Gestão eficiente da

MERENDA ESCOLAR
Histórias Gostosas de ler e boas de copiar – volume 3

Gestão eficiente da

MErEnda Escolar
Histórias Gostosas de ler e boas de copiar – volume 3

Histórias Gostosas de Ler e Boas de Copiar – Volume 3 Uma publicação de Ação Fome Zero. A Ação Fome Zero é uma organização da sociedade civil de interesse público e representa uma aliança de empresas e empresários comprometidos com o desenvolvimento social sustentável do país. Sua missão é amparar e estimular políticas integradas que viabilizem a segurança alimentar e nutricional da população brasileira. Presidente de honra Marisa Letícia Lula da Silva Comitê Gestor Antoninho Marmo Trevisan Gabriel Jorge Ferreira Jose Costa Marques Bumlai Direção Fátima Menezes Equipe técnica Leila Stungis Luana Bottini Maria Elena Turpin Marcelo Zaidler (estagiário) Sineide Neres dos Santos Assistência Geral Fagner Galeno Endereço Al. Joaquim Eugênio de Lima, 187 – 10º andar São Paulo – SP – 01403-001 fone: (11) 3569 6016 www.acaofomezero.org.br faleconosco@acaofomezero.org.br Textos Rogerio Furtado Diagramação Rodolpho Lopes

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Histórias Gostosas de ler e boas de copiar – volume 3

Histórias gostosas de ler e boas de copiar

a história gostosa do prêMio gEstor EficiEntE da MErEnda Escolar
a idEia, o dEsEnvolviMEnto da MEtodologia E o papEl do prêMio coMo uM indutor dE boas práticas
Deve ter mais ou menos uns 12 anos que, em uma pequena cidade do interior paulista, assistia com olhos desconiados a maneira como os alunos das escolas municipais eram tratados pelo governo municipal. Alguns pais dessas crianças conversaram com os seus ilhos, com os professores e com outros cidadãos sobre a falta de merenda nas escolas e resolveram investigar. Descobriram que uma série de irregularidades que acontecia sob os olhos pouco vigilantes daquela comunidade. E o que era pior: sua cidade não era o único caso! Um dos cidadãos desse pequeno município, agora adulto, bem sucedido e intencionado, que conhecia na própria pele (ops! na própria barriga) a importância da merenda escolar, ao constatar a situação em sua pequena cidade, percebeu que era necessário fazer algo para que situações como aquela não acontecessem em nenhum outro lugar. Enquanto tudo isso acontecia, surgia no Brasil, devagarzinho, uma ideia absolutamente nova que alterava a maneira de compreender a luta contra a exclusão por causa da pobreza. No novo paradigma emergente, a pobreza é combatida por meio de vários tipos de ações estruturais e assistenciais de curto, médio e longo alcance e que exigiam o envolvimento de ações governamentais e da sociedade civil. A nova realidade foi uma espécie de mola propulsora e, como se dizia na época, “juntou a fome com a vontade de fazer” e nasceu o projeto Gestão Eiciente da Merenda Escolar e, com ele, o prêmio Gestor Eiciente da Merenda Escolar!

“Juntou a foME coM a vontadE dE fazEr”
A política pública conhecida pelo nome de Programa de Merenda Escolar (na verdade é Programa Nacional de Alimentação Escolar) é um programa social abrangente, de relevância, criativo e estratégico para o país. Abrangente porque pretende atender toda a população de crianças e jovens matriculadas no ensino público. É também de relevância porque é estendido a todo o país e descentralizado, pode ser administrado em cada município atendendo suas características culturais e necessidades especíicas. É criativo, porque é compulsório e sem intermediação e condicionantes. Basta o beneiciário estar lá.

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Histórias gostosas de ler e boas de copiar Relevante porque, além de ser um programa de distribuição de refeições completas, prevê um trabalho de educação alimentar e a utilização de alimentos da tradição cultural, recuperando ou mantendo esta cultura. E é estratégico pois atende, com um mínimo das necessidades diárias, a população brasileira em faixa de desenvolvimento intelectual, físico e social. Entretanto, tudo isso se efetiva desde que o programa seja bem executado pelo município ou entidade executora. E, para isso, a decisão política do gestor e seus auxiliares é fundamental! No âmbito do projeto gestão da merenda escolar, deiniu-se como estratégia três eixos de ação. O principal deles é voltado para o desenvolvimento de atividades que possibilitem a sensibilização da sociedade para o exercício do controle social sobre os recursos da merenda escolar. Além de atividades de mobilização das comunidades para a conscientização sobre a alimentação escolar, optou-se por outras direcionadas à capacitação e ao fortalecimento dos conselhos de alimentação escolar. Conselho de Alimentação Escolar é o órgão, nos municípios, responsável pela iscalização e acompanhamento do Programa Nacional de Alimentação Escolar. O segundo eixo tem o objetivo de sensibilizar o gestor público para a boa execução do programa de merenda. Além de atividades que possibilitem a troca de conhecimento, optou-se por uma estratégia de divulgação de boas práticas de gestão que pudessem ser copiadas e que trouxessem ao gestor o sentimento de orgulho que gera comprometimento. Este eixo se realiza nas atividades geradas pelo prêmio Gestor Eiciente da Merenda Escolar. O terceiro eixo é o responsável pela organização sistemática de conhecimento sobre alimentação escolar e temas ains ao programa de merenda e que é adquirido na realização das atividades. Esta publicação é o elo entre os três eixos de atividades porque reúne o conhecimento sobre cidades premiadas no prêmio Gestor Eiciente de Merenda Escolar e que, além de possibilitar o desenvolvimento de gestores públicos, leva às comunidades informações sobre a alimentação escolar, esclarecendo e envolvendo a sociedade nesta relevante política pública. O prêmio Gestor Eiciente da Merenda Escolar existe desde 2004 e a cada edição, ao destacar cidades premiadas, ele revela traços distintivos das diferentes regiões do país, contribuindo para o desenho das novas realidades regionais que o desenvolvimento econômico observado nos últimos anos vem introduzindo.

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govErnança pública E política social: os dEsafios da gEstão pública do prograMa dE MErEnda Escolar
A política pública denominada Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) tem, do ponto de vista administrativo, como principal característica o fato de ser um programa de execução descentralizada. Isto quer dizer que cada município deve administrar o PNAE de seu próprio jeito, cabendo ao Governo Federal o repasse de um valor a ser complementado pelo município para a aquisição de alimentos. Entretanto, o valor repassado pelo Governo Federal só pode ser utilizado na aquisição de produtos alimentícios. O que na prática signiica que o município tem que necessariamente se comprometer com o programa social, já que, no mínimo, fornece as condições para a execução da política pública. A descentralização é responsável também por outro aspecto bastante inovador: a adoção de cardápios escolares compatíveis com os hábitos tradicionais da região e com as particularidades da clientela beneiciada. Há escolas que atendem a grupos sociais que vivem uma situação de vulnerabilidade alimentar e que o programa, quando bem executado, pode minimizar. Do ponto de vista dos municípios, a gestão pode se dar de forma centralizada, quando a prefeitura (entidade executora) se responsabiliza pela compra dos alimentos que podem ser estocados em depósito central ou unidades escolares responsáveis pelo preparo das refeições; ou descentralizada – quando as unidades escolares se responsabilizam pela administração de todo o processo, desde a compra dos alimentos ao preparo. Em qualquer modelo, há dois fatores de impacto que interferem na administração do PNAE: o tamanho dos municípios no qual é gerido o programa e as condições e características territoriais das cidades. Em relação ao tamanho dos municípios, quanto maior é o número de escolas e de alunos mais complexos são os procedimentos de distribuição de alimentos, controle de estoques e diversidade nos grupos de alunos atendidos. Muitas vezes a distribuição é tão complexa por causa do trânsito e da falta de espaço para estacionamento de pequenos veículos de carga que a solução é adotar um modelo de gestão escolarizado, isto é, a prefeitura repassa às escolas recursos para elas se responsabilizem pela compra e manipulação dos alimentos, além da estocagem e preparo. Acontece que nem sempre este modelo é bem recebido, porque aumenta a responsabilidade do diretor educacional, que tem como foco a administração pedagógica da unidade escolar. Nestes casos, o diretor acumularia função pedagógica com o gestor de uma política social e de saúde pública, o que pode penalizar o servidor e interferir na gestão pedagógica.

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Histórias gostosas de ler e boas de copiar Em municípios de menor tamanho, a distribuição também pode representar um grande diicultador, se a extensão territorial do município for ampla, com grande área rural. Normalmente as condições de acesso às escolas por meio de estradas não é boa, seja por estradas em mau estado ou por não haver condição de acesso (escolas isoladas). Já em municípios pequenos, com poucas escolas, há problemas de outra natureza: a falta de recursos. Nesses casos, as cidades não possuem atividade econômica que tenham vigor e, portanto, a arrecadação é baixa e a dependência do Governo Federal é alta. A constatação de que cada tipo de município apresenta uma diiculdade diferente na hora de administrar uma política social orientou a produção do volume três da coleção Histórias gostosas de ler e boas de copiar, que relata experiências bem sucedidas de administração do Programa Nacional de Alimentação Escolar. O leitor encontrará neste volume histórias de cinco cidades escolhidas por representarem uma classe. Duas cidades grandes, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, com todas as complexidades que caracterizam esses aglomerados humanos; e três municípios de média e pequena população, que apresentam soluções de organização de um setor estrategicamente vital, que é a produção de alimentos. Por último, o leitor encontrará uma sexta história. Não é de uma cidade, mas de uma cooperativa de agricultores familiares. Cada um desses municípios tem uma história diferente que desenha a realidade do país e apontam soluções para outras cidades. Bom proveito!

Fatima Menezes Diretora da Ação Fome Zero

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suMário
sistEMa EficiEntE dE aliMEntação Escolar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .11 ao pÉ da lEtra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .35 ordEM E liMpEza . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .55 MElhor salgado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .69 no rastro do cafÉ. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .87 coopErar É prEciso – tábua dE salvação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .102

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Máquina Enxuta

sistEMa EficiEntE dE aliMEntação Escolar

rio dE JanEiro

rio dE JanEiro

População Área da unidade territorial (Km2) Matrícula ensino fundamental municipal (2009) Escola pública municipal-fundamental (2009) Maior IDH Es Menor IDH Es IDH Mun Nº escolas municipais (pré escola e ensino médio) Recursos transferidos pelo FNDE (2010) Complementação para compra de alimentos Alunos atendidos Receitas orçamentárias realizadas (2008) Refeições servidas Premiação

6.320.446 1.200,28 556.942 1.014 0,886 0,679 0,842 2664 R$44.240.291,00 R$35.526.884,00 437.455 R$10.955.711.669,00 --2009-capitais e grandes cidades 2008-capitais e grandes cidades
Fontes: IBGE, 2010. Ministério da Educação, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – INEP – Censo Educacional 2009. Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, 2000- PNUD/ONU. Prêmio Gestor Eiciente da Merenda Escolar, 8ª edição. Ministério da Fazenda, Secretaria do Tesouro Nacional.

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rio dE JanEiro
coM rÉgua E coMpasso o rio dE JanEiro Ensina coMo dEsEnhar uM sistEMa EficiEntE dE aliMEntação Escolar Máquina Enxuta
Cerca de 705 mil crianças, adolescentes e adultos estão matriculados nas creches e escolas públicas do município do Rio de Janeiro. Suas idades variam de poucos meses a mais de oitenta anos. Além deles, há 50 mil professores e funcionários de apoio, com direito a refeições gratuitas no local de trabalho. Muita gente não exerce esse direito, de modo que a média de refeições diária anda pela casa de 550 mil. Mesmo assim, trata-se de um número impressionante, qualquer que seja o parâmetro de comparação. Portanto, à primeira vista, comprar, distribuir e preparar alimentos para tantos comensais pode parecer tarefa descomunal. No entanto, descontados os pequenos solavancos ocasionais, circunscritos ora a uma, ora a outra unidade de ensino – ou a algum fornecedor –, a máquina da alimentação escolar do município costuma funcionar com suavidade e um mínimo de ruídos. Tanto assim que, à Secretaria Municipal de Educação basta a meia dúzia de funcionários da Gerência de Alimentação Escolar para acompanhar as operações, em uma cadeia que envolve 1.063 escolas e 253 creches. Mas eles não agem sozinhos. Em parte, a eicácia da estrutura é resultado da descentralização administrativa promovida pela prefeitura na esfera da educação, em 1993. Criaram-se dez coordenadorias regionais, “mini-secretarias”, cada qual encarregada das unidades de ensino e creches de vários bairros. Em todas, um grupo de funcionários supervisiona e faz andar o programa de alimentação. Ao descentralizar, a prefeitura teve ganhos extras: se livrou do peso dos

por maior que seja estoques de alimentos e das complicações logísticas da distribuição. As o número de alunos que escolas encomendam os produtos às empresas fornecedoras, escolhidas o município tem para oferecer por licitação, que também icam obrigadas a realizar as entregas. Há merenda, é possível garantir controle pessoal e meios suicientes para iscalizar esse circuito das mercadorias. e organização em cada procedimento do Mais adiante, as facilidades da informática foram postas a serviço programa de alimentação escolar desde que da rede de ensino, com um sistema que eliminou grande parte da os gestores desenvolvam mecanismos de papelada e que permite o acesso a qualquer tipo de dado, em tempo monitoramento e avaliação para todas as etapas, indo dos processos de compra real. É o Sisgen (Sistema de Controle de Gêneros Alimentícios), uma ao mapeamento de sobras de ferramenta de gestão para monitorar as compras e avaliar o andamento refeições. do Programa de Alimentação Escolar.
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Histórias gostosas de ler e boas de copiar O Sisgen, que tem a Controladoria Geral do Município como gestora, foi lapidado ao longo de anos. No princípio, só relatórios em papel circulavam pelos canais burocráticos. Depois houve um salto para as planilhas eletrônicas. Em sua coniguração atual, a arquitetura do sistema é obra de técnicos da IplanRio, empresa municipal de informática, que recebeu inúmeras sugestões e pedidos dos usuários. A apropriação do sistema pela Secretaria de Educação revela outro traço característico do modo como o Rio de Janeiro administra a alimentação nas escolas: diversos órgãos públicos estão comprometidos com o programa. Esse é mais um motivo para a Secretaria de Educação trabalhar com um quadro de pessoal tão enxuto na sede. “O arranjo harmonioso entre vários organismos municipais nos garante o sucesso e avaliza uma política pública estável e consistente”, diz Fátima França, diretora do INAD (Instituto de Nutrição Annes Dias). O próprio INAD, embora pertença à Secretaria de Saúde, é peça fundamental da estrutura, enquanto responsável pelo planejamento e execução do programa. E esse é um programa que, além das engrenagens bem ajustadas, tem sido azeitado de maneira conveniente com verbas municipais e federais. Esses recursos, em grande parte, movimentam negócios do comércio atacadista. A partir do segundo semestre de 2010, porém, estava previsto que o Rio de Janeiro passaria a adquirir produtos da agricultura familiar, com a aplicação de pelo menos 30% da verba federal, de acordo com lei que entrou em vigor em 2009. Para um município de escassa produção agrícola e, ao mesmo tempo, comprador de grandes quantidade de gêneros alimentícios para as escolas, a adequação às novas diretrizes é um tanto complicada. Fora a quantidade, há outros fatores envolvidos, como a qualidade dos produtos e a logística de distribuição, principalmente no caso das entregas diárias, requeridas por algumas unidades de ensino. De toda forma, os preparativos estavam em andamento. “Vamos recorrer às cooperativas. Organizados, os produtores terão condições de nos atender. Já pedimos ajuda à Emater e ao Ministério do Desenvolvimento Agrário para localizar os agricultores”, dizia Fátima França, do INAD. Além de considerar a lei um avanço, Fátima gostaria de ir mais longe: “nos interessamos, sobretudo, pelos alimentos orgânicos. O Programa de Alimentação Escolar opera no contexto da segurança alimentar. O que pressupõe trazer para as escolas gêneros adequados, isentos de agrotóxicos”.

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o sisgEn no cotidiano
No Rio de Janeiro, as Coordenadorias Regionais de Ensino (CREs) podem ser consideradas clones, em tamanho menor, da Secretaria de Educação. Assim, cada uma tem sua gerência de infraestrutura que dá suporte às escolas e administra o programa de alimentação. A 6ª CRE, com sede em Deodoro, abrange vários bairros, tendo 77 escolas e 19 creches em sua órbita, e um total de 52 mil alunos. A professora Mara Jane Oliveira de Carvalho, a gerente de infraestrutura, mostra como funciona o Sisgen. “A maioria de nossas escolas recebe gêneros alimentícios três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas. Os pedidos são feitos de acordo com o cardápio, vários dias antes da entrega. Em 4 de março, por exemplo, já recebíamos, por via eletrônica, as requisições de produtos que seriam entregues pelos fornecedores a partir do dia 15, para serem consumidos entre os dias 16 e 22”. Para evitar desperdício, a escola trabalha com um número médio de refeições. Mara Jane explica: “mesmo tendo sido apurado esse número médio, antes de começar o preparo da comida, a direção deve levantar a frequência no dia. Assim, se a escola constatar a presença de 280 comensais, ao invés da média, que poderia ser de 300, por exemplo, o sistema lhe mostrará, gênero por gênero, qual será a quantidade a ser utilizada. Nesse caso, haverá sobra, que terá de icar na despensa da unidade e será abatida automaticamente no próximo pedido.

os sistemas Em nossas visitas, veriicamos se essas sobras estão lá. Os números informatizados são ótimos têm de bater com os registros no computador. Ao mesmo tempo, é aliados para planejamento e obrigação das escolas colocar no sistema quantas pessoas comeram controle da alimentação escolar. eles no dia, alunos e funcionários”. otimizam recursos humanos e inanceiros Com tal rigidez nos controles, ninguém se na medida em que proporcionam a circulação da informação e o cruzamento preocupa com a possibilidade de restar comida nos de dados em tempo real, permitindo pratos e nas panelas. A probabilidade de que isso tomadas de decisões com a venha a acontecer é remota. Pelo menos no território agilidade que a situação da 6ª CRE, conforme os comentários da coordenadora requer. Deolinda Silva Montenegro: “O IDH de nossa região é
o mais baixo do município. Assim, nas escolas, a tendência é as crianças comerem mesmo. Algumas repetem quando é possível, pois, para muitas, é a única refeição substancial que terão no dia. Além disso, há o esforço dos proissionais de ensino no sentido de convencer 15

Histórias gostosas de ler e boas de copiar os alunos a aceitar o que está sendo servido. Se o alimento igura no cardápio é porque tem importância na nutrição”. Embora os dados relativos ao programa de alimentação estejam no sistema, o contato da CRE com as unidades de ensino é estreito, conforme explica Mara Jane: “minha comunicação com as escolas é direta, pelo Sisgen, mas temos contatos pessoais e por telefone, porque precisamos averiguar como está se comportando o pessoal lá na ponta. Como os gêneros alimentícios estão chegando e como são preparados. Nas visitas que fazemos, examinamos despensas, cozinhas, refeitórios. Veriicamos a feitura e a qualidade da comida, o uniforme das cozinheiras, a distribuição das refeições e vários outros detalhes. Nossa equipe, de seis pessoas, se divide para as visitas, mas, quando funcionários de outras gerências vão até às escolas, nós lhes pedimos que nos ajudem, olhando a parte da alimentação”. Mara faz muitos elogios à simpliicação e à agilidade proporcionadas pelo Sisgen. “Assumi a gerência ao inal de 2001, mas estou aqui desde 1996, quando o Sisgen ainda não existia. O preenchimento de relatórios era manual, o que tornava o trabalho muito penoso. Hoje o sistema abarca desde o pedido até o pagamento da compra. Aqui recebemos as notas iscais correspondentes ao fornecimento dos produtos, assinadas pelos responsáveis. Formamos os processos de pagamento e fazemos sua liquidação administrativa. A liquidação inanceira ica por conta de outro departamento, que credita os valores nas contas das empresas.” O professor Darcy Tadeu Campos, assessor da Gerência de Alimentação Escolar da Secretaria de Educação, lembra que o Sisgen é empregado também por outros órgãos da prefeitura que utilizam gêneros alimentícios, como a Secretaria de Saúde e a Secretaria de Obras, por exemplo. Darcy acrescenta que o Programa de Alimentação Escolar tem uma particularidade: “para evitar problemas devido ao eventual desabastecimento de qualquer produto, as coordenadorias regionais de educação foram divididas em grupos e a aplicação dos cardápios é alternada, embora eles sejam iguais. Assim, numa mesma semana, enquanto certo número de escolas utiliza o cardápio ‘A’, digamos, as demais usam o ‘B’. Na semana seguinte, elas invertem”. Darcy considera o sistema de alimentação escolar do município muito bom: “isso se deve à competência proissional de todos os envolvidos. Estejam eles nas escolas, nas CREs, na Secretaria ou em outros órgãos que se relacionam com o programa. As pessoas estão empenhadas e acreditam naquilo que estão fazendo, mas, ainda que esse programa esteja funcionando de uma forma que considero muito boa, sempre haverá necessidade de aprimoramento. É por isso que o INAD está sempre pesquisando, modiicando cardápios e renovando suas ações. A avaliação deve ser constante”. 16

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vida na Escola
A professora Wanda Lúcia Sant’Ana atravessou pela primeira vez o portão da Escola Ana de Barros Câmara, em Coelho Neto, para substituir a diretora que se licenciara. Formada em Letras pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e com experiência em educação infantil, Wanda deveria icar seis meses no posto, mas continua lá, 24 anos depois. As marcas de sua administração estão bem visíveis na decoração das paredes, na ordem e na limpeza escrupulosa de todas as dependências. O conjunto revela que a diretora tem pulso forte. E bastante energia para enfrentar a jornada: acompanha por Denise Brandão, a diretora-adjunta, ela se encarrega de abrir a porta para as cozinheiras do primeiro turno, às 6h. “Às 7h, as crianças já estão tomando o desjejum”. Essa é a primeira refeição. Depois os pequenos ainda terão o almoço, o lanche e o jantar, durante a permanência de dez horas na unidade de ensino. Entre os 278 alunos desse jardim de infância, que pertence aos domínios da 6ª Coordenadoria Regional de Educação, há um grupo com necessidades especiais. Constitui um dos “Pólos de Bebês”, programa pioneiro criado em 1996 pelo Instituto Helena Antipoff – organismo vinculado à Secretaria Municipal de Educação. “Nesta escola, o pólo existe desde 1999. Nosso objetivo é trabalhar com essas crianças de modo que possam alcançar autonomia. Para isso, elas precisam interagir com os colegas, se alimentar e realizar outras atividades junto com eles, dispensando a assistência de outra pessoa. Para facilitar suas vidas, temos cadeiras de rodas, andadores e cadeirinhas com adaptador para colocar a colher. Ao completarem quatro anos, esses alunos passam para as turmas regulares do maternal. A cada ano, recebemos de 8 a 12 crianças com paralisia cerebral, síndrome de West, síndrome de Down”... De acordo com o espírito do programa, a escola fornece alimentação comum à turminha do polo, seguindo orientações médicas. A mãe pode acompanhá-las. “Há exceções, eventualmente. No grupo temos um aluno que sofreu gastrostomia e se alimenta através de botton. A mãe traz a alimentação que o médico prescreve. Trabalhamos apoiadas pelo Instituto Helena Antipoff e por uma professora itinerante, contratada pelo município, que acompanha esses casos. Ela atende três vezes por semana.” Por sua vez, Wanda procura apoiar a comunidade. “Estou há tanto tempo na direção desta escola porque quero acreditar que posso fazer alguma coisa para modiicar a vida das crianças. Aqui, por exemplo, é a região de pior IDH do município”. 17

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Wanda conta que atua dentro e nos arredores da escola. Intramuros, com a orientadora pedagógica, senta-se com as mães das crianças para ouvi-las e sugerir temas para debates. “Falamos também sobre alimentação saudável. Às vezes elas querem dar batatas fritas para os ilhos trazerem. Informamos que o cardápio escolar é elaborado por um instituto especializado, e que tudo que o aluno precisa durante o dia nós temos. No primeiro dia de aula explicamos que a escola é aberta. Que elas podem vir na hora das refeições, observar, iscalizar. E elas vêm mesmo, visitam as salas de aula, o refeitório, veriicam a higiene do ambiente, inclusive a da cozinha”. Quando pode, Wanda circula pelo entorno. Ela diz: “conheço muitas mães de alunos, frequento suas casas”. Para uma educadora, o fato de adotar a comunidade e ter sido adotada por ela tem lá suas compensações: “tudo começa na educação infantil. Procuramos manter o ambiente acolhedor, alegre, prazeroso. Para a criança aprender brincando. Com alimentação saudável. Assim, muitas pessoas que estudaram aqui costumam trazer seus ilhos para matriculá-los. E tenho ex-alunos com curso superior, fazendo mestrado”. Até a horta da escola contribui para a confraternização, embora sua inalidade seja didática. De acordo com Wanda, “as crianças icam sentadinhas, mexem na terra, veem a evolução da plantinha, e ouvem histórias contadas por fantoches. Nada melhor que aula ao ar livre, debaixo de uma árvore. Para organizar a horta, alguém do bairro orientou uma das professoras, que depois ensinou as colegas. Cada turma tem um canteiro e um é da comunidade. Quem cuida são as mães de alunos. Tiramos cheiro verde e salsinha para usar na cozinha. Mas, no inal do ano passado, izemos um ‘saladão’ para os pais de alunos”. A diretora-adjunta, Denise Brandão, responsável pela alimentação na escola, também airma estar satisfeita com o andamento do programa. “Os hábitos que essas crianças tão pequenas adquirem aqui levam para casa e repassam. Embora isso aconteça em outras escolas, temos muitos casos, relatados pelas mães, de crianças exigindo dos membros da família que lavem as mãos antes de comer. E que escovem os dentes depois... Nossos alunos também comem de tudo”. Denise credita os bons resultados às merendeiras. “Contamos com quatro cozinheiras treinadas, que se revezam em dois turnos. Tivemos visita 18

Histórias gostosas de ler e boas de copiar do instituto Helena Antipoff e as pessoas icaram impressionadas com a eiciência dessas funcionárias e com seu carinho pelos alunos. Uma delas, Rosi, foi eleita funcionária-padrão, mas não quis receber o prêmio porque icou com vergonha”. A carioca Rosimeri Maria da Silva de fato é modesta, mas aceita falar um pouco de si mesma, admitindo que nada sabia sobre culinária até ingressar no serviço público, em 2009. “Nem em casa eu tinha experiência de cozinha. Fiz o concurso porque queria ter estabilidade no emprego. Nos primeiros dias fui treinada aqui na escola, ouvindo palestras de nutricionistas. Depois houve outro curso, na Coordenadoria Regional de Educação, sobre vários aspectos da atividade, cada um abordado por um especialista. Senti alguma diiculdade no começo, mas terminei me adaptando bem. As crianças são uns doces.” Embora goste do trabalho, Rosimeri diz que gostaria de dar aulas: já conquistou o diploma de professora. Bem longe dali, José Freitas de Moraes tem sido cozinheiro há 26 anos, na Escola Rivadávia Corrêa, que ica nas proximidades da Central do Brasil. Cearense de Santa Quitéria. José aprendeu a lidar com a parafernália de cozinha na própria escola. Atualmente, responde pelo turno da manhã, fazendo e servindo a comida para 170 alunos do ensino fundamental. Ele diz que se relaciona muito bem com eles. E os estudantes que se acercam da cozinha na hora do almoço assinam embaixo. Também garantem que a alimentação na escola é muito boa. Maiara Matos Lopes, de 15 anos, Lucas Magno da Silva, de 16, e Breno Luís da Fonseca, de 11, estão entre os frequentadores assíduos do refeitório. Maiara, aluna da 8ª série, mora na Cidade Nova, ao lado do Sambódromo. Ela diz: “como na escola todos os dias. A comida daqui é gostosa, bem temperada. A quantidade é suiciente e posso repetir, se quiser. Como de tudo e nunca houve um prato de que não gostasse. Não há do que reclamar. Inclusive da higiene. O cozinheiro usa touca e luvas. Mesmo assim, no ano passado havia um garoto que trazia colher de casa. Uma bobagem, por que aqui tudo é limpo e arrumado”. Lucas, colega de classe de Maiara, mora em Santa Tereza. “Tinha interesse em estudar nesta escola porque ouvia falar bem dela. A escola realmente é melhor, não há bagunça, os professores são mais dedicados do que na outra em que estudei. São mais pacientes. Explicam tudo direito. Gosto da comida também. Se deixar, como até quatro vezes. Não rejeito nenhum prato. Tenho colegas que têm medo de provar a comida. Dizem que é ruim. E alguns têm vergonha, não sei por qual motivo. 19

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Maçã, banana e melancia são as sobremesas, frutas bem selecionadas. Já estimulei minha mãe a comprar mais legumes e frutas para comermos em casa.” Breno, aluno de sexta série, vem a pé para a escola desde a rua Frei Caneca, depois de tomar chá com biscoitos. Airma estar ansioso para comer strogonoff, servido pela última vez em 2009. “Falaram bem dele para mim. Quero comparar o da escola com o que a minha mãe faz. É meu primeiro ano aqui. Tenho almoçado todos os dias. Gosto da comida, e a escola não é muito diferente da que frequentei antes, que era particular. A comida de lá era bem pior, ainda que fosse mais variada. E era preciso pagar. Se repetisse, pagava outra vez.”

patriMônio na cozinha
No Rio de Janeiro, a Secretaria de Educação tem uma Coordenadoria de Infraestrutura, comandada pelo professor José Mauro da Silva. Em seu escritório, no prédio da prefeitura, José Mauro coordena três gerências: a de Alimentação Escolar, a de Material e Equipamento e a de Planejamento e Obras. “Para a rede de ensino a gente só não

os sistemas informatizados não substituem as reuniões e visitas presenciais, nas quais é possível estabelecer contato direto com as pessoas que preparam e consomem a merenda.

contrata o pessoal. O resto é conosco. Trabalhamos de acordo com a demanda das coordenadorias regionais de educação. Quando o assunto são os fogões, panelas, liquidiicadores e freezers, entre vários outros utensílios e equipamentos, a responsável é a Gerência de Material. As compras são feitas por meio de licitações, realizadas pela Secretaria de Administração. Os produtos primeiro vão para nosso almoxarifado, depois seguem para as escolas. Essa gerência também se encarrega dos contatos com as empresas concessionárias de serviços públicos, como telefonia, gás e energia elétrica. Planejamento e Obras cuida de tudo aquilo que diz respeito a instalações. Sejam reformas, pequenos reparos, novas construções, implantação de laboratórios de informáticas, e assim por diante”, explica José Mauro. No que diz respeito a obras e reformas, o Rio de Janeiro tem uma peculiaridade, a exemplo de outras cidades históricas: nem sempre é possível modernizar as cozinhas de escolas tombadas. Fátima França, diretora do INAD, comenta: “até 1985, havia apenas merenda na rede pública, refeições mais simples, cujo preparo dispensava grande número de equipamentos e enormes instalações. Nesse ano surgiu o projeto 20

Histórias gostosas de ler e boas de copiar de educação integral, com os CIEPs. Nessas unidades, as cozinhas já surgiram com peril industrial. À medida que avança o programa de alimentação, as escolas começaram a se adequar. Mas, como várias delas foram tombadas pelo IPHAN, faz-se o que é possível para modernizá-las. A Secretaria de Educação nos convoca para acompanhar os engenheiros encarregados das obras”. Além de estarem vetadas mudanças estruturais, normas técnicas impedem a circulação forçada de ar nas cozinhas. Numa cidade tórrida como o Rio de Janeiro, não é fácil dar algum conforto térmico para as merendeiras. “O ambiente tem de ser favorável ao manipulador de alimentos, com ventilação natural e iluminação. Foi preciso realizar estudos e escolher os tecidos mais adequados para os uniformes. Os próprios alimentos, em sua preparação, não devem contribuir para o aumento da temperatura ambiente, na medida do possível. Não se fazem frituras, por exemplo”, acrescenta Fátima França. Mas ninguém está proibido de exercitar a criatividade quando se trata de facilitar o serviço. Na Escola Municipal Nerval de Gouveia, em Ramos, a diretora, Regina Maria da Eira Pinho, achou uma boa solução para o problema dos fogões muito altos – mandou serrar-lhes os pés. Pronto: agora as cozinheiras podem olhar o interior das panelas de cima, sem fazer ginástica para mexer o conteúdo.

qualidadE no cardápio
O Programa de Alimentação Escolar é o principal “cliente” do Instituto Annes Dias, que atua em outros segmentos da administração pública por meio de suas várias divisões (coordenadorias). Quanto à alimentação nas escolas, o processo se inicia com a montagem dos cardápios, tarefa que cabe à Coordenadoria de Planejamento e Alimentação. A escolha dos ingredientes e da forma de apresentação obedece a vários critérios. “Seguimos as diretrizes nutricionais do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), que estabelecem as quantidades de proteínas, calorias e de outros nutrientes que devemos fornecer aos alunos. O custo é outro aspecto relevante. Por isso trabalhamos com duas linhas de cardápios. Uma para o inverno e outra para o verão, por causa das safras agrícolas, basicamente”, diz Andréia Brito, nutricionista da Coordenadoria de Planejamento e Alimentação. Estabelecidos os cardápios, Planejamento e Controle de Qualidade deinem as especiicações dos produtos, que são codiicados pela Secretaria de Administração, tendo em vista as licitações e o acompanhamento dos preços no atacado e varejo. O levantamento quinzenal é realizado pela Fundação Getúlio Vargas, por meio de convênio. Com tudo pronto, a equipe de Controle de Qualidade de Alimentos 21

Histórias gostosas de ler e boas de copiar entra em campo, mesmo antes da compra dos gêneros, conforme explica a nutricionista Maria Alice Elsner, coordenadora do departamento. “Elaboramos o termo de referência. São as condições que a empresa contratada

na terá de cumprir para entregar um alimento de qualidade, com segurança. hora de planejar Especiicamos até como deve ser o veículo para o transporte, descrevemos o cardápio é necessário cada produto, a forma de acondicioná-lo e o tipo de embalagem. Uma considerar em conjunto: as pesquisa, sempre atualizada, nos dá a média do que se encontra no diretrizes nutricionais estabelecidas mercado. Pode ser, por exemplo, o tamanho das cenouras ou de uma pelo fnde, safra agrícola local em que fruta. O mesmo acontece com alimentos industrializados. No começo de o alimento será consumido, custo, 2009, tínhamos três marcas de iogurte, em potes de 120 gramas. Como hábitos alimentares dos alunos, os fabricantes começaram a reduzir o conteúdo das embalagens para disponibilidade de instrumentos 90g, nos adequamos a esse novo peril da oferta”, diz Maria Alice. na cozinha para preparo da Ainda no período que antecede a licitação, um técnico do controle de refeição e outros.
qualidade, acompanhado de dois veterinários do Serviço de Vigilância Sanitária, inspeciona as empresas que se cadastraram para concorrer, junto à Secretaria de Administração. Todas devem ser atacadistas, comprovar sua capacidade de cumprir o contrato e ter local de armazenamento, além de atender outras exigências determinadas por lei. Se aprovadas, recebem um laudo de aptidão, válido por 90 dias. “Nosso desejo é que cada vez mais empresas participem do processo. Ela pode ter sede no Mato Grosso, mas tem de ser capaz de atuar dentro dos limites de nosso Estado, de acordo com as especiicações”, diz Fátima França. Exceto no caso dos hortifrutícolas, os potenciais fornecedores devem apresentar propostas com duas marcas de cada gênero alimentício, no mínimo, para garantir o abastecimento, acompanhadas de certiicados de análises físico-química e microbiológica, válidos também por 90 dias. Os produtos de origem animal precisam ter todos os certiicados de aprovação do Ministério da Agricultura. O Annes Dias veriica se as amostras se enquadram nos padrões estabelecidos. Por exemplo: a catação manual do arroz tipo 1 irá determinar se o produto contém, no máximo, 1% de grãos quebrados, conforme é exigido. Depois, as amostras passam ao laboratório dietético, onde se veriica, na panela, se após o cozimento rendem duas vezes e meia a porção inicial, em volume. Para biscoitos e leite, não existe uma preparação. Só o teste sensorial. Os produtos são degustados por 12 funcionários do Instituto, que preenchem ichas individuais de avaliação. O índice de aprovação não pode 22

Histórias gostosas de ler e boas de copiar ser inferior a 85%, conforme recomenda o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (no último dia útil de cada mês, a relação de produtos e marcas utilizados na rede de ensino é publicada no Diário Oicial, para a orientação das escolas). Na licitação, os concorrentes entregam suas propostas em envelopes. Porém, há um pregão na abertura dessas propostas. É uma oportunidade para quem apresentou preços mais altos fazer novas ofertas. A prefeitura sai ganhando. Na vigência do contrato, se houver qualquer desentendimento com os fornecedores, as escolas devem se comunicar de imediato com a Secretaria de Educação e com o INAD. Neste ano, uma escola descobriu insetos em certa marca de feijão. A Vigilância Sanitária foi acionada para coletar amostras para exame. Essa é a rotina. A depender do resultado, o produto é liberado ou tem a entrega suspensa. Em tal circunstância, o fornecedor tem de repor a mercadoria no prazo de 24 horas – a reposição deve ser imediata no caso das frutas. Quando o problema é mais grave, caso de um iogurte suspeito de provocar alergia em crianças há algum tempo, o alimento pode ser banido da alimentação escolar. Em se tratando de carnes, a nota iscal é aceita só após o descongelamento e preparação do produto. Por vezes, a iscalização ultrapassa as fronteiras do Rio de Janeiro para alcançar o fornecedor na origem. Foi o que aconteceu com determinada marca de arroz, proveniente do sul do país: um rato viajou até o Rio em uma das embalagens, levando o INAD a alertar a Vigilância Sanitária da localidade para vistoriar a empresa fornecedora. “Ainal, outros brasileiros consomem aquele arroz”, justiica Fátima França. Mas nem sempre o problema é devido ao fornecedor. “Uma escola nos informou que o arroz parboilizado icava com cheiro ruim, mas isso era consequência da forma de preparo. As responsáveis foram instruídas sobre a melhor maneira de trabalhar com o produto”, conta Maria Alice. O incidente levou o INAD a publicar boletins sobre o preparo de alimentos e outras informações destinadas às merendeiras, que são mais de 5 mil nas escolas. “Como não é possível parar todo mundo para ensinar, começamos a fazer boletins. No ano passado publicamos sete, bem ilustrados e detalhados. Um deles foi editado porque um fornecedor estava entregando músculo bovino em vez de patinho. O 23

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Annes Dias foi notiicado. Fora as providências habituais, izemos circular um boletim com desenhos dos cortes, mostrando as diferenças entre o patinho e o músculo”, diz Maria Alice. Com as experiências que vai acumulando, o INAD procura adequar as especiicações dos produtos às necessidades das escolas. Há três anos, o patinho substituiu o acém e a pá. Rende mais e tem menos gordura, o que signiica melhor relação custo/benefício. Até algum tempo atrás, as embalagens de carne eram de 30 quilos, e causavam alguns transtornos. Um deles era dividir o conteúdo da caixa, mas para cortar as peças, era preciso descongelá-las. E o que fazer com as sobras? Congelar outra vez o produto não é recomendável. Depois, a carne costumava ocupar muito espaço nos refrigeradores. A solução foi mudar as embalagens, que agora contêm três quilos. A queda do número de reclamações, relativas à gordura em excesso e misturas de vários cortes, foi vertiginosa. Melhor para o aluno, que antes poderia ter sua porção diminuída. Fátima França lembra de outra substituição que teve bom resultado: “chegamos a ter peito de frango congelado com 27% a 30% de água. Trocamos o peito por ilé, que é bem limpo, não tem pele e nem osso. A perda por cocção é mínima e o trabalho nas cozinhas icou mais fácil. No ano passado, não houve qualquer reclamação”.

antEnas EM caMpo
Fátima França, diretora do INAD, riscou a expressão “merenda escolar” de seu vocabulário. E tende a ser acompanhada por quantos estão envolvidos com a questão alimentar nas escolas públicas cariocas. Fátima justiica: “no município do Rio de Janeiro, o almoço é a refeição padrão. Trata-se de algo substancial, muito diferente de um lanche. Atende a todos os requisitos técnicos do ponto de vista da nutrição, com o viés pedagógico que se implementa e se constrói. Nas escolas de período integral, os estudantes recebem desjejum, almoço, lanche e jantar. Em alguns CIEPs (Centros Integrados de Educação Pública), se desenvolve um projeto de alunos residentes que, além das refeições já citadas, ainda têm a ceia. Alimentação saudável e farta é garantida na educação infantil e às crianças das creches. Portanto, chamar de merenda o Programa de Alimentação Escolar não dá a dimensão correta, a verdadeira magnitude e o alcance desse programa nacional”. 24

Histórias gostosas de ler e boas de copiar A palavra merendeira também está em baixa entre o pessoal especializado, que prefere chamar cozinheiras e cozinheiros das escolas de “manipuladores de alimentos”. Não é por mero capricho, conforme explica a nutricionista Ana Lucia da Mota Cordeiro, coordenadora da Supervisão Técnica dos Programas do INAD: “a denominação ‘merendeira’ ou ‘merendeiro’ não faz justiça a esses funcionários, contratados por concurso público. Eles passam por testes de português, de matemática, e de conhecimentos gerais, devendo saber conceitos de alimentação. Se aprovados, são submetidos a uma prova prática. Além da habilidade, é preciso ter agilidade na cozinha, onde a média de produção diária ica um pouco acima de 500 refeições. Mas o manipulador de alimentos também deve ser um educador, um multiplicador na formação de bons hábitos alimentares, que saiba estimular o aluno a consumir o alimento, quando sua tendência for a de rejeitar o que está sendo oferecido”. Por isso, as nutricionistas encarregadas da supervisão técnica acompanham com atenção o desempenho das cozinheiras e sua maneira de se relacionar com os alunos. Mas suas atribuições não se resumem a isso. Elas são as “antenas” do INAD em campo, estando qualiicadas para interagir com as demais equipes do Instituto e com o pessoal da “ponta” nas escolas. Além de orientar alunos, professores e cozinheiras, essas nutricionistas intervêm no processo, fazendo ajustes onde e quando necessários. “As informações que trazem nos dão elementos para mudar determinada orientação e para manter o que está dando resultados. A supervisão está sempre em contato com as coordenadorias regionais que, por estarem perto das escolas, têm mais agilidade para resolver os problemas que aparecem”, diz Ana Lúcia. Atualmente, o departamento de Supervisão Técnica dispõe de sete nutricionistas para cuidar das dez coordenadorias regionais de ensino. Em circunstâncias normais, elas atendem solicitações externas e as divisões de Pesquisa, Controle de Qualidade, Planejamento e Projetos Educativos do INAD. Quando a situação exige, são feitos contatos com a Gerência de Alimentação Escolar da Secretaria de Educação. O número de nutricionistas, em relação ao tamanho do programa, ainda é pequeno. “Mas, se for necessário, pessoas de outras coordenadorias saem junto com elas. No im somos 35”, explica Ana Lúcia.

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sabor dE saúdE
Produzir materiais educativos destinados à rede pública é uma das tradições do INAD, que procura valorizar a dimensão pedagógica do Programa de Alimentação Escolar. “Em geral, a abordagem dos livros didáticos é muito centrada nos nutrientes, no que contém cada alimento. Com nosso trabalho, tentamos apresentar o tema da alimentação saudável na vida, no cotidiano”, diz a nutricionista Luciana Azevedo Maldonado, coordenadora de Projetos Educativos e Nutrição. Assim, o projeto “Com gosto de saúde”, por exemplo, produziu um vídeo direcionado aos alunos e quatro livretos para os professores, contendo informações técnicas e sugestões de atividades a serem desenvolvidas com as crianças. A intenção é que o material seja aproveitado nas escolas, de acordo com o projeto político-pedagógico de cada uma. Já foram abordados quatro temas: Alimentação e Cultura, Alimentação Saudável, Aleitamento Materno, e Obesidade e Desnutrição. Para a Semana de Alimentação Escolar, que no Rio se realiza na terceira semana de maio, o INAD distribui material educativo sobre o assunto escolhido – também com sugestões de atividades para as escolas. Em 2009, o tema foi a água, essencial à vida. Neste ano serão os alimentos industrializados, cada vez mais consumidos. “Discutiremos o impacto que têm no ambiente, na cultura alimentar e na saúde das pessoas.” Luciana acrescenta: “também serão debatidas as estratégias para mudar esses hábitos de consumo, associados ao aumento da incidência de doenças crônicas não transmissíveis, como a hipertensão, obesidade, diabetes e vários tipos de câncer. Inclusive entre as crianças. Quanto ao ambiente, o material que preparamos destaca o problema do acúmulo de materiais descartados. Indo a um fast-food, podemos perceber a quantidade de lixo que é gerada. Além disso, a indústria de alimentos consome muita água nos processos de produção. E o alimento que ica pronto, se não for consumido logo, é desperdiçado”. Alimentos ou ingredientes industrializados, se não icam apartados da cozinha, têm papel muito modesto nas oicinas de culinária organizadas pelo INAD. “Com a participação de professores, manipuladores de alimentos e adolescentes das escolas municipais, mais proissionais de saúde da família, criamos um método para realizar essas oicinas, que é uma forma de discutirmos alimentação no cotidiano melhor do que as palestras, que são mais formais. Nessa atividade, os participantes preparam uma refeição com alimentos bastante saudáveis. O objetivo é resgatar o hábito de cozinhar, que vem sendo deixado de lado, mostrando que o salutar pode ser gostoso também. Nosso objetivo é levar essas oicinas aos proissionais que participam do Programa Saúde na Escola”, diz Luciana.

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Histórias gostosas de ler e boas de copiar Nas escolas, a atuação do INAD, às vezes, contribui para mudar o cenário de forma radical. Uma vitória importante foi a regulamentação das cantinas, inspirada no exemplo de Florianópolis, autora da medida pioneira. “izemos um censo, levantando dados sobre como as cantinas operavam, como se estruturavam, o que vendiam. Vimos que havia balas em quantidade, refrigerantes, docinhos. O problema chamou a atenção da Secretaria de Educação, que viu nisso uma concorrência sem sentido com a alimentação escolar. Então, em 2001, preparamos o texto de um decreto, bastante rígido para regulamentar esses estabelecimentos, cuja estrutura era frágil e não lhes permitia produzir alimentos saudáveis. Elas terminaram fechando e houve maior adesão à alimentação escolar. Embora as crianças possam trazer lanches de casa, já não existe a oferta institucionalizada de produtos inadequados em um ambiente pedagógico, educativo”, comenta Luciana. Outro projeto antigo que está sendo revigorado é o das hortas escolares – uma ação desde sempre apoiada pelo INAD, que já foi tema da Semana de Educação Escolar por duas vezes. A última delas em 2008, quando algumas unidades reativaram o cultivo de hortaliças nas áreas que dispunham. A abordagem consistiu em mostrar que há alternativas para o plantio. Havendo pouco espaço, é possível plantar em garrafas de plástico ou vasos. Principalmente no caso do Rio de Janeiro, onde o objetivo das hortas é pedagógico, embora os alimentos produzidos sejam utilizados na alimentação escolar.

pEsquisa EM parcEria
A Coordenadoria de Supervisão Técnica funciona como “antena” do INAD para o cotidiano em relação às escolas. Quando se trata de realizar varredura abrangente e levantar dados sobre tópicos especíicos em todo o sistema municipal de ensino, o Instituto mobiliza a Coordenadoria de Pesquisa. Em 2007, esse departamento esteve envolvido com uma questão relacionada ao ensino de hábitos alimentares saudáveis: por melhor que seja a comida proporcionada pela rede pública, nem sempre todos os estudantes aceitam o que lhes é oferecido nas escolas. Há os que comparecem aos refeitórios atraídos só por determinados pratos. Outros comem apenas o lanche preparado em casa. Para descobrir o que está por trás desse comportamento e o que fazer para conseguir maior adesão ao programa, a Coordenadoria de Pesquisa desenvolveu o projeto denominado Linha de Desenvolvimento de Indicadores de Avaliação da Execução do PAE. De acordo com as nutricionistas Michelle Delboni dos Passos e Sheila Dutra Luquetti, questionários foram entregues a todos os diretores de escolas e de creches, com perguntas relativas a vários parâmetros que se pretendia avaliar: qualidade dos gêneros alimentícios, condições dos equipamentos das cozinhas, 27

Histórias gostosas de ler e boas de copiar aceitação dos cardápios e outros. Escolhidas por amostragem, merendeiras e alunos puderam dar suas opiniões, sobretudo à respeito do que fazer para melhorar o programa de alimentação. O trabalho ainda não havia sido concluído em princípios de março deste ano, estando na etapa de deinição de indicadores que permitam ajustes e correções de rumo com maior presteza no âmbito do PAE, mas vários dados já foram usados para as modiicações que eram cabíveis e necessárias no sistema. A exemplo de outras coordenadorias do INAD, a de Pesquisa não se dedica apenas ao Programa de Alimentação Escolar: atua também na área de saúde, em parceria com várias instituições. Algumas de suas linhas de trabalho foram estabelecidas há tempos, de maneira que já dispõe de séries históricas de dados relativos ao estado nutricional da população escolar e sobre práticas alimentares para crianças de até um ano de idade, com destaque para a amamentação, por exemplo. “Para monitorar os fatores de risco e proteção à saúde dos adolescentes, outra de nossas linhas de pesquisa, distribuímos questionários entre alunos da rede municipal, com perguntas sobre hábitos alimentares, prática de atividades físicas, uso de drogas, sexualidade e saúde bucal, entre outras”, diz Sheila. Michelle acrescenta: “o questionário é anônimo. Como não há identiicação, os adolescentes icam mais à vontade para responder. Perguntamos, inclusive, qual é a imagem que fazem de si mesmos, se estão satisfeitos com sua altura e peso, se tomaram medicamentos para vomitar ou laxantes nos últimos 30 dias. As tentativas de controlar o peso por essa via são feitas mais pelas meninas. Realizamos o primeiro estudo em 2003. E, com a mesma metodologia, fomos a campo novamente em 2007. Em termos de vigilância de fatores de risco, o estudo foi pioneiro no Brasil. Originou a Pense (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar), executada pelo IBGE, em 2009. Há discussões periódicas com representantes de outros setores da prefeitura. Os que lidam diretamente com a saúde do escolar utilizam os dados e sugestões em seu trabalho”. Em parceria com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), o INAD desenvolve um projeto para promover a alimentação saudável. Já foram produzidos alguns materiais destinados às escolas e creches, e outros para agentes comunitários de saúde, para uso durante suas visitas às comunidades. O projeto tem diversas vertentes e há quatro doutorandos envolvidos. Em uma das etapas, foram criados 12 prospectos, com frente e verso, que foram distribuídos em pontos de venda de alimentos, para incentivar o consumo de frutas, verduras e legumes. Na primeira página havia uma descrição do alimento e, no verso, receitas e formas de preparo.

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alquiMia criativa
“Se fôssemos nos guiar pela cabeça da maioria dos estudantes, haveria só bife com batatas fritas na alimentação escolar”, diz Andréia Brito, nutricionista do INAD. Não é de duvidar. No entanto, como um dos propósitos do programa é nutri-los para toda a vida com ideias sobre alimentação saudável, as concessões à gulodice devem ser mínimas. Além disso, há fartura e diversidade: no programa de alimentação, o Rio de Janeiro está trabalhando com 105 itens neste ano, agrupados segundo a natureza dos produtos. Carnes, grãos e, principalmente, frutas, legumes e verduras que, em geral, as crianças não têm o hábito de comer. Sem considerar safras e custos, na formulação dos cardápios algumas variáveis são consideradas: a existência de equipamentos adequados nas cozinhas e a mão de obra disponível. A salada de tomate, por exemplo, foi abolida dos cardápios. As perdas eram muito grandes entre a entrega e o consumo do produto, que também dava muito trabalho para cortar. De outro lado, a Supervisão Técnica informa sobre a aceitação dos diversos itens do cardápio. “Para evitar a exclusão de alguns, que são recomendados para uma boa nutrição, fazemos uma ‘alquimia’ nos cardápios. A beterraba já passou cozida no feijão, misturada com salsinha, cebolinha, com arroz. Por im, preparamos farofa de beterraba, que fez sucesso. O importante é não descaracterizar o produto. As crianças devem reconhecer o que estão comendo. Percebemos que a rejeição da beterraba era maior quando servíamos com frango. Talvez porque o suco tingisse a carne. No próximo cardápio colocaremos a beterraba uma vez no mês, mas com carne bovina, e também na farofa. Para ver se melhora ainda mais a aceitação”, diz Fátima França.

para incentivar o O fígado também passou pela “alquimia”. Ensopado, ica diluído, consumo de alimentos como uma papa de mau aspecto. Então alguém sugeriu que saudáveis pelos alunos, alguns deveria ser refogado, para se tornar mais consistente. Deu certo. produtos podem ser preparados de Agora será testado com polenta e arroz. A frequência com que formas diferentes até que se identiique é servido determinado alimento também pode ser alterada, o preparo mais agradável aos olhos e mas ele não será retirado do cardápio. “Caso contrário, não se paladar dos estudantes. o importante é faz educação alimentar. O programa, reiteramos sempre, tem não descaracterizar os alimentos, para função pedagógica. Assim, alguns produtos icam na ‘reserva’ para as crianças reconhecerem e se acostumarem com o que posterior reintrodução. Já servimos ilés de pescada e de merluza. estão comendo. Como estamos em região costeira, onde há considerável oferta de
pescado, o peixe tem de entrar na alimentação escolar. Mas havia pessoas 29

Histórias gostosas de ler e boas de copiar com medo de crianças engasgarem. Mudamos para peixes com cartilagem. No intervalo após a saída da pescada e da merluza, izemos maionese com sardinha. Mas havia o problema criado pela necessidade de manipular milhares e milhares de latas de sardinha”, conta Andréia Brito. Por sua vez, as merendeiras são orientadas para nunca deixar de fazer chegar o alimento ao prato de todos os alunos, por menor que seja à quantidade. Fátima França conta que algumas são verdadeiras mestras na arte da persuasão: “você não vai comer isso que eu iz? Com todo o carinho? Não vai ao menos experimentar?”. Assim, mesmo que o aluno despreze o alimento vezes seguidas, ao inal, acabará experimentando. Para os adolescentes foi adotado o sistema “self-service”, com o objetivo de lhes dar liberdade. O que se espera é que façam escolhas conscientes. Tal como a participação das merendeiras, a dos professores também é considerada fundamental. “Aqui, em todas as escolas, os professores fazem refeições junto com os alunos. Falam sobre alimentos e sobre o comportamento que se deve ter à mesa. Também é muito importante não exteriorizar suas opiniões a respeito de determinados pratos. Certa vez vi uma professora fazer um gesto de desagrado ao saber pela cozinheira que a dobradinha estava no cardápio. Logo em seguida, uma criança de seis anos rejeitou a comida e disse à cozinheira que não queria a dobradinha, repetindo o gesto da professora”, diz Ana França.

a implantação de sistema “self-service” dá mais independência aos alunos na escolha da variedade e quantidade de suas refeições, mas para tal, é importante que eles estejam educados para fazerem escolhas pertinentes.

vigilância cErrada
A professora Iracilda da Conceição Câncio de Ponte nunca tinha ouvido falar do Conselho de Alimentação Escolar (CAE) até se tornar presidenta da entidade, no Rio de Janeiro, em 2008. Escolhida como representante dos professores da rede pública, ela resolveu se candidatar à presidência do conselho por ser diplomada em economia doméstica e contar mais de 30 anos de carreira no município, tendo ocupado diversos cargos em escolas, em coordenadoria regional de ensino e mesmo no governo estadual, como assessora. Com tais qualiicações, acabou eleita, por unanimidade, pelos demais conselheiros, em sua primeira reunião. “Levei um susto ao descobrir que, entre outras responsabilidades, teríamos de examinar as contas da prefeitura relativas à alimentação escolar”, diz Iracilda.

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Histórias gostosas de ler e boas de copiar No entanto, essas preocupações logo icaram para trás. Segundo ela, a prefeitura tem mantido as portas sempre abertas para os membros do conselho, fornecendo tudo que é necessário ao bom desempenho do grupo. O que inclui carro para as visitas às escolas e uma sala com mobiliário completo, em dependências da Secretaria de Educação. Ali, o CAE dispõe de telefone, computador e outras comodidades. Os conselheiros normalmente participam de uma reunião mensal ordinária, mas têm encontros extraordinários desde que necessário. “Fora isso, estamos em contato permanente, por meio da internet. Trocamos informações e notícias. As visitas às escolas dependem de nossa disponibilidade, pois todos trabalhamos. Mas, quando há alguma denúncia, procuro averiguar com a máxima urgência. Peço logo um carro. Para isso, já utilizei até o automóvel de meu marido”. Felizmente, grande parte das denúncias recebidas pelo CAE não chega a tirar o sono de ninguém: “as pessoas costumam reclamar da qualidade da comida. Às vezes é o arroz, ou o feijão, que não foi cozido por tempo suiciente, icando um pouco duro. Em outro momento, alguém airma que uma merendeira não está uniformizada de acordo com o igurino, ou que a armazenagem de alimentos em determinada escola é falha. Recebemos, ainda, comunicações sobre fornecedores que não entregam mercadorias no dia certo, e sobre merendeiras insatisfeitas, por qualquer razão. No entanto, também há denúncias de furtos de gêneros alimentícios, que jamais conseguimos comprovar. Não posso garantir que não ocorram, mas existem controles eicazes. Creio que se houver algum furto é em escala muito pequena”. De qualquer maneira, o CAE já participou de incidentes desagradáveis, ainda que raros. “Dependendo da gravidade da situação, a gente convoca o pessoal da coordenadoria regional, que normalmente acorre com presteza. Foi assim em um CIEP, onde há

a prefeitura deve banheiros nas proximidades do refeitório. Para evitar mau cheiro, as fornecer equipamentos e faxineiras usavam creolina no local. O produto recendia e alguém resolveu espaços para o bom andamento denunciar que havia descuido também na cozinha. Era verdade. Chamei a do trabalho do cae; ouvindo-o coordenadora regional, que exonerou a diretora da escola no ato. Posso sistematicamente, a prefeitura pode dizer que em todos os casos de denúncia a prefeitura tomou as medidas fazer correções quando necessário. necessárias para resolver os problemas. Nosso trabalho é levado a sério.” por outro lado, trabalho Em circunstâncias normais, a equipe de visitas é formada por duas ou três do cae deve ser cooperativo! pessoas. “Saímos daqui às 8h, depois de escolher uma região da cidade para
trabalhar. Nas escolas, nos apresentamos à direção e seguimos imediatamente até as cozinhas. Depois vemos o resto, documentos etc. Atualmente, adotamos uma política 31

Histórias gostosas de ler e boas de copiar de visitar salas de aula, para conversar com os alunos. Perguntamos várias coisas acerca da merenda a duas ou três turmas. Quando não há nenhuma irregularidade, às vezes a gente consegue passar por três escolas no mesmo dia. Chegando pela manhã, se a situação estiver muito complicada, só deixamos o local ao inal da tarde.” Como o mandato do atual conselho terminou em abril de 2011, icou resolvido que os conselheiros concentraram seus esforços para vistoriar escolas nas regiões onde estiveram menos vezes. “Algumas coordenadorias até cobram nossa presença”, diz Iracilda. Para ela, o trabalho no CAE é fascinante e a merenda, no Rio, excelente: “estive em encontro nacional de alimentação escolar e iquei espantada com os relatos de determinados participantes. Eles falaram sobre suas experiências com crianças que tomam refresco em pó porque as escolas não dispõem de geladeira para armazenar polpa de frutas, por exemplo. Ou sobre crianças comendo apenas pão com carne. Ou só pão. Achava que nossa realidade era a realidade de todo mundo”.

ExpEriência inÉdita
A merenda, entendida como refeição ligeira, ainda existe no Rio de Janeiro. E se chama “lanche emergencial individual”. É um cardápio especíico para quando as escolas não podem servir as refeições habituais, devido a algum contratempo. Pode faltar água na cozinha, por exemplo. O lanche consiste de uma bebida – leite, suco ou iogurte –, acompanhada de biscoito, doce ou salgado, e de uma fruta. Tal merenda é consumida o ano inteiro pelos alunos do Creja (Centro Municipal de Referência de Educação de Jovens e Adultos). Se comparado ao total de alunos da rede pública carioca, esse grupo de pessoas é diminuto. E o fato de comer só um lanche se deve às características da experiência que vive, inédita no país: a de se alfabetizar e cursar o ensino básico frequentando a escola apenas duas horas por dia, de segunda a quinta-feira. “Temos seis turnos diários. O primeiro vai de 7h30 às 9h30. O último começa às 20h e termina às 22h. Entre eles há intervalo médio de 10 a 15 minutos. Servimos os alimentos durante esses intervalos, quatro vezes por dia. E o lanche é suiciente para cobrir as necessidades dos alunos, pois sua permanência aqui é muito curta”, diz a professora Cláudia Sá Barreto Ribeiro, diretora-adjunta do Creja. Antes de ocupar o cargo atual, ela trabalhou por cerca de 20 anos com alimentação escolar, na Secretaria de Educação. Mas, como no Centro de Referência o abastecimento de gêneros alimentícios e sua 32

Histórias gostosas de ler e boas de copiar distribuição foram simpliicados ao máximo, Cláudia pode se dedicar a outros assuntos administrativos. E a saborear – por que não? – a vitória da proposta inovadora do Creja, em companhia do corpo docente, da diretora fulana de tal e da coordenadora pedagógica fulana de tal. O Creja foi pensado para atender pessoas com idade superior a 15 anos, de todos os bairros do Rio, que normalmente exercem suas atividades proissionais no centro histórico da cidade, ou em suas imediações. Por isso ocupa um sobrado restaurado, em pleno Saara – a mais famosa região de comércio popular do município, onde mais de 600 lojas vendem imensa variedade de mercadorias. A localização do sobrado torna o acesso à escola mais fácil para a maioria dos alunos. Menos para um grupo reduzido, do qual faz parte dona Maria Galdina, de 84 anos, aluna aplicada, moradora de Realengo, bairro distante. Ela, que foi alfabetizada no Creja e está cursando o equivalente à 5ª série do ensino fundamental, poderia ter optado pelo programa tradicional de educação de jovens e adultos, frequentando o curso em lugar mais próximo de sua casa. Porém, esses cursos têm quatro horas diárias de aulas, em geral, no período noturno. Além da menor duração das aulas, o Creja tem outra vantagem indiscutível: as turmas são pequenas, formadas de dez a doze alunos, em média – o que permite aos professores dar assistência adequada ao aluno, quase individualizada, diz a coordenadora pedagógica, Neyla Tafakgi. A formação é contínua, de tal forma que os estudantes podem completar o ensino fundamental em quatro anos. Por tudo isso, o Creja emprega metodologia diferente e tem material didático próprio. Em princípios de março último, havia 503 pessoas matriculadas, a maioria entre 20 e 40 anos de idade. “Não nos preocupamos em levantar uma estatística rigorosa porque não fazemos esse tipo de diferenciação dos alunos por idade. Ao contrário, até preferimos que as classes misturem pessoas de diferentes faixas etárias. Isso é bem gratiicante para todos. Os adolescentes não discriminam os mais velhos e a convivência é harmônica”, diz Neyla. Danilo da Silva Costa, morador do bairro de Santa Teresa e operário da construção civil, concorda com Neyla. Ele abandonou a escola quando menino, passando a maior parte de seus 42 anos sem ler, nem escrever. Apenas assinava o nome. Matriculado desde o ano passado, na turma das 13h, declara: “vim procurar o Creja para aprender. Estou progredindo e pretendo continuar. Ajuda muito o pessoal da turma ser legal, me dou bem com ele”. O sucesso da metodologia utilizada é patente. “O entra e sai de candidatos a uma vaga é constante. Entre eles, o número de pessoas não alfabetizadas é muito grande. Ainda que façamos matrículas três vezes por ano, em janeiro, maio e setembro, não conseguimos dar vazão a tanta procura porque nossas 33

Histórias gostosas de ler e boas de copiar turmas são pequenas. Desde a implantação do Creja, em 2004, temos formado de 100 a 150 alunos por ano. Eles saem para o ensino médio e costumam retornar, dizendo que não esquecem da escola, que não há outra igual. E pedem para icar num cantinho...”, diz a professora Vanda de Mattos Mendes, a diretora. Por vezes, os ex-alunos aparecem com uniformes de escolas do ensino médio. Uma evidência de que sua auto-estima está nas alturas. As coisas icam ainda melhores quando conseguem ingressar em instituições tradicionais, como o Cefet/RJ (Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca). Foi o que izeram dois rapazes, de 19 e 20 anos, em 2009.

Contato Darcy Tadeu Xavier Campos – Professor (21) 2976-2554 – gaesme@rioeduca.net

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ao pÉ da lEtra

bElo horizontE

bElo horizontE

Populaçâo Área da unidade territorial (Km )
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2.371.151 331,400 134.586 167 0,841 0,57 0,839 238 R$11.260.589,00 R$3.568.633,00 138.448 4.746.659.897,00 --2010- Região Sudeste 2009- Desempenho Administrativo-FinanceiroRegião Sudeste
Fontes: IBGE, 2010. Ministério da Educação, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – INEP – Censo Educacional 2009. Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, 2000- PNUD/ONU. Prêmio Gestor Eiciente da Merenda Escolar, 8ª edição. Ministério da Fazenda, Secretaria do Tesouro Nacional.

Matrícula ensino fundamental municipal (2009) Escola pública municipal-fundamental (2009) Maior IDH Es Menor IDH Es IDH Mun Nº escolas municipais (pré escola e ensino médio) Recursos transferidos pelo FNDE (2010) Complementação para compra de alimentos Alunos atendidos Receitas orçamentárias realizadas (2008) Refeições servidas Premiação

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bElo horizontE
ao pÉ da lEtra
As secretarias municipais de educação cuidam da merenda escolar em quase todas as cidades brasileiras. Em Belo Horizonte, a responsabilidade icou com a Secretaria de Abastecimento desde sua criação, em 1993. A passagem da merenda para a órbita do abastecimento foi ocorrência natural no contexto da época. Por meio da nova secretaria, a administração do prefeito Patrus Ananias iria desenvolver, com sucesso, vários projetos relacionados à segurança alimentar da população – política que projetou a capital mineira no país e no exterior. Maria Ângela Girioli de Andrade, atual gerente de Coordenação de Programas de Assistência Alimentar, acompanhou a mudança e participou das transformações operadas no sistema desde o início. Farmacêutica-bioquímica e mestre em Ciência de Alimentos, ela mesma havia sido transferida da Vigilância Sanitária para a Secretaria de Abastecimento. Ao chegar, integrou uma equipe formada por funcionários da assessoria jurídica e do setor de compras para alterar, de maneira radical, os termos dos contratos com fornecedores. Embora tivesse efeitos saudáveis sobre os cofres e a moralidade pública, a nova cartilha não abriu de imediato um caminho suave para os administradores. “O fornecedor, se puder, entregará só o que quiser, quando o mercado estiver a seu favor. Assim, a primeira licitação

na administração acostumados, se revoltaram”, conta Ângela Girioli. Como lembrança pública, para otimizar recursos desse e de outros momentos de tensão, ela tem pequenas imagens e melhor alcançar os objetivos, muitas da Sagrada Família e de Nossa Senhora Aparecida em um suporte vezes é necessário quebrar as tradições. de parede, perto de sua mesa de trabalho. Todas lhe foram não é porque uma coisa sempre foi feita dadas por funcionários solidários: preocupados com o rumo das de uma determinada maneira que esta é a coisas, eles pediam aos céus que a protegessem. Ângela, que se mais adequada neste momento. É importante considera cristã, guarda as imagens com carinho (outros ícones discutir, planejar e avaliar cada procedimento católicos icam engavetados por falta de espaço no suporte). De com o maior número possível de pessoas toda forma, ela declara orientar seus passos segundo princípios e com disposição para aceitar morais e éticos que aprendeu em casa, aliados a uma certeza: “não novas ideias.
que realizamos quase terminou na polícia. Nossos fornecedores, mal podemos ter medo na vida, ele é paralisante”. 37

Histórias gostosas de ler e boas de copiar O tempo se encarregou de mostrar que as modiicações nos contratos, impactantes e duradouras, conferiram solidez ao edifício da merenda, melhoraram a alimentação escolar e criaram barreira eiciente contra a gula de “amigos” do erário. Tanto assim que, quase 20 anos depois, Ângela Girioli airma com segurança: “se tivesse de recomendar alguma coisa a quem administra projetos de alimentação de caráter social, com recursos públicos, diria que é preciso começar por um bom edital de compra. E uma boa especiicação daquilo que se pretende comprar”. Na Belo Horizonte de anos atrás, as especiicações dos produtos eram muito simpliicadas: “do edital poderia constar, por exemplo, macarrão tipo espaguete. Não havia menção a ovos, e muito menos à quantidade de ovos por quilo de massa. Como a compra é feita pelo menor preço, qualquer macarrão ofertado teria de ser aceito. Com o feijão acontecia algo semelhante. Era só carioquinha, sem especiicação do tipo. E assim por diante”. Hoje a prefeitura belo-horizontina compra feijão carioquinha tipo 1, de safra recente – qualidade que se comprova pelo tempo de cozimento. Além de exigir período maior de fervura, o feijão velho apresenta aspecto diferente na panela. Nesse caso, o consumo de gás é ponderável em função das quantidades preparadas e do número de escolas e de outras entidades que recebem gêneros da prefeitura. Com o arroz é diferente. Se for novo, não absorve água e não passa no teste da caçarola: o resultado da cozedura é um aglomerado de grãos duros, embora empapados. “O tempo de cozimento determina o padrão para o feijão. Para o arroz observamos também o rendimento, o quanto ele ‘cresce’ em volume”. Tal como o arroz e o feijão, cada produto é descrito de forma precisa nos editais. E são comprados sempre os alimentos de melhor classiicação no mercado. Se existem duas categorias, a extra (superior) e a especial, por exemplo, o produto extra será o escolhido. E a Secretaria de Abastecimento se tornou famosa entre os fornecedores pelo extremo rigor e transparência com que administra os negócios da merenda. Mesmo assim, de vez em quando um problema recorrente aparece nos leilões eletrônicos, realizados para a compra de gêneros alimentícios. Nessa modalidade de licitação, vence quem der o maior desconto sobre o preço de abertura, ixado pela Secretaria de Abastecimento com base em cotações da Ceasa e de pesquisas de mercado realizadas pela Fundação Ipead (Instituto de Pesquisas Aplicadas) da UFMG. Como o leilão é aberto a participantes de todo o país, alguns indivíduos que se julgam muito espertos acabam vencendo, com descontos exagerados. De acordo com Ângela Girioli, 38

no processo de aquisição dos alimentos, é recomendável começar por um bom edital de compra e uma boa especiicação daquilo que se pretende comprar; nos contratos devem existir cláusulas para garantia do pactuado.

Histórias gostosas de ler e boas de copiar trata-se de gente cevada em cofres de prefeituras que tem controles mais lexíveis ou simplesmente não os têm, de modo que tais fornecedores costumam escapar de prejuízos faturando os produtos a preços mais altos, depois da licitação. Em leilão realizado ao inal de 2009, por exemplo, um concorrente ofereceu desconto de 30% no preço de determinado produto e saiu vencedor, para desgosto do pessoal da merenda. Por experiência, todo mundo sabia que os problemas não tardariam a surgir. Dito e feito. Os ecos do leilão ainda reverberavam quando o responsável correu para pedir um reajuste do preço... Acabou espatifando-se contra o “muro” contratual, a toda velocidade. Embora esperneasse, diante da ameaça de punição, passou a entregar a mercadoria nas condições pactuadas. E continuou procedendo assim até o im de 2010. Gato escaldado. É possível que não volte a tentar fazer negócios com a prefeitura de Belo Horizonte. Ou então aprenderá a calcular direito o desconto que lhe permitirá ter lucro, abatidas as despesas, que são razoáveis. O vendedor de produtos perecíveis se compromete, entre outras obrigações, a entregar os gêneros em 590 entidades – escolas, creches, abrigos, instituições para idosos e outras. E nesses pontos, as pessoas encarregadas de receber as mercadorias são treinadas para não aceitar nada fora dos padrões de qualidade. Se isso acontecer, o vendedor é obrigado a repor o lote em 24 horas. A ordem é defender o interesse público de forma intransigente. Por isso, uma vez prontos os contratos após os leilões, os vencedores terão uma única chance de se avistar com Ângela e esclarecer dúvidas eventuais. “Tudo está nos contratos, mas como sei que não prestam muita atenção no que leem, repasso cada documento com o interessado. Aviso que as regras estão valendo e que essa será a única vez que irei recebê-los. Se eles não são agentes ilantrópicos, mas representantes de empresas que visam lucro, eu represento uma instituição pública, não estou aqui para dar jeitinhos”. E não adianta tentar agradar a equipe, que está proibida de receber presentes dos fornecedores. Certa vez, Ângela exigiu a devolução de um presunto ao remetente – providência que serviu de lição também para o público interno: alguém mais afoito já havia mandado comprar pães para os sanduíches... 39

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agEnda anual
Em Belo Horizonte, a Secretaria de Abastecimento provê suprimentos para a prefeitura e para todos os programas municipais que ofereçam algum tipo de alimento ao cidadão. Estima-se que o contingente alcançado esteja perto de 10% da população total, que é da ordem de 2,4 milhões de habitantes. Só nas 231 escolas do município estudam cerca de 180 mil alunos. A prefeitura ainda mantém creches, albergues, abrigos, subsidia uma rede de restaurantes populares e colabora com entidades conveniadas. São instituições ilantrópicas, ou de iniciativa comunitária – de igrejas, por exemplo, ou de associações de bairros. Entre elas há entidades que cuidam de idosos. A gerência de Ângela Girioli conta com cerca de 150 pessoas para atuar em todas essas áreas – do planejamento das refeições à educação alimentar. Os cardápios dos diversos programas se amoldam ao peril da oferta sazonal dos hortifrutigranjeiros, pois os produtos de safra, além de mais baratos, são de melhor qualidade. No entanto, há um ajuste ino a cada semana, a depender das informações prestadas por um técnico agrícola que iscaliza a qualidade das frutas, legumes e verduras no próprio armazém do fornecedor. Ele também acompanha a tendência da oferta na Ceasa. “Em dado momento, a abobrinha poderá ser ótima opção em termos de qualidade e quantidade, mas não o chuchu. O técnico traz essas informações para a equipe de planejamento. Com base nelas deinimos os produtos que serão enviados na semana às instituições que atendemos”, diz Ângela. Os fornecedores devem entregar os alimentos perecíveis de segunda a quarta-feira. Para guardá-los, todas as escolas dispõem de geladeiras grandes de aço inox, ou espaços adequados nas despensas, assim como a linha completa de equipamentos para o preparo da merenda. Os não-perecíveis são armazenados e distribuídos pela prefeitura, que também está preparada para operar com hortigranjeiros produzidos pela agricultura familiar. Como se sabe, o Governo Federal tem criado mecanismos de apoio a essa categoria de produtores rurais. Atualmente, a legislação determina a aplicação de 30% das verbas federais para a merenda na compra de alimentos da produção familiar. Nos municípios onde o valor correspondente a esse percentual, seja igual ou inferior a R$100 mil, a prefeitura deverá pagar o preço médio de varejo ao produtor. Acima deste valor, o município comprará pelo preço que é praticado nos contratos com outros fornecedores. 40

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Belo Horizonte, que não tem área rural, poderia nada comprar. Mesmo assim, fez alguns chamamentos públicos em 2010, no âmbito da PAA. Sem sucesso. “O único fornecedor que apareceu, de canjiquinha e fubá, desistiu do negócio logo depois de ser habilitado. Na ocasião, a Conab cotava a canjiquinha a R$1,58/kg e o fubá a R$1/kg. Nós pagávamos R$0,80 e R$0,60, respectivamente. E os produtores acreditam que a tabela da Conab está defasada! Não querem vender e não comparecem. Para eles é mais interessante colocar a produção nos pequenos municípios, ao preço médio do varejo”, diz Ângela Girioli.

os cardápios devem ser adequados ao peril da oferta sazonal dos hortifrutigranjeiros. os produtos de safra, além de mais baratos, são de melhor qualidade.

MoviMEnto constantE
Veículos que transportam alimentos não-perecíveis, comprados pela prefeitura de Belo Horizonte, convergem diariamente para um armazém localizado no bairro de Padre Eustáquio. Maurício Vitor Moreira normalmente também se dirige para lá todos os dias, desde 1995. Ele é o gerente de Armazenagem, Distribuição e Controle de Qualidade de Alimentos – um veterano com 41 anos de serviço público. A viagem de qualquer mercadoria até o armazém só pode começar depois de Maurício, autorizado pela Secretaria de Abastecimento, fazer o pedido ao fornecedor. Na chegada, o produto é conferido, assim como os laudos que atestam sua qualidade. Se tudo estiver correto, o material é estocado e a nota iscal segue para o pagamento. Na distribuição, a secretaria informa por e-mail a quantidade de gêneros que cada entidade deve receber. Uma pequena frota de caminhões e caminhonetes, de uma cooperativa de transportadores de cargas, leva os alimentos até o destino inal. A contratação de caminhonetes é necessária porque caminhões não entram em qualquer lugar. Principalmente em becos estreitos de favelas, onde a experiência recomenda cautela, explica Maurício: “nossos veículos foram assaltados mais de uma vez nesses ‘aglomerados’, mas não há registros policiais das ocorrências. Só os nossos, internos. Se a polícia for chamada, as entregas posteriores serão prejudicadas. Felizmente, incidentes assim têm sido raros, pois motoristas e conferentes já explicaram a assaltantes que os alimentos são para crianças, que podem ser ilhas dos próprios criminosos. Tem funcionado, mas há lugares onde vamos só pela manhã. Nesse horário, bandido dorme”. No armazém, o entra e sai de mercadorias não para. A frota cumpre a escala de entregas mesmo durante as férias, deixando as escolas abastecidas para o reinício das aulas. De qualquer maneira, o movimento nunca 41

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em cidades grandes, e outras funcionam ininterruptamente. Mesmo algumas escolas, em áreas a circulação de veículos é carentes, mantêm seus portões sempre abertos por conta do programa sempre um problema. acresce-se a “Férias na Escola”. Os alunos comparecem e levam os irmãos. Até as este o problema da criminalidade que mães costumam aparecer e algumas ajudam as merendeiras. Maurício diiculta a circulação de pessoas e carros resume assim as atividades em seu departamento, mas observa que nos horários mais tardios e de mais fácil circulação. por isso, é importante prever a rotina pode ser quebrada a qualquer momento para entregas de uma frota de veículos com dimensão emergência, ou algum outro imprevisto. menor, que possa passar em A cooperação é a regra, inclusive com outros órgãos do município: qualquer lugar, pode ser “cabe à Secretaria de Abastecimento alimentar desabrigados. Eu estava uma solução. em casa numa noite de 31 de dezembro, quando recebi a convocação
poderia cessar de todo. Ao contrário: creches, abrigos, instituições para idosos para levar centenas de cestas básicas para vítimas de um temporal. Saímos de caminhão para também pegar colchões na Defesa Civil. Nessas ocasiões, os restaurantes populares mantêm plantão para fornecer comida quente de imediato. Na verdade, durante as estações chuvosas, representantes de várias secretarias se reúnem com a Defesa Civil uma vez por semana para acompanhar a situação. Em 2009, izemos um trabalho de fato interessante, levantando áreas de risco e tirando a população antes das chuvas”.

banco social
Frutas, legumes e verduras, em geral, têm vida curta em gôndolas ou balcões de supermercados. São descartadas com rapidez porque logo perdem as características mais atraentes do ponto de vista comercial, embora possam conservar suas propriedades nutritivas. Se forem amassadas no transporte, por exemplo, às vezes nem chegam a ser expostas. Em Belo Horizonte, a Secretaria de Abastecimento tem um banco de alimentos para receber e repassar doações. A rede Carrefour, uma das grandes contribuintes, libera diariamente os produtos rejeitados em suas 17 lojas. “Nós recolhemos, selecionamos e distribuímos os alimentos, com aproveitamento muito alto, da ordem de 90%”, diz Ângela Girioli. Embora os hortifrutis predominem, o banco também recebe óleo de soja, açúcar, feijão e outras mercadorias que estejam perto do vencimento, informa Carlos Henrique Pantusa, responsável pelo programa. No inal de 2010, o banco tinha 68 clientes – entidades apenas cadastradas pela Secretaria, mas sem qualquer convênio com o poder público. “Elas não têm acordos formais com a prefeitura porque 42

Histórias gostosas de ler e boas de copiar não conseguem satisfazer os critérios exigidos. São muito precárias. Mesmo assim prestam serviços à comunidade. Por isso nossas nutricionistas também as visitam, passando informações e orientação sobre as boas práticas que devem ser adotadas nas cozinhas. Há outras 130 entidades cadastradas à espera de atendimento. Primeiro terão de solucionar pendências que envolvem documentos. Para isso, elas também já receberam orientação”, diz Carlos Henrique. O banco de alimentos também deverá receber produtos da agricultura familiar se a Secretaria de Abastecimento conseguir comprá-los. “Sabemos que nesse ramo a oferta é muito inconstante em termos de qualidade e mesmo quanto ao tipo de produto. Suponhamos que a gente peça duas toneladas de cenouras, cinco toneladas de batatas e três toneladas de chuchu para entrega numa segunda-feira. Pode acontecer que o responsável resolva aparecer na terça, sem o chuchu, mas com o dobro da quantidade de batatas e cinco toneladas de mandioca, que não havíamos encomendado. Para evitar problemas na distribuição, processaremos esses produtos. Eles serão descascados, picados, higienizados, embalados a vácuo e estocados sob refrigeração. Seu papel será complementar no abastecimento”, diz Ângela.

cardápio atraEntE
Pode não haver causa única para a obesidade, mas é indubitável que guloseimas têm forte peso na balança. Quem combate o consumo excessivo desses produtos pelos jovens disputa um cabo de guerra permanente com os fabricantes, que têm a propaganda sedutora como arma e, como aliados, os maus hábitos da vida moderna. A batalha tem sido desigual, conforme mostram as estatísticas: os índices de obesidade e sobrepeso entre crianças e adolescentes aumentaram de forma alarmante nas últimas décadas. “Nem sempre é fácil convencê-los a consumir alimentação saudável. Nessa faixa etária existe certa preferência por alimentos mais calóricos, mais salgados e mais doces”, diz a nutricionista Andréa Queiroz, gerente de Planejamento e Avaliação Nutricional na Secretaria de Abastecimento. “Por isso a gente vê jovens trocando o leite por refrigerantes ou sucos artiiciais. Ou alimentos básicos por salgadinhos.” Não existe mágica para reverter de imediato esse quadro, tão desfavorável à saúde da população, mas nutricionistas e educadores fazem o que está a seu alcance. “Nas escolas, procuramos incluir alimentos básicos no cardápio, de forma atrativa. Buscamos modos diferentes de prepará-los, para que a aceitação pelas crianças seja maior. É preciso variar”, airma Andréa. Para isso, alguma ajuda pode vir de “dentro de casa”. Em Belo Horizonte, cozinheiras que trabalham em escolas participaram de dois 43

Histórias gostosas de ler e boas de copiar concursos de receitas, organizados pela Secretaria de Abastecimento. Os pratos deveriam ser saudáveis, ter custo compatível com o orçamento e agradar o paladar dos alunos. “Foram sugeridas preparações muito interessantes. E as três que conquistaram as primeiras colocações agora fazem parte do cardápio. Uma delas é o ‘estrogonofe à Vidigal’, apresentado por uma cozinheira da escola que tem esse nome, um estrogonofe de frango com cenoura ralada e aveia, cereal que geralmente não é muito bem aceito pelas crianças. Depois, para tornar o prato ainda mais atraente, adicionamos milho verde. Continua um sucesso”, diz Andréa. Inovações no cardápio também ocorrem em função dos múltiplos projetos educativos desenvolvidos nas nove regionais administrativas do município. A necessidade de inovar surge ainda quando há mudanças no sistema de ensino. A escola integrada exigiu o aumento do número de refeições nas escolas. E, portanto, maior variedade de pratos para que a merenda não caísse na monotonia. O pessoal responsável tem de ser criativo em vista de algumas restrições. Andréa comenta: “nossa equipe elabora os cardápios de acordo com as recomendações nutricionais, a idade dos alunos e o tempo de permanência na escola. Levamos em conta os custos, devido às limitações do orçamento, e a infraestrutura disponível nas instituições, o que elas têm para confeccionar os pratos. A maior parte dos gêneros utilizados é in natura ou semi-processada. Sobra pouco espaço para os alimentos industrializados”.

Esforço Educativo
Difundir hábitos saudáveis à mesa signiica conquistar paladares e mentes. Assim, enquanto o departamento de Andréa Queiroz se ocupa dos cardápios, Adilana Rocha Alcântara e sua equipe cuidam da Educação para o Consumo Alimentar. Formada em pedagogia e comunicação social, Adilana gerencia um grupo multidisciplinar, por necessidade do trabalho realizado: tendo a merenda escolar como prioridade óbvia, a equipe se integra aos demais programas da Secretaria de Abastecimento e também participa de ações e projetos de outros órgãos públicos que tenham objetivos semelhantes. “Promovemos a alimentação saudável por meio de ações educativas e de comunicação. Nas escolas, primeiro chamamos a atenção dos professores e da coordenação pedagógica para a importância do tema, pois a educação alimentar é um processo contínuo e não adianta tentar levar o trabalho adiante se a escola não abraçar a ideia.” “Normalmente organizamos oicinas com a participação de pais, crianças e adolescentes, abordando alimentação e saúde, higiene na manipulação de alimentos e combate ao desperdício. Não há um padrão 44

Histórias gostosas de ler e boas de copiar rígido para as oicinas. Elas se realizam de acordo com a infraestrutura de cada escola, com o peril do público e sua disponibilidade de tempo. Os professores devem dar continuidade ao processo. Para isso oferecemos material de apoio: cartazes, vídeos, banners, fôlderes...”. Como a direção das escolas muda a cada dois anos, normalmente, a equipe de Adilana aproveita a oportunidade para entrar em contato com a nova diretora e com a coordenação pedagógica e se coloca à disposição para fazer algum trabalho educativo. Para essa aproximação, Adilana preza muito o auxílio que recebe da supervisão alimentar. As supervisoras conhecem a realidade das escolas, trazem demandas e identiicam os

educação professores que demonstram maior interesse pela educação alimentar. alimentar deve fazer parte do processo Na abordagem desse tema, o teatro é um recurso poderoso. “Uma ação mais pedagógico em qualquer fase lúdica tem o poder de incentivar a fantasia da criança, que acaba aprendendo da vida escolar; é um processo com prazer e levando informações para casa, o que também é importante. contínuo e deve envolver Como nem sempre temos recursos, nos unimos a outros grupos para apresentar toda a comunidade peças, esquetes e espetáculos de fantoches. Em 2008, por exemplo, montamos educativa. ‘Alice no país das gostosuras’, peça escrita por uma pedagoga, com nosso apoio
técnico. E levamos cerca de 15 mil crianças ao teatro. Em 2009, com a Secretaria da Saúde, apresentamos ‘O mundo fantástico dos alimentos’, espetáculo criado pela equipe de mobilização da Saúde, assistido por 6 mil crianças. Pretendemos retomar esse trabalho em 2011”. Também faz parte das ações de mobilização e educação para o consumo alimentar a capacitação do pessoal envolvido no preparo e distribuição dos alimentos nas escolas municipais e nas entidades conveniadas (creches, abrigos etc.). Quando entram em alguma dessas instituições, os proissionais, encaminhados pela equipe de supervisão, fazem um curso de 20 horas-aula. No período, aprendem noções básicas de nutrição; microbiologia; higiene, armazenamento e conservação de alimentos; técnicas culinárias e relações humanas no trabalho. E a cada dois ou três anos o proissional pode retomar o programa inicial ou fazer um aperfeiçoamento. Normalmente há dois cursos por mês, em média, de março a novembro, para turmas de cerca de 25 pessoas. Em 2010, mais de 400 proissionais participaram das atividades letivas. Mesmo assim, a oferta de vagas ainda é limitada em vista da rotatividade da mão de obra terceirizada, que predomina nas cozinhas da rede de ensino municipal e das outras instituições públicas, onde há preparo de alimentos. Dada a relativa escassez de vagas, o proissional com alguma qualiicação tem preferência nas contratações. Embora as instituições públicas possam matricular seu pessoal em outras entidades credenciadas pela Secretaria da Saúde, como o Senac, o curso de capacitação da Secretaria de Abastecimento, oferecido a custo zero, é mais procurado. 45

Histórias gostosas de ler e boas de copiar

olhos atEntos
Na questão alimentar, a Secretaria de Abastecimento está sempre muito bem informada sobre o que se passa nas escolas e outras entidades, graças às equipes de supervisoras de alimentação e suas coordenadoras. Esses grupos, distribuídos pelas nove regiões administrativas de Belo Horizonte, são formados por nutricionistas (a maioria) ou técnicas em nutrição. “A supervisora acompanha todo o processo nas instituições, da chegada do alimento ao consumo das refeições. E entrega relatórios circunstanciados, que abrangem mais de cinquenta itens. Mas ela não tem autoridade para ser ‘gerente’, controlar a entrada e saída de funcionários, fazer advertências ou tomar outras providências administrativas. A supervisora é, sobretudo, uma orientadora”, diz o responsável pelo setor, Carlos Henrique Pantusa, gerente de Alimentação Escolar e Assistência Nutricional, que também é nutricionista. Em geral, coordenadoras e supervisoras têm anos de experiência. Na Regional Noroeste, Mônica de Assis Fontes Silva, que recebeu seu diploma de nutricionista em 1994, já comandou o departamento de alimentação de um hospital belo-horizontino. Ao mesmo tempo, atuando como voluntária em creche de bairro, planejava os cardápios e trabalhava com educação nutricional em sala de aula. Sua rotina é semelhante à das demais coordenadoras de Supervisão Alimentar: “só tenho uma reunião por mês com as cinco supervisoras que me auxiliam. Fora isso, meu contato com elas é individual, direto nas escolas, creches ou abrigos. São 76 unidades ao todo”. A supervisora Isabela Rodrigues da Silva Freire, nutricionista formada em 2003, faz parte da equipe, acompanhando 20 instituições. “Em circunstâncias normais, visito de duas a três unidades por dia, cumprindo a programação mensal. Entre as atividades de rotina, faço a contagem dos estoques e, com base no consumo constatado, planejo as requisições de alimentos para o mês seguinte. Orientar o pessoal das cozinhas é outra tarefa importante. A direção das escolas é informada para que possa veriicar e corrigir distorções, se houver. Fora isso, há projetos para tocar. No momento [2010] está em curso uma pesquisa para mensurar sobras de comida nas panelas e restos deixados pelas crianças nos pratos. A partir dos resultados, pediremos às cozinheiras para diminuir as quantidades preparadas ou as porções oferecidas aos alunos. Se quiser, a criança poderá repetir”.

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Histórias gostosas de ler e boas de copiar Uma das escolas visitadas por Mônica e Isabela é a Monsenhor Arthur de Oliveira, da diretora Dilsa de Carvalho Medeiros, professora experiente com quase três décadas no magistério. “Várias supervisoras passaram por aqui nos últimos anos. E sua ajuda sempre foi de grande valia porque não temos a mesma capacitação técnica. Elas colaboram conosco inclusive na seleção do pessoal que vai trabalhar na cozinha, contratado pela caixa escolar. Por isso temos uma equipe bem consolidada, de ótimos funcionários. Pessoas muito comprometidas com suas funções. E a merenda melhorou muito ao longo dos anos. A maioria dos alunos gosta e faz propaganda dela em casa”. A vice-diretora, Vanda Lúcia Simões Tomas, conta que atendeu até uma grávida, mãe de aluno, com “desejo” de experimentar o arroz temperado da escola, que parece ser mesmo dos bons: contém legumes e frango desiado. Tal como a diretora Dilsa, a nutricionista Cássia Elisa Farias Firmo, supervisora de alimentação da Regional Nordeste, atesta que a merenda tem evoluído. E com muita rapidez. “Entrei na prefeitura há um ano apenas e já assisti diversas mudanças. A implantação do self-service foi a mais importante. Quando eram servidos pelas cozinheiras, muitos meninos recusavam as verduras. Agora que podem escolher, além de comer saladas, chegam até mesmo a repetir.” A coordenadora da regional é a nutricionista Joyce Andrade Batista, que acrescenta: “nas escolas em que foi implantado o auto-serviço até o desperdício diminuiu muito”. Ambas airmam que a direção das escolas precisa estar comprometida com a supervisão para que bons resultados sejam alcançados. E que essa tem sido a regra: muitas das diretoras se sentem mais seguras com o apoio técnico e também com os olhos e ouvidos atentos das nutricionistas.

tEMpo dE Mudanças
A Escola Municipal Pérsio Pereira Pinto foi construída por volta de 1970, em terreno de uma antiga fazenda, na periferia de Belo Horizonte. O prédio atravessou décadas com as dependências originais, um tanto acanhadas, até 2008/2009, quando foi rejuvenescido e aumentado por ampla reforma para receber alunos em período integral. “Antes não havia refeitório e a cozinha era pequena. Agora temos cerca de 360 alunos, na faixa dos 6 aos 11 anos, bem acomodados”, diz a diretora Ana Paula Damasceno de 47

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Mattos. A escola recebe crianças de vários pontos da chamada Beira-Linha, que engloba diversos bairros da Regional Nordeste, onde o IDH é muito baixo. A maioria é transportada por ônibus da prefeitura, pois são poucas as que moram perto o suiciente para irem a pé. Ao assumir a direção, Ana Paula percebeu que muitos alunos chegavam com fome. Alguns sentiam-se mal. “Então propus um novo formato para a merenda, com uma suplementação pela manhã. Agora é servido um achocolatado com bolo, pão ou biscoitos. Em outros dias temos mingau. Depois vem o almoço e, às 15h30, servimos mais um prato, como se fosse o jantar”. Fábio Camilo Xavier, vice-diretor, observa que as crianças costumam chegar famintas às segundas-feiras, após o im de semana em casa. Nas férias as coisas icavam ainda piores. “Agora existe o programa Férias na Escola. Uma boa quantidade de alunos comparece, participa de oicinas e almoça”. Fábio, que leciona há dez anos na instituição, acrescenta que nos últimos tempos melhorou muito o grau de proissionalização do pessoal auxiliar. E a Supervisão Alimentar teve muito a ver com isso. A coordenadora regional, Joyce Batista, conta que houve várias reuniões na escola, com a participação da direção. Diversos temas foram abordados, entre eles os aspectos relacionados com a higiene na cozinha. Os resultados foram muito bons: a equipe deixou brincos e outros adornos de lado e aderiu ao uniforme, sem mais resistências. Antes queria usar roupas comuns, que lhe pareciam mais elegantes. Fábio diz: “hoje, Ana Paula e eu, se precisamos ir à cantina dar alguma orientação ou informação, as próprias funcionárias nos lembram de colocar a touca...”. A veterana Evanilda Benevenuto da Silva está no grupo. Integra o contingente cada vez menor de funcionárias públicas empregadas nas cozinhas. “Fiz concurso em 1982 e só fui chamada em 1986. Comecei como faxineira e nunca saí desta escola. Tudo que aprendo aqui também uso em casa”. Ela observa, satisfeita, que ali as crianças desnutridas se recuperam com a merenda, e que algumas mães de alunos airmam ter saudade dos tempos em que também frequentaram a escola. Segundo Evanilda, o pessoal da cozinha procura trabalhar unido, em harmonia. Mas, como é a mais antiga, sente-se obrigada a distribuir uns puxões de orelha vez por outra. Principalmente quando alguém chega atrasado. E também chama a atenção dos alunos, contrabalançando a severidade com boas doses de carinho. Contudo, é possível que o tempo de mudanças inalmente tenha chegado também para ela, agora com ilhos criados e um punhadinho de netos. “O trabalho com crianças é compensador, mas tem lá seus desaios”, sentencia. E revela que fez curso para ser atendente de consultório dentário em 2007, na 48

Histórias gostosas de ler e boas de copiar UFMG, tendo passado em concurso realizado pela prefeitura de Contagem, em 2010. Se for chamada, provavelmente trocará a azáfama da cozinha pelo relativo sossego dos consultórios.

atividadE no caE
A professora de educação infantil Maria Lucia Marques Barcelos, representante de pais de alunos, chegou à presidência do Conselho de Alimentação Escolar de Belo Horizonte depois de acumular vários anos de experiência como conselheira, a partir de 2001. Ela justiica seu interesse por essas atividades: “gosto de colaborar, de ajudar na formação das pessoas. Por isso também venho participando desde sempre dos colegiados das escolas frequentadas por meus três ilhos. Quero contribuir para manter uma estrutura que os beneiciou e ainda favorece meu ilho mais novo, agora com dez anos”. Maria Lucia tem a alimentação na rede pública municipal em alta conta. “A merenda escolar do município supera em muito a da rede estadual. Como é centralizada, a prefeitura compra os gêneros alimentícios e os repassa às escolas. A qualidade dos produtos é uniforme. Já visitamos a Ceasa e fornecedores de alimentos e icamos impressionados com o que vimos. Na rede do estado a verba vai para cada unidade e a diretora é quem compra o necessário, com aprovação do colegiado”. Maria Lucia também está satisfeita com o desempenho dos atuais membros do conselho, mas ela diz que, a certa altura, foi preciso “podá-lo” de forma drástica, para deixar apenas os conselheiros realmente produtivos. Hoje há sete titulares e a mesma quantidade de suplentes. Antes os participantes eram o dobro em cada categoria e parte deles só fazia número. Enxuto, o conselho acaba sendo mais eiciente, embora o tamanho da rede de ensino limite a abrangência de suas ações. A Secretaria de Abastecimento ajuda bastante, diz Maria Lucia: “o atual secretário nos cedeu a sala que ocupamos, mobiliada, e mesmo seu chefe de gabinete, Renato Pereira, nos assiste de diversas maneiras. As supervisoras da merenda também colaboram conosco e temos um carro à disposição para ir às escolas, às terças-feiras”. A escolha das unidades a serem visitadas é aleatória, a não ser que haja denúncia de alguma irregularidade. Eventos assim têm sido raros. As últimas intervenções do CAE, realizadas há anos, se deram por conta da venda de refrigerantes e de guloseimas em algumas escolas – o comércio desses produtos está proibido desde 2003, em Belo Horizonte. Maria Lucia conta: “fotografamos os balcões com as mercadorias e assim que mandamos imagens e relatórios para a Secretaria de Educação o problema foi resolvido”. Para o trabalho de rotina os conselheiros se dividem. Um grupo de duas ou três pessoas 49

Histórias gostosas de ler e boas de copiar sai pela manhã e outro à tarde, cada um levando uma lista padronizada de itens a serem veriicados. Maria Lucia informa que os membros do CAE fazem um curso de manipulação de alimentos, igual ao oferecido às cozinheiras da rede pública e das instituições conveniadas. Portanto, estão familiarizados com as normas de organização, higiene e outras que devem ser observadas nas cozinhas e refeitórios. Os conselheiros também procuram indagar das crianças suas opiniões sobre a comida. “A maioria gosta da merenda, que é bem feita. E bem aceita, inclusive por nós, que a provamos”. Maria Lucia considera esse bom resultado uma consequência lógica das melhorias introduzidas no Programa de Alimentação Escolar ao longo de anos. Em matéria de higiene, principalmente, os ganhos foram notáveis, diz ela, que tem uma sugestão a fazer: “gostaria de ver as diretoras de escolas fazendo o curso de manipulação de alimentos para que pudessem acompanhar mais de perto os assuntos da merenda. Embora a gente vá a todas as regionais, o CAE não consegue ir a todas as escolas. O tempo é escasso”.

boa tradição
Em 1943, durante o Estado Novo, Juscelino Kubitschek de Oliveira, prefeito nomeado de Belo Horizonte, abriu o primeiro restaurante público da cidade. Em prato e bandeja, ali era servido um cardápio resumido, mas bem ao gosto do mineiro – arroz, feijão, carne, leite, goiabada. Josué de Castro, com seus estudos pioneiros, já havia desmascarado a insensibilidade de parte da população que ingia desconhecer a fome – suplício multissecular reservado aos pobres. Em resposta, o governo Vargas criara o Serviço de Alimentação da Previdência Social, em 1940, autarquia pioneira na abertura de restaurantes populares. Nesse campo, Juscelino pode ter sido inluenciado pela decisão do governo central. Na década de 1950, com Kubitschek governador do estado, a capital tinha seis restaurantes fundados e mantidos pelo setor público. Depois veio a ditadura militar e tudo isso acabou. A fase atual, das grandes construções, equipamentos modernos e número muito maior de comensais, teve início só em 1994, quando a economista Maria Regina Nabuco dirigia a Secretaria de Abastecimento. De lá para cá, quem conhece a história em seus mínimos detalhes é Carlos Henrique Siqueira, administrador de empresas e contador. Em 2010, ele completou 15 anos como gerente dos restaurantes populares de Belo Horizonte. Por enquanto são quatro, empregando cerca de 300 pessoas, de nutricionistas a técnicos de manutenção.

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Histórias gostosas de ler e boas de copiar Siqueira comanda a rede a partir da Unidade II, que administra diretamente. O restaurante ica no bairro de Santa Eigênia e tem o nome emblemático de Josué de Castro. Serve vários milhares de refeições por dia e fornece comida pronta para um refeitório localizado na Câmara Municipal, onde almoçam cerca de 1.300 pessoas, em média. A clientela da rede é formada majoritariamente por trabalhadores de baixa renda, dos quais muitos atuam no setor informal da economia. Há também aposentados e desempregados. Siqueira acredita que a clientela aumentará com o envelhecimento da população. “Em geral, o idoso consome mais medicamentos caros e, claro, precisa se alimentar. Se sua renda não é alta, sair de casa para ir ao restaurante popular pode ser a melhor opção, pois o cardápio é variado e equilibrado. E transporte ele tem de graça e deixar de se preocupar com a cozinha também pode ser um alívio”. Siqueira explica que os restaurantes trabalham com pouco mais de 60 cardápios, planejados para o ano inteiro e que se repetem periodicamente. Mudanças na composição dos pratos podem ocorrer em função da escassez de algum ingrediente. “Quando os preços das carnes sobem, por exemplo, partimos para as vísceras e cortes mais baratos. Então servimos fígado acebolado, suã com canjiquinha, costela com mandioca e assim por diante”. Os molhos variam, mas os cardápios são uniicados: em determinado dia, todos os restaurantes servirão a mesma coisa. Em conjunto, eles fecharam 2010 produzindo cerca de 15 mil refeições diárias, vendidas a preços subsidiados: R$0,50 o café da manhã e R$2,00 o almoço. O jantar, que costuma ser uma sopa, ou um mexido, custava R$1,00. Enquanto responsável por todo o programa de alimentação popular da cidade, Carlos Siqueira também se ocupa do planejamento de novos restaurantes e da análise dos locais mais indicados para sua implantação. Foi assim com a Unidade IV, inaugurada em 2010, no bairro do Barreiro – o maior restaurante popular do Brasil, com capacidade de produzir e servir oito mil refeições por dia. Trabalhando como consultor voluntário, Siqueira tem repassado a experiência que acumulou, ajudando dezenas de cidades e entidades a inaugurar restaurantes populares pelo Brasil afora. Ele diz: “não imaginava que icaria nessa área por tanto tempo, mas acabei gostando e prossegui nesse caminho. É muito gratiicante ver o povo alegre na hora da refeição. As pessoas coniam em nosso trabalho, na higiene do ambiente e na qualidade da comida”. 51

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Além disso, o restaurante deve funcionar com o mínimo de perdas. “Fazemos sopa com as sobras de alimentos, ou as doamos para determinadas entidades, mas nada se perde. Aqui não esquecemos o Lavoisier”, arremata Siqueira, que ri, divertido, enquanto caminha célere pelo restaurante. É hora do almoço e ele cumprimenta Álvaro dos Santos, frequentador assíduo há anos. Álvaro, nascido em 1952, em São Paulo, viveu parte da infância em Curitiba. E foi parar em Minas Gerais por obra do acaso. Regressando do Paraná, em 1960, na rodoviária de São Paulo, seu pai poderia ter escolhido inúmeros destinos para ir com a família. Optou por Belo Horizonte porque o nome da cidade lhe pareceu agradável. Álvaro começou a trabalhar aos 14 anos. Esteve na indústria e no comércio, foi e voltou diversas vezes do Paraná, onde se casou. A derradeira viagem de retorno a Belo Horizonte ocorreu em 1984, quando ele também conseguiu seu último emprego, em uma loja de materiais de construção. A empresa faliu dez anos depois e Álvaro virou frentista e lavador de carros em um posto de combustíveis. Por im resolveu arriscar a sorte nas ruas, como vendedor ambulante. E assim continua, depois de criar os ilhos. Convidado a opinar sobre o restaurante, ele despacha: “só lamento não poder chegar até aqui nos dias de muita chuva”.

caMpo dE Estudos
Tempos atrás, Carlos Henrique Siqueira, gerente dos restaurantes populares, desconiou que estavam fazendo arroz demais. Estagiários da Secretaria de Abastecimento foram a campo e constataram que 80% da comida deixada nas bandejas era mesmo arroz. Conirmada a suposição, Siqueira não tardou a descobrir a causa do problema: o funcionário encarregado de distribuir o alimento, ao se cansar, passava a servir quantidades maiores aos comensais. Com duas pessoas, realizando movimentos alternados, o serviço deixou de ser cansativo. A pesquisa seguinte revelou diminuição do desperdício. “O cliente não se serve porque não há tempo. Levantamento feito também por estagiários mostrou que os restaurantes populares atendem de nove a dez pessoas por minuto, em média”, diz a nutricionista Adriana Versiani, coordenadora de estágios e pesquisas desenvolvidas na área da Secretaria de Abastecimento. Ela também responde pela supervisão de entidades conveniadas: abrigos, albergues e ILPI (Instituições de Longa Permanência para Idosos).

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Histórias gostosas de ler e boas de copiar Sempre foi possível estagiar na Secretaria, mas não havia alguém para centralizar e direcionar o trabalho até 2007. Na época, Adriana estava em restaurante popular, onde já realizava pesquisas, apoiada por estagiários. Ela diz: “como sempre me interessei pela área acadêmica, fui convidada pela Ângela Girioli para organizar os estágios. Comecei por fazer contato com as instituições de ensino técnico e superior. Chamei o pessoal para uma reunião e concordamos que os interessados teriam de encaixar seus projetos nos programas que desenvolvíamos aqui, trabalhando sob nossa coordenação, com o objetivo de avaliar os resultados de nossas ações e de coletar dados”. Desde então, com o apoio das escolas de nível médio e superior, foram exploradas diversas vertentes, inclusive a do impacto ambiental provocado pelo lixo dos restaurantes e o que fazer para diminuí-lo. O que também signiica reduzir o desperdício. Segundo Adriana, desde 2007, as pesquisas realizadas pelos estagiários produziram grande volume de dados. Essas informações, importantes para o administrador público, revelam nuances da vida na metrópole. Dos frequentadores dos restaurantes populares, por exemplo, 23% corresponde à idosos. Desses, a maioria é aposentada e do sexo masculino (70%), e tem dependentes morando em casa. Há recomendação de médicos da rede pública a esses idosos para se alimentarem nos restaurantes da prefeitura, em vista do cardápio balanceado. “Trata-se de trabalhos cientíicos, com metodologias comprovadas. Já publicamos alguns artigos na Pensar BH e em outras publicações”, diz Adriana.

Contato Maria Ângela Girioli – Gerente de Nível I (31) 3277-4797 – mariaangela@pbh.gov.br

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ordEM E liMpEza

Mogi das cruzEs

Mogi das cruzEs

Populaçâo Área da unidade territorial (Km2) Matrícula ensino fundamental municipal (2009) Escola pública municipal-fundamental (2009) Maior IDH Es Menor IDH Es IDH Mun Nº escolas municipais (pré escola e ensino médio) Recursos transferidos pelo FNDE (2010) Complementação para compra de alimentos Alunos atendidos Receitas orçamentárias realizadas (2008) Refeições servidas Premiação

387.779 713,291 13.943 50 0,919 0,645 0,801 210 R$2.154.133,00 R$7.523.371,00 44.799 488.263.465,00 --2010- Região Sudeste
Fontes: IBGE, 2010. Ministério da Educação, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – INEP – Censo Educacional 2009. Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, 2000- PNUD/ONU. Prêmio Gestor Eiciente da Merenda Escolar, 8ª edição. Ministério da Fazenda, Secretaria do Tesouro Nacional.

Histórias gostosas de ler e boas de copiar

Mogi das cruzEs
ordEM E liMpEza
Comida, se não dá para comer, dá para jogar nos outros. Era o que faziam os escolares de Mogi das Cruzes com o leite de soja, até o inal de 1988: “as crianças odiavam o produto, distribuído em sachezinhos. Furavam o saquinho com os dentes e faziam uma guerrinha entre elas, esguichando o leite”, conta a nutricionista Maria Helena Cecin Resek Albernaz, diretora do Departamento de Alimentação Escolar do município. Hoje, as “vacas mecânicas” utilizadas para o esmagamento da soja são muito superiores às da primeira geração, produzindo leite de sabor agradável, além de matéria-prima para carne vegetal. Mas na época das “guerrinhas” não havia alternativa e o equipamento a serviço da Secretaria de Educação terminou leiloado em 1989. Foi um ano de grandes mudanças na merenda. E também na vida de Maria Helena, então coordenadora do curso de Nutrição na Universidade de Mogi das Cruzes. A convite de um prefeito recém-eleito, ela foi inspecionar o sistema de alimentação escolar – alvo de queixas da população. Além do desprestígio do leite de soja, havia muita coisa fora dos eixos. A começar pela cozinha-piloto, que, desde 1985, fornecia comida pronta para as escolas e operava a “vaca mecânica”. Mogi era dividida em quatro roteiros e havia quatro caminhões para levar os panelões térmicos. Na rede de ensino, as merendeiras apenas distribuíam as refeições. Entre o preparo e a distribuição poderiam transcorrer 40 minutos, conforme a distância da escola. “As qualidades organolépticas se alteravam, pois a comida continuava a cozinhar no trajeto. Macarrão, que saía ao dente, chegava empapado. O arroz-doce icava com textura tão espessa que poderia ser comido com garfo e faca”, conta a diretora. A monotonia do “cardápio” desanimava. Havia apenas sopas, canjica, arroz-doce e macarronada, servidas alternadamente. Portanto, além da mesmice, a dieta não tinha equilíbrio nutricional. “Desci de paraquedas aqui. Àquela altura só havia dado aulas, nunca tinha administrado uma estrutura assim. Comecei a me encantar, a desenvolver projetos e a apresentar propostas. De repente estava contratada pela prefeitura, mudando tudo”. A cozinha-piloto foi desativada de imediato. Em matéria de infraestrutura não houve problemas dignos de nota. As escolas tinham cozinhas, pois até 1985 cada uma cuidava da própria merenda. Para retomar o processo foram necessários apenas alguns ajustes. “Então desenhei o cardápio de acordo com o que era preconizado pelo FNDE na época, já com quantidades mínimas de proteínas e calorias 57

Histórias gostosas de ler e boas de copiar estabelecidas. Paralelamente começamos a treinar as merendeiras para que entendessem a necessidade de oferecer alimentação saudável e gostosa aos alunos, com boas práticas de higiene”. Passadas duas décadas, o sistema da merenda está consolidado em Mogi. Os funcionários do Departamento de Alimentação Escolar ocupam as instalações de antigo matadouro municipal, onde a salga era o processo utilizado para conservar a carne. Por isso, boa quantidade de sal segue impregnando pisos e paredes das construções e a esterilizar o solo do entorno. Mesmo assim, onde sempre existiu algum verde, diversas plantas são cultivadas em canteiros muito bem organizados e limpos. Uma árvore chama a atenção, “decorada” por orquídeas. “Ganho muitas orquídeas, muitas lores. Até mesmo do meu marido, né? Por falta de espaço em casa, comecei a traze-las para cá, pedindo ao Mauro dos Santos, que cuida do jardim, para colocá-las nas árvores, e elas vão icando... Cada uma loresce em época diferente, de modo que sempre temos lores. E há um casal de passarinhos que muitas vem fazer ninho. Depois de criar os ilhotes, some por alguns meses. Em vezes a iniciativa privada (restaurantes, redes seguida, volta. Se chove, Mauro põe plástico para não molhar o ninho. Às atacadista de alimentos) podem vezes amarra um guarda-chuva.” fornecer exemplos de solução A árvore ica perto da entrada do almoxarifado de gêneros para a manutenção da limpeza e alimentícios, construído para a cozinha-piloto, em 1984. O armazém é a organização de estoques. as grande, mas ali os padrões de organização e limpeza são notáveis. Maria parcerias com a iniciativa Helena diz: “sou extremamente rigorosa com a questão da higiene e fui privada podem fazer a passando isso para meus funcionários, que fazem questão de manter tudo diferença. sempre muito limpo e cada coisa em seu lugar. A imagem de ordem e limpeza está vinculada à da merenda, que deve ser saudável, limpa, de boa qualidade. O pessoal das escolas e outros visitantes icam encantados com o que veem”. É verdade. E o armazém, também notável pela funcionalidade, trabalha segundo o modelo adotado pelos supermercados, em que o uso de paletes de madeira e empilhadeiras facilita sobremaneira a movimentação de mercadorias. Em sala à parte, com o mesmo nível de organização e asseio, está o almoxarifado de utensílios.

produtos da tErra
Mogi das Cruzes é o principal município do cinturão verde da Grande São Paulo. Portanto, o mercado local conta com oferta imensa e diversiicada de legumes e verduras, que entram regularmente nos cardápios escolares. Feijão e arroz também são frequentes. E há uma curiosidade em relação ao consumo 58

Histórias gostosas de ler e boas de copiar desses produtos, bem maior na cidade que na zona rural. Segundo Maria Helena, habituadas ao fastfood, porque os pais trabalham fora o dia inteiro, as crianças da cidade não comem arroz e feijão em casa (ou comem muito pouco). Nas escolas, algumas querem só arroz. Assim, em quatro dias da semana, há arroz e feijão na merenda. E macarronada no quinto dia. Alimentos industrializados também são servidos aos alunos: se amoldam às restrições do orçamento, estão imediatamente disponíveis nas emergências e podem compor a dieta junto com os produtos in natura. Maria Helena comenta: “como oferecer bebida láctea para mil alunos se ela não vier pronta? Outro exemplo é o das sopas, distribuídas pouco antes da saída dos escolares. Se não trabalharmos com sopas semi-elaboradas, não haverá em cada escola o número suiciente de merendeiras para prepará-las. Temos vários tipos. Assim o cardápio não ica repetitivo. Um dia, sopa de legumes, no outro, canja. Depois, sopa de feijão... A mistura vem pronta, mas mando enriquecer. Sobrou batata, cenoura do almoço? Bota na sopa. Acho que esse é um grande diferencial nosso, a sopa com ar caseiro devido à introdução de legumes da região”. Também é possível que os alunos mojianos sejam os únicos a ter cogumelos na merenda. Não se trata de extravagância: o município é o maior produtor do Brasil. Assim, a ideia de aproveitá-los na alimentação escolar não deve surpreender. Porém, antes de incluí-los no cardápio, Maria Helena procurou veriicar suas propriedades. “Quando pretendo introduzir algo novo na merenda, faço um estudo prévio do produto. Nesse caso, um trabalho feito na Unicamp demonstrou

a vocação agrícola das cidades enriquece a alimentação escolar e tem um importante papel na tradição da cultura alimentar.

que os cogumelos são altamente nutritivos. Como faz parte do currículo dos alunos a disciplina de Ciências, com educação nutricional, preparei um material didático sobre o cogumelo para os professores, que nos ajudam muito a estimular o consumo de novos alimentos que, no início, podem até sofrer certa rejeição”. Estratégia semelhante foi usada para o caqui – em cuja produção Mogi também é líder no país. Em 2010, a merenda absorveu três toneladas de champignon e 21 toneladas de caqui. O ovo de codorna e o tomatinho cereja são dois fortes candidatos a entrar no menu escolar dentro em breve. Virão aumentar uma lista de ingredientes que continha 54 itens no início de 2011. A aquisição dos suprimentos é feita pelo Departamento de Gestão da prefeitura, encarregado das licitações. Os fornecedores geralmente são atacadistas, que podem assumir os custos de distribuição. Por meio de acordo, eles se comprometem a comprar hortigranjeiros de produtores locais. Esses alimentos, mais as carnes, devem ser entregues semanalmente nas escolas, com o emprego de veículos adequados. Todas as 59

Histórias gostosas de ler e boas de copiar segundas-feiras, antes das 7h, os caminhões param na sede da Diretoria de Alimentação. Maria Helena, de forma aleatória, manda descer algumas caixas para uma primeira inspeção. Se tudo estiver em ordem, a carga é liberada para a entrega em 216 pontos: creches, escolas de educação infantil, escolas de ensino fundamental, escolas de tempo integral, entidades ilantrópicas e sedes de projetos sociais. No destino, merendeiras treinadas examinarão os produtos outra vez. Constatada alguma anormalidade, a encarregada descreverá o problema na própria guia de entrega. Pode ser, por exemplo, uma discrepância entre a quantidade solicitada de determinado alimento, constante da guia, e a quantidade efetivamente entregue. Terminada a recepção das mercadorias, a merendeira carimba e assina o documento, cujos dados serão utilizados na emissão das notas iscais pelos fornecedores. Maria Helena observa que os produtos alimentícios destinados às crianças devem ser movimentados e guardados com atenção: “as crianças rejeitam frutas machucadas e bolachas quebradas. São mais exigentes que os adultos. Os cuidados no transporte e no armazenamento evitam desperdícios”. Evitar perdas é medida de economia muito importante em qualquer circunstância. Talvez mais ainda em uma cidade que fornece merenda à vontade para quase 50 mil crianças, desde que não joguem comida fora. Para o

os cuidados no transporte e no armazenamento evitam desperdícios.

controle das sobras, o Departamento de Alimentação Escolar conia na experiência e capacidade de observação das merendeiras, experientes no convívio com os alunos. Dentre eles, os que frequentam a escola em período integral recebem cota diária de alimentos bem generosa, em cinco refeições diárias. Diretoras de escolas opinaram que as crianças deveriam comer alguma coisa entre o desjejum e o almoço, assim como entre o almoço e a sopa que é servida à tarde. Maria Helena concordou: “propus uma refeição intermediária leve e rápida, porque a merendeira não teria

tempo de preparar algo mais elaborado para servir às 9h e depois dar o almoço às 11h. Então oferecemos uma fruta nesse horário, ou uma barra de cereais, ou bolacha, ou pão de mel, alguma coisa em porção individual, de distribuição rápida. A criança entra cedo, toma bebida láctea com pão recheado, depois vem o lanche e o almoço. À tarde, repete o lanche da manhã. Para sair, toma sopa”. No caso dos alunos do Ensino de Jovens e Adultos, cerca de 900 pessoas, também houve mudanças no sistema de alimentação para favorece-los. No início, a merenda era servida por volta de 19h30/20h. “Mas observamos que eles vinham com fome do trabalho para a escola. Então decidimos servir antes do início das aulas uma refeição completa, a mesma oferecida às crianças no período diurno. É um jantar, que pode ter arroz, feijão, carne e verduras. Mais tarde, às 21h, os alunos tomam um copo de leite”, diz 60

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Maria Helena. Seu departamento também está encarregado de fornecer ingredientes para lanches nos vários projetos gerenciados pela Secretaria de Assistência Social. Como o “Canarinhos do Itapeti”, em que crianças têm aula de canto, ou a banda sinfônica (vencedora do concurso estadual em 2009). O cardápio para essas atividades é suco ou bebida láctea com pão recheado ou bolachas. Esses projetos têm sedes, onde as merendeiras preparam os lanches. Por im, de tempos em tempos, durante alguma comemoração, admite-se uma alteração radical no cardápio para dar lugar a pratos tradicionais. Em 2008, no centenário da primeira imigração japonesa para o Brasil, o sukiyaki foi servido em toda a rede pública municipal. Maria Helena providenciou folheto explicativo para as cozinheiras e o público em geral: Mogi tem forte presença de japoneses e seus descendentes. Em 2010 foi a vez do “afogado mogiano”, consumido pelos tropeiros que circularam pela região durante séculos. Folhetos foram enviados para as escolas, com a receita e a história do “afogado”. Em ambas as oportunidades, pais de alunos, convocados por suas associações, ajudaram no preparo dos pratos.

sEM rEclaMaçõEs
Ana Nóbrega Fernandes inaugurou a carreira de funcionária da prefeitura de Mogi das Cruzes em 1980. Foi direto para a cozinha de uma escola, onde se dedicou ao preparo da merenda durante cinco anos. A tarefa não exigia dotes culinários incomuns. Os alimentos, semi-preparados, traziam impressas nas embalagens as quantidades de água necessárias para completar o cozimento. Bastava misturar os ingredientes e levar ao fogo. Além de várias sopas, havia arroz-doce, canjica, mingaus e macarrão. Em 1985, Ana foi convocada para a cozinha-piloto. E continuava lá quando Maria Helena Resek chegou para promover a duradoura reestruturação do sistema de alimentação escolar, descrita acima. Ana lhe causou boa impressão e Maria Helena resolveu convidá-la para icar em sua Diretoria. As duas continuam a trabalhar juntas até hoje. No começo, já experiente na seleção de alimentos, Ana se incumbia das compras de suprimentos para as creches, realizadas em supermercado fornecedor da prefeitura. As aquisições de hortifrutis, carne e leite in natura eram semanais. No im do mês se realizava a compra dos produtos não-perecíveis. Ana ia ao supermercado de caminhão, com motorista e ajudante, mas a maior parte do tempo ela passava em escolas e creches, como “visitadora”, para ver o andamento da merenda. Desde então, Mogi dobrou de 61

Histórias gostosas de ler e boas de copiar tamanho. Inclusive no número de creches, que pulou de sete para catorze. Também cresceu o quadro de funcionários da Diretoria de Alimentação Escolar, que tem escriturários, pessoal do almoxarifado, motoristas, ajudantes. Com a expansão das atividades, no meio do percurso, Ana icou só com as funções de visitadora, coordenando o trabalho de cinco colegas. “Nenhuma é nutricionista” – ela esclarece –, “mas recebemos orientação de nossa diretora. Temos 97 escolas e nos dividimos em três equipes para visitá-las. Quando se trata de repassar instruções sobre algum procedimento especíico, conseguimos alcançar até quatro escolas em um dia. As inspeções de rotina são mais prolongadas. Chegamos às 7h30 e icamos até terminar a merenda do turno da manhã. Depois seguimos para outra escola, no período da tarde. Aí a gente vê tudo. Do preparo da comida à higienização dos utensílios, passando pela forma como as crianças são servidas. Perguntamos às merendeiras se faltam utensílios, se é preciso aumentar ou diminuir a quantidade de verduras e legumes... No inal fazemos relatório, que é apresentado à diretora”. De acordo com Ana, merendeiras não se dando bem nas cozinhas é o problema mais frequente. “Quando uma falta, por exemplo, há sobrecarga de trabalho para as demais. O que gera insatisfação. Às vezes precisamos interferir para serenar os ânimos. Uma ou outra gosta de salgar um pouquinho a comida, esporadicamente. Devem ser corrigidas. Mas, de tanto repetirmos as normas que elas devem seguir, não temos registrado contrariedades sérias. De qualquer maneira, sempre tomamos providências imediatas para sanar qualquer problema.” Tem funcionado. Por isso Ana se declara muito satisfeita com o desempenho do grupo: “em 22 anos de serviço nunca reclamaram de nós”. Da mesma forma, entre as cozinheiras há as que só recebem elogios. Teresa de Campos, da Escola Fujitaro Nagao, pertence a essa categoria. A diretora da unidade, Helena Kato, e a coordenadora pedagógica, Terezinha Sandoval, contam que ela tem alguns “segredinhos” até para tornar saborosos os pratos semi-prontos. Esses truques Teresa aprendeu ao longo dos muitos anos de proissão, escolhida bem antes de ingressar no serviço público. “Sempre trabalhei na cozinha de restaurantes e lanchonetes. E nunca deixei de fazer salgadinhos para aumentar a renda.” No entanto, certamente Teresa se exercita na arte da boa convivência: “cheguei aqui em 2000, e iquei sozinha durante seis anos, até ser adotado o período integral. Então vieram as colegas para 62

Histórias gostosas de ler e boas de copiar ajudar. Meu relacionamento com elas é cordial e tranquilo. Sentirei sua falta quando me aposentar”. Só a cozinha deixa a desejar: “é muito pequena para uma escola integral. Até mesmo guardar os alimentos é complicado por causa do tamanho da despensa. Em ambientes assim, o calor intenso faz aumentar muito o cansaço”. Mas haveria uma compensação: “para mim, lidar com crianças é muito prazeroso e elas me adoram (a expressão de Teresa relete grande contentamento nesse instante). A gente as estimula a comer de tudo. Vale a pena ver. Faço isso com amor, capricho na comida. E não só na escola, em casa também”. A diretora da merenda, Maria Helena Resek comenta: “é digna de nota a atenção das merendeiras em suas atividades. Nos treinamentos, enfatizamos a necessidade de tratarem as crianças como se fossem seus ilhos. Algumas trazem temperinhos de casa para deixar a merenda mais gostosa. Louro, por exemplo, que podem ter no próprio quintal. Também é interessante lembrar que os cozinheiros vêm se destacando de uns anos para cá. Em nosso quadro temos 260 mulheres e 42 homens”.

colhEita pEdagógica
“Creche é assim, ame-a ou deixe-a”, diz, categórica, Wagna Suely Ribeiro dos Anjos. Essa frase remete a outra, de estrutura semelhante, muito ouvida no Brasil nos tempos sombrios da década de 1970. Mas a de Wagna, além de revelar sua preocupação com as crianças, apenas traduziria a realidade: nessas instituições só ica quem gosta. Isso porque, explica Wagna, o trabalho exige muita dedicação e completo envolvimento dos funcionários. “É preciso acompanhar tudo de perto. Inclusive o estado de saúde das crianças, que icam conosco até dez horas por dia. A proximidade com os pais é bem maior que numa escola e você acaba conhecendo a vida das famílias.” A contrapartida seria gratiicante: “as criancinhas retribuem nosso carinho com muito afeto. E sou apaixonada pela educação infantil. Minha formação acadêmica e meus 25 anos de experiência proissional estão inteiramente vinculados a ela”. Wagna dirige há onze anos o Centro de Convivência Infantil Integrado Professora Aidée Brasil de Carvalho, frequentada de 7h às 17h por cerca de 150 crianças, de quatro meses a quatro anos de idade. “Essas crianças são de famílias dos arredores e moram em apartamentos. Precisam de mais espaço. É próprio da fase em que estão, que pede brincadeiras, diversão... A gente procura criar espaços livres para que possam brincar, se expressar. Nossos projetos são muito voltados para isso.” Foi assim que a ideia de fazer uma horta na creche prosperou. “Alguns anos atrás, uma das merendeiras cultivava ervas

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Histórias gostosas de ler e boas de copiar e temperos em um canteirinho, para usar na merenda. Aí começamos a levar as crianças para mexer com a terra. Só que a área era pequena e elas acabavam pisando nas plantinhas. Então, há uns dois anos, uma das funcionárias propôs uma ampliação da horta, para que todas as turmas tivessem seu canteirinho...” O marido de Wagna, convocado para ajudar, sugeriu o cultivo em telhas de cimento, e o produtor rural Jorge Kunomoto forneceu (e continua a doar) as mudas. O resultado tem sido muito bom: os canteiros, além de icarem na altura certa para as crianças mexerem na terra, têm produtividade elevada. O próximo passo seria a construção de uma composteira para o aproveitamento de resíduos orgânicos. Wagna conta que a partir de dois anos as crianças vão para a horta. “Elas adoram. Se deixarmos, matam a planta de tanto que regam. E cobram: ‘tia, quando iremos dar água para nossas plantinhas?’ Já plantamos alface, rabanete, e espinafre. As crianças colhem, levam para a cozinha e as merendeiras explicam que vão lavar as verduras e depois, quando servem, dizem que são as plantas da hortinha. Só alguns, muito poucos, não querem nem experimentar.” Em 2010, a colheita foi grande e todos puderam levar alface para casa. A horta se encaixa no projeto “Um, dois, muito mais que feijão com arroz”, da Secretaria Municipal de Educação, também inspirado por uma merendeira, cujo objetivo é ensinar as crianças a terem uma alimentação diferenciada e a experimentarem alimentos novos. No âmbito do projeto são realizadas palestras para os pais e teatrinho para as crianças, entre outras atividades. Muitas crianças chegam à creche habituadas a comer só arroz, com caldo de feijão, mas, com o tempo, costumam surpreender as mães. “Elas dizem: ‘nossa, agora meu ilho come isso, como aquilo’. É a convivência com os outros, a disponibilidade do alimento”, diz Wagna. (Outras escolas, nem todas, têm hortas. As crianças também semeiam, acompanham o crescimento das plantas, colhem e depois vão para a cozinha ver o preparo. Junto com o trabalho nas hortas há a educação nutricional, com o incentivo ao consumo de verduras e legumes.) 64

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Para o sistema da merenda, Wagna só tem elogios. “A alimentação na creche é maravilhosa. Muitas das crianças que estão aqui não teriam a oportunidade de comer tudo isso em casa. São refeições balanceadas, com alguma carne e uma a duas frutas por dia. A entrega de alimentos é pontual e as quatro merendeiras são muito boas. Caprichosas, incentivam as crianças a comer. Não tenho problemas de qualquer natureza. As visitadoras, sempre que chegam, vêm conversar comigo, perguntam se está tudo em ordem, se tenho alguma questão para apresentar. Depois as deixo à vontade na cozinha, onde vistoriam tudo. Sempre que necessário, telefonamos, pedimos coisas, às vezes utensílios ou para aumentar a quantidade de algum gênero alimentício.” Em contexto assim tão favorável, Wagna não pensa em alterar o rumo de sua vida proissional: “já tive chance de sair, mas os aspectos sociais me atraem, me prendem à creche. E fora dela também cuido de crianças carentes”.

coopEração EssEncial
A Escola Fujitaro Nagao ica em região limítrofe, entre a cidade e o campo. Ônibus da prefeitura circulam pelos arredores para levar e trazer os alunos, que moram a distâncias de até doze quilômetros. Dentre os cerca de 130 matriculados em 2011, a maioria é constituída de ilhos de trabalhadores rurais. Pertencem, portanto, a famílias de baixa renda. Por isso, o consumo de merenda é elevado, pois as crianças gostam de tudo que é servido e costumam repetir o prato. Segundo a diretora, Helena Kato, e Terezinha Sandoval, coordenadora pedagógica, depois da introdução do período integral, em 2010, as crianças cresceram. Engordaram, até. No entanto, após as férias, voltaram mais magras. Ficou comprovado pela enésima vez que nas áreas pobres do país a alimentação escolar tem papel fundamental na vida dos pequenos brasileiros: alguns dependem exclusivamente do que comem na escola, enquanto outros dispõem de quantidades insuicientes de alimentos em casa. A comida também funciona como chamariz, para trazer alunos até a escola. Se não há merenda, muitos se sentem desestimulados. Foi o que aconteceu 65

Histórias gostosas de ler e boas de copiar em princípios de 2011, quando a Fujitaro Nagao desenvolveu o projeto “Escola nas Férias”. Um professor de educação física se encarregou das atividades, mas só poucas crianças que moram nas proximidades compareceram. É certo que não havia transporte, mas também não havia alimentação. “É algo para se repensar”, diz Helena Kato. Em outro ponto do município foi construído o conjunto Vereador Jefferson da Silva. Algo em torno de 200 casas, habitadas por mais de mil pessoas. São ex-favelados, alguns antigos ocupantes das margens do rio Tietê e outros que antes acampavam nas bordas da ferrovia que atravessa a região. A área é distante do centro e no início da ocupação registraram-se conlitos por causa do isolamento, além de rivalidade entre grupos de moradores. Não existe comércio no local e o ônibus circular parte para a cidade a cada hora e meia. Com tais características, no imaginário mogiense, o conjunto igura como terra de ninguém – ou o que há de pior nas vizinhanças. Com essa imagem na cabeça e frio na espinha, o professor Kennedy José de Paula foi até lá pela primeira vez, no começo de 2009, para assumir a direção da escola Etelvina Cáfaro Salustiano, que passaria a ter aulas em período integral para alunos da 1ª à 5ª séries do ensino fundamental. O novo diretor logo descobriu que o conjunto residencial não fazia jus à fama. “Na realidade, não há violência aqui, mas as carências são muito graves. Não existem oportunidades de trabalho na área e poucos moradores conseguem emprego formal. Alguns nem ousam mais sonhar. Falar de merenda nesta escola é falar de algo primordial para muitas famílias. No entanto, algumas são omissas no que diz respeito à educação. A escola é integral, mas há mães descuidadas que não se importam com os horários e os ilhos acabam perdendo aulas. Nas famílias que chamo de maior vulnerabilidade, a primeira tarefa é trazer as crianças para a escola. Caso contrário não viriam.”

em muitas regiões do país, mesmo naquelas consideradas mais ricas, a alimentação escolar é motivo de manutenção do aluno na escola. a alimentação também pode ser usada como chamariz, para trazer alunos até a escola.

Problemas de outra natureza também persistem. Para desgosto do diretor, por exemplo, a escola, de vez em quando, é invadida. “Essas invasões ocorrem nos inais de semana. Se as pessoas se limitassem a usar as quadras de esportes seria ótimo. Mas costumam quebrar ou arrancar torneiras e realizar outros atos de vandalismo, com a participação até de ex-alunos.” Em uma dessas investidas, os desordeiros depredaram a horta e a composteira, construídas em 2009. Tais percalços incomodam, é certo, mas não abatem o ânimo de Kennedy, ex-metalúrgico formado em matemática e pedagogia. Para ir adiante 66

Histórias gostosas de ler e boas de copiar com seus alunos, ele tenta aproveitar todas as chances – “se não houver impedimento legal e se dermos conta do recado”. Assim, por dois anos consecutivos, a partir de 2009, a escola abriu as portas na época do Natal, em inais de semana, para que membros de uma igreja evangélica festejassem com as crianças. O pessoal da igreja distribuiu sanduíches e presentes. Uma boneca para as meninas e bolas para os meninos. Em 2010, a escola iniciou parceria inusitada com uma casa de repouso para idosos, mantida por empresa mojiana. A cidade iria completar 450 anos e a merenda, como se viu, seria o “afogado”, prato tradicional. “A casa de repouso nos emprestou as panelas para o cozido. Em seguida izemos bolo e fomos com as crianças visitar os idosos. Organizamos um bingo, em que as pequeninas e os velhinhos jogaram juntos. Às vezes o velhinho não conseguia enxergar os números. Às vezes era a criança que não sabia ler. Deu certo.” Deu mesmo, pois a administradora da casa de repouso veio em socorro da escola pouco depois. Kennedy conta: “Mogi instituiu há anos o projeto ‘Tocando e Cantando’, para o ensino de música na rede pública. Aqui na escola as crianças têm aula com uma monitora que estuda música na Unesp, e ela teve a ideia de levá-las para uma visita à Sala São Paulo (sala de concertos da capital), que tem uma programação para escolares. Foi difícil arranjar os ônibus, até que, tendo dois, precisando de um terceiro, lembrei da casa de repouso. Pedi apoio à administradora e ela nos ajudou a conseguir o terceiro veículo. Assim, os alunos puderam assistir a um concerto didático, em que os músicos mostram e explicam os diferentes instrumentos da orquestra”.

consElho ExEMplar
A diretora Maria Helena Albernaz estabeleceu com o CAE (Conselho de Alimentação Escolar) do município uma convivência produtiva. “Somos parceiros, trocamos experiências. Se tenho alguma dúvida 67

Histórias gostosas de ler e boas de copiar com relação a algum produto que pretendemos introduzir na merenda, convido os conselheiros para a degustação. Se considerarem um produto melhor que outro, seu critério será o vencedor, observadas as características nutricionais.” E Maria Helena admira o grupo: “o Conselho é muito ativo. Sempre cumpriu o que manda a legislação. Realmente iscaliza o trabalho da merenda escolar em todos os níveis. Seus membros visitam as escolas, participam de cursos que se realizam na região e até do treinamento das merendeiras. E são muito organizados e assíduos”. A admiração é recíproca. A presidenta do CAE, Márcia Leal de Almeida Guilherme, diz: “tenho acompanhado a evolução da merenda escolar em Mogi, e decidi participar do Conselho porque queria entender como se chega a esse patamar de qualidade. De nossas visitas, podemos concluir que o controle sobre a merenda é muito grande e eicaz. A Maria Helena é rígida. E também queria contribuir para melhorar ainda mais o sistema de alimentação. É o que temos feito. Depois de discutir internamente, já izemos algumas propostas e temos sido atendidos. Sugerimos, por exemplo, a substituição dos pratos de plástico por pratos de vidro. A troca ocorreu ainda em nosso primeiro ano, 2009. Pratos de plástico, com molho ou alimentos um pouco mais gordurosos, acabam exigindo consumo maior de produtos de limpeza e, mesmo assim, o resultado da lavagem não é bom. Fora isso, eles têm de ser substituídos logo. O prato de vidro, durável, facilita a higienização”. O mandato dos conselheiros e de Márcia, eleita como representante dos professores, em 2009, se estenderá até 2013. Ela é diretora de escola e conta com 25 anos de experiência na rede municipal de ensino, tendo começado como professora de educação infantil. Entre os pontos altos da merenda, Márcia cita a atenção dispensada às crianças que precisam de dieta exclusiva. “As que tomam leite especial, por exemplo, recebem o produto também para levar para casa. Nas escolas, o pessoal é orientado sobre como preparar os alimentos dietéticos e como tratar as crianças a quem se destinam, evitando que sejam vistas como ‘diferentes’ pelos colegas.”
Contato Maria Helena Cecin Resek Albernaz Diretora do Departamento de Alimentação Escolar (11) 4794-8479 – merenda.sme@pmmc.com.br

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MElhor salgado

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Populaçâo Área da unidade territorial (Km2) Matrícula ensino fundamental municipal (2009) Escola pública municipal-fundamental (2009) Maior IDH Es Menor IDH Es IDH Mun Nº escolas municipais (pré escola e ensino médio) Recursos transferidos pelo FNDE (2010) Complementação para compra de alimentos Alunos atendidos Receitas orçamentárias realizadas (2008) Refeições servidas Premiação

10.342 545,534 1.896 16 0,805 0,521 0,625 11 R$138.600,00 R$3.231,00 2.263 13.303.992,92 --2009- Participação Socialregião Nordeste
Fontes: IBGE, 2010. Ministério da Educação, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – INEP – Censo Educacional 2009. Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, 2000- PNUD/ONU. Prêmio Gestor Eiciente da Merenda Escolar, 8ª edição. Ministério da Fazenda, Secretaria do Tesouro Nacional.

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MElhor salgado
O Programa de Alimentação Escolar do Brasil é regido por um “cardápio” de normas gerais, aperfeiçoado com o passar dos anos. Esse conjunto de regras costuma ser observado na maioria dos municípios. O que muda de um lugar para outro é o “colorido” da merenda, dado pelas características particulares, ou “temperos”, de cada localidade. Pintadas, na Bahia, se distingue por dar apoio decidido aos agricultores familiares, fornecedores de hortifrutigranjeiros para as escolas. Por sua vez, a clientela pintadense da merenda revela curiosa idiossincrasia: tem nítida preferência por pratos salgados e quase nenhum apreço pelas frutas e preparações adocicadas. Se fosse diferente, frutas não teriam sido utilizadas como projéteis durante irreverente e estrepitosa “batalha” estudantil, travada há pouco tempo em escola da área urbana. O que fazer? A professora Marlene Nunes Machado da Silva, diretora da Escola Municipal Profa. Zilda Dias da Silva, diz que um dos recursos é observar o comportamento dos estudantes na ila da merenda e procurar convencê-los de que os alimentos não devem ser rejeitados: estão no cardápio porque contêm nutrientes essenciais. Inclusive as frutas, é óbvio. Marlene acrescenta que os professores estão orientados a trabalhar o tema com os alunos em sala de aula. Devem explicar a importância da merenda e também porque não se deve desperdiçar os alimentos. “O município é pobre e nosso público nem sempre tem em casa o que a alimentação escolar oferece. A saúde de alguns alunos depende dessa alimentação.” Em princípio, Marlene atribui aos pais a responsabilidade pelos maus hábitos alimentares da meninada. E faz o mea-culpa: “educamos nossas crianças de forma errada. Meu ilho, quando há fruta na merenda, não come”. A nutricionista Denise Falcão acrescenta: “na escola infantil, por exemplo, há mais ou menos 200 crianças de três a quatro anos. Em geral, elas tomam leite com mamadeira e não têm o hábito de comer verduras e frutas em casa. Dão trabalho. Até porque há uma crença difundida entre as famílias daqui de que os achocolatados são alimentos para bebezinhos. As crianças acreditam nisso e na escola infantil chegam dizendo que não querem os achocolatados. Mas, com paciência, os professores conseguem quebrar sua resistência”. 71

a alimentação está relacionada à crenças e tradição. a escola é o espaço ideal para trabalhar com os alunos o conteúdo cultural da alimentação.

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Todo esforço nesse sentido é válido, comenta a professora Marlene. Seria a contrapartida das escolas ao empenho do setor público em garantir alimentação saudável aos alunos, nas quantidades adequadas. “Trabalho na Educação desde 1986. Naquela época, a merenda era completamente errática. Às vezes era servida uma vez por semana, ou uma vez por mês. De vez em quando as crianças recebiam apenas algumas bolachas. Em uma escola da zona rural, onde iniciei minha carreira, a merendeira fazia algo que chamava de macarronada. O que era não sei. Se fosse jogada contra uma parede, icava lá, grudada. Aquela situação me angustiava muito. Hoje, a comunidade sabe que houve mudança radical. Quando um aluno quer trazer alimentos de casa, os pais costumam dizer que não é preciso, porque a merenda é suiciente e de qualidade.” Pode-se dizer que os alunos concordam com a diretora – são 730, matriculados da 5ª à 8ª séries, estudando em dois turnos. A maioria está na faixa dos dez a catorze anos e, segundo a diretora, normalmente repete a merenda, se for possível. É o que fazem Juliana Silva Macedo, 15, e Mykne da Silva Lima, 14, alunas da 8ª série. Quando chega a hora da merenda, elas costumam estar com o apetite aguçado porque nem sempre tomam o desjejum em casa: como boas adolescentes que são, acordam sonolentas, em cima da hora de ir para a escola. Nessas circunstâncias, logo procuram saber o cardápio do dia, sempre bem-vindo – desde que seja uma preparação salgada, conforme a preferência geral. As gêmeas Carol e Carine Pereira Barbosa, de 13 anos, mais a prima Cláudia Liz Oliveira dos Santos, de 14, moram em bairros rurais e pulam da cama por volta das 5h30 para viajar mais de uma hora até à escola. Para começo de conversa, as três apresentam um discurso surpreendente em se tratando de meninas de Pintadas. Garantem que tomam um bom café da manhã, que inclui frutas. E voltam a se alimentar bem na merenda, comendo qualquer hortifrutícola que seja servido “porque faz bem à saúde”. Quanto ao futuro, declaram que pretendem estudar informática. No entanto, convidadas a se deixarem fotografar com o prato da merenda nas mãos, mudam a história. Contam que comem pouco, inclusive na escola, porque estão preocupadas com a silhueta, pois na verdade pretendem cursar artes cênicas e se tornarem artistas de TV... 72

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Esse comportamento e devaneios de adolescentes, tão comuns no Brasil atual, não poderiam mudar a imagem positiva que a diretora Marlene tem da alimentação escolar e da educação em Pintadas. “Creio que estamos um passo à frente de outros municípios. Primeiro porque temos nutricionista. E ela não ica dentro de gabinete. Percorre as escolas, instrui merendeiras e diretoras, visita as salas de aula, pede aos alunos sua opinião sobre a merenda. E cobra providências, quando necessárias.” A política de portas abertas assumida pela prefeitura é outro trunfo do município: “os secretários de Educação têm dado autonomia aos diretores para trabalhar no espaço das escolas. Podemos interferir naquilo que achamos que não está dando certo. Aqui a gente conversa com o secretário de Educação sempre que for preciso. Há cidades onde isso não acontece”. No que diz respeito à merenda, a professora Anacléia de Oliveira Almeida assina embaixo, como presidenta do Conselho de Alimentação Escolar. “Nosso município tem servido alimentação de excelente qualidade na rede de ensino. E para as crianças de poucos recursos é muito reconfortante saber que na escola

as merendeiras também podem ser agentes educativos. elas observam os alunos cotidianamente e conhecem a realidade deles. elas podem intervir na condução de bons hábitos.

podem contar com uma refeição substancial.” Anacléia preside o CAE desde o inal de 2008, tendo assumido como representante dos pais de alunos. Ela conta que os doze membros do Conselho se reúnem mensalmente para estabelecer o cronograma de visitas às escolas. Em algumas ocasiões, os conselheiros já chamaram a atenção de merendeiras para o cumprimento de algumas normas de higiene. Mas foi só. Aos olhos do CAE, nada mais merece reparos.

casa da MErEnda
Em Pintadas, a nutricionista Denise Falcão elabora um cardápio anual para cerca de 2.300 alunos matriculados em dez escolas – quatro na sede do município e seis no interior. O menu relete o calendário da agricultura familiar, responsável pela oferta de matéria-prima para sucos, na forma de polpas congeladas de maracujá, acerola, umbu, goiaba e cajá; de frutas para consumo in natura, como a banana, o mamão, a melancia e o abacaxi; e de produtos hortícolas. Os mais comuns são: alface, tomate, cenoura, couve, batata-doce, batata, abóbora e quiabo. A parte operacional ica por conta de Silvandira Lima de Macedo, coordenadora da alimentação escolar. Silvandira comanda a 73

Histórias gostosas de ler e boas de copiar merenda a partir da casa onde se localiza a cozinha central. Dali sai a alimentação pronta para as escolas da sede do município. Em cada uma dessas unidades há funcionários destacados para servir a merenda e cuidar dos utensílios de copa e cozinha. Normalmente, o preparo da merenda se inicia às 6h. Três pessoas entram nesse horário para adiantar o serviço. Ao todo são onze funcionários. Nove mulheres e dois homens que, além de distribuir a merenda, ajudam no que for preciso. Silvandira airma que também não ica só olhando – faz um pouco de tudo. Mas antes telefona para as escolas e veriica se a frequência está normal, providência importante para regular a quantidade de merenda a ser preparada. Em média são 1.500 refeições diárias, incluídas as do pessoal do EJA. O número de faltas só se eleva no período das chuvas: na região, rios sazonais costumam irromper com águas turbulentas, impedindo o trânsito. Isolados, os estudantes da área rural não têm como chegar à cidade. A rotina muda um pouco às sextas-feiras, dia de tapioca no cardápio. Como o preparo exige mais tempo, a casa abre às 5h. Cada aluno tem direito a um beiju com recheio, acompanhado de achocolatado ou suco. “Antes o recheio era doce de goiaba ou de leite, mas os estudantes

planejar a alimentação escolar com uma espécie de ritualização pode ser uma prática de educação alimentar.

reclamaram. Então mudamos para mortadela ou carne moída, com molho de tomate. O beiju pode ser colorido, com sumo de beterraba ou de cenoura, por exemplo. Contudo, o mais aceito continua sendo o branco”, conta Silvandira. A farofa de feijão, outra das especialidades da casa, junta cenoura, couve, farinha, carne e feijão (sem o caldo, que vai para alguma sopa). Fora da sede do município, a alimentação escolar é preparada em seis unidades de ensino, localizadas em povoados ou em pleno ambiente rural. Para elas, os alimentos não-perecíveis são despachados uma vez por mês do depósito

central da merenda. Verduras, frutas e legumes chegam duas vezes por semana, na segunda e na quinta. A carne bovina também é produzida por criadores familiares, que abatem os animais em Feira de Santana. “A gente estoca os cortes em freezer e na terça-feira envia a cota que pertence à zona rural, onde as escolas têm equipamentos de refrigeração. O leite, da mesma forma, comprado da produção familiar, tem de ser pasteurizado em cidade vizinha, retornando em sacos plásticos de um litro”, diz Silvandira.

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Histórias gostosas de ler e boas de copiar No povoado José Amâncio, a 12 quilômetros de Pintadas, a professora Cremilda Pinheiro da Silva dirige a Escola João Ferreira da Silva, com seus 210 alunos. São dois turnos diurnos e duas turmas do EJA, à noite. Cremilda tem fama

a coordenação de tudo para ver as coisas avançarem por aqui”. Ela mora central ou o gestor deve no povoado e começou a lecionar em 1994 na própria estimular a criação de meios escola que agora dirige. Seus alunos vivem no povoado de comunicação com os demais ou vêm de diversos pontos da região. Praticamente todos dependem das setores; só assim o gestor tem uma atividades rurais desenvolvidas pelas famílias, tarefas em que colaboram. avaliação em tempo real dos E seu padrão nutricional é regular, de acordo com avaliação de Cremilda. problemas e pode investir em “Eles valorizam muito a merenda. Seus pais também. Costumo mostrar o soluções tempestivacardápio a eles nas reuniões realizadas na escola. E não creio que a qualidade mente.
de ser muito dedicada. No entanto, modesta, diz apenas: “faço da alimentação que os alunos têm em casa seja tão boa quanto deveria ser. Eles fazem questão de vir para a escola. Além de ser um local onde se sentem bem, a merenda também chama muito sua atenção. Creio que 99% deles diria que a merenda é um estímulo ao comparecimento às aulas.” Cremilda também se declara satisfeita: “se falta alguma coisa, telefonamos para o setor da merenda e o problema é resolvido prontamente. Nossa cozinha é bem equipada e organizada. Nada temos a reclamar das cozinheiras. Dividimos as tarefas e cada uma cumpre a sua, obedecendo as orientações da nutricionista”. Uma das cozinheiras, Liéce Oliveira Pereira trabalha na escola há seis anos. Mora em Bonim do Ipirá, povoado que pertence a outro município, e vai para o trabalho de motocicleta, com o marido, percorrendo 18 quilômetros – distância considerável se percorrida em estradas do sertão. Ela diz que teve bom aproveitamento nos cursos que fez e que se dá bem com os alunos e com a colega, Irene Pinheiro da Silva, que trabalha na escola há 12 anos. Irene vive no povoado José Amâncio e, antes de ir para a cozinha, foi servente na escola por vários anos. Muito expansiva, ela parece ter grande facilidade para estabelecer relações cordiais com as pessoas que a rodeiam, principalmente os alunos. “Gosto de cozinhar e Liéce cuida de lavar a louça, me ajudando quando o trabalho aumenta na cozinha, onde ponho em prática muita coisa que aprendi com as nutricionistas.” 75

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coMunidadE fortE
Assim que assumiu o cargo, em agosto de 2009, Denise foi logo conhecer as escolas, diretoras e merendeiras para ver como trabalhavam. Em seguida, fez reunião para transmitir uma série de recomendações quanto à higiene, manipulação de alimentos e outras. Sem esquecer dos alunos: “algumas cozinheiras servem a merenda sem olhar para o rosto da pessoa a quem entregam o prato. Não pode ser assim. Elas devem ter noção de alimentação saudável e agir como educadoras. Falei desse tema em palestra. E todas as informações foram repassadas às diretoras de escolas, com o pedido para que não deixassem entrar mais ninguém nas cozinhas além das merendeiras na hora de servir as refeições. A pessoa que entra é um contaminador em potencial. Essa é uma diiculdade que ainda temos, pois alguns professores teimam em desaiar a proibição. De vez em quando barro algum. Ao mesmo tempo, procuro incentivar os professores de crianças pequenas a comer com elas, explicando a importância da boa alimentação”. Em janeiro de 2010, uma professora de culinária veio a Pintadas para ensinar novas práticas e receitas às cozinheiras, valorizando ingredientes produzidos na região. Até palma temperada surgiu para enriquecer o cardápio. As alunas gostaram do curso e Denise também. Ela, por sinal, está muito bem adaptada à cidade e ao ambiente de trabalho. “Pintadas me surpreendeu pela merenda. Aqui, ao contrário de outros lugares, alimentos industrializados ou semi-industrializados não predominam na alimentação escolar.” De fato, dar alimentação de qualidade para os estudantes da rede pública tem sido o objetivo dos administradores municipais desde 1997, diz o professor Carlos Alberto da Silva Almeida, secretário de Educação de Pintadas. O que signiica não dar muito espaço aos produtos industrializados. “Fomos assediados por fabricantes de comida pré-cozida, mais barata e fácil de fazer. Mas resistimos.” Em 2007, o Programa de Aquisição de Alimentos, da Conab, permitiu novo salto de qualidade. “Nosso primeiro projeto, no valor de 34 mil reais, resultou na compra de carne de caprinos e mel. Para 2009, o total de recursos foi multiplicado várias vezes, alcançando 232 mil reais. Compramos leite, carnes e hortícolas de dezenas de famílias. Os ganhos são vários. A prefeitura enriquece a merenda, atrai e mantém crianças nas escolas, temos geração de renda e sua apropriação por famílias de Pintadas, além da 76

Histórias gostosas de ler e boas de copiar articulação social que o município acaba proporcionando ao fortalecer as cooperativas”, diz o secretário. Quanto à verba do FNDE, que corresponde a cerca de 1/3 do valor das compras do PAA, Pintadas pretende elevar de 30% para 40% do total as compras de alimentos da agricultura familiar. O que acontece em Pintadas tem sido acompanhado com interesse crescente até em lugares bem distantes. Mas o interesse é maior na Bacia do Jacuípe, da qual Pintadas faz parte. Trata-se de um “território de identidade”, deinido em 2003/2004, de acordo com política do Ministério do Desenvolvimento Agrário. Ao todo são 14 municípios de características muito parecidas, com cerca de 340 mil habitantes. Ipirá é o maior, tendo população de 60 mil pessoas, enquanto Pintadas, com um pouco mais de 10 mil, está entre os menores. Qualquer ação no território, sob a responsabilidade de um ou mais ministérios, deve beneiciar o conjunto dos municípios. Pintadas, por exemplo, estreou em 2011 como pólo da Universidade Aberta do Brasil, com a abertura dos cursos de pedagogia e letras pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), destinados a estudantes de toda a Bacia do Jacuípe. Na administração do território deinem-se vários “eixos”: desenvolvimento econômico, educação, saúde, agricultura, esporte. O da educação reúne pessoal especializado dos vários municípios uma vez por mês, em uma das localidades do território. “A despeito das diiculdades, consideramos que estamos avançando. Em abril de 2010, lançamos um plano territorial de desenvolvimento sustentável. Nele há projetos para cada um dos eixos. Agora estamos tentando tirar esses projetos do papel. Por exemplo, como a produção de material didático vai virar realidade? Temos uma crítica forte ao livro didático. Achamos que ele não atende as necessidades do homem do campo”, diz Carlos Alberto Almeida. A alternativa seria editar apostilas e cartilhas para discutir a temática regional: “ela compreende água, terra, homem e mulher no semiárido, entre outros temas. Para debater tudo isso com os alunos, porque eles estão vivendo essa realidade, e o que os livros didáticos contêm não é suiciente, não atende essa necessidade. Mas também é preciso formar professores voltados para o campo. Que levem em conta, nas salas de aula, o fato de os estudantes da região e suas famílias terem uma relação muito forte com as atividades agropecuárias. Essa proposta dará o tom dos cursos da Universidade Aberta aqui no pólo de Pintadas.” É interessante que a política dos territórios de identidade esteja fundada na cooperação, se inclinando fortemente para o meio rural. O que está longe de ser novidade em Pintadas, onde cooperar tem sido prática exercitada com zelo por mais de vinte anos, começando pelo campo. Denise Falcão, nutricionista, observa: “aqui o conceito de comunidade faz sentido. Ninguém trabalha sozinho. Se alguma coisa parece 77

Histórias gostosas de ler e boas de copiar não estar indo bem, a gente recorre a quem puder ajudar e tudo acaba dando certo”. O secretário de Educação, Carlos Alberto Almeida acrescenta: “o que é bonito aqui não é a história política, mas sim a história social”. Essa vale a pena conhecer de perto.

rEdE solidária
Pintadas ica no semiárido, a 255 quilômetros a noroeste de Salvador. O nome sugestivo da localidade derivou da pelagem de um lote de vacas malhadas que havia por lá, no começo do século XX. O rebanho, vistoso, enchia de orgulho o proprietário, fazendeiro das proximidades. Segundo a tradição, ele sempre dava um jeito de se referir às suas “pintadas” em qualquer conversa. Como elas andavam bastante, era difícil não notá-las. Após a ordenha, pastejavam na direção do sítio onde nasceria a cidade, para beber água de uma formação natural que, aos poucos, virou “a lagoa das pintadas”. Mais adiante, lagoa, vacas e o fazendeiro se perderam em algum desvão da história. Ficou o lugar, como distrito de Ipirá, com o nome encurtado – Pintadas. Sua trajetória ao longo de décadas também pode ser abreviada em poucas linhas, pois o recanto livrou-se da apatia só quando o milênio chegava ao im. A inlexão de rumos aconteceu em 1985, ano em que Pintadas se emancipou de Ipirá e a comunidade rural do Lameiro, formada por dezesseis famílias, iniciou campanha histórica para reaver suas terras, tomadas por um grileiro. O povo pôs abaixo as cercas erguidas pelo usurpador e tentou cultivar a área em regime de mutirão. O grileiro retrucou, destruindo as plantações. Escaramuças assim se alternaram até 1987, quando a gleba foi desapropriada pelo Incra e a terra distribuída entre as famílias de lavradores, conforme relata Nereide Segala Coelho, presidenta da Cooperativa Ser do Sertão. A disputa teve grande importância porque catalisou o apoio de parte signiicativa da sociedade local aos moradores do Lameiro, reforçando em todos a consciência da cidadania e da necessidade da cooperação. Essa consciência havia sido despertada graças ao movimento das comunidades eclesiais de base no município, entidades católicas que começaram a se formar a partir de meados da década de 1980. Religiosas da Ordem da Imaculada Conceição, párocos e agentes pastorais tiveram papel destacado nesse processo, que mudaria completamente as feições socioeconômicas do município, assim como a vida das pessoas envolvidas. Uma das primeiras a atrelar seu destino ao de Pintadas, em 1984, foi a enfermeira Neusa Cadore, voluntária do programa Igrejas Irmãs, da CNBB. A aspereza do semiárido assaltou-a de imediato. Ao pedir o primeiro copo de água, Neusa foi brindada com um líquido de cor indeinível, que pensou ser chá, ou o suco de 78

Histórias gostosas de ler e boas de copiar alguma daquelas frutas regionais, de sabor um tanto exótico para os paladares do centro-sul. Mas era água mesmo, salobra e barrenta – a única disponível, talvez coletada em alguma cacimba. Na época, água contaminada e desnutrição passeavam de mãos dadas por ali, enquanto principais responsáveis por índices alarmantes de mortalidade infantil no município. Assim, religiosos e devotos ligados às comunidades de base começaram a orientar suas ações pela frase bíblica: “eu vim para que todos tenham vida”. “E como é possível ter vida sem água?”, pergunta Nereide Segala Coelho. “Nas secas, as mulheres daqui caminhavam até seis quilômetros para encontrar um balde de água com o que a família deveria se contentar para lavar, cozinhar e tomar banho”, lembra ela, que prossegue: “é preciso ter vida, mas com dignidade. Com essa relexão, o tema da grilagem de terras surgiu em reunião realizada no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Pintadas. Era o sinal para que a comunidade se levantasse e apoiasse as famílias do Lameiro”. Quando isso aconteceu, Nereide ainda não estava na cidade. Gaúcha, criada em Santa Catarina, chegou em 1987, depois de fazer os primeiros votos como religiosa da Imaculada Conceição. Ela deveria substituir Neusa Cadore, que voltaria para o sul do país após completar três anos de trabalho na Bahia. Esse era o plano, mas as coisas se passaram de forma muito diferente. Neusa não apenas icou em Pintadas como dirigiu a prefeitura por dois mandatos consecutivos, entre 1997 e 2004. Findo esse período, virou deputada estadual, sempre pelo PT. As mudanças na vida de Nereide também foram radicais: “arrumei marido e três ilhos para me prenderem em Pintadas,

cisternas e represas de onde tenho um hectare de terra. Daqui ninguém me tira”. Descontadas uso coletivo propiciam o as motivações afetivas, a determinação de Nereide e a dos outros desenvolvimento de pequenos pequenos produtores rurais do município é admirável. Ainal, estão cultivos irrigados e a criação de animais. no semiárido, região marcada por secas exasperantes. Em Pintadas para melhor comercialização, uma solução chove apenas 600 mm por ano, em média. “Com o tempo são as cooperativas e redes solidárias. existem aprendemos a conviver com a seca, mas no passado falávamos em tecnologias sociais que facilitam a produção de combatê-la”, diz Nereide. pequenos produtores familiares que trazem O tal “combate” era mesmo impossível, mas as comunidades desenvolvimento para a região. a merenda não icaram à espera de milagres. Era preciso encontrar soluções escolar é um sólido mercado para a escassez de água. Com recursos enviados por católicos italianos, para a absorção desses construíram-se algumas cisternas em casas da zona rural. O experimento alimentos.
evidenciou a importância dessa alternativa para acumular água das chuvas. 79

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Com base nele, o Projeto Pintadas, desenvolvido pelo movimento social, atuou em escala ampliada. Com inanciamento do BNDES, a ONG Centro de Serviços, além de prédio na cidade para abrigar diversas entidades, construiu 250 cisternas em domicílios rurais e 32 represas de uso coletivo, entre 1988 e 1989. No entorno dessas cisternas e represas se desenvolveram pequenos cultivos irrigados, além da criação de peixes, aves, abelhas, ovelhas e cabras. Para melhor comerciar os produtos resultantes, a comunidade decidiu fundar cooperativas. Depois surgiram mais organizações para atender demandas especíicas. Em conjunto, constituem a chamada Rede Pintadas. “Formamos uma rede porque as instituições dependem umas das outras e todas cooperam entre si. Reunimos o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, a Cooperativa de Crédito, a Associação de Mulheres, a Associação dos Agricultores, a Cooperativa Agroindustrial, a Cooperativa Ser do Sertão, a Cooperativa Transportes do Sertão, que faz o transporte escolar e outras”, conta Nereide.

sErtanEJos convictos
Alguns anos atrás, Florisvaldo Mercês pensava em deixar Pintadas. Estava disposto a procurar emprego em qualquer lugar. A distância não importava. “Mas isso só até surgirem essas ideias de trabalhar com a agricultura de forma mais eiciente e prazerosa”, emenda rápido. Essa declaração surpreende, pois não é comum as pessoas se referirem ao trabalho como fonte de capacitação prazer. No entanto, ele tem razão de estar em bons termos com a atividade rural. continuada, Primeiro se engajou no Adapta Sertão, projeto da Rede Pintadas destinado a diversidade na buscar tecnologias diversas e adaptá-las à realidade local – tanto na produção produção, protagonismo e muita paciência mudam a como para melhorar a qualidade de vida dos pintadenses. Nessa caminhada, realidade econômica de Florisvaldo aprendeu muito, estreitou laços com a comunidade e foi estimulado uma região adversa. a permanecer na terra natal. Com a vantagem de poder continuar morando e trabalhando na propriedade dos pais. Ali, com a esposa, Gislene, tem casa própria e área irrigada para hortaliças. Eles também produzem leite, mel; criam caprinos e ovinos. Como “terra de nordestino produz de tudo”, a família ainda colhe frutas nativas, a exemplo do umbu e da jabuticaba. “Tenho 29 anos e estou casado há quatro. A formação que tive no projeto, principalmente para trabalhar com técnicas de irrigação, mudou tudo. Antes, a gente praticamente nada sabia. Minha esposa nem pensava em trabalhar na agricultura. Hoje ela vê que há possibilidade de crescimento nesse ramo. De ter renda e vida estáveis até mais que as pessoas que moram na cidade.” 80

Histórias gostosas de ler e boas de copiar As condições da existência na roça têm melhorado a olhos vistos. O aproveitamento da energia solar, também consequência de ação da Rede Pintadas, trouxe comodidades apenas sonhadas no passado. No sítio onde mora o casal, dois painéis fotovoltaicos carregam uma bateria – fonte de energia para ligar diversos eletrodomésticos e a bomba d’água, usada para drenar um pequeno reservatório ao lado da casa. Hoje ninguém mais carrega água em balde. Quando necessário, um motor para triturar forragem é posto a funcionar para o bombeamento da água de uma represa. “Tivemos outra represa menor, cuja água era suiciente para sete meses, no máximo. A nova, construída há dois anos, se icar cheia com as chuvas, nos garante o abastecimento por 18 meses. Inclusive para manter uma área irrigada de um hectare durante um ano.” Hoje, Florisvaldo e Gislene irrigam mil metros quadrados, obtendo em média 300 reais/mês. Somando-se a receita do leite, do mel, e das frutas, que não são irrigadas, a renda do casal atinge o valor de um salário mínimo. Em outra vertente, Florisvaldo se declara satisfeito por poder ajudar outros produtores, montando sistemas de irrigação. À medida que o trabalho avançava, icou claro que seria necessário fundar uma cooperativa para levar a produção ao mercado. Necessidade que se tornou imperativa com o PAA. Assim nasceu a Ser do Sertão. A cooperativa reunia meia centena de sócios ao inal de 2010, mas atendia parcela importante dos produtores rurais do município: 120 fornecedores de leite e 80 de frutas e hortaliças. E tinha Florisvaldo como diretor técnico. Segundo ele, os sócios da cooperativa são proprietários, ainda que de pequenas glebas. Parte dos associados não havia alcançado condições de vida e de produção adequadas, mas são pessoas interessadas em progredir. “E a gente, na cooperativa, faz o que está ao nosso alcance para que esse cooperado possa melhorar seu padrão de renda.” A cooperativa, além de aglutinar os sócios, torna alguns negócios viáveis ao somar pequenas quantidades de produtos que antes não viravam mercadorias. Acontecia com as frutas, consumidas em casa ou oferecidas aos vizinhos. Agora a cooperativa produz polpa congelada para a merenda. Em 2010 foram 2,5 toneladas de polpa de acerola e mais de cinco toneladas de polpa de umbu. 81

Histórias gostosas de ler e boas de copiar As técnicas de produção têm evoluído. Fábio Santana da Silva, de 22 anos, por exemplo, adotou a organoponia, que é a hidroponia com o emprego de substrato orgânico. “Moro com meus pais e minha produção é feita em área muito pequena, no quintal de casa, no povoado de São Pedro, que ica a 16 km da sede. Trabalho com resíduo de sisal e esterco de gado para cultivar, principalmente, alface e um pouco de coentro. Com essa técnica, em 72 metros quadrados, consigo 400 a 500 reais por mês. A qualidade do produto é mais aceitável que a das hortaliças plantadas diretamente no chão.” Fábio, que é diretor de Formação da Cooperativa, ensina técnicas a outros agricultores. Com Florisvaldo, fez vários cursos, em diversas instituições. Ele diz: “se não sabemos as respostas para as questões levantadas pelos cooperados, recorremos a agrônomos. Mas também já falamos para os alunos da Escola Normal de Pintadas, que é estadual, sobre a possibilidade de continuar no campo. Muitos jovens deixam

transmissão de conhecimento e experiência fortalece a relação entre as pessoas da comunidade e traz como consequência uma produtividade maior.

o meio rural e vão para as cidades. Alguns não conseguem colocação, pois os grandes centros não absorvem todo mundo, e são obrigados a voltar. É possível viver no campo. Só que a roça hoje também exige tecnologia, não dá mais para alguém trabalhar só com balde e regador”. É verdade. Mas, o velho regador tem seu lugar garantido na pequena produção. A agricultora Marinalva Mendes da Silva conta que desentoca o seu e dá folga ao sistema de irrigação se a estiagem aperta. Nessas circunstâncias, a segunda providência é reduzir a escala do plantio. Ela e o marido, Anésio Martins da Silva, são casados há 40 anos. Os seis ilhos do casal já não vivem no sítio, onde Marinalva e Anésio cultivam vários hortícolas, a cinco quilômetros de Pintadas. Eles pertencem ao grupo fundador da Cooperativa Ser do Sertão, que recebe os produtos que cultivam e se encarrega de vendê-los – inclusive para a merenda escolar. Marinalva, merendeira até se aposentar, considera muito positivo o desempenho da cooperativa, tanto na parte comercial quanto na assistência técnica.

passo à frEntE
Na década de 1990, o Centro Comunitário de Serviços de Pintadas desenvolveu o Procap – um bemsucedido projeto de criação de ovinos e caprinos no município, com melhoramento genético do plantel para se obter carne de qualidade. Os resultados foram estimulantes, mas o aumento do rebanho fez surgir o problema de escoar a produção. Para resolvê-lo, os criadores fundaram a Cooperativa Agroindustrial 82

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Pintadas Ltda., em setembro de 1999. E, naturalmente, pensaram em controlar mais um elo da cadeia produtiva, com um frigoríico para abater os animais e industrializar a carne. Todo mundo sabia que implantar uma indústria desse tipo custaria muito dinheiro. O jeito seria buscar patrocinadores. O Instituto Belgo-Brasileiro de Cooperação para o Desenvolvimento Social (Disopbrasil) acudiu prontamente, depois de ter apoiado os criadores quando se tratava de organizar a produção local. E doou 800 mil reais para obras civis. Verbas do Ministério do Desenvolvimento Agrário se converteram em câmaras frigoríicas, caminhão e outros equipamentos. O município também contribuiu, e outras entidades, como o Sebrae, apoiaram o projeto de diversas maneiras. A festa de inauguração ocorreu em março de 2008 e a unidade industrial, que custou cinco milhões de reais, começou a operar um ano depois. De acordo com Edemário Marques de Almeida, gerente do frigoríico, a unidade está estruturada, com equipe organizada e competente para desenvolver os diversos cortes que o mercado demandar. “Garantimos pela qualidade, homogeneidade e regularidade da oferta uma fatia do mercado de Salvador, onde izemos a primeira venda em agosto de 2009. Todos os clientes que começaram conosco continuam. Nunca tivemos uma devolução de produto. E já estamos trabalhando para ter em breve a certiicação SIF que nos permitirá buscar mercados que remunerem melhor no país.” Para isso o frigoríico, que pode abater 300 animais/dia, procura aumentar a escala de produção e diminuir a capacidade ociosa. Nesse sentido, desenvolve programas de assistência técnica para produtores – inclusive os de cidades vizinhas –, procurando selecionar os que têm peril empreendedor. “Em troca da assistência técnica, que visa o gerenciamento da produção e da propriedade, queremos arregimentar criadores que se integrem ao frigoríico como cooperados”, diz Edemário. Com a mesma intenção será instalado um centro de engorda coletivo. O terreno já foi comprado. O dinheiro para a aquisição veio do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), no âmbito de um pacote de investimentos em projetos de caráter social e de geração de renda na Bahia (trata-se de empréstimo a fundo perdido). O centro terá capacidade para receber mil animais, podendo normalizar a oferta para o abate e, portanto, regularizar o funcionamento do frigoríico. Com uma novidade: quem quiser investir apenas na terminação de ovinos e caprinos poderá fazê-lo. Bastará comprar cabritos e cordeiros de poucos meses e deixá-los no centro. Por ocasião da venda ao frigoríico, o custo de manutenção dos animais será deduzido do preço.

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vocação agrícola
Pintadas é sossegada. Durante o dia, algumas pessoas jogam dominó ou baralho ao ar livre, em mesas colocadas sobre as calçadas. Entre 12h e 14h, o movimento diminui sensivelmente: o comércio fecha as portas para o almoço. Ao inal da tarde e à noite, muitos moradores, sentados em frente a suas casas, conversam com os vizinhos e conhecidos que passam. Ao lado do mercado, um grupo costuma se reunir diante de um aparelho de TV – se há futebol, a torcida pode ser barulhenta. Tais cenas são corriqueiras no interior nordestino. Além dessas situações, as cidades da região já apresentaram outro traço em comum: foram celeiros de mão de obra para o centro-sul do país durante muito tempo. Em período recente, o luxo migratório diminuiu de intensidade, e também mudou de sentido em alguns casos, segundo o IBGE. Ou seja, onde o fenômeno ocorre, há mais gente retornando do que partindo. Não é o que se veriica em Pintadas e demais municípios da Bacia do Jacuípe, cujas populações declinaram entre 2000 e 2010. Os pintadenses primeiro se deslocaram para os canaviais paulistas, em princípios dos anos 80. Mais adiante, com a mecanização do corte da cana e o aumento das contratações permanentes pelas usinas, a oferta de emprego sazonal diminuiu no estado. Parte dos trabalhadores passou a ir para as áreas canavieiras do Mato Grosso. Outros se ocuparam na construção civil: alguns grupos se especializaram na reforma ou montagem de instalações industriais para o segmento de açúcar e álcool, cervejarias e frigoríicos. Contudo, o setor sucroalcooleiro ainda é o que mais emprega. Terminada a safra de cana no centro-sul, o pessoal retorna. Assim como os trabalhadores da construção civil, concluída alguma obra. Essa é a realidade na Bacia do Jacuípe inteira. Só mudam os destinos. Enquanto os trabalhadores de Pintadas procuram a região de Ribeirão Preto, seus vizinhos vão para o Rio de Janeiro ou São Paulo, capital. Ao que parece, a necessidade de buscar empregos ixos ou temporários longe de casa não desaparecerá no curto prazo. Em contrapartida, ao menos a metade da população pintadense vive no campo e assim deverá continuar, graças ao aumento da renda proporcionada por seu inquestionável avanço técnico. Os efeitos das secas, por exemplo, já não são catastróicos. A que se abateu sobre a 84

Histórias gostosas de ler e boas de copiar região no início dos anos 1990 quase eliminou o rebanho bovino. “Hoje a gente passa por secas prolongadas e não se ouve falar da morte de gado. As pessoas fazem silagem, feno e cultivam a palma para arraçoar os animais, que sobrevivem à estiagem em boas condições”, diz Carlos Alberto da Silva Almeida, secretário de Educação. O que se relete na produção leiteira das matrizes, que ali são de boa qualidade. O leite é recolhido a um centro de vendas da Cooap, construído com verba da Eletrobrás. A unidade tem capacidade para resfriar 7 mil litros do produto. Como Pintadas não tem recursos minerais, seu destino continuará atado ao das atividades agropecuárias, acredita o prefeito Valcyr Almeida Rios. Ele espera que a pavimentação da BA 414, que liga Pintadas a Ipirá, já praticamente concluída, aumente a competitividade da produção familiar do município e do entorno. “Os produtores estão organizados em várias entidades e somos fortes em diversos segmentos da agropecuária. E lembrando que a administração passa, mas o que constrói ica, queremos que as organizações sociais continuem a se fortalecer. É a nossa meta.”

Contato Carlos Albero da Silva Almeida Secretário de Educação (75) 8102-1453 – carlosenlaces@yahoo.com.br

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no rastro do cafÉ

JunquEirópolis

JunquEirópolis

Populaçâo Área da unidade territorial (Km2) Matrícula ensino fundamental municipal (2009) Escola pública municipal-fundamental (2009) Maior IDH Es Menor IDH Es IDH Mun Nº escolas municipais (pré escola e ensino médio) Recursos transferidos pelo FNDE (2010) Complementação para compra de alimentos Alunos atendidos Receitas orçamentárias realizadas (2008) Refeições servidas Premiação

18.726 582.959 980 3 0,919 0,645 0,766 9 236.521,00 60.558,00 3.476 26.050.285,46 --2009- Participação SocialRegião Sudeste
Fontes: IBGE, 2010. Ministério da Educação, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – INEP – Censo Educacional 2009. Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, 2000- PNUD/ONU. Prêmio Gestor Eiciente da Merenda Escolar, 8ª edição. Ministério da Fazenda, Secretaria do Tesouro Nacional.

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JunquEirópolis
no rastro do cafÉ
Em meados da década de 1940, o esturro profundo de alguma onçapintada de vez em quando ainda varava as noites de Junqueirópolis, no oeste paulista. Os grandes felinos abandonavam então seus domínios ancestrais, desterrados pela atividade madeireira que avançava impiedosa sobre a Mata para Atlântica, lavouras abrindo de café. caminho

Durante o dia, o ar vibrava com o ruído de machados e de serrarias, entremeado ao baque constante das árvores derrubadas no entorno da povoação. As bases do arraial estavam sendo lançadas por Álvaro de Oliveira Junqueira, negociante então dedicado a retalhar e a vender parcelas de extensa propriedade que comprara de um latifundiário. Desse tempo, além das onças e de outras reminiscências, Narcisa Junqueira Amatruda, irmã de Álvaro, fala dos troncos amontoados na região em que hoje ica o centro da cidade. Ela apeou ali em 1945, acompanhada do marido e da ilha. Vieram de jardineira aberta, desde Lucélia – uma viagem que costumava durar cerca de 12 horas e que hoje pode ser feita em cerca de 40 minutos. Para a família seguiram-se décadas de vida pacata, mas trabalhosa, de poucas diversões. Narcisa, doceira por muitos anos, não se acostumou a ir a bailes e ao cinema. Ficou órfã de mãe muito cedo e foi criada por uma tia, de quem copiou o modo de vida austero. Hoje, depois de ter perdido o marido e a ilha, vive com uma sobrinha. Uma vez por ano, vai à Jaboticabal, sua cidade de origem, para rever parentes próximos. Já esteve em São Paulo e Santos, mas não viaja de avião ou de barco. “Nasci para ter os pés no chão.” E ela os mantinha irmes em junho de 2010, a pouco mais de dois meses de seu 100° aniversário, em 28 de agosto. 89

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Ainda que se limitasse a tornar festas e casamentos mais saborosos com os doces que fazia, Narcisa por certo testemunhou os vários ciclos da economia local, enraizada na agricultura. Como atividade dominante, o cultivo do café gerou renda e trouxe um ramal da antiga Cia. Paulista de Estradas de Ferro, entre outras benfeitorias. Mas durou pouco em termos históricos. As plantações, torradas em grande parte pela geada cataclísmica de 1975, cederam espaço à fruticultura, de forma mais ou menos gradual. Na área urbana, diversos armazéns de porte considerável, antes destinados ao beneiciamento e guarda do café, agora vazios, atestam a força dessa cultura no passado. No entanto, mesmo sem o antigo brilho, a cafeicultura não desapareceu de todo – pequenos plantios subsistem por ali. E o café ainda tem adeptos incondicionais, como Lair Vallezi e sua esposa, Devanir. O sítio N. S. Aparecida, de que são proprietários, mostra parte de seus 20 hectares cobertos por plantas novas, de variedade bastante produtiva. Sinal evidente de que o casal continua a apostar na cafeicultura. “Italiano é teimoso”,

certiicar os produtos é estratégico para comprovar a qualidade da produção; divulgar a certiicação é fundamental para promover a comercialização; a alimentação escolar pode ser a vitrine para os produtos certiicados e com qualidade.

diz Lair, lembrando que estão na propriedade desde 1958, sempre às voltas com o café. Esse apego se justiica. A geada de 1975 não afetou muito suas lavouras. Como a alta de preços subsequente prolongou-se por anos, o casal pode juntar dinheiro para comprar outra propriedade, onde mantém 70 cabeças de gado no pasto. No entanto, a maioria dos produtores locais deixou de apostar todas as suas ichas no café. Assim, sucederam-se plantios de maracujá, uva, urucum, seringueira e acerola. Por conta da acerola, Junqueirópolis ganhou projeção internacional. Em paralelo, desenvolveu-se a pecuária. Com um detalhe: da derrubada das matas ao século XXI, a estrutura fundiária municipal sempre se caracterizou pelo predomínio do minifúndio. Segundo o Incra, das 1.310 propriedades registradas ali, 842, ou 63% do total, tinham de um a vinte hectares. Contudo, esse peril da propriedade rural não é exclusividade do município. Ali também poucas propriedades concentram a maior parte da terra. 90

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MErEnda, boa cliEntE
Junqueirópolis tenta estimular os agricultores a permanecer no campo. Um dos mecanismos utilizados é o Programa de Alimentação Escolar: o consumo de hortifrutícolas garante renda à agricultura familiar. Na rede municipal, 1.850 pessoas têm direito às refeições – alunos, professores e demais funcionários. Como a merenda chega aos estudantes das escolas do estado, o número de comensais se eleva a cerca de 3.850. O município avançou nessa área devido à capacidade de organização de seus produtores e, sobretudo, aos esforços da equipe de Suelí Rodrigues, funcionária municipal responsável pela merenda escolar. Ela assumiu o departamento em 2005, depois de ter sido inspetora de alunos por alguns anos. Nesse posto, começou a reparar em falhas da merenda. Outros senões lhe foram apontados pela nutricionista Ivone Tomoe Fudo Naito, que ingressou no serviço público meses mais tarde. Entre os problemas se destacavam eventuais excessos de sal e óleo na comida e o fato de o cardápio ser o mesmo para os bebês e crianças de até cinco anos. Também havia tortas e bolos demais e alimentos realmente nutritivos de menos – ainda que os bolos e tortas tivessem qualidade e até mesmo soisticação. A frequência dos chás, em detrimento do leite, também incomodava: “um chazinho nada mais é que água com açúcar”, deinem Suelí e Ivone. Então começou a substituição das guloseimas por frutas, verduras e legumes. Leite e achocolatado desbancaram os chás. Nesse ponto, Junqueirópolis se antecipou ao governo federal, que mais tarde vetaria bebidas pouco nutritivas na merenda, assim como outros itens – a pipoca, por exemplo. Os bolos não sumiram deinitivamente, só não têm mais tanto peso no cardápio. Tais providências provocaram cochichos pelos corredores. No entanto, os murmúrios cessaram tão logo icou claro que Suelí tinha carta-branca de José Henrique Rossi, diretor de Educação do município (cargo equivalente ao de secretário). Mas o orçamento restrito não lhe dava liberdade de manobras e a fatura dos hortifrutis costuma ser alta no comércio varejista. Portanto, o melhor seria dispensar intermediários e negociar direto com os produtores, que também sairiam ganhando. Na ocasião, a Companhia Nacional de Abastecimento já operava o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Suelí aproveitou suas visitas a uma escola rural para levantar os nomes de possíveis fornecedores – time que aumentaria com a adesão espontânea de sitiantes, que procuraram a prefeitura.

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Histórias gostosas de ler e boas de copiar Por isso, quando o governo federal determinou que no mínimo 30% da verba do PNAE fosse destinada à compra direta de produtos da agricultura familiar, Junqueirópolis contava com número razoável de fornecedores. Em 2009, dezessete agricultores entregaram gêneros para a merenda segundo o programa da Conab ou por venda direta ao município. O padrão de qualidade das refeições mudou, como seria de esperar. Além da presença garantida nos refeitórios escolares, os hortifrutis passaram a comparecer em variedade muito maior. As fontes de proteína animal também estão diversiicadas. De acordo com Suelí, no passado só havia carne moída e coxa de frango. Agora, além desses ingredientes, os alunos consomem diversas preparações em que entram linguiça, salsicha, coxão mole e peito de frango.

vErba incrEMEntada
As mudanças no cardápio foram acompanhadas de ajustes na estrutura de armazenagem dos produtos. O número de congeladores aumentou e o depósito central ganhou mais prateleiras e estrados para acomodar a provisão de óleo de cozinha e fardos de arroz e de macarrão, por exemplo. Tais itens, de maior volume, antes icavam diretamente sobre o piso, com algum risco de contaminação, embora o ambiente sempre tenha sido mantido em excelentes condições de limpeza. Em espaço contíguo se encontram os freezers, além de mesa e utensílios para a manipulação de carnes. Mais adiante, na mesma ala, ica a padaria municipal. A operação dessas instalações e equipamentos é de responsabilidade da equipe de Suelí. O pão, distribuído nas unidades assistenciais e de saúde, escolas, sedes de projetos educacionais e demais dependências da prefeitura, é levado ao forno a partir das 4h. Em junho de 2010, às vésperas da aposentadoria, o motorista Milton Silveira dos Santos se encarregava das entregas de pão em 27 pontos da cidade, deixando também o leite da merenda nas escolas. Cumprida essa parte da missão diária, até às 7h30, ele assumia novas tarefas – o preparo da carne ou a distribuição de gêneros diversos nas escolas, conforme a escala estabelecida. Suelí, por sua vez, está sempre atenta a tudo que diz respeito aos alimentos, com um olho nas planilhas de custo e o outro no saldo disponível na conta da merenda. As compras normalmente são feitas em pregões – um por semestre para os itens mais dispendiosos: leite, carne e cereais. O cálculo de quanto deverá ser adquirido leva em conta o número de alunos e a média de consumo. Uma vez que cerca de 30% dos estudantes não come nas escolas, qualquer acréscimo nos recursos disponíveis se relete em melhoria substancial da alimentação, em quantidade e qualidade. Isso ocorreu em 2010, com o aumento da verba federal de 22 para 92

Histórias gostosas de ler e boas de copiar 30 centavos de real por aluno/dia. A prefeitura e o governo estadual também elevaram suas contribuições, de modo que Junqueirópolis atravessou o ano letivo com cerca de 65 centavos per capita. “A merenda está bem melhor que nos anos anteriores, e a comida é muito boa. Temos saladas e várias frutas”, declarou Maria dos Santos Oliveira, em junho. No caso, ela falava sobre o jantar, servido aos alunos do EJA. Aos 67 anos, Maria era a estudante mais velha da cidade. Cursava a 7ª série do ensino fundamental e dizia estar muito satisfeita com seu aproveitamento e com o ambiente da escola. “Eu havia

cardápios dois anos, iquei deprimida e me aconselharam a voltar a estudar, elaborados em função das preferências para preencher um pouco meu tempo, minha cabeça. Agora me sinto muito bem, dos alunos valorizam a minha vida ganhou outro sentido.” alimentação escolar; comer é A morte prematura do marido, em 10 de agosto de 2009, também um ato de prazer e a escola alterou o curso da existência de Nízia Maria Gonçalves Gueli. Uma não deve desconsiderar das consequências dessa perda foi seu retorno à escola, em turma do isso. primeiro ano do segundo ciclo. A exemplo de Maria dos Santos Oliveira,
Nízia está muito contente com as aulas e não poupa elogios à alimentação fornecida às turmas do EJA. Mas sua relação com a merenda vai além da nutrição e do sabor da comida: ela atua na outra ponta do sistema enquanto fornecedora de hortaliças e legumes para a prefeitura. E assim pretende continuar, mesmo que os estudos lhe imponham uma cota extra de esforço. Ainal, trata-se de alguém que trabalha na roça: ela deixa a escola às 23h e dorme na cidade, mas às 5h já está em pé, pronta para voltar ao sítio e iniciar mais uma jornada...

parado na 3ª série, quando era garotinha. Ao perder uma ilha, há

fartura na panEla
A professora Bernadete Prates Fernandes Bassos, diretora da escola Shigueko Oto Iwaki, situa mais atrás no calendário o início das mudanças na merenda de Junqueirópolis. Segundo ela, a administração municipal do período anterior a 2005 encontrou a prefeitura arruinada, tendo de colocar muita coisa em ordem para que o município pudesse avançar na etapa seguinte – inclusive nas áreas da educação e alimentação escolar. “Em 2005, a merenda já havia alcançado um bom patamar de qualidade. De lá para cá continuou a progredir, enquanto ajuda a escoar produtos da agricultura familiar. As crianças consomem à vontade alimentos frescos, mais saudáveis, de um cardápio bastante rico, elaborado por nutricionista.” Esses aspectos são muito 93

Histórias gostosas de ler e boas de copiar importantes: a exemplo do que ocorre Brasil afora, em Junqueirópolis também há crianças que praticamente só se alimentam nas escolas. “Por isso não gostam de férias”, acrescenta Bernadete. Tal como as pessoas citadas, professores e alunos da rede pública de Junqueirópolis costumam dar notas elevadas à merenda. E a equipe responsável pelo serviço tem motivos para se envaidecer, pois era inexperiente no início do processo. Suelí Rodrigues, até pouco tempo atrás, nunca havia pensado em trabalhar na área de educação e muito menos em cuidar de merenda escolar: até hoje não sabe cozinhar. Isso não importa. Ela administra o caixa da merenda de forma exemplar e sabe tratar com os fornecedores. Se interessou tanto pela vivência dos produtores rurais que acabou se tornando amiga de vários deles. Como se viu acima, Milton Silveira dos Santos, antigo lavrador e motorista de caminhão, virou faz-tudo no departamento. E a nutricionista Ivone Naito, afastada da proissão por décadas, teve de se adaptar às especiicidades da alimentação escolar. “No começo de minha carreira, trabalhei em restaurantes industriais de algumas empresas de porte, inclusive em São Paulo. Depois, com marido e ilhos, voltei para Junqueirópolis. Em sociedade com minha sogra, fui lojista durante 15 anos. Até que decidi retomar minha proissão. Prestei concurso para a prefeitura e fui aprender, na prática, o que signiica merenda escolar.” Orientar as cozinheiras e exigir o cumprimento das normas de higiene e de organização faz parte das atribuições de Ivone. “Não consigo visitar todas as unidades diariamente, pois são quatro creches e cinco escolas, mas estou

um cae atuante trabalho diário. Nunca deixo de lembrá-las, por exemplo, faz a diferença porque que não podem salgar demais a comida, e que o suco coopera com o gestor que não e o leite não podem ser melados! Também peço pode estar presente o tempo todo constantemente às professoras para conversarem com os alunos sobre nas escolas. os conselheiros devem alimentação saudável.” A maioria aproveita o horário das refeições. É o ser reunir pelo menos uma vez caso da professora Silvana Rodrigues: “Faz parte da minha rotina ir para por mas trocar ideias o o refeitório com as crianças e falar sobre a importância dos alimentos e tempo todo.
sempre circulando. O treinamento das merendeiras se dá no sobre suas propriedades.” Silvana se interessa ainda mais pelos diversos município. aspectos da merenda por fazer parte do Conselho de Alimentação Escolar do

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Histórias gostosas de ler e boas de copiar Mas os avanços de Junqueirópolis no campo da educação se estendem para além das cozinhas e refeitórios. A secretaria correspondente, dirigida desde 2005 pelo professor José Henrique Rossi, está instalada em uma casa, no centro da cidade. Dali, com um grupo reduzido de funcionários, José Henrique se encarrega das tarefas administrativas das três escolas e dos quatro centros educacionais (creches) do município. “Antes, cada unidade tinha sua secretaria. Com a informática, pudemos reduzir custos. Nas escolas, diretor e coordenador pedagógico centralizam o foco no ensino e aqui nós centralizamos as funções burocráticas. Com quatro funcionários, cuidamos de toda a vida funcional do pessoal das unidades de ensino, dos pagamentos, das transferências e matrículas de alunos etc.” E mais: a Educação mantém um programa de formação continuada para os professores e 1.700 pontos de internet grátis para alunos e mestres, via rádio. “Alcançamos as casas situadas em um raio de cinco quilômetros, a um custo médio mensal de cinco reais por ponto. Temos um contrato com os responsáveis e determinamos o que pode ser acessado. A gravação de ilmes e de músicas, por exemplo, é impossível, pois torna a rede lenta. Além desses sites, bloqueamos os endereços de pornograia. Mas as famílias também são instruídas a colaborar na vigilância, pois sites desse gênero são criados todos os dias.” Em bons termos com o ambiente e quase toda pavimentada, Junqueirópolis recolhe e trata 100% dos esgotos urbanos, faz coleta seletiva de lixo, por meio de uma cooperativa, e troca óleo de cozinha usado por produto novo, com uma esmagadora de soja da região, também fabricante de biodiesel. A troca é feita à razão de quatro litros de óleo de fritura por um da indústria, que geralmente é doado a famílias carentes.

tradição agrícola
A maioria da população de Junqueirópolis tem um pé na roça. É formada por descendentes de migrantes que muitas vezes vieram para a região pelos trilhos da extinta Paulista de Estradas de Ferro. Esse foi o caso de um dos avós do diretor de Educação, José Henrique Rossi, que comprou sítio de três alqueires, em 1957. Hoje, os cidadãos do município se concentram na área urbana. Os que permanecem no campo têm ligação muito sólida com a terra herdada e vários fornecem alimentos para a merenda escolar. Valdemar Alegrette é um deles. Com a mulher, Olga, vive no sítio Santo Antonio, comprado por seu pai em 1962, para o cultivo do café. A geada de 1975 e as seguintes deixaram a família

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Histórias gostosas de ler e boas de copiar desencantada com a cultura, inalmente erradicada por volta de 1985. O sítio, de 18,5 hectares, ica a poucos quilômetros do centro de Junqueirópolis. Do pomar de poncãs, onde há 250 tangerineiras, são colhidas até mil caixas em cada safra. Essa fruta foi o primeiro produto do sítio a ser vendido para a merenda. Alegrette também cultiva acerola, mas sua principal fonte de renda é a produção leiteira, organizada de forma escrupulosa, segundo modelo desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária para as pequenas propriedades. Graças a esse sistema de produção de leite a pasto, com gado mestiço, Alegrette obtém de 140 a 150 litros por dia, em média. Perto dali, na Chácara São Paulo, de 4,8 hectares, Jair Estochi e Clotilde Xavier Estochi, sua esposa, passam os dias entre videiras. Até se tornar vinhateiro experimentado, Jair foi cafeicultor ao lado do pai, que havia comprado a chácara em 1982. A decadência do café os obrigou a procurar alternativas e nessa busca toparam com o maracujá, difundido na época pela extinta Cooperativa Agrícola de Cotia. No princípio correu tudo bem, mas a cultura atraiu investimentos de proprietários de terra – médicos, por exemplo – que não eram exatamente do ramo. Essa gente não se preocupava com a condução adequada das lavouras, de modo que em suas propriedades diversas pragas puderam multiplicar-se à vontade. Esses viveiros de pragas contaminavam as propriedades vizinhas o tempo todo. E assim o maracujá também deixou de ser bom negócio. Então, aconselhados pelo padre Miguel Antônio Gamonteli, frequentador assíduo do meio rural, Jair e Clotilde, muito cautelosos, plantaram 50 videiras para experimentar, regando as plantas com balde. Foi como tudo começou. A merenda escolar absorve parte das uvas. Em período recente, Suelí Rodrigues insistiu com Rogério, ilho do casal, para também plantar verduras e morangos na propriedade. O rapaz levou a ideia adiante, colocando a produção excedente no mercado. 96

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Um pouco mais afastado da cidade, em outra direção, está o sítio de 29 hectares de Gumercindo e Ivone de Souza, casados há 44 anos. Gumercindo, nascido em Porteirinha, MG, em 1945, chegou a Junqueirópolis em 1951. Ainda havia muito mato na região e seu pai era empreiteiro nas derrubadas, trabalhando com 30 a 40 pessoas. Ivone veio da região de Tupã também ainda menina, em 1953. Gumercindo toca a propriedade em sociedade com o irmão mais velho, José Fernandes de Souza. O casal vende produtos caseiros – pães, doces, queijos e outros – duas vezes por semana na feira organizada pela associação local de agricultores. Nesses dias, levantam de madrugada. Ivone não se queixa: “é gostoso. Faremos isso enquanto a gente aguentar”. No sítio, como é típico no município, a produção é diversiicada. Há hortifrutícolas, seringueiras e cana-de-açúcar para usina, assim como pequeno rebanho leiteiro. Mas há dúvidas com relação ao futuro da propriedade. Os donos não têm parentes interessados em mantê-la e viver no campo. Gumercindo comenta: “a rapaziada de hoje não quer. Eles estudam, têm outras proissões, não é? As famílias daqui, em geral, estão na mesma situação. Não há substitutos para os mais velhos”. Esse parece ser o caso da agricultora Nízia Gueli, estudante do EJA, que certa vez tentou ser caixa de supermercado. Ela conta que se fartou da experiência em 15 dias, retornando às suas atividades habituais no campo. Porém, seus três ilhos, empregados na cidade, querem manter a propriedade da família, mas não trabalhar ali. Assim, Nízia realiza sozinha uma série de tarefas no sítio, contratando auxiliares para cuidar das restantes. Inclusive do pequeno seringal, que ainda não entrou em produção. 97

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boM pastor
O padre Miguel Gamonteli, além de convencer agricultores a plantar uvas, inspirou Valdemar Alegrette e Jair Estochi a escrever um capítulo memorável da história de Junqueirópolis, encerrado com o nascimento da Associação Agrícola do município. Gamonteli, pároco da cidade, era próximo de ambos e ia com frequência visitá-los. No inal da década de 1980, passou a defender o divórcio entre os produtores locais e a CAC (Cooperativa Agrícola de Cotia), hoje extinta. A entidade deveria ser substituída por uma associação, insistia o padre, porque o casamento, harmonioso nos primeiros tempos, se desgastara por causa de práticas desleais da CAC. O estopim da ruptura foi uma disputa centrada no maracujá. A cooperativa incentivara o plantio da fruta no município. No início, remunerou os associados de maneira correta, segundo as cotações vigentes no mercado, mas deixou de ser iel a eles tempos depois, reduzindolhes os preços de forma drástica. Diante da suspeita de que estavam sendo iludidos, Jair e Valdemar pediram a um intermediário para transportar e colocar uma carga da fruta na Ceagesp (da Capital). O homem concordou e lhes pagou quase o dobro do que obteriam vendendo para a CAC. A partir desse ponto, os acontecimentos se precipitaram. Outras vendas diretas se sucederam e, em reunião com os associados, a Cooperativa foi desmascarada por Jair e Valdemar, com a exibição das notas iscais correspondentes às operações que haviam realizado. Ambos foram desligados da cooperativa, mas não se abalaram. Arregimentaram outros produtores e logo estavam carregando caminhões de maracujá no quintal de Valdemar. “O padre Miguel assistiu à nossa primeira remessa coletiva, icando muito satisfeito. Infelizmente ele faleceu pouco depois. Para homenageá-lo, temos seu retrato lá na Associação, que fundamos em 29 de junho de 1990”, conta Jair. A entidade surgiu com 40 sócios e avançou sem tropeços, tendo Valdemar como primeiro presidente. Jair é o secretário até hoje. “Chegamos a despachar doze caminhões de maracujá por dia, cada um levando mil e poucas caixas de treze quilos”, diz ele. A certa altura, a associação reunia 232 membros. O maracujá alcançava o “pico” histórico. Em seguida, o quadro de associados desinlou. Foi quando os preços caíram devido à superoferta e pragas sobrepujaram os esforços para manter a sanidade das lavouras. Dois anos e meio após o nascimento da Associação, Oswaldo Dias sucedeu Valdemar. Tal como Jair, permanece no cargo. Temeroso no princípio, Oswaldo relutou em quebrar os laços com a CAC. Mas assim que viu o quanto estava sendo enganado, pulou do barco. Passaria os anos seguintes lutando para manter coeso um grupo de cooperados remanescentes. E com eles transformar Junqueirópolis no maior centro produtor de acerola do país. 98

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variEdadE salvadora
A peleja começou no inal do ano de 1990. Alguns produtores izeram plantios experimentais, encorajados por determinada empresa que lhes prometeu pagar um dólar por quilo da fruta. Fora o preço, também foi levado em conta o custo baixo de implantação das lavouras, que não exigem áreas extensas. Achar sementes, fazer mudas e expandir a cultura demorou um pouco. A produção teria início em 1993. Só então os agricultores abriram os olhos para as diiculdades formidáveis da conjuntura: o produto era desconhecido no mercado; em parte das roças só havia acerola amarela, que ninguém queria; e a empresa compradora deixara de existir. Como se não bastasse, nematóides herdados das antigas plantações de café entraram em ação e as plantas começaram a deinhar. Para vários produtores esse foi o golpe de misericórdia. A crise escancarou as portas da Associação, por onde vazaram sócios, aos magotes. Lá pelo inal de 1994 restavam 57. A salvação veio no auge da tormenta: a natureza fez brotar uma planta de características excepcionais no meio dos 50 mil pés de acerola existentes no município. Muito produtiva, essa variedade, denominada Olivier, dá frutos vermelhos, com alto teor de vitamina C; apresenta arquitetura que facilita a colheita e é resistente aos nematóides. Multiplicada por estaquia, a Olivier logo estava disseminada na região, começando a produzir em 1995. Oswaldo Dias conta que na época a Associação teve apoio da Cati (órgão de extensão rural do governo paulista) e da prefeitura, que emprestou barracão com instalação de energia elétrica funcionando: a acerola tem de ser conservada a temperaturas muito baixas, da ordem de -20ºC. Os tempos difíceis começavam a icar para trás. “Compramos uma câmara fria com inanciamento e fomos conquistando o mercado, apoiados na qualidade de nosso produto. Em geral, os produtores também catam a acerola que cai no chão. Os nossos não fazem isso, sob pena de serem desligados da Associação. Colhemos a acerola manualmente, no ponto que o cliente quiser, mais ou menos madura. Se misturarmos frutos colhidos de vez com os maduros, aumentaremos o teor médio de vitamina C. Outra vantagem nossa foi a certiicação Globalgap, conjunto de normas que asseguram a qualidade de produtos aos consumidores de qualquer parte do mundo. 99

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Recebemos o certiicado em novembro de 2009. Ao divulgarmos a novidade, o mercado se abriu para nós. Vendemos por preço melhor e faltou acerola para atender os pedidos. Temos entre nossos clientes empresas de todo o país, inclusive exportadoras”, diz Oswaldo. Como a acerola é altamente perecível, a Associação investiu em câmaras de refrigeração para aumentar sua capacidade de receber e estocar o produto congelado. As maiores foram instaladas em propriedade comprada há anos. Esse patrimônio serviu para integralizar o capital de cooperativa recém-fundada pelos sócios. Devido à sua natureza jurídica, a nova entidade está livre de certos entraves burocráticos que atravancam os caminhos das associações e mesmo dos produtores individuais. E tentará exportar. Coniante, Oswaldo diz: “já temos nome no mercado e estamos habituados a receber comitivas de diversos países. Além disso, há muito espaço para ocupar, pois a acerola ainda é pouco conhecida no mundo”.

ExpEriência ExEMplar
Cultivar garante acerola faz a bem aos de produtores pessoas, e a Junqueirópolis. De acordo com Oswaldo Dias, a colheita ocupação centenas durante oito meses. “Empregamos gente madura, que precisa complementar a aposentadoria, assim como donas de casa, que não podem ter emprego ixo, pois o trabalho não é difícil, não exige esforço”, diz ele. Em 2008, estima-se que a região tenha colhido 6 mil toneladas da fruta, cerca de 13% da produção nacional (algo em torno de 45 mil toneladas). A Associação produziu 3.500 toneladas. A situação dos produtores melhorou substancialmente. A projeção da renda para 2010 superava um milhão de reais só no âmbito da merenda escolar e do PAA (programa administrado pela Cia. Nacional de Abastecimento). Trata-se do montante das vendas de polpa de acerola, consumida nas escolas, creches e entidades assistenciais de Junqueirópolis e de municípios vizinhos. Com esses resultados, a experiência da associação se tornou referência em todo o país. Por isso, seu presidente tem sido convidado a contar a história da entidade em muitas localidades. Oswaldo acredita que o cultivo da acerola continua a ser a melhor escolha para os pequenos agricultores da região, 100

Histórias gostosas de ler e boas de copiar a despeito de alguns senões. Por exemplo: o grande problema da cultura é uma espécie de bicudo, o inseto que já dizimou lavouras de algodão. “Por isso incentivamos o pequeno produtor a diversiicar com o urucum, a seringueira e outros cultivos.” O próprio Oswaldo pratica a policultura em sua gleba de 17 hectares: “tenho quatro hectares de acerola, 1.600 seringueiras em produção, 1.800 plantadas há dois anos, perto de 500 limoeiros, e urucum nas entrelinhas do seringal novo. Crio frangos e porcos caipiras em piquetes. E ainda tenho um pouquinho de café. Toco o sítio com dois funcionários ixos e de quatro a seis trabalhadores temporários”. Além de cuidar de interesses pessoais e da Associação, Oswaldo participa da administração pública como diretor (secretário) de Agricultura do município. Os produtores se aproximaram da prefeitura em 1993/94, durante a crise, e continuam a ser inluentes, prestando alguns serviços. Com dinheiro público, a Associação administra o relorestamento das estradas e de áreas de preservação permanente, assim como o viveiro do município, de onde saem mudas de urucum, seringueira e considerável variedade de plantas nativas para a arborização urbana e jardinagem. Para o público, as plantas são vendidas a preço de custo. A prefeitura as leva de graça e ganha em eiciência, assegura Oswaldo: “escolhemos as pessoas certas para trabalhar e somos mais ágeis”. Em uma das rodovias vicinais, as acácias já alcançaram a maturidade. São árvores indicadas para terrenos fracos. Crescem com facilidade, oferecendo sombra aos passantes e lores para as abelhas. É possível que D. Narcisa Amatruda acompanhe a evolução dessa parceria com agrado. Ela confessa que, às vezes, ica espantada por ter vivido tanto tempo no mesmo lugar. Mas, para quem viu pilhas e pilhas de boa madeira onde hoje é o centro da cidade, deve ser reconfortante assistir agora a essa mudança essencial de mentalidade em relação ao ambiente.

Contato José Henrique Rossi – Diretor de Educação (18) 3841-2060 – educacaojunqueiropolis@gmail.com

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coopErar É prEciso

tábua dE salvação E solução

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coopErar É prEciso – tábua dE salvação
A produção rural costuma ser atividade de alto risco. Desenvolvida a céu aberto, está exposta às vicissitudes das estações, que se aliam à renitência das pragas e à volatilidade dos mercados para assombrar os agricultores. De todos, o pequeno produtor terá a existência mais atribulada, caso permaneça isolado, pois será presa fácil dos atravessadores, especialistas em derrubar os preços de produtos agrícolas na origem. Alguns são simples vigaristas. Compram e não pagam. Às vezes, passam cheques sem fundos. Esses predadores, qualquer que seja seu grau de atrevimento, ainda não iguram na lista de espécies ameaçadas, mas a sua extinção será inexorável à medida que o mundo rural se convencer das vantagens de comprar insumos e de vender as colheitas por meio de cooperativas: embora desgastado como outros bordões, “a união faz a força” se ajusta perfeitamente ao caso. Desde que a direção das entidades e os cooperados se comprometam de fato com o associativismo. Não importa que as cooperativas sejam modestas, representantes de agricultores familiares. Para essa categoria de trabalhadores, o Brasil vem criando mecanismos de suporte e proteção. Um deles é o mercado institucional, estabelecido pelo Programa de Alimentação Escolar. Nesse mercado, a remuneração do produtor alcança os níveis de preços praticados pelo comerciante varejista de hortifrutícolas. E as regras do jogo também foram pensadas para induzir os agricultores a se organizar em cooperativas e associações. Na área de Sorocaba, em São Paulo, sete cooperativas e duas associações aproveitam as circunstâncias favoráveis para negociar com algumas prefeituras. A de São Bernardo do Campo, principal cliente, desempenhou papel fundamental nesse movimento, ao lado do Sindicato Rural de Sorocaba, conforme se verá mais adiante. As nove entidades da região atuam como se fossem uma só, de maneira informal, mas têm quase tudo pronto para a fundação de uma cooperativa central, cujo objetivo é manter articulado o conjunto de associadas e aumentar sua capacidade operacional e estender seu raio de ação. Isso porque há concorrentes poderosos no mercado. Fora isso, as organizações de pequenos produtores 105

Histórias gostosas de ler e boas de copiar rurais normalmente enfrentam problemas semelhantes. Resolvê-los em bloco às vezes pode ser mais fácil. Tais organizações também apresentam algumas características em comum, inclusive uma “pré-história”, que corresponde à vivência dos agricultores que se reuniram para criá-las. Cada grupo se juntou em local e data diferentes, mas o motivo do encontro, em geral, foi o mesmo: as pessoas estavam fartas de aturar sozinhas as frustrações de safras, quedas de preços e trapaças de intermediários. Nesse sentido, a trajetória da família de Claudinei Natal Bernardino é exemplar. Claudinei nasceu em 1982, no Paraná, e tem vivido sempre no campo. O pai, trabalhador em lavouras de café, trouxe a família para Limeira (SP) em 1985, mas os Bernardino logo se transferiram para um acampamento de sem-terra, em Porto Feliz. Dali participaram de marcha até a capital para reivindicar a posse de uma área que pertencia ao Estado. Foram atendidos. Em março de 1986, o governo de São Paulo dividiu a fazenda em lotes de cerca de dez hectares entre 83 famílias que, nos primeiros tempos, cultivaram lavouras de subsistência. Mandioca, principalmente, além de feijão e milho. Depois houve certa diversiicação. O pai de Claudinei plantou couves-lores – 70 mil pés, com inanciamento bancário. Na fase da colheita, embarcou as hortaliças para a capital, a razão de 400 a 500 caixas por semana. “As couves-lores eram tão grandes que icava difícil colocar oito unidades em cada caixa”, diz Claudinei. Mas, no inal do mês, o valor das vendas não cobria a parcela do inanciamento. “Estávamos lá, isolados, cada um por si, com seus problemas. Trabalhando e entregando a produção quase de graça. Então nos reunimos e começamos a discutir a fundação de uma cooperativa”. O projeto foi concretizado em 2006, com a Comap (Cooperativa Mista de Agricultores e Pecuaristas de Porto Feliz e Região). Presidida por Claudinei, em segundo mandato, a Comap alista cerca de 150 cooperados: pessoas do assentamento, agricultores que moram no entorno de Porto Feliz e até mesmo residentes em municípios vizinhos. A Comap oferta variada cesta de hortifrutícolas, mas o cultivo de frutas está em franca expansão no assentamento, uma vez que são os produtos mais procurados pelas prefeituras. “Trabalhamos com as políticas do Governo Federal. Começamos com o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e, em 2010, atendemos 18 entidades, de várias cidades. Para a merenda escolar, nossa primeira venda, também em 2010, foi para São Bernardo do Campo. Depois negociamos com as prefeituras de Sorocaba, Porto Feliz e Capivari. Nesse meio-tempo, iniciamos nossos contatos com representantes de outros agricultores da região para estabelecer uma organização central”. 106

Histórias gostosas de ler e boas de copiar Desse esforço participa a Associação do Bairro do Morro, do município de Iperó, com seus 71 membros. O presidente, Marcelo Eduardo Fiusa, cita a poncã para mostrar como as entidades dos produtores familiares da região já operam como uma central: “Quando uma prefeitura faz um pedido, quer milhares e milhares de tangerinas, de acordo com determinado padrão. Só um produtor não consegue colher e despachar todas no mesmo dia. Então, a fruta é fornecida por diversas pessoas, iliadas a várias entidades”. Outro exemplo: “se há um pedido e não temos o produto, outra associação se responsabiliza pela entrega para não haver interrupção no fornecimento. É com essa regularidade que queremos fazer chegar nossa produção a outras cidades”. Marcelo informa que os ailiados da associação têm propriedades de até 4,5 alqueires (cerca de 11 ha). Ele é casado e mora na propriedade do pai, Francisco Fiusa. O sítio de dois alqueires, comprado em 1978, foi usado só para recreação por mais de dez anos. Em 1990, o metalúrgico Francisco parou de trabalhar na capital e, em 1991, veio para Iperó tentar a sorte como avicultor. A família se dedicou a essa atividade por 18 anos consecutivos, utilizando dois galpões que mantém bem conservados, à espera de tempos melhores para a avicultura. Antes de fechar o criatório, os Fiusa já haviam plantado poncãs, para diversiicar. A certa altura, o caldo azedou. “Na pior fase, para não deixar a produção apodrecer no pé, entreguei o pomar a um atravessador. Ele colheu, nos pagando R$0,50 por caixa”, diz Francisco. Como ele não estava sozinho no bairro e já existia o PAA, em 2006 surgia a Associação, fundada por 23 pessoas. “Programas como o PAA têm sido de grande ajuda para os produtores familiares. Se não fossem eles, estaríamos todos quebrados”, completa Francisco.

caMpo valorizado
A exemplo de muita gente, a psicóloga Elaine Maria Zecchin manteve o propósito de trocar São Paulo pelo campo ao longo de décadas. Mas, ao contrário de muita gente, quando julgou que era chegada a hora, em 2001, não titubeou. Despediu-se da irmã, com quem trabalhara em um escritório de engenharia nos 25 anos anteriores, vendeu a casa, fez as malas e partiu. A viagem foi curta. Terminou em Araçoiaba da Serra, a cento e poucos quilômetros da capital. “No dia em que cheguei já comprei a terra, me apaixonei por ela”. Enquanto desfrutava o sossego na propriedade de quase seis hectares, pensava no que produzir ali, acostumando-se a explorar os arredores. Em uma dessas incursões, soube que a montagem de uma cooperativa estava em andamento. Faltava apenas uma adesão para 107

Histórias gostosas de ler e boas de copiar completar o número mínimo de 20 sócios. Era agosto de 2002, e mais uma vez Elaine não hesitou: antes de plantar qualquer coisa já era iliada à Copad (Cooperativa dos Produtores de Alimentos Diferenciados), que nascia apoiada pelo Sindicato Rural de Sorocaba. Em seguida, Elaine tratou de aprender a mexer com a terra: “Fiz todos os cursos oferecidos pelo Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), compareci a palestras e participei de estudos promovidos pela Ocesp (Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo) sobre aspectos técnicos e administrativos das atividades rurais. Além disso, iz curso de agricultura biodinâmica, com duração de um ano”. Teoria e prática caminharam juntas. Desde o início, Elaine se dedicou ao cultivo de hortaliças, sempre empregando os métodos da chamada agricultura orgânica. Ela fez sua parte e seguiu adiante, mas a Copad murchou antes de desabrochar completamente. Elaine descreve o processo: “O pessoal foi desanimando e saindo. O único comércio que tínhamos era uma banca no varejão da Ceagesp local, aos sábados. A cooperativa icou com os 20 associados, mas só participavam quatro ou cinco”. Depois a Copad entrou em dormência, sendo mantida apenas no papel por alguns dos fundadores. O período de hibernação terminou por volta de 2007, quando Elaine se interessou em participar do PAA, colocando a papelada da entidade em ordem. Hoje, como presidente da cooperativa, ela conta: “estamos com 82 cooperados, 59 da agricultura familiar. Outros não estão conseguindo documentos porque enfrentam diiculdades burocráticas em órgãos públicos. E alguns, de fato, não se caracterizam como produtores familiares. Nossa sede ica nas instalações do Sindicato Rural de Sorocaba e temos um entreposto em Araçoiaba da Serra. Lá, com a alimentação escolar, o produtor pode entregar a parcela maior do que

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Histórias gostosas de ler e boas de copiar colhe, mas a produção não para e a cota de cada um acaba. Daí a importância da central que, ao colocar os excedentes em outros mercados, poderá comercializar toda a produção do cooperado”. A nova organização já tem nome: Cooperativa Central de Produção Rural e Abastecimento. E presidente também – o agricultor Pedro Israel Pfeifer, que considera as perspectivas animadoras. “Antes da cooperativa, nada do que era cultivado no município icava aqui. Ia tudo para São Paulo, e depois voltava, em parte. Hoje, de 30% a 40%, no máximo, vai para a capital. Mesmo assim, para uma cidade de porte médio, o abastecimento de Sorocaba ainda deixa a desejar. Por isso os agricultores procuram trazer a produção para a Ceagesp daqui. Temos ainda as feiras e a merenda escolar. Vendido diretamente ao consumidor, na feira, um engradado de verdura pode ter seu preço triplicado em relação ao valor que tem na roça. Por isso aumenta o número de associados nas cooperativas”. A melhoria dos padrões de renda está mudando a postura dos sitiantes em relação à terra – trata-se de um ganho impressionante. Em pesquisa realizada em 2009, dos 60 produtores que estavam no bairro onde vive Pedro, apenas dois ou três queriam permanecer no campo. “Agora todos dizem que pretendem fazer cursos técnicos para icar na terra. E seus ilhos estão voltando para trabalhar com eles. Foi uma vitória”. Pedro teve essa experiência em casa. Aos 45 anos de idade, é pai de seis ilhos, com idades entre 13 e 26 anos, e avô de duas netas – uma de três anos outra de três meses. Um dos ilhos já trabalhava em indústria quando surgiu a cooperativa e outro está em emprego público, na área ambiental. Os demais querem prosseguir nos estudos, mas já não falam em deixar a terra. São a quinta geração da família no meio rural. Os bisavós de Pedro, alemães, vieram para trabalhar em uma fundição que havia no território da atual Iperó, no tempo do Império, mas a indústria fechou e eles foram para o campo. “Uma de minhas avós teve muitas posses em Sorocaba. Comprou porque as terras eram baratas. A família cresceu e o patrimônio foi dividido e, em grande parte, vendido. Sou proprietário de 26 hectares”, diz Pedro. Com a esposa e ilhos, ele se dedica à olericultura, assim como a maioria dos sócios da Cooperativa Mista do Bairro Caaguaçu, da qual também é presidente. A entidade, fundada em junho de 2009, viu seu número de associados mais que duplicar desde então. Hoje são 67.

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colMÉia, o ModElo
Alcindo Alves se interessou pela apicultura em 1983, quando ainda trabalhava como técnico em eletromecânica. A aposentadoria, seis anos mais tarde, lhe permitiu dedicar mais tempo à atividade. Foi o que fez, por mais de uma década, até se decidir a aproveitar ao máximo o potencial econômico dos apiários. O que signiicava avançar no terreno da comercialização de produtos apícolas. Para isso, o auxílio de outros criadores seria indispensável. O modelo a ser seguido estava à vista de todos: a cooperação entre as próprias abelhas. Em 2003, Alcindo disputou eleição na APTA (Associação Paulista dos Técnicos Apícolas), localizada em Sorocaba, e se tornou presidente da entidade. A principal bandeira de seu programa era obter o selo do Sisp (Serviço de Inspeção do Estado de São Paulo), exigido de quem pretende comerciar produtos de origem animal. Haveria despesas com instalações e equipamentos, pois o Sisp determina como matérias-primas e mercadorias devem ser recebidas, processadas, embaladas etc.. Alcindo e onze confrades desembolsaram mil reais cada um para cobrir os gastos (essa cota inicial foi devolvida mais tarde aos que investiram, com juros e correção monetária). A certiicação saiu em setembro/outubro de 2003, e a APTA começou a envasar mel para os associados, cujo número não parava de crescer. E a ter materiais e utensílios diversos empregados na apicultura para repassar aos interessados. “Seguimos em frente, comprando equipamentos. No inal de 2006 tínhamos perto de 200 produtores no quadro social. E, no almoxarifado, cerca de 160 itens para a apicultura”, conta Alcindo. No ano seguinte, a APTA apresentou projeto para vender mel à Companhia Nacional de Abastecimento. O negócio foi aprovado, mas, sem ter ins lucrativos, a APTA não emitia nota iscal. Para resolver o problema, os sócios decidiram fundar a Coapis (Cooperativa dos Apicultores de Sorocaba e Região), surgida em 8 de agosto de 2007. Na primeira venda de mel, a Conab inanciou a formação de estoque pela cooperativa – modalidade de negócio em que a estatal cobra apenas 3% de juros ao ano das entidades da agricultura familiar. A cooperativa soube aproveitar a oportunidade e tem renovado essas operações. No começo de 2011, o saldo dessa conta era de R$1,28 milhão. Como resultado de suas atividades, a Coapis já havia expandido, de forma considerável, suas instalações, contando com 297 cooperados. “Estamos vinculados à Cooperativa Central. Vendemos mel para dez prefeituras paulistas, atendendo mais de 60 entidades da região. Algumas cidades já incluíram o mel na merenda escolar”, diz Alcindo. (A APTA não deixou de existir, mas hoje se limita a organizar cursos e eventos). 110

Histórias gostosas de ler e boas de copiar A Coapis pretende robustecer ainda mais sua estrutura e ganhar autonomia para alcançar mercados distantes. Conseguiu aprovação do Banco do Brasil (BB) para um projeto de DRS – Desenvolvimento Regional Sustentável (modalidade de negócio criada pelo BB). Em determinados casos, o banco repassa dinheiro do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), a fundo perdido. A operação da Coapis envolve R$1,168 milhão. Alcindo esclarece que a cooperativa terá de alcançar algumas metas para não devolver o valor emprestado. Entre elas está a multiplicação do número de produtores associados e de funcionários. A compra de equipamentos com o desembolso de 460 mil reais está prevista no projeto. “O envasamento deixará de ser manual e nosso entreposto será um dos mais modernos do Estado. Queremos ter a aprovação do SIF, o Serviço de Inspeção Federal, para podermos vender em todo o Brasil e também exportar, o que é o objetivo inal”, explica Alcindo. Envolvido com os negócios, ele diz que desde 2009 não pode mais conciliar as atividades de apicultor com as de dirigente cooperativista. Sendo assim, resolveu terceirizar o manejo de 500 colméias, tarefa que entregou a diversos associados, de três municípios. O arranjo estaria funcionando a contento. Operar por meio da cooperativa também seria bastante vantajoso: “hoje o produtor sai daqui com o mel envasado. O rótulo, que é da cooperativa, traz o selo do Sisp o nome do apicultor impressos. Se o próprio associado vender o produto, terá de 450 a 480 reais, em média, por lata de 25 kg. Se entregar às empresas atacadistas receberá, no máximo, R$100,00 pela mesma quantidade”.

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