode ser concebida. porém. e as pessoas passando tal como uma corrente sem-fim. podendo ser assemelhada ao que se tornou a cidade no mundo atual: alguma coisa que “não pode mais ser considerada um espaço delimitado.212. (Argan. da inevitável luta pela sobrevivência. no passado.8-9. umas atrás das outras ou face a face sem se olharem. do ego. uma inversão de posições em que as máquinas agem melhor do que as mãos do homem. do desespero. Também constituía temas recorrentes o crescimento desmesurado de cidades como Londres e Paris. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . que submetem as forças cósmicas e as utilizam. às insígnias dos comerciantes afixadas nos frontões das lojas à semelhança dos brasões da nobreza. em suas palavras a técnica. Os computadores raciocinam melhor (eu diria. mais rápido) do que sua cabeça. para Argan.” Aconteceu. ela não é mais considerada espaço construído e objeti10 R . Elimina-se com esse valor o valor da história de que o ego é o protagonista. a agressividade contida no comportamento das pessoas. de tocaia. relacionava a cidade moderna a uma certa inversão de valores – Wordsworth. sem dúvida. as filosofias da angústia existencial e da alienação teriam bem pouco sentido e não seriam – como no entanto são – a interpretação de uma condição objetiva da existência humana. n. isto. luzes e formas. 1993a). incontestavelmente opressivo e repressivo que se tornou. nem um espaço em expansão. p. Ora. a aposta em seu poder transformador das condições de vida urbana e moldador do cidadão. E coloca a pergunta de modo direto: “Mas o que de fato aconteceu na cidade moderna?”. N . 1993a. se deve em grande parte à redução do valor do indivíduo. e o que é pior. “A realidade não é mais dada em escala humana. mas deu ênfase a esse mundo atarefado (busy world). Se a cidade não se tivesse tornado a megalópole industrial. o seio materno. uma das portas conceituais de entrada para elucidar o uso das metáforas de monstros mecânicos para apresentar/representar a cidade moderna. 6 . o medo de se aventurar por suas ruas. a seu ver. portanto. É assim que o homem faz da sua técnica um mito. o indivíduo não é mais do que um átomo na massa. o monstro urbano –. e eliminar o ego como sujeito corresponde a eliminar a natureza. não só designou Londres como monstruoso formigueiro plantado na planície. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. um mito novamente tectônico” (Argan.1 Talvez uma frase de Giulio Carlo Argan sobre a cidade moderna condense a razão desse espanto: A cidade que. B . Heidegger e Sartre. Essa aposta humana na potencialidade da técnica disponível certamente subjuga o homem e parece ganhar autonomia. transfere-se para as forças tecnológicas. ou melhor. torna-se o lugar da insegurança. a substituição do termo pelo de metrópole quando se tratava de uma cidade correspondendo a um centro irradiador e/ou sugador de homens e recursos. industrial. não mais representado pelas forças cósmicas. adjetivação da cidade ou o recurso a metáforas – a grande cidade. do medo. apressadas. ou ainda. a ameaça sempre à espreita. o materialismo marxista e as críticas duras de Horkheimer. As cidades no século XIX”. em 1800. além de mencionar a dança rápida de cores. 1985. pensada. compreendida pelo homem.) Argan argumenta que o existencialismo de Kierkegaard. in Revista Brasileira de História. O espetáculo da pobreza (1982) e “As faces do monstro urbano. Adorno e Marcuse não se justificariam se a cidade não tivesse se transformado no ambiente físico concreto. Tem-se.

Até onde pode ir a aposta do homem na tecnologia. de 1971. ora. cuja potencialidade é praticamente ilimitada” (Argan. bem diferente da do arquiteto da cidade” (Argan. Boulton (1986). texto escrito em 1969. p. se projeta” (Argan. Até o componente utópico do urbanismo. aposta que chegou ao limite de. introduz sua concepção de urbanismo – “O urbanismo é uma disciplina moderna. depois. a configuração da cidade. “do que a extrema ramificação da poética do ‘sublime’. Estaria nas catedrais góticas e na arquitetura de Michelangelo e de Borromini. os organiza em um sistema cujos diversos componentes dão lugar a uma resultante. Com o acréscimo. teria a estrutura. 1993b. não-protegido. de saber o que e com que fim se programa. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. pelos gênios do Bem e do Mal e por Deus. espaço de fronteira –. prossegue o autor. mas o processo com que os elabora. no ascetismo de Gaudí. uma constante até hoje.240) – fala e retoma o tema do texto anterior. e as projeta suspensas e como tramadas no ar ou precipitadas nas entranhas da terra? As indagações contidas em “Urbanismo. entretanto. o tema do ‘sublime’ está sempre presente e determinante” (Argan. num movimento apenas aparentemente contraditório. 1993b). ainda no início do século XIX. tal como no geometrismo de Ledoux. ao projetar a cidade do futuro.M A R I A S T E L L A B R E S C I A N I vado. considerada inimiga. entre outras tantas coisas. e. Argan propõe a noção de “sublime”. E deixa claro a questão básica: “Trata-se. mas um sistema de serviços. demonstra que o progresso tecnológico das comunicações permitirá chegar. Essas duas perspectivas. 6 . selvagem. transformando-a em uma inflorescência ou em uma constelação de pequenos aglomerados sociais. estabelecer. desarticular. que tomou como base a 2ª edição (1759) do original de 1756. “Na história da interpretação da cidade. o urbanismo está se separando cada vez mais de seu objeto. entre o humano e o animal. dir-se-ia até que aspira a destruí-lo. dispensar o espaço físico. . 1993a). podem ser colocadas em diálogo com aquelas de “O espaço visual da cidade”. reorganizar e finalmente programar para o futuro a conformação da cidade. o nível do terreno. o sublime estava na natureza – o espaço nãoorganizado. A resultante não é um quadro estatístico nem a representação sintética de uma situação social de fato. reapresentada e comentada em meados do século XVIII por Edmund Burke. cinqüenta milhões de habitantes. um plano. em “O espaço visual da cidade”. espaço e ambiente”. espaço e ambiente”. inacessível. no decorrer de alguns anos e de algumas décadas. é um programa. Ora propõe descentralizar. “Urbanismo. O passado praticamente ignorou a figura e a atividade do urbanista. Se no tempo anterior à urbanização acelerada produzida pela industrialização. um projeto tendo em vista a mudança de uma situação de fato reconhecida como insatisfatória”. o campo habitado por seres cuja natureza parecia incerta e ambígua. o caráter. Preocupado com as questões e desafios colocados ao urbanismo. têm por alvo enquadrar o mesmo fenômeno R . ou seja. O argumento com os quais Argan. “nada mais é”. do urbanismo como disciplina autônoma. porém. desmembrar a cidade. coordenados mas auto-suficientes. B . 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 11 2 Ver Edmund Burke em Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas idéias do sublime e do belo (1993). essa noção se transportou para os domínios da cidade. naturalmente. inviolada.2 como chave para que possamos entender a dimensão psicológica desse viver em cidades modernas. no qual Argan expressa dúvidas e incertezas quanto ao lugar ou a posição em que se coloca o urbanista nos dias de hoje: Como disciplina que visa interpretar. os coloca em relação dialética entre si. N . de que hoje o ‘sublime’ ou o transcendente é dado como subjugado pelo esforço tecnológico do homem”. 1993a). nenhum dos quais. tradução a partir da edição crítica de James T. aquilo que para ele distingue essa disciplina de qualquer outra “não é certamente a qualidade dos seus conteúdos. porém. para além da qual se dispunha a verdadeira natureza. à cidade de trinta. se planeja. freqüentada pelas feras.

correndo sem rumo em busca de soluções paliativas para um fenômeno diante do qual se sente pouco confortável. Com essas palavras Giulio Carlo Argan constatava. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . a civilização industrial colocou em crise a concepção tradicional da cidade. faz depois opções tanto sobre a orientação a tomar. mas ainda não conseguiu substituí-la por sua própria concepção. explica. o procedimento adotado por levas de gerações anteriores que construíram palácios. tecnologia: onde localizar esse saber cujo objeto parece se impor de maneira tão óbvia ao olhar? Nem arte – como as cidades concebidas como uma única e grande arquitetura pelos teóricos da Renascença –. sem entretanto deixar de ser didático. Argan expressa. há mais de trinta anos. dúvidas alheias e que.) 3 O artigo data de 1971. pois efetua análises rigorosas sobre a condição demográfica. a seu ver. São dados. como sobre o estético. p. o “plano diretor”. demonstram apenas que. por meio dessas indagações. no estado atual das coisas.A C I D A D E – a cidade – na civilização industrial. a moderna intenção de projetar a cidade para um futuro que não nos pertence. Na base de sua argumentação radica a nítida certeza de que é decepcionante. notamos facilmente que. que precisa ser encarado em sua finalidade de orientar e não ser imposto ou traduzido em realidades construtivas. 1993b. Essa intenção reverteria. mas. (Argan. da economia ou da política. Seu texto tem um viés polêmico. O urbanismo é e reafirma uma disciplina nova que pressupõe a superação desse esquematismo (Argan. produtiva. Argan atribuía esse desencontro a “uma preocupante ambigüidade metodológica” decorrente da indefinição do estatuto disciplinar do pensamento e da prática urbanísticos.3 terem as cidades escapado às delimitações básicas do urbanismo e expunha sua visão crítica sobre o pensamento urbanístico numa seqüência de observações paralelas entre a disciplina e seu objeto. já que estuda as estruturas sociais e seus possíveis desenvolvimentos. o plano. atrelada a um conjunto de leis objetivas e constantes. ao afirmar que o urbanismo é. pois aplicáveis sob o aspecto da tecnologia. 6 . político e histórico. que não devem ser combinados. porém resultar em algo próprio ao trabalho do urbanista. O urbanismo não se conformaria ao perfil de nenhuma dessas disciplinas. por ineficaz. a cidade ultrapassando qualquer projeção anterior do pensamento urbanístico e mostrando uma face pouco aceitável e nada condizente com a racionalidade que deveria orientar sua permanência e expansão. Menos que dúvidas suas. tecnológica dos agregados sociais. soma em seguida os componentes sociológico. nem ciência. pondo em perspectiva passado e futuro. “Trata12 R . na realidade. por determinar as estruturas formais. programação e projeto”. quando ela não se limita a verificar a progressiva e rápida degradação das cidades atuais.211). política. 1993a. p. N . parecem conduzir nos dias de hoje grande parte da prática de especialistas das cidades. imaginamos as cidades do futuro. E expõe passo a passo como se estrutura um projeto: inicia na forma de componente científico. sanitária. ambos perdendo de modo acelerado suas características e fundamentos orientadores. “em substância. B . A disciplina ainda prisioneira de fundamentos fincados no século XIX. Com um rápido olhar pela vasta literatura urbanística. sociologia. contudo. foram na verdade construídos para as exigências de seus contemporâneos. de fato. como que perdida em meio ao crescimento contraditório da(s) cidade(s). nem o momento prático da sociologia. catedrais. que se até hoje são limites para o planejamento urbano. economia. econômica. como se a degradação das cidades dependesse do destino e não da nossa incapacidade de as conservar e como se a forma das cidades futuras dependesse de nós e não das gerações vindouras. Arte ou ciência.225. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V.

6 . no que diz respeito às idéias. diria ele. Como urbanista. Seriam abstrações “que corroem em profundidade o conceito histórico de cidade. do ego enquanto sujeito. N . nas dimensões do edificado e do pensamento que o orientou. p.233). A ela ou aos seus dados visuais é atribuído valor. trajetos e pontos nodais constantes. de uma herança. uma exigência e necessidade atuais. que levariam a considerar a cidade em que se mora como “máquina que deve realizar uma função”. considera que a cidade é antes de tudo um impacto visual ou uma experiência estética. Nada é gratuito ou puramente casual. Ao conferir à experiência o peso maior da atribuição de significado ao espaço urbano e seu tempo próprio. que eu designaria como ético. “comunidade” e “função urbana”. diz o autor. diz Argan (1993b). enfim. da consciência”. será amanhã cultura de todos” (1993b. Essa experiência. p. e portanto previsível. conservado e transmitido enquanto valor histórico e valor estético. 1993b. seja pela comunidade. tais como “sociedade”. ao relacionar criticamente a prática contemporânea da preservação. Argan advertia sobre a condição de “abstrações interessadas” para noções. a cidade como espaço visual. Assim. Transpõe para o espaço da cidade o estudo de Gaston Bachelard sobre a casa – a casa da infância como modelo pelo qual se constrói grande parte da psicologia individual. Desse modo. tão evidentes no modo pelo qual lhe designamos significados diferentes dos que tinham ao serem construídos. porque o afastam da experiência e. de cada habitante reproduzida graficamente resultaria em um quadro bem mais complexo do que o emaranhado de cores. sem dúvida. portanto. A seu ver. Esse emaranhado marcaria. durante os quais deixamos trabalhar a memória e a imaginação.M A R I A S T E L L A B R E S C I A N I se. do urbanista. ou seja. ainda que nele estivessem representados somente os trajetos executados por seus habitantes no intervalo de somente uma hora. ambos indissoluvelmente imbricados (Argan. por ser ele o elemento fundante da própria cidade.225-7). 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 13 . Há. Percursos que pouca semelhança guardariam com o percurso lógico ou necessário. Argan destaca a questão do “valor estético da cidade”. constituiria atitude contrária pensar o que deve ser preservado. Esse estar na cidade se traduziria no registro das imagens cotidianas e conteria uma lógica – a do mapa do espaço-cidade e a do ritmo de tempo urbano – formada pelos trajetos de cada um de nós. da dimensão humana e do cidadão. seja por uma elite de estudiosos em função do interesse da comunidade.228). da atribuição de valor estético às cidades? Conferir-lhes identidade singular? Diferenciá-las simplesmente? Reduzi-las a uma essencialidade inerente? Argan faz em seguida uma afirmação categórica sobre a necessidade de uma “análise psicológica” que se baseie no “estudo da experiência urbana individual como princípio de qualquer pesquisa sobre os modos de vida urbana de uma sociedade real” (1993b. R . em seu texto a busca do reencontro da dimensão do indivíduo. B . traços e pontos de uma obra artística de Pollock. e portanto inscrito no presente. Onde localizar. conferindo à noção de futuro um valor. não de um planejamento. como exigência de nossa cultura. entretanto. p. “o que hoje é ciência de poucos. entre consciente e inconsciente. o que comporta parte significativa de passado. Argan localiza a disciplina urbanismo no presente. de que modo acompanhar esse emaranhado de percursos? Como estabelecer correlação entre ele e a prática de um grupo especializado e circunscrito dedicado a intervir na cidade? Como colocar em diálogo essa lógica especializada e as individuais ou a da maioria dos habitantes da cidade? Como entender essa difusão ampla e ampliada dos valores atribuídos à cidade? Mais ainda: qual o significado histórico. orientador da prática no presente. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. já que.” E vai além. às imagens profundas de espaço e tempo – e abre um amplo campo de significações singulares da cidade para cada um de seus habitantes. tempo saturado de historicidade.

Saber especializado. p. em que o saber-fazer coincidia com o saber-viver. o desejo de se eternizar em uma produção que busca atenuar o drama do destino humano em direção à morte”. essenciais porém à apreensão do espaço urbano. imagem aproximada por ela à descrita por Freud nas primeiras páginas de O mal-estar na civilização. lazer etc. transportadora de cacos de lembranças históricas. Os projetos se formam a partir dessas imagens completadas por comentários.23-51).5 Camadas de memórias fixadas. seu solo original. por ter-se afastado de. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. Deixar uma marca de imortalidade na pedra seguindo os procedimentos técnicos disponíveis. 5 Freud fala do sentimento de eternidade ou “oceânico”. Cauquelin vê inscrita nesse procedimento a própria prática do urbanista já que considera impossível recusar ao arquiteto o direito de se nutrir da memória específica que é também fonte de seu saber-fazer. Esse conjunto de indagações soma-se a questões assemelhadas presentes em trabalhos dos filósofos Anne Cauquelin e Pierre Ansay. ilusões e desejos. completa Cauquelin. 1979. “Prefácio” de The Idea of a Town. pertencimento ao universal. p. mas também de lembranças pessoais. 1989. retira necessariamente os elementos de seu saber. pois tecida por dobras do tempo denso composto por memórias fixadas em estratos superpostos. tratar como um elemento derivado de um ponto de vista intelectual. tal como compomos nossa própria história de 14 R . outras formadas pela maneira pela qual se vive em cidades. a seqüência de momentos rigorosamente encadeados em uma técnica e. de um lado. B . Embora na prática o especialista saiba que o entrecruzamento complexo e tenso de temporalidades. em sua simultaneidade no presente. ou como um sentimento de união indissolúvel com o grande todo. inerente ao ofício do arquiteto e do urbanista. diverso daquele de Vitrúvio. Ansay preocupado com a condição empobrecida do pensamento filosófico. algumas por monumentos e edifícios espalhados pela cidade. algo relativo ao sentimento de ilimitado e infinito que estaria inscrito no mais profundo do âmago humano – segundo sugestão de um seu amigo e leitor – e que ele prefere. do qual ele. a autora introduz um elemento complicador para a experiência dos próprios urbanistas no que concerne a percepção do tempo: a duplicidade manifesta na confrontação entre. a cidade (Cauquelin. este o duplo jogo do tempo tão bem conhecido pelos urbanistas e arquitetos. visíveis. de outro. Tempo constituído por crenças. fragmentariamente. o urbanista. Italy and the Ancient World. ele os partilhava com os demais citadinos. mutável. aos monumentos e aos costumes –. cuja fonte reside em um estoque de possibilidades acumuladas por uma memória da história da arte e por modelos anteriores. da mesma maneira “como um dicionário permanece exterior à escrita ou como as regras de sintaxe à produção e ao deciframento de um texto”. 1989. diz ela.). ou mesmo renunciado a. ele se mantém consciente de que esse tempo intervém na textura de um projeto. habitat. 6 . Imagem de maior complexidade ainda. Cauquelin por sentir a defasagem entre o saber e a prática dos especialistas em intervenções urbanas e o modo pelo qual o citadino se apropria da cidade. p.4 A imagem elaborada textualmente pela filósofa para compor a diferença entre o “tempo” do arquiteto-urbanista e o “tempo” do citadino se aproxima daquelas sugeridas por Argan quando as compara aos quadros de Pollock. é insuficiente para dar conta da produção de uma cidade. essa “opinião” vagabunda. deixando de lado a difícil tarefa de lidar cientificamente com os sentimentos. Ansay. mescladas à escuta e à escrita.A C I D A D E 4 Joseph Rykwert comenta a incapacidade das autoridades cívicas e dos “experts” planejadores em pensarem uma nova cidade como uma totalidade. pois a autora lembra o quanto a perspectiva temporal do citadino permanece exterior ao urbanismo. como um modelo que deve conter significados outros além dos lugarescomuns do zoneamento (indústria. com esquecimentos e lacunas. N . Malaise dans la Civilisation. in Joseph Rykwert. cultura e memórias compósitas no qual a edificação deitava raízes. Para este texto os argumentos de Cauquelin (1982) interessam mais de perto. autores interessados em devolver a cidade ao citadino (ver Cauquelin) e em restabelecer o vínculo entre pensamento filosófico e cidade (ver Ansay). 1982. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . Um sentimento do eu (ou de mim) formado no decorrer dos anos de formação até se chegar à idade adulta. embora o mundo do arquiteto fosse composto de elementos heterogêneos próprios ao seu ofício. Estaríamos hoje em face do empobrecimento do nosso discurso sobre a cidade por recusarmos e estranharmos a concepção antiga que considerava a cidade um modelo simbólico [“to consider the town or city a symbolic pattern”]. estilos de vida e de monumentos. Ao apontar esse descompasso entre temporalidades diversas.5ss. orientados e submetidos que somos às opiniões correntes – a doxa dos gregos. Ver Sigmund Freud. contudo. alterável.23. inserido num tempo outro em que. The Anthropology of Urban Form in Rome.

com o objetivo maior de colocar no centro de sua prática a importância de se superar uma situação considerada insatisfatória da “existência humana como existência social”. reduto de um saber de especialistas que propuseram intervenções. 1997) reproduz esse mesmo viés teórico. editadas em 1987 e 1989. até na composição de sua população. uma soberba pesquisa sobre o projeto e a fundação da cidade de Belo Horizonte na década final do século XIX. o traçado projetado de bairros recém-abertos. Isto implica afirmar a existência de uma distância entre a prática de projeto. aqui entre nós. contudo. exatamente como projeção. cidade que cresce. no qual o “atraso” e o “arcaísmo” fazem dele uma “idéia fora do lugar”. sendo invadida por lapsos de esquecimento e de lembranças desconcertantes.12 O ponto de partida do estudo fixa-se no final do século XIX e início do século XX. das quais cito aqui Walter Benjamin. 2003. se modifica pela multiplicação de suas “funções”. Nele o autor. Cidade que um memorialista como Alfredo Moreira Pinto diria. Estética e cidadania”. os projetos urbanísticos e arquitetônicos são importados10 e nesse transplante e em sua realização se modificam e/ou se apequenam. em seu entender. algo assemelhado a um mimetismo característico de uma cultura sem solo próprio. e sua efetivação. Belo Horizonte. mas a de verificar a maneira como os especialistas brasileiros participam da formação desse fundo comum de conhecimentos que constitui a “disciplina” Urbanismo e o modo pelo qual são aplicados seus princípios na atividade de intervenção na capital paulista.8 Foram indagações como estas as que me instigam a estudar a formação do pensamento urbanístico sobre a cidade de São Paulo. atrelado à atração fatal exercida por países de cultura mais avançada. Legislação. 11 Também o estudo de Heliana Angotti Salgueiro (La casaque d’Arlequin. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 15 . nutrido também por imagens idealizadas e utópicas. Os rumos da cidade. retomando a dicotomia centro-periferia para explicar os processos de modernização da cidade de São Paulo. servindo-lhe como suporte e moldura. “Les plis du temps”. o francês. Impossível renunciar. Outra questão desafiante é onde localizar o desacerto e a distância que se interpuseram entre as intenções projetuais dos urbanistas e das autoridades municipais e estaduais e a cidade tal como se apresenta hoje: uma questão histórica. “Le lieu du temps”. recortada em detalhes formados pelo tempo do aprendizado e do trabalho. havia deixado de ser o burgo dos estudantes e se transformado em uma cidade moderna. reitera os velhos chavões da dependência intelectual. B . conduzida pela constatação de que em trinta anos a cidade se modernizara graças à dinâmica de sua vida comercial. Um tempo. dos sucessos e dos fracassos humanos. in Encontros com a História. Nossa intenção não é a de polemizar nesse plano. Urbanismo e Modernização em São Paulo. siècle. como se a prática legal fosse sempre formada pela distância e inadequação entre o pensamento importado de seu país originário. “Le lieu du temps”.9 A proposta do estudo tem como suporte teórico exatamente a concepção do urbanismo como projeto estruturado por dados “objetivos”. Trata-se da cidade escondida. com uma fina película a vida social. A Cidade e a Lei. em 1900. de pensamento). p. 10 Remeto para o livro recentemente publicado de Candido Malta Campos. Posição que também se desloca para a relação entre a lei e sua efetiva aplicação. por mais “realista” que se proponha.7 Uma imagem da cidade muito próxima à apresentada por Walter Benjamin em muitos de seus textos. 6 . que recobriria. em “O espaço visual da cidade”. 1997. Com isso. esse do citadino.M A R I A S T E L L A B R E S C I A N I 6 Para a noção de doxa e de sua apropriação por Cauquelin. e seu uso inadequado em países como o nosso. a despeito de uma pesquisa extensa e por muitos motivos útil. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V.13 A surpresa contida no relato de Alfredo Moreira Pinto reveste-se de uma dimensão positiva. 9 O termo é de Argan. 7 Fiz aqui um resumo bastante redutor dos argumentos iniciais do instigante livro de Cauquelin. 1993b. que seja o liberalismo inglês. 8 Penso principalmente em “Sobre alguns temas em Baudelaire”. 1999. entreR . e 2. vida. arrancadas do fundo do subconsciente. neles vendo somente a importação de modelos estrangeiros. à presença dos imigrantes com novas idéias e costumes: o belo viaduto sobre o vale do Anhangabaú ligando o Centro velho ao Centro novo. do meu ponto de vista. financeira e industrial. dessa memória involuntária fugidia e pouco apropriada a se deixar envolver por explicações ou seqüências objetivas. “O flâneur” e “Infância em Berlim por volta de 1900”.19-22. desejo afirmar uma posição que questiona afirmações de que. contidos nos capítulos 1. cujo norte se situa em um lugar idealizado de perfeição. une capitale éclectique au 19e. ou a sua versão estadunidense. momento em que se pode surpreender a formação desse “pensar o urbano” em São Paulo. as medidas sanitárias tomadas pelas autoridades e o significativo aumento do fluxo de pedestres e de veículos no seu núcleo central. tal como Argan. tal como se interpõe uma distância entre a intenção projetiva da lei e o comportamento que objetiva disciplinar. Textos constantes de várias coletâneas.11 Por serem importados constituiriam cópias pouco refletidas (no sentido forte de reflexão. que escapa entretanto à rigidez organizada desta. empobrecendo. encontra na experiência do ser urbano uma das bases necessárias à apreensão da cidade. Percursos históricos e historiográficos de São Paulo. política urbana e territórios na cidade de São Paulo. 12 Ver de Raquel Rolnik.6 Também ela. ver capítulo 1. Obras Escolhidas II e III da Editora Brasiliense (São Paulo). 13 Tratei desse relato em “Imagens de São Paulo. 1982. uma percepção do espaço trabalhada pela memória voluntária. N . inclusive da intelligentsia brasileira em relação aos seus pares estrangeiros. como plano de organização. respectivamente.

p. A matéria detalha informações tais como a de que a padaria foi feita dentro de um contêiner e que uma moradora vive com sete de seus nove filhos dentro de um barraco de 1.14 Lembranças que carregam imagens fugidias da cidade.7. sempre um pouco excludente. O caderno “Cidades” de O Estado de S. segundo matéria de um ano antes.2003. p. Há sem dúvida uma questão estética apontada na reportagem quando afirma o desconforto produzido pela aparência do edifício: “uma das imagens de degradação”. Contudo. desse mesmo caderno “Cidades”. Alguns dias antes. mas certamente pela distância temporal e pelo trabalho de rememorar.. se deixando entrever no trajeto pela praça da República e no viaduto do Chá. no dizer do articulista. às margens do rio Tamanduateí e fronteiro ao Mercado Central da rua da Cantareira. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. Muitas outras pregam pedaços de madeira para fazer o mesmo. B . seletivo. se sentir submersa em meio à multidão do fim de tarde. Afinal. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . compõe. Por todos os cantos. ele parecia estar com seus dias contados.. Todos eles querem moradia. reunindo perto de mil pessoas. 6 . tanto. o mesmo caderno “Cidades” trazia uma matéria com o título: “Moradores iniciam mutirão para salvar São Vito”. O terreno plano ganha contornos ao som do martelo. transformado em favela vertical há anos. Remeto para as reflexões de Jacy Alves de Seixas em “Os campos (in)elásticos da memória: reflexões sobre a memória histórica”. momentos intermediados pelo tempo da memória que me traz à lembrança a cidade dos anos 50 e 60. de reconstruir os barracos derrubados pelo vento forte que se abateu sobre a capital paulista durante a madrugada. lembranças talvez idealizadas pela escolha que faço.) Uma notícia corriqueira nos jornais da grande imprensa paulistana. Devaneio? Pode ser. em Essai sur les fictions (1979. 2001. nascem barracos. expressa a firme intenção de resistir.59.4 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). 10. disse ser a imaginação a faculdade mais preciosa do homem. diz uma chamada: “Local já tem boteco e padaria”. do prazer de transitar anônima pelas ruas centrais. mesmo ameaçada com o despejo. O texto foi escrito em 1795 sob o impacto dos acontecimentos da Revolução Francesa de 1789. Da terra – antes coberta apenas pelo mato – sobem paredes. destinados a financiar a reabilitação do Centro da cidade. em 28 de junho. Se hoje o cenário lembra o de um acampamento. a ter em mente dois momentos vivenciados em minha experiência pessoal. O articulista criticava até a possibilidade de serem gastos pela Prefeitura US$ 6. logo o lugar poderá se transformar em mais uma favela da capital. ao lado da Estação Itaquera do metrô.197 da avenida do Estado... Paulo de 10 de julho de 2003 noticiava a ocupação de um terreno da Prefeitura ao lado de outra matéria que informa já ter sido obtida pela municipalidade uma liminar de reintegração de posse do terreno. constroem-se tetos. Pequenos trechos de entrevistas com os “invasores” dão conta das precárias condições de vida dessa população que. na zona leste de São Paulo. quero crer) das autoridades e o resultado pouco animador. fugindo de outra favela que diz “ser um lugar onde não tem vida digna. N . 10 de agosto de 2002. pois seria nela que criaríamos imagens colhidas entre as boas lembranças destinadas a mitigar os sofrimentos inerentes à vida humana. caindo aos pedaços .3 metros. Foi a São Paulo de hoje que me incentivou a indagar como historiadora sobre esse processo de um século de duração que leva os que por aqui viajam a se verem freqüentemente submetidos ao impacto negativo da imagem atual da cidade.A C I D A D E 14 Penso aqui nas considerações de Germaine de Staël quando. Cerca de 300 famílias. O edifício.5 por 2. uma das “imagens mais conhecidas de São Paulo”. Foi a condição de cidadã que me colocou a questão de como se vive em São Paulo: esse descompasso entre intenções bem-intencionadas (na maioria das vezes.25). Trata-se de um edifício situado no Centro da cidade... no número 3. onde nem lei entra”. a surpresa de que iniciativas individuais podem mostrar que a cidade pertence e pode ser edificada pelo cidadão. Seu título – “Como nasce uma favela em SP”. a construção não pára. (OESP. o pôr do sol escondido entre os edifícios. os vidros 16 R . já moram no local em uma enorme área da Prefeitura. “uma favela vertical .2 milhões dos US$ 100.

Em 21 de julho de 2003. na maioria nomes importantes na área e representativos da arquitetura moderna no Brasil – Niemeyer.. B . Contudo.15 Em suas palavras: Naquela década. Paulo.. “em vinte anos. “próxima de tudo”.7. São Paulo foi caracterizada por um acelerado processo de verticalização. bem servida de transporte. a região perdeu 30% de sua população . 21. ao invés de demolir o São Vito.. que deram origem aos pequenos apartamentos de um dormitório ou às quitinetes dos anos 50. N . Afinal. com dimensionamentos mínimos. de 1980 a 2000. 21. o projeto de recuperação do São Vito constituía parte da intenção dessa Secretaria “de fazer de novo do centro uma área de moradia de qualidade”. além de manter esses marcos simbólicos da arquitetura moderna em São Paulo. principalmente em sua área central e nos bairros limítrofes ao centro.00 de aluguel. comentário enriquecido por informações acerca do significado arquitetônico e urbanístico dos edifícios gêmeos. A arquitetura moderna tinha trazido para os arquitetos novas preocupações. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 17 . Warchavchik.) 15 Maria Ruth Amaral de Sampaio publicou. A maioria dos moradores paga R$ 100. dos mais de US$ 100 milhões. Amaral de Sampaio informa que na década de 1950 havia carência de habitações e de transporte urbano coletivo. a ênfase na economia da construção. Uma das matérias. 6 . a introdução de novas tecnologias e a possibilidade de tipologias menores. Ela comenta também que.084 pessoas. o esgoto vazando na calçada bem na entrada do prédio”.. A promoção privada da habitação econômica e a arquitetura moderna. no qual trata da questão. auxiliando-os a melhorarem o espaço em que vivem” (OESP. Mas a seu mau aspecto soma-se a falta de manutenção do equipamento básico: “os elevadores não funcionam . denunciam um grave problema social. Segundo Marcos Barreto da Secretaria de Habitação e Desenvolvimento. principalmente relacionada à habitação. Afinal. recentemente. o que tornava a área central da cidade um conforto para seus moradores e um atrativo para empreendimentos privados que buscavam suprir as demandas não atendidas pelo poder público por meio dos Institutos de Aposentadorias e Pensões e da Fundação da Casa Popular.7. de modo a dar condições decentes de moradia aos que os habitam para revitalizar essa área. entre as quais a sensibilidade à questão social.2003. Hoje. (OESP. a fachada está deteriorada com remendos de tijolos sem reboco”. precursoras dos flats de hoje. Em 2002. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V.. US$ 48 milhões seriam empregados no programa Morar no Centro. na página dois – na seção “Espaço aberto” – de O Estado de S. as preocupações das autoridades públicas de São Paulo em relação à área central da cidade parecem não se limitar à questão da moradia. Eduardo Kneese de Mello. se cuidasse prioritariamente desses cidadãos paulistanos. todos localizados em área central.M A R I A S T E L L A B R E S C I A N I estão quebrados . existem no centro cerca de 45 mil imóveis desocupados. São Vito e Mercúrio. ainda de R . a socióloga Maria Ruth Amaral de Sampaio apresentou um comentário consistente sobre a situação do São Vito. às necessidades de assegurar luz e ventilação.2003). informava Barreto. A autora relaciona a lista de edifícios e respectivos arquitetos responsáveis por seus projetos. Sua posição clara é a de que se deveria atuar na recuperação desses edifícios. portanto. 19301974 (2003). e outros tantos prédios de apartamentos de pequenas dimensões construídos nos anos 50 para a população de baixa renda. como diz um entrevistado. entre outros. “a municipalidade desenvolveria uma ação muito mais racional e coerente com sua política tão divulgada de incentivar a moradia no centro. onde vivem 3. seus 683 apartamentos minúsculos distribuídos pelos 26 andares.. Com a reabilitação da área queremos que as pessoas voltem [a] morar ali”. trabalha na área central.

018 favelas. Entre eles. p. A maioria se dizia confiante na segurança da região ao caminharem até o estacionamento de seus carros.A C I D A D E 16 “Pobreza desvendada. Outro artigo. cujo tema principal diz respeito à saúde e escolaridade das crianças moradoras nessas áreas. 6 . com um total de 1. Entre os 3 mil moradores temos muitos pedreiros. O Estado de S. pelo menos. 30 de junho de 2003. reabilitação prevista um ano antes pelo representante da Secretaria de Habitação e Desenvolvimento (OESP. este sobre o mutirão dos moradores do São Vito. diz a matéria. diz a síndica. eletricistas e pintores que estão ajudando”. “Aqui é como uma cidade do interior. publicada em 10 de agosto de 2002. nas palavras do articulista) preservados. o Solar da Marquesa de Santos (única construção remanescente do período colonial) e a seu lado a Casa nº 1. Centro de estudos mapeia áreas para implementação de políticas públicas”. variando entre o não-pagamento do condomínio por cerca de 65% dos condôminos. outra reportagem noticia a intenção de Geraldo Alckmin. Em 19 de julho de 2004. Paulo. “nem se imagina existir nesse canto da cidade”.2002). São os moradores. a chamada da matéria principal do caderno “Cidades” de O Estado de S. Um ano depois. Não há no texto menção a qualquer tipo de realização relativa à intenção do governador Alckmin veiculada em O Estado de S. de 28 de junho de 2003. ambos situados na pequena rua que desemboca no Pátio do Colégio. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V.16 O artigo. que se estende à página 3 do caderno. as dívidas com a Sabesp e a Eletropaulo. advogados – formando verdadeiras ilhas que. temerosos com a ameaça de demolição desejada pela Prefeitura. distribuídos pelas mesas do calçadão. in Pesquisa Fapesp.86. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . Paulo. de lojas e escritórios. abril de 2003. de negociar a compra de oito prédios no Centro da cidade entre as ruas 15 de Novembro e Boa Vista. Da lista consta ainda o prédio Martinelli. mais os direitos trabalhistas de ex-funcionários. A matéria. gente da Bolsa [Bovespa]. que como outros moradores desafiam a “Prefeita Marta Suplicy” a vir tentar demolir ou implodir o edifício. funcionários de cooperativas de crédito. ao noticiar as precárias condições do São Vito. n. descreve o ambiente agradável formado pelos freqüentadores – bancários. mesmo casais moradores da área central se diziam seguros ao retornarem a pé para suas casas. Uma foto mostra um trecho de rua do Centro velho. que haviam se mobilizado em mutirão para reformar. estende-se comentando o projeto de reabilitação do Centro que prevê a recuperação de outros cinco edifícios considerados de função pública. B . governador do Estado. diz: “Bares devolvem animação ao centro de SP”. e até hoje é um dos símbolos marcantes da paisagem da cidade. mantém-se a intenção de reabilitar a área central que algum tempo atrás ganhou. com a reforma do prédio do Banco do Brasil. Entretanto. Paulo a 30 de junho. Ou seja. a síndica e alguns moradores entrevistados pelos repórteres dizem não serem problemas maiores do que os que assolam as edificações do Cingapura e da Cohab. O número de problemas é enorme. não fazia sequer menção ao processo de reabilitação dos cinco edifícios.16 milhão de habitantes vivendo em condições precárias de saneamento e habitação”. onde se encontram animados freqüentadores de fim de tarde de sexta-feira. o largo do Café entre prédios antigos (“históricos”. um centro cultural bem no coração da cidade. nem mencionava qualquer subvenção para a recuperação do próprio São Vito.16-7. Essas matérias da imprensa dão uma pequena amostragem dos problemas enfrentados na cidade de São Paulo em relação às condições de habitação de parcela significativa de seus mais de 10 milhões de habitantes. São assustadores os números apresentados em abril deste ano por artigo da revista Pesquisa Fapesp: “A cidade de São Paulo tem 2. relata os resultados de pesquisa realizada pelo Centro de Estudos da Metrópole (CEM) com o qual foi elaborado o Mapa da Vulnerabilidade 18 R . que com seus 23 andares causou sensação em 1929. sua área interna. ano em que foi completada sua construção. 10.8. N .

No dia seguinte.3% da população da cidade desfruta de renda que lhe permite ser classificada como “não sofrendo nenhuma privação”. Nesse meio tempo perde a cidade submetida a uma Lei de Zoneamento que. Sua crítica avança. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. conhecido por seus vários livros sobre a capital paulistana. saúde e escola para toda a população” (OESP.. Lembrava ainda a forma desastrada e corrupta pela qual se fazem as obras públicas na cidade. sem possibilidade de se prover trabalho. B . como se beleza e bem-viver fossem coisas apartadas. desencadeia um processo que pode se arrastar por três anos. Contudo.500 fotos aéreas e 800 inspeções físicas feitas pelos pesquisadores do CEM e da Secretaria Municipal de Habitação. a via elevada sobre a avenida São João. A disputa entre as autoridades municipais responsáveis pela Lei que. anistia provisoriamente os estabelecimentos comerciais instalados nesses corredores e a decisão judicial do presidente do Tribunal de Justiça suspendendo a anistia. 7. Terceiro Mundo. o mapeamento do perímetro das favelas e a estimativa da população residente baseada na análise de 8. Como resultado.8% dos habitantes vivem em “situação de altíssima privação”. destinada aos editoriais desse mesmo órgão da grande imprensa. porém. “A cidade não cresce. em pequeno artigo intitulado “Paisagem paulistana”. expõe a dificuldade na realização da pesquisa que demandou o cruzamento de informações dispersas de diferentes bases de dados. contando com a aprovação em breve de uma nova Lei de Zoneamento. com absoluto descaso para com a paisagem urbana – mencionando. espalha-se como mancha de óleo no mapa. obteve-se o mapeamento da pobreza da cidade – mapeamento que servirá de base para a ação da Secretaria de Assistência Social da Prefeitura. diretora do CEM. deveria ter sido modificada há vinte anos. R . o articulista comentava criticamente os prejuízos para a cidade com a pendência entre diferentes autoridades e a decorrente demora nas decisões para resolver a questão dos “corredores comerciais” encravados em várias áreas residenciais da capital. e péssimos indicadores de escolaridade – 18% dos chefes de família não são alfabetizados – e de renda – 76% dos responsáveis por domicílio ganham até dois salários mínimos”. na página dois. diz o editorial. entre elas.7. assim denominado. seção “Espaço aberto” de O Estado de S. aparentemente pequena em termos estatísticos. denunciava a degradação sofrida pela cidade em virtude de seu gigantismo decorrente da má distribuição demográfica do País. 3. representa nada menos do que “algo em torno de 420 mil famílias vivendo na periferia da cidade . No dia 7 de julho de 2003. A matéria fecha alertando para as conseqüências do descompasso entre “a dinâmica da evolução” da cidade e a legislação desatualizada. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 19 .. N . Argelina Cheibub Figueiredo. os resultados da pesquisa dão conta de que. 8 de julho. Essa porcentagem. famílias com alta concentração de crianças entre 0 e 4 anos e de jovens de 15 a 19 anos. não só a pobreza e suas precárias condições de vida merecem observação crítica de matérias da imprensa. 6 . responsável pela degradação de uma das avenidas mais antigas da área central.2003) . incha.M A R I A S T E L L A B R E S C I A N I social e do déficit de atenção a crianças e adolescentes no Município de São Paulo. na página três do primeiro caderno. o “Minhocão”. entre outras “obras”. segundo ele. Paulo – o arquiteto Bendito Lima de Toledo. por desfrutar das melhores condições de renda e escolaridade do município. muito além da constatação dessa característica que alinha São Paulo a outras cidades do. o fechamento de 10 mil postos de trabalho em uma cidade já bastante onerada pelo alto índice de desemprego. Afinal. habitação. prazo estimado para que a matéria seja analisada pelos 25 desembargadores do órgão especial do TJ. Um problema antigo que se submetido às leis vigentes representaria hoje em dia. se 6.

Para ele.224). mas extremamente atraente por recolocar o homem no centro de seu próprio mundo. de Garnier. Nesse sentido. Nas cidades modernas “cessam as razões de defesa interna e as lutas citadinas. Essa pressão do citadino não estaria mais presente nas cidades que deixaram de ser “unidades de vizinhança”. parcela importante dos problemas decorreria da má distribuição da renda e das condições do mercado de trabalho no País. Embora não constituam problemas específicos da capital paulistana. às constantes tentativas de fuga e às fugas efetivas de penitenciárias. que tornavam úteis as ruas tortuosas” e o acaso e a surpresa se vêm eliminados pela organização em perspectiva dos traçados retilíneos que mensuram e diminuem distâncias (1993b. Em suas palavras encontra-se o registro de uma constatação e de um alerta severo: “A cidade não se funda. é uma extensão da fábrica” (Argan. em sua esfera ‘particular’. assunto que tem merecido matérias constantes na grande imprensa paulistana – que se avolumam. bem como de transporte coletivo. proteção e refúgio e torna-se aparato de 20 R . não são cidades”. a aposta na possibilidade de enfrentar e resolver as questões postas pela metropolização de São Paulo persiste. opõe à destruição de certos fatos que têm para ele [o habitante] valor simbólico ou mítico. Para ele. Brasília é um grande ministério. a cidade industrial de Ledoux. na primeira metade do século XX. Para entender a afirmação de que esses não são problemas específicos da cidade de São Paulo. acredito ser importante voltar a Argan e a outros urbanistas e estudiosos das questões urbanas que. “o que define. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . B . sempre viram com otimismo a possibilidade de fazer de São Paulo uma grande metrópole e exemplo de boa urbanização.234-5). deveria enfrentar os problemas de infra-estrutura – saneamento e energia elétrica. penso que Argan trabalha uma aposta. 1993a. um objeto de museu. vêm chamando a atenção para o descompasso entre os planos urbanísticos. p. sem dúvida nela se apresentam de forma superlativa contradizendo os vários planos elaborados no decorrer de todo o século XX com vistas a torná-la uma metrópole capaz de oferecer condições de vida digna para sua população. a oferecer condições de trabalho para o número sempre crescente de seus habitantes.A C I D A D E Essas matérias escolhidas entre outras que noticiam problemas relativos ao transporte coletivo. Ou seja. Afinal. ao tráfico de drogas e de armas. as intenções de controlar o crescimento das cidades e seu entorno ambiental. N . estando longe de atender às necessidades básicas da população. os dois textos já citados de Argan – “O espaço visual da cidade” e “Urbanismo. desabamentos de casas e demais tragédias do cotidiano da grande metrópole parecem desmentir toda a possibilidade de manter sob controle seu crescimento e a qualidade de vida indispensável a seus habitantes. conserva e transmite o caráter de uma cidade é o impulso. utópica sem dúvida (porém qual intenção urbanística não guarda uma dimensão utópica?). quando a cidade deixa de ser lugar de abrigo. e o que nelas ocorre. Mesmo considerando problemática essa afirmação sua. se forma. e todos [os habitantes opõem] de comum acordo à destruição de certos fatos sobre cujo valor simbólico há consenso geral”. “Pienza é um modelo. Grande parte dos problemas é imputada à constante e numerosa corrente migratória que há mais de meio século busca a cidade atrás das efetivas ou quiméricas possibilidades de emprego. o planejamento regional e ecológico. se a municipalidade não se dispõe. Em outras palavras. a pressão ou apenas a resistência que cada um. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. Contudo. 6 . desde a década de 1970. aliás não poderia se dispor. As cidades fundadas e construídas por imposição não tiveram desenvolvimento. ou um século depois. p. espaço e ambiente” – guardam atualidade por falarem dos desafios postos aos urbanistas. aquelas “em que todos se conhecem”. Contrastam com a posição afirmativa das autoridades municipais e dos urbanistas que.

Para Rykwert é de extrema relevância a preocupação demonstrada por alguns sociólogos quanto aos construtos mentais dos habitantes para se pensar e propor protótipos conceituais de cidades. Estudioso das cidades. Rykwert se aproxima em seus argumentos de Argan e Cauquelin por entender a importância de serem reconciliados o modelo conceitual – posto à disposição do citadino na sua apresentação gráfica dos diagramas dos metrôs e trajetos de ônibus – com o que é efetivamente vivenciado pelo citadino. Joseph Rykwert também localiza nos problemas do trânsito a atual concentração das preocupações das autoridades urbanas e do usuário da cidade. o espaço psicológico. trechos e área das cidades. Rykwert vai além em sua crítica ao denunciar o silêncio com que se elide a possibilidade de desenvolvimentos outros. Porém. R . às cidades romanas e sua organização em obediência a leis divinas. . 1989. coisas que no século XIX foram vistas como sérias e passíveis de estudos. se esquecem que essas modificações físicas implicam para os cidadãos mudanças simbólicas. tudo acontece porque hoje em dia se considera pouco séria a preocupação com sonhos e fantasias.M A R I A S T E L L A B R E S C I A N I comunicação. Talvez por isso mesmo. Acredita mesmo que esses construtos encontram-se nas casas que seriam percebidas como miniaturas da cidade. e à noção de patologia quando se referem a crises. pensado pelos urbanistas exclusivamente do ponto de vista econômico.17 Manter o quadro conceitual dentro do qual os planejadores trabalham significa. esses especialistas e as autoridades públicas confirmam essa tendência. para ele. não da existente. Quando relacionados com a fisiologia constituem algo antes de tudo mais próximo do sonho” (Rykwert. diz ele. desse modo. durante quase dois séculos. jurídico e religioso não são tratados como aspectos do espaço ecológico. formado pelo espaço e tempo que nos ata a lugares específicos: casas. A imagem positiva e valorizada do tráfico intenso das cidades. composto de elementos da vontade e do acaso [willed and random elements] imperfeitamente controlados. cultural. considerado índice de desenvolvimento. Aprisionados a modelos analíticos de caráter estatístico. 6 . da arquitetura privada expressando com o luxo e a grandeza a condição social ou apenas econômica dos proprietários. está sendo revista. correlacionando-o ao crescimento do produto interno bruto nacional.23-6. N . o pensamento urbanístico tenha se empobrecido tanto. para os anos vindouros. Aliás. pedestre ou motorizado. diz ele. Os constantes engarrafamentos atormentam de tal modo a vida urbana que a engenharia de trânsito terá (deverá substituir) que substituir o planejamento urbano. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. B . p. assemelhado aos processos naturais e às imagens de árvores e de tecido epidérmico. É um artefato – um artefato de espécie curiosa. “a cidade não é realmente um fenômeno natural. Não que sonhos e fantasias sejam dispensáveis. já que os especialistas da área estariam sempre um passo atrasado em relação às demandas. prossegue Rykwert. até científicos. Ao limitarem-se a soluções dos problemas físicos dos centros urbanos. avaliaram positivamente o crescimento demográfico das cidades. recusar qualquer ordenação de natureza extraeconômica e aceitar a idéia de um crescimento autônomo. Vêem-se. planejadores e arquitetos às voltas com um resíduo irracional motivado por preconceitos inconfessos de caráter espiritual ou estético desastrosos para a própria convivência da comunidade. agora avaliada negativamente. mas da cidade desejada. de transmissão de determinados conteúdos urbanos: a autoridade do Estado ou da Lei. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 21 17 As observações que se seguem foram resumidas do “Prefácio” a The Idea of a Town. O mesmo acontece com as suposições otimistas dos economistas que. no duplo sentido de deslocamento e relação. 1989). Ocupando-se somente do espaço em termos físicos. Rykwert não considerava no momento em que escrevia e publicava esse seu livro (1988) que se dispusesse de soluções para essa questão e por isso voltava-se para os tempos antigos.

construtoras etc. a ideologia da diversidade. sua morfologia ou tipologia arquitetônica. Urbanismo em fim de linha. p. 1988. diz ela: parece anunciar esse estreitamento das possibilidades de mudança real. das possibilidades de se reencontrar a dimensão de cidadania nas cidades contemporâneas. obrigando a dividir a responsabilidade de qualquer intervenção com outros profissionais. B . por vezes. à qual se somam os limites naturais da profissão. Otília não recua perante as implicações. em que os conflitos são escamoteados por uma espécie de estetização do heterogêneo?”. que se julgava decorrência inelutável do desenvolvimento das forças produtivas”. trabalho. que no plano ideológico . é bem verdade. mas. N . desde os inícios dos anos 90.43ss. desesperançada mesmo. em outros deixa patente sua percepção pessimista. “buscando uma requalificação que respeite o contexto. a da “tradição da ruptura”. 6 . e insiste no significado da alteração terminológica que substituiu a noção de planejamento pela de “desenho urbano” (Arantes. 1998. Em sua ótica. da “pluralidade da cidade caótica” e seu caráter 22 R .131-5). p.A C I D A D E Passemos agora a Otília Arantes que. na afirmativa do colapso da idéia de planificação global da cidade e na tendência a se adotar a forma pontual nas intervenções. p. 1998. Essa reviravolta foi em boa parte motivada pelos resultados da crença na razão que redundou na “funcionalização do novo. e implicou o colapso da idéia de planificação global da cidade e de sua aposta na organização racional do espaço habitado coletivo. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. (Arantes. das identidades locais. dos verdadeiros agentes urbanos ou promotores do espaço público: governos – no mais das vezes preocupados em transformar a cidade em imagem publicitária – ou os especuladores imobiliários de sempre (proprietários. e preserve os valores locais”. p. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . inverte-se a avaliação positiva da “heterogeneidade”. imposto pelo rumo atual do capitalismo.41-54). formando outra. até de caráter ideológico.1998. mas de implosão.131-2. Em sua perspectiva vive-se um contexto calamitoso em que pouco há para fazer no sentido de resistir a essa tendência perversa do mercado. Não se trata mais de explosão urbana. e mais.) 18 Otília Arantes. “intencionalmente modesta”.). Encolhimento que não se deve apenas à interferência direta dos interesses em jogo. como foi denominada por Octavio Paz. embora transite por um caminho crítico diverso do de Argan. em alguns pontos se aproxima deles. Cauquelin e Rykwert. mais de 70% da população pobre reside nas cidades).. cuja mundialização é responsável em grande parte por uma urbanização tanto mais intensa e extensa quanto maior o contingente dos “náufragos da competitividade” mundial (só no Brasil. Prossegue refletindo sobre essa tendência ao colocar no debate a questão bastante atual sobre se não se estaria “substituindo a ideologia do plano por outra. basicamente. Fé fundada na “crença no poder emancipatório da evolução capitalista. reflete a espécie de renúncia a que obrigou a déblâcle irreversível do Movimento Moderno. que levara os modernos a romperem com a tradição. formalização da ruptura. A cidade fragmentada é para a autora o resultado da nova ordem mundial – a subproletarização – decorrente do aumento do excedente de mão-de-obra não absorvido pelo mercado de trabalho e que agrega conflituosamente essa nova marginalidade urbana de dimensões mundiais. além de atuações restritas relativas a melhorias das condições de higiene. diz ela. Arantes vem insistindo.. Otília Arantes considera no texto citado e em “Arquitetura no presente: uma questão de história?”18 que “se perdeu a fé no poder emancipador da razão comandando o desenrolar do processo histórico”. e a conseqüente transformação da utopia no seu contrário à medida mesma em que se realizava” (Arantes. alimentação e saúde. Uma restrição que.

p. um desejo implausível de devolver a antiga dignidade perdida da continuidade histórica.317-28). 20 A expressão está em “Cultura da cidade: animação sem frase”. como atestam os monstros urbanos em que vivemos. p.132). um bom desenho até pode tornar agradável de ver – em maquete. no qual a autora indaga. B . motivado por especialistas que advogam a causa do urbanismo anárquico ou que fazem a apologia da cidade caótica. a estetização do heterogêneo. convidando. Na seqüência de seus argumentos apreende-se a crítica severa ao sentido dado atualmente à preservação. completa.140). um retrocesso brutal. um retorno da arquitetura aos estilos áulicos. uma certa renúncia á utilização dos meios técnicos ao nosso alcance em função da melhoria material das condições de vida dos habitantes dos grandes centros metropolitanos” (1998. afirma buscando reforço para sua posição em uma citação de David Harvey: “quando a pobreza e a falta de moradia são servidas para o prazer estético.140. e que Otília Arantes relaciona à noção de “desenho urbano”. 1998. por conseguinte. diz. tão desejada por Richard Sennett. p. 1998. sobre esse consenso de âmbito mundial das intervenções apoiado na generalização dos conceitos. Desfaz-se o par complementar – modernização e urbanização – enquanto recusa da urbanização demolidora dos modernos orientada por uma pretensa racionalidade da cidade planificada – substituindo-o pela alternativa de intervenções orientadas pela idéia de consertar sem destruir. carregando ambos. fragmentada. para ela. Não há em seus textos uma recusa cega ao “revivalismo”. 1998. .21 A mesma avaliação crítica severa encontra-se em um artigo de Ana Fernandes (2001. pontos localizados no passado. 1998). entretanto. em migalhas. exatamente. lembra até a presença de componentes regressivos presentes na arquitetura monumental do século XIX – nos monumentos e nas casas burguesas – e no medievalismo de Ruskin. em que Jane Jacobs (Morte e vida das grandes R . A apologia das identidades locais. reatando e rejuvenescendo os vínculos com a tradição – construir um lugar. Sua posição em relação a esse “amolecimento” da cidade onde a tudo pode ser atribuído valor. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 23 19 Otília retoma em outros textos esse tema e aqui a citação é de “Urbanismo em fim de linha”. N . respeitar a sedimentação dos tempos diferentes. assiste-se a uma estetização da pobreza urbana”. artigo da coletânea Urbanismo em fim de linha. O que a preocupa é esse retorno esvaziado de sentido simbólico. que parece “no mínimo um descompasso. “De fato. Otília Arantes expõe todo seu pessimismo na frase com que fecha o artigo: “Ocorre que este último (o capitalismo central) se recompôs inviabilizando de vez a idéia mesma de urbanização. a partir de pontos nevrálgicos com o poder de requalificar o entorno e a relação entre as pessoas. 1998. Cidades com espaços transformados em cenários fascinantes buscando atrair “uma sociabilidade que deixou de existir por causa desse traço desertificante da modernização”. ou algo do gênero”. a partir do refazer discretamente espaços da cidade. a ética é de fato dominada pela estética. cujo olhar retroprojetivo de alguns parece acreditar ser possível reconstituir. 6 . p.M A R I A S T E L L A B R E S C I A N I soft. Ela parece concordar com Argan que noções como “comunidade” constituem meras abstrações. soft. tão festejado por “alguns deslumbrados”. ao funcionalismo e ao zoneamento. sem dúvida. e dentro deles as zonas extraterritorializadas que. uma função simbólica. à amarga colheita da política carismática e do extremismo ideológico” (Harvey apud Otília. retorno estranho.146. p. plural. implica a seu ver “um estreitamento das possibilidades de mudança real. Nos anos de crítica ao racionalismo. uma manifestação nostálgica de reação à modernidade técnica. nós o perdemos”. 21 “Arquitetura no presente: uma questão de história?”. p. tornando o conceito de cidade uma coisa do passado.19 Confusão entre o respeito à alteridade e o culto à diversidade. Otília Arantes não vê “nessa intervenção contextualista”20 a possibilidade de se formar um espaço de salvação da cidade e da vida pública perdida. E finaliza afirmando: “os modernos (ao pensarem a ruptura) tinham o sentido da história. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. de preferência” (Arantes.54.

cada vez mais presentes no cotidiano”. para “os valores ligados à historicidade do espaço construído e à constituição da memória”. 6 . 1998. in Cahiers du CCI. portanto. ecologia. há. “o urbanista demiurgo foi se transformando num decorador” e o planejamento foi cedendo aos poucos ao “urbanisme d’entretien”. N . a construção se tornara a maior prioridade social e fizera que até o status conferido pela formação nas faculdades de Direito. conclui Fernandes (2001. Passadas essas décadas de crítica. Fernandes e Argan – a constatação do terreno cediço em que se transformou a área de atuação dos urbanistas. seu trabalho estaria baseado na pesquisa estatística e na eficiência técnica. “esses conceitos deixaram de ser diferenciados das práticas de intervenção sobre as cidades para se transformarem em termos quase consensuais das ações implementadas no espaço urbano. com a recuperação de espaços centrais. B .319). de uma intenção radical de seus integrantes de fechar um tempo. Na perspectiva otimista deles. formou-se um contramovimento de afirmação de novos valores. As ruínas deixadas em muitos países europeus e asiáticos ofereciam o duplo espetáculo do final de uma civilização e de uma nova a ser construída com a garantia proporcionada pela racionalidade planejada e projetada de cidades. memória. em vista da escala territorial imensa das metrópoles. surpreendente. Uma preocupação em tornar a(s) cidade(s) objeto de desejo na apreciação estética da paisagem urbana que diferencia umas das outras de modo aparente. Rio de Janeiro – e várias outras implementadas por prefeituras progressistas. todas se reportando à auto-sustentabilidade. identidade. superficial. empresarial. Também em relação à recuperação do “espaço simbólico” das cidades. portanto. comunidade. Uma terceira dimensão revela a mesmice: a da importância atual dos grandes organismos internacionais impondo na prática metodologias de intervenção sempre atreladas a objetivos monetário-financeiros. Os profissionais eram vistos como pioneiros de um mundo novo e.5. Há. cidades americanas. São Paulo. 1961). não cultos ou não eruditos na legitimação dos processos de produção das cidades e de sua forma – uma apologia do caráter híbrido para a linguagem arquitetônica”. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . nos anos 80 e 90. “uma ânsia de particularidade que a distinga e que congregue habitantes e turistas. Nesse ponto escuta-se também as palavras de Rykwert interpretando o Movimento Moderno do pós-Segunda Guerra Mundial.22 Qual seria então o sentido da história para os modernos? Ora. assim como não o é sua relação indiferenciada com perfis políticos de gestão urbana bastante distintos”. Aldo Rossi (Arquitetura da cidade. a mesmice se forma a partir de preocupações idênticas em relação “às novas centralidades”. diz ela. Fernandes assinala a mesmice das intervenções com exemplos colhidos. 1971) movimentavam o debate. acreditando que a história.322 e 324). Eles apontavam para a boa convivência das “cidades tradicionais”. regiões portuárias e de grandes equipamentos urbanos que permitam o deslocamento rápido entre esses pontos transformados em atração turística. nos textos desses autores – Arantes. Em todas. “O desdobramento dessas ações em termos de produção do território com fortes características de homogeneidade não é. 1966) e Robert Venturi (Aprendendo com Las Vegas.A C I D A D E 22 Arantes remete aqui a Alain Ghieux em “Entrées sur la scène”. Tratava-se. além de seus vínculos com os velhos tempos ruins. em diversas de suas configurações: política. prossegue. estaria exatamente em seu obstinado esforço em romper com o passado. p. p. a autora indica idêntica preocupação generalizada com a hierarquização urbana em escala mundial. n. e para “a busca de conteúdos comerciais. em cidades estrangeiras e brasileiras – Salvador. todas reforçadas por ótica idêntica defendida pelo Banco Mundial. nada tinha a lhes ensinar. da mídia e do corpo técnico vinculado à ação sobre as cidades” (Fernandes. ainda prevalecente na primeira metade do século em 24 R . com a tradição. diz. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. 2001. mais ainda.

É nesse campo teórico que procuro desenvolver minha pesquisa – buscar essa relação entre o especialista e o citadino. SCHOONBRODT. M. 1998. A história e o futuro da cidade.. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 25 . R . ANSAY. como a dele. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMARAL DE SAMPAIO. Sem dúvida. Choix de textes philosophiques. _______. Rykwert não faz menção à dimensão política dessa mudança de perspectiva em relação à construção civil.br Artigo recebido em dezembro de 2004 e aceito para publicação em fevereiro de 2005. p. História da arte como história da cidade. E-mail: sbrescia@ lexxa. p. Approches et enjeux de la philosophie de la ville. p. B . 1993b. entre intenção e resistência: esse intervalo que sugere nossa participação e cumplicidade com a formação do que hoje são as cidades. Obras Escolhidas III. europeus e sul-americanos. In: _______. pois. G. História da arte como história da cidade. afinal. Urbanismo em fim de linha.com. São Paulo: Editora Brasiliense. O. Eles se davam conta de que. Maria Stella Bresciani é professora titular de História Contemporânea e coordenadora do Centro Interdisciplinar de Estudos da Cidade (CIEC) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. BENJAMIN. ARANTES. como estudante e recémformado nessa época. O resultado dessa desavença ficou patente na desarticulação do Ciam em seu décimo encontro. entre projeto e realização. 1987. 2003. C. Essa posição otimista teve curta duração. 1989. uma reversão de expectativa que não surpreendeu os jovens arquitetos cuja carreira. se transferisse em boa parte para a formação em Arquitetura. a meu ver: nossa obrigação de participar com os instrumentos profissionais de que dispomos.23 ele faz da cidade contemporânea e das cidades do século XXI seu objeto de reflexão. Contudo. a cidade não é somente um conjunto de unidades de moradia bem planejadas. se somos pacientes. 1930-1974. sempre disponível. Rykwert explica sua reaproximação acadêmica com a história. In: _______. mas também com a própria organização dos espaços domésticos das casas. Bruxelas: AAM. O espaço visual da cidade. Assim. pois. R. Da história ele retirou a lição de que as cidades nunca são inteiramente determinadas pelo alto por forças obscuras que mal podemos identificar. não nas cidades de arquitetura projetada por “visionários”. achava insatisfatória a formação que recebera na escola de Arquitetura. pouco elucidativa. São Paulo: Editora Brasiliense. a situação mudara em vista de vários dos projetos não terem demonstrado a eficiência almejada. Nomeia especialmente os Estados Unidos ao acolher os veteranos da guerra. por volta de 1965.23-51. menos ainda controlar. essa explicação a priori. São Paulo: Martins Fontes.225-41. e traz um “Epílogo” que atualiza suas reflexões para o mundo depois do 11 de setembro de 2001. A edição brasileira de A sedução do lugar (2004) leva outro subtítulo. _______. somos também agentes.M A R I A S T E L L A B R E S C I A N I países latinos. o vazio interposto pela genérica acusação de visão distorcida das autoridades com seus olhos sempre voltados para experiências externas. A promoção privada da habitação econômica e a arquitetura moderna. W. começara depois da guerra e que nunca haviam se convencido da racionalidade e eficácia de seus colegas mais velhos. Penser la ville. ARGAN. 1993a. Nelas. P. P. Urbanismo em fim de linha. São Paulo: Edusp. São Carlos: Fapesp/Rima. São Paulo: Martins Fontes.212. Até na Grã-Bretanha cresceu a preocupação de autoridades públicas não só com a urbanização. 1989. segundo ele. In: _______. In: ANSAY. organização que motivara a reflexão e a atividade da maioria de planejadores urbanos e arquitetos do imediato pós-guerra. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. 6 . Urbanismo. 23 O livro publicado em 2000 tem como subtítulo The City in the Twenty-first Century. N . nesse livro – The Seduction of Place. R. Obras Escolhidas II. mas em vastos subúrbios urbanizados na velha base especulativa. espaço e ambiente.

RYKWERT. As faces do monstro urbano. (Trad. S.ed. Paris: EHESS. Legislação. Cahiers du CCI – Urbanisme. La casaque d’Arlequin. Percursos históricos e historiográficos de São Paulo. São Paulo: Studio Nobel.. 1979.23. _______. siècle. Malaise dans la Civilisation. D. p. Os rumos da cidade. 6 . BREPOHL (Orgs. Essai de Philosophie Urbaine. São Paulo: Loyola. As cidades no século XIX. (Org. Porto Alegre: Ed. _______. Italy and the Ancient World. Paris: Ramsay. 1997. São Paulo: Ed. CAUQUELIN. Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas idéias do sublime e do belo. Consenso sobre a cidade? In: BRESCIANI. UnB. la ville entre image e projet. SALGUEIRO. Unicamp. The intellectual interest in studying the city(ies) comes certainly from present questions. 4. J. p. Os campos (in)elásticos da memória: reflexões sobre a memória histórica. A. UFRGS. urbanism.8-9. N . FERNANDES. E. 2001 STAËL. Paris: PUF. A cidade e a Lei. 1979. Objective connections concerning living and working conditions. J. A B S T R A C T To study the cities means to establish connections to the experience of living in cities. de. O espetáculo da pobreza. n. Londres: Weindenfeld & Nicolson. Paris.5. Essai sur les fictions suivi de De l’influence des passions sur le bonheur des individus et des nations. Belo Horizonte. C. A. CAMPOS. S. The Anthropology of Urban Form in Rome. A. A condição pós-moderna.Senac.A C I D A D E BRESCIANI. 1985. M. política urbana e territórios na cidade de São Paulo.) As palavras da cidade. n. FREUD. Cambridge. S. 1986. BURKE. São Paulo. de. _______. Estética e cidadania.5ss.) Razão e paixão na política. In: SEIXAS. de. 1998.Unesp/Fapesp/Anpuh-SP. A. Londres: The MIT Press. 1999. despite making us retrocede to moments where we can catch the significant links able to explain the quite unconfortable living conditions in the contemporary cities. S. 1997. 1993. Encontros com a História. GHIEUX. 1992. BRESCIANI. The Idea of a Town. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . images. A. 26 R . p. E Y W O R D S K Cities. Paris: PUF. HARVEY. ROLNIK. 1989. Entrées sur la scène. Londres e Paris no século XIX. Revista Brasileira de História. 1982. 2000. Urbanismo e modernização em São Paulo. Boulton. R. Brasília: Ed. São Paulo: Ed. H. Massachusetts. 2001. G. da edição crítica de James T. 2003. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. The City in the Twenty-First Century. A. Londres: University of Notre Dame Press. 1982. M. affective ties that build spaces where remindings constitute a special repertoire relating images and expectations mostly idealized and resistant to time. Imagens de São Paulo. São Paulo: Brasiliense. B . history.317-28. In: _______. SEIXAS. memory. Campinas: Papirus/Ed. une capitale éclectique au 19e.

local e nacional. tendo em vista o lugar central que ocupa. hoje. em que a ilegalidade R . a análise tem como foco as políticas de regularização e urbanização de assentamentos populares. numa democracia representativa). de direito social e de direito de propriedade. particularmente a Zeis. contido no ideário da Reforma Urbana. INTRODUÇÃO . com os rumos da política urbana brasileira. com os rumos da política urbana brasileira. ambas legais e legítimas. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 27 . ou seja. tendo em vista o lugar central que ocupa. a ilegalidade da moradia na formulação da questão urbana brasileira e nas ações públicas daí decorrentes. local e nacional. acima citada. numa democracia participativa. indiretamente. hoje. numa sociedade hierarquizada e profundamente desigual. ninguém está sob o poder de um outro porque todos obedecem às mesmas leis das quais todos são autores (autores diretamente. A análise tem como foco as políticas de regularização e urbanização de assentamentos populares. contido no ideário da Reforma Urbana. como. a ilegalidade da moradia na formulação da questão urbana brasileira e nas ações públicas daí decorrentes. Donde o maior problema da democracia numa sociedade de classes ser o da manutenção de seus princípios – igualdade e liberdade – sob os efeitos da desigualdade real. em que as ilegalidades fundiária e urbanística são elementos da não-cidadania. hoje. Marilena Chauí Tomando como referência a definição de democracia.. duas referências de bem-estar... L AV R A S PA - C H AV E Cidadania. Parte-se da idéia de que os instrumentos legais acionados nos assentamentos. por exemplo. direcionada para a ampliação dos direitos de acesso à cidade. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. aos mais “conservadores”. habitação. carregam princípios contraditórios. política urbana. Trata-se de uma avaliação dos princípios das políticas em curso e de seus efeitos no campo valorativo do ideal igualitário. a visão de cunho ambientalista.. N .todos são iguais porque livres. Questiona-se em que medida as normas e os padrões específicos instituídos nesses territórios institucionalizam duas classes de cidadãos. Nesse sentido. 6 . nos diferentes projetos políticos em disputa: dos mais “progressistas”. Vale lembrar que a ilegalidade da moradia dos pobres como problema aparece. isto é.OS INSTRUMENTOS DA REFORMA URBANA E O IDEAL DE CIDADANIA AS CONTRADIÇÕES EM CURSO LUCIANA CORRÊA R DO LAGO E S U M O O ensaio busca confrontar o projeto de cidadania. ou mesmo entre igualdade e liberdade. B . onde a diferença é a expressão da inferioridade dos pobres. direcionada para a ampliação dos direitos de acesso à cidade. busca-se nesse ensaio confrontar o projeto de cidadania. Busca-se contribuir com o debate sobre as possibilidades de “convivência” entre igualdade e diferença.

A questão central de um projeto democrático de cidade é garantir aos moradores dessas áreas igual condição de disputa por investimentos públicos. assim. que reivindicam e criam novos direitos. de clientela. 2001).O S I N S T R U M E N T O S D A R E F O R M A U R B A N A 1 Zona Especial de Interesse Social. tem ampla utilização (e possivelmente sua origem) no campo da assistência social. através de políticas sociais e urbanas de diferentes matizes ideológicos. numa sociedade hierarquizada e profundamente desigual. que a política de assistência tem como pressuposto a existência de grupos sociais incapazes de se integrar plenamente. na medida em que a participação dos envolvidos no processo garante tal legitimidade. hoje. portanto. particularmente a Zeis. os impasses “entre o projeto universalista da Liberdade e da Igualdade e o respeito. na Europa) sobre as possibilidades de “convivência” entre igualdade e diferença. duas referências de bem-estar: de direito social e de direito de propriedade. 1993. apenas. A conquista da cidadania. p. áreas e pessoas até então excluídas. contribuir com o debate (bastante caloroso. mas sim de seus princípios e efeitos no campo valorativo do ideal igualitário. não tendo esse trabalho tal pretensão. Não esqueçamos que as favelas no Rio de Janeiro vêm sofrendo intervenções por parte do Estado. Busca-se. Cabe avaliar se esse reconhecimento e os processos sociais aí envolvidos desnaturalizam ou reificam nossos valores hierárquicos. de seus efeitos concretos sobre o quadro de desigualdades e carências. Vale mencionar. Entre os extremos ainda vale mencionar a visão liberal dos efeitos negativos da ilegalidade para um virtuoso dinamismo da economia (De Sotto. preservação ou cultivo das diferenças (que não é senão um corolário do ideal libertário)” (Duarte. 2 Duarte apresenta um instigante mapeamento da reflexão sociológica sobre os paradoxos do projeto de “cidadanização” nas sociedades modernas (em especial das classes populares).6). há mais de cinqüenta anos. Não se trata aqui de uma avaliação das políticas em curso. a de através desse instrumento colocar dentro do “mapa oficial”. em que medida as normas e os padrões específicos instituídos nesses territórios. 6 . a “clientela” é objeto da política de inserção e não de integração. ou mesmo entre igualdade e liberdade. carregam princípios contraditórios. Essa “clientela” estaria fora do ideal integrativo. Na contramão do assistencialismo. é a conquista do reconhecimento desses moradores como sujeitos políticos. institucionalizam duas classes de cidadãos. urbana é responsabilizada pela degradação ambiental. ou seja. A própria noção “interesse social”. N . e continua sendo. com o objetivo de garantir a permanência dos moradores e os mínimos necessários para o bem-estar individual e coletivo. Para Castel (1998).2 Compartilha-se aqui a visão de que tais instrumentos representam importantes avanços no sentido do reconhecimento de uma grande parcela da população urbana como cidadãos (portadores de um conjunto de direitos privados e públicos) e de seus territórios residenciais como parte integrante da metrópole. B . A intenção era. Questiona-se. 28 R .1 objeto desse ensaio. desde sua origem no início dos anos 80. utilizada na titulação da Zeis. na perspectiva de transformar os moradores de tais áreas em cidadãos. em que a diferença é a expressão da inferioridade dos pobres. ou seja. e mereceria uma discussão mais acurada sobre seus significados. aqui. o processo de institucionalização das Zeis. sem condições de mudar seu estatuto social. A definição e o detalhamento desse instrumento encontram-se ao longo do texto. O projeto da Reforma Urbana. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. com condições de vida dignas. de aceder à cidadania. portanto. entre eles. ambas legais e legítimas. Não se trata. portanto. está baseado no ideário integrativo. não se esgota na busca pelo reconhecimento dos assentamentos como objeto da política urbana. Os instrumentos legais acionados nos assentamentos.

traduzindo. criando. incorporando territórios que até então estavam fora das normas estabelecidas. 2003). 252 compõem as 66 Zeis. a presença da Igreja católica em ações comunitárias nas favelas foi fator decisivo para esse pioneirismo em relação às normas legais.3 Assim. procedimentos e mecanismos para o reconhecimento de outras áreas faveladas como Zeis. ao mesmo tempo.6 não só em Recife e Belo Horizonte. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. relacionando-o à politização das normas legais. através de zonas residenciais com padrões mínimos distintos. a institucionalização de zonas especiais. por exemplo. “prevendo um conjunto de regras. hoje. um ideal de bem-estar urbano. As Zeis são zonas urbanas específicas. as Zeis são criadas no sentido de interferir no zoneamento das cidades. 6 . As especificidades não se restringem às distintas ilegalidades presentes nessas áreas. é o principal instrumento legal de controle e ordenamento da produção e da apropriação do espaço construído. nesse caso.L U C I A N A C O R R Ê A D O L A G O A REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA E URBANÍSTICA COMO AMPLIAÇÃO DA CIDADANIA: AS ZEIS Como zonas urbanas específicas. 5 Em Recife.(Miranda & Moraes. em um conjunto de parâmetros. no que se refere ao padrão de habitabilidade e à relação de propriedade. São inegáveis os resultados alcançados a partir do Prezeis para as comunidades de baixa renda: a possibilidade da população de baixa renda permanecer em suas comunidades. foram criados por Decreto de 1980. Para o projeto de cidade de cunho “neoliberal”. N . impeditivo da inserção legal dos moradores de assentamentos populares. em ideários politicamente opostos. foi criado. A flexibilização. Em 1987. Os planos de Volta Redonda. onde há interesse público de promover a urbanização e/ou a regularização jurídica da posse da terra. o Profavela. Brasília e Carajás. que definia um zoneamento específico para as favelas existentes. Foram elaborados projetos de urbanização para três favelas (marcos da resistência popular contra a remoção). 26 Áreas Especiais. tendo em vista a implantação do Promorar (programa federal de erradicação de sub-habitação).92. o reconhecimento institucional do direito à participação de representantes populares na formulação e acompanhamento de políticas urbanas. O alto percentual de favelas transformadas em Zeis. As avaliações já feitas apontam importantes avanços no sentido da legitimação e da institucionalização dos assentamentos populares como parte da cidade. 2002. nesses vinte anos. para fins de urbanização e regularização (Alfonsín. Embora tenha ganhado fama e se difundido a partir da Constituição de 1988.5 O balanço dos resultados alcançados. B . Em Belo Horizonte. a legislação urbana racionalista é uma barreira à gestão empreendedora. com o objetivo de integrar à cidade os assentamentos de baixa renda.4 Voltarei a esse ponto. Belo Horizonte. é sancionada a Lei do Prezeis. entre eles a proibição de “remembramentos” como forma de impedir a ação dos empreendedores imobiliários. inclusive em áreas centrais. expressão maior do urbanismo racionalista. para viabilizar a regularização urbanística e fundiária dos assentamentos e para efetivar um sistema de gestão participativa” (Miranda & Moraes. através das Zeis. 1997). ao seu princípio excludente. o zoneamento fala em nome da Razão. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 29 . Como as normas legais em geral. abrangendo também a caracterização social dos moradores. pela lei municipal de 1983. põe em questão a legitimidade dos padrões de bem-estar socialmente aceitos e instituídos em nome de “todos”. isto é. reações por parte de empresas imobiliárias. com parâmetros urbanísticos especiais. p. Vale destacar que esse ideal contém. 2003). evidenciam esses avanços (Alfonsín. adequando a norma à realidade. O ideário da Reforma Urbana introduz mais um componente à critica ao urbanismo racionalista. teria a função de aproximar a cidade ideal da real. em relação ao projeto das Zeis pode ser agrupado em duas ordens de questões: (i) o reconhecimento legal desses territórios como “zonas” da cidade. que foram se alojar fora das fronteiras legais das cidades (Piquet. que ocupam 85% das áreas de favelas. 1997). 1998) 4 A proposta de “flexibilização” da lei está presente. remonta ao início dos anos 80. que podem conter áreas públicas ou particulares ocupadas por população de baixa renda. 6 Em Recife. princípios restritivos em relação ao direito de propriedade e princípios hierárquicos que institucionalizam as diferenças inter e intraclasses. responsáveis pela construção das cidades. não previam uma “zona residencial” para esses trabalhadores. a proposta de flexibilização da legislação urbana. próximas a localidades com disponibilidade de serviços e equipamentos urbanos. a consolidação da mudança R . que busca uma permanente adequação do espaço da cidade às novas possibilidades de investimento. representando o interesse “difuso” (leia-se “de todos”) por uma boa qualidade de vida na cidade. e (ii) as condições da moradia. dos 421 assentamentos. Em ambas as cidades. para salvaguardar o direito à moradia. inclusive. com iniciativas em Recife e Belo Horizonte. mais adiante.) 3 Os projetos originais de diferentes cidades planejadas no Brasil evidenciam claramente a exclusão dos trabalhadores sem qualificação. (Instituto Pólis. O zoneamento.

Inúmeras barreiras. as expectativas em relação à transformação das condições de vida da população das Zeis foram. Quanto à regularização fundiária. outro mecanismo que vem sendo utilizado através das Zeis é o estabelecimento de limites máximos quanto às dimensões dos lotes conjugado ao impedimento do remembramento. de ordem política e administrativa. No caso de Recife. 2003. a sua capacidade limitada de redirecionar os investimentos públicos prioritariamente para as áreas especiais de interesse social. (Miranda & Moraes. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . impedem os encaminhamentos e/ou a conclusão dos processos de titulação através dos instrumentos da Usucapião Urbana e de Desapropriação. apenas duas Zeis tiveram a urbanização concluída (Miranda & Moraes. p. em vinte anos. p. por meio do gravame da Zeis. interferindo na dinâmica redistributiva do mercado imobiliário. O relevante é que está definida na Lei a destinação dessas áreas vazias: Empreendimentos Habitacionais de Interesse Social. a experiência de Diadema merece atenção. pouco foi alcançado até agora. Nesse caso. ou assentamentos habitacionais assemelhados. relativamente. os avanços mais significativos ficaram restritos aos assentamentos em terras públicas. já que o mecanismo reduz o valor do terreno.149). independentemente de quem esteja morando ali. A primeira seria garantir a finalidade da moradia social através da “proteção” da área diante da especulação. seria a de intervir no mercado de terras da cidade. B . Uma segunda intenção.) A citação acima aponta os limites da Zeis como instrumento redistributivo. Vale mencionar a reação. o uso desses mecanismos estão restritos às favelas. nesse caso. As experiências já acumuladas mostram que a ação regulatória. ou seja. foram instituídos dois tipos de Zeis:7 as que são gravadas sobre áreas vazias e as que compreendem “terrenos ocupados por favelas. frustradas. 2003). a destinação do terreno. a desvinculação entre a urbanização e a regularização fundiária possibilitou a titulação de lotes sem as condições “mínimas” de bem-estar (Alfonsín. (Instituto Pólis. Em Belo Horizonte. em Recife. 1997). dos empreendedores imobiliários em relação ao limite da dimensão dos lotes. “desvalorizando” áreas vazias. onde os instrumentos de Concessão de Direito Real de Uso e de Doação vêm possibilitando a titulação plena ou de direito de uso da propriedade. é a habitação de interesse social. Ainda no sentido de regular o mercado imobiliário. A Zeis pode ser um poderoso instrumento de controle e ordenamento do uso do solo urbano. As Zeis gravam a área do assentamento regularizado como de interesse social. o que evidencia uma restrição ao direito de propriedade.101). Até agora. regularização jurídica da posse da terra ou empreendimentos habitacionais de interesse social” (Alfonsín. carrega intenções muito distintas. Na Lei que disciplina o zoneamento e o uso e ocupação do solo. A Zeis não se limita a uma função integrativa de inserir no “mapa” territórios e pessoas até então excluídos. esses instrumentos serão problematizados à luz do projeto de democratização da cidade. 1997. por uma caracterização social legalmente atribuída. ou seja. o que já induz à diminuição da vantagem da especulação imobiliária nessas áreas. 2003. 6 . 7 Porto Alegre também instituiu um tipo de Zeis. Em relação à titulação das posses em terras privadas. mas poderiam ser acionados para outras áreas das cidades. N . destinados a programas de reurbanização. Contudo. reivindicando maior “flexibiliza30 R . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. que não exclui a primeira. Mais adiante. específica para vazios urbanos destinados a programas habitacionais.O S I N S T R U M E N T O S D A R E F O R M A U R B A N A nos padrões de intervenção urbanística daqueles assentamentos. garantindo-lhes condições mínimas de bem-estar no lugar da moradia. a Aeis. com boa infra-estrutura.

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ção” das normas (Miranda & Moraes, 2003). Estaríamos diante de uma curiosa sobreposição de “flexibilizações”: uma que reduz e congela os “mínimos” instituídos na legislação urbana em vigor para atender necessidades sociais especiais, congelando-os; e outra que suspenderia o congelamento. O que importa destacar aqui é a abrangência desse instrumento para além dos assentamentos populares, podendo interferir diretamente nos processos e conflitos produtores das desigualdades urbanas.

OS PRINCÍPIOS DO DIREITO À TERRA: A PROPRIEDADE, O USO E A VALORIZAÇÃO
Como já visto, são inúmeras as barreiras jurídicas, administrativas e políticas para a efetivação de uma regularização fundiária que constranja o direito de propriedade da terra. O principal avanço foi tornar visível o conflito de interesses e as contradições e “brechas” nas Leis. O peculiar nesse conflito é que o ideário democrático não coloca em questão o direito de propriedade como valor, na medida em que busca transformar os moradores dos assentamentos em proprietários, plenos ou não. O que ele busca regular é o direito do proprietário auferir renda da terra sob seu domínio. Os parâmetros urbanísticos instituídos nas Zeis como forma de controle da especulação e valorização imobiliária exemplificam esse princípio. O importante a ressaltar é a centralidade do direito de propriedade fundiária para a ampliação do exercício da cidadania.8 A propriedade da terra, no Brasil, é base e condição para o acesso a uma série de outros direitos (à justiça, ao crédito, ao financiamento imobiliário etc.) e tem sido, historicamente, um dos principais mecanismos reprodutores da estrutura hierárquica nas cidades brasileiras. Contraditoriamente, a ampliação dos direitos sociais passa, necessariamente, pela maior difusão dos direitos civis, entre eles o da propriedade. As mudanças nas fronteiras entre o público e o privado em nossas cidades, com a redução do primeiro, estão também condicionadas à difusão desses direitos.9 A experiência e a valorização do espaço público são realizadas por indivíduos conscientes de seus direitos (e deveres). Entremos, então, no argumento central desse ensaio sobre as contradições presentes no ideário democrático relativas à regularização fundiária. Um primeiro ponto refere-se aos instrumentos mais recorrentes para esse fim. • Concessão do Direito Real de Uso (CDRU), para posse de terras públicas, previsto em lei desde 1967, pelo Decreto Lei 271. Tal concessão se dá através de um contrato por tempo determinado, renovável e contendo destinação especificada, não havendo a possibilidade de transferência da propriedade para o outorgado. No caso de Diadema o período do contrato é de noventa anos. • Usucapião Urbana, para posse de terras privadas. Garante a aquisição do direito real em relação à área privada sobre a qual se tem a posse durante cinco anos contínuos para fins de moradia, em lote não superior a 250m2 (Alfonsín, 1997). Em que medida o contrato de “concessão real de uso”, em contraposição ao direito pleno da propriedade, institui uma outra classe de cidadãos? É possível construir socialmente uma equivalência entre o valor da concessão de uso e o atribuído à propriedade plena? A experiência das Prezeis evidencia as dificuldades da CDRU ser aceita entre os moR . B . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. 6 , N . 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 31

8 Essa centralidade, muitas vezes, não é percebida como tal pelos residentes em assentamentos irregulares. Pesquisas realizadas por mim com moradores de favelas no Rio de Janeiro mostram que, nas listas de reivindicações, a titularidade da terra não é prioridade, ficando atrás da urbanização, dos equipamentos coletivos e da segurança. O afastamento da ameaça de remoção e, portanto, a crença no direito de uso, explicam esse fenômeno. 9 Num seminário sobre regularização urbanística, promovido pela Fundação Bento Rubião em 2004, no Rio de Janeiro, uma liderança comunitária de favela apontou a relação existente entre a expansão territorial do tráfico de drogas nas favelas e a não-titularidade da propriedade. Segundo essa liderança, o poder do tráfico de expulsar moradores de suas casas e ocupá-las como estratégia de controle da área é fortalecido pela impossibilidade desses moradores reclamarem judicialmente seus direitos.

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radores das Zeis, “por não implicar na aquisição de direitos equivalentes aos da transferência da propriedade” (Miranda & Moraes, 2003). O valor simbólico dos dois estatutos jurídicos está atrelado a condições objetivas diferenciadas. A desobediência das cláusulas do contrato de concessão, como por exemplo a destinação residencial do lote, pode levar, no limite, à perda do direito de uso. No caso da propriedade, poderiam se aplicadas multas e sanções. É de extrema importância a equivalência dos estatutos legais acionados nas políticas de regularização fundiária, se o objetivo for não apenas buscar restringir o direito de propriedade para democratizar o acesso à terra e aos serviços urbanos, mas legitimar essa restrição na sociedade, em geral, e no judiciário e cartórios, em particular. Outro ponto que merece atenção diz respeito à regulação do mercado imobiliário nas Zeis, impedindo ou inibindo a venda do imóvel pelos moradores recém-legalizados. Como já assinalado, o pressuposto é de que a valorização imobiliária provocada pela regularização pode expulsar os moradores socialmente mais vulneráveis. Ou seja, esses moradores, sem uma “proteção” legal, serão expulsos pelo mercado e produzirão novas ilegalidades em outros lugares. A forma mais democrática de “proteção” seria o próprio gravame da Zeis, com normas especiais de uso do solo (lote máximo, coeficiente de edificação etc.), inibidoras do interesse dos empreendedores imobiliários por essas áreas. Tais mecanismos seriam mais efetivos para garantir a permanência dos moradores beneficiários do que a proibição da transferência do imóvel (Instituto Pólis, 2003).
Ao promoverem programas de regularização, cabe aos gestores públicos reconhecer sim os processos de mobilidade social e práticas decorrentes do exercício das liberdades individuais dos ocupantes, porém de maneira tal que se garanta que as áreas urbanas que sofrem a intervenção publica – com enorme investimento de dinheiro público – sejam reservadas para finalidade de moradia social. O instrumento das Zeis – Zonas Especiais de Interesse Social tem se mostrado muito eficaz nesse sentido, e deve ser combinado com normas urbanísticas que reconheçam as especificidades das áreas a serem regularizadas e com processos de gestão democrática. Se um dia as desigualdades macroeconômicas diminuírem no país, talvez essa proteção jurídico-urbanística não seja mais necessária. (Alfonsín & Fernandes, 2004, p.3.)

10 O caderno “Regularização Fundiária Sustentável”, produzido pela Secretaria Nacional de Programas Urbanos, desenvolve bem esse argumento, apontando a necessária articulação entre as ações “curativas” (de regularização) e “preventivas” (de controle público sobre o mercado imobiliário) e a ampliação da oferta de terra urbanizada para a população de baixa renda. Cf. Ministério das Cidades, “Planejamento territorial urbano e política fundiária”, Cadernos MCidades, n.3, 2004.

A idéia de uma cidadania “tutelada” ganha corpo através das propostas de “proteção” dos moradores de áreas regularizadas contra os especuladores e nos remete à distinção, apresentada por Castel (1998), entre políticas de inserção e de integração. Esses moradores estariam inseridos na cidade, na medida em que suas áreas de residência passam a ser legalmente reconhecidas, mas não integrados na sociedade. Para tanto, precisariam ser reconhecidos socialmente como iguais, como portadores dos mesmos direitos, no caso, os urbanos. No entanto, os mecanismos de “proteção”, ou seja, de regulação da valorização da terra, merecem uma análise mais abrangente, que dê conta da complexidade dos processos em curso. Pode-se utilizar os mesmos mecanismos de “proteção” dos pobres para o controle das ações especulativas na cidade como um todo. O desafio é ampliar as restrições ao direito de propriedade para além das favelas (Zeis), ou seja, para os processos que produzem e reproduzem as desigualdades de acesso à terra.10 A aplicação das Zeis em áreas vazias com infra-estrutura básica, a discussão e formulação de novos princípios e parâmetros para a Lei de Zoneamento das cidades, entre outras ações, podem caminhar nessa direção.

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A REGULARIZAÇÃO COMO UM CAMPO DA LUTA POLÍTICA
Um dos desafios para se levar adiante um projeto efetivo de democratização do acesso à cidade é tornar visíveis, para a sociedade, as contradições e paradoxos dos princípios que orientam o conjunto das ações políticas. Os programas de regularização constituem um campo fértil para a reflexão e possível superação, ao longo da luta política, de algumas dessas contradições. É nesse sentido que devemos nos indagar sobre as possibilidades e os limites da convivência entre os princípios de “igualdade” e de respeito às “diferenças”. No caso das Zeis, encontramos uma sobreposição de significados para o “respeito à diferença”: como um valor, expressão da “liberdade”, e como a igualdade possível. Em que medida “o reconhecimento da especificidade das formas urbanas já criadas e consolidadas ao longo de décadas de ocupação informal” (Alfonsín & Fernandes, 2004, p.2) fortalece o projeto de reconhecimento desses moradores como iguais, como sujeitos políticos com as mesmas condições de disputar recursos públicos? Formular, como pressuposto, a escassez dos recursos e o conjunto de impossibilidades daí decorrentes, coloca em risco o projeto democrático de cidade. As Zeis institucionalizam os “mínimos” de bem-estar produzidos pela espoliação urbana, legitimando esses parâmetros dentro e fora dos territórios regularizados.11 A legitimidade se sustenta na naturalização da escassez de recursos para investimento, reduzindo o campo de possibilidades a ser formulado pelos moradores. Como exemplo, podemos apontar a relação entre os novos “mínimos (a elevação da taxa de ocupação, a largura das vielas etc.) e a “impossibilidade” de transferência de parte dos domicílios para áreas próximas. Já vimos que essa impossibilidade poderia ser rompida por meio da utilização da própria Zeis em áreas vazias. Por serem contraditórios, os processos aqui analisados carregam potencialidades de radicalização da democracia. Podemos pensar em novos padrões de urbanização e bemestar, instituídos nas Zeis por meio da participação popular, como “novos direitos” para todos, ou seja, novos mínimos para toda a cidade.12 Alfonsín & Fernandes (2004, p.1) colocam em questão o conjunto de parâmetros urbanísticos que vigoram nas grandes cidades, e “que expressam uma tradição de planejamento urbano elitista e tecnocrático”. Essa é uma problemática relevante, que precisa entrar na pauta da luta política. A politização das normas permite desvendar os interesses de classe presentes na legislação urbanística e fundiária. É inegável que a Lei para “todos” expressa interesses privatistas de alguns, mas é inegável também que ela é resultado de uma disputa material e simbólica sobre os parâmetros de bem-estar. Do ponto de vista dos moradores das áreas regularizadas ou potencialmente regularizáveis, em que medida os parâmetros mínimos de bem-estar são internalizados como valor positivo ou como sinal de inferioridade? Segundo uma moradora da Comunidade Criança Esperança, em Bangu,13 o assentamento onde morava não era uma favela porque “favela é onde tem beco, casa colada uma na outra. Ninguém tem privacidade. Aqui, não. É proibido colar as casas”. A clara distinção entre espaço público e privado, base do processo de individualização, começa a se fazer presente nas mentes das classes populares. A legitimidade e ampliação das ações coletivas direcionadas para a transformação profunda da sociedade estão associadas à constituição de indivíduos que se vêem como iguais.

11 Os critérios para a medição dos mínimos necessários para a reprodução social são arbitrários e valorativos e fazem parte da estrutura de valores de cada sociedade. Na luta política, os indivíduos reelaboram os valores instituídos, reproduzindo-os e transformando-os. Para aprofundar essa discussão, ver Nunes (1990). 12 A re-inclusão das vilas no zoneamento da cidade do Rio de Janeiro, poderia ter esse sentido.

13 Depoimento por mim recolhido, em 2003, no âmbito da pesquisa, ainda em curso, sobre segregação urbana na metrópole do Rio de Janeiro, Observatório das Metrópoles. Luciana Corrêa do Lago é professora do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E-mail: lucianalago @terra.com.br Artigo recebido em dezembro de 2004 e aceito para publicação em fevereiro de 2005.

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DE SOTTO. Brasília. A B S T R A C T The essay searches to confront the project of citizenship. 1998. B . The analysis has as focus the regularization and urbanization policies in low income areas. n. contained in the Urban Reform ideal.22. ABONG e outros.gov. Cidade-empresa: presença na paisagem urbana brasileira. 2004. p. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 .. R. housing. Relatório. Pesquisa Rede Habitat: Rede Nacional da Avaliação e Disseminação de Experiências Alternativas em Habitação Popular. v. Da igualdade e da diferença. RCBS. Planejamento territorial urbano e política fundiária. B. social right and property right. where the difference is the expression of the inferiority of the poor classes. Vicissitudes e limites da conversão à cidadania nas classes populares brasileiras. M. 2004. One searches to contribute in the debate on the possibilities of “conviviality” between equality and difference. 2002. with the directions of the Brazilian urban policies. between equality and freedom. Rio de Janeiro: Record. based on the central place that occupies. the work is about an evaluation of the principles of the urban policies in course and not of their objective results. both legal and legitimate ones. E. 6 . DUARTE. It is questioned in what measure the legal norms and the specific urban patterns instituted in these territories institutionalize two classes of citizens. Direito à moradia: instrumentos e experiências de regularização fundiária nas cidades brasileiras. NUNES. H. “Carências urbanas e modos de vida”. 1998. load contradictory principles.. K E Y W O R D S Citizenship.) Regularização da terra e da moradia: o que é e como implementar. 1997. FERNANDES. et al. PIQUET. MORAES. Texto encaminhado para a Rede de Regularização: regularizacao@cidades. M. M. São Paulo.3. n. São Paulo em Perspectiva. Uma crônica do salário. n. or even.2-7. Cadernos MCidades. 34 R . B. local and national. julho de 2004. Considerações sobre a democracia e alguns dos obstáculos à sua concretização. INSTITUTO PÓLIS (Coord. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. The main idea is that the legal instruments used in the poor areas. N .5-19. D. E. CASTEL. MIRANDA. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. FASE-GTZ-IPPUR/UFRJ-Observatório. So. ALFONSÍN. Trabalho apresentado no Seminário “Os sentidos da Democracia e da Participação”. L. junho de 1993.2.4. particularly the Zeis. “O Plano de Regularização das Zonas Especiais de Interesse Social (PREZEIS) do Recife: democratização da gestão e planejamento participativo”. F. CHAUÍ.br.O S I N S T R U M E N T O S D A R E F O R M A U R B A N A REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALFONSÍN. in a deeply hierarchical and unequal society. p. O mistério do capital. today. L. urban policy. addressed for the enlargement of the access rights to the city. 2003. As metamorfoses da questão social. or two references of welfare. the housing illegality in the formulation of the Brazilian urban question and public actions. 2001. 1990. Rio de Janeiro: Vozes. R. MINISTÉRIO DAS CIDADES.

PARTICIPAÇÃO CIDADÃ E RECONFIGURAÇÕES
NAS POLÍTICAS URBANAS NOS ANOS 90
FLÁVIA
DE

PAULA DUQUE BRASIL

R E S U M O O artigo aborda as instâncias de participação nas políticas urbanas que se multiplicam no cenário contemporâneo, a partir do trânsito de projetos societários endereçados à democratização do planejamento e da gestão das cidades. Sustenta-se que, a despeito da heterogeneidade das experiências, dos seus limites, dificuldades e contradições (inerentes ao processo de reconstrução das relações entre Estado e sociedade no Brasil), os canais de participação têm configurado trilhas alternativas e novas linhagens de políticas locais. No primeiro momento discutem-se os conceitos de público e participação cidadã, mapeando possibilidades de influência dos atores societários na formação da agenda e produção das políticas urbanas. No momento seguinte, as instâncias de participação são objeto de exame, privilegiando-se os Conselhos Municipais de Política Urbana, suas características, papéis, potenciais e alcances. Finalmente, detém-se ilustrativamente no Conselho Municipal de Política Urbana e na Conferência Municipal de Política Urbana de Belo Horizonte. PA
L AV R A S nicipais.

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Participação cidadã; política urbana; conselhos mu-

As transformações delineadas no Estado e na sociedade civil brasileira, bem como no âmbito de sua relação e dos processos de formulação e gestão das políticas públicas, constituem o cenário de abordagem deste trabalho. No bojo destas transformações, Santos & Avritzer (2002, p.52) destacam o papel dos novos atores na cena política, cuja atuação questiona a exclusão social e a ação do Estado, volta-se para a ampliação do espaço político, para a cidadania e inclusão, enfatizando as possibilidades de constituição de uma nova gramática social e de relações entre o Estado e a sociedade, incluindo a possibilidade de experimentalismo na esfera do Estado. Deste modo, as possibilidades de renovação no campo das políticas públicas remetem especialmente à influência dos atores coletivos no alargamento dos limites da agenda pública e no seu conteúdo substantivo. Os autores apontam como elemento nuclear de democratização o reconhecimento da possibilidade de inovação, compreendida como a participação ampliada dos diversos atores sociais nos processos decisórios, destacando que “em geral, estes processos implicam a inclusão de temáticas até então ignoradas pelo sistema político, a redefinição de identidades e vínculos e o aumento de participação, especialmente no nível local” (Santos & Avritzer, 2002, p.59). Os potenciais de renovação das políticas públicas com base em lastros societários, nos termos dos autores citados, colocam em questão as possibilidades de influência dos atores coletivos – movimentos sociais e suas redes, associações e outros atores – nos processos decisórios desde a formação da agenda de intervenção governamental. Como Teixeira (2000, p.54) ressalta, “o processo decisório encampa diversos momentos, desde a tematização dos problemas relacionados à construção de parâmetros para nortear as ações e a criação de alternativas até a escolha da melhor solução, sua implementação e acompanhamento”, de
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forma que a possibilidade de influência nas políticas públicas pode se traduzir como participação nos processos decisórios, nos limites da relação argumentativa e crítica. Esse debate inscreve-se nas interfaces da teoria social (sobretudo voltada para a ação coletiva) com a teoria democrática contemporânea, na trilha aberta pela teoria crítica de Jürgen Habermas. O autor oferece um modelo ao mesmo tempo dual e tripartite ao postular o desacoplamento, decorrente da modernidade, entre os domínios interativos e comunicativos presentes na formulação de mundo da vida e os domínios sistêmicos, que por sua vez diferenciam-se nos subsistemas econômico e administrativo. A concepção habermasiana de mundo da vida como uma arena de integração social refere-se ao domínio das interações cotidianas, constituindo um reservatório de tradições culturais. Um ponto central dessa formulação reside nos pressupostos da comunicação como elemento fundante da racionalidade e nos papéis da linguagem. A linguagem coloca-se como um elemento de coordenação interpessoal da ação que permite o estabelecimento de acordos interpretativos a partir de argumentações, questionamentos e debates que sustentam a noção de deliberação. Ao situar a ação comunicativa no mundo da vida, Habermas (1987; 1997) perfila sujeitos de uma racionalidade intersubjetiva, capazes de problematizar, negociar e redefinir problemas, questões, normas e tradições culturais. Neste sentido, o mundo da vida é um terreno de reconstrução reflexiva que aponta para a construção de fundamentos éticos e morais da política. Neste aspecto relativo à primazia conferida às estruturas de interação comunicativa em relação aos domínios sistêmicos ancora-se o entendimento da democracia como prática societária e como fluxo comunicacional, da periferia para o centro, ou seja, a partir do mundo da vida e endereçado ao sistema. Nesse contexto teórico, a noção de esfera pública como espaço de formação e publicização de opiniões e vontades ganha relevo na mediação entre os impulsos comunicativos do mundo da vida e os domínios sistêmicos e institucionais. Por motivo de economia, esse estudo apóia-se estritamente na produção mais recente habermasiana – na qual se destacam as noções de esfera pública e espaço público. Habermas (1997) descreve a esfera pública política como estrutura comunicacional enraizada no mundo da vida por intermédio da sociedade civil. Na esfera pública os problemas são percebidos, identificados, tematizados e dramatizados; os fluxos comunicacionais são filtrados e condensados em opiniões públicas. Deste modo, a esfera pública opera como uma “caixa de ressonância”, conferindo visibilidade às questões endereçadas à elaboração no sistema político. Partindo de revisões da obra habermasiana, Teixeira (2000, p.77) reporta o emprego da noção de espaço público para “indicar a dimensão aberta, plural, permeável, autônoma, de arenas de interação social que seriam aqueles espaços pouco institucionalizados”. Desta forma, os espaços públicos referem-se às instâncias autônomas de debates e negociações entre atores societários, podendo incluir a formulação de proposições a serem postas em circulação na esfera pública. As esferas públicas, por sua vez, assumem o papel de mediação entre os diferentes domínios, bem como de publicização e visibilidade das questões e problemas, correspondendo às estruturas comunicacionais generalizadas, como a mídia. Contudo, a teoria habermasiana não autoriza a assumir possibilidades de participação dos atores sociais nos âmbitos decisórios sistêmicos, ainda que constitua as bases para desenvolvimentos teóricos que procuram ultrapassar seus limites, alargando o papel reservado aos atores sociais para além da dimensão de formação de vontade informal e da possibilidade (contingente) de influência nos domínios institucionais. Partindo do caminho pavimentado por Habermas, Cohen & Arato (1994) efetuam a reconstrução do con36 R . B . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. 6 , N . 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4

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1 O núcleo da reconstrução efetuada refere-se à superação da noção de sociedade civil concebida com base nos marcos dualistas de oposição entre a sociedade e o Estado, e de identificação da sociedade civil com o mercado, situando a sociedade civil como um terreno autônomo e distinto tanto do Estado quanto do mercado. Cohen & Arato (1992) situam o conceito de sociedade civil no interior do marco analítico habermasiano e em seu arcabouço tripartite (mundo da vida, subsistema econômico e subsistema político). A sociedade civil corresponde às instituições e formas associativas nos domínios da esfera pública – incluindo os movimentos sociais – que implicam a interação comunicativa para sua reprodução.

ceito de sociedade civil1 e sustentam, para além de uma atuação defensiva dos atores societários, a possibilidade de sua atuação ofensiva, endereçada aos domínios sistêmicos. Os autores afirmam, ainda, que a questão política central consiste “em introduzir espaços públicos no Estado e nas instituições econômicas, estabelecendo uma continuidade com uma rede de comunicação composta por movimentos sociais, associações e esferas públicas” . Mais além, os debates atuais em torno da deliberação e das potencialidades da democracia participativa prevêem a participação cidadã nos processos de tomada de decisão também em ocasiões mais regulares e institucionalizadas. Nesta direção, Avritzer (2002) aponta os espaços de mediação entre a sociedade e o Estado como locais, por excelência, de democracia deliberativa, representando a possibilidade de soberania popular procedimentalizada, na conjunção entre participação e representação. Nesses termos, cabe destacar o entendimento alternativo do conceito de participação política para além das fronteiras da concepção elitista de democracia representativa, apontando-se para as noções de democracia participativa e de deliberação, que conferem centralidade à dimensão societária. A breve referência aos conceitos de participação política e participação cidadã mostrase necessária para o enfoque pretendido. Como observa Cunill-Grau (1997, p.64-81), o conceito de participação tem sido evocado no contexto contemporâneo como instrumento para o aprofundamento da democracia e para a reivindicação de democracia participativa, em caráter de complementaridade aos mecanismos de representação. A recuperação de figuras da democracia direta, a participação cidadã na formulação de políticas e decisões estatais e a possibilidade de deliberação pública constituem os conteúdos evocados na noção de democracia participativa, assim como a manutenção de um sistema institucional relativamente aberto para propiciar a experimentação. A participação concebida nos marcos da noção de democracia participativa remete, deste modo, ao fortalecimento e à democratização da sociedade e do Estado, assim como à redefinição das relações entre Estado e sociedade sob o ângulo da própria sociedade. Desse modo, o conceito de participação cidadã que se procura delimitar refere-se “à participação política, embora se afaste dela por pelo menos dois sentidos: abstrai tanto a participação em partidos políticos como a que o cidadão exerce quando elege representantes”. Diz respeito à intervenção dos agentes sociais no curso das atividades públicas de diversas formas, que permitem sua influência nas decisões estatais ou na produção de bens públicos, constituindo, assim, expressão de interesses sociais. Essa perspectiva converge com a de Teixeira (2000, p.46), que também recorre ao conceito de participação cidadã. Contudo, o autor enfatiza a extensão da participação cidadã para além dos espaços institucionalizados e da relação com o Estado, remetendo aos espaços públicos regidos pela lógica comunicativa, nos domínios da sociedade civil concebida como autônoma e autolimitada. O autor refere-se à participação cidadã como um “processo complexo e contraditório de relação entre sociedade civil, Estado e mercado, em que os papéis se definem pelo fortalecimento da sociedade civil através da atuação organizada de indivíduos, grupos e associações”. Contemplados os conceitos que permitem enquadrar a discussão da participação cidadã e as possibilidades de influência dos atores coletivos nas políticas públicas, quer a partir dos espaços públicos societários, quer a partir das instâncias institucionais de participação, cabe situar brevemente o campo das políticas urbanas e os atores coletivos que emergem na cena pública dos anos 90. No contexto semiperiférico brasileiro os déficits e desigualdades socioespaciais, bem como os processos de exclusão e segregação territorial decorrem dos traços históricos deR . B . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. 6 , N . 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 37

A abordagem dessas instâncias locais de participação cidadã permite perceber a possível influência das agendas construídas por atores coletivos.P A R T I C I P A Ç Ã O C I D A D Ã E R E C O N F I G U R A Ç Õ E S 2 Sobre a atuação do Movimento e posteriormente do Fórum Nacional de Reforma Urbana. Deste modo. Rolnik. a agenda de reforma urbana assenta-se em pressupostos de democratização da gestão das cidades – mediante a participação cidadã nos processos decisórios – e na perspectiva de inclusão delineada pelo reconhecimento do direito à moradia e à cidade. portanto. de mobilização e ação coletivas. notadamente dos padrões de atuação do Estado. 1998. especialmente no que se refere à construção da agenda de reforma urbana. especialmente no período autoritário. B . seu papel na retematização do urbano a partir dos anos 80. 2000. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. a crise e o retraimento da atuação do Estado a partir dos anos 80 geram um contexto de déficits sociais acumulados em relação à questão urbana. pela ausência ou escassez de possibilidades de participação cidadã e de influência dos diversos grupos nos processos decisórios. N . um Estado de Bem-Estar robusto que equacionasse em patamares mínimos a questão urbana. assim como sinaliza as dificuldades e desafios dessas experiências. pelas lógicas particularistas na relação entre o Estado e a sociedade. que incluem deixar acontecer à deriva a cidade. 6 . assim como no âmbito local. A esfera local afirma-se como um terreno privilegiado de concretização desses avanços e experimentações que se tecem nas interseções entre o poder público e a sociedade. terminantes do processo de urbanização. instrumentos. sua constituição como ator coletivo e o processo de (re)construção de identidades coletivas. conteúdos. Neste sentido. seus papéis. sua atuação em espaços públicos e em espaços institucionais. no caso das políticas urbanas. implicando. Para seu exame. Entre outros pilares. a velha questão urbana apresenta-se como um eixo significativo de conflitos e de necessária (por vezes urgente) intervenção estatal. pela articulação de atores coletivos heterogêneos quanto a suas bases organizativas. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . As políticas urbanas – que em seus cortes redistributivos e regulatórios permitem a relativa equalização das condições de vida nas cidades – historicamente se revelaram insuficientes. reportam-se aos processos tradicionais de formulação e implementação das políticas urbanas no País. 2000). na periferia da agenda governamental. neste contexto. ou resultaram inócuas em face de seus arranjos e modelos. ou seja. Neste âmbito. a plataforma de reforma urbana desafia as matrizes tradicionais da cultura política brasileira e os modelos tradicionais de planejamento urbano. os seus assentamentos informais e periféricos. Sua influência se expressa no sentido da democratização das políticas urbanas – sobretudo por meio da criação de instâncias de participação cidadã – e da cunhagem de possibilidades de justiça e inclusão socioespaciais através do emprego dos “novos” instrumentos normativos. a construção de sua agenda. o delineamento de possibilidades de renovação nos seus princípios norteadores. os velhos e novos problemas urbanos – bem como as próprias lógicas de atuação do Estado – configuram objetos passíveis de tematização societária. Ao lado dos novos processos socioespaciais conformados no atual ciclo de acumulação capitalista.2 Assumem-se premissas. ver especialmente Brasil (2004). sua mobilização e organização como atores coletivos. desafia práticas e representações sociais. pautados pelo centralismo-tecnocrático. É inevitável o paralelo entre as dimensões da desigualdade e exclusão socioespaciais e a assimetria de poder político entre os diversos segmentos sociais (Villaça. Construída nos domínios da sociedade civil. arranjos institucionais e formas democráticas de gestão. os atores envolvidos. parte-se da discussão mais geral sobre os canais de participação institucionalizados pelos governos locais. Deste modo. po38 R . Maricato. de constituição de novos atores coletivos da sociedade civil inscritos no campo das políticas urbanas que logram influir decisivamente nos seus marcos legais e instrumentos no âmbito federal (na Constituição Federal e no Estatuto da Cidade). Não se estabeleceu. sua influência no campo das políticas urbanas. ressaltam-se os atores da sociedade civil brasileira atuantes no campo das políticas urbanas.

No momento seguinte. Na análise. de negociação de interesses distintos dos segmentos sociais. em uma perspectiva da participação como meio de reforçar a tendência de desresponsabilização do Estado. situam-se. Nesse repertório. p. administrativos.3 Santos (2002. N . neste texto. constituiu um ponto central de tematização no campo das políticas urbanas. parlamentares e simbólicos – “que permitem aos cidadãos ou organizações acionar o Poder Público para cumprir obrigações ou para responsabilizá-los por suas omissões”.os Conselhos Municipais de Política Urbana. visando. compondo a agenda de reforma urbana construída no interior de seus espaços públicos. Desta forma. . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. Entretanto. A participação cidadã nos governos locais. que expressam os processos de expansão democrática para além dos arranjos de representação. Ainda de acordo com Teixeira (2000. são focalizados o Conselho Municipal de Política Urbana e a Conferência de Política Urbana de Belo Horizonte. A primeira concebe a participação de forma instrumental.F L Á V I A D E P A U L A D U Q U E B R A S I L tenciais e limites. AS NOVAS INSTÂNCIAS DE PARTICIPAÇÃO CIDADÃ E DE GESTÃO DEMOCRÁTICA DAS CIDADES O reconhecimento da importância da participação institucional tem sido ponto de acordo e convergência de um amplo espectro de atores sociais. recorrendo a alguns autores. desde os anos 80. que. Nesta concepção. de cunho empreendedorista e. como se articulam aos distintos pressupostos e agendas relativas à gestão das cidades – de um lado. um vetor nuclear de renovação das políticas urbanas assenta-se na conformação de instâncias de participação cidadã no âmbito dos governos locais. busca-se sublinhar os possíveis avanços e inovações (de cunho democratizante e includente) no aparato da legislação urbanística que se conectam aos processos de participação cidadã. assim. não apenas expressam as diferentes premissas quanto ao papel do Estado. A segunda corrente enfatiza as dimensões pública e política da participação cidadã.298). os mecanismos judiciais de ação popular e ação civil pública. as instâncias participativas constituem espaços de publicização de conflitos. efetuada por Teixeira (2000. diferencia mecanismos e canais de participação cidadã. p. assim. como meio de assegurar a governabilidade. e de afirmação e (re)construção de identidades coletivas.17-9) discute duas vertentes analíticas que aportam concepções bastante diferenciadas quantos aos termos e ao papel da participação institucional. conectando os potenciais de inovação social e institucional. Uma primeira distinção conceitual necessária. portanto. A participação configura.298). os canais institucionais de participação referem-se aos espaços por meio R . Cabe partir da caracterização desses espaços e de seus papéis. p. de cunho democratizante e includente (como expresso na plataforma de reforma urbana). B . um ponto de partida para a democratização das políticas públicas e vincula-se à perspectiva da garantia dos direitos sociais e da possibilidade de redução das desigualdades. de outro. privilegiando-se. Os mecanismos de participação referem-se aos meios ou instrumentos – classificados em judiciais. entre outros instrumentos passíveis de emprego nas políticas urbanas: o mecanismo parlamentar de iniciativa popular em projetos de lei e programas urbanos. 6 . podem ser apontadas diferentes perspectivas sobre a questão da participação cidadã. nos termos dessa segunda perspectiva. à eficiência por meio do “redirecionamento das formas de protesto e pressão dos movimentos sociais para formas controladas de participação”. Situa-se. canais de participação criados por ocasião da aprovação do Plano Diretor em 1996. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 39 3 Brasil (2004) explora as duas agendas apontando as características e premissas de cada “modelo”.

a capacidade de pressão da sociedade organizada e a setorialização dos projetos etc. no mínimo. a interlocução direta entre representantes das organizações da sociedade civil e Estado e em que se formulam e controlam as políticas públicas”.) A despeito das ênfases conceituais. p. em duas derivas: as possibilidades de reconstrução da cultura política tradicional nos domínios tanto institucional quanto societário. bem como da diversidade das experiências no âmbito dos governos locais. apresentam-se como formas ampliadas de participação política para além dos arranjos institucionais da democracia representativa. Assinalando o seu papel de co-gestão local. A partir desses elementos.64) caracterizam os canais institucionalizados de participação como espaço de discussão e negociação de políticas públicas. com vistas a serviços de ponte entre Estado e sociedade”.47. regidas por normas e regulamentos elaborados por seus componentes. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. 6 . p. aos processos decisórios relativos à distribuição dos bens públicos e alocação de recursos e ao controle público da gestão local. Esperava-se que. seria possível reverter o padrão de planejamento e execução das políticas públicas no Brasil. ou sua efetiva articulação. B . tanto dos arranjos estabelecidos pelo poder público quanto da disposição e capacidade dos atores da sociedade civil em participar. endereçam-se à formulação e gestão de políticas públicas. em via de mão dupla.27). Claro que a ênfase em um ou outro ponto. ressalvando. por meio da participação cidadã nos espaços institucionais. (2002. porém. O autor sublinha que o funcionamento dessas instâncias e a qualidade dos processos participativos dependem. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . e a produção de modelos alternativos de políticas centrados no enfrentamento dos déficits e desigualdades sociais e socioambientais. p. 40 R . O elemento distintivo sublinhado pelo autor remete à característica de criação desses canais pelo governo – localizando-os em seu âmbito–. lança exigências e busca articular a democracia de processo com a eficácia dos resultados. Conforme Daniel (1994. Pontual & Silva (1996. portanto. os canais de participação na gestão local referem-se aos “espaços – institucionalizados ou não – criados pelo Estado no nível local. varia tendo em vista a natureza dos governos. Por definição. Estes canais constituem arenas de debate e interlocução entre atores.P A R T I C I P A Ç Ã O C I D A D Ã E R E C O N F I G U R A Ç Õ E S dos quais se realiza “de forma permanente. podem ser destacados substratos comuns e recorrentes na abordagem dos traços constitutivos dos canais de participação cidadã. ressoam os potenciais desses espaços e das práticas neles inscritas. e da negociação que fundamenta a concepção dessas instâncias e constitui substrato deliberativo. da manifestação e reconhecimento dos conflitos e interesses contraditórios. Ancoram-se na dimensão do debate. As promessas e expectativas endereçadas aos novos espaços de participação e aos seus potenciais são bem sintetizadas por Tatagiba: O discurso da participação. apoiada na inclusão de novos atores nos processos de decisão. N . mediante seu formato e composição híbrida. que sua origem pode ser atribuída tanto à luta autônoma dos movimentos sociais quanto às iniciativas do poder público. assim como de explicitação de conflitos e interesses. onde a primeira aparece como condição da segunda. reconfigurando e democratizando esta relação (as possibilidades de superação das formas clientelistas e predatórias que tradicionalmente têm conformado essa relação e a inclusão de atores sociais tradicionalmente alijados dos processos decisórios são os principais elementos de democratização desta inter-relação). fundamentam-se na interlocução entre Estado e sociedade.

Conformam-se. sobretudo no que se refere aos aspectos relativos às atribuições e ao poder de decisão. Além dos conselhos. Estes conselhos vinculam-se às políticas públicas que se estruturam em sistemas nacionais unificados após arranjos intergovernamentais para sua implementação.5 R . e o OP (que não será aqui abordado). em 71. pode ser tomado como um fator decisivo. 2001). têm sido realizados debates e audiências públicas voltados para discussões específicas sobre planos diretores. ver Ribeiro & Grazia (2003). Entre as variáveis apontadas.9 mil conselhos nos municípios brasileiros. instâncias diversas de participação e interlocução entre o governo e a sociedade. e de corte distributivo. ainda. as variáveis sintetizadas por Coelho & Bittar (1997. de Educação.334) contribuem para sua caracterização e a tradução da possível diversidade. em primeiro lugar. que assumem o papel de gestor. os arranjos para os diferentes setores estão definidos no texto constitucional ou foram aprovados subseqüentemente à Constituição Federal pela legislação complementar. planos e projetos urbanos ou. 5 Enquadram-se na categoria de gestores os Conselhos Municipais de Saúde. p.F L Á V I A D E P A U L A D U Q U E B R A S I L No que tange aos formatos dos canais de participação. redistributivo ou regulatório. vinculado ao tipo de bem público produzido. que correspondem a experiências bastante heterogêneas. Neste panorama. inclusive. ainda.7% (IBGE. legislação urbanística. B . Nos casos das políticas sociais. em decorrência dos dispositivos da própria Constituição Federal ou de legislação federal complementar subseqüentemente aprovada. a periodicidade desses “encontros” entre sociedade e Estado. os canais são constituídos por meio de legislação e regulamentação. Podem-se apontar os possíveis papéis do poder público nessas instâncias: idealizador e financiador das políticas. destaca-se o poder formal desses canais que podem ter caráter deliberativo ou consultivo. que pode assumir caráter regular e processual ou eventual e episódico e a escala de planejamento (da elaboração de políticas setoriais ao planejamento global) ou de gestão (de projetos específicos ou de espaços. os de Assistência Social. ou de definição de atribuições. o grau de institucionalização. Pode-se considerar que tais variáveis influenciam os processos participativos. de amplitude e alcance diferenciados. Entre 1999 e 2001. a despeito de um repertório heterogêneo de experiências. Os Conselhos de Saúde estavam presentes em 98.4 pela sua proposição originária da sociedade civil e pelo seu formato deliberativo inovador. 6 . especialmente pela magnitude do fenômeno nos anos 90. Os dados do perfil dos municípios em 1999 refletem a expressão dos conselhos locais: foram contabilizados 26. assim. e os dos Direitos da Criança e do Adolescente. Prevalecem neste cenário os conselhos gestores de políticas públicas. equipamentos e serviços). em 91. pautadas nos debates. com trajetórias e características distintas. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 41 4 Para um balanço comparativo das experiências de OP no Brasil.5% dos municípios. observa-se a proliferação das instâncias de participação dos governos locais. que remete à formalidade ou informalidade dos arranjos estabelecidos: no pólo formal. Além desses aspectos. os de Educação. e/ou mediador dos conflitos societários. aumentou o número de municípios que dispunham de conselhos municipais nas diversas áreas setoriais (IBGE. podem ser destacados os Conselhos Municipais. N . As características da ação estatal e da política pública em questão também se mostram elementos relevantes. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. 2003). em 91%. . em casos específicos de conflitos ambientais e urbanos. Têm caráter obrigatório ou previsão legal e podem.9 conselhos por município. o maior ou menor comprometimento do poder público com o funcionamento efetivo dessas instâncias. destaca-se. Principalmente a partir do marco constitucional. Pode-se examinar a natureza da política pública: de caráter setorial ou transversal. têm-se constituído espaços transitórios ou episódicos. assumir a gestão e fiscalização dos fundos destinados às políticas setoriais. Apontam-se. do OP (Orçamento Participativo) e das conferências ou fóruns temáticos. funções e procedimentos. que remete à sua agenda de governo. na explicitação e negociação dos conflitos e na presença da lógica de interação comunicativa.5%. em contraposição às relações e dinâmicas menos formalizadas que podem constituir alguns desses espaços. que apresentavam um número médio de 4. sob formatos e características diversas. Segundo. dos Direitos da Criança e do Adolescente e de Assistência Social.

em especial aqueles anteriores à promulgação do Estatuto da Cidade. podendo incluir a definição de diretrizes e prioridades. e. e seu papel circunscreve-se à formulação e implementação das políticas locais. a iniciativa de criação dos conselhos é municipal. o caráter dialógico – pautado na lógica de interação comunicativa – no que se refere não apenas à negociação dos conflitos. independente de caráter compulsório ou de incentivos federais. sustentabilidade urbana. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. como no caso dos Conselhos de Política Urbana. A discussão referenciada permite apontar. No caso dos Conselhos Municipais de Política Urbana e de Desenvolvimento Urbano.7 Desta forma. no campo regulatório dessas políticas. Com base nas reflexões da literatura. suas atribuições – definidas em legislação municipal – geralmente têm se atido ao campo do planejamento urbano e da regulação urbanística. estabelecendo como uma das diretrizes de política urbana a gestão democrática das cidades (objeto do capítulo IV). São exatamente esses casos que merecem atenção. O espectro de conflitos em questão não se esgota na clivagem entre os interesses contraditórios. a presença de interesses corporativos organizados e vinculados à acumulação urbana. em que sua criação não está sujeita à exigência legal. Nesses casos. 6 . especialmente a partir da criação e da atuação do Ministério das Cidades. Os conselhos gestores distinguem-se. gestão participativa do orçamento. planos e projetos) e a participação da população e das associações representativas na formulação. remetendo aos interesses coletivos e difusos ou ao âmbito normativo. enfim. a possibilidade de se conformar como instrumento de aprofundamento da descentralização. que ultrapassa as clivagens de interesses de classes ou de grupos sociais. e que não substituem as formas não-institucionais de ação coletiva e os espaços públicos construídos no interior da sociedade civil. aprovado em 2001 ampliou significativamente o tratamento da participação. pode-se supor um movimento de ampliação dessas instâncias no âmbito municipal na presente década. tais como: o caráter híbrido desses espaços. a pluralidade de sua composição e a representação dos interesses distintos (e conflituais) dos diversos segmentos sociais nessas instâncias. Ou seja. De forma geral. projetos e concepções de cidade. 7 Ver Avritzer & Pereira (2002) que cotejam os Conselhos Municipais e o OP. conferências. quer pela sua composição com atores do poder público e sociedade civil. finalmente. debates. Encontra-se uma proporção notadamente menor de conselhos setoriais nos demais campos. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . a presença de elementos deliberativos dependentes dos marcos legais e dos atores participantes. os diversos canais institucionais correspondem a espaços com alcances e papéis diferenciados e complementares. o Estatuto da Cidade. B . 42 R . execução e acompanhamento de planos. mas envolve conflitos valorativos em torno de questões como: qualidade de vida. de premissas. assim. Destacase ainda a possibilidade de participação no âmbito decisório referente à formulação. mas às possibilidades de inovações institucionais dos atores societários. geralmente definidas por meio de legislação. audiências públicas. remetem às dimensões regulatórias da política urbana. a despeito dos substratos comuns e constitutivos das instâncias de participação cidadã.P A R T I C I P A Ç Ã O C I D A D Ã E R E C O N F I G U R A Ç Õ E S 6 Embora as políticas urbanas não tenham se estruturado nos anos 90 nos moldes sistêmicos ou pactuados das políticas sociais. podem ser apontados alguns elementos centrais à caracterização dos Conselhos Municipais e de seus papéis.6 Em que pese a maior pluralidade e contraditoriedade dos interesses representados nos conselhos pode-se destacar como limite estrutural deste formato o potencial relativamente estreito e reduzido de interlocução com os diversos segmentos populares e de representação dos setores não-organizados. ao lado de interesses (e possíveis benefícios) coletivos e difusos. iniciativa popular em projetos de lei. implementação e controle das políticas públicas e de seus instrumentos. N . a fiscalização e avaliação da aplicação de instrumentos e a formulação da própria política e de seus instrumentos. programas e projetos. mas que não prevêem ou vinculam conselhos municipais aos pactos e arranjos institucionais dessas políticas entre as esferas de governo. ainda que essas possam repercutir no âmbito redistributivo. justiça socioespacial. dos conselhos temáticos característicos de campos setoriais que podem dispor de referências constitucionais. o vínculo institucional e o caráter formal das suas atribuições e competências. quer pela articulação entre participação e mecanismos de representação. prevendo instâncias distintas de participação (conselhos. o recorte temático de atuação. orientações gerais e até mesmo de marcos federais. por se tratar de iniciativa autônoma dos governos municipais.

a explicitação de interesses e valores. R . e para a qualificação da participação nesses espaços. bem como o reconhecimento dos conflitos. ainda. a ocorrência dos Conselhos de Política Urbana cresceu. este crescimento não pode ser tributado ao Estatuto da Cidade. B . impõem-se dificuldades adicionais para as representações dos segmentos populares. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 43 . posto que a sua aprovação ocorreu em julho do referido ano.F L Á V I A D E P A U L A D U Q U E B R A S I L Os Conselhos de Política Urbana foram encontrados em 4% dos municípios brasileiros em 1999 (IBGE. mas tem ressaltado as experiências de Conselhos que logram assumir seus papéis propondo e negociando instrumentos inovadores de planejamento e gestão urbana. Além do necessário equacionamento da composição plural e paritária dos conselhos. tem sido a capacitação técnica de conselheiros por iniciativa dos governos municipais. p. A maior parte dos Conselhos também se encontrava em funcionamento. Sustentando que os conselhos são arranjos institucionais inovadores. Em 2001. 2003). correspondentes a 6% do total (IBGE.71) refere-se às assimetrias e desigualdades nas representações que constrangem o equilíbrio nos processos decisórios. Podem ser referenciadas assimetrias em relação às diferentes representações e ao perfil e qualificação dos conselheiros. N . Um dos caminhos que vem sendo trilhado para enfrentar essas dificuldades. bem como as assimetrias e desigualdades. O repertório e a linguagem técnica empregada. implicando dificuldades que podem envolver a apresentação das diferenças e identidades. 6 . em virtude do escopo de discussões mais globais e abstratas dos planos e leis urbanísticas. entre outros motivos por permitirem que setores tradicionalmente excluídos possam influenciar no processo de produção de políticas públicas. A pluralidade dos atores e o escopo de interesses distintos e contraditórios representados nos Conselhos impõem complexidade aos processos de interação. 2003). A ocorrência desses Conselhos é predominante nos municípios de maior porte. A autora reporta. fazendo-se presentes em 72% dos municípios com mais de 500 mil habitantes e 32% dos municípios na faixa entre 100 e 500 mil habitantes. passando a 334 municípios. 2001). Contudo. Podem ser apontados inúmeros problemas e dificuldades em relação ao funcionamento desses espaços. a autora assinala que as regras de composição por si só não garantem que esses setores realizem seus interesses. correspondendo a 80% dos casos (IBGE. A rigor. A abordagem de experiências concretas tem apontado a expressiva heterogeneidade destes espaços e de suas dinâmicas. No caso dos Conselhos de Política Urbana. de modo que se mostra necessário aprimorar esses espaços para minimizar impactos das desigualdades sociais nos processos deliberativos. a dificuldade de se reverter a centralidade assumida pelo poder público na definição de políticas e de prioridades na dinâmica concreta de funcionamento dos Conselhos. Essas iniciativas podem ainda ocorrer a partir da sociedade civil. “estabelecida em discussões intra-elite acabam sendo uma muralha invisível que dificulta a participação popular mesmo em instâncias criadas para que ela ocorra” (Cymbalista. 2001). essa mesma complexidade interna coloca em foco a dimensão de aprendizagem coletiva da prática democrática nessas instâncias de participação. de debate e de negociação. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. e nesse terreno os próprios fóruns e espaços públicos contribuem para o intercâmbio de informações e de experiências. Tatagiba (2002.

em patamares mínimos. assinalando a possibilidade de ultrapassar a lógica estritamente técnico-racional de elaboração e de gestão de seus instrumentos. sustentou a aplicação dos instrumentos e o processo mais recente de revisão do Plano Diretor. inicialmente ligada à Secretaria Municipal de Planejamento. Ao lado disso. N . incorporou a cidade informal à legislação de uso e ocupação do solo então vigente – representação regulada dos territórios sociais – anunciando o reconhecimento do direito à cidade. quer pela consultoria de profissional alinhado com o Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU). proposto e implementado pela atuação e mobilização de atores coletivos da sociedade civil. O processo de formulação do Plano Diretor (e da LPUOS) incorporou. Ambos os instrumentos foram concluídos em meados de 1995 e implicaram avanços substantivos. a qualidade de vida. . polariza um amplo espaço regional na rede urbana brasileira. Os objetivos enunciados apontam. Belo Horizonte constitui o núcleo de uma extensa e populosa região metropolitana. Nesse percurso. 9 Liderada pelo Partido dos Trabalhadores. por permitir o crescimento de tecidos informais e periféricos. 6 . por intermédio de uma Secretaria Executiva. Coube ao governo seguinte (1997-2000) a instauração e aparelhamento do Compur. não apenas no que se refere à incorporação de novas premissas e instrumentos urbanísticos ou à superação da lógica de zoneamento funcional presente na legislação de uso e ocupação do solo anterior. a disposição no texto legal de instâncias de gestão democrática de política urbana mostrou-se inovadora. O Plano Diretor aprovado em 1996 caracteriza-se em seu texto “como instrumento básico da política de desenvolvimento urbano”. cujo conteúdo antecipa as Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis). a justiça social. destacando-se nos anos 80 a criação precursora do Setor Especial-4 (SE-4). respectivamente em 1999 e 2002. Essas asserções são autorizadas já em Mendonça (2001. entre outros aspectos. da I e II Conferência de Política Urbana (CMPU). no início da gestão da Frente BH-Popular. Enfim. um ou outro avanço pode ser apontado na legislação urbanística precedente. em reflexão poste44 R . incluindo técnicos da prefeitura. alguns instrumentos urbanísticos foram elaborados (embora nem sempre regulamentados ou tampouco efetivamente aplicados) sem chegar a esboçar. também na gestão seguinte (2001–2004). bem como de proposições para seu aprimoramento. processadas por intermédio do Compur. e não foge do quadro socioespacial brasileiro. A trajetória de urbanização da cidade marca-se. que garante as condições para a acumulação industrial e imobiliária. B .8 A inflexão mais significativa traduz-se no primeiro plano diretor aprovado na cidade. O instrumento. segundo as especificidades locais. por outro.P A R T I C I P A Ç Ã O C I D A D Ã E R E C O N F I G U R A Ç Õ E S O CONSELHO E CONFERÊNCIA MUNICIPAIS DE POLÍTICA URBANA DE BELO HORIZONTE: PARTICIPAÇÃO CIDADÃ E INOVAÇÕES INSTITUCIONAIS Cidade projetada e centenária. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 8 Entretanto. a participação dos diferentes segmentos sociais. trata-se de um plano que efetivamente procurou incorporar os avanços constitucionais. Uso e Ocupação do Solo (LPUOS). quer pelos intercâmbios nos circuitos profissionais de planejamento. O Conselho Municipal de Política Urbana (Compur) e a Conferência de Política Urbana (CMPU) foram instituídos na Lei do Plano Diretor de Belo Horizonte como instâncias de gestão democrática. e. e reafirma a função social da cidade e da propriedade. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. A realização. A continuidade da coalizão político-partidária.9 conjuntamente à nova Lei de Parcelamento. que começou a ser elaborado em 1993. p. pela forte presença do poder público. a gestão democrática da cidade e a participação popular. que coordenou a elaboração do plano. permitiu a consolidação do Compur. Pode-se dizer que encampou a agenda de reforma urbana cunhada por atores coletivos no período mobilizador da Constituinte. constitui os momentos de avaliação participativa da política urbana e de seus instrumentos. de um lado. tendo em vista as “aspirações da coletividade”. a democratização do acesso ao solo urbano e à moradia. conferindo-lhes operacionalidade. a equalização das condições urbano-ambientais para os diversos grupos sociais. para a sustentabilidade. em alguma medida.153). tecido pelos déficits e desigualdades históricas.

10 Os debates implicaram algumas reformulações. foi objeto de inúmeros rearranjos e redesenhos para aprimoramento do processo. reportando-se à pauta dos movimentos organizados no período. O Compur – destituído de poder mais amplo de deliberação – distingue-se da maioria dos conselhos locais em virtude de seu caráter eminentemente consultivo. R . De forma pioneira no País. objetivos e características distintas e complementares. Sua composição totaliza 16 membros. Primeiro. no OP-Cidade e na Conferência da Cidade. Atualmente. . organizações populares. às polêmicas e à resistência dos vereadores e do segmento empresarial em relação à participação. As instâncias de participação vinculam-se às diferentes escalas – da escala global da cidade à escala regional ou mesmo local – e aos diferentes campos setoriais.11 No saldo desse processo. Tem ainda a atribuição de deliberar (em recurso) sobre os processos administrativos decorrentes do Plano Diretor e da LPUOS. principalmente. Ao lado das objeções endereçadas aos instrumentos de regulação imobiliária e às instâncias de participação propostas constituíram um eixo de desacordo e de resistências expressas por parte de representantes da Câmara e do setor empresarial. como a comissão que de certo modo veio a constituir-se como precursora do Conselho Municipal de Política Urbana (Compur). Essa comissão. 11 Sobre os tensionamentos postos pelas novas instâncias de participação ao Legislativo. popular (organizações de moradores e movimentos) e empresarial (entidades do segmento imobiliário). procurou-se constituir debates com o foco no Plano. a exemplo de outros órgãos colegiados no município. Dois avanços podem ser mencionados em relação ao processo de elaboração. da criação de comissões para a discussão das propostas. correspondem às instâncias mais gerais de democratização de decisões orçamentárias e de articulação das diferentes áreas setoriais. N . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. ao lado da Comissão “Conselho da Cidade”. o Compur não dispõe de fundo municipal. quais sejam. Os seis outros membros dividem-se entre os setores técnico (universidades. conferências municipais setoriais. B . constituindo ocasiões de participação mais capilarizada. era integrada por diversos segmentos da sociedade civil envolvidos com a temática urbana. o caráter deliberativo aplica-se apenas a um objeto técnico-administrativo. o Plano Diretor integrou à sua proposta os instrumentos urbanísticos posteriormente regulamentados pelo Estatuto da Cidade. Contudo. de proposição de alteração à legislação urbanística. O Compur tem caráter consultivo em relação às suas atribuições de monitoramento da aplicação do Plano Diretor e da LPUOS.10). com formatos e papéis distintos. ao lado de nove conselhos consultivos regionais. p. que. realizam-se. estrutura-se nos OP-Regionais.F L Á V I A D E P A U L A D U Q U E B R A S I L rior sobre sua contextualização. a maioria dos quais já consolidados. entidades profissionais e ONGs). 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 45 10 Sobre o processo. ou seja. associações de profissionais liberais e empresariado. ver Azevedo & Mares Guia (1996) e Brasil (2004). além de dois membros do Legislativo Municipal. no OP-Habitação (que constitui um recorte setorial específico). Segundo. procurou-se engajar e articular os diversos órgãos municipais de vocação urbana desde a fase inicial de estudos básicos. o Compur e a CMPU foram instituídos. ainda. de acompanhamento das intervenções urbanas e de avaliação da compatibilidade entre as propostas de obras e dos instrumentos orçamentários com as diretrizes do planejamento urbano. 12 Somam-se mais de seis dezenas de canais de participação em funcionamento em Belo Horizonte.500 emendas e a supressão de alguns instrumentos propostos. além de comissões regionais e locais. deve-se assinalar o avanço quanto ao envolvimento dos diferentes segmentos sociais para a sua discussão. 6 . ver Azevedo & Mares Guia (1996) e Boschi (1998. A composição do Compur é um ponto problematizado pelos conselheiros entrevistados vinculados aos segmentos societários que assinalam a forte presença do Executivo. sob o argumento de que esta implicaria menor eficiência e maior burocratização na política urbana. ainda. os espaços de participação atravessam a estrutura organizacional da prefeitura em seus diversos âmbitos setoriais e temáticos. O OP encontrase já consolidado em Belo Horizonte: em funcionamento desde 1994. O arranjo “minimalista” efetuado pode ser atribuído aos trâmites do Plano Diretor – que instituiu o referido Conselho –. no decorrer do trâmite de 12 meses que acarretou um número expressivo de 1. Em seu conjunto. remetendo-se à Constituição Federal como um marco de novas abordagens dos planos diretores e. que destacam especialmente a participação do setor empresarial e o envolvimento crescente do técnico ao lado da participação mais diluída e desigual do setor popular. o momento mais polarizado de debates ocorrerá na Câmara. Em razão do papel predominantemente circunscrito à dimensão consultiva. portanto. com os respectivos suplentes. entre eles 11 vinculam-se às políticas sociais. integrando uma extensa rede de espaços locais de participação cidadã (que vêm sendo cunhados desde a Lei Orgânica Municipal)12 com papéis. A representação governamental corresponde a oito membros representantes do Executivo (de secretarias municipais de vocação urbano-ambiental). fóruns e grupos de referência. Apesar da indicação de que não se tratou de um processo de participação mais abrangente. Periodicamente. que se reuniu periodicamente por oito meses. universidades. São 17 os conselhos setoriais. efetivados por meio da realização de seminários e palestras e.

resultando uma discussão em varejo em detrimento de uma discussão mais ampla da política urbana. Além disso. Apesar da realização de estudos e projetos. organizada quadrienalmente pelo Compur. a problematização do seu papel e de sua atuação atestam o dinamismo desse espaço e a reflexividade presente em seu interior. envolvendo. uma Operação Urbana e a ADE – Área de Diretrizes Especiais do Bairro de Santa Tereza. maior no caso dos representantes governamentais e. de mediar com o outro” (Brasil. destacando-se a disponibilidade de assessoria. Por sua vez. Em pesquisa voltada para a avaliação dos Conselhos Municipais. na sua maioria. a CMPU. apenas a ADE de Santa Tereza logrou ser regulamentada pela ampla mobilização local. As ADEs previstas na LPUOS de 1996 têm em vista a preservação de determinadas áreas da cidade. conflitos entre os interesses privados e coletivos. a regulamentação das operações urbanas que têm sido realizadas. O poder público municipal tem realizado sistematicamente intervenções nas Zeis-1. Por sua vez. Nesta direção. Pereira (2002) reporta a unanimidade dos conselheiros quanto à importância do Compur e à influência efetiva de suas posições na política urbana do município. em muitos casos. A despeito do reconhecimento unânime pelos conselheiros entrevistados da relevância e influência do Compur na gestão da política urbana. de negociação. os processos de negociação e a dimensão de aprendizagem coletiva. no caso das Zeis-3. Entre outros pontos. por meio dos planos globais e de intervenções estruturais (de caráter multidimensional). do instrumento ser banalizado mais para regularizar edificações a partir do mecanismo de compensação”. de alteração de zoneamento. com base nas diretrizes e indicações anteriormente construídas na I CMPU. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . aprovada em 2000. de discussão. a regulamentação das áreas de diretrizes especiais (ADEs) e os planos diretores regionais têm sido objeto de avaliação. e prevê a criação de Grupos de Referência locais para acompanhamento desses planos. de alargamento das discussões sobre a cidade e de 46 R . que pressionou para sua aprovação e participou na formulação da proposta. um representante do setor técnico observa que os representantes da sociedade civil têm feito uma discussão de política urbana muito direcionada pelo Executivo. ainda. com base em parâmetros mais restritivos de ocupação. A emenda regulamenta. correspondendo. Remetem também ao maior ou menor poder argumentativo dos diversos segmentos que se revela na constatação de que as decisões do Compur. os conjuntos habitacionais de interesse social. Brasil (2004 indica que os maiores eixos de desacordo no Compur têm sido a regulamentação das ADEs – Áreas de Diretrizes Especiais e a aplicação do instrumento das Operações Urbanas. representantes do Executivo foram apontados pela maioria dos conselheiros como os membros mais influentes nas decisões do Conselho. a emenda regulamenta as Zeis I e III14 (que já integravam a legislação urbanística). de informações e de tempo para dedicar-se à função. A atuação do Compur nesse período possibilitou avanços concretos na aplicação. Os representantes do segmento técnico foram considerados relativamente influentes. por intermédio do movimento Salve Santa Tereza. Institui oficialmente os planos globais específicos que já integravam o processo de regularização urbanística e fundiária das vilas-favelas. constituindo objeto de controvérsia explícita no Conselho. Neste bojo. de modo que a emenda institui legalmente os instrumentos que vinham sendo empregados e avança no estabelecimento de parâmetros urbanísticos para a regularização. 14 As Zeis estão previstas no Plano Diretor e da LPUOS de 1996. convergem com as posições do Executivo (Pereira. propostas e projetos de parcelamento. centralmente. Ao examinar a influência das diferentes representações nas decisões do Conselho. segundo o perfil dos conselheiros. flexibilizar. entender a necessidade de construir. 6 . além de outras disposições. estabelecendo parâmetros urbanísticos e critérios especiais de parcelamento.. evidenciada na afirmação de um representante popular de que a participação no Conselho demanda “estar aberto a construir novas concepções. Esses diferenciais remetem às assimetrias de recursos dos diferentes segmentos. apontando-se os “riscos de captura do instrumento.P A R T I C I P A Ç Ã O C I D A D Ã E R E C O N F I G U R A Ç Õ E S 13 A partir de entrevistas realizadas com os conselheiros. pode ser destacado como esforço de maior fôlego e envergadura a elaboração e a negociação de uma extensa emenda ao Plano Diretor e à LPUOS.. de infra-estrutura. na revisão e no aprimoramento dos instrumentos de regulação urbanística na cidade. 2002). enquanto os representantes do setor popular foram considerados pouco influentes pelos seus pares. e. as operações urbanas têm sido regulamentadas e relativamente bastante utilizadas. N . 2004). no outro extremo. menor no caso dos segmentos populares. no caso das Zeis-1 as áreas de ocupação informal nas quais o poder público desenvolverá programas de regularização urbanística e fundiária. uso e ocupação do solo nestas áreas. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. Estes questionamentos colocam em relevo a explicitação dos conflitos. B . de acompanhamento ou de proposição por parte do Compur. estruturada com base numa pauta e na legislação existente.13 Descartando-se aqui o balanço das ações do Compur. corresponde ao momento de ampliação da participação. a aplicação do instrumento de transferência de direito de construir. de modificações de classificação viária também são encaminhadas à avaliação do Compur. a autora problematiza a sua composição e aponta assimetrias de recursos. Entre outros aspectos. portanto. percepções .

dos membros do Compur. Foi bem-sucedida em R . assim. diversas questões foram problematizadas: desarticulação entre as diferentes instâncias e a sobreposição de pautas e calendários foram recorrentemente levantadas como problemas. expectativas. encampando as diferentes escalas. Diversas proposições foram elaboradas e aprovadas. que estruturam as discussões e propostas: mobilidade urbana.15 Não se deterá nas questões discutidas e propostas que delineiam avanços na política urbana e nos seus instrumentos.958 participantes nas pré-conferências regionais e temáticas. que totalizaram 2. aprovou-se uma proposta mais ampla de reorganização. com o respectivo fundo (inclusive alimentado pela aplicação de instrumentos urbanísticos). Dada a aprovação (então recente) dos instrumentos urbanísticos. 16 Constituíram eixos temáticos da Conferência Municipal de Política Urbana. a II Conferência. a garantia à participação. cabe citar a afirmação de representante do setor técnico de que “a Conferência tem o papel de trazer outras visões. tendo em vista. Na segunda CMPU o processo e as dinâmicas foram aprimorados. outros desejos” (Brasil. Neste sentido. sistema viário e transporte coletivo. 2004). possibilitando a ampliação das discussões e da participação. além de seu papel de capacitação dos participantes.F L Á V I A D E P A U L A D U Q U E B R A S I L possível articulação entre as políticas urbano-ambientais a partir das discussões temáticas nas diversas áreas. Foi credenciado um total de 2.441. realizando-se no período entre outubro de 2001 e agosto de 2002. aplicação de instrumentos do Estatuto da Cidade. vilas e favelas. tendo em vista o aperfeiçoamento dos canais de participação e de sua articulação. recortes. habitação. . embate. o estímulo à abordagem integrada. constituindo. N . e propor diretrizes e alterações nesses instrumentos. o papel deliberativo e a composição paritária. tendo como objetivo avaliar o Plano Diretor e a LPUOS. envolvendo: mudanças nos parâmetros urbanísticos e alterações no zoneamento.2003). Um número expressivo de propostas referentes à gestão participativa foi aprovado. dos participantes e dos delegados em torno de uma plataforma ampla – a cidade que queremos16–. e no caso dessas últimas destaca-se o número significativo de inscrições. Contudo. A participação cidadã mostrou-se valorizada pelos participantes. a ampliação de sua autonomia e das possibilidades de participação. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. não se visava à sua avaliação. objetos e tematizações. B . Mais além. Destacam-se a composição heterogênea dos participantes e a amplitude das discussões efetuadas nesse espaço. e o potencial de articulação intersetorial no contexto de fragmentação e complexidade da administração municipal. a possibilidade de ampliação da discussão sobre a cidade e de influência em macrodiretrizes e prioridades. inclusive. e o objetivo de construção da agenda urbana para o município. por três motivos: a abertura à participação. A primeira Conferência Municipal de Política Urbana realizou-se em 1998-1999. 6 . 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 47 15 Ver o balanço da participação nos Anais da II Conferência (PBH. envolveu um longo processo de preparação. As seguintes diretrizes foram assumidas na sua concepção: o caráter processual. o acesso à informação. com destaque para o reconhecimento crescente do OP. A CMPU aglutinou e canalizou investimentos. implicando a diretriz de integração entre esses espaços.632 oriundas do setor popular. De fato. A CMPU mostra-se fundamental. no mínimo. e ampliação do emprego de instrumentos redistributivos e voltados para a inclusão socioespacial. das quais 1. Destacase a participação expressiva nas pré-conferências que visavam a produzir o documento “A cidade que somos” e eleger os delegados para a etapa seguinte. controle urbano e patrimônio cultural. Várias propostas endereçaram-se ao Compur: a ampliação de suas atribuições. desejos e energias do Executivo. negociação e construção coletiva. um momento privilegiado de interlocução. mas à definição de ajustes e modificações e à construção desse espaço de democracia participativa. meio-ambiente e saneamento. Os esforços mobilizados para a sua concretização não podem ser subestimados. as resistências enfrentadas à instituição de canais de participação por ocasião da aprovação do Plano Diretor. aglutinando 700 pessoas e demandando seis meses de preparação. referente à criação de um sistema de desenvolvimento urbano. ressaltando-se apenas alguns pontos.

a convergência de seus representantes quanto à relevância do Compur e. DESAFIOS E POTENCIALIDADES DAS INSTÂNCIAS DE PARTICIPAÇÃO A divisão de competências. e possibilidades distintas de influir ou intervir no âmbito decisório. os debates e as proposições na CMPU indicam as trilhas de aprofundamento da gestão democrática das cidades. como aos canais de participação de um modo geral. e a apresentação e reconhecimento das identidades dos atores envolvidos. Contudo. de renovação nas políticas urbanas e de requalificação das instâncias de participação. ainda. escalas e papéis do conjunto pulverizado de instâncias de participação em Belo Horizonte implica desafios substantivos. B . ambigüidades e limites que se apresentam nesses novos espaços de construção democrática. a dimensão integrativa e de aprendizagem. O desafio que se coloca à CMPU e ao Compur. Além disso. a atuação do Compur mostra a concretização de possibilidades de avanços na reconfiguração dos instrumentos de planejamento e regulação urbanística. destinados à gestão dos instrumentos normativos da política e do planejamento urbanos no município. tendo em vista maior efetividade e maior equalização das condições de participação dos diferentes segmentos. N . reside nas possibilidades de concretização dos acordos e deliberações construídos nesses espaços. entre planejamento e gestão urbana. referentes à articulação não apenas entre esses espaços – como já tem sido ensaiado –. A despeito das dificuldades. Também pode implicar maiores riscos de absorção das energias dos movimentos sociais e dos atores coletivos. abrangências. pautados monologicamente na racionalidade técnica. que têm sido canalizadas em grande medida para a atuação institucional. indicam potencialidades inerentes à superação de modelos de corte centralista. A multiplicidade dos espaços de participação propicia diversas ocasiões de encontro entre o governo e a sociedade. Não se podem minimizar as dificuldades e as contradi48 R . entre os instrumentos das políticas urbanas voltados para a regulação e para a provisão de bens coletivos.P A R T I C I P A Ç Ã O C I D A D Ã E R E C O N F I G U R A Ç Õ E S avançar e aprimorar o processo de participação cidadã em suas múltiplas dimensões: a possibilidade de influência nos processos decisórios. 6 . O campo inerentemente conflitual da produção da cidade e a arena das suas políticas coloca dificuldades e contradições de toda ordem para a concretização dos potenciais dos espaços de gestão democrática das cidades. quanto às dimensões que remetem aos processos de aprendizagem coletiva permitem apostar nas possibilidades de aprimoramento desses arranjos de interlocução entre o poder público e os diversos segmentos sociais. que se pode traduzir na cunhagem de avanços e em inovações locais na gestão urbana. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. GESTÃO DEMOCRÁTICA DAS CIDADES E INCLUSÃO SOCIOESPACIAL: OBSTÁCULOS. A existência e o efetivo funcionamento de ambos os espaços. A efetividade e a consolidação das instâncias de participação desafiam as matrizes tradicionais e predatórias de relação entre o Estado e a sociedade. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . sem as quais a participação se resume ao caráter litúrgico ou de encenação. de promessas e mudanças – de reconstrução da cultura política sob premissas democráticas e de inclusão social. Mais além. essa fragmentação pode acarretar o esvaziamento relativo das instâncias que efetuam discussões mais globais em relação às que decidem a aplicação de recursos ou a provisão de bens negociáveis. mas entre os diversos setores. contribuindo para o processo – permeado de continuidade e resistências.

mobilização societária e participação cidadã.brasil@ fjp. Inúmeras dificuldades e desafios interpõem-se às possibilidades de as instâncias institucionais de participação no âmbito local realizarem suas promessas e potenciais de cunhagem de avanços institucionais. financeiras e administrativas.br Artigo recebido em dezembro de 2004 e aceito para publicação em fevereiro de 2005. implicando dificuldades de articulação. R . Os espaços de participação acarretam o tensionamento das estruturas governamentais – do Executivo e Legislativo municipais – do aparato burocrático-administrativo e de suas lógicas. por certo a explicitação dos conflitos urbanos na cena pública. Sugere percursos e processos contraditórios e descontínuos. 2002. E-mail: flavia. Sociedade civil: além da dicotomia Estado-Mercado. _______. p. desde os dilemas postos pelo processo inconcluso de descentralização brasileiro. Também a proliferação das instâncias e a conseqüente fragmentação recolocam o desafio da articulação das ações governamentais. para o autor. 6 . a rota do chamado planejamento politizado e da incorporação das premissas de reforma urbana – inscrita nas lutas pelo direito à cidade – implica obstáculos relativamente maiores e. L. bem como apresentam implicações para a organização.F L Á V I A D E P A U L A D U Q U E B R A S I L ções de toda natureza nos processos de formulação e implementação dos instrumentos de política urbana. instrumentalização e cooptação. Democracy and the public space in Latin America. A consideração da dimensão cultural e da cultura política como aspecto relevante demarca a magnitude dos desafios postos em ambos os domínios e na relação entre o Estado e a sociedade.23-41. inserindo-se na lógica do poder. Nesse sentido. Oxford: Princeton University Press. B . Os riscos de desmobilização. No âmbito da sociedade civil. com ação e reflexão coletivas. mas tão-somente recuperar alguns dilemas e questões mais gerais na abordagem dos canais de participação cidadã. L. tendo em vista a inclusão e concretização dos direitos sociais. Nos domínios institucionais. que conformam óbices muito significativos para a realização das atribuições constitucionais pela maioria dos governos locais brasileiros. Flávia de Paula Duque Brasil é pesquisadora da Escola de Governo da Fundação João Pinheiro e Mestre em Sociologia pela UFMG. Não se pretende esgotá-las. tecidos entre mudanças e continuidades. de padrões de ação estatal e de padrões tradicionais de relação entre poder público e sociedade. à questão da preservação da autonomia dos movimentos e organizações sociais. colocam-se as dificuldades e as potencialidades da tradução de princípios e práticas inovadoras cunhadas pelos atores sociais no âmbito das políticas públicas. Teixeira (2000. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AVRITZER. de sua capacidade mobilizadora e de seu fortalecimento.273) aponta para essa questão em aberto ao afirmar que a participação cidadã nas instâncias dos governos locais cria a possibilidade de as organizações perderem sua autonomia. (Org. N . Belo Horizonte: Del Rey. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. buscando o fortalecimento da sociedade civil e a democratização das relações entre Estado e sociedade”. sobretudo se apontam para a superação de uma ordem urbana configurada há longa data. entre os quais as limitações de recursos e capacidades técnicas. sobretudo. In: AVRITZER.gov. colocando novos desafios à organização societária. e os custos atribuídos à ultrapassagem das fronteiras dos domínios societários e de seus espaços públicos podem ser considerados um cenário possível. Porém. 1994. “o desafio que se lhes apresenta é o de enfrentar todos esses riscos. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 49 . vários dilemas e problemas se apresentam. se não o alargamento. 202p. de democratização das políticas públicas e das relações entre governo e sociedade. os dilemas remetem. p.) Sociedade civil e democratização. Nesses termos.

As políticas públicas participativas em Belo Horizonte: as possibilidades e os limites dos conselhos de política urbana. WBI. A. D. L. In: MELO. HABERMAS. E. Rio de Janeiro: Revan/Brasília: Enap. I. Solo criado em Belo Horizonte: o calcanhar de Aquiles do Plano Diretor. E.14. de L. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Plano diretor. Participação popular nos governos paulistas: trajetórias mecanismos e caráter. (CD-Rom.) São Paulo. J. 1999.21-41. In: MAGANHÃES. fragmentação e reforma urbana: o futuro das cidades brasileiras na crise. gestão urbana e descentralização: novos caminhos novos debates. D. 121p. 2001. L. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 .2... M. jul. 245p. A. 2003. Belo Horizonte: DCP/NUPASS. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. de P. SILVA. n.279-303. N. Perfil dos Municípios Brasileiros 2001. Revista Polis. fragmentação e reforma urbana: o futuro das cidades brasileiras na crise. SANTOS JÚNIOR. inversão de prioridades e os caminhos da administração pública municipal. V.) Direito urbanístico e política urbana no Brasil. Participação popular nos governos locais. 1989. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.) AZEVEDO. de L. Gestão local e participação da sociedade. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. dos S. (Mimeo. UFRJ. 2. R. R. Globalização. de. J.) Sociedade civil e espaços públicos no Brasil. 302p. participação cidadã e renovação nas políticas urbanas locais nos anos 80. (Org. (Org.P A R T I C I P A Ç Ã O C I D A D Ã E R E C O N F I G U R A Ç Õ E S AVRITZER. Porto Alegre: Evangraf. Civil society and political theory.. v. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. F. J. p. In: RIBEIRO. Reforma urbana: limites e possibilidades de uma trajetória incompleta. v. Boston: Beacon. P. L.309-27. 2002. Rio de Janeiro: Ed. 1997. Espaços públicos. 6 . 352p. Anais do II Congresso Brasileiro de Direito Urbanístico. R. p. In: III Curso De Gestão Urbana e de Cidades. C. (Org. E.151-65.) DAGNINO. 2004. COELHO. C. _______. 1998. 1997. S. S.. Belo Horizonte.ed. participação e instituições híbridas. G. 2002. In: DAGNINO. C.) Globalização.. 2002. R.. MENDONÇA J. Recife: Fundação Joaquim Nabuco. B . de Q. D. E. Repensando o público através da sociedade: novas formas de gestão pública e representação social.. (Org. PEREIRA. N .) A crise da moradia nas grandes cidades: a questão da habitação e reforma urbana.ed. O. 2002. F. MARES GUIA. 1996.166-86.. de Q. M. de. CUNNIL-GRAU. 247p. TREVAR. V. dos.. ARATO. (Org. 2001. A. Sociedade civil. Perfil dos Municípios Brasileiros 1999. IBGE. AZEVEDO. D. BOSCHI. BITTAR. 1994. _______. BARRETO. R. Belo Horizonte: EG/FJP. PONTUAL. In: FERNANDES.) Reforma do Estado e mudança institucional no Brasil. PEREIRA. (Org. de Q. Os conselhos de habitação e desenvolvimento urbano: desafios e riscos de uma política em construção. MARICATO. p. participação e eficiência das políticas públicas: exame de experiências municipais no Brasil. 2001. CYMBALISTA. DANIEL. M. 2. In: VILLAS-BOAS. L. Gestão democrática. SANTOS JÚNIOR. espaços públicos e construção democrática no Brasil: limites e possibilidades. COHEN. Cambridge: MIT Press. In: RIBEIRO. A. Belo Horizonte: Del Rey. A. C.). 1992. Governança. C. Direito e democracia: entre factilidade e validade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. O. C.2. (Org. L. São Paulo: Paz & Terra.327-51. p. The theory of communicative action – Lifeworld and system: a critique of functionalist reason. 50 R . In: Avaliando o Estatuto da Cidade. Belo Horizonte. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. R. p. p. 1997. BRASIL. In: RIBEIRO. Democracia.

) Democratizar a democracia: os caminhos da democracia participativa. 2000. These experiences could be regarded as expressions of collective actors democratizing projects referred to urban planning and management. R . de. _______. focusing on participatory arrangements implemented by local governments since the late eighties in Brazilian context. TATAGIBA. _______. 1999. E. B . their limits. In: DEÁK. 2002. 2001. São Paulo. Conselhos gestores e a burocratização das políticas públicas no Brasil. G. emphasizing urban policy municipal councils. R. SANTOS. Salvador: UFBA. p. A K E Y W O R D S Citizens participation.61-71. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Belo Horizonte’s Urban Policy Municipal Council and the Urban Policy Municipal Conference are analyzed as an illustrative case. II Conferência Municipal de Política Urbana 2001-2002. mar.109-25.. despite the experiences diversity. p. de (Org. 1998. 138 p. participation have produced alternative policies models. reflexões sobre o modo petista de governar. O local e o global: limites e desafios da participação cidadã. 224p. 2000. Instrumentos urbanísticos: concepção e gestão. A. VILLAÇA. roles. dez. F. First. the text approaches public space and citizens participation concepts and stresses civil society possibilities to influence agenda-setting and policy-making process. ROLNIK. 2003. Rio de Janeiro: Paz e Terra. SOUSA SANTOS. Oculum Ensaios Revista de Arquitetura e Urbanismo. Petrópolis: Vozes. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 51 . C. urban policies. São Paulo: Cortez. T. SCHIFFER. Sociedade civil e participação cidadã no poder local. 2002. (Xerox. A reinvenção solidária e participativa do Estado e sociedade. 1999. 415p. local-level participatory arrangements are examined. 2002. TEIXEIRA.39-83. São Paulo: Fundação Perseu Abramo. Conselhos Municipais: a participação cívica na gestão das políticas públicas. São Paulo: Edusp.) RIBEIRO. Uma contribuição para a história do planejamento urbano no Brasil. Gestão da terra urbana e habitação de interesse social.5-12. Experiências de Orçamento Participativo no Brasil. (Orgs. R. Their character. B. 6 . difficulties and contradictions. dos. potencials and limits are pointed out. Next. R. B S T R A C T This article addresses citizens participation in urban policies. In: DAGNINO. S. municipal councils. E.. M. Rio de Janeiro: FASE.F L Á V I A D E P A U L A D U Q U E B R A S I L Governo e cidadania. Belo Horizonte: Anais… 2003.1. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. N . n. Brasília: Anais… MARE. PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOCIEDADE E A REFORMA DO ESTADO. L. C.169-245. GRAZIA. p. p. Sociedade civil e espaços públicos no Brasil. 1998.) O processo de urbanização no Brasil. Last. p. This paper argues that.

.

que seriam marcadas pela sobreposição de múltiplas carências e privações.152. o argumento teria sido supostamente comprovado ad nauseam por dezenas de estudos. violência urbana. 6 . como desemprego. 2000). p. o Índice de Exclusão Social (Sposati. PA L AV R A S - C H AV E Riscos sociais. políticas sociais. segregação. tais como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. B . No caso de São Paulo. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 53 . pelo acúmulo de privações e de indicadores sociais negativos: A extensão das periferias urbanas . os resultados indicam a complexa estruturação dos riscos sociais em municípios como São Paulo. baixo nível educacional e gravidez na adolescência. para a questão da heterogeneidade da periferia. (Maricato. ainda que de modo difuso. marcados pela ausência de investimentos públicos. com conteúdos socioeconômicos bastante similares. A idéia de que os riscos sociais são cumulativos pode parecer bastante evidente para a maior parte dos observadores da cena urbana brasileira. abordando alguns tipos de riscos sociais que incidem sobre indivíduos jovens. o Índice Paulista de Responsabilidade Social (IPRS) e outros. são utilizados métodos de estatística espacial e as áreas de ponderação da amostra do Censo Demográfico (IBGE.) Essa frase sintetiza o argumento relativo à homogeneidade das áreas periféricas das metrópoles brasileiras.. que seriam locais distantes dos centros urbanos. Vale ainda destacar que boa parte da literatura brasileira sobre a chamada segregação residencial tende a considerar como dado que os riscos sociais em geral se concentram esR . ou seja. a proposição da homogeneidade das periferias metropolitanas. juventude. bem como a sistemática produção de indicadores de cunho territorial. Ao contrário da visão bastante difundida. tem sua expressão mais concreta na segregação espacial ou ambiental configurando imensas regiões nas quais a pobreza é homogeneamente disseminada. 2003.JOVENS NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO EXPLORANDO O EFEITO DAS RELAÇÕES DE VIZINHANÇA R E N ATA M I R A N D O L A B I C H I R HAROLDO DA GAMA TORRES MARIA PAULA FERREIRA R E S U M O O objetivo desse artigo é testar a hipótese de acúmulo de indicadores negativos nas áreas periféricas do município de São Paulo. 1996). sobretudo se considerarmos a grande massa de dados existentes sobre a periferia de São Paulo. Desse modo. de modo geral. Para tanto. N . o que tem importantes conseqüências para o planejamento de políticas públicas. para a não-sobreposição espacial de diversos riscos considerados. os resultados apontam.. INTRODUÇÃO Está presente na literatura sociológica e de estudos urbanos.

exposição a variados tipos de riscos (como maior incidência de certos agravos de saúde pública) etc. Como exemplo. há certas áreas da chamada “periferia” que não são tão segregadas: estão inseridas em áreas consolidadas e com boas condições de acesso a serviços públicos. por meio de análise de cluster. uma vez que esse rótulo abrangente coloca sob o signo da homogeneidade realidades muito distintas. na escala de distritos administrativos. com características bastante peculiares. deram origem a diferentes grupos de vulnerabilidade social. uma vez que essas áreas apresentam grande variabilidade no porte demográfico. foram agrupadas em duas dimensões principais. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. ou por pessoas idosas. e muitos outros aspectos. pelo isolamento espacial. há composições familiares específicas que devem ser consideradas com bastante cuidado. de modo a produzir uma caracterização mais precisa de sua distribuição espacial. E. que. Taschner & Bogus. Apesar de ser possível afirmar que certas áreas do município de São Paulo possuem um legado histórico de acúmulo de indicadores negativos – sujeitas a diferentes tipos de riscos. 2000). sendo que algumas têm o tamanho de verdadeiras cidades. como famílias chefiadas por mulheres. no caso de São Paulo. Muitos desses estudos ou tomam o argumento da concentração de precariedades nas áreas periféricas a priori ou são organizados em unidades de análise muito agregadas espacialmente. além dessas áreas fortemente segregadas. a análise por distritos (96 áreas) tende a ser bastante insatisfatória. e não mais em “periferia”. com mais de 400 mil habitantes. destacando que a pobreza urbana no município apresenta múltiplas dimensões que não se restringem à simples carência (ou ausência) material. 2 O mapeamento das áreas de vulnerabilidade do município de São Paulo baseouse em variáveis selecionadas do Censo Demográfico 2000. submetidas à análise fatorial. cada vez mais parece ser preciso falar em periferias. tanto sociais quanto ambientais –. Porém. além de indicadores socioeconômicos muito ruins. Essa visão associa-se com a caracterização das periferias urbanas como locais relativamente homogêneos em termos de falta de investimentos públicos. 2001. por exemplo. Em outras palavras. como Brasilândia (na Zona Norte). é também verdade que essas áreas se distribuem por todo o município de forma bastante dispersa e complexa. Estudos desenvolvidos recentemente no âmbito do Centro de Estudos da Metrópole (CEM/Cebrap) em escala geográfica mais detalhada (como a de setores censitários) apontam. ao contrário. denominadas “dimensão de privação socioeconômica” e “dimensão de ciclo de vida familiar”. como o distrito de Grajaú. 6 . para uma relativa heterogeneidade das áreas de pobreza. de acesso a bens e serviços essenciais. compostas por muitas crianças. em áreas com poucas oportunidades gerais de vida e de acesso a serviços e políticas públicas.2 Esse estudo mostrou ainda que a pobreza urbana pode ser marcada pela segregação.J O V E N S N O M U N I C I P I O D E S Ã O P A U L O 1 Este estudo foi desenvolvido pelo Centro de Estudos da Metrópole (CEM/Cebrap e Cepid/Fapesp) em parceria com a Secretaria de Assistência Social do Município de São Paulo – ver CEM/Cebrap e SAS-PMSP. altos índices de criminalidade (como altas taxas de homicídio). podemos citar o Mapa da Vulnerabilidade Social da População da Cidade de São Paulo. como. B . 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . têm melhores oportunidades de emprego e de mobilidade em geral. segundo o Censo de 2000 do IBGE. estas dimensões combinadas. Certas áreas da periferia de São Paulo. por homens jovens de baixa escolaridade. aproximando-se mais de um mosaico do que da descrição radial-concêntrica descrita pela literatura: ou seja. é necessário examinar o argumento referente ao acúmulo de riscos em uma escala de observação mais detalhada. 2004. pois além da dimensão socioeconômica (baixos níveis de renda e escolaridade) também é importante considerar a dimensão demográfica da pobreza: entre os mais pobres.1 desenvolvido na escala dos setores censitários. pacialmente no anel externo das regiões metropolitanas. indicando apenas padrões espaciais muito gerais. Essa distinção remete ainda à diferenciação do próprio conceito de 54 R . N . Capão Redondo (na Zona Sul) e Cidade Tiradentes (na Zona Leste) são marcadas por acúmulos de indicadores negativos: falta de acesso a políticas essenciais (como saúde e educação). gerando – no caso de São Paulo – uma distribuição espacial dos problemas sociais de formato radial-concêntrico (Villaça.

que na análise dos padrões espaciais da segregação a escala pode exercer um papel fundamental (Sabatini.4 Esses indicadores foram selecionados por ajudarem a complementar a definição das situações de pobreza sem estarem diretamente relacionados à dimensão da renda – ou seja. Brooks-Gunn. Yienger. uma vez que a literatura internacional sugere que a aglomeração de um determinado grupo social ou étnico em uma dada área tenderia a aumentar substancialmente esses riscos juvenis. 2004). e também de periferias (há periferias mais recentes. Consideramos estes elementos menos relevantes para a discussão brasileira. em que a maioria dos alunos tem baixa renda e pais com baixa escolaridade. 2004. T O R R E S . tem fortes efeitos sobre o desempenho escolar). violência urbana. R . revelam que estudar em escolas de áreas periféricas. maior exposição a certos tipos de agravos à saúde (dadas as condições bastante insalubres em que muitos vivem). Duncan. além da relevância analítica. destacando-se especialmente o papel do Estado (inclusive por meio das políticas públicas tradicionais. a segregação socioespacial tem efeitos sobre as redes de relações sociais. especialmente aqueles que afetam indivíduos jovens. 1997. bem como teria impactos substanciais sobre as oportunidades econômicas e sociais dos indivíduos que residem nessas áreas altamente segregadas: aquelas que concentram grupos menos favorecidos (Massey & Denton. o artigo busca compreender até que ponto determinados riscos sociais. 2001). B I C H I R . as possibilidades de modificação de suas realidades. sem perder. entretanto. efeitos sobre a escolaridade dos jovens (Torres. M . 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 55 3 De modo geral. que geram condições diferenciadas de acesso) e do capital imobiliário (ver Marques & Torres. Durlauf. 2001). examinar a hipótese de acúmulo de riscos associada ao tema da segregação residencial constitui um esforço de interesse tanto empírico como teórico. 1999). também. B . P. N . baixo nível educacional e gravidez na adolescência. G . 4 Para a discussão relativa aos efeitos de vizinhança sobre o desenvolvimento dos jovens. a análise da concentração espacial de alguns riscos juvenis contribui para tornar mais complexo o entendimento das “múltiplas dimensões da pobreza” (Mingione. Massey e Denton (1993) mencionam outras dimensões. a dimensão mais geral: os mecanismos produtores da pobreza e da segregação urbanas. O estudo desses tipos de riscos que afetam as populações mais jovens é particularmente relevante do ponto de vista das políticas sociais. por exemplo. sobre a articulação das comunidades (uma vez que reduz os contatos entre os diferentes grupos sociais). Cada uma dessas composições necessita de cuidados e de olhares específicos: é importante atentar para as estratégias de sobrevivência das populações que moram nesses locais. Além disso. no caso desse artigo. Do ponto de vista empírico. elegendo o território como área de atuação. outras em fase de transição). menores oportunidades de mobilidade social (dada a maior fragilidade das redes de relações) etc. Ferreira & Gomes. Por esta convergência de riscos em um mesmo território estamos nos referindo. tais como concentração (que mede a densidade da pobreza) e centralização (que mede sua localização em relação ao centro da cidade). 6 . F E R R E I R A pobreza. ver. o que afeta. porém. A segregação observada em certos locais da cidade gera diferentes e perversas conseqüências: menor acesso a serviços essenciais (dada a grande distância que tem de ser percorrida. o conceito de segregação remete a duas dimensões principais: os padrões de concentração espacial de determinados grupos sociais e o grau de homogeneidade social de determinadas áreas. Em suma. Esta literatura adverte. do ponto de vista das políticas públicas. especialmente se for considerado que a sobreposição de carências nessa faixa etária contribui para a reprodução de circuitos de pobreza. H . 1993. 2001.R . convergem ou não para territórios urbanos específicos. o tema tem particular importância para as políticas sociais. M . esses dados destacam a necessidade de políticas sociais que considerem o componente espacial da pobreza. com implicações significativas para as políticas sociais. normalmente localizadas nas periferias urbanas – discute-se assim o efeito das relações de vizinhança sobre a incidência desses riscos. em média.3 Assim. à concentração do desemprego. . para obter diversos tipos de atendimento). sobre os padrões de sociabilidade. em um pequeno número de áreas contíguas. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. algumas já consolidas.

6 Assim. B . percentual de jovens de 18 a 19 anos com ensino médio completo. e taxa de homicídios de homens de 18 a 29 anos. simultaneamente. denominado questionário para o universo do censo. Os três primeiros indicadores foram derivados da amostra do Censo Demográfico. o valor zero indica o distrito com o menor nível de vulnerabilidade. N . que é constituída por 10% das unidades domiciliares do município.7 Com poucas exceções. e valores negativos representando diferenças entre vizinhos. o objetivo mais geral deste artigo é reexaminar a proposição de que as periferias são homogêneas. sendo derivada do sistema de estatísticas vitais da Fundação Seade. que no município de São Paulo correspondem a 456 áreas.J O V E N S N O M U N I C I P I O D E S Ã O P A U L O 5 O estudo serviu como base para a localização dos equipamentos do projeto “Fábricas de Cultura”. 2002). como o Índice de Moran. que visa proporcionar acesso à cultura e lazer aos jovens de áreas periféricas. A taxa de homicídios foi elaborada com base na média dos óbitos para os anos de 1999. realizado pela Fundação Seade em 2002. Em outras palavras. 7 A título de ilustração das grandes disparidades observadas. em particular a pobreza. Essas áreas são homogêneas em termos de variáveis socioeconômicas e demográficas (Fundação IBGE.8 Utilizaremos também métodos de estatística espacial. A adoção das áreas de ponderação como unidades geográficas do estudo teve como objetivo explorar as dimensões da segregação espacial em uma escala mais detalhada do que os 96 distritos administrativos da cidade. o percentual de jovens residentes. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. indicando – na escala de distritos – uma estreita relação existente entre condições socioeconômicas. mediante uma demanda da Secretaria Estadual da Cultura. foram gerados quatro indicadores que expressam as condições de vida dos jovens no município de São Paulo: percentual de adolescentes do sexo feminino de 13 a 17 anos que já tiveram filhos. o percentual de jovens de 15 a 19 anos que não freqüentavam a escola. 56 R . que cobre toda a população. nos anos de 1999 a 2001. taxa de desemprego dos jovens de 18 a 24 anos. pode-se destacar que enquanto nos distritos de Jardim Paulista e Moema (caracterizados por bons indicadores socioeconômicos) o percentual de mães adolescentes variava em torno de 1%. e a renda média do chefe do domicílio. Este indicador considerava em sua composição a taxa de crescimento do distrito entre os anos 1991 e 2000. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . Essas áreas são compostas por setores censitários e englobam em torno de 4 mil domicílios. Assim. fecundidade e outros. um dos principais exercícios empíricos sobre o tema foi o Índice de Vulnerabilidade Juvenil (IVJ). ou seja. com valores positivos indicando autocorrelação espacial. de certa forma. 2002). ou seja. as mães tinham menos de 17 anos de idade. e situações de violência e maternidade entre os jovens residentes nestes locais.6 O estudo destacou ainda a existência de cinco grupos de distritos no município com distintos níveis de vulnerabilidade para os jovens residentes. o percentual de nascidos vivos de mães com idade entre 14 e 17 anos. homicídios. em particular aquelas com maiores concentrações de jovens em situação de risco social. e outro mais abrangente e detalhado que é aplicado em uma amostra correspondente a 10% dos domicílios. gravidez precoce e taxa de homicídios – em uma unidade de análise espacial mais detalhada: trabalharemos aqui com as 456 áreas de ponderação da amostra do Censo Demográfico do IBGE. em Cidade Tiradentes (distrito da periferia do município) o percentual era próximo de 10%. Tomaremos como exemplo alguns riscos juvenis – desemprego. em 10% dos nascidos vivos de mulheres residentes neste local. o de maior nível. Foi utilizada a metodologia estatística de análise fatorial. METODOLOGIA A partir dos dados do Censo Demográfico 2000 (IBGE) e do sistema de estatísticas vitais da Fundação Seade. grau de alfabetização.5 Este estudo classificava os distritos administrativos da cidade em uma escala de zero a cem pontos que expressava o grau de vulnerabilidade social dos seus jovens moradores. considerando. particularmente violência. os chamados hot spots. a taxa de homicídio entre os jovens do sexo masculino com idade entre 15 e 17 anos. No que diz respeito a riscos juvenis. ou seja. com cerca de quatrocentos deles pertencentes à amostra. já que estes podem conter em seu interior uma diversidade de situações que no nível agregado não é possível detectar. Pretendemos mostrar que a sobreposição de carências nas áreas periféricas do município de São Paulo não é completa. Como unidades de análise (e como áreas de vizinhança) foram utilizadas as áreas de ponderação criadas no âmbito do Censo Demográfico 2000. a periferia é mais heterogênea do que supõe a literatura. 6 . 9 O índice de Moran varia no intervalo de -1 a 1.9 que oferecem uma abordagem bastante interessante tanto para medir os níveis de segregação existentes como para identificar em grande detalhe os locais com altíssimo grau de concentração de um dado risco juvenil. os níveis de escolaridade dos jovens. a existência de áreas com valores similares entre vizinhos (para o indicador de interesse). 8 O Censo é baseado em dois questionários: um mais sucinto. 2000 e 2001. e o valor cem. a hipótese do acúmulo de riscos foi também reafirmada por este exercício. realizado na escala do distrito (Fundação Seade. foram observadas coincidências espaciais entre os diversos tipos de riscos analisados.

permitindo a identificação de padrões espaciais e a criação de clusters que os representam. Para se verificar a existência de padrões espaciais e sua identificação utilizou-se o Índice de Moran Local.23 10 Este índice é escrito como: I=(N/S0)Σi Σj wijxixj / Σixi 2 (1) Onde. Em outras palavras. a distribuição da proporção de pobres (ou de qualquer outra variável de interesse. é possível afirmar que a distribuição desses indicadores não é uniforme no município de São Paulo. isto é. no caso de uma autocorrelação perfeita – índice de Moran igual a 1 (um) – a média de cada área considerada seria igual à média ponderada dos seus vizinhos. a menor correlação corresponde ao percentual de meninas de 13 a 17 anos que têm ou já tiveram filhos.63 0. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. zi = (xi . que pode ser expresso como: Σ wij zj j I i =  N i=1 (2) _ Onde. se o percentual de pobres na cidade é de 30%. 1995). H . Para as situações em que há segregação. se comparados aos indicadores comumente utilizados para os estudos de segregação – como o índice de dissimilaridade – o índice de Moran incorpora uma dimensão bastante inovadora: testar até que ponto o nível de uma variável para uma dada área é similar ou não ao das áreas vizinhas.x ) Essa medida apresenta um valor para cada região. Assim. Tabela 1 – Índice Global de Moran Indicadores Taxa de desemprego dos jovens de 18 a 24 anos Percentual de jovens de 18 a 19 anos com ensino médio completo Taxa de homicídios de homens de 18 a 29 anos (em cem mil) Percentual de adolescentes do sexo feminino de 13 a 17 anos que já tiveram filhos Fontes: IBGE. Σ zi2 Os resultados revelam que. M . 1995). Foi utilizada uma matriz de vizinhança de primeira ordem. P. esta proporção será aproximadamente a mesma em todas as áreas do município e o índice de Moran tenderá a zero. M . Assim como no caso dos outros indicadores de segregação. No Anexo 1 apresentamos o Diagrama de Espalhamento para as quatro variáveis consideradas.10 RESULTADOS DO MORAN GLOBAL Os valores obtidos pelo Índice Global de Moran sugerem a existência de autocorrelação espacial para os quatro indicadores analisados. T O R R E S . e xi corresponde ao valor do indicador a ser testado para a área i e N o número de observações. 6 . Uma outra maneira de observar a autocorrelação espacial existente para cada um dos quatro indicadores é o Diagrama de Espalhamento de Moran. os graus de heterogeneidade espacial variam conforme o tipo de variável considerada (Tabela 1). especificamente o índice de Moran (I). com wij assumindo valor 1 se i e j são fronteiriços e 0 (zero) caso contrário. B . as áreas com altas concentrações de pobres serão vizinhas entre si (assim como as áreas com altas concentrações de não-pobres) e o índice de Moran se aproximará de um. Censo Demográfico 2000. A partir desses índices foram gerados os LISA maps (Anselin. o índice global de Moran é o mais comumente utilizado quando se deseja um sumário da distribuição espacial dos dados. isto é. F E R R E I R A Como ferramental analítico foram utilizadas medidas de autocorrelação espacial. o mesmo não ocorre para outros indicadores (como homicídios e gravidez na R . em situações em que não existe segregação. Seade. Apesar da existência de vários índices que mensuram padrões espaciais. Esse tipo de gráfico apresenta o cruzamento entre o valor do indicador para uma determinada área e a média dos vizinhos.61 0. com as maiores correlações observadas para a taxa de desemprego e o percentual de jovens de 18 a 19 anos com ensino médio completo.R . Por exemplo. Índice de Moran (I)* 0. Foi utilizado o nível de significância de 5% nos testes de hipóteses. S0 é um fator de normalização igual à soma de todos os pesos (Σi Σj wij). como concentração de negros) será uniforme em todas as áreas da cidade. Estatísticas Vitais. este indicador tende a ser afetado pela escala geográfica adotada (Anselin. G . Estes clusters podem ser interpretados como áreas com dinâmicas espaciais próprias que se destacam das demais. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 57 . enquanto os padrões de heterogeneidade espacial parecem ser de fato similares quando considerados certos indicadores (como desemprego e escolaridade). B I C H I R . em que a hipótese nula corresponde a: o valor observado do índice para cada um dos quatros indicadores era igual a zero.45 0. * Nível de significância de 5%. Assim. com um nível de significância de 5%. global e local. N . wij é um elemento da matriz vizinhança espacial W que indica se as áreas i e j são contíguas.

Nesse mapa as áreas em cinza claro são aquelas onde ocorrem valores muito acima da média da cidade e. as pretas representam as áreas com valores abaixo da média do município (e simultaneamente as áreas vizinhas também apresentam valores muito baixos).11 onde estão identificados os clusters espaciais de áreas de ponderação que se diferenciam das demais áreas da cidade. 58 R . ou seja. Tal evidência. Mapa 1 – Taxa de desemprego dos jovens com 18 a 24 anos. pelo menos no que diz respeito à unidade de observação utilizada neste estudo – áreas de ponderação. A seguir são apresentados os mapas LISA. As áreas em cinza escuro são as áreas denominadas de transição. Para aprofundar esse argumento. Todos os mapas foram elaborados pelos autores do presente artigo. simultaneamente. N . RESULTADOS DO MORAN LOCAL 11 Os mapas LISA (Local Indicator of Spatial Association) apresentam as correlações para uma dada variável entre cada uma das unidades de análise e seus vizinhos. Por fim. por si só. 2000. as áreas vizinhas também apresentam valores muito altos. B . 6 .J O V E N S N O M U N I C I P I O D E S Ã O P A U L O adolescência). o padrão local não é similar ao da vizinhança. as áreas em branco são aquelas em que não foram identificados padrões espaciais que se diferenciam de modo particular do observado para o conjunto do município. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . Fonte: Censo Demográfico 2000. Município de São Paulo. foram analisados os mapas gerados pelo Índice de Moran Local. já coloca em questão a hipótese apresentada na introdução relativa a um perfeito e simultâneo acúmulo de riscos nas mesmas áreas.

a região do Centro expandido apresenta os maiores níveis de renda e é também a principal responsável pela oferta de empregos (Gomes & Amitrano. F E R R E I R A Apresentamos no Mapa 1 o Índice de Moran Local para a taxa de desemprego dos jovens de 18 a 24 anos.R . Também neste caso surgem dois grandes agrupamentos: o que engloba as áreas centrais e mais ricas da cidade – com alto grau de conclusão do segundo grau – e o que R . Não por acaso. Apenas algumas poucas áreas apresentam níveis de emprego homogeneamente baixos. em parte. neste caso. diz respeito à situação da Zona Norte. B . N . 2004). 6 . segundo agrupamentos de correlação espacial. A principal surpresa. Níveis baixos de desemprego são observados no bloco homogêneo constituído pelo chamado Centro expandido (em preto) e altos níveis de desemprego são encontrados nas áreas homogêneas a Leste e a Sul da cidade (em cinza claro). Mapa 2 – Porcentagem de jovens com 18 a 19 anos com ensino médio completo. De forma análoga ao mapa anterior. B I C H I R . pela recente transformação social da região – com a emergência de Santana como um distrito de renda média-alta – e pela maior proximidade da maior parte da Zona Norte à região do Centro expandido. M . o Mapa 2 apresenta o Índice de Moran Local para o percentual de jovens de 18 a 19 anos com ensino médio completo. Fonte: Censo Demográfico 2000. apresentando o conhecido padrão radial-concêntrico. T O R R E S . M . 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 59 . local de maior concentração de empregos. Município de São Paulo. Podemos observar que este indicador apresenta um padrão de distribuição espacial semelhante ao esperado pela literatura. H . G . 2000. Talvez isso possa ser explicado. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. Trata-se de um resultado conhecido. P.

Município de São Paulo.J O V E N S N O M U N I C I P I O D E S Ã O P A U L O envolve as áreas periféricas a Leste. 60 R . 1999-2001. sugerem uma série de elementos relativamente surpreendentes. Fonte: Censo Demográfico 2000. mas de modo muito mais concentrado espacialmente nos distritos de Jardim Ângela. A região de São Miguel Paulista – no extremo Nordeste da cidade – está na pior situação em relação ao emprego. embora as maiores taxas encontrem-se nas periferias. observamos que as áreas de baixo desemprego têm alta escolaridade e as áreas de baixa escolaridade têm alto desemprego. Cabe ressaltar que esses resultados. São Mateus e na fronteira com Diadema. O Centro histórico da cidade não apresenta alto nível de escolaridade. o que não se reflete no nível de escolaridade. embora corroborem a hipótese de sobreposição de riscos sociais em locais de periferia – mesmo na escala de áreas de ponderação –. 1999). 2000. mas alto nível de emprego. Mapa 3 – Taxa média de homicídios. N . Brasilândia. os dados nesta escala sugerem que a segregação não é tão “compacta territorialmente” como o modelo centro-periferia sugere (Villaça. tais como os de homicídios e ocorrência de filhos entre as adolescentes (Mapas 3 e 4). segundo agrupamentos de correlação espacial. tais eventos não se localizam com intensidade em qualquer periferia. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. Em outras palavras. No caso de homicídios. B . 6 . Sul e também a Noroeste (nesse caso. E estas discrepâncias são muito mais significativas quando observamos outros dados. Com algumas exceções. com baixo grau de conclusão).

Estes resultados sugerem que embora os locais com elevadas taxas de homicídios apresentem elevados níveis de desemprego e baixa escolaridade. H . De certo modo. É possível identificar um único agrupamento homogêneo: as áreas localizadas no chamado quadrante Sudoeste – onde o índice de gravidez na adolescência se diferencia do restante do município por apresentar valores muito baixos. o mesmo fenômeno se observa no caso da gravidez na adolescência. T O R R E S . as áreas com baixa incidência de homicídios não abrangem todo o Centro expandido. B . não necessariamente todos os locais com estas características têm elevado nível de homicídios. B I C H I R . P. embora algumas áreas R . o padrão territorial é relativamente fragmentado. G . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. N . mas não em outros. F E R R E I R A Analogamente. A cumulatividade de riscos ocorre em alguns casos. Em outras palavras.R . Fonte: Censo Demográfico 2000. M . 2000. 6 . Mapa 4 – Porcentagem de pessoas do sexo feminino com 13 a 17 anos e com filhos. os padrões espaciais da taxa de homicídios não podem ser considerados um espelho do padrão observado na taxa de desemprego e grau de conclusão do segundo grau. M . e se manifestam também em áreas próximas. com um padrão ainda mais fragmentado do que o observado acima (Mapa 4). Município de São Paulo. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 61 . Entender estes padrões pode ser de grande interesse para políticas de caráter local. Nas áreas mais periféricas. O mapa apresenta a distribuição do indicador referente a adolescentes de 13 a 17 anos com filhos. como Santana e Tatuapé. segundo agrupamentos de correlação espacial.

3 130. considerando os principais diferenciais entre os vários tipos de clusters espaciais propostos. torna mais clara a percepção da heterogeneidade entre estas diversas áreas urbanas.7 93. Fundação Seade.2 5.9 Taxa de homicídio (em cem mil) 284.8 3. como as taxas de desemprego e de homicídios.4% da popula62 R .4 65. Elaboração dos autores.2 5.1 87.4 17.6 162.3 231.5 279. Do ponto de vista demográfico.3 19 4.7 33 5.J O V E N S N O M U N I C I P I O D E S Ã O P A U L O – Norte de Brasilândia e Sul do Jardim Ângela – mereçam um destaque especial.0 25.3 38.9 233.5 20.7 27. Enquanto nas melhores regiões da cidade – as áreas com pelo menos três indicadores apresentando os níveis mais positivos – o percentual de jovens de 18 a 19 anos com ensino médio completo é maior que 60%.1 166. resume as informações relativas à análise das possíveis combinações entre áreas com acúmulo ou não de riscos.3 34.4 30.3 176. A Tabela 2. por apresentarem também níveis elevados para os demais indicadores considerados. encontraremos um conjunto de combinações relativamente limitado e de grande interesse analítico. N .3 56.2 25 7. Não por acaso. observa-se na Tabela 2 a existência de 4.4 39.7 25.0 53 13. Censo Demográfico 2000.5 1.1 2.5 33. este percentual é de cerca de 25%. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V.4 1. nas piores áreas.7 43.6 24 4. três ou mais negativos.7 50 9.5 32.7 4. Tabela 2 – Combinações dos clusters espaciais considerando situações positivas e negativas entre os quatro indicadores considerados Combinações consideradas Número de áreas de ponderação 6 População (%) Taxa de desemprego Jovens que concluíram o ensino médio (%) 25.9 Adolescentes do sexo feminino com filhos (%) 5.0 26.2 31.9 39 7.4 Quatro indicadores negativos Três indicadores negativos Dois indicadores negativos Um indicador negativo Nenhum indicador positivo ou negativo Um indicador positivo Dois indicadores positivos Três indicadores positivos Quatro indicadores positivos Combinações de indicadores positivos e negativos Total 1.2 1.7 18.5 50 13.2 20. O mesmo pode ser observado quando são considerados outros indicadores.9 456 100. A interpretação da Tabela 2.9 Fonte: Fundação IBGE. Se considerarmos em conjunto os resultados referidos aos quatro indicadores considerados. B . 6 .0 31. Estatísticas Vitais.2 4.0 73.5 157 33.7 3.1 24.5 62. o Índice de Moran Global é o mais baixo entre os quatro analisados. no caso dessa variável.

De certa forma. do ponto de vista da concentração de níveis positivos dos indicadores considerados. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 63 . Se for agregado a esse contingente a população residente em áreas com três situações mais desfavoráveis para pelo menos três dos quatro indicadores considerados. N . observa-se também que. uma vez que acumulam as situações mais desfavoráveis do município para os quatro indicadores considerados. P. estes resultados sugerem que enquanto a periferia pobre é mais heterogênea socialmente (particularmente no que diz respeito à ocorrência de homicídios e gravidez na adolescência). Com três indicadores muito favoráveis foram encontradas 33 áreas. B I C H I R . ou quase 950 mil pessoas residindo nestes locais. De fato.R .5% da população da cidade. G . B . R . ou aproximadamente 160 mil pessoas. que correspondem. residiam em locais que podiam ser considerados de altíssima vulnerabilidade para os jovens. o Centro rico é mais compacto espacialmente e mais homogêneo. H . Mapa 5 – Combinações positivas entre os quatro indicadores. junto com o grupo anterior (os distritos que formam o chamado quadrante Sudoeste). M . podemos observar no Mapa 5 a significativa concentração de áreas com todos os indicadores apresentando os níveis mais positivos. chega-se a 9% da população total. 1. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. a área mais rica da cidade e onde está localizada a maior parte da oferta de serviços urbanos. M . F E R R E I R A ção residindo em áreas que apresentam os quatro indicadores positivos. 6 . equivalendo à aproximadamente 455 mil pessoas. Estes elementos podem ser observados no Mapa 5. T O R R E S . Pela Tabela 2. em 2000.

estas áreas de altíssima vulnerabilidade são bastante concentradas espacialmente. Podemos verificar no Mapa 6 que. Ou seja. principalmen64 R . ou seja. enquanto os locais com algum indicador fortemente negativo distribuem-se por quase toda a periferia da cidade. mas não permitem afirmar que os riscos sociais em geral (no caso. cabe também destacar aqueles 37. B . 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . N . e o balanço entre o acúmulo e a heterogeneidade de situações de vulnerabilidade é bastante complexo. este contingente está localizado num trecho intermediário entre o centro e a periferia mais distante. tendo assim uma atuação mais eficiente.J O V E N S N O M U N I C I P I O D E S Ã O P A U L O Mapa 6 – Combinações negativas entre os quatro indicadores. do ponto de vista espacial. incidindo de forma sobreposta sobre certas áreas da periferia. a cumulatividade de riscos não é perfeita como sugere a literatura. Brasilândia. Esses resultados indicam que certos riscos sociais realmente são mais concentrados espacialmente. os riscos que afetam os jovens) incidem de forma homogênea e concentrada nas áreas periféricas do município de São Paulo. Espacialmente. as áreas com três ou quatro indicadores muito desfavoráveis se concentram territorialmente em locais como Jardim Ângela. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. Finalmente. 6 . De fato. Tais elementos contribuem para a discussão a respeito de políticas sociais que considerem a dimensão espacial da pobreza e da vulnerabilidade em toda a sua complexidade.7% da população que vive em áreas que não se distinguem nem positivamente nem negativamente nesses indicadores (Tabela 2). Cidade Tiradentes e Leste do Itaim Paulista. políticas que levem em consideração as necessidades específicas de cada local. com ocorrências territoriais localizadas.

Este argumento certamente reforça a necessidade de uma política social sensível à situação local e de sistemas de informação capazes de caracterizar essa heterogeneidade. Assim. como apontam extensamente as literaturas sociológica e urbanística brasileiras. 1998). quando tratados numa escala de observação mais detalhada. seria importante analisar os conteúdos sociais desses espaços periféricos. como desemprego e baixa escolaridade. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. 1999). B I C H I R . gerando iniciativas estatais mais eficazes e distributivas (Marques & Torres. F E R R E I R A te.com. é como se nos diferentes locais de pobreza se configurassem diferentes “estruturas de oportunidades”. 1998. Trata-se de uma questão fundamental para as políticas públicas: se os espaços onde reside a população mais pobre não são homogêneos. E-mail: hgtorres@uol. incluindo suas redes de relações (na linha de trabalhos como Filgueiras. R . mesmo no caso de políticas universais. enquanto as áreas ricas são compactas territorialmente – mais homogêneas em termos de indicadores sociais positivos –.com. os territórios de pobreza são também caracterizados por um tecido urbano muito mais complexo e difícil de compreender do que propõe essa literatura. 2004). as estratégias de sobrevivência das populações que aí residem e os ativos que possuem. N . B . E-mail: mpferrei@yahoo.com. esses resultados sugerem que. G . H . Constatamos que.br Haroldo da Gama Torres é pesquisador do Cebrap e do Centro de Estudos da Metrópole – CEM/Cebrap. proporcionadas – além do mercado – pela comunidade e pelo Estado. que apresentam distribuições espaciais complexas mesmo nas áreas periféricas – elementos que reforçam o argumento da heterogeneidade das áreas periféricas e a necessidade de um olhar mais atento e localizado. Assim. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 65 Renata Mirandola Bichir é pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole – CEM/Cebrap. os espaços urbanos pobres apresentam características diferentes entre si no que diz respeito à intensidade de mazelas urbanas tais como o desemprego e a violência. como no caso das taxas de homicídio e de gravidez na adolescência. apresentam múltiplas lógicas de acordo com o tipo de risco considerado (podendo haver ou não sobreposição de vulnerabilidades). apesar da verificação da sobreposição de alguns tipos de riscos. 6 . a Leste e Norte da cidade (ver Mapas 5 e 6). existe a possibilidade de organizar a oferta dos serviços públicos segundo as características desses diversos locais. De certa forma. M . se o mercado de trabalho continua a ocupar um papel fundamental na reprodução das desigualdades urbanas – traduzida em uma marcada diferenciação entre centro e periferia – é também verdade que processos locais ligados ao cotidiano das comunidades e à dinâmica das políticas públicas também influenciam e diferenciam esses lugares. e Moser. CONCLUSÃO Esse artigo mostrou que é preciso prestar mais atenção aos temas da heterogeneidade e dos componentes espaciais das situações de pobreza. . mas que representam apenas 4% da população total. Existe também um grupo de áreas que têm situações simultaneamente positivas e negativas.br Artigo recebido em dezembro de 2004 e aceito para publicação em fevereiro de 2005. É importante destacar ainda que esse tema não tem interesse apenas acadêmico. em outras situações a cumulatividade não é perfeita. Apesar da estrutura geral da metrópole ser de fato marcada por intensa segregação residencial entre áreas ricas e pobres. de modo a tornar mais complexas as interpretações sobre as áreas periféricas das grandes metrópoles – algo que foge ao escopo desse artigo. M .br Maria Paula Ferreira é analista da Fundação Seade e consultora do Cebrap. T O R R E S . Em outras palavras. pelo contrário.R . E-mail: renata mbichir@yahoo. Tais oportunidades vão condicionar as possibilidades das famílias aí residentes saírem ou persistirem na situação de risco social em que vivem (Kaztman & Filgueira. P.

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Understanding poverty. ANEXO 1 Os Gráficos 1 a 4 apresentam o Diagrama de Espalhamento de Moran para cada um dos quatro indicadores considerados no estudo. social policies.359-91.. 2001. H. YIENGER. 2000) and spatial statistics methods. HAVERMAN. J. S. Contrary to the established perspective about these issues. New York: Russell Sage. Chicago: University of Chicago Press. B S T R A C T The main aim of this article is to test the hypothesis of the concentration of negative indicators in the peripheral areas of São Paulo municipality. 68 R . 1990. urban violence. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . W. B . our findings generally show that the social hazards have a complex spatial distribution with relevant implications for social policies.J O V E N S N O M U N I C I P I O D E S Ã O P A U L O WILSON. the underclass and public policy. segregation. p. N . The truly disadvantaged: the inner city. low levels of education. youth. We base our analysis on census survey areas (IBGE. H. R. A K E Y W O R D S Social hazards. Housing discrimination and residential segregation as causes of poverty. We focus on some social hazards that affect young people such as unemployment. and teenager pregnancy. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. 6 . In: DANZIGER. Gráfico 1 – Diagrama de Espalhamento de Moran para a taxa de desemprego dos jovens de 18 a 24 anos.

Gráfico 3 – Diagrama de Espalhamento de Moran para a taxa de homicídio de homens de 18 a 29 Anos. B I C H I R . M . F E R R E I R A Gráfico 2 – Diagrama de Espalhamento de Moran para o percentual de jovens de 18 a 19 anos com ensino médio completo. R . B . 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 69 . H . Gráfico 4 – Diagrama de Espalhamento de Moran para o percentual de adolescentes do sexo feminino de 13 a 17 anos que já tiveram filhos.R . 6 . M . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. N . G . T O R R E S . P.

.

Com a crise do sistema democrático. a concentração e a mobilização são fenômenos tipicamente urbanos. espaço urbano. O espaço metropolitano modifica a noção geral de espaço porquanto é uma realidade impessoal que amplia o poder de abstração. é o da representação na arquitetura e urbanismo metropolitanos. - C H AV E Planejamento. B . A incorporação de grandes multidões à urbe. política. o surgimento dos partidos políticos e outras formas de organização da sociedade e a transformação dos espaços públicos aos fins do debate político são alguns dos fenômenos que têm caracterizado a modernidade caraquenha. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 71 2 A metrópole introduz uma mudança perceptiva e de representação do espaço. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. 6 . lugar por excelência da abstração. a luta pelos direitos de cidadania. Um problema básico ao qual se pode reduzir o problema. a modernidade urbana e metropolitana supõe a existência tanto de grandes massas humanas anônimas. Agradeço ao professor Jorge Villota por seus comentários e ajuda na tradução deste texto ao português.TERRITÓRIOS DA POLÍTICA EM CARACAS USOS E REPRESENTAÇÕES DO ESPAÇO PÚBLICO LORENZO GONZÁLEZ CASAS R E S U M O Os eventos políticos que tiveram lugar em Caracas desde meados do século XX acarretaram a aparição de formas inovadoras de utilização do espaço público e o desenvolvimento de territorialidades urbanas diferenciadas. a necessidade de aparência requer a criação de um meio carregado de conotações e formalidades de espaço público. Por outra parte. a cidade não é somente “o marco da vida pública senão sua condição de possibilidade”. ou ao menos uma tensão: em primeiro lugar. em termos espaciais. O objetivo principal deste trabalho é examinar desde uma perspectiva histórica a evolução no uso e representação do espaço público utilizado para os fins da participação política. entre as necessidades e as possibilidades de representação se apresenta um dilema. onde se perde a noção de totalidade. 1993). 3 O trabalho de Sabato é um dos poucos estudos que vinculam a mobilização pública latino-americana com os espaços nos quais esta se produz. Tal como afirma Hilda Sabato (1998. se magnifica nos espaços públicos da metrópole. N . Tal problema de abstração acontece em dois níveis: no plano urbano. A crescente abstração do espaço. às que tanta referência fez a sociologia alemã de princípios do século XX.2 e no frontispício. como de intensos processos de mobilização política e concentração urbana (que se produzem com bastante independência em relação ao tipo de regime. fascistas e populistas de meados desse século). premissa da venustas vitruviana. programas de descentralização governamental e debates patrimoniais. suas implicações para o planejamento urbano e a introdução em tempos recentes de novas cartografias urbanas por efeito de processos de mudança política. A metrópole não pode ser representada através dos recursos tradicionais. para alguns gênese de psicopatologias do lugar moderno (Vidler. PA L AV R A S 1 1 Este trabalho é parte de uma pesquisa sobre as manifestações da modernidade em Caracas. de metáforas da estrutura social em que “a espontaneidade da ação política possa surgir e as pessoas R . . a politização da vida cotidiana e a reformulação dos esquemas de participação política têm acentuado os processos de segregação espacial e provocado o surgimento de novos mapas de percepção da metrópole.3 Ora. Uma versão titulada “Rostros de la Modernidad Caraqueña” será publicada em espanhol num livro editado pelo professor Pedro García. produz uma interação distanciada ou distante entre o meio edificado e o observador. p. como é de supor. Caracas. como as concentrações comunistas. é um plano enorme que não se capta dentro do cone da perspectiva.191). De fato. O assunto. As complexas relações que se tecem entre coletivos e lugares urbanos cada vez mais anônimos induzem a repensar o assunto da modernidade em termos da transformação dos usos e configurações do espaço da cidade.

ver N. 1967. espaços física e socialmente determinados. 1985.7) para que realize as funções de orgulho cívico. Em segundo lugar. Perazo. memória. promete reformas políticas imediatas e garante que os responsáveis pelo massacre da praça Bolívar serão castigados. estreando um novo edifício que se propõe a mudar a aparência do espaço principal da cidade.6 Talvez o mais relevante desta mobilização cívica é que. Neste trabalho concentraremo-nos no caso de Caracas e na complexa interação entre modernidade. 6 O governador Galavís foi destituído e prendido temporariamente. De fato. participação política e representação social. Em relação à trajetória deste personagem.4 MOBILIZAÇÕES E PLANOS URBANOS Corre o ano de 1936. sustentada no equilíbrio de poderes e nos contratos sociais. 5 As primeiras assembléias públicas acomodaram-se dentro da fábrica tradicional da cidade. Ao mesmo tempo que uma proporção significativa de indivíduos e grupos sociais se viam envolvidos no debate político. 1994. 1985. El Poder sin la Máscara. 6 . 1987. e. a tensão entre a fácil e direta autocracia do caudilho e a difícil democracia representativa. encabeçada por Francisco Antonio Rísquez (reitor da Universidade) e o dirigente estudiantil Jóvito Villalba. “que” e “a quem” das mensagens e esforços comunicativos dos líderes modernos na Venezuela. uma multidão estimada entre 30 mil e 70 mil pessoas – numa cidade com uma população de menos de 250 mil habitantes –. e a crescente mobilização política significaram uma metamorfose tanto da liderança como dos espaços públicos. “como”. P. o trânsito de uma comunidade a uma sociedade. com um saldo de vários mortos e feridos. Tais mudanças significaram a passagem de uma economia concreta a uma abstrata (derivada da renda petrolífera). o lugar ou palco que acompanha o processo de comunicação. em 20 de dezembro de 1935. tomo II. p. No entanto. pórticos. líder “gomecista”. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . por um alto grau de agitação política e mobilização de massas. 1996). que contrastam com os “não-lugares” da chamada “ sobremodernidade” (Augé. 1989. Fez-se fundamental na Venezuela de então a figura do líder político “que fala na praça pública. p. p. p.5 Um incidente entre um polcial e um civil inicia a repressão sobre a multidão.295) e que. As novas relações de poder. o “Benemérito”. 72 R . praças e boulevards. possam sentir seu poder coletivo” (Jencks. El General de Tres Soles. L. surpreso por essa multidão que antecipa a multidão metropolitana. para protestar ante o chefe do Executivo. de um lado. Na manhã do 14 de fevereiro as pessoas reúnem-se na praça Bolívar para protestar contra a censura política. García. isso tem tido lugar nas ágoras. assume o governo do Distrito Federal. Caracas se convertia no arauto da modernidade e no principal palco de confrontação pública no país (Caballero. A modernização do país tem sido acompanhada. B. forma opinião e dirige organizações” (Meneses. N . cf. tomando lugar em espaços públicos tradicionais. e.T E R R I T Ó R I O S D A P O L Í T I C A E M C A R A C A S 4 Importantes esforços têm sido realizados para analisar o “quem”. B . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. Em outras palavras. foros.230-1. no político. apesar de seus rasgos anárquicos. políticas e culturais. com respostas urbanísticas e arquitetônicas que afetaram radicalmente a aparência da cidade. demanda lugares onde se possa falar dos assuntos públicos. morre o ditador Juan Vicente Gómez. a arquitetura e urbanismo modernos enfrentam uma grande dificuldade para incorporar as demandas de participação e simbolismo coletivos. pouco se têm escrito sobre o “onde”. López Contreras dirigiu-se a uma multidão concentrada na praça Bolívar do balcão da Casa Amarilla. arquitetura e mobilização política. urbanismo. Alcántara. só três dias depois da morte de Gómez. a uma maior solicitação de conteúdos simbólicos parece corresponder uma maior dificuldade para sua provisão por parte do meio metropolitano. p. Eleazar López Contreras. A história se inicia na terceira década do século XX. por sua vez.298). Ver T. que coincide com a data da comemoração da morte de Simón Bolívar. por um intenso processo de urbanização e transformação substancial da agenda da arquitetura via um enorme programa de obras públicas. Historicamente. por outro. Nessa mesma tarde. justo quando Félix Galavís (1877-1941). como a praça Bolívar. uma era de intensas mudanças socioeconômicas. depois da morte do ditador Juan Vicente Gómez. que.134. vai a Miraflores – o palácio presidencial –. Em 17 de dezembro. a antiga residência presidencial.

n. 1989. ao impor o bulevar francês sobre a quadrícula e sistema de praças que o urbanismo espanhol tinha institucionalizado na América. com a noção de centro único como valor de imagem. outra manifestação gigantesca foi desde a praça Bolívar ao Panteão Nacional para exigir mais reformas e anunciar uma greve geral. 1950. com suas formosas cidades-jardins e seus clubes esportivos unidos à urbe por meio de amplas e formosas artérias de rápida circulação” (Villanueva. com a ajuda de uma equipe de assessores franceses e a supervisão da Comissão de Urbanismo. op. marca a introdução em grande escala de técnicas de planejamento e paradigmas de desenho urbano europeus. O Centro de Caracas é concebido como um núcleo multifuncional desenvolvido ao longo de um corredor monumental que segue o eixo Leste-Oeste do estreito vale. cuja meta última é. O programa. na sua tentativa de transformar a cidade num ambiente moderno e controlado. 6 . Em 3 de junho de 1936. p. ainda que em forma de “lista de supermercado”. Maurice Rotival (1892-1980). em 6 de abril de 1938. 1988.21). inserir ali os organismos essenciais. Os exteriores. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 73 7 Tratando de emular o sucesso do primeiro protesto em massa. “Rotival. até o parque Os Caobos. contém uma série de iniciativas nas áreas da educação. Ayer y Hoy”. e torna a população consciente do poder das demonstrações multitudinárias. Alcántara.52. p. enfim. Logo chegará a oportunidade do plano urbano. e cria a Direção de Urbanismo. clubes etc. sucessor de Galavís. N . chega a Caracas em 1937. foi chamado por López Contreras para assumir o governo em substituição a Galavís. a Oeste (onde se propõe uma praça gigantesca. imigração. Pouco depois.8 É o início de um plano de modernização de um país e de sua capital. herança provável das motivações estratégicas do programa de Napoleão III e do barão Haussmann (com freqüência associa-se o valor da reforma urbana parisiense com mecanismos de controle da agitação política). é apresentado às autoridades municipais em 1939. Revista del Colegio de Ingenieros de Venezuela. Assim o Plano descreve a cidade: “A grande Cidade. a saída de Galavís do governo abrirá a comporta ao planejamento. isolar e arejar as comunidades. poucos dias depois. um monumento a Simón Bolívar e um novo centro cívico). 9 Elbano Mibelli Lobo (1869-1946). “semear o petróleo”. p. cuja tarefa era produzir. Desta posição Mibelli patrocinou a realização do Plano de Caracas com a intervenção dos assessores franceses. Depois de vários meses de trabalho. O esquema tem um processo figurativo claro. López Contreras apresenta o chamado “Programa de Fevereiro”. com seus belos bulevares. um programa que pretende abarcar totalidades. p. como resposta às recentes demandas da população e como uma maneira metódica e racional de organizar as atividades governamentais. Zawisza. a Leste. modelar sobre tão bela natureza as artérias e as praças ou jardins: fazer fluir. novas concentrações populares foram convocadas. Hellinger. Não há nenhuma referência aos espaços de reunião multitudinária. agricultura e reformas políticas (Contreras. O evento incluiu os oradores Jóvito Villalba. parques. 1991.9 Em 1937 cria-se a Comissão Municipal de Urbanismo com a finalidade de regular o desenvolvimento urbano e “procurar soluções lógicas” aos problemas fundamentais da cidade (Villanueva. Ver T. o chamado Plano Monumental.7 Tanto é assim que. denominado depois “Plano Monumental” ou “Plano Rotival”. De fato. modernização das forças armadas. vias de comunicação e obras públicas. tradutor fundamental do programa governamental no meio construído. Rotival justifica a imensa intervenção mediante uma analogia orgânica: “era necessário abrir de novo uma espinha dorsal. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V.347. o Plano Mestre da cidade. . contratado pelo governador Elbano Mibelli. O Programa de Fevereiro foi também o primeiro discurso político nacional difundido através da rádio. Ángel Corao e Miguel Acosta Saignes.23). teatros. como no modelo francês. que vai desde a colina do Calvário. jan. o governo do Distrito Federal não fica atrás.173. cit. 1950.10 A coluna vertebral da proposta é a via central de 30 metros de largura. B .14-31. P. D. Rómulo Betancourt. p. O eixo monumental questiona ou contradiz o padrão concêntrico tradicional da cidade. 8 Este foi considerado “o primeiro programa de governo social e econômico na história venezuelana”.. jardins. 10 Uma crítica das características axiais e simétricas do enfoque de Rotival se encontra em L. como Arturo Úslar Pietri declara.183-95). Inaugura-se. p. um sangue generoso e fazer palpitar com regularidade um coração já hiperR . antigo líder antigomecista. elaborado com a contribuição decisiva dos assessores franceses Rotival e Lambert. futura avenida Bolívar.L O R E N Z O G O N Z Á L E Z C A S A S ela evoca um sentimento de força revolucionária. O Plano de 1939. C. A cidade está dividida em duas partes: um centro monumental e um conjunto de desenvolvimentos residenciais periféricos.

11 Não obstante. designações utilizadas para convocar atos e votações. É a cidade da circulação ordenada. as imagens arquitetônicas que acompanham o Plano estão mais perto dos postulados da École de Beaux Arts que às tendências do Estilo Internacional. Como Carlos Eduardo Misle notou. sobre a possibilidade de albergar reuniões multitudinárias. substituindo a praça Bolívar e a praça da Misericórdia. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. que apoiava o governo de Medina. a estátua de Bolívar e a pirâmide. 1966. pioneiro do movimento moderno. pois se evidencia que o caráter. 1967. 1964.. outra vez.25). assentos. propunha a necessidade de uma arquitetura despojada de todo enfeite. em teoria. equivalente a “um programa de organização e desenvolvimento . 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 13 Em contraste com outras praças centrais da América Latina. que nesse mesmo mês de outubro concentrou os aliados do partido Acción Democrática. o Plano não se limita ao complexo viário ou infra-estrutural. Apesar de sua retórica funcionalista. a praça Bolívar de Caracas tem sido desde a época de Guzmán Blanco um centro social onde acontecem concertos e passeios patrocinados pela municipalidade e o governo.19). incluindo a economia. uma arte ornamental que se preocupa. trofiado”. o Plano propõe um conjunto de praças onde “o movimento do público possa ser ordenado durante as grandes festividades” e também criar novos caminhos que na atualidade não existem” (Meneses. o abrigo de grandes multidões. o hipódromo do Paraíso e o Estádio Nacional transformam-se em sedes de reuniões políticas. o turismo. p. . da exclamação e do incentivo à agressão. o transporte e a segurança. NA BUSCA DE UMA ÁGORA MODERNA No projeto de transformação urbana ficou uma matéria pendente: prover lugares adequados às novas práticas políticas. 1967. em outubro de 1945. originada na expressão da ovação.T E R R I T Ó R I O S 11 Maurice Rotival. onde se tinham produzido as primeiras aglomerações. N . É Adolf Loos12 em registro urbano. B . p.. p. e o teatro Boyacá. Villanueva. tipo Teotihuacan. Seu conhecido ensaio “Ornamento e Delito” (1908) recolhe suas idéias. tamanho. D A P O L Í T I C A E M C A R A C A S 12 O crítico e arquiteto austríaco (1870-1933).181. praticamente impossibilitam. a praça dos Museus nos Caobos. com seu monumental edifício do Congresso. 74 R .13 A demanda por espaços de reunião.. as quais permanecem estreitamente vinculadas à política de massas. a iluminação. in C. deixando de ser “distinto público” ou “povo”. em contraste com o aparentemente superficial e recarregado do Art Nouveau de princípios de século. É desta maneira que em 1943 e 1944. às tendências decorativas tradicionais do urbanismo. pois sempre existe nelas o perigo da violência. 6 . a higiene. R. p.cit. Estes elementos enfrentam-se. pois propõe uma imagem arquitetônica específica. localização. serviços e organização – e para o controle por parte do governo sobre o desenvolvimento dos acontecimentos (Misle. o cinema Rex. O novo urbanismo é definido agora como uma ciência. para tornar-se turba ou populacho. o interesse público. Diante de tais riscos em relação aos espaços públicos e da necessidade de resolver problemas de tráfego. A busca de uma cidade nova e moderna é reforçada por uma defesa taxativa de aspectos funcionais. em levantar arcos de triunfo e edificar fontes públicas” (Meneses. que se assemelhem ao Zócalo do México. os novos palcos ofereciam melhores condições para a concentração de público – em termos de acústica. leva à utilização de outros espaços. os quais assumem o papel de foros. [contra] a idéia vulgar de que o urbanismo é um luxo. construída em Viena em 1910. no momento em que a platéia sobrepuja os dirigentes políticos. os cinemas e teatros serão empregados freqüentemente para esses fins: o teatro Hollywood é utilizado em outubro de 1944 para uma reunião de membros da chamada “Geração do 28”. antes de mais nada. tais como estádios e teatros. “Caracas Marcha Hacia Adelante”. op. Do mesmo modo. a praça de Maio de Buenos Aires ou a praça da Revolução em Havana. as quais se plasmam em edifícios como a Casa Steiner.93). Isto resulta evidente no projeto de Lambert para o Centro Cívico. que conteria o túmulo de Simón Bolívar. traçado e mobiliário da praça Bolívar de Caracas – bem diferentes dos de sua homônima de Bogotá – dificultam. que foi cenário de uma convenção de em apoio ao ex-presidente López Contreras. O simbólico prevalece.

são oradores de exceção.L O R E N Z O G O N Z Á L E Z C A S A S No entanto. o Nuevo Circo. no espetáculo que as massas proporcionam a si mesmas. Ver: Luis Britto García. López Contreras foi o primeiro presidente venezuelano a se dirigir à nação através da rádio. 1985. no estrondo da ovação e do aplauso em que o dirigente se legitima seguidamente junto a uma platéia anônima que intermedeia a sociedade e o poder político. Os meios de comunicação modernos permitiram dar a conhecer os políticos até chegar à variante de tornar políticos a personagens conhecidos. Em segundo lugar. que. restringido às campanhas presidenciais e enraizado em formas mais antigas de caudillismo. Andrés Eloy Blanco e. Três elementos da descrição de Medina pintam o novo clima político e urbano do país: em primeiro lugar o líder desce. 1984. Ewell. ao fazê-lo.14 Não obstante. Caracas: Alfadil Ediciones. Muitos eventos transcendentais ocorrem nesse cenário de arena de touros. finalmente. Isaías Medina Angarita. Rafael Caldera. nacionais e estrangeiros. a reunião onde a AD mostra sua força política um dia antes da denominada Revolução de Outubro. 1963. em afirmação de princípios de liberdade. entre outros. fraternidade. igualdade e. La Máscara del Poder. em vez de representar unicamente seus interesses pessoais. a Segunda Guerra Mundial e alguns eventos locais obrigam a introduzir importantes modificações ao Plano de 1939. p. sobretudo. outro espaço nas imediações da avenida Bolívar.80. N . e freqüentes reuniões do partido Unión Republicana Democrática (URD). vogal urbano quintessencial do período. em 1945. é a sede favorita das reuniões políticas até meados dos anos 40. o 5 de abril de 1941 (Alcántara. Em cada um dos eventos de massas se constroem laços de identidade e pertencimento.28). numa cidade nova e cada vez mais complexa e impregnada de tensões. desfaz muitas relações hierárquicas tradicionais. no entanto. Medina parece desfrutar do “banho de multidão”. tal identificação é só uma máscara retórica do líder em sua busca de legitimação. continua fornecendo uma linha geral para futuros desenvolvimentos da cidade. em 1946. Disso nos dá noticia a liderança política da época. o lugar localizado “abaixo” é uma praça: um foro para a discussão política. 15 O populismo supõe uma identificação do líder com as massas até o ponto de ser considerado aquele como a encarnação da vontade popular. o chefe tem de representar um grupo organizado. ante o eleitorado. A R . Jóvito Villalba.Ver J. mas seu sucessor. 6 . UM PARADOXO: BARULHO NO “SILÊNCIO” A partida de Rotival para os Estados Unidos. a proclamação por um grupo de independentes da primeira candidatura presidencial de Rómulo Gallegos.15 14 Em 1936. por sua aspiração a seguir governando” (Angarita. López Contreras foi o primeiro presidente que experimentou o contato direto com as massas. com os demais grupos. devido a que o contato é unidirecional (do líder para as pessoas).250). Como observou Manuel Caballero (1988. não foi López Contreras. p. atos de comunhão entre os líderes e o coletivo. Como ocorria com alguns autores do século XIX ao contato com as massas na metrópole. Para o historiador e ensaísta Luis Britto García. tornando familiares os imigrantes. indicado por Medina Angarita como seu sucessor. alimentando velhos espaços com novo simbolismo. dentro da nova atmosfera discursiva. 1988. e. em 13 de setembro de 1941. Este contato aconteceu por dois meios de comunicação que alcançariam papéis proeminentes na vida nacional: o rádio e os espaços públicos. sobretudo. Os atos de massas pregam a unidade dos participantes. a lutar. quem descreveu de forma mais explícita como a figura presidencial vai deixando de ser autoritária. p. a reunião inaugural do partido Acción Democrática (AD). o lançamento da candidatura presidencial de Angel Biaggini. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. p. os líderes emergentes da política venezuelana se beneficiam grandemente de suas habilidades retóricas: Rómulo Betancourt. distante e enigmática para se converter num chefe do Executivo que representa um partido político e que está obrigado “a baixar em pé de igualdade à praça. reconhecendo vitórias na capacidade de encher os espaços públicos. E. em 17 de outubro de 1945. construído entre 1916 e 1919. de Jóvito Villalba. Talvez o mais notável é que a “cultura da mobilização” extravasa as previsões do planejamento. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 75 .53). B . Obviamente.

É erguido. a praça O'Leary de El Silencio. B .T E R R I T Ó R I O S D A P O L Í T I C A E M C A R A C A S 16 Esse lugar era considerado uma sorte de compêndio dos males urbanos. modificação mais importante é a criação de El Silencio (1941-1944). como o mesmo Rotival adverte (Rotival apud Villanueva. em fins da década de 1940. se origina em 1946 a Comissão Nacional de Urbanismo. . Francis Violich. Em termos da articulação de espaços cívicos. Parece que já não se deseja ressaltar esse espaço. instituição nacional encarregada do planejamento urbano..16 A substituição de edifícios e espaços monumentais por residências destinadas à classe média não só preenche melhor as condições financeiras internacionais.173). opositor ao regime que inaugurou El Silencio. transforme-se na nova ágora da cidade. Esta curta sentença deixa-nos uma série de interrogações em relação à natureza dos cantos urbanos aos quais se refere o conhecido urbanista. que assegura que a avenida será o centro do “sistema nervoso que armará de novo a cidade. que reclama para tais fins o novo coração da cidade e. O novo Plano Mestre (Plano Regulador). projetado por Carlos Raúl Villanueva. para Leste.182). El Silencio. segundo a crônica da época. DA MULTIDÃO QUE GRITA À MULTIDÃO QUE MARCHA: DESFILES E DIAS PÁTRIOS Depois do parêntese criado pela guerra. o complexo multiuso que reproduz o Rockefeller Center (1930-1940) e a praça dos Três Poderes de Brasília (1956-1960) no centro de Caracas. seja tragicamente. e sim transportar o centro de interesse. cit. espaço central do conjunto. um conjunto residencial e comercial localizado onde Rotival e seu grupo tinham previsto o novo Centro Cívico. seja alegremente. Guillermo Meneses. o Centro Simón Bolívar. introduz também uma escala urbana mais humana. 1967.302. é o partido AD. o governo decidiu criar um bairro de apartamentos destinados à classe média". p. Guillermo Meneses diz que "O Silêncio era visto como a síntese de toda essa vida asquerosa. Nesta oportunidade conta-se com a assessoria de Maurice Rotival.17 A empresa edilícia mais importante nesse momento é a criação de um remate à avenida. rebelde ante toda autoridade e sobre esse bairro de escândalo e vício. sua localização. continua usando-o para apoiar sua política governamental A mutação do caráter do espaço foi advertida pelo próprio Rotival. configuração e dimensões o fazem mais apropriado para fins políticos. depois de atingir o poder em 1945. 6 . Joseph Lluis Sert e Robert Moses. Não é casualidade que. Também realizou uma breve assessoria em Caracas no ano de 1975. Conquanto o extenso lugar não tenha sido previsto para alojar reuniões públicas multitudinárias. senão para a circulação do tráfico. móvel ao longo do eixo. Novamente os aspectos de circulação prevalecem no Plano sobre a necessidade de criação de espaços coletivos. o qual foi apresentado em novembro de 1959. Como tinha acontecido na década anterior. e como parte distintiva da agenda de Rotival. abunda a prostituição e a delinqüência. o Plano Regulador reafirma a importância da avenida Bolívar. op. separado de El Silencio. Em particular. senão também as novas orientações políticas e sociais do governo venezuelano. e com a chegada da Junta Revolucionária de Governo encabeçada por Rómulo Betancourt.7 milhão de pessoas é preparado em 1951. p. destinado a uma população de 1. a Comissão e o governo venezuelanos requerem o serviço de assessores estrangeiros em urbanismo. mais do que de praças e centros de convenção. miserável. mas com essa intensidade misteriosa da alma comum que caracteriza para nós a cidade” (Rotival apud Villanueva. 76 R . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. N . p. então. O conjunto de El Silencio não só substitui a proposta monumental de Rotival mas localiza-se numa área onde. 1950. 1950. o lugar onde virá a se desenvolver a história do amanhã. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 17 Rotival continuou mostrando sempre seu interesse no desenvolvimento da avenida Bolívar. a construção de fontes e esculturas e o desenvolvimento de atividades comerciais. substituindo “a concepção quiçá demasiado monumental do antigo plano”. onde o canto da ‘urbs’ se fará ouvir. Fala-se fundamentalmente de áreas verdes e de recreação. Regressou a Caracas em 1959 contratado pelo Centro Simón Bolívar para preparar um relatório intitulado “Tese para o Centro de Caracas”.

passagens subterrâneas em cujo centro habita Amalivaca. chegaram a ser um elemento político fundamental. R . Para reforçar os sentimentos patrióticos e o que Nietzsche chamou de “história monumental” (1990. uma plataforma gigante. o culto a Bolívar vai se estendendo a outros heróis. e nem no eixo da avenida. esses desfiles procuram a identificação do povo com o governo (ver Figura 1). Combinando o folclore com o simbolismo religioso e militar. influenciado por experiências européias como Les Invalides e Trocadero-École e pelos projetos de Albert Speer (1905-1981) na Alemanha e de Marcelo Piacentini (1881-1960) na Itália. lugares para a concentração em massa. Caracas. p. primeiro Presidente da Junta Militar de Governo (1948-50). Figura 1 – Desfile da Semana da Pátria na avenida Urdaneta na década de 1950. o deus Caribe (em forma de um longo mural alusivo ao mito indígena da criação do mundo). entre outras coisas. 6 . não há no conjunto – salvo uma “praça aérea” (praça Diego Ibarra) –. A transformação da multidão que grita na multidão que marcha estimula o surgimento de um novo setor urbano: La Nacionalidad. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 77 . De fato.L O R E N Z O G O N Z Á L E Z C A S A S O custoso complexo de edifícios governamentais e comerciais inclui. Fonte: Archivo Biblioteca Nacional. Não é o momento para tais eventos. Essa seção da cidade aparece contígua à Cidade Universitária como uma espécie de nó acadêmico-militar e centro para desfiles e recreação. encontrando dito culto um recinto ad hoc no setor La Nacionalidad. Os líderes da Junta Militar perseguem um gênero diferente de contato com as massas que. nem seu sucessor. duas torres gêmeas de trinta andares (que se convertem nos primeiros arranha-céus e símbolo da cidade). 18 É importante advertir que nem Carlos Delgado Chalbaud. civis e militares. que se foi convertendo em via expressa. distante da avenida Bolívar. Não obstante suas enormes dimensões e a complexidade do programa. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. N . como a Urdaneta. de todas as formas. Durante a “Semana da Pátria” milhares de estudantes e servidores públicos mobilizam-se ao longo de avenidas de recente data. foram líderes carismáticos ou destacados oradores. Marcos Pérez Jiménez (1950-1958). com áreas comerciais e de estacionamento e uma estação subterrânea de ônibus que depois é abandonada. para marchar ante o presidente em exercício. a chegada ao poder de uma Junta Militar em 1948 impõe um hiato de dez anos ao ritual populista das reuniões políticas. B .18 Recepções e desfiles tomam o lugar dos comícios anteriores.68). um túnel veicular que leva o tráfego sob o conjunto.

The Experience of Modernity.20 De maior relevância para os fins da mobilização política foi a chamada praça Caracas. o ideólogo ou pensador do regime militar. É o caso das praças Altamira. denunciando a crise política profunda em que o país se encontrava. vários espaços urbanos foram empregados como centros de atividade política organizada. provavelmente o mais parecido a uma ágora que existe na cidade. N . A praça Caracas surge de um processo de reacondicionamento de um estacionamento e saída de veículos do Centro Simón Bolívar.19 Mais ainda. novamente e quiçá sem querê-lo. As duas primeiras. Ao que parece. respectivamente. à beira da derrubada de Pérez Jiménez. ele não é tão entusiasta a respeito das marchas como o eram outros membros do regime. converteu-se no destino de marchas de protesto que se originavam com freqüência na Universidade Central de Venezuela e que ao aproximar-se da sede do Congresso. Ver Ramón J. A mudança de caráter das reuniões políticas e o uso de novos espaços na cidade para albergá-las são explicados por Vallenilla Lanz. All That Is Solid Melts into Air. 1988. uma multidão foi de novo a El Silencio para restaurar o espaço de reunião. e que se requereriam espaços para algum tipo de assembléia. antes um espaço remanescente que ficou da antiga praça de San Jacinto. O lugar é sede de economias informais. agora centenas de milhares. em desenvolvimento no momento em que seu artigo foi escrito. p. “Evolución Política de Venezuela”. . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. Por sua vez. um espaço situado em frente à sede da autoridade eleitoral mais importante do país. os arrastões de fevereiro de 1989 e as tentativas de golpe de Estado de fevereiro e novembro de 1992. nem de El Silencio. senão à praça Aérea e ao Aula Magna. ou à de outros poderes. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 20 Vários eventos de finais da década de 1980 e princípios da de 1990 representaram formas explosivas do protesto coletivo na cidade. Ou talvez Vallenilla tenha previsto que os comícios políticos da democracia poderiam entrar de novo em vigência. De fato. dois lugares desenhados para funções diferentes dos desfiles. COMÍCIOS E “SACUDONES” Nas últimas décadas do século XX. durante a campanha política de 1952. p. começaram a se reunir na avenida Bolívar entre os anos 60 e 80. É curioso que Vallenilla Lanz não faça referência ao complexo urbanístico de La Nacionalidad.T E R R I T Ó R I O S D A P O L Í T I C A E M C A R A C A S 19 O evento de novembro foi considerado “a assembléia popular mais gigantesca da década de cinqüenta”. 21 Marshall Berman. terminavam freqüentemente em repressão e atos vândalos. El Silencio continuaria como o centro preferido das reuniões políticas. a duas quadras dalí. B .21 78 R . a chamada praça El Venezuelano. o Conselho Eleitoral (anteriormente “Supremo” e atualmente “Nacional”). da avenida Bolívar. 6 . o núcleo da cidade inventada. 1955. p. nem do Teatro Olimpia.126. na alvorada do seu longo mandato em Cuba. até que as multidões. o conferencista da [praça] Aula Magna não podem ser os mesmos da praça de Capuchinos. É de fazer notar que este espaço se deriva. Venezuela e El Venezuelano. Poucos meses depois. o URD (um dos poucos partidos que não foram suprimidos pelo governo) tinha voltado ao Novo Circo em março e novembr. produz-se ali uma enorme concentração para receber Fidel Castro. ou de sucessivos inventos de cidade.15). em termos da relação entre a aparição de uma liderança ilustrada e a nova configuração dos espaços físicos: “O líder da praça aérea do Centro Bolívar. foram utilizadas pelos partidos políticos AD e Copei. parte do cotidiano citadino e da anomia de quem carece ou desconhece canais e lugares de participação. O palco e o decorado reclamam novos atores e o público também” (Lanz. 1976. como civil. distantes do centro tradicional da cidade. Velásquez. o corredor que tentou abrir “no coração de um país subdesenvolvido uma perspectiva de todas as deslumbrantes promessas do mundo moderno”. mercados e reuniões políticas. FIM DO SÉCULO: PROTESTOS.195. para a realização de reuniões ou festas ligadas a eventos eleitorais. em janeiro de 1958. ou aos desfiles da “Semana da Pátria”.

o inaugurado e inconcluso Palácio da Justiça (1995). p. e ao processo ou revolução no poder. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 79 23 Entrevista de Albor Rodríguez a Clemente Scotto.22 Uma lista incluiria outro projeto de Rotival nos anos 50. o parque Vargas. com um relançamento da simbologia associada ao “Libertador” e uma aposta geral na mudança. edifício que quis ser de moradia e terminou sendo hotel (nos anos 60). “assembleísticas” e planejadoras locais. Nos meios de comunicação debatem freqüentemente os “marchólogos”. por efeito da insegurança pessoal. A nova Constituição. Massimo Cacciari definiu tal condição da seguinte maneira: “O efêmero não é o evento em cuja sucessão nos encontramos -e tem antes os eventos múltiplos. ao ponto de chegarem a ser hoje. Muitos objetos e poucos lugares.H-8. o teatro Teresa Carreño. aspectos que nutrem os debates sobre o espaço público como discurso dominante do urbanismo contemporâneo e que em Caracas. com uma nova mudança de nomenclatura que implica a presença de uma alameda e de um herói civil (e médico. B . e o edifício da Galeria de Arte Nacional (por décadas em construção). Provavelmente de maneira similar ao que percebe o anjo de Walter Benjamin (1969. que apesar de seu nome.147. No entanto. o tema do espaço público na Venezuela. por exemplo. p. El Nacional. especialmente em sua área central. Ver Massimo Cacciari. têm aparecido inumeráveis projetos e se têm produzido muitas intervenções. 1993. “muito mais interessante fazer política que. propõe uma democracia “participativa” e “protagônica”. Não se trata exclusivamente da discussão em torno da produção de lugares para a flânerie ou o lazer. em particular da toponímia urbana e institucional. a catástrofe que o Anjo vê e procura arrastar depois de si no futuro de onde vem”. 6 .257-8). a antes mencionada praça Caracas (fins dos anos 70). como o presidente que patrocinou o projeto). o que desejamos destacar – e em contraste com um longo período de dissolução do espaço urbano com fins políticos – é a volta do uso da rua como fonte de poder. como mencionou o dirigente Clemente Scotto. é um enorme complexo multiuso construído no extremo Leste da avenida (anos 70 e 80). Architecture and Nihilism. uma situação que combina duração com transitoriedade. no encontro da avenida com o parque Los Caobos (nos 80). as quais demandarão campos específicos como espaços públicos e salas de convenções para poder se desenvolver. O NOVO MILÊNIO: MARCHAS E CONTRAMARCHAS Os inícios do novo século trouxeram ao debate. se evidencia como uma profunda hostilidade cotidiana ao pedestre. com a passagem das figuras tradicionais da representação e da delegação às referendárias. Ao mesmo tempo. da presença ostensiva de automóveis e motocicletas e a proliferação indiscriminada de vendas e publicidade exterior. os debates intensificaram-se de maneira considerável. a criação do parque de atrações de El Conde e do Caracas Hilton. especialistas no cálculo de presença de público em eventos. o Parque Central. 18 de agosto de 2002. aprovada em 1999. N . ou a privatização e homogeneização do espaço residencial.L O R E N Z O G O N Z Á L E Z C A S A S E dizemos “sem querê-lo” porque ao longo do tempo na avenida se tem promovido um acúmulo interminável de objetos mais do que de espaços. Possivelmente em conexão com isso. p.23 Grandes multidões têm ocupado os espaços de Caracas e outras cidades do país com o fim de mostrar sua adesão ou rejeição ao regime. produziu-se a vantagem da corrente liderada por Hugo Chávez. com infreqüente vigor. . 22 Talvez nenhum outro lugar da cidade representa melhor o “efêmero perfeito”. para confirmar ou recusar hipóteses quanto à magnitude das manifestações R . uma edição pós-moderna do boulevard proposto inicialmente no Plano Monumental de 1939 (nos anos 80 e 90). ou a ocupação de áreas públicas por desenvolvimentos não-controlados de moradia ou atividades da economia informal. Caracas. As campanhas eleitorais de 1998 e 2000 puseram em vigor novamente as arengas de oradores carismáticos ante as concentrações em massa. nos anos 70”.

4-5). A especialização da cidade do urbanismo da modernidade – e Caracas é uma metrópole moderna sobre um núcleo urbano fundado há mais de quatrocentos anos – contemplava a recreação sob forma de práticas esportivas e contemplativas e. reconduziu a função de seus espaços tradicionais ao uso prestigioso do “turista” e do visitante.de massas. a ágora e o foro só apareciam no discurso. Como se viu anteriormente. Francisco de Miranda. confrontante ficava fora das normas e formas da modernidade. a realidade caraquenha mostra uma ressemantização dos lugares modernos e tradicionais muito além das considerações funcionais do planning moderno. Porque o tumultuoso. Concentrações de adeptos ao governo tomaram lugar no Centro e Oeste da cidade. 80 R . não incorporou à sua centralidade a possibilidade da reunião coletiva. B . N . em frente à catedral. nos quais uma ordenada multidão se deslocava em frente à autoridade civil ou militar. Os comunicadores sociais têm exercido seu trabalho em movimento e no meio de multidões alegres ou exaltadas. e que. “Tomar a rua” ou “ganhar a rua” são lemas vinculados com os direitos cidadãos e com a busca por divulgar a mensagem de cada grupo político. onde residem setores de rendimentos médios e baixos. os opositores. a sede do Poder Executivo. p. Urdaneta. Por exemplo. Em Miraflores. 2003. foi denominada “a esquina quente” (assim se nomeia no beisebol a terceira base. O setor de Los Próceres (no setor La Nacionalidad). Outros espaços. Embora em menor medida do que a restrição de manifestar a oposição em lugares ocupados pelos simpatizantes do governo. 6 .T E R R I T Ó R I O S D A P O L Í T I C A E M C A R A C A S populares. por se encontrar ali permanentemente em atividade um grupo de aliados do governo. criado na década de 1950 para desfiles militares e celebrações do “Dia da Pátria” da Junta Militar também foi empregado para concentrações e relançamento da deliberação política dos fardados. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. Não obstante o uso freqüente dos espaços públicos para concentrações ou comícios. magnitude que varia segundo a fonte de informação. com níveis variáveis de organização. de auto-estradas em vez de avenidas. concentram-se predominantemente em lugares do Leste da cidade em concordância com as cercanias das urbanizações de classes médias e altas. rincão do campo sujeito a “incandescentes” jogadas). A nova carga simbólica dos lugares urbanos impulsionada por motivações políticas vai gerando novas cartografias e nomenclaturas. a expressão “não passarão” – que remete a outras experiências históricas – ilustra a estratégia do domínio territorial para o exercício do poder. As marchas caraquenhas. o acesso a estes espaços estaria garantido somente aos grupos de oposição. É o caso da praça Caracas. do Centro Simón Bolívar e das imediações do Palácio Miraflores. Por sua vez. porém de forma diversa dos rallies tradicionais. A matéria de administração e governo da praça foi objeto de controvérsia entre as prefeituras metropolitana e do município Libertador. que se encheu de artefatos em vez de lugares. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . As grandes avenidas – Bolívar. E isso ocorre com particular intensidade numa capital que. No entanto. a circulação. como seria o caso de Miraflores ou da praça Bolívar. talvez a forma mais empregada para a manifestação foi a da marcha. Rebatizaram de “praça da Liberdade” a praça França de Altamira e de “praça da ‘Meritocracia’” um espaço situado em frente a um dos edifícios da petrolífera estatal PDVSA (Petroleos de Venezuela Sociedad Anónima) no setor de Chuao. por um lado. Sucre. que com freqüência passaram da dissidência à resistência (Hernández. a esquina da Torre. permanecem como pontos de tensão – alguns os denominaram “zonas de reclamação” – entre diferentes forças do governo e a oposição. como a praça Bolívar e o de acesso ao Panteão Nacional. transladam por corredores urbanos apregoando slogans e portando bandeiras. com a única finalidade do deslocamento. por outro lado. cartazes e objetos sonoros.

e experimentando uma mudança na percepção do espaço urbano mediante rupturas na relação espaciotemporal. Fonte: Prof. localizado a uns dez quilômetros do lugar. Às vezes. carente de um líder único ou principal que interpretasse ou sintetizasse os desejos desta parcela. em frente às instalações militares de Conejo Blanco. como se faria ao circular em automóvel. Isso é especialmente manifesto no caso da oposição ao governo. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 81 . tendo as forças da ordem estabelecido finos limites entre eles. Um fato evidencia ainda mais a ruptura dos esquemas tradicionais de concentrações e marchas: algumas têm ocorrido em lugares que. as grandes marchas e concentrações não têm se encontrado.L O R E N Z O G O N Z Á L E Z C A S A S Baralt. de onde partiu a marcha do 11 de abril de 2002. Até o momento. Caracas. Muñoz. Universidad – têm sido o palco de mobilizações. de tentativas de participação em movimento sem destino ou encontro final. na contramão da anomia que supostamente R . A mencionada praça da Meritocracia. B . para se dirigir ao Palácio Miraflores. vários milhares de opositores decidiram celebrar o fim de ano de 2002. as marchas do governo e a oposição ocorreram ao mesmo tempo. os manifestantes governistas usavam horas mais tarde a auto-estrada do Vale. Por sua vez. Em quase todas as oportunidades. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. Figura 2 – Marcha na auto-estrada do Leste no ano 2004. improvisando uma festa à la Times Square na auto-estrada do Leste. J. para exigir a volta do presidente ao poder. De maneira similar. 6 . com exceção da sangrenta experiência do 11 de abril de 2002. já que têm tido lugar em avenidas diferentes ou se cruzaram em níveis distintos. O desenvolvimento urbano com base em periferias e auto-estradas – curiosas versões da ágora – têm condicionado as possibilidades de participação direta. deixando que anônimos espaços ganhem protagonismo. aniversário da queda da ditadura. como em 23 de janeiro. tanto o oficialismo como a oposição têm empregado as auto-estradas para se dirigir ao centro da cidade. e em Primeiro de Maio de 2002. similar ao que sugere o escritor argentino Julio Cortázar no conto “A auto-estrada do Sul” (ver Figura 2). Mas o mais curioso é que a mencionada marcha tomou a auto-estrada do Leste. com toda probabilidade. é em essência um espaço viário. N . Essas coincidências têm sido denominadas marchas e contramarchas. seriam qualificados por Marc Augé como “não-lugares”.

as contíguas avenidas Universidade e Lecuna concentram e brindam acessibilidade à maior parte das atividades urbanas do setor. a “adaptação” do urbano à manifestação.T E R R I T Ó R I O S D A P O L Í T I C A E M C A R A C A S promoveriam e em contradição com os princípios de Haussmann. N . como são as estações do Metrô. p. A transformação da avenida em via expressa tornou-a uma obstrução física e visual entre os setores Norte e Sul do centro histórico. Em relação a estes aspectos. Isso com o objeto de evitar que ódios mascarados de ideologia cheguem a escaladas de violência de proporções epidêmicas e conduzam a guerras civis “moleculares” urbanas. com tudo o que há de positivo no incremento do interesse pelos assuntos públicos. pois “sem ela não existe realmente o espaço público” (Oviedo & Abogabir. A menor capacidade de convocação dos últimos eventos de rua – de governo e de oposição – poderia significar dúvidas sobre essa eficácia e o início de demandas por programas como os aludidos por Walesa. Além do mais. Expressava Lech Walesa. sobre as possibilidades de participação na grande cidade. O desenvolvimento desses espaços é necessário para que. conspira contra outras operações cotidianas da cidade. que “a democracia não se faz nas ruas. o Teatro Teresa Carreño e o Palácio de Justiça) construíramse sobre o eixo. 6 . segurança e acesso a serviços públicos. . tem-se colocado em relevo a notável carência de espaços e canais adequados para a realização de manifestações de apoio e protesto na cidade de Caracas e os significativos custos associados a essa carência. 2000. Em primeiro lugar. com o saldo de uma pessoa morta e vários feridos. de fato. surgem opções como a avenida Bolívar. Por exemplo. Ainda que a política tenha passado a ocupar um lugar mais relevante na Venezuela de hoje. Essas edificações interromperam a transparência do corredor e a conexão que se tinha proposto. o Parque Central e Os Caobos. a qual. Em terceiro lugar. reunião. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 24 Um conjunto de barreiras (o Bloco 1 do Silêncio. É algo 82 R . como estabelece a Constituição venezuelana de 1999. as atividades e vida urbana têm tomado lugar de maneira tangente – e antes elusiva – à avenida. várias opiniões possam ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo. em visita à Venezuela. contrariamente às leis da física. Em segundo lugar. continua sendo um símbolo essencial da modernidade caraquenha. ao cabo de tantos anos. sobretudo. o desprendimento de um poste na avenida Bolívar numa manifestação de apoio ao governo em agosto de 2003 produziu a queda no vazio de um grupo de participantes. e uma sociedade civil mais forte. mediante o fechamento de vias públicas ou a tomada de determinados lugares por uma facção. expressão. polarizadas. o desafio está em criar os lugares físicos e psíquicos para o encontro e para a divergência. Adicionalmente. e sim com programas que a tentem por e ponham em prática”. é cada vez mais evidente a dificuldade de criar geografias e histórias comuns em sociedades heterogêneas e. quando não contra direitos de livre trânsito. CONSIDERAÇÕES FINAIS A experiência caraquenha propõe várias interrogações para o desenvolvimento de práticas urbanísticas e cidadãs. fica passível de exame a eficácia da manifestação na rua nos processos de construção da democracia. A metrópole. 1994). a grande cidade requer formas mais sofisticadas de agregação de interesses para a obtenção de valores de mútua cooperação e solidariedade. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. por suas dimensões – já o advertiam os gregos ao limitar tanto o o tamanho populacional quanto o tamanho dos palcos de discussão política – torna virtualmente impossível a assembléia geral e pode contribuir para transformar o referendo em tumulto. mais recentemente. Ao ampliar as margens da liberdade individual. lamentavelmente cada vez mais freqüentes em escala global (Enzenberger.24 O conhecido líder polaco reagia diante da tendência a converter manifestações em distúrbios por obra de heroísmos coletivos.33). quando os simpatizantes de diferentes opções compartilham nas mesmas filas de votantes. como sugeria Georg Simmel. segundo os quais o alargamento viário é uma forma efetiva de controle das multidões. o Centro Simón Bolívar e. Para a aceitação da alteridade em momentos e lugares diferentes aos eventos vinculados ao direito do sufrágio. B .

Civil Wars: From LA to Bosnia. E. Venezuela: Tarnished Democracy. B . Caracas: Presidencia de la República. AUGÉ. Caracas: Grijalbo. Vida Republicana de Venezuela.L O R E N Z O G O N Z Á L E Z C A S A S 25 Entrevista de Milagros Socorro a Lech Walesa. p.26 Como também parece sê-lo o projeto de sistema político moderno venezuelano. Lorenzo González Casas é professor titular do Departamento de Planificación Urbana da Universidad Simón Bolívar. L. N . Barcelona: Gedisa. 1955. JENCKS. 1969. 1988. Bajo el Signo del Bulldozer. M. P.25 Sua indeterminação faz da avenida um lugar eminentemente moderno. 1996. 1988. 1989. M. M. HELLINGER. “Introduction”. W. All That Is Solid Melts into Air. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALCÁNTARA. n. Caracas: Monte Avila. 1963. Boulder. Stanford. New York: Penguin Books. Caracas: Alfadil Ediciones. Cuatro Años de Democracia. El espacio público como lugar político: ciudadanía. ENZENBERGER. 26 Patrizia Lombardo. Boletín del Instituto de Estudios Regionales y Urbanos de la Universidad Simón Bolívar. H. n. D. H. 1987. 1993. porque é “intrinsecamente instável. Espacios del anonimato. Una antropologia de la sobremodernidad. C. 1984. 1994. en Massimo Cacciari. Tomo II. Los "no lugares". Architectural Design Profile. 1985. fragmentário. M. J. L. New York: Schocken Books. 1967. Gómez.ve Artigo recebido em dezembro de 2004 e aceito para publicação em fevereiro de 2005. E.11. Theses on the Philosophy of History. Caracas: Concejo Municipal del Distrito Federal. 1994. _______. mas é um dos poucos espaços que não foi territorializado de maneira definitiva por parte de nenhuma facção. Libro de Caracas. Colorado: Westview Press. G. 6 . BERMAN. Buenos Aires: Editorial Sudamericana. O. Caracas. et al. op. um tanto intangível e em perpétua transformação. M. Caracas: Ediciones El Heraldo. In: El Nacional. Caracas: Alfadil Ediciones. 1998. LANZ. continuamente catastrófico”. L. Las Venezuelas del Siglo Veinte. T. a avenida tem presenciado sessenta anos de tábula rasa. Buenos Aires. p. 1810-1989. La Máscara del Poder. 1988. Venezuela. New Haven: Yale University Press. I. (Editoriales de El Heraldo. El Poder sin la Máscara. V. Democracy: The Ideology and Ideal of the West. B. R . Sessenta anos que têm provado a futilidade do empreendimento de dar a este espaço urbano uma forma. In: _______. Caracas: Pensamiento Vivo. de tentativas de romper os laços com o passado e de acelerar os processos históricos. 2003. Illuminations. California: Stanford University Press. In: CONTRERAS. E-mail: lgonza@usb. HERNÁNDEZ. El General de tres Soles: Biografía del General Eleazar López Contreras. el Tirano Liberal.69. 18621880. Architecture and Nihilism: On the Philosophy of Modern Architecture. ANGARITA. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 83 . _______. CONTRERAS. The Experience of Modernity. Documentos que hicieron historia.D-1. Caracas: Editorial Arte. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. L. EWELL.LVI. CACCIARI. C. CABALLERO. GARCÍA. inacabado. cit. Venezuela: A Century of Change. Como um desejo que não termina de conseguir seu objeto. SABATO. BENJAMIN. 18 de agosto de 2002.. 1988. Programa de Febrero. 1991. La política en las calles: entre el voto y la movilización. direção e uso permanente. M. política y violencia en los nuevos espacios de la ciudad. New York: The New Press.) MENESES. Caracas.

PERAZO. B . Espacio Público. N . R. v. 1993. In: _______. politics. Félix Galavís Figueroa. 1926-1975.T E R R I T Ó R I O S D A P O L Í T I C A E M C A R A C A S MISLE. Bodies in Space/Subjects in the City: Psychopathologies of Modern Urbanism. Pulso y Huella de Caracas. A B S T R A C T The political events that took place in Caracas from the middle of the 20th century have supposed the apparition of novel forms of utilization of the public space and the development of differentiated urban territorialities. DASCAL. Cambridge: Cambridge University Press. Revista del Colegio de Ingenieros de Venezuela. F. 1985. Caracas: Fundación Polar. Differences. G. its effects on city and regional planning. L. Caracas: Ediciones del Cuatricentenario de Caracas. NIETZSCHE. Caracas: Fundación Eugenio Mendoza. Caracas. n. Caracas en Tres Tiempos. VELÁSQUEZ. N. A. E. Tomo II. enero 1989.. C. Evolución Política de Venezuela”. 1990. from a historic perspective. R. Corazón. In: _______.3. urban space. are some of the phenomena that have characterized the Caracas’ modernity. 2000. 84 R . It examines how space has been used for political participation. and the introduction of new urban cartographies in the midst of political change. J. Ayer y Hoy.5. the politicization of the everyday life as well as the reformulation of the schemes of political participation have supposed an accentuation of the processes of spatial segregation and the development of new maps of urban perception. With the rise and crisis of the democratic system. In: _______. the claim of civic rights. ZAWISZA. n. Untimely Meditations. Diccionario de Historia de Venezuela. Rotival. 1966 [1950]. the evolution in the use and representation of the public space. Participación y Ciudadanía. the apparition of political parties and other forms of social organization. VIDLER. C. programs of governmental decentralization. 1976. Santiago de Chile: Ediciones Sur. On the Uses and Disadvantages of History for Life. The main objective of this work is to examine. SEGOVIA. K E Y W O R D S Planning. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. O. and the transformation of public spaces for political debate. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 .347. and heritage debates. VILLANUEVA. The incorporation of large multitudes to the metropolis. Caracas: Ediciones Cuatricentenario de Caracas. Venezuela Moderna: Medio Siglo de Historia. 6 . 1964.

de confrontar distintos interesses e de captar a diversidade de lugares de morar na cidade. capaz de permitir a transposição de escalas. N . locus de vida de populações de países de capitalismo periférico. como o nosso. econômica. as categorias de análise. Por sua vez. política. O reconhecimento. sob distintas clivagens. e o reconhecimento das relações que a partir daí se estabelecem sugerem a necessidade de uma abordagem diferenciada de avaliação. R PA L AV R A S . um pressuposto básico a orientar as considerações pontuadas neste artigo é que nem sempre a “qualidade de vida” perseguida por indivíduos e comunidades concorre positivamente no sentido da sustentabilidade. Em vista disso. os atributos que conferem maior ou menor grau de adequação dessas condições às necessidades de um habitat sustentável estão diretamente relacionados às características socioeconômicas e culturais de cada comunidade. a construção e a avaliação desses atributos requerem a utilização de instrumentos sensíveis a tais especificidades. freqüentemente. Ou seja: cidades com melhor qualidade de vida não são. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 85 . das desigualdades e da segregação no espaço dessas cidades.QUALIDADE DO ESPAÇO RESIDENCIAL E SUSTENTABILIDADE (RE)DISCUTINDO CONCEITOS E (DES)CONSTRUINDO PADRÕES M A R I A C O N C E I Ç Ã O B A R L E T TA S C U S S E L M I G U E L A LOY S I O S AT T L E R E S U M O A partir da análise da inserção das condições de habitação na construção de diferentes conjuntos de indicadores de qualidade de vida. A identificação dos componentes que concorrem para a configuração de determinado espaço residencial. Discute os conceitos envolvidos na definição de aspectos de qualificação do espaço residencial e a construção de padrões subjacentes a estes. cultural – implicadas na produção e apropriação desse espaço. necessariamente. confundem-se. entendida em sua pluridimensionalidade. Ainda que reconhecendo a complexidade e multiplicidade de abordagens envolvidas na construção destes conceitos.C H AV E bitação. 6 . sustentabilidade. B . buscando identificar as múltiplas dimensões – ambiental. apontando limites e possibilidades de sua utilização enquanto instrumentos de aferição da realidade. social. mas. Indicadores de qualidade de vida. segundo princípios de sustentabilidade. condições de ha- QUALIDADE DE VIDA E SUSTENTABILIDADE A “qualidade de vida” de um indivíduo ou de uma comunidade é fortemente determinada pelas suas condições de habitação. ou talvez por isso. particularmente. cidades mais sustentáveis. do ponto de vista da ausência de eqüidade. R . o presente trabalho propõe uma leitura crítica desses conceitos. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. No entanto. expressões como “qualidade de vida” e “sustentabilidade” têm sido usadas quase indistintamente.

o discurso da eqüidade. Há que se atentar. o presente trabalho parte da análise da inserção das condições de habitação na construção de diferentes conjuntos de indicadores de qualidade de vida. aparentes dicotomias. culturas. por exemplo. diferentes clivagens teóricas. que desempenham distintos papéis na totalidade. mas tem peculiaridades intrínsecas à natureza de cada lugar. novas contradições – a globalização da economia imprimiu a homogeneização de territórios. 1999). Como passo fundamental para desenvolver a avaliação de aspectos de qualificação de determinado espaço residencial. que não é desprovido de caráter histórico ou ideológico. política. em que a desagregação privilegia um ou outro componente. engenharia etc. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . que formula a sustentabilidade pela discussão pautada entre o certo e o errado na apropriação da base material para o desenvolvimento da sociedade. 1996). É. Todavia. sob vários aspectos e segundo determinados recortes da realidade. Esse mesmo caráter pode ser identificado ao se buscar compreender a construção do espaço e. justificam-se. a um só tempo. diferentes matrizes discursivas pretenderam associar-se à noção de sustentabilidade: o discurso da eficiência. o caráter processual e dinâmico que marca a construção da sustentabilidade. N . que busca formas de organização da produção que gerem sociedades suficientemente autônomas e auto-reguláveis. tendo em vista assegurar a própria vida no planeta (Acselrad. em sua fase atual. simplificadamente. economia. reunindo elementos da ecologia. contudo.QUA L I D A D E D O E S PA Ç O R E S I D E N C I A L E S U S T E N TA B I L I D A D E A qualidade do espaço residencial compreende. Segundo Acselrad. segundo princípios de sustentabilidade. para o viés inevitável a que esse corte conduz – um enfoque essencialmente econômico da sustentabilidade. ou eminentemente ecológico. que articula fundamentos de justiça social e ecologia. sobretudo. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. o discurso da ética. como global x local. identificando limites e possibilidades de sua utilização como instrumentos de aferição da realidade. as especificidades do seu entorno e o acesso aos serviços e equipamentos urbanos. geografia. em suas múltiplas dimensões. ao mesmo tempo que exacerbou a importância do individual e do fragmentário. B . 6 . A composição desses elementos pode ser semelhante. muitas vezes. sociologia. o discurso da escala. três componentes inter-relacionados: as características edilícias da habitação. valorizando a diferenciação espacial (Scussel. o discurso da auto-suficiência. que se contrapõe ao desperdício de insumos necessários ao desenvolvimento. que coloca limites quantitativos ao crescimento econômico feito às custas da utilização dos recursos naturais. a definição de sustentabilidade está intimamente ligada ao arcabouço teórico que lhe dá sustentação. urbano x rural. A diversidade de discursos possíveis tem sua origem em dois aspectos fundamentais: 1 como toda construção conceitual. sobre o qual se dirige o foco de uma proposição ou investigação. 86 R . para fins de análise. Por outro lado. A premissa básica para esse entendimento é que a produção do espaço deva ser vista como um processo totalizante e universal. o padrão de desenvolvimento capitalista trouxe. a uma série de encadeamentos que agreguem novas discussões em direção ao entendimento mais amplo do que seja e do que se deva almejar como desenvolvimento sustentável. A ordenação físico-territorial assim produzida apresenta diferentes subunidades. pois. Ainda que tal conceito deva ser concebido e trabalhado em sua totalidade. em que o espaço é. 2 a articulação de um conceito de sustentabilidade é necessariamente interdisciplinar. sistemas éticos e sociais. não se pode negar que mesmo uma visão pautada por um viés específico possa dar origem. determinado por e determinante de uma formação social.

a escassez de recursos e a exclusão em todas as formas? A CONSTRUÇÃO DE INDICADORES DE SUSTENTABILIDADE E ÍNDICES DE DESENVOLVIMENTO E OS PADRÕES INERENTES A ELES Concomitantemente ao processo de discussão e formulação temática do desenvolvimento sustentável. possam os mesmos indicadores ser aplicados em situações diferenciadas. o método empregado no tratamento das informações. p. Contudo. a um determinado recorte no tempo e no espaço. portanto. conforme destacado por Silva (2000). E a primeira questão que se coloca é: em que medida os indicadores correntes para aferição das condições de habitação respondem adequadamente a situações diferenciadas. direcionar investimentos. S C U S S E L . M I G U E L A . sempre. subsiste pela heterogeneidade das partes. inscrito na própria natureza do território. C O N C E I Ç Ã O B . típicas de uma realidade multifacetada. 1999. Portanto. Ou seja. que se insere a presente discussão. Essas definições pautarão os critérios de escolha das variáveis. requer que se questione a idéia de que o espaço e os recursos ambientais possam ter um único modo sustentável de uso. Do mesmo modo. sejam elas ecossistemas. sem um referencial de parâmetros a nortear essas práticas. Entre esse instrumental. especialmente nas grandes cidades e regiões metropolitanas de um capitalismo periférico. imprimindo-lhes diferentes características. Colocar o debate sobre sustentabilidade fora dos marcos do determinismo ecológico implica. o que permite que. pressupõe que se diferencie socialmente a temporalidade dos elementos da base material do desenvolvimento. em que se aguçam os problemas ambientais. definidos certos princípios básicos. definir prioridades de atuação. Há componentes diretamente relacionados a uma determinada situação. avaliar o desempenho de uma atividade. foi se evidenciando a necessidade de utilização de instrumentos adequados ao tratamento das inúmeras abordagens feitas a esse processo – desde a análise da realidade à proposição de projetos e práticas. afastar representações indiferenciadoras do espaço e do meio ambiente. é possível reconhecer elementos de generalidade. é importante destacar que eles fazem a síntese de vários indicadores. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 87 . bem como ao seu monitoramento. que a visão de totalidade não se contrapõe ao reconhecimento da diferenciação do espaço: o global não é uniforme. e na perspectiva da sua sustentabilidade. portanto.) É. 6 . S AT T L E R Cabe destacar. A formulação e/ou eleição de indicadores está diretamente relacionada a uma base conceitual definida e à finalidade a que se propõe. a escala de abrangência e a própria linguagem utilizada. pois. B . 87. aplicáveis a qualquer realidade.M . recursos naturais ou cidades. indicadores de sustentabilidade não são instrumentos universais. destaca-se a construção de indicadores capazes de balizar cada uma das instâncias apontadas – não há como fazer diagnósticos. (Acselrad. que se reconheça que há várias maneiras de as coisas durarem. elaborar programas e projetos. N . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. enquanto necessidade básica e determinante da qualidade de vida do indivíduo ou de uma comunidade. apresentando-se como “fusão das informações que contêm diferentes R . A perspectiva não determinística. no âmbito das condições de habitação. em níveis de menor especificidade. Quanto à elaboração de índices.

Sob esse enfoque. gerando. pelo número médio de anos de estudo da população adulta (25 anos ou mais). • instalações adequadas de esgoto: percentual da população urbana residente em domicílios com instalações sanitárias próprias. com o intuito de captar novos aspectos delas. uma adaptação. educação (taxa de alfabetização de adultos e escolaridade) e renda (PIB per capita). 1991. é. O aperfeiçoamento da metodologia inicial produziu. O IDH-M não difere. através de fossa séptica ou rede geral de esgoto (PNUD/Ipea/FJP. a desagregação de dados para todos os municípios e microrregiões do País.18). acrescenta outros indicadores às dimensões longevidade. educação e renda. uma situação com maior grau de subjetividade” (Silva. 6 . nesse último trabalho. B . foram contemplados. mantendo a variável esperança de vida ao nascer. em razão da cobertura e uniformidade dos dados. Do ponto de vista operacional. Já o ICV. novos indicadores econômicos e sociais. O índice demandaria uma maior inserção de escolhas e priorizações vinculadas aos diferentes aspectos da sociedade. o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD passou a elaborar e divulgar o Índice de Desenvolvimento Humano – IDH. a taxa de alfabetização de adultos pela taxa de analfabetismo. e o Índice de Condições de Vida – ICV. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . 2000). CONDIÇÕES DE HABITAÇÃO E SUA INSERÇÃO NOS ÍNDICES DE QUALIDADE DE VIDA A partir de 1990. além de incorporar as dimensões infância e habitação. é importante destacar que tanto o IDH-M como o ICV utilizam variáveis obtidas com base nos Censos Demográficos do IBGE. 1996) que apresenta um Índice de Desenvolvimento Humano por Grandes Regiões e por Estado. a taxa combinada de matrícula. conceituando desenvolvimento humano como o “processo de ampliar a gama de opções das pessoas. A dimensão habitação do Índice de Condições de Vida utiliza como indicadores: • densidade – percentual da população que vive em domicílios com mais de duas pessoas por domicílio. oferecendo-lhes maiores oportunidades de educação. e abrangendo o aspecto total de opções humanas. Além desses “índices-sínteses”. tornando-se. desde um entorno físico em boas condições até liberdades econômicas e políticas” (PNUD. gerando o Índice Municipal de Desenvolvimento Humano – IDH-M. • abastecimento adequado de água: percentual da população urbana residente em domicílios com abastecimento através de rede geral com canalização interna ou através de poço ou nascente com canalização interna. • durabilidade – percentual da população que vive em domicílios em que a cobertura e as paredes são construídas com materiais duráveis. p. em 1999. isso implica a possibilidade de realizar seu cálculo apenas para os anos de realização dos Censos. Data de 1996 a elaboração do Relatório sobre o Desenvolvimento Humano no Brasil (PNUD/Ipea. indicadores correspondentes a longevidade (esperança de vida ao nascer).QUA L I D A D E D O E S PA Ç O R E S I D E N C I A L E S U S T E N TA B I L I D A D E variáveis em uma única expressão de valor. portanto. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. do IDH.. atenção médica. basicamente. conceitualmente. Substitui a variável PIB per capita pela renda familiar per capita média do município. assim. 1998). ‘adimensional’. O IDH combina. na verdade. considerado uma extensão do IDH-M. devido à nova escala da unidade geográfica e à disponibilidade dos dados para essa desagregação espacial. 88 R . renda e emprego.. assume fundamental importância o reconhecimento de que a atribuição de ponderações diferenciadas às variáveis envolvidas responde a uma lógica dominante. N .

o Censo Demográfico 2000 também a oferece. Já em 1999. com base nos resultados da amostra. em 2000. que considera quatro grupos de indicadores: condições de domicílio e saneamento (média de moradores por domicílio. calculado para os então 333 municípios do Estado. proporção de domicílios urbanos abastecidos com água tratada. em 2003. A Comissão para o Desenvolvimento Sustentável – CDS das Nações Unidas. S AT T L E R No Rio Grande do Sul. um conjunto de 134 indicadores. a FEE substituiu o Isma pelo Idese – Índice de Desenvolvimento Socioeconômico. PIB per capita a custo de fatores) (FEE. com orientação metodológica para sua aplicação. educação (taxa de alfabetização e taxa de escolaridade) e renda (PIB per capita e grau de indigência) (FEE. taxa de atendimento do ensino médio). taxa de evasão do ensino fundamental. educação (taxa de reprovação do ensino fundamental. Desse modo. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. em 1996. os quais .baixo peso ao nascer) e renda (concentração de renda – salários formais. 1995). da Fundação João Pinheiro. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 89 . No grupo habitação (dimensão social). tendo em vista a disponibilidade das informações nessa escala e a possibilidade de realizar comparações de séries históricas. M I G U E L A . que adaptam a série de indicadores para a realidade brasileira. desenvolvimento sustentável e informações para tomada de decisões. só se pode obter os indicadores referidos para o Brasil. que têm por objetivo monitorar a performance e as tendências em vinte áreas-chave da Agenda Habitat. N . Conforme a própria ficha do indicador enfatiza. porém com alteração de algumas variáveis e ponderações distintas das atribuídas no método anterior. Cada indicador selecionado é descrito em detalhe. Ilustrando o quanto a elaboração desses índices responde a concepções determinadas de desenvolvimento e atende a distintas necessidades. proporção da Despesa Social Municipal em relação à Despesa Total. Já o Centro para os Assentamentos Humanos das Nações Unidas – UNCHS (Habitat) desenvolveu um conjunto de indicadores voltados especificamente ao meio urbano – os Indicadores Urbanos Globais. 6 . A fonte da informação é a PNAD. adotando indicadores de saúde (mortalidade infantil). A CDS apresentou. a partir de 1992. em publicação conhecida como “Livro Azul”. S C U S S E L . verifica-se que. econômica e institucional. número de médicos por dez mil habitantes. proporção de domicílios urbanos com coleta de esgoto cloacal). tendo em vista dar andamento às disposições dos capítulos 8 e 40 da Agenda 21. comentários metodológicos e fonte de obtenção das informações. que abordam a relação entre ambiente.M . o Índice de Desenvolvimento Social Ampliado – IDS. acompanhando-o a justificativa da seleção. que. foram reduzidos a 57. desenvolveu o Índice Social Municipal Ampliado – Isma. em 1995. indicadores relativos a características construtivas e infra-estrutura disponível são fundamentais para compor o quadro das R . No entanto. O trabalho do IBGE “Indicadores de desenvolvimento sustentável – Brasil 2002” tem por base as recomendações da CDS. constituído pelos mesmos grupos. B . resultando num conjunto de cinqüenta indicadores organizados em quatro dimensões: social. até o momento. C O N C E I Ç Ã O B . 1999). tem capitaneado o movimento pela construção de indicadores de desenvolvimento sustentável. ambiental. o único indicador incluído – densidade inadequada de moradores por dormitório – utiliza como valor de referência para a definição de densidade excessiva (>3 moradores/dormitório) a publicação Déficit Habitacional no Brasil 2000. 2002). só foram divulgados até o âmbito das Unidades da Federação. a Fundação de Economia e Estatística – FEE apresentou. saúde (unidades ambulatoriais por mil habitantes. A agregação territorial apresentada é a das Unidades da Federação. Grandes Regiões e Unidades da Federação (IBGE.

N . Destaque-se que. a 34. sobretudo. Daí a necessidade de se agregar à análise o grupo saneamento (dimensão ambiental).5: “oferecer a todos habitação adequada . recreação) e demais serviços urbanos. À margem do mercado formal que oferta tais serviços. muitas vezes – dependendo dos recursos disponíveis –. multiplicaram-se. no foco específico de análise. manifestada pela Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. número e conforto dos veículos). infra-estrutura. de 1992.. dimensões. Com efeito. Há. nessa concepção. iluminação pública). Observe-se que a participação atribuída aos grupos das variáveis habitação e infra-estrutura urbana é de 17. a partir de meados dos anos 80. instalações sanitárias). B . e. e registrada no capítulo 7 da Agenda 21 – “Promoção do desenvolvimento sustentável dos assentamentos humanos”. padrão de acabamento das moradias e número de pessoas/dormitório. o fato de ser aplicado em âmbito intra-urbano. PNSB e PNAD (esta somente até o âmbito metropolitano). visivelmente nas áreas de programa incluídas no item 7. promover atividades sustentáveis na indústria da construção” (Cnumad.. tais informações não são. a carência de linhas de financiamento à habitação popular gerou a busca de diferentes alternativas ao provimento de moradia à população de baixa renda. ocasionou um processo acentuado de exclusão de um contingente cada vez maior dessa população. saneamento (taxa e freqüência de fornecimento de água tratada. mesmo nos casos em que se verifica que o nível de desagregação da informação é superior ao municipal. uma tabulação especial para o nível desejado (ou seja. é possível adquirir. saneamento. 2002). exclusão do morar em condições mínimas de habitabilidade. e transporte coletivo (possibilidade de acesso de transporte/pavimentação. energia elétrica (taxa de fornecimento domiciliar. saneamento. no Brasil. necessidade básica nos assentamentos humanos. não apenas as condições de domicílio propriamente dito (material construtivo. família ou de toda uma comunidade é mais que evidente. disponibilidade de rede de esgoto). Vale observar que. mas a acessibilidade aos equipamentos de consumo coletivo (de educação. de forma mais abrangente. pois. Nesse índice. o grupo habitação compreende os indicadores: área construída/habitante. as ocupações irregulares e invasões. reconhecendo a condição desigual da distribuição espacial dos indicadores considerados.. respectivamente. drenagem e manejo de resíduos sólidos. 2000). que ser reforçada a idéia de que se incluem. pois. O grupo infra-estrutura urbana engloba indicadores de limpeza urbana (coleta de lixo.10% da ponderação total. promover sistemas sustentáveis de energia e transporte nos assentamentos humanos . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. contudo. de domínio público) (IBGE.75%. saúde. que tem como destaque. exclusão do tecido urbano estruturado e equipado. correspondendo.66% e 15. Este grupo de indicadores está amplamente contemplado por informações: Censo Demográfico. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . 6 . promover a existência integrada de infra-estrutura ambiental: água. qualidade das ligações). mas. 1996). além da inclusão de um grande leque de variáveis na sua composição.QUA L I D A D E D O E S PA Ç O R E S I D E N C I A L E S U S T E N TA B I L I D A D E condições de habitação. O provimento da moradia é. assim como se multiplicaram 90 R . que qualificam o espaço do cotidiano de seus moradores (Scussel.. acesso a equipamentos e serviços urbanos. telefonia (porcentagem de ruas com rede telefônica. a importância assumida pelas condições de moradia na qualidade de vida de um indivíduo. varrição e capina). na verdade. Isso denota que grande parte da qualidade de vida dos moradores da cidade é avaliada em função das suas condições de moradia. Bastante conhecido é o trabalho desenvolvido pela Prefeitura Municipal de Belo Horizonte e pela PUC/MG para aquela cidade: o IQVU – Índice de Qualidade de Vida Urbana. Exclusão existente no plano socioeconômico.

os tamanhos de cidades. de necessidades habitacionais. 1999. 1995). problemas de contaminação. C O N C E I Ç Ã O B . vale sempre lembrar que tais situações são retratos de determinado momento da realidade. onde as densidades mais elevadas tornam esse tipo de solução problemático para a saúde.M . especialmente nas metrópoles (Motta. por exemplo). Diante dessa realidade. S C U S S E L . bem como práticas políticas alternativas de produção de habitação demandam nova abordagem da questão. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. necessariamente. com alguma consistência. fica evidente que as condições de moradia e as necessidades habitacionais são variáveis em contextos socioeconômicos e culturais distintos.. considerando. Particularmente no caso dos países em desenvolvimento. cabendo um estudo mais detalhado que permitisse estabelecer padrões mais convenientes à salubridade. pelo menos. por considerá-lo conjuntural: segundo o autor.9. seja no que se refere a R . em áreas rurais.. UMA ABORDAGEM EXPLORATÓRIA: MORAR EM PORTO ALEGRE Na verdade. por exemplo (Carrion & Scussel. p. (Cardoso. transformações culturais e históricas que modificam as necessidades da população. que. 2000).) Em meio a essa discussão. as políticas públicas têm adotado padrões que têm favorecido soluções cada vez mais socialmente excludentes e ambientalmente degradantes. os índices que buscam cotejar o nível de desenvolvimento de municípios (Estados. já que. além de “mascararem” a distribuição do fenômeno avaliado internamente ao objeto de estudo – seja em termos espaciais (diferenças entre bairros. para que alcancem um desenvolvimento mais sustentável. e o contraditório é travado no cotidiano de cada cidade. N . Como definir o que é aceitável ou desejável em cada situação? Essa definição passa. 6 . 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 91 . por exemplo. não há um “padrão melhor” para todos os atores envolvidos. esses critérios talvez pudessem ser diferenciados. O esgotamento sanitário por fossa rudimentar em áreas rurais. O mesmo não é válido para áreas urbanas. considerar o “lixo enterrado” como uma solução adequada para áreas urbanas não metropolitanas também parece ser uma generalização excessiva. S AT T L E R vertiginosamente as sub-habitações na Região Metropolitana de Porto Alegre. na medida em que permitem a priorização das unidades que denotam um posicionamento mais desfavorável num ou noutro setor. ecológica e política. pelo enfrentamento da questão dos padrões a serem adotados – e tal questão precisa ser respondida na dimensão social. não acarretaria. Cardoso (1999) questiona esse conceito. B . nesses casos. Cardoso faz uma “adoção crítica” do conceito sugerido pela Fundação João Pinheiro. o impacto sobre a saúde e as condições de vida. A primeira crítica mais evidente à metodologia apresentada vai no sentido da validade lógica e ética em se estabelecerem critérios de inadequação em infra-estrutura diferenciados por faixas de renda . que seria a soma do déficit mais a demanda demográfica mais a inadequação (Pinheiro. econômica. Em seu trabalho. necessariamente. 1997). Esse quadro não é diferente nas demais capitais e grandes cidades brasileiras. países ou regiões) são extremamente úteis como balizadores de possíveis políticas públicas ou como apoio à tomada de decisão na alocação de recursos. Entretanto. nos casos de condições precárias de saneamento. e das diferentes tentativas de estimar o “déficit habitacional” no País. Certamente. cultural. M I G U E L A . Pode-se supor. são bem menos rigorosas. Da mesma forma.

a análise da mobilidade verificada entre os tipos socioespaciais da cidade na década de 1980 oferece rica fonte de informação. 3 Cabe destacar que a pesquisa que gerou o estudo em pauta segue seu andamento. Questão crucial para a transformação de indicadores urbanos em ferramentas efetivas na gestão de políticas públicas é a possibilidade de transposição de escalas – do geral para o particular. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. No sentido de aferir movimentos e tendências na apropriação do espaço pela população de Porto Alegre. educação e saneamento. devendo atualizar a análise para o ano 2000. No entanto. O acesso diferenciado a bens sociais e serviços entre os diferentes espaços da cidade também foi aferido. embora em 1980 a situação do conjunto da cidade fosse mais precária que a de 1991 em relação à disponibilidade de instalações adequadas nos domicílios. datam de 1996. e deste para a cidade. Exemplo de diagnóstico detalhado é o Atlas Ambiental de Porto Alegre (Menegat.QUA L I D A D E D O E S PA Ç O R E S I D E N C I A L E S U S T E N TA B I L I D A D E 1 Em 2003. 6 . 2 A pesquisa se insere num conjunto de estudos sobre as mudanças em curso nas grandes cidades brasileiras. Por meio de análise fatorial por correspondência. 26. O primeiro destacou-se ao incluir um grande leque de variáveis na sua composição e ser aplicado em nível intra-urbano. a Prefeitura Municipal de Porto Alegre está prestes a implantar um Sistema de Indicadores de Desenvolvimento Urbano. média superior.3%) mudaram de tipo – 19 áreas se deslocaram para tipos superiores e 12 áreas para tipos inferiores. média. incluindo a abordagem da segmentação por raça. 1998). B . estratos sociais da população. De acordo com o estudo. tem permitido uma análise das mudanças socioespaciais ocorridas com as transformações econômicas dos últimos anos. reconhecendo a condição desigual da distribuição espacial dos indicadores considerados. os espaços de tipo médio superior aumentaram significativamente sua importância no período 1980-1991. Daí. O segundo agrega como principal diferencial a forma como foi construído. as possibilidades de sua mensuração no nível de abrangência pretendido. da cidade para o bairro ou para o quarteirão. foram relacionadas a distribuição das diferentes categorias sociocupacionais com as 55 áreas geográficas em que o espaço de Porto Alegre foi desagregado. obteve-se uma divisão da cidade em seis grandes tipos de áreas. alguns estudos têm buscado avançar no conhecimento capaz de alimentar a formulação de instrumentos de avaliação e de gestão local. A tipologia socioespacial construída segue metodologia proposta em âmbito nacional. com a participação das comunidades na própria definição dos padrões de exclusão/inclusão. foi apresentado à população estudo do Grupo de Pesquisa Violência e Cidadania. média inferior. 2000). em parceria da UFRGS com a Prefeitura Municipal. que vem sendo desenvolvida pela FEE. em termos de distribuição de renda. Avaliações intra-urbanas ainda são incipientes para Porto Alegre. que traça o mapa da violência em Porto Alegre. de maneira periódica e sistemática. 31 delas (56. bem como divulgar o Mapa da Exclusão/Inclusão Social da Cidade de Porto Alegre. a distribuição entre os diferentes espaços urbanos era menos desequilibrada. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . N . ao mesmo tempo que se acentuam as desigualdades sociais.2 que parte da identificação de unidades espaciais homogêneas através de um sistema classificatório de natureza sociocupacional.. A pesquisa “Desigualdades socioespaciais na Região Metropolitana de Porto Alegre”.03. a importância de se perseguir. vinculado ao Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional – Ippur/UFRJ.1 Por outro lado. as abordagens intra-urbanas nas cidades brasileiras são experiências ainda reduzidas e recentes – os pioneiros. em ordem hierárquica (Barcellos et al. IQVU (Índice de Qualidade de Vida Urbana) de Belo Horizonte (Nahas.3 92 R . O que se observa é que. observa-se que. buscando identificar em que sentido caminha no que diz respeito à sustentabilidade. quando a metrópole se configura como espaço em que se concentram riqueza e poder. a partir da finalização de tabulações especiais do Censo Demográfico pelo IBGE. da mesma forma que o tipo popular ampliou sua participação. adequando-se à especificidade de cada situação. Ao realizar a análise da evolução socioespacial de Porto Alegre. mostrando contrastes na criminalidade e na qualidade de vida em diferentes áreas da cidade (Correio do Povo. desenvolvidas sob coordenação do Observatório de Políticas Urbanas e Gestão Municipal. tanto para 1980 como para 1991: superior.2003). em cada uma das dimensões do desenvolvimento. operária e popular. Atualmente (dezembro de 2004). 2001). além da definição cuidadosa das variáveis capazes de captarem a realidade a ser aferida. 1997) e o Mapa da Exclusão/Inclusão Social de São Paulo (Sposati. do total das 55 áreas em que a cidade foi dividida. Como resultado.

mas dificilmente trabalhada em termos de indicadores socioeconômicos. Já um estudo comparativo com as condições de moradia na zona rural de Porto Alegre (Scussel. fontes. sendo que 96.8% dispõem de água encanada em seus domicílios e 0. de todo o processo envolvido na formulação de indicadores de sustentabilidade – desde a definição do que se pretende aferir e dos R . apresentam variação crescente conforme aumentam os níveis de ganhos mensais familiares (Carrion & Scussel. Comparando esses dados com as informações referentes aos núcleos de ocupações irregulares ou invadidas. • 98% dos domicílios dispõem de esgotamento sanitário. verifica-se que o provimento de tais serviços é bastante inferior. atualizando a série iniciada em 1954.8% servem-se de torneira pública. B . Uma informação muito importante. CONSIDERAÇÕES FINAIS Das considerações até aqui alinhadas. • o número de banheiros e o número de chuveiros disponíveis em cada domicílio. no estrato de 3 a 5 SM. M I G U E L A . a composição desse binômio tem papel fundamental na determinação da qualidade do espaço residencial dos diferentes lugares da cidade. quer por meio de fossa séptica. destaca-se a importância de se ter a maior clareza possível.6% são abastecidas com água tratada.M . destacam-se alguns aspectos que corroboram a observação das desigualdades no acesso a serviços urbanos: • das famílias pesquisadas. esse percentual baixa para 91. Ainda que o trabalho apresente suas conclusões para o âmbito metropolitano. Do ponto de vista ambiental – seja pelos agentes poluidores do ar.8%. na faixa de 0 a 3 SM (salários mínimos). 2000). N .8% do total de residências servidas por água encanada. Interessa. quer através de rede geral de esgoto. 97. a 92. nível de ruídos. congestionamentos.5%. em que pese sua complexidade. S C U S S E L . riachos e açudes. sobretudo. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 93 . e qualitativos. Estes dados tornamse preocupantes num meio rural como o de Porto Alegre.4% são servidas com água proveniente de poço cavado. sangas e valas. com vistas ao cálculo do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) para a região. S AT T L E R Na linha de estudos que permitem uma análise com desdobramentos por estratos de renda e/ou espaciais. com informações levantadas pela Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF). indicando a possibilidade de contaminação do lençol freático superficial. C O N C E I Ç Ã O B .5%. enquanto apenas 30. o que não significa abastecimento de água tratada.9% do esgoto cloacal é direcionado para fossas negras. 6 .7% das propriedades recebem água do Departamento Municipal de Água e Esgoto – DMAE. uma vez que são gastos implicados e que experimentam variações em decorrência dos processos de urbanização e de ocupação e uso do solo. Dados complementares indicam que 44. de potabilidade não assegurada. 2002) apontou o índice de 86. em termos quantitativos. considerar o gasto conjunto de aluguel e transporte e sua evolução ao longo do tempo. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. no estrato de 15 a 20 SM. consumo energético –. Verifica-se que o percentual de domicílios servidos pela rede pública apresenta variações que vão de 78. como era de se esperar. realizada em 1995 pelo Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas – Iepe/UFRGS. densamente povoado. onde 98. seria o dispêndio familiar com habitação e transporte. inclui-se “Condições de moradia e comprometimento da renda familiar com habitação e transporte na Região Metropolitana de Porto Alegre”.

Municipalização da política habitacional: uma avaliação da experiência brasileira recente. 94 R . quando se opta por indicadores alternativos. baseadas na adoção de critérios homogêneos. v. C. In: Anais do VIII Encontro Nacional da Anpur. E-mail: sattler@ufrgs. Indicadores Econômicos FEE. • Indicadores de sustentabilidade para o município como um todo oferecem uma visão “média” do aspecto que se pretende avaliar. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . pode ser útil para uma primeira aproximação da realidade. Porto Alegre: Anpur. • A diferenciação qualitativa no trato e utilização de indicadores urbanos permite as melhores abordagens à dinâmica socioeconômica espacial da cidade. • A adoção de indicadores consagrados nas mais diferentes esferas tem a grande vantagem de. n. et al. 2002. é nunca perder de vista a concepção de que a sustentabilidade. Índice de Desenvolvimento Social – IDS: uma estimativa para os municípios do Rio Grande do Sul. 1995. objetivos desse monitoramento à seleção e operacionalização dos indicadores –. 6 . CARDOSO.. mais adequados à realidade local. v. B. BARCELLOS.4. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V.QUA L I D A D E D O E S PA Ç O R E S I D E N C I A L E S U S T E N TA B I L I D A D E Maria Conceição Barletta Scussel é arquiteta. O. A. também. CARRION. SCUSSEL. além de já terem testado sua eficácia.D. M. que: • A utilização de índices de desenvolvimento municipal. traz embutido um padrão desiderato de desenvolvimento – sob a ótica de quem? Em vista disso.. Importante. Tipologia sócio-espacial de Porto Alegre – 1980-91: diferenciações sócio-ocupacionais e desigualdades sociais entre os espaços da cidade.1. M. Discursos da sustentabilidade urbana. eludindo as diferenciações internas – seja do ponto de vista espacial.br Miguel Aloysio Sattler é engenheiro.br Artigo recebido em dezembro de 2004 e aceito para publicação em fevereiro de 2005. 2000.79-90. Condições de moradia e comprometimento da renda familiar com habitação e transporte na Região Metropolitana de Porto Alegre. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACSELRAD.29. permitirem análises comparadas. capaz de permitir a transposição de escalas. que combinam vários indicadores. Fortaleza: Sociedade Brasileira de Economia Política. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais. Por fim. B. Porto Alegre: FEE. N . a participação da população na construção desse padrão assume papel fundamental para definir a sua inserção no lugar onde vive. 1999. situando a posição relativa da unidade de análise num contexto mais abrangente e permitindo priorizações a partir desse nível. Ph. K. em suas múltiplas dimensões. In: Anais do V Encontro Nacional de Economia Política.. B . maio de 1999. (CD-Rom).1. professor adjunto do Núcleo Orientado para a Inovação da Edificação/PPGEC/UFRGS. E-mail: scussel@ufrgs. pesquisadora do IEPE/UFRGS e doutoranda do Núcleo Orientado para a Inovação da Edificação – NORIE/PPGEC/ UFRGS.Sc. há que se ter presente que essa escolha limitará essa possibilidade de comparação. T. p. H. de confrontar distintos interesses e de captar a diversidade de lugares de morar na cidade. ainda. segundo princípios de sustentabilidade. sempre tendo presentes as limitações das fontes de informação e do próprio instrumento em capturar a dinâmica da realidade. (CD-Rom. p.307. n. o reconhecimento da complexidade envolvida na identificação dos componentes que concorrem para a configuração de determinado espaço residencial e das relações que a partir daí se estabelecem sugere a necessidade de uma abordagem diferenciada de avaliação.) FUNDAÇÃO DE ECONOMIA E ESTATÍSTICA SIEGFRIED EMANUEL HEUSER – FEE. Porto Alegre. Cabe ressaltar. seja do ponto de vista de estratos sociais.

org/esa/sustdev/natlinfo/indicators/indisd/isdms 2001/htm. 2002. In: CASTAGNA. et al. M. A B S T R A C T The present work proposes a critical reading to the current sets of “quality of life indicators”. _______. S AT T L E R _______.63. Condições de vida da população de baixa renda na região metropolitana de Porto Alegre. 6 . Rosario: UNR. Sustainability indicators. Red Iberoamericana de Investigadores sobre Globalización y territorio. A dimensão urbana do desenvolvimento econômico-espacial brasileiro. (Coord. 1437-51. trying to identify the multiple dimensions 95 R .2. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. UFRGS. 2000. B . p. 1997. Uma abordagem comparativa das condições de habitação no meio urbano e no meio rural: o caso de Porto Alegre. R. et al. São Carlos. P. 1998. Brasília: Ipea/UFRGS. PNUD/IPEA/FJP/IBGE. FUNDAÇÃO INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Cidade.org. F. S C U S S E L .459-82. Comission for Sustainable Development. D. Porto Alegre: FEE. Acessado em 29. SCUSSEL. N .br/IDHM-BR%Atlas. 2001. n. I. 2002. 1995. _______.um. Brasília.undp. Revista Prolides – Mercosul. Porto Alegre: FEE. (Ed. Índice de qualidade de vida urbana de Belo Horizonte (IQVU – BH): um instrumento intra-urbanístico de gestão da qualidade de vida.45-61. Texto para Discussão. p.) PNUD/IPEA/Fundação João Pinheiro/IBGE. M. S. It discusses the involved concepts to describe qualification aspects of the residential space and the patterns supporting them. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro. 1981. São Paulo: Cortez.M . 1997. KOCH. MOTTA. PINHEIRO. jul. 2000. Porto Alegre: Ed. Tipologia socioespacial da Região Metropolitana de Porto Alegre: análise preliminar do caso de Porto Alegre – 1980/1991. Acesso em 17. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de São Carlos. NAHAS. J. M. M. Rio de Janeiro: IBGE. MENEGAT. Foz do Iguaçu: Antac. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . Rio de Janeiro: IBGE. Novo Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil. Anuário Estatístico do Rio Grande do Sul 2001. SILVA. particularly those related to housing conditions and their insertion in such assessment frameworks. et al. Indicadores de desenvolvimento sustentável: Brasil 2002. INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA)/UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL – PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL (PROPUR). Índice Social Municipal Ampliado – Isma. p. A.) Globalización y territorio. In: Anais do VII Encontro Nacional Anpur. 2002. Disponível em http://www. Recife.2002. 2002. UNITED NATIONS.2003. (CD-Rom. M I G U E L A . exclusão/inclusão social. aiming at pointing out their limits and possibilities as reality gauging instruments.) Atlas Ambiental de Porto Alegre. Indicadores de Sustentabilidade Urbana – as perspectivas e as limitações da operacionalização de um referencial sustentável. SPOSATI. 1999.11. Disponível em http://www. A. Gestão do uso do solo e disfunções do crescimento urbano/Instrumentos de planejamento e gestão urbana: Porto Alegre. Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil.530. 1998. VI Seminário Internacional. n. In: Anais do IX Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído. C O N C E I Ç Ã O B . território. Déficit habitacional no Brasil. Brasília: Ipea.

in order to allow scale transpositions. The identification of the components (and their relationships) that concurs to configurate the residential space suggests the necessity of a differentiated evaluation approach. 96 R . 6 . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. to collate distinct interests and catch the diversity of places to live in the city. social. K E Y W O R D S Quality of life indicators. politics. economics. sustainability. cultural – implied in the production and appropriation of this space. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . housing conditions. N .QUA L I D A D E D O E S PA Ç O R E S I D E N C I A L E S U S T E N TA B I L I D A D E – environmental. B . according to sustainability principles.

A produção intelectual que trata diretamente da sua obra é também considerável e aumentou significativamente desde a última década do século passado. 1985) como algo incompatível com o ofício de economista. Criatividade que supõe uma boa dose de ousadia. B . chegou a ser vista por Gudi (apud Furtado. no início de sua carreira. Mais tarde. Mas foi para o Brasil e o Nordeste brasileiro que dedicou o máximo de sua atenção e de suas energias. porque – caso raríssimo entre os economistas – Celso Furtado não escreve apenas para os seus pares. colocando-se como portador de soluções técnicas. neutras. o número de leitores atinge cerca de dez milhões. Daí porque em sua obra a fronteira entre economia e política é tênue. Calcula-se que foram vendidos mais de dois milhões de exemplares. recuperar o movimento (histórico) da economia. sobretudo quando completou 80 anos. escreveu um livro sobre a formação econômica dessa região. escrito por Raúl Prebisch. a criatividade que. 6 . Embora em muitos contextos Furtado tenha procurado proteger-se. cujos elementos básicos estão contidos em El desarrollo económico de la América Latina y algunos de sus principales problemas. a leitura atenta de suas principais obras indica uma permanente preocupação política. foram prestadas ao autor. N . em decorrência das inúmeras homenagens que. faz uso de instrumentos de análise neoclássicos para melhor compreender esse processo. Escreveu 31 livros que foram traduzidos em 15 idiomas. Depois. com o fim de levar suas idéias e despertar a consciência da necessidade de lutar contra as desigualdades sociais e o subdesenvolvimento. Furtado realizou inúmeros trabalhos técnicos sobre países da América Latina. Mas em Furtado o ecletismo permite-lhe uma abordagem original: por exemplo. quando o ecletismo é. no Brasil e em outros países. ele. Foi o economista brasileiro ou mesmo cientista social brasileiro de maior projeção fora do País. por sua vez. no presente. foram marcadas pela influência da Cepal. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. de 1949. contribuiu com a sua abordagem histórica para enriquecer o pensamento cepalino. assim como pela relevância amplamente reconhecida. da década de 1950. Se as primeiras obras de Furtado. acabou sendo o grande trunfo que lhe permitiu realizar a “navegação venturosa” e descortinar sempre novos horizontes.CELSO FURTADO E O PLANEJAMENTO TEORIA E AÇÃO H E R M E S M A G A L H Ã E S TAVA R E S INTRODUÇÃO A obra de Celso Furtado impressiona por sua extensão. que se traduz em uma linguagem que proR . expresso por esse grande número de leitores? Em primeiro lugar. diz ele. por sua coerência metodológica. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 97 . como sabemos. no exílio. estima-se que. até mesmo para ser eclético. mas também para um público mais amplo. enquanto procura. Como explicar o reconhecimento de Celso Furtado. “Nunca entendi a existência de um problema estritamente econômico”. por um lado. por outro. unidade de propósito. considerado sempre negativamente pelos escolásticos de todos os matizes. Em sua fase da Cepal. Considerando-se os diversos indicadores de formas de difusão.

Ao leitor atento desse texto não deve passar despercebido o fato de que Furtado não tenha mencionado Prebisch entre os autores que influenciaram na formação de seu pensamento. formando-se em Direito pela antiga Universidade do Brasil. como funcionário do Dasp (Departamento de Administração do Serviço Público Federal) e. 2001). como oficial. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. obedece à cronologia de como cada um desses sistemas de pensamento passaram a influir decisivamente em sua formação (Furtado. mediante concurso. o que o pressiona a recorrer constantemente ao progresso técnico. B . publicado em 1985. sendo esta segunda idéia reforçada pela leitura de Schumpeter. diz Furtado que “a economia capitalista não pode funcionar sem um certo grau de centralização de decisões. regressa à Europa para realizar o doutorado em Economia. Quais são as bases teóricas do pensamento de Furtado? Ele próprio responde. às Forças Expedicionárias Brasileiras que participaram da Segunda Guerra Mundial. Em 1944. Essas informações foram fornecidas pelo próprio autor em seu Auto-retrato intelectual. Em terceiro lugar. mais tarde. órgão recém-criado pela ONU. que. ele retém a análise dos processos econômicos centrados na demanda e o papel do Estado no desenvolvimento capitalista. o marxismo e a teoria keynesiana. em Paris. publicado pela Unesco em 1973. em 1946. 1983). cuja forma definitiva seria mais tarde considerada o 98 R . De resto. como não poderia deixar de ser. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . incorpora-se. Desmobilizado. só aparecerá em sua verdadeira dimensão na Fantasia organizada. N . A TRAJETÓRIA INTELECTUAL Originário do estado da Paraíba. interessou-lhe pela importância que essa doutrina atribui à razão. esta visão keynesiana de Estado influiu em toda uma geração de economistas e de governantes no Brasil. neste mesmo ano. Desse autor.C E L S O F U R T A D O E O P L A N E J A M E N T O cura persuadir e mobilizar os seus leitores. por indicação do governo chileno. ingressa no serviço público. tudo indica. sem. Contratado como consultor. ao conhecimento científico e à relação que estabelece entre este e o progresso. Terminado o curso. retoma suas funções na administração pública brasileira e pouco depois passa a integrar a pequena equipe de técnicos que deu início aos trabalhos da Cepal (Comissão Econômica Para a América Latina). sem uma estrutura superior de poder (todo capitalismo é em certo grau um capitalismo de Estado” (Furtado. ou seja. sob a orientação de Maurice Byé. perder o rigor e a elegância (Bielshowski. A equipe tinha como tarefa inicial realizar um diagnóstico econômico dos países latino-americanos. com o qual ele toma contato ainda muito jovem. Celso Furtado reconhece em Keynes uma influência decisiva. no plano econômico. Quanto a esse último aspecto. O marxismo – com o qual tomou contato através da leitura de Max Beer e. contudo. volta ao Brasil e. o economista argentino Raúl Prebisch apresentou uma primeira versão do seu texto. em curso na Universidade de Paris – por sua teoria da História e. em 1948. O positivismo. em território italiano. livro de memórias. 1973). indicando a seguinte ordem: o positivismo. decisiva no avanço da compreensão do desenvolvimento da América Latina. 6 . O papel de Prebisch e seus colaboradores na estruturação de uma teoria com características próprias. que seria discutido na reunião de 1949 em Havana. pela percepção de Marx de que a acumulação é uma necessidade objetiva do capitalista. Celso Furtado realizou o seu curso superior no Rio de Janeiro.

com surpresa. por sua vez. Dois anos depois. R . diante de fortes indícios de que os Estados Unidos vetariam a continuidade da Cepal. México e Chile. se aceitas pelos governos latino-americanos. recentemente. uma vasta e heterogênea periferia. Isso o levou à decisão de pesquisar a fundo as razões de tal atraso. foi fundamental para a sua manutenção. Ao contrário. Argentina.H E R M E S M A G A L H Ã E S T A V A R E S “Manifesto Latino-Americano”. empenhou-se em demonstrar. “Arregacei as mangas e comecei a pensar o Brasil com a desenvoltura de quem reunisse ignorância e intrepidez” (Furtado. A dependência econômica (1956) e Desequilíbrios da economia brasileira (1957). Em 1957-1958 (ano letivo europeu). empiricamente. N . que permitia nela identificar uma fratura estrutural gerada pela lenta propagação do progresso técnico e perpetuada pelo sistema de divisão internacional do trabalho então existente. Os termos de intercâmbio tendem a se degradar em detrimento da periferia. constitui certamente a contribuição teórica maior de Prebisch e foi o ponto de partida da teoria do subdesenvolvimento que dominaria o pensamento latino-americano e teria amplas projeções em outras regiões do mundo. trata-se de uma estrutura em que há. em defesa da Cepal. Celso Furtado constatou. Foi um período fértil para Furtado. Daí o seu empenho em traduzi-lo para o português e. sobretudo os de Economia. de outro.) Comparando as séries de dados econômicos relativos ao Brasil. principalmente. A razão por que isto não acontece deriva de que a economia mundial não é uma estrutura homogênea. sua obra maior. composto de um pequeno numero de países. Furtado realiza o seu pós-doutorado em Cambridge e escreve Formação econômica do Brasil. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. Entre 1950 e 1957 publicou três livros: A economia brasileira (1954). 1985). um centro principal detentor da tecnologia e dos frutos do progresso. 1985). 6 . de tal força que se constituiria em verdadeiro tournant na realidade latino-americana. que a organização econômica mundial. Ciências Sociais e História. Em suas memórias. dele foi tirada a 32a edição. Celso Furtado fez gestões junto ao governo brasileiro (segundo governo Vargas). Brasil afora. Keynes fizera uma poderosa crítica ao laissez-faire. em seguida. concluiu de imediato que as idéias ali contidas eram sobremodo inovadoras e que. constituída de países produtores e exportadores de matérias-primas e de produtos primários. a evidência do atraso do Brasil em relação àqueles países. um dos primeiros a ler a versão preliminar do trabalho de Prebisch. fixou-se no Rio de Janeiro como coordenador do grupo misto Cepal-BNDE. não produz ganhos proporcionalmente iguais para os países que dela participam. e várias edições saíram no exterior. Celso Furtado. pela Editora Nacional. no sentido de que este votasse pela permanência do órgão. contribuindo para que a renda se concentre no centro. Esta visão global da economia capitalista. Em 1953. de um lado. e. baseada no livre-câmbio e no princípio da divisão internacional do trabalho. poderiam mudar a face da região. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 99 . licenciado da Cepal. Furtado diz que a posição favorável assumida por Vargas. publicá-lo e divulgá-lo entre profissionais influentes no Brasil. pois o voto do Brasil influiu para que vários outros países latino-americanos assumissem idêntica posição (Furtado. 1985. Celso Furtado viu nessa concepção de Prebisch a sua contribuição maior. em reunião que ocorreria em São José da Costa Rica. Desde o início. B . Prebisch. trabalho ao qual se empenhou com obsessão. O esforço dessa tarefa desdobrou-se por seis ou sete anos. (Furtado. Livro-texto nos cursos universitários.

em decorrência das disponibilidades de fatores internos e da demanda externa. passando a destruir parcela considerável da produção invendável (80 milhões de sacas de 60 quilos em menos de dez anos). Seguindo uma démarche diacrônica. A crise mundial de 1930 marca o colapso da economia colonial no Brasil. a Furtado o que interessa é a evolução histórica analisada a partir da economia. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . E o que parecia mais estranho era que. o autor: O que importa ter em conta é que o valor do produto que se destruía era muito inferior ao montante da renda que se criava. o governo Vargas lançara mão da emissão monetária. Outra diferença metodológica é a preocupação em tomar a economia brasileira como uma economia colonial (o que ocorreria até a crise de 1930) e não como periférica. na esperança de que fossem estudadas mais a fundo por pesquisadores que o sucedessem. Schumpeter e até mesmo o instrumental neoclássico. abarcando o início da colonização até 1930. dessa forma.C E L S O F U R T A D O E O P L A N E J A M E N T O A Formação. N . Marx. Ora. sem dúvida. como o que se tinha em vista era evitar que continuasse a baixa de preços. Ao longo de quatro décadas (1530-1930). para uma economia industrial. compreendese que se retirasse do mercado parte do café colhido para destruí-lo. em verdade. B . não esperava chegar a respostas definitivas. um grande afresco da economia brasileira. Expectativa assaz modesta para quem. o que é.. adota uma postura eclética. tem. Obtinha-se.) Diz. ao dar continuidade à política de defesa do café. que analisa sincronicamente as estruturas de centro–periferia. (Furtado. 1979. para explicar a formação econômico-social do Brasil. voltada para o mercado interno.. em decorrência da crise. fazendo uso do seu método peculiar. surgia uma atividade econômica dinâmica. Praticou-se no Brasil. a política de defesa do setor cafeeiro nos anos da grande depressão concretiza-se num verdadeiro programa de fomento da renda nacional. particularmente se se tem em conta que os efeitos da baixa de preços eram parcialmente anulados pela depreciação da moeda. Esse segundo aspecto será examinado na segunda parte deste texto. pois de imediato o governo revolucionário cuidou de garantir os interesses dos cafeicultores. enquanto outras permaneciam em letargia por longo tempo.. ao recorrer a autores de visões ideológicas distintas. Observa-se um afastamento em relação a Raúl Prebisch. na impossibilidade de recorrer ao financiamento externo. Em outros termos. Dessa forma.. Portanto.. tais como Keynes. os preços teriam que baixar muito mais. o que o levou a ir muito além da simples estocagem. construindo as famosas pirâmides que anos depois preconizaria Keynes. nas palavras do autor. voltada para fora. segundo o autor. Contudo. inconscientemente. situações como essa se repetem todos os dias nas economias de mercado. O livro. é. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. fato que vai se configurar efetivamente a médio e longo prazo. em outra parte. o maior contributo da Formação. em momentos específicos. 6 . Esse paradoxo é assim explicado por Furtado: À primeira vista parece um absurdo colher o produto para destruí-lo. dividido em cinco partes e 36 capítulos. o equilíbrio entre a oferta e a procura a nível mais elevado de preços. uma política anticíclica de 100 R .. O fato de que a análise leva em conta a dinâmica econômica (a evolução histórica) sem deixar de considerar a dimensão geográfica é outra inovação de Furtado na Formação. Estávamos. Para induzirem o produtor a não colher. a intenção de formular questões e hipóteses. raramente ressaltada pelos críticos. conseguira explicar a transição da economia colonial.

B . capturou todos e até hoje não se conseguiu produzir nada que o substituísse teoricamente” (Oliveira. 6 . a sua apropriação pelos grandes proprietários de terras e a malversação de recursos públicos. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. assiste-se ao desenvolvimento de condições propícias ao surgimento de novas idéias. a economia brasileira começa a se recuperar. Ao final da Fantasia organizada. O sucesso norte-americano da Tennessee Valley Authority (TVA) foi tema de debate durante vários anos no Congresso Nacional. uma política de obras públicas destinada a construir açudes.14). ou seja. dessa feita. TEMPOS DE LUTA Desde a segunda metade do século XIX. Quanto ao Nordeste. conduziram à necessidade de rediscussão do problema do Nordeste e de suas soluções no âmbito de uma nova política. o equívoco dessa política.H E R M E S M A G A L H Ã E S T A V A R E S maior amplitude que a que se tenha sequer preconizado em qualquer dos países industrializados. Teriam tido sucesso os que subestimaram a questão do mercado. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 101 . 1979. “apontando para os dois desafios a serem enfrentados no futuro imediato: completar a industrialização e deter o processo de crescentes disparidades regionais. Ambos os órgãos não passaram de arremedos do modelo norte-americano. pois forças independentes de seu papel. Furtado decide retomar suas atividades no Brasil. 1985. a qual se tornou uma chaga nacional. ao colocar a demanda no centro da análise. na década de 1940. em 1909. p. na década de 1950. No decênio de 1950. Encerrada a sua passagem por Cambridge. E o impulso maior deriva das indústrias que substituem bens que antes se importavam. que também faz restrições ao enfoque de Furtado sobre a transição. que levaram o governo federal a modificar a sua política para aquela região. estruturam um programa não previsto.. (Furtado. nesse momento as atividades mais dinâmicas deixam de ser aquelas do setor exportador e são substituídas por aquelas voltadas ao mercado interno. Muitos criticaram essa explicação. ressalva: “A elegância do modelo. e tendo completado dez anos como funcionário da Cepal (ONU). criou o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e acelerou a construção da hidrelétrica de Paulo Afonso. em torno de projetos que aplicariam aquele modelo à bacia do Amazonas e à bacia do rio São Francisco. O governo Vargas. sobretudo pela sua essência keynesiana. Deles resultou a criação da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia e da Superintendência de Valorização do Vale do São Francisco. O governo federal implantou. orientado pela sua assessoria econômica. a partir das secas de 1877-1879 e de 1899 – e seu impacto sobre grande parte da população nordestina. notadamente o mercado externo. ao lutarem por seus interesses strictu senso. Como nordestino. destinavam-se a atender uma demanda preexistente. 1985). para a acumulação de água. e estradas. com a intenção de resolver o que se considerava então como o principal problema nordestino: a seca. Na mesma R . com intenção de não se restringir ao trabalho teórico e assumir também uma ação política. cabia-me prioritariamente dar uma contribuição na segunda dessas frentes de luta” (Furtado. N .) A partir de 1933. em que parece existir dialética. e convergiram a discussão em torno da dinâmica das forças produtivas existentes no País? Francisco de Oliveira. ele sublinha que concluíra a Formação. há uma questão regional no Brasil – a do Nordeste brasileiro..

B . As organizações da sociedade civil cresceram rapidamente no mesmo período e cobraram do governo federal medidas que iam de investimentos compensatórios para a região à reforma agrária. a influência do conceito de desenvolvimento na linha cepalina. A esses fatos acrescentava-se a implantação do Plano de Metas do governo Kubitscheck. iniciado em 1956 e cujos investimentos se concentravam nas regiões mais industrializadas. agreste e semi-árido) e da forma como eles se relacionavam. Uma política de desenvolvimento para o Nordeste. N . para toda a Europa. escrito por Furtado sob a forma de relatório. França e Itália. Quanto ao primeiro aspecto. Entre 1946 e 1948. a publicação foi feita com a autoria do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN). Diante das limitações de espaço. no relatório. obviamente. no início de 1959. Agregue-se a isso o fato de que Organização e Planejamento foram campos do conhecimento que despertaram grande interesse no nosso autor. Portanto. fora. O livro de Myrdal publicado na primeira metade do decênio de 1950 tratava de questões do desenvolvimento capitalista que se tornaram muito claras com a depressão de 1930. Celso Furtado viveu de perto essa realidade. particularmente Guimarães Duque e Ignácio Rangel: a colonização em terras férteis. traduzidos em grandes concentrações econômicas nas metrópoles e empobrecimento de outras áreas. Em uma época em que a reforma agrária era socialmente inviável.1 O conhecimento teórico do autor e a sua permanência na Europa devastada pela guerra. as desigualdades sociais tanto quanto as desigualdades regionais constituíam uma questão candente. 6 . na verdade. As discussões em torno dos desequilíbrios regionais. Furtado conclui que o problema central era o da população que vivia da economia de subsistência e dependente dos grandes proprietários de terras. responsáveis pelos desequilíbrios regionais. é um marco na literatura especializada. especialmente). foram fundamentais para o resultado obtido. os governos europeus viram no planejamento o caminho para solucionar essas questões. É nesse momento que as idéias de Celso Furtado sobre o Nordeste tornam-se conhecidas e ganham força ao serem adotadas por Kubitscheck para servirem de base a uma política de desenvolvimento naquela região. A calamidade social da seca é que o seu impacto é consideravelmente maior sobre essa população. Debates esses que propiciaram o surgimento de políticas de desenvolvimento regional em escala nacional (Inglaterra. Furtado propõe uma solução que era a de outros estudiosos importantes da região. assessoria começou-se a discutir um plano econômico para o Nordeste e um estudo de Rômulo de Almeida concluía que o atraso e a pobreza da região não se deviam a fatores climáticos (a falta de chuvas) e sim à organização econômica regional inadequada. tiveram grande êxito. em sua formação universitária no Brasil. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. Na Europa do imediato pós-guerra. um diagnóstico detalhado e bastante articulado do Nordeste e um esboço de plano de ação. e sobre a falta de uma política de incentivos financeiros e fiscais para a região. mas em reconstrução. e o Planejamento Indicativo.C E L S O F U R T A D O E O P L A N E J A M E N T O 1 Por razões de ordem tática. do semi-árido. prática que era adotada em alguns países europeus. e até hoje constitui fonte de referência de qualquer estudo da economia nordestina. concentraremos nossa atenção nas estratégias da nova política. uma proposta de planejamento para a região nordestina. Trabalhos realizados por Hans Singer reforçaram o argumento de Rômulo de Almeida e levantaram outras questões. bem como o enfoque dos processos sociais cumulativos de Myrdal. Com base na análise minuciosa das relações sociais nos grandes espaços socioeconômicos da região (zona da Mata. é clara. Experiências como a do Plano Marshall. De uma forma ampla. no âmbito da França. 102 R . 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . como o fato de que a política de desenvolvimento nacional contribuía para o empobrecimento relativo do Nordeste. O documento que ele apresenta a Kubitscheck em março de 1959 é.

2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 103 . cujo desdobramento veremos mais adiante. melhor dizendo. dos grandes proprietários de terras que concentravam sua oposição no Congresso Nacional. de capitalização da região nordestina. A despeito do ambiente hostil criado pelas oligarquias e seus representantes na imprensa e no Congresso. para ter condições de competir com a moderna indústria do Centro-Sul. diante das arremetidas da direita majoritária no Congresso. A segunda estratégia agrícola consistia na irrigação das bacias dos açudes mediante uma política que possibilitasse a desapropriação daquelas áreas. Mas essa mobilização nem sempre conseguia contra-arrestar as investidas da direita. como a siderurgia. é indiscutível que o projeto da nova política de desenvolvimento do Nordeste contou com grande apoio popular. O Estado deveria investir na infra-estrutura (energia elétrica. Além do financiamento do Estado. É certo que os estudos prévios sobre a área maranhense a ser colonizada não deram conta de que ela já se encontrava quase inteiramente grilada. N . onde havia terras públicas da pré-hiléia amazônica e mais o Piauí. Vejamos um dos muitos depoimentos de Furtado a esse respeito: O recorte da federação brasileira prejudica o Nordeste. Esse apoio ocorreu em vários momentos e situações.H E R M E S M A G A L H Ã E S T A V A R E S Parcelas dessa população seriam transferidas para as áreas de colonização. que é dividido em pedaços relativamente pequenos. não se opunha abertamente à política proposta. como em uma greve que paralisou Recife por um dia. R . 6 . quase toda ela exclusivamentevoltada aos bens de consumo. B . é Minas Gerais. entre as quais ressaltamos: • Uma estruturação institucional que se preocupou em fortalecer o sistema federativo do País. prioritariamente. Essa estratégia se tornaria viável com a incorporação do Maranhão. especialmente têxteis e de alimentos. Nasceria dali o Projeto de Colonização do Maranhão. A grande reação partia dos grandes interesses agrários. A terceira estratégia era a reestruturação da área de monocultura da cana-de-açúcar. órgão a ser criado. nos moldes dos praticados nos países desenvolvidos e mesmo no Centro-Sul do País. com as restrições que já foram mencionadas. O movimento camponês. destinando-a. o projeto da Sudene introduziu inovações importantes. é São Paulo. de uma política de modernização. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. que obteve duas vitórias significativas: impediu que o projeto de irrigação do Codeno fosse aprovado pelo Congresso Nacional e impediu que o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) passasse a ser controlado pela Sudene. ainda na fase do Conselho do Desenvolvimento do Nordeste (Codeno). à produção diversificada de alimentos. reivindicaram um tratamento diferenciado para a região. nos últimos anos da década de 1950. mesmo continuando a luta pela reforma agrária. portanto. à região-plano da Sudene. A indústria regional. Tratava-se. deveria ser modernizada. para pressionar o Congresso a aprovar o Primeiro Plano Diretor da Sudene. Conseguiu. foi a elaboração do projeto de lei de irrigação. A primeira grande tarefa da nova política. Em uma época em que se estava longe de ouvir falar em planejamento participativo. transporte e saneamento) e em indústrias de base. contrariando a lei que criou esse órgão. seriam criados mecanismos de estímulos fiscais e financeiros. Estado importante é Rio Grande do Sul. responsável em grande medida para que essa proposta não fosse derrotada desde o início. Pode-se afirmar que a proposta teve ampla aceitação das principais forças sociais que. sabotar o Projeto de Colonização do Maranhão. também.

se reivindica conjuntamente e quando se vai ao Parlamento e ao Presidente da República. para a análise da evolução histórico-econômica da sociedade brasileira. (Furtado. somado à maioria de suas obras que tratam exclusivamente do Brasil. generalizou-se em praticamente todos os países centrais. o Nordeste tem uma vontade só. leva muitos estudiosos da obra desse autor a considerá-lo um dos raros cientistas sociais brasileiros que conseguiram interpretar este País. a mais ingente e espinhosa de quantas reclamavam solução para a construção de uma Nação harmônica. não apenas na escala regional.C E L S O F U R T A D O E O P L A N E J A M E N T O é o Rio de Janeiro. desde o campesinato. substituímos o conhecimento científico. pelo desprendimento. Os desvios de recursos dos incentivos fiscais que foram surgindo com o tempo. mas como uma reforma constitucional era coisa impossível de se fazer no Brasil. mas até mesmo medida pela escala nacional. Celso Furtado contribuiu teoricamente para a compreensão do processo de desenvolvimento das economias dependentes e. Francisco de Oliveira. todavia. N . como de fato aconteceu. podemos dizer que o seu grande mérito foi o de transformar o planejamento numa realidade concreta. infelizmente. fez várias críticas àquele órgão. jamais poderiam ser resolvidos com a medida do governo Fernando Henrique Cardoso para o fechamento desses órgãos. Esse sistema iniciado durante a crise de 1930. que participou dessa primeira fase da Sudene como adjunto de Celso Furtado e. pelo vigor e. a massa de textos consultados exigiu um enorme esforço de síntese.) Como vimos na primeira parte deste trabalho. de que não dispúnhamos. Isso. Essa prática tinha que ser aprendida rapidamente à base de ensaio e erro. com adaptações. no caso do Brasil. posteriormente. Particularmente. em particular. graças à qual foi possível aumentar significativamente a produção industrial no Nordeste. No Brasil. 2001. criou-se o sistema 34/18. Com o fim da isenção cambial. deu. pelo ardor. Assim. e tentamos converter nossa fraqueza em força: despreparados para tão grande cometimento. sem que isso seja uma vanglória. tanto na Sudene quanto na Sudam. 1978. Uma convergência nunca antes vista de classes e setores sociais. No plano da ação. Esse fato relaciona-se com o espírito de equipe que se formou em um campo de atividade cuja prática pouco se conhecia. que consistiu em criar um mecanismo de discussão e votação entre o governo federal e os governos estaduais da região: foi o Conselho Deliberativo da SUDENE. por que não dizê-lo.) • O sistema de incentivos financeiros e fiscais destinado às empresas privadas. que constituiu uma verdadeira inovação. que reúne nove governadores para harmonizar pontos de vista sobre o que fazer na região. Minha geração jogou-se por inteiro naquele empreendimento. depois de várias tentativas fracassadas desde a 104 R . tomou-se por base principalmente o modelo italiano destinado ao Mezzogiorno. no governo Jânio Quadros. B . na Inglaterra. mobilizou-se para o que pensávamos ser a tarefa do século. apud Tavares. em que a pesquisa para a sua obra maior cobriu quatro séculos. 2004. (Oliveira. era preciso compensar esse aspecto perverso da Constituição. 6 . vale a pena lembrar. que a Sudene inovava completamente o estilo de desempenho dos poderes públicos. Com o inteiro apoio da população. sem gritantes disparidades que se constatavam e que. • A seriedade do órgão no uso dos recursos públicos difundiu-se rapidamente em todos os meios. um depoimento que expressa corretamente o trabalho naquele órgão antes daquele ano: Um vasto sopro de esperança varreu a região. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . Portanto. apelamos para um truque. estes 20 anos não conseguiram desfazer. após 1964. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V.

Isso porque somente o poder que reúne os representantes do povo de todas as regiões pode dar origem a um consenso capaz de traduzir as aspirações dessas mesmas regiões em uma vontade nacional. Aqui ele defende a instituição do poder regional. quando elaborou o Plano Trienal de Desenvolvimento. convém não perder de vista que o revigoramento do federalismo na forma aqui referida requer. Perspectivas da economia brasileira. a sua atuação de cinco anos como idealizador e dirigente da Sudene.) Celso Furtado 80 anos: homenagem da Paraíba. Hermes Magalhães Tavares é professor adjunto do Ippur/UFRJ. Ronald de Carvalho (Org. Furtado. 1999. somente o planejamento permite introduzir a dimensão “espaço” no cálculo econômico. Vimos. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 105 . ao lado da plena restauração da autonomia estadual e do contrapeso de um poder regional. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BIELSHOWSKI. Rio de Janeiro: Paz & Terra. _______. 1974. Mesmo no auge do neoliberalismo. Trabalhei como um condenado. R. R. In: QUEIROZ. na segunda parte deste texto. Este é um ponto importante. a conflitos entre regiões ou entre determinada região e um órgão do poder central. as quais constituíram a base do Plano de Metas do governo JK. 2001. com freqüência. em 1999. Com efeito. (Org. _______. (Furtado. foi ministro extraordinário do Planejamento.) João Pessoa: Sebrae/Pb. Celso Furtado 80 anos: homenagem da Paraíba. 6 . FURTADO. E-mail: smtavares @uol. 2001. indo além daquilo que propôs em 1959. Só o planejamento permite corrigir a tendência das empresas privadas e públicas a ignorar os custos ecológicos e sociais da aglomeração espacial das atividades produtivas. Ao observarmos a produção de Furtado dos anos 80 e 90. São Paulo: Cia.br Artigo recebido em novembro de 2004 e aceito para publicação em março de 2005. 1985. Uma política de desenvolvimento para o Nordeste. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. _______. No âmbito nacional. o homem que explicou o Brasil. Rio de Janeiro: Iseb. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. R . o fortalecimento da instituição parlamentar. Formação econômica do Brasil. O longo amanhecer. ele afirmou: “Queiramos ou não.) Furtado deixou-nos aqui alguns pontos dos mais relevantes e atuais para uma agenda da questão territorial brasileira: a persistência no planejamento. Vejamos o que ele nos diz: A descentralização regional do poder central deveria ser acompanhada de um planejamento plurianual que permitisse compatibilizar as aspirações das distintas regiões. _______. No governo de João Goulart. Rio de Janeiro: Paz & Terra. João Pessoa: Sebrae/Pb. A fantasia organizada. a distribuição das atividades econômicas entre regiões. Editora Nacional.H E R M E S M A G A L H Ã E S T A V A R E S década de 1930. 2001). 1958. B . 1959 _______. para ele único instrumento capaz de levar os entes econômicos a considerar os custos ecológicos e sociais do desenvolvimento. C. Furtado dirigiu o Grupo Cepal-BNDE que realizou projeções setoriais da economia brasileira. 2001.com. N . Outro problema de enorme atualidade para o desenvolvimento do País é o de sua organização político-territorial. constatamos que sua crença nas possibilidades do planejamento não se alterou ao longo do tempo. Por último. a plena restauração da autonomia estadual e da instituição parlamentar. pois a distribuição espacial da atividade econômica leva. o planejamento foi a grande invenção do capitalismo moderno” (Furtado.

C E L S O F U R T A D O E O P L A N E J A M E N T O FURTADO. A economia brasileira. _______. 1954. H.1. 1998. Cepal. OLIVEIRA. 50 años de pensamiento de la Cepal. Depoimento à CPI do Congresso Nacional sobre a Sudene. v. B . 1954. P. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. 106 R . In: TAVARES. 6 . Celso Furtado. Comunicação/Ippur. R. 2 / N O V E M B RO 2 0 0 4 . Política regional e mudança. M. El desarrollo económico de América Latina e algunos de sus principales problemas. PREBISCH. A dependência econômica. F. N . Rio de Janeiro: MEC. 1985. Rio de Janeiro: A Noite. In: Aa. 2004.Vv. Rio de Janeiro: H. C. _______. São Paulo: Editora Ática. 1949.

Por meio do Instituto Cidadania. impresso pelo partido como parte do Programa de Governo. ma do saneamento ambiental. que escreveu um programa denominado de Reforma Urbana. drenagem e lixo. entre outras atribuições. SECRETÁRIA EXECUTIVA DO MINISTÉRIO DAS CIDADES ANA CLARA TORRES RIBEIRO1 HENRI ACSELRAD RBEUR: Sugerimos começar por alguns temas mais gerais. As discussões técnicas precisam de fato de um detalhamento e devem respeitar a necessidade do aprofundamento setorial e da verticalização. parlamentares) para elaborar uma proposta de habitação. V. Lá propúnhamos o Ministério da Reforma Urbana. como a gênese e a construção do Ministério das Cidades. e o problema do transporte coletivo urbano. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S . nesses dois anos de existência do Ministério. seus elementos estruturantes: a questão fundiária. Afirmamos assim que era preciso recuperar um espaço de institucionalização da política urbana que tinha sido perdido. por causa da própria formação universitária e profissional. quanto a isto. Numa dessas oportunidades (se não me engano. que tinha como objetos o planejamento e a política fundiária. professores universitários e movimentos sociais. você acha que foi possível olhar a cidade como objeto de política. em janeiro de 2005. compreendendo água. Lembremos do saneamento e dos transportes ou então o fato de os arquitetos e urbanistas olharem muito pouco para esses temas. N . B . o que obriga a todos os seto109 R . na terceira candidatura) foi criado um grupo de expressão nacional. ou ainda há resíduos de fragmentação dos instrumentos necessários para um planejamento de longo prazo? ERMÍNIA: Essa fragmentação vai continuar por muito tempo. a proposta de criação de um Ministério com os nomes variáveis de Ministério da Reforma Urbana. RBEUR: No que se refere a essa junção operada entre diferentes fragmentos da máquina pública. No Ministério isso é muito visível e estamos obtendo. o proble1 Entrevista concedida em Porto Alegre. esgoto. a de Programas Especiais Urbanos. poderíamos tratar dos três maiores problemas sociais urbanos que. O Instituto realizou várias audiências para ouvir pessoas de outros segmentos. muitas vezes. O Ministério das Cidades foi estruturado [em secretarias] a partir das três maiores fontes dos problemas sociais urbanos vinculados ao território: habitação. em seu programa de governo. dentro dela.O DESENVOLVIMENTO URBANO DEMOCRÁTICO COMO UTOPIA ENTREVISTA COM ERMÍNIA MARICATO. 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . Lula convidou um grupo de pessoas (profissionais. O documento elaborado por esse grupo mostra que as soluções para a carência habitacional devem ser buscadas no contexto da cidade. A proposta do Projeto Moradia aprofundou muito mais a política habitacional e. ERMÍNIA: Nas últimas vezes em que Lula foi candidato à presidência da República constava. na discussão dos planos diretores e nos debates urbanísticos não apareciam como centrais: o problema da moradia. muitos ganhos por intermédio do Conselho das Cidades. por meio de um ministério. Segundo o Projeto Moradia. para depois ir afunilando para as políticas. reunindo trabalhadores sindicais. em especial da moradia social. saneamento ambiental e transporte. As discussões são feitas nas Câmaras Técnicas e depois vão ao plenário do Conselho. a questão do financiamento e a da estrutura institucional necessária. Ministério do Desenvolvimento Urbano e Ministério das Cidades. 6 . lideranças sociais. A proposta de um Ministério da Política Urbana surgiu novamente no Projeto Moradia. O Conselho das Cidades tem Câmaras Técnicas separadas. A essas somou-se uma quarta secretaria. que é fragmentada. mas é preciso também assegurar a integração.

A política de saneamento e a de habitação já foram aprovadas no Conselho das Cidades. tendo sido um dos pioneiros da Articulação Nacional do Solo Urbano criada pela Comissão Pastoral da Terra na década de 1980. Abelardo de Oliveira Filho. V. A capacitação de pessoal é tão ou mais estratégica do que a ampliação dos recursos. um sindicalista. da falta de educação para o trânsito. setoriais e das especialidades. são as prefeituras. Eu fui convidada. 6 . B . 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . Contamos ainda com uma companhia que está situada em Porto Alegre. As características de um trânsito desumano e altamente mortal não são vistas apenas pelo viés do veículo. que é uma obsessão para nossa equipe da Secretaria Nacional de Transporte e da Mobilidade Urbana. As tarefas têm sido enormes: além de criar o Ministério física e institucionalmente. A Companhia Brasileira de Trens Urbanos está construindo quatro metrôs e tem a coordenação de três sistemas de trens. da lista que eles indicaram para a Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental. cresceu e expandiu suas atribuições em relação à Sedu – Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano que o precedeu. N . mas ainda é um organismo extremamente enxuto e sem funcionários de carreira. com grande conhecimento técnico. Recife. antigos e sucateados: os metrôs de Fortaleza. da falta de infra-estrutura. que é a Trensurb. A mobilidade no território urbano não é dada apenas pelo transporte. por exemplo. já no período de R . Ele passou pela Cohab de Salvador e de São Paulo. Como está ocorrendo esta composição. Os secretários nacionais foram indicados de forma democrática com forte acento dos movimentos sociais e também das corporações profissionais – o Secretário de Transporte e da Mobilidade Urbana. foi indicada ao ministro pelo Fórum Nacional de Reforma Urbana. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S . Do Ministério dos Transportes trouxemos duas empresas de trens e metrôs. evidentemente. que tem grande capilaridade. da falta de sinalização. mas pelo uso e ocupação do solo. estamos debatendo com a sociedade a formulação de uma nova política nacional de médio e longo prazos. com recursos do OGU – Orçamento Geral da União. levou à opção por não termos sedes regionais. O presidente do Denatran também foi indicado por diversas fontes pela sua extensa experiência administrativa com o assunto. criado em 2003. Foram aprovadas também as diretrizes da Política de Mobilidade Urbana e estamos preparando a Política Nacional de Mobilidade e Transporte Público. compôs uma lista tríplice com a participação do setorial de transportes do PT e companheiros da ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos. esse olhar – o da relação entre mobilidade. A Caixa Econômica Federal é operadora dos programas do Ministério. E não se trata apenas de pessoal de ponta da Caixa Econômica que precisa ser preparado para o direito à cidade. Belo Horizonte e Salvador e os sistemas de trens em Natal. O secretário de Habitação veio com o apoio dos movimentos de moradia. transporte e desenvolvimento urbano – é muito evidente. o que não é um tema banal: o que cabe ao governo federal nessa área? RBEUR: E quanto aos quadros e competências? Como têm sido formados ou trazidos os quadros que são portadores das memórias institucionais. O conceito de mobilidade. pelas prefeituras de Diadema e de Ribeirão Pires. Vou citar um exemplo paradigmático: aprovar projeto de conjuntos habitacionais fora da rede urbana existente como desejamos é algo que ainda estamos longe de atingir.E N T R E V I S T A res das políticas setoriais a dialogar com enfoque transversal. são os projetistas. executar os programas e ao mesmo tempo reformulá-los. e qual seria a expectativa em termos de profissionais adequados? ERMÍNIA: O Ministério. e entendemos que vai levar um certo tempo para que se chegue a um pacto sobre procedimentos e encaminhamentos. em especial calçadas. Alguns ministérios têm representação regional. mas especialmente dos pedestres. e além de operadora é financiadora quando se trata de recursos do FGTS. Estamos trabalhando com muita dificuldade em razão disso. A criação do Ministério traz algum impacto sobre a Caixa. são as universidades. A urbanista Raquel Rolnik. que dispensa apresentação. A falta de recursos para a criação 110 de um organismo amplo e regionalizado e a existência da Caixa Econômica Federal. do desenho urbano adequado e. Maceió e João Pessoa. O Denatran – Departamento Nacional do Trânsito veio do Ministério da Justiça para o Ministério das Cidades. secretária nacional de Programas Urbanos. a Frente Nacional do Saneamento indicou também alguns companheiros e o ministro escolheu. antigo e respeitado militante da área. José Carlos Xavier. Entendemos que precisamos de muito entendimento e esforço de capacitação para que consigamos disseminar as idéias do direito à cidade assim como o direito à arquitetura.

Acima de tudo neste primeiro momento precisávamos reverter o quadro da extrema contenção de recursos. a equipe do MCidades. V. mudar as ações em curso. ou seja. Os nomes foram indicados por movimentos sociais que na verdade estão na origem de diversas conquistas relativas à democratização da questão urbana – a Constituição Federal de 88. como também alguns Programas Especiais Urbanos (Planejamento. Poder executivo é para executar. e pensamos que o movimento social que resultou na criação do Ministério são parceiros nas nossas ações. um dos seus principais opositores. No entanto. da formulação das políticas setoriais e dos marcos institucionais. andamos em paralelo. mas avançamos bastante. A proposta do presidente Lula era mandar muito rapidamente o PL para o Congresso. assim como o fato de a maior parte dos quadros da equipe do Ministério virem do PT. Todos querem ver resultados a curto prazo: dos agentes do mercado ao movimento social. Se começássemos planejando. que a capacitação ficou a cargo de uma equipe composta de uma única pessoa. e depois acabei ficando na Secretaria Executiva a convite do ministro Olívio Dutra. Risco etc). chefe de gabinete. eventos. Na equipe há também profissionais do PCdoB. N . formam. nele não se encontram quadros originários do espectro mais amplo que hoje caracteriza o governo Lula RBEUR: E quanto ao perfil do profissional que vocês concebem como necessário? ERMÍNIA: Para nós a questão ainda não está satisfatoriamente resolvida. Nós mesmos ainda não temos consolidada essa visão mais holística de amarração das políticas setoriais. Regularização Fundiária. De fato. includente e sustentável. os orçamentos participativos. para participar do desenho do Ministério. a partir da experiência que tivemos durante a elaboração do Projeto Moradia. Os urbanistas pretensamente têm essa visão. Temos de construir esse novo profissional ao longo do caminho e mudar muitos dos paradigmas. B . O projeto de lei da Política Nacional do Saneamento recebeu mais de quatrocentas emendas: é um marco regulatório do saneamento. o Estatuto da Cidade. secretária executiva do Conselho das Cidades. ficamos tão ocupados em institucionalizar o Ministério. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S . Os regionalistas quase não abordam o intra-urbano. para depois executar. não sobreviveríamos. diante dos muitos conflitos que surgiram. mas especialmente nas áreas de Mobilidade e Transporte Urbano. Gestão. Como primeiras medidas criamos programas novos como parte do Plano Plurianual 2004/2007. 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . do PSB e do PPS. gerou algumas críticas. Não conseguimos tudo o que esperávamos. pelo presidente Lula. foi a primeira a ser levada para a discussão pública. e como seguimento dessa relação está também a criação do Ministério das Cidades com a Conferência Nacional das Cidades e o Conselho das Cidades. No início da gestão Lula cometemos no MCidades um equívoco ao acreditar que iríamos construir a curto prazo uma imensa rede de capacitadores ou uma Escola das Cidades. definimos também um novo Sistema Nacional de Habitação que 111 R . para realizar um imenso trabalho de capacitação para uma política de desenvolvimento urbano democrática. somos muito poucos. e a Íria Charão. juntamente com a Caixa Econômica Federal. A Anpur participou de todas as grandes ações. assim como o Ministério da Fazenda tem há décadas a Escola Fazendária. estabelecendo regras para o setor e recuperando a importância da participação do Estado e do controle social.E N T R E V I S T A transição de governo. 6 . A Política Nacional do Saneamento Ambiental. com raras exceções. que nos era muito cobrada. Ainda como parte desse esforço de institucionalização e formulação da política. mobilizações e propostas nessa história da Reforma Urbana. que trouxe da sua equipe anterior do governo do Rio Grande do Sul um pequeno número de colaboradores. entre eles o Dirceu Lopes. No enfrentamento deste desafio a Anpur sempre foi um componente funda- mental. mas. mas têm pensado a cidade de forma muito restrita e dirigida para o mercado. profissional ou militante. a estratégia foi mudada e remeteu-se a proposta para as audiências públicas. A indicação de nomes pelos respectivos setores de atuação. Isso porque o projeto de lei anterior enviado pelo governo FHC não fora aprovado devido a uma ação intensa que teve na Frente Nacional do Saneamento. criar novos programas e rubricas. Do ponto de vista da formulação da PNDU – Política Nacional de Desenvolvimento Urbano. Os movimentos sociais de luta pela reforma urbana criaram um tipo de agente social e um profissional que as escolas. Nós. não avançou como imaginamos. Corremos muito para apresentar resultados a curto prazo. o Projeto de Lei (PL) do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social. Foram 11 audiências públicas que o Conselho das Cidades definiu e acompanhou.

por exemplo. Elas se distribuem pelos mais de 5. poderá evitar ou diminuir desperdícios. de transporte e trânsito. da Ciência e Tecnologia e da Educação. o ensino e a extensão. V. Se conseguirmos mobilizar nossa área. não entrou. ERMÍNIA: Temos de elaborar coletivamente este documento mostrando que o Ministério das Cidades precisa de pesquisa. precisamos de um grande movimento de capacitação. isso poderá ser viabilizado. e isso diz respeito ao Ministério das Cidades: são quase 40 mil mortes no trânsito. bem como vamos buscar a Capes e as fundações estaduais para reforçar a nossa agenda. para a política de priorização das ações (não ouso nem falar em planejamento em alguns casos). R . o Conselho das Cidades e a Conferência Nacional das Cidades definem como participativos. de informação ou de administração da maior parte de nossas prefeituras. e a definição das necessidades à luz da política nacional de desenvolvimento urbano. mas não só. ao longo de muitos anos. Para tomar um exemplo dramático da necessidade de melhor qualificar o gasto público. eu ia dizer isso em seguida. nos diversos níveis. que tem suas próprias demandas de pesquisa. ou mais exatamente asfalto. Não se pretende violar a autonomia da Universidade. vou lembrar que 2/3 do orçamento do Ministério das Cidades em 2005 são formados de emendas parlamentares. Há uma invisibilidade da agenda urbana. estão dirigidos para a infra-estrutura urbana. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S . 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . É inacreditável o grau de carência técnica. Um cadastro multifinalitário pode fazer uma grande diferença para a política fiscal. e junto com as lideranças sociais. Neste momento de inflexão da nossa política de capacitação. Agora estamos fazendo este levantamento. com um grande número de pessoas incapacitadas para o resto da vida. Como dar maior eficiência. a Anpur e toda entidade que tem potencial para auxiliar nessa transformação podem desempenhar um importante papel em nossa estratégia de pesquisa e de capacitação. conceitos etc. de modo a se obter um controle social 112 maior sobre estes investimentos. Trata-se de pactuar uma agenda para o desenvolvimento urbano clamada pela condição urbana no Brasil. RBEUR: Tem que ser uma coisa forte. e começando um choque de gestão nas localidades que são objeto do investimento fragmentado. Iniciamos programas de capacitação em todas as secretarias. B . dividida. mas sim planos diretores que o Ministério das Cidades. ao governo municipal. Estamos buscando a Enap. Só vamos mudar esse quadro com muita capacitação junto com os governos. ensino e extensão. N . política de planejamento. precisa de cursos. A maior parte dessas emendas ou. A política de trânsito. Não se trata de uma tarefa federal. Necessitamos do aporte de cursos de especialização e de pós-graduação. e 400 mil acidentes. Isso tem muito a ver com a pesquisa. participando da elaboração da proposta e influindo com mais força. precisa de capacitação nessas áreas. Para mudar paradigmas.560 municípios do País. para fazer a diferença nesse estado de coisas. especialmente entre os economistas. RBEUR: Este elo fundamental do setor público não entrou ainda na agenda. não se entendeu ainda a relevância desta questão? ERMÍNIA: Perfeito. o CNPq. desarticulada em tantas facetas que muitas nos passam despercebidas.E N T R E V I S T A já foi aprovado no Conselho das Cidades e lançamos as bases para uma Política Nacional de Desenvolvimento Urbano que contém iniciativas também nas áreas da política fundiária e imobiliária. que se articula com mais de quarenta escolas de governo em todo o País. R$ 700 milhões. maior racionalidade a estas emendas para que esse gasto seja coerente com as prioridades locais? Capacitar as prefeituras. obras construídas que não foram terminadas e quando terminadas não entraram em operação. pactuar com os próprios parlamentares.. 6 . a Finep. O governo federal mesmo. Estamos colocando em prática a capacitação para o plano diretor participativo. que não é banal. anuais. há alguns anos. em sua maior parte. É importante cobrar conhecimento e proposições para essa realidade tão seccionada. mas nacional. com todas as entidades ajudando. procedimentos. Para o Ministério fica uma tarefa que a gente não pode delegar: a busca de cooperação entre Ministérios das Cidades. includentes e democráticos. O MCidades não pode dar conta dela sozinho. é uma política que capacita o tempo todo pois o trânsito é uma grande tragédia. Nós temos. financiou obras de transporte que não estavam integradas entre si: uma foi dirigida ao governo estadual e outra. Quer dizer: não é para elaborar qualquer plano diretor. Neste contexto é que estamos pensando o papel da Anpur.

No entanto a PNDU – Política Nacional de Desenvolvimento Urbano tem entre seus eixos estruturantes a terra urbana (ou a questão imobiliária). embora eles encontrem muita dificuldade na aplicação e sejam dependentes da correlação de forças. Eu achava que já conhecia bem a Constituição brasileira. mas não podemos deixar de reconhecer que a situação das gestões metropolitanas está muito insatisfatória. B . publicado em 2004 nos Cadernos MCidades.). a gestão compartilhada. Nós temos enfrentado. volume 1? ERMÍNIA: Combater a especulação. Veja como a questão não é tão simples como se esperava. tem que cumprir determinadas obrigações e regulações. Uma das questões discutidas era: como é que vamos levar uma regulação que exige pla- nos. mas nacional. por exemplo. O Ministério sublinha o fato de que ela não é federal. inserindo-se no sistema. a discussão sobre o pacto federativo. a menos que se trate de área de interesse ambiental. competências. guerra fiscal num mesmo nível de governo. ao mesmo tempo. assim como imensa disputa ou cooptação. Hoje estou aprendendo que é uma constituição de desenho extremamente complexo. dependendo do partido que está aqui ou ali. a Constituição brasileira exige a cooperação. a cooperação que se mostra necessária para o desenvolvimento urbano em especial nas regiões metropolitanas. regras. 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . que ajudam a negar o modelo de apropriação privada da valorização decorrente do investimento público? Tudo isso diz respeito à autonomia dos entes federativos mas. metas. Até que ponto essa dimensão estrutura efetivamente os vários braços setoriais do Ministério? ERMÍNIA: A definição do uso e da ocupação do solo é tarefa eminentemente municipal. Todo mundo reconhece isso. Precisamos respeitar as competências já definidas claramente. A importância do Estatuto da Cidade e dos Planos Diretores é evidente. na hora em que votam a legislação de uso e ocupação do solo. O impacto sobre a administração pública brasileira dessa conquista ainda não está bem assimilado. a segregação e a exclusão territorial é uma tarefa longa e tem que ser produto de uma luta social. mas tem-se. Já podemos festejar um grande avanço nas relações federativas que foi a aprovação da lei dos Consórcio Públicos. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S . que concretamente é uma questão da propriedade. o pacto federativo. Precisamos esclarecer as competências dos diversos entes federativos e decidir se há necessidade de novas leis complementares. que vai permitir a gestão cooperativa ou compartilhada de municípios. concorrentes e complementares. ao contrário. todos os assessores jurídicos do governo federal foram unânimes em dizer que não tínhamos condição de cobrar dos municípios certas incumbências na área do saneamento urbano devido à autonomia dada pela Constituição Federal.E N T R E V I S T A RBEUR: Passando agora para a política de desenvolvimento urbano. de transparência. mas não suficiente. Então. da exclusão social e da segregação. se não podemos aplicar isso aos municípios? A nossa saída é a seguinte: quando o governo federal empresta ao município. Este é um dos temas para a Conferência das Cidades de 2005. quadros etc. uma cultura difícil de ser superada. marcos. A Constituição brasileira pretendeu descentralizar mas. ao mesmo tempo que define competências comuns. é fundamental. Como é que você torna coercitivo o controle social? Como usar todas essas ferramentas de participação social. como diz o documento Política Nacional de Desenvolvimento Urbano. patrimônio nacional ou patrimônio da União. inclusive a Comissão de Desenvolvimento Urbano do Congresso Nacional. limitou essa descentralização por meio das competências comuns e concorrentes. nem por meio de uma lei aprovada no Congresso Nacional. N . RBEUR: O fundamento deste pensamento holístico estaria centrado nos usos do solo. Também do ponto de vista econômico existe uma dependência muito grande dos municípios em relação aos demais níveis de governo. Discutindo o sistema de saneamento. muito mais do que eu esperava antes de entrar no Ministério. governos estaduais e União sob a égide do direito público. 6 . Estados e municípios? Quais os meios de “reverter a cultura política hegemônica” que tende a favorecer uma cidade para poucos. também. ou seja. Instrumentos legais nós temos. indicadores de desempenho e controle social. A legislação avançada não é suficiente para resolver os problemas da desigualdade. o financiamento e a estrutura institucional (leis. A luta social e o controle sobre as Câmaras Municipais. V. Hoje você não faz uma política de habitação chegar 113 R . porque ela define autonomia para os três níveis de governo. o município se insere no sistema e. Qual tem sido a efetividade dos instrumentos de articulação entre União. ao pacto federativo.

mas creio que a mudança do produto assim como o patamar tecnológico da construção devem demorar. Em 2000. como disse o Nilton Vargas ainda na década de 1970. Esse novo marco será capaz de dar conta dessas três dificuldades? Como ele se situa diante das pressões por um projeto privatizante? ERMÍNIA: O principal conflito hoje dá-se em torno à gestão metropolitana. Este é um problema estrutural do País: um mercado extremamente restrito. Se todo esse dinheiro for despejado num mercado altamente especulativo. contra o projeto porque R . 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . São trabalhadores que têm carteira de trabalho assinada. Para 2005 um montante equivalente a R$ 12 bilhões deverá ser aplicado no mercado. Estamos sendo bem-sucedidos no esforço paulatino de reverter o destino dos recursos que estão em mãos do governo federal para as camadas de de baixa renda. se realiza por meio do Plano Diretor. as quais concentram 92% do déficit habitacional. a concentração da propriedade urbana. daí nossa preocupação com a reforma fundiária e imobiliária. O orçamento do FGTS prevê mais de R$ 8 bilhões para moradia e R$ 2. Se essa proposta se desenvolver como planejado. Muitos dos Executivos e Legislativos de municípios de pequeno. N . com essa margem de lucro e com essa baixa produtividade. Os recursos federais públicos e semipúblicos (FGTS e demais fundos) estão sendo dirigidos para as faixas de renda situadas entre zero e cinco salários mínimos (SM). Passamos de menos de 20% do montante destinado às faixas de até cinco SM em 2000 para uma projeção de 60% em 2005. ineficiência na gestão e limites do Conselho Monetário Nacional impostos aos empréstimos a órgãos públicos. A maior parte das prefeituras no Brasil simplesmente não se prepara. Os bancos fazem pressão o tempo todo para diminuir o montante porque estão prevendo que não vão gastar. As companhias estaduais se colocam.. teremos o indesejado resultado de aumentar o preço da terra e da moradia. a tradição patrimonialista que marca também o urbano são as grandes causas de toda a ilegalidade que temos. por um zoneamento que permita construir habitação social. alegando que “não tem demanda”. onde estão localizados apenas 8% do déficit habitacional. O mercado brasileiro faz um produto de luxo ou. daí nossa preocupação com a função social da propriedade prevista no Estatuto da Cidade que.. que tem mais poder para ser ouvida. grosso modo. Governos estaduais. 6 ..7 bilhões para saneamento (o orçamento do FAT dispõe de mais R$ 600 milhões para saneamento). Se não inserirmos a classe média no mercado privado vamos continuar gastando subsídio com ela. Os dados mostram que o financiamento privado foi ampliado em 53% no início de 2005. mais de 80% dos financiamentos e investimentos federais em habitação – que não são exatamente públicos. Há muito de utopia nessa coisa mas quem sabe. como todos sabem. V. já que a terra é insumo fundamental para a produção em maior escala. Avançou por enquanto. porque o FGTS é gerido por um conselho curador do qual o governo participa e preside – estavam dirigidos para o conjunto dos que ganham mais de cinco salários mínimos. nem se fala. e ignorando as camadas baixa renda. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S . 114 Combinada à ampliação do mercado privado estamos colocando em prática uma política para a baixa renda. Com isto não se resolvia nem o problema da classe média (que também chega a morar em favelas) e muito menos da baixa renda. A aprovação de uma lei enviada ao Congresso Nacional e uma resolução do CMN (ambas em 2004) mudaram a situação do mercado privado: os recursos do SBPE – Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo que estavam retidos no Banco Central foram desovados para o financiamento privado. o policial militar etc. grande parte delas. A falta de políticas fundiárias. É preciso incluir nesse mercado o professor primário e secundário e até o universitário. RBEUR: Como fica a relação com o mercado no âmbito do novo marco regulatório do saneamento? Na análise do Ministério.E N T R E V I S T A nas camadas de baixa renda se o mercado não atingir a classe média. visa-se superar problemas de indefinição de competências. com esse “artesanato de luxo” para essa faixa de renda com esse preço da terra. Temos os primeiros sinais de que estamos mudando essa situação. e não lutam por uma legislação. não enfrenta essa questão. esperamos ter o setor produtivo apoiando a reforma fundiária. porque as próprias prefeituras têm dificuldade de chegar na terra. Atualmente o mercado privado atinge cerca de 22% da população brasileira. B . médio e até mesmo de grande porte são liderados por proprietários de terra e de imóveis. Por que não tem demanda? Não tem demanda se mantida a estrutura de mercado como ela se encontra hoje.. um artesanato de luxo.

Hoje. em grande parte do Brasil. numa situação de caos. são ineficientes. Para que o Ministério não seja reduzido a um balcão.E N T R E V I S T A este reconhece a titularidade municipal fixada pela Constituição de 88. Seria um absurdo. Muita prefeitura conseguia recurso para habitação se. bem como a participação social e o 115 R . metas. não reconhecer a necessidade desse compartilhamento. 6 . RBEUR: Não haveria riscos de a responsabilidade municipal favorecer a privatização dos sistemas? ERMÍNIA: Na época do Planasa – Plano Nacional de Saneamento e do BNH. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S . Nova Iguaçu está com contrato irregular com a Cedae – Companhia de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro. Formaram-se grandes empresas públicas e nem todas foram bem administradas. Mesquita foi desmembrada de Nova Iguaçu há quatro anos. A maior parte dos municípios não tem organismo voltado para o saneamento e muitas das concessões estão em situação irregular. Ele não deixa de reconhecer – e nem pode – a existência e papel das companhias estaduais. V. Se algum ministro quisesse projeção política por meio da aplicação de emendas. outra grande parte tem a titulação só do esgoto. como se tem dado essa relação? ERMÍNIA: O Ministério das Cidades é fruto deste movimento social que lutou muito tempo para incluir a questão urbana na agenda nacional. Essa centralização foi compulsória. Muitas estão falidas. sem regras ou base jurídica clara. mas entre a titularidade nas Regiões Metropolitanas. Esse debate está atrasando seu envio para o Congresso. Ele reconhece essa possibilidade de compartilhamento do serviço de saneamento. Apenas por meio do financiamento que inclua no contrato a etapa do DI – Desenvolvimento Institucional podemos tornar compulsório um plano local. Muito município lutou para ficar com o controle da água e do esgoto no passado. mas está buscando alternativas. Mesquita está com a Cedae fornecendo água de forma insatisfatória. elaboração de cadastros. RBEUR: Passando a uma outra área de indagações: com respeito à articulação com a sociedade civil organizada. durante o regime militar. além de enfatizar instrumentos de planejamento. Não há nenhum contrato entre eles e o município não sabe bem o que fazer diante desse quadro. Estamos. Cito o exemplo do município de Mesquita na Baixada Fluminense. O principal conflito não está entre estatizar e privatizar. desse a concessão do saneamento para a companhia estadual. controle social e transparência. Ele passou por 11 audiências públicas e recebeu mais de quatrocentas contribuições para mudanças. aliás a maior parte. Nosso projeto incorpora as PPPs – Parcerias Público-Privadas. desempenho. uma grande parte dos municípios brasileiros ainda tem a titulação da água e do esgoto. encontraria no Ministério das Cidades uma situação propícia. através dos Conselhos e das Conferências. B . O que impede que o MCidades se transforme em um balcão de negociação de emendas apenas é a orientação do ministro e da sua equipe em parceria com os atores que constituem a sociedade organizada. a financeira e também a institucional. e foi forçado a ceder. Muitas das companhias estaduais. como mostram os órgãos que nos antecederam. ele tem que ser o coordenador de uma política nacional. assim como todos os municípios da Baixada Fluminense que estão descontentes com a situação. centralizar os serviços de saneamento. Hoje. 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . o papel do Estado e o papel dos municípios. mas não deixa a menor dúvida sobre o papel do Estado como o formulador e gestor da política. N . Esperamos que o contingenciamento dos empréstimos ao setor público vigente neste começo de 2005 seja transitório. Não será a competência estadual ou municipal que deverá facilitar a privatização. numa mesma bacia ou numa Região Metropolitana. e uma parte maior ainda está numa situação completamente irregular. 2/3 do orçamento do Ministério é composto por emendas. Foi forte a crítica das empresas estaduais de saneamento às primeiras versões do projeto. A proposta de um Ministério das Cidades seria completamente diferente sem a participação social. Essa visão do Ministério de que a questão fundiária não pode ser desligada da questão do financiamento também pode ser abandonada rapidamente. porque em nível federal não há formas evidentes de fazer uma vinculação muito profunda entre essas questões: a fundiária. era orientação do governo federal. em contrapartida. Mas essa discussão avançou. A discussão entre a Assemai – Associação das Empresas Municipais de Saneamento e a Aesb – Associação das Empresas Estaduais ainda não chegou à maior parte da população brasileira.

a participação e a cidadania. Vamos ver se este ano as negociações políticas para a renovação do Conselho permitem que essa ausência seja superada. e nem poderia. depois de se enfrentar as questões mais imediatas. adequarmos os ônibus brasileiros e as cidades brasileiras à mobilidade dos idosos e portadores de deficiência. Aprovou ainda o Sistema Nacional de Habitação. Não conseguíamos nem mandar gente do Ministério para todas as reuniões. estaduais ou dos segmentos como de arquitetos. mas os atores organizados foram fundamentais. porque a Anpur tem de fato um acúmulo que é fundamental para aquele Conselho. N . Estavam presentes diretores de bancos. B . V. a Política Nacional do Saneamento Ambiental. o que é lamentável. A secretária de Programas Urbanos Raquel Rolnik acertou um convênio por meio do qual os cartórios vão fazer registro gratuito quando se tratar de moradia de interesse social. O ministro Olívio Dutra falou: “vamos chegar a mil. Com o saneamento idem. Quando se discute habitação ou programas urbanos. No momento estamos discutindo um texto básico para a próxima Conferência. Nós tivemos dificuldade de pagar a instalação da Conferência para tanta gente –– 2. A questão fundiária. do Judiciário e do Ministério Público. por exemplo quantas famílias moram ilegalmente. 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . dois mil”. e por isso ela foi tão bem-sucedida. O Conselho aprovou também o programa de regularização fundiária que não existia no governo federal. RBEUR: Do ponto de vista da democratização da dinâmica decisória. O que aconteceu foi que o Ministério não realizou isso sozinho. considerado o alcance da crise urbana. esse braço organizado da política urbana que saiu construindo literalmente as conferências municipais e estaduais. Onde vai morar a maior parte da população R . Foi a mobilização social. deve ser garantida pelo controle social que no MCidades é exercido especialmente pelo Conselho das Cidades. a Política Nacional de Trânsito. 6 . trata-se dos direitos da população excluída.800 delegados. em loteamentos ilegais ou em áreas de risco. e que começou a deslanchar em meados do ano passado. quantas famílias moram em favelas. discutida e enfrentada? ERMÍNIA: A questão da segregação é um tema constante no Conselho. que tem na prefeitura seu agente central e que depende também dos Cartórios de Registro de Imóvel. da fragmentação e dos conflitos urbanos? A questão da segregação socioespacial pode vir a ser. como faz o Programa Habitar Brasil de urbanização de favelas. dentro do prazo previsto pela lei. Ficamos assoberbados com tantas conferências municipais. diretrizes da Política de Mobilidade e Transporte e revisão da Lei de Parcelamento do Solo. um país de tanta desigualdade e discriminação. Quando se discute mobilidade. que sentaram ao lado de lideranças sociais de favelas e assim por diante. reunião de universitários. esse tema vem à tona a todo o momento. de engenheiros. Por meio dele muitos municípios começam a se conhecer melhor. Os governos estaduais e municipais foram os promotores do evento. Essa política. o que é que esses espaços conseguem incorporar em seu âmbito. Foi uma construção árdua. diretrizes e prioridades da política urbana. Então criamos o Conselho das Cidades e quatro Câmaras Técnicas que começaram a funcionar a partir de 2004. A campanha do Plano Diretor pretende fazer com que os Planos apontem onde vai ter moradia social no interior das áreas urbanizadas. não é uma atribuição direta do Executivo federal senão sob alguns aspectos específicos. de centros de pesquisa e de movimentos sociais que estavam discutindo o que foi colocado na I Conferência – os princípios. Nós realizamos a I Conferência Nacional das Cidades atingindo mais de 3.400 municípios. Estamos colocando a questão nesses termos bem simples.766. regionais. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S . Não é pouco para a história do Brasil. transporte e acessibilidade o que está em pauta é o direito à cidade. O Conselho das Cidades agora criou um grupo para fazer acompanhamento do orçamento do Ministério das Cidades e outro grupo para ajudar a organizar a II Conferência Nacional. como já foi destacado. Eu duvidava que chegássemos a quinhentos municípios. O Conselho das Cidades aprovou uma campanha para o plano diretor participativo que o Ministério vai levar às ruas durante este ano.E N T R E V I S T A acompanhamento pós-ocupação. Lei 6. Discutiu-se o Programa Brasil Acessível que inclui duas 116 leis que regulamentamos e uma rede com setor empresarial de produtores de veículos para. um esforço coletivo. mas acho que foi realmente um mutirão. que faz avançar a administração. Infelizmente a Anpur ficou fora do Conselho na condição de titular. É um programa cuja implementação não depende apenas do Ministério.

por isso teremos de trabalhar muito para não termos novamente uma indústria de PDs que fazem mais mal do que bem.E N T R E V I S T A que hoje não tem lugar na cidade formal. que na verdade são 12 pontos. 4 Prioridades da política urbano/regional e metropolitana (nesse caso teremos em mãos estudos que estão sendo desenvolvidos em várias universidades federais). 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . não busca soluções para a maioria que está excluída.. RBEUR: Não caberia pensar um curso em que se projetasse a cidade democrática? ERMÍNIA: O IAB [Instituto de Arquitetos do Brasil]. Trata-se do direito à cidade e do direito à moradia. aliás. muitos dos CIAMs. os recuos dos investimentos e a tendência de privatização. como acontece freqüentemente com legislações urbanísticas que reforçam a segregação e a ilegalidade. Estamos pensando no edifício e no desenho urbano. RBEUR: A articulação entre luta social e capacitação numa visão mais abrangente do que a corporativa em relação ao direito à cidade tem se manifestado recentemente? ERMÍNIA: Sim. Como o tema da reforma ministerial é recorrente estamos sempre tentando consolidar o estágio presente para. precisamos chegar aos advogados e demais profissionais para as assessorias técnicas. se houver substituição da equipe do MCidades. mas a nova semente é forte. O discurso atual do pessoal dos transportes é emocionante se levarmos em conta que até há pouco tempo o campo foi dominado pela matriz corporativa daqueles que chamávamos de “transporteiros”. respeitando. vai conduzir uma campanha pelo Direito à Arquitetura para Todos. Os temas gerais são os seguintes: 1 Participação social na política de desenvolvimento urbano nos três níveis de governo. interior de São Paulo e Norte do Paraná. Além dos engenheiros e arquitetos. Não se trata de uma questão corporativa. As campanhas são as seguintes: a Plano Diretor Participativo – em que a questão fundiária e imobiliária terá centralidade com a aplicação do Estatuto da Cidade e a função social da propriedade.. B . sem que todos os estudos estivessem concluídos. Para discutirmos a PNDU na próxima Conferência o Conselho das Cidades elegeu quatro grandes temas gerais e quatro campanhas de temas mais específicos. mas em especial no CentroOeste. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S . deixarmos algo de pactuado e consolidado. no entanto a formação profissional ainda é compartimentada e elitista. a Abea. Entendemos que a PNDU será reescrita e complementada após a Conferência de 2005. 3 Financiamento do desenvolvimento urbano. como vacina ao PD tecnocrático e burocrático. o FNEA – os estudantes de Arquitetura –. Os cadernos foram redigidos um tanto prematuramente. A desregulamentação dos serviços públicos. 6 . o Confea. tem. dominantes nos anos 90. e lançados no final de 2004. RBEUR: Como esse debate está se organizando com vistas à próxima Conferência das Cidades? ERMÍNIA: Lançamos oito cadernos da Política Nacional de Desenvolvimento Urbano. N . difundindo a relação entre transporte e uso do solo. há muitos anos. legal e urbanizada? Ela não pode ser ignorada. todas as áreas das quais o MCidades se ocupa. Relacionar esses problemas com a exclusão territorial nos leva a entender as causas dos dramas que nossas cidades vivem. Pretendemos usar um decálogo. Na maior parte das cidades brasileiras. ou seja. 117 R . 2 Pacto federativo ou cooperação intergovernamental para o desenvolvimento urbano. atingem. a qual dominou. Sul de Minas. o absurdo número de lotes vazios constitui um problema muito grave para o custo da infra-estrutura. A Federação Nacional dos Arquitetos vai conduzir uma campanha pelo direito à cidade e ao urbanismo e também pela universalização da Assistência Técnica também para a moradia social. os limites legais e ações em andamento. O que eles têm de bom é o acúmulo de muitos anos de tudo o que fizemos e que avançou como política institucional do MCidades. Essas campanhas envolverão os Creas. Sempre é importante lembrar que entre intenção e fato há uma profunda distância. Ainda temos muito resquício da matriz antiga sem dúvida. em parceria com o Ministério das Cidades. A ANTP vem. de modo geral. especialmente na moradia chamada impropriamente de social. obviamente. V. Eles pensam de forma holística. Mas precisamos atingir nossas instituições formadoras de profissionais e pesquisadoras. em especial aquela ligada aos transportes.

na Amazônia. Nesse sentido temos atuado de forma muito cooperativa com a SAF – Secretaria de Assuntos Federativos. como é o caso da Região do Arco do Desmatamento. esperamos avançar com esse assunto tanto 118 em relação à própria União quanto na relação federativa. Onde foram parar as heranças de Caio Prado e Celso Furtado? R . após aprovação pela Câmara Federal. No seminário que lançou a Proposta Nacional de Desenvolvimento Urbano. Foi lançado um Plano Nacional de Desenvolvimento Regional e nós estamos perfeitamente afinados com aquelas linhas gerais e diretrizes. V. sobretudo com aquilo que podermos chamar de ministério do território. apenas para lembrar alguns. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S . MMA. em especial à política fundiária e imobiliária. e a Região do Pantanal (ambas de interesse do MMA). Economistas em todos os níveis. Sou parte do governo e espero por mudanças que nos permitam enfrentar os problemas considerando a escala que eles apresentam. Todos concordam entretanto que temos muito pouco acúmulo no País para definir tal estrutura neste ano sem uma discussão ampla. pois vários são os ministérios que elegem regiões prioritárias para intervenção. O quadro atual da gestão metropolitana não é nada satisfatório. Região do Semi-Árido (Intermini) e Região do Vale do Jequitinhonha (MIN. nós ficamos um pouco assoberbados e sem poder responder satisfatoriamente a todas as demandas. Muitos dos participantes do Conselho das Cidades defendem institucionalização da participação social na política urbana ou mesmo um sistema à semelhança do SUS. abrangente e democrática. d Acessibilidade e mobilidade – campanha por uma cidade mais acessível para os idosos e pessoas com deficiência. essa constatação é notável. imaginando-se a coisa econômica desconectada da questão territorial? ERMÍNIA: Sem dúvida. Como parte dessa política foi criada uma Câmara Interministerial de Desenvolvimento Regional e essa câmara criou alguns grupos de trabalho interministeriais visando a integração das ações federais e algumas regiões. RBEUR: Há uma alienação territorial incluindo as metrópoles? Abstraem-se os fluxos. no entanto. Mesmo nos abundantes relatórios internacionais sobre a pobreza a pouca importância dada às cidades é notável. N . não só os da máquina do governo federal. MDS e outros). Estou sempre procurando entender por onde passa a continuidade e as mudanças. já que a professora Tânia Bacelar participou daquela construção e hoje nos assessora na proposta da política urbana/regional. no caso seria esse Ministério da Integração Nacional? ERMÍNIA: Essa é uma relação que estamos construindo. que há muito a fazer nessa questão territorial. A questão metropolitana é especialmente delicada devido às competências federativas. É preciso reconhecer. Quero apenas comentar aqui a constatação das dificuldades dos economistas enxergarem a questão urbana. O que as determina. como fica a relação do Ministério das Cidades com os outros ministérios mas. RBEUR: E quanto a isto. Regiões de Fronteira (MRE. Ficamos impressionados como isso não é visto. c A aprovação do PL do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social – que está há quase 13 anos no Congresso Nacional e que no momento está no Senado. 6 .E N T R E V I S T A b A aprovação do PL da Política do Saneamento Ambiental – que pretende fornecer regras e dar um marco institucional para uma área que está muito desregulada. porém quando o governo federal toca no assunto há reações de um ou outro governo estadual contra o que é interpretado como uma intervenção indevida. limitam a ação transformadora: há sinais de percepção no interior do Estado dessa forte associação entre a crise urbana e as grandes escolhas macroeconômicas? ERMÍNIA: Eu tenho me recusado a fazer comentários sobre a política macroeconômica. insistimos na questão da relação entre desenvolvimento urbano e desenvolvimento. que pertence à Secretaria de Coordenação Política. Como há cidades em todos eles. que certamente. O MCidades ganhou a coordenação de um GT que trata das regiões metropolitanas. 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . MIN e Defesa). RBEUR: Você poderia falar um pouco dos constrangimentos de ordem macroeconômica. Como nossas pernas são mais curtas do que nossas tarefas. como vocês sabem. Como o problema é pauta da Conferência Nacional deste ano e estamos desenvolvendo diversos estudos e ações visando um pacto federativo. nós sabemos. B . não demos ainda a devida velocidade ao assunto que é central.

O financiamento do governo federal seria condicionado a uma política de integração dos transportes. especialmente nas áreas dinâmicas no Brasil. levar em conta a dinâmica regional. legitimidade. Norte. no Ministério. economia de insumos como pneus etc. Mostramos como um corredor de ônibus permite economia de combustível. O Ministério das Cidades está representando uma proposta. mas ao construir e asfaltar vias para escoar a soja poderão aparecer favelões nas beiras de estradas. Estamos conquistando muitos prefeitos. um trabalho mais pedagógico do que propriamente preparar quadros. mas o financeiro. os documentos do Ministério falam em “tentar favorecer novas centralidades”. com a sua missão de coordenar este esforço nacional. ERMÍNIA: Se você pegar as políticas setoriais e mesmo a política intra-urbana holística. Mas a lógica do julgamento não é econômica mas financeira. Vejo que na nossa ação a comunicação é fundamental. redução de acidentes com mortos e feridos etc. Como é que nós entramos na agenda política. B . Essa proposta conquistou muitos cargos municipais a partir da última eleição para prefeitos. Essa é a lógica utilizada para aprovar projetos que compõem as exceções em relação ao superávit primário. da passagem ao conhecimento. O debate não está suficientemente maduro e volta e meia retornamos para algumas teses antigas como foi o Programa de Cidades Médias dos anos 70. redução da poluição. não seria preciso cidade nenhuma para a soja. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S . Fizemos uma proposta para a área de transporte coletivo para compor os famosos “projetospilotos” negociados com o FMI. Quando a gente discute no Ministério constatamos um mundo de boas intenções mas freqüentemente os recursos das emendas tomam caminhos fragmentados. Ocupar o espaço político é o que me preocupa o tempo todo. 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . exatamente. mais eficazes. passaram pelos nos119 R . poder político. Temos experiência de reflexão. evidentemente. nós estamos bem preparados. rapidez do tráfego. pois retira automóveis de circulação. esqueceram as cidades. podemos decidir fortalecer os pólos médios regionais. Mas. Eu estou olhando isso com a tranqüilidade de que vamos. outros nos assinalam os pequenos municípios de base rural e a necessidade de neles desenvolver consórcios ou associações de municípios para qualificar e segurar os jovens. Por fim. o que levaria e uma economia maior. Se você pegar a questão do território nacional – eu não sei se chamamos isso de questão regional – é diferente. 6 ..E N T R E V I S T A RBEUR: Há uma preocupação. Em princípio. na lógica prevalecente. com a menção às perdas econômicas do mal desenvolvimento? ERMÍNIA: Percebo que. importância nesse quadro de invisibilidade do território e das cidades. RBEUR: Na experiência dos eixos do Avança Brasil. teríamos de nos concentrar nas regiões metropolitanas porque 80% das favelas estão ali localizadas. de administração e de militância. foi o que percebi com meus parcos conhecimentos na área. Numa segunda escolha. diminuição de horas perdidas. estamos construindo uma tipologia de cidades que vai. ERMÍNIA: Aí tratar-se-ia de conscientização. dada a nova configuração da rede urbana. O PNUD divulgou há pouco o que deveria ser prioridade – seiscentos municípios carentes. como ganhamos espaço político. Para buscar as prioridades da política urbana partindo de uma visão territorial. ou inter- vir onde o Brasil está crescendo muito. dar perspectiva e condição econômica e social para estes jovens. CentroOeste e alguns lugares do Leste. na agenda encontra-se até a luta para garantir a existência do Ministério sem tornar-se um balcão. De alguma maneira. É difícil ser ouvido a partir de outro lógica. Haveria que se construir um arrazoado para a interlocução com fabricantes de emendas que querem o bem dessas populações que representam mas não têm a noção da relatividade daquela decisão no âmbito do desafio de se fazer políticas mais articuladas. caberia talvez pensar em espaços de persuasão. São pessoas que passaram pelos nossos cursos (das nossas universidades). nos textos da Política Nacional de Desenvolvimento Urbano. onde racionalidades distintas encontram-se em jogo. como revela a história geopolítica do Brasil. Calculamos o valor de tudo isso. falamos aqui da necessidade de capacitação. no final de 2004. Numa primeira opção. ter um amplo debate com propostas que não são simples. N . RBEUR: Na discussão sobre cidade e desenvolvimento regional. Põe-se dinheiro na obra desde que a rentabilidade daquele dinheiro que você vai investir for maior do que a de outro negócio ou se o retorno medido pela rentabilidade financeira for maior. V. não é o prejuízo econômico que mais conta. Nesse sentido.

Tem alguém lá que defendeu nossa proposta. Em relação à mídia. O que eu sinto é que estamos avançando muito rapidamente nesses dois anos. Raramente você vê notícias sobre cidades nos cadernos de política nacional. externamente à Comissão de Desenvolvimento Urbano. 6 . com todos os valores que a gente sempre quis. como governo. Eu acredito que nossa geração vai realizar a utopia de criar uma Política Nacional de Desenvolvimento Urbano democrática. Pois mudança cultural é o que importa. solidária. Tecnologia e Capacitação. a Anpur é o principal interlocutor porque não poderemos fazer essa capacitação só pela via das ONGs. Não digo que seja interessante essa identidade entre papel da sociedade e papel do governo. Tudo isso estava muito pulverizado apesar do esforço do movimento de reforma urbana. Avançamos em nossas relações com a equipe que coordena os trabalhos e com vários parlamentares. a partir da Conferência de 2005. envolvendo ciência e tecnologia. pelas nossas mobilizações. você pode dizer que há espaço para uma ação política que leve a algum tipo de transformação? A despeito de constrangimentos de ordem econômica e da carência de recursos. assumiu as propostas do Conselho e do Ministério e divulgou nossas políticas em elaboração. N . B . É preciso lembrar que. nós apanhamos também. tecnologia. Por quê? Porque sempre falamos que o Estado tinha que assumir o seu papel de regulador. na medida em que o Ministério se tornou um espaço de cobiça na reforma ministerial mas especialmente porque concentra muitas emendas. O que eu depreendo daí? No Congresso Nacional. a discussão foi importantíssima e ganhamos muita gente para o debate democrático). acho que ela deveria entrar no Conselho das Cidades. do Conselho e das Conferências. que um companheiro. RBEUR: O que o Ministério entende poder ser a contribuição da Anpur? ERMÍNIA: Em relação à Anpur. Tivemos sim uma troca intensa com a Comissão de Desenvolvimento Urbano da Câmara Federal. a coisa já seria completamente diferente. eu não pude ir no Encontro do Confea em São Luís (houve reuniões dos Creas no País inteiro. social. Alguns prefeitos estão percebendo isso. houve um avanço. depois o extinguiu ou transformou-o para caderno “Cotidiano”. mas percebi. os assuntos. democrática e transparente. Em relação aos economistas já comentei nossa invisibilidade. que fizeram teses com denúncias ou com busca de saídas. 120 não é isso. R . 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . que é do Conselho das Cidades. Foi maravilhoso. se olharmos todo o tempo de caminhada. Há garantias de que ela seja sustentável? A única forma de garantir sua sustentabilidade – embora sua institucionalização seja importante – é a luta social. Quando chegou no orçamento final. fui em várias. Paulo criou o caderno “Cidades”. Ele tem essa postura dedicada para a organização popular. os financiadores. ainda que absolutamente insatisfatório – a Folha de S. nós ainda não somos agentes. A conjuntura não estaria a favorecer uma mobilização do movimento social e intelectual em consonância com a dinâmica desse Ministério? ERMÍNIA: Se vocês estivessem no Conselho das Cidades. RBEUR: A agenda de pesquisa deve ser conversada de ministério para ministério. esse avanço e esse crescimento. Já abandonei muito lugar porque eu não via essa mudança. RBEUR: Para concluir. Nessa. Nós temos muita dificuldade ainda de entrar na agenda do Congresso. que redunda em asfalto. há processos que valem a pena ser desenvolvidos? ERMÍNIA: Sou uma pessoa muito crítica. Nós o somos. especialmente. sobre sustentabilidade urbana. O ministro Olívio Dutra é um uma pessoa voltada para a o interesse público. Temos tanto a discussão da proposta que a Tânia Bacelar vai trazer envolvendo uma Política Territorial Urbana para o País. principalmente com a criação do Ministério. Mas acho que estamos avançando em visibilidade. como a proposta de Política de Pesquisa.E N T R E V I S T A sos movimentos. e para quem a gente se dirige. pesquisa e capacitação. definindo os interlocutores. lendo o jornal. Por exemplo. Necessitamos de um primeiro documento para discutir ciência. V. de ministro para ministro. O assunto vai para o caderno de política local. Entre suas cinco prioridades para o orçamento de 2005 a Comissão elegeu quatro que eram coincidentes com as prioridades do Ministério. caíram as quatro prioridades e permaneceu uma: exatamente a que diz respeito à infra-estrutura. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S . pelos nossos eventos. falo do projeto em si. Algumas entidades profissionais e sociais estão defendendo a proposta do Ministério como se fosse uma coisa delas.

Em linhas gerais. aproveitando as oportunidades que se apresentam e limitando possíveis efeitos nocivos. 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . Em sua primeira edição (Aube Nord. O urbanismo surge na segunda modernidade. La République contre la ville. dentro de um programa que se propõe a contribuir para “o desenvolvimento de uma cultura prospectiva regional” (segundo J-F. e não do grupo ao qual pertence o indivíduo. de ser o enquadramento espacial de uma nova sociedade” (p. relacionada à diversificação de funções e ao desenvolvimento da divisão técnica e social do trabalho. Pelo menos outras duas edições. à apreciação do indivíduo. desencadeiam uma terceira revolução urbana moderna e colocam em pauta mudanças nas formas de conceber. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. a mobilidade torna-se uma questão importante. Diferenciação social.LES NOUVEAUX PRINCIPES DE L’URBANISME François Ascher Paris: Éditions de l’Aube. A segunda parte do livro. econômicas e sociais. Modernidade é o resultado de um processo (modernização) de permanente transformação social. N . a cidade renascentista é moderna porque “é projeto. são apresentadas as proposições para enfrentar os desafios da nova fase da modernidade. indício da mobilização científica e técnica demandada para garantir o bom desempenho dos sistemas de 123 R . produzir e gerir cidades e territórios. em “Os princípios de um novo urbanismo”. O desenvolvimento e a autonomização da ciência. correspondentes a diferentes “revoluções urbanas modernas”. ela cristaliza a ambição de definir e dominar o futuro.– especialmente aquela elaborada na forma do conhecimento científico – para o balizamento das tomadas de decisão. Finalmente. instrumento com o qual a sociedade pode enfrentar as transformações urbanas em curso. construindo um panorama sobre a sociedade e o urbanismo contemporâneos (Métapolis ou l'avenir des villes. na qual são distinguidas três fases. O texto está organizado em quatro partes. em coleções diferentes (Intervention/Monde en cours. B . pela perspectiva. 1998. Individualização diz respeito à identificação da pessoa. No recorte temporal apresentado. 2004. 1995. da Mission prospective du Conseil régional Nord-Pas-deCalais). a emancipação política da civitas e a emergência do Estado-nação contribuem para reestruturar as cidades: o novo poder do Estado toma lugar central e apresenta-se. (l’Aube poche essai. 6 . 2001). cujo rebatimento espacial é discutido na parte seguinte: “A terceira revolução urbana moderna”. Sua publicação recente em formato de bolso consolida o reconhecimento do autor que vem.) Pedro de Novais Lima Junior (UFV) As sociedades ocidentais adentram uma nova fase da modernidade. feignons d'en être les organisateurs. A argumentação é enriquecida de uma reconstrução da história dessa relação. 2001. 2004). 2001) o livro recebeu apoio da Região Nord-Pas-de-Calais (coletividade que compõe um dos níveis da administração territorial francesa). e l’Aube poche essai. Racionalização é indicativa do desprezo da tradição e do valor atribuído à experiência. foram lançadas pela mesma editora. A análise detém-se na modernidade. A descrição cuidadosa da relação entre as cidades e a organização e dinâmica sociais é necessária para garantir legitimidade aos preceitos que Ascher defende como adequados para nortear as intervenções urbanas contemporâneas. nas ciências e técnicas.13). trata da presente fase do processo de modernização. como elemento base da constituição do todo social (p. esse é o contexto construído por François Ascher (2001) com o fim de subsidiar sua argumentação sobre a emergência e sobre a necessidade de um novo urbanismo. Em “Urbanização e Modernização” encontra-se delineada a relação histórica entre as cidades e as sociedades modernas e entre o que são consideradas como sucessivas revoluções urbanas e as respostas urbanísticas que procuraram fazer-lhes face. recurso lógico para sustentar a novidade dos princípios urbanísticos apresentados. Profundas transformações nas formas de pensar e agir. explica o aumento da diversidade e das desigualdades entre indivíduos e grupos e a constituição de uma sociedade cada vez mais complexa.16). referido ao futuro e impulsionado pela combinação de três dinâmicas diferentes: individualização. as cidades são expandidas e suas ruas alargadas e diferenciadas funcionalmente. nas relações políticas. as mudanças quanto ao lugar da religião. intitulada “A terceira modernidade”. Conforme nota Ascher. Stevens. reveladoras da estrutura de argumentação do autor. há algum tempo. Ces événements nous dépassent. racionalização e diferenciação social. a primeira fase da modernidade corresponde à Renascença.

Ascher emprega a noção de sociedade hipertexto para designar a emergência de indivíduos socialmente plurais. A aceleração do processo de transformações.18). pois. Intensifica-se. conforme materializadas no ambiente construído. pelo planeta. que pertencem.26). A demanda por reflexividade também justifica a importância atribuída às ciências cognitivas e o interesse em novas formas de representação da realidade. Nessa média modernidade. A consciência das condições de limitada racionalidade suscita uma crescente mobilização de conhecimentos para instruir a tomada de decisões. é quando “nos tornamos verdadeiramente modernos” (p. A acentuação das três dinâmicas constitutivas da modernização conforma uma sociedade mais racional. Assim. informações e pessoas. que se manifesta na constituição de grupos sociais cada vez menores. por exemplo) sejam acompanhadas de processos reflexivos: é necessário examinar permanentemente as escolhas possíveis e reexaminá-las em função do que se começa a fazer (p. Como a mobilidade física aumenta – os avanços tecnológicos permitem a autonomia diante dos constrangimentos espaciotemporais já que. Assim é explicado o desenvolvimento de ciências relacionadas aos processos de decisão. na modernidade radical.22). a difusão. a diferentes grupos sociais (num hipertexto. por meio do ajustamento das cidades à realidade de um mundo industrializado e às exigências da produção. A diferenciação social também encontra seu lugar graças a alguns avanços tecnológicos como os elevadores. que desafiam as formas de representação política institucionalizadas e a oferta não segmentada de bens e serviços. 6 . assim. Trata-se do oposto à idéia de uma sociedade de massa. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S . A obrigatoriedade de escolhas constantes – devese decidir sobre tudo todo o tempo – contribui para o desenvolvimento de padrões de vida e perfis de consumo cada vez mais diversificados. que o autor dedica-se a descrever pois. os princípios da indústria se tornam referência para pensar a cidade: a especialização taylorista fabril toma a forma do zoneamento espacial. o mundo fordista da produção e consumo em massa ganha materialidade.23). a seu ver. alargadas as bases sobre as quais as diferenças ou afinidades se assentam (p.33). a sociedade hipertexto pode ser representada por séries de redes conectadas que expressam novos modos de construção identitária e de formação do tecido social (a possibilidade de indivíduos deslocarem-se entre diferentes uni- R . As dificuldades. a atomização social é apenas aparente: os elos que ligam os indivíduos não estão rompidos. de um conjunto abrangente de referências culturais expande o leque de opções de indivíduos e grupos (p. com os novos sistemas de comunicação. aplicadas na formulação de estratégias em situações de conflitos. distribuição e consumo (p. N . são mais instáveis. isto é. simultaneamente. angústias e inseguranças da sociedade contemporânea são expressas em termos de perigos prováveis a serem administrados (p. característica da modernidade radical. Assim. assim. tais como as teorias dos jogos e escolhas limitadas. por exemplo) reduzem o peso das origens sociais na determinação de escolhas e práticas individuais. porém mais numerosos e fáceis de serem refeitos. coloca em dúvida receitas anteriormente acreditadas e demanda que as ações (intervenções urbanas. também são ampliadas as possibilidades de contatos e trocas e. inscreve-se e estrutura o espaço urbano pela disposição de redes de comunicação.R E S E N H A transporte e estocagem de bens. portanto. inclusive quando as articula num mesmo processo de produção. as interações podem prescindir do encontro direto –. e ao desenvolvimento dos transportes coletivos. 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . Mesmo os processos tidos como homogeneizantes contribuem para acentuar a diferenciação social: a reestruturação produtiva em escala mundial se vale de assimetrias territoriais e. Também contribuem para a crescente e mais complexa diferenciação social os maiores graus de mobilidade social: distintas formas de socialização (pelos meios de comunicação e informação. reforça as desigualdades entre sociedades locais. mais individualista e mais diferenciada. como as teorias do caos e da complexidade. estratégia e precaução tornam-se as palavras-chave da modernidade radical (também designada reflexiva).31). B . que permitiram que os ricos pudessem habitar os andares ensolarados dos centros urbanos. Seu propósito é atenuar as insuficiências e disfunções do mercado. pela implantação dos grandes conjuntos de habitação social e pela localização de equipamentos coletivos. uma mesma palavra faz parte de uma multiplicidade de textos). 124 incerteza e risco. saneamento e transportes. que possibilitou o surgimento dos subúrbios industriais ou residenciais. com a mediação do Estado-Providência. V. o processo de individualização.

sob diversas formas. Metápolis são “vastas conurbações. B . apropriação. Ela também coloca em questão a previsibilidade e o otimismo quanto ao futuro da sociedade industrial e desestabiliza a crença no planejamento como meio de reduzir as incertezas (p.50). A nova economia demanda a mobilização. maiores deslocamentos e resulta em ajustes nos modos de regulação dos horários de trabalho e de atendimento ao público. forma de comunicação privilegiada que constitui a singularidade das concentrações urbanas. a redefinição das relações entre interesses individuais. A modernidade radical é acompanhada por uma terceira revolução urbana caracterizada. especialmente de transporte e comunicação particulares. Es- sas novas formas urbanas exprimem a crescente irrelevância da proximidade na vida cotidiana e demandam grande intensidade e volume de deslocamentos espaciais. O texto de Ascher acompanha a narrativa corrente. resultante da diversificação dos interesses individuais e da recomposição dos coletivos com base na tecedura de novos e mais instáveis elos sociais.58). a formação de espaços-tempos individuais. que se difunde por diferentes domínios da vida social (p. sobretudo demandas por meios de transporte mais flexíveis. em geral.R E S E N H A versos sociais é descrita em termos de uma solidariedade comutativa. pelo contrário. permitida pelo desenvolvimento dos meios de transporte e estocagem de pessoas. o desenvolvimento das telecomunicações termina por valorizar o contato direto. decorrentes da redução das diferenças físicas e sociais entre a cidade e o campo. segundo a qual a economia contemporânea está fundada na produção. a transformação dos sistemas urbanos de mobilidade. N . tem como conseqüência o surgimento de novos arranjos no espaço e no tempo individuais: envolve. a cidade real não é substituída pela virtual. a relativização da importância dos grupos de pertença tradicionais. suscita novas formas de regulação. As tecnologias de informação e comunicação contribuem para a transformação do sistema de mobilidades urbanas e para as reestruturações espaciais. Tratase. que acentua a importância das especificidades locais. informações e processos. distendidas e descontínuas. A maior autonomia na organização do espaço-tempo implica maior dependência a sistemas técnicos. Porém. construído pela concorrência interurbana. pelo qual os mesmos atores. econômica. de uma economia mais urbana. O esforço moderno em dirigir o futuro – que implica conhecer possibilidades e antecipar escolhas – e a circulação intensa e acelerada de informações sobre os mais diversos fatos ampliam a incerteza e fazem crescer a noção de risco. sobretudo. O processo de crescente individualização. O acesso desigual a esses sistemas é fator de diferenciação social e suscita pressões sobre os serviços públicos. Por isso. ao contribuir para a banalização do audiovisual. A nova economia do conhecimento e da informação caracteriza-se pela reflexividade. coletivos e gerais. heterogêneas e multipolarizadas” (p. relações pessoais. nesse caso para os processos institucionalizados de decisão política e para as organizações que se propõem a integrar posições sobre um grande número de questões. criatividade). na qual a cidade é transformada em um espaço produtivo cujas condições de desenvolvimento dependem da acessibilidade aos fluxos de riqueza. já que emprega novas técnicas de divisão do trabalho e de exteriorização e terceirização das atividades da empresa (p. social e culturalmente propícios para as demandas externas. O fenômeno da metapolização refere-se à mudança de escala e forma das cidades. A economia cognitiva também é mais individualizada no campo do consumo e mais diferenciada no âmbito da produção. O aumento da insegurança resulta em maiores exigências por seguridade: atores 125 R . segundo o autor. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. entre as quais se destacam as parcerias entre diferentes tipos de atores (p. Porém. em contraste com as formas mecânica e orgânica de solidariedade. Ela resulta da crise dos dispositivos de produção repetitivos e relativamente simplificados.43). 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . e as novas posturas quanto aos riscos. mas também de diferenciação. 6 . bens e informações. A inserção nos circuitos globais constitui justificativa para as iniciativas dos poderes públicos de criar ambientes material. as diversas metápolis são delimitadas pela extensão de seus espaços urbanizados: a metapolização é considerada um duplo processo de homogeneização. do progresso das ciências e das técnicas e depende da consideração de valores de capital difíceis de mensurar (know-how.45).73). por cinco grandes desenvolvimentos: a metapolização. com base no qual a sociedade contemporânea se organiza. propostas por Dürkheim). Também constitui um problema. venda e uso de conhecimentos. interesses e lógicas estão distribuídos por toda a parte. próprios do industrialismo.

Como corolário dessa ênfase gerencial. em suas ações.94). O texto de Ascher é muito bem elaborado. Trata-se de passar do planejamento urbano ao “gerenciamento estratégico urbano”.81).80). processos decisórios que enfatizem o compromisso. ou seja. A ênfase na performance suscita o desenvolvimento de instrumentos e técnicas estranhas ao urbanismo modernista. a requalificação dos poderes públicos. o deslocamento da questão sobre quem deve participar para a já suficientemente debatida e aceita idéia de que “o planejamento deve ser participativo”. ela indica um instrumento de antecipação (como na acepção tradicional da palavra). diretamente envolvidos na produção do espaço urbano. em contraste à imposição do desejo da maioria (p. o autor desconsidera o processo de construção do social. por um lado.R E S E N H A sociais buscam tudo o que possa produzir confiança. tornando-os mais sensíveis às demandas. Pelo contrário. às novas práticas sociais e às formas variadas de sociabilidade (p. que permitam elaborar e gerir os projetos num contexto incerto.88) e. até então dominantes. ao tratar dos grandes movimentos da sociedade ocidental e submetê-los à idéia de modernidade. Aqui não é possível ignorar a dimensão política do trabalho de Ascher: a forma neutralizada como é representada a consolidação da terceira modernidade e a revolução urbana que a acompanha – como realização de tendências anteriormente constituídas – contribui para a naturalização da ordem social que seu proponente vivencia em posição privilegiada. V. O risco e o princípio da precaução constituem elementos fundamentais no contexto sobre o qual agem os atores sociais. constroem o mundo descrito. Das questões surgem os desafios cujas respostas constituem o esboço de um novo urbanismo (definido como novidade em contraste com as práticas modernistas). B . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S . por exemplo. aqueles que. especialmente quando discute o papel da tecnologia na produção de novas conformações espaciotemporais. relacionado às possíveis conseqüências de uma ação. 6 . O trabalho de neutralização que o autor empreende fica evidente nos trechos em que é discutida a necessidade de revisão das práticas democráticas a fim de dar espaço às demandas de grupos cada vez mais diferenciados.90). interesses e ações dos diversos atores sociais (p. que permitam atividades de natureza diferente num mesmo lugar – e integrada. A terceira revolução urbana moderna suscita novas questões aos urbanistas e planejadores urbanos e demanda a reconsideração das categorias e dos princípios. forma que busca aproveitar eventos e forças das quais possa tirar partido (p. 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 . descreve um mundo que se desenvolve espontaneamente. Em termos do espaço físico.84-93). sua narrativa é agradável e de fácil compreensão. resultado e expressão de conflitos intensos e de diversas ordens. N . descontextualizadas. a partir do rearranjo de suas próprias estruturas. o desafio urbanístico diz respeito à construção de uma cidade mais complexa – com espaços polivalentes e equipamentos e serviços multifuncionais. no entanto. de análise e intervenção na cidade. Manuel Castells –. Nesse quadro desenvolve-se o “princípio da precaução”. públicos e privados. noção que indica o enriquecimento da democracia representativa com novos procedimentos de deliberação e consulta (p. a noção de projeto é fundamental para as novas práticas urbanísticas. em seus diversos sistemas e redes. resultado da ênfase R . p. Isto demanda. trata-se de trabalhar por uma “governança metapolitana”. o novo urbanismo tende a privilegiar os resultados em relação aos meios e as avaliações de performance em contraposição à normatividade dos planos. As mudanças são necessárias para garantir um uso mais intensivo dos espaços urbanos e para que as cidades possam atender às di126 ferentes demandas individuais. O problema é que. Nas palavras do autor. às leis e regras impostas (eventualmente. acionadas para mobilizar múltiplas inteligências e integrar as lógicas de diferentes autores. Não são apresentados os atores desse processo. Segundo Ascher. A análise do mundo contemporâneo não apresenta novidades – ela pode ser encontrada alhures: Ulrich Beck. Pode-se verificar. mas também de negociação e de indução de iniciativas de diferentes atores: projetos servem para provocar situações que evidenciam as disposições de diferentes grupos e as possibilidades e obstáculos que a sociedade se coloca. o autor é perspicaz e convincente em seus exemplos. O novo urbanismo também tem como desafio buscar mecanismos para construir quadros de referência e decisão mais ajustados à crescente diferenciação social. Anthonny Giddens. O primeiro desafio diz respeito à necessidade de romper com os planos urbanos de longo prazo e de buscar abordagens mais reflexivas. por outro.

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que o autor dá à fragmentação do tecido social. Ao longo do texto aparecem conceitos que já foram alvo de cuidadosa crítica: consenso (sob a forma de compromisso; p.90), parcerias público-privadas (p.95), empregados para descrever – e, de outra forma, para prescrever e instrumentar – os métodos do urbanismo contemporâneo, revelam fórmulas para garantir a prevalência de certas visões que transpõem para o jogo democrático as mesmas situações de desigualdade encontradas no espaço social. Por sua inclinação missionária o livro pode ser pensado como um veículo pelo qual são difundidas categorias, representações, esquemas de pensamento que visam a legitimar políticas, processos e modelos em urbanismo e planejamento urbano. De fato, é como um guia prático que o texto deve ser lido: não há espaço para dúvidas, não se determinam os limites do conhecimento que o informa. Na base do trabalho está uma postura pragmática, segundo a qual se deve tirar partido das oportunidades, conforme elas se apresentam na nova economia. Na contracapa de uma das edições, verifica-se que o livro é recomendado pelo modo como conjuga diferentes aportes disciplinares e tece a relação entre teoria e prática no urbanismo contemporâneo. O comentário certamente se dirige àqueles atraídos pela dimensão normativa da teoria. Porém, o texto poderá interessar leitores além de seu público-alvo: aqueles que desejam conhecer – sem necessariamente comungar –, numa síntese bem elaborada e coerente, as idéias que têm fundamentado o receituário dominante para a inserção das cidades nos fluxos mundiais de riqueza.

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REVISTA BRASILEIRA DE

ESTUDOS URBANOS
publicação da associação nacional de pós-graduação e pesquisa em planejamento urbano e regional

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edufal. BA Tel. Cidade Universitária 50732-970 Recife. 51. B . SP Tel. 121.6 – Tabuleiro do Martins 57072-970 Maceió. SP Tel.com. sala 201 30170-120 Belo Horizonte.REVISTA BRASILEIRA DE ESTUDOS URBANOS publicação da associação nacional de pós-graduação e pesquisa em planejamento urbano e regional E REGIONAIS ONDE ADQUIRIR ANPUR • Instituto de Geociências/UFMG Av.: (11) 3224 17662 thelma@seade.br UFBA • Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo / UFBA Rua Caetano Moura.com. C.br LIVRARIA VIRTUAL VITRUVIUS • Al.: (81) 3271. Cidade Universitária 05508-900 São Paulo.: (31) 3499 5404 E-mail: anpur@igc.br IBAM • Largo Ibam. Cásper Líbero. RJ Tel.com.br UFPE • Mestrado em Desenvolvimento Urbano / UFPE Caixa Postal 7809.: (11) 288 8950 atendimento@vitruvius. Federação 40210-350 Salvador.: (31) 3279 9145 copec@niag. Simões BR 104. N .org. ramal 220 ppgau@ufba. Antônio Carlos. Jardim Paulista 01404-000 São Paulo. km 97.: (11) 3864 7477 mariza@prolivros. SP Tel. 94 05439-000 São Paulo. AL www. 876 05508-900 São Paulo. 1.: (11) 3091 4648 FUPAM • Faculdade de Arquitetura e Urbanismo / USP Rua do Lago. E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V.br R . RJ Tel.br SEADE • Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados Av. SP Tel.ufrj. SP Tel.br UFRJ • Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional / IPPUR Ilha do Fundão – Prédio da Reitoria.ufmg. 832.br EDUFAL • Editora da Universidade Federal de Alagoas Prédio da Reitoria – Campus A.face. Humaitá 22271-070 Rio de Janeiro. MG Tel. 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 131 . 876.: (11) 3399 3856 inaylivros@ig.: (21) 2598 1930 biblioteca@ippur.: (71) 247 3803.br COPEC • Rua Curitiba. 6627 Campus Pampulha 31270-901 Belo Horizonte.br PROLIVROS • Rua Luminárias.8311 vp@elogica. MG Tel.br FAU/USP • Rua do Lago.ufmg.com. sala 533 21941-590 Rio de Janeiro.: (11) 3091 4566 public@fupam. 464.ufal.: (21) 2536 9835 deo@ibam. Centro 01033-000 São Paulo.com. Campinas.gov. PE Tel.br INAY LIVROS • Congressos e eventos na área de arquitetura e urbanismo Tel. 6 .

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B . E S T U D O S U R B A N O S E R E G I O N A I S V. Brasil Tel.br Homepage: www.br Preencha e anexe um cheque nominal à Anpur Assinatura referente aos números ____ e ____.org. N .: _________ Bairro: ______________________________________________________ CEP: _______________________ Cidade: _______________________________________ UF:______________________________________ Tel. A SSINATURA A NUAL (dois números): R$ 45. 2 / N O V E M B R O 2 0 0 4 133 .ufmg. Nome: __________________________________________________________________________________ Rua: _______________________________________________________ nº:________ Comp.anpur. Antônio Carlos. enviando a ficha abaixo e um cheque nominal em favor da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional. ANPUR – SECRETARIA EXECUTIVA (Gestão 05/2003 – 05/2005) Instituto de Geociências – Universidade Federal de Minas Gerais Av. 6 .00 À venda nas instituições integrantes da ANPUR e nas livrarias relacionadas nesta edição. 6627 Campus Pampulha 31270-901 Belo Horizonte.: ______________________ Fax: ________________________ E-mail: __________________________ Instituição e função: ________________________________________________________________________ Data______________ Assinatura _________________________________________ R . MG.00 Pedidos podem ser feitos à Secretaria Executiva da ANPUR.: (31) 3499-5404 E-mail: anpur@igc.REVISTA BRASILEIRA DE ESTUDOS URBANOS publicação da associação nacional de pós-graduação e pesquisa em planejamento urbano e regional E REGIONAIS VENDAS E ASSINATURAS E XEMPLAR AVULSO : R$ 25.