AULA 01 CONCEITO DE DIREITO PROCESSUAL PENAL 1.

Noções gerais Uma vez cometida uma infração penal, imediatamente, surge para o Estado-Juiz uma pretensão consubstanciada no Direito de Punir (Jus Puniendi) e no axioma máximo de que não há crime sem previsão legal nem pena sem prévia cominação. Uma vez que vivemos em um Estado Democrático, o Direito Penal, ou seja, esse conjunto de regras de natureza material somente é exercido mediante regras previamente estabelecidas e com um único objetivo: Evitar eventuais abusos por parte do Estado. De modo que, para viabilizar a justa e correta aplicação do Direito Penal, surge o Direito Processual Penal como o corpo de normas jurídicas objetivando regular: • • • O modo; Os meios Os órgãos encarregados de punir do Estado.

Em termos amplos e gerais, o Professor Tourinho Filho consegue sintetizar de forma brilhante, que o Processo Penal é forma que o Estado encontrou para tornar efetivo seu direito de punir, infligindo pena ao culpado. NULLA POENA SINE JUDICE: Nenhuma pena poderá ser imposta senão pelo Juiz Natural. Ora, sendo a liberdade um dos mais importantes direitos individuais, nada mais justo que de qualquer ameaça de lesão a esse direito seja definida por um juiz ou Tribunal. Como conseqüência lógica e complementando o brocardo, surge para o Direito a idéia de que é NULLA POENA SINE JUDICIO, ou seja, nenhuma pena poderá ser imposta sem a observância do due processo of law. Traduzindo: Ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal. IPC: Em resumo: o Estado somente poderá aplicar a pena ao infrator após a comprovação de sua responsabilidade, POR MEIO DO PROCESSO PENAL. “Assim, quando alguém comete uma infração penal, o Estado, como titular do direito de punir, impossibilitado, pelas razões expostas, de autoexecutar seu direito, vai a juízo (tal qual o particular que teve seu interesse atingido pelo comportamento ilícito de outrem) por meio do órgão próprio (o Ministério Público) e deduz sua pretensão. O Juiz, então, procura ouvir o pretenso culpado. Colhe as provas que lhe foram apresentadas pelas partes (Ministério Público e Réu), recebe suas razões e, após o estudo do material de cognição recolhido, procura ver se prevaleceu o interesse do Estado em punir o culpado, ou se o interesse do réu, em não sofrer restrição no seu jus libertatis. Em suma: o Juiz dirá qual dos dois tem razão. Se o Estado, aplica a sanctio juris ao culpado. Se o réu, absolve-o. Isso é processo.” (Tourinho Filho)

era a vez da Defesa. No dia do julgamento. o Processo Penal lida com a liberdade.2.2. o mesmo Magistrado aplicava a pena. Processo Penal em Roma Da mesma forma que os gregos. sua repressão não poderia ficar a cargo do ofendido. falava primeiro o Acusador. crimes graves cominados com a pena capital e crimes culposos eram julgados em Tribunais distintos. Era possível. o acusado era absolvido. Havendo empate. portanto. A Constituição e o Processo Penal É impossível imaginar o processo penal dissociado da Constituição Federal. Os gregos possuíam diversos juízos para os mais variados crimes. Não existia acusação ou defesa. 3. Processo Penal na Grécia Os gregos há muito souberam distinguir os crimes públicos dos crimes privados. onde o condenado tinha a possibilidade de recorrer ao povo para que o julgasse. ocorrendo um crime era levado ao conhecimento do Magistrado e ele próprio se punha em campo para investigar numa fase preliminar chamada inquisitio. um Processo Penal Privado e um Processo Penal Público. conforme se verá adiante em estudo mais aprofundado. A princípio. 1000 e até 6000 juízes. o patrimônio e o maior dos bens jurídicos: a vida. Logo não se pode conceber um Direito afastado das diretrizes e garantias estabelecidas na Lei. melhor a justiça. Os crimes públicos prejudicavam toda a coletividade e. Tal instrumento em muito se assemelha ao atual Recurso de Apelação.1. em face da menor importância a sanção ficava a cargo da exclusiva iniciativa da parte. devemos inserir o Direito Processual Penal no rol dos Direitos e Garantias Fundamentais eternizados na Carta Política de 1988. a integridade física e moral. Em seguida. Evolução histórica do Processo Penal 3. Crimes políticos. com o fundamento de quanto mais cabeças. 500. Em verdade. dignidade da pessoa humana. . Diferentemente dos crimes privados onde. ainda na Monarquia. 3. em um único julgamento existirem 100. Os juízes votavam e a decisão era tomada pela maioria dos votos. visando diminuir o poder do juiz surgiu a provocatio ad populum. Muito embora seja um ramo do Direito que goze de ampla autonomia. seja no exercício da acusação e da jurisdição. No entanto. inquirindo suas testemunhas. os romanos diferenciavam os delitos públicos dos privados. o que fez surgir dois ramos do Processo Penal. Após as investigações. o Processo Penal surgia pela participação dos cidadãos. direitos indisponíveis. Ocorrendo um crime.

magistrados. que consistia em fazer o acusado colocar o braço em óleo fervente. não existindo ou oportunizando sequer Defesa. Uma vez tendo o acusado confessado. onde a acusação escrita deixa de existir. O acusador dispunha de 03 horas para demonstrar a procedência da acusação. O processo perdeu a publicidade e todos os seus atos eram secretos. alegando que o mesmo era incapaz de jurar em falso. inclusive. Esse procedimento chamava-se postulatio. denúncias anônimas. príncipes e nobres) dos Crimes Privados. Igual prazo possuía a defesa. surgiu um novo procedimento: a accussatio. Aceita a postulatio. composto num primeiro momento por senadores. brutal e desumano. apenas. Os juizes votavam e em caso de empate. O ônus da prova cabia ao réu. devendo vir acompanhada das provas. não admitia a existência de um juízo sem uma acusação escrita. houve um recrudescimento e o Processo passou a ser do tipo inquisitorial.¹ Nenhuma garantia era dada ao acusado.4. provar a sua inocência. depois por cidadãos romanos. para assim. 3. enorme valor à confissão.Com a República. . Processo Penal Canônico Típico processo acusatório. a oitiva de testemunhas. Qualquer do povo poderia ser acusador (Exceto. Mesmo que a confissão fosse obtida mediante tortura. era imediatamente condenado. Posteriormente. A tortura tornou prática constante e regulamentada. entretanto. Esse acusador dirigia-se a um determinado agente público e esse agente decidia se o fato alegado era crime ou não. Nos juramentos. que devia provar sua inocência. etc. sob pena de ser condenado. Processo Penal Germânico Também distinguiam os crimes públicos (julgados em Assembléia pelo Rei. Os ordálios eram um sistema provas cruel. participar de duelos. A calúnia era punida e não se processava o acusado ausente. menores e pessoas inidôneas). essa acusação era registrada no Tribunal. Davam. o acusado que jurava não ter praticado o injusto penal poderia ser absolvido se os juízes corroborassem o juramento. o que dava direito ao Acusador proceder às investigações e o dever de não poder mais desistir.3. bastando. mulheres. A administração da justiça ficava a cargo de um Tribunal Popular. As principais provas eram os Juramentos e os ordálios. 3. o acusado era absolvido.

O ônus da prova cabe às partes. deve ser confirmada no dia seguinte. Prevalece o contraditório e a publicidade. o processo é essencialmente escrito. O Processo Penal Pátrio No Brasil. Embora se admita a prática de alguns atos processuais oralmente. mas o juiz tem participação ativa. exclusivos da Defesa. ao passo que nos últimos cabe à vítima o processamento da acusação. Permite-se às partes uma ampla gama de recurso. apenas nas hipóteses de crimes dolosos contra a vida. consumados ou tentados. A fase processual é precedida de uma fase preparatória (inquisitória) em que a Autoridade Policial investiga e colhe provas acerca do fato delituoso e do possível autor. a função de julgar fica a cargo do Juiz e. (queixa) Salvo nos casos de impeachment. Se confessar durante os tormentos e. Nos primeiros. Igualmente há a divisão entre crimes de ação de pública e crimes de ação privada. dos Juízes Populares (Tribunal do Júri).¹“ A tortura deve cessar quando o imputado expresse a vontade de confessar. excepcionalmente. adota-se um sistema processual acusatório. alguns. como a Revisão Criminal. a acusação se processa e está a cargo do Ministério Público (denúncia). para que a confissão seja válida. .” 4. sendo lícito determinar a produção de prova que julgue essencial para o deslinde da questão.