O Brincar na Educação Infantil

O brincar tem sido apontado por vários autores como um dos comportamentos principais da infância. As crianças quando brincam desenvolvem habilidades motoras, cognitivas, sociais e afetivas. Contudo, na educação infantil a brincadeira precisa estar presente como uma atividade importante em si mesma.

A brincadeira permite a criança transitar entre mundos opostos que delimitam a realidade e a fantasia. O real e o imaginário se misturam abrindo a possibilidade de criação que instiga a viver com mais energia e alegria, encarando as dificuldades com mais leveza.

A partir dos estudos de Vygostsky podemos afirmar que

a brincadeira

contém todas as tendências do desenvolvimento de forma condensada, sendo uma grande fonte de desenvolvimento. É possível pressupor que a criança da educação infantil brinca num mundo ilusório e imaginário onde os desejos não realizáveis podem ser realizados. Portanto, é necessário garantir espaço e tempo para as crianças brincarem sem que necessariamente tenham que atingir algum objetivo antes, durante ou depois da atividade. É importante ressaltar que atualmente existe no Brasil leis como o ECA (1990) – Estatuto da Criança e do Adolescente que garantem a legalidade do brincar à criança brasileira. Abaixo estão descritos os artigos que garantem esse direito.
Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis. IV - brincar, praticar esportes e divertir-se; Art. 59. Os municípios, com apoio dos estados e da União, estimularão e facilitarão a destinação de recursos e espaços para programações culturais, esportivas e de lazer voltadas para a infância e a juventude. Art. 71. A criança e o adolescente têm direito a informação, cultura, lazer, esportes, diversões, espetáculos e produtos e serviços que respeitem sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento.

É importante, lembrar que desde a Constituição de 1988 que a criança brasileira passou a ser cidadã de direito e como tal, um de seus direitos é o brincar, 1

portanto, um educador de creches e pré-escolas não pode utilizar o brincar como premio ou punição e em hipótese alguma escolher um grupo de crianças para uma atividade lúdica e deixar o restante impossibilitado de participar. A brincadeira deve ser favorecida de diversas formas e os espaços de educação infantil devem ser planejados considerando o tempo para a brincadeira livre e dirigida. Vale ressaltar, que para que o brincar seja garantido e valorizado existem alguns aspectos fundamentais que devem ser garantidos, tais como:

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reconhecer o brincar como atividade essencial na infância; identificar as diferenças das atividades lúdicas para crianças de 0 a 3 anos e 4 a 5 anos; articular e integrar conhecimentos, através de atividades lúdicas; reconhecer as diferenças entre as brincadeiras de faz de conta e o jogo com regras; criar condições no planejamento da rotina da creche para que o brincar ocorra; valorizar a brinquedoteca como espaço essencial nas creches e escolas de educação infantil.

Várias pesquisas na área da psicologia do desenvolvimento têm apontado sobre a necessidade de brincar na infância alguns autores, tais como: Piaget e Vygotsky, que consideram o brincar como fundamental nesse período. Vale destacar, que apesar desses estudiosos apresentarem divergências é fundamental compreender a contribuição que ambos trouxeram para a analise do brincar na infância.

Piaget - Jogo de Exercício, Brincadeiras de Faz de Conta e Jogos com Regras
O nascimento do jogo se dá nas fases iniciais do desenvolvimento, quando “quase todos os comportamentos (...) são suscetíveis de se converter em jogo, uma vez que se repitam por assimilação pura, isto é, por simples prazer funcional” (Piaget, A formação do símbolo na criança, p.117)

Segundo FRIEDMANN (1996) Piaget classifica o jogo em: 2

• Jogo de Exercício • Caracterizam a fase que vai desde o nascimento até o aparecimento da linguagem. • Os Jogos de exercício têm como finalidade o próprio prazer do funcionamento: por exemplo, quando a criança empurra uma bola, vai atrás dela, volta e recomeça, ela o faz por mero divertimento. Caracterizam a fase do desenvolvimento préverbal. • Jogo Simbólico

• Caracterizam a fase que surge com o aparecimento da linguagem • O símbolo implica a representação de um objeto ausente (comparação entre um elemento dado e outro imaginado). FRIEDMANN, destaca que “o jogo simbólico ainda não está emancipado, enquanto instrumento do próprio pensamento. É a conduta ou o esquema sensóriomotor que faz a vez de símbolo, e não tal objeto habitual”. p.29. Aos poucos o jogo simbólico vai se transformando e ganhando outras conotações. A medida em que a criança vai organizando melhor suas ideias, o jogo vai ficando mais próximo a uma imitação do real e mais social do que individual como era no inicio. • Jogo de Regras • A regra substitui o símbolo e enquadra o exercício quando certas regras sociais se constituem. • As regras podem ser transmitidas (repassadas de geração a geração) ou espontâneas (de natureza contratual e momentânea). Vygotsky – o papel do brinquedo no desenvolvimento Este autor coloca duas questões iniciais importantes, a primeira é que o brinquedo não pode ser definido simplesmente como atividade que da prazer, mas ao

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mesmo tempo deve-se tomar cuidado para não ignorar a importância dele no preenchimento das necessidades infantis. Vale ressaltar, que segundo Vygotsky (1998):
Frequentemente descrevemos o desenvolvimento da

criança como o de suas funções intelectuais; toda criança se apresenta para nós como um teórico, caracterizado pelo nível de desenvolvimento intelectual superior ou inferior, que se desloca de um estágio para o outro. Porém, se ignoramos as necessidades da criança e os incentivos que são eficazes para colocá-la em ação, nunca seremos capazes de entender seu avanço de um estágio de desenvolvimento para outro, porque todo avanço está conectado com uma mudança acentuada nas motivações, tendencias e incentivos. Aquilo que é de grande interesse para um bebê deixa de interessar uma criança um pouco maior. P.122.

Pontos Importantes: • O jogo é essencialmente desejo satisfeito originado dos desejos insatisfeitos da criança que se tornam afetos generalizados. • Quando pequena o brincar da criança é imaginação em ação, a imaginação, nos adolescentes e nas crianças em idade pré-escolar, é o brinquedo sem ação. • Não existe atividade lúdica sem regras: • O Jogo de faz de conta possui imaginário explicito e regras implícitas na cultura. • O Jogo de regras possui regras explicitas e o imaginário implícito. • O Jogo é crucial para o desenvolvimento cognitivo, pois na brincadeira a criança pode brincar com o sentido que ela dá ao objeto e não com o significado do objeto em si. • Ela se descola de um pensamento concreto, ligado objetivamente ao significado do objeto, e dá um salto qualitativo em sua forma de pensar aumentando a sua imaginação dando ao objeto novos significados relacionados a sua cultura passando ao pensamento abstrato. • Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) – O brincar cria zona de desenvolvimento proximal, pois no brinquedo, a criança sempre se comporta além do comportamento habitual de sua idade, além de seu comportamento 4

diário; no brinquedo é como se ela fosse maior do que é na realidade. A partir do que foi exposto acima é importante lembrar que as atividades lúdicas vão se transformando com o tempo e a criança adquire novas formas de expressá-la. Portanto é necessário considerar as diferenças entre as atividades lúdicas das crianças para diferentes faixas etárias.

Para crianças de 0 a 3 anos as atividades devem concentrar-se em brincadeiras corporais – tocar e ouvir – engatinhar e andar, atirar, botar, balançar e empurrar objetos, fazer percursos, contornar obstáculos. Enquanto que para crianças de 4 a 5 anos as brincadeiras corporais podem ser de correr, pular, subir, jogar. Nessa faixa etária maior também surgem brincadeiras de faz-de conta como imitar, fantasia, casinha, carrinhos, e ainda os jogos com regras – toca do coelho, dominó, memória, bola. O educador deve planejar atividades variadas que favoreçam o lúdico de diferentes formas, oferecendo contação de histórias (dramatização), música (bandinha musical, construção de instrumentos), arte (pintura, desenho, modelagem, colagem). É importante afirmar que para que isso aconteça também é necessário criar condições no planejamento da rotina da creche. Isso envolve o planejamento do espaço, como possuir um parquinho, ter brinquedos variados e acessíveis na sala de aula e apresentar um lugar com uma brinquedoteca para a brincadeira livre e dirigida. Destaca-se aqui a brinquedoteca como espaço essencial nas creches e escolas de educação infantil. Este local representa para a criança um laboratório de experiências culturais e para o adulto um laboratório de observação de acompanhamento infantil. Toda brinquedoteca deve possuir brinquedos e jogos variados,

classificados e organizados, sem que com isso a criança corra o risco de perder a liberdade de escolher o que quer fazer e com o que quer brincar. Finalmente, é importante valorizar o papel do professor como um mediador brincante; um adulto que brinca e constrói vínculos seguros e estáveis com a criança, alguém que reconhece a necessidade de observá-la e aprender com 5

ela. Alguém que acredita na essência lúdica da humanidade, mas sabe que é na cultura e através de espaços e profissionais de qualidade que o brincar se constrói.

REFERÊNCIAS FRIEDMANN, Adriana. Brincar: crescer e aprender – o resgate do jogo infantil. São Paulo: Moderna, 1996 BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei 8.069/90. Rio de Janeiro: DP&A, 30. edição, 2001. Piaget, Jean. A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: Zahar, 20 edição, 1975. VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 60 edição, 1998.

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