AÇÃO DO VENTO EM ESTRUTURAS DE EDIFÍCIOS DE CONCRETO ARMADO

Henrique Innecco Longo e-mail: hlongo@civil.ee.ufrj.br

3a edição

março de 2000

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

1

1. Introdução A ação do vento pode causar muitos estragos para a cidade e danos irreparáveis para as estruturas. Ventos fortes podem danificar redes de energia elétrica, interromper o trânsito nas pontes, fechar aeroportos e causar queda de estruturas mal projetadas. Alguns estragos causados pela ação do vento nos últimos anos estão relacionados abaixo [1]: • dia 24/6/94 - fortes ventos com velocidades superiores a 150 km/h derrubaram 4 torres das linhas de transmissão da usina hidroelétrica de Itaipu, provocando a redução de 15% do consumo de energia elétrica para as regiões Sudeste e Centro-Oeste. • dia 17/12/96 - ventos de 70 km/h interditaram a Ponte Rio-Niterói durante 40min, derrubaram parte do palco montado às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, fecharam o Aeroporto Santos Dumont durante 20 min, provocaram o desligamento de circuitos aéreos de distribuição deixando cerca de 300 mil pessoas sem energia elétrica. • dia 28/5/97 - ventos de até 80 km/h derrubaram árvores no Humaitá, andaimes em Ipanema e um prédio antigo no Centro da cidade do Rio de Janeiro • dia 2/11/97 - ventos de mais de 130 km/h derrubaram 10 torres de transmissão com 43m de altura de Foz de Iguaçu, Paraná, provocando cortes de energia elétrica em 11 estados das regiões Sul, Sudeste e CentroOeste. No Rio de Janeiro, a medição dos ventos tem sido feita pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) que tem registrado a velocidade dos ventos em anemômetros (instrumentos para medir a velocidade e direção dos ventos) no Aterro do Flamengo e em Santa Cruz (Zona Oeste). No Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, a medição é feita pelo Centro Meteorológico de Aeródromo da Infraero. Quais os problemas causados pela ação do vento nas estruturas de edifício? Nas estruturas de edifícios altos e esbeltos, a ação do vento pode provocar deslocamentos horizontais significativos e, em conseqüência, momentos fletores de segunda ordem. Este efeito pode se tornar ainda mais crítico nas edificações com lajes lisas (lajes cogumelos), tendo em vista que neste caso não existe o contraventamento das vigas. Desta maneira, as edificações devem ser suficientemente rígidas não apenas para resistir aos esforços atuantes, mas também garantir a estabilidade global da estrutura. Como os ventos podem ser classificados de acordo com a sua intensidade? A classificação dos ventos pode ser dada pela Escala Beaufort [1] em função da velocidade do vento em uma altura padrão de dez metros acima de uma superfície plana e descoberta (ver tabela 1).

1 - brisa ......................... 2 a 6 km/h 2 - vento leve ............... 7 a 12 km/h 3 - vento fresco ............. 13 a 18 km/h 4 - vento moderado ........ 9 a 26 km/h 5 - vento regular ........... 27 a 35 km/h 6 - vento meio forte ....... 6 a 44 km/h 7 - vento forte .................45 a 55 km/h 8 - vento muito forte .... ..55 a 66 km/h 9 - ventania .................. ..67 a 77 km/h 10 - vendaval ................. 78 a 90 km/h 11 - tempestade ............ 91 a 104 km/h 12 - furacão ou tufão .... ..mais de 104 km/h

tabela 1 - Classificação dos ventos pela Escala Beaufort

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

2

A ação do vento deve ser considerada em todas as estruturas de edificações? De acordo com norma NBR-6118 [2], atualmente em vigor, "será exigida a ação do vento nas estruturas em que esta ação possa produzir efeitos estáticos ou dinâmicos importantes e obrigatoriamente no caso de estruturas com nós deslocáveis, nas quais a altura seja maior que 4 vezes a largura, ou em que, numa dada direção, o número de filas de pilares seja inferior a 4". No entanto, o Projeto de Revisão da NBR-6118 [3] diz que é obrigatória a consideração da ação do vento e que os esforços devidos a esta ação devem ser determinados de acordo com a NBR-6123 [4]. Embora a ação do vento seja uma ação dinâmica, ela será considerada neste trabalho como um ação estática equivalente, determinada em função de coeficientes aerodinâmicos. Quais as outras ações horizontais, além do vento, podem atuar nas edificações? • ação do terremoto em regiões sujeitas a abalos sísmicos • forças horizontais equivalentes à inclinação acidental da edificação • forças horizontais específicas (equipamentos etc.) 2. Classificação das estruturas de acordo com a consideração do efeito de segunda ordem Sob a ação do vento, a edificação desloca-se lateralmente e os esforços de segunda ordem globais decorrente destes deslocamentos afetam os pilares e as vigas. Nos elementos estruturais, podem surgir também esforços de segunda ordem locais. Assim sendo, as estruturas podem ser classificadas de acordo com a consideração ou não do efeito de segunda ordem. • estruturas de nós fixos ou indeslocáveis São aquelas que, quando submetidas às ações horizontais, os deslocamentos laterais são pequenos devido a sua grande rigidez. Neste caso, os esforços de 2a ordem globais podem ser desprezados. • estruturas de nós móveis ou deslocáveis São as que os esforços de 2a ordem globais são importantes e devem ser considerados na análise. Como saber na prática se a estrutura é deslocável ou indeslocável?

3. Considerações sobre a norma de vento A Norma NBR-6123 [4] fixa as condições para a determinação das forças devidas à ação estática e dinâmica do vento nas edificações. Esta norma somente se aplica à edificações usuais, sendo que devem ser feitos estudos especiais nas estruturas fora do comum. Pela NBR-6123, as forças devidas ao vento sobre uma edificação devem ser calculadas separadamente para: • elementos de vedação e suas fixações (telhas, vidros, esquadrias, painéis de vedação etc.) • partes da estrutura (telhados, paredes etc.) • a estrutura com um todo As seguintes definições são usadas nesta norma: barlavento sotavento sobrepressão sucção - região de onde sopra o vento - região oposta de onde sopra o vento - pressão efetiva acima da pressão atmosférica de referência (sinal +) - pressão efetiva abaixo da pressão atmosférica de referência (sinal -)

A superfície frontal é definida como a projeção ortogonal da edificação sobre um plano perpendicular à direção do vento

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

3

4. Velocidade característica do vento De acordo com a NBR-6123 [4], a velocidade característica VK do vento é dada pela equação: VK = Vo . S1 . S2 . S3 (m/s)

Vo velocidade básica do vento - máxima velocidade média medida sobre 3s, que pode ser excedida em média uma vez em 50 anos, a 10m sobre o nível do terreno em lugar aberto e plano. S1 fator topográfico que leva em conta as variações do relevo do terreno nas cercanias da edificação (pag.5 da NBR- 6123[4]) S2 fator de rugosidade do terreno, dimensões da edificação e altura sobre o terreno.(pag.8) S3 fator estatístico considera o grau de segurança requerido e a vida útil da edificação.(pag.10) A velocidade básica do vento pode ser determinada pelas isopletas (curvas de igual velocidade) na NBR-6123 (pag.6) para várias regiões do Brasil. No Rio de Janeiro, por exemplo, pode-se considerar Vo = 35 m/s (126 km/h). Por hipótese, o vento básico pode soprar de qualquer direção transversal. Qual a diferença entre velocidade básica e velocidade característica do vento?

5. Pressão dinâmica do vento Pela NBR-6123 [4], a pressão dinâmica é dada em função da velocidade característica do vento: 1 q = ------- ρ VK2 2 ρ - massa específica do ar

sendo

Na condições normais de pressão (1 atm) e de temperatura (15o C), a expressão fica [ 14]: q = 0,613 VK2 q (N/m2) e VK (m/s)

unidades no sistema SI:

Esta equação pode ser obtida [5] pelo Teorema de Bernoulli de conservação de energia para fluidos perfeitos (incompreensíveis e não viscosos) em regime permanente.

6. Pressão efetiva em um ponto da superfície da edificação Como a força do vento depende da diferença de pressão nas faces opostas do trecho da edificação em estudo, a pressão efetiva ∆p em um ponto da superfície da edificação será dada por: ∆p = ∆pe - ∆pi ∆pe - pressão efetiva externa ∆pi - pressão efetiva interna Esta pressão efetiva pode ser dada em função dos coeficientes de pressão: ∆p = (cpe - cpi) q cpe - coeficiente de pressão externa ( + sobrepressão / - sucção) valores dados pela NBR-6123 [4] (pags.13 a17) para edificações de planta retangular, para telhados com uma e duas águas, telhados múltiplos e edificações cilíndricas

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

4

cpi - coeficiente de pressão interna ( + sobrepressão / - sucção) valores dados (pag.19) em função da permeabilidade de cada uma das faces da edificação. Um valor positivo de ∆p indica uma pressão efetiva com o sentido de uma sobrepressão externa e um valor negativo indica uma pressão efetiva com o sentido de uma sucção externa. COSTA REIS [5] apresenta um exemplo completo para o cálculo da pressão efetiva em uma estrutura de edificação, considerando os coeficientes da NBR-6123. Qual a diferença entre pressão dinâmica e pressão efetiva?

7. Força do vento sobre um elemento plano da edificação A força do vento sobre um elemento plano da edificação (parede, cobertura, janela etc.) de área A, atuando em uma direção perpendicular a este será:

F = Fe - Fi Fe - força externa à edificação, agindo na superfície plana de área A Fi - força interna à edificação, agindo na superfície plana de área A Esta força pode ser dada em função dos coeficientes de forma: F = Fe - Fi = (Ce -Ci) q A Ce - coeficiente de forma externo ( + sobrepressão / - sucção) pags. 13 a 17 da NBR-6123 Ci - coeficiente de forma interno ( + sobrepressão / - sucção) Um valor positivo para F indica que esta força atua para o interior e um valor negativo para o exterior da edificação. Para os casos previstos pela NBR-6123 [4], a pressão interna é considerada uniformemente distribuída no interior da edificação, então: cpi = Ci (pag.18 da NBR-6123) Em que situação a força do vento deve ser considerada?

8. Força de arrasto sobre uma edificação A força global do vento sobre uma edificação (ou parte dela) é obtida pela soma vetorial das forças do vento que atuam em todas as partes. A força de arrasto Fa é a componente da força global na direção do vento e é dada por: Fa = Ca q Ae Ca - coeficiente de arrasto (pags. 23 a 26 para corpos de seção constante) Ae - área frontal efetiva da projeção ortogonal da edificação sobre um plano perpendicular à direção do vento Em que situação a força de arrasto deve ser considerada?

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

5

9. Modelos para análise estrutural de uma edificação sob a ação do vento No projeto de uma edificação de concreto armado [9] pode-se adotar vários tipos de modelos estruturais. No caso de uma análise para a ação do vento, é possível adotar modelos tridimensionais, bidimensionais e até mesmo lineares simplificados. A escolha do modelo vai depender do tipo de estrutura e das possibilidades do programa de computador. • Modelos de elementos finitos tridimensionais (fig.1) Éste é um modelo muito complexo com muitos pontos nodais e muitos elementos finitos, que orna difícil sua aplicação na prática.

fig. 1 - Modelo de elementos finitos tridimensionais

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

6

• Modelo de pórtico tridimensional As vigas e os pilares formam um pórtico espacial. Os pavimentos da edificação podem ser representadas por elementos finitos de placa (fig.2) , diafragmas rígidos ou por uma grelha.

elemento finito de placa (laje)

elemento linear (pilar)

elemento linear (viga)

fig.2 - Modelo de pórtico tridimensional e elementos finitos de placa • Modelo de pórticos bidimensionais em duas direções ortogonais Na fig.3, por exemplo, está mostrado um modelo de pórtico plano em uma determinada direção. As barras verticais representam os pilares e as horizontais as vigas. • Modelo de elemento linear vertical representando um determinado pilar apoiada nas vigas horizontais de cada pavimento.

Qual o modelo mais adequado para a análise da ação do vento em uma edificação?

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

7

VENTO

fig.3 - Modelo de pórtico plano

10. Estrutura de contraventamento A análise da estabilidade global da edificação sob a ação do vento deveria ser feita levando-se em conta a estrutura tridimensional como um todo. No entanto, para simplificar a análise, a estrutura de contraventamento será dividida nas seguintes partes: • elementos de contraventamento - responsáveis pela estabilidade e pela absorção das forças horizontais. (pilares de grandes dimensões, pórticos, paredes estruturais lineares ou fechadas em forma de tubos) Estes elementos podem ser classificados de acordo com a consideração do efeito de segunda ordem. Os elementos rígidos são aqueles em que este efeito é desprezível e elementos flexíveis quando este efeito é considerável. • elementos contraventados - contribuem na resistência às ações verticais. São os elementos não considerados como de contraventamento, tais como lajes e pilares pouco rígidos.

A estrutura de contraventamento geralmente possui nós deslocáveis mas deve ser projetada de modo que tenha uma rigidez suficiente para que os elementos contraventados sejam considerados com pertencentes a uma estrutura de nós indeslocáveis. Desta maneira, alguns pilares mais rígidos podem ser tratados com elementos de contraventamento e outros menos rígidos como contraventados. Em determinados casos, podese considerar que todos os pilares sejam tratados como elementos de contraventamento. É importante salientar que esta divisão da estrutura em elementos de contraventamento e em elementos contraventados é feita apenas para simplificar a análise. Como definir na prática quais os elementos de contraventamento e os contraventados?

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

8

11. Pré-dimensionamento dos pilares sob a ação do vento Este pré-dimensionamento dos pilares de um pórtico de contraventamento pode ser feito por processos simplificados. Se a estrutura tiver pilares com seção transversal constante e regularmente distribuídos, ela pode ser dividida em pórticos planos na direção preferencial da atuação do vento. Neste caso, a pressão dinâmica w em cada pórtico será: w = qMED . l (carga por metro)

l - distância entre os pórticos qMED - pressão dinâmica média devido à ação do vento Neste pré-dimensionamento, podemos utilizar o método aproximado proposto por ROCHA [6]. De acordo com este método, a pressão dinâmica é substituída por forças horizontais Hi em cada pavimento (fig.4). A resultante H* destas forças em uma seção SS, localizada a uma distância h/2 da base do pilar, é distribuída pelos pilares proporcionalmente aos momentos de inércia . A força horizontal Hpi em cada pilar pode ser calculada de uma forma aproximada:

HPi

IPi ≅ --------Σ Ipi

H*

HPi - força horizontal no pilar i H* - resultante das forças horizontais acima da seção considerada IPi - inércia do pilar i Σ Ipi - soma das inércias dos pilares que passam pela seção SS
w H1

Hi

DM H* Hpi h /2 Mpi h /2

S

S

h

S

S

(a) estrutura de pórtico

(b) Força H* na seção SS

(c) Força Hpi no pilar i

fig. 4 - Distribuição da resultante horizontal pelos pilares

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

9

O momento fletor na base do pilar pode ser estimado considerando que os pilares estejam perfeitamente engastados na base, conforme sugerida por ROCHA [6]: Mpi = HPi . h /2 sendo h a altura do pilar no nível do térreo.

As reações verticais do pórtico pode ser calculada de uma maneira aproximada por: Npi = M* xi / Σ xi2 + Σ Ni Npi M* xi Σ Ni - reação do pórtico no pilar i - momento total resultante devido a ação do vento - distância do pilar i ao centro do pórtico - somatório das cargas verticais (cargas permanentes + cargas acidentais) no pilar i

Neste pré-dimensionamento, pode-se também verificar a deformação máxima do pórtico de contraventamento de uma maneira aproximada. Se considerarmos a estrutura em balanço, a deformação máxima será dada por: w . H4 fMAX = -----------8 Ec I H – altura total do pórtico Ec - módulo de elasticidade secante do concreto I - momento de inércia dos pilares em relação ao centro de gravidade da edificação Qual o grau de precisão deste método aproximado de pré-dimensionamento? Em que tipo de estrutura pode ser empregado?

12. Parâmetro de instabilidade global da estrutura Se os momentos de 2a ordem forem relativamente pequenos em relação aos de primeira ordem, estes efeitos poderiam ser desprezados. O Projeto de Revisão da NBR-6118 [3] apresenta dois processos aproximados para a verificação da possibilidade de dispensa da consideração dos esforços globais de 2a ordem, ou seja, para indicar se a estrutura pode ser classificada como de nós fixos, sem necessidade de um cálculo rigoroso. Esta verificação pode ser feita pelo parâmetro de instabilidade ou então através de um coeficiente γZ de majoração dos esforços globais finais em relação aos esforços de primeira ordem. Este parâmetro de instabilidade α foi introduzido por BECK (1966) [7] e depois aperfeiçoado por FRANCO. O Modelo de Beck (fig.5) é constituído por uma haste engastada na base e livre no topo e submetido a uma carga vertical uniformemente distribuída ao longo de sua altura H. Este modelo somente é válido no regime elástico para uma haste com seção transversal e módulo de elasticidade constante.

Ni

H

fig. 5 - Modelo de Beck

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

10

O parâmetro α de instabilidade para este modelo é o seguinte: _________ Σ Ni α = H . ------------( E .I ) Σ Ni - resultante das cargas verticais na haste (E. I ) - rigidez da haste H - altura da haste Segundo os estudos de BECK, se α for menor do que 0,6 então os momentos de segunda ordem são menores do que 10% dos de primeira ordem e podem ser desprezados. Mais tarde, este parâmetro foi adaptado para ser utilizado em estruturas de contraventamento e adotado por normas de projeto [8] e por alguns autores [10] para avaliar os efeitos de segunda ordem globais nas estruturas de edifícios de uma maneira aproximada. De acordo com o Projeto de Revisão da NBR-6118 [3], o parâmetro α de instabilidade é dado por: _________ NK -----------( EC . IC )

α =

Htot .

Htot NK

- altura total da estrutura, medida a partir do topo da fundação ou de um nível pouco deslocável do subsolo - somatório de todas as cargas verticais atuantes na estrutura (a partir do nível considerado para o cálculo de Htot ) com seu valor característico ________ EC = 0,9. 6.600 √ fck + 3,5

(EC .IC) - somatório das rigidezes de todos os pilares na direção considerada. EC - módulo de elasticidade secante do concreto [2] (MPa) parâmetro de

Uma estrutura simétrica pode ser considerada como sendo de nós fixos se o seu instabilidade α for menor do que α1, definido por: α1 = 0,2 + 0,1 n α1 = 0,6 se n ≤ 3 se n ≥ 4

n - no de níveis de andares acima da fundação ou de um nível pouco deslocável do subsolo Este parâmetro de instabilidade pode ser utilizado em associações de pilares-paredes, pórticos associados a pilares-paredes, mas não se aplica a estruturas significativamente assimétricas. Ele pode ser aumentado para 0,7 para contraventamento formado exclusivamente por pilares-paredes e deve ser reduzido para 0,5 quando só houver pórticos. É importante observar que a verificação da estabilidade global não garante a estabilidade individual dos pilares, que devem ser analisados separadamente. O que pode ser feito de o parâmetro de instabilidade for maior do que seu valor limite? É possível modificar a estrutura de modo que os efeitos de segunda ordem sejam desprezíveis? Por que o valor do parâmetro α aumenta com a altura da edificação e com as cargas verticais?

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

11

Determinação da rigidez equivalente para a definição do parâmetro de instabilidade No caso de estruturas de pórticos, de treliças ou mistas, ou com pilares de rigidez variável ao longo da altura, pode-se considerar o produto da rigidez EC .IC de um pilar equivalente de seção constante. Pelo Projeto da NBR-6118 [3], a determinação da rigidez equivalente (EC.I)eq pode ser feita do seguinte modo: • • calcula-se o deslocamento do topo da estrutura de contraventamento, sob a ação do carregamento horizontal característico (fig.6a) calcula-se a rigidez de um pilar equivalente de seção constante, engastado na base e livre no topo, de mesma altura Htot tal que , sob a ação do mesmo carregamento, sofra o mesmo deslocamento no topo (fig.6b). w ∆ w ∆eq

H

fig.6 - Deslocamentos no pórtico plano e no pilar isolado equivalente Se igualarmos o deslocamento ∆eq do topo do pilar equivalente ao deslocamento no topo do pórtico: w H4 ∆eq = ------------ = ∆ 8 ( EC IC ) eq Desta equação, podemos obter a rigidez equivalente ( EC IC )eq , que pode ser considerada igual a rigidez (EC .IC) do elemento de contraventamento: w H4 ( EC IC )eq = ------------- = (EC . IC) sendo que w pode ser considerado igual ao valor unitário 8∆ Se somarmos as rigidezes de todos os elementos de contraventamento, teremos o valor para ser usado na fórmula do parâmetro de instabilidade α. No cálculo do deslocamento ∆ poderia ter sido usado um modelo de pórtico tridimensional (fig.7), conforme foi feito por ALMEIDA PRADO e GIONGO [7]. ∆

fig. 7 - Deslocamentos no modelo tridimensional

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

12

13. Definição e posicionamento dos elementos de contraventamento Os elementos de contraventamento (pilares, paredes estruturais etc) devem ser suficientemente rígidos para que resistam aos esforços atuantes e garantam a estabilidade global da edificação. Além disso, devem estar posicionados em locais que atendam aos projetos de instalações e de arquitetura. As seguintes orientações podem ser úteis para o posicionamento destes elementos: • devem estar bem distribuídos e dispostos de tal maneira que o centro de torção fique próximo à direção da resultante das forças horizontais do vento. Como determinar o centro de torção do pavimento? • devem estar colocados em posições de modo que fiquem comprimidos, tendo em vista que podem surgir forças de tração em determinados pilares de periferia. Quando os pilares e as paredes estruturais não forem suficientemente rígidos, a ação do vento poderá provocar consideráveis esforços de segunda ordem. Para reduzir estes esforços, é preciso aumentar a rigidez ou a quantidade dos elementos de contraventamento, tomando-se sempre o cuidado para não interferir nos aspectos arquitetônicos. Algumas sugestões podem ser adotadas no projeto: • • • • • aumentar as dimensões dos pilares e paredes estruturais. introduzir paredes estruturais em torno dos elevadores e das escadas (fig.8). substituir algumas paredes de alvenaria por paredes estruturais. projetar pilares pouco espaçados formando um núcleo rígido central ou na periferia da edificação. colocar vigas adicionais para contraventar melhor a estrutura

Existem outras maneiras de enrijecer a estrutura de uma edificação?

fig.8 - Paredes estruturais em torno de escadas e elevadores

COSTA REIS [5] apresenta alguns exemplos interessantes de edifícios altos como, por exemplo, o edifício South Wacker Tower (1989, Chicago, EUA), construído em concreto armado com 70 andares e 288,5m de altura. Nesta estrutura há um núcleo central de paredes rígidas, formando uma espécie de tubo, e pilares pouco espaçados na periferia. A carga máxima no pilar mais crítico, de dimensões 1,5m x 1,5m, chegou a 140.000 kN. A fundação deste núcleo central tem 26 tubulões de 2,15m de diâmetro. O que o engenheiro deve fazer quando não for possível aumentar as dimensões ou o número de elementos de contraventamento?

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

13

14. Coeficiente de rigidez dos elementos de contraventamento A rigidez dos elementos de contraventamento pode ser expressa por um coeficiente Ki de rigidez, definido como a força necessária capaz de provocar um deslocamento unitário no topo do elemento i de contraventamento (fig.9): F Ki = ---------∆i F - força horizontal aplicada no topo do elemento de contraventamento ∆i - deslocamento no topo do elemento de contraventamento

Este coeficiente Ki será utilizado para a distribuição das forças horizontais devido à ação do vento pelos elementos de contraventamento. Na prática, pode-se considerar F = 1 para a obtenção de Ki.
F ∆

fig. 9 - Modelo para a definição do coeficiente de rigidez de um pórtico Se os andares da edificação tiverem alturas diferentes, o coeficiente de rigidez pode ser obtido em cada piso j aplicando-se uma força Fj em cada um destes pisos para o cálculo do deslocamento ∆j (fig.10).

FJ

∆J FJ+1 ∆J+1

fig.10 - Modelo para a definição do coeficiente de rigidez para pórticos com alturas diferentes

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

14

15. Distribuição das ações horizontais pelos elementos de contraventamento Após a determinação das pressões devidas ao vento na edificação, precisamos distribuir as forças horizontais pelos elementos de contraventamento, proporcionalmente aos coeficientes de rigidez, que representam os coeficientes de mola. Esta distribuição das ações horizontais pode ser feita por um método aproximado, conforme mostrado por COSTA REIS [5] com as seguintes simplificações: • os elementos de contraventamento são considerados isolados entre si e são travados horizontalmente pelos pisos, que devem ter resistência para funcionar como diafragmas rígidos. • todos os elementos de contraventamento devem ser do mesmo tipo com curvas de deformações afins ou uma mesma lei de variação. • a inércia dos elementos de contraventamento deve ser constante ao longo da altura da edificação. • comportamento elástico linear dos materiais. Se considerarmos válidas estas hipóteses, a distribuição das forças horizontais pode ser considerada independentemente do pavimento considerado e será proporcional à rigidez de cada elemento i de contraventamento. A figura 11 está mostrando elementos de contraventamento de um pavimento genérico.

H4 K4

H2 K2 ri Y yi HY M Ki

Hi

θi

H3 K3

H1 K1

O

HX xi

X

∆α ∆Y
K5 H5

∆X

H

fig. 11 - Distribuição das ações horizontais pelos elementos de contraventamento

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

15

Na fig.11, podemos observar um pavimento de uma edificação submetida à ação do vento, representado pela resultante H atuando no plano do pavimento. Se transferirmos esta resultante para o ponto O, origem do sistema de eixos de referência, o vetor desta resultante pode ser representado por:

H  =

HX Hy M

HX - componente na direção X da resultante H Hy - componente na direção Y da resultante H M - momento devido a força H em relação ao ponto O

Este vetor também pode ser escrito em função das forças horizontais Hi nos elementos: ∑ Hi. cos θi H  = ∑ Hi . sen θi ∑ Hi . ri Hi - força no elemento i θi - inclinação do elemento i ri - distância da origem O ao elemento i

(1)

Os deslocamentos do pavimento, considerado como diafragmas rígidos, no plano XY pode ser também representado por um vetor ∆, cujas componentes estão mostradas na figura 11. ∆ = ∆X ∆Y ∆α ∆X - deslocamento do pavimento na direção X ∆Y - deslocamento do pavimento na direção Y ∆α - rotação do pavimento em torno do ponto O

(2)

De acordo com este método aproximado apresentado por COSTA REIS [5], cada elemento de contraventamento vai absorver uma força horizontal Hi , que será proporcional à rigidez e ao deslocamento ∆i deste elemento: Hi = Ki . ∆i (3)

O deslocamento ∆i do elemento de contraventamento pode ser escrito em função das componentes dos deslocamentos do pavimento na direção i (fig.12) : ∆i = MN + MP + AC Considerando que a rotação ∆α é pequena, AC ≅ AB ≅ ∆α ri , então: ∆i = ∆x . cos θi + ∆y . sen θi + ∆α ri (4)

O N θi ∆x M A ∆y θi ∆α P ri θi C B

M

fig.12 - Componentes dos deslocamentos do pavimento na direção do elemento de contraventamento

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

16

A distância ri pode ser determinada geometricamente pela figura 13: ri = OS - PR sendo OS = xi sen θi e PR = yi cos θi (5)

ri = xi sen θi - yi cos θi

Y

xi

θi yi P θi

θi X R

O ri

S

fig.13 - Distância ri do ponto O ao elemento de contraventamento i Se substituirmos as forças Hi da equação (3) e os deslocamentos ∆i da equação (4) no vetor da resultante horizontal H  da equação (1), teremos: ∑ Hi. cos θi H  = ∑ Hi . sen θi ∑ Hi . ri ∑ Ki . (∆x . cos θi + ∆y . sen θi + ∆α ri ) cos θi ∑ Ki . (∆x . cos θi + ∆y . sen θi + ∆α ri ). sen θi ∑ Ki . (∆x . cos θi + ∆y . sen θi + ∆α ri ) . ri

=

Este vetor pode ser escrito sob a forma de um sistema de equações: ( ∑ Ki . cos 2 θi ) ( ∑ Ki . cos θi .sen θi ) ( ∑ Ki . ri .cos θi ) ( ∑ Ki . sen θi cos θi ) ( ∑ Ki . ri .cos θi ) ( ∑ Ki . sen2 θi ) ( ∑ Ki . ri .sen θi ) ( ∑ Ki . ri .sen θi ) ( ∑ Ki . ri2 ) ∆x ∆y ∆α

H  =

HX Hy M

=

Este sistema de equações fica então: H  = K K . ∆ (6)

é a matriz de rigidez do sistema de contraventamento (matriz simétrica)

Se resolvermos o sistema de equações, podemos então determinar o vetor dos deslocamentos:
-1

∆ = K .  H 

(7)

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

17

Com este vetor ∆ , podemos obter os deslocamentos ∆i nos elementos de contraventamento pela equação (4) e as forças Hi nos elementos de contraventamento pela equação (3). É importante salientar que este método aproximado pode ser empregado para a obtenção da contribuição da ação do vento no elemento de contraventamento, ou seja, Hi / H que é a parcela da resultante horizontal no elemento i. Para elementos com grandes dimensões, como paredes de poços de elevadores de seção U, COSTA REIS [5] recomenda que este processo aproximado seja adaptado para se levar em conta a rigidez nas duas direções e a rigidez à torção. Qual o grau de precisão deste método aproximado? Em que tipo de estrutura ele pode ser empregado? Casos particulares: a) Resultante da ação do vento na direção Y (HY ≠ 0 e HX = M = 0) aplicado no centro de torção do pavimento e todos os elementos na direção desta resultante (θi = 90 o )

HY

Se fizermos θi = 90o, temos sen θi = 1 e cos θi = 0 , o sistema de equações fica: 0 Hy 0 0 0 0 0 ∑ Ki ∑ (Ki . ri ) 0 ∑ (Ki . ri) ∑ (Ki . ri2 ) 0 ∆y 0

H  =

=

HY = ∑ Ki . ∆Y (∑ Ki . ri ) ∆Y = 0

donde ∆Y = HY / ∑ Ki donde (∑ Ki . ri ) = 0 nos elementos serão

Isto significa que somente haverá deslocamentos ∆y e as forças Hi proporcionais a este deslocamento. Neste caso: ∆i = ∆Y donde Hi = Ki ∆Y

Se HY tivesse aplicado fora do centro de torção do pavimento, haveria um momento M e a rotação ∆α. Neste caso, teríamos : HY = ∆Y ∑ Ki . + ∆α (∑ Ki . ri) M = ∆Y (∑ Ki . ri) + ∆α (∑ Ki . ri2 ) A partir destas equações, obtemos as incógnitas ∆Y e ∆α

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

18

b) Resultante do vento na direção X (HX ≠ 0 e HY = M = 0) aplicado no centro geométrico do pavimento e todos os elementos na direção Y (θi = 90 o ) Pelo sistema de equações, teríamos o seguinte: ∑ Ki . ∆y = 0 donde ∆y = 0

Além disso, não é possível ter deslocamentos na direção X, já que os elementos somente poderão absorver forças na direção Y. Neste caso o método não pode ser aplicado. Por quê ? De que maneira a força do vento na direção X deverá ser absorvida? (É importante lembrar que este é um caso que pode acontecer na prática). Se os elementos de contraventamento forem regularmente distribuídos em uma certa direção, podese obter esta distribuição por um modelo mais simplificado, proposto por SUSSEKIND [12], de uma viga com inércia infinita apoiada em molas com coeficiente de rigidez Ki (fig.14). Este modelo é muito aproximado mas pode ser empregado no pré-dimensionamento de casos específicos.
Hi Ki

H

fig. 14 - Modelo simplificado de viga com inércia infinita apoiada em molas

16. Exemplos práticos de distribuição das ações horizontais Na fig.15 está mostrado um pavimento de uma edificação com quatro elementos de contraventamento, sendo dois pórticos na extremidade com coeficientes de rigidez K1 e K4 e duas paredes com coeficientes K2 e K3. Neste caso, os pilares P1 e P2 não foram considerados como elementos de contraventamento. Por quê?

P1 K1 K2 K3

P2 K4

VENTO

fig.15 - Estrutura com pórticos e paredes como elementos de contraventamento

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

19

Na fig. 16 está indicado uma estrutura apresentado por SUSSEKIND [12], formada por pórticos laterais e uma parede. Neste caso, o vento na direção Y é absorvido igualmente pelos pórticos laterais que possuem o mesmo coeficiente de rigidez. A parede vai absorver toda a força do vento na direção X, sendo que as paredes laterais absorvem um binário para equilibrar o momento resultante. É importante observar que com o vento na direção Y, a parede não absorve nenhuma parcela da resultante HY. Por quê?
HX

a HX a / b HX a / b HX

HY / 2

HY / 2

a

HY

b

fig. 16 - Elementos de contraventamento absorvendo a ação do vento nas direções Y e X Na fig.17 está um exemplo de uma estrutura composta apenas por paredes estruturais, sendo que a do centro tem um coeficiente igual ao dobro das da periferia. Neste caso, a parede central vai absorver o dobro da força das paredes laterais na direção Y, enquanto que as paredes na direção X não recebem nenhuma parcela da resultante H do vento. Por quê?

K4 = 1

K1 = 1

H1 =H /4

H2 =H /2

K2 = 2

H3 =H /4

K3 = 1

K5 = 1

H

fig. 17 - Paredes estruturais absorvendo a ação do vento

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

20

17. Limitação do deslocamento horizontal no topo da edificação O deslocamento horizontal no topo da edificação provocado pela ação do vento deve ser limitado para evitar que a estrutura se deforme muito. Esta limitação pode ser considerada através do índice de desvio lateral ID definido pela relação entre o deslocamento horizontal e a altura da estrutura, ou seja, um valor equivalente a tangente do ângulo de inclinação da deformada (fig.18). Na prática, este índice pode variar de 1/300 a 1/600, mas pode-se considerar o seguinte [5]: ID = ∆max / H ≤ 1/ 400 para toda a edificação para dois pavimentos consecutivos

ID = (∆ i - ∆ i+1) / hi ≤ 1/ 500

∆max

∆i
VENTO hi

∆i+1

H

fig. 18 - Deslocamentos na edificação

Com este índice pode-se então obter o deslocamento máximo admissível da estrutura: ∆max ≤ H / 400 Por exemplo, para uma edificação com 10 pavimentos e 30 metros de altura, o deslocamento máximo admissível pode ser considerado igual a 7,5 cm. Para uma edificação com 15 pavimentos e 45 metros de altura, este deslocamento máximo será igual a 11,25 cm. O que o engenheiro deve fazer se o deslocamento do topo da edificação devido a ação do vento for maior do que o valor máximo admissível?

18. Imperfeições geométricas De acordo com [3], na verificação do estado limite último das estruturas reticuladas, devem ser consideradas as imperfeições geométricas do eixo das peças da estrutura descarregada. Estas imperfeições podem ser divididas em imperfeições globais e imperfeições locais. Na análise global da estrutura, contraventada ou não, deve ser considerado um desaprumo dos elementos verticais dado por (fig. 19): ____________ θa = θ1 √ (1 + 1 /n ) / 2 __ sendo θ1 = 1 / ( 100 √ l ) l n altura total da estrutura (em metros) número total de elementos verticais contínuos

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

21

θ1MIN = 1 / 400 para estruturas com nós fixos θ1MIN = 1 / 300 para estruturas com nós móveis e imperfeições locais θ1MAX = 1 / 200 O Projeto de Revisão da NBR-6118 [3] diz que este desaprumo não precisa ser superposto ao carregamento do vento. Entre os dois, vento e desaprumo, pode ser considerado apenas aquele mais desfavorável, permitindo-se escolher o mais desfavorável como sendo o que provoca o maior momento na base da construção. No entanto, esse critério é questionável pois o vento pode atuar em uma estrutura com imperfeição geométrica e, desta maneira, seria conveniente considerar estes dois efeitos. As imperfeições geométricas podem ser substituídas por um conjunto de cargas externas auto equilibradas equivalentes. A figura 19a está mostrando um pórtico submetido a cargas verticais Nji e com uma imperfeição geométrica θa na direção mais desfavorável. Este desaprumo pode ser substituído por um carregamento horizontal H i equivalente, conforme a figura 19b.
N11 nível 1 nível 2 N12 N22 Nj2 N21 Nj1 Np1

e1
Np2

H1 H2

e2
θa
Npi

nível i

N1i

N2i

Nji

ei

Hi

nível n

N1n

N2n

Njn

Npn

hi Hn

hi

1

2

j

p

1

2

j

p

fig.19 - Pórtico com uma inclinação acidental (a) e com um carregamento horizontal equivalente (b) Cada força horizontal H i equivalente no nível i (fig.19b) pode ser calculado tomando-se o momento fletor do somatório da soma das cargas verticais deste nível em relação a base: H i. hi =

Nji ) . ei vale ei = hi tg θa teremos a força horizontal

Considerando que a excentricidade (fig.19a) equivalente no nível i: Hi =

Nji ) . tg θa

(4)

Σ

Nji

somatório das cargas verticais em cada nível i (soma das cargas verticais j = 1 até p)

j=1

Se considerarmos o valor tg φ2 = 1/200, teremos em cada andar a força horizontal: Hi =

Nji ) / 200

É importante salientar que esta força horizontal equivalente não deve ser considerada no cálculo do esforço cortante por se tratar de um artifício para se obter o mesmo efeito da inclinação acidental.

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

22

19. Análise das estruturas deslocáveis considerando os efeitos de segunda ordem Quando o parâmetro de instabilidade α for maior do que seu valor limite, os efeitos de segunda ordem podem ser significativos e devem ser considerados na análise estrutural. Estes efeitos podem ser determinados pelos seguintes métodos: • método geral de análise não linear • método rigoroso (método P-delta) • métodos simplificados O método geral de análise considera tanto a não linearidade geométrica como também a não linearidade física dos materiais. Neste caso, o Princípio de Superposição dos Efeitos não pode mais ser empregado. No entanto, este método é muito trabalhoso e algumas simplificações podem ser feitas na prática. A análise não linear pode ser substituída por uma série de análises lineares, sendo que em cada etapa as características são consideradas constantes. Na etapa seguinte, os resultados da etapa anterior são alterados e o processo só termina quando houver uma convergência, ou seja, os parâmetros se mantenham praticamente os mesmos em duas etapas consecutivas. 20. Método P-delta O Projeto de Revisão da NBR-6118 [3] permite que se considere a não linearidade-geométrica em estruturas de edifício pelo método P- delta [10]. Este método é um processo iterativo, que pode ser empregado em estruturas de pórticos múltiplos com barras perpendiculares entre si para se obter os momentos de segunda ordem. Inicialmente é feita uma análise linear para a determinação dos deslocamentos horizontais em cada pavimento. Em seguida, são determinadas as forças horizontais equivalentes aos deslocamentos anteriores. Nas etapas seguintes, estas forças equivalentes são aplicadas até que a convergência seja alcançada. 1a etapa - Análise linear da estrutura para a determinação dos deslocamentos horizontais em cada nível O carregamento para esta primeira etapa está mostrado na figura 20, onde as cargas verticais estão sendo representadas por Nij e as forças Fi horizontais são devidas à ação do vento.
N11 F1 N12 F2 h2 N22 Nj2 Np2 h1 nível 2 N21 Nj1 Np1 nível 1

N1i Fi N1,i+1 Fi+1

N2i N2,i+1

Nji

Npi nível i Np,i+1 hi nível i+1 hi+1

Nj, i+1

Fn hn

nível n

1

2

j

p

fig. 20 - Pórtico com os carregamentos verticais e horizontais

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

23

Na figura 21 está mostrado o pórtico deformado em linha pontilhada, sendo que os valores ai são os deslocamentos horizontais calculados.
N11 F1 N12 F2 N22 Nj2 Np2 a2 N21 Nj1 Np1 a1

ai-1 N1i Fi N1,i+1 Fi+1 N2i N2,i+1 Nji Npi ai Nj, i+1 Np,i+1 ai+1

1

2

j

p

fig.21 - Deslocamentos horizontais no pórtico 2a etapa - Análise dos efeitos de 2a ordem para o cálculo das forças horizontais fictícias e dos deslocamentos correspondentes. Estas forças horizontais fictícias são calculadas pelas equações de equilíbrio, considerando todos os nós articulados. Na figura 22 estão indicadas as forças nodais nas hastes AB e BC do pórtico deformado, consideradas articuladas nos níveis (i -1), i e (i +1), bem como os deslocamentos relativos ∆ai e ∆ai-1.
N1,i-1 nível i1 Fi-1 N1i nível i Fi N2i Nji N2,i-1 Σ N j, i-1 Nj,i-1 Np,i-1 ai-1 C Npi ai B Σ N j, i ∆ai B ∆ai-1 C H i-1 B H i-1

Hi

N1,i+1 nível i+1 Fi+1

N2,i+1

Nj, i+1

Np,i+1 ai+1 A Hi A

fig,22 - Forças nodais nas hastes AB e BC deformadas

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

24

As forças horizontais em cada nó articulado destas hastes podem ser obtidas pelo equilíbrio de momentos, conforme mostrado na figura 22: Hi = Σ Nj,i (∆a i / hi ) Hi-1 = Σ Nj,i-1 ( ∆a i-1 / hi-1 ) As forças horizontais fictícias em cada nível será a diferença entre as estas forças: H*i = Hi - Hi-1 H*i = Σ Nj,i (∆a i / hi ) - Σ Nj,i-1 ( ∆a i-1 / hi-1 )

(5)

j=1, p

i=1, n

Σ Nj, i

- soma das cargas verticais acima do nível (i)

j=1, p

i=1, n

Σ Nj, i-1 - soma das cargas verticais acima do nível (i-1) n - número de níveis deslocamento relativo no nível (i) deslocamento relativo no nível (i-1)

p - número de pilares ∆a i = a i - a i+1 ∆a i-1 = a i-1 - a i

Estas forças horizontais Hi* fictícias são então aplicadas no pórtico conforme a figura 23.
N11 F1 N12 F2 N22 Nj2 Np2 N21 Nj1 Np1 H*1

H*2

Fi-1 N1i Fi N1,i+1 Fi+1 N2i N2,i+1 Nji Npi Np,i+1

H*i-1

H*i

Nj, i+1

H*i+1

Fn

H*n

1

2

j

p

fig.23 - Forças horizontais fictícias aplicadas no pórtico

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

25

Como o diagrama de momentos fletores calculado pelo método P-delta é linear, COSTA REIS [5] propõe corrigir o valor de H*i por um coeficiente de correção igual a 1,15 para que o diagrama se aproxime do diagrama não linear. Os deslocamentos ∆a i em cada nível são novamente calculados para os carregamentos da figura 23. Etapas seguintes: • cálculo de novas forças horizontais H*i fictícias • determinação dos deslocamentos ∆a i em cada nível da estrutura para o carregamento da figura 23 (em cada etapa se pode avaliar a rigidez de cada haste em função dos esforços da etapa anterior) O processo iterativo termina quando os deslocamentos ai e as forças horizontais H*i fictícias convergirem para valores finitos. Neste caso, a estrutura será considerada estável e os momentos fletores resultantes serão os valores com os efeitos de segunda ordem. O CEB-FIP [14] sugere que se adote um critério para a aceleração do processo para o cálculo dos momentos fletores finais: M1 -----------------------1 - (M2 - M1) / M1 M - momento fletor final em uma seção de referência M1 e M2 - momentos nas etapas 1 e 2

M =

sendo

Consideração aproximada da não linearidade física A rigidez EI dos elementos de contraventamento deveria ser modificada em função dos momentos fletores e da curvatura em cada etapa do método P-delta. Esta rigidez depende da relação entre o esforço normal atuante na haste e a normal última, do valor e da distribuição dos momentos fletores, da relação entre o módulo de elasticidade do aço e do concreto, da forma da seção, da quantidade e da distribuição das armaduras. Para a análise dos esforços globais de segunda ordem, o Projeto de Revisão da NBR-6118 [3] permite a consideração da não-linearidade física de maneira aproximada, tomando-se como rigidez das peças os seguintes valores: lajes vigas (EI) sec = 0,3 EC IC (EI) sec = 0,4 EC IC (EI) sec = 0,5 EC IC para A’S ≠ AS para A’S = AS

pilares (EI) sec = 0,8 EC IC sendo: EC IC módulo de elasticidade inicial do concreto momento de inércia da seção bruta de concreto, incluindo quando for o caso as mesas colaborantes

Alternativamente, permite-se [3] quando a estrutura de contraventamento é composta exclusivamente por vigas e pilares, considerar para ambos: (EI) sec = 0,7 EC IC Todos estes valores para (EI) sec são aproximados e não podem ser usados para avaliar esforços locais de segunda ordem mesmo com uma discretização maior da modelagem.

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

26

21. Solicitações de cálculo a) Estado limite último De acordo com a NBR-6118 [2], as solicitações de cálculo para o estado limite último são os valores das solicitações multiplicadas por um coeficiente de segurança γf para se levar em conta os seguintes fatores: • • • • a possibilidade de desvios desfavoráveis das ações em relação aos valores característicos (γf > 1) a probabilidade de redução desfavorável da solicitação devida à carga permanente (γf < 1) as aproximações inevitáveis nas hipóteses de cálculo das solicitações as inexatidões geométricas das construções

No estado limite último, devem ser considerados o mais desfavorável dos seguintes valores de cálculo das solicitações: Sd = 1,4 Sgk + 1,4 Sqk + 1,2 Sεk Sd = 0,9 Sgk + 1,4 Sqk + 1,2 Sεk sendo que, no caso de estruturas de edifícios, apenas a primeira expressão poderá ser considerada. Sd - solicitação de cálculo Sgk - solicitação devido a cargas permanentes Sqk - solicitação devido a cargas acidentais Sεk - solicitação devido a deformações próprias e impostas Quando existirem ações acidentais de diferentes origens com pouca probabilidade de ocorrência simultânea, que causem solicitações Sqk1 > Sqk2 > Sqk3 ... o valor de Sqk poderá ser substituído por: Sqk1 + 0,8 (Sqk2 + Sqk3 ...). Assim, teremos no caso de estruturas de edifícios: Sd = 1,4 Sgk + 1,4 [ Sqk1 + 0,8 (Sqk2 + Sqk3 ...) ] + 1,2 Sεk Qual seria a expressão a ser utilizada no cálculo das solicitações de cálculo nas estruturas de edificações sob a ação do vento? É possível a ocorrência simultânea da ação do vento com o carregamento devido á inclinação acidental? b) Estado de utilização Os valores de cálculo das solicitações no estado de utilização são os próprios valores característicos, podendo ser até menores em alguns casos. Pela NBR-6118 [2], as solicitações de cálculo para o estado limite de utilização será: Sd = Sgk + χ Sqk + Sεk Se existirem ações acidentais de diferentes origens com pouca probabilidade de ocorrência simultânea, a solicitação poderá ser a seguinte: Sd = Sgk + χ Sqk1 + 0,8 (χ Sqk2 + χ Sqk3 ...) + Sεk sendo o coeficiente χ = 0,7 para as estruturas de edifícios e 0,5 para as demais. Segundo a NBR-6118 [2], em geral não é necessário considerar a ação do vento nos estados limites de utilização, ou seja, χ = 0. Qual a solicitação a ser considerada na verificação da flecha máxima devida ao vento no topo da estrutura da edificação?

Ação do Vento em Estruturas de Edifício de Concreto Armado

27

Bibliografia [1] Jornal do Brasil - reportagens diversas [2] Norma NBR-6118 - Projeto e Execução de Obras de Concreto Armado", ABNT, 1978. [3] Projeto de Revisão da NBR-6118 - " Projeto de Estruturas de Concreto", março 2000. [4] Norma NBR-6123/90 - "Forças devidas ao Vento em Edificações", ABNT, dez. 1990. [5] COSTA REIS, F. J., "Estruturas de Edifícios - Análise para as Ações Horizontais", 1994, EE-UFRJ. [6] ROCHA, Aderson M. - " Concreto Armado", vol.3 , 19a ed., 1985. [7] ALMEIDA PRADO, José F. M. e GIONGO, José S. - "Efeitos de Segunda Ordem em Edifícios de Concreto Armado", Anais do Colóquio de Estruturas de Concreto, págs.205- 226, Juiz de Fora, MG, abril 95. [8] CEB-FIP - "Code Modele pour Les Structures en Beton", 1978 [9] LONGO, Henrique I., “Projeto de Estruturas de Edifício de Concreto Armado”, apostila, 1998. [10] FUSCO, Péricles B., "Estruturas de Concreto - Solicitações Normais", 1981, Ed. Guanabara Dois. [11] LEOPOLDO, Ricardo e FRANÇA, Silva - “Exemplo de Cáculo do Esforço de Segunda Ordem Global em um Edifício de Concreto Armado”, Colóquio sobre Estabilidade Global das Estruturas de Concreto Armado, Reunião Anual de 1985, IBRACON. [12] SUSSEKIND, José Carlos, “Curso de Concreto”, vol.1, ed. Globo. [13] BACARJI, Edgar e PINHEIRO, Libanio - “Estabilidade Global de Edifícios”, II Congresso de Engenharia Civil, Juiz de Fora, MG, maio 96, pag.116. [14] CEB/FIP Manual of Buckling and Instability, 1978 [15] Blessmann, Joaquim, “Ação do Vento em Edifícios”, Ed. da Universidade, UFRGS, 1a edição, 1978.