NOTAS DE LEITURA

LATOUR, Bruno. Ciência em ação: Como seguir Cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo, Editora da Unesp, 2000 [1998]. 439 páginas, ISBN 857139265X. R$ 58,90.

Caroline Christine G. Nascimento1

Palavras-chaves: Ciência – aspectos sociais – Filosofia - Tecnociência. Na obra Ciência e Ação, Bruno Latour faz algumas avaliações no campo da atuação e construção científica. Ao demonstrar a pluralidade metodológica da qual os artefatos técnicos são produzidos, analisa o fato de ocorrer influências sociais na ciência ( embora negadas) dado que o cientista carrega malhas estruturais/privadas para aquilo que eles próprios produzem (não haveria problema algum caso a ciência não fosse feita para máximas universais). Ao anunciar essa variedade metodológica, o autor levanta a problemática fundamental no campo das ciências humanas, que se depara com conflitos de ordem literal, ou seja o vocabulário acadêmico, os argumentos de autoridade e as controvérsias que envolvem o debate científico. A ciência, segundo o autor, possui várias faces, e ele nos provoca a percorrer essa construção antes mesmo de encerrada. (LATOUR, 2000, p. 39-48). Essa tipologia – aberta uma vez que sua postura é extremamente relativista – em que demonstra a diversidade de textos que podem ser engajados no processo científico. Portanto o autor ressalta como os textos podem afirmar um determinado projeto de pesquisa, como podem atacá-lo negativamente, como podem concordar inteiramente ou apenas parcialmente. Bruno Latour define a ciência como tecnociência, isso porque entende que é impossível compreender o
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Acadêmica do curso de Psicologia 2011/2. Nota publicada para disciplina de Metodologia e Investigação em Psicologia, Profª Dolores Departamento de Psicologia. Março/2012.

evidenciando o caráter local. mas o procedimento em sua totalidade. nem só no social. Latour afirma que a única maneira de compreender a realidade dos estudos científicos é acompanhar os cientistas em ação. Nessas articulações os interesses de classe não podem ser ignorados.processo de constituição da ciência sem levar em conta as técnicas. é preciso prestar atenção aos detalhes da prática científica. Para isso. ferramentas. e não sobre idéias. negando assim a própria separação entre o “lado de dentro” e o “lado de fora” do laboratório. “a construção de um fato é um processo tão coletivo que uma pessoa sozinha só constrói . Portanto. pensamos que devido à pluralidade metodológica e a íntima relação com a filosofia. mas também observa de que maneira ele se engaja com o mundo exterior. Latour não observa a constituição do conhecimento apenas do ponto de vista epistemológico. Temos então uma fusão das técnicas e da ciência e um processo de constituição do conhecimento científico que é encarado de maneira coletiva. de modo que a construção de fatos e máquinas somente se viabiliza através da conjugação de interesses e mobilização de um grande número de aliados. Do ponto de vista metodológico. Ele chama atenção para a capacidade desses objetos de portar mensagens e constituírem em si argumentos dos debates acerca das controvérsias. O exame das atividades cotidianas de um laboratório permite-nos ver como os gestos aparentemente mais insignificantes contribuem para a construção social dos fatos. Conforme diz. Certamente essa idéia de tecnociência nos remete à práxis. objetos materiais utilizados nesse processo. realizado por uma comunidade. pensamos que seja fundamental a idéia de Bruno Latour que o conhecimento produzido do lado de dentro da academia se articula com o apoio dos atores que estão do lado de fora da academia. Quais são os objetos. já que a ciência está fundada sobre uma prática. Latour propõe em seus trabalhos uma abordagem pragmática que não seja centrada nem só no técnico. heterogêneo e contextual das práticas científicas. o que ocorre no laboratório e nos estudos de campo que permitem dar sustentação a um novo conhecimento No caso das ciências humanas. o que quer dizer que não temos que entender somente a teoria que embasa o procedimento científico. a atividade científica tem por natureza uma dimensão coletiva. pública. Segundo o autor. ou seja. descrevendo essa prática tal como os antropólogos descrevem tribos selvagens. mas capaz de respeitar a dinâmica não hierárquica e não linear de suas relações. as técnicas. Contrário a todo pensamento dualista. talvez estudar esses pressupostos filosóficos que sustentam determinados métodos seja mais importante do que dar ênfase às técnicas.

Latour compara a construção de fatos a um jogo de rugby. a construção de fatos é um processo coletivo em que o objeto é transmitido de um ator para outro. Para que se mova. Conforme diz. mas aos seus colegas e à rede que o constitui como tal. DAS LUTAS INSTITUCIONAIS E DOS USOS SOCIAIS DO CONHECIMENTO. DISPONÍVEL EM: < HTTP://ENHPGII. velocidade. CIÊNCIA EM AÇÃO. é preciso que haja uma ação. mas acrescentam elementos seus ao modificarem o argumento. Isso significa que um fato científico só existe se for sustentado por uma rede de atores e que. que alguém a pegue e atire-a. . em última instância. 2000. 70). o status de uma afirmação depende sempre das afirmações ulteriores. do que se faz depois com ela. ou seja. Assim. “todos os atores estão fazendo alguma coisa com a caixa-preta (…) eles não a transmitem pura e simplesmente. BRUNO. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA LATOUR. sendo que o seu arremesso dependerá da hostilidade. fortalecêlo e incorporá-lo em novos contextos”(Latour. uma ciência não se universaliza. está sempre em situação de risco. perícia ou tática dos outros. e sim que sua rede se estende em grandes proporções e se estabiliza. não basta aos cientistas fazer com que os outros simplesmente tomem a afirmação em suas mãos.sonhos. aguardando ser pega por algum jogador para sair do estado de estagnação.COM/2009/10/BRENO-VIOTTO-PEDROSA2. SÃO PAULO: EDITORA DA UNESP. 2000: 171). Tal como um jogo de rugby.WORDPRESS. o cientista nunca remete à natureza em si.FILES. Nesse sentido. NOTAS SOBRE O CARÁTER ESPECÍFICO DA HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS HUMANAS: A IMPORTÂNCIA DA FILOSOFIA. 2000 [1998]. com a diferença de que na prática científica a afirmação vai se constituindo e se transformado à medida que passa de mão em mão. assim como a bola de rugby. se ela é tornada mais fato ou ficção. assim. Entretanto. podemos dizer que. mas não fatos” (Latour. dizendo que uma afirmação.PDF > ACESSO EM: 03/2012. alegações e sentimentos. é preciso evitar que estes a transformem tanto ao ponto de torná-la irreconhecível.