Os juízes e os executivos Acabo de ler no site da Catho(1), uma grande empresa de recursos humanos, que os principais benefícios recebidos

pelos executivos são: assistência médica, planos de previdência privada, vale-refeição, pagamento da escola dos filhos, carro com motorista e assistência odontológica. Já a revista Exame contou (2), há cerca de um ano, que os salários dos executivos brasileiros em São Paulo giram em torno de US$ 243.000,00 anuais, algo próximo a R$ 450.000,00. Pensei em um paralelo entre a minha profissão e a dos colegas das empresas. Considero que meu cargo de juiz federal é equivalente ao de um executivo na iniciativa privada. Exige-se uma alta formação, o histórico acadêmico é levado em conta e a concorrência é absurda. Não me arrisco a dizer se é mais difícil se tornar um juiz federal ou um executivo de empresa. Acredito que nos dois casos o acesso é restrito e destinado apenas a quem mostra muita competência, variando apenas o processo de seleção. Aliás, até mesmo na hora da seleção há semelhanças: a maioria dos executivos passou por algum processo de análise de perfil psicológico; os juízes também, pois para assumir o cargo é preciso passar por uma banca de psicólogos e demonstrar idoneidade física, mental e emocional. Para que eu assumisse o cargo, exigiram até exame de HIV. Também vasculharam a minha vida pregressa, utilizando-se até mesmo da ABIN nesse processo. Duvido que os executivos passem por situação semelhante, mas no caso deles há uma análise rigorosa do que conseguiram produzir em outras empresas, dos resultados que obtiveram. Confesso que também averiguam seu histórico em outros cargos no concurso para a magistratura, mas essa questão da produtividade pretérita não é tão forte quanto no caso dos executivos. Milhares tentam progredir nas empresas, mas nunca passam de cargos médios de gerência. Milhares tentam os concursos para a magistratura, mas poucos são aprovados. As responsabilidades nos dois casos também são grandes. Um executivo pode colocar em risco a saúde financeira de uma empresa e ameaçar o trabalho de centenas de trabalhadores; um juiz pode dar uma decisão em uma ação civil pública que afete o país inteiro. Um executivo é massacrado pela dúvida em relação a uma decisão estratégica em sua empresa; um magistrado pode proferir uma sentença equivocada e mandar um cidadão inocente para a cadeia. Juízes não ganham pelas horas extraordinárias trabalhadas; executivos também não. Ambos têm a convivência familiar prejudicada pelo excesso de trabalho. Alguns executivos precisam mudar de cidade com alguma freqüência, o que acontece também com os juízes. Enfim, são duas profissões massacrantes. Reconheço que há diferenças. Os juízes têm uma estabilidade muito maior, embora não sejam imunes à perda do cargo. Essa história de que a pena máxima é a aposentadoria compulsória não cola, porque logo em seguida vem uma ação judicial para a cassação da aposentadoria. Mas, convenhamos, a estabilidade é muito mais forte do que a de um executivo. Por outro lado, juiz que perde o cargo fica mais perdido do que cachorro em dia de mudança: arrumar outro trabalho é muito difícil. Advogar? É preciso começar do zero e ainda com a publicidade desfavorável da expulsão da magistratura. Já o executivo vive com a corda no pescoço, podendo perder seu emprego do dia para a noite, pelos mais diversos motivos: redução de custos, quebra da empresa, resultados inexpressivos etc. Por esse ponto específico, não queria ser executivo, pois é muito ruim não ter certeza de que se estará empregado

Às vezes. não me iludo muito com esse benefício. Não sei até quando isso durará. já com as novas regras. Como ingressei no serviço público antes da reforma de 1998. Por tudo isso. tiro o chapéu para os executivos. já que não é fácil viver sob pressão. Por essas e outras. saio dessa situação apenas com a dívida do meu advogado. Os juízes têm férias de 60 dias. Não tenho muitas dúvidas de que eu conseguiria ir longe no mundo empresarial. E tem mais ainda: essa previdência privada é paga pelas empresas. até com o salário maior. obrigado. a maioria das empresas paga bons planos de previdência privada para os seus executivos. Meus colegas que seguiram a área da propaganda ou do marketing estão muito bem. E. a minha aposentadoria também seguirá o mesmo caminho. relatório dali. independentemente da idade. um executivo demitido consegue trabalho de forma muito mais rápida do que um magistrado retirado do seu cargo. acho que nenhum executivo tem lá muita inveja da minha aposentadoria integral. Acho que escolhi ser juiz também por isso.400. Tem também a questão da aposentadoria. Ainda. pois a empresa não deseja ver o seu nome circulando por delegacias de polícia. Claro. claro. Deve-se levar em conta também que o executivo demitido tem seu FGTS. vi que minha vida também não seria fácil. meu salário já vem com o abatimento de 11% do valor bruto todo mês. Tenho dois cursos superiores. pois ele não me diferencia muito dos executivos. Não há acerto trabalhista rescisório na magistratura. ainda tenho direito à aposentadoria integral e sempre que a remuneração dos juízes em atividade for aumentada. um deles em Publicidade & Propaganda na tão renomada USP – Universidade de São Paulo. às vezes não responde nem a inquérito policial. ainda que tenha cometido ilicitudes. Se eu perder meu cargo de juiz e judicialmente cassarem a aposentadoria compulsória. Nesse ponto. sem direito à aposentadoria integral e à chamada “paridade com os ativos”. como a maioria dos trabalhadores brasileiros. Não tem quem opte por uma empresa ou invés de outra. o sistema acusa e o corregedor me cobra nas famosas “correições”. para se aposentar. pago cerca de R$ 2. que não existe no serviço público. deixam as empresas e vão abrir seus próprios negócios tão logo completam esse período de trabalho.. No meu caso. Alguns. acionistas cobrando resultados. ainda me agarro aos 60 dias de férias como vantagem em relação aos meus colegas da USP que estão nas grandes empresas. prazos. pois a vida deles não é fácil: é meta daqui. Por outro lado. Só que as férias de 60 dias me pareceram um atrativo que o mundo empresarial nunca poderia me dar. na hora de aceitar uma gerência-executiva. além dos 35 anos de serviço. mas confesso que foi um dos grandes atrativos para que eu me tornasse um magistrado e não um executivo. porque a primeira fornece mais benefícios do que a segunda? Então. executivo que perde o cargo. é um inferno. Como foi destacado no site da Catho. um dos motivos pelos quais fui para a magistratura foram as férias de 60 dias. porém. ou seja. juiz que perde o cargo normalmente responde até por processo criminal. Muitos executivos se aposentam com 35 anos de trabalho. pois todos os meus processos estão cadastrados eletronicamente e a corregedoria me cobra rotineiramente um bom desempenho. já com uma boa previdência privada garantida. Já os juízes precisam ter pelo menos 60 anos de idade. Mas. algo . duvido que algum tenha inveja da aposentadoria dos juízes que ingressaram no serviço público nos últimos anos. Assim. tem também a questão da cobrança da produtividade. Por fim. Se a causa está há mais de 60 dias conclusa para eu proferir a sentença.00 mensalmente para poder me aposentar.. quase sempre sem desconto na remuneração do executivo.amanhã. enfim. ou seja. Depois que virei juiz. eles não se aposentam com aquele benefício baixo do INSS.

Nos últimos meses. isso é. Acho que todos deveriam ganhar mais mesmo. mas no meu os juízes recebem o que está na Constituição e só aquilo. E eles. Eu também não tenho carro com motorista.000. claro. 16º. Acrescente-se a isso o 13º. a ordem é usar o carro exclusivamente para o trabalho. mas ganho menos da metade e não tenho nem de longe os mesmos benefícios. E. Não posso falar de outros tribunais. não é a mesma pressão sofrida pelos executivos. Um pequeno desvio na rota pode causar um problema gigantesco! E a remuneração? Bem. muitas vezes ganham 14º.00. E tem também o cidadão que cobra no balcão da secretaria. chamando-os de privilegiados. Em reais. como eu fiz em Direito. e galgaram postos de sucesso nas empresas. Vale-refeição? O executivo tem.00. eu não estou omitindo nada da minha remuneração: é isso aí mesmo.000. cerca de R$ 180. mas que é uma pressão muito grande. coisa de R$ 630. Ganho bem menos do que eles. aquele mais aguerrido na luta por sua causa que te manda e-mail. Comparam com a imensa massa de trabalhadores brasileiros que ganha apenas um salário mínimo por mês. fala-se em recurso judicial até o STF contra esse pagamento. bonificação em ações etc. eu tenho que custar meu próprio plano de saúde. paga pela empresa para ele e sua família. depois passar mais três anos exercendo alguma atividade jurídica. cheguei a receber alguns valores a título de auxílio-alimentação. Mas. No quesito remuneração. mas não aceito comparar a minha remuneração com a de muitos empregos sempre citados quando me criticam. claro. eu tenho que pagar qualquer gasto nesse sentido. Filhos de executivos têm a educação custeada pela empresa. Isso é tão complicado quanto eu largar meu cargo hoje e ir para a iniciativa privada. embora alguns poucos juízes da 1ª instância ainda tenham. Mas. tem até gente que me aborda no Facebook para pedir celeridade na causa. não fazem isso em relação ao diretor de uma indústria ou de um banco. Não. sinto inveja dos meus colegas da USP que não quiseram fazer outro curso superior. Mas. já que pela aposentadoria integral ninguém largaria mesmo. pois a maioria dos executivos têm o benefício da aposentadoria privada paga pela própria empresa. vejo com tristeza as críticas ferozes que muita gente desfere contra os juízes. Poucos têm um processo seletivo tão massacrante e uma responsabilidade tão . Sem auxílio-paletó. esse argumento não serve. fazer um concurso dificílimo e se tornar juiz. Volto então às duas notícias que citei no parágrafo inicial. levando-se em conta a cotação atual do dólar. creio que meu pagamento líquido anual fique em torno de US$ 100. Por tudo isso. Eu poderia responder dizendo que quem reclama das minhas férias de 60 dias ou de algum outro ponto do cargo deveria estudar por cinco anos. Duvido que algum dos meus colegas na USP faria isso para ter meus 60 dias de férias. Eu sou privilegiado? Por quê? Minha profissão é tão massacrante e de acesso tão difícil quanto os cargos de executivos nas grandes empresas. 15º. Aí. Definitivamente. esse pagamento não está garantido. quando me comparam. auxílio-moradia ou qualquer outro valor. que os executivos recebem também. nada comparável ao de um executivo. nesses poucos casos.00 por mês. pois poucos cargos e profissões exigem tanto estudo e preparação quanto a magistratura. pois apesar de ter sido feito com base legal. peça demissão e vá tentar a sorte na iniciativa privada.parecido com as auditorias que as empresas sofrem e que deixam alguns executivos de cabelo em pé. você pode me dizer: se não está satisfeito. Executivo normalmente recebe assistência médica e odontológica integral.

Não quero que nenhum deles perca um benefício sequer em prol de uma fictícia redução nos preços dos produtos que compro todos os dias (diminuir minha remuneração ou eventual benefício também não vai reduzir o imposto que você paga. pois qualquer valor ou benefício que eu venha a receber sai dos cofres públicos. se ganha novos benefícios. sustentado pelo dinheiro da população. com um executivo de uma grande empresa. Não vou largar tudo para tentar a sorte na iniciativa privada. Como eu disse. provavelmente hoje eu teria uma remuneração muito maior. simples assim. acompanhada de inúmeras vantagens e benefícios. então que me comparem com um renomado médicocirurgião. um grande publicitário. no sentido pejorativo que tem sido dado aos direitos dos juízes. acredite em mim). Se fôssemos. como fiz aqui. Todo e qualquer dinheiro sai do bolso do povo. Só que a vida não funciona assim. como nós magistrados. Sou juiz por vocação. fico triste com as críticas que os juízes têm recebido. Da mesma forma. chegou lá por vocação. Eu também. porque gosta do que faz. eu sei o que passei para chegar aqui e o que passo todos os dias.gigantesca. desejando que meus vocacionados colegas executivos nunca tenham que enfrentar as críticas que tenho escutado. a maioria dos executivos e dos grandes advogados estaria pensando em passar anos a fio estudando para ser aprovado em um concurso para juiz. Por isso. Acredite: não somos. estudou até a exaustão. tudo o que eu gostaria é que os pequenos lados positivos do meu cargo. Ainda que eu inveje a alta remuneração e os benefícios que eles têm. Já quase terminando este desabafo. passou por processos seletivos desumanos até chegar aonde está. Um executivo lutou muito. do trabalho de todos que exercem funções de enorme responsabilidade e que tiveram que superar obstáculos gigantescos para . Por isso. os produtos e serviços da empresa não deverão ter uma margem de lucro um pouco maior para fazer frente a essa despesa? E quem arca com isso? A população. um advogado de sucesso. E continuo lutando pelo reconhecimento. não importa se esse povo é chamado de contribuinte ou de consumidor. Pode-se dizer que nas empresas é diferente. médico ou executivo. Acho justo o que os executivos ganham. não fossem tachados de privilégios. mas de simples reconhecimento do peso. seja juiz. mas as retribuições pela profissão massacrante são muitas e não são vistas como privilégios. mesmo sabendo que se tivesse seguido o caminho dos meus amigos de faculdade. por vocação. tenho uma inveja escancarada dos meus amigos executivos da iniciativa privada: enfrentam um penoso cotidiano. preciso dizer que eu tenho uma vocação para a magistratura. Nesse ponto. Não sou um privilegiado. Se for para me comparar. como se fossem os mais sortudos do mundo. Quem é um profissional bem sucedido. de onde vem o dinheiro das empresas? Não é dos produtos e serviços que elas vendem? Se um executivo recebe um substancial aumento. da responsabilidade e das dificuldades inerentes ao cargo de juiz. Eles fizeram por merecer o posto que ocupam e sabem das dificuldades que existem ao se administrar uma grande empresa. meu lugar é no meu gabinete todos os dias. Continuo juiz. julgando meus processos e fazendo minha parte pela distribuição da Justiça. como as férias a que ainda tenho direito. Esses profissionais sofreram o que eu sofri para chegar aonde cheguei. Meus amigos da USP que se tornaram executivos são executivos por vocação. claro. por meio de uma boa remuneração e de bons benefícios. É isso. Mas. um talentoso operador do mercado financeiro ou. não tenho vergonha de defender os lados positivos do meu cargo. sim.

juízes. operadores talentosos do mercado financeiro. publicitários de renome.chegar aonde chegaram: grandes cirurgiões. claro. executivos e. advogados famosos. .