A URGÊNCIA como VALOR CONSTITUCIONAL

- “Il faut vivre le moment qui passe” – (Maio de 1968)
- JOAQUIM LOUREIRO -

d) Intimação para protecção de direitos.º da L. c) Intimação para a pré – Contencioso eleitoral prestação de informações. P. o legislador estabeleceu aqueles quatro processos especiais. a saber: a) (arts. Para o efeito. a partir da presente reforma. 107. 100.º.º e 111. 2) Também aqui está em causa a aplicação do princípio da tutela jurisdicional efectiva (art. 106. situações de “urgência”. planeado na lei comum através do art. P. que entrou em vigor a 1-Janeiro-2004. T.º e 103. com força de caso julgado. Pela primeira vez. 268. que se destinam a permitir obter uma “sentença” que.º. na vida constitucional.º do C. 110. A.º do C.): esta é verdadeira novidade absoluta! Em todos estes casos nos encontramos perante situações onde é manifesto existirem. venha a conhecer do mérito da causa.º. para além dos casos de expropriação por utilidade pública. bem como. em prazo razoável.). consulta de processos ou passagem de certidões (arts.º do C.Urgência (Questões Finais) I 1) Que saibamos.º. 109. 2. P. na decisão judicial que aprecie. P. R. 104. T. n. 101.). T. das situações de procedimentos cautelares (urgentes). 105. b) Contencioso contratual (arts. 98. liberdades e garantias (arts. deste modo. P. até há pouco.º.º 4. em termos objectivos. T. 102. 97.º e 99.º da L..º. da evocação e fundamentação do “estado de sítio ou de estado de emergência”. compreendendo o direito de obter.º. A. A. da C. cada .).). T.º. A. conhecendo a questão de fundo. deparamos com um largo conjunto de “processos urgentes”. P. eram raras as circunstancias em que surgia a evocação da “urgência”. A.º e 108.

48. o mesmo texto constitucional (n. facultar aos administrados tutela jurisdicional efectiva. 20. 36. Em suma.). que se caracterizam pela urgência. art.º) e dos arts.pretensão regularmente deduzida em juízo.º. em relação aos diferentes casos contemplados na lei.º edição – 2007. de assegurar que tal protecção jurídica seja “eficaz e temporalmente adequada. 97. simplicidade. Continuando a revelar uma manifesta influência do art.º): tem-se em vista. D. pág. Relacionado com estes três aspectos.4 do mesmo diploma (MÁRIO AROSO DE ALMEIDA e CARLOS ALBERTO CADILHA – “Comentário” – 2. 19): assumindo-se como uma efectiva tutela de urgência.º5) acrescenta: . da C. formando com eles um verdadeiro bloco normativo.): “Todos têm direito a que uma causa em que intervenham seja objecto de decisão em prazo razoável e mediante processo equitativo”. que evite que o factor tempo. a lei acentua os três aspectos fundamentais em que se desdobra tal tutela: fases declarativas.º 1.º. como é evidente. destinadas a assegurar o efeito útil da decisão (n.º da C. 6. 147. Homem.º da L. A. E. liberdades e garantias pessoais. Recordamos que lhes são aplicáveis as regras constantes do Título IV (art. decorrente da demora natural de um processo. obste à realização da justiça” (SOFIA DAVID. n. 2. Todas estas intimações são meios processuais autónomos. R. antecipatórias ou conservatórias. págs. de modo a obter a tutela efectiva e em tempo útil contra ameaças ou violações desses direitos”. T. naturalmente. 198 e 199) . bem como as regras referentes a este tipo de processo (art.º 4.º a 111. bem como a possibilidade de a fazer executar e de obter as providências cautelares. executivas e cautelares. abreviação.º n. dos “seus direitos ou interesses legalmente protegidos”. com poderes especiais (“energéticos”) facultados ao julgador (ibidem). encontramos o direito de acesso à justiça em prazo razoável (art. a lei assegura aos cidadãos procedimentos judiciais caracterizados pela celeridade e prioridade. P.“Para defesa dos direitos. Trata-se. P.

recordar que estes processos urgentes se dividem em dois grupos: por um lado. a todos os processos urgentes: a) Seguindo. Já então. de perto. apesar de “santo”. pág. que fez a “delícia” de alguns ao longo de mais de centenas de anos. não existiria o tempo passado. não existiria o tempo presente” (SANTO AGOSTINHO – “Confissões” – Livro XI – Capítulo XIII). e nada adviesse. exclusivamente. 2009. 87 e segs. se nada existisse. seria pecado cobrar juros através de empréstimo de dinheiro: papas. a começar por Santo Agostinho.º a 111. que sejam aplicáveis. de um modo geral. se nada passasse. ainda. 3) Antes de entrarmos na análise específica deste último tipo de processos urgentes. ISABEL FONSECA (“Processo temporalmente justo e urgência” – Coimbra Editora.). Importa. o caso do processo urgente referente à intimação para protecção de direitos.º). as impugnações urgentes (matéria eleitoral + actos administrativos pré – contratuais) e as intimações urgentes que se traduzem no pedido de imposição à Administração para a adopção de um comportamento. tratados em legislação especial (ibidem.º). logo nos surge a questão fundamental da equação entre o “tempo” e a “urgência” que tem provocado uma polémica centenária: “O que é pois o tempo? Se ninguém mo pergunta. não conseguiu convencer os judeus de que. e. pertencendo o “tempo” a Deus. iremos resumir algumas considerações. não sei: no entanto. liberdades e garantias (arts.º a 111. 109. 580) afirmamos. desde já. sei o que é. não existiria o tempo futuro. 109. Não vamos envolvermo-nos neste tipo de especulação teológica. mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta.Sem prejuízo de se referir a existência de outros processos urgentes. que abordaremos aqui. digo com segurança que sei que. liberdades e garantias (arts. ou seja a adopção de uma conduta positiva ou negativa que seja necessária para a protecção de direitos. reis e imperadores pediram dinheiro emprestado aos “banqueiros” de então e . págs.

a começar pela produção legislativa: as “Ordenações Filipinas” vigoraram no nosso ordenamento jurídico (nas suas linhas gerais e com algumas “leis extravagantes”) durante 260 anos. que poderia “disciplinar” o TEMPO. pois todos pedem um novo código de processo. assim. E a situação actual. com a crescente dificuldade . a chamada “sociedade tecnológica” endeusa o presente e reina absolutamente nele: o que levantará (nós) o problema de saber se não estamos a pedir o “impossível” ao juiz – da – urgência. “nessa mesma dimensão do presente. todos sabemos que. as pretensões – jurídicas – urgentes. que contemple a realidade actual. o cidadão tem necessidade de obter a adequada reparação dos seus direitos. o Código do Prof. já quase ninguém sabe o que é. quanto ao código do Prof. perante a lesão dos seus direitos. “revelando-se o tempo presente como numa dimensão do tempo assaz instantâneo. com a companhia da brilhante ISABEL CELESTE FONSECA. também que o fenómeno da chamada aceleração histórica se manifesta nos mais diferentes sectores. com os actuais banqueiros/judeus/FMI/ e quejando não permitirá acalentar tais expectativas! Tendo em conta as realidades do nosso dia-a-dia.pagaram juros. para além do problema da “aceleração do tempo”. todos sabemos que tal reparação não tem conteúdo equivalente se for obtida daí a um (1) ano ou se for alcançado ao cabo de dez (10) anos. generalizando-se e evidenciando-se as situações derivadas da chamada sociedade de risco. incompatível com a protecção de certas situações carentes de tutelas jurisdicional. Abreviando. à conclusão de que. Seja como for. Antunes vai-se “aguentando” com as variadíssimas e diárias alterações e já não sabemos se ainda existe. cumpre perceber a função excepcional que a Lei Fundamental e o ius commune europeu vê atribuir a um sujeito – jurisdicional – especial. no sentido de se assegurar a tutela jurisdicional efectiva do direito administrativo substantivo. o Código do Visconde de Seabra vigorou 100 anos. Chegamos. que pretende a protecção de pretensões jurídicas que só existe. Alberto dos Reis. Todos sabemos.

sem necessidade. precaução e proporcionalidade. de convenções internacionais. os “donos” do dinheiro mostram-se pouco propensos a aceitar os mecanismos de prevenção/precaução. passaram a ser na sociedade de risco a força dominante”. que decorrem das opções técnicas. se tenha preferido (?) pelo “risco” das CATÁSTROFES tecnológicas – ambientais. França (2000) e em Portugal (2004). tornam-se de difícil utilização os tradicionais mecanismos de prevenção. Regressando à douta Autora (citando Luhmann e Beck): “o sujeito – jurisdicional – de – urgência tem. em que as “novas técnicas processuais são chamadas para concretizar nesses domínios o direito ao processo efectivo e temporalmente justo”. Eduardo Correia. é aqui se põem com acuidade. os problemas da duração do processo e da urgência. pois. vivendo-se numa sociedade em que o “motor” é o lucro. permanentemente. já enunciava os “perigos” para sistemas de controle mais “apertados”. em tal lógica. como no Contencioso Administrativo. um papel relevante na interpretação das normas de acordo com os princípios de prevenção. sequer. idênticos problemas. Acresce que. todas elas adoptando semelhantes técnicas processuais. verifica-se que há domínios. todas elas destinadas a tutelar “situações de urgência”. Retomando o “fio à meada”. Aqui chegados. exigem idênticas soluções. Daí não admira que. que SEMPRE derivaram do aligeiramento e embaratecimento dos sistemas de controle/manutenção. Enfim. até porque. que também ocorre existirem. liberdades e garantias dos cidadãos: “a adequada duração do processo é condição imediata da satisfação através do processo que o sistema processual permite . tanto mais quanto se sabe que estes efeitos desconhecidos e inesperados. tendo em conta dois factores: a relação entre a duração processual e a urgência. como se evidencia pelas reformas dos Códigos de Processo Administrativo em Espanha (1998). onde se impõe uma urgente e profunda reapreciação da realidade de facto. se joga com os direitos. nomeadamente no domínio do ambiente. na defesa do “sistema”. que entravariam o “progresso” da sociedade.em tipificar tais pretensões – jurídicas – urgentes. É esta uma realidade normativa recente na Europa.

A.º a 111.). – Submeter-se a uma intervenção cirúrgica urgente. – recusa de subsídio social a um desempregado. gozar do direito de antena equivalente. durante a campanha eleitoral. b4. a. – não admissão de um estudante para um exame escolar próximo. . P. b3. b5.realizar… A consagração do direito ao processo efectivo e temporalmente justo pressupõe a existência de processos urgentes e de processos urgentes acessórios. – não admissão de um cidadão a um concurso público próximo. Recusa da emissão de passaporte (necessário) para que um particular se desloque ao estrangeiro para: b1.º do C. – recusa para um partido político. 92) OBSERVAÇÃO FINAL: uma questão fica por analisar: é que a urgência costuma ser apreciada quando a Administração actua perante o cidadão (Ex: expropriação). 109. para a realização de uma manifestação. b. de acessoriedade – instrumentalidade e de provisoriedade” (ibidem. T. no âmbito dos quais são concretizados instrumentos de sumariedade. b7. Mas a relação também se coloca quando o cidadão invoca direitos perante a Administração: a apreciação é feita de um modo diferente! II Alguns exemplos de questões práticas relacionadas com a urgência (tendo em conta o disposto nos arts. – Recusa de revalidação de um visto de permanência a um cidadão estrangeiro. que necessita de obter cuidados de saúde imediatos num hospital público. – participar numa competição desportiva. a propósito da vinda próxima de uma personalidade estrangeira. Quando ocorre a recusa de autorização (necessária). b2. b6.

que não se confundem com direitos de fruição colectiva (art. a plena tutela dos direitos dos particulares reclama uma medida urgente. 5. na medida em que se trata de direitos estruturalmente individuais. nestes casos.não cautelar. .º). b9. Estamos. 43.º e 47. na generalidade destas situações de facto. Direito de antena (art. respectivamente: 1. 63. de “fruição particular”.antes definitiva. Violação do direito de deslocação (art.Nem se admite a situação de “acção pública”.º). Direitos de ensino e de acesso à função pública (arts. liberdades e garantias. P. 24.º). tendo em conta os exemplos citados. 4.º). Ou seja. poderão ocorrer.º).º) e do direito à saúde (art.º). . e que era condição necessária para trabalhar e sustentar-se à sua família. – omissão da Administração. b10. com reflexos na mobilidade deles. relativamente a um pedido de homologação de um titulo académico de um cidadão estrangeiro. NESTES TIPOS DE CASOS.º do C. – decisão de um canal público de televisão.b8. . 12. Direito à vida e da dignidade da pessoa humana (arts.Nem é possível a “acção pública” por parte do Ministério Público. violações a direitos.): .º) e ao desporto (79. 2. . Plena tutela do direito de manifestação do particular (Art. que limita os debates televisivos apenas a dois candidatos às eleições. 45. 3.º e 25. R. perante acções judiciais de natureza subjectivista. de um país não – comunitário. etc. 6. Segurança social e solidariedade (art. – decisões administrativas de retenção de passaportes ou de bilhetes de identidade de particulares. 64. 44. 40.

A. acabam por se revelarem concordes com esta. Homem Evidencia-se um elevado nível de exigência por parte do T. e para a salvaguarda dos direitos individuais”: . Este aresto está relacionado com as detenções e prisões de militantes irlandeses. Campbell e Hartley. E D. na medida em que tenham sido tomadas para a “defesa da democracia. de 30/Agosto/1990. A anulação assenta na falta de fundamentação de tal decisão. de 29/XI/1988. D. D. tal ausência de fundamentação não provoca a ilegalidade dessa decisão”. Fox.III A URGÊNCIA S/ A JURISPRUDÊNCIA do T.. E. muitas vezes. Brogan e outros. teve oportunidade de. E. do “Conselho de Estado” de 13Janeiro-1988. . E.º da Lei de 11-Julho-1979. e rejeita o argumento do Governo. quando nos encontramos perante medidas que. O T. Homem. formular limites muito severos a estas medidas suscitadas pela “urgência”: . que assentava tal falta de fundamentação sobre o artigo 4. ocorridas ao abrigo da legislação britânica referente ao “estado de emergência/ excepção”. nomeadamente em matéria de “medidas de afastamento do território”. nos termos do qual “quando a urgência absoluta impediu que uma decisão seja fundamentada. no interesse comum. H. sendo em princípio contrárias à “Convenção”. sendo que o “Conselho de Estado” tem adoptado orientação semelhante à daquele: de acordo com o Aresto Abina. D. a sua “Assembleia Plenária” anula um despacho de expulsão ordenado pelo Ministro do Interior e da Descentralização. Ora. pondo em causa a plausibilidade da urgência invocada pelos poderes públicos. ao abrigo do artigo 1.A. alguns autores criticaram esta orientação do T. Homem. a propósito de tais acontecimentos e outros semelhantes.º da referida lei.

é preciso admitir que o Conselho de Estado adoptou uma concepção muito “ restritiva” de urgência absoluta.BIBLIOGRAFIA: Stéphane Braconnier – “Jurisprudence de la Cour Européene des Droits de l’ Homme et Droit Administratif Français” – Bruylant. . Homem.Ora. muito próxima da do T.     Joaquim Loureiro . que não pode senão agradar aos apoiantes de tal concepção. E. D. a partir das conclusões do “Comissário” do Governo.