Luciano Martins Costa

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0 m le t r a- sa n globalização a

Há pessoas que têm a capacidade de pensar em termos de divisão, separação e quantificação quando isso é necessário. Mas também são capazes de pensar em termos de relações entre as partes isoladas sem perder de vista o todo. Passam naturalmente do operacional ao estratégico e vice-versa, a depender da necessidade e das circunstâncias. São pessoas integradoras. Na teoria e na prática, exercitam o pensamento complexo. Luciano Martins Costa é uma dessas pessoas. Seu livro O mal-estar na globalizaçãoé uma expressiva manifestação dessa habilidade. Em suas páginas, o leitor encontrará uma ampla discussão de um problema atualíssimo e da maior importância: em nossas sociedades, os valores fundamentais são quase que exclusivamente tecno-econômicos. Eis por que as grandes empresas adquiriram uma importância em muitos casos até mesmo superior à do Estado. A visão de mundo tecnocrática se baseia no modo de pensar que John M.Coetzee, Prêmio Nobel de Literatura, chama de "razão mecânica" e ao qual estamos profundamente condicionados. As conseqüências disso são evidentes: ao lado dos inegáveis progressos obtidos com a ciência e a tecnologia, surgiram as chamadas comunalidades. Eis algumas delas: o desemprego e a exclusão social; o tráfico de drogas; as alterações climáticas; o aparecimento de pandemias como a AIDS; a poluição; o caos na economia. São situações complexas que, portanto, não podem ser resolvidas por um modo de pensar simplificador como a razão mecânica. Em suma: a mente tecnocrática não é capaz de lidar de modo adequado com a incerteza e a imprevisibilidade, isto é,

Luciano Martins Costa

0 mal-estar na globalização

2005. Angélica. sem a autorização expressa da editora e dos autores. Globalização : Economia mundial 337 CDD-337 A GIRAFA EDITORA LTDA.História I. Título.São Paulo . Brasil) Costa. ISBN 85-89876-74-8 1.1192 www. Economia . 05-5212 índices para catálogo sistemático: 1. Coordenação editorial Cristina Zauhy Preparação Hífen Texto e Imagem Revisão Irma Mariotti Capa e Progeto gráfico Daniel Rampazzo/Casa de Idéias Diagramação Sheila Fahl/Casa de Idéias Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro.8878 Fax: [55 11] 3255.br . SP.SP Tel: [55 11] 3258. 2503. Bibliografia. Copyright © 2005 Luciano Martins Costa Não é permitida a reprodução desta obra. 125 01227-200 . Globalização 3.Copyright © 2005 A Girafa Editora Ltda.com. Cultura organizacional 2. Luciano Martins O mal-estar na globalização / Luciano Martins Costa. — São Paulo : A Girafa Editora. cj.agirafa. parcial ou integralmente. Av.

. Filipe e Carolina.Para Thais.

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A ilusão do controle III. A terceira cultura X I V . A linguagem de Babel V I . Sociedade sem rodas V. Os herdeiros do silício VII. A cultura transformista I X . A reserva moral dos conservadores XII. A filosofia na carne 7 15 29 43 57 71 85 99 Ill 123 145 157 169 183 197 . O capital conhecimento XIII. A tecnologia da libertação VIII. U m a nova (des)ordem mundial II. A resposta inaceitável X I . Os funerais do rei IV.Sumário Introdução I. O inimigo dentro de casa X .

X V . As capacitações evolutivas Notas Vale a pena consultar 209 221 237 261 279 279 . O que falta conhecer X V I . A dor da modernidade X V I I . A qualidade que protege XVIII.

anuncia resultado de pesquisa. segundo relatório divulgado na 11a.Introdução O mercado mundial de divisas negocia diariamente u m volume de quase US$ 2 trilhões. K o f i Annan. M a i s de 2 bilhões de indivíduos estão excluídos dos benefícios básicos da modernidade. na qual se constata que dois . saneamento e garantia de nutrição. O secretário-geral da O N U . como habitação. segundo a F A O — Organização das Nações Unidas para Agricultura e A l i mentação. reunião da U N C T A D — Conferência das Nações Unidas para C o mércio e Desenvolvimento. O número de subnutridos crônicos em todo o planeta alcança a cifra de 852 milhões de indivíduos.

Os números seguintes demonstram o altíssimo grau de vulnerabilidade em que se encontra o sistema econômico internacional. os fundos previdenciários públicos. na qual boa parte do que aprendeu não faz muito sentido. demonstrados em relatórios e planilhas produzidos sob padrões confiáveis e certificados internacionalmente. que afeta com igual impacto as grandes corporações de negócios. indício inequívoco de um dinamismo nunca antes registrado nos negócios globais. em última instância. Por exemplo: os números no início do parágrafo acima indicam o mais elevado patamar que o comércio de moedas jamais alcançou. Nas grandes cidades de todo o mundo. a estabilidade dos governos e. Estudiosos das principais universidades do mundo apontam o rápido desmanche de quase todos os paradigmas que sustentaram até aqui o modelo de desenvolvimento nascido com a Revolução Industrial. o gestor contemporâneo está colocado diante de uma situação nova. Uma monstruosa contradição se apresenta diante da razão: quando o ser humano alcança níveis de conhecimento .terços dos cidadãos do planeta — incluídos habitantes das democracias que liderara a economia mundial — não se sentem representados por seus governantes. o bem-estar dos indivíduos. os cidadãos mais bem aquinhoados não conseguem viver seu bem-estar e muitas pesquisas revelam que mesmo os bem-aventurados estão infelizes. Responda rápido: como você classificaria a soma dessas realidades? A mãe de todas as crises? O triunfo perverso do capitalismo? Apocalipse? O fim do Estado democrático? O u oportunidade? Educado para tomar decisões com base em contextos muito claros. O resultado da equação é a falta de sustentabilidade do sistema social.

daquele terço da população mundial atualmente excluído. Por último. que o planeta não tem como suportar o ingresso. no rol dos indivíduos com direito a uma vida digna. quando a tecnologia permite tangibilizar pela primeira vez o sentido de humanidade. se é possível falar friamente sobre a questão. Por outro lado. se revela desastrosa: não existe estratégia de segurança capaz de conter a pressão dos excluídos contra os muros dos bem-aventurados. somos apresentados à sensação diária de que a humanidade recuou alguns séculos e se encontra novamente lançada às disputas tribais. segundo o Banco M u n d i a l . a própria sobrevivência do sistema mundial de negócios depende da expansão dos mercados. como nos primórdios da civilização. A s fontes de alimentos. fato inconteste. que se con- . comprovado em sucessivos estudos que informam os fóruns sobre o estado do mundo há mais de uma década.jamais sonhados sobre si mesmo e sobre o Universo. ao combate corpo-a-corpo por alimento. quando se vislumbra a possibilidade de superação dos limites naturais da vida por conta de uma ciência capaz de recriar organismos. se os programas de inclusão continuarem a dar resultado. presente implicitamente em algumas decisões protecionistas de governos de países desenvolvidos. a hipótese de se retardar a melhoria da distribuição de oportunidades. as formas de produção e a necessidade de preservar o que resta da diversidade biológica do planeta não completam uma conta razoável para a capacidade dos setores produtivos de atender as necessidades mínimas dos que estão fora do sistema. o que exige. pela criação de uma rede de comunicação realmente global.

Não são raras as ocasiões em que os mais críticos são deslocados para as chamadas ações de responsabilidade social. aqueles que procuram agir em favor de mudanças são ridicularizados. estamos indubitavelmente exercendo um direito justo. em sua obra O mal-estar na civilização. tentamos pôr à mostra as raízes de sua imperfeição. consideramos falho o presente estado de nossa civilização. mas cabe perfeitamente no estado de espírito que se percebe neste começo do século X X I . em pleno uso da razão e do conhecimento. como um exílio que o afasta das decisões de negócio. militantes de organizações humanitápor . pude conviver com executivos de diversos setores empresariais. quando. que provavelmente poderia ser evitado. gestores públicos e políticos. com toda justiça. Entrevistei cientistas. pode afirmar seu completo bem-estar diante das contradições do sistema econômico mundial do qual é protagonista? E m muitas organizações de negócios. Esse raciocínio foi exposto por Sigmund Freud em 1929. toda a parte é perceptível a sensação de mal-estar.sidere as possibilidades de consumo da base da pirâmide. e não nos mostrando inimigos da civilização". "Quando. por atender de forma tão inadequada às nossas exigências de um plano de vida que nos torne felizes. sem o qual parece não haver futuro. pode se considerar seguro nessa circunstância? Quem. Quem. e por permitir a existência de tanto sofrimento. com crítica impiedosa. em sã consciência. Preservar a diversidade biológica do planeta e produzir para os pobres. Eis o desafio completo. VAIDADE DAS VAIDADES Durante duas décadas.

estratégia e produtividade. E m 1998 e 1999. Estudei as origens de algumas expressões culturais que são sacralizadas no ambiente cultural dos gestores. desde prefeitos de pequenos municípios e gerentes de postos do Instituto Nacional de Previdência Social (INSS) a presidentes de grandes corporações com atuação mundial.rias — entre os quais o diretor do Programa de Desenvolvimento H u m a n o da O N U e o diretor do Programa de M e lhores Práticas em Desenvolvimento Sustentável —. tive o privilégio de me juntar a uma dezena de jornalistas de várias partes do mundo. utilizando o método jornalístico que objetiva desenhar perfis pelo levantamento de premissas e modelos mentais. que se dedicaram a estudar a linguagem da mídia no ambiente da globalização. Participei. pude conviver com gestores de variadas formações. A partir de 1999. convidado pelo escritor prêmio Nob el Gabriel Garcia Márquez. Entrevistei centenas desses protagonistas da história recente. Constatei muitas evidências de que o capital conhecimento está sendo subvalorizado no ambiente dos ges- . como jornalista e gestor. além de empresários. Isso ocorreu num projeto chamado O Jornal Ideal. gerentes e alguns chefes de organizações criminosas. Acredite: encontrei nestes últimos uma visão muito mais clara sobre a natureza de seus "negócios" do que entre algumas celebridades do mundo acadêmico e empresarial. de cujos fundamentos são recheadas muitas teses sobre liderança. quando então discutimos intensamente as novas formas de comunicação e percepção da realidade. dos primeiros passos da Internet e tive a oportunidade de criar e dirigir um produto bem sucedido no setor de conteúdos online.

M a s ele não resistia à tentação de aparecer na televisão. A executiva adormece na lista das mulheres mais poderosas do mundo. O apresentador do programa também é o esperto empreendedor de um concorrido encontro anual de presidentes de empresas. se negava reiteradamente a posar para fotografias em revistas e jornais. nas quais se consolida o grande sistema econômico e social sem horizonte de saída. que reúne numa ilha paradisíaca do litoral brasileiro a nata da economia nacional. presidente regional de uma multinacional muito bem posicionada em seu setor. sofrem quase todos da síndrome do Super-homem (ou da Mulher-maravilha) que faz a delícia dos psicanalistas. Ainda assim. Como resultado. quando desperta. Esses são os construtores da globalização: pessoas que passam boa parte de suas vidas trafegando pelo mundo ou participando de teleconferências. A maioria deles se tornou refém de um sistema de poder que emascula o homem e masculiniza a mulher. . num desses talk-shows nos quais empresários e executivos têm a oportunidade de falar de suas idéias e de sua responsabilidade social. mas com baixo nível de consciência sobre seu papel e uma pobre noção do legado que está deixando. Esse equívoco estratégico pode estar na origem de muitos conflitos que assombram o mundo. um conhecimento capital pode estar sendo ignorado nas organizações.tores e que. U m desses personagens. seu nome foi apagado das agendas de eventos. havia uma razão plausível para isso: um colega de diretoria havia sido seqüestrado por criminosos alguns anos antes. temos uma elite poderosa como poucas antes na história da humanidade. além disso. Oficialmente.

Vaidade e vulnerabilidade andam juntas. segundo Freud. Contratou consultores. A globalização levou o capital e suas regras a todos os rincões do planeta. Teve a oportunidade de apresentar seus projetos sociais durante o evento. As mais bem educadas de seu meio. investidor. U m repórter cuidadoso constatou que suas ações de responsabilidade social valiam exatamente 120 m i l dólares. administrador. A assessoria de imprensa a serviço da empresa conseguiu contornar a situação com silogismos e bom relacionamento. cerca de 120 m i l dólares para fazer boa figura entre seus pares. Colhe de lá um retrato sobre o estado do mundo que choca as pessoas conscientes. São pessoas educadas. cidadão em sua plenitude. mobilizou diretores e gerentes. Por essa razão. U m desses convidados especiais "investiu". num desses encontros. O agente do desenvolvimento. uma empresa especializada. o sonho da plenitude no mundo globalizado se torna fonte de mal-estar. pagam um alto preço emocional por sua presença num jogo em que há poucas chances de uma mente bem educada se sentir à vontade. sofre da angústia que. convencendo o jornalista de que o executivo agira de boa-fé e que. afinal. o balanço social da empresa acabaria esclarecendo as coisas. estudioso. acompanha a civilização: não vê o esforço de sua disciplina resultar em um mundo melhor. .

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India e Paquistão disputam o privilégio de potências emergentes na nova economia. em 11 setembro de 2001. foram a expressão assustadoramente clara de um mundo no qual as contradições da sociedade que construímos ao longo dos dois últimos séculos se revelam devastadoras. A o mesmo tempo. Pela primeira vez.I—Uma nova IdesJordem mundial Os espantosos ataques terroristas aos Estados Unidos. se confrontam como belige- . se torna tangível para toda a humanidade a hipótese de termos entrado em um processo que pode conduzir ao fim da civilização que construímos no Ocidente.

a geografia e todos os detalhes técnicos necessários à perpetração do ato. insensível às denúncias do terror econômico que impunha a bilhões de seres humanos excluídos. Terrível e inominável. os eventos de setembro de 2001 são o marco de uma nova era. Junto com as torres que simbolizavam o poder desse sistema. desaba a inocência que ainda se permitiam seus agentes individuais. Valeu-se dos pressupostos de democracia e tolerância que pretendia destruir. Assim como a queda do muro de Berlim. em 1989. a julgar pelas evidências de que a ação terrorista foi possibilitada por estratégias equivocadas. simbolizou o fim de uma visão simplista e bilateral de mundo. com adeptos no mundo que pretendeu atingir. educado e treinado no interior do sistema que iria vitimar. O sistema que se impunha triunfante no processo de globalização. nascidas no coração do próprio sistema que estaria no papel de vítima. . O inimigo que abriu as fissuras do sistema em 11 de setembro de 2001 pode ter saído de uma caverna localizada num país isolado da modernidade. O rei está nu. revelase extremamente vulnerável. aprendeu caprichosamente a língua. os gestores de todos os tipos de negócios. na qual a responsabilidade do indivíduo pelo bem-estar coletivo não pode mais ser negligenciada.rantes capazes de dar início a uma guerra nuclear de proporções inimagináveis. e certamente vai contar por muito tempo. mas foi alimentado. os costumes. Contou. o ato de terror de um indivíduo no Oriente Médio é também a metáfora a partir da qual podemos lidar com uma resposta para a questão de termos ou não um processo civilizatório ainda pela frente.

M a s ele também pode ser exatamente como você. as res- . por sua vez. expressando o fanático religioso que rejeita o futuro e considera que a idade de ouro da humanidade já ficou para trás. cabeça coberta por um turbante. credos e desejos variados nos seus complexos urbanos. na classe executiva de u m vôo internacional. representando o indivíduo que se considera superior a seus contemporâneos. senhor ou senhora de hábitos aceitáveis no mundo civilizado — neste caso. isento da responsabilidade de contribuir para um processo civilizatório. uma pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia indicava que 4 4 % dos cidadãos americanos sofriam de algum sintoma de estresse após os atentados. mercadorias e valores e grandes concentrações e diversidade de indivíduos de origens. Essa realidade escancara as vulnerabilidades da sociedade moderna. posterior à História e. vestido em roupa de grife qualificada. que não faz sentido sem amplas liberdades. E m novembro de 2001. Estas. O u seja. incluem movimentos maciços de pessoas. onde germinam o bárbaro que se exclui e o bárbaro que se considera único portador do direito à inclusão. você toma consciência de que tudo isso afeta suas decisões. ou espera que o mercado se posicione para depois pensar no que fazer? O inimigo agora se dilui num cenário muito mais sutil e poderia estar sentado bem ao lado.Você já pensou nisso? Quando lê os textos de analistas. É. portanto. Você o imagina como alguém de longas barbas. portanto. as explosões no World Trade Center e no Pentágono desnudam a qualidade mais perversa do capitalismo: a vocação para gerar em si o ovo da serpente. N o s primeiros meses após os atentados. destruidor do sentido essencial do modelo pluralista de organização social.

Assim. privadas ou públicas? C o m as pequenas artimanhas e malandragens que nos habituamos a considerar normais. Diante das idéias apocalípticas que se formaram no imaginário coletivo a partir das cenas de horror.postas colhidas em milhares de consultas realizadas nas grandes cidades de todo o mundo davam conta do estabelecimento de um temor generalizado e difuso em relação ao futuro da humanidade. o crime organizado. operando suas próprias organizações e utilizando instituições financeiras com presença global para movimentar os recursos que produziram a destruição. Também é conhecido que os financiadores do terror e os grupos mafiosos de todas as nacionalidades vinham. Ficou evidente que alguns militantes do complexo religioso-militar identificado como autor dos atentados vinham atuando a partir de empresas com destacada presença internacional. D a mesma forma. durante a qual os mais básicos direitos do ser humano estariam constantemente sob risco. onde se encontram as respostas para esse medo. até que implodem um complexo do tamanho da Enron. O que isso tem a ver com as pequenas falcatruas que se cometem todos os dias em quase todas as instituições de negócios. uma outra catástrofe da modernidade. precisaríamos incluir em nossas reflexões estratégicas a possibilidade de as organizações de negócios serem envolvidas no conflito. vem utilizando empresas legais como suporte para suas atividades. fomos colocados diante da perspectiva de um novo conceito de guerra prolongada e capilarizada. da Parmalat ou da Adelphi Communications? . cabe reverter o raciocínio e procurar nos escaninhos do dia-a-dia. Afinal. por mais de uma década. da W o r l d C o m .

ao financiamento dos mesmos combatentes que lutavam no Afeganistão contra a dominação soviética. Faz-se mais capital com menos capital na periferia. ele se recolhe nos momentos de crise. C o m os negócios sendo realizados sem fundamento em valores humanitários e universais. como os jornalistas que participam da organização IR E — Investigative Reporters and Editors —. Essa lógica tem agravado o fenômeno do crescimento excludente que grita nas ruas e em todas as estatísticas sem. no entanto. Pelos mesmos canais que lavam o dinheiro das drogas trafegaram os recursos que tornaram possíveis as cenas que chocaram o mundo. Esses são igualmente os canais que serviram. M a s a segurança ainda está nos velhos centros. mas é rio centro que ele se consolida e se realiza como forma de poder. Uma lógica perversa se oferece como pano de fundo de todo esse horror. a partir dos movimentos de autoridades corruptas. quando capitais de imenso poder passaram a se deslocar dos grandes centros para a periferia do mundo pós-Guerra Fria. sensibilizar aqueles a quem a circunstância mais beneficia imediatamente e a quem mais ameaça a longo pralá que . na década de 1980. Pelos mesmos canais se esvai a poupança de países pobres. as oportunidades se oferecem mais atraentes no curto prazo quanto mais periférico o mercado em relação aos centros tradicionais de negócios. dão conta da leniência com que os organismos internacionais têm tratado a liberdade de movimentos das fortunas produzidas pelo crime organizado e pela corrupção.Investigações de profissionais independentes. U m a lógica comum às crises que se sucedem na economia mundial desde o início dos anos 1990. e especialistas de organismos como a Fundação Giovanni Falcone.

com a redução de barreiras nacionais e culturais ainda existentes. Produz-se hoje 4 0 % mais riqueza que há duas décadas. desta vez no coração do mundo civilizado. é no centro que a violência se manifesta. por se revelar insustentável. o poder gerado por esse movimento de capitais se impõe inexorá- . então. não seria difícil prever a volta das lutas tribais. Se à globalização corresponde o fenômeno inversamente proporcional da tribalização. O mal-estar na globalização nasce das impossibilidades que ela gera. mas a um custo insuportável para as reservas naturais e inadmissível para a consciência humana. Utiliza-se um grau de tecnologia que há cinqüenta anos era tema de ficção científica. Quando a exclusão se configura em ideologia e adquire a tecnologia para produzir agressão em larga escala. os gestores dos capitais estão destruindo as possibilidades de permanência do poder que constroem. Não custa lembrar o alerta feito há mais de vinte anos por Willis Harman: o último recurso dos excluídos poderá ser a "guerra de redistribuição de riquezas". N e m mesmo o executivo mais bem-sucedido pode evitar a sensação de mal-estar que essa circunstância provoca. C omo se fossem incapazes de aprender com suas próprias ações. pela simples razão de que esse capital não produz o conhecimento necessário à criação de uma cultura própria que consolide em torno dos negócios uma sociedade aceitável. a lógica dessa prática que a longo prazo se manifesta auto-destrutiva? Rapidamente. elas tornam a própria globalização uma improbabilidade.zo. N a última volta dessa espiral de contradições. Nenhuma sociedade poderá emergir dessa prática. na forma já ensaiada pelas gangues da década de 1980 em muitas cidades de todo o planeta. Q u a l é.

a irracionalidade pode estar triunfando. em que se concentra a inteligência aplicada à gestão. como se os gestores de capital não notassem as transformações que seus movimentos produzem nem se dessem conta da sociedade que deixam para trás. pode ter suas premissas na forma como esse poder gera e se apropria do conhecimento. que se estabelece uma versão ainda mais perversa do colonialismo de há 300 anos. que está a questão essencial: a rigor. C o m o se o capital só tivesse consciência do seu poder na realidade unidimensional do balanço de resultados. é justamente nesse fator predominante. a ciência ofereceu tantos recursos para que os empreendimentos humanos produzam resultados. tudo se torna urgente. senão único. U m a tese provável. O capital faz apenas parte do seu trabalho. como já se anuncia nos encontros para discussão do estado do mundo. só existem gestores de capital. a estratégia vira uma colcha de retalhos e todas as variadas especialidades que formam a organização .vel e progressivamente como centro de um sistema social e político global. movendo recursos na direção da obra desejada. Bem pouco das conquistas científicas é agregado ao dia-a-dia das pessoas comuns. para explicar a incapacidade do capital de se revestir de um significado que o faça autor de uma sociedade humana mais habilitada a durar e evoluir. M a s em pouco tempo a sociedade poderá estar saturada da incompetência do capital em produzir o bem-estar geral e. Diante da ditadura do demonstrativo de resultados. sabe-se que os direitos ao uso desses recursos se concentram de tal maneira. N o entanto. Nunca antes. em toda a história da humanidade. mas não presta atenção aos subprodutos e recursos que gera sob a forma de conhecimento.

é um mês. todos pensam igual. diante da questão do resultado. multicultural que o mundo vai revelando. nas escolhas estratégicas de empresas. Erros grosseiros nas escolhas pessoais de executivos e. nascem da incapacidade dos indivíduos de enxergar a diversidade como patrimônio. usam a mesma linguagem e se distanciam cada vez mais da realidade multidimensional. têm os mesmos desejos. Assim como. sem o cuidado de estabelecer uma relação "ecológica" com o meio social. em gestores de capital. N a comunidade dos iguais. é a noção de prazo. Como o capital não cria o conhecimento adequado para romper o curso da espiral. desde o curso primário.se dobram como fiéis na direção de Meca: só o resultado interessa. Para uns. mesmo aqueles dedicados às chamadas responsabilidades sociais. N a cultura comum das organizações de negócios. mas poucos correm riscos reais tendo em conta outros resultados que seriam tangíveis se houvesse a percepção de um valor no conhecimento produzido pelo capital em ação. o único resultado que interessa é justamente o financeiro. que a diversidade é a razão de ser da vida. desde o início da Revolução Industrial. . para outros. a organização transforma todos os gestores. os modos de produção vêm constantemente destruindo as reservas naturais do planeta. Uma das mais claras conseqüências dessa distorção é a "síndrome de Alphaville". curto prazo é um ano. todos se vestem da mesma forma. Por não enxergar essa riqueza. por conseqüência. não a noção dessa qualidade essencial de produzir sem depredar material ou culturalmente. você sabe. o atual estágio do capitalismo produz a devastação cultural em muitos ambientes sociais onde o capital atua. N o entanto. a diferença básica entre elas ou entre os setores em que se dividem.

talvez sua verdadeira função social? . M a s esses indivíduos sabem disso? Quem são essas pessoas? Basta observar os saguões de aeroportos antes dos vôos preferenciais dos executivos e empreendedores.O SO NH O LIBERAL O horror produzido em todos os corações e mentes naquela manhã de 11 de setembro de 2001 não se alivia com o passar do tempo. A o contrário. A humanidade. se defronta com a impossibilidade de seguir produzindo riqueza sem atentar para a urgência de u m novo sistema. travadas nas ruas das grandes cidades. O sistema falhou e o sonho das grandes mudanças coletivas se esvaiu. e o indivíduo consciente é apresentado ao retrato finalizado de sua impotência. Noções de responsabilidade social. cujos ensaios ainda são tímidos demais nas salas de alguns poucos gestores. cuja atenção e opiniões são disputadas segundo a segundo pela mídia. desenvolvimento humano sustentado e consciência ecológica ainda são pregadas com o estilo dos primeiros evangelizadores. não tem idéia de sua importância diante da História. preciso criar um novo conhecimento capaz de conduzir à revolução individual da qual possa brotar a reinvenção do sistema. O que falta aos processos de educação de gestores para que eles entendam seu papel mais nobre. afinal. Nas organizações de negócios privadas ou estatais se encontram as pessoas que podem fazer essa diferença. para constatar que a comunidade que toma as decisões fundamentais para o futuro da humanidade. ele se torna mais denso e pesado à medida em que as pessoas tomam consciência de que aquele foi o episódio inicial do que pode ser uma sucessão de guerras sem fim.

toda sofisticação gerada pela revolução tecnológica e pela criatividade dos gestores só fazem ampliar um poder perverso que. Os processos de inovação em andamento nas empresas começam a internalizar a cultura da responsabilidade social. mais do que instrumento. e sua linguagem de catequese revela como ainda estão distantes de uma verdadeira consciência de humanidade. toda estratégia será vã. mas entre os componentes de sua origem está com certeza a incapacidade do poder econômico de se revestir de u m signi- . O horror dos atos de terrorismo e a brutalidade do crime organizado não se justificam sob nenhum ângulo de análise. Modelo. condicionando toda a cultura em que toca. enquanto o universo cultural dos gestores não se deslocar do eixo ação-resultado. se não se discute a qualidade do conhecimento gerado constantemente e no mesmo sentido nas últimas décadas. As teses sobre gestão de conhecimento nas organizações não passam de retórica. o capital evoluiu da condição de recurso para fim em si mesmo. ao agir contra os interesses da humanidade. M a s . Os movimentos em favor de maior responsabilidade social das empresas são o único recurso de amplos setores excluídos do bem-estar geral. Todas as melhorias. nos dois séculos e meio em que movimenta as economias do mundo. toda inovação nascerá envelhecida. Porque. Mas ainda são vistos como extraordinários. age contra si mesmo. N e m mesmo a redução da capacidade do Estado de financiar o bem-estar geral sensibiliza os gestores para essa necessidade.Faltam ao capital — privado ou público — a motivação e os valores essenciais para que ele seja capaz de gerar o conhecimento necessário à sua consolidação como modelo propulsor de um desenvolvimento real e criador de bem-estar generalizado.

você tem acesso ao que existe de mais avançado em qualquer ramo de conhecimento. seus acionistas e seus parceiros? Não lhes falta conhecimento básico sobre o comportamento geral dos indivíduos e dos sistemas sociais. qual é o seu real valor para a organização que o inclui no sistema? Quais são seus recursos reais para a per- . certo? M a s você já parou para pensar como seria estar excluído dessa comunidade de poderosos? Se você não pode estar confortável dentro do sistema. qual é o seu lugar? Afinal. a partir de cada unidade de negócio. com seus produtos e serviços. D o seu posto de trabalho. não teriam algo mais a oferecer além de ganhos de produtividade e redução de custos? Se essas organizações se tornam progressivamente as maiores comunidades de indivíduos bem educados — e treinados para confrontar diariamente as teorias com a realidade — por que esses i n divíduos não são capazes de oferecer à sociedade. um sistema que realmente funcione como uma cultura de bem-estar geral e não apenas para eles próprios. e também não pode se imaginar fora dele. M a s haverá de fato u m tipo de conhecimento que possa ser produzido e enriquecido nas organizações de negócios privados ou estatais. nas quais as empresas investem volumes respeitáveis de recursos financeiros. que opere como embrião de um novo processo social? Será que as novas tecnologias. Milhares de publicações e estudos acadêmicos informam sobre a história dos negócios e de como os processos se desenvolvem e se desfazem. Seu valor para a empresa pode ser medido pelas oportunidades de aprendizado que ela lhe oferece. de modo que você e seus pares podem ser considerados a vanguarda da evolução humana.ficado aceitável para todo o mundo.

oferecem grandes oportunidades para as organizações e para o profissional. Por exemplo: você realmente sabe 1er? C o m base em quais premissas você constrói seu modelo mental? E m plena era do conhecimento. podemos observar o grande número de indivíduos fragmentados entre o desejo de felicidade e o peso do conformismo. para defender nossas bandeiras. aquele conjunto de sentimentos contraditórios de que falava Freud no começo do século passado. E m todos os fóruns sociais de que participamos. ainda lidamos com dados como se fossem informações e consideramos sabedoria a manifestação da esperteza. como um capital tão ou mais importante que o capital financeiro ou outros ativos tangíveis. mal conseguimos identificar em nossas angústias o mal-estar da globalização. Somos uma elite que se envergonha de sua posição. . e o que garante que você constrói todos os dias uma percepção próxima da realidade objetiva? Sua identidade pessoal é coerente com sua identidade profissional e sua identidade corporativa? A carreira que você constrói honra sua identidade pessoal? Ainda não são definitivas as informações sobre o funcionamento da nossa mente e de como realizamos o aprendizado. contextualizadas estrategicamente. Estamos completamente conscientes de que o processo de expansão global dos negócios é irreversível e fazemos nosso papel.cepção do mundo. com as melhores intenções. Mas não se observa nas ações dos gestores a valorização real do conhecimento. A globalização cada vez mais acelerada acrescenta ainda mais informações que. mas as muitas hipóteses já consolidadas apontam caminhos bastante seguros para a definição de novos paradigmas em gestão de talentos e vocações. no melhor das nossas qualificações.

à qual pertencemos todos nós. à sua revelia. Durante o processo eleitoral de 2002. beiram o ridículo. sua autoestima. porque a perversidade do sistema o torna muito vulnerável. foram objeto de abuso. era um primor de edição.Essa elite. E m todos os momentos de ruptura do tecido social que pudemos constatar na História. De tão primárias. utilizando u m artifício que revela de forma muito esclarecedora o estilo de seus gestores: 280 pessoas foram contratadas e demitidas 22 dias depois. Que espécie de futuro esses gestores pensam que estão criando para suas empresas? Essa mesma companhia contava com os serviços de uma renomada empresa de assessoria de comunicação. no Brasil. o retrocesso produzido atingiu o todo da sociedade e as elites sofreram processos de reciclagem. A interpretação que procurava oferecer sobre a realidade daquela empresa não com- . Seu relatório de responsabilidade social. Entrevistei alguns desses trabalhadores. pela lógica de todo organismo vivo. baseadas numa ilusão de controle ainda remanescente da noção mecanicista da vida. ainda imagina o mundo ideal como u m relógio e não tem consciência de que. uma grande empresa da região sul resolveu dar sua contribuição a u m candidato de sua preferência. Seus sentimentos. em algum momento se tornará impossível a gestão de muitas organizações. todos eles voltariam a ser empregados. profissionais em fazer funcionar u m empreendimento privado ou uma instituição pública. algumas de nossas ações. distribuído no início de 2003. Estavam revoltados porque sabiam que haviam sido manipulados. A cada uma delas foi dito que. as esperanças de suas famílias. se determinado candidato não fosse eleito presidente da República.

e de todas as outras operações de comunicação corporativa. VOCÊ? T E M CONSCIÊNCIA DO ALCANCE DAS DECISÕES QUE TOMA NO SEU DIA-A-DIA? 2. Será que algum deles percebeu a relação entre a tentativa de manipulação que haviam praticado e a inversão imediata da curva de desempenho da organização? Qual o grau de consciência desses gestores sobre a percepção. com seus resultados desabando e seus gestores assombrados com a ineficácia de todas as medidas que experimentavam. aparentemente tão distantes das decisões de negócio? Que milagre esperavam de um belo — mas fantasioso — relatório de responsabilidade social. Q U A L A RELAÇÃO ENTRE O FENÔMENO DO TERRORISMO E M ESCALA MUNDIAL 3. no ambiente corporativo e no ambiente vizinho à empresa.binava com a prática — real — exercitada durante as eleições daquele mesmo ano. Menos de dois anos depois. essa empresa enfrentava uma grave crise. de decisões como essa. diante da atitude condenável de manipular a angústia de trabalhadores desempregados? Alguém acredita que esse tipo de mentalidade pode produzir bons resultados em longo prazo? Para refletir: 1. A GLOBALIZAÇÃO DOS NEGÓCIOS? Q U A L ERA O SEU MAIOR MEDO ANTES DO 1 1 DE SETEMBRO? AGORA? .

e escancararam as portas para a grande revolução nas telecomunicações. . Tomando a metáfora inspirada por Platão em seus Diálogos riu a Kybernáos. na pesquisa espacial e no desenvolvimento da inteligência artificial. no lazer. políticos e econômicos que o mundo já produziu. o matemático Norbert Wiener deu início a um dos maiores processos de desconstrução de significados culturais. Estas abriram caminho para a construção de computadores realmente funcionais.II—A ilusão do controle Quando publicou seu livro Cibernética ou con- trole e comunicação no animal e na máquina. Wiener propôs uma série de equações. em 1948. — em que o filósofo se refea arte de pilotar —.

a obra de Wiener trata de quantificar e qualificar o maior número possível de variáveis C o m isso. Porém. M a s . assim como Platão havia alertado para a conveniência de levar em consideração as variáveis na arte de governar barcos ou pessoas. visa a estabelecer um grau razoável de previsibilidade nos processos. que acabaram marcando toda a história recente. tanto o poder político-militar como o capital se apropriaram de parte desse conhecimento para justificar suas premissas de controle e previsibilidade. inspirada nas equações de Wiener. São desse período quase todos os processos e sistemas utilizados ainda hoje na gestão de organizações de negócios ou governos. Trata essencialmente da metodglogia e oferece argumentos matemáticos aos problemas do anti-acaso. O que não significa que suas equações possam sustentar a transferência direta de conhecimento sobre mecanismos materiais para os sistemas vivos ou vice-versa. A ordem justificada na possibilidade matemática do controle. a tendência de crescimento do ramo de um arbusto ou a regulação da taxa de gás carbônico no sangue. foi o ponto de partida e base "científica" para muitas — e desastradas — ações políticas. o livro embalou ilusões de poder e controle. com os Estados Unidos apressando seus trâmites para tomar posse de metade do mundo em ruínas após a Segunda Guerra Mundial. Gerado no ventre da Guerra Fria. o que Norbert Wiener demonstrou é que existe uma unidade estrutural em processos tão diversos quanto os sistemas de direcionamento de um míssil. sociais e políticos que domina- .Seu trabalho se tornou tão popular quanto mal compreendido. formou e consolidou todos os sistemas econômicos. A rigor.

jogos. o ambiente humano se tornara muito mais complexo. finalmente. os indivíduos foram quase repentinamente colocados diante da materialização do sentido de humanidade. desde então. operários e novos mestres de uma ilusão recorrente: a ilusão do controle. De fato. entre todas as possibilidades abertas pela Internet. gestores. u m período de estabilidade que durasse mais de duas décadas. M a s em nenhum momento os debates chegaram ao fundo da questão. que simboliza o contraditório visceral expansão-consolidação. o paradoxo se manifestou em plena celebração do chamado triunfo liberal: a nova ordem à qual fomos apresentados tinha como característica mais notável exatamente a ausência de uma ordem aparente. U m sistema educacional baseado nas mesmas premissas vem formando empreendedores. a mais instigante e certamente a que mais profundas conse- . se revelava mais rica em variáveis.ram as décadas seguintes do século X X . ou melhor. esquerda e direita. O mundo nunca teve. pais de família. criatividade-segurança. filmes e outros produtos derivados dessa ilusão segundo a qual seria possível controlar com perfeição os eventos por meio de sistemas mecânicos ou eletrônicos. a arte de pilotar. Kybernáos. caos-ordem. progressoestabilidade. o amadurecimento dos produtos gestados nos raciocínios de Norbert Wiener produziu a revolução digital. Quando. Por meio de uma rede de computadores interligados no emaranhado das conexões telefônicas. Pense no que tem sido a realidade neste período. talvez porque tenha imperado durante quase todo esse tempo o contraditório superficial entre modernidade e atraso. Você se lembra muito bem de brinquedos. na última década do século X X . histórias em quadrinhos. educadores.

qüências irá produzir nas relações de todos os tipos. se lembrarmos que os sistemas de proteção das redes de computadores são uma repetição das . ou buscar um novo significado e apostar na criação de uma sociedade menos propensa aos conflitos? Os atentados de setembro nos Estados Unidos e a falta de perspectivas da vida moderna merecem uma reflexão nesse sentido. talvez o tenham notado e corram a produzir volumes cada vez maiores de capital antes que seus movimentos sejam restringidos. uma gigantesca massa crítica se formou instantaneamente em todos os cantos do mundo. Qual seria a estratégia ideal para os gestores de capital? Acelerar o acúmulo dessa forma de poder e reforçar suas cidadelas. ocorre nos centros do poder real? Os gestores de capital não parecem ter notado esse fenômeno. Isso é humanidade tangível. Quando um cidadão. A metáfora da cidadela talvez seja ainda mais rica para entendermos o fenômeno. Mas quanto dessa percepção. à espera de conflitos inevitáveis. é a concretização do sentido de humanidade. a partir de uma ligação extremamente precária. numa versão mais maliciosa. O u . A velocidade com que as informações economicamente úteis passam de um lado a outro do planeta é a mesma que tem acelerado também a formação de opiniões e de conhecimento sobre o estado do mundo. notícias sobre a guerra nos Bálcãs. Há uma enorme carência de capital na maior parte dos países e uma contrapartida de liquidez e desperdício em alguns poucos l u gares. forçando e apressando as ações diplomáticas e militares que interromperam os massacres de milhares de seres humanos em Kosovo. aparentemente válida na sociedade. até então uma expressão intangível e apenas suspeitada. começou a espalhar por computadores do mundo inteiro.

é a chave para entender a diferença entre empresas com sistemas de segurança muito simples. a maioria absoluta desses atentados é praticada por funcionários insatisfeitos.fortificações medievais. que faça sentido para seus funcionários. A não ser que falte a elas um significado. Pense nisso ao planejar sua próxima ação de comunicação interna e esqueça a ilusão do controle. na mesma ocasião em que o governo dos Estados . como a igreja. o que chega a soar ridículo. Pesquisas realizadas desde 1999 revelam que há u m hiato na compreensão desse fenômeno. o cinturão protetor se chama firewall (parede ou muro de fogo). Confiança. mais uma vez. O INIMIGO ÍNTIMO Agora reflita por um momento: no segundo semestre do ano 2002. Não por acaso. D a mesma forma. ou um espírito. sabendo-se que 7 0 % dos atentados contra a integridade de bancos de dados digitais ocorrem nas redes internas. um círculo de bosques protegia os campos agriculturáveis. dentro das muralhas. Nelas. que por sua vez guardavam em seu interior uma área protegida por muros baixos de pedra. os sistemas de securitização de capitais lembram as cidadelas da mais remota Idade Média. uma vez que aparentemente não há grandes motivos para insatisfação na maioria das empresas pesquisadas. que funcionam satisfatoriamente e aquelas que gastam porções cada vez maiores de seus orçamentos em sistemas que se revelam sempre vulneráveis. a casa do senhor e os depósitos de alimentos. depois uma muralha e dentro dela a fortificação que abrigava as construções mais importantes. Dentro destes havia outro círculo com as primeiras casas mais humildes.

surgia ainda a revelação de que funcionários de representação diplomática americana haviam facilitado. Richard Cheney. a concessão de vistos a pessoas suspeitas de terrorismo. ao mesmo tempo. capaz de proporcionar uma visão ampla e acurada de tendências promissoras de bons .Unidos anunciava novas ofensivas contra países considerados aliados ou comprometidos com o terrorismo. em troca de propina. era acusado de haver omitido a venda de participação na empresa Harken Energy. ou que estejam tentando segurar uma realidade que muda mais rápido que a capacidade dos seus gestores de compreendê-la. Praticamente todas as manifestações de gestores de capital disponíveis na mídia especializada expressam a convicção de uma habilidade absolutamente impossível: a de conhecer um número suficiente de variáveis capaz de manter os riscos num padrão aceitável e. fornecedores. seu vicepresidente e mentor político. o que tornaria desnecessárias suas muralhas? Porque falta uma ética essencial ao sistema. parceiros e clientes. o cavalo de Tróia dos gregos e a cepa de vírus com o mesmo nome que contamina os sistemas de informática de poderosas organizações? Por que as organizações não conseguem o comprometimento necessário de seus colaboradores. George W. N o rastro dessas notícias. o próprio presidente americano. a Halliburton. N a mesma semana. Alguma relação entre esses fatos. também era acusado de haver cometido crimes contábeis em sua empresa petrolífera. que havia realizado dois meses antes do valor das ações da companhia desabar em 20%. possível que os capitais em giro vertiginoso ao longo dos fusos horários estejam operando num mundo que já não existe. e essa fratura está exposta no principal núcleo de poder do capitalismo. Bush.

quando realmente se realiza. o que mantém elevado o fator aleatório. como faz supor a cultura do controle. comunidade imediata). politicamente e moralmente inatacável. Pode-se garantir confiança e proximidade dos fornecedores. empregados. Não são poucos os casos em que um aparente sucesso.resultados. A aparente capacidade de produzir benefícios no círculo mais próximo (acionistas. acaba resultando num desastre no longo prazo. M a s os gestores nunca sabem que mundo irão encontrar no café da manhã. mesmo quando o gestor de uma organização assume a louvável atitude da responsabilidade social. Não faltam informações. As tecnologias têm a característica de oferecer progressivamente mais possibilidades de controle. Pode-se dispor de uma ampla variedade de meios para dar-se a conhecer ao público. . muitas vezes. O que eles não parecem entender é que o mundo no qual atuam não atende da mesma forma aos estímulos das mais diversas naturezas. por conta de ações aparentemente sob controle. apenas reforça a ilusão de que alguma coisa significativa está sendo construída. se consultados os interesses e necessidades de um círculo mais amplo de influência. os fornecedores de suporte renovam quase diariamente os sofisticados recursos a preços cada vez mais razoáveis. em quantas empresas operacionalmente saudáveis se tornaram reféns do sistema financeiro. os dados estão disponíveis em grande volume e em todas as partes. por exemplo. seu empreendimento pode estar na mais absoluta contramão da História. Pode-se conhecer na maior intimidade os hábitos dos consumidores. Pense. mas as ciências das quais elas derivam tendem a revelar constantemente novas variáveis. A espiral da ilusão começa com a ilusão do controle e se estende a tal ponto que.

pode calcular o valor dos subsídios que sustentam essa perigosa ilusão. Hoje. a manutenção desse jogo? Ninguém. tenho tido a oportunidade de conviver com centenas de gestores intermediários e executivos de alto escalão de organizações dos mais variados tipos. Quanto tem custado. a morte de uma vaca na índia pode derrubar o touro em Wall Street. para muitos analistas. qual o seu papel nele?" Era como se o peso da História se abatesse sobre o indivíduo. Quanto ainda custará à periferia do sistema e à humanidade a extensão desse quadro de esquizofrenia? Nos últimos dez anos. Entre as perguntas que pude fazer a muitos deles. Não bastasse toda a responsabilidade pelos resultados das organizações que dirigiam. passam boa parte do seu tempo esgrimindo com fantasmas e não se dão conta de que tudo começa em suas próprias mesas. desde abnegados gerentes do sistema público de previdência do Brasil até o presidente de uma das gigantescas empresas de telecomunicações que se tornaram o paradigma na balança das bolsas em todo o mundo. As ondas de expansão e recolhimento de capitais não refletem mais as relações causais que garantiam o sono dos gestores há algumas décadas. nenhuma instituição bancária ou governo. mais a necessidade de . que parte da economia se assenta sobre uma roleta.Está mais do que claro. Os gestores em geral olham para esse cenário e manifestam seu descontentamento. passando por um jovem herdeiro de uma indústria de produtos cerâmicos. às organizações políticas e econômicas. uma em especial os deixava atônitos: "Se você acredita que ainda está em curso no mundo um processo civiliza tório. Os gestores se assombram com os boatos matinais. enquanto outra parte joga numa mesa de póquer com cartas marcadas.

C o m o dinheiro que vai receber. as dificuldades criadas pelo governo e a falta de educação da população em geral. disse. encarregado de preparar a incorporação da nossa empresa por uma indústria de cimento. de playboy irresponsável em um dos mais aplicados alunos de u m exigente curso de gestão? Ele me contou: " M e u pai me convocou a uma reunião e me apresentou a um cara da minha idade. A maioria gaguejava. em relativamente poucas semanas. O que havia provocado mudança tão radical no seu comportamento. Lembro-me bem do jovem herdeiro. Estou saindo dos negócios. pode comprar um bordel só pra você. Hoje ela faz sentido e está no centro de tudo que pretendo aprender e praticar daqui para a frente". culminando quase sempre com a irresponsabilidade da imprensa. montar uma destilaria exclusiva . Ele me confessou que até poucos meses antes tivera problemas com álcool e cocaína e que fora freqüentador de uma luxuosa casa de prostituição em São Paulo. Disse que era o executivo de um banco. durante o período imediatamente anterior à nossa conversa. fazendo com que se transformasse. ele me disse. "se você me fizesse essa pergunta eu consideraria uma provocação ou uma besteira. quando sua família pensava que comparecia a um evento de marketing na cidade.entender a avalanche de mudanças que a virada do século estava derrubando sobre suas cabeças. vestia seu discurso com roupa de domingo e se estendia em análises retóricas sobre os limites do seu papel de gestores. rapaz recém-saído dos trinta anos. Perguntei: e eu? Ele respondeu: você nunca esteve. " H á três meses". era como se aquela pergunta pretensiosa colocasse em cheque sua própria existência como seres humanos.

mas ainda vou disputar um cargo de gerente. me con- .. observou. "Quanto à sua pergunta. Ele me contou que havia lido um de meus artigos sobre comunicação meses antes desse episódio e que havia comentado com o control- ler da empresa o alto grau de "lirismo" do autor. entre outras punições radicais." Houve ainda uma ironia naquela conversa. Eu lhe pedi uma chance. mas precisa criar o conhecimento necessário à formação de uma sociedade cada vez melhor". posso dizer que acredito na ocorrência de um processo civilizatório e acho que o capital tem o papel de produzir a riqueza geral. e que este havia aproveitado a ocasião para obter seu apoio para um projeto de restrições severas ao uso de e-mails na empresa. Eu tinha entendido que era hora de crescer. Sua definição de um possível papel social do capital.. ele me abraçou e chorou. e sua referência à possibilidade da geração de um conhecimento capaz de sustentar uma cultura evolucionista da sociedade. Pedi licença para falar reservadamente e saímos da sala de reuniões. O projeto incluía. ou na verdade nunca vou saber se algum dia foi realmente cogitada. Disse que havia cansado de esperar que eu me interessasse por continuar seu trabalho. simplesmente por me negar a perceber a diversidade do mundo". A venda da empresa foi suspensa. Foi ele quem me deu a idéia de registrar as reflexões produzidas por centenas de conversas como aquela. Tenho doze meses para provar que posso assumir a direção da empresa.e otras cositas más. demissões por justa causa e publicação na imprensa local dos nomes dos demitidos. N o seu escritório. Chorei com ele e naquele instante toda a minha vida passou rapidamente pela minha frente. "Agora percebo o nível das manipulações a que eu estava submetido.

são poucos os casos como esse. sob critérios mais exigentes.* Infelizmente. A realidade é feita de gestores e acionistas assombrados com crises que eles próprios alimentam. na obsessão por ordem e controle em plena reinvenção da economia. por exemplo. a realidade entre os gestores em geral é de u m nível de consciência muito pobre. Sei que esse rapaz se tornou o braço direito do seu pai e não apenas assumiu u m cargo de direção. em seu duplo papel de empreendedores e especuladores. não acreditassem nos postulados que apregoam. como estava indicado para o conselho da federação das indústrias do seu Estado. Além disso. e na busca por protocolos rígidos em plena era digital? . deuses e heróis dessa nebulosa que a mídia chama de neo-liberalismo. dois meses após os atentados nos Estados Unidos. suas definições de papel social e de responsabilidade social sejam discutíveis. Pesquisas posteriores realizadas por variadas instituições só fazem reafirmar essa tendência.duziram à pesquisa específica sobre o efeito dos variados paradoxos do nosso tempo no ambiente corporativo. Estaria aí a origem dos sintomas de esquizofrenia que se revelam. como se eles próprios. convencera seu pai a liderar na região um movimento de empresas socialmente responsáveis. Mesmo que. São poucos os donos desse poder de mover economias que sequer chegam a perceber a possibilidade de produzir algo mais do que lucro e vantagens para sua própria organização. tenham revelado o que muita gente vinha percebendo na vida real: cresceu significativamente — de 60% para 7 9 % — o total de consumidores que declararam preferir produtos e serviços de empresas que tenham algum significado social. Embora pesquisas realizadas em novembro de 2001.

ONDE MORA O CONHECIMENTO? Gary Hamel. alerta para o senso comum de que a inteligência reconhecida pelas organizações está sempre restrita à mais alta esfera do poder. a direção está alinhada com a base. o fato de poder perceber sinais de problemas antes de eles virem a se tornar graves não dá à base da organização a capacidade de pensar em medidas preventivas. N o entanto. fica para baixo na pirâmide do poder. pelo simples fato de que na base da pirâmide está a maior percepção de fatos que levam ao inconformismo. como não libera para esse setor informação que não seja funcional ou operacional. Finalmente. E m outros casos. E m muitas ocasiões. porque ela não se sente parte da inteligência reconhecida pela direção. a cabeça estratégica está completamente desalinhada em relação ao todo da organização. Quem pode dizer onde está a verdade? Por que a organização normalmente não acredita nessa reserva de inteligência colocada abaixo do corpo diretivo principal? Porque parte da premissa de que. não pode esperar que ele seja capaz de gerar conhecimento e pensar estrategicamente. Por outro lado. É também na base que se encontra o maior potencial de mudança. mas desalinhada com relação aos gerentes. de como as coisas são feitas. E m alguns casos. É o reverso perverso da ilusão de . muito raramente a cabeça das organizações percebe a tempo as descontinuidades que a base é capaz de enxergar. a melhor inteligência da empresa pode estar no chão de fábrica ou na gerência intermediária. O conhecimento prático. conceituado estrategista e autor de uma abordagem criativa ao problema da visão de futuro das organizações. Hamel observa que nem sempre o senso comum está certo.

N o entanto.controle. ou no vestiário dos clubes mais exclusivos de qualquer grande cidade. Acredita-se. Q U A N TO VALOR PERDE A ORGANIZAÇÃO POR INSISTIR E M ESQUEMAS DE CONTROLE ANTERIORES À ERA DIGITAL. E M SISTEMAS DE COMUNICAÇÃO POR NÃO ENTENDER C O M O FUNCIONA U M A SOCIEDADE HIPERMEDIADA E. para se observar o perfil medíocre. Q U A N T O VOCÊ PERDE. como nos tempos anteriores ao capitalismo. OBJETIVAS? POSSIBILIDANÃO PERCEBER AS OPORTUNIDADES RE- Q U A N T O PERDEM — VOCÊ. de pensamentos tacanhos e mentalidade retrógrada que muitas vezes predomina nessa nova aristocracia. E M CONHECIMENTO DES DE COMPREENDER A FUNDO O FUNCIONAMENTO DA ORGANIZAÇÃO — E A EMPRESA. e que aos demais estarão reservadas para sempre as tarefas do fazer. Para refletir: 1. bastam alguns minutos de conversa nos bastidores da diretoria de qualquer organização. POR SE ILUDIR C O M PROJEÇÕES FANTASIOSAS DA MÍDIA AIS 3. que apenas uns poucos possuem o D N A do pensamento estratégico. não a missão de pensar. PESSOALMENTE C O M O PROFISSIONAL. POR JULGAR PRECONCEITUOSAMENTE QUE A INTELIGÊNCIA CORPORATIVA SE ENCONTRA APENAS DA GERÊNCIA PARA CIMA? . E M CONSEQÜÊNCIA. BASEADOS EM PREMISSAS MECANICISTAS MANIPULADORES? 2.

Ill—Os funerais do rei

A tragédia

do homem, u m dos clássicos da

literatura mundial, atualmente esquecido, foi escrito em 1860 pelo húngaro Imre M a dách e traduzido para praticamente todos os idiomas modernos. Tem u m enredo singelo, mas em versos magníficos, sob a forma de teatro, que trata de um simples e repetitivo episódio: Deus cria o homem e a mulher, eles caem em tentação e são expulsos do Paraíso. Então, sucessivamente, ato após ato, eles voltam à vida e são guiados através dos tempos, tendo como cicerone aquele que os convencera a provar da árvore do conhecimento. Conduzidos por Satanás, eles têm a oportunidade de revisitar fatos e persona-

gens fundamentais da Historia, questionam grandes sábios e pensadores e retornam ao princípio de tudo com a mesma pergunta não respondida: qual é o destino da humanidade? Absortos na literatura pragmática de processos e métodos, mergulhados nos debates sobre a melhor tecnologia para invadir a intimidade dos clientes ou impressionados com algum livro de auto-ajuda, os gestores só dedicam algum tempo a essa questão durante as viagens de negócios, quando uma turbulência ou uma pane no avião os faz suspeitar de que há assuntos mais importantes do que o contrato que levam na pasta. Mesmo que considere a filosofia uma perda de tempo, todo empreendedor e todo gestor deveria levar em conta que só alcança excelência em seu negócio quem consegue filosofar a respeito da natureza e da razão desse negócio. Portanto, preocupar-se com os fins extremos de sua estratégia não é menos do que buscar o extremo de qualidade possível em todos os seus pensamentos e ações. Por que será que os profissionais que movimentam o mundo e definem quais países irão se desenvolver, que famílias vão alimentar esperanças de um futuro para seus filhos, geralmente se negam a pensar com a mínima profundidade no significado de suas próprias vidas? Por que razão os gestores do poder mais impactante do mundo sobremoderno preferem uma vida mentalmente pobre se podem ser os autores de uma realidade muito mais gratificante? O sucesso que fazem os livros de auto-ajuda e as receitas de maravilhas dos gurus renovados semanalmente, que vendem aos milhões nas livrarias de aeroportos em todo o mundo, indica que esses homens em ternos elegantes e essas mulheres poderosas em seus tailleurs de executivas não são tão bem

resolvidos como procuram aparentar. O alto investimento das empresas em oficinas de criatividade, cursos de liderança e sessões de psicodinâmica faz suspeitar que nem tudo vai bem nos mais seletos círculos do poder econômico. Conheço o caso de uma executiva que engravidou inadvertidamente num momento que, para ela, pareceu absolutamente inoportuno: promovida em meio a uma carreira brilhante, estava sendo transferida para a sede da empresa em outro país. Era a oportunidade pela qual lutara durante toda sua carreira. Era ainda jovem, solteira, e não havia possibilidade de se casar com o pai daquela criança. H a v i a ainda o trabalho, redobrado naquela circunstância em que precisava concluir uma montanha de projetos e ainda preparar a mudança. Só se deu conta da gravidez quando ela estava bastante avançada. Não teve tempo de decidir sobre um aborto até que essa medida se revelou totalmente desaconselhável do ponto de vista médico. Ela decidiu ter o filho, mas não quis ficar com ele. Não podia ficar com ele. Tinha que escolher entre a maternidade e a carreira, exatamente como as personagens da obra de Imre Madách. Então ela o deu para adoção logo após o parto. N e m olhou para o bebê. Mulher decidida. C o m o as centenas que encontramos nos aeroportos de todo o mundo, cumprindo seu papel de gestora de capitais. Olhe para os lados. Quantas pessoas capazes de decisões questionáveis como essa, do ponto de vista essencialmente humano, estão à frente das empresas? Gente assim decide para onde vão os recursos e a energia de que o mundo carece. Gente comum, sujeita a toda espécie de conflito emocional, fato real inevitável em qualquer to-

mada de decisão. N o entanto, essas pessoas fazem de conta que as decisões são tomadas friamente, seja a respeito de u m pacote de investimentos, a reforma ou fechamento de uma fábrica, um plano de carreira, o corte de postos de trabalho ou o destino de uma criança. U m poder extremo brota de cada decisão, um poder com o qual nunca sonharam os antigos oligarcas que sucessivamente retalharam e costuraram as etnias européias entre a segunda metade do século X V I I I e o começo do século X X . A diferença entre um e outro poder é que os poderosos de então tinham consciência de que representavam um processo a que chamavam civilizatório. Nossos novos oligarcas, que com um toque em seus computadores portáteis podem alterar o rumo da História, não parecem ter noção da História. Onde se perdeu o imaginário do capital desde o debate de André Morellet e Denis Diderot sobre a melhor maneira de combater a pobreza na França? Isso aconteceu entre 1770 e 1771. Morellet queria atrair capitais e empreendedores para a agricultura do país, Diderot dizia que o capital iria transformar os agricultores em comerciantes. Esse debate é um dos marcos da definição do novo sentido de "capitalista" e "empreendedor" na Europa. O ambiente era propício a mudanças: desde 1758, circulavam na França cópias das Máximas

gerais, nas quais

François Quesnay dizia que o mundo só evoluiria se houvesse muitos empreendedores. Ainda em 1771, Giuseppe Gorani defendia na Itália a educação de jovens herdeiros da nobreza para o empreendedorismo, como a única forma de garantir a sobrevivência da velha oligarquia nos novos tempos. Havia, por trás dessa agitação intelectual, a compreen-

os antigos gestores dessa organização se celebrizaram por representar inequivocamente o conhecimento e os valores mais avançados da sociedade do seu tempo. Uma das mais tradicionais empresas do ramo de comunicações e serviços passa por uma crise que o mercado considera grave. entre as gerações de gestores. Raramente alguém se refere ao fato de que os capitais há muito abdicaram de gerar u m conceito de sociedade aceitável. Era a mesma época em que a imprensa se tornava uma instituição relevante. de renovar esse conceito e torná-lo dinâmico. Quase dois séculos e meio depois. N o entanto. e na maioria dos casos o diagnóstico é a falta de visão e a incapacidade de adaptar processos e trocar tecnologias. Não estaria por trás desses fracassos uma renitente ilusão de que o direito ao poder vai sempre se renovar hereditariamente. . neste início de século. o noticiário sobre negócios dá conta do desaparecimento ou venda de empreendimentos tidos como muito sólidos. fazendo-o transitar horizontalmente na organização e. muitos empreendedores e gestores de capitais ignoram o conselho de Gorani. por determinação divina? A América do Sul assiste. M a s aconteceu que eles negligenciaram a tarefa de criar uma cultura interna baseada nos valores que defendiam.são de que o crescimento das cidades européias exigia uma nova organização dos sistemas de produção e a criação de um conhecimento específico como base para a consolidação daquele novo modelo de sociedade. a uma i n tensa troca de cadeiras. verticalmente. com empreendimentos mudando de mãos como cartas de baralho ou simplesmente desaparecendo nesse cenário de transformações radicais. Todos os meses.

Parece haver sobrevivido a convicção quase religiosa de que o gestor de capital tem uma ascendência divina sobre o indivíduo que aplica seu talento e sua energia no empreendimento. É o caso típico em que o conhecimento gerado pelo capital acaba se transformando numa armadilha que inexoravelmente abrevia a vida da organização. Também resistem a deixar a gestão da organização para não passarem para a história como integrantes de uma geração perdedora. O fato de essas idéias terem surgido sobre o pano de fundo do Iluminismo é considerado por muitos como uma possível origem da resistente tese de um suposto "direito divino" do capital. subsistem práticas típicas do século X V I I I . tornado quase em dogma religioso a partir da Revolução Industrial. o que justificaria as diferenças abissais de valor entre suas remunerações.Inglaterra. parecem ter apreendido apenas parte das idéias que brotaram na Europa e que foram compiladas em 1776 por A d a m Smith. muitos analistas duvidam da capacidade de recuperação da empresa diante de um cenário de grande competição. porque ela não tem no quadro de gestores pessoas que demonstrem ter aprendido as lições de seus fundadores. i n dividualmente. As oportunidades surgem e se perdem por causa da sua incapacidade de gerar parcerias e aprender fora do círculo familiar. que é perceptível no comportamento arrogante e socialmente irresponsável que parece a face mais evidente de grande parte dos gestores. Essa e outras organizações e milhares de gestores.Hoje. Por trás desse conceito. na. como as guerras com motivação econômica e a escravidão. Os herdeiros parecem ter ficado apenas com a postura de poder. .

Joseph Schumpeter (1883-1950) descreveu o empresário em sua imagem mais recorrente. estão produzindo exatamente a cena que ele temia: já não se pode diferenciar o empreendedor do capitalista e ambos do gestor profissional. U m exemplo: na maioria das empresas chamadas pontocom listadas entre as mais vulneráveis no ano 2002. nascidas de idéias criativas. não importando quem o exerça. diferenciando o empreendedor do capitalista. Muitas dessas organizações.Quando os estudiosos da história da civilização forem contar como surgiu e se desenvolveu a economia " d i g i t a l " no início do século X X I . . se o acionista em pessoa ou seu preposto. O poder do capital é exercido com extrema homogeneidade. a incapacidade de processar esses dados dentro de um contexto de significação torna inúteis todos os dados. Entre as causas dessa cegueira está certamente o caráter monolítico do pensamento de gestão. certamente vai causar estranheza a incapacidade dos gestores deste nosso tempo de aprender com o passado. os analistas apontavam falta de criatividade e excesso de especialistas no conselho de administração como causas principais da incapacidade da organização de se consolidar. a aceleração dos movimentos financeiros. A despeito da infinidade de informações disponíveis e da total facilidade de acesso a documentos e análises. O triunfo do capital no mundo globalizado. facilitada pela abertura de mercados e a disponibilidade de tecnologias de comunicação e protocolos mais eficientes. e advertiu que a confusão entre um e outro dos papéis poderia fazer o capitalismo "perecer do seu próprio sucesso". não fazem sentido para o público e antigas lições parecem esquecidas ou ignoradas por seus gestores.

a estratégia tende a ser menos abrangente. tecnologia. energia e confiança são tidos como motores dos empreendimentos.As advertências de Schumpeter têm sido lembradas eventualmente em análises da crise gerada por investimentos perdidos na chamada economia digital. em Wall Street e redondezas o nauseante cheiro desprendido das r u ínas do World Trade Center dava o tom mórbido da nova realidade: o contrafluxo da globalização chegou ao centro do sistema e fica clara a necessidade de buscar um novo significado para ele. Os movimentos de capital. ou até mesmo contraditórias. O impacto dos atentados em N o v a York. Washington e M a d r i cria uma oportunidade preciosa para a reflexão nessas ilhas de iguais. foi uma das principais causas de perdas e fracassos na segunda fase de expansão dos negócios na Internet. A "síndrome de Alphaville". Interesses variados e visões diversificadas. trata-se de repensar o sistema. Agora. A espiral perversa que vinha assombrando muitos analistas sofreu uma ruptura e o centro dos debates deixou repentinamente de ser a verdadeira natureza dos negócios digitais e o tamanho da quebradeira que se anunciava. Isso se torna mais claro na economia digital. caracterizada pela falta de controvérsia no ambiente dos empreendimentos. têm aparentemente o poder mágico de ampliar a abrangência do conhecimento desenvolvido no processo de empreender. Quando há carência de diversidade. embora o objetivo nem sempre seja o mesmo que motivou os debates de Morellet e Diderot no século X V I I I e os esforços de Gorani para levar a aristocracia a adotar o capitalis- . cultura. Enquanto no Pentágono se redefinia o conceito de guerra.

uma sucessão de revelações deu conta do envolvimento de grandes bancos com a movimentação do dinheiro que financiou os terroristas. é fato comprovado que as redes de terroristas e os cartéis do narcotráfico se apoiam mutuamente na proteção ao comércio mundial de drogas e no contrabando de armas poderosas que nem as polícias têm condições de adquirir. Pino Arlacchi. o juiz italiano Giovanni Falcone e seu sucessor. Mais de uma década antes desses eventos. Quantos gestores se importam realmente com a origem do dinheiro ou com a biografia do investidor? N o s dias que se seguiram aos atentados nos Estados Unidos. N o auge da euforia com os negócios na Internet. N o Brasil ou na Colômbia. resolveu se informar sobre a origem do capital envolvido no empreendimento.mo. alheio à euforia de seus parceiros. alertavam para o risco de associações entre o crime organizado e grupos terroristas. Quando apenas um desses fatores define a natureza do empreendimento. previsto para três anos após o início das operações. Suas pesquisas se dissiparam em obscuros escritórios de Bogotá e M i a m i e em nomes também encontrados no noticiário policial. sob o beneplácito de respeitáveis instituições financeiras. gestores de marketing e outros especialistas. até que alguém. os riscos podem se acumular perigosamente. O plano de negócio encantou analistas financeiros. uma conhecida empresa de consultoria recebeu para análise um projeto de empreendimento para a América Latina que anunciava investimentos de US$ 100 milhões até o lançamento público de ações. ou quando seu poder se sobrepõe de tal forma a estabelecer u m pensamento monolítico. .

Ainda segundo Schumpeter. na sua empresa. se determinasse o surgimento de novos produtos e novas técnicas de produção. a metáfora mais recorrente remete à fatalidade do destino . mas para possibilitar um futuro melhor em todos os sentidos. Ele previu também que esse processo iria significar inovação e mudança. Essa lição também parece esquecida. dependeriam também da qualidade do empresariado as diferenças nas taxas de crescimento dos países e entre períodos históricos do mesmo país. Valores culturais e históricos dos empresários seriam fundamentais nos resultados econômicos. referência a "valores históricos e culturais". ao observar que a qualidade do desempenho dos empreendedores determinaria a rapidez e a segurança do desenvolvimento. como paradigma para escolhas ou decisões importantes? Tudo isso. afinal. as advertências de Schumpeter não são muito populares entre os gestores de capital envolvidos na atual roda-viva financeira. de um ponto de vista imediato e também futurista.Schumpeter previu que o empresário jogaria um papel fundamental no desenvolvimento do mundo. Qual foi a última vez que você ouviu. Por alguma razão. é preciso que o pensamento de gestão que energiza o capital seja amplo e profundo o suficiente não apenas para melhorar continuamente o ambiente humano e físico. pode ser resumido na capacidade de criar a longo prazo um conhecimento que resulte em relações mais vantajosas para todos os envolvidos ou alcançados pelo empreendimento. ou seja. não apenas para o capital e seus gestores. N o carrossel perde-ganha das bolsas. Essa amplitude de benefícios deve se estender inclusive ao ambiente com que a organização se relaciona.

o poder principal pertencia a uma casta de sacerdotes astrólogos. Como na obra poética de Imre Madách. relata o fim do reino de Napata. que passavam as noites observando o céu: em determinada noite. porque se acreditava que só eles podiam interpretar a escritura das estrelas. que definiam a ordem. transformada em lenda na região onde hoje fica o Sudão. para manter na morte o mesmo luxo que tivera em vida. A lenda. era o dono de toda a riqueza da região. Vivia uma vida luxuosa. registrada em 1912 por pesquisadores alemães. O N a p . C . O rei podia escolher os que o acompanhariam na morte e até planejar seu funeral. no Alto N i l o . ou rei de Napata. o valor e a natureza de todos os empreendimentos.humano: vamos ganhar o máximo porque a vida é curta. A transcendência de determinados "sacerdotes" do chamado mundo liberal lembra muito a autoridade dos astrólogos de Napata: as bolsas oscilam em função de seus humores. sem que os indivíduos afetados por suas mágicas . mas a duração do seu reinado e da sua própria vida era decidida pelos sacerdotes. só eles podiam dizer quais iniciativas tinham chance de ser bem sucedidas. invadiu o templo com seus soldados e executou os sacerdotes. deu origem ao conto das Mil e uma noites. Portanto. A prática foi extinta quando o N a p Ergamenes. que havia sido educado na cultura helénica. QUEM MANDA? A cena lembra um episódio histórico cuja versão. a configuração das estrelas diria que o rei devia ser sacrificado e outro escolhido em seu lugar. conhecida por suas jazidas de ouro e cobre. onde. até por volta de 200 a .

não importando a obra de cada um deles. de que um dos primeiros produtos desse tipo lançados na América do Sul. seus exercícios de futurologia. de "boato com grife". N o meio de um dia qualquer. seus "cenários". ele respondeu. tal a sua fragilidade à manipulação. era chamado. está ade- . Há pouco tempo. publica como lei suas teses. então. um gestor consciente de seu papel. "Influenciar". São co-irmãs de instituições acreditadas como avaliadoras dos negócios alheios.sejam informados do real fundamento de suas autoridades. A mídia elege seus gurus e. em pouco tempo esse informativo e muitos outros. cujos centros de decisão e interesse são completamente obscuros. atuando como consultor de estratégia para Internet junto a um banco que pretendia abrir um site de orientação para investidores. ainda nos primórdios da Internet. que enxerga muito além da anatomia de resultados. se transformam em fonte segura para decisões estratégicas de milhares de gestores. sem qualquer restrição. Agências de análise de risco são acusadas de fraude em uma página do jornal e na página seguinte têm suas análises publicadas e levadas a sério. porções significativas de riqueza desaparecem no rastro de r u mores cuja origem se perde na profusão de sites dedicados à "análise" de questões tão variadas quanto a liquidez de investidores japoneses e uma greve no porto. em alguns círculos. Qual o valor real desse tipo de informação? Que conseqüências isso pode produzir além dos muros da empresa? O que é que pode defender o gestor do risco representado por essas fontes? Certamente. Lembrei-me. perguntei ao diretor da instituição qual era seu propósito. Observe os nomes de instituições apontadas como coniventes nos escândalos da Enron e da WorldC om. N o entanto.

um pano de fundo formado por valores e significado. por incapacidade de avaliar os riscos reais. incorrem em erros estratégicos — às vezes fatais para a organização — são geralmente aqueles que desejam levar vantagem em tudo que fazem. Os políticos apanhados em situações de escândalo são sempre indivíduos vulneráveis à bajulação. M a s a organização toda e. não está disponível em sites de dicas ou no noticiário em tempo real sobre o movimento das bolsas ou a oscilação do câmbio. não são apenas pessoas simplórias: são sempre indivíduos vulneráveis à tentação de ganhar um dinheirinho fácil. As pessoas que caem no conhecidíssimo conto do bilhete premiado. instrumentos para ações de curto prazo. mas o essencial mesmo é ter consciência de que só o conhecimento bem fundamentado permite tirar valor das informações. Os movimentos mais importantes são informados por uma tela anterior. importante estar sempre bem informado.quadamente vacinado contra os palpiteiros online. Os gestores que. mais cedo ou mais tarde. ferramentas. sobre a qual as informações precisam ser projetadas. por extensão. u m clássico da malandragem em praticamente todos os cantos do mundo. Isso são dados. o conhecimento não brota das telas de computador. Você conhece a origem das informações que seleciona para tomar suas decisões? Você tem consciência dos objetivos e conseqüências de cada decisão que toma? . a sociedade em que se encontra e a partir da qual se lança para todo o sistema. Essa será provavelmente a melhor defesa contra tentações que invariavelmente se revelam como processos de perdas. precisam desenvolver como vacina u m estado de não-ambição por ganhos desleais.

QUANTO TEMPO VOCÊ DESTINA POR SEMANA PARA SIMPLESMENTE FILOSOFAR SOBRE O "NEGÓCIO AO QUAL SE DEDICA? 2.Para refletir: 1. SEU PAPEL N O MUNDO? Q U A L VAI SER O SEU LEGADO? C O M O VOCÊ ACHA QUE AS PESSOAS VÃO LEMBRAR DE VOCÊ? . QUANTAS SOLUÇÕES PARA PROBLEMAS ROTINEIROS OU CHOQUES DE DESCONTINUIDADES VOCÊ TERIA SE HOUVESSE MEDITADO MAIS SOBRE SI 3.

Inúmeras lendas. A lembrança de histórias antigas como a do N a p de Napata pode nos proporcionar . de modo que possa entender o mundo em torno. mitos e rituais permitem ainda hoje reproduzir o modo como os primeiros habitantes conscientes deste planeta interpretavam a si próprios e o Universo. procurando imitar a natureza nos processos que criavam.IV—Sociedade sem rodas Lembre-se: o ser humano cria conhecimento como uma forma de estabelecer uma ordem nas coisas. de modo que os ciclos de sua existência não contrariassem os ciclos cósmicos. Desde antes da História. os primeiros grupamentos humanos estipulavam valores para tudo que podiam perceber.

pode nos ajudar a entender por que os gestores neste início de século insistem em se apropriar apenas para fins de curto prazo dos conhecimentos científicos ou históricos amplamente disponíveis. de mudanças radicais e instantâneas em tecnologia e conhecimento científico sobre um painel de sistemas conservadores e morosos nas relações de poder: quanto das recentes descobertas científicas é usado como base para novas ferramentas ou até mesmo novas estratégias de gestão? Que estratégias envelhecidas.. baseadas em pressupostos de controle e poder superados. marcado por disputas territoriais. Para ele o automóvel significava a guerra. . o escritor e jornalista León Daudet fez circular u m panfleto intitulado L 'automobile c ' est la guerre. pior para a realidade.reflexões interessantes sobre o momento que vivemos. porque uma nova e impactante tecnologia. porque ela será devastada como em tempo de guerra. Se a realidade social não está madura para o avanço tecnológico que se apresenta. grandes mudanças na economia e recrudescimento dos sonhos imperialistas na Europa. Daudet alertava para o impacto que o automóvel exerceria no mundo do seu tempo. analisado por Walter Benjamin num artigo intitulado "Teorias do fascismo alemão". não encontrando no meio social u m espaço que justifique sua necessidade. acabará forçando sua consolidação à força e à revelia do bem-estar social. em Paris. ainda atrapalham a evolução das instituições humanas? O que vale para a História vale para as ciências em geral. recusando-se a aprender as lições mais profundas que as mudanças oferecem. quando o mundo se admirava com as i n venções expostas na Feira de 1900. J á no início do século X X . Nesse texto.

A falta dessa visão de futuro deixou cicatrizes em praticamente todas as civilizações. e a possibilidade do contrabando de pequenos artefatos nucleares e bombas químicas para grandes cidades do Ocidente. também chamada Tadmur. por volta do ano 500 da nossa era. ainda hoje é refratário a valores aceitos universalmente como "civilizados" em função de algumas decisões aparentemente locais e temporais. na Síria. O potencial das armas atualmente disponíveis. era o posto principal da Strata Diocletiana. mas certamente nenhum dos imperadores que reinaram até o século passado teve tanto poder quanto os gestores das grandes corporações do nosso tempo. foram promotores do massacre de 8 milhões de jovens na Europa. Palmyra. U m a dessas decisões foi tomada na colônia romana de Palmyra.Inevitável a comparação com o nosso tempo: a tecnologia que permitiu a criação da Internet já dividiu o mundo entre internautas e os outros. O mundo árabe. por exemplo. dão uma medida de onde essa escalada pode acabar. exatamente como os chefes de Estado e senhores da guerra que. que em última instância restringe o próprio mercado. construída num oásis a cerca de meio caminho entre o Mediterrâneo e o rio Eufrates. Gestores insensíveis às conseqüências sociais de suas decisões simplesmente procuram tirar proveito da circunstância. criando para os primeiros u m horizonte muito mais amplo de desenvolvimento pessoal e relegando os sem-computador a uma perspectiva mais limitada. que ligava o mundo . em todos os tempos e por toda a face do planeta. U m sistema de gestão voltado exclusivamente para os resultados financeiros não tem como alterar essa tendência. entre 1914 e 1918.

o camelo fosse predominando na Strata Diocletiana. Após longa pesquisa. E m pouco tempo. enquanto um carro de bois levava 545 quilos. Até que um dia começou a decadência. ou seja. também deixaram de existir os artesãos especializados na manutenção de rodas e eixos. levando ao desaparecimento do carro de bois. em determinada época. pela estrada pavimentada. especialista em civilização árabe antiga.romano à Mesopotâmia e ao Oriente. Bulliet calculou as cargas úteis dos dois sistemas de transporte e concluiu que um camelo podia carregar em média 272 quilos em trajetos não muito longos. carros de boi e caravanas de camelos. Bulliet encontrou a origem dos problemas de Palmyra numa decisão sobre a política tarifária: a cidade ficava no maior oásis em todo o trajeto da Strata Diocletiana. somada ao maior custo de manutenção do carro e de duas ou mais juntas de bois. o que cortou a possibilidade de aperfeiçoamento daquela tecnologia de transporte. Segundo o historiador Richard Bulliet. todos os mercadores tinham de pagar um pedágio e. fez com que. mas teria que pagar por quatro. os gestores decidiram que um carro de boi pagaria o mesmo que quatro camelos. Palmyra cobrava impostos de todas as mercadorias que cruzavam a cidade e viveu um largo período de prosperidade. Essa política tarifária. um carro de bois levava o mesmo que dois camelos. C omo os camelos podiam trafegar em praticamente qualquer terreno. . progressivamente. a manutenção da estrada deixou de ser necessária para a maioria dos mercadores e a própria via desapareceu rapidamente. Trafegavam igualmente.

ou reflita um pouco sobre quão profundamente pode mudar toda uma cultura. As decisões estratégicas que envolvem tecnologia começam muitas vezes viciadas. quando suprimimos dela a possibilidade de evoluir num aspecto fundamental como a rapidez dos deslocamentos. N o ano 634. que impuseram restrições à atividade dos "infiéis". pela simples razão de que os responsáveis pela definição da estratégia não conhecem suficientemente as alternativas tecnológicas. ou pode-se esperar mais crise e rupturas a médio prazo? Para ter uma idéia da responsabilidade sobre as decisões que tomamos. pense na possibilidade de viver numa sociedade sem rodas. como conseqüência das escolhas dos atuais gestores. há u m processo de continuidade à frente. a influência romana foi suprimida e a decadência econômica se seguiu ao isolamento. ESCOLHAS Pare um pouco e olhe em volta: que conseqüências os atuais gestores estarão produzindo para o futuro com as escolhas que fazem? Que definições já estão consolidadas pelas escolhas feitas nos últimos anos? Há uma sociedade melhor. a cidade foi tomada pelos muçulmanos. Durante os m i l anos seguintes. só vindo a fazer parte do conhecimento daquele povo na alvorada da modernidade.É inevitável que a cultura árabe tenha sofrido influências profundas até hoje em função daquela decisão dos gestores do sistema tributário de Palmyra. até mesmo a palavra para designar um veículo sobre rodas desapareceu da língua árabe. O u fazem a esco- . quando os europeus começaram a construir ferrovias na região.

usando até mesmo fornecedores comuns. que se repetem anualmente pelas principais cidades do mundo e formam um universo muito fechado em si mesmo. para o empreendimento. o jogo que antecede as decisões mais importantes imita artimanhas como espionagem. Velhas raposas dos negócios se especializam na prospecção de piano-bar. muitas vezes amarrando todos os processos e definindo o rumo que a organização vai tomar no futuro próximo. são presas fáceis por causa da carência de reconhecimento dentro da organização e sua pressa natural por consolidar a carreira. pois. dissimulação e outras práticas de guerra e política anteriores à Idade Média. determinando o que deve ou pode ser comprado e de quais fornecedores. explorando a vulnerabilidade de gestores vaidosos e o natural relaxamento dos fins de tarde. financiados para oferecer propostas atraentes. Eles se tornam um poder paralelo nas organizações. onde os executivos se reúnem após as sessões de trabalho e conferências. As cortes de especialistas que se transformam em gestores são muito visíveis em todos os congressos de tecnologia.lha com base em premissas equivocadas. Gestores com perfil técnico. principalmente quando muito jovens. com o único objetivo de obter informações relevantes. em vez de procurar conhecer sua própria organização e fortalecer sua própria cultura . Empresas altamente competitivas conseguem antecipar os passos dos concorrentes simplesmente monitorando as viagens de executivos. Jogos como esses formam a base de muitas decisões que ao longo do tempo se revelam grandes desastres . Embora estejam em questão produtos altamente sofisticados e quase sempre altas somas de investimento.

não apenas entre a organização e seus clientes. os gestores preferem atuar em tabela com supostos concorrentes. A atitude é comum em todo tipo de relacionamento. mas também com fornecedores e funcionários.8 bilhões. Uma relação nascida numa sólida e clara escala de valores. Quando falta à empresa uma coluna vertebral de valores. desde os lobbies junto ao governo até a comunicação com o cliente. Segundo a A M R Research. proliferam os malabarismos de marketing. Quanto dessa tecnologia é gerenciada de modo a produzir u m conhecimento relevante sobre as necessidades e desejos do cliente como indivíduo e não como mero consumidor? Que inteligência é aplicada ao uso dessa tecnologia? . ao contrário. U m exemplo: a mania dos brindes que se tornou comum na imprensa durante a década de 1990 foi uma das causas da desvalorização da mídia jornal. O leitor compra um jornal que custa cinqüenta centavos de dólar e recebe um brinde que supostamente vale cem vezes mais. que deveriam orientar a formação de uma cultura apropriada à criação e compartilhamento de conhecimento. flui naturalmente e produz rapidamente uma profunda fidelidade. Inevitável que passe a julgar que o jornal vale exatamente nada.pela criação de conhecimento adequado. A questão se torna mais importante quando se revela que 74% das empresas em todo o mundo destinaram em 2001 entre 3 0 % e 5 0 % mais recursos do que no ano anterior para as tecnologias de gerenciamento de relações com o cliente ( C R M ) . em 2004 esse volume alcançou a cifra de US$ 10. empresa americana de pesquisa de TI. as promoções novidadeiras que na verdade pouco ou nada inovam no relacionamento.

C R M não é atendimento ao cliente com qualidade. segundo analistas europeus. excludentes. segundo observam analistas da -Consulting Corp. . e que não havia perspectiva de melhorar esse resultado nos doze ou 18 meses seguintes. as organizações tentam se apropriar das tecnologias emergentes. nem simplesmente relacionamento ou segmentação de mercado. parceiros e outras interfaces. M a s ao mesmo tempo evitam encarar seus problemas reais. não fora capaz de elaborar uma estratégia para sua aplicação. portanto. muitas vezes arraigados em costumes tão nocivos ao relacionamento interno e externo que não podem sequer ser abordados espontaneamente pelos executivos. ou seja. um número significativo de empresas parecia entender. mas como um departamento de interface com o cliente. Por duas razões fundamentais: a maioria das empresas não tinha objetivos claros ao implantar a tecnologia e. conservadores. que antes de adquirir a tecnologia era preciso desenvolver capacitações em marketing de relacionamento. mais de dez anos depois de consolidada a rede mundial de computadores. Somente em 2005.A resposta: uma pesquisa realizada no segundo semestre de 2001 pelo grupo americano Giga Information revelou que nada menos do que 70% das aplicações dessa solução estavam destinadas ao fracasso. não favorece o entendimento de um recurso como o C R M de "maneira globalizada". Uma cultura que produz comportamentos arrogantes. A maior parte das empresas se havia apropriado da tecnologia sem antes entender qual era o resultado possível. Segundo esses analistas. também não havia nas empresas uma cultura voltada para a valorização do relacionamento com clientes.

com o fortalecimento da chamada rádio-peão. na maioria dos casos. Pura desengenharia. Tratase de um recurso "ecológico". produziu após uma década pouco mais do que mão-de-obra para demolidores. mas as muralhas foram reforçadas na horizontal. por conseqüência. foi a criação de uma casta de gestores mais próximos à alta direção das organizações e o isolamento de gestores intermediários junto à base da pirâmide. DESENGENHARIA A falta dessa cultura tem causado muitos estragos no ambiente dos negócios e. A s paredes foram rompidas na vertical. C o m o conseqüência. em última instância. a confiança se reduziu e os problemas de comunicação se agravaram. foram sendo progressivamente afastados dos núcleos de decisão. inaugurada com a onda da reengenharia nos anos 1990. É tudo isso e algo mais que a organização pode descobrir a partir do entendimento de que precisa — com essa tecnologia ou qualquer outra que venha a surgir — desenvolver a filosofia da integração com seu ambiente social e econômico.comunicação dirigida ou estratégia de fidelização. O que se observou. A mania de "quebrar m u r o s " . que tradicionalmente traduzem para a base os propósitos da alta d i reção. os gestores intermediários. Uma das empresas líderes na veiculação de propaganda na Internet tem revelado seguidamente que metade dos acessos ao seu site é direcionada por informações boca-a-boca entre os internautas. na sociedade. Por conseqüência. isolando os executivos no alto de suas torres. que representa a ausência de controle por excelência. o que garante a chegada de novos clien- .

compondo todo tipo de forças-tarefa para decidir sobre a compra de tecnologia. na base dela. mas não assegura sua fidelidade. muitas vezes as empresas criam comitês formais ou informais entre suas unidades. Isto é: o ganho mais valioso pode não vir do projeto em si. e ao valor potencial que esse conhecimen- . Organizações atentas à criação do conhecimento de origem diversificada. quando não existe o compromisso com a criação de um conhecimento que seja mutuamente benéfico. Também no ambiente interno das organizações. a escolha de fornecedores e mudanças de processos. como seja transmitido aos clientes externos e fornecedores. acaba tornando mais permeáveis as divisórias da organização à passagem das informações. mas da criação de uma nova cultura. pelo simples contato entre profissionais de perfis variados que se agregam em função de objetivos comuns e claramente definidos. Esse processo é gerador de conhecimento em alta escala. a confiança que se forma quando existe a percepção de que a relação está produzindo conhecimento valioso para todas as partes. a comunicação oficial da empresa dirigida aos clientes externos se torna menos acreditada quando não há. D a mesma forma. Para aumentar a interatividade com os clientes. a despeito de inicialmente produzir alguns conflitos pelos choques de egos e pela necessária e natural fase de ajustamentos de poder. a força de trabalho acaba dando mais crédito às comunicações informais do que aos memorandos eletrônicos via Intranet. O ideal é que ele não apenas se torne dinâmico e agregado à cultura da empresa. Essa convivência de especialistas variados. Mas são raros os casos em que esse conhecimento sobrevive aos projetos específicos.tes.

quanto de conhecimento gera e. fora de contexto. correm o risco de entulhar seus bancos de dados com lixo cultural e contaminar seus cérebros com premissas superadas. o sistema das hierarquias de conhecimento deu origem à cultura de artimanhas copiadas dos gurus da auto-ajuda. Organizações não habituadas ao trânsito livre de informações e à criação de conhecimento tendem a reter informações como se valessem por si mesmas.to agrega a todas as suas operações e às relações internas e externas. D a mesma forma. U m questionamento simples que coloque sob suspeita qualquer de suas crenças pode enchê-lo de insegurança. como o mundo árabe após a eliminação do carro de bois. a comunidade organizacional perde elementos essenciais de conhecimento. quando pode ser descartada. Quanto tempo uma informação leva para ser absorvida. a partir de premissas falsas. principalmente. A falta do hábito e de coragem para o livre-pensar pode levar u m gestor a dirigir toda sua vida. Isso decorre de elas serem capazes de desenvolver uma noção clara e intuitiva da equação formada pela informação e o tempo. são chamadas por alguns estudiosos de organizações sincronizadas. profissional e pessoal. E m pouco tempo. C o m isso. C o m o você reagiria a uma crítica direta a uma obra ou autor que você aprendeu a admirar? Por exemplo. pode-se afirmar — e sustentar com números — que " a grande massa dos gestores aprendeu a idolatrar personalidades que se celebrizaram por produzir o desemprego em massa durante a recessão americana dos anos . cujos livros fazem grande sucesso entre os gestores e acabam determinando comportamentos altamente homogêneos e pouco tolerantes à crítica.

pela clara tendência ao isolamento do todo social e à falta de estratégias que contemplem a totalidade. Diz-se que suas ações corajosas no sentido de fechar ou vender empresas fortaleceram o sistema. isoladamente". citado como autor de uma revolução no universo dos negocios. Onde estava a segurança dos princípios com que tomam suas decisões? Não há dois jack Welch que possam ser comparados. presidente da G . Para refletir: 1. e não apenas a organização ou o setor. Essas afirmações. CORAJOSAS DO QUE AS . em meados de 2001. feitas por um estudioso das organizações diante de um grupo de executivos reunidos em São Paulo para uma palestra. independentemente de uma análise distanciada sobre a realidade que ele teria construído com estratégias opostas à que utilizou. Os holofotes se dirigem para os sobreviventes. E . N A S CIRCUNSTÂNCIAS E M QUE ATUA. para que se faça justiça à sua biografia.1980. D a soma de milhares de empresas e gestores com esse perfil resulta um sistema altamente vulnerável. e dissociando-se o resultado obtido por suas decisões após vinte anos. M a s . e os milhões de sacrificados ficam na zona de sombra da História. deixou-os completamente desconcertados e atônitos. como Jack Welch. V O C Ê PODE PENSAR MELHOR DO QUE ARISTÓTELES. a mídia que se encarrega do mundo dos negócios quase sempre ignorou as restrições ao valor moral de muitas de suas medidas. como no ato de podar uma árvore. VOCÊ PODE TOMAR DECISÕES PROPORCIONALMENTE MAIS ADMIRÁVEIS QUE CELEBRIZARAM JACK W E L C H . candidatos ao triunfo sob essa perspectiva.

NESTE MOMENTO. DE BATE-PRONTO. INFORMAÇÕES ESSENCIAIS À SUA ORGANIZAÇÃO? QUANTAS VEZES VOCÊ PRIVILEGIOU " C A M E L O S " QUE NÃO AGREGAM VALOR. E M QUE NICHOS DA E M PRESA PODERIAM ESTAR SENDO ESCONDIDAS. E M FUNÇÃO DE U M A APARENTE VANTAGEM N A RELAÇÃO CUSTO-BENEFÍCIO? .V O C Ê SABERIA DIZER. E M DETRIMENTO DE " CARROS DE B O l " POTENCIALMENTE VALIOSOS.

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às relações sociais ou à produção. O maior programa que .V—A linguagem de Babel U m aspecto inquestionável da cultura sobremoderna. é que os eventos mais importantes. como se a humanidade. sejam vinculados à educação. De fato. Todo o avanço esperado para as ciências depende cada vez mais da capacidade dos seus agentes de dominar com maestria essa linguagem comum. se desenvolvem atualmente sobre a plataforma de uma linguagem única. todos os idiomas tendem a se compor em torno da linguagem da computação. estivesse reconstruindo a utópica torre de Babel. enfim. comum a todos os povos i n cluídos nos processos produtivo e decisório mundial.

N o entanto. numa versão oposta. um número assombroso de informações. este é o momento em que o homem se encontra mais próximo de possuir instrumentos mais capazes do que ele de processar informações. A linguagem comum proporciona a seus praticantes um nome e uma identidade — como se diz no Gênesis do povo que construiu a torre de Babel —. especula-se sobre o futuro da humanidade. Nessa linguagem. Nos degraus dessa torre virtual se desenvolve o conhecimento que está criando um mundo completamente novo.alguém pode construir tem cerca de dez milhões de linhas de código. N a base da torre. que a cada dia estende em bilhões de quilômetros nossa capacidade de bisbilhotar o universo exterior. Estamos num ponto muito interessante da história humana: desde que o primeiro hominídeo usou um pedaço de pau para se defender ou arrancar do chão uma raiz comestível. e uma dezena de bilhões de linhas de código formam a medida da complexidade de um cérebro humano. e seus praticantes ainda sabem pouco das novas fronteiras que se abrem para o conhecimento e para o papel que a humanidade virá a cumprir no Universo. E. Eles apenas desconfiam do grau de complexidade que suas escolhas representam. a biologia é definida como um manual de instruções de três bilhões de letras chamado Genoma. a natureza humana mudou pouco em relação ao avanço da ciência e nossas sociedades ainda vivem mergulhadas em conflitos tenebrosos. reduz em micrômetros nossa capacidade de enxergar o interior de nós mesmos. . N o topo dessa torre de conhecimento se eleva uma antena cósmica. e sabem que elas não são proporcionais ao nível das transformações que essas escolhas irão produzir.

N o s meios produtivos. Finalmente. pelo fato de se tornarem disponíveis também fora dos círculos de poder. onde se esperava o fim de antigos monopólios e oligopólios. o que se vê é a apropriação da tecnologia para a manutenção do status quo. com o menor risco possível. Não se trata de uma tecnologia revolucionária em todos os casos. ainda está por surgir uma configuração social equivalente ao desenvolvimento científico em termos de produtividade. detentoras desses instrumentos tão poderosos. E m geral. porque a tendência das organizações dominantes nos mercados é agregar valor a estratégias consideradas vencedoras. essa tecnologia também se tornou fundamental para a abertura do comércio internacional e para o surgimento de instituições globais e a reconfiguração geopolítica do mundo. O avião. o que aconteceu de fato foi que a Internet e suas congêneres derivadas da mesma raiz Kybernáos têm sido aplicadas como instrumentos comple- mentares a tecnologias tradicionais. inventado na alvorada do século X X . A revolução anunciada pela Internet ainda não aconteceu. foi apropriado imediatamente pelo poder militar. quando havia se consolidado como instrumento predominantemente pacífico de transporte. Mesmo nas culturas tidas como mais avançadas. sabe-se que tecnologias com grande potencial de transformação cedo ou tarde acabam por impor novas regras.muitos dos quais de origens tão primitivas quanto a disputa pelo fogo ou o nome de uma divindade. segurança e bem-estar. ajudando a ampliar a percepção de mundo de milhões de pessoas. Quando estava madura para servir a viagens transcontinentais. funda- . eficiência. N o entanto. mas também começou a operar nos serviços de correios.

revelam uma propensão a discordar do establishment e a adoção de expressões de espíritos progressistas. mas sobram indícios de sua propensão a preservar a diversidade e valores como pacifismo. capazes de comprometer setores da economia. Faltam pesquisas sobre o universo desses semideuses que constróem as carruagens do futuro. Há o risco. no entanto. N u m possível espectro que os contraponha aos semi-deuses da economia dos anos 1980. E m geral. Pouco se sabe sobre o embrião de cultura que se desenvolve na nova torre de Babel. nos ambientes de interação conhecidos como blogs — expressão que poderia ser traduzida livremente como "registro alternativo" —. os yuppies. democracia e bem-estar. alguém que pretendesse ser aceito entre intelectuais precisaria ser versado em latim e grego. como a própria aviação comercial. as manifestações mais livres desses profissionais e pesquisadores. o avião foi novamente transformado em arma de destruição em massa de vidas humanas no dia 11 de setembro de 2001. impactada pelos sequestros seguidos de atentados.mental ao processo de globalização. NOVA LÍNGUA CULTA Há duzentos anos. N o . u m maior grau de tolerância e um sentido mais intrínseco de respeito à liberdade. de que o sistema perverso de acumulação e exclusão leve a uma situação de confrontos localizados ou generalizados. eles se colocam num arco exatamente oposto ao do individualismo vencedor e indiferente ao sofrimento alheio. mas há sinais de que apresenta como características genéricas a universalidade. que caracterizava os heróis da economia no último quarto do século X X .

quando se tornou madura a era da informação. feita ainda antes dos atentados em N o v a York e Washington: após haver colocado sob risco a capacidade do planeta de sobre- . quando me ocupava em pesquisar a origem de expressões que definem a cultura da gestão neste contexto de revolução do conhecimento. a propor uma nova expressão para a idéia de capitalismo natural. era preciso falar francês para ser levado a sério como literato. Recentemente. para consolidar a era do conhecimento e abrir a perspectiva da era da consciência. desenvolver a linguagem da consciência social. As explosões no Wor ld Trade Center. ficou claro que para participar plenamente da sociedade seria fundamental conhecer a natureza da linguagem digital. as reservas naturais da biosfera e — numa extensão futura — as reservas dos corpos celestes passíveis de colonização humana. no Pentágono e em M a d r i parecem indicar que. N o final do século passado. Ingressamos rapidamente na era do conhecimento. jovem diretor de pesquisas do Rocky M o u n tain Institute. contida no célebre trabalho do instituto. diante do avanço das ciências. ou saber alemão para filosofar. Ele queria uma expressão que significasse um sistema econômico no qual. fui desafiado por David Tayne. precisaremos todos.começo do século X X . Tayne exprimia a constatação de seus pares. e principalmente os gestores de todos os níveis e em toda espécie de instituição. enquanto as reservas de inteligência e criatividade humana pudessem ser exploradas ao máximo. tivessem garantia plena de preservação e de recuperação. na medida em que o mundo aprende que a informação precisa ser contextualizada para agregar valor.

muito além disso. com mais igualdade de oportunidades. A expressão "capitalismo natur a l " . Era preciso buscar. é necessário o pressuposto de que todos os programas serão escritos tendo como objetivo a expansão democrática dos benefícios da atividade econômica. portanto. controlar os processos e realimentar nossa capacidade de aprender. O termo mais próximo a que cheguei passava muito longe da palavra capital e seus derivados enquanto. também me mantinha distante de expressões associadas a energias coletivas de mudança. Por todas as vias em que tentei abordar o problema. Além disso. o embrião de novos sistemas pelos quais não apenas iremos produzir. o modelo econômico que adotamos chegou ao estágio em que a própria sociedade humana é colocada em risco. vai depender em grande parte da capacidade dessa nova linguagem de propor expressões claras. criada pelo instituto. Ficou claro que um novo sistema econômico que venha a substituir o modelo vigente. num outro extremo. respondia apenas a uma parte da equação. . A linguagem de Babel é. políticos e sociais em novas bases. M a s não apenas expressões — essencialmente recursos e instrumentos pragmáticos — para a construção de relacionamentos econômicos. de devastação de recursos naturais e degradação de recursos sociais e humanos.viver a tantas agressões. as equações resultantes exigiam a análise da linguagem de Babel. um modelo que significasse também a preservação da capacidade humana de constituir uma sociedade melhor para todos. como socialismo e congêneres. mais aceitáveis do ponto de vista da consciência social. e de continuar oferecendo abrigo às mais variadas formas de vida.

E . pelo fato de a empresa ter origem na Península Ibérica. na mídia. além disso. o setor financeiro em relação à indústria etc. de risco — de cada operação dessas. antigas . que compõem o dia-a-dia das organizações? Os objetos de informática geram como subproduto uma visão mais ampla de todos os procedimentos. Quanta energia é gasta na administração da desconfiança? Q u a l o grau de incerteza — portanto. a despeito de grandes esforços em campanhas institucionais e do investimento sincero em ações de responsabilidade social. Ele pretendia que. MODELOS MENTAIS M a i s ou menos no mesmo período em que comecei a trabalhar no desafio do R o c k y M o u n t a i n Institute. Aliás. colhia má-vontade na população em geral e nos principais formadores de opinião da sociedade. como profissional de comunicação envolvido com educação de executivos. sua empresa ainda sofria preconceitos. o entretenimento em relação à educação. especialmente. o que deverá alimentar os estrategistas com uma percepção progressivamente maior do alcance de suas escolhas. como o setor de transportes em relação à qualidade da vida urbana. tente calcular quanto do tempo útil da sua empresa é gasto no relacionamento com bancos. Suspeitava que.Também poderá se constituir num meio de evitar que a busca de resultados em determinado setor venha a colocar sob risco os ganhos da humanidade em outros setores. eu o ajudasse a entender por que razão. um diretor de uma das novas empresas de telecomunicações atuantes no Brasil me questionou a respeito da imagem persistentemente negativa que sua organização produzia na população em geral e.

parceiros e colaboradores. desconfio. ambos os lados. os modelos mentais de uma organização são muito influenciados pela cultura de negócios reinante no seu país ou região de origem e irão formar o estilo que essa organização carregará em suas relações no mundo globalizado. nem chegou a entender a razão da minha presença ali. estava muito empenhado em fazer decolar minha carreira solo. a chance de uma parceria mutuamente benéfica. Fui recebido pela diretora de recursos humanos. cerca de dois anos antes. os recursos tecnológicos podem agravar a percepção de características negativas por parte de clientes. Não consegui conduzir a conversa em tempo suficiente para chegarmos à mesa do almoço: ele estava tão preocupado em expor os limites estreitos de tolerância estabelecidos pela matriz ibérica que. Notei que o vice-presidente não fora avisado de que eu não concorria a um cargo nem estava vendendo consultoria — acabara de acertar um trabalho exclusivo com uma empresa localizada no mesmo conjunto de torres da região sul de São Paulo. Aplicados sobre esse cenário. Porém. Lembrei-me de um contato absolutamente desagradável que havia tido com um de seus colegas da corporação.feridas do período colonial geravam má-vontade e rancor no mercado sul-americano. por um simpático diretor de operações e um vice-presidente encarregado daquela unidade. e aceitara o convite para um almoço no qual estudaríamos uma possível convergência de interesses. Fora convidado a disputar um cargo numa das empresas do grupo. imagino. Saí dali com uma desculpa e perdemos. Certamente. . quando eu oferecia consultoria de estratégia para inserção de empresas no ambiente da Internet.

da Rússia e da América L a tina. O caso da empresa aérea que se valeu dos serviços de um governo ditatorial para destruir a concorrente é bastante conhecido. . como em algumas economias emergentes da Ásia. Por outro lado. haverão de carregar determinadas características que podem gerar interpretações desfavoráveis no mercado. porque. se essa aura de antipatia prejudica os resultados. Pode ser também o caso de algumas corporações que se desenvolveram à base de propinas. na hipótese de um recrudescimento da competição ou mesmo em condições de oferecer vantagens aos clientes. pelo menos. a percepção negativa de sua presença no mercado sempre tenderá a alimentar sua rejeição pelo consumidor. correm riscos a longo prazo. considerando-se que a maioria delas nasceu sob o protetorado e dependente de um poder ditatorial fortemente ligado a pressupostos religiosos. O u . COLHENDO FRUTOS PODRES Organizações com histórias pouco edificantes não se l i vram desse estigma com estratégias de comunicação convencionais.Empresas oriundas de países caracterizados por u m capitalismo tardio. Pode ser o caso de algumas organizações que vicejaram na Península Ibérica. nos setores de maior senso crítico e entre os formadores de opinião. elas têm a oportunidade de se valer da tecnologia para produzir rapidamente relações mais amigáveis com o mercado. em períodos de alta incidência de corrupção nos governos de seus países. nos quais os empreendedores eram ungidos como na monarquia ou precisavam prestar vassalagem e concordância ideológica com o poder central.

os gestores da tecnologia de informação podem se tornar agentes para essa mudança. Mohanbir (ou Mohan) Sawhney. É preciso juntar os dois setores para que se eduquem mutuamente. nos Estados Unidos. do outro lado.Os momentos de ruptura e descontinuidade. Funcionarão como sensores junto a fornecedores. mas também a linguagem. que é a metáfora destes tempos de globalização. Temos no ambiente dos gestores de tecnologia não apenas o conhecimento técnico. como aqueles produzidos pelo impacto de novas tecnologias. C omo habitam um universo muito particular e interativo e dominam a linguagem multicultural de seus programas. a necessidade de dar à organização a capacidade de adotar o estilo mais adequado a cada mercado em que compete. Quem pode educá-los para essa mudança são os gestores profissionais de comunicação corporativa e os consultores de desenvolvimento profissional. de um lado. Assim. defende o uso da "sincronia transparente" como forma de . são sempre oportunidades para mudanças de cultura. parceiros e clientes nos ambientes tecnológicos que freqüentam. por não juntarem os dois universos capazes de impulsionar a mudança. tecnologias avançadas que podem liberar o gestor das tarefas de controle de processos e. professor de comércio eletrônico e tecnologia da Faculdade Kellogg da Northwestern University. num cenário em que temos. observa que a arrogância da tecnologia pode levar empresas a repetir erros já superados. parece muito claro que muitas das ações de comunicação estão assentadas em bases pouco produtivas. Temos no ambiente dos comunicadores a habilidade para fazer a empatia com os pontos mais sensíveis ao contato com a sociedade.

Seu êxito. Não é difícil . A percepção do educador brasileiro Shigueharu M a t a i . Eles se tornam celebridades no mundo dos negócios sem que ninguém conheça ao certo quais são seus princípios e valores. em que um êxito instantâneo pode gerar paradigmas universais. U m dos mais reluzentes entre esses personagens declarou numa entrevista algo como " a percepção de que você ganhou mais um bilhão de dólares está no tamanho maior dos seios das suas mulheres e na velocidade do seu carro". nem que lições tirar de seu aparente sucesso. baseado em resultados de curto prazo. e sem levantar suspeitas sobre suas reais habilidades como gestor. que o levou a incluir disciplinas de humanidades no currículo dos tecnólogos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. A falta dessa coesão provavelmente está na origem de u m fenômeno que Michael Porter. A rapidez das mudanças torna também mutantes os modelos a seguir. Detalhe: muitas publicações de negócios repetiram sua assertiva sem questionar a grosseria evidente que contém. A questão dos valores se torna ainda mais crucial no atual ambiente de negócios. é outra pista que aponta para a conveniência de integrar a tecnologia de informação com as competências de comunicação potenciais ou disponíveis na empresa. professor na Universidade Harvard. é uma ameaça à permanência da empresa no rol das vencedoras. observou em líderes de muitas organizações cuja ascensão tem sido tão rápida quanto é instável sua permanência. porque o líder não é capaz de personificar u m exemplo a ser seguido por seus colaboradores ou admirado por seus clientes.quebrar a cultura dos "segredos de fábrica" e a ideologia do "levar vantagem" nas relações com o cliente.

presidente do grupo Siemens no Brasil de 1987 a 2001 e i n - . Uma tecnologia que pode ser libertadora de tarefas e. instigantes modelos de abordagem da questão tecnológica no planejamento estratégico. para quem quiser se informar. missão e valores realmente originados em uma sincera determinação de fazer diferença em favor de um mundo melhor. Tal iniciativa. Ela só adquire eficiência num ambiente cultural favorável à integração de todos os participantes. como a Siemens. segundo Hermann Wever. portanto. Mesmo indústrias com interesses variados e sujeitas à concorrência permanente em setores muito sensíveis. sem exclusões.supor que os problemas produzidos por guerrilheiros digitais possam ter sua origem na falta de valores claros nas organizações. se torna um instrumento de defesa quando a organização partilha com seus integrantes. como fez a Siemens com o título Tecnologia — estratégia para a competitivida- de. perceberam que a competição já não se dá no ambiente de filmes de espionagem que predominou durante décadas e que hoje beira o ridículo. fornecedores e clientes. até publicam livros. podem dar exemplo de confiança e transparência. pode se constituir em plataforma para o desenvolvimento de capacidades estratégicas em todos os níveis da organização. é também um instrumento poderoso para quem se considere motivado negativamente para atingir e prejudicar a organização. CONFIANÇA TRANSPARÊNCIA Empresas vencedoras. como o de alta tecnologia. no qual alguns dos mais brilhantes executivos do seu quadro abrem.

Desconfio que o sistema de negócios do futuro tem a ver com a aplicação inteligente da mais alta tecnologia em um ambiente de gestão. não vai ficar sem resposta. clientes e colaboradores externos são convidados a conhecer a T E O em cada contato. no qual esteja transparente para todos os indivíduos tocados pela organização. tem como importante suporte de seu sucesso um livro em três volumes intitulado Sobreviver. se deve à disposição de contribuir com conhecimento para o desenvolvimento da sociedade. técnicas e processos de T E O — Tecnologia Empresarial Odebrecht — demonstram orgulhar-se de sua aplicação e não se preocupam em restringir o acesso a ele por parte de pessoas de fora. que ela tem um significado socialmente relevante.centivador da publicação. crescer e prosperar. nas negociações internas e externas. N o Peru. esses princípios ajudaram a m o l d a r um novo relacionamento entre autoridades governamentais e empresas de engenharia. A multinacional brasileira Norberto Odebrecht. Uma leitura cuidadosa da obra permite antever os movimentos que cada executivo da organização fará nas diversas etapas dos projetos em que estão envolvidos. com operações em todos os continentes. Eles chamam esse conjunto de princípios. O que hoje se convenciona . em sua estrutura ou fora dela. sob uma visão conservadora. Pelo contrário. onde a Odebrecht atua continuamente há um quarto de século. Isso poderia. A pergunta de David Tayne. na definição de resultados etc. parceiros. no qual está detalhada toda a estratégia da empresa na formação de seus quadros. do Rocky Mountain Institute. provocar alguma vulnerabilidade nas concorrências acirradas das quais ela costuma participar.

NOS SEUS SONHOS. estará impregnada em uma estratégia de comunicação sistêmica que garantirá a integração circular entre a empresa e os cidadãos. o social e o cultural. SE SABEMOS DISSO. mas será certamente derivado dos atuais embriões de empreendedorismo responsável. O nome desse sistema ainda demorará a surgir. SOBRE ESSA PREMISSA. U M SISTEMA ECONÔMICO IDEAL? Q U E RESPOSTA VOCÊ DARIA A DAVID TAYNE? 2. quem sabe? Para refletir: 1. C O M O SERIA. A tecnologia. 3. O SIGNIFICADO SOCIAL DE U M EMPREENDIMENTO PODE SER O PONTO DE PARTIDA PARA A GERAÇÃO DE UMA LINGUAGEM C O M U M N A ORGANIZAÇÃO. abrangendo todos os graus de comprometimento. PODE-SE CONSTRUIR U M A CULTURA DA PERENIDADE. hoje ainda isolada em guetos de especialistas. no qual se reconheça como capital muito mais do que os recursos financeiros. POR QUE NÃO O FAZEMOS? . como o ambiental.chamar de responsabilidade social deverá ser uma característica intrinsecamente associada à natureza da organização. "Capitalismo consciente".

N o entanto. M a s a distinção entre a vida mediada a partir dos chips de silício e a vida de argila é u m artifício de linguagem. É usada apenas para ilustrar um argumento abstrato. o argumento abstrato é válido. e qualifica como digital ou virtual a " v i d a " criada pelas relações mediadas eletronicamente.VI—Os herdeiros do silício U m a das metáforas mais interessantes produzidas pela tecnologia da informação é a que define a vida " r e a l " como analógica. . não u m fato. Quando se diz que certo tipo de comportamento é típico da vida digital ou " v i r t u a l " . porque define dois modos de relação baseados num conceito válido do que seja vida.

Nesse sentido mais amplo. ou seja. a essência da vida é a informação. são sentimentos estreitamente ligados à percepção de determinado grau de calor. correspondente à temperatura que o bebê percebe ao ser abraçado pela mãe logo ao nascer. O "pensamento" celular seria captado pelo sistema cerebral. mas informação não é sinônimo de vida. o que sugere a idéia de que ocorreria uma "escolha" nas células do tecido. estocar. onde ficaria arquivado sob a forma de metáfora. Para estar vivo. o carinho. está a observação de uma forma primitiva de pensamento no nível subcelular. de uma espécie de percepção que gera uma ação específica local. N a base dos estudos sobre inteligência artificial e vida artificial que movem grandes investimentos e algumas das inteligências mais brilhantes do mundo científico. e não simplesmente sua estocagem passiva. um sistema precisa não apenas absorver informação. o amor. no nível celular. mas processá-la e usá-la para preservar a vida e mantê-la capaz de evoluir. As experiências com inteligência artificial levam em consideração essas possibilidades. Uma informação transmitida a determinada região do organismo produz ações previsíveis no tipo. É o uso ativo de informação. na experiência corporal. a amizade. processar e usar informação que será utilizada na vida " r e a l " . que constitui a vida. mas imprevisíveis na intensidade. invariavelmente. mas estão ainda muito longe .há uma referência ao conceito de vida que envolve adquirir. para qualquer pessoa no mundo. seja o corretor em Wall Street ou o terrorista islâmico em treinamento no deserto do Saara. Assim. As metáforas básicas que formam o modo como o ser humano entende sua inserção no universo são comuns às mais variadas culturas e têm origem.

Essas observações habitam os debates filosóficos e sociológicos sobre a nova sociedade que se constitui a partir do encurtamento de distâncias e redução de diferenças culturais. D o mesmo modo.de repetir com um grau aceitável de complexidade o que ocorre no pensamento. como o modo como fazemos cultura. privadas ou públicas. N o horizonte dessa metáfora. De certa forma. os modelos de civilização que tendemos a criar. por conseqüência. evidências de que o cérebro humano se expande virtualmente. como se diz em contrapartida às empresas de bits e bytes. Há uma história que se constrói a partir da virtualidade. proporcionados pela Internet. por trás dela. da concretização de virtudes. deixam claro que não se pode chegar a um simulacro de inteligência com os computadores atualmente disponíveis. u m pensamento que não faz sentido sem a hipótese da ação. habilitando novas áreas conforme os estímulos que recebe. e. políticos e religiosos que dividem o mundo neste começo de século. também agregam enorme valor ao debate sobre temas amplos. O livro que . Sabe-se que o pensamento criativo aumenta a capacidade do cérebro pela simples estimulação de conexões virtuais que podem ter estado inativas por muito tempo. das organizações de tijolo e cimento. os modelos econômicos. Mesmo porque. está a questão sobre a durabilidade de mudanças baseadas na ação. algoritmos i n teligentes podem multiplicar a capacidade de operações em um computador comum. A ação e a concretude são premissas do chamado mundo analógico. Elas estão na raiz da questão da criação do conhecimento nas organizações de negócios. O modo como construímos a História até aqui tem a ação como premissa e.

O militarismo de Jünger. Sabemos que o conhecimento produzido pela ação traz vícios do poder da própria ação: o movimento da mudança é sempre seguido de uma necessidade urgente de consolidação. A troca de informações entre você e um computador concretiza o que são virtudes de um livro. elaborada. como as produzidas por Theodor Adorno em estudos sobre indivíduos e grupos que agem contra seus próprios interesses de preservação.você compra pela Internet não está realmente no estoque: você compra o livro virtual. ou do conhecimento adquirido por cada indivíduo e pela ação concreta. Que tenhamos vivido uma longa e perigosa ilusão. Que todas as tentativas de criar uma sociedade melhor tenham se fundamentado na ilusão de que a ação pode fazer acontecer essa mudança. a partir de agora. que de fato a ação por si nunca tenha sido capaz de produzir resultados a longo prazo. Por extensão. ou seja. que esse conhecimento potencializa. somente serem possíveis por meio do conhecimento. a inovação real e evolutiva só seria possível a partir de cada indivíduo. Isso é claro em reflexões distantes entre si. não da ação pura e simples. consciente. e as percepções expostas numa troca de correspondências entre Ernst Jünger e M a r t i n Heidegger. que só existe nos direitos de impressão e de venda que alguém possui. provável que tenha sido sempre assim. Essa História impõe uma reflexão sobre a possibilidade de as mudanças reais. que o levou a uma vida de ação. Também não basta supor que a ação produz em prazo curto ou longo o conhecimento necessário à permanência da mudança. que reduz a liberdade de pensar no sentido contrário à ação que foi seu ponto de partida. é a base para .

como a ação se revela. nas quais ele analisa o niilismo europeu como resultado do constatado fracasso da ação em criar a realidade. muito além do que nos possam ter oferecido esses e outros pensadores. conservadoramente na mesma direção. há uma possibilidade criada pela tecnologia digital: a de constatarmos em múltiplos casos. M a s . Isso ocorre porque a ação continua por inércia e se justifica por si mesma. A História também permite constatar que "pertence à essência da vontade de poder não deixar que se revele na realidade (que é própria de sua essência) o real do qual ela se apodera pela força". dando consistência à idéia de que o conhecimento gerado pela ação já nasce viciado pela necessidade de justificar o poder que a produziu. Quando falta reflexão à ação. É o que diz Heidegger em uma de suas cartas. a energia do impulso inicial se revela inversamente proporcional à vontade de inovação. . no universo das organizações de negócios ou no cenário da economia global. o caminho da verdade (conhecimento do real) é o caminho da luta e do trabalho. conforme ensina a psicanálise. o que explica em parte a transformação de impulsos libertários em sistemas de dominação. incapaz de produzir uma realidade permanente que seja satisfatória para a maioria. quando a compreensão de si mesmo e do mundo pelo indivíduo se dá como resultado "econômico" da equação entre força e contra-força. por si. sempre no mesmo sentido.reflexões da idade madura. O pensamento alheio ao afeto e à ação desse conflito é apenas racionalização. A civilização se faz no trabalho contra certos impulsos. O conhecimento é também capaz de gerar uma realidade mais duradoura porque.

. também presentes na maioria das publicações periódicas destinadas a esses profissionais: processos e autoajuda.. no universo de conhecimento dos gestores ainda é pobre a oferta desse saber. Se considerarmos que todo gestor é um líder potencial. são feitas com base em pressupostos curiosamente contraditórios em relação ao desejo e à necessidade de aprender. N o entanto. Porém. a grande maioria dos gestores trafega entre o estímulo emocional de pouca exigência. calculemos o risco. seguidos pelo fundador do sistema Visa. pude constatar que a leitura desses autores era feita sob a premissa de que suas idéias não seriam com- . do corpo-mente e das demais condições humanas. a teoria não funciona". como aquele segundo o qual "na prática. enquanto o pensamento criador de conhecimento trabalha no limite do real. a que muitos também se dedicam. e pude constatar essas duas fontes preferenciais de conhecimento. Dee H o c k . N u m dos grupos que consultei. alcançavam mais de 80% na lista dos autores mais lidos. observei os hábitos de leitura de gestores intermediários e executivos. como o do professor brasileiro Sérgio de Gouvêa Franco. N a verdade. presente nos livros de auto-ajuda. e certas obviedades da gestão de processos. Mesmo as leituras mais densas de conteúdos relacionados à gestão. AUTO-AJUDA Durante os dois últimos anos do século X X .acomodação de anseios. Muitos trabalhos. analisam o processo de construção da sociedade humana a partir da definição dos lugares próprios para a religião e a ciência. certos nomes mais densos como Peter Drucker e Peter Senge.

presente nas obras de Willis Har man e Hazel Henderson. controladores e clientes. mas irreal". Para os espíritos mais abertos. Não há tema que cause tanta insegurança como a hipótese de se trabalhar num ambiente de caos aparente. que entrega seu produto a um turista brasileiro em troca de sua assinatura num pedaço de papel que contém o número de um cartão de plástico. Dee H o c k toca no aspecto mais vulnerável dos modelos mentais conservadores que predominam na cultura de gestão: a quebra da ordem aparente como pressuposto para a criação. é um estímulo diante das transformações. de Dee H o c k . . é o mesmo princípio que os físicos descobriram no ambiente subatômico: há uma ordem subjacente ao caos. se estabelece progressivamente nos debates sobre estratégia e gestão. por exemplo. fornecedores. mas ainda produz tremores nas mentes excessivamente racionais e comentários do tipo "bonito. o sucesso de Dee H o c k . N o entanto. O que há por trás de um negócio no qual todos são proprietários.patíveis com a realidade das organizações. Drucker encabeça as preferências de leitura dos gestores há mais de duas décadas. Há uma relação de confiança aparentemente inexplicável no movimento de um mercador de tapetes em Casablanca. vive-se hoje em cenários tão mutantes que o próprio conceito de ordem tem de mudar. M a i s distante ainda é a idéia da função social das organizações e dos gestores. enquanto Peter Senge faz muito sucesso com suas idéias a respeito de organizações aprendizes desde os anos 1990. após anos de busca de um significado para o sistema que ele e seus parceiros estavam criando. O inovador conceito de organizações caórdicas.

mas a persistência de modelos antigos gera dificuldades. Entre as habilidades que se tornam claramente úteis está a de criar conhecimento.Trabalhos científicos e reflexões filosóficas correspondentes à percepção de Dee H o c k têm proliferado no ambiente dos criadores dessa cultura organizacional que se desenvolve e se espalha pelo mundo. as ações de gestão se anteciparam ao conhecimento. Tanto o ensino. U m a educação que proporcione ao profissional algumas habilidades duráveis condizentes com a sociedade que emerge naturalmente desse tráfego mais intenso de informações. C o m o dizem Ikujiro N o n a k a e Hirotaka Takeuchi. e oferece novas e instigantes revelações sobre a existência de uma ordem implicada sob sistemas e circunstâncias aparentemente caóticos. Tal cultura está associada à tecnologia da informação. Durante todo o século X X . capaz de liberar os gestores das tarefas que os prendem às ações concretas. da Universidade Hitsosubashi. VALOR SOCIAL PERCEBIDO Nossa capacidade educacional foi multiplicada pelo advento dessa tecnologia. abre a oportunidade e a conveniência de investir numa educação mais adequada à chamada geração do silício. têm . no Japão. A oferta cada vez maior de tecnologia sofisticada. M a s na prática da gestão essa hipótese ainda está relegada ao terreno da especulação ou da curiosidade intelectual. ou seja. no plano da filosofia. a capacidade de fazer brotar significados e entender com profundidade. como a prática das técnicas de administração. esse conhecimento precisa estar "nos ossos" do gestor. a essência da gestão. que se manifestam tanto nas organizações de negócios como nas escolas.

A velha escola do binômio economia e eficiência passou a agregar outras disciplinas. Neste começo do século X X I . Isso explica como a gestão se desenvolveu sem conexão com um paradigma teórico. têm trazido à discussão as complementaridades entre teoria organizacional e teoria política. Embora Weber se referisse explicitamente à administração pública e à gestão dos problemas de governo. Por que não destinar u m tempo à definição do Valor . em meados do século. chamou a atenção para a questão do conhecimento aplicado à gestão. os movimentos por responsabilidade social. M a s a ação ainda se dá num contexto de "guerrilha". Afinal. surgidos até como conseqüência da redução do papel do Estado.sido pragmáticas e normativas em vez de baseados em teoría e valor. como se muitos tivessem vergonha de sua eventual consciência social. uma excrescência. cidadania. os gestores ainda precisam de uma cartilha para entender que toda empresa tem — ao lado do seu valor econômico e do seu valor de mercado (que define seu posicionamento) — u m valor social perfeitamente mensurável. quando deveria ser reconhecido como parte do tripé da sustentabilidade. e poucos empreendedores falam sobre o tema sem constrangimento. A disseminação das idéias do sociólogo alemão M a x Weber sobre burocracia. Até o presente momento. quando a primeira década do século X X I já passa da metade. direitos humanos etc.. como u m sexto dedo. responsabilidade social. as empresas não existem fora do contexto social e político. O "balanço social" vai como um adendo ao financeiro. em pouco tempo a questão invadiu também a esfera da administração dos negócios privados. como valores. o que coloca novas premissas diante do administrador.

por que razão não buscar o reconhecimento de um SVA (Social Value Added — Valor Social Agregado). ainda não realizaram a perspectiva. e uma valorização mais evidente do conhecimento técnico. A rapidez com que se pode hoje resolver problemas . revelam que a prática da participação nos resultados se tornou corriqueira e que o ambiente de trabalho é sempre mais respeitoso com o estilo e as preferências dos funcionários. A "nova cultura" dessas empresas é pouco mais do que a transposição para o ambiente profissional do estilo menos formal das universidades americanas. M a s a geração de silício ainda não demonstrou que veio para inovar muito mais do que em tecnologia. exige definições mais claras quanto à verdadeira natureza das organizações. Visitas a algumas dessas corporações. M a s pouco se sabe sobre o efeito de suas atividades na qualidade da sociedade. de revolucionar a gestão pela imposição de valores mais humanos às organizações. incluindo estilos. a Microsoft ou a Razorfish. Por que não começar por uma delas a busca da percepção desse valor real? As empresas que se espalharam pelo mundo a partir das raízes fincadas no Silicon Valley. vista como libertadora do gestor. num plano de consciência mais avançado sobre a natureza de todo empreendimento? O advento das empresas chamadas digitais tende a alterar profundamente uma série de procedimentos de negócios. A tecnologia.Social Percebido da empresa? Se podemos reconhecer o E V A (Economie Value Added — Valor Econômico Agregado). no que respeita ao capital. como a Unisys. na Califórnia. anunciada por muitos analistas. velocidade nas tomadas de decisão e alcance de ações de gestão.

Parte do conteúdo das escolas de administração. economia e direito pode cair na obsolescência em pouco tempo. instabilidades e paralisia pela dificuldade de avaliar as oportunidades e os riscos de cada projeto interno ou desafio externo. ofecere o ambiente cultural mais adequado ao estabelecimento de uma relação menos dependente e mais criativa com as ferramentas tecnológicas. alterar ainda mais profundamente as relações de negócios. A "geração de silício" também tem dificuldade de lidar com o poder. e tende a se tornar ainda mais arraigado quando o especialista assume um posto na estrutura de poder da organização "conservadora".ligados a controle e monitoramento vai. O apego a processos. na certa. Sem uma base sólida de significado realmente compartilhado em toda a organização. e certas disciplinas já dão claros sinais de que serão superadas por operações computadorizadas. países e até blocos regionais. C omo um velho hippie domesticado. nas organizações. E m troca. . Isso ocorrerá tanto internamente. estruturas e rotinas também se repete no universo dos tecnólogos. U m a organização mais afeita à criação do conhecimento e menos obcecada com a gestão do conhecimento se apropria da tecnologia que eles possuem. como externamente. Se antes da explosão de tecnologia da informação as políticas duravam no máximo trinta anos. talvez por serem geralmente jovens. cresce o perigo de conflitos. U m a análise do desenvolvimento profissional de engenheiros saídos de escolas brasileiras entre 1995 e 2000. entre organizações. agora se percebe que a mudança é a própria natureza dos negócios. embora seus representantes pareçam menos apegados a formalidades.

revela que apenas uma pequena parte se manteve em papéis estritamente técnicos. M a s sofrem com questões ambíguas. Essa percepção levou educadores como M a t a i a inserir disciplinas de humanidades em cursos de engenharia a partir de 1989. em comparação com o ambiente que encontravam no campus ou em funções estritamente técnicas. os profissionais que ingressam no mercado de trabalho a partir da onda da tecnologia de informação são muito mais informados e mais ágeis. coordenador de estágios do curso cooperativo de engenharia da computação da Escola Politécnica da USP. o que provavelmente decorre da aplicação cada vez maior de tecnologia em processos e sua influência crescente na própria estratégia das organizações. pela predominância da cultura profissional sobre a cultura acadêmica. Interagem muito naturalmente com as máquinas. N o entanto. se a organização que receber esses profissionais não investir na continuidade de sua educação para uma responsabilidade mais ampla. o comportamento de tecnólogos que se transformam em administradores revela uma grande dificuldade de interagir em ambientes mais diversificados. o mercado está garan- . têm uma relação intuitiva com processos e lógica e são. mas ainda apresentam dificuldades no relacionamento interpessoal. por isso. Segundo o professor Shigueharu M a t a i . mais exigentes quando se trata de equações cujas respostas envolvem opções diretas de causa e efeito. M a s o efeito não será perceptível. M a t a i exemplifica uma situação de desperdício de talento em sua linguagem profissional: " A o procurar um aluno que passou por um curso de renome.feita pela Universidade de São Paulo (USP).

A começar pela mudança de suas premissas. essencial saber se relacionar". é a do escravo mecânico: o robô que faz a parte perigosa ou menos elaborada do trabalho. sem uma definição clara de seus propósitos.tindo a C P U . o cérebro. Uma das metáforas mais interessantes da tecnologia de inteligência artificial. M a s de nada vale uma boa máquina e u m bom programa. Também é necessário que o aluno mude sempre de aplicativos. do ambiente de trabalho. M a s antes que uma proporção considerável dos processos esteja hospedada nos chips dos computadores. isto é. enquanto o ser humano se dedica a tarefas mais complexas. que começa a ser embarcada em grandes volumes em programas destinados à gestão. depende do sistema operacional. como pensar. . faça upgrades para se renovar. onde se dá a apresentação. lembrando sempre que premissas conservadoras são restritivas. é ruim. se o monitor. Se vai funcionar bem. Valorizar o conhecimento técnico e agregar-lhe a visão estratégica é uma das equações essenciais do nosso tempo. M a s nenhuma organização pode obter bons resultados na aculturação desses e outros profissionais (como por exemplo os encarregados das vendas). Pois os futuros desenvolvimentos da tecnologia que inaugura o século X X I apontam para a necessidade cada vez mais clara de entender e valorizar os aspectos humanos e imponderáveis das relações de negócios. O cenário de mudanças que impõe constantes desafios à gestão das empresas exige uma dedicação especial ao desenvolvimento de habilidades permanentes nesses profissionais. é preciso que toda a organização aprenda a pensar.

HABILITANDO A EMPRESA VOCÊ. 3. A DESENVOLVER A INTUIÇÃO C O M CENÁRIOS VIRTUAIS? 2.Para refletir: 1. V O C Ê JÁ PENSOU NAS POSSIBILIDADES DE SIMULAÇÃO QUE A TECNOLOGIA DIGITAL PROPORCIONA. PESSOALMENTE. C O M O SERÁ SUA VIDA DAQUI A DEZ ANOS? O MUNDO SE CARACTERIZA HOJE POR MUDANÇAS RÁPIDAS DESCONTINUIDADES RADICAIS. VOCÊ GOSTA DE MUDANÇAS? .

exige parcerias. quer dizer aquilo que está mais próximo de sua verdade. por sua complexidade e pelas múltiplas variáveis impostas por negociações em diferentes ambientes culturais. uma organização . e que a simplicidade está na base da gestão eficiente. Welch Jr. que por seu turno só é possível quando existe autoconfiança. portanto. o lendário Jack Welch. Simples. líder da General Electric. em seu significado original. D a mesma forma. uma pessoa só pode ser auto-confiante quando se conhece bem. costumava dizer nas palestras aos gerentes da empresa que só as pessoas auto-confiantes podem ser simples. Parcerias exigem confiança.. John F.VII—A tecnologia da libertação A nova ordem.

clientes. quando o desenvolvimento da tecnologia de i n formação foi. Quantas organizações podem afirmar com segurança que fizeram o negócio certo. Independentemente do que Welch possa ter produzido em sua carreira — uma organização de sucesso ou uma longa fila de desempregados —. apenas. que trabalhou para empresas fornecedoras de infraestrutura digital. reduz-se o potencial de benefício produzido pela melhoria tecnológica. muito além disso. fornecedores e a própria comunidade? Quando falta esse sentido original ao propósito da empresa. claramente.funciona com simplicidade. a percepção mais próxima possível da sua verdade. no sentido depreciativo que se procura dar à expressão nos ambientes empresariais? Não. Pura filosofia. mestre em ciência da comunicação pela Universidade de São Paulo. porque a empresa confiou que bastava dar o salto em tecnologia? O jornalista e consultor Sérgio Storti. M a s . se desenvolver o auto-conhecimento. . adotando sempre as soluções mais adequadas à sua natureza. é preciso atentar para uma sutileza ainda anterior à escolha das tecnologias: parcerias com quem? C o m o fornecedor de tecnologia. ou seja. essa reflexão é a linha divisória entre comprar tecnologia para benefício da organização ou adquirir uma encrenca. mais veloz do que a capacidade dos gestores de entender o que estava acontecendo? Quantos lances instantâneos foram suficientes para transformar em pó alguns mercados antes considerados absolutamente sólidos. ou com o espectro mais amplo que abrange os funcionários. ao adquirir suporte para a informatização de seus processos a partir de 1996.

equipamentos. funcionários. Leva em conta todos os fatores e agentes. situação de caixa. a tese de Storti oferece uma visão curiosa sobre o momento vivido pela grande maioria das organizações. capitais envolvidos. A obtenção desses dados pode levar seis meses. Referência bem-humorada à "teologia da libertação". cunhou a expressão "tecnologia da libertação". Causam certo distúrbio. é feito um diagnóstico administrativo hiper-real da empresa. pretendeu representar a possibilidade aberta pela tecnologia da informação de livrar os gestores da permanente angústia de ter de lidar artesanalmente com muitos dados e o constante risco de perda desse patrimônio. estoques. contabilidade e mais uma centena de itens. C o m ela. pela mudança de algumas relações de poder. a partir de um levantamento minucioso de toda a situação real da empresa. instalações. imóveis. com seus desdobramentos. softwares. Apanhando o tema pelo lado oposto ao que é comumente abordado pelos analistas. vendas. a empresa automatiza seu foco. e a busca de resultados deixa de ser uma obsessão do dia-a-dia. passam a ser rigorosamente controlados e auditados periodicamente. políticas administrativas. mas oferecem a oportunidade de os gestores se libertarem de algumas das mais recorrentes fontes da ilusão do controle. Após a coleta.como a Peregrine Systems e Candle Corporation. compromissos assumidos e por assumir. Storti observa que as novas tecnologias disponíveis alteram profundamente alguns protocolos das organizações. Ele considera o que a nova tecnologia tem a oferecer. elaborada por setores da Igreja Católica. produção. porque as . logística. todos os fatores. Assim.

A empresa chegou a realizar mais de 1. a isso que Storti chama "tecnologia da libertação". evitando que ele seja aborrecido nas ocasiões em que geralmente está mais ocupado. o que daria ao piloto mais tempo para observar as estrelas e mais segurança para cuidar da rota no longo prazo. a possibilidade real de o gestor gastar menos tempo com a governança de processos da empresa e tratar daquilo que poderíamos chamar de plano de governo. Isso está acontecendo em algumas das melhores cor- . sai do horizonte imediato das preocupações. As informações são colhidas com menor risco de conflito e a empresa pode se antecipar até mesmo no suprimento de peças mais requisitadas. A obtenção do máximo rendimento possível sobre o total dos investimentos. que governam as variáveis do oceano.500 contatos telefônicos mensais com um call center mínimo. Citando Platão e suas reflexões sobre " A arte de pilotar". de apenas dois postos.variáveis passíveis de controle. utilizam essa tecnologia para fazer mais com menos custos. o gestor pode dedicar mais atenção às questões estratégicas. Assim. por exemplo. e o menor custo realizável para as suas operações. pode agendar as chamadas para horários em que o cliente costuma estar disponível. isso corresponderia a u m relacionamento perfeito com os deuses da improbabilidade. são colocadas sob piloto automático. Algumas empresas. A tecnologia à base de algoritmos inteligentes permite a discagem automática para o cliente seguinte enquanto a operadora está finalizando uma conversação. e apenas essas. Além disso. como a Citroen do Brasil. Ele injeta no D N A da empresa a visão da busca de resultados e se liberta da escravidão dos processos.

adotam boa parte dessas soluções administrativas e elas funcionam. ou cidades como San Diego ou Garland. inteligente. M a s . faltariam justificativas para manter fechados esses dados. Também organizações públicas. é a clareza de alguns dados e a possibilidade de visualizá-los que permite aos gestores definir o que pode ser controlado com alguma segurança e o que deve ser visto como parte do mundo das probabilidades. E m artigo publicado na Harvard Business Review no segundo semestre de 2 0 0 1 . como os governos dos Estados de Wisconsin e N o v o M é xico. Os serviços aos cidadãos são realizados de forma racional. eficiente e sem demagogia. mesmo para aquilo que pode v i rar bits e bytes. o risco da adivinhação se reduz drasticamente. Diante de uma planilha multidimensional que retrata a situação da organização em todos os seus aspectos tangíveis. que operam hoje como verdadeiros países no mundo globalizado. N o Brasil. nos Estados Unidos. M a s há na aplicação dessa tecnologia uma armadilha. é preciso haver uma gestão adequada: os responsáveis pela manipulação dos dados precisam ser alertados para a sensibilidade do seu trabalho e educados para a precisão. baseada nos princípios científicos da inteligência artificial. M o h a n b i r Sawhney alertava para o risco de homogeneizar o comportamento da organização pela ten- . É a tecnologia que liberta? C o m certeza. o que amplia as possibilidades de uma gestão transparente. que reduz também as oportunidades para a corrupção e o superfaturamento.porações do mundo. deve tornar ainda mais cômoda a obtenção e administração desses dados. Além disso. algumas administrações municipais estão adotando aceleradamente essa tecnologia. A tecnologia que se avizinha.

e entregar isso em uma forma organizada e compreensível para o cliente". de rupturas na relação de confiança dos clientes com a empresa e de perda de fatias de mercado. deve-se sincronizar as informações: "Pode-se sincronizar todos os dados sobre determinado produto. Significa a terceirização de serviços que podem agregar valor a um produto com base em informações sobre hábitos e projeções de compras. a estrela dessa constelação de ferramentas. derivada de ASPs (Application Service Pro- viders. E m vez de homogeneizar. já no final de 2001. mas também a maior eficiência operacional. filtrando a informação por meio de bancos de dados e aplicações interligados. Ele considera um caminho mais promissor e menos arriscado o da partilha desse controle com o cliente. VIVENDO COM O CLIENTE A sigla xSPs. enquanto o cliente o vê como meio.tativa de usar as novas tecnologias digitais para o controle do produto. A tecnologia da informação abre para a organização a possibilidade de conhecer melhor o cliente e também de se dar a conhecer. de modo que possa agregar ao produto serviços desejados e nem sempre esperados pelo cliente. C o m o resultado. segundo ele. recomenda Sawhney. Ela pode. Essa sincronização pode conduzir não apenas a uma relação mais próxima com o cliente. era. agregar à venda de um utilitário domes- . por exemplo. Uma das observações importantes de Mohanbir Sawhney é que a empresa enxerga o produto como fim. Essa é uma das causas. acredita. no plural). a organização pode apresentar uma imagem simples e unificada.

Portando. de qualquer l u gar do mundo. antes da escolha de tecnologia está a decisão de transformar a organização numa usina de conhecimento.tico receitas de bolos enviadas online na véspera de cada aniversário na família. favorável à criação de conhecimento. assessorada pela parceira provedora. ou oferecer um guia de serviços e facilidades para viagem cada vez que o carro se dirigir para fora da cidade. u m novo padrão já tenha revolucionado completamente esse quadro. Voltando ao princípio do capítulo. O serviço é administrado remotamente. renovado periodicamente. O sistema de padrões " u m a fonte para muitos". conforme as informações atualizadas sobre o cliente ou como antecipação a movimentos da concorrência. escolhido num cardápio previamente acertado entre a fabricante do produto e o provedor. a busca de uma visão que possa ser compartilhada da maneira mais ampla possível. as chances de uma . A indústria apenas contrata o serviço e. Até mesmo do ponto de vista exclusivo da anatomia de resultados. também por essa razão. é bem provável que. pode escolher o valor que agregará ao produto. no momento em que você tiver terminado este parágrafo. é claro. ao mesmo tempo em que dá a cada cliente a sensação do tratamento pessoal. As possibilidades dessa linha de ferramentas são tão amplas quanto a criatividade humana e. uma tecnologia que permite sincronizar os interesses da organização com os i n teresses e a necessidade do público que deseja alcançar pode ser chamada de "tecnologia da libertação". o i n vestimento em tecnologia está condicionado à predisposição para o desenvolvimento de uma cultura evolutiva. Se houver. mantém os custos em níveis aceitáveis.

Platão. contra a opinião de especialistas em marketing que insistiam em falar do risco de perda de mercado. ato de reconhecer que havia manipulado informações. E m vez de enxergar consumidores.organização ser aceita como parte da vida do cliente aumentam quando seus gestores abdicam de certos controles. São bastante conhecidos os casos de empresas que conquistaram longos períodos de crescimento e segurança por ter entrado em fina sintonia com os extratos da população a que se destinavam seus produtos. O u da empresa jornalística que se retratou e se desculpou publicamente pelas décadas em que serviu de suporte a governantes ilegítimos. em vez de tentar conquistar mercado. há algumas décadas. Não basta investir naquilo que chamávamos. Antes do "como fazer" é preciso definir o "para que fazer". Conquistou o respeito do público pelo simples. já usava a expressão Kybernetike para definir processos que identificava tanto no comportamento de uma embarcação como no governo dos homens. C . buscam tornar-se relevantes para a sociedade. mas sempre doloroso. o caso de uma indústria de laticínios que patrocinou campanhas de aleitamento materno. que viveu entre os anos 428 e 348 a . M a s alertou para a observação de que não basta o desejo: a ação deve ser coerente com a evolução idealizada. O indivíduo é mais do que sua face de consumidor e a sociedade é muito maior do que o mercado. . passam a ver pessoas. Ele havia percebido a estrutura de todos os processos de ação orientada para fins específicos. notando que se poderia comparar a evolução de um sistema controlado e a evolução desejada ou idealizada em outro sistema. de tecnologia cibernética.

Enquanto os cientistas imaginavam o Universo como um gigantesco relógio no qual tudo funcionava conforme um padrão. controlando o formato das coisas. para a possibilidade de que sua teoria já estivesse sendo utilizada com propósitos de controle e dominação num projeto militar secreto do governo dos Estados Unidos.A o recriar modernamente a expressão "cibernética" para definir a ciência do comando e do controle orientada para fins específicos. curioso lembrar que Norbert Wiener estendeu sua teoria no livro O uso humano do ser humano (1950). a ordem no universo vem da troca de informações — mensagens. A primeira edição dessa obra desapareceu. A s edições subseqüentes não contêm esse trecho. biológicos. no qual questionava: "Se a informação é a moeda da vida. sociais e econômicos. fundada sobre o estudo dos processos de comunicação nos sistemas tecnológicos. Wiener teve o hábito de reunir estudantes em sua casa perto do Massachusetts Institute of . emitir mensagens que poderiam efetivamente controlar o modo como as pessoas percebem o mundo?" Wiener chegou a alertar. Para ele. Tudo que deriva de seu trabalho. Durante os anos 1950. Wiener propôs que o Universo era um lugar desorganizado e sem padrão perceptível. e que evolui numa velocidade espantosa no campo da inteligência artificial. não seria possível. nesse livro. o cérebro humano era u m processador de mensagens. codificação. segue o mesmo princípio: a ordem é criada pela informação. Segundo Wiener. desde a menor partícula atômica até as constelações e galáxias: informação cria ordem num Universo caótico. decodificação — entre todas as coisas. Norbert Wiener marcou um novo modo de ver a vida. em tese.

a estratégia é uma tarefa grande demais para simples tarefeiros. que deu origem à Internet. Exige o desprendimento dos espíritos pioneiros. celebrizado como um dos maiores estrategistas do nosso tempo. com base nos princípios de Wiener. Os grandes estrategistas exibem uma predisposição para tomadas de decisão confiantes e. se chegou à rede caórdica auto-governada que produz uma tecnologia libertária. Quem não está habilitado para a aventura do pensamento não pode se considerar estrategista. Assim. uma vez que trata fundamentalmente de criação. Entender esse processo pode dar ao gestor uma vantagem quilométrica. abrem mão de certos controles tangíveis. Então. Seus seminários deram origem aos projetos de computadores.C .3 trilhão de dólares. Dee H o c k . nas noites de terça-feira. Quem não aprecia e pratica com familiaridade o livre-arbítrio não produz estratégia. U m dos alunos. elaborou o princípio da organização "caórdica". o controle se desfez naturalmente e surgiu a Internet. no sentido que a palavra está adquirindo a . no entanto. A l i ele idealizou uma rede de computadores que costumava chamar de "rede intergalática" e criou a Arpanet. Têm sempre em mente as informações essenciais sobre o rumo a seguir.R . Sobre esse conceito fundou o sistema Visa. da idéia de Kybernetike como controle e domínio. escreveu um trabalho intitulado " A simbiose homem-computador" e veio a se tornar diretor do escritório de processamento de informações do Pentágono. Licklider. J. N o entanto. que movimenta anualmente mais de 1. se ele souber renunciar à ilusão do controle e estender seu olhar para aquilo que é a essência do seu papel: a estratégia. São progressistas.Technology.

ao mesmo tempo em que os novos sistemas de controle tecnológico melhoram as margens de segurança e a previsibilidade. A verdadeira libertação anunciada pela tecnologia passa. V O C Ê É GESTOR OU REFÉM? . portanto. a maior complexidade das relações também aumenta o número de variáveis. a tecnologia que pode ser libertária acaba sendo apropriada para a destruição. usinas nucleares e sistemas de transporte da ação remota dos terroristas digitais. ACEITARIA U M LÍDER QUE FOSSE COMPLETAMENTE IGNORANTE SOBRE O ASSUNTO? 2. Especialistas em segurança já constatam como será difícil proteger empresas. a rapidez das mudanças e os riscos. Estão honrando permanentemente a metáfora essencial da vida. CONFIARIA AS ESCOLHAS DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO A U M TECNÓLOGO QUE NÃO TE M INTELIGÊNCIA ESTRATÉGICA? 3. A melhor defesa deriva de uma visão que tenha como base a consciência de que. que é contribuir para o processo evolutivo em todos os sentidos e o benefício ao maior número possível de indivíduos. por uma noção completamente nova e menos controladora de estratégia. SE VOCÊ É ÍNTIMO CONHECEDOR DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO. Fora disso.partir da metáfora dos softwares que se auto-aperfeiçoam. Baseia-se em confiança e consciência. Para refletir: 1. SE VOCÊ É U M GESTOR C O M RESPONSABILIDADES ESTRATÉGICAS.

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e propor u m salto no significado das relações econômicas e de poder. Essa coragem consiste em abandonar a matriz ideológica que formulou. onde nasceu. é sua coragem intelectual. Enriquez afrontou poderosos líderes políticos e econômicos. da Harvard Business School. ao publicar análises das perdas de nações como o México. a economista Hazel Henderson. a base para as principais críticas ao modo como se organiza a produção em todo o mundo.VIII—A cultura transformista U m a das características mais interessantes de pensadores como Juan Enriquez. Argentina. durante ós últimos cem anos. Sua seguran- . Brasil e Chile. e até mesmo o conservador M i chael Porter.

o xintoísmo. Hoje. ela assessora governos e grandes corporações na busca por sustentabilidade. Porter produziu muita irritação em Wall Street. C o m essa atitude. associadas à gestão centralizada do conhecimento nas organizações. U m ponto em comum entre esses três (e muitos outros) formuladores de conhecimento em gestão é o desprendimento de correntes de pensamento e paradigmas que se avolumam e se tornam unanimidades. por causa de sua firmeza em iluminar as conseqüências econômicas e sociais da corrupção e da incuria administrativa. por exemplo. a natureza da cultura japonesa . Hazel Henderson é uma pedra no sapato do establishment desde o fim dos anos 60. muitas vezes sem fundamento.ça pessoal chegou a ser ameaçada em algumas ocasiões. por sua vocação para colocar o dedo na ferida de um sistema vulnerável: as manipulações em função da pobreza de estratégias e da falta de significado. Porter também lança luz num equívoco recorrente produzido pela visibilidade dos resultados financeiros: poucos gestores se questionam sobre a validade generalizada da matriz cultural dos japoneses para as organizações do Ocidente. Desde sua principal matriz religiosa. A o lembrar que o encantamento com o sucesso japonês dos anos 80 levou muitas organizações a concentrar suas energias apenas no aspecto operacional do negócio. o Japão não é paradigma de revolução. quando iniciou uma campanha pela modernização da indústria automobilística por causa da poluição em Nova York. até os produtos de alta tecnologia que coloca no mercado a preços competitivos. A despeito de haver se tornado a segunda potência econômica do mundo moderno. eles ajudam a comunidade dos gestores a abandonar certas premissas de controle.

Tem grande valor na capacidade de transformar. gravações em áudio de transações por telefone. mas não é a melhor matriz da criação e da revolução. A análise dos paradigmas de Juran e Deming. incrementar. assumem o risco de matar a matriz criativa e adotar u m modelo que as torna dependentes de impulsos externos. ainda presentes na grande maioria das empresas japonesas. Mesmo quando se trata de variáveis menos tangíveis. no seu curso " A qualidade desde o projeto". U m detalhe importante. como a percepção do produto ou serviço pelo cliente. O olhar está sempre voltado para o detalhe. que pode passar despercebido e comprometer o processo: numa cultura diferente da japonesa. Quando organizações do Ocidente tentam copiar as corporações japonesas e abrem mão de produzir seu próprio conhecimento. Ele cita o caso de um jornalista inglês que resolveu medir o tempo gasto num parque da Disney: 110 minutos esperando em filas. recomendando que qualquer amostra dessas seja feita somente com a concordância prévia dos funcionários envolvidos. ò modelo japonês pressupõe o controle.é claramente mais apta à apropriação e à melhoria do que à criação. O próprio Juran recomenda. se u m ou ambos estiverem avisados a transação vira encenação e a avaliação perde valor. ressalta a ênfase na consolidação de práticas como a mensuração de resultados em todas as fases do processo e a obsessão por qualidade em todas as etapas. melhorar e desenvolver. que o contato direto com o consumidor seja avaliado de alguma forma: "Amostras do desempenho real podem ser gravadas. esquecendo-se de avisar também o cliente. gravações em vídeo de transações de serviço cara a cara". 28 minutos caminhando entre as atrações e 12 minu- . diz Juran.

ou o porco. animadores e surpresas no trajeto entre as atrações.tos nas atrações. N o entanto. principalmente num ambiente tão competitivo e com clientes cada vez mais bem informados e exigentes. deixando-se cortar em sua própria carne? N o Japão e em alguns outros países orientais esse detalhe não causa qualquer estranheza. PORCOS GALINHAS A busca permanente da qualidade não pode ser descartada em nenhuma hipótese. o nível de encantamento com eventos programados para os locais de passagem. na qual se compara o porco à galinha. A própria Disney faz constantemente esse tipo de medição. como a própria excitação que acontece antes e depois de cada atração. e pode botar um ovo todo dia. pode significar um risco a implantação direta de fórmulas que dão certo em uma cultura tão peculiar e homogênea como a japonesa. U m exemplo simples pode ser observado nos programas básicos de qualidade aplicados indiscriminadamente em todo tipo de empresas. M a s realiza também outras avaliações da percepção dos clientes. a galinha. que fornece o ovo. procurando manter um padrão aceitável de demora nas transições. O contínuo sucesso dos parques indica que as coisas nem sempre são como parecem nas planilhas. nesses programas. como ocorre na maioria dos setores da economia globalizada. para uma organização que tenha a cabeça no Ocidente. a colocação estratégica de guloseimas. Mas no Brasil e em outros países do Ocidente. Há. uma metáfora para ilustrar o nível de comprometimento dos funcionários. que dá o bacon. certamente muitos funcionários que se depa- . perguntando: quem demonstra estar mais comprometido com a omelete.

Os problemas de comunicação enfrentados por empresas originadas da Península Ibérica e instaladas na América L a tina podem ter muito mais a ver com estilo de gestão do que com simples resistência à presença de capital estrangeiro. mural ou newsletter na Intranet que conserte o estrago feito pela rádio-peão com base numa mensagem desse tipo. com o qual a empresa Amana-Key costuma exemplificar. nos seus cursos. pode revelar um modelo mental no qual certos conflitos são esperados e até desejáveis. a desconfiança revelada por controles excessivos e até a busca de qualidade a qualquer preço. U m a análise da plataforma cultural sobre a qual se assentam as premissas dos gestores de tais empresas. como forma de acelerar o processo de consolidação dessas organizações no novo mercado. o impacto de custos gerados por fatores quase sempre intangíveis. estão certamente na raiz de u m comportamento que tende a gerar descontentamento em parceiros. de Portugal e da Espanha. Respeitar a natureza de cada cultura é um passo importante para valorizar aspectos mais sutis da gestão. como já manifestou um alto executivo de uma empresa de telefonia. Eles estão teoricamente sempre prontos para uma " b r i g a " . Não há jornalzinho. clientes e fornecedores. C omo a desarmonia. A permanência de certos modelos — e a não-observância de certas sutilezas no relacionamento com a sociedade — podem elevar o custo de implantação de alguns projetos. Características do chamado "capitalismo tar dio". se . Faz grande sucesso entre os gestores o conceito de custos "invisíveis". mesmo quando o conflito é a última das recomendações.ram com essa questão reagem de maneira muito negativa. que muitas vezes ficam dissimulados na luta por resultados.

U m dos paradoxos da sociedade hipermediada em que vivemos é que o sucesso quase sempre produz unanimidades que dissimulam o valor da obra em si. ou dão a ela um valor que de fato não tem. E m geral. ouvi de um dos participantes que era grande admirador dos princípios do legendário general chinês Sun T z u . quando uma tese alcança o grau de best-seller reduzse em torno dela o nível de exigência. estratégias "zen-budistas" ou "sufistas". uma empresa na qual um grande número de funcionários se alista em programas sociais de voluntários. relacionado às fontes de educação dos profissionais. porque ninguém quer ser tido como alheio ao que é de conhecimento e apreciação gerais. no sistema de comunicação informal que se convencionou chamar de "rádio-peão". Uma organização obcecada por resultados. corre o risco de perder a sensibilidade para oportunidades em mudanças sutis de comportamento no consumidor e para turbulências internas. N u m encontro com jovens empreendedores. proliferam modismos como saltos "quânticos". que não cultiva modelos culturalmente apropriados. e até na aparência das salas e demais instalações.uma circunstância de maior competitividade exigir igualdade e equilíbrio nas negociações. Por outro lado. Assim. certamente conta com alto potencial de engajamento em projetos inovadores e em metas ambiciosas de produção. A criação de conhecimento no ambiente da gestão exige também outro tipo de discernimento. apresentado e prefaciado pelo escritor James Clavel no livro . em agosto de 2001. Esses sinais muitas vezes se manifestam muito tempo antes. sem que os responsáveis pelo desenvolvimento dos executivos questionem a base real e o verdadeiro significado desses processos.

não pode haver uma estratégia na guerra. Obteve importantes vitórias pontuais. e a expressão estratégia está originalmente vinculada à guerra. chegamos naturalmente à conclusão de que Sun T z u a longo prazo pode ser considerado um perdedor. N o entanto. ter sofrido uma sucessão de derrotas. Estrategistas do quê? — eu me perguntava. Perguntei se fazia alguma diferença o fato de a obra de Sun T z u não ter sobrevivido a ele. razoável pensar que uma guerra. Conversamos algum tempo sobre a verdadeira natureza da estratégia e terminamos concordando em que Sun T z u havia dedicado duas décadas de sua vida a aterrorizar os povos vizinhos. como processo de destruição. só começa quando a estratégia termina e que. Foch ou Maginot.A arte da guerra. durante a Primeira Guerra Mundial e os números absurdos dos 8 milhões de mortos no conflito. se era relevante o fato de após a morte do general o reino de W u . compareci algumas vezes a u m centro de estudos estratégicos em São Paulo. enquanto seus inimigos acabaram contribuindo para a formação da China contemporânea. um crime não deixa de ser crime por ter sido co- . portanto. pois o reino a que servia desapareceu. Como disse Einstein. acabando por desaparecer completamente. a guerra é a metáfora mais recorrente nos cursos de estratégia para executivos. Sempre me pareceu bizarra aquela obsessão com as artimanhas de Von Clausëwitz. a quem servira. ou seja. mas nunca saberemos a serviço do quê estava sua inteligência para o combate. A cada intervenção dos estudiosos me vinham à mente imagens de jovens assustados nas trincheiras da Europa. freqüentado como um clube literário por militares e cientistas políticos. Quando exercia a função de repórter de política. N o fim.

precisa considerar o potencial da organização de fazer diferença. caridade ou propósitos semelhantes. portanto. no ambiente físico e social onde atua. no Ocidente. A responsabilidade pessoal deve ser a essência do significado de todo tipo de organização humana. uma cultura que faça renascer o sentido de comunidade nas relações produtivas. é preciso recriar. A responsabilidade social das empresas é claramente um caminho. O u se do sucesso produzido por ela resulta o esgotamento das fontes naturais e a deterioração do ambiente em algum lugar do planeta. Não custa relembrar Theodor Adorno. e sua estranheza diante das escolhas de indivíduos ou grupos capazes de agir conscientemente contra suas próprias chances de sobreviver. passa longe de significados como generosidade. para melhor. Qualquer estratégia. Também é razoável ponderar que não se pode falar em estratégia. e muito mais das instituições que detêm o poder real de produzir bem-estar e riqueza. enquanto permanecer como um exercício de vontade pessoal ou conveniência de marketing.metido durante uma guerra. a criação de uma cultura voltada para o fluxo permanente de um conhecimento dedicado à melhoria contínua se baseia num forte laço entre o indivíduo e a organização (o que gera um comprometimento raro em empresas ocidentais). O u de sonhar com um futuro. M a s nunca será colocada no centro das discussões. se o resultado da atividade econômica é uma sociedade onde muitos milhões de famílias são excluídas de qualquer possibilidade de melhorar a qualidade de suas vidas. EMPRESA-NAÇÃO Se. Ikujiro N o - . O sentido da responsabilidade social das empresas. por menor que seja a sua abrangência. no Japão.

N o Ocidente. professor de gestão empresarial na Harvard Business School. mais do que tradição e cultura. David Garvin. transformado em estratégia e realizado em ações concretas. ele resulte no comprometimento natural e espontâneo. para a manutenção desse comprometimento como uma característica nacional. é preciso desenvolver. por meio de analogias e metáforas que. é contundentemente crítico em relação aos programas de melhoria contínua baseados no modelo japonês.naka observa que a criação de idéias inovadoras nas organizações japonesas é estimulada pela abordagem indireta do problema. Analogias e metáforas são de fato instrumentos valiosos para a criação de conhecimento. Portanto. colocadas diante do conjunto de pessoas envolvidas. e estão presentes em todo tipo de cultura como as primeiras formas de apreensão de elementos da realidade. acabam evoluindo para soluções criativas. O claro repasse de benefícios econômicos das corporações japonesas para a população japonesa pode ser um elemento essencial. pela população. na cabeça das organizações o significado social profundo do empreendimento. M a s o processo de significação só se desenvolve como manifestação de interesse no objeto a ser incorporado ao conhecimento. de uma relação direta entre o resultado de uma empresa e o bem-estar geral. M a s adverte que o fator crítico desse processo é o comprometimento pessoal: o senso de identidade dos empregados com a empresa e sua missão. a ênfase exagerada no sucesso individual torna mais remota a percepção. por uma razão bastante concreta: os fracassos são muito mais comuns do que os êxitos. como sugere N o n a k a . Ele também observa que é imensa a quantidade de trabalhos acadêmicos sobre a . para que.

b) a gestão em seus aspectos práticos. citados nas páginas anteriores. c) e. finalmente. Finalmente. e sua percepção invariavelmente faz surgir uma nova linguagem. ferramentas capazes de avaliar a velocidade e o nível do aprendizado da organização. A tradição japonesa. registrado e possa avançar com base na percepção das melhorias obtidas. Essa é a tradição presente no modo ocidental de fazer conhecimento. em vez de grandes aspirações e declarações retumbantes de propósito. pela soma das novas atitudes. trazidos pelo conhecimento adquirido. que dá curso à espiral de novos conhecimentos. Observa-se que o conhecimento é sempre transmitido por comparação.criação de conhecimento nas empresas. para que o que foi aprendido seja sistematizado. desenvolve-se uma nova atitude. vincula-se fortemente à percepção do resultado produzido pela ação. . que envolvam recomendações operacionais. ele observa que falta às organizações definir três pontos básicos: a) um significado que seja conversível em ação e de fácil aplicação. Sem preocupação de poupar nem mesmo colegas da universidade. consolida-se a mudança na instituição. Lições antigas de fontes diversas. sem o que o pensamento não faz sentido. justificam a indisfarcada irritação de Garvin com a terminologia "quase mística" da linguagem utilizada pelos teóricos da questão. como a tradição árabe e os estudos de Tomás de Aquino sobre a criação do conhecimento. comportamentos mais adequados a essa nova realidade. aliada a ações concretas de melhoria. E m seguida a essa nova linguagem. M a s eles pouco têm contribuído para a geração de um modelo de aprendizagem que garanta a permanência da vontade de melhoria. que associa o pensamento à ação.

gera nos funcionários o engajamento aos propósitos das empresas. que facilitam o aprendizado e auxiliam nos processos de criação de conhecimento. que passa continuamente para as instituições representativas dessa alma-pátria. Nosso estilo ruidoso pode significar mais receptividade à inovação. OU APENAS MANOBRAS TÁTICAS? 2. EXISTE ESTRATÉGIA QUANDO A EMPRESA ESTÁ OBCECADA C O M SUA COMPETITIVIDADE. V O C Ê PERCEBE O RISCO POTENCIAL QUE U M PROGRAMA DE QUALIDADE PODE REPRESENTAR PARA O CLIMA ORGANIZACIONAL. QUANDO SEUS INTEGRANTES SE TRANSFORMAM E M FISCAIS OS DA JU- ÍZES DOS COMPANHEIROS? . para os japoneses. Pode significar uma relação mais familiar com as subjetividades. um ponto comum: o aprendizado é feito quase sempre em silêncio. para perceber a profusão das palavras que ilustram as demonstrações práticas. uma vez que também as organizações de negócios se incluem entre as instituições que formam o todo nacional-espiritual. Para refletir: 1. V O C Ê CONHECE ALGUÉM QUE PARECE AGIR CONSTANTEMENTE CONTRA SEUS PRÓPRIOS INTERESSES DE PRESERVAÇÃO — ORGANIZAÇÃO? 3. Basta observar qualquer aula em escola ou empresa ocidental. A frase de Peter Drucker "uma habilidade não pode ser explicada por meio de palavras faladas ou escritas. São empresas-nação. N o entanto. só pode ser demonstrada" é.A noção profundamente religiosa do Japão como unidade espiritual. N o Ocidente acontece o contrário. essa nossa aparente necessidade de "legendar" o conhecimento contém uma lição otimista.

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N o plano macro-político. versus o risco do excesso de controle para as liberdades individuais. com a aposentadoria definitiva dos velhos estrategistas do antigo mundo maniqueísta. Também não faltaram condenações enfáticas às ambigüidades na aplicação de medidas de defesa da democracia. M a s . . vimos predominar as recomendações para a superação imediata dos resquícios da Guerra Fria.IX—O inimigo dentro de casa As explosões em N o v a York e em Washington produziram uma sucessão de análises de especialistas e intelectuais das mais variadas disciplinas. a maioria abordando a falência das táticas dos anos 1970 no enfrentamento de um inimigo invisível e internalizado.

somos todos autores tanto da civilização quanto da globalização. pretendendo a análise independente. se expressa por meio de contínuos atos de violência e desrespeito contra indivíduos e sabotagem contra organizações. desenvolver uma estratégia de envolvimento que reduza os riscos do terrorismo em escala menor que. Assim como o processo civilizatório anda a reboque de interesses pouco civilizados. da nossa curiosidade natural pelo que é diferente. A metáfora monstruosa dos atentados se fecha na l i ção que todos precisamos aprender: contra o inimigo que vive conosco. os atos dos terroristas são uma ampliação trágica dos atentados que sofremos diariamente. também. A tecnologia a possibilita e o capital a realiza ao seu modo. armas potentes têm pouco resultado. o maniqueísmo predominou tanto entre os que se alinharam incondicionalmente ao estupor e indignação dos Estados Unidos como entre os que. . que nasce naturalmente da nossa atração pela diversidade. A rigor. O inimigo está dentro de nossas casas e se alimenta de nossas contradições.paradoxalmente. N o plano global. E. brandiram o argumento da "reação contra os abusos do imperialismo". E m ambos os níveis de grandeza. a globalização é um fenômeno cuja autoria não pode ser definida com facilidade. N o plano individual e das organizações de negócios estatais ou privadas. preciso encarar a vulnerabilidade exacerbada pelas novas tecnologias. quanto os impropérios contra a "desumanidade da globalização". nenhuma força será bastante. fazem pouco sentido tanto as vociferações contra os "inimigos da civilização". nos últimos anos.

Não haverá segurança nas ruas de N o v a York. Esse é o verdadeiro espírito da responsabilidade social e ambiental e da bus- . de que ao processo de globalização corresponde o movimento igual e contrário de tribalização. pelo martírio. TRIBOS MODERNAS Agora que nos convencemos. nos defrontamos com a ação de indivíduos que agem deliberada e continuamente contra seus próprios interesses de permanência. que quebra a confiança do mercado ao agir contra os interesses do seu próprio povo? U m suicida que acredita se candidatar. D a mesma forma. da maneira mais aterrorizante possível. outros corroem a confiança sobre a qual deveria se sustentar o sistema que representam e do qual são avalistas e grandes beneficiários. resta tomar consciência de que a guerra começa quando algumas tribos são mantidas à margem dos benefícios da civilização. o desenvolvimento será uma ilusão enquanto as empresas não tiverem como significado mais profundo a universalização de seus benefícios. Os atentados em N o v a Yor k e Washington fazem pensar na urgência de um capitalismo consciente. ou u m chefe de Estado corrupto. à companhia de quarenta m i l virgens na eternidade. Uns se mutilam e auto-destroem. ou o presidente de uma multinacional do setor de alimentos que rouba sua própria organização e leva ao desespero milhares de pequenos produtores de leite em todo o mundo? M a i s uma vez. Paris ou São Paulo enquanto milhões continuarem de fora do processo civilizatório.Pense rápido: quem produz mais danos e por mais longo tempo — um terrorista patética e tragicamente explodindo a si mesmo dentro de um ônibus. e mais sutilmente.

que torna obsoletos os mísseis de longo alcance e os bombardeiros. Vistos a partir desse quadro. U m capitalismo consciente. deve ser entendido como o sistema de negócios que tenha como propósito um processo que não poderíamos mais chamar de civilizatório. cujo pano de fundo é a ilha de Manhattan coberta pela fumaça e fuligem dos atentados de setembro de 2001. e talvez seja a resposta adequada para as inquietações de David Tayne e seus colegas do R o cky Mountain Institute.ca pela sustentabilidade. o imaginoso escudo de armas a laser que se situaria em satélites de órbita elevada e seria capaz de detectar e anular mísseis lançados contra os Estados Unidos. com base em tecnologias e modos que respeitem o ambiente físico e as sutilezas da natureza humana. Qual seria o inimigo das décadas seguintes? N a verdade. os sistemas de proteção que imitam fortalezas parecem a cada dia tão insanos quanto o projeto "Guerra nas Estrelas". mas de humanizatório: que o conhecimento e a riqueza produzidos por tal relação de negócios tenham vocação para gerar bem-estar sem exclusão. para ser interpretado em seu mais profundo teor. a violência mais irracional e ainda mais perigosa do que aquela personificada por Osama bin Ladên e . Os atentados de setembro de 2001 revelaram a face barbada de Osama bin Laden e seus seguidores do fundamentalismo islâmico. o risco maior para as grandes nações é representado pelo inimigo internalizado. Assim como se sabe que cerca de 70% dos atos de sabotagem nas organizações têm origem interna. Não é uma estratégia de marketing nem uma forma de aliviar os espíritos de empreendedores e gestores: é a única defesa contra a aniquilação.

O episódio de Oklahoma foi uma atitude isolada de u m indivíduo. N o s Estados Unidos. que vai de teorias conspiratórias a respeito do governo até antigos preconceitos. na cidade de Oklahoma. M u r r a h e deixou 168 mortos. . Era um americano típico. alimentam crenças intolerantes e se preparam para u m confronto que há muito se instalou em suas cabeças. que são a versão mais sofisticada da intolerância. não está sendo planejada por migrantes excluídos ou militantes de religiões exóticas. lutam por u m ideário difuso. cuja origem remonta à época da colonização da América. Outros três foram presos por posse de granadas de mão e condenados por conspiração. em 19 de abril de 1995. mas não desconectada dos propósitos desses grupos. pequenos ataques a repartições públicas e boicotes a iniciativas do governo. milhares de indivíduos produtivos. educados e integrados ao sistema. que vinham limitando suas ações à violência pontual contra médicos e outros profissionais que aceitam realizar abortos. onde a legislação sobre armas é mais permissiva. dentro dos Estados Unidos.seus seguidores se desenvolve no interior da sociedade ocidental. na Argentina e no Brasil. foi provocada por Timothy McVeigh. N o mesmo período. São o refinamento de outros níveis de intolerância: a explosão que destruiu a fachada do edifício federal Alfred P. cinco membros do grupo de "supremacistas" brancos Ar yan Republican A r m y foram condenados por assaltos a bancos. mas por especuladores "civilizados". adepto do Partido Republicano e militante de uma das centenas de organizações armadas que. eles formam milícias potencialmente muito mais perigosas. N a Alemanha e na França.

Outros estudiosos. A ação do FBI acabou provocando um esvaziamento em muitos desses grupos: das 858 milícias fichadas pela polícia em 1996. disse Laszlo em São Paulo. M a s os eventos de 11 de setembro de 2001 tiveram um efeito contrário e mais perverso: fascinados pela violência dos ataques. declarou admirar e imitar os métodos e a tática do líder fundamentalista islâmico. Tom Metzger. Pelo menos um deles. insistem há duas décadas que o . fundador do Clube de Budapeste. porém. Muitos líderes de milícias e grupos racistas têm apoiado Osama bin Laden em sites da Internet. descontentamentos. como o físico Fritjof Capra e a economista Hazel Henderson. presidente da Resistência Branca Ariana. A revelação da autoria do atentado em Oklahoma chocou a opinião pública por se tratar de um crime contra civis. SIMPLISMO O filósofo Ervin Laszlo. "Isso certamente tem deixado um enorme rastro de frustrações. centro de estudos de macroeconomia e desenvolvimento humano. esses indivíduos voltaram à ativa e começaram a se reorganizar. vem afirmando há vários anos que os modos do capitalismo continuam os mesmos. muitas das quais desarticuladas ou clandestinas. uma semana após a tragédia americana. miséria e falta de significado para milhões de pessoas". entre eles muitas crianças. significam um divisor de águas também para esses descontentes.Os ataques a N o v a York e Washington. embora os ambientes físico e social nos quais eles são aplicados tenham se transformado radicalmente nos últimos 30 anos. restavam 194 no ano 2000. cometido por um anglo-saxão.

para uma visão de sucesso que não se distingue do triunfo suicida dos terroristas. O inimigo identificado apenas representa um inimigo mítico. que hoje se personaliza em muçulmano. o que deturpa o próprio jogo democrático e instala. amanhã em outro extrato da complexidade social contemporânea. Qualquer observador atento da cena política e econômica constata que o interesse em atrair para países em desenvolvimento os grandes jogadores do mercado tem colocado as políticas macroeconômicas e. uma vez que tanto uns quanto os outros jogam o jogo da destruição a longo prazo. a reboque das volubilidades financeiras. Sob uma perspectiva de longo prazo. Não se trata de um indivíduo ou u m grupo.modelo econômico vigente não é sustentável. uma disposição para o ganho imediato. mas que em última instância reside como parasita no coração do sistema. o inimigo internalizado não é. Enfim. M a s ele não melhorou a economia do C hile?" As reflexões de Theodor Adorno a respeito de indivíduos e grupos que agem contra sua própria permanência se aplicam como sob encomenda a qualquer análise mais ambiciosa sobre os escombros do World Trade Center. mas de u m estado de espírito. Os jogos de poder nos países emergentes revelam claramente as sucessões de alianças determinadas pelo interesse em manter suas economias atraentes para os investidores. Há pouco tempo. portanto. no rastro delas. inúmeros embriões de futuros Osama bin Laden. no seio do sistema. ouvi de um empresário brasileiro esta pérola do raciocínio simplista: " A g o r a condenam Pinochet. o fundamentalista muçulmano ou o . o próprio equilíbrio de forças das representações democráticas. para o resultado concreto e suas glórias.

gabinetes inatingíveis instalados em torres inalcançáveis. De suas contradições. investido dos poderes para mover o maquinarlo econômico. o pensamento passeia por um universo vago e difuso de personagens ultra-poderosos. A teoria dos sistemas onipotentes tem servido de justificativa para muitos gestores que se debatem em conflitos éticos no exercício de seu trabalho. pode-se tirar lições mais do que suficientes para que os gestores possam elaborar os princípios sobre os quais se deve construir o conhecimento que irá gerar uma sociedade mais justa e.militante ecológico indignado com experiências de clonagem de animais e com a destruição das florestas tropicais. em geral. assim como a ilusão das revoluções coletivas tem desestimulado a necessária revolução do indivíduo. se torna incapaz de enxergar a grandeza das conseqüências de suas decisões e. As explosões seguidas de desabamentos e poeira em N o v a York foram o retrato revelador de uma verdade mais simples: o sistema é feito pela ação de cada gestor. não se dá conta da relação direta entre aquilo que ele produz . M a s por que o indivíduo. menos vulnerável. inspiração para teorias conspiratórias e uma profusão de mitos. de cada indivíduo que manipula uma parcela desse poder. E m geral. quando se questiona a perversidade do sistema. portanto. expostas à visitação pública nos encontros de cúpula sobre o estado do mundo. O inimigo é a própria incapacidade dos gestores de produzir um sistema econômico cujos resultados sejam mais do que lucro e domínio de mercados. A revelação da vulnerabilidade da maior potência do planeta também significa a abertura das cortinas que resguardavam a imagem do sistema e ocultavam sua fragilidade.

N o entanto. quando não há a percepção clara de um significado satisfatório para uma vasta quantidade de pessoas como resultado das ações derivadas desse poder. quando se referiam a colegas conhecidos por práticas violentas nas ações policiais. pessoas educadas para o melhor que o mundo pode oferecer e. Guardadas as relatividades. eu sabia. ainda no começo da carreira. como pude testemunhar mais de uma vez. São todos homens bons e gentis.todos os dias e a sociedade à sua volta? Não é. Quando repórter. cidadãos progressistas . por exemplo. eu freqüentava por ofício o gabinete do superintendente da Polícia Federal em São Paulo. que a todo poder corresponde um potencial de transformação para o mal de indivíduos bons. que a qualquer momento eles poderiam se considerar a última reserva de defesa da ordem pública e da civilização. até mesmo. Lembro-me do constrangimento que representava para m i m ouvir comentários depreciativos de agentes e delegados sobre personalidades da oposição ao regime militar que eles tinham de controlar e investigar e que eu admirava. E u sabia que aqueles homens se julgavam bons. Isso ocorre sempre que esse poder é exercido para poucos. apenas a deficiência de uma educação para o humanismo que o professor Shigueharu M a t a i constatou em seus p u pilos da escola de engenharia. o universo dos gestores também se comporta como as maltas de Canetti. ou melhor. ironicamente: "Fulano é um homem b o m " . Não é difícil depreender dos estudos de Elias Canetti sobre massa e poder. certamente. Eles próprios. e se transformar em uma malta capaz de julgar e punir com violência inadmissível aqueles que consideravam os maus. costumavam dizer.

eliminar fornecedores. pode-se ter uma idéia das amplas conseqüências que a soma dos pessimismos representará na globalidade dos negócios e das relações sociais em geral. mas suas expressões mais espontâneas pendem para o pessimismo e para o individualismo. tanto os tradicionalistas (como Michael Porter) quanto os utópicos (como Jeff Bezos. que. N o entanto. A l v i n e Heidi Toffler. esses homens bons não hesitam em cortar empregos. uma vez que consideram apenas o interesse de curto prazo da sua parcela de mundo mais imediata. no universo dos gestores. eles não conseguem enxergar o paradoxo. nota do autor) se equivocavam em suas análises sobre as mudanças provocadas na economia pela tecnologia digital. os célebres futurólogos. Entre eles. C o n vém lembrar uma frase do jurista brasileiro Farias Brito: " O pessimismo é o fundamento de uma doutrina do m a l " . afirmavam. Quando se reconhece o papel de cada indivíduo encarregado da gestão de cada unidade de negócio em cada organização. Essa tendência aparece com muita clareza nas sondagens reveladoras de premissas que pude analisar em centenas de gestores. em artigo distribuído em 2000 pela Toffler Associates.e generosos. chamados a comentar possíveis contradições entre sua predisposição para o bem geral e as más conseqüências de muitos de seus atos. aumentar preços. por se . maquiar produtos e tomar uma série de atitudes más em última análise. há u m desejo geral e genuíno de uma nova ordem. reduzir atividades. N o entanto. na qual se possa garantir o resultado da empresa num cenário moralmente mais aceitável. quando o risco de resultados adversos ameaça o sistema na parcela da organização que eles representam.

Alertaram para a necessidade de os gestores permanecerem atentos a todos os fatores de transformação e não apenas à tecnologia. Isso foi feito e a paz ganhou uma chance de interromper os massacres. o rádio. u m novo sistema econômico e social: " A l g o novo está surgindo no planeta. U m a das lições mais interessantes de A l v i n Toffler foi dada em 1994. Os primeiros movimentos dos investidores. que davam informes sobre a localização de pessoas da outra etnia e arregimentavam as hordas. que parte dessa revolução se expressava " n a maré montante de anti-americanismo na Europa e na Ásia".esquecerem de que "todas as revoluções se caracterizam por surpresas. e não apenas para o binômio oportunidade-risco. antes de qualquer outro analista. foram claramente na direção da preservação de interesses setoriais ou até corporativos. ele estava numa conferência da O N U e soube que a população era incitada à violência por duas emissoras de rádio. Os Toffler anunciaram. e não se enquadra nos pressupostos. da qual a nova economia é só u m componente". para levar mensagens pacificadoras e restabelecer a ordem. quedas. numa escala muito grande e muito mais rapidamente do que qualquer outro fenômeno anterior. tremendas oscilações e acasos que têm u m papel m a i o r " . A l v i n e Heidi observam que está em curso. para que olhassem todos os aspectos das mudanças. Milhares de mensagens cruzaram a Internet . logo após a tragédia de setembro de 2001. É uma nova civilização. reversões. N o auge da guerra civil em Ruanda. Toffler sugeriu que a O N U usasse o mesmo meio. o que denota um alarmante sinal de baixa fidelidade no próprio coração do sistema. modelos e paradigmas legados pela era industrial.

para repor o estado de espírito do mercado alguns pontos abaixo da histeria. a organização desses desesperados alcança sofisticação de partido político tradicional. reduziu-se ao "desejo de abreviar a infinita humilhação de existir. amanhã o culto da morte poderá florescer repentinamente em milhões de jovens. "homens bons" determinados a preservar suas unidades de negócio dos riscos de uma recessão. O OUTRO Uma recorrente ilusão. que se contrapõe ao mito liberal do sucesso individual. em pouco tempo. Alguma relação com agir contra seus próprios interesses de preservação? Voltando a Adorno. México e Rússia. e em muitas cidades americanas. Foi necessária uma sucessão de manifestações do governo americano e até de ameaças veladas.e dezenas de corretoras encheram seus sites de informações sobre movimentos oportunistas de compra e venda de ações que poderiam. . que. Se hoje o inimigo internalizado se personifica no jovem fundamentalista islâmico para quem este mundo deixou de oferecer — ou não chegou a oferecer. bem como o infinito sofrimento de morrer em um mundo no qual há muito tempo há coisas piores a se temer do que a morte". do conceito belle époque de "morrer charmosamente". desconectado dos interesses coletivos. como Brasil. E m alguns países. em sua curta vida — um significado capaz de competir com a possibilidade da glória celestial prometida pelos mulas. levar o mercado ao colapso. Colômbia. cujo futuro está sendo decepado neste exato momento por milhares de gestores. é útil lembrar sua referência ao culto da morte. A opção pelo crime como realização de utopias pessoais já é uma realidade nessa população.

o " o u t r o " precisa morrer.tem conduzido a ação de grupos mais ou menos articulados. portanto. Daí à perda progressiva da noção de humanidade é apenas meio passo. E m todos os casos. Neste caso. Assim. Ele se encontra tanto no desempenho dos milicianos do Taleban como se verificava entre os jovens guardas vermelhos de M a o Tsé-Tung. os jovens engajados em grupos de combate chamam seus desafetos. mais ou menos fundamentados em conhecimento teórico e no reconhecimento da História como processo. o sistema precisa também de muitos sacrifícios. reconhecem como inimigos quando não os podem identificar — pela expressão "alemão". no R i o . Para se preservar na figura dos bem-sucedidos. se repete nas gangues da periferia de Los Angeles ou nos morros do R i o de Janeiro. A imagem do " o u t r o " como não merecedor de piedade. buscam como referência o cenário da Segunda Guerra M u n dial: o mal está sempre do outro lado. em ambos os universos. que nem mesmo conhecem ou podem identificar — ou melhor. Trata-se do mito da revolução coletiva definitiva ou duradoura. Neste início do século X X I . E m última análise. o aspecto de "guerra santa" se dá pela crença excludente segundo a qual só u m lado pode estar certo e. segundo o qual o autor do sucesso só se realiza porque em seu rastro ficaram os "outros". o fenômeno confronta claramente o individualismo liberal à individualidade. que se afirma pela anulação do indivíduo por meio do sacrifício em nome de uma crença. . o individualismo presente no ato daquele que usa sua própria morte para eliminar o maior número possível de "outros" não se distancia muito do individualismo indutor do credo liberal.

e simples biomassa. não suporta nem mesmo uma auto-regulação moral. M a s a dialética está fora de moda. falta uma lembrança: na versão econômica da Re- alpolitik. ao terror econômico pulverizado por todo o planeta. observa que o terror explícito na destruição das torres de M a nhattan e parte do edifício do Pentágono corresponde. Uma aliança tácita entre o poder econômico e a imprensa dá corpo e voz ao discurso da unanimidade contrária a qualquer tentativa de esclarecimento das muitas e profundas contradições do sistema. "Tudo que acontece hoje é produto imediato e mediado pelo sistema mundial unificado de modo forçado.O sociólogo alemão Robert Kurz. Para ele. quando economicamente descartáveis. sem a qual o sistema mesmo não poderá sobreviver. quando "produtivos" e consumidores. em um ensaio publicado logo após os eventos de N o v a York e Washington. O capital one world é o próprio ventre gestante do megaterr o r " . que se vangloria de representar a liberdade e se declara mais eficiente quanto mais livre para agir. diz Kurz. que u m miliciano treinado pela . o pragmatismo ensina que não somos todos iguais perante a lei do mercado. Isso ocorre pela ação de um capitalismo que divide a humanidade em seres humanos. A o cinismo geral que se espanta com os atentados de setembro. como se valesse apenas para o pensamento marxista. o modelo econômico. vinham há tempos conferindo legitimidade ao debate liberal versus estadista. Mesmo os intelectuais que se classificam como de esquerda. ao repetir um discurso que considerava real a existência de um liberalismo que todos sabem inexistente. como num espelho. e a maioria dos críticos independentes.

que primeiro minou sua capacidade de contar histórias e produzir reflexões. o American Heritage Dictionary define terrorismo como " o uso ilegal ou ameaça de uso de força ou violência por um indivíduo ou grupo contra pessoas ou propriedades com a intenção de intimidar ou coagir sociedades ou governos. Presa à armadilha do mercado. por razões ideológicas ou políticas". Assim. Bush em março de 2001. anestesiando . e depois. teremos uma definição mais ampla e certamente mais honesta da expressão. iniciaremos o processo de re-significação de modelos pela retomada do senso crítico. Abdicou da sua função de educação em proveito de uma função utilitária. Talvez uma futura versão dos dicionários possa incluir "razões econômicas" ou "razões de Estado". conforme ensinou o presidente George W.C I A só é terrorista quando deixa de explodir funcionários russos na Chechênia ou líderes indígenas na Colômbia para matar cidadãos do mundo em N o v a York. talvez a única medida que pode impedir a escalada de crises que se consolida por todo o planeta. que a Declaração Universal dos Direitos Humanos não vale para tiranos que possuem reservas de petróleo. A propósito de definições. no estado do mundo que precedeu a ruptura de setembro de 2001. O coro de indignação que tomou conta da imprensa mundial não parece considerar a parte de responsabilidade que cabe à própria imprensa. que a defesa das reservas biológicas não é questão de sobrevivência. aos poucos foi se infiltrando em sua própria ideologia. ao quebrar o compromisso do governo americano de honrar o Protocolo de Kyoto. a mídia também se tornou refém de uma praxis imediatista.

afinal. na África e em Timor Leste? Enquanto o sacrifício se dava no outro lado do mundo. tratava-se de "bandidos". O inimigo interior da imprensa é esse conformismo cínico. a i m pessoalidade da vítima não nos induzia a maiores lucubrações. essa também é uma atitude suicida que se pratica em pequenos esforços de sobrevivência. C omo que pasteurizados. que se justifica no mesmo pragmatismo de mercado. sem a correspondente reflexão por parte da mídia. em São Paulo. A isso damos o nome de terrorismo. . sob a alegação de que. que chega a ser obsceno diante da gravidade dos acontecimentos. jornais. contribui para a banalização do conceito segundo o qual sacrifícios humanos são parte do processo social. constatamos que o " o u t r o " somos nós.a capacidade de se indignar que foi sempre o fogo interior dessa instituição. pasteurizado em imagens difusas da T V . em 2 de outubro de 1992. e a tragédia ocorre em um cenário que nos é familiar. Alguma relação com a silenciosa aprovação de cidadãos europeus ao massacre de milhões de judeus em campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra? O u com a omissão — que durou meses — diante das chacinas étnicas nos Bálcãs. pesquisas de opinião pública revelaram que grande parte da população aprovava o morticínio. A repetição de imagens de violência. Quando o inimigo se revela ao nosso lado. Quando 111 sentenciados foram massacrados pela polícia no complexo penitenciário Carandiru. com toda sua tenebrosa capacidade de destruir. C omo a imprensa só existe se for relevante. só faz sentido se não abdicar da posição de vanguarda no processo civilizatório. revistas e noticiários eletrônicos deram ao mundo um festival de obviedades.

entre palavra e ações. essência da civilização. ele declarou que o mundo ocidental perderia a medida da tolerância. produz cenas como a do acadêmico privilegiado por uma bolsa de uma fundação americana. E m 1970. Haja cinismo. . A verdade está entre um pólo e outro. nem os americanos são o melhor modelo de civilização. mas nossos pensadores mais celebrizados penderam para u m ou outro extremo da balança de opiniões. De seu apartamento em Boston. A imposição de idéias acabadas. N e m os Talebans são representantes da melhor tradição muçulmana.. sobre as quais restam poucas áreas para o contraditório e a reflexão. ele gasta seu tempo despachando mensagens para jornalistas. entre decisões de negócio e bem-estar social.. no jogo de radicalismos que se seguiu aos atentados. Assim como no universo das idéias e opiniões dirigidas ao consumo público. no universo do poder real — onde se tomam decisões amplas ou restritas que condicionarão as possibilidades de alívio ou recrudescimento desses conflitos — não parece haver a consciência de uma relação direta entre opinião e história. é a concretização do temor manifestado pelo pensador francês Roland Barthes. utilizando um computador japonês com software americano e u m provedor de acesso criado com capitais de cinco países. com suas "pensatas" sobre o "terrorismo global americano" que ameaçava a "milenar" civilização árabe.CINISMO ILUSÃO A dificuldade dos meios de comunicação em formular "molduras" capazes de conduzir o leitor ou telespectador a reflexões mais profundas do que o festival de preconceitos que se produziu nas semanas seguintes ao atentado. quando abdicasse do livre-pensar.

Descontando-se. assim é porque consideram a cultura moderna um produto de si mesma. "modernidade é uma mensagem e um ímpeto ino- . porque se preocupam exclusivamente em trabalhar sobre a tradição (Turath). o fato de Al-Jabri ser um pensador árabe esquerdista. " N a realidade. Al-Jabri comentava. um status cultural que nasce da superação da tradição e estabelece o primado da individualidade como ponto de partida para a criação da coletividade. que os ocidentais têm dificuldade para entender a cultura islâmica e sua capacitação para a modernidade. se possível. dez anos antes dos atentados de setembro de 2001. quando afirma que a modernidade.Para aproveitar o interesse pela cultura árabe-muçulmana. N a sua definição. não se pode ignorar a lição que ele oferece ao contradizer luminares do liberalismo. a modernidade só é uma posição individual na medida em que está ligada ao desenvolvimento do espírito crítico e da criatividade no seio de uma cultura dada. convém lembrar um dos mais conceituados filósofos contemporâneos do mundo árabe: Mohammed Abed A l Jabri. no Marrocos. professor na Universidade de Rabat. e não como representantes do grupo". capaz de apoiar as ações por uma transformação do sistema — . não é um fim em si. apesar do estatuto que confere ao indivíduo como valor em si. ensina al-Jabri. despertado pelos atentados nos Estados Unidos — e também a título de ilustração para reflexões sobre a necessidade de se restabelecer o senso crítico evolutivo. Referindo-se a afirmações de intelectuais do ocidente de que os árabes não são capazes de alcançar a modernidade. e na medida em que estas duas atividades são exercidas por indivíduos.

E . diz Al-Jabri. sob o calor da comoção provocada por uma tragédia. A indiferença da sociedade com relação aos excluídos. produz o ambiente ideal para a violência individual ou organizada. vai formando na opinião pública u m estado de espírito contrário ao interesse coletivo da tolerância. e a aceitação da premissa segundo a qual o mundo está dividido naturalmente entre "produtivos" e "descartáveis". As evidentes contradições do sistema. sem o correspondente estofo de realidade. cujo objetivo é renovar as mentalidades. o sistema ocidental precisa justificar a si mesmo. são uma das grandes dificuldades para a sedução de outras culturas e o estabelecimento de valores como democracia e liberdade de pensamento. induz a perdas de conquistas democráticas. no sentido que ela tem de diversidade e ambigüidades. empresários e executivos aparecem no noticiário acusados de corrupção e manipulação de instituições provoca uma crescente e perigosa perda de confiança na validade da ética como força propulsora ou sustentadora de negócios ou instituições sociais. políticos. Antes disso. porém. A pressão por mudanças na legislação. as normas do raciocínio e da apreciação". seria necessário orientar o discurso e a prática modernista para o universo da tradição. também. . Para haver uma relação aceitável entre o mundo ocidental moderno e o mundo islâmico tradicional. A freqüência com que autoridades. A repetição de expressões e opiniões fortes contra o mundo islâmico em geral. que exclui milhões em seu próprio meio.vador. u m desgaste na percepção da sociedade a respeito dos direitos humanos e da Justiça. Estas funcionariam como vacinas contra fundamentalismos agressivos de todas as origens.

O que a princípio se manifesta nos delírios místicos. M a s os pensadores da mídia não parecem preocupados com algo mais que não o caráter de espetáculo que se dá a todo evento. Não se sabe em que ponto a sensação de fracasso na auto-afirmação social se transforma de sentimento em ação destruidora. nas massas periféricas. inclusive a que suporta o sentido da auto-preservação. a orientação "racionalista" da mídia contribui em determinado momento para tanger os excluídos na direção da irracionalidade. pode conduzir a posições hostis a toda expressão de racionalidade.Perde-se a noção dos valores reais que deveriam fundamentar qualquer pensamento sobre os fatos de setembro de 2001 e suas conseqüências. A o abordar essas questões sem compaixão e com meiasverdades. Tende a produzir. em outro ponto. em seus programas para jovens. Há uma similaridade com os pontos de vista que conduzem executivos a supervalorizar riscos e agravar crises pela adoção de estratégias conservadoras ou ultradefensivas. Diante desse quadro de irracionalidades. pela exibição de suas nádegas em revistas de gosto duvidoso. pontos de vista muito próximos aos que. os preconceitos que um lado e outro despejam na mí- . Mesmo apresentadoras de televisão que foram alçadas ao grau de celebridades. se colocam como julgadoras da História e repetem. turbinados pelo credo fundamentalista. a reação humana natural e justificada contra o sistema excludente tende a inverter os papéis. Perde-se a noção dos valores democráticos. A crescente tragédia da falta de oportunidades para milhões de famílias na periferia do sistema econômico mundial já se reproduz nos grandes centros da economia mundial. levaram ao terror. religiosos ou comportamentais e.

apartado da realidade pela mediação de seu computador. Nas oportunidades em que ele é chamado a manifestar sua opinião. e a outros portadores da palavra mediada. Talvez seja este minúsculo demônio da contradição a mais sutil e refinada metáfora do inimigo interno que se possa elaborar. Isolado em seu gabinete.dia. o gestor bem-intencionado não se percebe como autor potencial de uma revolução que pode reverter o passo da humanidade na direção de uma crise sem fim. também sobre a inevitabilidade da convivência do ser humano . humanismo e amor. a mente humana já produziu uma infinidade de reflexões sobre a extrema necessidade de uma afirmação de significado como pressuposto para a compreensão da realidade. beato Josemaría Escrivá de Balaguer y Albás — para fazer uma citação ampla. D a mesma forma. lava as mãos e simplesmente veicula o conteúdo que a alcança. Os ambientes que o gestor freqüenta não são em geral simpáticos a idéias que se convencionou chamar de "progressistas". De Freud a Jung. na verdade. usa-se o atributo masculino do discurso afirmativo para se evitar a afirmação daquilo por que todos. chega a ser caricato o esforço que se impõe para evitar expressões que nesses ambientes são tidos como sinais de fraqueza. Até mesmo as mulheres que freqüentam o ambiente de negócios tendem a se expressar em um estilo "masculino". uma relação de causa e conseqüência entre suas manifestações e o ânimo social. intimamente anseiam. de M a r x ao pensador católico. Por ironia. parece faltar a muitos acadêmicos. contraditória e sem preconceitos — . cuja característica principal é a aversão a valores como sensibilidade. C omo a imprensa abdicou da obrigação de educar.

N o universo dos gestores de capital. 3. trafega-se normalmente por um significado no campo do pensamento e produz-se outro significado no campo da ação. SEM o SOBREN O M E DA EMPRESA. FÉ ou CONVICÇÃO? . e da conveniência de situar a felicidade no ponto de convergência entre o pensamento e a ação concreta. Pura esquizofrenia. V O C Ê SE SENTE CONFORTÁVEL DURANTE AQUELAS CONVERSAS MALICIOSAS SOBRE OS ERROS 2. "DEFEITOS" DOS AUSENTES? IMAGINE-SE FORA DO AMBIENTE CORPORATIVO.com a angústia das impossibilidades. Para refletir: 1.

— A resposta inaceitável

Os gestores que estão convencidos da necessidade de criar, mais do que gerir, conhecimento nas suas organizações, de uma forma contínua e coerente com a estratégia definida, precisam encarar e entender profundamente as premissas sobre as quais se baseia a cultura que define todas as suas ações e as de seus colaboradores, fornecedores e até mesmo clientes. A profusão de informações disponíveis e a oportunidade de formar com elas um processo de criação de conhecimento real e prático tira dos gestores a desculpa clássica: ninguém pode alegar ignorância. O consenso em torno da conveniência de "agradar o cliente" pode se chocar com a função educativa da empresa.

Nas duas últimas décadas, a informação tem sido considerada o ativo mais importante das organizações. N o entanto, os gestores não vêm sendo preparados para lidar com um dos grandes paradoxos desse patrimônio: quanto mais valiosa a informação, mais perecível ela se tornará, na proporção em que cumprir sua função de gerar conhecimento e entrar no domínio coletivo. A informação leva sempre consigo uma carga de poder, e seu portador é tentado a prolongar a vida útil daquilo que adquire. Quando a organização não prepara o ambiente cultural adequado, pode em pouco tempo arcar com os custos de informações obsoletas, que atravancam processos e bancos de dados e reduzem a agilidade de suas decisões, demorando em se transformar em conhecimento e cultura. Informações de qualidade, sempre recicladas no tempo certo, são o real ativo de que falam os analistas, porque podem embasar de maneira eficiente os processos de tomada de decisão. A inteligência aplicada a essas informações de qualidade é que gera o conhecimento na empresa. A gestão do conhecimento só pode ser entendida quando se refere à gestão desse processo de agregar valor por meio de informações inteligentemente administradas. Informações sobre o mercado e os clientes podem se tornar um " m i c o " , se sua utilização não estiver vinculada a uma estratégia inteligente de comunicação. Tal estratégia deve considerar questões éticas. Deve estar a serviço de u m entendimento profundo sobre o papel da empresa e as sutilezas de suas relações com a sociedade e, numa escala menor, com o mercado. Informação tecnológica sem sensibilidade humana é igual a desastre.

É o caso típico de setores como o de televisão a cabo o u de cartões de crédito. E m momentos de retração da economia, eles sofrem perdas de receita por entrar nas prioridades de cortes de despesas familiares, e iniciam imediatamente, em seus call-centers, esforços para recuperar clientes ou atacar a concorrência. Quase sempre, o uso direto das informações sobre o cliente o faz lembrar a circunstância financeira desconfortável em que ele se encontra e não produz o clima adequado à venda. Se, em vez de utilizar explicitamente e de modo direto as informações que detém sobre o cliente, a organização propuser uma relação triangular, pode usá-las para planejar parcerias vantajosas para todos os envolvidos, sem correr o risco de constranger o cliente. O próprio funcionário do telemarketing se sente mais inteligente, mais útil e mais motivado, se a empresa lhe der a oportunidade de um diálogo mais elaborado e respeitoso com o cliente. Outro valor importante da informação com inteligência é a possibilidade de utilizá-la como recurso indireto, devolvendo-a para o ambiente interno da organização para que seja digerida como nutriente para a inovação. E m vez de aplicar imediatamente a informação e esgotá-la no primeiro momento, existem circunstâncias em que a rapidez perde para a ponderação no comparativo de resultados. Fazer girar a informação por um número amplo de pessoas dentro da empresa, com o compromisso de recolher a curto prazo

insights e idéias de melhoria, é aplicar a inteligência coletiva
para valorizar esse ativo. Novos produtos, novos serviços e até novas visões do negócio podem brotar dessa experiência de compartilhamento.

Uma das surpresas que uma iniciativa como essa pode produzir é a constatação de que o atual profissional da i n formação não representa necessariamente o protótipo do futuro trabalhador do conhecimento. Quando a informação circula, num contexto produtivo em que todos os participantes estão comprometidos com o objetivo de lhe dar mais valor e significação, abre-se a oportunidade para talentos de analistas e inovadores que, sem a informação, continuariam no ostracismo e sem contribuir para o processo de melhoria. Esse exercício pode revelar até mesmo que a divisão de atribuições pode não estar de acordo com as novas perspectivas geradas pela tecnologia e abrir a oportunidade para renovar a estrutura da organização e melhorar sua eficiência. Quando a informação não circula, ou quando não há o pano de fundo de um significado aceitável para a coletividade, ela se transforma em instrumento de poder, para quem a pode manipular, e exclusão de quem não a possui. gera

em torno dela relações sectárias, que produzem funcionários descontentes e revoltados, numa organização, e radicais intolerantes, num contexto mais amplo da sociedade.

PARTILHAR INFORMAÇÃO A o assumir algumas tarefas tradicionais da gestão, a tecnologia de informação torna mais explícitas certas competências ou deficiências, que podiam ficar ocultas ou dissimuladas sob um manto de eficiência tarefeira. E m sua função de suporte para competências mais complexas, essa tecnologia abre espaço para uma maior visibilidade dos talentos realmente importantes e para a manifestação dos espíritos inovadores. Para isso, porém, precisa deixar de ser

uma divindade no oratório dos gestores. Infiltrada em todos os escaninhos da organização, pode transformá-la em uma comunidade de conhecimento. Sua vocação está muito além do processamento de vendas, do nivelamento de estoques, da agenda de pagamentos ou da logística. Essa tecnologia está inevitavelmente mesclada à própria gestão da empresa e, no plano individual, acaba definindo novos padrões de relacionamento e novas formas de percepção da realidade. Assim, ela também faz mais sentido como ambiente para desenvolvimento de novas formas de aprendizagem interna; como veículo para u m sistema mais aberto de comunicações e berço de idéias e experimentações; como cenário para simulações de situações críticas de mercado, com informações reais e sem os riscos inerentes à realidade. C o m o repositório de novas linguagens que ancorem o conhecimento produzido pela organização, esses instrumentos ainda cumprem o papel de suporte para a educação corporativa, na direção de um desafio que se apresenta a cada dia mais visível: a tendência de que todos os produtos se transformem em serviços na percepção dos consumidores. E m b o r a esse conceito ainda esteja amadurecendo na maioria dos setores, basta observar os números da economia mundial para constatar que os setores considerados de serviços, como bancos e empresas de infraestrutura, têm levado enorme vantagem se comparados c o m setores tradicionalmente classificados como de manufatura. Pode-se considerar esse fenômeno como resultado de u m período de transição, por causa da explosão de tecnologias que oferecem grandes oportunidades para serviços, e por causa do novo estilo de vida social, com mais intera-

paralisadas por conflitos sociais que podem em pouco tempo destruir mercados. eliminar fontes de insumos e deteriorar a infraestrutura sem a qual os negócios não poderiam existir. que resultou em produtos eletrodomésticos sofisticados. por causa da possibilidade crescente de se individualizar a comunicação e reforçar nos indivíduos a percepção de produtos como serviços. no futuro . em muitos lugares do mundo. N u m contexto que extrapola o ambiente das organizações. o fim das tarefas repetitivas empurra para fora do sistema produtivo milhões de pessoas. O recrudescimento dessa situação aponta para um horizonte no qual as empresas também estarão sob risco. Hoje. U m a visão estratégica de longo alcance exige a consideração do papel que cada organização pode e deve cumprir — até mesmo em seu próprio interesse — na prevenção de circunstâncias sociais derivadas da exclusão. mas que tem com elas uma relação de causa e efeito. é preciso atentar para as conseqüências da implantação dessa tecnologia num cenário de transformações radicais em todo o mundo. e daqui para o futuro. Basta lembrar que na versão anterior de salto tecnológico. Assim como. os setores manufatureiros e de comércio eram as estrelas dos balanços de resultados. Mesmo que se considere tratar-se de uma transição. não se pode negar que a sofisticação da tecnologia de informação tende a ampliar a confusão entre os utilitários e sua utilidade. Sem um Estado forte para lhes dar apoio e com uma sociedade anestesiada demais para produzir qualquer mudança.tividade e mais comunicação de massa. se confunde uma rede de fast-food com o governo americano.

clima organizacional e conhecimento corporativo. respeito ao ambiente. de alguma forma vantajosa. mas principalmente na carga de valor real com que ele chega ao cliente. como ocorreu nos anos 1950. esse valor. mais do que risco. A nova definição de manufatura aponta conhecimento e idéias como matérias-primas e reconhece entre os seus ativos elementos antes considerados intangíveis.um produto poderá ser tomado pelo todo da organização. O preciso saber comunicar benchmark é praticado em tempo real. A definição tradicional de manufatura como o trabalho que se faz no chão de fábrica pela transformação de matérias-primas já não faz sentido. mesmo porque não haveria serviço sem manufatura. mas cada empresa . e não apenas no desenho do produto. Tudo isso e outros fatores são condições que podem agregar valor ao produto no momento em que o cliente o percebe. N o entanto. mas o cliente tende a perceber o produto pelo seu efeito. essa tendência representa uma oportunidade de criar u m novo significado para a manufatura. como a relação com a comunidade. dos produtos dos concorrentes. De fato. um dos maiores problemas que se apresentam ao setor de manufaturas é convencer o mercado de que seu produto se diferencia. Assim. um simples caso de descontentamento acenderá o pavio de u m repúdio em larga escala. não ocorre uma substituição da manufatura por serviço. na mesma proporção que cria oportunidades. Assim. gera desafios pelo simples fato de estarem as informações disponíveis para praticamente todos os jogadores ao mesmo tempo. O tráfego intenso de informações. que pode ser mortal para qualquer organização.

para oferecer pacotes de orientação para investimentos. seguros e outros serviços. além de realizar bem a utilidade para a qual foi concebido. o que se oferece de fato ao consumidor não é o produto em si. O resultado será tanto melhor quanto mais clara for a percepção do cliente de que aquele produto. qualificando-os como "produtos". O gestor que pretende ir além disso precisa desenvolver em sua organização um conceito básico: o que se pode dar como diferencial significativo é a percepção. principalmente. de uma real participação do cidadão cliente nos benefícios da atividade da organização. que nasce na concepção do produto ou serviço. mas a percepção que ele terá de uma necessidade ou desejo atendido de forma amplamente satisfatória. Entre um e outro significado. É nesse sentido que os analistas em geral estão usando a expressão "serviço".realiza a seu modo os processos produtivos. O VALOR REAL Portanto. o que se descortina é a evidência de que a disputa se fará menos pela percepção . respeita o ambiente. é oferecido por uma empresa cujos resultados não irão apenas engordar a carteira dos acionistas ou o crédito de bônus dos gestores. Mesmo os bancos. utilizam em larga escala a expressão "pr odut o" em suas comunicações. as instituições que manufaturam produtos tangíveis tendem a ser percebidas pelo efeito de seus produtos. é finalizado no contato com o cliente. enquanto os fornecedores clássicos de serviços tentam tangibilizá-los. Esse estilo. não consome energia em excesso e. consolidada e inequívoca. fundos. que vendem serviços. Assim.

em tom de confidência. N o terceiro mês o executivo ainda pedia informações. e só no quarto mês uma funcionária da oficina lhe informou. para o cliente é u m meio. Se não desenvolvermos uma forte capacidade de empatia com o cliente. foi enviada para o laboratório da fábrica. Afinal. O diretor de uma empresa mandou para conserto seu computador portátil. U m mês depois. no início de 2001. u m plano de negócios. mas para isso é preciso que a organização tire u m pouco o olhar do seu próprio umbigo. tratavase de coisa simples. indicadores de desempenho de determinado setor da economia. que um caminhão que transportava uma carga de computadores havia sido roubado. Q u e m melhor entender esse momento de percepção estará muito mais próximo do cliente. a percepção pode passar do produto para o que chamamos de serviço. não havia necessidade de mexer com o disco rígido. U m elemento básico muitas vezes fica ignorado: o que a maioria das organizações considera u m fim. porque seria trocada uma peça importada e ela precisava passar por um teste específico. sem que nossa estrutura de comunicação se dê conta do que ocorreu. ele não se preocupou em salvar seus arquivos. C o m o se tratava de u m problema na conexão do cartão de rede. A máquina foi para uma oficina autorizada pela fábrica. . Só então o cliente lembrou que mantinha no notebook alguns projetos. pois não dispunha de tempo. O caso aconteceu em São Paulo. e mais pela percepção mais pr ofunda do indivíduo cidadão.do produto ou serviço por parte do indivíduo consumidor. o texto original de uma apresentação e a senha de seu cartão bancário.

de modelo mais recente e com o dobro de memória que tinha em sua máquina perdida.Tomou as medidas que estavam ao seu alcance para reduzir o risco de prejuízos e entrou em contato com a diretoria da fábrica de computadores. o executivo precisou aprovar a compra de uma nova rede de computadores. por meio de oficinas autorizadas. estava o nome da fábrica do seu notebook. N o segundo semestre de 2001. quando o produto apresentou defeito? Serviços de manutenção? Que impressão a empresa passou ao cliente quando tentou esconder-lhe que o computador havia sido roubado? Considerando-se que a intenção da empresa em relação ao seu cliente é sempre a melhor possível. Ele apanhou um lápis vermelho e eliminou o nome da empresa. condições maravilhosas para a compra. como primeira recomendação: máquinas de qualidade. no topo da lista de fornecedores. preços excelentes. Sobre sua mesa. Só dez dias depois conseguiu uma cópia do Boletim de Ocorrência e ouviu a promessa de que receberia um novo computador. Não pode alegar que ela desconhecia os riscos de . quando o nome da empresa apareceu na lista de candidatas ao fornecimento da nova rede? O fato de alguém no escritório da fábrica ter decidido que os proprietários dos computadores não deveriam ser informados do roubo revela que a empresa está seriamente doente. que boa intenção haveria na tentativa de poupá-lo do aborrecimento de ser informado do roubo? Qual teria sido a evolução das percepções do cliente. O que a empresa lhe havia vendido? U m computador portátil? Uma ferramenta de trabalho? O que ela lhe oferecera. desde o momento em que adquiriu seu computador até o desenlace.

Isso influencia até mesmo a tendência da sociedade para reduzir a idade penal e permitir a condenação de crianças e adolescentes infratores. consolida-se a tendência ao estabelecimento de legislações menos concessivas quanto à capacidade dos indivíduos de interpretar as regras jurídicas em geral. a disponibilidade de recursos cada vez mais eficientes e sofisticados reduz ainda mais o espaço para erros causados por ignorância a respeito de como o resultado de nossa atividade é percebido. induz à consideração de que as partes estão sempre informadas dos teores de seus contratos. confessar que faz trafegar mercadorias sem documentos fiscais. pois seria admitir grave falha no seu sistema de informações operacionais o u . que aumenta a carga de trabalho dos órgãos mediadores e da Justiça. pior. E m praticamente todas as nações. " E u não sabia" é a resposta que tende a se tornar inaceitável na maioria das circunstâncias. Mesmo a complexidade cada vez maior das relações sociais. mas o que isso significa na percepção do cliente? U m a empresa que vende tecnologia não pode alegar dificuldade para relacionar uma lista de máquinas roubadas aos nomes de seus proprietários. . Certamente os assessores jurídicos se orgulham muito dessa clarividência. N o ambiente das relações entre empresas e sociedade. U m a das conseqüências mais perceptíveis da disponibilidade em grande escala de informações é o estabelecimento do conceito da responsabilidade pessoal plena.manter os clientes desinformados. O contrato de conserto dos computadores sempre estipula que a empresa não é responsável pela segurança dos conteúdos da máquina.

OBSERVE C OMO VOCÊ REAGE N O PRIMEIRO MOMENTO A C ONTRARIEDADES QUE O SURPREENDEM. V O C Ê É A FAVOR DA PENA DE MORTE? PARE. 2. REFLITA POR U M MINUTO. RESPONDA À PERGUNTA OUTRA VEZ. IDENTIFIQUE AS PREMISSAS QUE FORMAM SEU MODELO MENTAL. . PENSE NUMA SITUAÇÃO CAPAZ DE IRRITÁ-LO ATÉ O EXTREMO.Para refletir: 1. V O C Ê ESTÁ SATISFEITO C O M SUA INTELIGÊNCIA EMOCIONAL? 3.

E u disse: " N o nosso país. Ele r i u por delicadeza. Alinhei ainda alguns exemplos de como. seus correligionários haviam apelado para o que havia de pior entre as opções de protagonistas disponíveis para a cena política.XI—A reserva moral dos conservadores Fiz esta piada há alguns anos. em situações de crise. mas teve de concordar que uma verdade maliciosa brincava por trás da anedota. Ele próprio se lembrou de momentos em que se viu obrigado a fechar os olhos e assinar acordos que no íntimo con- . os liberais são apenas a reserva moral dos conservadores". durante almoço com u m velho conhecido que era então dirigente de u m partido que tem em sua sigla o " L " de Liberal.

quando uma empresa procura manter uma imagem institucional moderna. enquanto internamente trata de manter as relações de trabalho arrochadas às políticas mais conservadoras possíveis. Refiro-me à mesma relação da qual tratava com meu conhecido liberal. Expressões como task-force e workout surgem nos quadros de avisos. Trago esse episódio à lembrança para me referir a dois fenômenos que se verificam em muitas organizações. cuja função parece ser exclusivamente a de escarafunchar a legislação trabalhista e as normas tarifárias para encontrar as brechas de onde as organizações possam tirar alguma vantagem. portanto. meu conhecido podia imaginar quão gratificante teria sido discordar de algumas daquelas decisões. O primeiro deles é a manutenção dos "sargentos" de plantão. sempre sujeitos a especulações da imprensa —. sem que a maioria dos parti- . Os organogramas são alterados apressadamente para abrigar gerentes recém-promovidos das áreas técnicas. Concordou que nenhuma dessas associações trouxe para seu grupo resultados positivos a longo prazo e. Claro que nenhum administrador seria cândido a ponto de procurar o custo mais alto ou a desvantagem explícita em qualquer processo de negociação. apesar de não ser possível comparar o acontecido com as outras possibilidades abertas por escolhas diferentes. em função da movimentada troca de processos e métodos produzida pelas novas tecnologias disponíveis. São gestores de recursos humanos e assessores jurídicos.denava. U m outro fenômeno também pode ser observado em grande número de organizações. geralmente em função da presença de acionistas ou diretores em entidades de classe — e.

que educação é proporcionada a essa nova elite. eram pessoas de perfil acanhado e conservador. e embuti questões sobre visão pessoal em perguntas técnicas ou de negócios. tive a oportunidade de participar de cursos para gestores intermediários de uma grande variedade de organizações. a questões simples e pontuais destinadas a revelar as premissas sobre as quais eles tomam suas decisões. uma questão sutil vai sendo deixada para trás. um forte enlaçamento com premissas que eram exatamente a antítese daquilo que suas organizações buscavam quando contrataram aqueles cursos. gestores públicos e empreendedores. talvez pouco mais de um milhar de gerentes. segui aplicando a análise de perfil em outros executivos de vários níveis hierárquicos. O retrato era semelhante. pelo incômodo que representa e pelo trabalho que dá lidar com ela. pude tabular as respostas espontâneas de centenas. vivendo u m evidente conflito de valores. Nos anos seguintes. N o entanto. C o m o facilitador de aprendizagem em sessões sobre gestão do conhecimento. Quase todos se encontravam numa fase de grande desenvolvimento profissional. Era como se vivessem simultaneamente em dois .cipantes dessas ações tenha sequer entendido o que elas significam. O resultado me espantou: na grande maioria. Quase todos representavam organizações que enfrentavam naquele momento importantes desafios — razão principal para o fato de receberem uma educação especial em gestão. Enquanto isso. Que espécie de cultura se desenvolve nessa organização. aqueles indivíduos expressavam quase unanimemente um arraigado conservadorismo. que rapidamente toma posse de centros de decisões vitais para a empresa? Há pouco tempo.

Quando convidados a expressar seus desejos e sua disponibilidade para a missão de conduzir a organização. com todas as incertezas e variáveis peculiares a toda mudança. Quando consultados sobre suas crenças mais íntimas. Esta é uma situação típica em que o gestor está premido entre o que se convenciona como os interesses imediatos do capital e as necessidades e oportunidades da organização. com todos os seus elementos concretos e mensuráveis. As premissas conservadoras aumentam o temor ao risco. Quando a gestão se faz exclusiva ou predominantemente em função do que se considera interesse imediato do capital financeiro. e pilotar as mudanças necessárias. e induzem à imobilidade e ao comodismo. emergia todo o temor do desconhecido e o apego a valores conservadores. . o conflito torna-se inevitável.mundos: o da consolidação de posições conquistadas e o da transformação. porque o risco está presente em todos os movimentos de gestão. Eram os verdadeiros arquétipos da transição. ampliam o valor percebido do risco. na figura da anatomia de resultados e do fluxo de caixa. eles eram agentes de mudança. eram liberais e progressistas. as premissas sobre as quais se assentavam seus modelos mentais. ainda mais evidente na ocasião em que as oportunidades se oferecem. Deixar uma situação de estabilidade para assumir uma atitude de risco tem sempre um alto custo em angústia. o duploeu da organização: precisavam ao mesmo tempo preservar a empresa. mas como indivíduos eram profissionais com necessidade de consolidação. mas parece crescer na proporção direta das oportunidades. Como representantes e gestores das organizações.

nas reuniões de trabalho.Assim como em todos os organismos vivos. a teoria supera em muito a realidade da organização. Os avanços são sempre seguidos de períodos de consolidação. ou as novas premissas apresentadas aos colaboradores encarregados de traduzir a nova visão da organização para os escalões operacionais. DUPLA PERSONALIDADE Não é raro observar. O olhar exclusivo ou predominante para os interesses do capital financeiro pode condicionar as escolhas às atitudes que correspondem à contração. E m praticamente todos os cursos comprados pelos departamentos de recursos humanos. pois a . Quando o capital se fecha ao conhecimento por meio de atitudes conservadoras. A nomeação de u m gerente para uma força-tarefa que se dedica a reinventar os processos da empresa gera nele sentimentos contraditórios. pois é preciso sempre provocar rupturas nos hábitos de gestão muito consolidados para obter avanços e melhorar a produtividade. O capital perde quase sempre. à ruptura se segue o desejo de estabilidade. à busca da estabilidade e da consolidação. que a linguagem tende a ser liberal. também é da natureza de todo empreendimento humano que ao movimento de expansão corresponda sempre um movimento de contração. o conflito tende a se instalar entre ele e o conhecimento. O problema é que quase nunca ocorre uma contrapartida de atitudes da alta direção no sentido de referendar os valores ali defendidos. mas as atitudes são conservadoras. que o induzem ao mesmo tempo ao desejo de criar e à propensão para deixar tudo como está.

Nunca. que pode desenvolver nos gestores o gosto pela inovação e a capacitação para perceber as rupturas antes que elas aconteçam. mas os dados e informações disponíveis pelas múltiplas mídias de hoje em dia de pouco . em outros tempos. Nenhum dirigente dos países envolvidos nas disputas por mercados admite seu caráter conservador. atitudes aparentemente "liberais" são um disfarce para a manutenção do status quo. Surge então um dos grandes paradoxos da gestão: as premissas conservadoras que se instalam em função de defesa fragilizam a organização e tornam real o risco imaginado.realidade da sociedade e de sua expressão econômica — o mercado — é dinâmica e evolutiva. "é preciso desenvolver uma arquitetura estratégica dentro de propostas de valor. aumentando a segurança das decisões. diretor da InovationSeed. Às vezes. C omo observa o consultor K i p Garland. comenta Garland. A observação sobre o papel do "liberalismo" como reserva moral do conservadorismo se torna muito concreta nas negociações em torno dos mercados regionais e as barreiras tarifárias. para que possamos identificar as ortodoxias que imobilizam — aquilo que nos ajudou a crescer e agora atrapalha". enquanto as premissas evolutivas ou progressistas habilitam os gestores da organização a enxergar além dos riscos de curto prazo. Deve haver no noticiário internacional um par de boas lições para os gestores. Este é um princípio da educação para a estratégia. a Organização M u n d i a l do Comércio foi convocada a administrar tantos conflitos como nesta era chamada de triunfo do liberalismo. mas o que mais falta aos debates é a sincera disposição de praticar o que vai nos discursos.

decisões estratégicas que alteram profundamente os processos e podem definir o destino da organização. ou a organização não os educar. Até mesmo nas ações em seu próprio campo. O investimento em tecnologia sem esse cuidado gera inevitavelmente distorções nos sistemas de poder. Transferem para os setores técnicos. Se a aquisição de tecnologia se fizer sem o cuidado de estimular uma cultura menos conservadora e mais evolutiva. para criar conhecimento a partir desses elementos. estendem seus benefícios ao ambiente mais amplo possível fora dela. A s premissas básicas que orientarão suas escolhas podem ser do tipo restritivo ou expansivo. Estimular os gestores a observar e valorizar a consciência de seu papel na organização e a missão da própria organização no contexto da sociedade: esse é o ponto de partida para que o investimento em informações e na tecnologia que as transforma em ativos valiosos produza resultados. se o modelo mental for muito conservador. e para os especialistas. preferencialmente. eles fazem sentido e servem de conteúdo para a criação de conhecimento em todos os nichos da organização e. Desse modo.valem se eles não se educarem. As informações só produzem conhecimento quando elevam o nível de consciência de quem as recebe. e esse é um fator definidor de . o especialista corre o risco de tomar decisões equivocadas. Os dados só podem ser considerados informação quando fazem sentido em determinado contexto. Ainda lembrando a tese de Sérgio Storti. o risco de perda será muito grande. a "tecnologia da libertação" só se aplica a organizações que desenvolvem as premissas adequadas e se preparam para agregar valor aos dados colocados no "piloto automático".

sucesso em tudo que o gestor vai empreender. Premissas expansivas são agregadoras e propensas a produzir, estimular e atrair continuamente mais conhecimento. Premissas restritivas são desagregadoras e desestimulantes, e tendem a dificultar o florescimento de idéias inovadoras pela imposição de um senso crítico exagerado e irreal. Elas estão por trás de todos os projetos mal sucedidos, prontas para expelir aquela frase muito comum: " E u sabia que não ia funcionar". C omo gestor de um negócio online, tive a oportunidade, logo nos primeiros anos da Internet no Brasil, de elaborar um projeto que se chamaria inicialmente "linhas condominiais". Era simplesmente um serviço de provimento de linhas dedicadas, que ligariam edifícios de escritórios ou residenciais ao servidor de uma empresa de comunicação. N o modelo proposto, a empresa incorporadora instalaria os cabos de rede em um edifício em construção, a operadora de telefonia forneceria a conexão em banda larga (larga para os padrões brasileiros da época, mas realmente muito mais poderosa do que a melhor opção do mercado) e um quarto parceiro, uma empresa de administração de condomínios, faria o controle do tráfego. As vantagens eram evidentes para todos os participantes convidados. A operadora de telefonia, na época uma estatal à beira da privatização, ganharia mercado para um produto disponível cuja demanda era muito baixa, o que certamente aumentaria seu valor no leilão de privatização. A empresa de comunicação teria seu público multiplicado pela Internet, com todo o valor que poderia agregar ao seu conteúdo, usaria a Internet para conquistar e fidelizar assinantes, se

consolidaria como a opção da comunidade e ofereceria uma mídia segmentada aos anunciantes. A incorporadora teria algo muito mais atraente a oferecer aos possíveis compradores de apartamentos ou escritórios além dos banais serviços de T V a cabo, duas garagens por unidade, playground etc. A administradora de condomínios conquistaria os melhores prédios da cidade, beneficiando também sua imagem ao se tornar a primeira empresa digital do setor. Além, é claro, de poder realizar online as chatíssimas reuniões de condomínio, reduzindo ainda o custo das comunicações com seus clientes. O único executivo que entendeu totalmente o projeto foi o gerente de tecnologia da então estatal de telefonia. Ofereceu uma taxa muito próxima do valor de custo, comprometeu-se a usar o projeto para aplicar pioneiramente todas as melhorias que se anunciavam naquela época, e que hoje são muito comuns, e a ampliar continuamente a banda em todas as conexões contratadas, até o ponto de podermos fazer trafegar imagens de vídeo com qualidade aceitável. Isso habilitaria a empresa de comunicação a oferecer no futuro canais de T V condominiais, sem o alto custo do cabo e dos sistemas de antenas e decodificadores. A empresa de comunicação nomeou u m gerente muito bem intencionado, que logo entendeu o alcance do projeto, mas não teve o respaldo necessário de seus superiores. Logo sua energia se dissolveu diante da carranca de seu diretor ultraconservador, pessimista e obcecado por resultados de curto prazo. A administradora de condomínio, que entraria na fase de operações, chegou a ser contatada, mas o projeto f o i abortado antes que ela se engajasse. a

empresa construtora e incorporadora, representada pessoalmente pelo proprietário, não chegou a examinar a idéia. Uma pérola do "empreendedor" matou a conversa antes do prato principal, numa das boas churrascarias de São Paulo: " A única coisa que interessa hoje para o meu setor é reduzir o custo". Oportunidades como essa saltitaram diante dos olhos de milhares de gestores na última metade da década 1990. Premissas restritivas e modelos mentais conservadores i m pediram que enxergassem além dos custos ou do curto prazo. Grande número de projetos que pude acompanhar nesse período se tornou realidade graças à estratégia de guerrilha adotada por gerentes e técnicos, que se convenceram muito cedo das transformações que estavam sendo gestadas no casamento entre a informática e a telefonia. Então, quando os gestores e empresários abriram os olhos para as oportunidades, estavam todos no mesmo jogo e acabaram alimentando reciprocamente as ilusões que levaram à bolha da economia digital. Pouco tempo depois, estava claro que quase todos haviam perdido. M a s talvez o melhor exemplo do liberalismo como porta-estandarte do conservadorismo tenha ocorrido na década anterior, exatamente em 1989. M a l se anunciaram os resultados da eleição daquele ano no Brasil, com a vitória de um candidato ultraconservador, apoiado por todas as siglas adornadas pelo " L " de Liberal, diversos consultores foram chamados aos auditórios de grandes empresas para traçar o novo cenário econômico que se desenhava no horizonte. Uma grande corporação multinacional com interesses diversos, como tecidos e química, foi palco de um caso tipi-

co. Reuniu seus gerentes e diretores e colocou diante deles um dos gurus do momento, economista de grande renome, consultor e professor consagrado. Ele começou analisando o perfil político do presidente que seria brevemente empossado. Falou de sua modernidade, de seu pleno engajamento ao modelo que a mídia já batizava de neoliberal, destacou as amplas perspectivas que se ofereceriam para o país com a provável abertura para o mercado global e deixou todos os gestores em estado de graça ao dizer que, com a queda do M u r o de Berlim, abriam-se as portas do paraíso. M a s a realidade não honrou suas previsões: o novo presidente confiscou a poupança dos brasileiros no seu primeiro dia de governo, levou milhões de famílias ao desespero e aniquilou milhares de empreendimentos por todo canto. Beatificados pela palestra do consultor, os gerentes daquela empresa demoraram quase seis meses para entender que a verdade era bem diferente daquilo que eles haviam vislumbrado. Muitas decisões equivocadas foram tomadas, muitos recursos foram desperdiçados até que u m novo programa de treinamento pudesse ser providenciado para recolocar a empresa nos trilhos. Dez anos depois, u m daqueles gerentes, já ocupando uma função de consultor terceirizado pela organização, confidenciou que as perdas chegaram a comprometer a posição da empresa em alguns setores nos quais ela mantinha uma confortável liderança. N a sua opinião, o que se passou naquela organização foi um processo de ilusão coletiva, influenciado pelo discurso messiânico do presidente eleito somado ao desejo de mudança e à crença na possibilidade de uma transformação "mágica" da realidade.

Para refletir:
1. NOSSOS MODELOS MENTAIS NASCEM DE PREMISSAS "ORGÂNIC A S " ; NOSSO LIVRE-ARBÍTRIO, QUE NOS DIFERENCIA DAS OS-

TRAS, NOS HABILITA A TRANSFORMÁ-LOS. 2. O PENSAMENTO PODE INFLUENCIAR A REALIDADE OBJETIVA?

COMO? 3. CRIAR CONHECIMENTO PARA QUÊ?

se não houver uma nova significação do que se convenciona chamar sucesso individual. segundo a qual os criadores de riqueza serão os autores da modernidade e condutores do que chamamos civilização. M a s nada mudará.XII—O capital conhecimento A criação de u m conhecimento capaz de i n duzir ao desenvolvimento de uma sociedade mais justa. M a s ao mesmo tempo exige uma noção de realidade que só os indivíduos habituados à luta por resultados conseguem desenvolver. Esse é o fundamento da tese multicentenária. que se possa chamar civilizada. . passa necessariamente por uma crença profunda na possibilidade dessa mudança.

Estados Unidos. Analogias produzidas a partir do conhecimento científico podem estimular novas significações com mais segurança do que aquelas que são normalmente produzidas pelos sistemas de crenças presentes na cúpula das empresas. o ser humano começa a usar a compreensão oferecida pela experimentação para criar metáforas que ajudam a criar novos paradigmas. o vírus real Antraz. apropriando-se do conhecimento em biologia. A lição da exclusão começa nos gabinetes que se intitulam liberais e. em vez de gerar metáforas para entender fenômenos aparentemente obscuros. retorna aos gabinetes sob a forma de vírus de computador. Assim. A ciência é uma dessas fontes de metáforas que. bem aprendida. pode-se educar a organização a buscar novas metáforas que contrariem a percepção de realidade condicionada à aprovação prévia das crenças da organização. como os grupos radicais que começaram agredindo imigrantes na Alemanha e acabaram explodindo um edifício público em Oklahoma. ou até mesmo bombas com explosivos reais num simples envelope. Graças ao grande desenvolvimento da ciência nas últimas décadas.O conceito conservador segundo o qual a sociedade não pode desperdiçar suas energias com o suporte aos menos habilitados levou ao rompimento de antigos pactos econômicos e políticos ao longo dos últimos trinta anos e à redução do papel do Estado como mediador dos processos de desenvolvimento. pode-se aferir uma série de novas convenções sociais. N u m sentido inverso. Produziu monstruosidades.podem ser diretamente apropriadas pelo gestor. nas . O conhecimento necessário à reinvenção do sistema está disponível em múltiplas fontes.

quais o sucesso do indivíduo é percebido por sua habilidade em desenvolver a si próprio e contribuir, em correspondência, para o desenvolvimento da coletividade à sua volta. Embora tal acepção possa parecer poética, no sentido geralmente pejorativo que se dá à palavra nos ambientes "profissionais", o próprio sistema econômico dá sinais de aceitação desse tipo de paradigma, a julgar pela tendência de setores mais críticos (e de maior poder aquisitivo) da sociedade a evitar produtos oferecidos por empresas consideradas ecológica ou socialmente incorretas, ou que adotam práticas moralmente condenáveis em seus processos, como a corrupção ou o desrespeito a direitos trabalhistas. N o Brasil, pesquisas realizadas no final de 2001 indicavam que perto de 2 5 % dos consumidores mantinham a disposição permanente de punir direta ou indiretamente as empresas percebidas como não éticas. N o s Estados Unidos, a porcentagem dos consumidores que dizem levar em conta a responsabilidade ecológica e social de uma empresa antes de decidir pela compra, subiu de 2 5 % para 6 0 % entre 1991 e 2001. A s pesquisas feitas dois meses depois dos atentados em N o v a Yor k e Washington indicavam um salto de 19 pontos porcentuais, com 79% dos cidadãos declarando preferir produtos e serviços de empresas que contribuem para melhorar a sociedade e preservar o ambiente. Os indicadores de sustentabilidade D o w Jones são um exemplo desse novo paradigma, bem como certos fundos de investimentos que levam em consideração o balanço social das empresas. N o Brasil, o A B N A m r o Bank foi pioneiro na criação de um "fundo ético" de investimentos em ações de empresas que se destacam por sua responsabilidade so-

ciai, seguindo uma tendência crescente em muitos países. The Canadian Ethical Money Guide oferece uma lista de empresas e corretoras que se tornam o destino natural de i n vestidores com elevado nível de consciência. "Ética e lucro" são palavras não excludentes, segundo constatam os investidores nessas ações. Weidner Investing, Ethicalinvest, Getethical, Ethical Stockbroking, Profit for Principle, são algumas organizações que oferecem esse tipo de escolha para os investidores. Centros de informações, como o Social Invest Forum, publicam estudos sobre o desempenho de empresas com forte significado social. A importância dessas iniciativas para o futuro do sistema econômico e social mundial, e sua influência na reversão do sentido destrutivo que o tem caracterizado, vão depender de uma série de fatores. Entre eles está a capacidade da imprensa de acompanhar a evolução de organizações tidas como socialmente responsáveis, e a inteligência estratégica das empresas em investir na elevação do nível de consciência dos gestores, e não apenas na sua capacitação para os processos. M a s a imprensa tem se caracterizado, desde a década de 1980, por suas funções utilitárias e de entretenimento, enquanto sua função de educação se deteriora e sua linguagem perde as características de linguagem culta. N o início da informatização da economia, proliferaram as teses sobre o fim do jornal tradicional e brotaram os projetos de modernização que deram cores fortes às páginas da imprensa diária. Desenvolveu-se também uma geração de jornalistas muito influenciados pela forma. A linguagem passou a ser um apêndice de um processo mais propriamente definido como de marketing do que de formação de opi-

niões. De olho na máxima segundo a qual é preciso "fazer a vontade do cliente", os jornais aprenderam a editar seções de serviços, guias, reportagens sobre estilo e comportamento. Desviaram para esses novos temas a energia e o talento antes destinados às seções noticiosas, mais reflexivas, que tradicionalmente eram responsáveis pela criação de uma v i são de mundo na sociedade. N a verdade, a visão de mundo passou a se restringir ao habitat das celebridades, ao entretenimento e ao consumo. N u m cenário em que o poder político entrava em decadência, enquanto crescia o poder das empresas e se esvaziavam antigos protocolos que abrigavam paradigmas éticos, a imprensa desviou sua atenção das instituições de cuja guarda historicamente se encarregava, para mergulhar no nebuloso mundo que se convencionou chamar de mercado. A expressão fashion passou a definir tudo que é aprovado pela mídia, a partir de um conceito de estética que mistura o gosto do momento com a própria mediação. A transferência desse conceito para todos os demais campos do conhecimento abordados pela imprensa determina a crescente perda da capacidade de reflexão dos jornalistas e seus leitores. A homogeneidade se expressa até mesmo na configuração gráfica, tanto dos jornais como das revistas e no formato dos programas noticiosos de televisão. U m conceito de imprensa como "negócio híbrido" estabeleceu limites para a inovação e produziu uma tendência à intolerância diante da diversidade. Confinada às páginas de opinião e editoriais, a contradição cede lugar às unanimidades ou a debates forçados sobre detalhes do noticiário e fortemente influenciados pela emoção coletiva. Aos poucos, desaparece o estado de

tensão criativa que era a alma dos jornais, e que resultava do confronto entre a visão da instituição e a realidade trazida todos os dias pelo trabalho dos jornalistas. Nesse contexto, fica difícil para os gestores da imprensa resistir à tentação de escolher notícias ou versões mais apropriadas a fomentar uma fidelidade do leitor baseada na emoção instantânea, em detrimento da capacidade de reflexão. A percepção dos leitores, apresentada em muitas pesquisas, é de que os jornalistas preferem a má notícia. O resultado é um jornalismo "impressionista" que, ao tentar dar objetividade aos fatos que noticia, acaba envolvendo-os em mais nebulosidade. Fazem isso porque não honram as sutilezas presentes em todas as ações humanas. É interessante constatar que, nas justificativas por um jornalismo mais "objetivo" e utilitário, criticava-se justamente o jornalismo opinativo e emocional das décadas anteriores, chamado pejorativamente de "impressionista". U m a imprensa assim não é socialmente e culturalmente responsável, mesmo que uma parte significativa de suas receitas ou de seus recursos venha a ser destinada a causas socialmente corretas.

N O V O S SIGNIFICADOS

A função de educação da imprensa, neste momento de grandes transformações nas relações de todos os tipos, não pode ser modesta: trata-se de incutir na sociedade o desejo de criar o conhecimento adequado para gerar uma cultura de desenvolvimento sustentado, com oportunidades para todos e capaz de produzir nos cidadãos um profundo senso de participação a partir da compreensão da realidade. C omo lembra o filósofo brasileiro Luiz Jean Lauand, na busca do

significado global da realidade o jornalista precisa aprender a filosofar: " P o r detrás da ruidosa manchete — seja a destruição das estátuas de Buda por fanáticos religiosos, o naufrágio de uma plataforma de petróleo ou a derrota da seleção brasileira para o time da Venezuela —, discute-se, busca-se (sempre qüe se trate de verdadeiro jornalismo e não de imprensa tola e imatura) o ser do homem, seu significado, seu destino". N a falta de uma ação da imprensa nesse sentido transformador, estando as empresas em geral comprometidas com o status quo, e dada a incapacidade dos governos de inspirar a sociedade a produzir as mudanças, proliferam novas instituições sobre as quais recaem muitas esperanças de melhoria nas relações sociais. A ação de organizações nãogovernamentais ou entidades civis de interesse público, que têm grande potencial para educar a população em geral e preparar líderes de cidadania, é fundamental para a criação desse conhecimento na sociedade. M a s , acima de tudo, é preciso que no núcleo das organizações se trabalhe por uma cultura que possa transformar o atual cenário de vale-tudo pela carreira, e que incuta nos gestores de todos os níveis uma profunda compreensão de seu papel na sociedade. D a mesma forma, as instituições dedicadas a desenvolver o empreendedorismo têm de estar atentas à necessidade de estimular, juntamente com a capacitação empreendedora, essa consciência de uma sociedade mais justa. Uma das dificuldades no trabalho de educação de executivos e gestores é a desconfiança que se desenvolve nos ambientes profissionais de gestão quanto à capacidade de indivíduos alheios àquele ambiente de entender seus problemas e dificul-

ou a emitir opiniões que significassem compromisso com mudanças. A ponto de alguns se sentirem ameaçados por algumas reflexões que lhes eram propostas. não imaginavam a possibilidade de novos sistemas de propulsão e enxergavam o futuro como um eterno "céu de brigadeiro". Nas conversas sobre questões sociais. de lógica e de exemplos absolutamente concretos. Havia neles uma enorme resistência a encarar os temas "não profissionais" com maior profundidade. Não queriam mudanças importantes em padrões de aeronaves. O derrotismo diante do desafio da mudança de paradigmas sempre se apresenta carregado de razões. até o fim de suas carreiras. quando se abordava a questão da perversidade do sistema que exclui milhões de pessoas. Nesses ambientes. Diante da alternativa de abandonar o ambiente seguro. Lembro-me de pesadas conversas com gestores de uma empresa do setor de aviação.dades. apenas quatro meses antes dos atentados terroristas nos Estados Unidos. a prática é outra" pode ser considerado o jargão mais comum a esses indivíduos. sem sinal de turbulência. a ten- . mesmo que miserável. por uma realidade melhor mas pouco visível. e se refere tanto ao trabalho de consultores externos quanto ao dos educadores. predominavam lugares-comuns sacados da imprensa diária ou dos comentaristas da televisão. " N a teoria. com oportunidades enormes para seu desenvolvimento profissional. tende-se quase sempre pela manutenção do status quo. apesar de insatisfatório. gerava neles uma atitude defensiva contra qualquer hipótese de mudança. A percepção daqueles indivíduos de que as encomendas já recebidas pela empresa lhes davam uma perspectiva de mais de dez anos de crescimento.

o que mal disfarçava a indiferença com o destino dos outros seres humanos descartados. o risco da exclusão súbita é um pesadelo que ninguém quer sonhar. não posso precisar quantos seguem com suas carreiras em ascensão e quantos tiveram sua trajetória interrompida ou perturbada pelos eventos de setembro de 2001 e pela situação de crise que se seguiu. M a s uma justificação passiva estava sempre presente. O H O RRO R D A EXCLUSÃO Entre as centenas de executivos e gerentes que pude entrevistar. ou "eu faço a minha parte". Por mais que alguém.dência era remeter o problema para o intangível campo da fatalidade histórica. A possibilidade de alguém repentinamente ser lançado para fora daquele círculo de privilegiados e passar a sofrer os efeitos da mesma indiferença . ou até mesmo "minha mulher ocupa o tempo dela trabalhando como voluntária numa creche". e eram exibidas fotos dos animais girando em enormes espetos. tipicamente. M a s podemos imaginar o choque provocado em suas vidas pela consciência súbita do horror. um conservador em pele de liberal. Tive a oportunidade de fazer alguns deles refletir sobre o significado dessa prática grotesca e exibicionista. ninguém assumia a defesa ativa do estado de coisas. Entre suas manifestações de conforto estava o hábito de promover churrascos com bois inteiros. subliminarmente. E m geral. a partir de 1999. O gestor em situação de conforto é. estando dentro do sistema. nas respostas evasivas do tipo "é assim mesmo". Outros apenas fizeram piadas a respeito daquele hábito pantagruélico. possa ter desenvolvido uma percepção crítica sobre suas regras desumanas. Alguns se mostraram envergonhados.

acredita que a exposição do conhecimento científico à mídia de massa. Mesmo que se tenha convencionado que a ciência se desenvolve segundo uma psicologia de crenças. Michael Shermer. ajuda a combater os mitos arraigados na sociedade. deve produzir atitudes ainda mais defensivas e reforçar ainda mais a tendência natural ao imobilismo e ao conservadorismo. O choque do terror pode alterar essas vontades e acelerar a busca do conhecimento necessário à mudança. porém. criador da revista Skeptic e autor de l i vros sobre o obscurantismo e o sistema das crenças — entre eles Why people believe weird things e How we believe: the search for God in an age of science —. que está disponível em muitas fontes. muitas delas bastante popularizadas. para a indução de novas tendências na formação da cultura organizacional. como no início do século passado — oferecem uma série de ferramentas. também induz as pessoas a refletir mais. antes de tomar como verdadeiras determinadas assertivas que. como programas populares de entrevistas. pela divulgação de conhecimento de origem científica em padrão pseudo-científico. este é o momento em que mais se necessita de valores firmes e muita determinação para ajudar a reinventar o sistema. . também a pseudo-ciência e o nonsense são fontes para o saber transformador de que o mundo necessita. A teoria psicanalítica e suas derivações — apesar de ainda serem motivos de dissensões e disputas entre os especialistas. uma vez massificadas. sendo livre para confirmá-las ou desmenti-las. Afinal.sob a qual se resguardou. N a verdade. o terror se expressa desta vez com base numa crença que tem fundações mais antigas do que a própria ciência como a conhecemos.

A simples atenção a alguns conhecimentos realistas. por exemplo. o fenômeno das falsas viabilidades. que Shermer tenta descaracterizar como conhecimento. e ensiná-lo a pensar mais cientificamente e dedicar parte do seu tempo à maturação das idéias. embora muitos educadores e gestores considerados de vanguarda sejam contrários à pedagogia dos manuais. pode eliminar o risco produzido por sistemas de crenças que condicionam muitas das decisões tomadas no dia-a-dia. O avanço espantoso da informática no sistema bancário brasileiro. como uma forma de testar as premissas antes que elas se tornem dogmas. para o uso de cartões magnéticos e senhas. Ele insiste no dever dos cientistas de expor suas idéias ao público. apesar da sua baixa escolaridade.poderiam conduzir a verdadeiros desastres sociais. até mesmo em países distantes de onde se originaram. As rápidas mudanças de hábitos entre os jovens japoneses têm oferecido um vasto campo de conhecimento para gestores sobre como são feitas algumas escolhas. Além disso. o simples alinhamento de algumas premissas cuja validade foi testada e comprovada pode ajudar a organização a evitar esses descaminhos. fundamentados em experimentos ou pesquisas. E. revelada pela população. também. foi devido principalmente à surpreendente capacidade. foram enterradas logo nas primeiras experiências com o comércio eletrônico. . Algumas velhas crenças sobre o comportamento dos consumidores. tema de estudos em universidades e empresas de consultoria. é uma das maiores causas de erros estratégicos e desperdícios. N o ambiente das organizações de negócios. sobre como elas podem rapidamente alcançar o status de paradigma para milhões de pessoas.

Mais do que administrar o que já se conhece. é preciso garantir aos indivíduos a percepção da realização pela criação do conhecimento. O conhecimento brota sempre da diversidade. é uma boa maneira de alimentar essas premissas progressistas. A educação já foi descrita como um incentivo à conquista do princípio de prazer e sua substituição pelo princípio de realidade. Também é conveniente observar que.Essa disposição para o aprendizado é o ponto de partida para a criação do conhecimento. como em todas as atividades humanas. essa energia favorável ao aprendizado deve se sobrepor aos esforços dirigidos à simples gestão do conhecimento. A predominância de jovens como característica das populações dos países emergentes é um fator favorável ao estabelecimento de um sistema de educação transformador. Até mesmo pela oportunidade de fazer aflorar no ambiente da reflexão coletiva os pressupostos bloqueadores da criatividade. da confrontação entre desejo e realidade. menos conservador e restritivo e mais favorável ao pensamento criativo. O apego obsessivo à ordem é fator inibidor da criação do conhecimento. da constante ruptura da ordem estabelecida. Estimular o debate no ambiente de trabalho sobre os mais variados temas. que resulta de modelos mentais abrangentes e de premissas progressistas e ampliadoras. do antagonismo irremediável entre as demandas do instinto e as restrições da civilização. concretas ou mentais. é preciso evoluir para a criação permanente. na medida em que oferece com- . ou seja. N o ambiente das organizações de negócios. para que possam ser trabalhados. M a s isso só é possível num ambiente otimista.

Dessa forma. C O M O VOCÊ SE SENTE.pensações pela quebra do conforto da ordem. 3. V O C Ê AINDA T E M CURIOSIDADE? O FENÔMENO DAS FALSAS VIABILIDADES É RESPONSÁVEL POR GRANDES PERDAS NAS EMPRESAS NAS VIDAS PRIVADAS. favorecerá u m melhor ambiente de trabalho. Assim. . AO CONSTATAR QUE EXPRESSOU U M PRECONCEITO OU FORNECEU U M A RESPOSTA EVASIVA QUANDO L H E PEDIRAM UMA OPINIÃO? 2. qualquer organização que pretenda ser um ambiente estimulante para a criação do conhecimento precisa incluir em seus processos a valorização de todos os ganhos da criação corporativa. que o aprendizado exige. a organização que estabelecer rotinas capazes de explicitar o valor do conhecimento também associará a criação do conhecimento a uma sensação de felicidade. Para refletir: 1. C o m o o ser humano não consegue se afastar do seu desejo de felicidade.

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cujas conseqüências e revelações não podem ser ignoradas pelos gestores que consideram seriamente sua missão de criar conhecimento e se manter na vanguarda das mudanças que se sucedem nas relações humanas e nos negócios. Entre 1991 e 1994. E m 1995. publicou em 1991 um ensaio intitulado " A emergência da terceira c u l t u r a " . Br ockman conversou com muitos cientistas envolvidos nas mais avançadas pesquisas dos mais variados campos do conhecimento.Kill—A terceira cultura O empresário John Brockman. agente literário de alguns dos mais destacados dentistas-escritores do mundo. . Suas reflexões causaram uma sucessão de debates.

tornou-se o cronista de u m novo e transformador universo cultural que está redefinindo praticamente todas as relações humanas.publicou o livro A terceira cultura: muito além da revolu- ção científica. desde o modo como educaremos nossos filhos. Brockman criou uma organização para agrupá-los e congregou suas manifestações no site da Internet http://www. É o registro vivo e documental de u m novo sistema de conhecimento.org. até nossas escolhas na compra de tecnologia ou o estilo com que faremos negócios daqui para a frente.edge. Por essa simples razão. e a apresentação pessoal dos protagonistas de uma nova visão de mundo que está revolucionando completamente o modo como fazemos cultura. esses estudiosos conduzem reflexões sobre as mais importantes questões do nosso tempo. de onde tiro algumas das análises que "Para chegar ao limite do conhecimento. escritor e administrador público britânico Charles . pelo cientista. Brockman comenta que o conceito de duas culturas dominantes em nossa sociedade foi definido em 1959. que ele próprio seguiu à risca. coloque-as juntas numa sala e peça que façam umas às outras as perguntas que estão fazendo a si mesmas". Testemunhamos muito mais do que uma revolução científica: estamos no limiar do tempo que chamamos de era do conhecimento. encontre as pessoas cujas mentes são as mais complexas e sofisticadas. Esse é o conselho de John Brockman. A partir das revelações espantosas feitas pela ciência nas últimas décadas. se seguem. Não se trata de uma simples antologia sobre descobertas científicas ou teorias sobre cosmologia.

Editores. com seus colegas físicos Niels Bohr e Werner Heisenberger. de u m lado. Norbert Wiener. o astrônomo E d w i n Hubble e o próprio criador da cibernética. jornalistas e outros consumidores e ampliadores de cultura ignoravam o valor e a importância das idéias dos cientistas como frutos de atividade intelectual. para benefício da humanidade. Snow constatou ainda que. embora escrevessem muitas vezes para o público em geral. Os intelec- .Percy Snow. críticos. na Internet e nas conversações. Os cientistas se comunicam d i retamente com o público em geral. A expressão "homem de letras" excluía cientistas como o próprio Albert Einstein. Snow observou que o mundo cultuava. Barão de Leicester. iria emergir e fazer frutificar a comunicação entre os intelectuais literatos e os cientistas. N u m a segunda edição de As duas cul- turas. que desde Einstein vinham revolucionando o conhecimento do universo. os intelectuais literatos e do outro. os cientistas não manifestavam interesse pelas implicações sociais de suas obras. ignoram os profissionais da mídia culta e procuram expressar seus pensamentos de uma forma acessível ao público leitor inteligente. M a s uma "terceira cultura" realmente pode ser observada nas livrarias. Lord Snow acrescentou um ensaio no qual sugeria que uma nova cultura. os cientistas. M a s notou que os literatos haviam tomado para si com exclusividade o título de intelectuais. na televisão. uma "terceira cultura". cinemas. no livro As duas culturas. porque os intelectuais literatos continuam a ignorar a cultura produzida pelos cientistas. como se não houvesse outros seres pensantes fora do seu círculo. influenciando o modo de pensar da sociedade. em 1963. Não aconteceu exatamente o que ele previu.

traduzem para a vida real as constatações feitas nos laboratórios e assumem o papel social de educar os cidadãos para uma nova consciência de mundo.tuais da velha cepa desprezam o fenômeno e dizem que esses livros representam uma anomalia: são comprados. é típico do gestor torcer o nariz para questões dessa ordem. é que físicos. por meio do seu trabalho e do texto expositivo. diz John Brockman. psicólogos. jornalistas científicos. A ponta visível da revolução científica das últimas décadas é a tecnologia. estão tomando o lugar dos intelectuais tradicionais. Talvez ele também nunca se tenha perguntado quanto do conhecimento científico de ponta se transforma em benefícios para a sociedade na vida real e. geneticistas. C o m certeza. tornada verossímil por um matemático. uma fração ainda menor dessas descobertas informa e ins- . porém. o que é que isso tem a ver com a gestão? U m gestor muito pragmático certamente se perguntaria o que uma tese de cosmologia. outros estudiosos do comportamento humano e grande número de filósofos científicos. em que proporção esse conhecimento poderia gerar oportunidades para o seu negócio. mas ninguém os lê. O fato. biólogos. e avesso a especulações filosóficas. teria a ver com a anatomia de resultados da sua organização. e apenas uma pequena parte dela está embarcada nos processos produtivos das organizações. redefinem quem e o que somos". "Esses cientistas e outros pensadores do mundo empírico. cientistas da computação. A o tornar visíveis os mais profundos significados de nossas vidas. por extensão. antropólogos. Fiel ao perfil conservador que marca a gestão de negócios e organizações dos mais variados tipos.

de fato. C o m o o hábito geral é fundamentar toda comunicação em conceitos estabelecidos.trumentaliza o conhecimento aplicado à gestão. o que pode dar uma idéia de quantas oportunidades se perdem por isso. para expor a visão mais ampla que conseguem alcançar a partir da sua percepção da realidade objetiva. na medida em . Sua cultura. "The Reality C l u b " consegue quebrar paradigmas estabelecidos há séculos e colocar os maiores sábios do nosso tempo diante de desafios altamente produtivos. É preciso confrontar continuamente as idéias que formaram a modernidade com o conhecimento científico. diz o autor. uma série de encontros nos quais os convidados são encorajados a juntar os materiais de cultura em artes. muitos pensadores tradicionalistas se revelam claramente reacionários. sobre as quais ainda não puderam formular uma opinião sólida. às vezes arrogantes e ignorantes de muitos dos feitos intelectuais do nosso tempo. numa espiral de comentários que progressivamente se distancia da realidade. Sob esse ângulo. Foi para estimular a valorização de outra vertente cultural que Brockman criou "The Reality C l u b " . ciência e literatura. saindo de seu campo de especialidade. por si. é costumeiramente não empírica. A maior dificuldade dos conferencistas tem sido dissecar as questões que têm feito a si mesmos. qualificação adequada para um indivíduo pensante no início do século X X I . que despreza a ciência. Há aqui uma lição para os criadores de cultura e conhecimento no ambiente dos negócios. auto-referente e caracterizada por amontoados de citações. M a r x e o modernismo. Brockman observa que nossa educação mais elaborada. recorrente em seus próprios jargões. já não proporciona. consolidada nos anos 1950 com base em Freud.

são um exemplo muito celebrizado entre gestores e empresários ocidentais. pela simples razão de que todo conhecimento aplicado à gestão se alimenta em uma fonte de cultura. C o m base em práticas muito racionais. e do estatístico e educador W.que Brockman chama a atenção para a necessidade de reinventar nosso modo de pensar: simplesmente levanta a velha dúvida sobre o que realmente sabemos e aquilo que ignoramos. Segundo os dois estu- .com não pode ser ignorado pelos gestores. O alerta do criador de edge. A retomada econômica a partir dos anos 1980. Edwards Deming. que podia — e acabou sendo — facilmente imitada. que deu novo fôlego ao Japão. É do saber comum que os japoneses foram buscar no Ocidente a fonte e inspiração para sua primeira revolução econômica no século X X . os japoneses ocuparam i m portante fatia do mercado mundial de produtos manufaturados e se tornaram um modelo a ser seguido. a respeito de como as empresas japonesas se reinventaram nos últimos vinte anos. mas temos coragem de explorar. Nonaka e Takeuchi lembram que essa primeira virada dos japoneses não foi suficiente para garantir o sucesso por longo tempo. reergueram sua economia devastada pela guerra com base nos ensinamentos de Joseph Juran. que melhoraram a produtividade de suas fábricas e a qualidade dos seus produtos. teve de se basear num esforço pela criação do conhecimento dentro das organizações. Os trabalhos de Ikujiro Nonaka e Hirotaka Takeuchi. formado em engenharia elétrica e direito. porque sua estratégia era baseada na eficácia operacional. A partir dos anos 1950. A s inovações em tecnologia da produção haviam sido incorporadas à cultura das organizações.

é no universo intangível que está a essência da gestão. Portanto.diosos. Observou também que com a explosão do desenvolvimento tecnológico nossa dependência da qualidade se tornou absoluta. numa palestra a estudantes da escola de negócios da Universidade C olumbia. ela forma uma base muito mais sólida do que a alternativa do livre-pensar. pela constatação empírica e por formulações matemáticas inquestionáveis. os cientistas também obtêm acesso às . por que é importante atentar para essa forma de criar conhecimento? Porque. Juran. ao tomar contato com as verdades mais profundas que o conhecimento humano pode alcançar pela razão. Tudo se define no modelo mental. investir numa educação que rompa velhas premissas é o passo inicial para criar modelos mentais mais progressistas e evolutivos. então com 93 anos de idade. fica mais aceitável a afirmação de que a definição da estratégia de uma organização começa muito antes dos processos. Embora a maioria dos gestores declare considerar mais gratificante trabalhar com questões operacionais. C o m base nisso. o novo salto foi obtido pela criação de processos destinados a colher continuamente o conhecimento tácito de cada pessoa. porque os resultados são mais tangíveis. lembrou que as atitudes culturais definem a abordagem que cada comunidade empresarial ou social fará ao problema da qualidade. e transformá-lo em conhecimento explícito disponível para toda a corporação. Voltando à emergência da "terceira cultura". E m 1997. e sobre eles fazer brotar uma cultura que valorize a criação contínua e permanente de conhecimento na organização e sua extensão à sociedade. Além disso. sendo referendada por descobertas científicas.

como se sabe. A chamada era digital será uma passagem natural para a era do conhecimento ou um hiato na história da humanidade. Estas. o conhecimento científico ganha o status de "terceira cultura" pela disposição de deixar os laboratórios e assumir sua responsabilidade social. gestores e investidores. Voltemos atrás algumas páginas. Por outro lado. como lidamos com produção e valores. O livre-pensar. torna-se mais valioso para a busca de resultados numa organização. ou para a construção de uma sociedade melhor. naturais e respeitosos em relação à humanidade e ao universo. Traz o saber obtido na experimentação como fundamento para uma revolução no modo como nos relacionamos. e não em meras crenças. a depender da causa a que servir. Ainda lembrando León Daudet e sua observação sobre o risco da invenção do automóvel.metáforas essenciais da existência. E m nenhuma hipótese propomos o fim do livre pensamento ou sua marginalização como prática sem valor para a gestão. o arbítrio humano certamente serve melhor à humanidade. se estiver fundamentado no conhecimento científico e na experiência. são indicadoras de modos sociais mais gratificantes. vale reforçar o inverso da moeda: o conhecimento científico ou sua derivação — a tecnologia — com certeza serve melhor ao ser humano quando desenvolvido sobre uma base de respeito à vida. desde a alentada revis- . QUEM LIDERA? U m dos temas mais destacados das publicações dirigidas a executivos. o exercício do livre-arbítrio. Trata-se apenas da velha e boa questão da relação custo-benefício: exercitado sobre uma base de conhecimento real e pragmático.

personagens curiosos de u m ambiente mutante. Quase sempre estão afinados com os gurus da gestão. individualmente. as instituições mais poderosas do mundo. e são capazes de discorrer sobre temas variados como esportes ou política. ninguém ignora que as empresas se tornaram. A competitividade os faz. até a Harvard Business Review e a egípcia Pharaoh's. A eventual ampliação dessa convergência para o círculo mais amplo da sociedade é uma tese ainda mais difícil de ver abordada nessas publicações. Ninguém quer se diluir na multidão que compete por um lugar ao sol. E m geral. em benefício de toda a organização. O que exacerba o paradoxo: por que a cultura produzida por esses indivíduos não oferece sequer uma perspectiva de uma sociedade melhor . nas duas últimas décadas. que a cada semana revelam novos paraísos nas livrarias dos aeroportos. é uma raridade nessas publicações. Alguns chegam a elaborar um discurso claro e coerente sobre o papel social das empresas.ta Fast Company. Cada vez mais. A referência à hipótese de fazer convergir os talentos e energias no sentido da criação de um conhecimento comum. de certo modo. são pessoas muito bem informadas sobre as últimas descobertas científicas e os novos sucessos da tecnologia. tem sido a necessidade que se impõe a esses profissionais de assumir seu papel de liderança na chamada comunidade organizacional. o destino da humanidade depende das decisões desses gestores educados para o individualismo. cujas edições chegaram a alcançar volumes de mais de 500 páginas. N o entanto. e o conselho mais comum que resulta como conclusão desses artigos e reportagens é a permanente reciclagem de conhecimento dos profissionais. coletivo.

bioengenharia. biologia molecular e naves biológicas e outras questões que até pouco tempo freqüentavam mais apropriadamente o imaginário dos escritores de ficção científica. revela a presença constante. vida artificial. na mídia. pela tendência à especialização criada por demandas crescentes de informação. de temas como inteligência artificial. Uma das preocupações manifestadas pelos gestores que entrevistei era a de que o sucesso profissional provocasse em torno deles uma bolha que os distanciasse da realidade mais ampla. teoria do caos.que justifique o poder do capital a que servem? Mais do que assumir sua responsabilidade na empresa. e de negócios que deixem de significar uma ameaça para a humanidade. redes neurais. em que o conhecimento científico se transforma quando é abrigado nos livros de capas atraentes e títulos instigantes que brilham nas estantes. São eles os consumidores da "cultura pública". supercordas. um deles oferecido em artigos pelo jornalista brasileiro Ulisses Capozzolli. os gestores precisam usar o conhecimento que a sociedade lhes permitiu angariar para assumir sua parcela de responsabilidade diante da urgência da criação de novas relações sociais. fractals. Estudos recentes sobre o noticiário científico. ou no setor em que atuam. genoma humano. nanotecnologia. O sucesso dos autores da "terceira cultura" retrata uma fome intelectual por novas idéias e o interesse em sua própria educação por parte desse público de alto poder aquisitivo e grande vivência em setores críticos de decisão. Os profissionais da gestão estão entre os maiores consumidores desse tipo de informa- . realidade virtual. lógica difusa.

os gestores de capital estão se omitindo da responsabilidade de gerar conhecimento a partir dessas fontes privilegiadas de informação a que têm acesso. com isso. Tais cientistas se deixaram levar por projetos contrários aos interesses da humanidade e da civilização. a começar pelo simples reconhecimento do valor real dos outros capitais que igualmente participam do processo econômico. que ao defender o primado da "meritocracia" rompe a premissa iluminista do "direito divino" do capital financeiro aos privilégios. D o mesmo modo. que tem acesso às informações que podem fazer brotar uma cultura mais humana e uma sociedade mais justa. passivos. sob o debate bilateral entre personagens que se definem como liberais ou anti-liberais. Há uma relação entre as perdas humanas e econômicas que marcaram o século X X . Essa elite é formada pelos criadores da riqueza. A informação de ponta que lhes chega como um grande privilégio não se transforma em conhecimento de ponta. A elite dos gestores. poderia patrocinar o . Muitos dos mais reluzentes cientistas dos meados do século X X abriram mão de influenciar positivamente a sociedade com seus conhecimentos e. essa comunidade não é capaz de gerar uma "terceira cultura" no ambiente dos negócios. parece repetir a atitude dos cientistas que viram. o mundo se fragmentar no século passado. sob as justificativas de duas versões de modelo social fundamentadas na velha cultura. N o entanto. e as perdas humanas e econômicas que inauguram o século X X I . de contribuir para neutralizar a ilusão de controle. Essa nova elite. que poderia dar um significado aceitável ao capital financeiro.ção. capaz de alterar os paradigmas das organizações e do sistema que geram.

embora mais otimistas ou esperançosas. após uma série de debates e exercícios. M a s ainda assim difusas. como se os papéis se houvessem invertido: um ambiente de confiança na expressão das verdadeiras crenças de cada um havia facilitado a manifestação de premissas otimistas e ampliadoras. 84 apresentaram no primeiro dia respostas que denotavam premissas claramente conservadoras ou derrotistas para questões relacionadas a problemas da humanidade. como aluno ou como facilitador de aprendizagem. N o entanto. essa é a expressão que se apresenta como resultado natural das equações que os vi decifrar em todos os cursos de gestão de que participei. N u m dos grupos de gerentes intermediários que ajudei a trabalhar com temas sobre a responsabilidade da criação de conhecimento nas organizações de negócios. Os demais deram respostas difusas. de u m total de 102 participantes. mas quase sempre i m precisas. apenas duas pessoas ofereciam respostas restritivas.desenvolvimento de um sentido mais democrático para a sociedade. como finalidade da atividade econômica. N o quinto e último dia dos trabalhos. como se tivessem vergonha de parecer sonhadores ou desvinculados da realidade que exige resultados concretos a todo momento. GUERRA DAS METAS Por que as organizações não conseguem produzir um ambiente que induza as pessoas a oferecer o melhor de . Nenhum dos gestores e empreendedores a quem dirigi a pergunta sobre seu papel no processo civilizatório fez referência à hipótese de um processo que poderia ser chamado de humanizatório.

M a s em geral os gestores temem a diversidade de visões que surge naturalmente. uma infinidade de pesquisas tem revelado a necessidade de acrescentar ao imaginário do ambiente de trabalho um círculo mais amplo de valores. não podem agir como educadores do século X I X . a energia adequada e necessária para aumentar as chances de sucesso de projetos muitas vezes definidores do futuro do empreendimento e sua relevância social? Sabe-se há muito tempo. que definem os programas em círculos restritos e depois levam as tarefas à corporação em geral. quando se partilham os valores e objetivos de uma organização. desde os primeiros estudos de psicologia social nas empresas. Os esforços de guerra em todos os tempos. que a atribuição de um significado ao trabalho — que extrapole o caráter meramente produtivo — aumenta o rendimento. a regra ainda é a constituição de grupos de elite. Mesmo nas campanhas educativas pela melhoria da qualidade. campanhas de superação de metas e outros objetivos semelhantes obtiveram engajamento de grande número de pessoas. A criação do conhecimento nas empresas exige alto grau de confiança na organização como um sistema inteiro. Desde o período logo após a Primeira Guerra M u n d i a l . vivo e dinâmico. O conhecimento científico e tecnológico a que têm acesso deveria proporcionar a segurança suficiente para acelerar a mudança essencial nas relações de negócios. o espírito mais aberto. como líderes de uma "terceira cultur a" no ambiente organizacional. Os gestores. Já não faz sentido a metáfora da empresa como .si. chamados educadores ou multiplicadores. que se popularizaram em milhares de empresas a partir dos anos 1980.

V O C Ê OLHA PARA O CÉU RIO OU CONHECIMENTO? 2 . LUA. MISTÉ- . QUANTO DO SEU CONHECIMENTO CIENTÍFICO ESTÁ AGREGADO À SUA VIDA ROTINEIRA? VÊ: NUVENS. tronco e membros. ESTRELAS. Para refletir: 1.um corpo dividido em cabeça. Já é hora de esses super-cidadãos assumirem a ação por uma realidade mais aceitável. V O C Ê CONSEGUIRIA DESCREVER O ESPÍRITO DA SUA EMPRESA? 3.

Capra estava tão eufórico que fez questão de gravar um . almoçando com Capra. N u m dos intervalos dos debates. um dos pioneiros dessa nova casta de intelectuais. A convite do físico e escritor Fritjof Capra. ele me falou com muito entusiasmo sobre um trabalho recém-concluído por dois pesquisadores. como representante da empresa de educação de executivos A m a na-Key. em Berkeley. a respeito da origem do pensamento e o processo de formação das metáforas.XIV—A filosofia na carne Tive a oportunidade de entrevistar recentemente um desses pensadores da "terceira cultura". George Lakoff e M a r k Johnson. compareci. a um evento na Universidade da Califórnia.

que durante sete anos estudara como se origina o aprendizado. f) elas são derivadas do corpo-mente e do seu uso. improvisou rapidamente um estúdio e Lakoff nos proporcionou uma aula sobre o trabalho de sua equipe multidisciplinar. A linguagem se estrutura: a) para expressar um sentido. A jornalista brasileira Daniela Broitman. mas brotando do sistema neuro-motor. onde ele passou a tarde falando sobre sua obra. implícita no corpo. haviam coordenado a pesquisa e produziram o livro Philosophy in the flesh.depoimento no qual analisava em linhas gerais as revelações da dupla de estudiosos. e Johnson. c) conforme os mais profundos aspectos da cultura. um domingo. cujo título em português poderia ser Filosofia na carne: a mente corporificada e seu desafio para o pensamento ocidental." N o dia seguinte. b) de acordo com estratégias de comunicação. d) não independente do corpo. consegui localizar Lakoff em sua casa e o levei até a escola de comunicação da universidade. Algumas das conclusões apresentadas no livro podem ser apanhadas como fundamento para uma nova cultura organizacional. com mais de 600 páginas. e) metáforas primárias são comuns a todo o gênero humano. Algumas delas: A mente não pode ser separada do corpo. Lakoff. professor de lingüística em Berkeley. A mente está "incorporada". . chefe do departamento de filosofia na Universidade de Oregon. estudante de pósgraduação em Berkeley.

a mente é vista como u m corpo.A idéia. o que conduziu à idéia de que o humano precisa de controle e a natureza é uma mãe para ser sugada. baseado na figura do pai punidor e da mãe nutridora. de que a mente é dissociada do corpo. Observe algumas metáforas constatadas pelos autores nas mais diversas culturas. o trabalho de Lakoff e Johnson é um "Projeto Genoma M e tafórico". Lakoff e Johnson dizem que isso levou à criação do capitalismo como o conhecemos. fez a sociedade desenvolver relações antinaturais. corporificada. Segundo o The New York Times. por meio dessas metáforas. e de que as metáforas são geradas continuamente pela experiência sensorial de todo o corpo. o pensamento é considerado uma função física. e elas próprias indicam a impossibilidade de entender completamente esse funcionamento. Segundo Lakoff. idéias são entidades com existência autônoma. o u como formulamos naturalmente algumas metáforas a partir da experiência corporal. da mesma forma como as palavras não são suficientes para descrever todo o conhecimento. Genericamente. equivocada segundo os pesquisadores. Lakoff e Johnson afirmam que é virtualmente impossível pensar ou falar a sério sobre a mente sem conceituá-la metaforicamente. indicam uma conexão plena entre os indivíduos e dos indivíduos com tudo que possa ser percebido. M a s as metáforas apenas dão uma noção do funcionamento da mente. O pensamento é tido metaforicamente como movimento: . com recursos infinitos. que busca delinear o código genético do pensamento humano. 1. as descobertas de que a mente está presente em todo o organismo humano.

Entender é seguir. Iludir é propositalmente impedir a visão. O pensamento é tido metaforicamente como percepção: Pensar é perceber. é estar congelado. 2. Idéias são coisas percebidas. Ser incapaz de pensar é ser incapaz de se mover. Uma ajuda ao conhecimento é uma /brcíe de luz. . Explicar em detalhe é pintar um quadro. Saber é i/er. Prestar atenção é olhar para. deliberado. Comunicar é mostrar. passo-a-passo e de acordo com a força da razão. Repensar é retomar o caminho. Pensar sobre X é mover-se em torno de X . Ignorância é cegueira. paralisado. O pensamento racional é um movimento direto. Estar ciente é receber a Conhecimento é visão.Pensar é mover-se. Uma linha de pensamento é um caminho. Dirigir a atenção é apontar. A razão é a força. de vista ou ângulo determinado. Conhecer por uma "perspectiva" é ver de um ponto informação. Idéias são locações. Comunicar é guiar. Tentar obter conhecimento é buscar.

A memória é u m armazém. paladar. Idéias desinteressantes são alimento sem sabor. A aquisição de idéias é tida como ato de alimentar-se: U m a mente que funciona bem é u m corpo Idéia é alimento. Boa idéia é alimento saudável. nutritivos. Lembrar é recuperar. Sentir é cheirar. Interesse em idéias é apetite. Levar a sério é ouvir. Preferência pessoal é gosto. para reter. saudável. Entender é agarrar. Idéias úteis são alimentos Idéias ruins são a m veneno. rar. A estrutura de uma idéia é a estrutura de um objeto. Meditar é ruminar. Adquirir idéias é comer. Reação emocional é sentimento. Analisar idéias é separar objetos. Provar a natureza de uma idéia é cheirar ou degustar.Ser receptivo é escutar. 4. 3. Idéias interessantes e prazerosas são alimentos ape- titosos. Incapacidade para entender é inabilidade para agar- manipuláveis. O pensamento é visto como manipulação de objetos: Idéias são objetos Comunicar é enviar. .

O simples ato de reconhecer sua capacidade para gerar conhecimento é suficiente para ativar nele o processamento de toda informação . pelo seu potencial de perceber rapidamente os movimentos internos e externos que significam risco ou oportunidade. Idéias substanciosas são o filé.Aceitar é engolir. Idéias inaceitáveis são indigestas. Entender completamente é digerir. U m a organização que reconheça e valorize a existência de uma mente corporificada em todas as suas células tem uma vantagem extraordinária. Cada indivíduo é uma antena em sintonia com o Universo. ou de uma inteligência extracorpórea. Informar é alimentar. Preparar idéia para ser entendida é cozinhar. Ela se encontra nas justificativas de várias religiões para a transferência de responsabilidades do viver. A construção e manutenção da idéia de uma dualidade. ou de uma dissociação entre mente e corpo. dos indivíduos para entidades divinas e suas entidades representativas ou para a natureza. tem servido durante séculos a sistemas políticos e culturais que se valem dessa premissa para manter e justificar servidão e desrespeito às potencialidades humanas. Uma reflexão cuidadosa sobre as revelações de George Lakoff e M a r k Johnson pode nos ajudar a desenvolver nas organizações um sistema de consolidação do conhecimento criado em todos os setores e em todos os níveis hierárquicos. Há uma dimensão sociopolítica no conceito tradicional de uma mente fora do corpo. simplesmente emulando o aprendizado que se faz por meio do corpo.

Propõem uma abordagem ativa. nas últimas décadas. sobre "como fazer coisas com palavras". no sentido de que as organizações de negócios privados ou estatais assumam uma atitude natural como geradoras de conhecimento.relevante. quando o indivíduo não se sente parte do organismo. em benefício de todo o sistema. Philosophy in the flesh traz referências muito antigas à forma como aprendemos. E m uma série de leituras feitas na Universidade Harvard. sua atitude se torna desagregadora. na arte do diagnóstico. como se relacionam. Consideram que nossa cultura já está por demais impregnada de diagnósticos e análises. COMO APRENDEMOS Quantas empresas cuidam do estado de espírito de seus colaboradores. afinal revelado como um ativo abundante e fartamente renovado. como reagem fisicamente a mudanças? Quantas observam o número de pessoas que ficam doentes ou estressadas como conseqüência de notícias e boatos que significam risco de instabilidade? A gestão avançou muito. . que se encontram à beira do esgotamento. ao contrário das reservas naturais. em 1955. pela observação do modo como se sentam. Austin descreveu a função da palavra em nossa sociedade e o risco de se construir conhecimento sobre a palavra e não sobre a percepção pura (que Lakoff e Johnson registram como metáforas). M a s Lakoff e Johnson extrapolam em muito a questão do diagnóstico e propõem uma atitude à frente. M a s vale a pena citar a clara influência exercida principalmente sobre o pensamento de Lakoff pelo filósofo inglês John Austin. algumas delas registradas há m i lênios na figura dos mitos. N o caso inverso.

motivados por palavras que lhes prometem o paraíso dos mártires. como aquelas que produzem acontecimentos: o veredicto. quando se revela que milhares de indivíduos se dispõem a sacrificar suas vidas numa luta contra o conceito de sociedade que os gestores de negócios representam. pela razão básica de que a palavra raramente reflete o inconsciente. A classificação que ele faz dos tipos de função ilusória pode nos dar uma idéia de como toda uma cultura pode ser induzida a enganos pela força de algumas expressões. Austin chama de palavras "performativas" aquelas que pretendem criar realidade. ganha contornos de tragédia. o poder simples. o " s i m " que sela um acordo ou casamento etc. muitas palavras em todos os idiomas são capazes de criar um falso "saber fazer". Austin lembra que as palavras não contêm toda a verdade. por exemplo. religiões. de algumas palavras que exercitamos ou aceitamos naturalmente. e de palavras "constatativas" aquelas com as quais tentamos explicar a realidade. . quando a organização precisa investir em tecnologia e o conhecimento técnico define a estratégia. crenças e pareceres que são aceitos como verdade irrefutável ou expressão de conhecimento. ritos e a repetição. Lembra que. O risco dessa autoridade da palavra fica claro. a ilusão da palavra se manifesta quando a usamos para tentar substituir a realidade. por exemplo. pela mídia dos países modernos. mas em geral nós as aceitamos com todo esse poder. pelo fato de serem proferidas por autoridades formais ou celebridades criadas pela própria mídia. mas definitivo. de declarações. assim como o "saber" se dissimula na palavra. Segundo o filósofo.John Austin observa. Lembra ainda que convivemos com sociedades movidas pela palavra: leis.

confia no conhecimento que seus colaboradores podem criar. seja sob a forma de consultorias ou publicações especializadas. é típico da ilusão criada pela palavra. era uma verdadeira sumidade no tipo de conhecimento que produz a sociedade perversa em que vivemos. E m nenhum momento.Armadilhas como essa se apresentam continuamente aos gestores. O caso da corporação que citei anteriormente. ao contrário. Os sentimentos são basicamente os mesmos que moveram os homens na pré-história. o indutor daquele estado de espírito havia tido com sua platéia o respeito suficiente para questionar o próprio sistema eleitoral — baseado na ilusão da palavra —. muda com mais lentidão do que o conhecimento humano. ou melhor. . valores. que produzia a autoridade política que tanto o entusiasmava. A natureza humana não muda muito. o trabalho de consultores externos produz melhores resultados e os riscos são menores. quando não confia nos seus próprios talentos e inteligências. seja na figura de gurus das mais variadas linhagens. cujos gerentes foram induzidos a um otimismo deslumbrado a respeito das premissas conservadoras sob bandeiras liberais. mas nem por isso a natureza humana tem sofrido uma revolução. ela se torna vulnerável a todas as formas de ilusão que a palavra bem manejada pode produzir. isto é. o conflito entre o desejo e as impossibilidades ainda é a principal causa de angústia e o incremento do nível de consciência ainda depende de um penoso processo de aprendizado. Quando a organização não assume sua missão de criar conhecimento. Não que fosse despreparado: ao contrário. Quando. Vivemos uma época em que a velocidade das mudanças provocadas pela informação altera constantemente padrões de comportamento. relações.

D a mesma forma. Uma política de metas para a criação de conhecimento poderia dar um novo sentido às relações de trabalho e diluir muitos pontos de conflitos internos. mas a busca coletiva do bem-estar por meio do conhecimento: as respostas que perduram afetam diretamente a vida de todos os habitantes do planeta. não é a disputa marginal por postos acadêmicos. mas também a das famílias de seus colaboradores. como meta de resultados para sua coletividade. Isso porque o triunfo. que o conhecimento e a riqueza produzidos por ela afetam diretamente não só sua vida interna. U m a atitude como essa pode influenciar até mesmo o meio ambiente e o futuro da humanidade. a possibilidade de reduzir a ocorrência de conflitos improdutivos também se oferecerá . pura e simplesmente. além da promessa implícita de uma contrapartida de desenvolvimento para os indivíduos que se empenham pelos resultados. perfeitamente válida para uma organização que cria conhecimento. U m a característica da "terceira cultura". é que entre os intelectuais cientistas há maior tolerância a respeito de quais idéias podem ser levadas a sério. M a s essa vantagem não tem sido muito bem aproveitada.As instituições tradicionalmente encarregadas da educação e da criação de conhecimento ainda trabalham com o acúmulo de dados e o exercício da repetição. Os gestores levam uma vantagem em seu papel de educadores e de estimuladores do conhecimento. nas organizações. uma organização pode definir. de clientes e fornecedores. Isso se deve ao fato de haver. no ambiente intelectual da "terceira cultura". também um contrato de remuneração evolutiva. para incrementar o aprendizado de seus alunos. porque restringe seus objetivos quase sempre aos resultados financeiros.

a idéia de corpo como "contêiner" nos leva a colocar fora de nós questões que consideramos abstratas. George Lakoff observa que nossa noção de corpo como "container" da nossa individualidade produz metáforas específicas e nos induz a projeções corporais como forma de entendimento do exterior. naquela e em muitas instituições de ensino dos Estados Unidos. como se verifica entre os intelectuais da "terceira cultura". " M a s a verdade e a razão não . pude observar um conflito latente entre dois docentes que se encontraram no elevador. vários grupos em mesas separadas me deram a impressão de um ambiente conspiratório. para proferir uma palestra na Knight Chair. e arrogante. D a mesma forma. de muitos pensadores conservadores que dominam as universidades e as empresas. conversando com outro acadêmico daquela universidade por ocasião de u m congresso de comunicação.como resultado da maior tolerância. em eterno combate por posições de poder. Há alguns anos. M a i s tarde. era a desconfiança mútua entre adeptos de variadas correntes políticas. muitas vezes travestido de progressismo. que o gato está em frente à árvore. por exemplo. e me lembrei das observações de John Brockman a respeito do caráter reacionário. às vezes confundido com firmeza ideológica. em Austin. quando sabemos que a árvore não tem frente ou costas. N o restaurante do clube dos professores. tive minhas suspeitas confirmadas. a convite do professor Rosental C almon Alves. Ele me disse que uma das maiores dificuldades para fazer aprovar projetos. Dizemos. quando compareci pela terceira vez à Universidade do Texas. Comentei que no Brasil não era diferente. no R i o de Janeiro.

com certeza. observando que a noção de verdadeiro e real está relacionada ao entendimento que tivermos incorporado de situações similares. N u m planeta conectado em rede. POR QUE INSISTE E M SE JUNTAR AOS IGUAIS? 3. alerta ele. Ela amplia a habilidade humana de identificar similaridades onde não estão explícitas e. uma relação direta entre o nível de tolerância de um indivíduo à diversidade à sua volta e sua capacidade para a aceitação de idéias novas e para a descoberta de oportunidades. Quanto mais próximos nos colocarmos de outros indivíduos ou seres. Para refletir: 1. U m gestor excessivamente preso ao seu "contêiner" não pode ser flexível e criativo. QUAIS SERIAM OS MITOS DO NOSSO TEMPO. assim. N O AMBIENTE CORPORATIVO? . Também é a empatia que possibilita o conhecimento tácito. como se pensou durante séculos". encontrar significados onde eles parecem não existir. Q U A L É o SEU MAIOR MEDO? Q U A L A ORIGEM DELE? 2. maior será nossa capacidade de criar conhecimento. SE VOCÊ CONCORDA QUE A DIVERSIDADE É U M PATRIMÔNIO. qual é o futuro de uma organização cujos gestores se fecham em "contêineres" restritos e se recusam a esse aprendizado? Há. A extensão empática da noção corpórea amplia nossa capacidade de incorporar conhecimento. fora da mente humana.estão no abstrato. pelo desenvolvimento da habilidade de gerar metáforas.

intitulado O que falta descobrir. publicou em 1998 u m livro muito instigante sobre o provável desenvolvimento futuro das mais avançadas pesquisas científicas que havia acompanhado nas últimas quatro décadas. também recentemente. O livro. editor emérito da revista Nature. publicou. físico e matemático que se destacou como consultor do governo americano para assuntos espaciais e de defesa estratégica. no qual analisa a diversidade do . é u m guia precioso para quem se interessa em compreender a natureza da tecnologia que estará disponível nos próximos anos.XV—O que falta conhecer Sir John M a d d o x . Freeman Dyson. o livro Infinito em todas as direções.

o físico Michiò K a k u vem provocando polêmicas com a teoria das supercordas e múltiplos universos. Mais recentemente. no seu livro O tao da física. presente na maioria dos textos científico-literarios. idéias para futuros produtos ou serviços. uma das primeiras constatações que se apresentam é: quanto mais se sabe. acima de tudo isso. Acompanhar o desenvolvimento do Projeto Genoma apenas para saber avaliar as ações de empresas de biotecnologia é pouco. Aproveitar as revelações dos cientistas para buscar o ponto de excelência nas capacidades que estão impressas no D N A da empresa. o físico Fritjof Capra havia se tornado uma celebridade ao revelar as conexões íntimas entre a ciência mais avançada e a tradição taoísta. Essa premissa. mais se necessita e se deseja saber. diante da fartura de possibilidades que o conhecimento tem a oferecer por meio da "terceira cultura" a que já me referi. Nos anos 1970. M a s .mundo natural e a variedade das reações humanas a esse mundo. até mesmo. o mergulho do imaginário da organização no ambiente estimulante da "terceira cultura" abre perspectivas otimistas e desafiadoras que favorecem a criação do conhecimento. Quando a organização consegue embeber boa parte de seus talentos no ambiente instigante da "terceira cultura". Promover debates e reflexões sobre projetos científicos e suas perspectivas também pode produzir novas visões do negócio e. e estimular as células da organização a produzir metáforas inovadoras e inspiradoras da gestão. Lições profundas e abrangentes sobre como as pessoas percebem a realidade brotam de seu texto e são muito úteis ao gestor. certamente é uma atitude mais inteligente. .

funciona como uma vacina contra o vírus da auto-suficiencia. que costuma rondar os ambientes de alta tecnologia. pois os processos mais acelerados também ampliam o risco de danos em larga escala. o estímulo à curiosidade permanece e o conhecimento não se cristaliza precocemente. na opinião de Porter. qualificado no ambiente da economia digital como tradicionalista e conservador. é que. As escolhas devem ter um alto grau de acerto. De fato. segundo um dos mais renomados estudiosos de estratégia do mundo. Os textos sobre as assombrosas descobertas científicas dos últimos tempos trazem sempre. especulações sobre o que ainda falta descobrir. o professor de Harvard Michael Porter. a definição de estratégias exige muito mais agilidade. a maioria das organizações. A s sim. N o entanto. com a rapidez das mudanças na sociedade e nas relações de negócios. FLEXIBILIDADE Outro fator decisivo no desenvolvimento de uma cultura que valoriza a curiosidade científica como base para a criação de conhecimento. no caso de decisões estrategicamente equivocadas. nas entrelinhas ou de forma explícita. A intuição passa a fazer parte das competências mais valiosas quando se está sob o bombardeio de informações. principalmente as envol- . muitos dirigentes de empresas têm afirmado que as mudanças no cenário de negócios ocorrem tão rapidamente que suas companhias não têm como preparar estratégias de longo prazo. O fato de o conhecimento científico atuar como inibidor de ilusões e mitos faz com que a cultura gerada a partir dessa base ofereça mais segurança para as escolhas intuitivas.

estabeleceu paradigmas que valorizam o detalhe em detrimento do olhar mais amplo e de longo prazo. baseado principalmente em melhorias operacionais e de processo. Vive-se quase sempre na expectativa de uma sucessão de resultados a curto prazo. lembra Michael Porter. a emergência da tecnologia digital impôs a cultura da velocidade. a partir de meados da década de 90. A ironia. embora as oscilações do valor de suas ações sinalizem algum problema com a confiança que podem incutir a longo prazo. Primeiro. porque entendem que a estratégia não precisa ser rígida. empresas como a Dell.vidas com alta tecnologia. a organização adquire mais mobilidade e agili- . Depois. a condição fundamental para vencer nesse cenário é criar o tempo necessário para a elaboração de estratégias consistentes e de longo prazo. a abertura de mercados. é que muitas dessas organizações velozes são bem sucedidas. quando. Intel ou Wal M a r t têm uma estratégia apesar da impressão de que estão sempre mudando. manteve os gestores ocupados em aprender a negociar em ambientes estranhos e avaliar as possibilidades da globalização. Por fim. a capacidade de formular conhecimento capaz de alavancar sua presença no mercado de forma consistente. perde progressivamente a cabeça estratégica e. consolidando em muitos gestores a noção de que num mundo em transformação não se deve ter uma estratégia. Porter alinha uma série de razões pelas quais a estratégia tem estado ausente das prioridades de gestão. segundo Porter. De fato. no final dos anos 80. quando as crenças mais profundas informam a estratégia. o sucesso das empresas japonesas. Pelo contrário. correlativamente. segundo Porter.

gestores como Kenny Hirschhorn. mesmo em setores sacudidos por muitas mudanças tecnológicas. e quais aspectos oferecem as melhores oportunidades para a inovação. Nesse sentido. Todos na empresa sabem quem são e o que fazem esses profissionais. como fundamental para seu desenvolvimento. empresa européia de comunicação sem fio. porque toda a sua inteligência sabe reconhecer quais são os pontos sobre os quais não há negociação. imaginação e futurologia da Orange P L C . não em tecnologia. M a s a visão de futuro não vem apenas do conhecimento científico de ponta: também se aprende muito com o passado e a História. C o m a base no conhecimento científico e a cabeça nas metáforas essenciais que a filosofia oferece. muitas corporações aproveitam as descobertas dos cientistas para planejar seu posicionamento. se sua aplicação levar em consideração que se trata de muito mais do que simplesmente . Seus valores são universais: os produtos e serviços da Orange têm de ser dinâmicos. "embaixador de estratégia" (ou pensador com o cérebro direito) e "cônsul do conhecimento" (ou pensador com o cérebro esquerdo). Hirschnorn conduziu a Orange a uma visão inovadora: a marca é fundada em estilo de vida. inovadores e confiáveis. porque a cultura da corporação assume. a junção da experiência com as novas tecnologias pode produzir mais do que uma conta de somar: o papel estratégico da tecnologia de informação pode ser multiplicado. amigáveis. vice-presidente executivo de estratégia. têm produzido estratégias vencedoras. C o m essa visão.dade. Os colaboradores de Hirschnorn são identificados por funções inusitadas como "imaginador". a prospecção de dez ou vinte anos no futuro.

e de muitas outras ferramentas que estarão disponíveis em larga escala para os gestores. A maior utilidade da tecnologia está em agregar as informações num contexto que atraia e encante as pessoas. por . As descobertas da biologia são uma fonte preciosa para a busca de uma arquitetura de sistemas que possa representar a diversidade encontrada na natureza. o aprendizado com a História exige mais elaboração. e imitar a forma como as variadas espécies se apoiam umas às outras em favor da preservação e da evolução da vida. descrições de casos marcantes da história da organização ou do setor. Informações fragmentadas são tão inúteis e perigosas quanto são vulneráveis e potencialmente hostis os indivíduos desagregados de sua espécie e de seu ambiente. A insistência de algumas organizações em manter a nova tecnologia sob o manto restritivo do controller ou da contabilidade — setores normalmente avessos a novidades e focados em controle de custos —. tem sido a causa de equívocos estratégicos e de maus investimentos em T. com relatos. por exemplo. gráficos e fotografias. a arquitetura dos softwares pode ser adaptada para agregar. C o m a perspectiva de que a deve atuar como suporte do desenvolvimento coletivo e da criação de uma mentalidade favorável ao aprendizado contínuo.organizar dados. transformando a diversidade de suas formações e a variedade de estilos de cada unidade em fator de convergência. integrando-as num mesmo círculo de interesses. uma vez que essas tecnologias representam uma ruptura e não encontram referência no passado.I. A tentativa de muitas empresas de utilizar os novos bancos de dados digitais da mesma forma que eram usados os antigos métodos de catalogação. N o caso da tecnologia de informação.

De repente. após a quebradeira do segundo trimestre de 2000. da mais vasta ignorância brotaram "especialistas".exemplo. ferramentas poderosas passaram a ter sua utilização restringida a controle de processos. D a ação desses "e-quivocados" resultou. Assim. U m olhar atento sobre o avanço das ciências e o futuro das tecnologias. provocou muitas perdas até o ano 2000. antes de qualquer expressão ou formulando trocadilhos "criativos" com o sinal @. com o triunfo do conservadorismo em plena revolução tecnológica. O risco agora é de origem inversa: escaldados pelo desastre de 2000. muitos gestores e investidores se recusam a encarar a necessidade de inovar e buscar recursos tecnológicos que permitam às suas empresas se descolar da massa de lugares-comuns em que o mercado vem se transformando. Isso ocorreu pelo deslumbramento com as possibilidades de arquivamento e manipulação de dados. o que por si deveria sinalizar que algo estava errado. vendas e pesquisas online de produtos já existentes para mercados que já eram explorados. aliado a um esforço pela criação de conheci- . Os preços de projetos para a Internet chegaram a variar em mais de 2 0 0 0 % entre 1997 e 1999. que levou a investimentos em negócios para os quais certas organizações não tinham a menor vocação. As perdas de muitos bilhões de dólares com empresas pontocom deveriam deixar bastante claro que a bolha nasceu da associação da ilusão tecnológica — de que padecem muitos especialistas desatentos à riqueza de sutilezas da gestão — com a ambição cega de investidores. uma retração no uso das tecnologias digitais. que julgavam ser possível entender a nova realidade simplesmente acrescentando o signo e-.

Quem conhece ciência. por exemplo. A junção entre a automação avançada e reproduções razoáveis do cérebro humano no que ele tem de funcional. que se relaciona à consciência. N o entanto. revela uma forte redução dos investimentos nas áreas tidas como emuladoras da inteligência humana naquilo que ela tem de mais sofisticado. Portanto. fazer escolhas acertadas e até mesmo. em certa medida. conjeturar sobre um futuro de robôs conscientes e operários-padrão não sindicalizáveis é mais uma ilusão. Uma leitura nos relatos de cientistas sobre as pesquisas avançadas em inteligência artificial. adivinha a tecnologia. menos vulneráveis a erros do que o próprio ser humano. São promissoras. ou seja. portanto. as áreas de automação avançada.mento nas organizações. a agregação de algum arbítrio à inteligência artificial. capazes de reconhecer padrões e. mas também com as variáveis que brotam do ambiente social. só é esperada pelos mais otimistas para depois de 2050. para operações em ambientes microscópicos. o que deve resultar em novos conceitos de computação nos próximos dez ou quinze anos. durante muito tempo ainda será necessário que o ser humano alimente a máquina. muito comumente associadas à nanotecnologia. A produtividade futura está na educação de toda a organização para interagir com instrumentos de altíssima capacidade de processamento. Não apenas com os padrões. podem compor um bom antídoto contra o perigo da estagnação e do retrocesso. e as tentativas de emular o sistema nervoso central. . e à concentração de investimentos nas áreas operacionais e racionais da inteligência humana. portanto.

que sejam amigáveis. os paradigmas indicarão como de bom senso o compartilhamento das funções de criar conhecimento na organização. o mexicano Juan Enriquez organizou o projeto Ciências da Vida. por razões variadas. que vem tornando disponível uma visão interdisciplinar de como a revolução das ciências biológicas transformará o mundo dos negócios. flexíveis e sociáveis no sentido de respeito às necessidades. N a Har var d Business School. Algumas corporações já estão criando grupos de conversação sobre temas científicos e tirando dessas reflexões idéias para novos produtos. aqueles que estão impressos no D N A da organização desde sua fundação. A atual estrutura das organizações de negócios governamentais ou privados não reproduz o estilo das sociedades de todos os tipos. como características das tecnologias eleitas como auxiliares da gestão. que geraram o caso de sucesso que é a vida no planeta Terra. Entre elas. e até para novas maneiras de fazer negócio. Revelações do Projeto Genoma são úteis para a elaboração de planos que utilizem ao máximo os potenciais da empresa. Também é recomendável que as escolhas de aplicações comecem a se deslocar dos usos operacionais para representações de conhecimento e simulações de problemas reais. hábitos e estilos dos usuários internos ou externos e integráveis com outras tecnologias. o fato de que as relações econômicas e sociais i m põem. sem o que não será possível alcançar índices aceitáveis de produtividade. . M a s para isso é preciso fazer u m grande esforço na educação de todos os usuários.CIÊNCIAS DA VIDA Durante muito tempo.

associada à Oracle. Caso contrário. investe num ambicioso projeto de biologia celular com o mesmo objetivo. as pessoas as entendem. a nova ciência sobre o funcionamento das proteínas. sua saúde e sua qualidade de vida. como a I B M . a Sun Microsystems. na qual anunciou o lançamento do primeiro trabalho relacionado a esse projeto: o livro Como o futuro apanha você: como o genoma e outras forças estão mudando sua vida. afirmou Enriquez em entrevista a Alan Weber. como a Celera. concordam com elas e as apoiam. são sintomas claros de que esse risco pode estar muito próximo." A única infraestrutura que conta hoje é gente". que não existia em 1995 e hoje possui o mais potente computador do mundo. A quebra da gigante da energia Enron e o escândalo da WorldCom. Algumas das organizações da era da informação já saltam para a fase mais avançada da era do conhecimento. a segunda maior operadora de telefonia de longa distância dos Estados Unidos — com seus ingredientes de malversação. . seu trabalho. observa Juan Enriquez. mas resulta de um vácuo de conhecimento. As sucessoras de empresas como Cisco Systems e Microsoft poderão ser companhias de ciências da vida. à integradora de sistemas C G I e à Caprion Pharmaceuticals. que pode ser ocupado por pessoas despreparadas ou com os valores inadequados. afirma Enriquez. incompetência e má-fé —. um programa científico dedicado a desenvolver simuladores biomoleculares com o objetivo de acelerar o avanço da proteômica. o sistema caminha para a falência". diretor da revista Fast Company. que. Ele considera que o maior risco de um crash na economia global não se origina na volatilidade dos mercados ou em fatores geopolíticos. Seu maior projeto desde 1999 é o Blue Gene. "Temos de assegurar que quando fazemos escolhas como sociedades.

" A ÚNICA INFRAESTRUCTURA QUE CONTA HOJE É G E N T E " . representam sofrimento para toda a humanidade. 2. resultam importantes subsídios para organizações que perceberem a urgência e a conveniência estratégica de valorizar o capital conhecimento sobre um painel de premissas que têm como valor principal a guinada no desastre que vem. Para refletir: 1. colocando sob risco o processo civilizatório e conduzindo a humanidade a uma crise sem precedentes. Juan Enriquez representa o protótipo do profissional da era do conhecimento. HÁ U M LIMITE PARA O CONHECIMENTO HUMANO? FELICI- . no longo prazo. Não importa o que falta descobrir. desde o i n vestimento em pesquisa científica à formulação de políticas públicas. para que as relações de todo tipo. resultem numa sociedade onde as instituições de todos os tipos — especialmente as organizações de negócios. há décadas. Quando os ganhos do desenvolvimento são assentados sobre u m sistema desigual e perverso. É POSSÍVEL CRIAR U M SISTEMA QUE PRODUZA RIQUEZA DADE GERAL? 3. que produzem riqueza — joguem em favor da felicidade do ser humano. D o seu trabalho.Instalado na intersecção da ciência com a economia e a política. Ele já entendeu o sentido da evolução que deve ter a cultura. destruindo as reservas naturais. os próprios recursos da modernidade são causadores de sobressaltos e perdas que. até a gestão dos negócios.

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XVI—A dor da modernidade A invenção da linguagem digital. Assim como a presença do ser humano nos grotões da África fez explodir a tragédia da AIDS na sociedade que se havia libertado . A o dar partida na máquina que multiplica o raciocínio e seu potencial de produzir conhecimento. que deu ao ser humano a habilidade de criar aparelhos capazes de transcender a capacidade humana de processar informações fora de sua estrutura corporal. o homem ocidental quebrou todas as barreiras geográficas e culturais. é o ponto de partida para a revolução que apresentou sua primeira grande conta em setembro de 2001. e impôs a modernidade aos mais remotos confins do planeta.

para quem quase todas as variáveis do cotidiano são dependentes do arbítrio e dos caprichos de uma divindade. A o carregar consigo os valores colonialistas da era industrial. o muçulmano de uma aldeia do Afeganistão não tem como significar um mundo no qual as pessoas se vestem como quiserem. o indivíduo de turbante era apenas. que se crê capaz de dominar uma gama cada vez maior de variáveis da realidade. Para o cidadão do mundo. ele conclui com horror que ambos não cabem no mesmo planeta. abalou estruturas sociais e de poder e acabou por alimentar o processo que resultou nos atentados terroristas nos Estados Unidos e na Espanha. a notícia da modernidade em aldeias remotas. quando muito. sob o selo de ser " a única e verdadeira palavra de Deus. uma curiosidade nos aeroportos ou supermercados. e o homem "pr imitivo". até o dia 11 de setembro de 2001. Depois daquela data. O diálogo global se torna ainda mais difícil. A globalização se dá em pistas de mão dupla.dos tabus sexuais. Então. Assim como o Alcorão soa incompreensível e até patético para o cidadão novaiorquino típico — quando. as mulheres exibem porções generosas de seus corpos e os filhos contestam as crenças de seus pais e todos continuam vivendo juntos. a dor da modernidade começa a se manifestar no entendimento de que uma das maiores conquistas da civilização — a percepção da diversidade como riqueza — pode ser seu calcanhar de A q u i les e talvez tenha de ser sacrificada no altar do liberalismo. determina que todo infiel seja punido severamente — . se acrescentarmos ao cenário o componente da exclusão digital de . ainda mergulhadas na era pastoril. ela opõe de forma inconciliável o homem "digital". revelada a M a o mé".

Essa percepção de que algumas regras. A diferença entre uma e outra resposta pode ser sentida em todas as crises e em todos os tipos de organização. A invenção da linguagem digital revoluciona o mundo. O que o coloca mais distante do indivíduo mergulhado em uma sociedade tribal. ao mesmo tempo. autora de livros como Inteligência espiritual. entregandoas à autoridade religiosa. aparentemente deixam de fazer sentido n u m período extremamente curto. pela capacidade que proporciona ao ser humano de dominar u m número crescente de variáveis da realidade objetiva. fundamente incrustadas em nosso modo de vida. desde as famílias até corporações de negócios ou nas grandes concentrações urbanas. como fissura no edifício das modernas sociedades ocidentais. produz nos indivíduos a sensação de quebra de uma ordem muito segura. M a s ela também pode se configurar em atitudes construtivas. a reação pode ser o desespero e o crescimento de crenças apocalípticas. afastá-lo do desejo de controlar essas variáveis. CAOS ORDEM A filósofa e psicóloga Danah Zohar. nesses momen- . observa que. em geral.parcelas imensas da humanidade. C o m a percepção clara de que as mudanças estão apenas no começo. O paradoxo da liberdade como conquista e. no sentido de buscar uma nova ordem que abrevie o período de caos. tende a se agravar. exatamente. os indi- víduos conscientes de uma natureza da vida humana como processo permanente de evolução assumem. sob o governo de sacerdotes cuja função social é. mesmo em nichos ditos civilizados.

capazes de aprender e de fazer e manter amizades. ne- . Ele estudou as rotinas de pessoas e grupos que superam catástrofes e reinventam suas vidas. espirituais e biológicas exigidas para atravessarmos com sucesso as mudanças em nossas vidas. Indivíduos assim. porque exige um bom funcionamento dos processos fisiológicos. em geral. afirma ela. A resiliência ou tenacidade. É também espiritual. mas também física. de espírito independente.tos de caos. não é só uma questão psicológica. indivíduos criativos. porque nenhum trauma. Pessoas que não desenvolvem a inteligência espiritual estão sempre assombradas com mudanças e instabilidades. Pessoas resilientes são tenazes — resistentes e flexíveis. Tornam-se vulneráveis ao desespero e à manipulação de outros pobres de espírito. hábeis para renovar a autoestima. Estão sempre prontos a enfrentar o desafio das transformações e rupturas porque. Eram. uma atitude de reflexão criativa que conduz as pessoas à significação do momento vivido e a um rápido estágio de acomodamento e serenidade. mesmo quando excitados pelo estresse e ativados além da normalidade. e observou que o traço em comum entre elas era a capacidade de tomar posse de seu destino. resistentes à dor. segundo Flach. costumam questionar sua percepção da realidade e simular mentalmente as possibilidades de quebra dessa ordem. em todos os momentos de suas vidas. que só enxergam na crise oportunidade para obter vantagens individuais. O psicólogo Richard Flach já havia definido como "resiliência" o conjunto das forças psicológicas. são dotados de alto quociente de inteligência espiritual. dotados de grande percepção de si próprios e de suas circunstâncias. respeitosos consigo mesmos.

O horror provocado pela consciência de que a ordem mundial pode ser quebrada. O processo de desintegração por que passa um indivíduo ou toda uma sociedade. despedaça a ilusão de uma modernidade que vinha rapidamente. o desespero diante das grandes rupturas é apenas a repetição em escala ampliada da angústia fundamental que nasce do antagonismo entre a noção indefinida de uma natureza humana gloriosa. por temor às rupturas. que pode conduzir a u m estado de autismo. A recuperação após um fato estressante depende. como o Projeto Genoma. De repente. presente em todos os seres como uma vaga lembrança de um estado primai paradisíaco. os grupos extremistas da direita americana tenham se assanhado como na década de 1960. é natural e repetitivo durante nossa existência. e passam a enxergar o exterior como fonte de risco. Indivíduos ou grupos monolíticos tendem a se isolar progressivamente. Quem não se permite desintegrar em meio ao caos corre o risco de cair num estado de disfunção crônica. portanto. afirmando a possibilidade de uma vida com menos sobressaltos. que. N a verdade. de u m bom estado físico e de um espírito que opera como uma reserva de energia vital.nhum evento causador de estresse pode ser capaz de atingir a essência ou tema central da nossa existência. e a circunstância humana delimitada e restringida pela realidade. pela ação de u m punhado de pastores vindos de uma remota aldeia da Ásia Menor. a i n - . portanto. Não deve causar estranheza. após o choque dos atentados. e de maneira impositiva. como ocorreu com milhões de pessoas após os atentados de 11 de setembro. as maravilhas da modernidade.

Pior: neste novo cenário. Se o prazer e o "poder" vêm de uma conquista do seu time predileto. sua nação é aquela confraria sem limites geográficos.teligência artificial. D o outro lado do grande espectro da humanidade. dos "bons" que vencem os "maus". ampliando e reduzindo sua noção geográfica de nação. pode se tornar inimiga. operações financeiras e programas usados na monitoração de operações de fracionamento em indústrias químicas. conforme o espectro de onde tira a sensação de poder e bem-estar por "pertencer" a essa comunidade de valores. treinados para alterar rotas de aviões. Sem o exército de operários que nos velhos tempos punham olhos. se as sensações de prazer e "poder" vêm de um filme de sucesso. A inteligência artificial pode ser a chave para hackers do futuro. os planos de viagens no espaço exterior. ouvidos. Sua vida se projeta em direção ao futuro. a tecnologia. começam a parecer ainda mais distantes. O indivíduo que se contrapõe a essa percepção é considerado por ele " p r i m i t i v o " . dez anos depois. ou de promessas de continuidade na percepção desse prazer. no qual um gene modificado pode ser inoculado em centenas de indivíduos encaminhados para potenciais carreiras estratégicas e programado para produzir. olfato e intuição no controle da qualidade e segurança dos processos industriais. O indivíduo "moderno" se apega aos ícones da modernidade como se fossem sua pátria real. em vez de libertadora. sua nação é sua "galera". o Genoma pode ser o berço de um terrorismo ainda mais monstruoso. sempre em consonância com perspectivas de prazer continuado. um surto destrutivo. está aquele que amea- . como se o conflito com o "primitivo" adiasse o paraíso da modernidade. rotinas de usinas nucleares.

considera que o futuro só o distancia da real felicidade. Mesmo que ambos se considerem. Este. A diferença básica entre u m e outro é que o "moderno" está sempre em busca de ampliar as fronteiras do seu ego. se compraz na certeza de que tudo está e estará eternamente no seu exato lugar. a lição da natureza. o paraíso pode ser vivenciado imediatamente. assombra e enraivece a comunidade "moder- . que consiste em cumprir quietamente seu tempo de vida. Pois. que faz conviver espécies altamente desenvolvidas com versões ancestrais da mesma linhagem. em suaves prestações. Para um. não parece ter sido apreendida na convivência entre " m o dernos" e "primitivos" colocados no mesmo habitat virtual por força da globalização. para este. Assim como instintos ancestrais assombram eventualmente a consciência que se considera mais elaborada. e tudo que se seguirá é ilusão. U m vive intensamente seu universo cultural de imagens sempre renovadas. a expressão das sociedades "primitivas" espanta. enquanto o " p r i m i t i v o " conta com o prêmio da plenitude do ego como recompensa da sua vida de privações. O outro pode se deliciar durante toda a existência com o mesmo cenário de dunas ou montanhas pedregosas e a repetição diária de suas rotinas artesanais. poupa-se para o usufruto posterior mas permanente. que não encontra espaço gratificante no mundo moderno. Para outro.ça bombardear os sonhos da modernidade. e se compraz nessa sucessão de novidades visuais. excludentemente. a idade de ouro da sociedade humana já passou há centenas de anos. pois — maktub — está escrito. a personificação da vontade última de u m deus ou da evolução. e colocam sob risco todos os ganhos da evolução do indivíduo.

despacha mensagens eletrônicas condenando o "terrorismo global americano". ou dos mendigos que se atrevem a expor publicamente suas misérias. não tem sido suficiente para aliviar nossas angústias. de agricultores sem terra que desfilam pelas cidades e invadem edifícios públicos para exibir sua condição de excluídos. de uma universidade americana. até mesmo para merecer os prazeres que conquista. como privilégio. na medida em que não se pode dissociar dessa consciência do paradoxo. Outra expressão dolorosa da modernidade nasce da constatação de que o assombroso avanço do conhecimento científico.n a " . é para ele motivo de sofrimento. até mesmo a inclusão. do qual resultam tecnologias capazes de ampliar nossa percepção de mundo e recursos avançados para dar mais longevidade e bem-estar às nossas existências. Seu bem-estar é seu inferno. Se. que resulta da modernidade e a sustenta. As mais fartas e variadas fontes de entretenimento. O INFERNO M O D E R N O A dor da modernidade também se expressa na compreensão — reforçada na luta diária dos cidadãos comuns pela sobrevivência — de que o próprio sistema econômico. de índios que bloqueiam rodovias em protesto contra a ocupação de suas reservas. é um monstro constituído pela contradição entre seu extremo poder e sua frágil capacidade de significação moral. e. Está nesse estado de sofrimento o bolsista brasileiro que. portanto. o indivíduo anseia por viver como um ser moral. no fundo. poder gozá-los com mais plenitude. seu conforto é sua condenação. Seja na figura de terroristas que explodem edifícios. os recursos para comu- .

Segundo Freud.nicação que podem satisfazer nossa curiosidade e estimular a imaginação também amplificam nossos desejos. como corolário do processo de globalização. Só que agora dói dentro do sistema. e gera nos indivíduos um estado de permanente insatisfação. renovado no ciclo cada vez mais curto das crises. mantém alto o nível de ansiedade quanto ao fim apocalíptico de toda capacidade de sobrevivência. estende-se a distância entre aquilo que passamos a almejar e o que realmente podemos obter. essa pode ser a razão pela qual muitas pessoas assumem uma "estranha atitude de hostilidade para com a civilização". A o mesmo tempo. sintetiza as sensações de final dos tempos que varriam as camadas mais vulneráveis da sociedade globalizada nos últimos anos. Então. e a consolidação desses novos patamares como certificação de pertencimento social. Por u m lado. A síndrome de fim do mundo. o avanço constante da tecnologia coloca seguidamente novos patamares a serem alcançados. a mensagem que estimula o consumo tem como discurso central a conquista de novos níveis de vida. que se abateu sobre milhões de indivíduos após os ataques aos Estados Unidos e se agravou. pela aquisição de bens e serviços. O círculo se fecha. o maior risco de exclusão. certamente está na raiz dessa incapacidade de satisfação das grandes massas de cidadãos reduzidos ao papel de consumidores. na Espanha. A construção de uma ideologia do consumo. apenas aliviado eventualmente por . M a s ainda é correto chamar de crises as sucessivas ondas de perdas e sobressaltos que assolam os mercados mundiais? Quando constatamos que a crise se apresenta como um estado permanente. Por outro lado. u m ano depois.

que os indivíduos custam .5 bilhões em 2003. corresponde à progressiva eliminação das causas de sofrimento. segundo ex-diretores do Banco M u n d i a l . de tal maneira.episódicos hiatos de equilíbrio com alguma prosperidade. Nesse mesmo período. A idéia de que o desenvolvimento da civilização. N e m os adeptos do terror político representam o islamismo. Esses números talvez nos ajudem a redirecionar as premissas que têm servido de base para as afirmações de muitos analistas. Os organismos internacionais não têm estatísticas confiáveis dos conflitos regionais que aconteceram nos últimos trinta anos em todo o mundo. segundo as quais o conflito cujo marco foram os atentados nos Estados Unidos representa o choque de duas civilizações incapazes de conviver pacificamente. A julgar pelos indicadores tão ao gosto dos analistas. Assistimos ao choque das ignorâncias. em contrapartida trágica. como a conceituamos no Ocidente. como definiu o ensaísta palestino Edward Said. M a s aponta. e recursos sustentáveis para alimentar uma perspectiva de futuro. um aumento do número absoluto de pobres. é mais razoável concluir que os conflitos surgem em função das distorções dos dois sistemas. O sistema já não é capaz de oferecer respostas para as demandas mais simples da humanidade: paz. para evitar a continuidade de uma ilusão perigosa. para gerar prosperidade. a economia mundial cresceu cerca de 200%. de 2 bilhões em 1970 para mais de 2. mas sabe-se que o número de mortos em "tempos de paz" ultrapassa a casa do milhão. ficou impregnada no imaginário coletivo. é preciso repensar a terminologia. nem os autores do terror econômico são os representantes da civilização ocidental. sacadas pela imprensa após o 11 de setembro.

Pesquisas publicadas periodicamente pela imprensa i n dicam que. um clima de apocalipse predominou sobre o imaginário coletivo. segundo a tradição grega). os seres humanos ainda se angustiam com as impossibilidades do dia-a-dia porque crêem num mundo perfeito e organizado. E m todo o noticiário e nas entrevistas realizadas na Europa. O anúncio do Projeto Genoma foi seguido de milhares de páginas e muitas horas de comentários sobre um futuro sem doenças. pela terapia adequada. A ilusão de que vivemos a pós-modernidade. N o entanto.a aceitar a realidade das perdas e frustrações. Quando a tecnologia . reforçou na sociedade ocidental a crença de que tudo pode ser remediado pela droga correta. Promete-se longevidade saudável e plena capacidade sexual para sempre. Passados mais de 3. na percepção dos indivíduos adultos. e a humanidade entra em pânico após a revelação de que meia dúzia de envelopes com o vírus do antraz foram enviados a jornalistas. o mundo de hoje é sempre pior e mais angustiante do que o mundo de sua infância. alguns avanços na tecnologia da informação autorizaram teorias sobre uma sociedade completamente entregue ao lazer. e produziu no seio da modernidade os mesmos chavões e palavras de ordem gritados pelos mulas nas manifestações de muçulmanos contra o "demônio infiel".200 anos das pregações de Zaratustra (ou Zoroastro. aceita pela maioria esmagadora dos intelectuais com acesso à mídia. livre de todas as crises e angústias. nos Estados Unidos ou na América Latina. pela negação da realidade. o cenário de ficção científica se transforma em filme de terror. políticos e outras celebridades.

400 ou 1. líder da nação mais poderosa do mundo civilizado? O que houve com a humanidade desde 1. Não foi esse exatamente o tom que unificou os discursos do líder terrorista Osama bin Mohamed bin Laden e do presidente George W. surgiria a era da perfeição. local provável onde o sábio Zaratustra elaborou e difundiu as crenças que influenciaram o judaísmo e se encontram nas origens tanto do cristianismo como do islamismo e que ainda embalam o imaginário de cidadãos cosmopolitas nas cidades mais modernas do planeta. após o combate final entre as forças divinas da ordem cósmica e as forças demoníacas do caos.200 a. Zaratustra deixou como legado a hipótese da redenção total da humanidade. Por uma dessas ironias da História. C o m ela. as pessoas a rejeitam. a modernidade repete a mais antiga doutrina cósmica remanescente dos primeiros grupamentos de pastores que deram origem a uma nação. por não serem capazes de abandonar a ilusão do paraíso. Bush. quando seríamos todos seres angelicais.— insistentemente apresentada como a alternativa indolor para a passagem entre o mundo caótico sempre presente e a possibilidade futura do paraíso — é apropriada pelo " i n i m i go" para produzir sofrimento e morte. o conflito que teve seu estopim em N o v a York foi se consolidar na região do atual Afeganistão.C. AINDA ZARATUSTRA A o prometer um futuro de lazer permanente e plena bem-aventurança. permanecem como fantasmago- . quando esses ensinamentos se espalharam pela Ásia Menor? De todos os lados do espectro de civilizações em que o mundo se classificou.

rias as palavras de Zaratustra. que prometem a aniquilação do inimigo " i n f i e l " e o paraíso eterno aos justos para depois do apocalipse. E m algumas organizações. filho do deus do trovão. as épocas de agruras e os períodos de bemestar. líderes visionários entenderam o significado desses sinais e os utilizam para ampliar sua percepção da realidade. A combinação de linhas contínuas e linhas interrompidas que compõem esse saber é semelhante. situada na mitologia chinesa. do seu apocalipse particular. assim. u m lugar para plantar e viver. criando. do juízo imediato e permanente que são o fundamento da realidade objetiva de todos os indivíduos. os homens não apenas puderam calcular o volume de pedras e terra que precisariam deslocar para domesticar o R i o Amarelo e o Yangtsé. ainda permanece como pano de fundo de crenças e ideologias. com o presidente de um grupo de indústrias que . C o m aqueles signos. da tarefa dolorosa de construir um significado em meio ao caos. inventou os hexagramas com os quais se pode interpretar o Universo. seu tempo de vida. a idéia de um confronto final. na origem. à combinação de 0 e 1 que forma a linguagem digital. como assessor de comunicação corporativa. A dor da modernidade recrudesce na percepção de que ninguém escapa do seu próprio juízo. Convivi. M e s m o no mais sobremoderno dos salões metropolitanos. quando o semi-deus Fu C h i . o tempo de viver e o tempo de morrer. complexo de conhecimentos com os quais podem representar sua localização no universo. de u m julgamento definitivo. a espantar a hipótese do Armagedon diário. A missão da consciência humana diante da natureza está simbolizada há 4. M a s também souberam criar o I-Ching.500 anos.

com famílias mais sólidas. não pode ter respostas para as inquietações que ele mesmo provoca. empregos mais estáveis. Também na Cabala judaica. C omo resultado. o ambiente se desanuviou e o grupo seguiu unido até o encaminhamento de uma resolução da crise. sofria uma terrível crise de caixa. . Quando era possível viver em aldeias. o emprego é apenas uma possibilidade. a flexibilidade e a firmeza tornam-se uma dupla exigência e a dor é muitas vezes provocada pela incapacidade de aceitar a mudança. valores mais claros e instituições mais fortes e protegidas. sobre as quais se montou o tabuleiro das culturas que hoje se entrecruzam na sociedade em rede que caracteriza a globalização. os valores morais fluem segundo a moda e as instituições são sinónimo de crise. dois meses depois. também precisávamos de indivíduos e organizações mais resistentes e menos flexíveis. As causas da dor eram sempre externas. quando ela ao mesmo tempo era considerada a empresa mais bem posicionada mundialmente no setor e. U m sistema econômico que pretende vender a ilusão de um universo estável e prazeroso sem lugar para as angústias inerentes à vida.confiava plenamente na intuição informada pelo I-Ching. a humanidade tem podido alcançar um elevado grau de percepção sobre o processo de rupturas e consolidação que constitui a própria existência. Nos imensos e densos aglomerados urbanos em que as famílias são mais frágeis. paradoxalmente. e em muitas outras fontes de conhecimento. esse executivo consultou o I-Ching e distribuiu entre seus diretores e gerentes uma cópia das reflexões que colheu. N u m dos momentos mais críticos para a companhia.

Quando a percepção de plenitude da modernidade começa a sugerir exercícios de emancipação e liberdade moral do ser humano diante do Universo. O QUE VOCÊ ENTENDE POR CAPACITAÇÕES EVOLUTIVAS? .M a s a ruptura está posta e. em novos rituais a que assistimos via satélite. repetimos que o inferno são os outros e quase aceitamos um desígnio divino como justificativa para uma provável sucessão de conflitos sangrentos. pode parecer a muitos que "algumas mortes" são inevitáveis para a defesa da civilização. como há milhares de anos. O QUE VOCÊ PRECISA SABER PARA DESENVOLVER PROGRESSIVAMENTE ESSA QUALIDADE? 3. Existiria uma qualidade essencial que o protegesse de si mesmo? Para refletir: 1. É a persistência do sacrifício humano. U m sistema que ainda se justifica na hipótese de assassinatos em massa como "ocorrência" é um sistema vulnerável. Q U A L É A QUALIDADE ESSENCIAL QUE GARANTE A SUA EMPREGABILIDADE? 2.

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XVII—A qualidade que protege Qual a qualidade do conhecimento que pode proteger o indivíduo. no mínimo. uma organização de negócios — ou a própria sociedade moderna — contra a deterioração inevitável em uma situação de conflito crônico e permanente? E m nome de que valores o u instituições se produzirá esse conhecimento. uma vez que as instituições historicamente vinculadas à modernidade são crescentemente vistas como cúmplices do sofrimento social. o u . como ineficientes na proteção dos indivíduos? Vale a pena preservar instituições que se consolidam como avalistas de um racionalismo cada vez mais associado a exclusão e perdas? .

A associação internacional Business for Social Responsibility (BSR) atraiu em pouco mais de dois anos de atividades mais de 1500 empresas. um número crescente de empresas de diversos setores vem obtendo resultados satisfatórios e evitando instabilidades ao desenvolver a cultura da responsabilidade social e ambiental. E m todo o mundo. N o Brasil. . garantindo assim suas próprias carreiras e bons proventos. apontam para o desmanche das normas fundadas nos pressupostos do processo civilizatório e fundadoras da própria modernidade. E m função da própria falência do sistema em garantir desenvolvimento sem risco de extinção da própria espécie humana. como a cultura das drogas.Alguns fenômenos perversos derivados do que se convenciona qualificar como pós-modernidade. cujas receitas anuais chegam a quase 2 trilhões de dólares e empregam mais de 6 milhões de trabalhadores. Negócios cujos gestores têm como missão apenas buscar resultados para os acionistas. o balanço social de organizações como essas já constitui fator determinante para a escolha de um número crescente de investidores. as companhias associadas ao Instituto Ethos — E m presas e Responsabilidade Social — já representam 27% do produto interno bruto. não se encaixam no perfil que surge como tendência de futuro no cenário econômico. Seus relatórios sobre avanços no balanço social do sistema econômico mundial vêm definindo uma nova visão do mercado globalizado. a violência social e o culto da irresponsabilidade na mídia. Sua conferência anual e seus seminários regionais são disputados por executivos de consultorias como a fonte de um novo conhecimento que se consolida rapidamente em novas práticas de negócios.

A ação da BSR se reflete em setores tão diversos como o governo do Cazaquistão — que criou u m seguro contra corrupção para empresas que querem investir no país — e a joint venture entre a Cargill e a D o w Chemical para a produção de um plástico que substitui fibras sintéticas de petróleo por compostos vegetais. o conceito de eco-eficiência passa a ser um diferencial importante na análise de projetos industriais. de 26 fundos ecoeficientes. observou que. comparados com os paradigmas do mercado. estendendo-se rapidamente para os demais mercados. o interesse por essas alternativas de investimento cresceu continuadamente nos países desenvolvidos. N o setor financeiro. com o acréscimo de até 100% de novos fundos por ano nos cinco anos seguintes. relacionamento respeitoso com a comunidade e boas práticas de governança corporativa estão consolidadas na lista de checagem de consultores financeiros em relação ao potencial dos empreendimentos. e não apenas com relação ao custo representado pela securitização de instalações e risco de danos ao ambiente.cujo centro é o respeito ao ambiente e a partilha dos resultados em favor do desenvolvimento humano sustentado. na sigla em inglês). A A B A M E C . realizado pelo Instituto Financeiro para a Sustentabilidade Global (FIGS. Associação Brasileira dos Analistas do Mercado de Capitais. ou de indenizações a consumidores e comunidades. A partir daí. 19 apresentaram desempenho superior no ano 2000. criou em 2001 uma comissão técnica de balanço social para liderar os estudos sobre a influência das práticas sociais no desempenho das empresas. O relatório anual sobre fundos eco-eficientes. e avaliar o de- . Políticas de respeito aos recursos naturais.

Segundo Gonzalez. a organização deverá considerar a própria sociedade como investidora. é instrumento mais eficaz e completo de avaliação das atividades empresariais. Roberto Gonzalez. se no passado as empresas só atendiam aos interesses de seus proprietários e cotistas. são também consumidores e investidores. e observou que o gestor e o empresário precisam saber lidar com a complexidade que uma nova visão de mundo traz . 66% consideram relevante a ação social externa das empresas. hoje se considera que os profissionais que as conduzem. lançou oficialmente o primeiro fundo brasileiro de investimentos socialmente responsáveis. Nada menos do que 78% declararam que o respeito ao ambiente é importante ou muito importante. N o mesmo evento. o diretor do Banco Real A B N A M R O . Luiz Eduardo M a i a . e 79% afirmam que o conhecimento público . N u m a pesquisa realizada em agosto de 2001 com analistas do mercado de ações e investidores. bem como seus clientes e fornecedores.sobre a atuação social de uma companhia pode influenciar no seu valor de mercado. diretor da A B A M E C . essa comissão constatou que a unanimidade deles já levava em consideração as informações sobre a ação social na hora de fazer a análise das empresas. Observou que a própria Comissão de Valores Mobiliários considerava que o Balanço Social.senvolvimento dos investimentos socialmente responsáveis. N o futuro próximo. quando apresentado em conjunto com as demonstrações financeiras tradicionais. apresentou esses dados em novembro de 2001 durante o Seminário Internacional sobre Investimentos Socialmente Responsáveis. realizado em São Paulo.

afirmou M a i a . e passou a estabelecer condições como respeito ao ambiente e não-utilização de mão-de-obra infantil para conceder financiamentos. começaram a notar na responsabilidade ambiental um fator garantidor dos investimentos. Estados Unidos e Canadá por oportunidades em negócios sustentáveis fora dos países desenvolvidos. Assim como o Real A B N A M R O decidiu criar linhas de crédito específicas para empresas ambientalmente responsáveis. ao ponto de incluir a responsabilidade social no planejamento estratégico. as organizações precisam de uma nova estrutura para atender às novas exigências dos negócios. C o m base nesse trabalho do Unibanco. De olho nesses recursos. Os fundos de investimento internacionais valorizam principalmente os baixos níveis de consumo de má- . informa Christopher Wells. então analista de i n vestimento socialmente responsável. implantando em sua cultura corporativa os fatores críticos de ação em longo prazo. também constatou que havia uma grande demanda de investidores institucionais da Europa. " N o atual contexto.ao negócio. outros bancos. a primeira em todo o mundo realizada num mercado emergente. N a sua opinião. como o B B A Creditanstalt. o gestor precisa ter consciência social". para ganhar dinheiro para os acionistas de maneira sustentável. foi realizada a primeira pesquisa brasileira sobre questões sociais e mercado de capitais. O Unibanco. pode-se constatar que sobe o valor das empresas com clara orientação social e ambiental. com objetivos e indicadores de desempenho bem definidos. evoluíram para a constatação de que as corporações transparentes e socialmente corretas tendem a revelar mais sustentabilidade.

térias-primas. das parcerias. VALOR DA CONSCIÊNCIA Nesse cenário. as qualificações do quadro gerencial. a partir de 1999. saúde e desenvolvimento cultural. O valor da consciência humana se sobrepõe rapidamente ao valor das capacitações herdadas das origens do sistema econômico e social em que vivemos. retratam a persistência de uma visão de mundo incompatível com os rumos já visíveis do futuro. a transparência na divulgação dos resultados sociais de sua atividade. coloca também em risco a sua própria sobrevivência profissional. as relações internas — representadas pela diversidade do quadro funcional. As respostas conservadoras que pude recolher de entrevistas com centenas de gerentes e executivos. a Bolsa de Valores de São Paulo e o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas anunciaram a criação dos índices de sustentabilidade que definiriam novos padrões para avaliação de empresas com ações no mercado. água e energia. relações sindicais e partilha de benefícios — e externas. o gestor que ainda se coloca à margem dos debates sobre o papel social das organizações de negócios. as emissões de poluentes. e considera não ser papel da empresa o desenvolvimento de uma sociedade melhor para todos. E m 2005. cresce rapidamente o valor da qualidade de pensar socialmente. como as oportunidades que a empresa oferece à comunidade e suas ações com relação à educação. A o lado das habilidades que o inserem no rol dos cidadãos empregáveis. Os eventos de setembro de 2001 e os movimentos militares e diplomáticos que se seguiram só poderão ser analisa- .

garantido pelo ambiente asséptico da religião. que pode se manifestar na auto-mutilação física ou moral — tem sua contrapartida na eventual recusa de sociedades inteiras à i m posição da modernidade e dos valores "democráticos". mas essencialmente gozam o poder da negação racional do prazer. que viajam pelo planeta agregados ao sistema econômico globa- . Estes seguem a promessa das eternas virgens no paraíso de Alá. A associação do niilismo com a obsessão pelo prazer alimenta o impulso de morte em ambos os lados do conflito que sacode este princípio de século. Uma das fraturas do comportamento "pós-moderno" — a recusa pessoal a determinados padrões. em que os signos da modernidade servem apenas como imagens do demônio a ser exorcizado. Aqueles que exercem o poder de movimentar as riquezas e se negam a assumir a vanguarda de u m processo de retomada da civilização — que poderíamos chamar mais apropriadamente de processo humanizatório — . se o lado mais poderoso em termos de tecnologia e recursos financeiros considerasse seriamente a possibilidade de abdicar da base humanista que é o fundamento de seu modelo. M a s há muitos indícios que contrariam a visão restritiva que caracteriza os conservadores. ambos poderiam ser perdedores. acabam por se colocar no mesmo padrão de atuação política dos fundamentalistas que desprezam: ambos se recusam a olhar para a frente. N o fim do confronto. Tanto os indivíduos "modernos" que se apegam a privilégios pessoais como os fundamentalistas religiosos buscam obsessivamente o prazer.dos com o devido distanciamento no tempo. em benefício de resultados políticos imediatos.

que carece de novos paradigmas. como se apresentam geralmente os aspectos humanistas. "civilizatório". atinge principalmente a liberdade de relacionamentos que caracteriza a nossa modernidade). D o mesmo modo. intoxicados por drogas ou por uma cultura consumista que aos poucos e inexoravelmente apaga sua identidade. Alguns preferem a morte gloriosa. tem sido um grande impedimento à busca efetiva de soluções para os problemas essenciais da humanidade. Quando as formulações chegam perto demais de questões pouco tangíveis. acabam sendo classificadas como religiosas. Outros morrem lentamente. como fica claro nos atentados suicidas e como é explicitado nos gritos das multidões. sempre procurando justificar u m sistema de crenças preexistente. não infecta apenas os corpos. inovadores e conformistas.lizado. num sentido bastante amplo para conter em si os dois extremos do atual espectro cultural do planeta. a extrema capacidade de invasão cultural inerente à globalização foi despertar e amplificar nas aldeias mais remotas o vírus de antigos temores. A maneira como nos apropriamos do conhecimento. que acabaram ge- . (O H I V . de onde ele retornou carregado de vírus não-éticos como o H I V e o Ebola. Os preconceitos acumulados em décadas de confronto conceituai entre progressistas e conservadores. têm dificultado a consideração de respostas para a pergunta fundamental: a qualidade do conhecimento capaz de produzir um sistema evolutivo. não reconhece essa espécie de referência. ou "filosóficas demais". nos centros da civilização. A crescente mobilidade do homem o levou aos confins da floresta africana. que saem às ruas para pedir a extinção dos " i n f i éis". por ironia. O sistema.

mas num emaranhado de ilusões e dissimulações. de u m certo desapego do destino coletivo. baseadas não nos sistemas propriamente. é muito provável que todas as análises estejam. mas reservam para si créditos com relação ao papel das instituições. causa nas pessoas a sensação de nãopertencimento. por mais fantasiosas que sejam as versões de realidade apresentadas à sociedade hipermediada. Também é possível que já não pratiquemos nossos jogos de poder sobre um tabuleiro de realidades. Essa percepção.rando o pesadelo dos atentados terroristas no coração do mundo moderno. por mais mascarada que seja na ação da mídia. Os indivíduos já não se sentem ligados a elas. político e econômico. dão a ele uma natureza de permanente desconforto. progressivamente. avalizadoras da racionalidade do sistema social. muito sinceramente. acusam de inação ou incompetência os organismos públicos aos quais negam suas contribuições. Acentua-se. ou seja. F o i o que aconteceu na Europa durante a segunda metade da guerra d e l 9 1 4 a l 9 1 8 . a distância entre o indivíduo e as instituições coletivas. como sugere Edward Said a respeito do "conflito de ignorâncias". o fazem de maneiras tão pateticamente irracionais quanto a dos milhões de sonegadores de impostos que. Os defeitos do sistema fazem crer que já não vivemos crises sucessivas. suas contradições e a incapacidade de produzir uma sensação plena de felicidade. ocupados em experimentar suas . quando os comandantes dos exércitos em conflito. N o fim das contas. ou de justificar e compensar a impossibilidade dos desejos. mas que o próprio sistema virou sinónimo de crise. mas em suas distorções.

Os recursos que desenvolvemos. Se é assim. em séculos de estudo do ser humano e da natureza. uma vez que. é aquele indivíduo que age constantemente contra seus próprios interesses de preservação. aquele executivo que sempre tem um problema a apontar. Para entendê-lo. mas pode ser tolerada e até patrocinada por autoridades americanas fora de seu território. e muitas vezes mais poderoso. um indicador de ineficiência para ressaltar. pronto a desfazer assertivas otimistas e demolir com sua racionalidade irretocável os pressupostos humanistas. Está nas ruas. Percebemos . uma palavra de desestímulo para fazer abortar a inovação. no assento ao lado. M a s de pouco adiantam os diagnósticos.novas bombas e armas. perderam a noção dos territórios que disputavam e de seus objetivos iniciais. a percepção da realidade sofre forte influência da narrativa imposta pela mídia. se contra suspeitos de terrorismo. Outra vez. no estágio em que se encontra a sociedade ocidental. mas vive tão junto a nós que não podemos nos dissociar dele. nos dão condições de diagnosticar com muita precisão o mal que faz ao mundo esse modelo mental. C omo aquela segundo a qual a tortura é condenável quando praticada contra dissidentes na China. os atentados de setembro de 2001 revelaram um cenário ainda mais aterrorizante: o inimigo é muito mais íntimo do que imaginávamos no início. o jogo se faz com regras reinventadas a cada dia. as disciplinas que desenvolvemos até aqui talvez não sejam mais eficazes. A julgar pelas disputas comerciais provocadas por medidas protecionistas adotadas nas cidades santas do liberalismo. nas empresas. Não se oculta nas montanhas do Afeganistão ou nos becos de Bagdá.

Esse era o momento crucial das mudanças que.melhor as distorções do que a rotina. explicou de maneira clara sua visão científica do mundo. Quando o matemático e astrônomo Pierre Simon Laplace. Segundo Napoleão. Desde então. mais ferrenha quanto mais evidente se mostra sua incompatibilidade com qualquer visão de futuro. Estudar outros momentos de ruptura na história da humanidade certamente é uma forma de tomarmos consciência da realidade. A resistência das teocracias. no começo do século X I X . tratava-se de u m "geómetra de primeiro nível". mas durou apenas seis semanas no cargo. cinqüenta anos depois. a visão exclusivamente religiosa do universo perde terreno. foi: " E u não preciso dessa hipótese". seriam consolidadas pela teoria da evolução das espécies de Charles D a r w i n . Estes são opostos à necessária diversidade. mas que não tardou a se revelar " u m administrador . científica. tem sua contrapartida em modelos mentais sectários. na rotina. e fizeram girar a roda da modernidade no Ocidente. de Laplace. U m a curiosidade: Laplace chegou a ser nomeado ministro do Interior por Napoleão. e também resistem em núcleos de poder de todos os tipos e em toda espécie de organização. e a democracia representativa vem se expandindo como forma política de organização mais adequada para nossa sociedade. porque os benefícios da sociedade democrática. viraram banalidade e não costumamos nos interessar por bens culturais cujo valor agregado não percebemos. que muitas vezes se apresenta dissimulada pela profusão de informações típica da era em que vivemos. Napoleão lhe perguntou: " E onde entra Deus em sua teoria?" A resposta.

mais do que medíocre: não suscitava nenhuma questão sob seu ponto de vista real. Seu desenlace pode produzir. Nunca saberemos se o sábio estava à frente do seu tempo. armários e demais peças do mobiliário de uma casa. O sistema de controle que as autoridades chinesas herdaram do regime comunista pleno dá sinais de fragilidade desde meados dos anos 90. os relatos sobre as mudanças de expectativa da população diante de fatos tão inusitados quanto a percepção da individualidade dão conta de um processo incontrolável. sob forte controle. Entre 1970 e 1980. o dote passou a ser composto de quatro rodas: bicicleta. tinha apenas idéias problemáticas e possuía o espírito dos 'infinitamente pequenos' na administração". no l i vro que resultou de uma série de viagens à China. N a C hina. o dote eram os 48 pés. procurava sutilezas em tudo. as transformações que movimentam a sociedade chinesa nas últimas décadas: "Entre 1960 e 1970. para uma economia aberta ao comércio global. QUEM GANHA? Outro momento de ruptura se desenrola paralelamente à crise gerada pela transposição dos conflitos existenciais do islamismo para o ambiente das grandes cidades ocidentais. mesas. máquina de costura e relógio. O jornalista brasileiro Carlos Drummond observa. o processo de transformação interna surge em sua trajetória de uma economia fechada. De . ou se simplesmente era incapaz de lidar com problemas burocráticos. publicado em 1994. na economia mundial. um i m pacto maior do que o que foi provocado pelas explosões de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Tratava-se da somatória dos pés das cadeiras.

. o governo chinês ainda tentava impedir as migrações internas para manter as sociedades interioranas sob controle. surge a suspeita de que não se pode ter uma idéia bastante clara de qualquer problema atual sem deixar que o raciocínio vagueie livremente do mais amplo conceito de cultura ao escaninho mais recôndito da mente humana. Dennett dá uma pista de que tipo de conhecimento poderia nos ajudar a encontrar o caminho para u m sistema social. F o i a fase das três máquinas — máquina de lavar.. "essa célula universal do consumo". A compreensão da realidade complexa em que v i vemos já não é possível a partir de uma disciplina específica. N o início do século X X I . pulseira e brincos. obviamente de ouro. como M a r v i n M i n s k y e Daniel Dennett. Das reflexões de filósofos que estudam a sociedade sobremoderna. Ele ." Dr ummond foi à família. Por isso. Seja nos rastros de Freud ou do novo guru da inteligência artificial. econômico e político mais seguro e satisfatório. também é preciso quebrar os lacres dos clubes de conhecimento e derrubar as torres de marfim dos pensadores sociais. colar. geladeira e televisor. Christopher Langton. uma forma de ostentar o progresso material. os aparelhos eletrônicos passaram a fazer parte do patrimônio inicial esperado nos casamentos.1980 a 1990. N o período abastado e inflacionário dos anos 90. o dote foi formado de cinco ouros: anel. e a que potenciais conflitos estará submetido o país nos próximos anos. Portanto. é o caso de se perguntar por quanto tempo será possível conter a força do mercado numa sociedade como a da C hina. e a linguagem capaz de produzir o entendimento também muda constantemente. para retratar as transformações que se passam naquele país.

pesquisadora associada do Museu Nacional de História Natural. entre indivíduos contemporâneos e. mas. Não é totalmente boa nem totalmente condenável. suponho que também é uma perversão da 'fé' científica aplicar o resultado dessa fé à produção de minas terrestres. qui bono o estado do mundo? é a pergunta que pode nos apontar os entraves reais à mudança que explode por baixo dos fatos políticos e econômicos. Ela observa que não apenas a religião. é uma faca de dois gumes. a quem aproveita o atual direcionamento das pesquisas científicas. "Se nós. A pergunta qui bono? — do latim " a quem beneficia?" — é a chave. bombas de fragmentação e outras atrocidades de guerra". da comunidade científica. verticalmente. bombas de napalm. O b serva que a seleção natural das mêmes se dá pela chance de que a mudança produzida venha a beneficiar exatamente as entidades culturais que a originaram. A questão . é uma ferramenta nas mãos de seus usuários. também podem evoluir como genes. ou mêmes. Questionando-se. observa Wertheim. ofereceu ao site edge.comenta a tese do biólogo Richard Dawkins. por exemplo. armas biológicas. podemos mandar uma mensagem neste tempo de crise. segundo a qual entidades culturais. transmitindo-se horizontalmente. mas também a ciência. segundo Dennett. ao contrário. Assim.org após os atentados de setembro de 2001. em N o v a York. pode-se chegar a conclusões semelhantes à que a escritora Margaret Wertheim. entre gerações. "Se os seguidores do ramo fundamentalista do Islã que foi apropriado por Osama bin Laden são a perversão dessa fé. para o entendimento das escolhas que fazemos a cada momento. sugiro que rejeitemos a cooptação de nossa fé científica para a destruição".

seu arrependimento por haver contribuído para a construção da bomba atômica. N o nível das relações internacionais. . sócio da E-Consulting C or p. observa que o uso da força traz medo. Quantas decisões de gestores não acabam produzindo na sociedade o mesmo efeito das bombas de napalm.não é nova. A rigor. M a s hoje a aplicação de uma ciência muito mais avançada a propósitos de destruição é potencialmente muito mais perigosa do que há seis décadas. cabe refletir sobre o argumento do consultor Celso Boin Jr. a respeito de u m Plano Marshall do século X X I como instrumento para romper o isolamento de sociedades. a longo prazo. medo traz insegurança. no final da vida. como aqueles que emprestam suas idéias e sua capacidade de trabalho para fazer o sucesso de organizações de negócios. que leva ao florescimento das culturas fundamentalistas. que se abate sobre grandes parcelas da humanidade e sobre o ambiente físico do planeta. minas terrestres e armas biológicas condenadas por Margaret Wertheim? Certamente. u m pouco de consciência nos processos de negociação e nas tomadas de decisão dos gestores ajudaria em muito a romper o círculo vicioso da violência econômica. Albert Einstein não escondia. o efeito do fundamentalismo de mercado tem sido. Boin Jr.. o programa de investimentos americanos voltados para a criação de renda e empregos na Europa Ocidental permitiu a rápida recuperação dos países devastados pelo conflito. após a Segunda Guerra M u n d i a l . muitas vezes mais desastroso do que as incursões de pastores de cabras em ações terroristas eventuais. U m posicionamento semelhante poderia ser adotado por profissionais de outras áreas do conhecimento humano. Lembrando que.

que não se revela suficiente para garantir a segurança dos cidadãos. lembra que. para os moradores de cidades como São Paulo. diz o consultor. . junto com os recursos para a geração de renda nos locais conhecidos como focos de pobreza.e insegurança é o cenário ideal para o descrédito das instituições e a explosão das idéias fundamentalistas. Cidade do México ou Bombaim. garante ele. Esse potencial destrutivo surge nas regiões com grandes diferenças na distribuição de renda sob a forma da violência social. O que ele chama de um "Plano Marshall para o século X X I " seria um ambicioso projeto de inclusão global. a insegurança de suas vidas e de seus patrimônios equivale ao estado de espírito produzido nas cidades americanas ou européias. M a s . segundo Celso Boin Jr. que foram colocadas na mira dos terroristas de Osama bin Laden. Os custos. onde brotam as ideologias da destruição. parecerão menores se considerado o gasto atual com a estrutura militar ou policial. baseado na oferta irrestrita de informação. e seus colegas. Outros analistas têm feito referência à necessidade de uma nova ordem que leve em consideração muito mais do que as leis de mercado e o repetitivo discurso do modelo cuja vulnerabilidade ficou clara na manhã de 11 de setembro de 2001.. dedicaram suas vidas à luta por uma política externa norteamericana que tenha a ação contra a miséria como medida preventiva para a violência. pois eles não teriam para quem vender". "não basta financiar a produção de televisores no Marrocos ou de soja no Quênia. O professor de Harvard e diretor do HIID (sigla em Inglês para o Instituto para o Desenvolvimento Internacional da Universidade Harvard) Jeffrey Sachs.

tem sofrido restrições por parte de muitos analistas. que o acréscimo de alguns décimos de 1 % do PIB dos países ricos durante as próximas décadas poderia tornar realidade o que nunca foi possível na história humana: garantir o atendimento das necessidades básicas de saúde e educação a todas as crianças pobres do m u n d o " . e como adjunto do governo russo na transição para o capitalismo. pôde observar uma trágica ironia no estado do mundo: " O s países ricos são tão ricos. cuja atuação polêmica como consultor para o governo da Bolívia — num período de hiperinflação —. A i n d a soa como uma impossibilidade? M a s a busca por u m sistema novo repete o círculo de ilusões que levou ao fracasso. diz o professor.Sachs lembra. de que o Plano Marshall custou aos Estados Unidos mais do que 2 % do Produto Interno Bruto durante muitos anos. C o m a queda do M u r o de Berlim e a conseqüente redução do risco soviético. segundo Sachs — seu orçamento para políticas de ajuda humanitária. os sucessivos governos americanos reduziram a praticamente nada — "nem mesmo um décimo de 1% do P I B " . Jeffrey Sachs. De tal posto. como presidente da comissão de macroeconomia e saúde da Organização M u n d i a l de Saúde ( O M S ) . saneamento e outras necessidades vitais nos países pobres. em artigo no jornal Washington Post. referências que vinha fazendo em conferências. antes mesmo dos atentados. a longo prazo. onde vicejam as sementes do terrorismo e da violência social. educação básica. M a s ele tem a seu favor também sua experiência num posto de observação privilegiado. e os pobres tão pobres. C o m dois décimos de 1% do PIB americano. todas as ten- . seria possível destinar 10 bilhões de dólares ao controle de doenças.

para fazê-lo reagir e alterar sua natureza perversa. na qual a grande maioria das pessoas — aqui incluídas aquelas que por reconhecimento ou por ter acesso à mídia adequada — se contenta com idéias e opiniões de segunda mão. revela-se crucial para os gestores de todos os níveis e em todos os graus de responsabilidade. Vivemos numa sociedade de cultura massificadora. Pois os modelos mentais que definem as escolhas nesse m i crocosmo são semelhantes aos que influenciam as decisões macroeconômicas. Alguns especialistas. sobre o significado de suas descobertas. convidados a escrever sobre os eventos de 11 de setembro para mais de uma publicação. Assim como não se pode aceitar como justificativa a frase "eu não sabia". é preciso atuar nos pontos acupunturais do sistema. o que. A questão que Margaret Wertheim coloca para os cientistas. em termos de conhecimento. Acreditavam. não é mais possível fingir uma desvinculação entre os atos de gestão no ambiente restrito de uma empresa e o estado do mundo. por mais celebrizadas que . Como ilustra a economista Hazel Henderson.tativas de transformação coletiva sem a essencial revolução dos indivíduos. provavelmente. produziram opiniões diferentes e até relativamente contrastantes entre si. gestora de um dos maiores fundos éticos do mundo. que isso era uma demonstração de lealdade aos editores que os haviam convidado. guiando-se pelo perfil dos leitores de cada uma das publicações. equivale à máxima popular segundo a qual é preciso "agradar o cliente". LEALDADE O conhecimento que irá reinventar o sistema no qual v i vemos não virá de pessoas assim.

fator crucial para o sucesso. pela ampla oferta de alternativas. . exige afirmação de valores. Os novos paradigmas da sociedade virão de pensadores que não aceitam o jugo da hipermediação e seu cenário de ilusões. Realizou uma ampla pesquisa junto a empresas de perfis tão diferentes quanto a rede varejista H o m e Depot e a Dell Computadores. Mesmo na economia digital — da qual se diz que. diretor emérito da Bain &c Company e colaborador assíduo de publicações como The Wall Street journal e Harvard Business Review. nas quais é essencial a agilidade para encontrar os parceiros certos. impõe o abandono da lealdade em favor da versatilidade — . os fatos que sacudiram o mundo já pareciam. se deu ao trabalho de conferir essa crença recente do mercado. Vistos da distância de apenas pouco mais de três meses. funcionários. é a capacidade de criar vínculos sólidos de lealdade. que garante a permanência do sucesso. mas principalmente para as empresas que estão no jogo do mercado. A lealdade. Frederick Reichheld. clientes e parceiros. Sua conclusão: no ambiente de negócios que floresce a partir de redes de relacionamentos. para além dos relacionamentos de negócio. por meio da lealdade. naquela ocasião. O trabalho de Reichheld remete a u m dos princípios formadores das modernas relações de negócio: a confiança. não apenas de consultores que precisam publicar artigos para não cair no esquecimento.sejam pela mídia e por mais leais que se mostrem ao sistema. uma das condições fundamentais de sobrevivência é a credibilidade e o que ela produz: a capacidade de reter. a Cisco Systems e The N e w York Times Company. a Harley-Davidson e a Intuit Softwares. bem ao gosto do pensamento sobremoderno — a de que a lealdade estaria em extinção.

Cem dias após os atentados nos Estados Unidos. gerada pelo inimigo interno mais predador: o destruidor da confiança. onde a Argentina se convulsionava para pagar a conta de décadas de governantes demagogos e corruptos. D o outro. cortaram empregos e engavetaram oportunidades. De um lado. aqueles que continuaram tocando a vida. Os analistas. debatendo-se ainda contra o fantasma de Juan Domingo Perón. como no Vietnã. ávidos por uma recompensa de US$ 25 milhões. conscientes de que sua estratégia não deveria ser desviada do rumo por causa da ação de meia dúzia de fanáticos. o líder terrorista Osama bin Mohamed bin Laden havia desaparecido. o conflito entrou em fase endêmica e o mercado colocou a questão numa gaveta. escreviam exatamente o contrário e ninguém se dava conta. Os olhos e ouvidos dos investidores e estrategistas em geral se voltavam para o Cone Sul. M a s uma nova crise nascia no coração do sistema. os cerca de 4 0 % que paralisaram os negócios. O fogo no subsolo das ruínas do World Trade Center era declarado extinto e os indicadores econômicos apontavam para uma retomada da normalidade. Ocorreu a invasão do Iraque e a destituição de Saddam Hussein. os formadores de opinião e o leitor comum houvessem perdido a consciência. superdimensionaram perdas de curto prazo. . o Taleban não existia mais como grupo político ou militar no cenário do Afeganistão.ter demarcado uma linha divisória no universo dos gestores — e da população em geral. C omo se a mídia. que haviam soprado a brasa do catastrofismo ao prever que as tropas americanas iriam "atolar" nas areias de Kandahar. após ser caçado até mesmo por seus antigos companheiros.

A partir daí se constrói a confiança. as ações coletivas na direção do bem comum são desestimuladas e uma parcela crescente dos indivíduos passa a agir no sentido contrário aos seus próprios interesses de preservação. que parece faltar no contexto cultural que define as ações políticas e econômicas desta transição: consciência. Está na raiz dos problemas econômicos atuais. que constitui o fundamento de u m sistema econômico moralmente mais aceitável. a constatação de que a principal qualidade de u m líder é a integridade. nos Princípios de L i derança Scanlon. criados por Joseph Scanlon. A qualidade que protege é exatamente essa. sem qualquer dúvida. perde-se progressivamente a identidade comum às comunidades humanas. podemos adivinhar que a resposta às inquietações de David Tayne e seus parceiros do R ocky M o u n t a i n Institute é o sistema que deveríamos chamar de capitalismo consciente. e essa identidade só se torna explícita se essa comunidade desenvolver a consciência de si mesma. seja uma família. uma empresa ou uma nação. Perdem a consciência de seu papel social e até mesmo do sentido de sua existência.Está presente desde os anos 1940. Sem integridade. Isso quer dizer que a identidade de uma empresa depende do auto-conhecimento de seus integrantes. é essa consciência claramente descrita . num caminho que tem como pontos principais a definição de identidade do grupo liderado. A qualidade que pode proteger a sociedade. a evidente falta de integridade de muitos líderes — entre os quais já se colocou sob suspeita o líder da nação mais poderosa do planeta. no Massachusetts Institute of Technology. A partir dessa mesma evidência.

como você. Ela se desenvolve nos corações e mentes dos indivíduos encarregados de construir a riqueza e o desenvolvimento. Só você pode fazer isso. contam com o que há de melhor em recursos de auto-desenvolvimento. límpida e absolutamente racional. A era do conhecimento. é também a era da responsabilidade pessoal pelo bem-estar coletivo. estão qualificadas a liderar a mudança que se apresenta como escandalosamente necessária. nasce em cada indivíduo. ou nas mentes espertas de autores das obviedades que lotam as livrarias de aeroportos. viajam. preciso que em cada posto de trabalho. E m suas mãos está depositada a responsabilidade de administrar negócios que. . têm a oportunidade de estudar e. Grandes sistemas não são capazes de produzir essa transformação. menos vulnerável e plenamente respeitoso para com a natureza humana. conhecem a d i versidade do mundo. em cada mente. que se sobrepõe à celebrizada era da informação. Pessoas que.por Margaret Wertheim: simples. Ela não começa com gurus isolados no alto do Himalaia. principalmente se faltam aos líderes formais integridade e consciência. portanto. Os indivíduos educados para liderar pessoas e processos precisam fazer uma escolha diferente para suas vidas. ao favorecer a sustentabilidade de uma comunidade. se desenvolva a consciência de que um sistema mais justo. M a s um sistema como tal não pode ser construído a partir de grandes movimentos ou de revoluções coletivas. Essa conquista só pode ser obtida a partir da ruptura pessoal com antigas premissas e com a irracionalidade imposta por décadas de um racionalismo perverso. Ela se dá em cada célula do sistema.

PENSE N O QUE VOCÊ SENTIU DURANTE os MESES DE SETEMBRO OUTUBRO DE 2 0 0 1 . Q U A L ERA O SEU NÍVEL DE CONSCIÊNCIA SOBRE A CHAMADA " N O V A ECONOMIA" ? . Só a revolução do indivíduo produz esse resultado coletivo. Nada justifica a mediocridade geral que predomina nos ambientes corporativos. LEMBRE-SE DA EUFORIA C O M AS EMPRESAS PONTO C O M E M 1 9 9 9 . A responsabilidade social dos gestores começa pela missão de desenvolver sua própria consciência. Para refletir: 1.contribuam para o desenvolvimento da sociedade em geral. V O C Ê SE SENTE BENEFICIADO PELO RESULTADO SOCIAL DE UMA EMPRESA N A QUAL INVESTIU? 2. N a d a justifica a omissão dos gestores diante do quadro de violência e desigualdades sociais. LOGO APÓS OS ATENTADOS E M N O V A Y O R K WASHI NGTON: SEUS SENTIMENTOS ESTAVAM ALINHADOS C O M A REALIDADE REVELADA A LONGO PRAZO? 3.

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a poucas quadras da Universidade da Califórnia. mais próximo ele estará de uma derrota .XVIII—As capacitações evolutivas A idéia de que os modelos de educação de executivos se encontram esgotados me ocorreu em uma conversa com o físico F r i tjof Capra em seu restaurante predileto de Berkeley. Foi Capra quem me inspirou a idéia de que o mal-estar na globalização nasce de uma contradição entre processos tradicionais de educação e a exigência de uma capacitação que honre a natureza evolutiva do ser humano. quanto mais capacitado estiver o gestor para a competição num jogo desonesto. O paradoxo representado pela evidência de que.

Porém. obra dos filósofos George Lakoff e M a r k Johnson. seminários e "vivências" para gestores. comentou Capra. ficou claro para mim durante aquela conversa. para mover os profissionais de seus ambientes emocionalmente assépticos ou viciados. a pedagogia da empresa ainda se apoia em metas de produtividade e declarações de valores e missão. Estávamos no intervalo de um seminário sobre o Brasil. as oportunidades de aprendizado eram preenchidas por educadores com grande talento teatral. no qual pesquisadores. conferi com ele alguns aspectos do que deveria ser a inteligência básica de um processo de educação em profundidade. Desprezam a d i nâmica de todas as relações entre os seres vivos e o ambiente". estudiosos e líderes sindicais e políticos — entre os quais a então primeira-dama Ruth Cardoso — conduziam um debate que não podiam manter em seu próprio país. mesclando técnicas de psicologia e conteúdos de auto-ajuda. e com as possibilidades de uma revolução na educação. a partir da constatação de que temos um modo natural de aprender com base nas metáforas essenciais da vida. D o nível das bases até as gerências intermediárias. U m processo que de fato encorajasse o ser humano a assumir seu "ponto de mutação" e se integrar como agente evolutivo na "teia da v i d a " . Estas inspiram cursos e . " M e s mo os mais avançados educadores ainda trabalham com o modelo da acumulação de conhecimento. A l i mesmo. Observamos que programas de "capacitações permanentes" ou "capacitações plenas" eram a moda na maioria das instituições consideradas de vanguarda. alinhando o que havia visto em dez anos de cursos.definitiva. Capra estava entusiasmado com Philosophy in the flesh.

o D N A da empresa é preservado no chão de fábrica. enquanto os gestores da cúpula se aventuram em modismos. Muitas vezes. O propósito fundamental é produzir. Você sabe que nem sempre isso é verdade. tudo segue u m mesmo padrão.atividades com objetivos específicos e pontuais. o padrão das redes interconectadas. embora possa utilizar as mesmas metodologias de programas tradicionais. estamos muito próximos de uma samambaia ou de uma ostra. que se acredita estejam presentes nos cargos de direção. um estado de espírito voltado para a busca permanente de níveis mais elevados de consciência. O que progressivamente nos distancia das formas de vida mais primitivas é o sentido evolutivo que damos ao uso da informação. INFORMAÇÃO VIDA Vale lembrar que a principal distinção entre o ser humano e as outras formas de vida conhecidas é o modo como lidamos com informação. U m programa de capacitações evolutivas precisa ter um propósito bem diferente do que temos visto. Segundo Capra. Se apenas usamos o que sabemos para alimentar nosso organismo. em que conhecimento significa evolu- . quase sempre destinados a transmitir para o organismo da empresa os traços de " D N A " . não se pode ignorar que. em toda a organização. em busca da compreensão do papel de cada u m nessa rede da vida. Se usarmos a informação para produzir conhecimento — no sentido mais nobre. tanto no nível celular como nos fenômenos cósmicos e nas relações humanas de todos os tipos — incluídas as relações corporativas e de negócios — .

que consiste em um método universal para o processamento de informação. Não construímos sociedades tão sofisticadas e funcionais como as de algumas outras espécies. com o conhecimento. o de personificar a própria dinâmica evolutiva do universo. Em algum ponto ao longo da sua existência neste planeta. dessa i m possibilidade para a consolidação e a cristalização. rainha ou operário — até o fim da existência. Desde que manejamos informação para criar constantemente conhecimento e produzir consciência. Isso talvez aconteça porque nosso papel no universo não seja exatamente consolidar um modelo de vida. A o lado dos códigos específicos que se estabeleceram nos diversos grupos humanos. U m programa de capacitações evolutivas deve levar em conta essa característica do ser humano. estamos condenados à angústia permanente do não-conformismo. honraremos o verdadeiro sentido da evolução no que se refere à humanidade. O u seja. mas. no qual todos os indivíduos possam cumprir estaticamente um papel — de soldado. resultante da expressão de emoções comuns a todos os indivíduos. na medida em . processar. Ela se torna progressivamente mais evidente na medida em que se sofisticam os novos sistemas de informação. desenvolveu-se uma linguagem natural. pelo contrário. conforme o ambiente em que se localizaram. transformar informação em conhecimento e.ção da consciência —. Desde então. sua consciência de si mesmo e do universo. o processo de evolução do homem tem se caracterizado pelo desenvolvimento de modos cada vez mais sofisticados para registrar. métodos e processos sofisticados para a comunicação verbal. os seres humanos desenvolveram os sistemas físicos. ampliar sua percepção.

que evoluísse a partir das exigências evolutivas dos programas que contém.que a própria ciência — conhecimento — nos convence a abandonar as premissas do mundo mecânico e a assumir linguagens. e celebrizados por Buda. cientificamente provável. autoriza outra aposta intuitiva em outras formas de conhecimento. Calcula-se que um cérebro humano contém cerca de 10 bilhões de neurônios. A rápida aceleração das conquistas científicas tem muitas vezes cegado os pesquisadores para o reconhecimento de que suposições feitas há milênios eram verdadeiras. C o m o u m computador. pode evoluir para . conceitos e atitudes compatíveis com essa nova consciência de mundo. cada u m deles capaz de processar i n cessantemente uma média entre dez e quinze bits de informação por segundo. como um pandeiro. a capacidade de um indivíduo para calcular o tempo de execução de uma música simples num instrumento primitivo. na medida em que aumentam o número e o grau de sofisticação das informações processadas. por exemplo. que foram confirmados modernamente pela física quântica. Assim. Sabe-se também que a capacidade de processamento e correlações entre os neurônios se amplia continuamente durante a vida ativa. A própria ciência. produzida pela sofisticação dos sistemas e processos de informação. C omo os conceitos de fluxo (energia) intuídos por indianos e chineses. cujas probabilidades de comprovação ainda não estão no campo de visão do cientista. indica que o conhecimento capaz de fazer evoluir a consciência humana pode brotar até mesmo da não-ciência. Pois uma aposta intuitiva no conhecimento futuro. na medida em que se alimenta de equações.

é capaz de conduzir a um sistema econômico e social que faça justiça à humanidade como espécie que respeite a diversidade biológica e cultural do planeta. sim. A o mesmo tempo. como a culinária. a negociação. emocionais e contábeis. essa premissa fundamental implica a disposição para navegar na contra-mão dos grandes sistemas por meio dos quais nos informamos. artes em geral. as empresas e a sociedade em geral embarcaram na maratona da evolução meramente física: das metas cada vez mais desafiadoras. o relacionamento interpessoal. que levam indivíduos e organizações à dependência de anabolizantes químicos. pela transposição para essas áreas de um conhecimento evolutivo a respeito de ritmo. e que seja efetivamente um modelo sustentável e menos vulnerável a crises. também as empresas acabam sendo conduzidas à perda de seu perfil. no jogo da evolução. a capacidade de fazer escolhas etc. ou matemática intuitiva. Trata-se de assumir como verdadeiro que. dos desempenhos improváveis. A mídia. a liderança.capacidades muito mais complexas. N o entanto. Assim como a escolha da superação física como meta de evolução pode levar os indivíduos à deformação e à alienação mental. as escolas. o esporte. esse mesmo indivíduo pode estender suas habilidades a outros campos. à degeneração de sua cultura e à alienação estraté- . como a de conduzir toda uma orquestra formada por instrumentos de variados graus de sofisticação. Esta. O conceito de capacitações evolutivas leva essas premissas em consideração. o papel do ser humano se distancia da evolução física comum às demais espécies — que conduz no máximo aos recordes olímpicos e à popularização dos esportes "radicais" — e se aproxima da evolução de consciência.

O tão celebrado balanced scorecard deve basear-se num conceito de desempenho sustentável. para o desenvolvimento de uma instituição de negócio voltada para a melhoria contínua da consciência humana. que permeiam toda atividade humana. os ciclos vitais encontrados na natureza. A partir daí. uma estratégia de gestão consciente deveria levar em conta certos movimentos cíclicos que afetam a própria energia da organização. quando limitam o alcance e a compreensão de seu valor pela medição de sua produtividade. E m seu retiro no sul da ilha de Santa Catarina. e podem transferir esses propósitos para toda a organização. ela os conduz à compreensão de como funcionam os seres humanos e suas associações. de resto. por exemplo. essas pessoas podem escolher propósitos de vida mais gratificantes do que. A educadora brasileira Márcia Lerinna. usa uma receita muito simples. ampliar seu patrimônio pessoal. capacitação tecnológica ou desempenho financeiro. Por exemplo: se reconhecesse como sendo da natureza do capitalismo (como. potencializam ou restringem o seu desempenho. que aceitam fa- . C o m base nesse auto-conhecimento. nascido de uma visão profunda do empreendimento. O ponto de partida é a compreensão das metáforas fundamentais da existência. ela recebe indivíduos dotados de vasto poder pessoal. sob os pontos de vista de variadas culturas e disciplinas. da própria biologia e da cosmologia até onde a conhecemos) que o progresso se faz em estágios contínuos de expansão e retração. que se dedica a assistir empresários e gestores na busca de melhores condições de vida. C o m o a junção dos vários tipos de capital. ex-executiva de uma multinacional do tabaco.gica. posicionamento no mercado. Ensina seus clientes a observar.

e substitui a idéia de exploração crescente das capacidades de produção pela idéia de desenvolvimento exponencial da qualidade de vida e sofisticação da percepção de valor. e o cidadão racional fica inquieto e angustiado por não ser capaz de compreender o que se passa. Alguma coisa radicalmente nova está ocorrendo. ou valor. Isso ocorre tanto na cosmologia como na microbiologia. dá início à era que alguns cientistas estão chamando de " a singularidade". que conduzem a premissas surpreendentes sobre quem somos e o que significa nossa presença neste planeta. Nas ciências. de causar prazer consciente. Essa consciência de rede interconectada e interdependente se consolida no ritmo em que o conhecimento científico avança. A crescente fusão da mente humana com a inteligência da máquina (já aqui erradamente denominada máquina). O prazer proporcionado a um i n divíduo não pode ser gerado pelo aumento da angústia de outro. singular — o ser humano evolui no sentido da consciência cósmica. novas maneiras de pensar sobre o pensamento. A busca de uma capacitação evolutiva remete a esse novo conhecimento: ninguém pode ensinar você a dar partida a .lar de seus sonhos. na neurologia como na eletrônica. do I-Ching ou de mapas astrológicos. mesmo desconhecido. que não recusam informações sacadas de cartas de taro. e aponta para um ponto comum. avanços em todos os campos do conhecimento e a criação de campos inéditos para a pesquisa. inclusive o cérebro humano. Uma nova noção de progresso toma corpo. desenvolvemse novos meios de entender os sistemas físicos. mas é correlato ao potencial desse produto. Tal desenvolvimento não é apenas vinculado a um produto ou serviço em si.

leva à paralisia uma corporação de bilhões de dólares. torna-se tangível com a crise provocada pela quebra de confiança do mercado. sempre tratada com artificialidade e com certo tom de subjetividade. evento ou objeto pode ajudá-lo a dar saltos significativos nessa capacitação. A percepção do efeito dessas atitudes antiéticas sobre os negócios ficou patente no final de julho de 2002. nas circunstâncias de alta competição em que estão imersos muitos setores. pela incapacidade de seus gestores de tomar partido entre interesses divergentes de dois acionistas — . A prisão do fundador da Adelphi Communications.esse processo. Por outro lado. A aceitação dessa singularidade permite entender o que parece incompreensível na aparente complexidade das relações do nosso tempo. de seus filhos Michael Rigas e Timothy Rigas. mais o . em função da revelação de fraudes contábeis num grande número de corporações transnacionais. quando a imprensa de todo o mundo noticiou as primeiras prisões de executivos importantes. ao faltar. podem determinar perdas irreparáveis e o fim de um empreendimento. é determinante na qualidade da comunicação entre executivos que partilham a mesma mesa de reuniões por décadas. Sentimentos banais como ciúme e inveja podem conduzir à perda de oportunidades e. A questão da ética. capaz de gerar u m contexto de evolução consciente para toda informação que chegar ao seu conhecimento. M a s o ponto inicial depende de você exercer aquilo que é a maior prerrogativa do ser humano como espécie. A mesma e singular questão da confiança — que. John R i gas. qualquer pessoa. aquilo que o diferencia das' outras formas de vida — o livrearbítrio.

ainda é comumente restrita aos departamentos de comunicação e marketing. M a s os movimentos institucionais têm pouco valor no longo prazo sem a consciência dos indivíduos. enquanto o agravamento da situação econômica alimenta a intolerância e a violência. subiu 6. que agrega as trinta empresas com maior peso na N Y S E . o que até então havia significado grandes ganhos para poucos conduzia rapidamente a uma situação de perdas totais para todos. a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos tornava públicos os estudos para a criação de um "Plano M a r s h a l l " para o Oriente Médio. O índice D o w Jones. Mesmo para o gestor honesto e coberto dé boas intenções. ocorrida no dia 24 de julho de 2002. e o exdiretor de comunicações internas.34%. a Bolsa de N o v a York (NYSE) apresentou sua maior valorização em um só dia em quase quinze anos. Como conseqüência direta. a ação empresarial socialmente responsável exige um nível de consciência mais eleva- . N a verdade. A questão da responsabilidade social. a realidade das ações no ambiente das corporações continua a ser o retrato do baixo nível de consciência. por exemplo. O sistema parecia sacudir-se de sua letargia e preparar uma mudança real de paradigmas. como se fosse apenas mais um instrumento para a melhoria da imagem pública da empresa.ex-vice-presidente da área financeira. James Brown. como tentativa de romper o ciclo vicioso no qual a escalada da violência impede o desenvolvimento. Michael Mulcahey. Era claro para muitos analistas que. se tornou um marco do primeiro movimento no sentido de repor a confiança no mercado. N o mesmo dia. naquele rumo. sob acusação de fraude contábil.

ouvir o convite para uma festa na qual seriam ofertadas bebidas e "meninas". cortou de sua lista de fornecedores o promotor da "festa". ao ajudá-los a contratar prostitutas para visitá-los no hotel. que reunia empresas de comunicação e fornecedores de tecnologia. em conversas particulares com alguns dos muitos executivos que pude entrevistar nos últimos anos. M a s poucos se dão conta do papel que representam ao ciceronear clientes em visitas a boates ou. Muitos executivos envolvidos com exportação se queixam de que a imagem de alguns países. por alguma razão a maioria se sente constrangida. Infelizmente. respeito à diversidade e tolerância.do do que os valores pessoais que os gestores expressam no dia-a-dia. N u m congresso recente. poucas horas depois. pude no mesmo dia conduzir um debate sobre os males que o turismo sexual provoca nos negócios do Brasil e. compaixão. em São Paulo. como já pude observar. de ser uma terra de mulheres fáceis e homens irresponsáveis. como o Brasil. obtive deles expressões sinceras de amor ao próximo. como se todos fossem obrigados a partilhar esse hábito de alto risco e nenhuma ética para os negócios. preconceitos irracionais e sentimentos mesquinhos. . Outra vez a questão se coloca: Por que a maioria dos gestores costuma agir contra sua consciência? E m mais de uma ocasião. dificulta o seu trabalho. E m número igual de ocasiões. N o mesmo instante. N u m a dessas ocasiões. tive oportunidade de observar os mesmos indivíduos a expressar rancor e ódio. u m gestor de uma das maiores empresas participantes foi ridicularizado por se haver negado a participar de uma dessas "celebrações".

N o primeiro semestre de 2000. inevitável que o mercado global passe a observar comportamentos de alto risco como esse. alguns analistas apelidaram de Dow Jones Screwing Index — cresce rapidamente o número de fundos que listam companhias consideradas " d o bem". nas análises de valor das companhias. um empresário brasileiro era processado na Justiça americana pelo escritório Criminal Justice Associates.Sem bordejar os aspectos morais desse comportamento. pela mesma razão. Mesmo com algumas polêmicas em torno de índices como o Financial Times Stock Exchange For Good (FTSE4Good) — apelidado na City londrina de FTSE4Bad. M a s . por supostamente haver provocado a contaminação de pessoas com o vírus da AIDS em festas patrocinadas por ele. sem mesmo conduzir a questão de volta ao problema do baixo nível de consciência predominante em alguns ambientes corporativos. pelo estrago que faz às empresas sua exclusão da lista. consolida-se no mercado a convicção de que as corporações com boa imagem institucional tendem a durar mais e a apresentar mais estabilidade. com certeza. reflete uma tomada de consciência global a respeito de questões . convém refletir sobre o alto risco que tais hábitos representam para as empresas. Você ou sua empresa alguma vez já incluíram essa questão em suas análises de risco? Você já viu essa questão colocada em algum seminário sobre gerenciamento de crise? Agora imagine o tamanho da crise que esse empresário e seu grupo foram obrigados a encarar por conta de suas "festinhas". e o Dow Jones Sustainability Index (DJSI) — que. A tendência é claramente uma contrapartida da redução da presença do Estado na economia.

mais produtivos e mais comprometidos com os resultados da companhia. o novo executivo enfrenta mais um desafio: construir e gerir. não se deixam abater facilmente pelas angústias e frustrações do dia-a-dia e absorvem muito rapidamente Circulante. Porém. Reconhecem as dificuldades naturais da vida. também se torna um fator de sobrevivência profissional para o gestor. o seu ativo social". com a mesma eficiência das suas demais atividades. é fato comprovado em grande número de pesquisas que os funcionários engajados em ações de responsabilidade social são. M u i t o além disso. porque desenvolvem uma visão de mundo mais clara. M a s . acima de tudo. observa que a próxima geração de executivos terá de estar capacitada para lidar com todos os atores sociais envolvidos no negócio. afirma a economista no boletim Meio Brasileira. o desafio. qüe já é definitivo para a empresa como instituição. pela necessidade e conveniência de inserir na cultura corporativa os valores propostos externamente pela organização.relativas à deterioração do meio ambiente e do ambiente social. "Familiarizado com conceitos até recentemente restritos ao mundo das entidades do chamado terceiro setor e das rodinhas dos cientistas sociais. está o verdadeiro significado de um programa pessoal ou corporativo de capacitações evolutivas: pessoas com elevado nível de consciência também usam melhor suas inteligências. publicação da organização Amigos da Terra — Amazônia . do Instituto de Economia da Universidade Federal do R i o de Janeiro. A professora Valéria da Vinha. Internalizar a noção de responsabilidade social tem sido a palavra de ordem em muitas empresas. porém. em geral.

são também o termômetro de que alguma coisa não vai bem. diretor do Centro de Extensão Universitária de São Paulo e especialista em ética da comunicação. por isso mesmo. e rompam velhas premissas da educação pelo aprendizado linear. sem no entanto desprezar o poder . em determinados ambientes.as mudanças. mantêm sempre elevado o nível de otimismo e confiança. também atuam como âncoras dos valores da empresa. Considera ilimitadas as fontes de conhecimento e delineia claramente o que é fato científico comprovado. Segundo o professor e articulista Carlos Alberto D i Franco. portadores de senso crítico mais atilado e estão permanentemente alertas contra desvios de valor. porque seus dirigentes não suportam o senso crítico". A o mesmo tempo em que funcionam como radares de novas oportunidades. Sua metodologia leva em conta os novos paradigmas da transdisciplinaridade. funcionários com elevado nível de consciência são um suporte inestimável no atual cenário de transformações radicais e descontinuidades de todos os tipos. " a gente sabe que uma empresa está com problemas graves quando começa a perder seus colaboradores mais conscientes. são candidatos naturais à liderança e. Por esse motivo. U m programa de capacitações evolutivas deve se basear em princípios que honrem a natureza humana e a fonte inesgotável dos recursos da mente. Gostam da inovação. são os estimuladores de modelos mentais ampliadores em todo o ambiente de trabalho e nas relações externas da empresa. Por outro lado. segundo os quais o aprendizado se dá simultaneamente por todos os tipos de inteligência e todas as fontes. Pessoas assim tornam-se em pouco tempo agentes de transformação. M a s também são.

como Albert Einstein. ao definir aquilo que está mais próximo de sua verdade — é aquela que produzirá a realidade mais condizente com a verdade que está na raiz daquela dificuldade inicial. A solução mais simples — no sentido que tem a palavra. você tiver a sensação de haver " p e r d i d o " parte do fluxo do conhecimento. . o intelecto é apenas uma ferramenta de consolidação. tradições e artes. Se. tudo se fará claro. A realidade que se seguir será criada por uma escolha entre todas essas possibilidades. A não-ação. E m geral. como instrumentos de significação utilizados pelo ser humano. Pressupostos como ética e respeito à diversidade são a essência desse aprendizado. a dificuldade é sempre a oportunidade para o exercício do livre-arbítrio. ou confiança plena no fluxo do conhecimento. Luminares do conhecimento humano. têm revelado que esse é o seu método de criar conhecimento. é a atitude recomendada. A humildade é o caminho da receptividade e do melhor resultado. aplicada nas etapas em que se torna necessário ou conveniente verbalizar ou representar o aprendizado. Nesse processo.de aprendizado contido nos mitos. A dificuldade é como o ponto de partida: só existe porque existem múltiplas possibilidades. e a busca dos significados mais profundos é o objetivo em cada etapa. Portanto. A razão. mas ela só deve ser externalizada depois de feita subjetivamente. Existe o momento certo para fazer a pergunta. uma oportunidade para a criação da melhor realidade possível. a emoção e a espiritualidade são ambientes igualmente valiosos nesse processo. a resposta brota de modo espontâneo. apenas confie: no momento seguinte. no meio de uma atividade de aprendizagem.

a consciência é "uma enorme mala que contém tal- . Contrariamente ao processo de capacitação convencional. em que progressivamente apagamos os temores e desejos. C omo no exercício da meditação. pois esses momentos nos dão a percepção do processo evolutivo da consciência. do terreno sempre pronto para ser semeado. C o m plena confiança em que é da natureza humana a evolução da consciência. que se inicia com a aceitação do caos como parte do processo de criação de significado. Segundo o cientista da computação e matemático M a r v i n Minsky. a capacitação evolutiva leva em conta que a consciência da realidade não depende de raciocínios perceptíveis e mensuráveis. também registrar seus significados de alguma forma e vivenciar intensamente o prazer que proporcionam. exatamente como a quebra de um recorde pessoal dá ao atleta a percepção de ganho no seu processo evolutivo corporal.O processo de capacitações evolutivas pressupõe também o reconhecimento de que a criação do conhecimento é sempre um movimento intermitente entre o caos (quando determinada realidade não oferece um sentido aparente) e a ordem (quando o sentido se torna claro para nós). a atitude correta do aprendiz é a da mente aberta. pois é preciso tirar de cena os sentimentos mesquinhos que dificultam a expressão do que há de melhor em você. Não se pode desenvolver esse processo sem a atitude correta do aprendiz. no processo de capacitação evolutiva é preciso atentar para os momentos de percepção ou insights. A simplicidade e a independência precisam conviver com a disciplina. que exige a significação lógica de tudo que se apreende como condição para o que se considera aprendizado.

que estão envolvidos numa gigantesca rede de intrincadas interações". . suas respostas precisaram sempre ser rápidas. A intuição se desenvolve como uma espécie de guia para as escolhas que faremos nesse processo. cada um deles exercendo uma variedade de funções. com todas as angústias. Sentir-se mal por estar bem. N a vida privada ou na vida corporativa. cujas possibilidades evolutivas são infinitas. no fundo. já estaríamos extintos. temos que continuar a honrar a consciência e sua linguagem — a intuição — . Se o ser humano esperasse para analisar cada evento em que sua intuição lhe dissesse para ir em determinada direção ou para se esconder. e viver a verdadeira natureza humana. ao processo de capacitações evolutivas. conscientemente. Lembre-se: podemos escolher entre viver a circunstância humana. conflitos. A o longo da história da evolução humana. e confiar nelas para seguir aprendendo e evoluindo. Enquanto não entendermos completa e profundamente o funcionamento do cérebro e da mente humana. Nosso cérebro funciona por processos que envolvem as atividades de muitas dezenas de milhares de genes e contém muitos milhares de diferentes sub-órgãos. para que surja em nós u m senso interior de verdade que se consolida como intuição. num sistema que claramente produz o mal para a maioria é. Basta dar início. limitações e medos. no fim das contas essa escolha é que vai definir se você faz diferença ou se é apenas mais um manipulador de dados e de pessoas.vez quarenta ou cinqüenta diferentes mecanismos. um bom começo. A escolha é de cada um. Essa é a ferramenta por excelência da evolução de consciência que buscamos.

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ESTE LIVRO FOI C O M P O S T O N A F O N T E SA BON IMPRESSO PELA GRAFICA GEOGRÁFICA SOBRE PAPEL PÓLEN SOFT 80 G / M E M J U L H O D E 2005. 2 .

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os gestores poderão adquirir a necessária consciência de seu papel na empresa e na sociedade. Por outro lado. Ao lado disso.O mal-estar na globalização apresenta como paradigma a vulnerabilidade do sistema econômico. é uma leitura estimulante e inspiradora para a busca de novos conhecimentos e modos de pensar que nos tirem das intermináveis crises em que vivemos. o sistema perverso e excludente que a globalização impôs ao mundo. assuma a responsabilidade de transformar a si mesmo e. A obra de Luciano Martins Costa é um apelo para que cada cidadão. e os escândalos das fraudes em algumas das maiores empresas do mundo. cuja responsabilidade em todos esses fenômenos é grande. social e político. É imperioso que os homens de empresa. que se tomou ciara após os atentados ocorridos nos EUA em 11 de setembro de 2001. há também a depredação absurda da diversidade biológica do planeta. mudem de modelo mental. cada agente econômico. Por esse meio. . em conseqüência. Tal mudança requer o desenvolvimento do que o autor chama de "capacitações evolutivas".

escritor e consultor em estratégia de comunicação. Tal mudança requer o desenvolvimento do que o autor chama de "capacitações evolutivas". e os escândalos das fraudes em algumas das maiores empresas do mundo. mudem de modelo mental.com a complexidade que existe desde sempre e que nos tempos atuais se torna cada vez mais óbvia. Humberto Mariotti Luciano Martins Costa. há também a depredação absurda da diversidade biológica do planeta. do romance As Razões do Lobo. e do ensaio Escrever com criatividade. É imperioso que os homens de empresa. cuja responsabilidade em todos esses fenômenos é grande. que se tornou clara após os atentados ocorridos nos EUA em 11 de setembro de 2001. . Por esse meio. é autor do livro de contos Histórias sem salvaguardas. é jornalista. os gestores poderão adquirir a necessária consciência de seu papel na empresa e na sociedade. Entre outros escritos. Ao lado disso. O mal-estar na globalização apresenta como paradigma a vulnerabilidade do sistema econômico.

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