Das múltiplas GIAs: O rizoma como meio de produção Morgana Gomes Este texto é uma apropriação do rizoma como

como meio de produção de realidade, a partir de um olhar sobre o processo criativo do Grupo de Interferência Ambiental- GIA 1. O GIA é um coletivo formado por artistas de Salvador-BA2, que realiza intervenções artísticas na cidade, desde 2002. Tal apropriação se manifesta em dois momentos e lugares diferentes desta pesquisa: no meu olhar sobre o GIA, cuja singularidade se revela na elaboração do pensamento e da escrita; e no processo criativo do objeto, que eventualmente se apresenta como sujeito, e cuja qualidade rizomática é, em alguma medida, determinada pelo modo como o leio e o produzo. Isto implica em experimentar uma fusão sujeito-objeto, dentro das possibilidades encontradas na escrita de um texto acadêmico, no âmbito das Artes. O rizoma é um sistema a-centrado, com múltiplas entradas e saídas, a partir do qual Gilles Deleuze e Félix Guattari propõem uma antigenealogia do conhecimento, um processo imanente de pensamento como produção de realidade. Para eles, o rizoma seria dotado de algumas características aproximativas: Princípio de conexão e heterogeneidade (qualquer ponto do rizoma pode e deve ser conectado a qualquer outro); Princípio de multiplicidade (inexistência de uma unidade no sujeito ou no objeto); Princípio de ruptura a-significante (um rizoma pode ser rompido e retomado em qualquer lugar); Princípio de cartografia (do rizoma feito mapa a ser produzido a partir de uma experimentação ancorada no real). Tomo o rizoma como uma espécie de anti-modelo, um sistema aberto à disposição de diferentes modos de pensar e produzir realidade, seja na esfera política, econômica, artística, ou qualquer outro gênero de conhecimento: Um rizoma não cessaria de conectar cadeias semióticas de organizações de poder, ocorrências que remetem às artes, às ciências, às lutas sociais (DELEUZE E GUATTARI, 2071, p. 16). O encontro com o rizoma como experiência artística, deu-se paralelo à investigação filosófica a respeito. Esta articulação teórico-prática aconteceu de maneira inconsciente e produtiva, através de estudos teóricos sobre a arte da performance e a micropolítica, e de um percurso artístico que transitava entre o teatro representativo e o experimental. Dentre as experiências empíricas, destaco o Coletivo Peteca – grupo de arte experimental em linguagens múltiplas, do qual fiz parte, em Vitória da Conquista-BA, 2009. O coletivo propunha-se a um espaço-tempo 3 aberto para livres
1 http://giabahia.blogspot.com/ 2 Atualmente o GIA é composto por Everton Marco, Ludmila Brito, Tiago Ribeiro, Mark Davis, Cristina Llanos, Lulu das Artes, Cristiano Piton, Luiz Parras e Paula Damasceno. Verifica-se,em suas ações, um fluxo de artistas que também compreendemos como gias, a partir do qual afirmo a identidade multiplicada do coletivo. 3 Compreendo o espaço-tempo com esta qualidade composta, como unidades intrínsecas, encontrando ressonância no texto Pausa, Presença, Público: da Dança- Teatro à Performance-Oficina , de Ciane Fernandes, a respeito dos estudos da performance. Este texto está disponível em http://seer.ufrgs.br/presenca.

poesias. que resultava.descentro. partindo de imersões em um espaço público fechado. em diversos estados do Brasil.com/22449685. (Festival de Cannes. sons. senão corpos intensivos e fragmentos intercalados de tatos. em cinco edições anuais. com a singularidade. 2011) http://submidialogias. cujas funções se revelavam e compunham no decorrer da experiência. Ensaboa6 e Tragédia do Tamanduá7.youtube. No caso do Submidialogia. ou seria.descentro.com/watch?v=FfPvGrwBRf8 http://vimeo. e não hierárquico com que as atividades eram propostas e executadas pelos presentes. Também nas experiências do Submidialogia . errante? Acredito que procedíamos por um meio de produção rizomático. das quais não temos registro senão por relatos orais. a potência de cada um. observei um meio de produção rizomático . pelo período de seis meses. o desejo. A crítica aos valores transcendentais da metafísica ocidental. e não burocrática. e em três obras audiovisuais: Coletivo Peteca5. o rizoma se manifestava no modo de produção do evento. Ambos os espaços-tempos constituíram-se como plano de consistência ideal para a emergência de performances artísticas9.org/?s=peixe+morto . as ruas.org/?s=carnaval+noturno . em termos de produto artístico. enquanto no Coletivo Peteca.descentro. constituindo-se como um coletivo movido mais pela heterogeneidade de suas forças que pela harmonia de uma identidade.org/ http://submidialogias. Trata-se de um festival que reuniu artistas e ativistas de mídias livres. por onde transitaram artistas e curiosos.descentro. em intervenções efêmeras pela cidade. descentralizado.org/2010/07/13/705/ .4 As experiências do Peteca eram fruto de uma ânsia de criar e compor. ao espaço público aberto. no processo criativo de suas intervenções e vídeos. imagens? Fazíamos do acaso a matéria prima de nossa aventura estética.com/5821821 http://www.A arte de re:volver o logos do conhecimento pelas práticas e desorientar as práticas pela imersão no sub-conhecimento 8. http://submidialogias. http://vimeo. O que éramos nós. A qualidade rizomática do Submidialogia e do Coletivo Peteca era determinada pelo caráter experimental. desde 2005. a partir da qual os valores pré4 5 6 7 8 9 A qualidade aberto-fechado é aqui determinada apenas pela sua condição física. o Centro de Cultura da cidade.manifestações artísticas. http://submidialogias. em Lençóis-BA (2008) e Arraial D'ajuda-BA (2010).

podemos efetuar uma leitura sobre fenômenos mundiais específicos de nosso tempo. uno e múltiplo (que expõe um paradoxo enfrentado pelos limites da linguagem). determinando a formação de um movimento de atuações estético-políticas descentralizadas. A efemeridade é condição ontológica da performance. proposta pelas vanguardas artísticas da década de 60. na casa do GIA 10. As reuniões acontecem duas vezes por semana. se aproximam mais de uma interferência sutil que potencializa características singulares de sua cultura. (…) A performance acontece num tempo que nunca mais será repetido. donde surgem as proposições poéticas. e os pós-estruturalistas franceses (Michel Foucault. para que ele exista na animação suspensa entre o Passado e o Futuro. As intervenções atualmente produzidas pelo GIA. a partir de um movimento espontâneo entre o prazer do encontro. mas aquilo que pode existir apenas por causa destas duas condições originárias. (…) O ser da performance. me fazendo experienciar as implicações práticas desta pesquisa. a reflexão sobre as questões da cidade. disposto a abalar as estruturas dos sistemas centrados. Michel Maffesoli. bem como a crítica ao mito da verdade original. 7. Este foi certamente o primeiro impacto entre o sujeito e o objeto: o segundo negaria sua identidade. poéticas micropolíticas que constituem a emergência de um movimento artístico contemporâneo. Santo Antônio . enquanto manifestações de coletivos de arte ou artistas independentes. são algumas das proposições deste pensamento. a culinária 10 Rua dos Adobes. encontra dimensões extremas nas experiências do GIA. A partir de tal crítica. A invenção criativa do cotidiano proporcionada por estas linguagens. como performances e intervenções urbanas. o estatuto de artistas. 1997) O processo criativo do GIA dá-se a partir dos encontros dos integrantes do coletivo entre si ou com outros artistas. Recusavam. atinge-se por via da desaparição. enquanto expressão artística que acontece no presente: A única vida da performance dá-se no presente. (PHELAN. e a performance parecia algo demasiadamente conceitual para o cotidiano. na cidade de Salvador-BA. e são a condição primeira para o surgimento das idéias/ações. (…) O Presente é aquilo que não tolera nem a morte nem o nascimento. A dissolução das antinomias clássicas como corpo e alma. Nietzsche. a amizade. Os dois são necessários ao Presente para que este seja/esteja presente. Jacques Derrida. sujeito e objeto. A aproximação entre a arte e a vida. Tal como as intervenções artísticas realizadas pelo coletivo. Nos encontros da casa 7. e de um processo criativo que acontece na própria reunião. entre outros). existe um limite ínfimo entre a concepção estética de suas ações e a vida cotidiana. produz rizomas de fenômenos sociais efêmeros. tal como a ontologia da subjetividade que aqui é proposta. que o estranhamento estético como objetivo conceitual da performance artística.socráticos e pré-modernos são retomados pela filosofia. é uma questão comum à obra de pensadores como Espinosa. pois.

12 http://giabahia. onde cada um é o todo e não o representa. ambas elaboradas no decorrer da mesma. Observar o desempenho de um determinado corpo em sua experiência. de modo que referir-se a ambos sem produzi-los. os maus encontros são aqueles que decompõem parcial ou totalmente as relações características que constituem um determinado corpo. faz-se performance e faz-se rizoma.com/. 13 A internet é ferramenta fundamental para a descentralização e multiplicidade das poéticas micropolíticas. Da mesma maneira. em parte pelo meu olhar. e http://www.revela-se como experimentação. bem como a pauta das reuniões. A constituição não hierárquica do grupo permite uma descentralização das informações e atitudes que compõem o seu processo criativo. podem ser bons ou maus. são entidades autônomas. As receitas são compartilhadas com o público através do blog ou do facebook 12 do coletivo. e a partir da qual nos multiplicamos. nutrindo as reuniões. num misto de afeto 11 e criatividade. promovendo os afetos de alegria. escritas e publicizadas posteriormente13. Destaco que a internet é instrumento fundamental de comunicação e articulação do GIA. quando podemos compreendê-los como a abertura de um corpo a determinada experiência.performance e rizoma. implica na comum violência de suas definições.blogspot. Trata-se mais de ação. uma fragmentação interna que constitui a unidade heterogênea do coletivo. explicar como as suas ações são demonstradas.php?id=100001723962687. na 11 Investigações conceituais acerca de noções como afeto e alegria me levaram aos estudos éticos em Espinosa. são tratados no âmbito da academia. Pesquisadores confluem para a necessidade de formas específicas aos estudos desta linguagem. seria a competência dos Estudos da Performance (SCHECHNER). seja nas reuniões do GIA ou a partir delas. devido as suas características peculiares. Os encontros bons. através da qual o acessei. como a indissociabilidade teórico-prática e a impossibilidade de registro (FERNANDES. experimentar o seu princípio cartográfico. 2008. PHELAN. escrever sobre rizoma é produzi-lo neste texto. é uma característica de fácil observação na conduta do GIA. por sua vez. A concepção ético-política parte da compreensão de que tudo na natureza participa de uma ordem comum de encontros que.com/#!/profile. na organização interna do grupo. já em si multiplicado. O caráter processual com que as ações são desenvolvidas. A performance é uma forma de expressão artística do pensamento rizomático. desde as artes visuais. diminuindo a sua potência de agir e de existir. aumentando a sua potência de agir e de existir. A multiplicidade se configura de diversas maneiras em suas experiências: Na experimentação de linguagens artísticas variadas. são aqueles que compõem as suas relações características. Acessamos o coletivo através de cada um dos seus integrantes. 1997). . a música e a culinária. A multiplicidade. por sua vez. não deixa de favorecer a sua compreensão enquanto uma linguagem ou um sistema fechados sobre si mesmo. um dos princípios do rizoma. à construção de espaços-tempos para a livre produção coletiva. demonstra uma característica rizomática que se revela na experiência. do que de conceito. quer em termos de metodologia de pesquisa ou de literatura a respeito. na medida em que compartilham processos criativos. A perspectiva a partir da qual ambos os termos .facebook. Para ele.

no encontro indissociável com o objeto. Experimento esta condição enquanto reflito e participo das atividades do GIA. que participam ativamente das propostas lançadas. encerra a questão do eu e do outro. constituído em sua maioria por artistas. coletivamente batizado por De hoje a 816. cujo processo está sendo compartilhado no blog.html 17 Integrante do grupo Botequim. sobretudo o samba. do uno e do múltiplo.com/2011_09_01_archive. Este processo. implica a pesquisa sobre o samba na Bahia. como eu e demais artistas presentes. pesquisadores e simpatizantes. em parceria com outros grupos musicais 15 (Botequim e Samba das Moças) e artistas independentes. assumindo os paradoxos inevitáveis às minhas escolhas conceituais e metodológicas. que teriam encontrando um ponto de fusão na contemporaneidade: Multiplicidade formal dos atributos substanciais que constitui como tal a unidade ontológica da substância (DELEUZE E GUATTARI. 2007. 16 http://dehojeaoito. onde questões referentes à produção do bloco são pensadas e decididas. para participação no bloco. ativistas. aulas e ensaios abertos com o sambista Enio Bernardes17. 15). a produção de um bloco de samba de rua. Em reuniões semanais na casa 7. A alteridade como condição do sujeito contemporâneo revela-se ainda na minha condição de pesquisadora. e demais ações necessárias para “botar o bloco na rua”. o GIA agencia14. p. a arrecadação de fundos para produção de instrumentos musicais.” (DELEUZE E GUATTARI. as múltiplas GIAs. O De Hoje a Oito é mais uma das saídas múltiplas do GIA. e as artes visuais. Atualmente. 17) 15 As linguagens preponderantes do GIA são a música. constituem um espaço-tempo. 14 “Um agenciamento é precisamente este crescimento das dimensões numa multiplicidade que muda necessariamente de natureza à medida que ela aumenta suas conexões.relação do coletivo com o público. . A relação do GIA entre si e para além de si. 2007. iniciado em setembro de 2011. Foi lançado um convite público via meios analógicos e digitais. ou suas extensões. sejam os integrantes do coletivo propriamente dito. p.blogspot. parceiro do GIA.

compreendido como uma intervenção artística agenciada por artistas e coletivos como o GIA. suas múltiplas partes. o samba de rua. 2010. experimentar outras relações entre o indivíduo e a sociedade. BIBLIOGRAFIA: ESPINOSA. Os Estudos da Performance. Lourinelson Vladimir. Baruch de. que não deixa de remeter as suas tradições. * Figura 2: Ensaio do bloco De hoje a Oito. Arraial D'Ajuda. quando também o capitalismo se consolidou como sistema econômico dominante na esfera mundial. com os artistas Ricardo Brazileiro. Belo Horizonte: Autêntica Editora. * Figura 1: Performance Peixe Morto. manifestação tradicional da cultura baiana. Esta concepção de desejo inerente ao rizoma nos permitiria produzir diferentes experiências poéticas e coletivas. A apropriação do espaço público por ações estéticas caracteriza um movimento de resistência e de subjetividade política de nossos tempos. p. George Sander. que desloca a perspectiva clássica de análise social a partir das estruturas de produção econômica. a partir do qual os primeiros são lidos. Ética. o que determina a sua natureza coletiva. entre outros. aqui denominadas poéticas micropolíticas. A própria experiência coletiva permite a desvaloração moral do indivíduo moderno. A mudança da natureza de um corpo que constitui a si. Luciana Tongnon. O bloco De hoje a 8. constitui-se no agenciamento dos elementos heterogêneos da realidade. define o caráter singular de cada experiência. Estas experiências constituem a problemática da micropolítica. neste caso. 1998). entre a subjetividade e política. afirmando caraterísticas singulares de sua cultura.O bloco de samba de rua retoma a uma tradição ofuscada pela capitalização da cultura e das relações sociais. da qual participei. que compreendo como um movimento contemporâneo de ocupação subjetiva das ruas. Tininha Llanos. e a outras naturezas de corpos. Esta compreensão do desejo o descoloca da esfera individual com que foi compreendido na modernidade. O desejo é a força que movimenta este sistema: Mas o rizoma opera sobre o desejo por impulsões exteriores e produtivas (DELEUZE E GUATTARI. 2007. 2010. ou até mesmo este texto. Felipe Ribeiro. 23). no Submidialogia. onde se inserem diversas pesquisas sobre intervenções artísticas na cidade. seja este corpo o GIA. O desejo como força produtiva. insere-se dentro de um contexto rizomático de concepção estética e política. em consonância com a qualidade mística de nossos tempos (MAFFESOLI. o De hoje a 8. por um meio de produção rizomático. Ricardo Ruiz. É sob esta perspectiva que leio a poética micropolítica do GIA. me levaram ao bloco De Hoje a Oito. para a produção subjetiva. . no Largo do Santo Antônio.

Gilles & GUATTARI. 1998. MESQUITA. Michel. André Luiz. Jorge Larrosa. NIETZSCHE. Introdução: rizoma. A. Ed. 2006. São Paulo: Companhia das Letras. 1997. A genealogia da moral: uma polêmica. FERNANDES. 2008. 1993. v. 2002. RJ: Vozes. 2008. Suely. Rio de Janeiro. Fazendo rizoma. FURTADO. 1. FOUCAULT. What is performance? In: Performer Studies: A Introduction. Rio de Janeiro: Vozes. DERRIDA. Hedra. GUATTARI. Beatriz (org). A Microfísica do poder. Tese de pós-graduação em história da faculdade de filosofia. F. LINS Daniel. 2008. Richard. Elogio da razão sensível. A ontologia da performance: Representação sem reprodução. ROLNIK. Ciane. Routledge. Perspectiva S. 1995. Michel. Jacques. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BONDÍA. Editora Graal. New York & Londres. São Paulo. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. MAFFESOLI. 1997. Félix. São Paulo: Editora 34. SCHECHNER. in Mil platôs – Capitalismo e esquizofrenia. SP: 2008. . Micropolítica: Cartografias do desejo.DELEUZE. 1998. Peggy. Félix. Insurgências Poéticas: Arte ativista e ação coletiva (1990 – 200). letras e ciências humanas – Universidade de São Paulo: São Paulo. PHELAN. A escritura e a diferença. Entre Escrita Performativa e Performance Escritiva: O local da Pesquisa em Artes Cênicas com Encenação.

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