Quem Ama Acredita

Nicholas Sparks.
Editorial Presença, Lisboa, 2005, 1ª Edição. Colecção: Grandes Narrativas, nº 287. Título original: Lover Believer. Tradução De Saul Barata Copyrigth 2005 by Nicholas Sparks Depósito legal nº 228 506/05

Dedicado a Rehtt e a Valerie Little, pessoas maravilhosas, amigos maravilhosos

UM Jeremy Marsh sentou-se entre a assistência do estúdio de gravação. Naquela tarde de meados de Dezembro, era um de entre meia dúzia de homens da assistência. Estava vestido de preto, pois claro, e, com o cabelo escuro ondulado, os olhos azuis e a barba da moda, parecia exactamente o nova-iorquino que era. Enquanto analisava o convidado que estava no palco, conseguia lançar olhares sub-reptícios à atraente loura que se encontrava três filas mais à frente. Na verdade, havia alturas em que a sua profissão exigia o cabal desempenho de mais de uma tarefa em simultâneo. Ele era o jornalista de investigação à procura de uma história e a loura era apenas mais um elemento da assistência; porém, o observador profissional que existia nele não podia deixar de notar quanto a mulher, metida no seu colete curto e calças de ganga, era atraente. Em termos jornalísticos, está bem de ver. Tentou pôr a cabeça em ordem, concentrar-se no convidado. O homem era mais ridículo do que poderia imaginar-se. Ao vê-lo iluminado pelos focos de luz da televisão, Jeremy pensou que o guia dos espíritos parecia obstipado ao clamar que ouvia vozes vindas do além-túmulo. Tinha adoptado um tom de falsa intimidade, agindo como se fosse o irmão ou o melhor amigo de cada um dos presentes que, na sua maioria, pareciam tomados de uma reverência temerosa - incluindo a loura e a mulher a quem o convidado estava a dirigir- se - e o consideravam uma bênção vinda do céu. O que até fazia sentido, pensava Jeremy, pois esse era o local para onde os entes queridos mortos acabavam sempre por ir. Os espíritos de além-túmulo estavam sempre rodeados de uma luz angelical e imersos numa aura de paz e tranquilidade. Nunca Jeremy ouvira falar de um guia de espíritos que estabelecesse a ligação com o outro local, o mais quente. Nunca um ente querido morto se queixara de estar a ser assado no espeto ou a ser cozido num caldeirão de óleo de motores, por exemplo. Contudo, Jeremy tinha consciência de que estava a ser cínico. Além disso, não podia deixar de admitir que se tratava de um bom programa. Timothy Clausen era bom, bastante melhor do que a maioria dos charlatães sobre os quais andava havia anos a escrever. - Sei que é difícil - dizia Clausen para o microfone -, mas

Frank está a dizer-me que chegou a hora de o libertar. A mulher a quem ele se dirigia com modos tão simpáticos parecia prestes a desmaiar. Na casa dos cinquenta, vestia uma blusa de riscas verdes, com as espirais de cabelo ruivo a projectarem-se em todas as direcções. As mãos da mulher, erguidas à altura do peito, estavam tão apertadas que a pressão lhe tornava os dedos brancos. Clausen fez uma pausa e levou a mão à testa, dirigindo-se uma vez mais ao mundo do além", como ele dizia. Em silêncio, num movimento colectivo, toda a assistência se inclinou para diante. Todos os presentes sabiam o que ia seguir-se; era o terceiro espectador que Clausen escolhera naquele dia. Não constituía surpresa que Clausen fosse o único convidado residente do programa. - Recorda-se da última carta que ele Lhe escreveu? perguntou Clausen. - Antes de falecer. A mulher soluçou. Um assistente aproximou ainda mais o microfone, de modo que todos os telespectadores do programa a pudessem ouvir mais facilmente. - Recordo, mas como é que sabe... - balbuciou. Clausen não a deixou terminar a frase. - Recorda-se do que dizia? - indagou. - Recordo - gemeu a mulher. Clausen assentiu, como se ele próprio tivesse lido a carta. Era acerca de perdão, não era? No seu sofá, a apresentadora do mais popular programa vespertino da América, ora olhava para Clausen, ora fixava os olhos na mulher. Parecia simultaneamente maravilhada e satisfeita. Os guias de espíritos conseguiam bons níveis de audiência. No momento em que a mulher, sentada entre a assistência, concordava, Jeremy viu que ela chorava e que a maquilhagem começava a escorrer-lhe pelas faces. As câmaras abriram o ângulo de forma a mostrarem melhor o que estava a acontecer. A televisão diurna no seu melhor. - Mas como é que pôde... - repetiu a mulher.

- Ele também falava da sua irmã - murmurou Clausen. - E não apenas acerca dele. A mulher transfigurou-se, ficou a olhar para ele. - A sua irmã Ellen - acrescentou Clausen e, finalmente, ouvida mais esta revelação, a mulher deixou escapar um grito rouco. As lágrimas irromperam, como se o sistema de rega automática tivesse entrado em funcionamento. Clausen, bronzeado e elegante no seu fato preto, sem um cabelo fora do lugar, continuava a acenar com a cabeça, como um daqueles cães que algumas pessoas põem junto ao óculo traseiro do automóvel. Embora se mantivesse em absoluto silêncio, toda a assistência se voltou para a mulher. - O Frank deixou-Lhe uma outra coisa, não é verdade? Algo referente ao vosso passado. A despeito da claridade das luzes do estúdio, a mulher pareceu empalidecer. Num dos cantos do estúdio, fora do campo normal de visão, Jeremy viu o produtor a rodar um dedo erguido, a imitar a rotação das pás de um helicóptero. Estava prestes a iniciar-se um intervalo para publicidade. Clausen olhou quase imperceptivelmente nessa direcção. Para além de Jeremy, ninguém pareceu reparar; por vezes, perguntava a si próprio por que é que os telespectadores aceitavam tão bem aquela sequência sem falhas entre as comunicações com o além e os intervalos para publicidade. Clausen continuou: - Um pormenor de que ninguém poderia ter conhecimento. Uma espécie de chave, não era? A mulher assentiu e continuou a soluçar. - Nunca pensou que ele lhe recordasse aquilo, pois não? Ora bem, ali estava o argumento decisivo, pensou Jeremy. Conseguirase mais uma verdadeira crente. - É do hotel onde passaram a lua-de-mel. Ele pô-la lá para que quando a encontrasse, a senhora se lembrasse dos tempos felizes que viveram juntos. Ele não quer que o recorde com sofrimento porque a ama. - Ooooohhhhh... - gritou a mulher.

Ou algo semelhante. Talvez um gemido. Do lugar onde estava sentado, Jeremy não pôde ter a certeza, pois, de súbito, o grito foi submerso por uma explosão de aplausos entusiásticos. O microfone foi logo retirado. As câmaras apontaram noutra direcção. Terminado o seu momento de glória, a mulher sentada entre a assistência deixou-se cair na cadeira. Aproveitando a deixa, a apresentadora levantou-se do sofá e olhou de frente para a câmara. - Devo lembrar que o que estão a ver é verdadeiro. Nenhuma destas pessoas alguma vez tinha falado com Timothy Clausen anunciou, a sorrir. - Depois deste intervalo, vamos apresentar mais uma comunicação. Mais intervalos quando o programa foi interrompido para os anúncios; Jeremy recostou-se na cadeira. Como jornalista de investigação conhecido pelo seu interesse pela ciência, tinha construído a carreira a escrever sobre pessoas como aquelas. Na maioria dos casos gostava do que fazia e orgulhava-se do seu trabalho, que considerava um valioso serviço público, numa profissão tão especial que tivera os seus direitos enumerados na Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos da América. Para a sua coluna regular no Scientific American, tinha entrevistado laureados com o Prémio Nobel, explicado as teorias de Einstein e de Stephen Hawking de forma a que os leigos as compreendessem, além de, em certa ocasião, ter sido responsável pelo despertar de um movimento de opinião pública que levou a Administração Federal de Medicamentos e Alimentos a retirar do mercado um perigoso antidepressivo. Tinha escrito extensamente acerca do Projecto Cassini e do espelho defeituoso numa das lentes do telescópio espacial Hubble, além de ser uma das primeiras pessoas a classificar de fraude a experiência de fusão a frio, pretensamente realizada no Utah. Infelizmente, embora parecesse impressionante, a sua coluna não lhe rendia muito. Era com o trabalho independente que pagava a maioria das suas contas e, como sucede com todos os jornalistas freelancer, buscava com diligência encontrar histórias que pudessem interessar aos directores de jornais e revistas. O seu nicho tinha-se alargado até incluir tudo o que fugisse ao habitual", pelo que, durante os últimos quinze anos, tinha investigado fenómenos psíquicos, guias de espíritos, curandeiros espirituais e médiuns. Tinha denunciado fraudes,

brincadeiras e falsificações. Tinha visitado casas assombradas, procurado criaturas místicas e investigado as origens de lendas urbanas. Céptico por natureza, possuindo também a rara habilidade de explicar conceitos científicos por palavras que o leitor médio conseguisse compreender, viu os seus artigos publicados em jornais e revistas de todo o mundo. Sentia que a desmontagem dos conceitos científicos era uma actividade simultaneamente nobre e importante, mesmo que nem sempre fosse apreciada pelo público. Muitas vezes, depois de publicar os seus artigos de jornalista independente recebia cartas temperadas com adjectivos como idiota", atrasado mental" e o epíteto seu preferido: lacaio do poder". O jornalismo de investigação, acabara por perceber, era uma profissão ingrata. De testa franzida, a reflectir sobre tudo isto, observava a assistência a conversar animadamente, e tentava imaginar quem seria escolhido a seguir. Jeremy olhou uma vez mais para a loura, que examinava a pintura dos lábios num espelho de bolso. Jeremy já sabia que as pessoas escolhidas por Clausen não estavam, oficialmente, ligadas ao programa, mesmo que as presenças de Clausen fossem anunciadas com antecedência e as pessoas lutassem com denodo para obter um bilhete que lhes permitisse fazer parte da assistência em estúdio. O que significava, é claro, que a assistência enxameava de crentes na vida para além da morte. Para elas, Clausen era legítimo. A menos que falasse com os espíritos, como é que poderia saber tantas coisas acerca de estranhos? Porém, como qualquer mágico de qualidade, o homem era obrigado a ter um repertório fixo, pois uma ilusão é sempre uma ilusão e, imediatamente antes do programa começar, Jeremy conseguira não só perceber como ele fazia, mas também obtivera provas fotográficas para o desmascarar. Abater Clausen seria o maior golpe de Jeremy até àquela data; e o homem merecia ser denunciado. Clausen era um vigarista da pior espécie. No entanto, a faceta pragmática de Jeremy também compreendera que aquela história era de um género que raramente aparece, pelo que queria que saísse o melhor possível. Afinal, Clausen cavalgava uma enorme onda de celebridade e, na América, a celebridade era tudo o que interessava. Embora as probabilidades fossem mínimas,

Alvin.na sua maioria a mostrarem Jeremy no centro das atenções e a prometerem a grande denúncia da fraude . a temperatura baixara quase até zero e as nuvens de vapor erguiam-se lentamente das grelhas dos esgotos. e mesmo que não acontecesse. vindos de todos os pontos do país. Jeremy sabia que tinha uma história de qualidade. era o Nate quem pagava a conta. era o melhor amigo de Jeremy e tinham-se juntado naquele bar chique de Upper West Side para comemorar a aparição de Jeremy no programa Primetime Live. de que a escolha de Clausen recaísse em si. ficando a entrevista marcada para a segunda-feira . foi isso exactamente que aconteceu. Os anúncios de Primetime Live tinham estado a ser transmitidos durante a semana . da cadeia ABC. Uma frente fria descera do Canadá. separados por um simples golpe de sorte. A revista People telefonara ao princípio da tarde. Os endurecidos cidadãos de Nova Iorque mostravam a indiferença habitual por tudo que se relaciona com o tempo.e os pedidos de entrevistas inundavam o escritório do Nate. naquele dia. alguns do Scientific American.imaginava o que poderia suceder se ele fosse a próxima escolha de Clausen. Nate Johnson e Alvin Bernstein já tinham comemorado durante uma hora. principalmente porque os jornalistas tendem a fazer esticar os orçamentos e. quantas vezes. que nada justificava. que se tinham juntado para homenagear Jeremy. Muitos dos presentes estavam na fase da bebida e divertiam-se imenso. sentiu uma ligeira esperança. fotógrafo independente. No entanto. pelo que uma noite de sexta-feira não podia ser desperdiçada. à medida que o intervalo para publicidade se aproximava do fim. como se também o próprio Deus não estivesse entusiasmado com o que Clausen estava a fazer. um bom artigo e um artigo extraordinário estavam. As pessoas trabalhavam tanto durante a semana que não concebiam a ideia de desperdiçarem uma saída à noite. ser escolhido era quase como ganhar a lotaria. Não que as pessoas parecessem preocupadas. Nate era o agente de Jeremy. o Inverno fustigava duramente Manhattan. E. para se transformarem em gelo nos passeios. especialmente quando havia qualquer coisa a comemorar. Três semanas mais tarde. Não esperava que acontecesse. quaisquer que fossem as circunstâncias. como acontecera com umas duas dúzias de amigos e jornalistas.

seguinte. Não houvera tempo para reservar uma sala para a reunião, mas ninguém parecia incomodar-se com isso. Com o seu comprido balcão de granito e a iluminação espectacular, a casa encontravase cheia de gente bem instalada na vida. Enquanto os jornalistas do Scientific American tendiam a usar casacos desportivos de tweed com protectores de bolsos e se tinham concentrado num dos cantos da sala a discutir os fotões, a maioria dos outros clientes parecia ter passado por ali depois de acabar o trabalho na Wall Street ou na Madison Avenue: casacos de fatos italianos pendurados nas costas das cadeiras, gravatas Hermèz desapertadas, homens que pareciam não pretender mais nada que não fosse impressionar as mulheres presentes e fazer brilhar os relógios Rolex. Mulheres, vindas directamente do trabalho em editoras e agências de publicidade, que vestiam saias de marca e calçavam sapatos de saltos incrivelmente altos, beberricavam as suas bebidas e fingiam ignorar os homens à sua volta. O próprio Jeremy não tirava os olhos de uma ruiva alta que estava na outra ponta do balcão e parecia lançar olhares na direcção dele. Não saberia dizer se ela o reconhecera dos anúncios da televisão, ou se procurava apenas companhia. Voltou-lhe as costas, aparentemente desinteressada, mas de seguida voltou a olhar para ele. Um olhar, desta vez, ligeiramente mais prolongado, o que levou Jeremy a erguer o copo numa saudação. - Vá lá, Jeremy, toma atenção - pediu o Nate, a dar-Lhe um toque de ombro. - Estás na televisão! Não estás interessado em ver a tua actuação? Jeremy desviou os olhos da ruiva. Olhando para o ecrã viu-se sentado em frente de Diane Sawyer. Reflectiu sobre aquela situação esquisita, pois parecia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Aquilo ainda não lhe parecia bem real. Apesar dos seus anos de profissional dos media, nada do que acontecera nas três semanas anteriores Lhe parecia real. No ecrã, Diane estava a descrevê-lo como o mais conceituado articulista científico da América". A história tinha acabado por exceder as expectativas, Nate estava ainda a negociar com o programa Primetime Live a possibilidade de Jeremy escrever regularmente para eles, além de poder concorrer

com trabalhos adicionais para o programa Good Morning America. Embora muitos jornalistas considerassem a televisão menos importante do que outras formas mais sérias de reportagem, tal não significava que, na sua maioria, não vissem secretamente a televisão como o Santo Graal, isto é, como uma fonte de ganhos chorudos. Apesar das felicitações, a inveja andava por ali, embora, para Jeremy, ela fosse uma sensação tão estranha como a de viajar no espaço. Afinal, os jornalistas do seu género não costumavam estar no topo da hierarquia dos media. Até àquele dia. - Ela chamou-te conceituado? - indagou Alvin. - Tu, que escreves acerca do Bigfoot e da lenda da Atlântida! - Caluda! - ordenou Nate, de olhos postos no ecrã. - Estou a tentar ouvir isto. Poderá vir a ser importante para a carreira do Jeremy - acrescentou. Como agente do jornalista, Nate andava sempre a promover eventos que pudessem ser importantes para a carreira do Jeremy", pela simples razão de que o jornalismo independente não era uma actividade muito lucrativa. Anos antes, quando Nate estava a começar, Jeremy pretendera publicar um livro e nunca mais tinham deixado de trabalhar juntos, simplesmente por terem Ficado amigos. - Não interessa - concluiu Alvin, a ignorar o ralhete. Entretanto, no ecrã, por detrás de Diane Sawyer e de Jeremy, eram passados os últimos momentos da exibição do jornalista no programa televisivo da tarde, em que ele fingira ser um homem afligido com a morte de um irmão adolescente, um rapaz que Clausen tinha declarado pronto a entrar em contacto com Jeremy. - Ele está comigo - ouvia-se o Clausen a anunciar. - Ele quer que o liberte, Thad. A câmara mudou para ser mostrada a imagem de um Jeremy de rosto distorcido pela angústia. Em fundo, via-se Clausen a acenar com a cabeça, a mostrar simpatia ou a parecer obstipado, de acordo com a perspectiva de cada um. - A sua mãe nunca modificou o quarto, o quarto partilhado por ambos. Insistia que fosse mantido sem alterações e você teve de continuar a dormir lá - acrescentou Clausen. - Pois foi - balbuciou Jeremy.

- Mas usar o quarto metia-lhe medo e, furioso, pegou numa coisa dele, um objecto muito pessoal, e enterrou-o no quintal das traseiras. Jeremy conseguiu murmurar mais uma vez: - Sim. - A prótese dentária! - Ooooohhhhh! - lamentou-se Jeremy, cobrindo o rosto com as mãos. - Ele adora-o, mas tem de perceber que ele agora está em paz. Não está zangado consigo. Jeremy gemeu de novo, a contorcer a cara ainda mais: - Ooooohhhh! Nate estava concentrado e silencioso a observar as imagens. Alvin, por sua vez, continuava a rir-se e a erguer bem alto o copo de cerveja. - Dêem um Oscar" a este homem! - bradou. - Já disse que se calassem, os dois - mandou Nate, sem esconder a irritação. - Conversem no intervalo para publicidade. - Não interessa - sentenciou Alvin novamente. Não interessa" sempre fora a expressão favorita de Alvin. Na continuação do programa Primetime Live as imagens foram desaparecendo e a câmara fixou-se uma vez mais em Diane Sawyer e Jeremy, sentados frente a frente. - Nesse caso, nada do que Clausen nos disse é verdade? perguntou Diane. - Nada. Como já sabe, o meu nome não é Thad, tenho cinco irmãos e todos estão vivos e de boa saúde. Diane manteve a caneta assente no bloco, como se estivesse preparada para tomar notas. - Então, como é que o Clausen faz isto? - Bom, Diane - começou Jeremy. No bar, Alvin franziu o sobrolho e inclinou-se para Jeremy.

- Trataste-a apenas por Diane? Como se fossem grandes amigos? - Fazes o favor! - atalhou Nate, cada vez mais exasperado. No ecrã, Jeremy continuava: - O que Clausen faz é apenas uma variação do que outros têm andado a fazer há centenas de anos. Em primeiro lugar, é um bom observador de pessoas e um especialista em estabelecer associações vagas, mas dotadas de grande carga emocional, e de responder aos palpites, da assistência. - Bom, mas ele foi tão específico. Não apenas consigo, mas também com os outros convidados. Sabia nomes. Como é que ele faz isso? Jeremy encolheu os ombros. - Ouviu-me falar do meu irmão, Marcus, antes do programa. Limitei-me a contar, alto e bom som, uma vida imaginária. - E como é que a história chegou aos ouvidos do Clausen? - Os vigaristas como Clausen são de há muito conhecidos por usarem uma grande variedade de truques, incluindo microfones e ouvintes" pagos que circulam pela sala de espera antes do início do programa. Antes de me sentar, fiz questão de andar por aí e de meter conversa com diversos membros da assistência, sempre a ver se alguém revelava um interesse pouco habitual pela minha história. E, disso não tenho dúvidas, houve um homem que me pareceu particularmente interessado. Por detrás deles, o filme de vídeo foi substituído por uma fotografia ampliada que Jeremy tirara com uma pequena máquina disfarçada no relógio, um brinquedo de alta tecnologia usado pelos espiões, cujo custo foi prontamente debitado ao Scientific American. Jeremy adorava brinquedos de alta tecnologia, davamlhe quase tanto prazer como o acto de os fazer pagar por outras pessoas. - O que é que estamos a ver agora? - indagou Diane. Jeremy apontou. - Este homem andou a misturar-se com a assistência em estúdio, a fazer- se passar por um turista vindo de Peoria. Tirei-lhe

esta fotografia mesmo antes do início do programa, enquanto estivemos a conversar. Ampliem mais, por favor. No ecrã, a fotografia foi aumentada e Jeremy apontou na direcção dela. - Está a ver aquela pequena bandeira dos EUA na lapela? Não é apenas um enfeite. Na realidade, é um microfone em miniatura, que transmite para um gravador que está nos bastidores. Diane franziu as sobrancelhas. - Como é que sabe isso? - Porque - respondeu Jeremy, por sua vez a alçar uma sobrancelha -, acontece que tenho um aparelho igual. - Logo de seguida, meteu a mão no bolso e sacou de uma bandeira exactamente igual, ligada a um longo fio enrolado e a um transmissor. - Este modelo é fabricado em Israel - esclareceu Jeremy. A voz dele podia ouvir- se enquanto a câmara mostrava um grande plano do aparelho. - É uma máquina muito avançada. Ouvi dizer que é usada pela CIA, uma informação que, como é óbvio, não posso confirmar. Posso confirmar, isso sim, que se trata de tecnologia de ponta: este pequeno aparelho pode gravar conversas numa sala barulhenta e cheia de gente e, munido dos filtros apropriados, pode até identificar as vozes. - E tem a - Diane observou a bandeira com aparente fascinação. - certeza de que este era realmente um microfone e não apenas uma bandeira? - Bom, como sabe, há muito que ando a investigar o passado de Clausen e, umas semanas depois do início da série de programas, consegui obter mais algumas fotografias. Apareceu uma nova fotografia no ecrã. Embora pouco nítida, era a imagem do mesmo homem que tinha sido fotografado com a bandeira dos EUA. - Esta fotografia foi tirada na Florida, no exterior do escritório de Clausen. Como pode ver, o homem vai a entrar. Chama-se Rex Moore e é na realidade empregado de Clausen. Há dois anos que trabalha com ele.

- Ooohhhh! - berrou Alvin, fazendo que o programa, que de qualquer das maneiras estava a terminar, fosse abafado pelo barulho de outros, invejosos ou não, que se lhe juntaram nas vaias e no alarido. As bebidas de graça tinham feito maravilhas e Jeremy viu-se submerso pelos parabéns logo que o programa acabou. - Foste fantástico - elogiou Nate. De quarenta e três anos, Nate era baixo, estava a ficar calvo e mostrava tendência para comprar fatos um pouco apertados na cintura. Pouco interessava, o homem era a própria encarnação da energia e, como a maioria dos agentes, andava sempre numa azáfama, com um optimismo escaldante. - Obrigado - agradeceu Jeremy, antes de emborcar o resto da cerveja. - Isto vai ser importante para a tua carreira - prosseguiu Nate. - É o teu passaporte para um espaço regular na televisão. Acabaram-se as guerras para arranjarmos espaços em revistas. como jornalista independente, acabou-se a procura de narrativas do aparecimento de discos voadores. Olhando a tua figura, sempre disse que foste talhado para a televisão. - Sempre o disseste - anuiu Jeremy, com o gesto de rolar os olhos de alguém que tem de recitar um trecho muito repetido. - Falo a sério. Os produtores de Primetime Live e de Good Morning America estão sempre a contactar-me, falam em utilizarte como colaborador regular dos seus programas. Bem sabes o que todo este interesse pelas ciências significa para ti. Um grande salto para um repórter científico. Jeremy fungou: - Sou jornalista, não sou repórter. - Como quiseres - concedeu Nate, a fazer o gesto de quem quer afugentar uma mosca. - Mas, como eu sempre disse, a tua cara foi feita para a televisão. - Tenho dito que o Nate tem razão - acrescentou Alvin com uma piscadela de olho. - Quero dizer, onde é que poderás ser mais popular do que no meio das damas, apesar de seres um zero em personalidade?

mesmo até às omoplatas. claro. . Melvin.Depois da entrevista com a People. Jeremy riu-se.Sim.Então continuas a pensar nessa viagem ao sul para investigares a tal história de fantasmas? . cujo nome fazia pensar num contabilista bem arranjado. na altura. que Jeremy escrevera para a Vanity Fair. O toque final eram os múltiplos brincos nas orelhas.Há anos que Alvin e Jeremy frequentavam bares na companhia um do outro. Nada de especial. Ainda adolescente. Felizmente. . não vais mesmo precisar de um fotógrafo? interrompeu Alvin. acho que sim. Com Primetime ou sem Primetime.Porquê? Queres ir? .pressionou Nate.garantiu. Jeremy afastou o cabelo preto dos olhos e fez sinal ao empregado do bar para pedir outra cerveja. na mente. continuo a ter facturas para pagar. . Jeremy olhou para ele. à procura de encontros. Devo conseguir o que quero em menos de uma semana. Alvin achava que as tatuagens eram um reflexo da sua estética única e pessoal. um dos incontáveis profissionais que usam sapatos Florsheim e vão de pasta para o trabalho. . . Alvin Bernstein. que calçava Florsheim e levava uma pasta para o emprego. clique. . . cortara todos os contactos durante um período de três meses. o couro parecia ligar bem com as tatuagens. . Estava a pensar usar a história na minha coluna. de óculos. Luzes misteriosas no cemitério. não é? Não vai passar-se o mesmo que aconteceu quando andaste disfarçado entre os Justos e os Sagrados"? Estava a referir-se a um artigo de seis mil palavras acerca de um culto religioso. um guarda-roupa que deixava horrorizado o pai.Mas continuas em contacto. Jeremy quase conseguia ouvir as rodas que Lhe faziam clique. pelo que as adoptou em ambos os braços.Estaremos em contacto .Este material é diferente.Eh. viu Eddie Murphy em Delirious e decidiu passar a andar vestido de cabedal. não se parecia com qualquer Alvin Bernstein.

corroborou Nate.Mesmo que haja luzes.avisou Jeremy. eu trabalho em televisão. com mil diabos. No entanto. talvez fosse verdade . . Se o Good Morning America se interessar subitamente.Sim. talvez fosse interessante conseguirmos uma reportagem fotográfica decente dessas misteriosas luzes. . Nenhum produtor quer ser deixado à margem..Não está programado que faças umas fotografias para a Lau & Order durante a semana que vem? Por mais esquisito que fosse o seu aspecto. depois de te verem esta noite. . vão mostrar-se interessados. Ser deixado de fora é ser despedido. Acredita no que te digo.Escuta. -Ele tem razão . Alvin gozava de uma reputação impecável e os seus serviços eram normalmente muito procurados. . Conheço essa gente. Esta noite marcaste pontos. será um artigo curto . A última coisa que desejam ter de explicar aos gestores é a razão por que perderam o barco. E se conseguires mesmo arranjar provas das luzes. e tu a pagares as despesas.contrapôs Alvin. Sabes o que se passa na televisão. com todos aqueles produtores a andarem à roda. mas vou ficar livre lá mais para o fim da semana esclareceu Alvin. se estás a falar a sério acerca desta coisa da televisão. sabes que o Today não tarda a telefonar e que terás o Dateline a bater-te à porta. .No mês passado. Reservo um espaço na minha agenda. Serão umas férias exóticas.Na televisão ninguém se mostrará interessado no assunto. como o Nate diz que estás. tentando encontrar o próximo grande furo. .Fazes o trabalho preliminar e depois dizes-me. .Nunca se sabe o que vai acontecer em seguida e fazer um plano com antecedência será uma boa ideia. mas no bom sentido. esse será o . sem dúvida. Ir para o sul no Inverno.Isso é partir do princípio de que haverá algumas luzes para filmar. Não brinques com coisas sérias. talvez conhecer uma bela sulista. interrompendo-o.Claro. Ouvi dizer que as mulheres de lá põem os homens malucos. . .

Não. Um tipo chamado Norwood Jefferson. Antes disso. Carolina do Norte. Esta história custou-me quatro meses de vida. E voltando-se para Alvin: .Óptimo .E vê o que conseguiste! .Quem? . Devias ver o portal deles na Internet. telefono-te e dou-te os pormenores. . .Bom. Fala de azáleas e de abrunheiros que florescem em Abril. . E tu? .Esta pode ser uma peça frágil. . O motivo que me leva a ir até lá é a necessidade de fazer uma pausa.Mas são cidades. Vê se consegues estar lá na sexta. além de mostrar com orgulho a fotografia do mais proeminente cidadão da terra. .Já estiveste no Sul? . até acabar por encolher os ombros: .Visitei Nova Orleães e Atlanta .indagou Alvin. Jeremy semicerrou os olhos para encarar o agente. E prometo que a soma das minhas despesas não será elevada. de 1907 a 1916. a imitar Gomer Pyle. Alvin pegou na cerveja e fez uma saúde: .Quem é que liga a isso? . a pôr a mão no ombro dele.Vou partir para a terra das papas e da dobrada.exclamou Nate. Jeremy soltou uma gargalhada. Vamos para uma pequena vila chamada Boone Creek. . meu Deus! exclamou. quem sabe o que a televisão vai pensar? O jornalista ficou calado por momentos. mas com um trabalho de fotografia e uma boa história a apoiá-la.elemento de que o Good Morning America e o Primetime precisam para tomarem as suas decisões.Estás a falar a sério? É uma história sobre coisa nenhuma. e as cidades são iguais por toda a parte.concordou. . depois do Clausen.admitiu Jeremy. Serviu no Senado do estado de Carolina do Norte. . Para este trabalho vamos descer ao verdadeiro Sul.Um político. .Parto na terça-feira.

A ligeira vibração do volante.Absolutamente.Achas que sim? Jeremy observou o couro. a milhões de quilómetros daquilo que ele entendia por civilização.Soa a aventura. deixara Nova Iorque com tempo chuvoso e cinzento. só para combater a monotonia. com expectativas de queda de mais neve. tinha de o admitir. as tatuagens e os piercings. . As herdades eram separadas por pequenas matas de pinheiros bravos e. os campos eram planos e nus. DOIS Jeremy chegou à Carolina do Norte na terça-feira. Não faço ideia do que isso signifique. De ambos os lados da estrada. .Ninguém . Boone Creek pertencia ao distrito de Pamlico. Tenho a certeza de que vais enquadrarte perfeitamente no lugar. .esclareceu Jeremy. Olhando para a outra ponta do balcão verificou com desgosto que a ruiva já lá não estava. quase tão excitantes como uma batedeira de panquecas.Mesmo a meio caminho entre sítio nenhum e este lugar onde nós estamos. Alvin soltou uma gargalhada. Acabava de soar o meiodia. . com a imensidão azul a estender-se pelos céus por cima da sua cabeça. pelo menos no que respeitava à condução. Fica num lugar chamado Greenleaf Cottages. É provável que desejem adoptar-te. Segundo o mapa que comprara na loja de recordações do aeroporto.Onde é que fica exactamente esse lugar? . como o trânsito era escasso. mas moderno.Não te preocupes.. . nada mais restava a Jeremy do que pisar o acelerador a fundo. nem tudo era mau. se a viagem Lhe indicara alguma coisa. no dia a seguir à entrevista dada à revista People. Bem. Ali. o ronronar do motor e a sensação da velocidade eram . que a Câmara de Comércio descreve como pitoresco e rústico. ficava situada a 160 quilómetros a sul de Raleigh e. o Inverno parecia muito distante. Porém.

Acabou por apreciar a personalidade inflamada da mulher. Era frequente ausentar-se durante semanas e. Era alegre e emotiva. como um verdadeiro nativo de Nova Iorque. à procura de uma nova história importante. fosse onde fosse que o material se encontrasse. como viver na cidade tornava supérflua a posse de um automóvel.conhecidos propiciadores do aumento de adrenalina. e mal ganhavam para conseguirem pagar o pequeno apartamento que alugaram em Brooklyn. mas estava a construir lentamente uma reputação. Ele tinha 26 anos. pois pareciam não ter nada em comum. mas mais tarde. sentiu-se arrebatado. Por isso. Nos primeiros anos do casamento. na cabeça dela. embora ela Lhe assegurasse que conseguia aguentar. nunca conseguia arranjar justificativos para as respectivas despesas. de certo ou errado. o casamento deles era forte em teoria mas fora construído sobre alicerces frágeis. Tais considerações levaram-no a pensar na ex-mulher. estavam a viver uma luta de jovens em êxtase marital. ainda não era colunista do Scientific American. quando a beijou à porta da casa dela. reflectiu. Jeremy viajava. A princípio. a sua avaliação infalível das pessoas e a maneira como parecia aceitar tudo o que a ele dizia respeito sem emitir juízos de valor. o problema era simples: enquanto o emprego dela a obrigava a ficar na cidade. Um ano mais tarde. No entanto. costumavam alugar um carro e ir para as montanhas ou para a praia. Mas Jeremy acabou por suspeitar que. rodeados por amigos e familiares. Logo depois do segundo aniversário de casamento. há muito que resolvera aceitar tudo isso como mais um aspecto excitante de viver num lugar a que chamava o seu lar. era transportado de um ponto para outro nas carruagens apinhadas do metropolitano ou em táxis que esparrinhavam água e que como alguns taxistas podiam constituir verdadeiras ameaças de morte. Maria era publicista na revista Elle quando se conheceram numa festa de lançamento. em especial nos homens (já tinha escrito um artigo acerca disso). Para a mente dele. No início. . porém. Maria. Quando lhe perguntou se queria acompanhá-lo até um café das redondezas. não lhe passava pela cabeça que ela viesse a ser a única mulher que amara até então. por vezes a terem de passar várias horas na estrada. pensou ter cometido um erro ao convidá-la a acompanhá-lo. casaram-se na igreja. na ausência dele deve ter começado a aperceber-se de que não conseguia. teria adorado uma viagem como aquela.

Maria exibiu um sorriso fugidio.A situação nunca irá alterar-se. que se seguiram ao divórcio. de pena de si mesmo. mas. Convenceu-se de que estava perdoado. Não é justo para nós. a consulta foi o prenúncio do final da relação. esperando um momento até as palavras assentarem. Ou no Post.Nunca estás em casa e isso não é justo para mim. de certa maneira.É só durante algum tempo. Ou no Daily News. . a sentir uma pequena onda de pânico a erguer-se dentro de si. Juntando as mãos. na expressão da mulher. Mais ainda do que a frequência das viagens. mas quando regressou ela parecia ser a mesma de sempre e passaram um fimde-semana enroscados na cama. tinha um artigo a escrever. depois da consulta com um médico do East Side. pensou. Podiam ter resolvido a questão.Não vai ser assim para sempre . Jeremy sentiuse entusiasmado com a ideia. Porém. malgrado o nervosismo que o assaltou. No Times. . . desistir.Não. no fundo . daquela vez a respeito de Los Alamos. . ao tomar lugar no avião. levantou os olhos claros para o olhar de frente. de fugida. e até Jeremy compreendeu isso. .Não está a resultar . . Ao olhar para trás.quando ele se preparava para mais uma viagem.confessou ela mais tarde.Desejo ficar e.defendeu-se ele. mas não posso. Maria sentou-se na cama. nunca deixarei de te amar.replicou Maria. A separação final veio um ano mais tarde. Quando se despediu dela com um beijo. não. . dizia para si próprio. mas a armadura de protecção do seu casamento tinha sido fendida e cada nova ausência vinha provocar uma outra rachadura.perguntou Jeremy. Jeremy reconhecia que devia ter tomado o aviso à letra. por exemplo. Maria começou a falar em terem um filho e. por vezes duvidava de que ela alguma vez o tivesse amado. Não precisou de dizer mais nada e nos momentos de silêncio. .Queres que desista? . .Não posso ficar . uma pessoa que os confrontou com um futuro que nenhum deles teria imaginado.limitou-se a dizer. Mas talvez possas encontrar uma solução local.Foi assim que me respondeste há seis meses . na altura. ao lado dele. .

percebeu intuitivamente a razão que a levou a ir-se embora. em parte por terem sido omitidas qualificações que ele considerava importantes. E sabia que poucas pessoas poderiam dizer o mesmo. eram pessoas saudáveis. E também eram amigos: em dois fins-de-semana de cada mês. Pelo menos a maior parte. pois era o único solteiro numa família de pessoas com casamentos felizes. que pegassem em bebés. O estudo recebeu acolhimento destacado na News Week e na Time. os quatro na casa dos noventa anos. embora não se dispusesse a assistir ao segundo casamento dela. a seguir. em Queens. teria de reconhecer que aquele era o único episódio triste da sua vida. O divórcio tornara-se definitivo havia sete anos e. e embora por vezes se sentisse deslocado nas festas de família. o clã sempre em crescimento reunia-se na casa dos pais. Até lhe telefonava uma vez por outra. comparava-se a duração do contacto visual entre as crianças e as mulheres. E ele tinha ultrapassado as dificuldades. Tinha dezassete sobrinhas e sobrinhos. O estudo concluiu pela existência de uma correlação directa entre a beleza e o contacto visual: os bebés olhavam as mulheres atraentes durante mais tempo. e a outras menos atraentes. e até os avós. Durante a investigação pedia-se a mulheres atraentes. os irmãos respeitavam-no o suficiente para não tentarem saber as razões que o tinham levado ao divórcio. a sugerir que a percepção da beleza era instintiva nos seres humanos. os pais. se quisesse ser honesto. sentia uma certa angústia ao pensar como poderia ter sido a sua vida. onde Jeremy foi criado. Jeremy tinha acompanhado um estudo em que se procurava saber se a percepção da beleza era produto das normas culturais ou da genética. Os irmãos e as respectivas mulheres. Nunca sofrera verdadeiramente. em viagens como aquela. Por vezes. Dois anos antes. três anos mais tarde. Quisera escrever um artigo a criticar o estudo. A beleza exterior poderá sobressair de imediato aos . com um advogado de Chappaqua. não lhe guardou qualquer rancor. tinha uma vida social activa e emergira da infância sem qualquer dos traumatismos que pareciam afligir tantos miúdos da sua idade. mas agora era uma situação rara e o divórcio não o predispusera contra a generalidade das mulheres.

em pôr em causa a sua carga de trabalho. o seu editor travou a iniciativa. o que significava que eram eles quem atribuía as tarefas. alguns em sintonia com os temas de cada . como sucede na maioria das profissões. não totalmente. em especial aqueles valores e princípios influenciados pela família. e aconselhouo a escrever algo sobre o uso excessivo de antibióticos na alimentação das galinhas.olhos dos outros (ele sabia que era tão susceptível como o vizinho do lado ao fascínio provocado por uma supermodelo). como Nate sugerira. além de serem também eles quem acabava por pagar as despesas. Continuava a ter de escrever uma dúzia de artigos para o Scientific American. mas a televisão assegurava um mínimo de salário. A beleza poderá prevalecer a muito curto prazo. era provável que lhe fosse mais fácil colocar os seus trabalhos de independente. Em quinze anos. No entanto. Bem. ou a longo prazo. havia muito tempo. Há muito concluíra que. não passavam de hipócritas. ou. em vez de ter de andar constantemente a fazer promoção pessoal. e mais uns quinze artigos menores por ano. Era provável que Alvin tivesse razão quando dizia que os produtores de televisão não eram diferentes dos editores. graças às relações que criou ao longo dos anos. O que. Editores. o seu volume de trabalho não sofrera qualquer alteração. Contudo. os hipócritas tendem a ser impetuosos e politicamente correctos. eram mais importantes. o que Lhe permitiria escolher os projectos em que estivesse interessado. mas sempre tinha considerado a inteligência e a paixão bastante mais atraentes com a passagem do tempo. mas nada disso alterava a necessidade essencial de encontrar sempre algo de novo e original. até fazia sentido: o editor era vegetariano e a mulher dele era simultaneamente deslumbrante e possuidora de um brilho parecido com um céu de Inverno no Alasca. por outras palavras. Tais características levavam mais de um simples instante a decifrar e a beleza não tinha absolutamente nada a ver com elas. Porém. os artigos dariam talvez mais nas vistas ou. as normas culturais. sobreviventes em qualquer empresa. na sua maioria. notou Jeremy com desdém. mas a médio. pelo menos um ou dois trabalhos importantes de pesquisa. uma prática que trazia em si o potencial de transformar os estreptococos na próxima peste bubónica. achou a opinião demasiado subjectiva". Ora bem. talvez estivesse prestes a ver-se livre daquele cartel. Maria tivera razão.

8o de temperatura. com a intenção de enveredar pelo ensino. jogo. acerca dos critérios enviesados de classificação dos exames de admissão. muito bem apoiado em estatísticas.fez duas licenciaturas. as epidemias de varíola e a desagradável propensão para o incesto. em Física e em Química. amor pelas crianças e preocupação com os marinheiros. indesmentível. sexo. o Dia de Acção de Graças era bom para procurar saber a verdade sobre os primeiros colonos. que na maioria dos casos pouco ou nada tinha a ver com a ciência e muito a ver com vigaristas como Clausen.o pai era motorista de autocarro e trabalhou para a Port Authority até se reformar . ou b) como é que o aquecimento global pode provocar uma nova idade dos gelos e transformar o território dos Estados Unidos numa tundra gelada. que não deve referir-se apenas a jantares de amigos com os americanos nativos. No entanto. o que tivesse alguma relação com o sobrenatural. Tinha de admitir que o processo não se parecia nada com o que havia imaginado ser uma carreira no jornalismo. Como o artigo provocou algumas manifestações de estudantes. mais tudo. bem como as denúncias sobre drogas (legais ou ilegais). Com a casa da família em perigo . que nasceu na Turquia.estação. durante os últimos cem anos. que ameaça transformar uma parte dos Estados Unidos no deserto de Sara. pouco antes da formatura de Jeremy. julgamentos que envolvessem grandes empreendimentos imo biliários. Entrevistas com cientistas famosos e artigos sobre diversos satéli tes ou projectos da NASA mereciam sempre respeito e eram fáceis de colocar. literalmente tudo.pôs . Mas uma namorada que trabalhava para o jornal da universidade convenceu-o a escrever um artigo. prostituição. um facto a que a mãe nunca deixava de referir-se ao falar com estranhos . qualquer que fosse a época do ano. Jeremy descobriu que tinha jeito para a escrita. bebidas alco ólicas. Vem aí o Natal? Escreve um artigo acerca do verdadeiro São Nicolau. tornou-se bispo de Myra e ficou conhecido pela sua generosidade. os seus projectos de carreira não se alteraram até que o pai foi defraudado em 40 mil dólares por um falso agente imobiliário.foi o único dos irmãos a frequentar a universidade e tornou-se o primeiro membro da família a conseguir uma formatura. Na Universidade de Columbia . Por sua vez. É Verão? E se escrevesses sobre: a) o aquecimento global e a subida de 0. pois há que não esquecer Salem e a caça às bruxas.

Jeremy aceitou a sugestão e trabalhou dois meses no artigo. pertence à História. um antidepressivo que estava a ser objecto de intensa especulação nos meios de comunicação. . No final. havia conseguido o quê? Tinha 37 anos de idade. agora. a acompanhar um grupo de cientistas que investigavam o monstro de Loch Ness. Depois disso. Como um possesso. e pretendera apenas ser uma anedota. o gabinete do procurador de Nova Iorque tinha peixes muito maiores para pescar do que aquele pequeno trafulha. em Upper West Side. entrevistou sócios do trapaceiro e conseguiu organizar um processo detalhado. numa tarde de domingo. como costuma dizer-se. no leito de morte. O resto. Carolina do Norte. perplexo. E agora seguia a caminho de Boone Creek. para explicar um caso de aparecimento de luzes misteriosas num cemitério. vivia sozinho num apartamento esquálido de uma assoalhada. fora forjada por ele e por um amigo. em 1933 . partiu para a Escócia. Abanou a cabeça. O grande sonho. O editor da revista convenceu-o de que a vida de professor não o levaria a lado nenhum e. em troca. No entanto. vasculhou os registos criminais e civis. a primeira das suas prosas de interesse geral. Só que. Continuava a existir e ainda sentia a paixão de o alcançar. quinze anos a correr atrás das histórias eram quinze anos de trabalho duro e. sem ordenado. para escrever a primeira denúncia da sua vida. por um cirurgião eminente que admitiu que a fotografia tirada ao monstro. como sempre. No final. pelo que Jeremy teve de confirmar tudo e condensar as suas notas. o artigo fez que o fabricante do medicamento retirasse o pedido de licenciamento por parte da Administração Federal de Medicamentos e Alimentos. a casa foi salva e a revista New York aproveitou o artigo. em vez de seguir para o Instituto de Tecnologia do Massachusetts para fazer o mestrado. com uma mistura subtil de lisonja e retórica acerca da realização de um grande sonho. Como se tudo estivesse previsto. Esteve presente aquando da confissão feita. pelo rumo que a sua vida tomara.a imagem que trouxe a lenda para o domínio público -. começara a pensar se a televisão seria o meio de o realizar. sugeriu que Jeremy escrevesse uma prosa sobre o Leffertex.de lado a cerimónia de graduação para ir em perseguição do vigarista.

também apreciavam as bagatelas e. a fraude foi sempre a causa dos misteriosos eventos. incluindo os bem documentados nos meios de comunicação. as luzes de Boone Creek seriam supostamente diferentes. Sabia perfeitamente que o público adorava uma boa história de fantasmas. como Roswell. tal como as outras pessoas.um oxímoro. a despeito da seriedade com que encarava os conteúdos da revista. a fingir que estava a avaliar os méritos do artigo. que poderiam distribuí-lo por toda a sua cadeia. Quando a leu. Ou. Por outro lado. poderia usá-la na sua coluna regular. E as bagatelas. se a vila estivesse a tentar conseguir lucros com a situação. quatro tinham acabado como material da sua coluna de Outubro. O editor do Scientific American. o artigo seria apropriado para um dos grandes jornais do Sul. ou até a Reader's Digest. se o texto se revelasse mais literário e narrativo. Contudo. eram suficientemente previsíveis . por muito que custasse reconhecê-lo. mas três tinham envolvido fenómenos de poltergeist. a Southern Living. poderia revelar interesse em incluir a prosa no número de Outubro. mas nunca rejeitava uma história daquelas. segundo parecia. os assinantes eram vitais na alimentação do negócio. No passado. Dependendo do que conseguisse. talvez interessasse à Harper's ou mesmo à New Yorker. Em cada caso investigado por ele. se a prosa fosse curta. espíritos considerados malévolos que conseguem mover objectos e causar estragos à sua volta. fizera com a história do disco voador. Segundo investigadores dos fenómenos paranormais .A história das luzes misteriosas tivera origem numa carta que Jeremy havia recebido um mês antes. Os editores. o seu primeiro pensamento foi que aquilo daria um bom artigo para o Dia das Bruxas. Algumas revelaram-se bastante vulgares: visões espectrais que ninguém poderia documentar cientificamente. no Novo México. além disso. Jeremy tinha investigado sete aparições diferentes de fantasmas.os poltergeist são geralmente guiados para uma pessoa e não para um lugar. se Jeremy alguma vez tivesse ouvido algum . Podia hesitar e pigarrear enquanto olhava para a fotografia da mulher. manifestava igualmente um profundo interesse no aumento do número de assinantes e falava disso com insistência. estavam a tornar-se o principal alimento dos media.

Carolina do Norte. mas não conseguiram explicá-las. para procederem a uma investigação.para permitirem que a vila patrocinasse um Circuito das Mansões Históricas e do Cemitério Assombrado. tinha-lhe chegado às mãos juntamente com a carta. Acho que se me varreu da memória. mas a lenda diz que o cemitério está assombrado pelos espíritos dos antigos escravos. O folheto. não o fiz. A carta oferecia mais algumas informações para tornar o contacto mais fácil e. li o seu artigo publicado no Scientific American sobre a aparição do poltergeist de Brenton Manor. folheou a brochura da sociedade histórica local. Não sei se alguma vez ouviu falar do cemitério de Boone Creek. os angustiados antepassados da nossa vila na sua marcha nocturna pelo mundo dos mortos. e o jornal da terra publicou um grande artigo acerca do mistério. chamo-me Doris Me-Clellan e. em Newport. sempre que o nevoeiro desce. Há quem diga que parecem luzes estroboscópicas. prometia o folheto. julgo que eram meteorologistas. descobrir o que são aquelas luzes. entre Janeiro e Fevereiro. Se pudesse vir até cá. para mim. talvez conseguisse uma explicação racional. Foi recordando a carta enquanto conduzia: Caro Mr. parecem as luzes das bolas suspensas nas discotecas. Pensei escrever-lhe na altura mas. Leu legendas sobre as casas que esperavam os visitantes. por qualquer motivo. há dois anos. outras pessoas juram que têm o tamanho de bolas de basquetebol. penso que chegou a altura de lhe dar conhecimento. Rhode Island. Marsh. Também eles viram as luzes. No Inverno. geólogos ou algo parecido. durante o qual. De qualquer forma. depois de a ler. passou por cima das informações sobre . no ano passado apareceram por aqui umas pessoas da Universidade de Duke. mas com o que actualmente se está a passar na minha vila. Se precisar de mais informações. as luzes azuis parecem dançar sobre as pedras tumulares. um restaurante aqui da vila. os visitantes veriam não apenas mansões datadas de meados do século XVIII mas também se as condições de tempo o permitissem. que incluía imagens da bonita vila e afirmações melodramáticas. telefone-me para o Herbs. Também já as vi.

Inglaterra. em que denunciava os hábitos menos louváveis dos seus colegas de profissão. Daí os erros frequentes. a mais famosa das casas assombradas da História. proibira a publicação. a visita ao cemitério seria incluída no programa turístico de sábado à noite. duvidava de que tivesse motivos para lhes telefonar. na margem norte do rio Stour. Em vez disso. sabia que só poderia contar com o seu próprio trabalho. Ali estava o segredo sujo da publicação de revistas. o estudo resumira-se a documentar a existência das luzes e a reiterar o facto de o equipamento utilizado pelos estudantes estar a funcionar em perfeitas condições. Contudo. Por não ter conseguido encontrar o artigo mencionado na carta (não havia arquivo no portal do jornal da terra na Internet). quase sempre pouco importantes. o que mal aflorava a informação de que ele precisava. o seu editor. se alguma coisa aprendera nos últimos quinze anos. O relatório da investigação não continha qualquer dos pormenores que ele esperava encontrar. Tinha sido escrito por três alunos de pós-graduação e. Na contracapa da brochura. e havia muitos que as faziam. Jeremy tinha escrito um artigo acerca disso. Qualquer artigo. dois anos antes. havia testemunhos de pessoas que haviam visto as luzes e excertos com a aparência de terem sido retirados de um artigo do jornal local. pela primeira vez. estranha música de órgão e toques de sinos. em qualquer revista. embora soubesse os nomes e números de telefones deles. e deu consigo a franzir o sobrolho perante o anúncio de que. ou não. Não era bem a Borely Rectory. incluíam cavaleiros decapitados. mas alguns colossais. No centro. em Essex. Além disso. continuavam a depender muito de opiniões e de meias verdades que haviam sido publicadas no passado. rodeados pelo que pareciam gravuras feitas à mão a partir do filme Casper.a parada e o baile de sexta-feira à noite. onde as aparições. contactou vários departamentos da Universidade de Duke e acabou por conseguir o projecto original de investigação. mas era suficiente para despertar o interesse de um jornalista. continha erros. o cemitério (a citação afirmava que sim). E nenhum outro . um complexo assombrado" da era vitoriana. destacava-se uma má fotografia de uma luz brilhante no sítio onde poderia ter estado. Embora todos os jornalistas se gabassem das suas investigações pessoais.

o Nate já estava atarefado a manusear os telefones. Já lá estava e. Caçar fantasmas não é tarefa para amadores. capaz de servir de fio condutor para um artigo? Não servia de nada preocupar-se. detector de radiações de alta-frequência. a tentar perceber se deveria mudar de profissão e. além de outras quinquilharias. tinha de fazer tudo como deve ser. Jeremy procurou em várias estações de rádio: rock. que parecia extraordinariamente interessado no tema. óculos de visão nocturna. o que tornava os equipamentos de ontem os equivalentes das ferramentas de pedra e de sílex. além de mais. Afinal. uma máquina de filmar de 35 mm. pois. detector electromagnético. Ficaria certamente maldisposto se a história acabasse na televisão e não na coluna habitual. que sempre pareciam ser exigidos numa investigação daquele género. que discutiam com paixão a necessidade de ser diminuído o peso com que os peixes podiam ser pescados. computador portátil. um livro que comprara por graça. era demasiado tarde.magazine se mostrou entusiasmado com a prosa. Gostaria de ver como o editor reagiria perante uma coisa daquelas. depois de uma tarde de copos). antes de se fixar num programa local em que estavam a ser entrevistados dois pescadores de linguados. de repente. Mesmo assim. hip-hop. Como seria de esperar. Na mala do carro. gravador de som e microfones. lamentou não se ter documentado melhor sobre a história dos fantasmas. O locutor. A sorrir com a recordação da cara do editor. Ia observando os carvalhos a passarem pela janela do carro. bússola. falava com uma voz profundamente . o homem mais parecia um coelho alimentado a anfetaminas. Trazia uma máquina Polaroid. quatro câmaras de vídeo com tripés. E se não houvesse quaisquer luzes? E se a carta fosse uma brincadeira? E se não houvesse uma simples lenda. explicara Jeremy ao editor. A tecnologia estava a andar depressa. o editor tinha protestado contra o preço dos equipamentos de compra mais recente. tinha todo o equipamento necessário para a caça aos fantasmas (tal como é descrito em Ghost Busters for Reall. fantasiando acerca do emissor de laser instalado numa mochila que Bill Murray e Harold Ramis usaram no filme Os Caça-Fantasmas. gospel. em Nova Iorque. antes de assinar a nota de despesas.

Encostou o carro à berma. colocadas ao acaso perto da estrada e em duas ruas que se cruzavam. ao abrandar. de águas salobras. segundo aquele mapa.nasalada. que talvez já tivesse sido graciosa e pitoresca. Depois de uma curva e contracurva. matas densas e uma ou outra herdade. limitadas por renques de árvores. As mulheres bonitas e bem vestidas. apertado entre os campos desolados pelo Inverno. o cenário mudou subitamente e não tardou que estivesse a circular por uma vila. e virou para uma estrada rural. O dono da loja anunciava a sua localização com um letreiro colocado em cima de uma pilha de pneus. O trânsito aumentou de intensidade nas proximidades de Greenville e ele rodeou a parte central da vila. A publicidade anunciava a feira de armas e moedas na Masonic Lodge. O asfalto foi estreitando até começar a ziguezaguear pela zona rural. Os alpendres decorados com vasos de flores suspensos e bandeiras americanas não conseguiam esconder a tinta estalada e . e as últimas alterações entre as equipas NASCAR. a pensar onde diabo estaria. reparou num campanário branco que despontava de entre as copas das árvores e decidiu que teria de seguir por uma das ruas que se cruzavam mais atrás. Olhou pelo óculo traseiro. Passado o primeiro. no ponto onde a velocidade limite voltava a aumentar. o limite de velocidade desceu para os 40 quilómetros horários. semáforo. Atravessou a ponte sobre o rio Pamlico. Enquanto tentava perceber. viu que estava prestes a entrar em Boone Creek. Para além de meia dúzia de casas móveis. Jeremy atingiu a outra ponta da vila num minuto. mas agora estava a morrer de velhice. As ruas calmas. As azáleas em flor. Ou a Câmara de Comércio tinha utilizado fotografias de qualquer outra vila no sítio da Internet ou ele se tinha enganado algures. Jeremy encarou a paisagem com desconsolo. e único. à volta das instalações da Universidade de East Carolina. em Grifton. Cerca de meia hora mais tarde. o caminho asfaltado era dominado por duas estações de serviço em estado precário e pela loja de pneus Leroy. Parou para consultar uma vez mais o mapa. estava em Boone Creek. o que em qualquer outro género de localidade seria considerado um risco de incêndio.

No entanto. reparou que a vila estava a morrer. princípios do século XX. Ficava perto do final do quarteirão. mas porque aquelas pessoas acenavam para qualquer carro que passasse por ali. pelo que deveria ter sido uma zona movimentada de comércio. e viam-se mesas por detrás das cortinas das janelas e no alpendre. a terra parecia bastante hospitaleira. de finais do século XIX. era bastante fácil de localizar. Dispersos por entre os espaços vagos e as montras entaipadas. numa casa de estilo vitoriano. Reparou na localização da Câmara de Comércio. Tanto quanto conseguia ver. Jeremy baixou o vidro da janela. mas os rododendros cuidadosamente aparados só em parte conseguiam esconder as rachas das bases das casas. piloto da NASCAR. uma taverna com o nome Lookilu e uma barbearia. Os carros estavam arrumados. Grandes magnólias davam sombra aos quintais. restaurada e com pintura cor de pêssego. Um impulso repentino levou-o a parar numa estação de serviço. sentados nos alpendres em cadeiras de balouço. Depois de tirar os óculos escuros. havia diversos estabelecimentos antigos. com a frente para fora. Uns quantos casais de idosos. Foram precisos vários acenos para ele perceber que não estavam a acenar-lhe por pensarem que o conheciam. um pequeno edifício indeFinível situado à saída da vila. para falar com a Doris depois de o número de clientes do restaurante ter diminuído. Depois de andar às voltas pelo emaranhado de ruas. pelo que Jeremy julgou melhor passar mais tarde. mas estavam a travar uma batalha inglória contra a extinção. acenaram quando ele passou. Muitas das lojas tinham nomes de sabor local e pareciam ter sido fundadas havia décadas. viu um restaurante fora de moda. O proprietário usava um macaco em mau estado e um boné de Dale Earnhardt. acabou por ir parar ao cais. onde a Doris MeClellan trabalhava. no pequeno parque de estacionamento existente ao lado. O Herbs.os fungos acumulados por baixo do beirado. todas as mesas estavam ocupadas. e voltou a entrar na estrada. Ao passar pelo centro. O único sinal de vida moderna era dado pelas T-shirts coloridas que ostentavam slogans como Eu sobrevivi aos Fantasmas de Boone Creek! " expostas na montra daquilo que era provavelmente uma versão rural e sulista de um centro comercial. Levantou-se com . o que o fez recordar que a vila tinha evoluído na confluência dos rios Creek e Pamlico.

a mostrar os dentes acastanhados. . O homem não deixava de ter razão. calças pretas. Jeremy pestanejou: .Vai a um enterro. .Não. com um sotaque indiscutivelmente sulista. Só quero ver o cemitério. tem o aspecto de quem vai a um funeral.lentidão e começou a dirigir-se para o carro.Perdão? .. A pergunta não era muito frequente. .Nova Iorque .Posso ajudá-lo? .Bem. a mastigar o que Jeremy julgou ser tabaco de mascar.Não gosto nada de enterros.esclareceu Jeremy.Não me parece . quanto às indicações. O proprietário empurrou a pala do boné para trás e falou lentamente: . . . o proprietário olhou-o de alto a baixo. O cartão pregado ao peito identificava-o como TULLY. Já Lhe aconteceu? Jeremy não sabia muito bem o que dizer. O homem assentiu. Fazem-me pensar que deveria ir mais vezes à igreja.acabou por perguntar.Acho que não deve ser daqui.perguntou. especialmente quando vem em resposta a quem pediu uma informação. para acertar as minhas contas antes que seja demasiado tarde.Não.. Tem um sotaque esquisito. acho que gosto de me vestir de preto. . não vai? . De qualquer forma. camisola preta de gola alta.acabou por arriscar. em vez de responder. Jeremy pediu indicações sobre o caminho para o cemitério mas. sapatos pretos Bruno Magli. . O proprietário tirou um trapo da algibeira e começou a limpar as mãos sujas de óleo. Jeremy olhou a roupa que vestia: casaco preto.Quem é que morreu? . .

Já ouvi falar. a pensar que o homem queria mesmo vender. . O homem não pareceu ouvi-lo. . . sou jornalista. Há cemitérios mais bonitos do outro lado da vila.Precisa de gasolina? . . Na verdade. quanto ao cemitério . . . . estou interessado apenas nesse. . Fez um aceno de cabeça.Mas. mas não trabalho nesse ramo. mas manteve-se calado.respondeu.É algum desses construtores civis ricos do Norte? Talvez pense construir condomínios ou centros comerciais naquele lugar? Jeremy negou com um movimento de cabeça.Tem algum conhecido enterrado lá? .O que é que vai lá fazer? Não há lá nada que ver..Na verdade. Qual é o que procura? . .Não.Não.Normal ou super? Jeremy virou-se no assento. é alugado.Ah! . .indagou ao dirigir-se para a traseira do carro.Bem gostaria de o ajudar.A minha mulher gosta dos centros comerciais.Não. mas nunca lá fui . .Acho que é normal. obrigado. O outro já estava a desenroscar a tampa do depósito.lhe a gasolina. Dos condomínios também.Chama-se Cedar Creek? O proprietário olhou-o com curiosidade. . Deu uma olhadela ao Taurus. .insistiu Jeremy.Acho que sim.O carro é seu? . .Não. a tentar imaginar o tempo que aquela conversa iria durar.Pode dizer-me como se vai para lá? . Pode ser uma boa ideia. . .exclamou Jeremy.

É preciso bilhete? . E o seu? . o homem tirou o boné. Sei reparar os dois tipos de carros e. .. não hesite em passar por cá.E é urologista? .Jornalista. Vi-os com os meus próprios olhos.Bom.anuiu Jeremy.Não percebo. como se Jeremy fosse parvo.Os fantasmas. correcto? . . se é para isso que está aqui. se quer comprar bilhete.Depois de pôr a gasolina a correr. .Em que é que pensou que eu estava a falar? . . .Ouviu falar nos fantasmas? .Estrangeiros e americanos . tem de ir à Câmara de Comércio. Mas.perguntou. e o caminho para Cedar Creek.A propósito. sem qualquer vontade de o corrigir.Ah . a esta hora não vai conseguir ver nada. . . . então veio cá por causa dos fantasmas. não sou careiro.Jeremy Marsh.Bom. . o meu nome é Tully. limitou. mas não esperou pela resposta. Mas..Não temos urologistas na vila. Tully esfregou o nariz e observou a estrada. . não pode entrar assim de qualquer maneira pela casa das pessoas. Se não tem familiares enterrados no cemitério.se a abanar a cabeça. Antes de responder. passou os dedos pelo cabelo e voltou para junto da janela do carro.Se tiver problemas com o carro.Pois ouvi. pois não? Jeremy levou algum tempo a perceber o que o outro estava a dizer-lhe. . . além disso. Os fantasmas não aparecem antes da noite. Mas em Greenville há uns quantos. claro.Os dois tipos? .esclareceu.

. O que me faz lembrar. Nunca gostei dessas coisas. de .Percebeu.Oh.repetiu. .começou Jeremy ao pegar na carteira -. como um robô. é claro que estávamos a falar da visita. Apontou na direcção da vila.. Do que é que julgou que eu estava a falar? . depois seguir a estrada principal para norte. O Circuito das Mansões Históricas e do Cemitério Assombrado.Acho que para vocês.Pois . casa do Wilson Tanner. claro.resmungou. Tully abanou a cabeça. . até chegar à curva que há a uns seis quilómetros do sítio onde a estrada costumava acabar. Jeremy assentiu e agradeceu. Tully assentiu.Obrigado pela ajuda. .Tem de voltar ao centro da vila. Não gosto que o Governo saiba tudo aquilo que eu faço. isso é um problema. como se estivesse farto da conversa. ainda deve ser pior. . Ainda bem que ajudei. onde era o cemitério de automóveis. cemitério automóveis .Está bem. E deve-me sete dólares e quarenta e nove cêntimos.Obrigado. Ouvi dizer que o Governo tem espiões por todo o lado.Mas. . de certeza? . assumindo um ar de quem sabe. Volte outra vez para norte. não é? Tully ficou a olhar para Jeremy como se ele fosse a pessoa mais estúpida que alguma vez percorreu a superfície da Terra.Bom. .Cruzamento. . continue até atingir o cruzamento e siga a estrada que passa pela casa do Wilson Tanner.Nem tenho a certeza .Não tem de quê.. Volte para oeste. O que eu faço não interessa a mais ninguém. vá em frente durante um bocado e vai ter mesmo em frente do cemitério. os médicos. . .. quanto ao caminho para lá.Aceita cartões de crédito? .confessou Jeremy. está bem . .Não.

O local era tão plano como os linguados de que ouvira falar na rádio. era uma forma de expressão. Jeremy aproveitou a oportunidade para desaparecer dali. Um outeiro. Elevava-se. não encontrou nem vestígios da casa de Wilson Tanner. quase escondido pelo excessivo crescimento das árvores de ambos os lados. mas. ficou bem informado sobre o estado da próstata do Tully. momentos depois. à direita. Parou no centro comercial para comprar um mapa e uma embalagem de postais com os lugares mais importantes de Boone Creek. Prometeu reparar a avaria. não tardou que se encontrasse numa estrada sinuosa que conduzia à saída da vila. elevava-se ao fundo. Depois de ele ter enchido as bochechas pela segunda vez com tabaco de mascar. Jeremy ficou a conhecer os caprichos do tempo. éditos ridículos do Governo e que o Wyatt. como estava muito ocupado. mas. ainda mais importante. Fazendo a curva. Voltou para trás e chegou junto de um caminho de terra. qualquer coisa se destacava. o enganaria se fosse lá atestar o depósito. o dono da outra bomba de gasolina. que o obrigava a saltar da cama pelo menos cinco vezes por noite para ir à casa de banho. não deixou de pedir a opinião de Jeremy sobre a doença. encontrou a curva e o cruzamento. O estranho parecia já estar à espera daquela resposta e. Estando a falar com um urologista. o Riker's Hill. Mas. Também procurou informações sobre o Viagra. Passou por um sinal. Como por magia. o homem teria de deixar lá o carro pelo menos durante uma semana. O condutor levantou o capô e Tully olhou lá para dentro e mexeu nuns fios. a conversa foi interrompida por ter parado um carro do outro lado da bomba. até que o bosque começou a ficar mais aberto. e momentos depois parou em frente do portão principal do cemitério de Cedar Creek. pois parecia ser a única elevação de terreno naquela parte do estado. Ali. estavam ambos a falar no caso de Mrs. . Dungeness e da sariguéia que Lhe entrara em casa durante a noite para comer a fruta guardada na cesta da cozinha. a recordar-Lhe que estava a aproximar-se de Riker's Hill. pois o malandro modificava a calibração das bombas logo que o camião da Unocal se afastava.Tully manteve-se a falar sem interrupção durante os quinze minutos seguintes. não sem antes ter cuspido para o lado. local de uma escaramuça durante a Guerra Civil. seguiu aos saltos por entre os inúmeros buracos. infelizmente.

espantado pela falta de nomes. logo a seguir. o cemitério de Cedar Creek localizava-se num ligeiro vale. Não havia muito que ver. num terreno cujas ondulações fizeram que Jeremy se lembrasse de ondas a rolar para a praia. No caminho de terra que se seguia ao portão notavam-se sulcos profundos feitos pela chuva e um tapete de folhas a apodrecer. não havia qualquer vestígio de vida civilizada. O terreno recebia a sombra de diversos carvalhos e tilândsias. cúmulos de nuvens corriam pelo céu e. Porém. acima da terra. As raízes saíam do tronco. mas sem a frigidez árctica do de Nova Iorque. O local parecia ter sido criado por especialistas de Hollywood. Por cima dele. lá longe. Coberto de hera. mas a enorme magnólia do centro dominava tudo. Ramos caídos aqui e ali. As poucas onde ainda se lia qualquer coisa datavam do final do século XVIii. antes de abrir a bagageira para tirar a máquina fotográfica. com falta de metade do telhado de zinco e uma das paredes a desabar. Jeremy sorriu. O outeiro de Riker's Hill era coberto de pinheiros e nos terrenos que se estendiam a partir da base viu um barracão abandonado que servira para secagem de tabaco. Saiu do carro e estendeu as pernas. um falcão isolado voava em círculos. Para além do barracão. Tully tinha razão. inspirou profundamente. a apreciar o odor a pinheiro e a erva fresca. estava inclinado para um dos lados. parecendo que um ligeiro aumento da brisa seria suficiente para o derrubar. era perfeito. Deu uma vista de olhos às lápides de ambos os lados. como dedos atacados pela artrite. Seguiam-se mais criptas danificadas e . para cemitério assombrado. Os poucos relvados pareciam ali deslocados. Jeremy ouviu ranger os gonzos quando empurrou o portão enferrujado e caminhou com passos lentos pelo caminho de terra. Especialmente para um que acabasse por ser apresentado na televisão. que pareciam quase todas partidas. Embora o cemitério devesse ter sido um lugar arranjado e calmo de descanso. O ar era frio. fora votado ao abandono. outro monumento tinha caído para cima do caminho. O tecto e as paredes laterais tinham caído lá para dentro e. acabando por verificar que as gravações originais tinham sido quase apagadas pelos elementos e pela passagem do tempo. Mais adiante. uma cripta parecia ter sofrido um assalto. Ervas altas apareciam por entre as pedras tumulares. dando a ideia de que estava a afundar-se lentamente.Rodeado por colunas de tijolo e por uma sebe enferrujada.

provavelmente.monumentos derrubados. se havia luzes inexplicadas. Jeremy não notou vestígios de vandalismo. Se não estivessem rodeados de pessoas mortas. o que explicaria aquele ar de abandono. O tronco negro tinha mirrado e os ramos baixos teriam sido suficientes para os entreter durante horas. Durante algum tempo percorreu o cemitério e foi tirando fotografias. Também fotografou a magnólia. na vila dos fantasmas. notou um movimento pelo canto do olho. E não havia dúvidas de que teria de passar uns dias ali. mas naquele lugar não havia qualquer sistema de iluminação. pôs-se a imaginar qual seria o aspecto daquele lugar numa noite de nevoeiro. Enquanto fazia uma rápida análise das fotografias para ver se seriam suficientes. a maior que já vira. talvez fosse bom saber quando. De qualquer forma. teria de passar pela biblioteca para investigar a história do cemitério e da própria vila. donde poderiam provir? Pensou que os fantasmas" não passassem de luzes reflectidas transformadas em prismas pelas gotas de água do nevoeiro. é bom que se diga. Pretendia saber as alterações que fora sofrendo ao longo dos anos. propício a deixar a imaginação das pessoas à solta. ou como. viu uma mulher a caminhar para ele. Era. nem mesmo no cemitério. embora profunda. teria de arranjar. Também não lhe pareceu que alguém ali tivesse sido enterrado nos últimos trinta anos. Contudo. Parando à sombra da magnólia. Talvez a biblioteca local possuísse um. quando eram todos pequenos. Em Riker's Hill também não viu sinais de habitações que pudessem ser responsáveis pelo fenómeno. se o nevoeiro estivesse disposto a cooperar. há muito que as pessoas teriam estabelecido a correlação. havia apenas sinais de degradação natural. mas reparou que havia uma única estrada e. um bom mapa topográfico da zona. botas e uma camisola ligeira que casava . Para além do mapa de estradas que acabava de comprar. Levantando os olhos. a data poderia dar-lhe uma pista sobre a causa. a ele e aos irmãos. Fantasmagórico. sem dúvida. Supôs que pudessem provir de faróis de automóveis. Tinha de saber quando é que as luzes foram avistadas pela primeira vez. Trazia calças de ganga. Não seriam para publicar. serviriam de pontos de referência para o caso de encontrar imagens mais antigas do cemitério. se assim fosse. as destruições tinham ocorrido.

ajustou a mala ao ombro e continuou a andar. de boca aberta.cumprimentou. em voz alta. Deixou-se ficar. não devia olhar dessa maneira repreendeu. Ela não olhou para trás.se e continuou a andar. boa tarde . . Jeremy desejou que ela parasse. Pensando melhor. Em vez de parar. Por momentos. Com olhos apreciativos. . abrandou um pouco o passo.As mulheres gostam de homens que saibam ser subtis. deu um passo para a seguir. Talvez o cemitério estivesse condenado e já não fosse propriedade pública. Fosse quem fosse.Eh! . Sorriu abertamente quando a mulher estava próxima. Jeremy notoulhe a mesma expressão divertida. . E continuou a avançar para ele. pela primeira vez na vida não conseguira encontrar uma resposta. mas foi a cor dos olhos que lhe despertou a atenção: à distância. tinha estacionado o carro imediatamente atrás do dele. Mas poderia tratar-se de uma simples coincidência. como se não tivesse reparado nele. Ao ouvir a saudação.Olá. a coincidência era bastante atractiva.bem com a mala de tela que transportava.Sabe uma coisa. Jeremy ficou a vê-la seguir. inquisitiva. Não era problema. Mostrava uma expressão quase divertida.bradou. Voltou-se de novo. pensou que ela estava a aproximar-se para o convidar a sair dali. não estava interessada. No . Em vez disso. a recuar. ouviu-a rir ao passar-lhe ao lado. . tornava desnecessária a maquilhagem. Jeremy endireitou-se. com a cabeça descaída. Muito bem. pareciam quase violeta. e tinha cabelo castanho que lhe descia para os ombros. Jeremy voltou a ouvi-la rir. ela limitou-se a virar. A pele. de longe. Antes que pudesse evitá-lo. com um ligeiro toque cor de azeitona. enquanto guardava a máquina fotográfica na bolsa.

Ligou o motor e acelerou ligeiramente. Ora bem. blá. Além do mais. e ele tinha quase a certeza de que não estava. Na verdade. fama. mas conhecia o suficiente das mulheres para compreender que espiar era bastante mais repreensível do que o simples apreciar com os olhos. A mulher poderia estar ali de visita aos defuntos. Dinheiro.entanto. não tinha nada a ver com aquilo. talvez estivesse farta dos olhares. não fazem? Franziu o cenho. com a mala de tela a balouçar a cada uma das suas graciosas passadas. aquele era o problema do jornalismo. Tinha um trabalho a fazer e o seu futuro podia depender dele. A fazer o quê? Suspirou. As pessoas fazem isso constantemente. as raparigas bonitas não eram para ali chamadas. naquele preciso momento. televisão. para ver se ela estava a observá-lo. blá. recordou a si mesmo que estava num cemitério. para se concentrar na tarefa . enquanto este parecia a cidade de São Francisco depois do terramoto de 1906. Como quem se enquadra num lugar. Julgava que poderia ter ido no encalço da mulher para ver o que ela andava a fazer. andava. quanto mais se afastava do cemitério mais fácil se Lhe tornava deixar desvanecer-se a imagem da mulher. Talvez fosse um costume do Sul. E ela parecera não gostar de ser apreciada. Só depois de ela ter desaparecido conseguiu recordar-se de que. poderia também dar uma vista de olhos pela zona adjacente. Jeremy esforçou-se para não olhar enquanto ela desaparecia por detrás de um dos carvalhos. Tornara-o curioso. Aquele era um jogo a dois. Regressou ao carro e quase dançou de contente por nem sequer ter olhado para trás. Talvez os homens estivessem sempre a mirá-la. O que pressupunha. Ou talvez não desejasse ser interrompida enquanto andava. e a seguir já vira o cemitério. a maioria das pessoas teria pelo menos correspondido à saudação. Uma rápida vista de olhos pelo retrovisor provou-lhe que tinha razão. era evidente. blá. A única diferença era que a maioria dos cemitérios apresentava sinais de ter quem viesse cuidar deles de vez em quando. que a mulher estivesse interessada naquilo que ele estava a fazer.

TRÊS Quando chegou ao restaurante Herbs só algumas das mesas do alpendre estavam ainda ocupadas. O olho treinado de jornalista também notou que o carro da mulher tinha desaparecido. Tirou os óculos escuros e empurrou a porta. embora surpreendente. Sorriu para si mesmo. Ao subir os degraus para chegar à porta. como vira fazer aos velhotes sentados nos alpendres. sem resultado. o que fez Jeremy lembrar-se do olhar curioso com que as vacas observam quem se aproxima da vedação do campo de pastagem. passava pouco das 14 horas. Também não encontrou algo tão simples como uma casa de herdade. notou que as conversas foram interrompidas e que as pessoas ficaram a observá-lo. Os serviços de finanças deviam dispor dessa informação. Consultou o relógio. sensação de desapontamento. As pequenas mesas quadradas espalhavam-se pelas duas salas principais. Ao aproximar-se de novo do cemitério. separadas por um lanço de escadas. Poderia até tentar falar com Doris. que desapareceu com a mesma rapidez com que se tinha manifestado. Era provável que ela pudesse lançar alguma luz" sobre o caso. o que o levou a pensar que o Herbs estaria agora mais acessível.que tinha entre mãos. Só a mastigação continuou. As paredes cor de pêssego eram ofuscadas pelas madeiras brancas. a pensar se a mulher que vira no cemitério também teria achado graça ao trocadilho. além de se manter alerta. Cumprimentou com acenos de cabeça e de mãos. de terra ou pavimentadas. que interceptassem aquela. para a existência de moinhos de vento ou construções com tectos de zinco. Continuou pela estrada para ver se havia outras estradas. . mas acabou por desistir. à procura de uma estrada que o levasse ao cimo de Riker's Hill. uma de cada lado do edifício. o que lhe provocou uma ligeira. em completa frustração. Fez inversão de marcha e percorreu o mesmo caminho. deu consigo a pensar quem seria o proprietário dos terrenos que o rodeavam e se Riker's Hill seria propriedade pública ou privada.

Os olhos seguiam-no.Querido. Ficou a observá-la a dirigir-se para a cozinha e a empurrar a . . . Uma vez mais. esperando que a Doris lá estivesse. Depois de confortavelmente instalado junto de uma janela. não tenho.o que dava ao lugar um ar de conforto caseiro. ao passar. como os das vacas. viu num relance que a cozinha era no fundo da casa. . Deixou-se ficar de pé.Lamento. estava a pensar se a Doris MeClellan estava por cá. a brincar com os óculos escuros. se quiser comer qualquer coisa. . A ementa está em cima da mesa. posso trazer-Lhe qualquer coisa para beber? . As pessoas calavam-se.Não me importo nada. viu a empregada aproximar-se. Aquela história dos acenos parecia ter uma espécie de efeito mágico. . Deseja que a chame? .Café serve perfeitamente.Vem já a seguir.Oh. Jeremy sorriu. Quando ele saudava com as mãos e com a cabeça os olhos baixavam e o murmúrio das conversas voltava a ouvir-se. está nas traseiras .chilreou. amor .Vou já atendê-lo.arriscou. Estaria no final da casa dos vinte anos. Como o hábito de acenar com a cabeça e com a mão.Sente-se onde quiser. . com uma cara cheia de alegria.Na verdade. . . Mas temos café. querido.informou uma Rachel radiante. alta e magra como uma cana.Tem capuccino? . O cartão de identificação dizia que se chamava Rachel. e viu uma empregada de mesa a sair da cozinha.Se não se importa. Jeremy reflectiu sobre o hábito ali existente do uso de cartões de identificação. Sorriu. foi analisado pelos mesmos olhares vagarosos. Cada trabalhador teria um? Gostaria de saber se era uma espécie de norma. .

emergiu outra mulher. vinha de avental.Ora bem. Por vezes. acho que a patroa não vai preocupar-se com isso respondeu. Desvanecido o efeito da surpresa.Por que não me disse que vinha? . . perguntou: . . .E veio até cá para escrever um artigo acerca dos fantasmas? Ele ergueu as duas mãos: . . A cabeça de Rachel apareceu a espreitar da cozinha.concordou ela.Assim parece.É claro que sim.Bem. ela resolveu puxar uma cadeira.Pois recebi. . deve ser o Jeremy Marsh. Parou junto da mesa.Ela adora conversar. pôs as mãos nas ancas e abriu-se num sorriso. Rachel.Gosto de surpreender as pessoas. O sotaque fazia parecer que as letras eram ditas uma por uma. obrigado.Eh. achas que a patroa se zanga se eu me sentar? Este homem quer falar comigo.Conhece-me? . Jeremy. Era o oposto de Rachel: baixa e forte.Não desejo que arranje problemas com o seu patrão. a surpresa facilita a recolha de informações. que supôs ser a Doris. A pestanejar. assim terá de ser .Não. se está na sua hora de trabalho. Parecia ter cerca de sessenta anos. Especialmente com um homem . . Jeremy reparou que trazia um bule de café. com cabelo louro que começava a embranquecer.Importa-se que me sente? Suponho que veio aqui para falar comigo. . . Vi-o no Primetime Live de sexta-feira.porta. Uns momentos depois. Deve ter recebido a minha carta. . Doris olhou por cima do ombro e bradou: . mas não tinha cartão de identificação na blusa com flores.

. prefiro que esta seja acompanhada com uma boa refeição. se lhe vou contar uma história.informou.Pois é. tomate. abri para fornecer pequenos-almoços e almoços..Está a ver.Parece um belo local para se trabalhar.Com certeza . .Não tenho assim tanta fome.Rachel. Está com ar de quem comia qualquer coisa e. Fornecíamos comida saudável ainda antes de ela se tornar popular e fazemos as melhores omeletas deste lado de Raleigh . pelo seu aspecto. Doris virou-se novamente para ele. E tenho propensão a ser lenta a contar histórias. e disse: .Segundo percebi.bonito como esse. pepino e o pesto é feito segundo uma receita minha.. . Leva couve. fazes o favor de nos trazeres um par de Albermarles? . só para que saiba. Doris sorriu. para o observar melhor. Jeremy rendeu-se. é a patroa.Há quanto tempo tem este negócio? . Olhou com ares de apreciadora.A sanduíche de galinha com pesto parece-me excelente.Confesso-me culpada . .Há quase trinta anos. .respondeu Doris. até fabricamos o pão. Não há problema..respondeu a Rachel. . quem é o seu amigo? Nunca o tinha visto por aqui.A propósito.Bom. .Diria que adoraria uma sanduíche de galinha com molho pesto. . com os olhos a brilhar de satisfação. Jeremy sorriu. . . Rachel aproximou-se com duas canecas de café. . todos os dias. Inclinou-se para diante e perguntou: ..Está com fome? Devia experimentar uma das nossas sanduíches de almoço. .hesitou. .

. Hoje mesmo. repetiu toda a vossa conversa e a Rachel nunca poderia resistir. Jeremy soltou uma gargalhada.Diga-me uma coisa. Rachel pareceu interessada: . a Bonnie.A mulher ensurdeceu? . Todos nós achámos muita graça ao comentário dele.De verdade? .Cheguei a pensar que vinha assistir a um funeral. de qualquer modo. Ninguém consegue sair de lá em menos tempo que o que os cubos de gelo levam a derreter-se durante o Inverno. mas quis certificar-se. tive de o afugentar. quando passou por cá.Oh. conseguiu aguentar durante tanto tempo. ele agora fala com os clientes. Não consigo trabalhar com ele ao pé de mim. há doze anos. juro que não sei como é que a mulher dele.Julgo que Deus Nosso Senhor se apercebeu de que ela já tinha sofrido demasiado. Depois de um gole.foi a única resposta de Jeremy. . graças a Deus . .É sempre o mesmo fala-barato.respondeu Rachel a piscar um olho. Jeremy fez uma cara de espanto quando ela se retirou. . . .É verdade .Aposto que ele lhe encheu os ouvidos. Jeremy pegou na caneca do café.esclareceu Doris. seria capaz de falar com uma caixa de sapatos. Se não houvesse ninguém por perto para o ouvir. . Bendito seja. por isso. como é que ele percebeu que eu .respondeu Jeremy.explicou. Doris inclinou-se para diante. . Mas.É um famoso jornalista que veio até cá para escrever um artigo sobre a nossa bela vila. .Penso que terá julgado ser essa a razão da sua vinda.Chama-se Jeremy Marsh . Doris riu-se ao ver a cara dele. Bom. .O Tully passou por cá depois de lhe ter ensinado o caminho para o cemitério . ficou surda e.Ah! .Um pouco.. .

Bom. controlado por métodos científicos. Mas a verdade é que algumas pessoas têm um dom. Sou bastante intuitiva acerca das pessoas. .E se Lhe pedisse que fizesse um teste. . .Estou a ver . poderá ler os meus pensamentos? ..Presumo que não acredita em espíritas . Geller .esclareceu Doris. sob estrita supervisão. do facto de eu estar ligada aos fenómenos psíquicos. . mas ler o que lhes vai na mente era mais para a minha mãe. na verdade não acredito. Doris alisou o avental. . .Estou a perceber! Doris olhou-o atentamente.Pelo menos. não é nada disso . . e de outras coisas.Assim sendo. Os meus dons são diferentes. Sou adivinha.Com certeza..Até podia ser o senhor o supervisor. Jeremy ficou a olhar para Doris.Não acredita em mim.notou ela.. não teria qualquer problema com isso. E também posso dizer o sexo de um bebé antes de ele nascer. que lhe sorria. . . a pensar em Uri Geller. a culpa recai sobre mim. a abanar a cabeça. são uns excêntricos. Ninguém conseguia esconder-Lhe nada.admitiu Jeremy.Bom.Não. Na sua maioria.estava cá por ter sido contactado por si? . .. Até sabia o que eu tencionava comprar-lhe como presente de aniversário. na maior parte dos casos eu também não.Não. . vamos partir do princípio de que é adivinha.Sempre que acontece qualquer coisa fora do habitual. Isso quer dizer que pode descobrir água e dizer-me onde devo construir um poço. ter de me ligar com fios como se fosse uma árvore de Natal. na maioria das situações. Acho que é da terra. . o que anulava uma boa parte do prazer que eu sentia.

aliviado por passar à acção. não foi para isso que veio até cá. Antes de começar.O furacão de 1954. por causa do Hazel.Importa-se que eu grave a nossa conversa? . a história começa por volta de 1890. Contudo.. pode pôr-me à prova quando quiser.Muito bem. Já não resta nada da aldeia.. Só mais tarde é que se soube que.Com certeza . . . Doris pareceu saber aquilo que ele estava a pensar. Atingiu a costa perto da fronteira com a Carolina do Norte. Hazel? .Desculpe. não conseguirá encontrar o que quer que seja da aldeia. Desculpe. Na altura. como eu estava a dizer. para estupefacção dos observadores. em 1973.. .anuiu Jeremy. onde se apresentou perante cientistas e uma assistência em estúdio. no virar do século XIX para o século XX. mas. aquela a que as pessoas do Norte chamam a Guerra Civil. . ou seja.. .De maneira nenhuma.De qualquer das formas. como quiser.Ah. não é verdade? . . esta era ainda uma vila segregada e a maioria dos negros vivia num local chamado Watts Landing. Continue.. provocando a chamada fadiga do material. Doris bebeu um gole de café.É como lhe digo. ambos os lados da colher começaram a dobrar-se para baixo. Colocou-o em cima da mesa e carregou nos botões apropriados. Boone Creek ficou praticamente submersa. Quer que lhe fale dos fantasmas. Jeremy meteu a mão no bolso e tirou de lá um pequeno gravador. naquele tempo. calculo que vivessem ali cerca de trezentas pessoas.. pois. mas. Quando balançou uma colher num dedo. antes do programa começar ele tinha dobrado a colher repetidamente. Na sua maioria descendentes de escravos que tinham fugido da Carolina do Sul durante a Guerra de Agressão do Norte. . o que restava de Watts Landing foi arrastado pelas águas. Piscou um olho e Jeremy sorriu.tinha tanta confiança nos seus poderes de telecinésia que aceitou ir à televisão britânica.

que obrigasse à correcção do traçado da linha..Não. E o traçado que propunham atravessava directamente o cemitério dos negros. . o cemitério seria engolido inteiro. que. as dos nossos seriam igualmente violadas. Que os antepassados do seu povo percorreriam a Terra à procura do seu local de descanso original. Ergueu as sobrancelhas e Doris sorriu. Continuando a história. Algumas ainda o são. a Union Pacific apareceu para construir o caminho-de-ferro. Doris olhou para ele com uma expressão quase coquete. é provável que pense que estou a mentir. . não é? . Viera das Caraíbas. Os meus cumprimentos à chefe.Sem dúvida. transformaria esta terra numa grande zona cosmopolita. Disse que. rogou-nos uma praga. Nem lhe deram qualquer oportunidade de expor o caso. Doris continuou a sua narrativa. Como era de prever. é claro.Melhor do que tudo o que consegue encontrar em Nova Iorque. quando lhe foi recusada a entrada no gabinete do presidente da Câmara.insinuou. Pelo menos era isso que prometiam. . . Mas os tipos que dirigiam o município nem queriam ouvir falar disso. que calcariam Cedar Creek durante o caminho e que. Jeremy pegou na sua e deu-lhe uma dentada. A líder da aldeia era uma mulher chamada Hettie Doubilet. a Rachel chegou com as sanduíches e deixou os dois pratos em cima da mesa. no final. não sei de qual das ilhas. aos brancos. e Jeremy admirou-se ao pensar que. como se não tivesse havido qualquer interrupção. Sendo do Norte.Naquele tempo muitas das pessoas eram racistas. Hettie Doubilet ficou furiosa com os tipos do município e. .Ora bem. caso as campas dos seus antepassados fossem violadas. mas isso para agora não interessa. Naquele momento. e quando percebeu que iam exumar todos os corpos e transferi-los para outro local. ela deveria ter despedaçado uns quantos corações. não acredita. Entre os do Norte ninguém acredita.É um sedutor. mas agora estão em minoria. ficou fora de si e tentou que o município fizesse qualquer coisa.Acredito em si. mas não estou. Marsh . quando jovem. Mr. segundo a lenda. .

Não. ao longo dos anos. Os homens do município. a maioria das pessoas começou a optar pelo enterramento em outros cemitérios que há à volta da vila. para encurtar uma longa história. como se a responsabilidade fosse de quaisquer vândalos.Está a falar dos alunos da Universidade de Duke? . julgando que Hetel era a responsável. colocaram lá guardas. pôde verificar o que está a acontecer. Agora é propriedade municipal. os negros mudaram os mortos. .Portanto. coisas do género. E. estou a falar de tentativas . . que só estiveram cá no ano passado. Não.Bom. . Doris deu uma dentada na sanduíche. já não utilizam o cemitério? . a situação foi sempre piorando. depois disso. o lugar foi definitivamente abandonado em finais da década de 1970.Não sei ao certo. . o cemitério de Cedar Creek começou a ter problemas. mas ninguém cuida daquele lugar: Há vinte anos que não é tratado. as pessoas nunca mais deixaram de acreditar que os espíritos dos escravos andam por ali. não.Oh.Já se preocuparam em avaliar as razões por que o cemitério está a afundar-se? . Parece que o lugar está a afundar-se. Há muitas pessoas poderosas que têm antepassados sepultados naquele cemitério e as campas dos avós partidas seria a última coisa que gostariam de ver. não esteve? Jeremy assentiu. mesmo antes disso. mas. em vista do que estava a suceder. Esteve lá.Portanto. para outro cemitério. não é desses. como a Hettie disse que havia de acontecer? De qualquer maneira. tal como a Hettie tinha previsto. mas diria que alguém o deve ter feito. qualquer que fosse o número de guardas que mandassem para lá. a construção do caminho-de-ferro avançou e. depois disso. . meu querido. Estou certa de que pretendem uma explicação e até ouvi dizer que veio gente de Raleigh para tentar descobrir o que está a acontecer. Eram uns miúdos. Umas quantas lápides partidas. uns anos mais tarde. não é. começaram a aparecer as luzes.ninguém lhe prestou atenção. Mas os distúrbios continuaram. E. um a um.

E.O que foi? A resposta veio. e apenas quando existem sentimentos fortes. .Estou a perceber . como eu disse. Marsh. . disposto a colaborar.Muito bem .Água. fazendo uma pausa.Mas acho que tenho uma ideia aproximada. A minha mãe teria um êxito enorme consigo. Sei onde existe água. não quero assustá-lo. Jeremy ergueu as sobrancelhas. . E digo-Lhe sem rodeios que aquela terra está a afundar-se por causa da água que existe no subsolo. Sabia que fica com uma cara muito séria sempre que alguém lhe está a dizer qualquer coisa em que o senhor não está disposto a acreditar? . . Encarou-o com um olhar penetrante. um ou outro palpite. Assuste-me. É muito fácil percebê-lo.Lembre-se de que sou adivinha.É tão engraçado.Sabe o que descobriram? .Não. . . Tenho a certeza. . é verdade.Bom.. Acho a expressão amorosa.mais antigas.Avance. .admitiu.Não. .Está a pensar em algo que eu talvez não possa saber.No .anuiu Jeremy.começou. Ela conseguiria ler em si como num livro. Mr. Apenas consigo. .comentou Jeremy. .Sendo assim.Pois bem.. Nunca me tinham dito isso. Lamento . .Muito bem . com um brilho maroto nos olhos. além do mais. . muito simples: .Água? . . Doris soltou uma gargalhada. E lembre-se de que o meu dom não é ler a mente das pessoas. Talvez da altura em que os estragos começaram. os meus dons são diferentes dos da minha mãe. diga-me em que é que eu estou a pensar? Doris hesitou.

Doris estremeceu (nenhuma surpresa. silêncio . Doris voltou a sorrir-lhe e olhou de novo para a mesa. Vezes sem conta. sou adivinha . . quase como quem pede desculpa.Está bem.entanto. Ela apertou-lhe a mão.Ah . .lhe nas mãos.Oh. como se tentasse que ele lhe dissesse qualquer coisa. Doris manteve-se em absoluto silêncio. Jeremy fechou os olhos. .Como lhe disse. . Jeremy abriu os olhos e encarou-a. Deixe-me segurar-Lhe as mãos.A sério.acrescentou Jeremy -. Limitou-se a olhar para ele.Então? Doris estava a observá-lo com um olhar estranho. Vou pensar em qualquer coisa.No entanto.Agora pense em algo pessoal que eu não deveria poder saber. a sorrir. pensou Jeremy. . posso garantir-Lhe que não está grávido. é isso? . . durante largos momentos. Voltou a levantar os olhos para ele. . Sabia o suficiente para não se manifestar. pelo que ao vê-la permanecer em silêncio pensou tê-la apanhado. Pensou no motivo que levara Maria a deixá-lo e.À vontade.Nada.esclareceu.Óptimo. . parece que hoje não consegue ler as cartas. De súbito. Ele já tinha passado por aquilo. . Neste momento está apenas a troçar de mim. está bem? Jeremy assentiu.Tenho de concordar que tem razão quanto a isso. . . apercebe-se de que neste caso está a expor-se.mandou Doris ao pegar. aquilo fazia parte do espectáculo) e logo a seguir soltou-lhe as mãos. Ele sorriu. .

Apertou suavemente.Desculpe. não é essencial que se recorde de tudo. as premonições e a intuição são apenas um produto da interligação entre experiência. Na sua maioria. num instante. Para algumas pessoas revela-se na capacidade de memorizar pormenores insignificantes. No entanto. mas o que o confundiu foi a compaixão que notou nos olhos dela. As capacidades paranormais.. e a capacidade de treino da memória está bem documentada. Jeremy não sabia muito bem como havia de reagir quando ela voltou a pegar-lhe na mão. o cérebro aprende a desfazer-se da maior parte da informação que recebe. Para outras pessoas.Não .Peço imensa desculpa. senso comum e conhecimento adquirido. ou de uma máquina. mas pode servir para formar um médico excelente. . pois.01 por cento é muitas vezes o que distingue uma pessoa de outra. ou para interpretar dados financeiros da maneira mais conveniente e para permitir que um indivíduo ganhe milhares de milhões a comprar e a vender fundos de investimento. até os piores estudantes recordam 99.insistiu Doris. É verdade que algumas pessoas têm melhor memória do que outras. além de serem capazes de codificar tudo de forma rápida e exacta. . manifesta-se na capacidade de analisar os outros. . do senso comum e da experiência. dotadas da capacidade inata para se servirem das lembranças. por razões óbvias.Não tem importância . essas pessoas. as pessoas desvalorizam muito a quantidade de informação que acumulam no decurso da vida. manifestam aptidões que aos outros seres humanos parecem sobrenaturais. além de que o cérebro humano tem a capacidade de.retorquiu Jeremy com convicção.99 por cento daquilo que lhes aconteceu durante a vida. Não foi apropriado. Contudo. Não devia ter feito o que fiz. um facto que muitas vezes se revela em ambientes de exames. Teve a sensação desconfortável de que Doris ficara a saber mais pormenores da sua história pessoal do que em condições normais deveria saber. correlacionar as informações de uma forma que não está ao alcance das outras espécies. Mas o que Doris tinha conseguido estava um pouco para . Olhou-o nos olhos e voltou a pegar-lhe na mão. A restante percentagem de 0.

Ou. pensou Jeremy. pelo menos. e ela estava pronta a admiti-lo. Jeremy soube quem namorava quem. mas. E. E se acreditava possuir certas aptidões.Bom. parece que acabo de confirmar que sou maluca. Doris não dissera o que quer que fosse. como estava decidido que apreciássemos esta bela refeição. as pessoas com quem era difícil trabalhar e o caso do ministro da igreja pentecostal da terra com uma das suas .Bom.. fora apenas a maneira como olhara para ele que o tinha levado a pensar que ela sabia coisas que lhe deviam ser desconhecidas. Não por obra e graça das suas aptidões. . Mais ainda do que Tully. .Fale-me da vila de Boone Creek . Uma vez mais. será conveniente conhecer um pouco melhor este lugar. de tudo. não provinha de Doris. Há mais alguma coisa que eu deva dizer-lhe? .De que aspecto? . Ela voltou a pegar na sanduíche. talvez seja melhor conversarmos um pouco mais. foi essa a primeira impressão de Jeremy. bom. apesar de tudo. não tinha realmente acontecido coisa alguma. não é? . Doris falava quase sem interrupção. E tal crença estava a ser elaborada na cabeça dele. de qualquer das maneiras.além disso. Doris parecia saber tudo o que se passava na vila.Oh. até tentar refugiar-se na explicação lógica do que teria sucedido. mas porque a informação corre numa povoação pequena como o sumo de ameixa pela barriga de uma criança. Penso que se tenho de cá ficar por uns dias.Não. As verdadeiras respostas estavam na ciência. . que mal havia nisso? Era provável que para ela não parecessem sobrenaturais.pediu ele. de facto. ela pareceu perceber exactamente o que ele estava a pensar. por parte de Jeremy não falaram de grande coisa. Passaram a meia hora seguinte a conversar. de maneira nenhuma. ela parecia uma excelente pessoa.. Ela conseguira saber. recordou a si mesmo.

. Toda a gente sabe isso.Todos os meses. . Mais importante. o xerife Wanner também tem os seus problemas. Depois de ele falecer. . . faltou.O homem é uma ameaça na estrada . quero ver o que encontro por lá. faz sentido . Ele pegou no gravador. interrompendo a gravação. . era nunca chamar o reboque do Trevor se o meu carro se avariasse. Aquilo. Pretendo passar pela biblioteca antes que feche.Eu sei. Por momentos. começaram a murmurar entre si. . Não é preciso dizer que tinham ouvido tudo e.Pois. como se estivesse a par de tudo o que acontecia na vila. O meu marido. Jeremy consultou o relógio. Mas estava a falar da sua coluna.declarou Doris. Não é todos os dias que recebemos um visitante famoso. . Com todas aquelas dívidas de jogo.Já a leu? . mas como o pai dele é o xerife.Uma breve aparição no Primetime não faz uma pessoa famosa. após o que o meteu na algibeira do casaco.Bom. O senhor é um homem muito inteligente.sugeriu Doris.paroquianas. pois o mais provável era o Trevor estar bêbado. . Doris levantou-se da mesa e começou a conduzi-lo para a saída do restaurante. logo que Jeremy e Doris saíram. ninguém está disposto a agir.Julgo que sim. era um assunto excitante. .Suponho que está na hora de ir . segundo a opinião da Doris. No entanto. que Deus o tenha em descanso.me a coragem para anular a assinatura.Obrigado. .respondeu Jeremy. passava o tempo na garagem e adorava o magazine. Aproveitando a acalmia. Foi como se apanhasse o facho onde ele o deixara cair. toda a gente decidiu de imediato. acho que não deve ficar surpreendido. ficaram ambos calados. Os poucos clientes que restavam seguiramnos com os olhos. o almoço foi por conta da casa. qualquer que fosse a hora do dia.

Marsh. por pertencer a Horace Middleton. . -Julgo que vai ficar no Greenlea . a mansão é suficientemente grande. Mr. além disso. Entretanto. É um grande edifício branco.Julgo que o vi num desses programas em que as pessoas discutem.Ouvi-o falar de um artigo para um magazine. Jeremy estendeu a mão.Sabe onde fica? É um bocado fora de mão. é mesmo ao virar da esquina .esclareceu.Não construíram um edifício de raiz? .esclareceu Jeremy. ela continuou.Tenho um mapa . Logo verá.Gostaria de saber como é que a Doris o conheceu. e.Com certeza.insinuou Rachel.Mas não é médico .. . Conseguiste perceber essa parte? . a tentar dar a impressão de que tinha tudo preparado. Na primeira rua depois de passar o sinal de stop.Vire à esquerda e siga até ao sinal de stop seguinte. Era a Mansão Middleton. mesmo ao cimo da rua. Mas.A vila é pequena.Ouvi-a dizer que ele tinha estado na televisão? . antes de o município a comprar.perguntou um. . Quando Jeremy acenou que sim.Bom. A biblioteca fica num canto. . .indagou Doris. .Está a ver aquele edifício de tijolos? O que tem os toldos azuis? Jeremy acenou que sim. . . poderia dizer-me onde fica a biblioteca? . . .acrescentou outro. .Eu acho-o um verdadeiro sonho . vire à direita. alheios ao debate que se desenrolava lá dentro. a apontar para a rua. Jeremy e Doris tinham parado no alpendre. .Tenho a certeza de conseguir orientar-me. pareceu-me bastante simpático.

. Sei que não há lá espíritos.Obrigado. vindos de todos os lados. . fazer o que tem de ser feito. não. até que encontrem uma explicação. aparecem por cá estranhos. A senhora foi fantástica. . depois daquele artigo de jornal que falava da vinda das pessoas da Universidade de Duke. Só lhe peço que não escreva coisas que nos façam parecer um molho de nabos.Faço o que posso. apareça. Jeremy franziu a testa.Importa-se que volte cá com novas perguntas? Parece-me ser bastante eficiente a lidar com as coisas. . . . Como sabe. adoram esta terra. o presidente da Câmara tem feito uma publicidade louca da ideia. mas ninguém me ouve. Muitas pessoas.Então. .Não crê que os fantasmas andem por Cedar Creek? . eu incluída. Tem uma cara que inspira confiança e estou certa de que vai acabar com a lenda de uma vez para sempre.Eu sei. Ando a dizer isso há anos.Porque as pessoas não sabem o que se passa e vão continuar a acreditar. Foi por isso que o contactei. por que é que me pediu para vir até cá? . meu Deus. Jeremy olhou-a com curiosidade..Sempre que quiser conversar. Estou sempre disponível.Oh. . E o almoço estava uma delícia.Só escrevo a verdade.

.Já se apercebeu de que está a contar-me uma história diferente da que me contou na carta? . a vila tem vindo a murchar. por que pretende que eu desacredite a história? .Nesse caso. acha que promover os fantasmas é uma boa ideia. Se não me acredita. Eu não minto. Ele e o presidente da Câmara costumam ir à caça juntos.Teve de interromper-se por momentos. Tudo verdade. Só escrevi que havia luzes misteriosas no cemitério. não me parecem atitudes muito respeitosas para com os falecidos. . isso está a causar muitos desmoronar-se e os problemas. mesmo que o cemitério esteja abandonado. sem nada dentro das cabeças. o xerife não faz nada acerca dos adolescentes que andam por lá.. como se a resposta fosse apenas uma questão de bom senso. Jeremy olhou para o carro e voltou-se de novo para a Doris. volte a ler a carta. Posso não ser perfeita. como o Circuito das Mansões Históricas e do Cemitério Assombrado. Fazia sentido. sou uma voz a clamar no deserto. . . Mr. mas. excepto eu.respondeu -. As pessoas que estão lá sepultadas merecem jazer em paz. penso que.respondeu de imediato. mas depois continuou: . os fantasmas podem ser uma espécie de salvação. é um erro puro e simples. Para lhe ser franca. ou dos estranhos que tripudiam por ali.As pessoas sempre às voltas por ali. E combinar isso com interesses materiais. nos tempos que correm. O cemitério está quase a estragos são cada vez maiores. . Marsh. Depois que fecharam a fábrica de têxteis e a mina. com a agravante de que quase toda a gente. que eram atribuídas a uma velha lenda e que muito boa gente pensava que havia fantasmas envolvidos e que os miúdos da Duke não tinham conseguido descobrir a verdadeira origem das luzes. mas não sou mentirosa.com a esperança de verem as luzes. na ideia deles.Porque é de justiça .Não . não estou. a reflectir sobre o que ela acabava de dizer.Como seria de esperar. sem dúvida. Contudo. os turistas que vêm cá para acampar nas redondezas..

Com certeza.perguntou. o senhor vai saber uma coisa que não pode ser explicada pela ciência. . enquanto pensava no que acabara de ouvir.Pois bem.Porque estive lá e não senti a presença de espíritos.. . Rodou para ir-se embora.Que eu deveria ser a primeira pessoa a crer em fantasmas? Jeremy assentiu. Ele sorriu. também é capaz disso? Ela encolheu os ombros. .. na verdade creio. Quase me fez sentir outra vez jovem. As nuvens haviam tapado o azul enquanto eles comiam.É uma promessa . . parece-me. ignorando a pergunta.Jeremy enfiou as mãos nas algibeiras. . já parecia um céu de Inverno. E quando isso acontecer. Sem estar carrancudo.Também passei um tempo maravilhoso. Fez uma pausa e olhou-o nos olhos. . .Então. Doris acenou que sim e ele mudou o peso do corpo de um pé para o outro.E tenho de confessar que apreciei verdadeiramente o almoço. . agora? . Doris olhou para ele. Quando Jeremy se calou.Por que não? .respondeu. Só não acredito que eles andem pelo cemitério.Isso é uma promessa? .Posso ser franco? . Não é frequente eu desfrutar da companhia de um jovem tão encantador. . . a sua vida vai sofrer uma transformação que nem lhe passa pela cabeça. fazendo Jeremy levantar a gola enquanto se dirigia para o carro.Posso falar com franqueza.Um dia. .Se acredita que a sua mãe era médium. . e que pode adivinhar o sexo dos bebés.

de um amarelo-pálido pelo menos o casarão mostrava consistência na sua inconsistência .O que é? .Sim.. Mesmo assim. em arco. tinham sido pintados de branco. pensava Jeremy. e com puxadores descomunais.É o que vou fazer. O edifício ocupava a maior parte do quarteirão. É a pessoa por quem deve perguntar.chamou Doris. Marsh! . Os tijolos do exterior.Mr. . . o caminho de acesso e o círculo à volta do mastro da bandeira foram delimitados por canteiros de amores.Lex? . Ele sorriu. o conjunto geral não revelava qualquer harmonia. No vestíbulo de iluminação suave.perfeitos. mas. QUATRO A biblioteca acabou por revelar-se uma maciça estrutura gótica. tinha dois andares adornados com janelas altas e estreitas.Cumprimente Lex por mim. Jeremy voltou-se. . ir visitar a elegante casa de um miúdo rico da cidade para depois ser recebido pelo mordomo. com balões e bisnagas carnavalescas. apesar da arquitectura de casa assombrada. em tudo diferente de qualquer outra construção da vila. as janelas foram protegidas com gelosias pretas. Era como. Para Jeremy. um telhado de grande inclinação e uma porta principal de madeira. era como se o prédio tivesse sido arrancado de um outeiro da Roménia por um bêbado. por detrás dele. Edgar Allan Poe teria adorado aquele lugar. que certamente teriam sido vermelhos. Uma tabuleta escrita em cursivo dourado anunciava a entrada da Biblioteca de Boone Creek". Está na sala de leitura da biblioteca. as gentes da vila tinham feito o possível para lhe dar um aspecto mais acolhedor. que depois o deixara cair em Boone Creek.

Iluminadas por brilhantes luzes fluorescentes. o homem acabou por dar pela presença dele e fez-lhe um gesto com a mão. para logo de seguida voltar a concentrar-se no livro que estava a ler. incluindo um homem idoso. com acenos de cabeça e da mão. Voltando-se para se apoiar nela. porém. à espera de Lex. a busca nas estantes estava de momento limitada a três pessoas. atarefado a arrumar livros. Empurrou a pesada porta de vidro para entrar na área principal. com a perna mais comprida a apontar para a traseira do edifício. Jeremy teve a noção que já tinha comprado maior número de livros do que os existentes na biblioteca. As casas de banho eram do lado esquerdo e à direita. Ao olhar à volta. à direita. chegado à área principal. compreendeu que Lex devia ser o idoso de cabelo branco que estava a arrumar os livros. sem surpresa. mais ao fundo. Quatro mesas pequenas estavam espalhadas pela sala. Contudo. Ela sorriu e correspondeu. em vez de caminhar na direcção dele. Parou junto da secretária. sentiu-se desapontado. depois de Jeremy ter pigarreado com força. mas resolveu não sair de onde estava. antes . Jeremy saudou. Nos dois cantos mais próximos tinham instalado computadores desactualizados. o homem acenou com a cabeça e com a mão. num espaço não muito maior do que o seu apartamento. Passados mais dois minutos. com uma prótese auditiva. havia apenas seis estantes com livros. havia um conjunto de lugares sentados e uma pequena colecção de jornais. Viu as horas. onde Jeremy notou que havia uma grande sala envidraçada dedicada às crianças.. que não estava lá ninguém. Dois minutos depois voltou a consultar o relógio. a dar a entender que se apercebera de que o visitante precisava de ajuda. colocadas relativamente perto umas das outras. a senhora idosa que estava sentada à secretária. orgulhoso de estar a ajustar-se à maneira como a vida funcionava em terras do Sul.fora colocada uma secretária em forma de L. ficava o que parecia ser a área principal. por detrás de outra parede de vidro. Encaminhou-se para a secretária do bibliotecário mas verificou.

conquanto toda a gente soubesse da sua existência. uma vez por outra. ou adolescentes . que viera de Nova Iorque para escrever um artigo sobre os fantasmas do cemitério. tendia a ser bastante persuasiva. ela estava a olhá-lo através da janela. Não. Doris tinha razão: era uma falta de respeito. No pequeno e atravancado gabinete do andar superior da biblioteca. para depois seleccionar o material e distorcer a verdade como lhe apetecesse. tudo se tinha precipitado. o homem tinha acreditado na Doris. todo o país ficaria a pensar que as gentes daquela terra eram crédulas. Um exemplo da lendária eficiência sulista. Certamente que. Muito impressionante. algumas pessoas iam até lá para dar uma vista de olhos . Segundo parecia. e desde que aqueles miúdos da Duke lá tinham ido e o artigo aparecera no jornal. Fechou os olhos.em especial os que tinham estado a beber no Lookilu. aquele lugar. a torcer maquinalmente entre os dedos uma mecha do cabelo escuro. Por que não deixar tudo como estava? Aquelas luzes eram vistas há décadas e. Sabia que ele viria. Tinha lido artigos anteriores de Mr. Era. com os seus modos sedutores. Logo que Jeremy deixou o Herbs. Seria assim tão importante . Não apreciava nada a ideia de o ver por ali. Iria entrevistar pessoas. Abanou a cabeça.mas mandar fazer Tshirts? Canecas de café? Postais de má qualidade? Combinar tudo aquilo no Circuito das Mansões Históricas e do Cemitério Assombrado? Não conseguia perceber muito bem todas as razões que estavam por detrás do fenómeno.e sobre isso ela não tinha dúvidas .mas Mr. parvas e supersticiosas. Marsh e conhecia perfeitamente a maneira de ele agir. Não seria suficiente obter a prova de que não havia fantasmas envolvidos . sem dúvida. reflectiu Jeremy. ninguém se preocupava muito com isso. O problema era que ela também não gostava de ver as pessoas a tripudiarem pelo cemitério. sem se preocupar muito com os possíveis prejuízos que um artigo daquele género poderia provocar. uma pessoa que gostava de evitar as pressas. Uma vez que uma ideia se lhe metesse na cabeça. Doris telefonou e falou-lhe do homem vestido de preto.de prosseguir com a tarefa de arrumar os livros. Logo que ele acabasse o trabalho de investigação e publicasse o artigo. Marsh não pararia aí.

mais do que tudo. as tardes sufocantes de Verão que lhe faziam reluzir a pele. A biblioteca era uma obra inacabada. para transformar a biblioteca em algo de que a vila se pudesse orgulhar. a profissão mais atraente. perto da sala das crianças. a começar pelo mais ganancioso de todos: o presidente da Câmara. pela confiança que depositava nos vizinhos. Adorava tudo naquela vila: o odor a pinheiro e a sal em cada amanhecer de Primavera. Como seria de esperar. Marsh soubesse que os livros estavam dispersos por dois andares. Mas sempre acreditara que a maioria das pessoas vivia ali pelo mesmo motivo que ela própria: pelo encantamento que sentia quando o Sol poente transformava o rio Pamlico numa fita dourada. Boone Creek era uma vila que nem sequer procurara um lugar na vida moderna. pois durante os últimos dois anos tinha vivido preocupada com a saúde da Doris. nem se ganhava muito. Confiava nelas. sempre soube que acabaria por regressar. Afinal. pois as escadas de acesso começavam nas traseiras do edifício. além de títulos de autores modernos e colecções únicas. mesmo então. a glória flamejante das folhas caídas do Outono. porque as pessoas deixavam os filhos andar na rua à noite. era por isso que vivia ali. Também ela se tinha ausentado durante algum tempo mas. mas as pessoas não viviam em Boone Creek porque queriam ser ricas. certamente. uma boa ideia. de ficção e de ensaio. O primeiro piso continha apenas ficção contemporânea. falava-Lhes. gostava delas. Porém. Não era. Mas. mas as primeiras impressões haviam sido decepcionantes. E também sabia que tinha de ser a bibliotecária. Duvidava que Mr. Num mundo cada vez mais atarefado. afinal. enquanto o andar superior guardava os clássicos. Havia sempre alguém a tentar ganhar uns cobres. Bem. algumas das suas amigas tinham saído para frequentar a universidade e nunca mais regressaram. Um dos inconvenientes de terem instalado a biblioteca numa antiga mansão residia no facto de o projecto de construção não contemplar a utilização pública do espaço.aumentar o número de turistas que visitavam a região? O dinheiro fazia jeito. O seu gabinete do primeiro andar estava quase sempre em . característica que fazia dela uma terra especial. sem temer que lhes acontecesse algum mal. tal como a sua mãe fora. achava o local agradável. sem dúvida. adorava as pessoas e não conseguia imaginar-se a viver em qualquer outra terra. pelo menos a maioria.

O homem tinha feito uma longa viagem e a hospitalidade sulista. recusava-se a alimentar ideias semelhantes. um estranho que pretendia escrever uma história que poderia não ser boa para a gente da vila. a desanuviar a cabeça e suspirou. tinha-se apaixonado por alguém que acreditava em coisas desse género. Tinha-o visto chegar. naquele momento à sua espera. Quando nada disso resultava. de Nova Iorque. tornavam a sua vida bem mais excitante e mais completa. Observara-o a descer do carro e a dirigir-se para a entrada. Eram a sua paixão. pessoas convencidas de terem uma superior compreensão das realidades do mundo.silêncio. visitas a alfarrabistas e negociantes espalhados por todo o estado. exigiam que lhe desse toda a ajuda de que ele precisasse. além de ser contíguo à parte da biblioteca que preferia. punha em relevo a possibilidade de redução dos impostos e. alguns dos quais anteriores à Guerra da Independência. agora. para conseguir o que queria. livros que ela fora adquirindo em vendas de casas e de garagens. Contudo. a sua era considerada uma das pequenas bibliotecas mais importantes do estado. Era apenas mais um numa longa lista de visitantes de lugares mais exóticos. ou até do país. talvez devesse ir falar com Mr. A sua biblioteca. E aparecia um estranho. Numa pequena divisão adjacente ao gabinete estavam os títulos raros. por vezes recebia certas obras ainda antes de as outras bibliotecas saberem que elas existiam. de Wake Forest ou de Carolina do Norte. Embora não dispusesse dos recursos das universidades de Duke. Tinha também uma colecção. tal como aquela era a sua vila. Marsh. da astúcia ou da pedinchice. como trabalhava arduamente para manter contactos com advogados especialistas em propriedades e impostos espalhados por todo o Sul. não era avessa a valer-se do charme. E era assim que a via agora. pelo facto de andarem de um lado para o outro. Um pássaro veio aterrar no peitoril da janela. sempre em crescimento. Ficou a observá-lo. Poucos anos antes. de manuscritos e mapas. o que . mais as exigências do seu cargo. Afinal. Pessoas convencidas de que. Andava sempre à procura de algo especial e. um projecto iniciado ainda no mandato da sua mãe. Abanara a cabeça ao reconhecer quase imediatamente nele o fanfarrão confiante da cidade grande. Muito bem. decidiu. ele estava à sua espera. através de doações.

o homem era bastante bem-parecido. como acontecera quando o vira pela primeira vez.É a Lex? . quando não ando a passear em cemitérios e a ignorar os olhares dos homens. ao reconhecê-la.e não tardou a admitir que não sabia nada acerca dele. Porém. E. .Tento sê-lo. Um sorriso bastante amigável. tinha de admitir que.Suponho que está à minha procura . no cemitério. pensou. Poderia.É um diminutivo de Lexie.anunciou. . de braços cruzados. a tentar o sotaque arrastado da . sorriu. Jeremy Marsh parecia prestes a explodir.disse ele.indagou. pareceu paralisado. por momentos. agindo assim poderia mantê-lo debaixo de olho. a olhar os títulos de autores contemporâneos. É o que a Doris me chama. Homens". De vez em quando carregava o cenho.E é a bibliotecária? . que estava simplesmente a presumir . a covinha do rosto dele era bonita. Recordou a si mesma a necessidade de agir com profissionalismo. além do mais. Sempre previsíveis". a forçar um sorriso: Ao ouvir o som da voz. a adiar o mais possível o momento de ir ao encontro dele.Interessante . Jeremy virou-se e. certamente. logo de seguida. Ajeitou a camisola. Lexie Darnell. No caso de ele formular a pergunta.era provável que ele se limitasse a arregalar os olhos e ficasse sem fala. que tinha uma missão a cumprir. Poderia filtrar a informação de modo que ele compreendesse também o que a vida nesta parte do país tinha de bom. mesmo não sendo de confiança. mas demasiado treinado para fazer esquecer a confiança demonstrada pelo olhar. Sorriu. Chaucer ou Austen. .era ainda mais importante. . controlar Mr. ela gostaria de saber qual seria a reacção do homem se lhe perguntasse: Quem? Conhecendo-o . Percorria os corredores. como se gostasse de conhecer os motivos de não encontrar ali qualquer obra de Dickens. Marsh. .

é claro.O seu sotaque não pega. a ajeitar o cabelo atrás das orelhas. .É minha avó. olhando de novo aqueles olhos cor de violeta.Sei que sim . Registos históricos.A minha reputação precede-me. Não que ela estivesse interessada.se abertamente. não lhe perguntei . Que . .concluiu. Mr. . . . Marsh. Narrativas que façam menção das lendas. Parece estar a tentar encontrar sinónimos para um problema de palavras cruzadas.Doris. Quando é que as luzes apareceram. sem dúvida". De que género de informações é que anda à procura? Jeremy encolheu os ombros.perguntou. mantendo a voz firme. Doris é uma mulher interessante.Na verdade. Coisas desse género . Nada afectado pelo comentário. Lexie sorriu ao passar por ele.A Doris telefonou a informar-me que vinha a caminho. em que é que posso ajudá-lo? Julgo que procura informações acerca do cemitério? . Mapas antigos. Marsh.Ela falou-Lhe do nosso delicioso almoço? . próxima. . As sobrancelhas interessante! de Jeremy pareceram saltar. a perguntar: . pensou Lexie. ele riu. a notar que a covinha dele era das que incitava as crianças a enfiarem lá o dedo. verdadeiramente exóticos. Tenho um monte de tarefas burocráticas para acabar ainda hoje.confessou Lexie. de momento estou bastante ocupada.asseveroú. Acabou de arrumar os livros e encarou-o. . E a dona estava ali. Mr. .Ora bem.Acredite ou não. . continuando a ajeitar os livros. Informações sobre a topografia e sobre Riker's Hill. para ir endireitar alguns livros na estante que Jeremy tinha estado a examinar. Quaisquer estudos feitos no passado. .Ah! Devia ter percebido.De qualquer coisa que me ajude a conhecer a história do cemitério e da vila. e não a afastar-se dele.Acha que sim? Um mulherengo.

nova pergunta: .me sobre aquilo que as pessoas de cá fazem para se descontraírem. Mas não se pode condenar um homem por tentar . a readquirir a compostura -.defendeu-se. Ela olhou-o fixamente: .Desculpe. Lexie pestanejou.Ora bem. dizer-me se há algum lugar onde se beba um café? Ou se coma qualquer coisa? . . não acha? .Penso . Depois de uma ligeira pausa. talvez pudesse esclarecer. depois de sair? Sem saber se teria compreendido bem. A carta da sua avó que me trouxe até cá.Também achou isso interessante. Uma grande coincidência. especialmente quando estava interessado em qualquer coisa. encostado à estante. com . Jeremy não estava disposto a deter-se. Encarou-o de olhar fixo.replicou ela. antes de perguntar: . não acha? indagou Jeremy.Vê-la no cemitério e agora aqui.Está a convidar-me para sair? . em tom cordato. Raramente se deixava intimidar. Isto é. .Só se estiver disponível. muito razoável . como não sou da região.Não posso dizer que tenha pensado muito nisso. até que ele acabou por erguer as mãos. o que é que acha espantoso? . perto dela. .Talvez um pouco mais tarde. Mas agradeço-Lhe a sugestão.Deixe-me dizer-lhe que isto é espantoso.acrescentou. que terei de recusar.perguntou.Tudo bem. .

Gostaria de ler o artigo que apareceu no periódico local.Estão no mesmo sítio.Por que motivo foi hoje ao cemitério? Em vez de responder.E agora. Há dois anos que começámos a microfilmar o jornal. . Ainda não tive a oportunidade de o ler.Óptimo. é claro. Ela assentiu. . E informações sobre a vila em geral? . Marsh. Ela começou a andar em direcção ao vestíbulo. Mr. . a falar por cima do ombro. .Importa-se que faça uma pergunta? Ela abriu a porta principal e hesitou. . a tentar imaginar que sítio seria aquele.Por aqui. . . continuou a fitá. . prometo mostrar-Lho. Jeremy olhou à volta. sem mudar de expressão. .De maneira nenhuma . poderíamos iniciar a busca? Se não está demasiado ocupada com a papelada. poderei passar por cá amanhã. Jeremy teve de se apressar para conseguir acompanhá-la.lo.Há um andar superior? Voltou a cabeça.Se me seguir. pelo que não terei dificuldade em encontrar o artigo.Há algo especial por onde prefira começar? .replicou.É provável que esteja nas microfichas. . Se lhe for mais conveniente. . Certamente que o têm.a covinha a dardejar de novo. Lá em cima encontraremos aquilo de que precisa. sem alterar a expressão.

.prosseguiu Jeremy. Havia bastante mais. piscou os olhos ao passar pela porta. Nos cantos. De paredes forradas com painéis de carvalho. Não prometi responder-Lhe.. estreitas como eram.Agora percebo . . a sala enorme. Passaram pelo vestíbulo. de autores que conhecem. pela sala de leitura das crianças e Lexie seguiu à frente. tudo ao mesmo tempo. . tenho estado a pensar .Na sua maioria. para surpresa dele. Jeremy não podia fazer mais do que isso: olhar. chão de mogno e cortinas cor de vinho. ficava a lareira de pedra.Fiquei com a impressão de que actualmente aquele lugar não recebe muitas visitas.O rés-do-chão é apenas um acepipe.Vai ficar calada. os nossos visitantes de todos os dias vêm à procura de títulos recentes. Lexie sorriu e. Ao parar no patamar do primeiro andar. com uma pintura pendurada mais acima e as janelas. escada acima. manteve um silêncio que o encheu de curiosidade e. do odor a pó que se respira numa biblioteca particular.indagou. Era um espanto. e depois de ter deitado por terra o convite para sair com ele. O lugar não se resumia a umas quantas estantes cambadas cheias de livros. Ao vê-la caminhar à sua frente. Mr. . sem divisórias. só deixavam passar a luz suficiente para transmitir ao lugar um ar quase doméstico. . e por isso .Eu disse que podia perguntar. bonita e sedutora. não era? Confiante. a olhar para mim? .Quero dizer. finalmente.observou Jeremy. . Talvez aquelas beldades do Sul tivessem qualquer coisa que punha os homens malucos. Pensou que talvez o Alvin tivesse razão. Aqui é onde se encontra o que é importante. havia cadeiras de estofos espessos e imitações de candeeiros Tiffany. Jeremy olhou à sua volta. de desconforto. Lexie concordou. contrastava com o espaço do rés-do-chão. E também uma sensação de antigo. Ela continuou calada. Marsh. Na parede mais distante.

indicou. Abrandou o passo. deu à . . agora que pensava no assunto. o que é que a levaria a tornar-se bibliotecária? Como se conseguisse perceber o que ele estava a pensar. ela interrompeuse e apontou com o dedo uma placa que se distinguia numa das estantes. Os minutos seguintes foram passados a conversar e a andar por entre as estantes. Caminhavam devagar e Lexie ia fazendo interrupções na narrativa para apontar alguns dos seus livros preferidos.Onde ficam agora os escritórios? . . Ela sorriu. incluindo um sobre as profecias de Miguel de Nostradamus. a mulher faleceu. Olhou de relance para a placa e leu: Sobrenatural/Feitiçaria". sendo ocupada por outra família até à década de 1950.Caramba! Estou impressionado. Em 1555. A não ser o amor aos livros. o que o levou a decidir mudar-se para Wilmington. nunca chegou a habitar a casa. Jeremy ficou a saber que a mansão havia sido construída em 1874 por Horace Middleton. A sala do rés-do-chão é pequena porque era lá que.reservei-lhes a sala do andar inferior.A seguir à sala dos espécimes raros. quando acabou por ser vendida à Sociedade Histórica. tínhamos os nossos escritórios. mais culta do que ele. vou mostrar-lhe tudo e depois falaremos deste lugar. um capitão de navios que fizera fortuna a transportar madeira e tabaco. Tinha construído a mansão para ali viver com a mulher e sete filhos mas. que mais tarde a revendeu ao município para ser usada como biblioteca. infelizmente. mas tomou nota de alguns títulos. Lexie era. não parou. como Jeremy não tardou a perceber. juntamente com a família. Marsh. Jeremy ouvia tudo com a máxima atenção. especialmente no que dizia respeito aos autores clássicos.Mr.Acolá . a apontar para o espaço por detrás da última estante. esta secção será provavelmente a sua preferida. . o que não deixava de fazer sentido. como geralmente é conhecido.Vamos. . Quando a mansão estava em acabamento. Nostradamus. antes da reconversão. A casa esteve vazia durante anos. .

folheio todos esses livros à medida que chegam. Lexie sorriu. talvez pudesse fazer-lhe umas recomendações interessantes.A juventude impressionável da Cintura Bíblica".Mas não cite estas minhas opiniões.Faça favor. Jeremy concordou. . o primeiro dos dez que publicou em vida. hoje continuam a ser citadas apenas umas cinquenta ou sessenta. Para Lhe ser franca.estampa um livro.Boa ideia . não sabe? Ele ergueu dois dedos. Das mil profecias publicadas por Nostradamus. É tudo mentira. Faz sentido.Se não se importa. Especialmente os que são dedicados à bruxaria. com uma centena de previsões excepcionalmente vagas. quanto a isto. . Sabe que. Há residentes na vila que não querem que eu guarde livros sobre esses temas. Jeremy enfiou as mãos nas algibeiras.Alguma vez leu isto? . .Mas é espantoso. .Ficará mais bem servida. . Não sou tão orgulhosa para julgar que não necessito de ajuda. . . o que dá uma desprezível taxa de aproveitamento da ordem dos cinco por cento. não julgo que o assunto tenha suficiente importância. .Pois exercem. . os miúdos poderão.aprovou Jeremy. . estamos a falar em particular. nada mais. ao lerem estas obras. Quero dizer.Isso pode ser verdade. Dizem que exercem más influências sobre os jovens. inspirar Satanás a provocar malfeitorias na vila.Palavra de escuteiro! . observo as gravuras e leio algumas das conclusões para analisar se são apropriados.Não. . Eles querem que retire os livros por julgarem que é realmente possível conjurar os maus espíritos e que. mas está a esquecer-se do essencial. por acidente.

pelo menos uma em que deveria ter reparado de imediato: os olhos. . era evidente. Tinha apenas 22 anos. Jeremy notou que era um gesto frequente nela. Embora o pintor tivesse tentado captar aquela luz nada habitual. Com ar ausente. Adoraria tê-la conhecido. que estava a pô-la nervosa. Enquanto Lexie falava. Jeremy deu consigo a olhar alternadamente para ela e para o retrato. Jeremy apontou o retrato pendurado por cima da lareira: . fez leilões. Por enquanto. limitou-se a aclarar a voz: . notou que os de Lexie possuíam um toque de luz a toda a volta. uma missão que toda a população da vila havia considerado impossível.A minha mãe . Quando Lexie findou a narrativa.Quem é esta? Lexie parou e seguiu o olhar dele. não tinha conseguido sequer aproximar-se do original. agora que os via mais de perto.Depois de a biblioteca original ter sido arrasada por um incêndio. Levou anos. Embora a cor violeta o tivesse impressionado desde o início. ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha. mas passou anos a pressionar os responsáveis estaduais e distritais para cederem verbas. insistindo até que lhe dessem dinheiro ou Lhe passassem um cheque. A sala foi inundada por uma luz amarelada. O sol de Inverno mal conseguia romper por entre as nuvens acinzentadas e Lexie foi acendendo os candeeiros um a um. que de certa forma lhe fazia lembrar a cor da simpatia. Viu no gesto um sinal animador. em 1964. Tratava-se provavelmente de um tique nervoso. mas acabou por conseguir.Parece ter sido uma mulher fascinante. a minha mãe empenhou-se em encontrar um novo edifício e em começar um novo acervo.Caminharam em silêncio durante uns momentos. Julgou detectar parecenças. . O que significava. . foi de porta em porta a pedir ajuda aos comerciantes locais. Jeremy olhou-a com ar inquisidor e Lexie deixou escapar um longo suspiro.respondeu.

embora tenhamos vários que talvez ache interessantes. Mas tenho o de um casal que viveu em Watts Landing.Adoro pesquisas monótonas.Ah. abanou a cabeça. O meu palpite é que venha a encontrar muitas das informações que procura em diários. .Pretende referências históricas e o artigo.Estou ansioso por começar . . pois sou.Será preciso assim tanto tempo? . . Suponho que já palrei o suficiente. é uma excelente ideia.Lamento. como se houvesse muito mais a dizer mas. mas não posso. não podem sair da biblioteca. .Apostaria que é bastante bom nisso. não é? Gostaria de poder dizer-lhe que a informação está catalogada.Não.Jeremy. em vez disso.Será melhor mostrar-Lhe o sítio onde vai ficar preso durante os próximos dias.Não há assim muitos livros para consultar.Um sorriso passou rapidamente pelo rosto de Lexie.Pelo contrário. Ela ergueu uma sobrancelha. . Lêem-se com dificuldade. .Não terá. O senhor tem de trabalhar e eu estou a empatá-lo . e talvez leve algum tempo a conseguir decifrá-los. Trate-me por Jeremy. . . Estabeleci como meu objectivo reunir tantos quantos conseguisse. Mr. Sou bom numa quantidade de coisas.Não tenho dúvidas quanto a isso. Marsh. . . ou estarei enganado? . Olhou para ela com ar superior. Acredite! . e até um de alguém que se considerava o historiador amador da região.Não se trata apenas de livros. . No entanto. e já dispomos de uma boa colecção. . por acaso. de pessoas que viveram na região. o de Hettie Doubilet? . .admitiu. Lexie sorriu. a apontar para a sala dos livros raros. Até consegui uns quantos que datam do século XVIII. Tem pela frente uma pesquisa bem monótona.atalhou Jeremy.Não me parece que seja muito boa ideia.

Seria do sotaque? Provavelmente. a pensar que já encontrara outras daquele género. ainda não o conheço suficientemente para confiar em si. num dos cantos. o chão de madeira dura estava gasto. ainda melhor.De verdade! E sinto-me lisonjeada. onde os dois pudessem estar sós para ficarem a conhecer-se melhor.. As paredes tinham sido pintadas da cor bege da areia do deserto. ele não ficara a saber fosse o que fosse acerca dela. Muito bem. decidiu que não era apenas do sotaque. com um televisor e um gravador de vídeo ao lado. estava dividida por um balcão baixo. Desejaria passear com ela pelo centro de Boone Creek ou. onde certamente se guardavam as cassetes com a .É uma oferta tentadora . de madeira. Mr. não sabia nada dela. Os mistérios conduzem sempre a surpresas e.. Aquele era dos que nunca param.. o quê? Não a conhecia. havia uma caixa com tampa de vidro. teve a sensação profunda de que preferiria passar as horas seguintes na companhia de Lexie. Nem sequer dos espantosos olhos ou da maneira como Lhe assentavam as calças de ganga. tudo isso concorria. Era uma mulher misteriosa e ele adorava mistérios. mas. Estava ali para escrever um artigo mas. como se albergasse uma relíquia. Da maneira como cantava as palavras. enquanto a seguia a caminho da sala de livros raros. A sala de livros raros era pequena. bom. As mulheres que se valiam da sagacidade para manter os homens à distância tinham quase sempre uma faceta desagradável.Lexie respirou fundo. que ia de um lado ao outro. além disso. não pôde deixar de pensar que esta viagem às terras do Sul estava a tornarse muito mais interessante. talvez até conseguisse convencer um gato a atravessar o rio a nado. de repente. . . jantar com ela num restaurante romântico. era uma característica que. corrigindo-se a si próprio. Lexie falara muito sobre livros e sobre a mãe.. mas continuava direito. provavelmente fora um quarto. Nem da sagacidade. fora da vila. para além disso. Divertido. a parede estava ocupada por estantes com livros. Marsh. mas naquela. Por detrás do pequeno balcão. Depois. Seria.insinuou. sem ele saber por quê. mesmo assim. Jeremy ficou a vê-la voltar-lhe as costas. Mas. que ele apreciava. se podia considerar sedutora e agradável. mas havia ali mais qualquer coisa.

Ora bem.História do Estado de Carolina do Norte. desde sempre.À volta disso. Mr. Ele soltou uma gargalhada. Do lado oposto à porta havia uma janela e. Aquela ia ser. Voltou-se e tornou a passar pela porta giratória. que aquele era um lugar extra-especial. É o dia dos meus anos. descrevendo-a. uma semana muito interessante. Colocada a caixa em cima da mesa. sem dúvida.Vou procurar durante mais uns minutos. .Foi rápido . com jactância e sensacionalismo. Marsh. Jeremy concentrou a atenção no artigo e começou a ler. com suficiente altivez para presumir que todas as pessoas que viviam em Boone Creek sabiam. por baixo desta. Uma pequena mesa com uma máquina de leitura de microfichas estava à direita de Jeremy. uma antiga secretária com tampo de correr. O artigo falava da lenda original. quase nos mesmos termos que a Doris utilizara. tinha o artigo à frente dos olhos. . Abriu o tampo da secretária.sugeriu Lexie. . Uma vez mais. No .Vinte e seis? . procurou por entre as transparências e escolheu uma. de onde retirou uma pequena caixa de cartão. . . Jeremy sentiu um ligeiro odor ao perfume dela e. Mas.Pode começar por este . Inclinando-se diante dele.elogiou ele.Vinte e cinco? . a ver se encontro mais algum material para si. . . momentos depois. ajeitando-a até o artigo ficar devidamente centrado.Boa tentativa. embora com pequenos pormenores. Escrito tal qual como ele esperava. vamos lá ver o que consigo encontrar a seguir.Nada de verdadeiramente difícil.Impressionante.bradou para as costas dela. Leu muito pouca coisa que não conhecesse já. Lexie dirigiu-se para lá. ligou a máquina e inseriu a placa transparente. Lembrava-me da data do artigo. .Não foi muito difícil. não me apetece jogar. .

Era o género de vila que continuava a existir mais como resultado de um hábito do que por qualquer qualidade digna de realce. especial no sentido em que todas as pequenas comunidades reclamam sê-lo. pelo que moveu a placa de vidro que albergava a microficha e passou a ler outros artigos.artigo. o que provocou um tumulto. O interessante é que. Não havia ali futuro. Ora bem. e depressa ficou a conhecer aquilo que a vila tinha para oferecer. Leu a história de um jovem que ajardinara a frente do edifício VFW.. na Main Street. segundo parecia. a mulher tinha desaparecido. a notícia da abertura de uma nova loja de limpeza a seco. em que dois homens da terra sofreram ferimentos ligeiros. o xerife recusara-se a prendê-la de novo. além de ser natural da Louisiana e não das Caraíbas. com o envelhecimento da população. para conquistar o direito de entrada nos Eagle Scouts. desvanecera-se no ar. Tinha de descobrir se a mulher fora efectivamente presa e se conseguira realmente fugir. teve direito a primeira página em dois números seguidos. . e o relato da reunião do Conselho Municipal em que o tema principal era decisão de colocar. Voltando a concentrar-se no ecrã. Jeremy recostou-se na cadeira. E ele não podia deixar de admitir que a parte respeitante ao desaparecimento era interessante. o jornal saía à terça-feira. Ainda não havia sinais de Lexie. a vila era justamente aquilo que ele esperava. Calma e sonolenta. Contudo. Num total de quatro páginas eram concentradas as notícias de toda uma semana. Um acidente de trânsito. iria desaparecendo. ou não colocar. Na manhã seguinte. Hettie tinha reunido com os vereadores e não com o presidente da Câmara.. pelo menos a longo prazo. por recear que ela lançasse uma maldição sobre a família dele. pensou que poderia tentar ampliar o que Doris Lhe contara acerca de Boone Creek. Uma leitura emocionante. ligeiramente alteradas para se tornarem mais atractivas. Depois disso. que nas décadas seguintes. a menos que se pretendesse saber de algum acontecimento que estivesse a passar-se em qualquer outra parte do mundo. ela tinha proferido a maldição à porta da Câmara. um sinal de trânsito em Leary Point Road. ou se alguém procurasse algo para se manter acordado. aquilo acontecia com todas as lendas: narrativas que iam sendo renovadas. Olhou por cima do ombro. quando os guardas iam abrir a cela para a soltar. em consequência do qual foi metida na cadeia. mas nada mais do que isso.

Não vai ficar aqui? . E é excitante. a pensar: É claro que sabes. deixo-o. pode ficar aqui ou sentar-se numa das mesas da área principal. mas ele continuou a fazer trabalho voluntário por toda a vila.Suponho que sim.Veja isto . mas acabou por anuir: .pediu.Eu sei. Todos estes livros são de história geral.E encontrei um livro de fantasmas em que poderá estar interessado. Quanto a si. Ele deu um salto.perguntou Lexie.Isso é excelente. A história do escuteiro foi espantosa. mesmo que agora tenha um emprego a tempo parcial no Pete's Pizza. estes devem ser suficientes. Mas não quer começar por perceber o período em que foram escritos? Ele hesitou.. . Caramba! .Julgo ter ouvido dizer que seria melhor utilizar diários. .informou Lexie. Como Lhe disse. .É. Certinho e bastante bom no basquetebol. .disse Lexie com ar ausente ao puxar para cima a manga da camisola.Já sei tudo sobre o miúdo.Bom. nesse caso.Não.Óptimo . tenho de o admitir. surpreendido por não a ter ouvido chegar perto de si e a sentir-se estranhamente triste com as condições de existência da vila. . . Temos orgulho nele. O pai dele morreu no ano passado. tenho muito que fazer. . a pôr uma pilha de livros ao lado dele -.Jimmie Telson . para já. cerca de uma dúzia de títulos. No entanto. na realidade. Tem um capítulo em que discute Cedar Creek. Nenhum desses livros pode ser requisitado para leitura domiciliária. .Pois estou.A informar-se sobre a nossa excitante vila? . " . Voltarei mais tarde para ver se precisa de mais alguma coisa. . preferia que os livros não saíssem deste andar. um miúdo fantástico. Jeremy deu uma vista de olhos. . Ela sorriu. .

foi tomando nota dos elementos que lhe pareceram relevantes. Marsh. Ela voltou-se. . não tardou que tivesse duas páginas inteiras de apontamentos. Que as luzes tinham começado a aparecer uns cem anos antes e que as aparições eram regulares. Por experiência. E não se esqueça que. Folheou os livros um por um.Talvez amanhã me deixe ficar até mais tarde. e foi observando as gravuras e lendo os capítulos que lhe pareceram mais apropriados.Nesse caso. a sua ajuda tem sido fantástica. Ele riu-se.Não. no bloco de notas que tinha ao seu alcance. vejo-a às 19? . era demasiado cedo para o saber mas. Que tinham sido avistadas por muitas pessoas.Lexie. .O que é? .Não. ora bem. o que significava não ser provável que as luzes . Mr. a secção de livros raros fecha às 17. mesmo assim. Marsh. mas só ocorriam quando havia nevoeiro. tinha a noção de que a melhor maneira de abordar uma história daquelas era começar pelo que sabia.. espontâneo. tenho mesmo de ir. Deixo-os ficar o tempo que desejarem. . Obrigado.Mesmo para os amigos? . Virei cá às 17 horas. Mr. para depois dar uns passos em direcção à porta. embora a biblioteca esteja aberta até as 19 horas. o que é que ele sabia ao certo? Que o cemitério estivera em uso durante mais de cem anos sem quaisquer sinais das misteriosas luzes. Lexie ergueu o sobrolho.Até agora.Não tem de quê. se me permite. Jeremy passou as duas horas seguintes a analisar informações sobre a vila.Agora. .confessou Jeremy. Presenteou-o com um sorriso adorável.Nem eu me atreveria . . . A maior parte da informação disponível referia-se à história primitiva da vila. Verdade que ainda não tinha certezas acerca do que era relevante. . mas não lhe deu resposta.

Com o avançar do século. Na nova versão. Num ataque de fúria. no essencial. Hettie amaldiçoou o . o que não o surpreendeu nada. passado um par de horas. por isso. Descobriu que Boone Creek foi fundada em 1729. Contudo. Muitas vezes. embora a população se tivesse mantido estável até 1930. Além de não ter dúvidas de que. o que levou alguns dos habitantes mais racistas a tomar a causa nas suas próprias mãos e a provocar grandes estragos no cemitério dos negros. com o aparecimento dos barcos a vapor. como a lenda tinha por base uma razão falsa.fossem meras figuras da imaginação. uma tentativa de juntar algumas peças numa forma compreensível. A lenda. a febre do caminho-de-ferro atingiu a Carolina do Norte. Como a maioria dos mistérios. estivessem onde estivessem. Hettie amaldiçoava a vila. deu consigo imerso no assunto. a pesquisa da verdade era bastante mais interessante do que o próprio acto de redigir as conclusões. Depois disso. quer Hettie tenha ou não lançado uma maldição sobre a vila. não por causa da remoção dos cadáveres do cemitério. a vila seguiu a tendência de altos e baixos da economia do resto do estado. Contudo. Também leu o artigo sobre o cemitério incluído no livro dos fantasmas. devido à sua localização. isso significava que algumas peças. Havia que ler tudo. era. tornou-se um porto pouco importante do sistema interior de canais de navegação e. nas margens dos rios Pamlico e Creek. o que fazia dela uma das mais antigas povoações do estado e que. agora. De facto. No recenseamento mais recente. não sabia muito mais do que quando começara. A vila foi uma vez mais afectada. aquela era a parte mais agradável. como ela era olhada quase como uma figura espiritual em Watts Landing.se recusado a sair do passeio na altura em que a mulher de um dos vereadores se cruzara com ela. estavam a ser mal interpretadas ou ignoradas. durante muito tempo. Para finais do século XIX. em meados do século XIX. de modo a não lhe escapar qualquer pormenor. Já não lhe restavam dúvidas de que Lexie tinha toda a razão. Portanto. este era um quebra-cabeças com muitas peças dispersas. como uma espécie de porta de acesso à costa. a população da região sofrera uma redução efectiva. Nenhum problema. escapou à prisão. muitas florestas desapareceram e instalaram-se numerosas pedreiras. o cemitério estava a afundar-se. não passara de um pequeno entreposto. mas por ter. o crescimento da povoação acelerou-se.

Como pormenor interessante. Jeremy verificou a data de publicação. De acordo com os estudos realizados.gritou o outro. No entanto. A. bem como as efectuadas em datas mais recentes. . Escreveu uma nota para procurar observações feitas nesse período. ele calculava que teria descido mais uns sete ou oito centímetros. que por acaso não o perturbavam muito.cemitério de Cedar Creek e jurou que os seus antepassados haviam de minar as terras do cemitério até que a terra o engolisse inteiro. A recepção era má naquela parte da vila e o presidente gostaria de saber se pôr o ferro número cinco acima da cabeça o ajudaria a encontrar um sentido para o que estavam a comunicarlhe. O companheiro de jogo do presidente era useiro e vezeiro naquelas manigâncias. de vez em quando espreitava por cima do ombro. o autor não dava qualquer explicação. na expectativa de ver a Lexie regressar. Morrison. pois ele fazia exactamente a mesma coisa. Jeremy recostou-se na cadeira. Do outro lado da vila. o presidente da Câmara ficou muito atento a ouvir quem tinha feito a chamada.Achei-a! . uma tarefa difícil devido ao ruído da estática. J. enquanto absorvia os dados. . que por sua vez fingia não ver onde tinha caído a sua bola. De outra forma. na parte lisa do campo de golfe. pelo aspecto que o cemitério agora apresentava. na zona do décimo quarto buraco e com o telemóvel apertado contra a orelha. Três versões completamente distintas da mesma lenda. ao almoço? Viste o Primetime Live? Acenou. o autor do livro. a fingir que não tinha visto que o seu adversário do golfe. Bem gostaria de saber o que isso significava. O livro fora escrito em 1954 e.Esteve no Herbs? Hoje. . não lhe seria possível manter o seu handicap de três pontos. a encontrara atrás de uma árvore e lhe dera um pontapé para a colocar numa posição mais favorável. o cemitério tinha-se afundado cerca de cinquenta centímetros. ao começar a preparar nova tacada. tinha incluído um post scriptum em que dizia que o cemitério de Cedar Creek tinha efectivamente começado a afundar-se. a pensar.

Foi um longo dia. Jeremy sorriu. Ele pôs-se de pé. Agora. se fizermos as jogadas certas. .O destino .Como é que correu? Olhando por cima do ombro. . estou a ficar um pouco cansado.Espero ter conseguido um bom ponto de queda para esta bola. . talvez seja a nossa salvação. . .comentou para o bocal.Bom. Ao afastar a cadeira da secretária e passando os dedos pelos cabelos.gritou. como lhe tinha dito. comentou: .Maldição! .Não me preocuparia muito com isso .E. Lexie enfiou a cabeça à entrada da sala dos livros raros.Entretanto. de modo a preparar-me para a chegada dos leitores que vêm cá depois de saírem dos empregos. Aprendi bastante.Ainda bem. a sentir a cabeça às voltas com as possibilidades que se ofereciam -. com a chamada prestes a terminar. quando o Sol começava a desaparecer abaixo das copas das árvores e as sombras começavam a estender-se sobre as janelas. tem cuidado. e agradeço o teu telefonema. Mas. O presidente ignorou-o. De qualquer forma. isto está a ficar interessante .Já conseguiu encontrar a resposta mágica? . Fechou o telemóvel no preciso momento em que o companheiro se aproximava. companheiro voltou a enviar a bola para o meio das árvores. costumo fechar esta parte às 17 horas.anunciou. . . a ponderar os últimos acontecimentos na vila. Lexie entrou na sala. .Não há problemas. o .Quem é que estava ao telefone? . Duas horas depois. mas estou a aproximar-me. Sinto-o. . .Óptimo. .Não.respondeu o presidente.Estou certo que vais achá-la exactamente onde a queres. Adeus.

Oh. CINCO . De facto. .Não. pensei que tinha vindo assistir a um funeral.Óptimo. . no final do dia. . Ele assentiu. compreendi isso desde o princípio. Marsh. A bibliotecária encolheu os ombros.Deveras? . as primeiras impressões podem ser enganosas. Sendo um jornalista da grande cidade. .Isso diz-me o que eu já sabia.Prometo que não a deixarei ficar mal. . . não é? . volto a pôr os livros nas estantes.Estará aqui amanhã logo pela manhã. mantendo-se apoiado na secretária. Lexie rolou os olhos. .Não seria possível deixá-los ficar como estão agora? Tenho a certeza de que terei de voltar a consultar a maioria deles. Porque. de aspecto solene. julguei-o um mulherengo.Acho que não faz mal. no cemitério.Tenho a certeza de que diz isso a todas as mulheres..E isso incomoda-a? .Sem dúvida. Ela ficou a reflectir por momentos. Não sou esse género de homem. como sabe. fica avisado de que se não estiver cá logo pela manhã. sou muito tímido.Estava a pensar nisso. Ele negou. . concluirei que me enganei consigo. Quando o vi pela primeira vez. . Tinha de concordar que o homem era persistente. a pensar na insistência dele. . normalmente. Mr. Porquê? .Não. No entanto.Bom.

Nele. pensou Jeremy. onde. O homem apressou-se a dar a volta ao carro. Construídas em madeira. a precisar de pintura. um tipo de estrada de que as gentes da região deviam apreciar muito. a balouçar à toa por causa dos buracos do piso e depois a cuspir pedras.Sou. Marsh? Jeremy olhou-o. . pois recordava-se de ter passado por cadeias de hotéis em Washington. mas parte da rusticidade incluía provavelmente mosquitos a aligátores. havia seis pequenas vivendas dispostas ao longo da margem do rio. tinha de admitir. que parecia enervado. O que o levou a recordar a noção de que nunca se deve confiar numa Câmara de Comércio local. Moderno não era. ao parar. estupefacto. que irradiava de uma vivenda central. Da porta do automóvel irrompeu um homem obeso e calvo. Metido numas calças de poliéster verde e numa camisola azul de gola alta. Ou teria sido moderno trinta anos antes. Jeremy deu consigo a parar o carro no meio de um brejo. o homem parecia ter-se vestido às escuras.Mr. Era bucólico. telhados de zinco. animais que não lhe aumentavam muito a vontade de ficar ali.Quinze minutos mais tarde. deveria ser o escritório. mesmo em frente de um sinal pintado à mão onde se lia Greenleaf Cottages". . Enquanto estava a reflectir sobre a ideia de procurar sequer o escritório. ouviu o som de um carro que vinha pela estrada e reparou num Cadillac castanho que vinha na sua direcção. tudo parecia mexer-se depressa. ainda bem que consegui apanhá-lo antes de entrar no hotel! Queria ter uma oportunidade de conversar consigo! Nem sou capaz de lhe exprimir o quanto todos estamos excitados com a sua presença entre nós! Parecia sem fôlego ao estender a mão para apertar . Ao todo.Bom. chegava-se à porta de cada uma através de um estreito carreiro de terra. depois de percorrer uma estrada asfaltada que deu lugar a uma outra estrada de terra batida com gravilha. . a cerca de quarenta minutos de Boone Creek.

. Eu não consigo suportar a maior parte dessas porcarias a que agora chamam música. O meu pai. Sabia tudo o que havia a saber acerca desta terra.Claro . Tê-lo-ia recebido no edifício da Câmara. . Desculpe a minha aparência. A música deveria servir para confortar a alma. O outro riu-se. bom. foram os tipos da Duke.O senhor é o presidente da Câmara? . Ainda em estado de choque. depois. Como se sabe. passo mais tempo nas minhas actividades de comerciante. vim directamente do campo de golfe. . Pelo menos. Se quer saber a verdade. foi presidente durante vinte e quatro anos. Primeiro.Bom. Disse para comigo Aí está um homem que aprecia boa música".vigorosamente a de Jeremy.esclareceu. nem consigo dizer quanto nos sentimos entusiasmados por o senhor estar aqui para escrever uma história sobre a nossa bonita vila. mas pode tratar-me por Tom . Melodias antigas. É mais uma posição honorária.respondeu Jeremy. É exactamente disso que a vila necessita. mas. o presidente da Câmara. a indumentária estava explicada. não.replicou o homem.Desejaria ter estado presente para lhe dar as boasvindas à nossa bonita vila. pode crer. É uma espécie de tradição de família.Claro . soltando nova gargalhada. é claro que não .repetiu Jeremy. . o jornal da terra.Desde 1994.Não. a rir-se com vontade. Calculei isso no preciso momento em que o vi. Provocam-me dores de cabeça. como eu disse.Eu conheço-o? . Sou o dono do centro comercial e da estação de rádio. no centro da vila. Bom. Owen Gherkin. quem é que não aprecia uma boa história de fantasmas? As gentes de cá estão verdadeiramente excitadas. Como o dos pickles.indagou Jeremy. . ser presidente da Câmara é um emprego a tempo parcial.Sou Tom Gherkin. Compreende o que quero dizer? . logo que soube que estava cá. Jeremy analisou o homem. a tentar conter o riso. Quero dizer. . Gosta das melodias de antigamente? .Tinha a certeza de que compreenderia. E agora . . Manifestava grande interesse pela vila. o meu pai.

. Isso. o que é bom.Estou certo de que deve ter ouvido falar do assunto. que deseja passar cá uns dias no próximo fim-de-semana para fazer o Circuito das Mansões Históricas. Marsh. quase sem Jeremy dar por isso. Ora. Poderá ouvir os pássaros e os grilos durante toda a noite. É claro que não o aconselho a procurá-las debaixo das moitas. O homem era um político da cabeça aos pés. Odiava serpentes. ou coisa do género. Aposto que o vai obrigar a encarar todos aqueles hotéis de Nova Iorque com olhos diferentes.Mas como é que soube que eu estava cá? O presidente Gherkin assentou-lhe uma palmada amigável no ombro e. Dispomos de algumas das melhores zonas de pesca e de caça aos patos de todo o estado.Serpentes? .As novidades correm. mesmo pessoas famosas. De qualquer forma. como Lhe disse. ainda na semana passada recebemos um pedido de um grupo do Alabama. no Greenleaf. no meio da Natureza. . Isto é uma pequena amostra do Paraíso. Mr. Contudo. A notícia está a espalhar-se. . normalmente as serpentes só aparecem durante o Verão. sabia? Vem gente de todo o lado. -Já está a acontecer . Há pessoas que não têm um mínimo de bom senso.admitiu Jeremy. Faz parte da sedução deste lugar.E não se preocupe com as serpentes. . calma. As serpentes da zona costeira podem tornar-se perigosas. mas não se esqueça de que todo o caso não passou de um malentendido. Os olhos de Jeremy esbugalharam-se: .Ah! .exclamou Jeremy. Jeremy abanou a cabeça. Ainda mais do que mosquitos e aligátores. se quer saber a minha opinião. não se preocupe com elas. a tentar resumir numa resposta a visão que sentia a formar-se dentro da cabeça. mais a beleza natural. e na sua maioria ficam aqui. a tentar acalmar as águas. Progridem como os fogos florestais. Sempre foi assim e nunca dei xará de ser assim.um jornalista da grande cidade. Uma vivenda só para si. estavam a encaminhar-se para a vivenda de recepção. .

Tem de perceber que eu sou antes de mais um jornalista. Jeremy não sabia muito bem o que poderia dizer para o dissuadir. vamos desenrolar a passadeira vermelha para os recebermos.Bom. Porque nós temos aqui o produto genuíno. com notória descrença.Só faz o seu trabalho e depois veremos o que acontece. um micropterus salmoides .Ora diga-me. Se é que assim se Lhe poderia chamar.Não faço ideia. presidente. uma enorme história para contar. Jeremy. . o suficiente para interromper a resposta de Jeremy e olhou à volta.. sem dúvida. . as paredes de madeira recordavam os rolos que se encontram nas cabanas feitas com rolos de árvores. . Franziu de novo a testa. . Por detrás do balcão. preso à parede. Muito melhor do que o senhor fez no Primetime. Vamos alojá-los aqui mesmo. não tenho nada a ver com a televisão. .Na verdade. um dos motivos era a possibilidade de ele ter razão. no Greenleaf. estava eu a pensar se acha que um desses programas de televisão poderá pegar na história que escrever acerca da terra. . O aspecto era o de um lugar que não sofrera qualquer remodelação durante a última centena de anos. o presidente Gherkin estava a empurrar a porta da recepção.Não. . Além de que terão. a erguer as sobrancelhas..insistiu Jeremy. estava um grande peixe de água doce. despesas por nossa conta.Não. Mostrar-lhes a verdadeira hospitalidade sulista. Muito amável. como se quisesse ter a certeza de que o seu ouvinte notava o quanto ele. certamente que não .Pois é claro que está. estava a pensar. apreciava aquele cenário natural. Normalmente. . Portanto. porque se o fizerem.disse o presidente Gherkin. não se importa que o trate por Jeremy? . momentos depois. O presidente Gherkin suspirou profundamente.. Jeremy.Muito amável da sua parte. .Estou a falar a sério .

agarrou numa ficha e colocou-a em cima do balcão. como se estivessem encurralados. . com os pés levantados. O homem pôs-se de pé e foi-se estendendo até ficar com a cabeça bem acima da de Jeremy. dentes e mandíbulas à mostra.Não é apenas o dono do Greenleaf. Contudo. . os ombros mais largos do que os do urso empalhado ao canto do escritório. As bocas estavam arranjadas em atitude de rosnar. . Jeremy estava ainda a tentar absorver as imagens quando. Jeremy já tinha reparado que o homem se ria muito. todos estes tinham sido montados em atitude de defesa. 10 de altura. o que não constituiu surpresa. viu um urso e deu um salto. também o urso tinha as garras estendidas em posição de ataque. esquilos. sentado em frente de um televisor. . também é membro do Conselho Municipal e é o taxidermista local . estava um homem de barba forte. ao contrário de muitos animais empalhados que Jeremy já tinha visto. viam-se animais embalsamados: coelhos. jaritatacas e um texugo. Jeremy continuava a fitar o homem. em todos os cantos e paredes. por todo o lado. ao olhar para um canto. Tinha mais de 2.acrescentou Gherkin. Gherkin riu-se.muito apreciado para pesca desportiva. Apontou para Jeremy e para a ficha. os corpos arqueados. A imagem era má. Por detrás do balcão. De olhos esbugalhados. com linhas verticais a percorrerem o ecrã com intervalos de segundos. parecia não querer nada mais que não fosse estender os braços para o corpo do Jeremy e bater-lhe.Não tenha quaisquer preocupações a respeito dele apressou-se a aconselhar o presidente. que era a pessoa mais medonha que alguma vez encontrara. para depois o empalhar e suspender na parede. em cima do armário de arquivo e da secretária. O lugar era um Museu de História Natural transformado num filme de terror e apertado no espaço de um armário. para todos os efeitos. Vestido com um fato-macaco de alças e uma camisa de quadrados. tornando quase impossível perceber o que é que estava a ser transmitido. Preencha a ficha e estará pronto para conseguir o seu pequeno lugar no Paraíso. sariguéias.Aqui o nosso Jed não gosta muito de falar com estranhos. Como acontecia com os outros animais. Não sorriu.

sou eu.Olha lá. Ele fará o que deve ser feito. não estejas a intimidar o nosso amigo . Jed apontou novamente a ficha com o seu dedo maciço. tens de o tratar bem. obrigado. Gherkin inclinou-se sobre o seu ombro. . Mas é o mínimo que podemos fazer por um hóspede tão distinto. . . .interveio o presidente. Jeremy pegou na caneca e começou a preencher a ficha de registo. O presidente Gherkin voltou a concentrar a atenção em Jeremy. só para que saiba. . .Vou tentar não me esquecer disso.Não é necessário.Não acha que é uma actividade incrível? .Nem mais uma palavra . . talvez mude de ideias enquanto cá estiver. . é um jornalista da grande cidade. . acompanhando as palavras com um gesto de recusa.Você é caçador. .interrompeu.Ele é de Nova Iorque. Os olhos do presidente brilharam de súbito.A propósito.Bom.E Jeremy. a sentir os olhos de Jed fixos nele e a pensar no que poderia acontecer se mudasse de ideias e resolvesse não ficar ali.repetiu Jeremy.Se caçar qualquer coisa aqui à volta. não caço muito.Para Lhe ser franco..Já lhe disse quanto estamos excitados por o termos na vila? . . forçando-se a sorrir. não é verdade? .prosseguiu. . . Já Lhe disse que temos aqui condições espectaculares para a caça aos patos. erguendo o sobrolho. a vila terá muito gosto em custear a sua acomodação aqui. venha ter com o Jed.A decisão já foi tomada pelas mais altas instâncias . não disse? Enquanto Gherkin falava.Pois bem.Incrível .

Para Doris. Manter os velhos hábitos e tudo isso. era tudo aquilo a que uma mulher podia razoavelmente aspirar. O rádio colocado no peitoril da janela transmitia música de jazz. mudar-se para uma casa rodeada por uma sebe branca e ter filhos. de bons costumes. Esta sempre manifestara um profundo interesse pela vida pessoal da neta. era frequente jantar com a avó. Embora tivesse casa própria ali perto. a cortar tomates e cenouras que ia passando por água. Afinal. E. Doris estava a saltear bacon. casara aos vinte anos e passara os quarenta anos seguintes com o homem que adorava. Naquela terra era o que se esperava das mulheres. No passado. passara por casa de Doris. como fazia em alguns dias da semana. embora a conhecesse suficientemente bem para não contar nada à avó. Depois de um ataque cardíaco. Para além da conversa superficial típica entre pessoas de família.Do outro lado da vila. Doris era da velha escola. o motivo chamava-se Jeremy Marsh. cansava-se mais facilmente. Era aqui que neta e avó divergiam. Contudo. Lexie encontrava-se junto ao lava-loiça. Para Lexie. a quem ela sentisse orgulho em chamar o seu homem. dois anos antes. três anos antes. Por mais esperta que se mostrasse. quando algumas vezes se decidia a ser franca consigo mesma. Lexie sabia que a avó só queria o bem dela. com um bom emprego. pelo que Lexie tinha apreendido a evitar o tema sempre que possível. para isso era preciso começar por encontrar o homem certo. numa vivenda branca com gelosias azuis situada numa rua calma. o motivo era o seu longo dia de trabalho. Lexie fora criada pelos avós. chegara ao ponto em que se punha a imaginar motivos para a neta não se ter casado. Doris parecia pensar que um homem decente. nenhuma dissera algo de importante. enquanto uma panela de massa cozia noutro bico do fogão. talvez aquelas . cebolas e alhos. Lexie também se sentia atraída por esse género de vida. assentar. pelo que podia perfeitamente. condensar todas as preocupações e desejos de Doris acerca dela: era tempo de encontrar um bom homem. alguém que Lhe inspirasse confiança. Lexie sabia que não havia nada de extraordinário naqueles desejos da avó. Doris não conseguia perceber como é que alguém na casa dos trinta anos ainda não tinha assentado. mesmo que não estivesse disposta a admitir tal coisa. Depois de sair da biblioteca. em poucas palavras. até ele ter falecido.

e. Em qualquer casamento. Não era pedir muito. sem . desde que o marido e a mulher façam aquilo que o outro deseja. como qualquer outra relação. com alguém. Não seria justo para ela. Porém. Um bom casamento. O marido. a entusiasmasse. Ou seria? Segundo a Glamour. Queria alguém que se oferecesse para Lhe massajar os pés depois de um longo dia de trabalho. a esposa decide que carece de mais afecto. também não seria justo para ele. Pretendia um homem sensível e meigo que. aquele era o problema com muitos dos casais que conhecia. se não sentisse qualquer paixão por ele. a Ladies' Home Journal e a Good Houseeeing. Um romântico. não conseguiria deixar de pensar que apenas pretendia arrumarse. certamente. As dificuldades acontecem quando uma das pessoas começa a fazer coisas sem se preocupar com a outra. existe um equilíbrio subtil entre o que um pretende fazer e aquilo que o parceiro deseja. Ao ler aquelas revistas. mas que também fosse capaz de a desafiar em termos intelectuais. era.qualidades fossem as necessárias e suficientes. Mas Lexie não queria comprometer-se com alguém só por se tratar de um homem decente e com um bom emprego. Era provável que alimentasse expectativas irrealistas. nunca haverá qualquer problema. Por mais gentil e responsável que um homem se mostrasse. de repente. poderá esperar-se isso? Lexie não tinha a certeza. Contudo. A avó teria. decide que necessita de mais actividade sexual e trata de procurá-la fora do casamento. aquilo seria tudo o que deveria pedir-se de uma relação? Uma relação? Com cada um dos parceiros a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para manter o outro satisfeito? Ora. o que a pode levar a fazer exactamente o mesmo. assim não lhe servia. simultaneamente. na expectativa de que o outro aja da mesma maneira. parecia que todos os artigos salientavam que manter vivo o interesse de uma relação era uma tarefa exclusiva das mulheres. o género de homem que não precisasse de um motivo especial para Lhe oferecer flores. mas Lexie pretendia também estar apaixonada por ele. se a mulher não sentir paixão pelo marido. implica a necessidade de subordinar as necessidades pessoais de um parceiro às necessidades do outro. Tudo estará bem desde que cada um dos parceiros se mantenha fiel à sua parte do contrato. todas elas recebidas na biblioteca.

e recordava-se de que crescera a pensar que um dia havia de habitar numa casa como aquela.dúvida. Tendo em mente o conselho dado pela Doris à neta. Era evidente que a adorava e comentava com frequência quanto era feliz por ter uma mulher como ela. por que motivo estaria Lexie a pensar de novo em casamento? Provavelmente por estar em casa da avó. uma resposta pronta. À primeira vista. uma parte de Doris começou a morrer também. Bom. ou de lhe dar a mão quando passeavam pela vila. Sempre imaginara. a casa onde tinha crescido depois da morte dos pais. a casa dela e a da avó eram semelhantes. sentia-se a imergir nas memórias eternamente presentes da infância. que viria a ter uma família própria. janelas fora de moda. era como se cada um sempre tivesse sido destinado a estar junto do outro. a cozinhar com a avó. ainda mais importante. uma outra envolvendo um . Cheiros desses reflectiam uma maneira de viver tornada aprazível com o conforto de muitos anos e. O avô era um daqueles homens naturalmente românticos. sempre que passava da porta da frente. Madeira batida pelas intempéries. Tinha-lhe sido tão dedicado quanto fiel. Duas relações tinham-se aproximado do modelo. uma relação que datava da faculdade e. com aros pintados tantas vezes que se haviam tornado quase impossíveis de abrir. Com Avery. Até ao Fim. quase. Primeiro o ataque cardíaco. fazendo crer que não estava a chover em qualquer outra parte do mundo. mas nunca lhe fora possível replicar os aromas. o odor dos lençóis secos ao sol. mas não acontecera. meu amor. antes de mais. E tinha vivido numa casa como aquela. Acredita em mim. ficavam na mesma zona. diria. o cheiro ligeiramente bolorento da cadeira de balouço que o avô tinha utilizado durante anos para descansar. Depois de ele morrer. nunca deixou de abrir a porta do carro à mulher. Os guisados de sábado à tarde. Havia uma familiaridade reconfortante no facto de estar ali. na opinião da neta. o que é que se concluía? Concluía-se apenas que Doris teve a felicidade de encontrar um homem como ele? Ou teria ela. tecto de zinco que amplificava o som da chuva. apesar de. talvez até filhos. visto nele algo que confirmava ser aquele o homem perfeito para ela? E. como é óbvio. isso passa ao fim de um par de anos". agora a artrite a piorar. depois dele. os avós terem desfrutado de um tipo de relacionamento que faria a inveja de qual quer pessoa.

. as saídas com homens tinham sido mais raras e mais espaçadas entre si. veio a Boone Creek visitar um primo. E depois? Nada de verdadeiramente especial. mas. Houve um par de tentativas. bom. Tal como Lexie. Mr. à espera das inevitáveis perguntas sobre a sua vida amorosa. Nos últimos dois anos. outra com um advogado. mas Rodney. manifestava-se demasiado empenhado na pesca.jovem de Chicago que. o que é que pensaste dele? . pensava. pensava ela. Tinham saído cerca de uma dúzia de vezes. cada uma a durar uns seis meses. Uma fora com um médico local. . Desde esse tempo. Renaissance era sedutor e exótico. contudo. na caça e nos exercícios de musculação e quase nada interessado em livros e em tudo o resto que acontecia pelo mundo fora. a não ser que incluísse as vezes que saíra com Rodney Hopper. Lexie não pôde deixar de sorrir. mais ou menos uma saída em cada mês. passara um ano a estudar na Faculdade de Economia de Londres e pagava os estudos com uma bolsa de jogador de basquetebol. e ela. Nem sequer se dignara dizer-lhe adeus. Parecia o clássico homem do Renascimento: falava quatro línguas. Era. só durante um Verão. ambos a tinham pedido em casamento mas em qualquer das situações não sentira a magia. que iria amar aquela terra quanto ela a amava. numa manhã de sábado.. mas das quais mal se recordava. Ora bem. Mas não para ela. um rapaz simpático e. aquilo que devemos sentir para sabermos que não é preciso procurar mais. a emoção ou o quer que fosse. sempre que havia festas de caridade em que ela era convidada a comparecer.perguntou Doris logo que teve oportunidade. Por vezes. acordou para saber que ele estava de regresso a Chicago. Lexie perguntava a si mesma se deveria acompanhá-lo quando ele lhe pedia ou se deveria namorá-lo normalmente. poderia vir a ser um excelente marido. um ajudante do xerife da vila.. em que é que ficava? A vir a casa da avó três vezes por semana. ele nunca deixou de procurar a companhia de Lexie e um par de vezes convidou-a para irem beber um copo à Lookilu Tavern. Pensou que ele ia ficar ali.Então. foi para ela uma paixão à primeira vista. Rodney nascera e fora criado na vila e quando eram miúdos tinham participado juntos nas brincadeiras próprias da idade nos terrenos da igreja episcopaliana.

confessou.o a procurar uns livros para ele poder começar o trabalho. ele demorou-se por lá um bocado. . . .Bom.respondeu Lexie. suspirou.Oh. A neta encolheu os ombros. Ajudei.Muitas vezes . Doris esperou que a neta prosseguisse. nada mais. . Foi por isso que perguntei.Perfeito. eu gostei dele .Pareceu-me um verdadeiro cavalheiro. mas.Não conversaste com ele? .Pareceu-me bastante simpático.Não me parece que estejas a falar com convicção. que se recordava muito bem da história.Por que diabo havia isso de o interessar? Só ficará uns dias na vila. e foi . por ter escolhido ficar com ela.Já te contei como foi que conheci o teu avô? . Como disseste. .indagou. gostaria de saber se deixou que o seduzisses com a tua brilhante personalidade? ..Deixa-te de fugir ao assunto. .Que mais queres que eu diga? . a caminho de Baltimore. . Tinham-se conhecido num comboio. . De quem é que julgas que eu estava a falar? .Pois bem. .De Jeremy Marsh.Não faço ideia. ele era de Grifton e ia a uma entrevista para um posto de trabalho que nunca viria a ocupar. ao reparar que ela não se mostrava disposta a isso. . .É claro que conversámos. a fazer-se de inocente.concordou Lexie.De quem? .Nesse caso sabes que é mais provável encontrares alguém quando menos o esperares. Ouvi dizer que ele passou umas horas na biblioteca. . .

- Estás sempre a dizer isso. Doris enrugou a testa. - Porque tu achas que não precisas de me ouvir. Lexie trouxe a terrina da salada para a mesa. - Não é preciso que te preocupes comigo. Sou feliz. Adoro o meu trabalho, tenho bons amigos e disponho de tempo para ler, para fazer desporto e outras coisas de que gosto. - E não te esqueças que também sou uma bênção para ti. - Pois, é claro. Como é que poderia esquecer-me disso? Doris sorriu e prosseguiu com o cozinhado. Por momentos, fez-se silêncio na cozinha e Lexie soltou um suspiro de alívio. Graças a Deus, tinha acabado, pelo menos por agora. E a avó nem tinha pressionado muito. Agora, pensava, poderiam apreciar um jantar agradável. - Achei-o bastante bonito - opinou Doris. A neta não respondeu; em vez disso, pegou em dois pratos e talheres que foi pôr na mesa. Talvez fosse preferível fingir que não estava a ouvir. - E, só para que saibas, ele tem muito mais do que tu pensas - prosseguiu a avó. - Ele não é aquilo que tu imaginas. Foi a maneira como disse aquilo que obrigou Lexie a deterse. No passado reparara várias vezes naquele tom de voz, quando ela queria sair com amigos do liceu e a avó a convencia a não ir; quando quisera fazer uma viagem a Miami, uns anos antes, mas fora convencida a não ir. No primeiro caso, os amigos com quem pretendia sair tiveram um acidente de trânsito; no segundo, houve tumultos na cidade que se estenderam ao hotel onde ela planeara ficar. Sabia que por vezes a avó tinha premonições. Não tantas como a bisavó. Contudo, mesmo que Doris não gostasse de dar explicações adicionais, Lexie tinha plena consciência de que a avó intuía sempre a verdade. A ignorar por completo que as linhas telefónicas estivessem ocupadas um pouco por todo o lado, com as pessoas a discutirem

entre si a presença dele na vila, Jeremy estava na cama, coberto de roupa, a ver o noticiário da televisão local e à espera das previsões meteorológicas, enquanto lamentava não ter seguido o impulso inicial, não ter procurado outro hotel. Se o tivesse feito não teria de suportar as obras de arte artesanais de Jed, que o punham nervoso. Era óbvio que o homem dispunha de muito tempo para trabalhar com as mãos. E de muitas balas. Ou de chumbos. Ou de um bom párachoques na carrinha. Ou lá o que era que ele usava para matar todos aqueles animais selvagens. Só ali no quarto havia doze animais empalhados; com a excepção de um segundo urso empalhado, de momento gozava da companhia de todas as espécies zoológicas do estado de Carolina do Norte. Não tinha dúvidas de que Jed teria incluído um urso, se tivesse um segundo espécime. Excluindo aquelas coisas, o quarto nem era mau de todo, desde que ele não estivesse à espera de uma ligação de banda larga à Internet, ou de aquecer o quarto sem usar a lareira, pedir algo ao serviço de quartos, ver televisão por cabo ou até fazer uma ligação num telefone com teclas. Há quanto tempo não via um telefone de marcador circular? Dez anos? Quanto ao telefone, até a mãe dele tinha sucumbido perante o mundo moderno. O que ainda não sucedera com o Jed. O velho Jed deveria ter ideias próprias sobre o que era importante para os seus hóspedes. Contudo, se aquele quarto tinha algo de decente tratava-se, sem dúvida, da varanda coberta das traseiras, de onde se avistava o rio. Até continha uma cadeira de balouço, onde Jeremy chegou a pensar sentar-se, antes de desistir por recear as víboras. O que o levou a magicar o que é que o Gherkin quisera dizer quando falara num mal-entendido. Não tinha gostado do tom da voz do homem. Deveria, sem dúvida, ter feito umas quantas perguntas, tal como deveria ter indagado onde poderia encontrar lenha. O quarto estava absolutamente gelado, mas Jeremy alimentava uma suspeita engraçada: estava convencido de que o Jed não atenderia a chamada se ele resolvesse telefonar para a recepção a perguntar pela lenha. Além disso, o Jed metia-Lhe medo. Chegou a altura de aparecer o meteorologista no noticiário.

Com esforço, Jeremy levantou-se da cama para ir aumentar o volume de som. Mexendo-se o mais rapidamente que podia, a tremer de frio, ajustou o aparelho e voltou a mergulhar para debaixo dos cobertores. O meteorologista foi de imediato substituído por anúncios. Só imagens. Tinha estado a matutar se deveria sair e ir ao cemitério, se houvesse hipóteses de nevoeiro: Não havendo, tentaria descansar. O dia fora longo; começara no mundo moderno, tinha recuado cinquenta anos e agora tinha de dormir sob a ameaça do gelo e da morte. Não era certamente o curso da sua vida de todos os dias. E havia que não esquecer a existência da Lexie. Lexie, qualquer que fosse o apelido. Lexie, a misteriosa. Lexie que se expunha, retirava-se e voltava a expor-se. Ela tinha estado a espicaçá-lo, não tinha? A maneira como insistia em tratá-lo por Mr. Marsh? O facto de fingir que o tinha compreendido imediatamente? O comentário sobre o funeral? Sem dúvida estivera a espicaçá-lo. Ou não estaria? O meteorologista reapareceu, parecendo acabado de sair da faculdade. O homem não teria mais de 23 ou 24 anos e aquele era certamente o seu primeiro emprego. Mostrava bem o entusiasmo de quem está a começar. Parecia, contudo, competente. Não tropeçava nas palavras e Jeremy percebeu, logo desde o início, que não iria sair do quarto. Esperava-se céu limpo durante a noite e o homem não falou de qualquer possibilidade de nevoeiro para o dia seguinte. SEIS Na manhã seguinte, depois de tomar duche com um fio de água tépida, Jeremy enfiou-se numas calças de ganga, numa camisola e num blusão de couro castanho, e seguiu para o Herbs, que parecia ser o lugar mais popular da vila a fornecer pequenosalmoços. No centro da sala, verificou a presença do presidente

Gherkin, que falava com dois homens de fato completo, e Rachel não tinha mãos a medir com o serviço das mesas. Jed estava sentado no lado mais afastado da sala, com as costas a parecerem uma montanha. Tully sentava-se numa das mesas do centro da sala, acompanhado de mais três homens e, como seria de esperar, era de todos quem falava mais. Havia quem acenasse com a cabeça e com as mãos ao ver Jeremy passar e o presidente saudou-o erguendo a caneca de café. - Viva, bom dia, Mr. Marsh - cumprimentou o presidente Gherkin em voz alta. - A pensar em coisas positivas para escrever acerca da nossa vila, segundo espero? - Tenho a certeza disso - cantarolou Rachel. - Espero que tenha encontrado o cemitério - comentou Tully com voz arrastada. Inclinou-se para os companheiros de mesa. Este é o médico de que estava a falar-vos. Jeremy acenava com a cabeça e com as mãos em resposta, a tentar evitar que o envolvessem em qualquer conversa. Nunca tinha sido madrugador e, ainda por cima, não tinha dormido bem. Gelo e morte, mais pesadelos em que entram víboras, conseguem provocar má disposição seja a quem for. Sentou-se a uma mesa do canto e Rachel moveu-se com eficiência na direcção dele, levando consigo um bule de café. - Hoje não há funeral? - escarneceu. - Não. Decidi-me por um traje menos formal - explicou. - Café, meu querido? - Se faz favor. Pousada a chávena, encheu-a até ao bordo. - Esta manhã, quer o especial? As pessoas nunca mais deixam de o pedir. - O que é o especial? - Uma omeleta Carolina. - Óptimo - aceitou, sem fazer ideia do que era uma omeleta Carolina, mas, com o estômago a dar horas qualquer comida lhe parecia boa. - Com aveia e um biscoito?

- Porque não? - Volto dentro de uns minutos, meu querido. Jeremy foi beberricando o café enquanto passava uma vista de olhos pelo jornal do dia anterior. Todas as quatro páginas, incluindo a primeira, com um artigo de fundo, eram dedicadas a Miss Judy Roberts, que acabava de celebrar o seu centésimo aniversário, um marco agora atingido por 1,1 por cento da população do país. Junto do artigo fora incluída uma fotografia da redacção do jornal na casa de repouso, com um bolo de anos com uma única vela acesa, enquanto Miss Roberts estava mais atrás, deitada na cama, com aspecto comatoso. Olhou pela janela, a perguntar a si mesmo o que o levara a olhar para o jornal da terra. Em frente do restaurante havia uma máquina de venda com o USA Today; estava a meter as mãos nas algibeiras, à procura de moedas, quando um ajudante uniformizado se sentou do outro lado da mesa. O homem parecia simultaneamente zangado e extremamente robusto; os bíceps faziam esticar as costuras da camisa e usava óculos espelhados que tinham passado de moda... ora, uns vinte anos antes, pensou Jeremy, quando a série CHiPS foi retirada. A mão estava apoiada na cartucheira, mesmo em cima do punho do revólver. Trazia um palito entre os dentes e fazia-o mudar de um canto para o outro da boca. Não abriu o bico, preferindo olhar em frente, dar a Jeremy o tempo suficiente para apreciar a sua própria imagem reflectida pelas lentes escuras. Uma situação, Jeremy tinha de o admitir, algo intimidativa. - Deseja alguma coisa? - indagou Jeremy. O palito mudou uma vez mais de lugar. Jeremy fechou o jornal, sem qualquer ideia do que estava a acontecer. - Jeremy Marsh? - inquiriu a autoridade. - Sou. - Bem me pareceu. Acima do bolso do peito do ajudante, Jeremy notou uma chapa brilhante com o nome do agente gravado. Mais uma etiqueta. - E o senhor deve ser o xerife Hopper?

- Ajudante Hopper - corrigiu. - Peço desculpa. Fiz algum mal, senhor ajudante? - Não sei - respondeu Hopper. - Fez? - Que eu saiba, não. O ajudante Hopper fez o palito mudar novamente de posição. - Está a planear ficar por cá uns tempos? - Durante uma semana ou duas. Estou cá para escrever um artigo. - Sei o motivo por que está cá - interrompeu o ajudante. - Só quis verificar por mim mesmo. Gosto de falar com estranhos que decidem ficar por aqui uns tempos. Deu muito ênfase à palavra estranhos, como que a fazer sentir a Jeremy que isso era uma espécie de crime. Não tinha a certeza de que uma resposta, qualquer que ela fosse, pudesse dissipar a hostilidade; por isso, resolveu aceitar o óbvio. - Ah! - foi o seu único comentário. - Ouvi dizer que tenciona passar bastante tempo na biblioteca. - Bom. acho que poderá acontecer. - Hum - rosnou o ajudante, a interrompê- lo de novo. Jeremy estendeu a mão para a caneca de café e bebeu um gole, a tentar ganhar tempo. - Lamento muito, ajudante Hopper, mas não faço ideia do que está a acontecer. - Hum. - Olha lá, Rodney, não estás a maçar o nosso convidado, pois não? - bradou o presidente do outro lado da sala. - É um visitante especial, está aqui para fazer aumentar o interesse pelo nosso folclore. O ajudante Hopper não vacilou nem desviou os olhos de Jeremy. Por qualquer motivo, parecia absolutamente furioso.

. O ajudante Hopper carregou o cenho ao ver Jeremy levantarse da mesa para ir ao encontro do presidente Gherkin.Bom. Jeremy pensou que o homem podia ser usado como esqueleto de estudo..acrescentou o presidente. Jeremy mudou o peso do corpo de um para o outro pé. Nada de extravagâncias. numa súbita inspiração: . o presidente estava a descrever a excitação provocada pela visita de Jeremy e o serviço que ele podia prestar à vila. O presidente Gherkin interrompeu-o ao aplicar-Lhe uma palmada nas costas. gostaria de lhe dar a oportunidade de conhecer algumas pessoas da terra. como eles dizem. Ambos pareceram avaliá-lo com a mesma intensidade usada pelo ajudante Hopper.Importante presença na televisão.Chegue aqui.E por falar da vila .sussurrou.. Entretanto. Quando se aproximou.Hoje gostaria de o convidar para um jantar com alguns amigos íntimos.Muito excitante . o presidente Gherkin apresentou-o a duas pessoas: uma era o macilento jurista do município.acrescentou o presidente.Pois bem. .Poderemos acabar no Primetime Live . deixa o homem tomar o pequeno-almoço em paz . .Estou apenas a conversar com ele. Agitou uma das mãos. como tenho estado desde ontem a tentar explicar ao senhor presidente. mas como vai ficar por cá durante alguns dias. a outra um médico 92 de aspecto pesado que trabalhava no centro de saúde local. .. senhor presidente. Há aqui umas pessoas que gostaria que conhecesse. Jeremy ergueu ambas as mãos. . acenou com ares de conspirador. é claro. . Os outros deram mostras de solene assentimento. Inclinando-se para os outros dois. Jeremy.indagou o advogado.De verdade? . . a caminhar para a mesa. .repreendeu Gherkin. Para reservarem a sua opinião. .

Sim.Uma pessoa impressionante. Pedi-lhes que fizessem uma extra-especial. já a conheço. não se esqueça. Ergueu as sobrancelhas. Jeremy olhou de relance para o presidente.pediu o presidente Gherkin. de que muitas das pessoas que vou convidar viram os fantasmas. em conjunto.Vamos. . .Sim.confessou Jeremy.. . pelo que terá a possibilidade de lhes arrancar as suas impressões. não é? Notava-se uma ligeira insinuação na maneira como a frase fora construída. Miss Lexie? ..atalhou o presidente Gherkin. Trago-lhe o pequeno-almoço. . Graças a Deus.Poderá ser por volta das 19 horas? .. não é necessário. Presumo que estará na biblioteca.Na verdade. certo? .Julgo que já conhece a nossa excelente bibliotecária.Faça favor .Informo-o um pouco mais tarde. . E. O presidente ergueu as sobrancelhas. por se tratar de um visitante vindo de Nova Iorque. . claro. .Bom proveito. . Jeremy seguiu a empregada de regresso à sua mesa. algo parecido com uma conversa de balneário. Vão contar-Lhe coisas que talvez lhe provoquem pesadelos. Adoro a . Acho óptimo . o advogado e o médico mantiveram-se expectantes.Disparate .. Raquel colocou-lhe o prato em cima da mesa. . .. o ajudante Hopper já tinha saído e Jeremy deslizou para a cadeira.Tem sido uma grande ajuda .concordou Jeremy.É o mínimo que podemos fazer. a acenar com as duas mãos.É provável. meu querido.Onde é que será o jantar? . A hesitação de Jeremy foi tudo o que o presidente precisava para concluir.

. Parou subitamente. Como? Por sua vez. absolutamente! .. está a convidar-me? Jeremy ficou de boca aberta. Tully. É um lugar único em todo o mundo. Rachel sorriu. como se os ingredientes tivessem sido colhidos naquela mesma manhã. Habitualmente. uns milímetros de cada vez.Bem..Ora. Jeremy dirigiu-se para o carro. Marsh. é bem provável que tenha de me contentar com isso chilreou. Presidente Gherkin. já lá esteve? . Não queria meter-se em conversas. No entanto. tinha mais que fazer. enquanto Jeremy comia. ainda não. Mr. sem nunca deixar de sorrir. Sempre desejei lá ir. sabia a fresco.Prometo não me esquecer . .. pensou. Mas também não seria na estação de serviço do Tully. No dia seguinte iria beber um café noutro sítio qualquer. Durante os vinte minutos seguintes. numa noite qualquer em que tenha vontade de lá ir. já estou .Bom. compensasse todas as maçadas. . Conforme Doris afirmara no dia anterior. mesmo que ele servisse café. Rachel veio junto da mesa uma dúzia de vezes. Uma pequena cidade dos EUA era mais do que podia suportar-se antes do café. .murmurou Jeremy.. . A cidade parece-me tão. Meu Deus". Ajudante Hopper. Jed. Até tinha de admitir que era bem melhor do que pensava que fosse. o café do dia seguinte seria noutro sítio. Não estava convencido de que a comida do Herbs.Devia ir. despacho-me daqui por volta das dez horas. despejando café na caneca. com um ar recatado. tão excitante. que era fantástica. espantado.Oh. a recuperar do que deveria ter sido um pequeno-almoço repousado.E terei todo o prazer em Lhe mostrar o cemitério. deslumbrante.cidade. a Rachel não pareceu reparar na expressão dele. Rachel.

O armário de arquivo estava arrumado a um canto. O subsídio era recebido ao fim do mês. acabara por ter seis obras diferentes sobre orquídeas. a tentar. havia pilhas de papéis por todos os lados: nos cantos. tinha de analisar um monte de catálogos de editoras para poder fazer a encomenda semanal. Jeremy Marsh. onde estavam os documentos de tarefas consideradas urgentes. sem o conseguir. as flores preferidas do funcionário. tentara. A procurar vestir-se de forma mais casual. supunha ela. de certo modo. bastava de tretas. a secretária e cadeira eram bastante funcionais. Mal tinha tempo para respirar. mas chegara à conclusão de que o trabalho corria melhor se não delegasse funções. " Sacudiu a cabeça e tirou as chaves da algibeira enquanto se dirigia para o carro. o pequeno-almoço estava despachado. verificou que eram quase nove horas. Tinha trabalho a fazer. E vejam-no agora. quase o conseguia. O gabinete dela tinha estantes a toda a volta. de que a biblioteca fazia parte. sentada em frente do computador. desde o momento exacto em que Jeremy Marsh parou o carro no parque de estacionamento. tendo ela própria a sede numa dessas vivendas. Que não lhe saía da cabeça. Ao trabalho normal havia que acrescentar a necessidade de encontrar o conferencista para o almoço dos Amigos da Biblioteca e de preparar tudo para o Circuito das Mansões Históricas. mesmo quando se dispunha a trabalhar. Por mais que tentasse. na vertical e na horizontal. por baixo da janela.a pensar como esta gente. E. Todavia. Óptimo. Tinha dois funcionários com horário completo. a abarrotar de livros desde o tecto até ao chão. Os funcionários eram excelentes para recomendar títulos recentes e ajudar os estudantes a procurarem aquilo de que precisavam. Consultando o relógio. Pelo menos. Em cima da secretária também se viam pilhas altas. da última vez que deixara um deles decidir quais os livros a encomendar. misturar-se com a gente da terra. Lexie deixou-se ficar a olhar pela janela do seu gabinete. mas. livros empilhados de todas as maneiras. Naquela manhã. gizar um plano de organização da sua agenda. mas apenas por falta de espaço. a . Havia ali pouco que pudesse ser considerado decorativo. em cima da cadeira extra encostada a um canto.

Não queria pensar nele. que a situação ia tornar-se um pouco melhor em termos de negócios. O que é que a avó quereria dizer? Na noite anterior. Ele não é aquilo que tu imaginas. Na padaria. mas o que Doris Lhe dissera fora suficiente para lhe despertar a curiosidade. rodeara o tema: como correra o dia de trabalho. crivaram-na de perguntas sobre o homem e deram as suas opiniões sobre a melhor forma de ele encontrar a origem das misteriosas luzes. Que ia tornar a vila famosa. Lexie não deixava de pensar na insinuação acerca de Jeremy.mente acabava sempre por regressar a Jeremy Marsh. na vila havia pessoas que acreditavam que as luzes eram mesmo provocadas por fantasmas. nem tornou a referir-se a Jeremy Marsh. Doris fechara-se. O presidente Gherkin. Doris era presidente da Sociedade Histórica e o circuito era um dos eventos mais importantes do ano. já ouvira mexericos. quando se fosse embora tudo regressaria à normalidade. Então. Outras eram claramente cépticas. A posição dele era outra. Com a ajuda de Deus. encarava a investigação de Jeremy como uma espécie de promoção. seria o quê? Um tipo da grande cidade? Um mulherengo? Alguém à procura de uma aventura fácil? Alguém que escarneceria da vila logo que partisse? Alguém à procura de uma história e disposto a tudo para a encontrar. Se Jeremy Marsh não conseguisse descobrir a causa. como estava a ser organizado o Circuito das Mansões Históricas do fim-de-semana. Enquanto a avó ia falando. Logo que a viram. mesmo que tivesse de magoar outras pessoas durante o caminho? E por que diabo teria ela de se preocupar? O homem estaria ali apenas uns dias. Em vez disso. . Ele não é aquilo que tu imaginas. ouvira duas mulheres a falar dele. por exemplo. Naquela manhã. o que estava a acontecer com pessoas conhecidas. embora não exigisse um planeamento muito exigente. Afinal. a que se juntavam quatro igrejas e a biblioteca. como se não tivesse dito nada com interesse. onde parara para comprar um bolo. A situação era facilitada pelo facto de as mesmas doze mansões serem escolhidas praticamente todos os anos. Não voltou a referir-se à vida amorosa de Lexie. quando fora pressionada.

Pois. Marsh.seria bom para a economia. Afinal. Porém. bom. Era claro que não tinha de dar ouvidos à Doris. Na realidade. tinha visto algo de especial em Jeremy. na esperança de que eles também não conseguissem descobrir o que quer que fosse. Lexie reparou que ele trazia o . Afinal. tinha de admitir que tudo aquilo estava de certo modo a roubar-lhe o equilíbrio. ele tentara ser sedutor. Contudo. o afluxo de turistas nunca mais deixara de aumentar. era nisso que o presidente apostava.. Não tinham sido apenas os alunos da Universidade de Duke. ele tinha um certo encanto pessoal. Por qualquer razão.saudou Jeremy. Por vezes. Doris quisera dizer-lhe que era de opinião de que a neta deveria conhecê-lo melhor. Na noite anterior. tudo bem. pelo menos dois outros grupos de pessoas estranhas à vila tinham investigado o fenómeno. Fazendo rodar a cadeira. .. Para além de historiadores locais que. tinham encontrado uma explicação plausível. . o que verdadeiramente a preocupava era saber que a avó não teria dito fosse o que fosse de que não tivesse a certeza. na opinião de Lexie. ouviu o ranger da porta a abrir-se.Bom dia . no essencial. Estava demasiado ocupada a defender-se dos avanços do visitante e a fazer-Lhe crer claramente que não estava interessada nele. fora o presidente Gherkin quem convidara os estudantes a visitar o cemitério. E não restavam dúvidas. o presidente Gherkin sabia algo que só era do conhecimento de um pequeno grupo de pessoas. ele não perguntara e ela não tomara a iniciativa. Enquanto ponderava a situação. tinha sentido uma espécie de alívio. Mas depois a avó tinha feito aquele comentário ridículo. O mistério andava a ser investigado há anos. no dia anterior. Lexie pensava que poderia ter mencionado isso a Mr. o que não alterava o facto de ela não ter a intenção de deixar que as emoções a dominassem. sem êxito. Apesar da resolução.Pensei ter visto luz aqui. quando ele saíra. enfiando a cabeça no gabinete. detestava as premonições da avó. Lexie já uma vez tinha feito a rábula da conversa com o visitante" e não estava disposta a repetir a dose.

.O espaço não é grande. .Como podia não estar? Dormi num quarto gelado.Em casa. Gosto de uma certa calma .Pois fui.cumprimentou delicadamente. no cabide que havia atrás da porta. depois de dar uma vista de olhos para fora da janela.Esta manhã parece estar muito bem.Pois é . . . não faz inteira justiça àquele lugar. .Deixe ficar. Jeremy olhou à volta do gabinete. . . . Reparei que não estava lá. Passei a noite a ouvir aqueles ruídos estranhos. . Ouvi dizer que é rústico.Não. também. Lexie deixou escapar um sorriso ao encaminhar-se para a secretária.disposto. . Não esquecendo o parque de estacionamento. E depois.observou Lexie. Metade da vila a tomar o pequeno-almoço. .Olá .Uma bonita vista. mal preguei olho. Ou melhor. é aqui a ponte de comando? Onde tudo é decidido? . Ele mostrou o casaco.confirmou Lexie. . Pode ver tudo até à casa seguinte.Ia agora iniciar o trabalho.Estou a ver que foi ao Herbs . na companhia de animais mortos. vindos da mata.Gosto do seu sistema de arquivo . . uso o mesmo sistema.casaco ao ombro.A palavra rústico.Estive a imaginar se gostaria de Greenleaf. a apontar para as pilhas de papéis. .confessou. Demasiado barulhento. Entrou e entregou-lhe o casaco. esta manhã. . mas serve para o que há a fazer. .Então. O cabide está atrás da porta.Tem um lugar onde possa pendurar isto? Não há muito espaço na mesa da sala de livros raros. Lexie pendurou-o ao lado do seu.

.para começar o dia.Acho que posso fazer isso. Continuaram em silêncio até à sala de livros raros. Jeremy soltou uma gargalhada e Lexie apontou para a porta.É provável que tenha ouvido dizer que você passou algum tempo na biblioteca.Dê-lhe uma palavrinha em minha defesa. .Obrigado.Rodney? . Julga-se uma espécie de protector quando isso acontece. Ao caminhar ao lado dele a caminho da sala de livros raros. .Acho que foi o nome que disse. Ela sorriu. mas continuava a não ver motivos para confiar no homem. .Devia ter-me perguntado. Lexie encolheu os ombros. . . Há muitos anos que gosta de mim. está bem? . . ergueu um sobrolho.Tenho estado a pensar no seu projecto e há uma coisa que acho que talvez deva saber. Ela olhou-o. Ela entrou primeiro e acendeu a luz. Limite-se a não fazer nada que me obrigue a mais tarde dizer o contrário. .Oh. agradavelmente surpreendido. Bom. . sentiu que ele estava bem-disposto apesar da exaustão.Por acaso conhece um certo ajudante chamado Hopper? perguntou Jeremy. Como esperava um outro comentário mordaz.Não me pareceu inofensivo.Não tem de quê. é inofensivo.Devia ter-me avisado. que interesse é que tem o nome? Pareceu um pouco perturbado pela minha presença na vila. . . surpreendida: .

Oh. Mas por que motivo não me falou delas ontem? Ela sorriu. Jeremy notou que ela o olhava um pouco mais demoradamente do que antes. ela é adivinha.Não abuse . Os olhos dela lançaram chispas. espere. não sou adivinha.Como a sua avó. Jeremy. Foi um pedido que me fez. . recorda-se? . E consegue adivinhar o sexo antes de os bebés nascerem. é.troçou Jeremy. Ele sorriu-lhe.De facto. sem responder.Sou apenas bibliotecária. julgo que consigo encontrá-las. O primeiro.. Gostou mesmo muito.Foi o que me disseram . mesmo ao dizê-lo. . antes de acrescentar: investigações anteriores no .Pois recordo. . parecia .aconselhou Lexie mas. escrito em 1958 por um professor de etnografia da Universidade de Carolina do Norte e publicado no Journal of the South. SETE Jeremy passou o resto da manhã debruçado sobre uma pilha de livros e dos dois artigos que Lexie lhe trouxe. .Fico-lhe muito grato. .É verdade. Foi por eu não ter perguntado. Mas não dê excessiva importância ao facto. .Deixe-me adivinhar. Acredite ou não. .É. ela consegue esse género de coisas. e gostou do que viu.Se me der uns minutos.O que é? Lexie falou-Lhe de duas cemitério. Lexie. não é? .É verdade que acaba de me tratar por Jeremy? . .

nenhuma em Riker's Hill). Falava uma vez mais da teoria dos faróis de automóveis. pormenor interessante. Publicado num número de 1969 da Coastal Carolina. As algas. embora não a julgasse credível. em que os focos de luz são dobrados por camadas de ar a diferentes temperaturas. descargas eléctricas produzidas pelo movimento de rochas. além de ter contado o número de automóveis que passaram nos dois minutos que se seguiram ao aparecimento das luzes. nas outras duas ocasiões não se verificou a passagem de veículos. pois as luzes mostravam-se em noites frias e com nevoeiro. Jeremy sabia que a possibilidade não podia ser inteiramente descartada. notava. Numa zona costeira como aquela. que assim parecem brilhar. o que parecia eliminar a possibilidade de os faróis estarem na origem dos Fantasmas. . todas elas já encaradas por Jeremy. durante mais de uma semana.ter sido redigido com a intenção de refutar a forma como A. A primeira era a vegetação apodrecida que por vezes se incendeia. Em dois dos casos. E. recorria abundantemente a relatos de testemunhas para especular acerca de diversas possibilidades. O segundo continha apenas um pouco mais de informação. Citava alguns trechos do trabalho de Morrison. isto é. uma pequena revista que foi à falência em 1980. O autor até mencionava a possibilidade da existência do efeito de Nova Zembla. referia-se ao facto de o cemitério estar a afundar-se e aos estragos daí resultantes. Morrison tratara a lenda. resumia a lenda e narrava a permanência do professor junto do cemitério. O autor também se referia à lenda e à proximidade de Riker's Hill e. o intervalo foi inferior a um minuto. bem como da refracção da luz e do brilho fosforescente emitido por certos fungos. Viu as luzes em quatro das noites. embora não tivesse avistado as luzes (visitara o lugar durante os meses de Verão). por baixo da crusta terrestre. o autor concluía que podia tratar-se de fogos de Santelmo. que são produzidos por descargas eléctricas em objectos pontiagudos e ocorrem durante as trovoadas. podiam também emitir brilho fosforescente. provocando vapores conhecidos como gás dos pântanos. Parecia ter feito pelo menos uma tentativa preliminar de encontrar a causa: contou o número de casas na zona envolvente (havia dezoito num raio de mil e seiscentos metros do cemitério e. Também podiam ser luzes de tremores de terra". J. como última possibilidade. Contudo.

com incidência especial nas que aconteceram na passagem do século XIX para o século XX. a proximidade da estrada. Ou. qualquer que fosse a direcção em que se olhasse. Das três. Se ocorressem a meio da noite. e não se registasse a passagem de carros. se acrescentarmos a exploração das pedreiras e as minas de fósforo. depois em 1916. O morro por detrás do cemitério parecia ser o ponto mais alto. precisava de uma data precisa. de 1908 a 1915. houve um pequeno surto de construção de casas que durou entre 1907 e 1914. ou talvez até o tráfego fluvial. desde que fossem de dimensões suficientes.a fábrica de têxteis tinha fechado quatro anos antes e a mina foi encerrada em 1987 . uma nova fábrica. Analisando novamente a pilha de livros. muitas escavações. e uma terceira vez em 1922. A lista foi-se alongando com o passar das horas. uma mina de fósforo e uma fábrica de papel. só a fábrica de papel continuava a laborar . Embora inconclusivos. Suspeitava que os barcos pudessem oferecer uma possibilidade. o autor reconhecia que podia ser qualquer coisa. O caminho-de-ferro teve início em 1898 e. por exemplo. de modo a poder demonstrar o que naquela altura estava a acontecer na vila.Por outras palavras. os artigos ajudaram Jeremy a clarificar as suas próprias ideias. Se a vila estava a passar por uma transformação profunda. Era de opinião de que as luzes tinham tudo a ver com acidentes geográficos. altura em que se deu o crescimento da parte norte da vila. foram construídas três grandes instalações industriais: uma fábrica de têxteis. se havia um novo projecto de construção. tomou mais apontamentos acerca das transformações sofridas pela vila ao longo dos anos. poderia encontrar a causa. algo desta ordem de grandeza. além do afundamento do cemitério tornar mais denso o nevoeiro numa área bem determinada. .o que parecia torná-la a única possibilidade a ter em conta. No início do século XX. Nada de generalidades. Tudo a apontar para luz refractada ou reflectida. O pequeno porto foi alargado em 1910. notar a localização das casas ocupadas e com lâmpadas a iluminar as janelas. caso avistasse as luzes. poderia pesquisar a zona. Tinha de determinar a origem e para o fazer precisava de encontrar a primeira referência à aparição das luzes. o seu trabalho poderia simplificar-se ainda mais. e não estava a contar com isso.

disse apenas: . Mas não me importo de.saudou Lexie.Bem. . Estive aqui sentado durante toda a manhã e adoro conhecer sítios novos. . desejou que ela vivesse na terra dele. avó! ). .Não.Voltou a confirmar os factos para se assegurar que estavam certos e arrumou os livros. estava a pensar em sair para comprar o almoço e vim perguntar-lhe se queria que Lhe trouxesse qualquer coisa. . obrigado. Ela enfiou o casaco.la aonde decidiu ir? Não me importava de ir esticar as pernas. ela entrou na sala. Lexie não voltara para ver como ele estava.Vai ao Herbs? . Recostou-se na cadeira. mas depois seguiu-a.Se não se importa. Devia ou não devia? Apesar de todo o seu bom senso (obrigadinha. agradava-Lhe a ideia de não conseguir compreendê. devia ver o que acontece à hora do almoço. . Ele hesitou. Jeremy pareceu quase tão surpreendido quanto ela e deixouse ficar parado onde estava. no regresso. recordou as palavras da avó e ficou com as ideias baralhadas.Ora bem. Se achou que ao pequeno-almoço aquilo era mau. Lexie esteve para dizer não mas. pensou que aquelas horas tinham sido úteis e olhou por cima do ombro para a porta aberta por detrás de si. Seria interessante ver o desenvolvimento das relações entre eles. Mas como disponho apenas de uma hora não o poderei ajudar muito.Não me importo nada. Era quase meio dia.la e.Como é que isso vai? Jeremy voltou-se. . é claro. seria correcto eu acompanhá. De certo modo. . de forma a que Lexie pudesse voltar a colocá-los nas estantes. . Momentos depois. Talvez até pudesse mostrar-me um pouco da vila . No conjunto. mas por pouco tempo.Olá! .Ouça.insinuou Jeremy. por momentos. espreguiçou-se e deu uma olhadela ao relógio.perguntou ele. uma vez mais. . lhe trazer comida feita. ou mesmo nos arredores.

.Certamente que sim. Ou em coisa nenhuma. enquanto eu estagiava na Biblioteca da Universidade de Nova Iorque. Ele trabalhava na Morgan Stanley. Estava a tentar absorver a ideia de que esta bibliotecária de vila de província tinha vivido no bairro em que ele morava. é isso que quer dizer? .Um dos motivos é não ser Nova Iorque.Já viveu lá? . . . mais o meu namorado. . .Ajuda-me a preencher os espaços vazios.Nem posso acreditar. Em West Sixty-Nine. É importante ver como correm as coisas em lugares como este. Não tenho a certeza confessou Jeremy.Não. Lexie não conseguiu conter o riso. Adoro esta terra. Morei lá. não são meus.Isso fica a uns quarteirões da minha casa. Ao reparar na expressão dele. . não é? A andar depressa.Está a brincar. durante quase um ano. Jeremy lutava para se manter ao lado dela enquanto Lexie se dirigia para a escada. As palavras são suas.Em quê? Que vivi em Nova Iorque e voltei para aqui? Ou que vivi perto de si? Ou que vivi com o meu namorado? . .Não disse que era uma vila de rústicos. Mas os pensamentos são seus. . . .. Que outro motivo a levaria a viver aqui? . Lexie sorriu.Na nossa vila de rústicos. percebe.Em tudo isso.sentenciou. .Pois.Tudo terá a sua utilidade .Morei em Manhattan. Ele quase tropeçou nos próprios sapatos.O mundo é pequeno. não está? .

Decidira. voltou-se para ele. Uma comunidade. naquele preciso momento. chegada à rua.contrapôs. mas. Em que as crianças podem brincar na rua à noite.Mas isso é porque o resto do mundo não resiste à comparação. a fingir-se inocente.admitiu Jeremy. Olhando-o de relance. Ela mostrou-se indignada com a atitude dele e aumentou o ritmo da passada. pois não? Quero dizer.Vivem em comunidades. Adoro comunidades.. . conheço bem a importância de conhecer os vizinhos e quão importante é que os pais saibam o que os . não sabe? Tinham atingido a porta principal da biblioteca e Jeremy segurou a porta para ela passar. Lexie aguentou até sair.. por isso.. Ele ergueu as duas mãos. que viviam ali havia anos. não me interprete mal. que a avó não sabia o que estava a dizer. . Por detrás deles. admita isso. ela fez uma expressão que dizia claramente: Não acabaste de dizer aquilo que eu penso que disseste. Algumas ainda lá vivem. uma mulher idosa que trabalhava no vestíbulo estava a olhá-los intensamente. Mas ele ainda não desistira. . . sem terem medo de estranhos. digamos. Sabia o nome de todas as pessoas do meu bairro. que Greenleaf não pode comparar-se exactamente com o Four Seasons ou com o Plaza.Vá lá. não sabe? . acredite no que Lhe digo. .As pessoas não vivem em hotéis . Levam a vida a pensar que não existe no mundo um lugar tão especial como Nova Iorque e que nenhum lugar tem tanto para oferecer. até você tem de admitir isso.Sabe que vocês são todos iguais. Cresci no seio de uma.Tem razão . .Oh. Sabe que tenho razão.Isto é.. pois não Jeremy encolheu os ombros. . E é isso que temos aqui.Quem? .. Em que as pessoas se conhecem e se preocupam umas com as outras.Os habitantes das grandes cidades.

. além disso. E teve de admitir que fora ela quem provocara aquela escalada. a jogar basquetebol ou futebol.acrescentou. Como é que se deixara chegar àquele ponto? . se investigar um pouco. sabia que ele tinha razão.replicou. Contudo. . As pequenas cidades não possuem um monopólio dos valores. a tentar demonstrar-lhe que não se sentia ofendido. Ele.Como se eu acreditasse que costuma pensar nessas coisas. que depende da zona onde se vive.Filhos estão a fazer. . a poucos passos de mim. as pessoas reparavam. não estou a tentar arranjar uma zaragata. É claro que o meu bairro está cheio de jovens em início de carreira. Lexie manteve-se calada. seja aonde for que vivam . . Apenas tentava demonstrar a minha surpresa por você ter morado em Nova Iorque. O que estou a tentar dizer é que Nova Iorque também tem comunidades. em Queens. seja aonde for que vivam. tenho a certeza de que. qualquer deles em bairros onde há muitas outras crianças e pessoas que se preocupam com elas. ou a Astoria. O que a confusão de ideias pode levar uma pessoa a fazer. entretidos a fazer as mesmas coisas que fazem os miúdos daqui.E. Tenho um monte de sobrinhos e sobrinhas a viver na cidade. prometo não voltar a tocar no assunto. em Brooklyn. não parecia afectado.Costumo .prosseguiu Jeremy -. verá os miúdos a passear pelos jardins.Paz? Olhou fixamente para ele. se for a Park Slope. porém. se tivesse filhos. Talvez ele tivesse razão. não percebo muito bem como é que nos deixámos envolver nesta conversa sobre miúdos. Isto é. Em vários aspectos. com quem é que eles andam. . lamentou o tom desagradável com que repreendera Jeremy. a sorrir. também encontrarei aqui muitos miúdos com problemas. A partir de agora. são bairros muito parecidos com esta terra. Mesmo quando me ausentava. Não. gostaria de morar onde moro. antes de respirar fundo.Escute . Sem poder avaliar se ele lhe estava a contar a verdade. Fez uma pausa. Miúdos são miúdos. Na minha opinião os miúdos crescerão bem desde que os pais se envolvam na educação deles. Foi assim que cresci.E acredite no que Lhe digo. Logo de seguida..

É alugado. Jeremy pareceu aliviado.Muito bem. Lexie colocou tudo junto aos pés. sempre que a vila podia ver-se por entre o arvoredo. .. mas agora é usado principalmente pelos caçadores. bandos de estorninhos levantavam voo à passagem do carro. pelo que começou a descrever os projectos de urbanização que nunca passaram da imaginação. Olhe que é mau. depois não diga que não foi avisado. Ocasionalmente.Há algum lugar que deseje ver especialmente? . . Lexie encaminhou Jeremy para um minimercado. várias espécies de queijo e duas garrafas de Snapple. voando em formação. que recordaram a Jeremy as tardes de Inverno lá mais para norte.acabou por dizer. É um caminho construído pelos madeireiros. começo a estar habituado às más estradas da região. Não trouxe o carro. . Lexie não se sentia bem com o silêncio. O morro de Riker's Hill aparecia do lado esquerdo.Não é bem uma estrada. naquela tarde melancólica.Com uma condição. os nomes das árvores.. Há alguma estrada até ao cimo? Ela acenou que sim. O céu azul dera lugar a grandes manchas cinzentas.Deixe-me só procurar as chaves. Chegados ao carro. Não sei se quererá levar o carro até lá acima. .perguntou.. . fruta fresca. .Riker's Hill. como se estivessem presos por fios. Praticamente não falaram enquanto se encaminhavam para a saída da vila. . Não tardou que a estrada fosse delimitada de ambos os lados por árvores de folha persistente.Paz! . passaram ao lado do cemitério de Cedar Creek e atravessaram uma pequena ponte. . Além disso. Como nenhum estava particularmente esfomeado. Cedar Creek. de onde saíram minutos depois com uma caixa de bolachas.O transporte é por sua conta.Não interessa. de aspecto triste e pouco hospitaleiro. .Qual é? .

. E tivera razão: aquilo não era bem uma estrada. . .Riker's Hill pertence ao domínio público? Ela assentiu. Julgo que houve diversos planos para instalar lá um parque de campismo. Os pinheiros pareciam querer juntar-se e tornavam a estrada mais estreita. para dar lugar ao terreno plano do alto do morro. Jeremy encostou a um dos lados. que parecia seguir em curva para o outro lado de Riker's Hill. depois. mas o estado nunca se envolveu. mas a picada parecia melhorar à medida que subiam. Jeremy tinha feito este caminho depois de deixar o cemitério e tinha feito a inversão de marcha mais ou menos por ali. Pedras e sulcos. Ao sair da estrada principal o carro iniciou uma marcha de saltos e solavancos. obrigando Jeremy a abrandar ainda mais. Faz parte da história local. como veio a saber. Georgia-Pacific ou outra do género. porque Lexie lhe disse para virar no cruzamento seguinte. as que ainda se mantinham de pé seriam menos de um terço. quando eu ainda era pequena. A partir de certa altura. mas pior.A curva é já a seguir . quase devastada. .. Tinha-o feito um ou dois minutos adiantado. Jeremy fez o que Lhe foi pedido mas.Será melhor abrandar. De vez em quando aparecia um trilho.Muito bem.apontou Lexie. Dezenas de árvores tinham sido abertas ao meio. Inclinada para o pára-brisas. as árvores começaram a rarear e o céu tornou-se mais visível. como ela se mantivesse atenta ao caminho. é ali . a vegetação pareceu mais castigada pelo mau tempo e.anunciou..Da primeira vez. com a aproximação do cimo do monte. uma espécie de entrada do Greenleaf. Weyerhaeuser. O declive tornou-se menos acentuado. Mas não é um parque ou coisa que o valha. seguindo praticamente em ziguezague a caminho do cume. .O estado comprou as terras a uma das grandes companhias madeireiras. . ela não tirava os olhos da estrada. olhou-a de lado e notou-lhe o ligeiro sulco de concentração na linha divisória entre as sobrancelhas. que ele supôs ser usado pelos caçadores.

E. . Logo a seguir à vila. Podiam ver a vila. não vinham cá muitas pessoas. de que só nós podíamos usufruir. . por vezes. voando em círculos. para que ele desligasse o motor. lá em baixo. uma das quais levava ao cemitério de Cedar Creek. Embora toda a gente saiba da existência deste lugar. Lexie cruzou os braços enquanto caminhavam.acabou por confessar. um falcão de cauda vermelha..Está a ver aquela casa pequenina lá em baixo? Quase isolada. e ambos saíram do carro. Jeremy conseguiu distinguir a ponte atravessada pela estrada e um pitoresco viaduto de caminho-de-ferro que ficava um pouco mais longe. O céu também parecia mais próximo: as nuvens haviam deixado de ser massas informes.Acho a vista espantosa . Jeremy conseguiu distinguir o pequeno edifício da biblioteca e até o local onde ficava o Greenleaf. . o velho rio de águas salobras parecia uma tira de aço. A brisa remexia-Lhe o cabelo e ela continuou. eu e os meus amigos costumávamos vir até cá acima e passávamos horas aqui. como se fossem estrelas. a brisa era mais invernal e parecia picar a pele. . bom. por cima deles.Recordo-me de um dia em que se esperava uma grande .. o calor faz tremeluzir as luzes das casas. olhava para o monte e imaginava que me via lá em cima a olhar para a planície.Lexie apontou para a chave. Em pequena. torciam-se e enrolavam-se em formas distintas. apercebendo-se de estar a sentir um nervosismo estranho. Ele sorriu. Fez uma pausa. Não fazia ideia das razões que poderiam provocar tal nervosismo. mais adiante. E os pirilampos.Quando éramos adolescentes. O ar parecia mais frio lá em cima. Durante o Verão. é a casa da Doris. embora as vivendas não fossem visíveis por causa das árvores. os telhados encostados uns aos outros e alinhados ao longo das ruas direitas. em Junho há tantos que quase parece haver uma outra cidade no céu. Foi ali que cresci. Lexie apontou para os limites da vila e indicou-lhe para onde queria que ele olhasse. perto da lagoa? É onde estou a morar agora. Olhando com mais atenção. Para mim e os meus amigos foi sempre considerado um local secreto.

logo que conseguimos recompor-nos. mesmo agora. tínhamos a tormenta por cima das cabeças. . . Era o máximo que dizia acerca de si própria desde que se tinham conhecido e ele tentava imaginar como seria a vida dela naquele tempo. como sabe . se necessário. quando os relâmpagos começaram.tempestade.A tempestade passou.O que é que aconteceu? . O céu iluminava-se. qualquer que fosse a direcção da trovoada. um daqueles monstros com grandes pneus que. A princípio. Jeremy não conseguia perceber como é que ela tinha sido. Não nos detivemos a pensar que iríamos colocar-nos no ponto mais alto da região. Descargas gigantescas desciam do céu. tão perto que faziam tremer o chão e foi então que vimos as copas dos pinheiros a explodirem. Jeremy observava-a enquanto ela falava. Queríamos saber a que distância estava a trovoada. Mas tem razão. Portanto. Voltámos para casa. quase sem darmos por isso. a olhar de relance para ela. quando se deixava embalar pelas memórias. viemos todos cá para cima para observarmos os relâmpagos. que passavam a hora de almoço na biblioteca? Passado.Julgo que estava aterrorizada . poderiam descer ao fundo do Grand Canyon. não penso que alguma vez tivesse sentido tanto medo.Os raios conseguem atingir cinquenta mil graus.Dez vezes mais quente do que a superfície do Sol.acrescentou. Foi então que os raios começaram a atingir as árvores à nossa volta. quem é que se preocupava com a escola secundária? Porém. . história antiga. Lexie sorriu. Quem era ela na escola secundária? Uma das líderes mais populares da claque? Uma das raparigas estudiosas.insinuou. Mas recordo-me . . bem-disposta. . como sempre acontece. Sabe. outras vezes mais parecia uma lâmpada estroboscópica e nós contávamos em voz alta até ouvirmos o estouro do trovão. Os meus amigos e eu conseguimos que um dos rapazes nos trouxesse cá acima no seu camião. foi belo. por vezes com um risco em ziguezague.Não sabia disso. percebe? No entanto. à espera de os vermos a rasgar o céu. O vento soprava tão forte que fazia oscilar o camião e a chuva não permitia ver o que quer que fosse.

insinuou.Sim. numa vila desta dimensão.. ela lembrou-se de que na véspera ele tentara .de a Rachel me apertar a mão com tanta força que fiquei com as unhas dela marcadas na pele. Penso que será sempre assim.Rachél? Será a mesma que é empregada de mesa no Herbs? . é a Rachel. Lexie riu-se. Lexie suspirou.Porquê? Atirou-se a si durante o pequeno-almoço desta manhã? Ele mudou o peso do corpo de um pé para o outro. depois que fui para a universidade e para Nova Iorque. altura em que descobrimos que as pessoas que conhecemos desde sempre vêem as coisas de maneira diferente..Trintonas? De súbito. Não me compreenda mal. conservamos as memórias maravilhosas.me apenas um pouco. Isto por aqui é um pequeno mundo. . Porém.. . Pareceu. A situação mudou. depois de eu regressar nunca mais foi como dantes. não diria isso.Ficamos a saber o que somos e o que queremos. . ....Sim. acho que é isso.Julgo que acontece a toda a gente quando cresce respondeu Jeremy. . atiradiça.esclareceu. . bom. essa mesma . Ela e eu fomos as melhores amigas enquanto crescemos e ainda a considero uma espécie de irmã. Contudo. Ela.. .. sem uma ponta de malícia naquele corpo. mas. Por isso. . bem. de braços cruzados. mas damos connosco a andar para diante. .Eu sei. Calou-se. as solteiras são ainda menos. Jeremy acenou com a cabeça e sorriu: ..Você agora vê o mundo com olhos diferentes . a observá-lo. Jeremy observou-a mais de perto. É perfeitamente normal.Bom. é uma excelente rapariga..Não me surpreende. é um pouco difícil de aceitar. muito engraçada para fazer companhia a qualquer pessoa. na falta de uma palavra melhor. Há por aqui um número limitado de trintonas.

é assim que eu penso em mim próprio. em Chapel Hill e passei muito tempo em Raleigh.Frequentei a Universidade de Carolina do Norte. mostro o elástico das boxer. O que é certo é que. cada uma a durar um par de semanas. . incluindo você. .Já tinha estado numa vila como esta? . sentia-se confortável com o pensamento inesperado. Ainda não tinha a certeza de gostar dele. Na estrada. a perguntar: .Umas quatro ou cinco viagens por ano. quando andava no curso secundário. tinha quase a certeza de que não gostava e. ambos a apreciarem o silêncio momentâneo. .contrapôs Jeremy. Cada lugar onde vou tem o seu próprio encanto. é claro. formámos um comboio de automóveis com seis quilómetros de .adivinhar. . Sempre que penso em enveLhecimento começo a usar as calças mais descidas. Ela riu-se e ficou a observá-lo. Lexie não pôde deixar de sorrir ante a imagem. era evidente.Lhe a idade. as pessoas ficaram especialmente impressionadas com a minha indumentária. Você parece mesmo considerar que o estilo pessoal é importante. estou a ver. que seria melhor evitar qualquer referência ao assunto. pelo que a vila despovoou-se praticamente para assistir ao jogo. mas posso dizer com toda a franqueza que nunca estive num lugar como este.Pois. ponho o boné de basebol com a pala para trás e vou passear para o centro da vila.Aposto que a sua profissão o obriga a viajar muito.Não. de estar a apreciar a companhia dele.confessou com um encolher de ombros. por momentos. Lexie foi a primeira a quebrá-lo. A nossa equipa de futebol disputou o campeonato estadual no meu último ano. O que significava. A despeito do ar frio. de facto. . . Também fui a Charlotte. lutou para conciliar os dois sentimentos.Exacto . . realmente não.Acho que estou a ficar velha. e no entanto estranhamente inevitável. Levou um dedo ao queixo. a dizer-lhe: .Sem dúvida.Ou a permanecer jovem . para ouvir o rap. não é? .A propósito. ontem. E você? Para além de Nova Iorque.

extensão. notou que outra voz interior tentava imiscuir-se.. Fosse ele onde fosse. Este. as tasquinhas e as praças das cidades.Ora bem. A questão não era acreditar na Doris ou roubar algum tempo ao trabalho da biblioteca. por vezes.Deve ser agradável.Lhe o pensamento. Mas nunca fui ao estrangeiro. Parecia estar a dizer-lhe que a considerava diferente. para quem puder. A vida mostrava uma desagradável tendência para tornar raras as oportunidades exóticas e para as afastar muito no tempo. Oh. quando era pequena.. Enquanto falava. Também fizemos uma viagem a Washington. Contudo. está a falar como um romântico . àquele Mr. deixou escapar um ligeiro sorriso. mas. dizer-lhe que ele estava a tentar lisonjeá-la. conhecesse quem conhecesse. Lexie baixou os olhos. como que a tentar dominar o conflito de vozes que lhe ia na cabeça. Que ela não destoaria em qualquer lugar.. As catedrais. . ela não tinha dúvidas de que ele possuía uma capacidade inata de levar as outras pessoas. Jeremy Marsh. Muitas pessoas não podiam ir além da imaginação.insinuou Lexie. em especial as . mais cosmopolita do que se poderia esperar. devia adaptar-se bem. era difícil resistir-Lhe. mas já sabia isso antes de ele ter aparecido. . Ali é que estava o busílis. como se estivesse a ler. agora o grande altruísta. o que me dá mais prazer é conhecer outras pessoas. . Quando olho para trás e recordo lugares onde estive. .É. apercebia-se de quanto a sua vida pareceria mesquinha aos olhos de Jeremy.Havia de gostar da Europa. No entanto. No mas. mundano mas sem perder a consciência das coisas que mais contam. O estilo de vida mais descontraído. Bonitas ideias. bastante viajado mas com os pés assentes na terra. detestava confessar uma coisa daquelas. vejo mais rostos do que coisas.admitiu. a beleza dos campos. Primeiro o mulherengo.. mesmo enquanto ruminava estes pensamentos.Sempre desejei viajar . nada de grandes viagens. acredite ou não. E por que diabo estaria ele a falar-lhe de tudo aquilo? Para lhe demonstrar que era mais cosmopolita do que ela? Bom. . Como ela.

especialmente quando se tratou de uma relação séria. como dizer. Jeremy mostrou-se admirado. Mas não era o lugar para mim.Gostei do facto de estar sempre a acontecer qualquer coisa. . .Foi para o seguir. Estávamos muito apaixonados . Tinha sido criado em Greensboro. O que ajudou a fazer-me compreender que ele não era o homem . logo de seguida.. Olhou para mim e. perfeito. em especial para alguém ido de uma terra como esta.Fiz um internato na Biblioteca da Universidade de Nova Iorque. a pensarem que estava em sintonia com elas. a olhá-la de lado.Por que é que não ficou? . . Parecia tão. Muito excitante. a mudar de assunto. . inteligente. Suficientemente belo para levar uma mulher a não dar ouvidos à sua intuição.. Foi quase como ir para Marte. na expectativa.Conhecemo-nos na faculdade.Suponho que poderia ter ficado. até respirar fundo.De verdade? Lexie sorriu para dentro. até que um dia o encontrei na cama com uma colega. Os homens nunca gostam de ouvir falar de outros homens bonitos. era de boas famílias.mulheres. o Avery foi trabalhar para a Wall Street.Tudo foi fantástico durante um ano ou dois. O que. . Ela assentiu. Jeremy ficou a olhá-la.Ah! . Estava sempre a passar-se qualquer coisa.admitiu Jeremy. havia sempre algo para ver.confessou.perguntou Lexie. parecendo perder-se em pensamentos.. . um novo restaurante para experimentar.exclamou Jeremy. Não consegui resistir-lhe. dei comigo a acompanhá-lo até à metrópole. . Fui com uma pessoa. a conduzia directamente à primeira impressão que ele Lhe provocara. Também verdadeiramente bonito. acho eu.Talvez seja um romântico . a qualquer hora. sem dúvida. Havia sempre pessoas a percorrer apressadamente os passeios e táxis a apitar. .. Julgo que poderá pensar-se que as razões que me levaram até lá se modificaram.Sabe o que me agradou mais em Nova Iorque? . . .

Não mencionou Mr.respondeu ela. Regressaram ao carro e dividiram o almoço. O vento estava a aumentar. perco as estribeiras. . a querer mudar novamente de assunto. fiz a mala e regressei.Então. . Houve alguns. pôs o motor a funcionar. de qualquer das maneiras. .que eu queria. . Pegou numa mão-cheia de bolachas. voltou para aqui e começou a trabalhar na biblioteca e. Nunca mais o vi. Parece que é feliz .. Ficou a pensar se deveria ou não responder. não é? .Exactamente .Estou esfomeado.. . concluindo que ela teria cerca de 31 anos.. a espaços. Com o copo de sumo seguro nas pernas. Ao notar que a vista não era a melhor. do médico e. - . mas decidiu-se. mas se não engolir algum alimento tenho propensão a ficar irritada. mas acho que isso é normal.Pois sou . a transportar um suave cheiro a terra. . . não está mal. quase assobiava ao subir pelas ladeiras.E você. mais recentemente. de Rodney Hopper.É nessas alturas que começa a usar as calças descaídas? .E mais nada .Tem fome? .É muito bonito estarmos a conversar aqui no campo. com ar grave. ele ia-se embora. Levantou os olhos. .respondeu. Falou-lhe do advogado.indagou. .Na maior parte do tempo. Uma vez por outra. por isso.Claro. .É o que estou a fazer há sete anos.. que diabo. .Bom. .Outros namorados durante todo este tempo? .perguntou Lexie. Renaissance. manobrou à volta do cume e colocou o carro no ângulo certo para poder olhar de novo a vila.anuiu ela com presteza. Ele fez contas de cabeça. Lexie partiu um bocado de queijo e colocou-o em cima de uma bolacha. equilibrou umas quantas em cima de uma perna e começou a cobri-las de queijo. a sorrir.reflectiu Jeremy. Jeremy abriu a caixa de bolachas no banco da frente.

Ele concentrou-se na tampa do copo de sumo ao falar.Porquê? Ficou a olhar através da janela. por isso. Fora lá que se tinham casado e era onde tinham uma pequena casa de praia. continuando. acredite. .Avance. a Polícia encontrou o carro e o tirou da água. no regresso os meus pais vinham cansados. para não estarem dependentes do barco de carreira. mas a mamã dizia que aquele era o lugar mais belo do mundo. mostrando uma relutância súbita em encará-la de frente. cabelo curto. o meu pai comprou um pequeno barco. Lexie assentiu. são precisas umas duas horas para lá chegar. Não a interpretarei mal. . . Os lábios arrepanharam-se-lhe no mais ligeiro dos sorrisos. de vez em quando também vou até lá como eles costumavam fazer só para me afastar disto tudo.Mas. mais pessoal do que falar-Lhe dos meus namorados anteriores? Ele encolheu os ombros com uma expressão de timidez.Quando aqui chegámos. . Era a sua escapadela. que fica mais junto à costa.Os meus pais regressavam de Buxton. Trata-se apenas de curiosidade. Mesmo sem utilizar o barco de carreira. mostrando a Lexie uma visão de como ele teria sido em menino: rosto estreito e liso. E disse que era lá que tinha crescido. . antes de prosseguir. sem perceber o que poderia ele perguntar acerca daquilo. .Não se importaria se Lhe fizesse uma pergunta de carácter pessoal? É claro que não tem de me responder. Depois. percebe? Existe lá um belo farol que se avista do alpendre e. camisa e calças sujas por causa da brincadeira no exterior. uma fuga a dois daqui para Fora. o hábito fê-la procurar a estrada que levava à saída da vila. apontou a casa da sua avó. falou lentamente. na manhã seguinte.O quê. Pergunte o que quiser. Quando. É algo difícil chegar lá a partir daqui. tudo leva a crer que na volta o meu pai adormeceu ao volante e o carro caiu da ponte. .

eu os visse como avós.Dois anos. .. a sorrir. . Nessa noite fiquei com a minha avó e no dia seguinte ela foi ao hospital com o meu avô. Para mim. com a excepção de eu os tratar pelos nomes de baptismo recordou. .Agora é a minha vez de fazer perguntas. contudo. .Que idade é que tinha? . .Então. ao folhear as páginas começar a experimentar algo de inesperado. . . E assim foi. a reparar na forma como os ombros lhe enchiam a camisola e a notar outra vez a covinha.A propósito.Disse-me que tinha cinco irmãos? Ele assentiu. deve parecer monótona.Terrível . ler um livro e. voltou a olhar para ele. Enquanto cresci não tive a sensação de que me faltava fosse o que fosse. acontece uma coisa estranha. . mas por viver aqui. e sobre si? O que é que o fez querer ser jornalista? Durante os minutos seguintes ele falou dos anos passados na faculdade. .Não. Já falei demasiado e sei que a minha vida. Contudo. não tem nada de monótona.estavam os dois mortos.acabou por dizer.Pensei que devia agradar-lhe. dos planos para vir a ser professor e das voltas da vida que o tinham conduzido à situação presente. quando comparada com a sua. Quando acabou. por estarem a criar-me. Não tanto por causa dos meus pais. a ideia foi deles. quero dizer. os meus avós pareciam-se com os pais de todas as outras pessoas. mas também não eram os meus pais. Julgo que não desejavam que. sei o que aconteceu e.Bonita metáfora. .. Jeremy ficou calado por muito tempo. É interessante. É como. o facto nunca me pareceu muito real. Quando regressaram disseram-me que a partir daquele dia eu passava a viver com eles.

de súbito. . depois pegava-lhes na mão e.Cinco irmãos mais velhos. Recordo-me de. não consigo imaginá-lo com irmãos. ela dava a sua opinião. Lexie sorriu e desviou o olhar. Jeremy olhou de novo para ela: . E não tinha dúvidas de que o livro registasse apenas os palpites que se tinham revelado acertados. Jeremy limitou-se a olhar para ela. .Por qualquer razão. quando crescesse. a frescura brilhante da pele e a excitação genuína. mal mostravam sinais de gravidez e. recordo-me de pensar que. quando estava a crescer. Doris registou tudo num livro. queria ter a certeza de que elas desejavam mesmo saber. caía sobre a cozinha um silêncio absoluto. Doris falava com as mulheres durante algum tempo.Duzentas e quarenta e sete . Na sua maioria. Lá longe. . queria ser exactamente como elas. Colocou a mão na janela para sentir a frescura do vidro contra a pele. acertou duzentas e quarenta e sete vezes. as ver sentadas na cozinha a conversar com a minha avó. Impossível. Pode verificar.É uma pena que não tenha herdado os dons psíquicos do resto da sua família. Ele abanou a cabeça.É o número de mulheres que visitaram a Doris para saberem o sexo dos seus bebés. se quiser. simples acaso estatístico. passados uns segundos. mas não deixava de ser um acaso.Porquê? .Perdão? . incluindo os nomes e as datas das visitas. pensou. . os falcões de cauda vermelha voavam em círculos por cima da vila. Acertava sempre. Há verdade na afirmação das velhas comadres quando dizem que as mulheres grávidas brilham. O livro continua guardado na cozinha. Um bambúrrio que roçava os limites da credibilidade. ainda me recordo de pensar que todas elas tinham a mesma expressão: os olhos cintilantes.anunciou.. Duzentas e quarenta e sete mulheres fizeram a pergunta. Engraçado. sou o bebé da família.Parece-me mais um típico filho único. .

Quando essa tecnologia chegou finalmente a esta vila. . Contudo. Pode furar um poço em qualquer sítio. O número de mulheres começou a diminuir. Toda a região leste deste estado está em cima de um aquífero. não existe uma grande procura para alguém com as capacidades dela. . quando ela era criança em Cobb County. encontra-se água por toda a parte.comentou ela. até quase desaparecer. uma vez que podiam ver por si próprias a imagem do bebé. Ele mudou de posição. especialmente nas épocas de seca. Pode dizer-se que as aptidões dela não são muito procuradas por estes dias. os fazendeiros vinham bater-Lhe à porta a pedir ajuda.Sei o que está a pensar. haverá uma ou duas pessoas por ano. descobria sempre água. . . Deixou de haver razões para as pessoas a visitarem. E. Nunca se enganou. Ou falar com as mulheres.Porque foi nessa altura que ela parou.Terá de existir uma explicação. .É pena .Nunca pensou que ela pudesse conhecer a pessoa que fazia os ultra-sons? . .insistiu Lexie.Como é que pode ter a certeza? . verificar se ela alguma vez se enganou. Interrogar quem lhe apetecer.comentou Jeremy.É o mesmo.Não era nada disso . Por estas bandas. na Georgia.Lexie interrompeu-lhe o raciocínio: . . mas pode também consultar os registos do hospital.Interessante . Agora. mesmo não tendo mais do que oito ou nove anos. quase sempre gente do campo que não dispõe de seguros médicos.E a adivinhação? .Não acredita em qualquer espécie de magia? .Deduzo que continua a não acreditar. . . Até os médicos de toda a vila lhe dirão que ela possui um dom.Não. Há sempre.

seguindo as indicações dela. . Tinha as faces a ficar vermelhas devido ao frio. .Já sucedeu.Está mais frio. Estavam nos limites do centro da vila. O rio Pamlico tinha ali mais de mil e quinhentos metros de largura e as águas corriam agitadas. dada a força que fazia no volante..Desde que não demoremos demasiado em cada um dos sítios. voltou a parar. . Jeremy esticou-se ao sair do carro e Lexie cruzou os braços. . Jeremy tinha os nós dos dedos brancos. a alguns quarteirões de distância do Herbs. quando atingiram o sopé do morro. apesar da distância. Regressaram pelo mesmo caminho. Terminado o almoço improvisado.perguntou. com as rodas da frente a saírem de um sulco para mergulharem no seguinte. perto do viaduto ferroviário. à fábrica de papel e talvez ao viaduto de caminho-de-ferro. que ficam todos praticamente na mesma zona.Temos tempo para vermos mais alguns sítios? Gostava de dar uma vista de olhos à marina. Só que é demasiado teimoso para o admitir. . enquanto estou aqui talvez suceda qualquer coisa que me faça mudar de opinião. Os amortecedores rangiam e gemiam.Parece mais frio do que lá em cima.Está bastante frio . perto do passeio de madeira que seguia ao longo da margem do cais. ficava a fábrica de papel. . .respondeu Lexie. Jeremy pôs o carro em movimento e começaram a descer Riker's Hill aos solavancos. a cuspir fumo pelas duas chaminés. conseguiu discernir o lugar onde tinham estado parados.Bom.concordou ele.Temos tempo . mas talvez seja por nos . ao passar pelo cemitério de Cedar Creek. . Dez minutos mais tarde. Jeremy sorriu. ou é apenas imaginação minha? .Porque por vezes ela é real. com a corrente a formar ondas com cristas de espuma que se apressavam a correr para a foz. Ela também sorriu. Jeremy notou que o olhar se lhe dirigia para o cume de Riker's Hill. Mais afastada.

Por vezes. Acolá . .De momento.Conseguem receber barcos grandes? . Coincidência? Ou pormenor sem qualquer importância. Teria de verificar isso.E quanto a barcaças? . estão lá duas. Está a ver os mastros dos barcos atracados? Jeremy acenou que sim.Não sabia até que ponto estava interessado em aproximarse . enquanto Jeremy observava o viaduto do caminho-de-ferro. . O rio é dragado para permitir a entrada das barcaças dos madeireiros. Lançado sobre o rio a altura suficiente para deixar passar barcos grandes. Por qualquer razão.A marina é acolá. o viaduto e a fábrica de papel pareciam perfeitamente alinhados.Julgo que sim. . mas habitualmente atracam na outra margem. tê. mas é provável que daqui desfrute de uma vista melhor . perto da estrada. .esclareceu Lexie.prosseguiu. nunca reparei. depois parou e encostou-se aos varões de protecção.Acho que podem. a tentar descobrir se as pontas das chaminés seriam iluminadas de noite. alguns grandes iates de New Bern ficam aqui durante uns dias. . Com Riker's Hill a ver-se ao longe. para coordenar as localizações. ambas carregadas. ou usam também o transporte ferroviário? . .Se tivéssemos mais tempo. esperava algo mais imponente.Sabe quantos comboios passam pelo viaduto? . Seguiu-lhe o olhar e em seguida voltou-se.A madeira é toda expedida em barcaças. Lexie abrandou finalmente o passo. Apontou para o outro lado da vila. fora construído com vigas cruzadas e lembrava uma ponte suspensa. .Para lhe ser franca. Jeremy esforçou-se por acompanhá-la quando ela começou a andar para o caminho de madeira.termos acomodado ao calor do carro. Olhou na direcção da fábrica de papel. Mas tenho a certeza de que isso será fácil de confirmar. a apontar o que parecia uma pequena enseada. .informou.lo-ia levado até à outra margem do rio.

Lexie voltou-se. mas não disponho de números. . Queria dizer que os meus pais teriam gostado de criar os filhos numa terra como esta. de noite.Bom. É lá que a linha acaba.À noite. Jeremy juntou-se a ela. é bastante parecido com Nova Iorque. ouço-os apitar e mais de uma vez tive de parar na passagem de nível para deixar passar o comboio. Ele riu-se. não está? . De olhos pregados no viaduto. junto do gradeamento de protecção.afirmou Lexie. . Apesar do frio. Jeremy acenou que estava a perceber.Tem a certeza? .Não era isso que pretendia dizer. Por vezes. de forma a ficar encostada ao gradeamento. as pessoas andavam pelos passeios. Lexie sorriu e prosseguiu: . . Com grandes relvados verdes e bosques para eles . o farol da locomotiva brilha na direcção contrária. situado no final do passeio de madeira. e dirigiu o olhar para o centro da vila. para o outro lado de Riker's Hill. um reclame de barbearia. Sei que fazem muitos transportes a partir da fábrica. fazendo-o parecer bravio. Está a admitir a possibilidade de as luzes dos comboios que passam através das traves do viaduto provocarem as luzes do cemitério.Estou a perceber por que gostou de crescer nesta terra comentou ele. . O vento levantava-lhe o cabelo.Não se trata disso .Pus essa hipótese. para as pequenas lojas engalanadas com bandeiras americanas. . um pequeno jardim. A reflectir sobre o que acabava de ouvir. a abanar a cabeça. os comboios ficam no cais da fábrica para poderem ser carregados na manhã seguinte. entravam e saíam das lojas.Também não faço ideia.Sei o que está a pensar. ninguém parecia ter pressa. tenho de admitir. Assim. Carregadas de sacos. Ela protegeu as mãos nas algibeiras do casaco..

Isso acontece por toda a parte. Passou quarenta anos de vida sentado atrás do volante.pediu ele. .Parece que vicejou com estes ares. um mordomo para anunciar os convidados.Prefiro não saber. Ontem pareceu-me um janota de Upper East Side.. Jeremy encolheu-se. idílico. Em especial por não ser verdade. Os meus pais fazem parte da classe trabalhadora e viveram toda a sua vida em Queens.Não. onde eles poderiam nadar no tempo quente. pois a educação foi-me facilitada. . . Ela parecia divertida. até se reformar.Ainda é. do outro lado do rio... nenhuma delas . ela pareceu quase triste: . Fiz a minha escolha. .brincarem.Como é que soube o que eu ia dizer? . . muitas das pessoas continuam por cá por não terem possibilidades de se irem embora. estragado não. erguendo a mão. Essa é por vezes a grande dificuldade: convencer alguns miúdos de que a vida tem mais para nos oferecer do que trabalhar na fábrica de papel. Nenhum dos meus irmãos frequentou a universidade. .Primeiro e único filho. a fingir horror. Deve ter sido um lugar. O meu pai conduzia autocarros na cidade.Não diga . Vivo aqui porque quero. Por instantes.. Até um rio. muitos pais não investem o suficiente numa boa educação dos filhos. apenas. Está a ver. mas frequentei a universidade. com o porteiro a cumprimentá-lo pelo nome. . .Tem graça. Muitas das pessoas daqui nunca o conseguem. e agora isto? Estou a começar a pensar que me julga um indivíduo estragado com mimos. No entanto.Pois. . jantares de cinco pratos. É um distrito pobre e a vila tem passado por dificuldades desde que a fábrica de têxteis e a mina de fósforo fecharam. É assim que as pessoas justificam o facto de viverem aqui. por isso eu sou uma espécie de estranho.Porque está obcecada por duas ideias...

considera-se também um especialista em mulheres. .Também é especialista nesse domínio? . sem deixar de sorrir. . É um jornalista objectivo .Não é. .Fez.Exactamente.replicou Jeremy. sim senhora .Claro.Exactamente.Contudo. portanto. . . . diferenças genéticas entre os dois sexos. embora existam.E.Sim. Isto. . Nada acerca delas pode ser avaliado cientificamente. tenho alguns conhecimentos sobre a questão. não tomei isso como uma ofensa pessoal.Desculpe. Lexie ergueu ligeiramente os cantos dos lábios. sei que é verdadeiro . por não ser um menino rico. de forma a ficar também encostado ao gradeamento. Não fiz por mal. .Porquê? .Que me diz acerca do suposto carácter misterioso das mulheres? Também não acredita nisso? .Ah vêem? .particularmente lisonjeira. . é diferente de acreditar na possibilidade da fusão a frio. . estragado com mimos.repreendeu.Mesmo quando recusa mostrar-se compreensivo em relação a tudo o que considere misterioso. a pensar nela. É preciso percebermos a evolução e os melhores métodos de preservação da espécie.Porque as mulheres constituem um mistério subjectivo. . As mulheres só são consideradas misteriosas pelos homens porque estes não se apercebem de que homens e mulheres vêem o mundo de formas diferentes. Lexie riu-se. com certeza. não um mistério objectivo. em especial.Oh.Mas não se preocupe. . Voltouse. de cara exposta ao vento. é isso? .

Mr. há legiões de mulheres desejosas de ter um lugar nele.Acho que fez um bom resumo da questão. . Ela rolou os olhos. .. Ainda não decidi .Não estamos a falar de mim. .Que posso eu dizer? O mundo do jornalismo de investigação é sedutor. Você não é uma estrela de cinema nem canta numa banda de rock. .Mas esqueceu-se de um pormenor: não necessita das fãs. o senhor julga-se muito inteligente.Bom.Por favor.Ah.respondeu. a ajeitar uma mecha de cabelo atrás da orelha. O problema é que não acredito. à sua volta..Julgo que acaba de se contradizer a si própria. . Ele olhou-a com um ar triunfante. Lexie olhou-o demoradamente: . recorda-se? . . Marsh. posso ser do Sul mas.E? . mesmo assim. então voltamos ao Mr. que algumas mulheres poderão considerá-lo . você pensa que o meu problema é a aversão a compromissos.É provável. . .E considera-me encantador? . Ele cruzou os braços. não imagino o seu magazine a ser assaltado pelas fãs... Sou tímido. Estamos a falar de si e neste . nada disso. não julga? .Não.Diria encantador..Mas você não. . Escreve para a Scientific American. Jeremy riu-se. Só precisa de ir aos lugares certos e derramar por lá o encanto. Marsh? .Pois recordo. Lexie ergueu uma sobrancelha.Deixe-me adivinhar.

Ainda cá estará? . entretanto.. até à Primavera não há mais nada. Lexie sorriu-lhe e afastou o olhar para longe.acrescentou. significa que tenho razão e você não quer admiti-lo.Então. a recordar-se da dança no celeiro de que falava o folheto.É provável. Olhou para o passeio de madeira.E encantadora . há uns anos. Por isso. Jeremy ergueu uma sobrancelha. Jeremy mudou de assunto. A observá-la. para o outro lado da rua.esclareceu. em cada ano que passa são acrescentadas novas festividades. de modo que muitos dos habitantes andam ansiosos pelo início da festa . O dia de Acção de Graças e o Natal são um desassossego. no ano passado foi a parada. . o tempo é frio. para o céu. o Conselho Municipal decidiu realizar o Circuito das Mansões Históricas. uma necessidade.Para além de pensar que põe as pessoas malucas durante uns dias? Nesta altura do ano é.. mas depois. Ela assentiu. Quando acabou olhou para ele: . acaba por ter a sua graça.preciso momento está a fazer o que pode para mudar de assunto. Este ano é o cemitério.Já ouvi isso. . Depois. Miss Darnel. cinzento e chuvoso. a pressioná-la.Por mais piroso que pareça. há dois anos acrescentaram o baile na noite de sexta-feira. Decidiu que não estava disposta a responder à lisonja. No entanto. o que é que vai acontecer no próximo fim-desemana? . . . Jeremy encarou-a com ar apreciativo. Mas tenho curiosidade de saber o que pensa sobre isso.É muito inteligente. e suspirou. sempre na esperança de tornar o fim-de-semana muito especial. E. Como se estivesse a ler-lhe o pensamento. provavelmente. . .perguntou Lexie. Em parte. não conseguiu deixar de corar. Começa a fazer parte da tradição da vila. . pelo menos. O que.

Ela acenou que sim. .informou.Olhe para trás de mim. . com música ao vivo e tudo. fica acordado entre nós que tem de resolver primeiro o mistério. No celeiro de tabaco do Myers.. .indagou.Ora bem.Vou dizer. Jeremy franziu a testa. Ela riu-se.Promete? . . Mas.Estou ansioso.Vem aí o nevoeiro.. . As pontas das chaminés da fábrica de papel já estão escondidas pelas nuvens.Esta noite? . só desejo que você consiga aguentar a pedalada. De braços cruzados. e falhar.Esta noite . talvez queira dançar comigo.Se for ao cemitério. . dançarei consigo. a fingir ignorância.Lhe como vai ser. .Como é que sabe? . . . . Se já tiver resolvido o mistério. antes de finalmente Lhe lançar um olhar quase sedutor. É a única noite do ano em que a Lookilu Tavern fica quase deserta. .. . . É que quando se trata do Lindy ou do foxtrot. para o outro lado do rio .Há baile? .Prometo.Como é que pode garantir isso? Não estou a ver qualquer modificação do tempo.abanou a cabeça e respirou fundo.Farei o meu melhor. . Lexie ficou a observar o sol a tentar. Jeremy seguiu-Lhe o olhar.É justo .pediu ela.Bom. se eu lá for. a penetração através da nuvens escuras.anuiu Jeremy.Na noite de sexta-feira. . Lexie sorriu-lhe. É um baile e tanto. esta noite poderá avistar as luzes. para que isso aconteça.

Agora. a tentar esconder o sorriso de troça -. . Belo truque.zombou. Ele olhou por cima do ombro e desviou os olhos. . cujo motivo não entendeu. Lexie notoulhe um ar preocupado. .Não.concluiu. tão simples quanto isso. o presidente da Câmara oferece um jantar com algumas pessoas que pensa que eu devo conhecer . .. como parece possuir talentos escondidos. então.concordou ele. diga-me . lembrou-se do jantar para que tinha sido convidado e.Sim.começou Jeremy. não foi? . Olhou lá para cima e concluiu que devia estar a acontecer o mesmo na outra margem do rio. . Uma pequena reunião.confirmou Lexie. . Vai ver.Mas temos de ir. mais um desses enfadonhos mistérios? Lexie afastou-se do gradeamento. algo do género.Se é isso que prefere chamar-lhe .Oh.. mal tinha proferido aquelas palavras.Ah! Temos. Está a fazer-se tarde e tenho de regressar à biblioteca. . Acha que devo lá ir. a observar os contornos da fábrica de papel. como é que pode ter a certeza de que as luzes poderão ser avistadas logo à noite? A resposta demorou algum tempo.Pois claro que tenho. . Jeremy reparou que o cume de Riker's Hill também estava encoberto. Mas sei.Sei.Tem razão . . a pensar que tinha descoberto como é que ela poderia ter visto aquilo. . Dentro de quinze minutos tenho de começar a leitura para as crianças. Enquanto caminhavam para o carro. de repente. é tudo . não acha? Porém. parece que está decidido.Volte-se e observe. depois olhou uma vez mais.. .Aposto que deu uma vista de olhos quando eu não estava a reparar. Sorriu. sem mais nada para dizer.O que foi? .esclareceu. .Muito bem. . claro.

Tem tempo mais que suficiente. pois.as um pouco antes da meia-noite. ir à biblioteca . só acontece porque o senhor está sempre a esquecer-se de perguntar.Porque não ouvi falar disso.. é surpreendente. também viu as luzes? Não me tinha falado disso. Mas eu não me preocuparia por poder não avistar as luzes por causa do jantar do presidente da Câmara. . . Jeremy parou.Mesmo assim. .Para si? Ele sorriu. Tinha pretendido fazer uma surpresa à Lexie. o ajudante Rodney Hopper estava a ruminar sobre a sua caneca de café. Avistei. como gostaria de saber onde é que a Lexie tinha ido com aquele.Espere lá. OITO Do outro lado da vila.Também só soube esta manhã. no Herbs..Porquê? . . senhor jornalista. menino da cidade.Falo por experiência própria.Tem a certeza? .O quê? Está admirada? . Ela sorriu. de qualquer das formas. as luzes só aparecem tarde.Bem.Você não perguntou. .Não. . . .Está sempre a dar-me essa resposta. ... apenas surpreendida..

eles andarem sozinhos a divertir-se pela vila. Ou até. Bom. Era até possível que ela o deixasse acompanhá-la ao carro. Oh. pensava Rodney. que ela andava com ele só para Lhe ser simpática. Mas onde andariam eles? Não estavam no Herbs. não era verdade? Pensou melhor. Poderia ter entrado para perguntar por eles. se não se desse o facto de. era impossível não reparar. Era paciente. Ele sabia que sim. Sabia perfeitamente que os amigos falavam por inveja. Mas nem isso o teria preocupado tanto. por que não. . mas ele sabia o que estava a fazer. provavelmente de todo o estado. Com mil diabos. ele sabia exactamente o que o menino da cidade via na Lexie. E tinha de estar vigilante. não se teria preocupado por saber que um homem estava a fazer pesquisas na biblioteca. naquele momento. Ela nunca o beijava no final. mas isso era o que menos interessava. Normalmente. quisera observar por si mesmo. davam mais um passo a caminho de um relacionamento mais profundo. De cada vez que saíam. Todos os amigos zombavam dele por causa da Lexie. Mas este tipo não era assim. Dir-lhe-iam que lhe saltasse para cima. Nem no restaurante do Pike. deixando o menino da cidade a roer-se de inveja. No entanto. especialmente quando ele anunciava que ia outra vez sair com ela.convidá-la para almoçar. Rodney franziu a testa. achou que poderia não ser uma boa ideia. andara a esquadrinhar os parques de estacionamento e não vira qualquer dos carros. As pessoas que faziam pesquisas na biblioteca tendiam a ser mais velhas e a mostrarem a expressão ausente dos eruditos. não. este tipo parecia acabado de sair do salão de beleza da Della. a sua altura haveria de chegar. de todo o mundo. Sentia que sim. pelo menos na maioria das vezes. para que o menino da cidade soubesse exactamente em que pé estavam as coisas. Não. Ela aceitava sempre que lhe sugeria que saíssem. a que se juntavam os óculos de leitura. o ar desmazelado e o hálito a café. nem ficou preocupado quando ouviu falar naquele pela primeira vez. E as pessoas tinham razão: bastava um olhar para perceber o motivo que levava toda a gente da vila a falar do menino da cidade. Era a mulher mais bonita da região. mas como talvez já fosse conhecido o facto de eles andarem juntos. quando começou a ouvir toda a gente a murmurar acerca do novo estranho que estava na vila.

concordou o ajudante. Além disso. . já a despejar o café. .Tens a certeza de que não queres nada para comer? Sei que estás com pressa e posso dizer-lhes que sejam rápidas. Estás a sentir-te bem? Rodney levantou os olhos e viu-a ao lado da mesa.Desculpa.Não a vi em todo o dia. . Segundo ouvira dizer. Já foste à biblioteca? Se for importante posso ligar para lá. Rachel cerrou os lábios. E tenho no carro proteínas em pó. Rachel interpelou-o: .Esperou que a Doris soubesse alguma coisa. Rachel. como é óbvio. com o bule do café na mão. não o ajudou nada. por acaso viste se a Lexie passou por aqui? Talvez a comprar comida para fora? Rachel negou com a cabeça. embora Rodney não parecesse reparar. não sinto muita fome. ao estender a caneca. mas aconteceu que também ela não estava. .Não. tudo há-de resolver-se. .Mas bebo mais uma caneca. . a Doris gostava do menino da cidade. meu querido. Desde há muito que a considerava quase uma irmã. estava bonita.Bem podes dizê-lo. O que. o que poderia concorrer para alterar toda a situação. que poderei tomar mais tarde.É provável que tenhas razão . .Não é nada. . . Ela encorajou-o: . Por vezes preocupava-se com o Rodney. o mais provável era que negasse saber alguma coisa sobre o paradeiro da Lexie. .Os maus andam a causar-te problemas? Rodney fez um aceno de cabeça. Ficarei óptimo .Olha lá. pois a hora do almoço estava a esgotarse e não podia continuar ali à espera dela. Informaram-no de que tinha ido falar com os contabilistas e que não deveria demorar-se.anuiu Rachel. .Bom. Acontece que estou em dia não. Rachel sorriu.sossegou-a.É para já .

indagou Rodney. . Ao ouvir aquilo. Aquele cabelo! Provoca-me desejos de o pentear com os dedos. . não é? . E aquele cabelo! Já te falei no cabelo dele? .O que é que pensaste dele? Rodney agitou-se na cadeira.Óptimo .Convidou-te? . . É realmente interessante e muito inteligente.Mas.. mas. . . fiquei com a sensação de que desejava que fosse visitá-lo. Ela inclinou-se sobre a mesa. .Quem? . como se procurasse o que havia de dizer a seguir. a tentar ganhar tempo para avaliar melhor a situação. vi que estavas a conversar com o Jeremy Marsh. Rachel.Devias ter falado. pareceu-me que sim. e embora não o tivesse dito com as palavras todas. . a fingir-se inocente.Um homem bonito.Nunca reparo se os outros homens são bonitos . a sentir-se cada vez pior. isso é óptimo.Não falámos o suficiente.resmungou ele. Não me importava de ficar todo o dia a olhar para ele.Ah.O jornalista de Nova Iorque.Pois bem. a ... . . Não te recordas? .Convidou-me a ir a Nova Iorque . Pensei que devia dar-me a conhecer.gabou-se Rachel.Bom..perguntou Rodney.Esta manhã. Rodney empertigou-se.De verdade? . mas.resmungou Rodney. . a beber um gole de café. Toda a gente fala dele. .Já . pois.Não.respondeu o ajudante.. . Disse que devia fazer uma visita à cidade. não é assim tão importante. . Teria ele convidado a Rachel para ir a Nova Iorque? Ter-se-ia a Rachel convidado a si própria? Como é que ele poderia saber? Percebia que o menino da cidade a achasse atraente. este é.

se vires a Lexie diz.Aqui está a mulher que eu queria encontrar . Doris voltou-se e viu o presidente aproximar-se. Noutro ponto da vila. Começou a preparar-se para sair. para depois dizer as palavras juntamente com ele: . .Passei a manhã toda a preparar as coisas. acho que não ia adiantar nada. Queres que te encha um copo de plástico com café? . obrigado. .esclareceu o presidente. como sabes.Bem. não conseguiu deixar de pensar se o presidente seria daltónico.Olha. Já não estou a sentir-me bem do estômago. estou a pensar nos interesses de toda a comunidade . Jeremy Marsh . . não sei se já ouviste dizer que estamos a preparar um jantar especial para o nosso convidado.Bom.Vai descansado. o homem parecia ridículo. Na maioria das ocasiões. o presidente Gherkin chamou pela Doris. à procura dela.Está a escrever uma grande história. .. Tom? .começou o presidente.Não.Lhe que passei por cá. Rachel. perto do escritório do contabilista. . de modo a que . ignorando o comentário dela.percebes a importância que isso pode vir a ter para a vila. e. para te ser franco. está bem? . Doris concluiu a frase mentalmente.Já ouvi dizer.Neste caso.bradou.Oh. ..Rachel tinha propensão para exagerar. Parecia-lhe haver ali algo que não se encaixava muito bem. coitado! Acho que na cozinha há umas pastilhas para isso. vendo-o metido num casaco vermelho e numas calças de xadrez. . . . ouve. além de que a Lexie e o menino da cidade andavam não se sabia por onde. Sei que tem um interesse especial para o teu negócio. Queres que as vá buscar? Rodney encheu o peito de ar e tentou readquirir o ar oficial.O que é que queres de mim.

Já falei com os tipos de lá e eles disseram que nos cederiam de bom grado as instalações. . Sabes como ela é importante para as pessoas desta vila. Mas queria saber se nos poderias ajudar com algo que se coma. certamente. mas sem as sanduíches.Bem. .indagou Doris. mas. A vila não deixará de te compensar pelas tuas despesas. . passará por lá um repórter. .indagou a Doris.É claro que tem. Acho que podíamos fazer uma pequena reunião.E quando é que estás a pensar fazer a tua pequena reunião? . Até falei com ele esta manhã. a interrompê-lo pela segunda vez..Duvido que ela possa. a duvidar. . . Detesta esse tipo de eventos.. a inclinar a cabeça para trás. como ia a dizer. pareceu verdadeiramente entusiasmado com a ideia.O Jeremy Marsh tem conhecimento disto? . Tanto eu como tu sabemos que és a única pessoa capaz de resolver esta situação..Repara que não se trata de uma questão de caridade.tudo corra bem. é por uma boa causa. pareceu confundido com a interrupção. . logo à saída da vila. ..perguntou Doris. esta noite. Sei que é uma falta de consideração comprometer-te assim de chofre.Doris.. Estamos a pensar fazer a reunião na plantação Lawson.Queres que seja eu a fornecer o jantar? . Por momentos.Pretendes que eu prepare uma das tuas pequenas reuniões para esta noite? .De verdade? . mas poderão estar a preparar-se acontecimentos importantes e temos de tirar partido deles. . só vai quando é absolutamente necessário.. Estive a pensar que poderias apresentar a tua galinha com pesto. que talvez sirva de ponto de partida para o Circuito das Mansões Históricas. Já falei para o jornal.E estava a contar que a Lexie também assistisse... é claro. interrompendo-o. .Esta noite? . Nada de complicado.

Talvez tenhas razão. não tinha a certeza de que Lexie pretendesse que ele lá fosse. que tinha a cozinha fornecida de comida suficiente. Mas não penses. fosse lá aonde fosse. via a luz a brilhar nas janelas do gabinete de Lexie. O ajudante Rodney Hopper estava sentado no carro estacionado em frente da biblioteca. com as pernas dobradas sob o corpo. nem eu permitiria que não fosse assim. não é? Se não compareceres não haverá ninguém que defenda os teus pontos de vista. Organizarei um bufete e vou sentar-me à mesa como os restantes convidados. nem um segundo. Se ela não fosse. Imaginava-a à secretária. . Tom tinha razão: ela era a única pessoa que podia organizar uma reunião daquelas em tão curto espaço de tempo. Além disso. E tinha razão. imagine-se o que Jeremy iria escrever sobre a vila. se só lá estivessem o presidente e os conselheiros municipais.Doris. Não havia dúvida de que o homem sabia os botões que devia premir.Lembro-me exactamente do que me disseste. a tentar decidir se deveria ou não entrar para falar com a Lexie. . Eu tomo conta disso.atalhou o presidente. Contudo. pretendes que a tua voz seja ouvida. O presidente Gherkin sorriu.De maneira nenhuma . Nunca tinha sugerido que ele .. mas havia um problema: sabia que não dispunha de um motivo aceitável. . Mas. o que significava que tinham regressado do passeio. num aspecto.Está bem. Queria falar com ela.Não estarás a esquecer-te de que eu sou contra a utilização do cemitério como atracção turística? . como eu ia dizendo. Doris ficou a olhar para o presidente Gherkin durante um bom bocado. de qualquer forma. gostava de aproveitar a ocasião para promover o fim-desemana. Ambos sabiam que ela estava a preparar-se para as festas do fim-de-semana. Nunca passava pela biblioteca para conversar porque. a ler. que vou servir essa gente toda. a ajeitar as madeixas de cabelo por detrás da orelha enquanto ia folheando as páginas de um livro. Viu que o carro do menino da cidade estava no parque de estacionamento. honestamente. Capitulou: .

também era possível que a Lexie e o menino da cidade não estivessem juntos na mesma sala. Rodney não estava totalmente convencido de que isso fosse verdade. quando estava quase decidido a entrar na biblioteca. enquanto o menino da cidade estaria encolhido a um canto. Fazia sentido. . apoiando as mãos no carro. não andava toda a gente meio parva para que o tipo se sentisse bemvindo? E o presidente estava à frente do comité.passasse por lá para a ver e. Contudo. a olhá-los do exterior. Tal exigiria. O presidente. sentado num automóvel parado. E ele estava para ali. sabia que um pequeno encorajamento da parte de Lexie para que ele a visitasse seria mais um pequeno progresso nas relações deles. mas hoje. ela mudava de assunto. quando ele tinha o menino da cidade onde o queria. na véspera. sempre que ele pretendia conduzir a conversa nessa direcção. até decidir que fazia sentido. E pumba! O menino da cidade e a Lexie foram apanhar flores e observar o arco-íris. até certo ponto. pois ela devia estar a trabalhar. Porém. a ler qualquer livro bafiento. Rodney baixou o vidro e deu entrada a uma lufada de ar frio. Pensou maduramente. poderia não ter sido assim. bom. Bom. " Já era a segunda vez. Gostaria que as coisas andassem um pouco mais depressa. Talvez a Lexie estivesse. Importante era que. o presidente (que presidente! ) ajudara o tipo a safar-se. os seus pensamentos foram interrompidos por um toque na janela. mas isso não era o mais importante. não se poderia dizer que Ficara totalmente satisfeito. O presidente Gherkin inclinou-se. que a relação deles existisse e. provavelmente a rirem-se e a dizerem piadas um ao outro. a fazer o seu trabalho de bibliotecária. O senhor Empata. que aparece nos piores momentos. Odiava não saber o que estava a acontecer e. de momento. Passou um segundo até conseguir ver quem era. uma vez mais. tinha a certeza de que não havia concorrentes. Naquela manhã.. a divertirem-se à grande. No dia anterior sentira-se satisfeito com o estado da relação. é claro. no preciso momento em que ia estabelecer-lhe os limites. os dois estavam sentados lá em cima. mas. pois o tipo estava de visita à vila. ao mesmo tempo. Com mil diabos.. Talvez a Lexie estivesse apenas a mostrar-se hospitaleira.

Logo à noite.Para a nossa pequena reunião. Rodney pestanejou. à caça. Dará ao serão um ar um pouco mais. não havia qualquer hipótese de lhe ser atribuída uma missão daquelas. neste momento.Com certeza. . cerimonioso. . .És mesmo o homem de quem eu andava à procura. não está? .Para quê? . O dever é sagrado. como a reunião está a tomar um carácter mais oficial.Bom.Não.Não sei. Em honra de Jeremy Marsh. . Mas compreendo.repetiu Rodney. é claro. não lhe parece que essa é uma missão mais apropriada para o meu chefe? . é uma daquelas missões que te cai no regaço. Tom. de forma alguma.Embora tenha a certeza de que a Lexie gostaria de te ver lá.Está a brincar. certamente. o nosso distinto convidado.Senhor presidente. . lembrei-me de que esta noite iremos precisar de um representante das forças de segurança. É uma pena. encarreguei agora mesmo o Gary de fazer uma chave da vila para Lhe entregar. De facto.Uma chave da vila . . Lisonjeado. Rodney respirou de alívio. .. Mas tanto tu como eu sabemos que.A Lexie? . .Obrigado. E como és tu o responsável quando ele se ausenta. Gostaria que estivesses ao meu lado no momento de lhe oferecer a chave.É uma pena. mas penso que não vou conseguir. . Contudo. na plantação Lawson. Ia a passar e. não deixarei de agradecer a tua presença. Teria de arranjar quem me substituísse. . o ajudante do xerife encheu um pouco mais o peito. Pretendo fazer uma surpresa. mas não digas a ninguém. quando te vi. ele anda pelas montanhas. Mesmo assim.

pois não? Não me importo de esperar. A sala estava barulhenta. ao endireitar-se. A bibliotecária sentou-se no chão. Como te disse. tem de ser. . Mas não tenho dúvidas de que ela gostará de conversar com o nosso convidado. Depois de conseguir mais algumas informações para Jeremy e de passar rapidamente pelo gabinete.. Apesar dos protestos de empregados e voluntários mais velhos.Bom. Ela dirige a biblioteca. antes de descobrirem o .Não . compreendo. . recordava-se de numerosas crianças que iam lá. que poderei compor as coisas.Fica descansado. não foi? O presidente acenou que sim. a tentar a recuperação. .Tudo bem. a ler o terceiro livro. . a pensar rapidamente. num canto. ajudante. Não estavas a pensar em ir falar com ela. fora colocada uma mesa baixa com bolos e sumos. A sala estava pintada com cores alegres. Lexie viu. O presidente sorriu. Queria que elas se excitassem por estarem ali. De um dos lados. Outras pintavam com os dedos. mesmo que tal exigisse a existência de brinquedos e de uma sala que não poderia considerar-se calma.exclamou Rodney.Nem sei o que estava a pensar. como acontecia sempre. . que pretendiam que as crianças estivessem sentadas e quietas durante a leitura. Com o passar do tempo. algumas aconchegadas ao colo das mães. o que a torna uma das personalidades que têm de estar presentes. mesmo sem a tua presença insinuou. em cima de uma mesa torta que a própria Lexie concebera. mas penso que o Bruce já está escalado. .Diga-Lhe apenas que nos veremos mais tarde. Lexie queria que as crianças se divertissem na biblioteca. algumas crianças menos interessadas brincavam com os muitos brinquedos que estavam arrumados nas estantes.Espere! . Agora deixa que vá até lá dentro para falar com Miss Darnell. como sempre acontecera.Ainda bem. as estantes eram em tons pastel. .se rodeada por vinte crianças. sem nexo aparente a não ser o aspecto alegre.asseverou Rodney.Disse que era esta noite. durante um ano mais. Ia agora mesmo convidá-la. .

E. no entanto. Não fora mau de todo. Embora não pudesse ser descrito como um namoro. tinha sido bem agradável. com alguém que ainda não conhecia toda a gente e tudo o que sucedia na vila. o que a deixara vulnerável.a cabeça recusava-se a descansar. tomou uma nota para não voltar a proceder assim. Ao pensar agora no caso. Contudo. mesmo que se recusasse a encarar a hipótese de existência de mistérios. Uma conversa com um novo conhecido. Quase se esquecera de que poderia tornar-se algo especial. Não se tratara de qualquer pedido dele. apercebia-se de que tinha revelado mais de si própria do que gostaria de ter feito e tentava recordar-se do que a levara a proceder assim. pelo menos em parte. Enquanto continuava a ler para as crianças . além disso. compensava essa teimosia com a forma bemhumorada com que aceitava as diferenças de crenças e maneiras de viver que havia entre eles. o rosto de Jeremy não deixava de lhe aparecer: o sorriso ligeiramente zombeteiro. graças a Deus . Desde que continuassem a comparecer. nem essa certeza fazia calar a vozinha interior que a avisava para . Até conseguia rir-se de si próprio. Pois bem. Porém. dizia a si mesma. sentia a mente ocupada com os pormenores do almoço que partilhara com Jeremy.prazer da leitura. o que tornava a situação um pouco desconcertante. E. tinha de admitir. para não falar da ideia que faria dela mesma. O que quereria ele dizer? Talvez. Mentalmente. Doris tinha razão. pensava. Até corara quando ele a achara sedutora. fosse uma consequência de ela ter despejado o saco sobre o seu passado. E ele tinha-a surpreendido. Mas por que diabo continuava a lutar com aquilo? Não gostava de se considerar neurótica. pura e simplesmente. O homem era mais inteligente do que ela julgara a princípio e. gostava dele. quase tivera essa sensação. Tinha acontecido. a expressão de divertimento com que a ouvia. Hoje. por mais que desejasse parar de pensar nele. porém. Estava disposta a admiti-lo. mas isso não a perturbava.não era um livro difícil. mais uma característica que o tornava atraente. mas aquela análise infindável não era normal. Não conseguia deixar de reflectir sobre a ideia que ele faria da vida naquela terra. fora mais uma visita guiada do que um namoro.

Quanto mais antigas.. Em vez disso. O cemitério. apercebeu-se de que deveria ter notado a relação estreita entre Riker's Hill e a fábrica de papel quando tinha subido ao monte. Numa outra vida. a vila expandira-se em todas as direcções. Depois de reflectir. Já nem se recordava de quando lhe tinha acontecido algo semelhante. Jeremy estava debruçado sobre uma série de mapas das ruas de Boone Creek. Contudo. hoje a conversa tinha sido tão natural. ao ver como a vila tinha mudado. Tinha de agir com cautela. não da forma habitual. bom. e hoje. Ainda estava a procurar compreender a súbita mudança de comportamento dela. que a refracção da luz viajasse entre os dois pontos.. não foi? E ficava danado por não conseguir deixar de pensar nela. Por estranho que lhe parecesse. tudo o que desejava verdadeiramente era conhecê-la ainda melhor. em que havia sempre roupas amontoadas aos pés da cama. por mais que parecessem dar-se bem. levantou-se da secretária e começou a dirigir-se . mesmo durante a noite. cartas antigas. datadas de meados do século xIx. quando era uma pessoa muito diferente. Gostaria de saber se a fábrica trabalhava com um terceiro turno. mas isso fora há muito tempo. tudo seria explicado de uma vez para sempre. o que obrigaria a manter o lugar profusamente iluminado. A distância entre os dois pontos não chegava a cinco quilómetros e ele sabia que era possível. mesmo em noites de nevoeiro. Ontem não quisera ter nada a ver com ele. década após década. ficava situado entre o rio e Riker's Hill. hoje foi um dia diferente. desde que ela permitisse que tal acontecesse. como ele já sabia. mais importante: apercebeu-se de que uma linha traçada entre Riker's Hill e a fábrica de papel passaria directamente por cima do cemitério. mais pormenores pareciam conter. apesar da necessidade de terminar o estudo dos mapas. Provavelmente com a Maria. estivera a apreciar a paisagem. Com a espessura certa de nevoeiro e a luz suficiente. pois.não se deixar magoar. tão agradável que. a olhar a vila lá de cima e a passar tempo com a Lexie. Jeremy Marsh podia magoá-la. antes de compreender o que estava a suceder. A partir de uma pequena aldeia encolhida numa dezena de ruas. ia acrescentando novas notas.

o que faz o senhor por aqui? . a sorrir.Certamente que não .. o O" que fazia com os lábios. mas.. Um homem é traído pela maneira de olhar.Oh. Praticamente. As mães estavam sentadas. a maneira como se inclinava para diante para dar ênfase a qualquer pormenor da história. Desceu a escada. temos tudo preparado. Acerca do jantar desta noite. Sabia que ela estava a ler para as crianças. Deixe que lhe . de súbito. E também a Miss Lexie. Jeremy virou a cabeça.Mas. . .respondeu Gherkin. . Tom. não tinha intenção de a perturbar. é claro. fazendo-o sorrir com as expressões que adoptava: olhos esbugalhados.Notei a forma como estava a olhar para ela.Venho vê-lo. Não tardou a avistar Lexie sentada no chão. senhor presidente. sentira a necessidade de a ver.Não há nada a esclarecer.Bom.Presidente Gherkin. Os olhos nunca mentem. Lia de forma viva. Jeremy abanou a cabeça. Julgo que ficará impressionado. não ligue. . Dois dos miúdos não mexiam um dedo. ela é impressionante. certamente..para a escada.Ficarei. virou a esquina e caminhou para junto de uma das paredes de vidro. como não me canso de dizer.Ela é extraordinária. . rodeada por crianças. . .Isso quer dizer o quê? O presidente sorriu. não acha? Surpreendido. .. não acha? Jeremy não respondeu e o presidente franziu a testa. Porque é que não me esclarece? .Por favor. Estava apenas a provocá-lo. . antes de prosseguir. os outros pareciam ter um motor interno. . eu cá não sei.

. . . sentindo-se mais esperançado do que convencido. É fácil perder-se. se está tão confiante.Poderá ser uma ajuda. Muitos homens consideram-na a jóia da região. Gherkin voltou-se para sair e. . Jeremy viu que Lexie tinha terminado a leitura. .Pensa que devo pedir à Lexie? . Gherkin apontou para a parede de vidro. Até logo. parece que concluí a missão que me trouxe aqui. Se acha que ela concorda.Isso é consigo. sem grande surpresa.fale um pouco da nossa pequena reunião desta noite. Os olhos do presidente cintilaram.Tenho um mapa . se não tiver cuidado.afiançou Jeremy.perguntou Gherkin para terminar. Viu-a fechar o livro e as mães das crianças a prepararem-se para sair. Pode considerar a hipótese de ir com alguém que conheça o caminho. . limito-me a despedirme.Julgo que poderá estar a sobrestimar as suas próprias qualidades. Contudo. o que lhe fez sentir um aumento da adrenalina no sangue. se referiam a vários pontos de referência locais. Quando é que a tinha sentido pela última vez? Algumas mães chamaram os filhos que não tinham ouvido a leitura e momentos depois Lexie acompanhou o grupo até à saída da sala de leitura das crianças. Vim cá para a convidar pessoalmente. mas como você decidiu encarregar-se disso. .Acha que será capaz de lá chegar? . .Ela dirá que sim . uns minutos depois.informou Jeremy. caminhou para ele. A sensação surpreendeu-o. O presidente pareceu duvidar. mas não se esqueça de que aquelas estradas secundárias podem tornar-se um tanto difíceis. Quando Jeremy se voltou para o olhar com curiosidade. Ao ver Jeremy.inquiriu Jeremy. Jeremy não ficou com dúvidas de que Tully tinha ensinado ao presidente tudo o que este sabia. O presidente Gherkin informou Jeremy da localização e deulhe uma série de informações que.

Ela inclinou ligeiramente a cabeça para o lado. estava a pensar se não se importaria de me acompanhar.Presumo que está pronto para começar com os diários conjecturou.É claro que planeou. Deixou a questão para ser resolvida entre nós. engendrou uma maneira de ser você a pedir.Qual é? Ao responder-Lhe. Chama-se viver numa pequena vila do Sul.Por que razão me vejo.respondeu Jeremy. na plantação Lawson.Se tiver tempo para mos trazer . mas não tem a certeza de eu conseguir chegar lá sozinho. Há.. . no meio de uma telenovela? . . Ele fez uma pausa. Jeremy ficou a pensar.Porque é verdade. Esquisito. bom. . mas só se lembrou de palavras soltas. por isso. sem saber como agir. Quem tinha sugerido a ideia de levar a Lexie? Ele ou o presidente? . subitamente. É o presidente e a sua maneira de compor as coisas. .Perdão? . A resposta apanhou Jeremy desprevenido.Oh. .Tretas! . Durante uns momentos não obteve resposta. . Pode parecer tão inteligente como um .foi o único comentário de Lexie.Pensa realmente que o presidente planeou isto tudo? . evito esse género de eventos não directamente relacionados com a biblioteca. contudo uma outra questão. como a Lexie é praticamente a única pessoa que eu conheço na vila. tentando recordar a troca de palavras com o presidente. E. Jeremy pareceu sentir borboletas no estômago. Presumiu que eu recusaria se fosse ele a convidarme. Ele sabe que. . não tem nada a ver consigo. por isso.me. sempre que posso.O presidente passou por cá para me falar do jantar desta noite. sugeriu que eu levasse comigo alguém que conheça o caminho.Ainda preciso de dar mais uma vista de olhos pelos mapas.

a tentar decidir se ela estaria a falar a sério.Como queira. Jeremy agitou-se.chilreou.Gostaria muito de a levar hoje a jantar. Mr. sem saber que resposta havia de dar. tem de o fazer como deve ser.Agora está a tentar pôr-me de lado? Ele ficou imóvel. a reflectir sobre o que acabava de ouvir..Peça-me para o acompanhar esta noite. . falar com o tom devido. . . . mas tem a estranha habilidade de levar as pessoas a fazerem exactamente o que ele quer. Marsh .. mas se não. . . Desta vez como sendo um pedido seu. . se me pedir.Se não as disser. ainda com a cabeça a andar à roda. Diga algo assim: Gostaria muito de a levar hoje a jantar.Bom. A que horas poderei ir buscá-la? ". não tem obrigação de ir. Por que diabo pensa que ainda está a viver no Greenlea? Jeremy enfiou as mãos nos bolsos. com a sensação de que a ideia foi delas desde o início. .Quero.Bom. . ficando. mais parecendo um menino de escola nervoso. peça-me novamente. sem usar a desculpa de que precisa que lhe indiquem o caminho. Lexie pôs as mãos nas ancas e olhou-o de frente. A que horas poderei ir buscá-la? Ela sorriu e pôs-lhe a mão num braço. como sabe.Perdão? . ainda por cima. Contudo. Jeremy olhou para Lexie. continuará a ser uma ideia do presidente da Câmara e não irei.Quer que eu diga essas palavras? . .Quer que eu vá consigo ou não quer? .Terei muito prazer. limitei-me a pensar que como o presidente. Tenho a certeza de que acabarei por encontrar a plantação. Minutos mais tarde.Então.molho de feno. .

subitamente foi assaltado por uma dúvida: não sabia se valera a . os nove comissários distritais. de repente. os voluntários da Sociedade Histórica. Benson e o Dr. Tricket. Rodney Hopper deu consigo a pensar que parecia ir realizar-se um concerto de Harry Manilow na plantação Lawson. Esta noite não era a mesma coisa. Passara os últimos vinte minutos a dirigir o tráfego no parque de estacionamento e a assistir. na primeira sexta-feira de Dezembro. NOVE À noite. apesar disso. " Que espécie de mulher faria aquilo? E por que diabo é que ele achara a situação tão. todo o conselho escolar. Esta era uma festa em honra de alguém que não tinha qualquer ligação à vila. se apresentara todo elegante. o barman do Lookilu. Dr. à procissão de gente excitada que se dirigia para a porta. Não se tratava de uma celebração em que amigos e conhecidos se juntavam para desfrutar da companhia uns dos outros. Peça-me outra vez e use o tom devido. três contabilistas. Pior ainda. o artigo e as oportunidades de entrada na televisão tornaram-se meros pormenores secundários. com o nevoeiro a tornar-se tão espesso como puré. Albert. que ganhava a vida a esvaziar fossas sépticas mas que. o barbeiro e até o Toby. só pensava no calor que sentiu quando ela lhe pôs uma mão gentil no braço. incrédulo. que se encontrava na sala dos livros raros. o pessoal da Câmara de Comércio. toda a equipa do Herbs.. o Dr.Jeremy estava a ver a Lexie retirar os diários de uma caixa fechada.. Não conseguia decidir se ela tinha sido razoável. constrangedora? Não tinha certezas e. quando o lugar era decorado e aberto ao público. que não se preocupava minimamente com aquela terra. Até agora. o presidente da Câmara. todos os oito membros do Conselho Municipal. Em vez disso. mesmo estando ali em missão oficial. Uma mulher de Nova Iorque nunca usaria com ele o tom que Lexie tinha usado. o dentista. A plantação Lawson estava ainda mais cheia do que na quadra do Natal. irracional ou algo a meio caminho. antes de iniciada a época das festas. incluindo o Tully e o Jed. já tinha visto chegar dois médicos. ao observar a Lexie.

porém. Agora. o repórter apercebeu-se de que Jumpy não fazia a mínima ideia do que estava a fazer. e mais ou menos à mesma hora. trazendo na mão um pequeno ramo de flores silvestres. . de momento. acreditava que o menino da cidade traria o mundo até ali por causa deles. Sabia o que ele sentia pela Lexie. a réplica parecia uma versão agigantada e tortuosa de uma galinha feita de contraplacado e arame. mas Rachel telefonara-Lhe logo de seguida. em Kitty Hawk. a vila apostava a sua prosperidade na existência de fantasmas no cemitério. Rodney tinha fortes dúvidas. sempre o fora. Sabia tudo o que estava a passar-se. No celeiro. Na vila. Mas era melhor do que ele a esconder o que sentia. como as outras pessoas faziam. Considerou o gesto bonito e desejou que ele não notasse quanto se sentira esfrangalhada até há poucos minutos. De qualquer das formas. quando abrira a porta do celeiro para mostrar com orgulho o que já havia conseguido. desde que a Lexie continuasse a fazer parte do mundo dele. com que planeava voar para comemoração do centésimo aniversário do início da aviação. Naquela noite tudo concorria para o pôr maldisposto. há muito clamava ter a réplica quase pronta. Pensou que a Rachel era uma querida. que sempre tivera uns quantos parafusos mal apertados.pena ter-se dado ao trabalho de passar as calças a ferro. Lexie passou para o alpendre no momento em que Jeremy começou a percorrer o caminho de acesso à casa. mas não zombava dele. para ser honesto. Tanto quanto se recordava. ficou com a impressão de que a Rachel também não estava muito entusiasmada com a ideia de ver a Lexie e o Jeremy juntos. pois era provável que a Lexie nem reparasse nesse pormenor. não se importava se o mundo viria ou não. o presidente da Câmara tinha passado por lá e dera a desgraçada notícia acerca de Jeremy e Lexie. quando este estava a tentar construir uma réplica do avião dos irmãos Wright. as gentes da terra não andavam tão excitadas acerca do Futuro da vila desde a altura em que o Raleigh News Observer mandou um repórter escrever um artigo sobre Jumpy Walton. Jumpy. Depois de a Doris ter regressado ao Herbs para preparar o jantar. Rodney preferiria estar em qualquer outro sítio. Além disso. Especialmente a forma como a vila estava a reagir.

O pedido fora certamente mais parecido com um convite para sair do que tinha sido o do almoço. e continuava com dúvidas quanto a ter aceitado colaborar numa reunião como aquela. com o seu ar de Johnny Cash.A propósito. Mostrou-me onde morava quando estivemos no Riker's Hill. . . a sorrir. . São para si.esclareceu. decidiu-se pela aparência profissional: fato castanho de casaco e calças. um convite para sair.Obrigada. Dê-me só um minuto para ir pô-las numa jarra e pegar no casaco comprido. .aconselhou Lexie. as flores são lindas. mas não se tratava bem de um jantar romântico. a seguir. No final. Lexie recebeu as flores com um encantadora. havia que considerar a questão de ter recebido. Além disso.observou Lexie. . havia toda a questão da maneira como gostaria de ser apreciada.Por vezes. Mas encantadora. ou não ter recebido. parecia mais apropriado. sorriso.Por favor.Nada de muito especial naqueles que já analisei.Quem sabe O que poderá encontrar? .respondeu ele. ao dar-lhe o ramo de flores. Em primeiro lugar. com uma blusa cor de marfim. Ele mostrou as palmas das mãos. mostrou-se E desejável. A tudo isto havia que acrescentar o pormenor de ela se sentir mais confortável com calças de ganga e de não querer usar roupa decotada. a dois. estaremos prontos para partir.Bem . como se não estivesse a ligar qualquer importância àquele serão. uma confusão que acabou por levá-la a desistir. não só por Jeremy mas também por toda a gente que iria vê-los juntos. a levar o ramo de flores ao nariz. . .acrescentou. também. . era difícil ser mulher e esta noite estava a ser das mais difíceis. . Como é que correu a investigação dos diários.Espere um pouco .Conseguiu encontrar a casa . . E agora ele estava ali. recorda-se? .Não foi muito difícil.

sugeriu Lexie. Jeremy parou.Esta é versão do presidente da Câmara. profusamente iluminada. Por que não? E assim. arrumados ao acaso. instantes volvidos.Será melhor arrumar aqui . além disso. . com as frentes apontadas em todas as direcções. logo que tiver necessidade disso. ser-lhe-á mais fácil sair. a observar a cena. a fazer brilhar os faróis ou com os condutores a tentarem metê-los em espaços incrivelmente estreitos. sem saber para que lado virar. Minutos depois. Lexie dirigiu Jeremy através das estradas secundárias até chegarem a uma alameda sinuosa.Tem a certeza? Ainda nem se vê a casa. o que ele considera . Embora não conseguisse ver a casa. e não tardaram a encontrar-se em frente da velha mansão georgiana. Montes de carros. . depois de uma ligeira hesitação. com Lexie a fazer o possível por manter o casaco fechado. Seguiram a curva do caminho.Pensei que seria uma pequena reunião com alguns amigos. Como o nevoeiro continuava a aumentar.. como se cada condutor tivesse preparado uma fuga apressada.Duvido que arranjemos um lugar mais perto da casa e. O que viu primeiro foram os automóveis. . . Por que é que pensa que eu trouxe o casaco comprido? Ele decidiu-se. Muitos outros continuavam a circular por entre o caos.Confie em mim. estavam a atravessar a vila na direcção oposta ao cemitério. Inclinouse sobre o volante. ele abrandou ao aproximar-se de uma sebe altíssima que presumiu limitar um espaço circular. delimitada de ambos os lados por carvalhos que parecia terem sido plantados há cem anos. . . seguiam pelo caminho de acesso. não foi a casa a primeira coisa em que Jeremy reparou.Fico à espera. Lexie acenou com a cabeça. perto da sebe. Contudo.

. Ele limitou-se a resmungar um comentário zombeteiro: . Em vez de ter de servir pratos de comida durante todo o serão. .É impressionante.E você sabia o que estava para acontecer? . depois de acabar o trabalho e quando ia de regresso a casa. em Main Street. exibidos no edifício da vFW. .Obrigada. Não vai ser tão cansativo como está a imaginar.Como é que poderia adivinhar que ele estava a programar uma festa assim? Lexie sorriu. Em miúdos tinham sido vizinhos e a mãe dela guardava fotografias dos dois a tomarem .É claro. pensei que soubesse. os outros ajudantes transportavam demasiadas asas de frango e cervejas na parte média do corpo. como velhos amigos que eram. só estou aqui para apreciar o seu encanto sulista. recorde-se apenas de que é o convidado de honra. mas as horas vagas de Rodney eram passadas no ginásio que tinha montado na garagem. Rachel parava para conversarem um pouco. Rachel andava por entre a multidão a passear a sua melhor imitação de vestido de noite de Chanel. pois tudo fora feito sem uma falha e ainda lhes sobrara tempo. Doris tinha de ser a mais eficiente fornecedora de refeições de todo o mundo. E não se preocupe com o serão. Na sua maioria. Tem de lembrar-se de que ele conhece toda a gente do distrito. . você continua a esquecerse de perguntar.Por que não me avisou de que isto ia ser assim? . Além disso.Como não me canso de lhe dizer. como um Marine num daqueles cartazes da Segunda Guerra Mundial. não acha? Não que eu pense que você a mereça. Metido no seu uniforme impecavelmente engomado.Como sabe. Toda a gente se mostra amigável e. pensava Rachel. quando avistou Rodney a subir para a varanda.uma pequena reunião. Mantinha a porta da garagem aberta e muitas vezes. a olhar para a mansão. pareceu-lhe bastante oficial. quando em dúvida. .

Parecera mais excitado do que as próprias crianças. mas no último par de anos a situação tinha vindo a melhorar. achava que fora aquele o momento em que se apercebera de que os seus sentimentos em relação a ele tinham mudado. nunca deixaria de ser e Rachel estava desde há muito convencida de que os sentimentos do Rodney para com ela nunca iriam mudar.banho na mesma banheira. Observar os olhos dele ao ser anunciada a morte de um estranho constituíra para ela uma revelação. ultimamente. consciente do fraquinho que nutria pelo rapaz. Olhando para trás. Rodney era louco pela Lexie. Voltara a reparar na mesma expressão durante a última Páscoa. parecia que toda a vila falava de Lexie e Jeremy. onde estavam a descrever um trágico incêndio em Raleigh. que custara a vida a um jovem. tinha-a chamado à parte para Lhe contar os lugares menos prováveis em que ele tinha escondido os prémios. Não que as probabilidades fossem muitas. Continuava a sonhar com a ida a Nova Iorque. mas fora o momento em que deixara de pensar que as suas hipóteses eram nulas. Dois verões antes. Houve alturas em que não fora fácil e outras em que não se preocupara minimamente com a situação. Nem todos os velhos amigos podiam gabar-se disso. com uma expressão que contrastava com os seus enormes bíceps e Rachel lembrava-se de ter pensado que ele seria o pai de que qualquer mulher se orgulharia. Sempre tinha sido assim. até se espalhar como fogo logo que o presidente da Câmara anunciou o jantar. mas. A acotovelar a multidão. mas ao repetir mentalmente a conversa com o jornalista. porém. Rachel tirou o batom da mala e passou-o pelos lábios. começara a . tinham-se encontrado lado a lado no Lookilu e ela vira a expressão com que Rodney assistia ao noticiário. Agora. Não que se tivesse apaixonado por ele de um momento para o outro. Deveria ter procurado saber aquilo que preocupava o Rodney. ia a pensar que teria sido melhor não Lhe ter falado de Jeremy Marsh durante a hora do almoço. chegara à conclusão de que as alturas em que não se preocupava eram cada vez menos espaçadas no tempo. algo de que não estava à espera. o falatório começou no lojista que lhes vendeu o almoço. Na realidade. quando as autoridades policiais patrocinaram a caça aos ovos em Masonic Lodge. as suas vidas tinham divergido durante algum tempo.

respondeu o ajudante. sem sombra de dúvida. Rach. Cidadãos locais. famoso e. para quem a quisesse considerar assim. não era da terra.Fantástico! . pois mandou também fazer uma chave da vila. acima de tudo. o que era uma vantagem de outro género. sedutor. inteligente. eram. à sua maneira. viva.. Com o nome dele em grandes letras azuis e tudo. Culto.Como é que estão as coisas lá por dentro? .Devias ter visto tudo o que o presidente tinha para Lhe oferecer. .E os Mahi-Mahis também cá estão . . além de outro ter um tique nervoso que o obrigava a cantar de olhos fechados. perfeito. Contudo.Ouvi dizer .Boa noite. os mais famosos artistas num raio de 160quilómetros. . . Rodney não tinha a mínima possibilidade de concorrer com ele e. Rodney olhou por cima do ombro. sem esconder o sarcasmo. obrigada. no fundo. Rachel suspeitava que o rapaz também estava convencido disso. E Rachel tinha de admitir que o rapaz era responsável e também.comentou de novo..Bastante bem. Rodney estava ali e não tinha planos para partir. e embora dois dos músicos tivessem de usar bengalas. cantavam juntos há quarenta e três anos. .Fantástica .chegar à conclusão de que ele estava apenas a manter uma conversa e não a fazer-lhe um convite. Que festa.Bem.replicou Rodney.saudou. por outro lado. Mas.Bandeira? . Rodney expirou. . bem-parecido.prosseguiu Rachel. Acabam de desfraldar a bandeira. hem? .Oh. a referir-se ao quarteto da barbearia. fazendo o peito abaixar-se ligeiramente. a sorrir.Sim. . . o Jeremy Marsh era tão. . Rodney . exagerava na avaliação de situações daquele género. Por vezes. Aquela tira de pano a dar-lhe as boas-vindas à vila. Como estás? . Não só a bandeira e a comida.

ainda antes de ele abrir a boca. . Jeremy viu casais a entrar uns atrás dos outros e não levou muito tempo a reconhecer Rodney Hopper. No cimo da escada.Obrigado. que estava de pé. Depois de uma ligeira hesitação.Foi o Tom quem me meteu nisto.Obrigada.contrapôs Rachel.. pois não? . junto da porta. E.Nesse caso. .Bem vês como as pessoas estão esta noite. com a respiração a provocar pequenas nuvens de vapor quando estavam a aproximar-se da mansão. Jeremy e Lexie procuraram o caminho por entre a massa de carros parados. nos olhos ardentes e nas pequenas argolas de ouro que usava nas orelhas. só para que saibas. Toda a gente quer falar com Jeremy. por que é que vieste? . lá mais adiante. que durante toda a noite não poderão trocar mais de uma dezena de palavras entre si. hei-de pensar para onde é que devo mandá-lo.Esta noite estás bonita. Não haverá maneira de ele e a Lexie arranjarem um cantinho para conversar.Adorava. .Queres fazer-me companhia durante algum tempo? Ela sorriu. . reservei um prato de comida para ti. Rodney sorriu. O tom de voz dele obrigou Rachel a fazer a primeira pausa. . Um dia. Rach. . Mesmo . pela primeira vez.comentou Rodney.Não. para o caso de não teres conseguido arranjar alguma coisa para comer.Estou a ver que não estás interessado em ouvir nada disto. A Rachel preocupava-se sempre com ele. Acrescentou: . Apercebeu-se. Rodney viu-o ao mesmo tempo e o seu sorriso transformou.se de imediato numa carranca.Impressionante! . Aposto. . .Não será assim tão mau . dez contra um. realmente não estou. do que a rapariga trazia vestido.

Quando se aproximaram estendeu a mão para apalpar o casaco da Lexie. . Rachel. Famoso Jornalista . vivam os dois! .Oh.Estava a contar com isso.aconselhou. Rachel arranjava sempre maneira de manter o Rodney calmo e Lexie.Se isso o faz sentir-se melhor. deixe a conversa por minha conta . ciumento e.Ora vejam.concordou Lexie. a exibir um sorriso rasgado. . pensava que ela era a mulher ideal para o Rodney. a saber que precisava . o homem parecia grande.Está comigo.exclamou. desde há muito. Percebendo o que Lexie pretendia. embora se sentisse agradecida por ver a Rachel ao lado do ajudante.Estás à vontade . Também estás com o aspecto de uma rapariga de um milhão de dólares. porém. o Mr. mas não ficarias aborrecida se eu o acompanhasse até ao salão? Sei que o presidente da Câmara está à espera dele. .de longe.prosseguiu. . . . Lexie.Vejam só. dizê-lo de maneira a não ferir os sentimentos do amigo.Quase me odeio por perguntar. Rachel e Lexie trocaram olhares. basta olharem para si uma vez e os corações das mulheres ficarão a palpitar durante toda a noite . . Não era o género de conversa aceitável para quando dançavam no Shriners' Benefit Hall.Eh. pois não? .É isso que me preocupa . Rachel avançou. Jeremy manteve-se calado.Tenho a impressão de que ele não se sente particularmente feliz por nos ver juntos. Lexie seguiu-lhe o olhar. estava armado. .replicou ele.Obrigada.chilreou. Ela sabia que Jeremy tinha razão. não se preocupe com o Rodney . . Não conseguira. a fingir examinar as unhas e a evitar o olhar rancoroso que Rodney lançava na sua direcção. No silêncio momentâneo. adoro esse teu casaco! . Rachel mostrou-se radiante ao vê-los a subir a escada. .aconselhou Lexie. . o que não concorria para que Jeremy se sentisse muito à vontade. ainda mais importante.Lex.

alguma vez esteve numa plantação sulista tão bonita como esta? . . Ela sabia que não tinha obrigação. Lexie arrepanhou os lábios num agradecimento silencioso à amiga e Rachel piscou-Lhe um olho. quando ele tentou delicadamente avisá-la de que Mr.começou e Rodney ergueu as duas mãos a tentar que ela não continuasse e a dizer: . fora essa a promessa que fizera a Rodney. já estava a ser levado dali para fora.Bom. desta vez. Quando eles passaram. recordas-te? Ela sabia que ele estava a referir-se a Mr. desejava apenas ultrapassar a questão. Rachel agarrou o braço de Jeremy que.acrescentou Lexie.Não posso responder que sim . Não formavam um casal.Não é aquilo que pensas . Já vi esse filme. . mas também sabia que já fizera aquela mesma promessa anteriormente. mesmo que tal tivesse mais a ver com questões de segurança e conforto do que com anseios românticos.Ora diga-me.Não tens de dizer nada. . Renaissance e o seu primeiro impulso foi dizer que ele estava enganado. . a odiar o tom de remorso na voz. não me deves explicações.Vá indo. mas uma vozinha interior recordava-lhe que ela tivera o seu papel na manutenção da chama acesa nos dois últimos anos. . nunca tinham sido um casal. apanho-o dentro de um minuto. como sabes. . quando as feridas ainda sangram. Afinal.Gostaria de saber o que hei-de dizer . não ia deixar-se levar pelos sentimentos.indagou Raquel. mas Lexie sentia a estranha sensação de estar a confrontar um ex-marido depois de um divórcio recente. a pensar se não estaria a ser lançado às feras.Escuta. estou apenas a tentar que as coisas. Lexie virou-se para Rodney. antes de poder aperceber-se do que estava a acontecer. Uma vez mais. Pretendia dizer-Lhe que. . Renaissance não fazia tenção de ficar na vila.respondeu Jeremy. Fez um sinal a Jeremy: .de um momento a sós com Rodney.

nada disso. . Apesar da tensão. E. a desejar que Rodney conseguisse expressar o que sentia com um pouco mais de subtileza. penso que precisa de escolher melhores cavalos. . além disso.Não. pelo menos. não está? .Bom. O episódio não a tornou amarga. . Lexie soltou uma gargalhada. Rodney deixou cair o queixo para o peito. Ele sorriu. ainda estou de serviço.Só saíram uma vez. .Não vens? . durante as férias.Eu sei. Lexie olhou-o de soslaio. No silêncio. ficaram ambos calados.Ainda anda com o Jim? . . Pela primeira vez.aqui na nossa terra. Tinha-os visto juntos no camião verde com um escaravelho gigante pintado. a caminho de Greenville para jantarem. parece que tenho de entrar . Os olhos de ambos encontraram-se por um instante e Lexie virou a cabeça. antes de olhar de novo para Lexie. . .Já ultrapassou isso. .Parece uma daquelas coisas que só podem suceder à Rachel. isso já acabou . o que a fez passar o serão todo a espirrar. .respondeu Rodney. referindo-se ao homem da Terminix.perguntou ela.explicou.A Rachel está muito bonita. mostrou um ligeiro sorriso. .decidiu. regressem à normalidade . como sabes.indagou Lexie. . . os que não tenham escaravelhos gigantes pintados no carro. .Por vezes. Ou. como quem estava a pensar o mesmo. É uma área bastante grande para uma pessoa só e o Bruce é neste momento o único homem no terreno.Pois está. Por instantes. ao mesmo tempo que ajeitava o cabelo por cima da orelha.Também eu. Ela volta sempre a subir para cima do cavalo.Ainda não sei. Não contava ficar muito tempo. Rachel contou que o carro dele cheirava a desinfectante.

se não voltar a ver. onde as pessoas jogam bingo. enquanto as mulheres tendiam a parecer masculinas. nem tanto poliéster.Ela assentiu. . Nada disso. o que era mais estranho.te esta noite. mas. com ela a mostrar-lhe os retratos a óleo de diversos membros da família Lawson.. Quando aparecera na televisão. Lexie começou a caminhar em direcção à porta. Jeremy apreciou o facto de a companheira o manter ocupado e afastado dos outros. que revelavam uma extraordinária parecença entre as gerações. o Nate não conseguira juntar um décimo do número de pessoas ali presentes e as que pôde juntar foram atraídas pela oferta de bebidas grátis. vão ao bowling e entretêm-se com reposições da série Matloc na televisão local. enquanto se perdia em reflexões sobre toda aquela situação.Vou ter.Obrigada.Bom. a Rachel deu- . Rachel e Jeremy procuraram não atrair as atenções. movendo-se à volta da multidão. tem cuidado. . A tristeza com que ele disse aquilo. está bem? . mas. bom. antes de agradecer. Os homens mostravam alguns traços efeminados. Já não via tantos cabelos louros.O que é? Rodney engoliu em seco. Lexie? Ela voltou-se. Ouvia as pessoas a falarem dele mas ainda não estava totalmente preparado para se misturar com elas. . Contudo. mesmo que todo aquele aparato o deixasse algo envaidecido. tu também estás bonita. desde. como que a sugerir a ideia de que todos os pintores tinham utilizado um mesmo modelo andrógino.. Até logo. Não na América rural. . desde sempre. a parecença estendia-se aos dois sexos. mesmo que ela se recusasse a soltar-lhe o braço. aqui.A propósito.Eh. quase lhe partiu o coração e Lexie baixou os olhos por instantes. .

a fazer brilhar de novo aquele sorriso de Hollywood. . se não te importas? .De forma alguma . Quando eles se aproximavam as pessoas calavam-se e abriam alas. depois de teres sido tão amável a mostrar-lhe esta esplêndida mansão e a falar-lhe do seu passado. mas. Outros ficavam a observar de olhos bem abertos.aFirmou . Embrenharam-se numa conversa de circunstância. . bom. que começou a conduzi. como sempre.indagou. .respondeu ela e. sussurrando que devia ser ele.Faço o que posso . . passado um instante.Viva. . quando não esticavam o pescoço para verem um pouco melhor. .lo por entre a multidão. .lhe um apertão no braço. e vejo que tens estado a partilhar o passado desta bela mansão com o nosso convidado. O espectáculo vai começar. . As pessoas soltavam exclamações de admiração. a olhar na direcção de Jeremy. não o demonstrou.Bom.Não tenho palavras para lhe demonstrar o meu contentamento por ter acabado por conseguir cá chegar .As pessoas estão excitadas com o início deste fantástico evento. Entre todos os presentes. antes de Gherkin resolver passar ao que interessava. A cabeça calva brilhava e.Detesto ter de te pedir isto. a mão de Rachel que segurava o braço de Jeremy foi substituída pela do presidente.Rachel! Estás encantadora. . folgo saber isso. para o movimento que estava a gerar-se mais atrás. meu querido. . o presidente Gherkin parecia ser a única pessoa que transpirava.Perdão? Ela olhou por cima dos ombros dele. se pareceu surpreendido por ver Jeremy acompanhado da Rachel. a chamá-lo à realidade. como está? . como se a multidão fosse o Mar Vermelho a abrir-se para dar passagem a Moisés.respondeu ela.cumprimentou Rachel.Prepare-se. presidente Tom.

Capazes de fazer desmaiar um elefante. .Ora bem. era um pouco provinciano. e continuou a acenar aos presentes. ..Tenho-o na algibeira. .Óptimo. Trouxe o gravador? . Ainda bem.Presumo que vai esta noite ao cemitério.exclamou Jeremy.. Tal como eu. estão altamente impressionados com a sua presença entre nós. todos eles têm as suas histórias de fantasmas na ponta da língua.Ah! .respondeu Jeremy. e não sabemos se o facto de mais tarde se estampar contra o sinal de trânsito não teria mais a ver com as doze cervejas Pabst que bebeu antes de pegar no volante. a falar pelo canto da boca para não deixar de sorrir para a multidão.Já falei com ela. O presidente não se deteve. . .E aonde é isso? . é claro.Cheguei a estar preocupado. .. com excepção do Bobby Lee Howard. São dignos de se ver.Talvez devêssemos esperar por Lexie . que começara a imitar o presidente e a acenar com a cabeça e com as mãos. .Vou tentar recordar-me desse pormenor.Desviou pela primeira vez o olhar da multidão para encarar Jeremy. E. . para não dizer que era algo esquisito. mas há mais alguns.Estou a pensar nisso. como presidente da Câmara sinto-me na obrigação de lhe dizer para não se preocupar com o encontro com esses fantasmas. Contudo. óptimo. por falar do cemitério. especialmente o ser escoltado pelo presidente da Câmara como se fosse uma estrela. a tentar que as faces não se fizessem vermelhas.. nunca ninguém se magoou. quero deixar claro. . vai lá ter connosco. Não se preocupe. . agiu como se não tivesse ouvido.Onde vai conhecer os restantes membros do Conselho Municipal. Tudo aquilo. e. . sem dúvida. até hoje. mais os companheiros que lhe apresentei hoje de manhã.o presidente Gherkin. Já conhece o Jed e o Tully. . E os presidentes das Juntas.

sem dúvida. no que foi imitado por Gherkin. durante as três horas seguintes. Pareceu-Lhe ausente e ele imaginou que aquele ar tivesse algo a ver com a conversa entre ela e Rodney. bem como mais umas quantas exclamações de assombro. que escrevera para a revista Atlantic Montóly. Além disso. com uma cobertura de tecido brilhante. embora Jed se tivesse mantido de má catadura e de braços cruzados. dando-se início à actuação dos Mahi-Mahis. incluindo uma prosa acerca das investigações sobre armas biológicas em Fort Detrick. Uma vez acalmada a assistência. Jeremy suspirou de alívio quando a viu ao seu lado para as apresentações à elite da vila. em que louvou Jeremy pelo seu profissionalismo e honestidade. desse a impressão de ser um idiota. Jeremy foi presenteado com a chave da vila. mas também se referiu a diversos artigos bem aceites. para depois Ficar de frente para um mar de rostos desconhecidos. que estavam em cima de outra mesa arrumada junto de uma parede adjacente. de um palco. que tinha sido decorado com um cartaz que proclamava: BEM-VINDO JEREMY MARSH! Não se tratava. Gherkin não só mencionou a aparição dele no programa Primetime. No final do discurso. Jeremy teve de se servir de um banco para subir à mesa. Jed excluído. pareceu animar-se com a afirmação do presidente que prometia que aquela seria a maior história de todos os tempos" e foi-lhe recordado que o turismo é importante para a vila". por vezes. cor de púrpura. em termos técnicos. o que provocou os já familiares sorrisos. o . pois o resto do serão pareceu-se com uma convenção política à moda antiga. Jeremy não teve oportunidade de saber. como se o conhecesse havia muitos anos.Lexie estava à espera dele quando chegou a altura de ser apresentado aos conselheiros municipais. mas Jeremy não conseguiu resistir à tentação de observar Lexie pelo canto do olho. ou até de se descontrair. um mestre na lisonja. deram provas de serem hospitaleiros. Neu York. Depois de ter sido apresentado a todos os conselheiros municipais. Neu York e. Embora. era uma comprida mesa de madeira. Na sua maioria. talvez a mais apropriada de todas. todos de olhos fixos nele. foi levado para o palco. o presidente fez um discurso de longo fôlego. os músicos interpretaram três canções: Carolina on Mind. o homem estava bem documentado e era.

onde se sentou num confortável cadeirão antigo. na sua maioria. colocado na estrada 54. e falou com autoridade quando disse que " eram exactamente como o cartaz luminoso da Piggly ldJiggly. o presidente levou-o até um canto. como se ele estivesse a dar autógrafos. mas uma vez por outra os olhos de ambos encontravam-se. Enquanto ele ouvia as narrativas. uma a seguir a outra. perto de Vanceboro. O presidente pôs as pessoas em fila e elas conversavam com animação. Uns juravam que pareciam pessoas. Lexie mantinha-se por ali. Com o gravador ligado. que afirmou ter avistado as luzes mais de uma dúzia de vezes. por instantes. Jeremy passou o resto do serão a ouvir. Todos afirmavam ter avistado as luzes. mas cada um fazia uma descrição diferente. Dali. o que tornou a cena ainda mais surrealista. colocado em frente de uma mesa não menos antiga. à espera de chegar a sua vez de falarem com Jeremy. Jeremy deu consigo a sorrir. nem lhe faltava o lençol. Aquela assistência adorava-os e. outros comparavam-nos a luzes estroboscópicas. narrativas de encontros com os fantasmas. embora não fizesse ideia de como tinham conseguido subir para cima da mesa. Infelizmente.tema do filme Os Caça-Fantasmas. mesmo que estivessem a conversar com . Enquanto ainda estava no palco. os Mahi-Mahis não eram maus de todo. Lexie piscou-lhe um olho. verdadeiramente satisfeito. Para sua surpresa. Um homem afirmou que se pareciam exactamente com um traje de bruxa. as histórias começaram a repetir-se. sempre a falar com alguém. O mais original foi um tipo chamado Joe.

ou de não notar que outras pessoas a consideravam diferente. A sua falta de afectação perante os outros. nem se deixava influenciar pelo que ele conseguira no passado. fazia Jeremy recordar-se de uma tia que era sempre a pessoa mais popular nos jantares de dias festivos. não se parecia com nenhuma das mulheres que namorara nos tempos mais recentes. que parecia verdadeiramente interessada em tudo o que as pessoas lhe diziam. que não se sentia inibida e era capaz de soltar uma gargalhada se alguma coisa a divertisse. parecia avaliá-lo pelo que era actualmente. Jeremy apercebeu-se de que ela nutria uma genuína afeição pelas gentes da vila. isso sim. pegava nas mãos das pessoas e dizia algo como: Gosto tanto de a ver". Aquela fora. as coisas simples que demonstraram que ela era a mulher ideal. de sobrancelhas erguidas. não tentava impressioná-lo. Lexie. em luta com um problema que o atormentava. O facto de ela não se sentir diferente. reflectia Jeremy. uma das razões que o levaram a casar com a Maria.outras pessoas. . Jeremy não descartava a ideia de ela ser capaz de lidar com eles. E embora ele e Lexie não tivessem ainda enfrentado nenhum dos problemas quotidianos da vida. sem brandir o passado ou o futuro contra ele. porque concentrava toda a sua atenção nos outros. com o ar de quem perguntava: Está a ver o sarilho em que se meteu? ". foram. Não foi apenas a catadupa de emoções que sentiu quando foram para a cama pela primeira vez que o convenceu. percebia agora. Distribuía constantes abraços e depois recuava um pouco. a paciência com que o ouvia quando ele andava às voltas. se assim o desejasse. Como se partilhassem uma piada só deles. A sua maneira de estar sugeria que não tinha pressa. que não iria abreviar a conversa com quem quer que fosse. Pelo contrário. Não guardava o que pensava. ela sorria-Lhe. a forma dura como o confrontava quando ele fazia alguma asneira.

o senhor é sempre bem-vindo. .É o mínimo que podemos fazer. quis que visse aquilo de que o povo desta vila é capaz quando fixa um objectivo. a mostrar a chave da vila.Bom. Mereceu-a . espero que o serão lhe tenha agradado dizia o presidente -. realizadas numa minúscula vila do Sul. Os deveres de um presidente nunca estão terminados. quando se levantou da cadeira para desentorpecer as pernas.disse Jeremy.Disparate .Sinceramente. numa longa sequência de reuniões.Compreendo. que estava a acontecer no futuro. houve um instante. . enquanto Doris e Lexie conversavam. A atmosfera de aldeia. É certo que ainda tem o fim-de-semana para desfrutar o ambiente da vila. situada no meio de nada. Além disso.A certa altura.replicou Gherkin. e que tenha podido avaliar por si mesmo a oportunidade magnífica proporcionada por esta história.protestou Jeremy.respondeu . na companhia do presidente Gherkin. ligeiramente afastadas deles. Nunca poderia ter imaginado nada de semelhante. Jeremy viu Lexie a caminhar na direcção dele. DEZ Quando o serão estava prestes a terminar. Mas eu não merecia toda a sua canseira . .Oh. . . movendo-se com ar sedutor e um ligeiro movimento de ancas. ainda tenho umas coisas a tratar lá dentro. ao vê-la. a sensação de regresso ao passado nas visitas às mansões. em que Lhe pareceu que a cena não estava a desenrolar-se naquele preciso momento. escute. a propósito. noutra pequena reunião. . E. Gherkin sorriu. obrigado por isto . um breve instante. Pode imaginar o que nós faríamos com essa gente da televisão. E.admitiu Jeremy. .Não tenho dúvidas sobre isso .Apreciei devidamente. . Jeremy encontrava-se na varanda.

.Tem a certeza? A sua noite ainda mal começou. a dizer que é bonito.O meu grupo de estudo da Bíblia passou a noite a falar de si. não estou a perceber. . .Não. ambas sorridentes. . Depois de o presidente entrar na mansão. Apesar disso. Além disso. olhou à volta e notou que o nevoeiro se tornara ainda mais espesso. .zombou Doris. Detestaria perder a minha oportunidade de sentir o sopro do sobrenatural.Dito isto. .Foi um serão algo maluco. . . Doris e Lexie aproximaram-se de Jeremy.Devia ter ouvido o que algumas daquelas pessoas diziam de si . julgo que chegou a altura de me pôr a caminho. Foi apenas um gesto simbólico. Jeremy sorriu enquanto Gherkin lhe apertava efusivamente a mão. . acho que ainda posso arranjar-lhe qualquer coisa.Não me fale nisso .concordou Doris.Você mais os seus engenhosos métodos de citadino. Jeremy sorriu. não é verdade? .Desculpe. não foi? .Não consegui deixar de considerar-me feliz por tê-lo conhecido antes.Comeu o suficiente? Se tem fome. Essa chave não serve para abrir a caixa-forte do banco.exclamou Doris. . No silêncio que se seguiu.Ficarei bem . Um par delas gostaria de o levar para casa. . mas. ou coisa do género. felizmente. .Bolas! . estou óptimo. .ao estender a mão a Jeremy. ele não deixou de notar que Doris parecia exausta. Obrigado.indagou Jeremy. consegui dissuadi-las.assegurou-Lhe. .O quê? . . não penso que os maridos delas se sentissem muito entusiasmados com a ideia.Mas não alimente ideias esquisitas. parecendo embaraçado.Fico-Lhe agradecido.

Este serão deixou-a exausta e. Jeremy deu-Lhe um toque de ombro com ombro. Sofreu um ataque cardíaco há uns dois anos.asseverou Doris. . . Depois de Doris os ter deixado. Jeremy não sabia bem o que havia de dizer. disso tenho a certeza. ainda dispõe de umas duas horas. . . ainda tem pela frente um longo Fim-de-semana. Doris inclinou-se e apertou-o num abraço cansado.No entanto. Para surpresa de Jeremy. Ela abanou a cabeça.Estou a pensar na Doris. a olhar para longe mas sem ver nada. E.Não há problema. a pensar que ser criada por uma avó como aquela deveria ter sido o mesmo que ter crescido junto da mãe.Não se preocupe. assume aquele ar resoluto. Apreciei a experiência. provavelmente sem motivo. nunca lhe tinha passado pela cabeça que a Doris não fosse uma pessoa saudável. voltando a dar-lhe atenção.Só queria agradecer-lhe por ter perdido o seu tempo a aturar toda a gente.Pareceu-me óptima. qualquer deles a esmagar a gravilha debaixo dos pés. depois disto. Mas tem de aprender a trabalhar menos. despediu-se da avó e passados momentos acompanhou Jeremy até ao carro. mas gosta de fingir que a doença nunca aconteceu. estou preocupada com ela. Ambas tivemos a oportunidade de falar com muitas pessoas que não víamos há algum tempo. . . Não vai perder as luzes . Jeremy voltou a atenção para Lexie.. Em vez disso. . Lexie reparou no desconforto dele e sorriu. beijou Doris na face. .Está disposta a acompanhar-me? Lexie acenou que sim. . Depois de alguns passos em silêncio. . Ela parecia ausente. ela divertiu-se. Não é fácil encontrar estranhos que sejam assim tão bons ouvintes.Sente-se bem? Acho-a muito calada.Só aparecem mais tarde.Pois. mas não disse palavra.

não devia ter ficado surpreendida. Jeremy recordou a animação que ela mostrara por estar entre as pessoas da cidade. só recebo correio a insultar-me. Jeremy respondeu: . Ela rolou os olhos. mas como é que correram as coisas com o Rodney? Ela hesitou e finalmente deu de ombros. . ela roçou ligeiramente o ombro dele. .Estará em segurança. as feições não revelavam nada dela. De mãos nos bolsos. Jeremy procurou um sorriso. Quando chegaram junto do carro. A mansão desapareceu lá atrás.Pensei que todos os presentes se vissem constantemente. . Mas as pessoas têm as suas vidas. mas não o viu. se resolvesse ir-se embora. logo que rodearam a sebe.confessou.Tem razão. o normal é dispormos apenas de uns minutos entre um aFazer e outro. deixando-o a matutar se fizera aquilo como resposta à maneira como ele a . Parecia quase chocada por ter de admiti-lo.. Agora teve direito a um sorriso. . Jeremy abriu-Lhe a porta.E Doris teve razão. sei que não são contas do meu rosário. Sou uma pessoa adorável. Nem todos os visitantes têm direito a uma festa assim ou à chave da vila.Escute. Toda a gente o adorou. para não lhe dar a oportunidade de me esmagar a cabeça com aquelas mãos nuas. . . Além do mais. Não são contas do seu rosário. Ao entrar.Pois vemos. Lexie riu-se.É a primeira que recebo.Bom. como sabe. Ao luar. Habitualmente. . parecendo mais divertida do que zangada. ao olhar para ele. destroçaria o coração do presidente da Câmara.Bem. Mas gostei desta noite . um som bonito. a única razão da pergunta era eu saber se tenho de me esgueirar da vila a coberto da escuridão.

concordou Lexie.Sei que já ouvi isto em qualquer lado. Sou todo a favor da ideia de você vestir uma roupa mais confortável.. mas passar as próximas horas junto dele seria escancarar ainda mais a porta.. . ombro com ombro. não comece com ideias esquisitas . Ela consultou o relógio. talvez nem tivesse reparado. só para que conste. não quero que se lhe metam ideias engraçadas na cabeça acerca desta noite. . antes que desse por isso. . as palavras saíram. Eu estava a tentar dizer que sei que é tarde.Ora bem. .Julgo que ainda não nos conhecemos o suficiente para isso.Essa tem direitos de autor. com ar de quem sabe.respondeu ele. Sabia que nada de bom poderia resultar dali e não encontrou uma única razão para dizer que sim. .Para que você não tenha medo? .protestou Jeremy.indagou Lexie. Sou completamente destituído de sentido de humor.O que é? .Nunca tenho ideias engraçadas. Porém. . . E. a fingir-se ofendido. As palavras pareceram ficar a pairar dentro do carro e ela fez um aceno de cabeça. Já abrira uma excepção ao acompanhá-lo esta noite. . Não devia ir. Deu a volta ao carro e sentou-se ao volante. Na verdade. sem explicar o quê.tinha tocado. mas hesitou antes de ligar o motor..Pareceu-me ouvir qualquer coisa.Excelente.Engraçado. não devia. ..Estava a pensar.Mais ou menos.Aposto que sim . . .Tenho de passar por casa para vestir uma roupa mais confortável. mas quer vir comigo ao cemitério? . Era tarde.Ora bem. . da próxima vez use frases suas. . . .

. Saltou do carro e atirou com a porta.E eu começo a pensar que o serão Lhe deu volta à cabeça.Precisa da minha chave da vila para abrir a porta? Empresto-a de boa vontade.Demoro-me uns minutos. . a fazer de inocente.Gostava de saber. Lexie abriu a porta mal entraram no caminho de acesso à casa dela. Marsh.Obrigada. . .confessou.Não .Pronto. . numa tentativa de ser dela a última palavra. A minha mãe também recebeu uma chave da vila.Espere aqui . não comece a pensar que é um ser especial. está bem? Antes que eu mude de ideias. . . arrumando uma mecha de cabelo atrás da orelha. Marsh? Agora que eu começava a pensar que estávamos a dar-nos lindamente.Escute. . Jeremy riu-se. Já me disseram que essa era uma das minhas melhores qualidades. Ele sorriu.O que é que quis dizer? .Limite-se a conduzir o carro. a pensar como ambos eram parecidos.acudiu Jeremy. a apreciar o facto de ela se mostrar nervosa. . a rodar a chave de ignição. .ordenou. Mr. por vezes consegue ser agressiva. pronto . não gostava? O Tauros rolou pelas ruas cobertas de nevoeiro.Sabe o que quero dizer. com as luzes amarelas da iluminação pública a fazerem a noite parecer ainda mais lúgubre.Quem é que disse? . ..Voltámos ao Mr. Meu Deus. .

. Se lhe passasse uma coisa tão estúpida pela cabeça.Não me parece muito boa ideia.Porquê? Para ver se consegue conquistar-me com a ajuda do álcool? Ele riu-se.Não muito. .Acredite-me . . baixou o vidro da janela do lado do passageiro e inclinou-se por cima do banco.Prometo não tentar espreitar pela janela. Os olhos dela estreitaram-se mas. Quinze minutos depois.Só se estiver de acordo.Como a noite deve estar fria.Vou enfiar umas calças de ganga.Incapaz de resistir. não costumo ter vinho em casa. Marsh. Ele arrumou o carro de forma a que os faróis iluminassem o cemitério. . não seria nada boa. Mr. pararam em frente do cemitério de Cedar Creek.O que é? . .Escute.respondeu Lexie. . . parecia mais divertida do que zangada. espere aqui . Lexie pôs as mãos nas ancas. Portanto.Boa ideia. se lhe apetecer traga uma garrafa de vinho. . a tentar afivelar uma máscara severa -.avisou.Para que saiba. Lexie? Ela voltou-se. .Mas bebe? . mesmo que tivesse. a apontar para o caminho de acesso. mas diria não. . . o seu primeiro pensamento foi de que . teria certamente de informar o Rodney. como anteriormente. Jeremy ficou a vê-la caminhar para casa. convencido de que nunca conhecera ninguém como ela.

Não. .Pensei que trouxesse apenas uma câmara de vídeo ou algo parecido. Como sabe. abriu a bagageira.Parece que traz aí tudo o que é preciso para montar uma bomba. O microondas do dono da casa não estava a . E este informou ao apontar outro instrumento . Detecta a actividade electromagnética. . .Para que necessita de quatro? . É apenas um conjunto de coisas úteis. Está tudo no guia oficial de caça aos fantasmas.Por acaso. .E esta coisa? .É verdade. Era denso e impenetrável nuns pontos. É normal encontrar um aumento de actividade espiritual em lugares onde haja grandes concentrações de energia. . este instrumento ajuda a detectar qualquer campo de energia anormal. já me aconteceu. Os longos ramos da magnólia eram apenas manchas escuras.naquele lugar até o nevoeiro parecia diferente. . A escuridão era tal que Jeremy não conseguia vislumbrar o mais pequeno raio de luar. o que fazer se os fantasmas aparecerem de uma direcção inesperada? Poderia não lhes ver os rostos. .Alguma vez registou um campo de energia anormal? . Deixando o motor a trabalhar em ponto morto. mas noutros sítios parecia pouco espesso e a ligeira brisa vergava e torcia as gavinhas finas. .Está a brincar. os homens adoram brinquedos.Não.Para filmar os ângulos todos. Ao olhar lá para dentro Lexie arregalou os olhos. Numa casa tida como assombrada. Infelizmente não tinha nada a ver com fantasmas. os jazigos a desmoronarem-se concorriam para a atmosfera irreal.Um detector de radiações de alta frequência. Por exemplo. . Trago quatro.é uma espécie de complemento daquele.indagou. . a apontar para uma caixa electrónica. nem mais nem menos. fazendo-as parecer quase vivas. Lexie ignorou o comentário.

pô-la a tiracolo e pegou noutra.E sabe? . Desculpe. . Jeremy olhou para ela.Foi tudo o que consegui dizer.Não faz mal. a direcção que seguia quando ele a vira pela primeira vez no cemitério. Não quero ser acusado de ignorar seja o que for. enquanto você arranja as unhas. sigo o guia oficial.Nesse caso.É claro. . talvez tenha algumas ideias. .Agora é você que usa as minhas frases. para onde vamos? . Ela agarrou numa das câmaras de filmar. Além disso. .Porque para negar a possibilidade de existência de fantasmas. Podemos partilhá-las.comentou Lexie. estou certo de que poderei fazer tudo sozinho. . Já Lhe disse.Vamos utilizar tudo.Depende.Por que é que possui todo este material? . tenho de me valer de tudo aquilo que os investigadores dos fenómenos paranormais utilizam. Sr.funcionar bem. Lexie apontou na direcção da magnólia. ao saberem que usei um detector electromagnético. Pensarão que eu sei o que estou a fazer. como é que posso ajudá-lo? Precisa da minha ajuda para transportar esta tralha? .Muito bem. Lexie riu-se. .Ah! . Machão. . Onde é que pensa que deveríamos ficar? Uma vez que já avistou as luzes. se considera isto um trabalho de homem. . . os leitores ficarão muito mais impressionados. essa gente tem as suas regras. ou algo assim. Porém.

.. enquanto Lexie filmava com uma das máquinas.apontou. .Muito inteligente. . Durante a hora seguinte.Muito atraente. Pendurou quatro microfones em árvores próximas. . Imerso na tarefa de verificar se tudo estava em condições. Com a farinha poderei verificar a existência de marcas de passadas. enquanto o fio me permite detectar a aproximação de quaisquer pessoas. isto está quase pronto.Farinha? Está a falar de farinha para fazer pão? . . enquanto um quinto foi colocado no centro.Para além de um par de pumas e ursos famintos. . ouviu Lexie a chamá-lo. não sabe? . No entanto. Colocou as outras três câmaras a formar um grande triângulo. parecendo um escaravelho. Julgo que acabou de descobrir o seu estilo. . bem como o gravador central de som. sabe que estamos aqui sozinhos. Jeremy preparou o resto do equipamento.Não faço ideia.Aparecem sempre no mesmo sítio? . Era o ponto situado exactamente em frente de Riker's Hill. Voltou-se e viu-a com os óculos de visão nocturna.É para ter a certeza de que ninguém mexe no equipamento.Acolá . no local onde instalou o detector de radiações de alta frequência e o detector electromagnético.É de onde se avistam as luzes.Estas coisas são óptimas. parece estar só. embora o monte estivesse escondido pelo nevoeiro. Era onde estavam quando eu as avistei. montou-as nos tripés. aplicou filtros especiais nas lentes de duas delas e ajustou os ângulos de focagem para cobrir toda a zona. Consigo ver tudo. .Vê algo com que deva preocupar-me? .Bom. Só falta espalhar um pouco de farinha e desenrolar o fio.

E agora? .Pode trazer-me os óculos de visão nocturna? . . Acho que está a desenvolver um nível totalmente novo de respeito por mim. rodeando as máquinas de filmar com uma camada de pó branco. Jeremy sorriu e fez um aceno de cabeça na direcção do carro. . Depois de se arrastar até ao portão como um espeleólogo no escuro.comentou ela. mas não conseguiu ver nada. estas coisas são giras. Esperemos que tudo isto não tenha sido em vão. o cemitério provou ser mais escuro do que uma caverna. . a englobar toda a zona.Mas não vejo nada.bradou. . A propósito.Não . está a sair-se muito bem.foi a resposta. de braços estendidos. eu tenho a certeza. Ele avançou com cautela. voltou para junto de Lexie. Tentou.Não me parece. o cemitério mergulhou na escuridão e ele teve de habituar os olhos. tropeçou numa raiz exposta do lado de dentro do cemitério e quase caiu.Pode dar mais alguns passos. como se estivesse a vedar a cena de um crime. Logo que desligou o motor. Ele ria-se enquanto abria o saco da farinha e começava a espalhá-la.Vou desligar as luzes do carro. até que parou. Estava apenas a tentar arranjar assunto de conversa.Nunca se pode ter a certeza .. você está a sair-se muito bem. . Colocou um outro fio uns sessenta centímetros abaixo do primeiro e pendurou-lhe uns pequenos guizos a todo o comprimento. Quando acabou.Não sabia que houvesse tanto a fazer . depois atou a ponta do Fio a um ramo e fez uma grande cerca. Além disso. não é verdade? . . Caminhe a direito. Fez o mesmo com os microfones e com o restante equipamento. .Como disse. Mas faça lá os seus preparativos que eu encarrego-me de apontar a máquina de filmar na direcção certa. .replicou Jeremy. .Oh.

É muito mais divertido vê-lo vaguear por aí como uma alma penada.Está uma cripta à sua frente. Agora ande para a esquerda.Quer que o ajude. Jeremy teve a impressão de vê-la recuar no tempo. sempre a rir-se. . . quase a implorar. . Estou contente por ter ajudado! Durante mais ou menos meia hora. no meio da escuridão que os envolvia. finalmente. ele pediu: . pensou Jeremy.. . Parecia divertir-se com a situação.Tinha oito anos . tirou os óculos. Jeremy apreciava a proximidade dela. .O que quero são os meus óculos . Lexie e Jeremy entretiveram-se a recordar episódios da festa.começou. terá de vir buscá-los.Obrigadinho. . Eu digo-lhe quando deve parar.respondeu ele.Fale-me da altura em que avistou as luzes.Não tem de quê.Por qualquer razão. Esta noite toda a gente resolveu contar-me uma história acerca disso. mas não vou. O jogo prosseguiu daquele jeito até que.mandou Lexie. Doris mantinha as fotografias deles penduradas na parede e era como eu os via sempre nos meus sonhos: a mamã vestida de noiva e o papá de smoking. ou não? . mas.Podia.Pois. .Aí tem os seus óculos. . .Esqueceu-se de dizer como mandam as regras". para uma altura em que havia algo que não tinha a certeza de querer recordar. Embora as feições dela fossem meras sombras. por isso mova-se para a esquerda . Estava demasiado escuro para poder ver a cara de Lexie. Sentou-se e Lexie.Bem podia chegar até aqui e conduzir-me pela mão. comecei a ter pesadelos em que entravam os meus pais. A mudar o tema da conversa. Jeremy conseguiu chegar ao pé dela. a falar com voz suave. Só que houve uma vez em . . mesmo assim.

A sua história seria a que eu reteria de entre as que ouvi esta noite.. até que foram desaparecendo. . porque tinha acabado de ver os fantasmas dos meus pais. podia ver o medo e o pânico nas caras deles e a água a encher lentamente o automóvel. e quando cheguei a casa não consegui adormecer.me. E a seguir fomos para casa. deixei de ter pesadelos. de súbito. A minha mãe com uma expressão de verdadeira tristeza.Acredita em mim? .Bom. . depois de ter narrado o sonho com uma voz estranhamente isenta de emoção. Pareciam quase vivas. preferia que a minha história não fosse material para o seu artigo.Acordava aos gritos. Suponho que outros pais me teriam levado a um psiquiatra.que eles estavam presos dentro do carro. mas Doris.Acredito. uma vez. acredito. depois de terem caído no rio.. tudo se iluminou verdadeiramente. Lembro-me de que era uma noite como esta. ia a noite adiantada. . como se soubesse que era o fim e. só para que conste. . Depois dessa noite.. agora tudo se me confunde um pouco na memória. bem.Embora de tenra idade. Suspirou. Ela acercou-se um pouco mais. Doris não me largou a mão. Não sei quantas vezes aconteceu. por isso. Disse que ia mostrar-me uma coisa maravilhosa. para evitar que eu caísse. jeremy manteve-se silencioso. até à chegada das luzes. Era como se estivesse a vê-los através das janelas do carro. do que me recordo a seguir é de estarmos neste lugar. o carro começava a afundar-se mais depressa e eu ficava a assistir a tudo de um plano superior.. Quase a ouviu encolher os ombros. antes de nos sentarmos durante algum tempo. . na verdade. soube o que tinha acontecido. Era como se eles tivessem vindo visitar. mas deve ter durado o suficiente para convencer a Doris de que não se tratava de uma fase passageira. acordou-me e mandou-me vestir roupa quente. Caminhámos por entre as pedras tumulares. mesmo que não conhecesse a narradora.

posso perguntar-lhe: essa recordação foi uma das razões de querer vir aqui esta noite? Ou foi por desejar desfrutar da minha refulgente companhia? .A sua avó foi uma senhora inteligente.Lembre-se. a seu lado. por isso estou habituado.Bem.Não tem importância . Não sente? . Os insultos eram uma constante numa família como a nossa. Estou a observar directamente a forma como a fama pode estragar uma pessoa. .Porque estão a aproximar-se. como esta conversa não é para divulgar. ao fazer o que fez. . Lexie recompôs-se..Ela é uma senhora inteligente.Tem a certeza? Poderia ser famosa. . . embora ao dizê-lo soubesse que tinha. Também se convenceu que ele pensava o mesmo. mas reparou que. sentiu que o tinha magoado. nunca mais deixaram de ser uma fonte de conforto. Lexie se inteiriçou. . tenho a certeza de que a segunda razão não teve nada a ver com a minha vinda . para responder à sua pergunta.Ora bem. Para mim. na breve pausa que se seguiu à sua resposta. . mas..Nesse caso..Obrigado pela correcção .Desculpe. como se estivesse a esforçar-se para ver ao longe.Não estou interessada.esclareceu. Jeremy arrancou um tufo de ervas e atirou-o para longe. . tenho cinco irmãos mais velhos. é provável que deseje voltar a ver as luzes.Porquê? . . Ele riu-se.asseverou Jeremy.desculpou-se Jeremy. .Penso que chegou a altura de ligar o seu equipamento informou. Quero dizer. . .

Semicerrou os olhos. a tentar assegurar-se de que não estava a ser vítima de qualquer ilusão de óptica. Mas ele pô-los e passou a ver a paisagem com um brilho esverdeado fosforescente. Pegou nos óculos de visão nocturna. e usou o controlo remoto para ligar todas as máquinas de filmar. as máquinas tinham começado a funcionar.Não vai precisar disso . decidiu que não estava a ter alucinações. de dizer que era à prova de fantasmas. Não havia dúvidas de que aquele lugar estava a ficar iluminado. quando reparou que agora conseguia ver a companheira e até o equipamento instalado mais longe. ao olhar de novo para as máquinas de filmar. o nevoeiro começou a encurvar-se e a rodopiar. Lexie incitou-o: . À medida que a luz aumentou de intensidade. está a desperdiçar a sua oportunidade. como também o detector electromagnético colocado no centro do triângulo. Não só via as máquinas. verificou. viu os sinais vermelhos acenderem-se.Estava prestes a soltar uma piada. Ao longe. a assumir formas diversas.avisou Lexie. também conseguia ver o caminho até ao carro. . não havia mais nada a fazer para tentar perceber o que estava a passar-se. Olhou à sua volta. Mesmo assim.Eh. à procura de carros de passagem ou de casas iluminadas e. . E.

e voltou a consultar o relógio. proclamava ter achado os restos petrificados de um gigante nas terras da sua quinta de Nova . Jeremy imaginou ver formas de pessoas ou coisas. Estava ansioso por poder comparar as imagens captadas pelas câmaras de vídeo. tinha dúvidas. até finalmente adquirir um brilho que quase cegava. reparou que o nevoeiro à sua frente ia ficando mais prateado. como se fosse puxada por um fio.Consultou o relógio: eram 2. o episódio tinha demorado apenas vinte e dois segundos. como se fosse um campo de futebol iluminado para o começo de um jogo. Por um instante. Mas aqueles eram pensamentos secundários. como para se convencer do que realmente acontecera. limitava-se a olhar em frente. Pestanejou. mas a luz começou a recuar. Mesmo sabendo que tinha de verificar o equipamento. William Newell.44. O nevoeiro. para depois mudar para um amarelo pálido. que esclareceria quando voltasse ao seu quarto no Greenleaf. como Lexie havia previsto. Reflectia se o luar não teria aparecido de repente. como uma estrela a explodir. Fraude. mas a mudança parecia mais significativa sem os óculos. houve um breve instante em que conseguiu apenas ficar a olhar para o sítio onde os fantasmas de Cedar Creek tinham feito a sua aparição. continuava a clarear e ele baixou os óculos por momentos. mas apenas durante um instante. e pedaços do nevoeiro iluminado começaram a rodar em pequenos círculos. Sustendo a respiração. as luzes desapareceram e o cemitério voltou a mergulhar na escuridão. por exemplo. Tomou um apontamento. A primeira tendia a ser a explicação prevalecente em situações em que alguém podia sair beneficiado. todas as investigações de Jeremy de fenómenos daquele género tinham podido ser enquadrados numa das três categorias. agora sem os óculos. em 1869. Desde que começara até acabar. erros inocentes e coincidência eram as explicações comuns para eventos considerados sobrenaturais e. todo o cemitério se tornou visível. antes de ele se aperceber bem do que estava a acontecer. A luz continuava a aumentar. a seguir para branco opaco. para verificar a diferença das imagens. que. de momento. Por um instante. até se separarem do núcleo central. Porém. até àquela data. de regresso ao centro e.

Porém. também englobava aqueles que desejavam simplesmente ver quantas pessoas conseguiam enganar. que larga do porto de Southampton para a sua primeira viagem. mais certo é vir a acontecer em qualquer altura. os agricultores ingleses que criaram o fenómeno conhecido por círculo da seara. ainda abalado pelo acontecimento. era outro exemplo. Por mais improvável que um evento possa parecer. A coincidência é responsável por quase tudo que não possa ser enquadrado nas outras duas categorias. é função de uma simples probabilidade matemática. . porém. incluía-se nessa categoria. publicado em 1898. Doug Bower e Dave C. mas o interesse do público aumentou tão rapidamente que tornou difícil a confissão do embuste. um achado arqueológico que depois se descobre ter sido trazido para o sítio onde foi encontrado centenas ou milhares de anos depois de ter sido enterrado pela primeira vez. não por dinheiro. por outro lado. Pensemos. catorze anos antes de o Titanic ser lançado à água. mas apenas para verem até onde podiam ir. sentado naquele cemitério. Ironicamente. o que tinha acontecido ali não se englobava em nenhuma daquelas categorias. para se afundar depois de chocar com um icebergue. Um balão meteorológico que se toma por um disco voador. e dos passageiros. que morreram nas águas geladas do Atlântico Norte porque o navio não tinha salva-vidas em número suficiente. Haveria uma explicação lógica algures mas. de Robert Morgan. Nos casos deste tipo. as testemunhas viram qualquer coisa. o nome do navio de ficção era Titan. as luzes não pareceram produto de fraude ou coincidência. o guia de espíritos. não passam disso mesmo. enquanto for teoricamente possível. a patranha foi concebida como uma piada. foram outro exemplo. um urso que é considerado o Bigfoot. por exemplo. não fazia ideia de qual pudesse ser. foi outro. nem sequer um erro inocente. Para Jeremy. A fraude. em 1933. o cirurgião que fotografou o Monstro de Loch Ness. Os erros inocentes. Em ambos os casos. o romance narra a história do maior e mais imponente navio de passageiros de todo o mundo. gente rica e famosa. no romance Futility. mas as suas mentes transformaram o que foi visto numa coisa totalmente distinta. uma estátua que ficou conhecida por Gigante de Cardiff. Timothy Clausen. em qualquer lugar e a qualquer pessoa.Iorque.

Só aquela por onde viemos e que atravessa a vila. para o fazer descer à terra.Ainda não. Lexie deixou-o em silêncio durante um minuto.murmurou Jeremy.É espantoso. Na verdade. voltando a dar-Lhe atenção. inclinou-se e tocou-lhe no braço com um dedo. de cenho franzido. em absoluto silêncio.Vi qualquer coisa. . . . não é? . embora a ausência deles não o surpreendesse por completo. a pensar que a forma como tinham aumentado de intensidade fazia lembrar as luzes de automóveis a aproximaremse depois de saírem de uma curva. .E alguma vez tinha visto algo semelhante? .Não. Mas ando lá perto .O que é que acha? .Por que será que tenho a impressão de que você já sabe como é que as luzes são provocadas? . Pensou que teriam de ser provocadas por um qualquer tipo de veículu em deslocamento. Já ouvi falar de auroras boreais e por vezes pensei se teriam alguma semelhança com isto. . . foi a primeira vez que vi qualquer coisa que me parecesse remotamente misteriosa.Há alguma estrada aqui à volta? Qualquer outra estrada importante? . Olhou para a estrada. .Então? . . Apesar da escuridão total.confessou Jeremy.O que é que vamos fazer? Jeremy sacudiu a cabeça.indagou Lexie.indagou finalmente. falando com suavidade.Quase me tinha esquecido de quanto pode ser belo.indagou. . . quase a conseguir ouvir os pneus a rodarem-lhe na cabeça. Jeremy não Lhe deu resposta.O quê? O ah! não funcionou desta vez? .Ainda não sei . disso tenho a certeza. Lexie havia permanecido sentada.insinuou. . Estava a recriar as luzes mentalmente.Então? .Hum! . Finalmente. à espera da passagem dos carros. pensou vê-la sorrir. .Durante todo o tempo.

. uma expressão simultaneamente triste e resoluta. . .Eu não sei nada .respondeu Lexie. naquele preciso momento. depois de recolhido todo o equipamento. e depois soltou uma gargalhada. antes de se inclinar para ele. na esperança de a abraçar para sempre. Jeremy avançou um pequeno passo e ela.Como é que chegou a essa conclusão? . . quando se apercebeu de que ele estava a pensar em beijá-la. olhando-a nos olhos.É apenas uma impressão que eu tenho. A hesitar em frente da porta. muito convicta.defendeu-se Lexie. Hora e meia mais tarde. Ela riu-se. foi tudo o que conseguiu fazer para não a tomar nos braços ali. Talvez fosse a expressão de orfandade com que disse aquilo.. olhando-o com timidez fingida. quando pararam à porta.Não tem importância . Sou bom a conhecer as pessoas. . então já sabe o que eu penso. . Não estou habituada a estar a pé até tão tarde. Jeremy verificou que tinha passado muito mais tempo a pensar em Lexie do que a reflectir sobre as luzes. . ainda não. mas ele sentiu um pequeno nó na garganta. Não queria que a noite acabasse.Bom.Foram os meus pais. fruto do embaraço. fingiu procurar algo nos bolsos do . Na escuridão. Deu-Lhe um momento para pensar.Também eu .Não se recorda da minha história? . Lexie levou a mão à boca. estavam de volta à porta da casa dela. aqueles olhos eram sedutores e. embora em espírito estivesse longe dali. Jeremy reviu mentalmente a imagem dela na festa. Um tipo chamado Clausen revelou-me os seus segredos. É provável que quisessem conhecê-lo.Desculpe. Nenhum falou muito durante o caminho de regresso e.Passei um serão fantástico. para esconder um bocejo. . recordou-se de quanto ela lhe parecera bela.respondeu Jeremy.sussurrou.

de olhos fechados. não o deixaria passar aquela porta. a tentar ordenar as ideias. com expressão de tristeza.Ambos sabemos por que quer entrar. ela não teve a certeza de ter ouvido bem .casaco. ele teria dito uma frivolidade qualquer.Não. não faça mais perguntas. talvez seja melhor ir tentar descobrir de onde vêm aquelas luzes.Tem a certeza? Se quisesse. tudo .Tem razão . mesmo que eu o desejasse. o meu melhor dia desde há muito tempo.. quem vai sofrer sou eu. No entanto.Isto. Por instantes.acrescentou. . mas. De qualquer das formas. . .Por favor. podíamos ver as gravações em sua casa.Estragar o quê? . por isso sabemos o que vai acontecer se eu o deixar entrar aquela porta. Passei um dia fantástico. E o mais estranho é que não desejou encontrá-las. a olhar para ela. com qualquer outra pessoa. o que é? . . E quando já não estiver cá.Então. . . . Então. Talvez pudesse ajudar-me a descobrir a verdadeira origem das luzes.Nunca deixou de me fazer a corte desde que aqui chegou.admitiu.. Mas você vai-se embora. está bem? sussurrou. Na realidade. Forçou um sorriso. suponho que devo dar o serão por terminado acrescentou. Por favor. . Não cometeu qualquer erro. na esperança de que ele percebesse a insinuação.Nesse caso.Cometi algum erro? . não conseguiu encontrar as palavras adequadas. um dia maravilhoso. ou mudado de assunto enquanto concebia um outro plano de entrada. . Lexie olhou para longe.Vamos considerar que o serão acabou. ali no alpendre. não me estrague o que consegui. porquê começar algo que não tem intenção de acabar? Com outra pessoa.

demasiado cedo para falar com alguém.Boa noite.mas. atingindo-o num olho como o soco de um pugilista profissional. Estava a ficar velho para noitadas daquele género e franziu a testa antes de estender a mão para o telemóvel.Obrigada. após uma pausa embaraçosa.Eh. . olhou-o nos olhos e limitou-se a dizer: . . Embora o comentário Lhe merecesse um sorriso breve.O que é? . A ausência de resposta dizia muito.Talvez não acredite. Lexie? No nevoeiro. vinda de trás. Lexie. .É melhor que seja um assunto importante . virou-se para a porta. Um olhar rápido para o relógio mostrou-lhe que eram oito horas. especialmente depois de passar a noite em claro. ele era apenas uma sombra. Jeremy ficou não só desapontado consigo mesmo. como também desejou ser alguém totalmente diferente.Jeremy? És tu? Onde é que te meteste? Por que não me . Lexie voltou-se sem uma palavra. . quando ouviu a voz dele. ou agir de forma que a levasse a arrepender-se de nos termos conhecido. . A luz cinzenta e crua da madrugada passava pelas cortinas puídas. Estava a enfiar a chave na fechadura. quando ele deu um pequeno passo para trás. Jeremy entendeu o gesto como sinal para se ir embora e saiu do alpendre logo que Lexie tirou as chaves da algibeira do casaco.resmungou. o nevoeiro tinha começado a dissipar-se e um guaxinim atravessou o alpendre quando telemóvel de Jeremy tocou. ONZE Os pássaros chilreavam. mas a última coisa que desejaria fazer seria magoá-la. Pela primeira vez na vida. Ela retribuiu com um aceno de cabeça e.

. Estás a ver. não estou interessado em escrever sobre uma nova dieta. . sabes que tenho razão. Os prudutores não me largam.O Good Morning America. o Nate. e conheces-me: quando tenho razão. Jeremy massajou a testa. Nem calculas o que está a acontecer. a tentar manter-se acordado.Nate. sempre a aparecerem com ideias sobre aquilo que poderás querer discutir. Jeremy tentou sentar-se na beira da cama.telefonaste? Tenho estado a tentar encontrar-te! Nate. Jeremy sacudiu a cabeça. Jeremy pensou que ele deveria ser um primo há muito esquecido do presidente da Câmara. Um deles sugeriu que escrevesses um artigo sobre dietas de alto valor proteico. estou apenas a lançar umas novas ideias. Deviam pô-los aos dois numa sala e ligá-los a um gerador. . tenho mesmo razão. por vezes. Não tenho tido tempo e a recepção aqui em baixo não é lá muito boa. desculpa. .Disseste que manterias o contacto! Com dores por todo o corpo. É o que vais fazer.Portanto. .. Isto está mesmo animado. certo? E as dietas têm algo a ver com a química e com a ciência. a fechar de novo os olhos. mas fui sempre direito au voice-mail. não sou a Oprah. sem por isso deixarmos de perder peso.Espera! Estás a falar de quê? Quem é que pretende que eu fale de uma dieta? . De quem é que pensavas que eu estava a falar? Como eu disse. Sou um jornalista especializado em ciências. pensou Jeremy. Santo Deus. . aquelas em que se diz que podemos comer bacon e bifes à vontade. Entretanto. Além disso.Nate.Devias manter-me informado! Ontem. . o amigo continuava a falar. poderiam gerar electricidade para iluminar Brooklyn durante um mês. passei o dia a tentar ligar para ti. Estou certo ou estou errado? Com mil diabos. podes dar o teu melhor neste tema. aquele homem provocava-lhe dores de cabeça. teremos de voltar a conversar com eles mas penso que estarás à vontade no assunto. .

. . podemos falar..Escuta. Mas julgo que também descobri a sua origem. as luzes existem? . está bem? Na noite passada fui ao cemitério e vi as luzes. . Estão ligadas a uma lenda bastante interessante e a vila tem um circuito planeado para o fim-desemana.Vi as luzes! . ..indagou. recuperou rapidamente. Mas. estou a avançar às cegas e esta dieta pode muito bem ser a maneira de trabalhares com. Por momentos. o que é que pensas desta ideia? .Muito bem. por isso ouve-me durante um minuto.Sim. . Nate. essas luzes. sendo um profissional calejado. Nate não encontrou resposta.exclamou de novo Jeremy. Estou a pensar naqueles tipos da televisão. . o que era raro. Tudo o que tenho a fazer é descobrir como e porquê as luzes aparecem em determinadas alturas.prosseguiu Nate. Porém. Em quem é que ele havia de estar a pensar? reflectiu Jeremy. . . para a aproveitar. Contudo.Estás a falar das luzes do cemitério? . espero ter tudo definido no final do dia. se tens qualquer coisa melhor. estou cansado..Vi as luzes! .Nesse caso não são verdadeiras. por favor. Desta vez foi ouvido. mas ainda não vi os filmes. E para ser honesto. não sei como é que ficaram. tenho de dizer que percebo as razões que levam as pessoas a considerar que se trata de fantasmas.Muito bem.Então. Oh. neste caso.Pois filmei. . .Quando? Por que é que não me ligaste? Isso já me fornece algo para começar. diz-me que filmaste tudo? . elevando a voz. mas também já tenho algumas ideias sobre isso. muito bem.Quero dizer.interrompeu Jeremy. Jeremy continuava a massajar as têmporas. pela forma como aparecem. . depois de sair do cemitério fui à procura da origem e estou praticamente convencido de que a encontrei.. dá-me um segundo para pensar qual a melhor maneira de utilizarmos isso.Pois..

Qualquer pessoa sentiria . Olha. talvez umas imagens rápidas de um corvo negro. vão ficar malucos. Nate ardia de entusiasmo. estou cansado.Abrimos com a própria lenda. achas que devo ligar ao Alvin? . No entanto. abriu a água na temperatura máxima que aguentou e deixou-se ficar ali durante vinte minutos. sinal de mau agoiro. O homem era um mestre em clichés de Hollywood. ao despir-se.Certo. depois falarei com o Alvin. ao verificar que não conseguia adormecer. . escuta. a ouvir a tua voz. por isso mantém o telefone sempre ligado. É para isso que cá estou. Pode ser assim. Jeremy olhou de novo para o relógio.Pois. não disse? Acredita em mim. Deixa-me ver primeiro os filmes. não é verdade? Para te facilitar a vida... pois. Saltando para debaixo do chuveiro. ligo-te dentro de umas horas. No entanto.Nate. levantou-se a gemer e encaminhou-se para a casa de banho. Jeremy deixou-se rolar para a cama e cobriu a cabeça com uma almofada. a esforçar. Isto está a andar depressa. Nate. está bem? . excelente ideia! Que grandes notícias! Uma verdadeira história de fantasmas! Os tipos vão adorar! Já te disse que eles ficaram entusiasmados com a ideia.. resolveu tirar partido da pose do animal e pendurou a toalha nas suas patas estendidas.Até logo. Estou ansioso por lhes contar e. Só então começou a sentir-se voltar à vida. contudo. Vê se concordas com isto? Vais reflectir sobre o assunto e depois telefonas-me. Falarei contigo mais tarde. até ter a pele vermelha como uma ameixa.. agora que temos um ponto a nosso favor.. como quem prepara o ambiente. Bom plano. para ouvir a opinião dele. a pensar que era demasiado cedo para estar com aquelas conversas. . grandes planos de algumas sepulturas.Ainda não tenho a certeza. disse-lhes que estavas a preparar esta história e não estarias interessado em discutir a última coqueluche das dietas. estava a habituar-se de tal maneira à presença delas que. . Cemitério no meio do nevoeiro.se por ignorar as criaturas empalhadas que pareciam espiar-Lhe todos os movimentos.

como se fosse gelo seco a evaporar-se de um fosso de orquestra. tinha identificado a fonte de luz. Estava-se. Parecia-Lhe impossível que a tivesse conhecido apenas dois dias antes. especialmente quando reflectido pelas gotículas de água do nevoeiro. o céu apresentava-se com cores tão feias quanto as da véspera. na lua nova. a consulta rápida a um portal da Internet patrocinado pela NASA eliminara uma segunda possibilidade. mesmo que fosse apenas para confirmar se tinha captado alguma coisa. Como a maioria dos mistérios. Mesmo que os filmes estivessem bons. mesmo depois de ter dedicado uma boa parte da noite a tentar imaginá-lo. Alvin era um mágico com a máquina de filmar. como também significava que talvez estivesse na altura de chamar o Alvin. Todavia. tantas as chamadas telefónicas que ele faria. quando ele a tinha pressionado em demasia? Não fazia ideia do que iria acontecer. É certo que Einstein tinha postulado que o tempo é . Voltaria a mostrar-se distante e profissional? Teriam permanecido os bons sentimentos gerados pelo dia que passaram juntos? Ou recordaria apenas os últimos momentos passados no alpendre. o que não só constituía um bom augúrio para o turismo do fim-de-semana. poderia captar imagens que provocariam o inchaço do dedo do Nate. só conseguia pensar em Lexie. Depois de vestir as calças de ganga. pegou nas cassetes e foi para o carro. tornar. o próximo passo era verificar o que tinha conseguido filmar. qualquer raio de luz. também este não era muito difícil de solucionar por quem soubesse o que deveria procurar. o que o levou a suspeitar que o fenómeno só acontecia naquela fase. A situação era clara. O Greenleaf não possuía gravador de vídeo. ao frio. enquanto rolava pela estrada sossegada que conduzia à vila. de facto. pôs-se a imaginar como é que a Lexie iria comportar-se quando ele entrasse na biblioteca. Não fazia sentido. o que não era de surpreender. numa altura em que o satélite estava encoberto pela sombra da Terra. Tinha lógica: sem luar. Contudo. ao estar ali de pé.se-ia muito mais visível. O nevoeiro pairava sobre a estrada.o mesmo com menos de duas horas de sono. mas ele tinha visto um aparelho na sala de livros raros. levando-o a suspeitar de que as luzes voltariam a aparecer naquela noite. com a resposta ao alcance da mão. por mais ténue que fosse. Descobriu que a Lua não poderia ser responsável pelas luzes.

ou até para a vida que. Pelo menos para o género de vida em que os irmãos e as cunhadas acreditavam. parecera-Lhe mais fácil não conhecer muito bem as mulheres. Por qualquer razão. mas um minuto com a mão encostada a um bico de gás aceso pareceria uma eternidade. a desejar pela centésima vez não a ter levado a acreditar que pretendia beijá-la. Esse era o problema. Lexie era a rapariga típica de uma pequena comunidade. Sim. Como é óbvio. considerá-las como eternas estranhas. até se perderem as inibições e poder chegar-se à parte que mais interessava. Os irmãos incitavam-no é claro. mas ele tinha-os ignorado. Não havia esperança nem futuro. Como é que era a velha máxima acerca da relatividade? Um minuto com uma mulher bela passa num instante. a mulher recusara um segundo convite para sair. Ou perto disso. quanto a namorar. segundo ele pensava. O Jeremy normal já teria esquecido o caso. uma conclusão que poderia explicar tudo. era isso. mesmo as que demonstrassem representar uma esperança e um futuro para ele. era chegado o tempo de crescer. O normal era apenas o jantar. desta vez não estava a ser tão fácil. Lexie tornara os seus sentimentos óbvios. embora tivesse namorado bastante e não se portasse recordava de ter exactamente como um eremita. encolhendo os ombros por não lhe atribuir significado. mal se passado um dia inteiro com alguém. mas as mulheres deles não lhes ficavam atrás. em grande parte devido aos avanços que ele lhe fizera na primeira vez. e uma das cunhadas chegara ao ponto de lhe preparar um namoro com uma vizinha divorciada. umas bebidas e conversa suficiente.relativo. pelo menos. Existia a opinião generalizada de que ele devia conhecer as mulheres antes de tentar levá-las para a cama. Desde que a Maria partira. O divórcio da Maria era a melhor prova. Uma vez mais. com sonhos . De certo modo sabia que. lamentou o seu comportamento no alpendre. que pensava o mesmo. talvez até de tentar assentar e adoptar o estilo de vida dos irmãos. a Lexie desejava. Nos anos mais recentes.

O gravador de vídeo está à sua disposição. E. Lexie. Não por ele não a desejar. Contudo. Não era o mais frio dos bilhetes que alguém podia deixar. ela já tinha passado por lá: a porta da sala dos livros raros encontrava-se aberta e. mas também não revelava o mínimo calor humano. Nenhuma menção da noite anterior. aquela era uma verdade que não confessava a ninguém. Não havia maneira de saber. nem à Lexie. Nem aos irmãos. em cima dos mapas topográficos de que ela falara. Jeremy forçou-se a procurar uma forma de concluir a história. queriam algo diferente. ao acender a luz. não que estivesse enamorado da sua vida de solteiro. podia significar uma consulta médica ou a necessidade de comprar uma prenda de anos para uma amiga. era provável que. uma vez mais. mas não conseguia resolver o seu problema pessoal. As mulheres. Além disso. Nem mesmo um cumprimento antes da assinatura. Embora a biblioteca estivesse aberta quando ele lá chegou. nos momentos de maior descontracção. Lexie ainda não tinha chegado. o que o fez sentir o enorme desapontamento de abrir a porta do gabinete dela para deparar com uma divisão vazia. A ciência podia responder a muitas questões. estivesse a ler o que lá não estava. No entanto. ou a maioria delas. o que. nem a confessava a si mesmo. E o problema era que a Maria o tinha deixado por ele não ser. .próprios de quem vive numa pequena cidade. que tivessem muito em comum. Podia ter que fazer naquela manhã. mas porque tal vida Lhe era impossível. nem nunca poder vir a ser. Referia-se a um assunto pessoal. com mulheres. tinha que fazer. nem aos pais. para ela não seria suficiente que ele fosse fiel e responsável. Como era óbvio. viu um bilhete em cima da secretária. uma maneira de viver que ele não podia proporcionar-Lhes. disse para si mesmo. ou talvez o bilhete fosse curto por ela ter intenções de voltar depressa. resolver uma grande diversidade de problemas. nenhuma menção de perspectivas de voltar a vê-lo. O Nate estava à espera e a sua carreira dependia daquele trabalho. o género de marido que ela pretendia. Uma nota que se lia depressa: Tenho uns assuntos pessoais a resolver.

chegando à que lhe pareceu uma estimativa correcta É quanto à velocidade a que o cemitério estava a afundar-se. deu-lhe mais uma vez a certeza de que tinha realmente encontrado a resposta. os relatos da época não faziam referência ao assunto. falou com um tal Mr. uma qualidade que lhe recordava vídeos que já lhe haviam sido oferecidos como prova de outros fenómenos subrenaturais. Depois disso. partilhavam da qualidade dos vídeos de produção caseira. as cassetes de vídeo tinham registado tudo o que ele vira durante a noite anterior. escreveu algumas palavras num motor de busca da Internet. mesmo que as imagens não tivessem a qualidade que ele esperava. mais um telefonema para o departamento de minas. que se dispôs a ajudá-lo em tudo o que pudesse. As câmaras equipadas com filtros de luz de grande capacidade mostravam de forma bem nítida o brilho do nevoeiro. Larsen. Quando vistas em velocidade normal. os detectores de alta frequência e electromagnéticos não registaram a mínima variação dos níveis de energia. dispunha da prova absoluta. finalmente. fez uma chamada para o departamento de gestão dos aquíferos desta parte do estado. Guardou as cassetes. viu as imagens mais de meia dúzia de vezes de cada ângulo possível. Comparou as primeiras fotografias que fez do cemitério com outras que encontrou em livros que narravam a história da vila. Contudo. onde obteve informações sobre as pedreiras que ali tinham sido escavadas no princípio do século XX.Os gravadores de som não tinham detectado quaisquer sons estranhos. Apesar de não ter encontrado novas informações sobre a lenda de Hettie Doubilet. Anotou a necessidade de comprar uma máquina de filmar a sério. Embora pudesse extrair daqueles filmes uma boa imagem para acompanhar um artigo. por muito que o editor tivesse de espernear para assinar a nota de despesa. ao longo dos vinte e dois segundos em que se mantiveram visíveis. No entanto. depois de ter Ficado à espera durante dez minutos. com todas as provas a encaixarem-se na perfeição. a observação da maneira como as luzes foram mudando. . observou os mapas e calculou a distância entre Riker's Hill e o rio. estavam longe da qualidade que se exige em televisão. E com isso. da fábrica de papel. à procura de tabelas de que precisava.

para o felicitar ou para zombar dele. Mesmo assim.A verdade estivera sempre diante dos olhos de toda a gente. No essencial. sem a Lexie. o que abria novas perspectivas de análise da história.Estou óptimo. parecendo ofegante. As pilhas de documentos continuavam em cima da secretária. Jeremy sentia pouca vontade de cantar vitória. Estou a telefonar para saber se ainda queres vir até cá para me dares uma ajuda. não notou diferenças em relação ao dia anterior. difícil era acreditar que ninguém tivesse pensado nela. a voz de Alvin ouvia-se com nitidez. só pensava no facto de a Lexie não estar por ali.respondeu. aí pelo Sul? A despeito do ruído de estática no telemóvel de Jeremy. Mas. havia livros espalhados ao acaso e o protector do ecrã do computador estava a apresentar desenhos coloridos em movimento. apesar dos êxitos da manhã. o Nate fez a reserva. o meu voo parte dentro de . Como acontece com muitos mistérios. o que o afligia era ela não estar ali para reagir. . colocado ao lado de uma pequena planta envasada. DOZE . . Ou talvez alguém tivesse encontrado a solução. . a solução tinha sido fácil. Francamente.A vida corre-te bem.gritou Alvin para o microfone. .Já estou a reunir o equipamento . não conseguia afastar a sensação de que. Levantou-se e foi observar uma vez mais o gabinete dela. As luzes do aparelho de registo de chamadas.O meu homem mais importante! . Não havia dúvidas de que o Nate ficaria entusiasmado mas. piscavam a indicar que havia chamadas novas. Encontro-me contigo no Greenleaf lá para o fim do serão. Em vez disso. a sala pareceria sempre totalmente vazia. de qualquer forma.O Nate ligou-me há uma hora e pôs-me ao corrente. não o preocupava a forma como ela reagiria se ali estivesse.

Não te preocupes a passar-me a perna. não tardaria a saber. Mais uns dias como os últimos e ficaria maluco. Mas não é o que estás a pensar. . não lês jornais.. soltando uma gargalhada. Deixas-me doente.Neve da boa.Do quê? . em que até as renas do Pai Natal são inúteis. . . Ambos sabemos o que isso significa. como queiras. fosse como Fosse. Ainda não perdi um número do Boone Creek Weekly. Como é que podes não saber disto? Como o Alvin sugeriu.Estás a falar de quê? . Quem é que ia adivinhar? " pensou. Somos apenas amigos.. material do Pólo Norte. Se Alvin fosse ter com ele. Jeremy ligou-se à Internet e procurou o canal de meteorologia. Manhattan está praticamente soterrada.Nada de importante. . não vês noticiários.Contudo. .Bom. Jeremy hesitou antes de responder. . nunca mais deixou de nevar . . mas acabou por ceder. Desculpou-se: . .Não tens lido jornais nem visto os noticiários? . este é o primeiro dia em que as companhias de aviação quase conseguem cumprir os horários. é bonita. E podes crer que estou ansioso por partir. recordas-te? O Nate tem andado em pânico por não conseguir entrar em contacto contigo.Escuta. . Alvin. Ficas sempre assim quando arranjas uma nova conquista. .Não ligues . Desde que partiste. Saíste daqui mesmo a tempo.duas horas. No mapa dos Estados Unidos.Pois.Tenho andado muito ocupado. Para conquistar lugar num voo tive de meter cunhas. desde que partiste. . o Nordeste era todo ele um manto branco.É claro que tenho lido jornais.Sim.aconselhou Jeremy.É bonita? Aposto que é uma beleza. .anuiu. acertei? Consegues sempre encontrar o filão de ouro. claro . Somos amigos.informou Alvin.

não . cumprimenta-a em meu nome.Não fui domesticado . Jeremy sentiu que a dor de cabeça estava a regressar e o tom com que Alvin falava fê-lo atingir o limite.Não acredito. . O trânsito está miserável. .indagou Alvin. .Estou apenas a dizer umas piadas.protestou Jeremy. está bem? Alvin fez uma pausa. a ela e à amiga.Estou a ouvir. não vale a pena negares. a ignorar o comentário. .Não. eu conheço-te. ou não? E lembra-te de que não estou interessado na feia. Estás a ficar apaixonado. .Algumas das tuas piadas não têm graça. não é? Quer dizer que gostas muito dela. . por isso. companheiro.. .Sim. .Escuta.Não. tenho de desligar.Mas tem amigas.Julgo estar aí por volta das 19 horas.Ela não tem uma irmã? . . . Até estou a ouvir coisas que não estás a dizer. Então Falaremos. E. No entanto. Mas. se não quero perder o voo. ..Eh. . está bem? Diz-Lhe que estou morto por conhecê-la. está bem. E acho que é fantástico. a propósito. Quando é que chegas? .Já te disse que somos apenas amigos. estou ansioso por conhecer a mulher que conseguiu domesticar-te.Não estou com disposição para isto. .perguntou. .Gostas dela. .Desta vez. como é provável que imagines.entre as nossas concepções de amigas existe uma certa diferença. . . o que é que se passa? .asseverou Jeremy. infelizmente.Por que é que não ouves o que eu digo? .

Jeremy desligou a chamada antes que Alvin conseguisse acabár de Falar e, como a dar ênfase à decisão, voltou a enfiar o telemóvel no bolso. Não admirava que o tivesse mantido desligado. Devia ter sido uma decisão subconsciente, baseada no facto de que, por vezes, ambos os seus amigos mostravam tendência para o irritar. Primeiro o Nate, que parecia ter metido pilhas novas, na sua infindável busca da fama. E agora este. Alvin não fazia a mínima ideia daquilo que ele estava a querer dizer-lhe. Podiam ser amigos, terem passado muitas sextas-feiras juntos, a espreitarem mulheres por cima das canecas de cerveja, podiam ter falado da vida durante horas e, bem lá no fundo, o Alvin pensaria honestamente que tinha razão. Mas, não tinha, não podia ter. AFinal, os factos falavam por si mesmos. Em primeiro lugar, embora tivessem passado muitos anos depois da última vez que Jeremy estivera apaixonado, ainda se recordava do que havia sentido das outras vezes. Teria, com certeza, reconhecido de novo o sentimento e, francamente, não sentia. E partindo do princípio de que mal acabara de conhecer a mulher, a ideia parecia completamente disparatada. Nem a sua mãe, uma italiana que se emocionava com facilidade, acreditava que o verdadeiro amor pudesse florescer de um dia para o outro. Tal como acontecia com os irmãos e as cunhadas, a mãe desejava ardentemente que ele se casasse e tivesse uma família; porém, se Lhe aparecesse à porta, a dizer que tinha conhecido uma pessoa dois dias antes e sabia que era a mulher que Lhe convinha, a mãe era capaz de lhe bater com a vassoura, praguejar em italiano e arrastá-lo para a igreja, convencida de que o filho cometera graves pecados e precisava de se confessar. A mãe dele conhecia os homens. Casou com um, criou seis rapazes e tinha a certeza de ter aprendido tudo o que havia a aprender. Conhecia exactamente a maneira como os homens tendem a pensar quando se trata de mulheres, e embora se apoiasse no bom senso e não na ciência, tinha a certeza absoluta de que o amor não pode acontecer em apenas dois dias. O amor poderia despertar num período curto, mas o verdadeiro amor precisava de tempo bastante para se transformar num sentimento

forte e duradouro. O amor era, acima de tudo, entrega, dedicação e a certeza de que passar anos em companhia de uma certa pessoa daria origem a algo de superior ao que ambos poderiam conseguir se continuassem separados. Contudo, só o tempo poderia mostrar se a escolha tinha sido a mais ajustada. Por outro lado, a luxúria podia manifestar-se quase de imediato, razão que levaria a sua mãe a bater-lhe com a vassoura. Para ela, a luxúria era fácil de descrever: duas pessoas descobrem que são compatíveis, a atracção mútua aumenta e o primitivo instinto de preservação da espécie faz a sua aparição. Tudo resumido, embora a luxúria fosse uma possibilidade a ter em conta, não era possível que amasse a Lexie. Assim mesmo. Caso encerrado. Alvin estava enganado, Jeremy tinha razão e, uma vez mais, a verdade tinha-o libertado. Sorriu, satisfeito, durante alguns instantes, antes de a testa começar a enrugar-se. E, no entanto... Bem, havia um problema: também não sentia o ataque da luxúria. Naquela manhã, pelo menos. Pois, ainda mais do que abraçá-la e beijá-la, desejava simplesmente voltar a vê-la. Estar junto dela. Queria vê-la a rolar os olhos quando o ouvia dizer coisas ridículas, queria sentir a mão dela a pousar-lhe no braço, como sucedera no dia anterior. Queria vê-la a arrumar madeixas de cabelo atrás da orelha, um tique nervoso, e ouvi-la contar peripécias da infância. Queria interrogá-la acerca dos sonhos e esperanças que alimentava quanto ao futuro, conhecer os seus segredos. Essa não era, porém, a parte mais estranha. O mais estranho era não conseguir descortinar um motivo para os seus impulsos. Como era óbvio, não recusaria se ela desejasse dormir com ele, mas, mesmo que Lexie não desejasse tal coisa, o estar junto dela seria suficiente, por agora. No fundo, não encontrava um motivo, agora que as coisas tinham acontecido. Já tinha tomado a decisão de não voltar a colocar a Lexie na posição para onde a empurrara na noite anterior. Fora necessária muita coragem para ela dizer o que disse. Afinal, nos dois dias que tinham passado juntos, ainda nem sequer conseguira dizer-lhe que já tinha sido casado.

Contudo, se não podia estar apaixonado e não sentia desejo dela, o que é que sentia? Gostava dela? Claro que gostava, mas a palavra também não era suficiente para definir o que sentia. Era demasiado... vaga, de contornos pouco definidos. As pessoas gostam de gelados. Gostam de ver televisão. Não quer dizer nada e, nem de perto, servia para explicar por quê, em primeiro lugar, sentia a necessidade de contar a alguém a verdade acerca dos motivos do seu divórcio. Os irmãos não sabiam a verdade. No entanto, qualquer que fosse a razão, não conseguia afastar a ideia de que desejava contar tudo à Lexie; e agora não sabia onde havia de a procurar. Dois minutos depois, o telemóvel tocou e ele reconheceu o número mostrado no ecrã. Embora sem disposição, sabia que tinha de atender; se não, o homem podia sofrer o rebentamento de uma artéria. - Estou. O que é que se passa? - Jeremy! - gritou Nate. Por causa da estática, Jeremy mal conseguia ouvi-lo. - Grandes novidades! Nem te passa pela cabeça o que tenho andado a fazer. Isto está uma casa de doidos! Temos uma conferência por telefone com a ABC, às 14 horas. - Fantástico - foi o único comentário de Jeremy. - Espera. Não consigo ouvir-te. A chamada está horrível. - Desculpa. - Jeremy! Estás a ouvir-me? Não desligues! - Sim, Nate, estou a ouvir... - Jeremy! - gritou Nate, ignorando a resposta. - Escuta, se estás a ouvir-me, vai a um telefone público e liga para mim. Carrega numa tecla se ouviste o que eu disse. Jeremy premiu o 6. - Excelente! Fantástico! Catorze horas! Sê igual a ti próprio! Isto é, põe de lado o sarcasmo. Esta gente parece bastante formal... Jeremy desligou, a imaginar quanto tempo é que o Nate levaria a

descobrir que estava a falar sozinho. Jeremy esperou. Depois, esperou um pouco mais. Andou pela biblioteca, passou pelo gabinete da Lexie, espreitou pela janela à procura de sinais do carro dela, a sentir um crescente desconforto à medida que os minutos passavam. Tinha apenas um pressentimento, pois a ausência dela era totalmente inexplicável. Mesmo assim, fez o que pôde para se convencer do contrário. Disse para si mesmo que ela acabaria por aparecer, que provavelmente iria rir-se daqueles pressentimentos ridículos. Contudo, agora que dera a investigação por concluída, para além de poder ainda encontrar alguns relatos pertinentes, cuja leitura ainda não terminara, não sabia muito bem o que fazer a seguir. O Greenleaf estava fora de questão, não queria passar lá mais tempo do que o estritamente necessário, embora começasse a gostar dos toalheiros feitos com animais empalhados. O Alvin não chegaria antes da noite e a última coisa que desejava fazer era andar às voltas pela vila, onde poderia ser caçado pelo presidente Gherkin. Também não queria passar o dia todo na biblioteca. Na realidade, gostaria que a Lexie tivesse sido um pouco mais específica no bilhete que deixou, que tivesse dado uma ideia de quando contava regressar. Poderia até ter dito aonde ia. Mesmo depois de o ter lido três vezes, o bilhete continuava a não fazer sentido. Teria a falta de pormenores sido inadvertida ou propositada? Tinha de sair dali; era-Lhe difícil não pensar o pior. Depois de reunir as suas coisas, desceu a escada e parou junto ao balcão de atendimento de leitores. A idosa voluntária estava mergulhada na leitura. Em frente dela, Jeremy pigarreou. Quando a senhora levantou os olhos ficou radiante. - Como está, Mr. Marsh? Vi-o chegar, ainda cedo, mas pareceu-me preocupado; por isso nem lhe falei. Deseja alguma coisa?

Jeremy ajeitou as folhas dos apontamentos debaixo do braço, a parecer o mais desprendido possível. - Sabe onde posso encontrar Miss Darnell? Deixou-me um bilhete a dizer que tivera de sair, mas não faço ideia de quando ela regressa. - Interessante - comentou a voluntária -, ela já cá estava quando entrei - acrescentou, a consultar o calendário que tinha em cima da secretária. - Não tem qualquer reunião marcada, nem vejo qualquer outro compromisso. Já foi ao gabinete dela? Talvez esteja fechada por dentro. É frequente fazê-lo sempre que o trabalho começa a acumular-se. - Já lá fui. Sabe se ela tem um telemóvel para eu poder contactá-la? - Não tem, tenho a certeza disso. Disse-me que quando anda por fora não gosta de ser incomodada. - Bom... obrigado por tudo. - Há mais alguma coisa em que eu possa ajudar? - Não. Preciso da ajuda dela para o meu artigo. - Lamento não poder ajudá-lo mais. - Tudo bem. - Já pensou procurá-la no Herbs? Pode lá estar para ajudar a Doris nos preparativos para o fim-de-semana. Ou talvez tenha ido a casa. O problema com a Lexie é nunca se poder prever seja o que for acerca dela. - De qualquer das formas, obrigado. Se voltar, agradeço que a informe de que andei à procura dela.

A sentir-se cada vez mais agitado, Jeremy abandonou a biblioteca. Antes de se dirigir para o Herbs resolveu passar por casa da Lexie, onde reparou que as cortinas estavam corridas. não havia sinais do carro. Mesmo que o cenário não apresentasse nada de novo, voltou a sentir que algures havia algo de errado; a sensação de intranquilidade continuou a aumentar enquanto percorria o caminho de regresso à vila. A azáfama matinal no Herbs tinha desaparecido; o restaurante estava naquele período indeFinido entre o pequenoalmoço e o almoço, quando o pessoal procedia à limpeza do que Ficara da última enchente e preparava tudo para a próxima. De momento, havia mais empregados do que clientes, eram quatro para um, pelo que não foi difícil descobrir que a Lexie também não estava ali. Rachel estava a limpar uma mesa e, logo que o viu, acenou- lhe com o pano. - Bom dia, meu querido - cumprimentou ao aproximar-se. - É um pouco tarde, mas, se está com fome, tenho a certeza de que posso arranjar-lhe um pequeno-almoço. - Não, obrigado - agradeceu, enquanto metia as chaves no bolso. - Não tenho muita fome. Mas é capaz de dizer- me se a Doris está por cá? Se ela puder dispor de um minuto gostaria de lhe falar. - Regressou ao princípio, não é? - comentou, a sorrir e a fazer um sinal na direcção da cozinha. - Está lá atrás. Vou dizer-lhe que está aqui. E, a propósito, ontem à noite foi uma festa de arromba. As pessoas falaram de si durante toda a manhã, até o presidente passou por cá, a perguntar se tinha recuperado. Julgo que ficou desapontado por não o encontrar aqui. - Eu gostei. - Deseja café ou chá, enquanto espera? - Não, obrigado. A Rachel desapareceu pela porta dos fundos, para, instantes depois, aparecer a Doris, a enxugar as mãos ao avental. Tinha as faces enfarinhadas mas, mesmo de longe, Jeremy notou-Lhe os papos por baixo dos olhos e reparou que parecia mover-se mais devagar do que era habitual.

Desculpe por lhe aparecer assim . Parecia que Doris estava a testá-lo e Jeremy não sabia muito . Dez vezes superior à que vou sentir agora.disse. São festivais capazes de lançar ou afundar um negócio.A vida nunca deixa de me espantar. trata-se de um enorme salto em relação ao ano passado. . A recordar-se do que a Lexie Lhe tinha dito. Ele sorriu. . Jeremy perguntou. mesmo que não façam o circuito. por vezes um pouco mais. vai ser-me um bocado difícil recuperar antes da chegada das multidões de amanhã.Quem sabe? O circuito costuma atrair umas duas centenas de pessoas. . . É uma canseira. as estimativas dele valem o que valem.Parece fantástico.Se o presidente estiver dentro da razão. como sabe.Seria melhor se não se realizasse a meio do Inverno. as pessoas gostam de vir assistir à parada de sábado. uma novidade deste ano. A noite passada obrigou-me a atrasar um pouco os preparativos para o fim-desemana. mas é muito difícil calcular quantos poderão vir tomar o pequeno-almoço ou almoçar. a apontar para si própria. . mas realiza-se em Junho e quase sempre temos um desses circos itinerantes durante o fim-de-semana. .Tem de tentar até encontrar. O presidente alimenta a esperança de atrair um milhar à festa deste ano. Os Shriners não deixarão de andar por aí nos seus carros. e as crianças adoramnos.Apanhou-me com a mão na massa. Também haverá uma exposição de animais. . . Tenho a estranha sensação de que gostaria de viver aqui. O Tom tem propensão para o optimismo excessivo.Quantas pessoas é que espera para o Fim-de-semana? . Além disso.Bom.. O Festival de Pamlico atrai sempre as maiores multidões. mas conseguiu criar um ambiente de insistência para que tudo esteja pronto a tempo.

nas traseiras. . Foi por isso que me lembrei de trazer o livro. Contou-me que o senhor viu as luzes na noite passada.bem como havia de responder-lhe. como disse. . a Rachel estava a limpar uma mesa e a tagarelar com o cozinheiro instalado na outra ponta da sala. Olhou por cima do ombro. mas estou bastante ocupada. .Ambos as vimos.Julgo que sim. Ambos se riam com qualquer coisa que um deles tinha dito. por falar da Lexie. Ela disse que é um registo . . Por detrás deles. satisfeita.comentou. Não a viu? Hoje não foi à biblioteca. . não estaria aqui. mas. a libertá-lo do aperto -.prosseguiu Doris. de o ver.Foi a minha casa esta manhã. Olhou para ele. Tenho-o no escritório. vou buscar o meu livro de apontamentos. . . . pode consultá-lo. É provável. A Lexie disse-me que lhe tinha mencionado o meu livro. . mais elevados. também foi por causa dela que aqui vim. Talvez não esteja à altura dos seus padrões. . Mas.Gostaria impressionante. Quem sabe? Talvez ainda Lhe apeteça escrever um artigo acerca dos meus espantosos poderes. Doris acenou que sabia.Foram um espanto. Desculpe ter de interromper a conversa.Mas.Tenho a certeza de que ficarei entusiasmado. . de qualquer das formas .Fiz o melhor que pude. de contrário. mas.Nunca se sabe. mas nunca me passou pela cabeça que acabasse por ser lido por outra pessoa. estou satisfeita por ter vindo. se quiser. não se trata de fantasmas. Avisou-me de que o mais provável era o senhor não acreditar em nada do que lá está.E parto do princípio de que já descobriu tudo.Bom para si .E então? .

não hesite em telefonar. . só mais uma coisa. ao entregar-Lhe o livro de notas -. se tiver perguntas acerca disto . e Jeremy teve a impressão de que aquela era a maneira de ela lhe fazer sentir que a conversa tinha chegado ao Fim. .Ao vê-la desaparecer no interior da cozinha. E reparou no facto de Doris o ter deixado sem resposta quanto ao lugar onde a Lexie estaria.Mas. em silêncio. desde que o devolva antes de ir-se embora.prometeu Jeremy. ficou a pensar na conversa. não estava disposto a desistir com tanta facilidade. o sorriso de Doris pareceu provocar-Lhe um nó no estômago. a Lexie começara subitamente a não ser objecto de conversa. mas curiosamente impessoal. . o que parecia sugerir que. Mas.começou. Nem sequer esboçara uma suposição. eu estarei aqui.Não disse muito. como se procurasse escolher as palavras com todo o cuidado: . Doris ficou em frente dele. Não lhe soava bem. Tinha sido bastante agradável.Por vezes. Tem um valor muito especial para mim.Vou fazer como me disse .Oh.Ela contou-Lhe alguma coisa a meu respeito? Quando a viu esta manhã? . . . No entanto disse que era provável que o senhor aparecesse por aqui. Portanto. Mostrava o mesmo sorriso agradável de sempre. E está autorizado a fazer cópias. mas desta vez. Mas .Ora bem. por qualquer razão.Será óptimo . a Lexie não é fácil de compreender. pelo contrário. Ao perceber o sentido evidente da resposta. o nó do estômago de Jeremy apertou-se um pouco mais.anuiu Doris. . ele.O que é? . não tenho a certeza de poder responder à sua pergunta.Não se importa que eu devolva o livro à Lexie? Se a vir ainda hoje? . Viu-a aproximar-se de novo.Pareceu-Lhe que ela estava bem? Doris respondeu lentamente. em qualquer caso. .

Jeremy não replicou. Além disso. não havia . como sabe . Não entrou em pânico. mas não posso responder-lhe.Ainda voltarei a vê-la? Antes de partir? . se é isso que pretende saber.Isso significa o quê? . como se não esperasse nada de diferente. ouviu a Doris respirar fundo. a sentir a garganta seca.Sabe. eu gosto de si.reflectiu. ter-lheia dito para onde ia. Acho que será ela a ter de tomar a decisão. O que tem de compreender é que tenho de manter certas lealdades. limitara-se a agradecer-lhe a ajuda e encaminhara-se para o carro. . ficou à espera de mais. Doris respondeu-lhe com um sorriso triste: .Não percebo o motivo que a levou a fazer uma coisa destas .Não sei. Por mais furioso que se sentisse.tenho a certeza de que ficará bem. notou-lhe a idade nas rugas à volta dos olhos. . Não estava nada zangada.perguntou ele.Jeremy.Significa que sei o que quer e o que está a perguntar-me. . com voz suave. Enquanto conduzia o carro de regresso ao Greenleaf.confessou Doris. . Nunca entrava em pânico. Pela primeira vez desde que se tinham conhecido. as palavras continuavam a martelar-Lhe a cabeça. Perdera-a. Julgo que sabe. . No silêncio que se seguiu. conforme recordou a si mesmo.Não. na cabeça de Jeremy começou a instalar-se a ideia de que a tinha perdido para sempre.Estava zangada comigo? . sim. De uma coisa pode ter a certeza: se a Lexie quisesse que o Jeremy soubesse onde ela estava. uma delas com a Lexie. Como se fossem um eco. . Ouvido aquele comentário.Mas está a colocar-me numa posição difícil. tentava analisar friamente os factos. por mais que Lhe apetecesse pressionar a Doris para obter informações sobre o paradeiro da Lexie. posso garantir que não. .

e embora o Alvin pudesse encarregar-se sozinho das filmagens. se fosse agora à procura da Lexie. Então.talvez a próxima noite fosse a última com nevoeiro . contudo. Porém. um passo importante para a definição da sua carreira e. era aqui que tudo começaria a ficar mais complicado. Abanou a cabeça. se não regressasse. Saber o que deveria fazer não Lhe resolvia o problema. Chegado a este ponto. ou poderia tentar encontrá-la. Não acontecera nada de terrível à Lexie. Tudo se limitava ao facto de ela não querer voltar a vê-lo. Por outro lado. cansara-se dos avanços demasiado evidentes de que estava a ser alvo. duvidava que conseguisse encontrar um telefone público quando chegasse a altura de precisar dele. desde o início. Talvez devesse ter previsto aquela decisão. Utilizando registos públicos. ou não. Uma voz interior aconselhava-o a não se deixar dominar pelas emoções e. como é que a situação poderia evoluir? Ela regressaria. bem. O que significava que podia resolver a situação como Lhe apetecesse. tinha de a ver.motivos de pânico. em termos racionais. era conservadora noutros e. Afinal. aprendera a seguir a mais ténue das pistas directamente até à porta de quem procurasse. tinha pela frente outra longa noite e sentia-se cansado até aos ossos.. Duvidava. simples conversas e os sítios adequados da Web. Se voltasse. não havia problema. Por muito moderna que fosse em certos aspectos. E Jeremy achava que tinha um jeito especial para encontrar pessoas. a pensar que não devia admirar-se por ela ter desaparecido. provavelmente. Queria ver a Lexie. Poderia não fazer nada e aceitar a decisão dela. mesmo que ela tivesse. O Alvin chegaria ao fim do dia . que algum daqueles meios viesse a ser necessário. . Tinha esperado demasiado dela. fora ela mesma a fornecer-lhe a resposta de que carecia. no dia seguinte teriam de trabalhar juntos. Talvez Lhe fosse mais fácil deixar a vila do que ter de explicar o seu raciocínio a alguém como ele. E não devia esquecer-se de que precisava de dormir um pouco. Recordou-se de que tinha uma conferência por telefone dentro de horas. tornado perfeitamente claro que não estava interessada. teve de parar de novo. não desejava que tudo terminasse assim. estava convencido de que sabia exactamente para onde ela fora..

as coisas tenderiam a complicar-se ainda mais. só Lhe restava fazer as malas. disse para si próprio. Analisados todos os dados da situação. pelo que. depois de arrumar os sacos de . A situação era fácil de imaginar: se tivesse continuado em casa. soube que ter vindo para ali tinha sido a decisão mais acertada. A propriedade não tinha grande aspecto. Mesmo que conseguisse encontrá-la. as recordações de parte da infância passada ali nunca deixavam de a acalmar. Contudo. admitia. Ao arrumar o carro em frente do seu quarto do Greenleaf. Alvin ficaria encalhado e furioso. a mobília tinha mais de vinte anos. de manhã. Naquele momento. As pequenas janelas rectangulares com cortinas brancas estavam cobertas de uma película húmida e salgada.não via que ir à procura da Lexie pudesse trazer-lhe qualquer benefício. quando parou o carro no caminho arenoso em frente da casa da praia. o achasse um maçador. TREZE Pois bem. e ele Ficaria sem a história e com o futuro comprometido. Entretanto. não andara durante os últimos quinze anos a utilizar a lógica e a ciência sem aprender qualquer coisa. sempre havia considerado a casa da praia uma espécie de cápsula do tempo. era provável que ela o ignorasse ou. além de não se sentir obrigada a ser perfeita. a escolha era evidente. as paredes mostravam manchas acinzentadas. Portanto. A velha casa mostrava os estragos do tempo e perdia-se entre as ervas que a rodeavam. Afinal. pior ainda. acordara com a certeza de que tinha de pôr termo à situação antes que fosse demasiado tarde. a decisão era simples. mas não queria esquecer o facto de nos últimos dias não ter andado a pensar com a clareza devida. Não interessava que gostasse dele e que Jeremy gostasse dela. vestígios da fúria de uma dúzia de tufões. apontou-a a si mesmo. era provável que o Nate tivesse um enfarte. De certa forma. era cobarde. os canos protestavam quando abria a torneira do chuveiro e tinha de usar fósforos para acender os bicos do fogão. Não lhe era fácil de aceitar a ideia de que tinha fugido.

Feito isso. era ainda uma menina.artigos de mercearia que comprara para o fim-de-semana. O sentimento de ser diferente deixara a sua marca. Os avós foram sempre amáveis e maravilhosos mas. ao observálos. Fazia o mesmo sempre que vinha ali. parecia hipnótico. Nem podia comunicar-lhe a sensação de culpa que deles resultava. como dedos apontados lá de cima. nunca deixaria de ferir os sentimentos da avó. sempre presentes mas sem intervirem. A primeira vez que viu os raios de luz romperem assim por entre as nuvens foi pouco depois de visitar o cemitério na companhia da Doris. nunca conseguira afastar totalmente a ideia de ser diferente das outras crianças. Na sua nova fase de vida. Não eram pormenores que pudesse discutir com a Doris. Quaisquer que fossem as palavras que utilizasse. Se Lexie forçava os limites. adoptara a ideia de que a maturidade implicava calcular os riscos muito antes de ponderar a . Não só nela mas também em Doris e começou a manifestar-se durante a adolescência. como se estivessem cientes de que a filha tomaria sempre as decisões mais acertadas. mas. era frequente que a avó fizesse vista grossa para evitar uma discussão. foi abrir as janelas para arejar a casa. por muito que os amasse pelos seus cuidados e sacrifícios. para a protegerem. sem desejar mais nada do que olhar o oceano. e quase teve de suster a respiração ao ver os raios de sol romperem por entre as nuvens e estenderem-se por sobre a água. deixando que a neta acreditasse que podia ser ela a definir as suas próprias normas. Fora um pouco bravia quando era nova. modificara-se durante os anos passados na universidade. e pensara que os pais haviam encontrado uma outra forma de marcarem presença na vida dela. O marulhar constante das ondas era calmante. agarrou numa manta e instalou-se na cadeira de baloiço colocada no alpendre traseiro. mais madura. simplesmente por serem frequentes as ocasiões em que a solidão Lhe pesava. Como anjos enviados do céu. acreditava. ficava a pensar se não lhe faltaria qualquer coisa. Tivera necessidade de acreditar naquelas coisas durante muito tempo. Os pais das amigas jogavam à bola com os filhos durante os fins-de-semana e pareciam jovens mesmo à luz difusa do interior da igreja pela manhã. fez asneiras e lamentava muitas delas. tinha consciência disso desde tenra idade. por qualquer razão.

tal como estava a enganar-se agora. Tinha a capacidade mental e o sentido de humor do Avery. pois. um dia como já não acontecia há muito tempo. achava que deveria ter previsto a situação. mas não conseguiria evitá-lo. Uma vez mais. Agora que podia reflectir honestamente. dera consigo a compará-lo com o Avery e com Mr. que ela tomava como uma certeza. e ela não queria que tal acontecesse. teria ido directamente para a cama? Sem dúvida que a excitação e a sensação de inesperado Lhe tinham recordado os dias felizes em que acreditara que o Avery e Mr. Com o evoluir da noite. Sabia que era mau.e não tinha dúvidas de que Jeremy Lhe pediria que comemorasse com ele a solução do mistério. em condições normais. para grande surpresa sua. lá bem no fundo. que o sucesso e a felicidade tinham tanto a ver com a necessidade de evitar os erros como com a certeza de deixar uma marca na vida. e a inteligência e o charme de Mr. Renaissance eram os homens dos seus sonhos. enquanto andava às voltas na cama durante a noite anterior. Talvez devesse registar o dia maravilhoso que passara. Jeremy aguentou bem as confrontações. pois a resposta encontrava-se num dos diários e tudo o que ele tinha a fazer era descobri-la . Porém. Sabia que Jeremy ia resolver o mistério naquele próprio dia . sentia-se mais baralhada do que em qualquer outra altura. Sabia que na noite anterior estivera prestes a cometer um erro. Sabia que tinha ferido os sentimentos dele e lamentava que tivesse de ser assim.recompensa. quaisquer que fossem as consequências. quando. talvez fosse apenas uma sensação. Qual tinha sido o seu último almoço improvisado no campo? Quando é que se tinha sentado em Riker's Hill pela última vez? Ou visitado o cemitério depois de sair de uma festa. Se tivesse Ficado na vila teriam passado juntos a maior parte do dia.bem. mas exibia níveis de autoconfiança superiores aus de qualquer deles. Renaissance e. Porém. é provável que Jeremy não se tivesse apercebido de que o coração dela só acalmara depois de ele ter posto o carro em andamento. enganara-se com qualquer deles. apercebeu-se de que poderia não ter forças para voltar a tomar a decisão acertada. porque desejava isso mesmo. em parte. Suspeitara que ele tentaria beijá-la e sentia-se satisfeita por ter sido tão resoluta quando Jeremy pretendeu entrar em sua casa. desde . Renaissance. ela desejava que ele entrasse. Pior ainda.

aconchegou-se na manta. e dos turistas de visita à vila Ficaria apenas a memória. para Lhe preservar a sanidade mental. Era o problema das premonições. não tinha previsto qual poderia ser o resultado Final. Quando Lexie a foi ver logo pela manhã. Lexie sentia a exaustão à volta dos olhos e sabia que devia parecer uma ruína ao aparecer assim de repente. mas era a sua vida. Mesmo assim. o rolar das ondas voltou a trazer à superfície os seus sentimentos em relação a Jeremy. mas agora não fazia sentido seguir outra linha de pensamento: Sem deixar de observar o movimento da água. mas para além disso mostravam-se imprevisíveis. Não tardaria muito.há muitos anos. na falta de outros motivos. correu ao quarto do Greenleaf enquanto ia elaborando o plano. Disso tinha a certeza. Talvez não fosse uma vida excitante. mas não ficou surpreendida. viesse alterar o equilíbrio. e suspiraria de alívio ao verificar que a relação deles poderia voltar ao que fora. Porém. das mansões históricas e do forasteiro. mesmo a sentir-se confortada com aquela certeza. De início tudo pareceu relativamente simples. Cansada como se sentia. Era uma rapariga crescida e havia de ultrapassar aquela situação. Dentro de poucos dias as pessoas deixariam de falar dos fantasmas. O presidente da Câmara estaria de regresso ao campo de golfe. ou alguma coisa. Doris pareceu compreender que. tal como tinha ultrapassado as antecedentes. voltaria a Boone Creek logo que a vida regressasse à normalidade. por acaso. nem tentou explicar o que sentia. precisou de toda a sua força de ânimo para conseguir reter as lágrimas. tinha saído de casa sem sequer tomar duche. poderiam ser exactas no imediato. A vinda de Lexie para a casa da praia era inevitável. Doris apercebeu-se de tudo. Noutro lugar e noutra altura é provável que sentisse de maneira diferente. encontrar a Lexie nas imediações da biblioteca. Sem sair do alpendre. Pegar no . Depois de meter roupa para uns dias numa mala. não estava disposta a deixar que alguém. a avó limitou-se a acenar que compreendia quando Lexie a informou do que ia fazer. Rachel arranjaria namorados que lhe não convinham e Rodney talvez encontrasse uma maneira de. forçou-se a não imaginar o que poderia ter acontecido. embora fosse responsável pelo início dos acontecimentos.

deu consigo a pensar em Lexie e carregou no acelerador a fundo. Deixar um bilhete para o Alvin na recepção. que se tornava mais forte à medida que se aproximava do destino. para o que desse e viesse. a pensar apenas na reacção dela quando o visse. mas ele não estava em pânico. Precisamente quando começava a encontrar explicações para a irracionalidade do seu comportamento. Daí. Tal como os apontamentos. Tinha orgulho nisso. a olhar para um magricelas fardado. Mas embora a viagem para Swan Quarter estivesse a ser fácil. pois rolava por uma estrada sem curvas e vazia. Calculava que tivesse sido aquele o caminho utilizado por ela e tudo o que teria de fazer era seguir-lhe as pegadas. Deixar o computador por não ir precisar dele. mas também não estava disposto a analisar a conjuntura. para tentar esquecer o nervosismo. sempre que teve de diminuir o andamento. mesmo que isso não agradasse ao Jed. a fazer exactamente o contrário daquilo que a lógica aconselhava. de onde o barco de carreira o levaria a Ocracoke. Meter o livro da Doris na mala a tiracolo e levá-la consigo. E partir. Assegurar-se de que levava o carregador do telemóvel. Não saberia explicar porquê. que perdera a última viagem daquele dia. o que significava voltar no dia seguinte ou cancelar por completo o plano. Não chegou a precisar de dez minutos para entrar. voltar a sair e pôr-se a caminho de Swan Quarter. chegaria junto dela em cerca de duas horas. Para ele. Jeremy encontrouse na estação marítima. em lugares como Belhaven e Leechville. que mal levantou os olhos da revista que estava a ler. No entanto.Tem a certeza de que não existe outra maneira de eu . duas opções que não estava disposto a ter em conta. pela Estrada 12. uma aldeia nos Outer Banks. O nervosismo era apenas outra palavra para designar a sensação de pânico. era uma sensação nova e esquisita. até Buxton. . E ali soube que os barcos de carreira para Ocracoke não tinham um horário semelhante aos que fazem a ligação entre Staten Island e Manhattan. deu consigo a matraquear o volante com os dedos e a resmungar sozinho. Encontrava-se numa das poucas situações em que ia a voar com piloto automático.mapa e na carteira. dirigia-se para norte.

. .Então o que está a querer dizer-me é que neste momento não há qualquer meio de sair? Daqui. o maior de todos. Não servia. Mas também terá de esperar até amanhã. depois tomar a 64 para Roanoke Island. eu poderia chamar a Guarda Costeira. suponho. .A umas três horas de distância. como se aquela conversa estivesse a aborrecê-lo.É uma emergência? .Depende da velocidade com que conduzir. Obviamente.indagou.Quanto tempo é que levo? .Excelente! Onde é que fica? . .comentou Jeremy. com o coração a aumentar de ritmo. Ou talvez o xerife.É importante para mim.Ah! . até Whalebone. estaria lá à hora a que o Alvin devia chegar a Boone Creek. Daí segue para sul. . . . . Por cima do ombro do homem. .Digamos que sim. na direcção contrária. pensou Jeremy.conseguir chegar ao farol do cabo Hatteras? . quero eu dizer.Nesse caso. . viu um cartaz de publicidade dos vários faróis da Carolina do Norte. . Tem de seguir para norte até Plymouth.Digamos que sou um condutor rápido.Há um que parte de Cedar Island. O homem levantou os olhos.Talvez umas cinco ou seis horas. . pela primeira vez.Pode ir de carro. O homem encolheu os ombros. eram quase 13 horas.Há mais algum lugar onde possa apanhar um barco de carreira? . Hatteras. É onde fica o farol. . a tentar manter-se calmo.E se lhe dissesse que se trata de uma emergência? inquiriu. encontrava-se no centro. Jeremy consultou o relógio. até Buxton.

pelo menos. quem se importava? Qualquer pessoa tinha o direito de. E continuava a não ter a certeza de que iria encontrá-la lá. poderiam filmar naquela noite e na seguinte. Ia partir dentro de dias. ou porque as últimas palavras que dissera a Lexie na noite anterior assinalavam uma verdade mais profunda. Tinha dinheiro na carteira e encontraria uma maneira de lá chegar. certamente. mesmo que servisse apenas para provar a si próprio que podia deixá-la e não voltar a pensar na mulher.O homem levou um dedo ao queixo. mas tal não implicava que o caso estivesse encerrado. iria de carro até Buxton. Tudo poderia certamente dar para o torto. Mas. . Ainda não. ela . pois era certo que se passava qualquer coisa com ele. o pormenor pareceu-Lhe menos importante do que antes.Não sei. Faltavam dez horas para o aparecimento das luzes. calculou que precisaria de duas para chegar a Hatteras. Teria tempo suficiente para chegar lá. Aceitaria o risco e logo veria como corriam as coisas com ela. Podia vir visitá-la. . partindo do princípio de que conseguia encontrar quem o levasse lá. que não iria desistir. Agora estavam a chegar algures. e agora chegara a vez dele. Poderia não conseguir alugar o barco.Suponho que poderia alugar um barco. se estivesse assim com tanta pressa. se tal acontecesse e se tornasse necessário. num barco rápido. Depois de ter chegado tão perto. O mesmo acontecia com a chegada iminente de Alvin. finalmente a admitir que estava prestes a entrar em pânico. Naquele cenário nada fazia sentido. fazer uma asneira. uma vez por outra. Quando a Doris Lhe dera a entender que talvez ele não voltasse a ver a Lexie. Sabia que era aquele o cerne da questão. se tudo corresse bem.E como é que consigo arranjar um barco? . Nate estaria à espera da chamada mas. Era provável que fosse por ter chegado tão longe. pensou Jeremy. de repente. as suas ideias acerca dela tinham entrado em ebulição. mas. Voltou para o carro. recusava-se a voltar para trás. falar com a Lexie e voltar. Nunca me fizeram essa pergunta.

pouco profundas e com baixios instáveis. Contudo.podia ir até Nova Iorque. Quantas pessoas têm de viver assim! Contudo. com as suas cores branco e preto de tablete de chocolate. queria ouvir a decisão da boca dela. que tomou parte na primeira batalha naval entre couraçados durante a Guerra Civil. contava-lhe peripécias sobre os navios ali perdidos ao longo dos séculos. correntes perigosas e erros de navegação que faziam encalhar os navios até serem destruídos pelo mar bravio. ao caminhar ao longo da praia e a tentar imaginar como. chegando a assustar-se com as imagens que fazia deles. O final da tarde era a altura do dia preferida por Lexie. Como aconteceu com o Central America. Na verdade. foi perdido ali. parecia uma miragem. O Monitor. combinada com a beleza austera da paisagem. antes de o farol ter sido construído. espantou-se ao pensar que sabia ir a Buxton para descobrir se o Alvin afinal tivera razão. carregado de ouro da Califórnia. apercebeu-se de que não queria ouvi-la proferir aquelas palavras. O avô da Lexie adorava História e sempre que andavam pela praia de mãos dadas. Visto dali. se tivesse de ser assim arranjariam maneira de manter a ligação. A luz suave do sol de Inverno. mesmo que tal não fosse possível. Só então regressaria a Nova Iorque com a convicção de que não dispunha de outra opção. Supõe-se que os restos de um barco encontrados em Beaufort pertencem ao navio do Barba Negra. mesmo que ela estivesse decidida a terminar tudo. seria difícil aos marinheiros e pescadores a navegação naquelas paragens. As águas ao longo da costa. a voz lenta e o sotaque melódico eram estranhamente calmantes. com um milhar de destroços a pontilhar o leito do oceano. enquanto cerca de meia dúzia de submarinos alemães afundados durante a Segunda Guerra Mundial são agora visitados quase todos os dias por mergulhadores. o Queen Anne's Revenge. cujo afundamento ajudou a provocar o pânico bolsista de 1857. Embora não dedicasse especial interesse aos pormenores. concorria para fazer o mundo parecer um lugar de sonho. pelo . até o farol. ao parar subitamente na primeira marina que encontrou. eram chamadas o Cemitério do Atlântico". Lexie ficou a conhecer os danos causados por tufões. reflectia. Não ia a Buxton para Lhe dizer adeus ou para a ouvir dizer que nunca mais queria vê-lo.

respirava fundo e punha o livro de lado. Lexie considerava-se quase uma pessoa da terra. com um bocado de sorte. sentia que falar daquelas coisas era muito importante para ele. fechava o livro. mas ver os cavalos fazia-a sentir. Mesmo sendo muito pequena naquele tempo. mas para muitos dos turistas vê-los era um dos pontos altos das suas férias. Doris tinha ligado a informar que o Jeremy passara pelo restaurante. quando Doris estava a cozinhar. Habitualmente os cavalos mantinham-se afastados das pessoas e corriam a grande velocidade se alguém tentasse aproximar-se deles. Os passeios tinham feito parte da sua rotina diária. De momento. à procura dela. mas. procurava sentir-se assim. mas recordava-se de saltar e correr para a porta logo que o avô os mencionava. ao escurecer. a ler. Levantava-se da cadeira e perguntava-Lhe se queria ir dar um passeio para ver os cavalos selvagens. um aviso para que não se aproximassem mais. algo que só interessava aos dois. veio a saber que o barco do avô tinha sido torpedeado durante a Primeira Guerra Mundial e que ele sobrevivera com dificuldade. com o único problema a ser um ocasional excesso de população. Os cavalos eram descendentes de potros espanhóis e a sua presença nos Outer Banks datava de 1523. quando mais não fosse para escapar às pressões da vida adulta.se novamente jovem. Na maioria dos casos. a menos que se tornassem incómodos. nem era coisa que desejasse muito. pelo que os faziam quase sempre na hora que antecedia o jantar. quando ainda tinha diante de si todos os prazeres e expectativas da vida. gostavam de pastar. Os habitantes da região ignoravam-nos quase por completo. Não sabia muito bem por quê. nunca montara um cavalo. Por vezes conseguiam aproximar-se o suficiente para notar as características que os distinguiam e. faziam parte da paisagem local. mesmo que fosse apenas por escassos minutos. Depois tinha sido criado um conjunto de normas oficiais para Lhes assegurar a sobrevivência. com os óculos empinados no nariz. numa atitude menos defensiva. . como os veados da Pensilvânia. o avô estava na cadeira de balouço. Uns anos depois. conseguiam ouvi-los resfolegar e relinchar.que nunca lhe sugerira que mudasse de assunto. A ideia de avistar os cavalos excitava-a sempre. Recordar aqueles passeios fê-la sentir uma repentina e intensa saudade do avô.

sabia que deveria ter tentado compreender as falhas de carácter do rapaz. sabia também que ele não tardaria a ultrapassar a situação. não parecia ser melhor a conservá-los. mas. mas fora isso mesmo e. Renaissance. pois o caso poderia ser visto como uma pândega.. confiantes em tudo o que fazem. havia momentos em que se punha a pensar se teria feito algo capaz de afastar os dois homens. Mas. mais ainda do que sentir-se desapontada com ele. que avançam sempre a direito. Convencera-se de que ultrapassaria a situação. na altura. e a . há muito que se apercebera de que se sentira desapontada consigo mesma. Renaissance. Embora partisse do princípio de que ele procuraria saber qual tinha sido o erro que tinha cometido. ainda recordava como se sentira ofendida pelo seu sentido de propriedade. ao mesmo tempo. alguém como Mr. desejou acreditar. Olhando para trás. e o Avery? Amara-o e pensara que ele a amava.Não ficara surpreendida. que dizia serem apenas suas amigas. em que sentido? Teria sido demasiado opressiva? Seria maçadora? Ter-se-ia o Avery sentido insatisfeito na cama? Por que não tinha vindo atrás dela. uma colega da empresa que mencionou demasiadas faltas dele ao trabalho. ou a forma um pouco excessiva como abraçava outras mulheres. mas. A princípio. o que provou em termos definitivos que não era boa a avaliar homens. Além disso. Avery também mostrara ser assim. sem remorsos nem olhares para a retaguarda. ou a razão por que ela tinha fugido. Odiava considerarse ingénua. que acabaria por encontrar um homem melhor. haviam-lhe assegurado que ela não fazia ideia daquilo que estava a dizer. Era certamente fácil afirmar que o Avery era um grosseirão e que a culpa do fim da relação fora inteiramente dele. quando ele jurou que Lhe fora infiel apenas uma vez. não reparou nos sinais de aviso: o olhar apenas ligeiramente mais demorado quando observava uma mulher. Bem. ele devia ter sentido que faltava um qualquer ingrediente àquela relação. Mas. Jeremy era uma dessas pessoas abençoadas. Que ela não correspondia totalmente. mais do que como uma relação. embora depois começassem a aparecer vestígios de conversas e situações: uma amiga da universidade que ouvira rumores de que ele tinha uma ligação especial com uma colega. pela indiferença com que encarou a dor dela. As amigas. Não era fácil admitir aquele género de coisas.. talvez fosse de excluir Mr. como era de esperar. a pedir perdão? Eram estas as perguntas para que nunca tinha encontrado resposta.

em todas as histórias havia sempre duas partes. com o crescimento próprio do Inverno. Sonhava com uma manhã a preguiçar na cama. Apesar de tudo. com as suas casas brancas de madeira. por mais que tentasse não ligar aos constantes reparos da Doris. e ainda agora se punha muitas vezes a fantasiar que ia telefonar-lhe. não aspirava a mais de uma noite de sexta-feira ou sábado. a seus olhos. com bons resultados. Um ar estimulante e. sentia-se cansada. avistou uma pequena manada de cavalos a pastar nas ervas das dunas. já sabia a resposta. que estava só. O dia fora longo e ela achara-o ainda mais longo. Afinal. Seriam uns doze. Lá longe. regra geral. Como um dos seus amigos apontara. A preparar-se para filmar outra vez? Ou a decidir onde haveria de jantar? Estaria a fazer as malas? E por que razão os seus pensamentos se voltavam constantemente para ele? Suspirou. Os homens pareciam imunes a incertezas como aquelas. e tal como esperava. no total . de intimidade.de crinas espessas e desalinhadas. a visão não lhe sugerira um novo começo. Habitualmente. ou a enterrá-los bem fundo. No entanto. juntos. sentia-o a picar nas faces e no nariz. isso sim. tentou imaginar o que Jeremy estaria a fazer. Estava a olhar na direcção do farol. de mãos enfiadas nos bolsos do casaco. recordaralhe. Lexie tentava fazer o mesmo e. Nem tinha de ser um casamento. junto de alguém . tinham aprendido a esconder os sentimentos. Por mais que se julgasse independente. Agora que estava prestes a anoitecer. a vila de Buxton parecia um postal. o ar tinha arrefecido. Por muito que gostasse de ver os cavalos. No centro havia dois poldros. o que aconteceu ainda não estava totalmente esclarecido. de modo a não se sentirem embaraçados por eles. por vezes. a perguntar se houvera alguma situação em que ela devesse ter agido de maneira diferente. de caudas a abanar em simultâneo. Regra geral. embora gostasse de ficar um pouco mais.na sua maioria cor de cobre e castanhos .avó fora da mesma opinião. com o sol a mergulhar nas águas de Pamlico Sound. preocupar-se com aquele género de coisas era típico das mulheres. Lexie parou a observá-los. não conseguia deixar de sentir a falta de uma companhia. Mesmo que não o fossem.

Os homens gostam de mulheres que consigam ser mais subtis. a tentar certificar-se de que o que estava a ver era real.Sabe. Na luz agora a desaparecer. ali. na realidade não devia olhar-me assim . porque ele não poderia estar ali. Não podia ser ele.Está. o estado de saúde da Doris era uma preocupação constante. a ver os cavalos a pastar. Foi então que começou a chorar e.voltou a concordar. a tentar afastar aqueles pensamentos. por mais impossível que a ideia lhe parecesse. viu alguém a aproximar-se. CATORZE Lexie pestanejou. Lexie continuou a olhar para ele. que teve a impressão de estar a ver a cena através dos olhos de qualquer outra pessoa. Ao refugiar-se na casa da praia.concordou Jeremy com um aceno. . . . estou aqui . Tinha 31 anos. estava só. Toda a ideia era tão estranha. era Jeremy quem continuava a imaginar deitado a seu lado. alimentara a esperança de encontrar alívio. a viver numa terra sem perspectivas. talvez já não estivesse na vila quando ela regressasse a casa. enquanto Jeremy a considerava ainda mais bonita do que a . aqui.Pois. Abanou a cabeça. perto do farol. entre os que conhecera nos anos recentes. no entanto. Porém.Você . durante muito tempo. e quando percebeu quem era. não conseguiu controlar o choro. O avô e os pais não passavam de memórias. quando finalmente parecia recuperar o autodomínio.Eu . tão inesperada. Lexie semicerrou os olhos. sentiu todo o peso do mundo sobre si.afirmou. . .foi a única resposta. o único homem que julgara remotamente interessante.de quem gostasse e. não fez mais do que continuar a olhar em frente. . Jeremy sorriu ao pousar o saco de viagem.

Ela hesitou. o que é que veio aqui fazer? Houve um ligeiro silêncio. exactamente? Falava com um certo à-vontade. E apercebi-me de que.Todo este lugar é bonito. Jeremy observou os pés.esclareceu. se desejava vê-la.mulher de que se recordava. tentando encontrar um motivo para a presença dele ali.. . a tentar acalmar a turbulência das suas emoções. a apontar. perto da linha da maré. Jeremy fez um aceno na direcção do farol. antes de ele responder.. o melhor que tinha a fazer era vir ter consigo. Percebo a razão que a leva a adorar este sítio. . . .reconheceu Jeremy. . .Não sei se percebo o que está a querer dizer-me.É uma história algo comprida .Jeremy.O que é que.É este o farol onde os seus pais se casaram? . . . Em vez de responder.Acolá . como que embrenhado na mais normal das conversas.gabou-se.Recordo-me de tudo ..admitiu ele.Mas. .. . como quem pede desculpa. como é que. Como ela não fizesse qualquer movimento para se aproximar. Quero dizer. .Onde é que se casaram. a martelar as têmporas com os dedos.Recorda-se disso? . o que concorria para tornar tudo ainda mais irreal aos olhos dela.Não tinha a certeza de que fosse regressar. depois ergueu os olhos e sorriu. . . . porquê? Jeremy continuou a olhar para o farol.Deve ter sido bonito . Lexie respirou fundo. a olhar naquela direcção.Do lado do oceano.Presumi que não tinha outra opção.

Surpreendida. Lá mais adiante. só por si a ideia seria suficiente para fazer Lexie soltar uma gargalhada. O próprio Rodney nunca pensaria ir até ali e. trocaram um ligeiro sorriso. na cabeça de Lexie começava a assentar a noção de que Jeremy era diferente de todas as pessoas que conhecera até então. até há poucos minutos.Está zangada por eu ter vindo? . . húmida e fria. . atirando ao ar pedaços de pão. A neblina costeira estava a avançar. Lexie sentia que o choque provocado pela aparição de Jeremy começava a desvanecer-se.perguntou Lexie. se alguém sugerisse que Jeremy faria tal coisa.. assim.admitiu Lexie. até que o céu tomou uma pouco convidativa cor acinzentada. Portanto. agitava a superfície da areia e levantava a espuma à borda de água. Lá longe. . também passei a maior parte do dia a tentar perceber o mesmo. sem mais nem menos.Para lhe ser franco. pelo que não deveria surpreender-se. os cavalos tinham começado a vaguear. fosse o que fosse que ele fizesse. Renaissance. em busca de pequenos crustáceos. Fez um sinal por cima do ombro. queria estar zangada por ele ter ignorado o seu desejo de estar só. . No silêncio. Em parte. arrancando uma folha aqui e outra mais adiante enquanto trotavam pela duna. o que era mais importante. Com isto. A observar o homem. Jeremy pôs as mãos em concha e soprou-Lhes. a moverem as longas pernas semelhantes a caules.Não . uma figura com um casacão pesado estava a alimentar as gaivotas.Deixaram-me na marina. o Sol foi descendo no horizonte. A brisa. nem tampouco Mr. . . por outro lado. mas não zangada.Deram-Lhe uma boleia.Como é que conseguiu cá chegar? . Avery nunca se preocuparia em vir atrás dela. Enquanto se mantiveram por perto do farol.Apanhei uma boleia de uns pescadores que vinham nesta direcção . a unir o mar e o céu. As andorinhas-do-mar bamboleavam-se perto da linha de água. .acabou por perguntar. a tentar aquecê-las para não lhe doerem. na direcção de Buxton.esclareceu ele. . sentia-se lisonjeada por ele ter vindo procurá-la.

. .Exacto. . os pescadores são uns tipos muito rudes.. O último dos cavalos. pareceume muito dinheiro para uma viagem de barco. as pessoas tomam a decisão correcta .No entanto.Sem esquecer.Julgo que isso depende da perspectiva. consegue perceber quando um pedido é urgente. É uma grande viagem. mas pessoas são pessoas . julgo que estou prisioneiro deste lugar. . De facto. . . . se isso não funcionar. não foi? Respondeu-Lhe com um sorriso tímido. desapareceu por detrás da duna. Na sua maioria. sim? Que medidas é que tomou para assegurar o regresso? Jeremy presenteou-a com um sorriso travesso. lá longe.Contudo.Também falaram nisso.comentou Jeremy. E depois temos o uso e o desgaste do barco. mesmo um estranho. Ficou muito direito.Porém. o tempo perdido e o facto de amanhã terem de começar a trabalhar ainda de madrugada.Teve sorte.Pode ser verdade. a clarear a voz. .Ah. quiseram esclarecer-me de que se tratava de uma viagem só num sentido. . por isso.Embora não seja perito em psicologia. . . . Ele acenou que sim. na maioria dos casos. de qualquer das formas. . ofereço-Lhes um pagamento.Falaram nisso. sou de opinião que qualquer pessoa.acrescentou. Não mostraram qualquer intenção de esperar por mim. chegou cá.. é claro..Deixe-me adivinhar. Lexie ergueu uma sobrancelha. Só a gasolina custa um dinheirão. tão espantado quanto ela.Naturalmente. . Deixaram-no liso. A confissão fê-la sorrir.

Presumia que o Nate estivesse havia .E se eu tiver decidido ficar aqui durante algum tempo? Ou se lhe disser simplesmente que está por sua conta? . caminhavam a olhar sempre em frente.Tenho a certeza de que conseguirei arranjar uma solução. a navegar a tão baixa velocidade que mais parecia parada.Gastei todo o dinheiro para conseguir chegar aqui. . a caminhar pela areia dura junto à água. a apreciar o facto de ele se recordar daquele pormenor. Lá longe. é honesto .E aonde é que tenciona ficar enquanto estiver fora da vila? . a sorrir. ..admitiu Lexie. . Em silêncio. . Em vez disso.Gostaria de jantar? . . pelo que estava a pensar na utilização do meu estonteante charme para a convencer a dar-me uma boleia para o regresso. como que impelidos para o lugar a que pertenciam. Voltando as costas ao farol. e pensava que devia ligar de um telefone fixo. a sentir uma súbita angústia ao pensar em Nate e em Alvin. acontece que conheço uma pessoa que está cá. .Para onde é que poderia ter ido? Ela desviou os olhos.Estou a pensar num lugar bastante bom. de narizes vermelhos devido ao frio. iniciaram o regresso pela praia. pois durante a travessia de Pamlico o telemóvel não teve rede. diga-me.Mas. logo que possível mas sem se sentir ansioso quanto a isso. Perdera a conferência por telefone. .indagou Jeremy. Existia entre eles um espaço que nenhum parecia disposto a cruzar. Não comi durante todo o dia.Estou esfomeado. .Tem fome? .Aceitam cartões de crédito? .Conhece algum lugar interessante? .Também ainda não tinha pensado nessa parte.perguntou. .Pelo menos.Ainda não tinha chegado a essa parte do plano. o que é que faria se eu não estivesse aqui? .Bem. viu as luzes de uma traineira de apanha de camarão. Jeremy recordou mentalmente a jornada que o levara até ali. .

Se isso não se revelasse suficiente para lhes aplacar a ira. Acontece que a minha mãe é italiana.Julgo que não há outra solução . numa praia calma situada no meio de nada. calmamente.Vamos comer aqui? . . não estava verdadeiramente interessado em qualquer daqueles problemas. Não existia qualquer meio de Jeremy regressar a Boone Creek para se encontrar com ele naquela noite. . a falar por cima do ombro. entrou e pendurou o casaco no bengaleiro existente ao lado da porta.várias horas a trabalhar sob pressão à espera do seu telefonema.respondeu ela.perguntou Lexie. e que enquanto caminhavam batidos pela brisa salgada. .Óptimo. não tinha a certeza de estar interessado em trabalhar para a televisão. de momento. Pelo contrário. Por que é o que tenciono fazer. Lexie seguiu à frente e subiu os degraus gastos da velha casa. a ser honesto consigo próprio. a interromper-lhe os pensamentos. O amigo não ficaria muito satisfeito por ter de trabalhar sozinho naquela noite. Alvin era das raras pessoas que não deixava que alguma coisa o apoquentasse durante mais de um dia. entrar em órbita. E Alvin. Ao vê-la caminhar à sua frente pela sala. Bem. ela decidiu. . finalmente. quando a história já estivesse delineada e apoiada em documentação visual. tudo o que parecia interessarLhe era estar ao lado de Lexie.. ideia que. Porém. esse era um caso um pouco mais simples. para. podia explicar-lhe o que estava a acontecer. ..Está a brincar? Fui criado a comer massa. Jeremy fez o mesmo com o seu e juntou-lhe a bolsa de cabedal. Jeremy voltou a pensar como era bela. mas Alvin tinha telemóvel.Gosta de massa? . suspeitava. se a falta de uma simples chamada podia pôr termo à sua carreira ainda antes de ela ter começado. então. chegara a essa conclusão na altura em que o barco o largou. mas Jeremy pensava sugerirLhe a marcação da reunião com os produtores durante a semana seguinte. dar-Lhe o braço. mas no dia seguinte acertariam tudo. constituía a verdadeira razão de ser da conferência telefónica. admitiu que.

pintada de amarelo a ficar desmaiado. ele encolheu os ombros. Jeremy esbugalhou os olhos. com papel de parede florido. . armários robustos e uma pequena mesa pintada.Para alguém que não bebe. Quando Lexie olhou para a cerveja. a fingir-se chocado. como no dia anterior. . Abriu uma lata.Não. .indagou. Do primeiro saco tirou uma caixa de Cleerios e um pão. Lexie fulminou-o com o olhar. foi até junto do segundo saco e tirou de lá duas cebolas.Adorava. pensaria que tinha decidido fazer uma farra durante o fim-de-semana.opinou. já está tudo. uma embalagem de seis latas pode provocar grandes estragos .agradeceu ao voltar-se.É verdade. aliviado por aquele género de conversa já conhecido. . depois a outra e colocou uma à frente dela. antes de prosseguir. tenho uma embalagem de seis cervejas no frigorífico. . enquanto preparo isto? Se estiver interessado.Está sem dinheiro. recorda-se? A cozinha era pequena. . Agora decida: quer ou não uma cerveja? Ele sorriu.. . . porém. Nas bancadas estavam os géneros de mercearia que Lexie tinha comprado no caminho. colocada junto da janela. para dizer: . .Mas não quer uma bebida. se quer saber. . Jeremy dirigiu-se ao frigorífico e tirou duas latas de Coors Ligt de uma embalagem de seis. juntamente com duas grandes latas de tomate San Marzano.Importa-se de ir buscá-la? Estou a fazer o molho. Do seu lugar ao pé do lava-loiças.Se não a conhecesse.Tem cerveja? Pensava que não bebia. Jeremy viu-Lhe um pedaço de pele quando ela se pôs em bicos de pés para arrumar as coisas no armário. obrigado. Depois de ajeitar a blusa.É mais do que suficiente para me aguentar durante um mês. havia nele algo de divertido. a abanar a cabeça. obrigada . a começar a descolar-se nas pontas.Precisa de ajuda? .

à direita.Não me esqueço . A sentir-se um pouco melhor. as cortinas de azul-escuro a proporcionarem um bonito contraste com as mesas-de-cabeceira e a cómoda de madeira. logo junto à porta.Importa-se que dê uma vista de olhos? . Em frente do lavatório. tentou imaginar como seria dormir ali. . Ergueu a cerveja numa saudação e ela imitou-o. À esquerda. pegou na mala e seguiu pelo corredor. No quarto de hóspedes. Depois de hesitar por instantes. Decorado com temas náuticos.Há quanto tempo é que esta casa é da família? . A andar à volta da sala. As paredes estavam decoradas com mais fotografias dos Outer Banks. O jantar ainda não está pronto. com uma grande cama em cima de um pedestal e coberta por uma colcha com motivos marinhos. . . Jeremy cruzou uma perna sobre a outra. se precisar de ajuda. que provinha de um pequeno aparelho de rádio . ao lado dela. Na altura a ilha não dispunha de uma única estrada. Tinha a pele coberta de uma fina camada de sal e.. deixou a mala do lado de dentro. restituir uma aparência decente ao cabelo. Tocaram as latas. Ao colocar os sapatos e as peúgas aos pés da cama.Detesto beber sozinho. a saber que a Lexie estava do outro lado do corredor. A sorrir. passou também água pela cara. depois de lavar as mãos.garantiu ela.Só para que saiba. Tinha de se trazer o carro por cima da areia.Os meus avós compraram-na logo que acabou a Segunda Guerra Mundial. Se quiser lavar-se antes de comer. com as mãos. sou muito bom a rachar lenha. tem uma casa de banho ao fundo do corredor. sem uma palavra. Atravessou o corredor e entrou no outro quarto. Encostado à bancada. Partindo do princípio de que este era o quarto da Lexie. Há algumas fotografias na sala que mostram como isto era. Jeremy foi analisando as imagens da vida rústica na zona costeira e reparou na mala de viagem de Lexie. viu um quarto arejado. regressou à cozinha e ouviu a letra melancólica dos Beatles na canção Yesterday.Esteja à vontade. viu-se no espelho e tentou. deixada ao lado do sofá. Jeremy perguntou: .

distinguiu pequenos pedaços de tomate e azeitonas. Enquanto acabava de lavar a alface e punha as folhas de lado. . Jeremy entregou-lhe uma cebola já sem pele.Já precisa de alguma ajuda? . viu uma travessa de tamanho razoável com salada.Toda a gente corta as cebolas em cubos. não é preciso.Nesse caso.Não.pousado no peitoril da janela. Se o fizesse estragaria o molho e eu nunca lhe perdoaria. . a ouvirem a música.Tem a certeza de que não quer que a corte em cubos? . . vai pôr estas grandes cebolas redondas no molho? . .inquiriu.Está bem assim? . É só descascá-las.É para já.Não. Contudo. mais o plano constituído pelas coxas e pernas dele.A salada está quase pronta. as maçãs do rosto elevadas. Lexie tentou ignorar que se encontravam muito próximos. . trabalharam em silêncio. .Está muito bem. Lexie apontou com a cabeça para as cebolas.Mas eu não. Ao lado dela. Por momentos. . de admirar o encanto natural de Jeremy. os largos ombros. A faca está naquela gaveta. Enquanto lavava a alface. primeiro corto-as ao meio. Jeremy tirou uma faca de carne e pegou nas cebolas que estavam em cima da bancada. não conseguiu resistir à tentação de espreitar pelo canto do olho. abstraído dos pensamentos dela. . Também quer que as corte em cubos? .Não. mas quer fazer o favor de descascar aquelas cebolas? . Até a minha mãe italiana o faz.

- Posso pelo menos fazer isso? - Não, obrigada. Não me agradaria pô-lo daqui para fora respondeu, a sorrir. - E, além disso, a cozinheira sou eu, recordase? Você limita-se a olhar e a aprender. Por agora, penso em si apenas como. aprendiz. Jeremy olhou-a de soslaio. Desde que tinham saído do frio, o rosado das maçãs do rosto tinha desaparecido, deixando-lhe a pele fresca e com o seu brilho natural. - Aprendiz? Lexie encolheu os ombros. - Que mais pode ser? Pode ter uma mãe italiana, mas eu fui criada por uma avó que experimentava toda e qualquer receita que Lhe aparecesse. - O que fez de si uma especialista? - Não, mas fez a Doris e, durante muito tempo, fui aprendiza. Aprendi por osmose e agora é a sua vez. Jeremy pegou na segunda cebola. - Diga-me, o que é que a sua receita tem de tão especial? Para além de incluir cebolas do tamanho de bolas de basquetebol, quero eu dizer? Ela pegou na cebola descascada e cortou-a ao meio. - Ora bem, como a sua mãe é italiana, já deve ter ouvido falar em tomate de San Marzano. - É claro que sim. É uma qualidade de tomate originária de San Marzano. - Pois, pois. Na realidade é o tomate mais doce e mais saboroso, especialmente para molhos. Agora, observe e aprenda. Tirou um tacho do armário que havia por baixo do fogão e pousou-o a seu lado, depois rodou o botão do gás e acendeu o bico respectivo. A chama azulada despertou e ela pôs o tacho vazio em cima dela. - Estou impressionado, até agora - comentou Jeremy, ao acabar de descascar a segunda cebola. Pegou na cerveja e voltou a encostar-se à bancada. - Devia ter um programa de culinária.

Ignorando-o, despejou as duas latas de tomate no tacho e juntou-Lhes um pacote de manteiga. Jeremy espreitou por cima do ombro dela e ficou a ver a manteiga a derreter-se. - Parece saudável - observou. - O meu médico sempre me disse que preciso de mais colesterol na minha dieta. - Sabe que tem propensão a ser sarcástico? - Já ouvi dizer - admitiu, a erguer a cerveja numa saudação. Mas agradeço-Lhe que tenha reparado. - Ainda não preparou a outra cebola? - Sou o aprendiz, ou não sou? Cortou-a também ao meio e acrescentou as quatro metades ao molho. Com uma grande colher de pau, ficou a mexer o molho durante algum tempo; quando a mistura começou a Ferver, baixou a altura da chama. - Muito bem! - exclamou, com ar satisfeito, ao voltar para junto do lava-loiça. - Por agora estamos despachados. Ficará pronto dentro de hora e meia. Enquanto ela lavava as mãos, Jeremy foi espreitar o tacho e franziu a testa. - É tudo? Sem alho? Sem sal e pimenta? Sem chouriço? Sem pedaços de carne? Lexie abanou a cabeça. - Apenas três ingredientes. É claro que depois pomos o molho por cima do esparguete e, por fim, espalhamos queijo parmesão acabado de ralar. - Isto não é lá muito italiano. - Na verdade, é. É assim que se faz em San Marzano, há

centenas de anos. A propósito, San Marzano fica na Itália - respondeu, ao fechar a torneira e a sacudir as mãos por cima do lava-loiça, para acabar de as secar num pano da loiça. - Mas, como dispomos de algum tempo, vou-me arranjar antes de jantarmos. Isso significa que vai ficar sozinho durante um bocado. - Não se preocupe comigo. Entretenho-me com qualquer coisa. - Se quiser, pode tomar um duche. Vou arranjar-lhe toalhas. Ainda a sentir o sal no pescoço e nos braços, não perdeu tempo a decidir-se. - Obrigado. Excelente ideia. - Dê-me apenas um minuto para lhe preparar tudo, está bem? Sorriu e agarrou a cerveja ao encolher-se para passar, a sentir os olhos dele fixados nas suas ancas. Tentou imaginar se ele estaria a sentir-se tão constrangido quanto ela. Abriu a porta do armário que havia no final do corredor, agarrou num molho de toalhas e colocou-as em cima da cama do quarto de hóspedes. Por baixo do lavatório havia diversos champôs e um sabonete inteiro. Colocou-os à vista. Ao fazê-lo, viu-se no espelho e subitamente pareceu-lhe ver também a imagem de Jeremy, saído do duche, com a toalha enrolada à volta do corpo. A imagem fê-la sentir o coração acelerar. Respirou fundo, a sentir-se novamente adolescente. Ouviu-o a chamá-la. - Eh, onde é que se meteu? - Estou na casa de banho - respondeu, espantada por conseguir falar com uma voz tão calma. - Estou a preparar tudo aquilo de que vai precisar. Ele apareceu atrás dela.

- Por acaso, não haverá por essas gavetas uma máquina de barbear descartável? - Não, lamento. Vou procurar também na minha casa de banho, mas... - Não é nada do outro mundo - replicou, a passar a mão pelo queixo. - Passarei a noite com este aspecto desmazelado. Mesmo desmazelado serviria perfeitamente, pensou Lexie, a sentir-se corar. Rodando para ele não reparar, apontou os champôs. - Use aquele que lhe agradar. E não se esqueça que a água quente leva algum tempo a aparecer, terá de ser paciente. - Serei paciente. Mas queria pedir-Lhe para usar o seu telefone. Preciso de fazer umas chamadas. Lexie acenou que sim. - O telefone está na cozinha. Ao passar por ele, sentiu-Lhe de novo o olhar, embora não se virasse para confirmar. Em vez disso, foi para o seu quarto, fechou a porta e quedou-se do lado de dentro, embaraçada pelos sentimentos loucos que a assaltavam. Não tinha acontecido nada, nada iria acontecer, disse para si mesma. Fechou a porta à chave, como se esperasse fechar também os pensamentos. E resultou, pelo menos durante algum tempo, até notar que Jeremy lhe trouxera a mala para o quarto. Saber que ele tinha estado ali momentos antes criou nela uma tal sensação de expectativa interdita que, mesmo sem pensar, teve de admitir que tinha andado a mentir a si própria durante o tempo todo. Depois do chuveiro, quando regressou à cozinha notou o odor do molho que fervia em cima do fogão. Acabou a cerveja, encontrou o balde do lixo por baixo do lava-loiça e atirou para lá a lata vazia, para, logo de seguida, ir ao frigorífico buscar outra. Na prateleira inferior viu um pedaço de queijo parmesão, de corte recente, e um frasco já aberto de azeitonas de conserva; ponderou a hipótese de roubar uma, mas decidiu não o fazer. Encontrado o telefone, ligou para o escritório do Nate e foi

atendido de imediato. Durante os primeiros vinte segundos manteve o auscultador afastado da orelha, dando tempo para o Nate desabafar e procurar acalmar-se; reagiu positivamente à proposta de Jeremy sobre a reunião da semana seguinte. Jeremy acabou a chamada com a promessa de voltar a ligar-lhe logo pela manhã. Em contrapartida, foi impossível localizar o Alvin. Depois de marcar o número dele e ter ido parar ao voice-mail, esperou um minuto e tentou de novo, com o mesmo resultado. O relógio da cozinha indicava que eram quase 18 horas, pelo que presumiu que o Alvin estivesse algures, na estrada. Era provável que ainda houvesse hipótese de conversarem antes de ele sair naquela noite. Sem mais nada para fazer e a Lexie perdida algures, saiu pela porta das traseiras e deixou-se ficar de pé no alpendre. O frio aumentara. O vento de intensidade crescente era frio e parecia picar, e embora não conseguisse ver o oceano, ouvia as ondas a rolar continuamente, com um som ritmado, fazendo-o entrar numa espécie de transe. Passado algum tempo, voltou a entrar na sala às escuras. Espreitando para o corredor, viu um fio de luz por baixo da porta fechada do quarto de Lexie. Sem saber o que fazer, acendeu um pequeno candeeiro de leitura colocado perto da lareira. Com aquela luz que fazia as sombras projectarem-se pela sala, deu uma vista de olhos pelos livros arrumados na cornija da lareira, antes de se lembrar do que tinha na bolsa. Na pressa de chegar ali, ainda não passara os olhos pelo livro de apontamentos da Doris; depois de o retirar da bolsa, levou-o consigo para a cadeira de repouso. Ao sentar-se, pela primeira vez passadas muitas horas, sentiu a pressão sobre os ombros a atenuar-se um pouco. O lugar, reconheceu, era agradável. Não, era mais do que isso. Fazia-o desejar que a vida fosse sempre assim. Antes, quando ouviu Jeremy passar junto do quarto, Lexie deixou-se Ficar junto da janela e bebeu um gole de cerveja, contente por ter à mão qualquer coisa para lhe acalmar os nervos. Ambos tinham mantido a conversa na cozinha em tom superficial, a conservarem as distâncias até a situação se esclarecer. Lexie sabia que tinha de ser ela a estabelecer a linha de rumo quando regressasse à cozinha mas, ao pousar a lata de

cerveja, apercebeu-se de que não pretendia manter as distâncias. Agora, já não. Apesar de ciente dos riscos, tudo nele a fazia desejar a aproximação: a surpresa de o ver na praia a caminhar para ela, o seu sorriso fácil e o cabelo emaranhado, o olhar nervoso e infantil, naquele instante fora simultaneamente o homem que ela conhecia e aquele que desconhecia. Apesar de não querer admitilo, apercebeu-se de que desejava conhecer a parte dele que se mantivera afastada dos seus olhos, fosse o que fosse, levasse aonde levasse. Dois dias antes, não imaginaria que aquela situação pudesse acontecer, em especial com um homem que mal conhecia. Já antes fora magoada e, agora, compreendia que tinha reagido à mágoa ao refugiar-se na segurança proporcionada pela solidão. No entanto, uma vida isenta de riscos também não era uma verdadeira vida, e, se pretendia introduzir-lhe alterações, aquela altura era tão boa como qualquer outra. Depois do chuveiro, sentou-se na borda da cama e abriu o fecho da mala para pegar num frasco de loção. Aplicou alguma nas pernas e nos braços, afagou a mão húmida pela parte superior do peito e pela barriga, a gozar o prazer que sentia na pele. Não trouxera nada de elegante para vestir; logo pela manhã, na pressa de partir, apanhou as primeiras peças que encontrou; agora teve de remexer a mala até encontrar o seu par preferido de calças de ganga. Já muito desbotadas, rasgadas nos joelhos e com franjas nas bainhas. Mas as lavagens sucessivas tinham amaciado e tornado mais Fino o tecido, para além de ter consciência de que aquelas calças lhe realçavam a figura. Sentiu um calafrio interior ao presumir que Jeremy não deixaria de reparar. Vestiu uma blusa branca de mangas compridas, cuja fralda não se deu ao trabalho de meter nas calças, e arregaçou as mangas até aos cotovelos. Colocando-se à frente do espelho, abotoou a frente, deixando uma casa vazia para além do que era habitual, a revelar um pouco do espaço entre os seios. Secou o cabelo com o secador eléctrico e alisou-o com uma escova. Quanto a maquilhagem, fez o melhor que pôde com os meios de que dispunha: aplicou um pouco de cor nas faces, lápis nas pálpebras e batom. Gostaria de ter perfume, mas sobre isso

nenhum deles pareceu capaz de reagir. colocou a colher no mesmo sítio. . até lhe parecer bem. agradada do que estava a ver. com um sorriso tímido. . pareceu querer dizer qualquer coisa. até que Lexie respirou fundo e desviou o olhar. naquele preciso momento. Tentou abrir o frasco mas. . Incapaz de deixar de a seguir com os olhos. . Depois. ergueu ligeiramente a lata de cerveja. enfiou a blusa no cós das calças. pois compreendeu que estava apaixonado por ela. não conseguia reunir a força . devido à tremura das mãos. Ainda abalada. quando ela saiu da casa de banho.Está com um aspecto. QUINZE Por momentos. Quando se sentiu pronta. que colocou em cima da bancada. A sorrir. com os pés levantados.. a notar a profunda emoção das palavras dele.. ficou-se pelo olhar.Obrigada . Jeremy estava sentado na cadeira.não havia nada a fazer. Lexie percebeu que a mensagem que lia nos olhos dele era o reflexo da que os seus próprios olhos estavam a enviar.la. a regalar-se com o efeito que tais palavras Lhe provocavam. Olhou-a e.Não quer mais uma? Jeremy aclarou a voz. Quando Lhe pegou para mexer o cozinhado.Já tenho uma.admitiu. incrível .respondeu. depois de acabar.acabou por conseguir murmurar.Acho que estou a precisar de outra . . ao lado do frasco de azeitonas. percebeu por que fora tão importante voltar a encontrá. Os olhos de ambos encontraram-se e nenhum os desviou e. mas não proferiu palavra. tentou recordar-se da última vez em que achara que o bom aspecto era importante. por momentos. abriu o frigorífico e tirou outra lata de cerveja. a colher de pau deixou uma mancha de tomate na bancada. Lexie dirigiu-se para a cozinha e parou junto do fogão. de repente. De pernas a tremer. Obrigado. Não havia escolha.

. E devo avisá-lo de que as cadeiras da cozinha não são muito confortáveis. juntando-lhe sal e pimenta. sem a concorrência da luz do final da tarde que se escoava pela janela. voltou-se e foi abrir o armário. Lexie encheu a boca de cerveja e ficou a saboreá-la. proporia que comêssemos lá fora. Falar parecia-lhe contribuir para manter o equilíbrio. . pegou no frasco das azeitonas e pôs algumas noutra tigela.indagou Jeremy. A luz do tecto estava acesa mas. a maneira como ele a olhara. Acabada de mexer a mistura. Na quietude da cozinha. mas. em vez disso.O que significa? . . Lexie levantou os olhos. Estava suficientemente perto para estender a mão e tocarlhe.Como não contava ter companhia. A seguir. . no alpendre. Surpreendida. . a saborear tudo o que estava a suceder naquele início de noite: o seu aspecto e a maneira como se sentia.necessária para rodar a tampa. e por um fugidio momento quase o fez.O cheiro é delicioso . Não o ouvira chegar e duvidava de que não estivesse a mostrar na cara tudo aquilo que sentia.Ainda temos uma hora antes de jantar .informou Lexie. Lexie ficou a vê-lo encostar-se à bancada. Tirou de lá azeite e vinagre balsâmico e pôs pequenas quantidades de cada numa pequena tigela.Precisa de ajuda? . as azeitonas têm de fazer o papel de acepipes.Se não se importa. mas já tentei em outras alturas do ano e faz muito frio.comentou Jeremy. . Jeremy tirou-Lhe o frasco das mãos e ela ficou a observarLhe os tendões fortes dos antebraços quando ele rodou a tampa do frasco. Não a olhou nos olhos. ao reparar na lata de cerveja. Se fosse Verão. abriu-a também e passou-lha para a mão. parecia mais suave do que quando ela tinha iniciado o cozinhado. nem pareceu querer dizer-lhe nada.

. outras a lápis. Senhor Céptico. Ao sentar-se a seu lado. Porém. Jeremy sentiu o odor do champô floral que ela tinha usado. Da cozinha. se pudesse. . pegou no livro de apontamentos da Doris e ficou a ver Lexie instalar-se no sofá. é impossível. .Quero apenas dizer que não acredito que ela pudesse prever o sexo dos bebés só por segurar as mãos das mães.Não improvável? quererá antes dizer que é estatisticamente .observou Lexie.teimou -.Agora já acredita que ela tenha adivinhado o sexo de todos aqueles bebés? .E quanto ao aspecto das notas? Umas vezes a tinta. Colocou a tigela das azeitonas na mesa do café. Lexie sorriu. parou junto da cadeira de repouso.Não.Doris emprestou-mo. . gostava ainda de dar mais .Porque você o diz? . Porque é impossível.Muito bem. E quanto à sua história? Jeremy começou a arranhar a lata de cerveja com o polegar. . . .Vejo que trouxe o livro da Doris .Não . . depois mexeu-se um pouco até sentir-se confortável. .Não estou a dizer que o livro não pareça convincente contrapôs Jeremy.Ainda não consegui passar das primeiras páginas. ela poderia ter registado apenas aqueles casos em que acertou. . dando por vezes a ideia de que eram tomadas à pressa e que noutras ocasiões dispunha de tempo de sobra. .O que é que acha? . chegavam alguns sons fracos do rádio. Mas regista muito mais pormenores do que seria de esperar. Ele assentiu. .Não.Vai bem. Como já disse.Gostaria de se sentar na sala? Ele foi à frente.

Amanhã. Lexie percebeu exactamente aonde ele queria chegar. . a tentar controlar o que sentia. o quanto ele a fazia sentir desejável.Como. a parte desagradável é que a solução é muito menos interessante do que a da lenda. os olhos violeta brilhavam-lhe por baixo das pestanas escuras. Ao ouvi-lo falar naquele tom. . Ouvi a previsão na rádio. A apoiar o queixo na mão. . Só falta reunir as provas. . . certo? . Não perderia esta viagem por nada deste mundo.Óptimo.Certo.perguntou ao inclinar-se ligeiramente para diante. . se puder ser . a não desejar destruir aquela harmonia.uma vista de olhos a alguns dos diários arquivados na biblioteca. a . .E pretende regressar.Vai cooperar . .acrescentou Jeremy. Espero que o tempo continue a cooperar. pôs uma perna em cima do sofá.Pode dizer-me qual é a solução? O candeeiro colocado por detrás dela provocava um débil halo à volta da cabeça dela. . . Talvez encontrasse qualquer pormenor para apimentar a história.Sem dúvida.esclareceu Lexie. o que é? . terei de o levar de regresso.Preferia mostrar-Lhe.Sim. .Espera-se que haja nevoeiro durante todo o fim-de-semana. No entanto. valeu a pena vir até cá? Ele acenou que sim e respondeu com toda a calma: .Então. Lexie sorriu.Já descobriu o que é? . de qualquer maneira.Nesse caso. a apreciar aquela atmosfera de intimidade.

Na verdade. É possível estarmos lá por volta das dez horas. . .Quando é que regressa a Nova Iorque? . Ao ouvir aquelas palavras. .Vem a Boone Creek? .Deixei um bilhete a pedir ao Alvin que fosse ao cemitério ainda esta noite. Ela ficou a pensar no que ouvira. mas desejando apenas tomá.Tenho de me encontrar com o Alvin. Não deveria estar lá? . De todas as formas. É um fotógrafo de Nova Iorque. deverá estar a chegar por esta altura. emocionada pelo esforço que ele fizera para vir até ali num dia daqueles.Se puder. . Embora soubesse que tinha de ser.Obrigado.admitiu Jeremy.Muito bem . O silêncio desceu sobre a sala.disse.No sábado.E contam filmar amanhã à noite? Ele acenou que sim. Passado algum tempo. . meu amigo. . Não há nada que eu deseje mais. sentiu-se magoada por ouvi-lo . Na próxima semana tenho de assistir a uma reunião.Poderemos apanhar o barco de carreira que sai muito cedo. Vem cá para dispormos de imagens feitas por um profissional. Há ainda uns pormenores por acertar.Agora mesmo.E quanto à dança no celeiro? Penso que tínhamos um acordo. Jeremy baixou a cabeça.la nos braços. .É provável . não deixarei de ir. à laia de conclusão. . . Pode acreditar. ela sentiu um baque no coração. Lexie perguntou: . . que eu dançaria consigo se o mistério estivesse solucionado. amanhã vai ser um dia muito trabalhoso. em Nova Iorque. mas há outro local onde temos de filmar.não querer exercer demasiada pressão.

porque não estou disposta a acreditar nisso. Vivo lá por ser onde está a minha família. Na realidade. mas adora esses fins-desemana. . . É sempre uma barafunda: com os miúdos a correr. Lexie ergueu uma sobrancelha. Lexie bebeu outro gole.Não.É verdade. Juntamo-nos quase todos os fins-de-semana. .Não compreendo. . não é? Ele abanou a cabeça. . os meus irmãos e as mulheres reunidos no quintal das traseiras. em Queens. quer a escrever. somos muito unidos. a tentar imaginar a cena. Há uns anos. sinto-me só com muita frequência. . o meu pai sofreu um ataque cardíaco e foi-lhe difícil recuperar.Não tente que eu tenha pena de si. em casa dos meus pais. a mamã entretida a cozinhar. Passo a maior parte do tempo a trabalhar. por vezes é duro. Ele riu-se.De regresso à vida excitante. .A minha vida em Nova Iorque não é assim tão atractiva. . por me sentir lá bem.dizer aquilo. Jeremy olhou para ela. quer em investigações. . Ela olhou-o. É verdade que vivem todos por perto.E é. tudo tarefas solitárias. . Tal como Boone Creek é o seu lar.E se eu mencionasse os desgraçados dos meus vizinhos. mas não vivo em Nova Iorque por causa da excitação. por isso vão lá mais vezes do que eu. sentiria pena? . para grandes jantaradas.Parece agradável. Porque é o meu lar.Percebo que faz parte de uma família unida. . No entanto.Pense como quiser.

ela quase soltou uma gargalhada de alívio. anda com alguém em Nova Iorque. . . a rolar a lata entre os dedos. . E sou divorciado. Talvez fosse pelo tom em que disse aquilo.Na primeira tentativa esteve quase a acertar. Assunto sério. .lhe pelo rosto. .sugeriu. Fui casado.Ainda não percebi bem o que está a tentar dizer-me acrescentou ela. .É casado? Ele abanou a cabeça. Perante aquelas palavras.Alguma vez teve um sonho? . no silêncio.Há um pormenor sobre mim que desconhece . . Jeremy acenou com a cabeça e forçou-se a sorrir.começou Jeremy. mas reprimiu-se ao reparar na expressão sombria dele. nem eu percebo. mas ela teve a impressão de ver um ar de dúvida perpassar. também não se trata disso. .Pois. À espera de muito pior. ficou a observá-lo intensamente. não é assunto que me diga respeito. Calou-se.Jeremy estava calmo. nunca o revelei a quem quer que fosse. .Por vezes.Não. mas ela não conseguiu encontrar qualquer resposta.Não.Então.Na verdade. . voltando-se para ela. Os ombros dele dobraram-se um pouco para dentro. . julgo que tem razão.Deixe lá . ela sentiu os ombros rígidos e perguntou. .Em que desejasse ardentemente qualquer coisa e. ao mesmo tempo que se afastava ligeiramente: .De qualquer das formas.Toda a gente tem sonhos que não se concretizam respondeu Lexie cautelosamente. à espera que prosseguisse.perguntou Jeremy. quando a tinha mesmo ao alcance da mão. . . ela desapareceu? .

Nova pausa. estou sempre a ser recordado de que não poderei ter uma família só minha. quando lá vou. adoro a minha família. E agora.A sua mulher deixou-o por descobrir que você não poderia ter filhos? . fomos fazer exames de rotina.indagou. ela fazia parte de uma família numerosa . .E quanto à adopção? Ou a procurar um dador? Ou. são muitos filhos. foi o suficiente. o motivo foi esse. Isto é. Penso que pode parecer esquisito. mas acho que teria de se meter na minha pele para conseguir saber o quanto eu desejava ser pai. mas isso não é verdade .esclareceu. mas não deixaram de acentuar que era provável que tal nunca viesse a acontecer. sem resposta possível.. . Jeremy abanou a cabeça. eu não estava. contudo. .Não de imediato. . mas era uma situação a que estávamos habituados. . Motivos não explicados.Sei que. se não .Para compreender tudo era preciso que a conhecesse. Apenas um daqueles percalços que por vezes acontecem. decidiu que não queria prosseguir com o casamento... fomos como o fogo e o gelo.Não. Quando ele concluiu. De início. nos dias que correm. Ela desejava quatro. ninguém conseguia perceber o que nós víamos um no outro. Quando ela descobriu. Incluindo o desejo de termos filhos. Mas. por qualquer razão. . . quero dizer.Sei que é fácil pensar-se que ela era uma mulher sem coração. mas. Hesitou ao ver a expressão dela. indo um pouco mais fundo. E todas as irmãs estavam a conseguir ser mães e. adoro estar junto deles. . passados seis meses. não afirmaram que me era absolutamente impossível ser pai.Chamava-se Maria.. Tal como eu.Não sabíamos da existência de um problema. .E não há nada que os médicos possam fazer? Ele pareceu embaraçado. partilhávamos os mesmos valores e crenças acerca de todas as coisas da vida. eu queria cinco explicou. Para ela. Maria ainda não estava grávida. no fim. Cresceu com a ideia de ser mãe. Lexie limitou-se a olhar. a tentar perceber o que acabava de ouvir. Verificou-se que ela estava bem mas.acrescentou.. Porém.

Lexie sentiu o sangue a colorir-lhe as faces.. a falar agora com maior descontracção: .Talvez para que saiba o que a espera ao relacionar-se com um homem como eu. E sei que isto parece ridículo. Lexie Ficou a observá-lo durante longos momentos. .. especialmente agora devido ao seu estado de saúde. podíamos ter recorrido à adopção. também ela teria conseguido ser mãe acrescentou. Porque não têm a ver com a pessoa que você é.O que é que a faz pensar que não as sinto? Lá fora. você e eu não somos iguais. Porque não pode senti-las.fosse por minha causa. se calhar fui eu que a afastei. . Ao ouvir aquilo. Você está lá em cima. Depois disso tudo começou a ser diferente.. Queria engravidar.. . Mas a culpa não Foi toda dela. Não sei. Acontece apenas que somos diferentes. senti-me menos homem. Sugeri tudo isso. passei a viajar ainda mais por motivos profissionais... Abanou a cabeça e olhou para o lado.Não diga coisas que não sente. Tem uma grande família que vê com frequência. . Mas ela nunca aceitou tais ideias. eu cá em baixo. mas tinha..Durante muito tempo.. é claro que podíamos ter procurado um dador. . Eu também mudei. que precisa de mim aqui. Lexie conseguia ouvir o som fraco da campainha colocada atrás da porta. Como se não tivesse qualquer valor para quem quer que fosse. por mais voltas que dê à questão. Gosta de grandes cidades.Pois. queria experimentar a sensação de dar à luz e não lhe passava pela cabeça que o marido não fizesse parte do processo. Tinha acessos de mau humor.Porque é verdade.Qual a razão de me contar tudo isso? Ele bebeu mais um gole e voltou a arranhar o rótulo da lata de cerveja. nada têm a ver com o que acaba de dizer-me. o vento estava a aumentar de intensidade. a olhar para o tecto. eu tenho apenas a Doris. Tem uma . não quis acreditar. Encolheu os ombros e prosseguiu. . Não queria crer que tivesse uma deFiciência. eu prefiro as vilas pequenas.

O seu rosto adorável ensombrou-se de tristeza. espantoso. não compreende. bom. se não quero ser eu a sacrificada. ele não conseguiu evitar uma gargalhada.Não .Jeremy..Então. Que conhecê-lo foi. Baixou os olhos e na quietude que se seguiu até podia ouvirse o tiquetaque do relógio colocado por cima da lareira. . no nosso caso. em vez de voltar à minha antiga maneira de viver? O dedo dele parecia carregado de electricidade. É inteligente. Estendendo o braço. um teria de se sacrificar. eu compreendo. enquanto ele se viu subitamente assustado ante a hipótese de a perder. interrompeu-se. .. Apesar da tensão. . Porque ouviu o que eu disse mas não ligou. E que também eu gostaria de pensar que existe uma maneira de fazer que esta relação resulte. aquilo que decidimos fazer das nossas vidas.. bem.No entanto.O motivo que me leva a contar isto é o facto de os dois . a escolher as palavras com cuidado. e continuou: .. hesitou..Fechou os olhos por momentos. Lexie abanou a cabeça.E se eu afirmar que não se trata de um sacrifício? . Se um de nós for forçado a substituir o que temos.replicou Lexie -.Tudo bem. E. tentou manter a voz firme.. não é justo que deseje que se sacrifique por mim. A tentar ignorar a sensação...indagou Jeremy. por vezes é um bocado atiradiço. .. . . . não está disposta a fazer nada para que resulte..Sei que é possível que algumas pessoas o façam.. eu. .. usou um dedo para voltar o queixo dela na sua direcção. Contudo.profissão que adora e eu.Pois bem. Foi você próprio quem disse que se apaixonou pela Maria por ambos partilharem os mesmos valores.. Certamente que gostava que a relação entre nós funcionasse.E se eu disser que prefiro ficar consigo. amável e encantador. Ela prosseguiu. E que me sinto lisonjeada. tenho a biblioteca e também a adoro. mas é uma tarefa difícil quando se trata de estabelecer uma relação. . . eu diria que também passei dois dias maravilhosos..

Ter filhos é cuidar deles. . só para que saiba. Em poucas palavras e calmamente. A resposta provocou-Lhe uma certa tristeza. está bem? Para já. honestamente. tão fantástica como a descreveu. e o facto de ainda poder continuar a referir-se-lhe de uma maneira simpática demonstra que o erro foi dela. Renaissance. Pode ser? . .Agora é fácil de dizer. criá-los. que continuaremos a sentir o mesmo um pelo outro se tivermos de fazer grandes viagens para estarmos juntos? . julgo que a sua ex-mulher agiu de uma forma horrível e que não é. ainda não estou preparada para isso. Areia foi atirada contra as vidraças das janelas.últimos dias terem sido incríveis.confessou. . Hesitou.E. .começou. nem de perto nem de longe. Quando acabou mostrava uma expressão quase pecaminosa. a sentir a garganta seca -. Sabendo o que ele estava prestes a dizer. . as cortinas foram agitadas pelo ar que forçou a entrada pelos caixilhos gastos. apercebendo-se uma vez mais de que a amava. .respondeu Jeremy com voz firme. mas poderá dizer-me. e amanhã? E de aqui a um mês? Lá fora.Lexie .Sim . Parando à porta da cozinha. Lexie voltou-se para o olhar de frente.Talvez seja esse o motivo que me leva a encarar tudo isto com um ar tão prático. . Será melhor ir verificar como está o molho e acrescentar o esparguete. eu sei o que significa ser um bom pai ou uma boa mãe. Acredite-me. mas no meu passado também houve episódios que deixaram mágoas . amá-los e apoiá-los. nem com a experiência da gravidez. Foi com uma certa sensação de amargura que Jeremy a viu levantar-se do sofá.. eu. nada disso tem a ver com o que se passou na cama durante uma certa noite. falou-lhe de Mr. Não estou a dizer que vai desaparecer como ele. o vento assobiou ao rodopiar à volta da casa. antes de pousar suavemente a lata de cerveja na mesa..Posso. levantou as mãos para que parasse. limitemo-nos a apreciar o jantar.pediu. Não se deixa o marido por um motivo desses.Por favor. Jeremy encarou-a de frente.

A melodia ecoava suavemente quando começaram a dançar. na cozinha acanhada. compreendeu que Lexie era a razão da sua vinda a Boone Creek. acabou por se encostar a ele. ficou a ouvir Billie Holiday a cantar na rádio a canção I'll Be Seeing You. fechou os olhos e encostou-se mais. De súbito.Aqui? Agora? Sem mais uma palavra. . iam-se movendo ao som da música suave. Ele sabia que ela estava a tentar ser forte perante a mesma emoção que ele próprio sentia e admirou-a. A seguir. as ondas continuavam a rolar. a . levantou-se para a seguir.Rodou na direcção da cozinha e desapareceu. era o que sempre procurara. . Aquilo. Quanto a ele.Lhe a mão nas costas e puxou-a suavemente para si. beijou-Lhe os dedos e só depois Lhe soltou a mão. Quando o polegar dele lhe começou a roçar pela mão e o ouviu sussurrar o seu nome. A respiração de Jeremy aquecia-Lhe o pescoço e sentia-lhe a mão a empurrar-lhe as costas com suavidade. compreendeu. a saber que tinha de agarrar aquela oportunidade.agradeceu. a sentir o coração a acelerar. a resposta que sempre procurara. importa-se de dançar comigo? Espantada. e. a descansar no calor do corpo dele. . resolveu dar um passo na direcção dela. tanto pela paixão como pela discrição.pediu. . a saber que se não aproveitasse aquele momento.Não tem de quê . A sentir um aperto na garganta.É capaz de me fazer um favor? . Lexie levantou os olhos para o tecto. Jeremy aproximou-se mais e pegoulhe na mão.Obrigado por me ter dito o que disse . Encostou-se à porta da cozinha e ficou a vê-la pôr mais uma panela ao lume. a desenhar círculos lentos. talvez ele não voltasse a acontecer.respondeu Lexie.Como talvez não consiga chegar a tempo amanhã. pôs. repousou a cabeça no ombro dele e sentiu desvanecer o que restava das suas reservas. Sorriu ao levar a mão dela aos lábios. Para lá das janelas. . a recusar-se a olhá-lo de frente. e embora se sentisse embaraçada de início. Lexie sentiu que se deixava levar. cada um perdido no outro. No entanto. de olhos fixos nos dela.

parecia ainda mais íntimo do que qualquer outra coisa que já acontecera naquela noite. acariciando-lhe a barba dura das faces. Sentiu a língua dele roçar-lhe pela pele. Ficaram na cama durante horas. O vento frio assobiava à volta da casa. De vez em quando afastava-Lhe os cabelos dos olhos. antes de os esmagar com força. Horas mais tarde. O jantar fervia lentamente no fogão. a fazer amor e a rirem-se calmamente. como se quisesse provar a si mesmo que ela era de carne e osso. Jeremy sussurrou-lhe que a amava e disse-lhe o nome como se fosse uma prece. Quando. Jeremy enfiou as calças de ganga e juntou-se-Lhe na cozinha. Voltou-se para apagar o fogão e. Ao mover-se para cima dela. Amaram-se lentamente. cada um a saborear o outro sem pressas nem premências. ergueu os olhos para ele. satisfeito só por poder abraçá-la. beijando-a no rosto e no pescoço. que desaparecia no negrume cada vez maior da noite. Jeremy abraçou-a. a devorar o jantar mais delicioso que alguma vez provara. até que Lexie se afastou. o acto de comerem juntos na cozinha. com a sua humidade embriagante. voltaram para a cama e Jeremy puxou-a para si. maravilhado com o ligeiro rubor das suas faces. Ficou a vê-la dormir. Ele reagiu ao toque. a reviver o serão. para finalmente acabarem de cozinhar o jantar. Mais tarde. Beijaram-se na cozinha durante muito tempo. e levou-lhe a mão à cara. Depois de se afastar um pouco para ver se ela estava bem. ele de tronco nu e ela nua por baixo do fino roupão. Lexie levantou-se e enfiou um roupão. convicto de ter encontrado a mulher com quem desejava passar o resto da vida. a roçar-Lhe a pele com a língua quente. Roçou-Lhe os lábios uma vez. conduziu-o para o quarto. Por qualquer razão. Jeremy acordou e notou a falta . por fim. ele ficou a olhá-la através da chama. As suas mãos não tiveram descanso. agarrando-o pela mão.espraiarem. Quando Lexie acabou por adormecer nos seus braços. Depois de Lexie ter acendido uma vela. a comprazerem-se com os toques mútuos. Pouco antes de amanhecer. voltou a beijá-la e ela retribuiu o beijo.se em direcção às dunas. a apreciar a força dos braços dele. e outra.

mas não estava a ler. Encontrou-a na cadeira de repouso. . Jeremy sentiu que algo não estava bem.Não.Não. Estou bem.Não conseguia dormir . mas sem acrescentar pormenores.respondeu.respondeu. num dos braços da cadeira. e rodeou-lhe a cintura com um braço. aberto quase nas primeiras páginas. . mas faltava o roupão usado durante o jantar. Deu mais um passo na direcção dela. tremeu ligeiramente com o frio e cruzou os braços ao percorrer o corredor. As roupas dela continuavam no chão. ruído que a fez despertar. a tentar acreditar. temos de nos levantar cedo para apanhar o barco de carreira.Estás zangada comigo? .comentou. também não é isso .se ao lado dela. Lexie sorriu. para coisa nenhuma. .Lamentas o que aconteceu? . .Como assim? . além do mais. Na semi-obscuridade. a evitar pressioná-la. . Jeremy fez um aceno de concordância. Fechando as calças.O que é que estás aqui a fazer? Estamos a meio da noite.Um livro interessante . E. Embora não inteiramente satisfeito com a resposta. Vê-lo aqui trouxe-me de volta algumas memórias. . .de Lexie. saltou para o chão e enfiou as calças. .Olá . Tinha o livro de apontamentos da Doris no regaço. Jeremy chegou-a mais para si. Em vez disso. Sentou-se na cama. fazendo ranger as tábuas do soalho.Estás bem? . bateu nos cobertores como para ter a certeza. .cumprimentou. perto da lareira. Sentou. olhava na direcção da janela escurecida.Há muito que não o folheava.Sim. Espero ter tempo suficiente para o poder ler. com um copo de leite pousado na mesinha colocada a seu lado.

numa voz muito calma. . Julgamos que nos conhecemos. a idade de ambos e o tempo de gravidez da mulher. mas nem sequer sabes os nomes dos meus pais. pareceulhe idêntica a outras.confessou ele. mas depois apontou a página que estivera a ler. chegaste a esta nota? . Esta é a entrada em que foi previsto que eu seria uma rapariga.O que me preocupa é não ter a certeza de que alguma vez os venha a saber. . . em vários aspectos.Lê.E isso preocupa-te? Pensares que não nos conhecemos suficientemente bem? .perguntou Lexie. .Significa alguma coisa para ti? . abraçados um ao outro. Então. E a previsão de que a mulher ia ter uma menina.Não . ficou a olhar para ela. Lexie abraçou-se a ele. . . Os nomes dos pais. .Não. Deviam dizer? Lexie baixou os olhos. . DEZASSEIS . . ambos a desejarem ficar assim para sempre. com uma ternura que fez doer o coração.Não.Os nomes Jim e Claire dizem-te alguma coisa? Ele perscrutou-lhe o rosto.Quando leste o livro. . Jeremy leu a nota rapidamente. E eu não sei os nomes dos teus.Ela hesitou.admitiu Lexie. Quando acabou.Eram os meus pais . Durante muito tempo ficaram sentados na cadeira.Era nisto que eu estava a pensar. Jeremy ergueu as sobrancelhas com ar inquisidor.Não percebo a razão da pergunta .esclareceu. Ele sentiu um nó começar a formar-se no estômago.

quando Lhe pusera o braço à volta dos ombros. é este o teu amigo? . parecendo. o telemóvel de Jeremy passou a dispor de rede para permitir a leitura das mensagens. nunca tivera o privilégio de visitar a cadeia do distrito.sussurrou. Lexie levou Jeremy até ao carro dele e ele seguiu-a no regresso a Boone Creek. passou a falar dos diversos naufrágios registados ao longo da costa e. mais uma pulseira com tachas.. Alvin definhava na prisão da comarca. a dizer que tinha sido preso.Olha lá. continuara durante as horas seguintes. desde o momento em que Lexie e Jeremy chegaram. sempre que ele tentava uma conversa mais séria. Entretanto. Nate tinha deixado quatro. Quando saíram do barco de carreira. todas acerca da reunião projectada. tinha-se mantido silenciosa. O humor desconcertante dela. pertencer ao meio. a olhar as águas de Pamlico Sound.Credo. Embora não o tivesse repelido no barco. por sua vez. e.resmungava. Fez um gesto discreto na direcção da cela. ainda mais estranho. mas preocupado também com a Lexie. . podes fazer o favor de me tirares daqui? . Até hoje. Nem lhe voltara a falar no assunto anterior. Alvin encarou-os com um olhar desvairado e de faces vermelhas. em Swan Quarter. . mudava de assunto ou nem chegava a responder-lhe. que tinha começado antes do nascer do dia. Alvin.Que raio de anedota de terra é esta? Será que acontece aqui alguma coisa que possa considerar-se normal? . Jeremy assentiu. desassossegado acerca do Alvin. Vestido com uma T-shirt preta dos Metallica. calças e blusão de cabedal. que ambos deixaram com relutância. .perguntou Lexie. sem descanso. Apenas esboçou um breve sorriso e não correspondeu quando ele Lhe acariciou a mão. De manhã cedo. pelo menos na opinião de Lexie. tinham emalado as suas coisas e fechado a casa da praia.Normalmente não é assim . Tinha os nós dos dedos brancos devido à força com que agarrava as grades de ferro. Embora tivesse passado praticamente toda a sua vida em Boone Creek. deixara um alerta angustiado.

aquilo parece alguma vila? Depois.. passei por um par de bombas de gasolina e continuei. a ignorar Alvin. . .Queres saber o que aconteceu? Já te conto o que é que aconteceu! Aconteceu que todo este lugar é uma porcaria! Primeiro.E. com os olhos a mostrarem um brilho de louco. . e depois de conseguir chegar ao Greenleaf.Pois. de braços cruzados.O que aconteceu? . . não liguei. . Quando consegui descobrir a vila eram quase nove horas da noite.. vinha a conduzir pela estrada.O Tully . o único lugar para ficar? Pois bem. a levantar a voz..Havemos de encontrar uma solução . Seria de esperar que encontrasse alguém que me pudesse ensinar o caminho para o Greenleaf. parece lançar-me um mau olhado. perdi..explicou Jeremy. para além de tudo.garantiu Jeremy.resmungou Alvin. como tinha feito durante as últimas oito horas. Jeremy não usara o quarto naquela noite e Lexie também não ficara em casa.respondeu Alvin. perdi-me outra vez! E depois de um tipo da bomba de gasolina ter estado meia hora a metralhar-me os ouvidos. pensando. além disso.. .Que se lixe! . Segundo o Jed. . sem querer irritar Rodney ainda mais. Mostrara-se furioso quando Jeremy e Lexie apareceram. Poderia tratar-se de uma coincidência. do que tinha sérias dúvidas. O gigante peludo que lá está.O quê? . está certo? Mas a seguir. O tipo lamuriava-se muito e.Conta-me o que aconteceu. . . O que não era nada bom. não é? Qual seria a dificuldade? Vila pequena. .me ao tentar encontrar esta vila estúpida..O tipo que falou contigo. andei horas perdido no meio de um pântano. Quero dizer. carrancudo. entrega-me o teu bilhete e enfia-me naquele quarto cheio de animais mortos. o ajudante estava muito mais interessado em Jeremy e Lexie. com um aceno de quem sabe.Todos os quartos são assim. isso sim.Rodney estava atrás deles. . que tinham passado a noite juntos. e não tem um ar muito amigável. nem te pus a vista em cima.

trouxe-o para aqui para sua própria segurança. .Desculpa por não estar cá.. . um pouco mais tarde.bradou Alvin. . Tudo a ser fantástico.Portanto.contrapôs Rodney -. certo? Portanto. . Estávamos a entender-nos mesmo bem quando este tipo entra. fui até àquele lugar chamado Lookilu para beber um copo. Perguntei.berrou.gritou Alvin.Estava a abusar! Eu não tinha feito mal nenhum! . parece que é o único estabelecimento aberto àquela hora. tira-me daqui! Lexie olhou por cima do ombro: .Tinha bebido e estava a preparar-se para conduzir. . de qualquer das formas. E começa a perguntar-me o que é que eu tinha bebido e dizer que não devia estar em condições de conduzir.Já o fiz .Portanto. Pela primeira vez. Foi então que lhe disse que estava bem e que trabalhava contigo e a próxima coisa de que me lembro é de estar metido atrás das grades para passar a noite! Ora bem. Há apenas um par de pessoas em toda a sala e meto conversa com esta rapariga chamada Rachel. tudo bem. fui para o meu carro e logo a seguir aparece este tipo a bater-me na janela com a lanterna e a mandar-me sair do carro. a apontar Rodney.Deixas-me acabar? .Rodney. como sabes. e ele disse-me que lhe serviu sete bebidas. foi assim que aconteceu? O ajudante pigarreou.Até certo ponto. . a dar novas indicações de desequilíbrio nervoso. que sorriu sem mostrar os dentes.. Mas ele está a esquecer-se da parte em que disse que eu era um chui grande e estúpido. recebi o teu bilhete e segui as tuas instruções para chegar ao cemitério.Duas cervejas! Bebi duas cervejas! . a parecer que tinha acabado de engolir um pau. certo? E cheguei lá mesmo a tempo de ver as luzes e foi fantástico.. não me senti chateado. em muitas horas.Lhe qual o motivo e ele mandou-me outra vez sair. Pareceu-me tão irracional que pus a hipótese de estar drogado ou de poder tornar-se violento. . que me havia de processar por abuso de autoridade se não o deixasse ir em paz.Pergunte ao dono do bar! Ele diz-Lhe! . . .

Lexie interpelou Rodney: . Mas também não estás a ajudar-te a ti mesmo.perguntou. Ela resolve tudo.Eu sei.prometeu Jeremy. . em pânico. . . Alvin quedouse em silêncio. . continuou a olhar na direcção da cela. Alvin berrou de novo: .O seu dever! O seu dever! Prender pessoas inocentes! Estamos na América e aqui não se pode fazer isso! Mas o caso não vai terminar assim! Quando eu lhe fizer a cama.O tipo está a mentir! . Deixa a Lexie tratar do caso. Juro pela saúde da minha mãe! Jeremy e Lexie olharam ambos para Rodney. .berrou Alvin.Pois anda.Ele anda a perseguir-me! . nunca deveria ter cá entrado! . nem conseguirá um lugar de vigilante de supermercado! Está a ouvir! Chui! Nem no supermercado! Era óbvio que ambos teriam passado a maior parte da noite naquele jogo.Apenas cumpri o meu dever. Rodney não conseguiu olhá-la de frente. . a esbugalhar os olhos na direcção de Jeremy. Finalmente. . Jeremy! Nunca conduziria se tivesse bebido demasiado.Em primeiro lugar.Onde é que estiveste na noite passada? Lexie cruzou os braços. Logo que ela saiu na companhia do ajudante. No corredor. com o rosto entre as mãos.. Olhava por entre as grades. em vez disso.Vamos tirar-te daqui . .Duas bebidas! Juro.Estive na casa da praia.Deixa-me falar com o Rodney. Lexie sussurrou: . Este encolheu os ombros.O que é que está realmente a acontecer? .

Lexie conhecia o motivo e não disse nada quando Rodney deixou a frase em meio. . O que é ilegal. quando ele se preparava para irse embora. Quero dizer.Não sei. Rodney. Passados instantes. . como se ainda procurasse justificar-se perante si próprio. queria saber se ele estava a pensar em seguir para casa dela. .. meteu-se com a Rachel e chamou-me nomes. Depois de uma pausa. à procura de uma forma de lhe responder. não tenho nada a ver com isso. há que ter em conta que ele tinha bebido e estava a preparar-se para conduzir. a ver que não obtivera uma resposta completa. se é isso que queres saber. .Não pensava fazê-lo. mas alguém tem de tomar conta dela .A percentagem de álcool estava além do limite? .Não fui com ele. Foi ele que provocou a situação. sem qualquer vestígio de bom senso.Rodney! .repreendeu Lexie.No entanto. fui falar com o tipo. . Nunca me dispus a verificar isso. É grosseiro e tem mau aspecto. mas. . mas comecei por ser insultado.Por que motivo é que o prendeste? Sê franco. ele fez-me zangar.Fosse como fosse. a indicar Jeremy com um movimento de cabeça. está bem? Sabes que vais meter-te em trabalhos se o mantiveres aqui sem motivo.Lexie.confessou.Rodney.explicou. prosseguiu: .. E eu também não estava nada bem-disposto. subitamente. perceber que espécie de homem ele era. . Lexie colocou-lhe a mão no ombro.Com ele? Ela hesitou. . a aperceber-se de que também não queria saber mais. Rodney abanou a cabeça. Voltou-se para a amiga: . . depois disse que trabalhava com aquele tipo.Ouve. . Rodney assentiu..Ele estava a meter-se com a Rachel e sabes como ela fica quando bebe: só pensa em namorar. Especialmente com o .

resmungou Alvin. flanqueado por Jeremy e Lexie. arranja-te um sarilho. . Boone Creek é a minha terra. Vou queixar-me ao procurador.Isto não Fica assim . o ajudante não desviou o olhar. .Não.presidente da Câmara. a repisar no mesmo.repreendeu Lexie com voz firme.Limita-te a caminhar.Têm viagens marcadas para amanhã.E também zela pela segurança de quem vive aqui. . a vê-los ir. .Esquecer? Está maluca? Sabe perfeitamente que ele fez asneira! . . . . sabes que quanto mais depressa o soltares. . a olhá-lo pela porta aberta do carro. Alvin estava livre e seguia em direcção ao parque de estacionamento. Este gajo tem de ser despedido. . nada disso .Prendeu-me sem motivo! . Chegaram junto do carro e Jeremy indicou a Alvin o banco traseiro. mais depressa eles os dois poderão ir-se embora. ele descobre o que fizeste ao fotógrafo.Não . . para que o ajudante pudesse reflectir. Pela primeira vez. Rodney Ficara à porta da cadeia comarcã.Além disso. seja o que for que você pense.De verdade.voltou a aconselhar Jeremy. . . Dez minutos depois.Não passa de um rústico com uma arma e um crachá! . depois de todo o trabalho que teve para se assegurar de que o artigo seja favorável.O melhor que tem a fazer é esquecer o episódio aconselhou Lexie.sussurrou -. a agarrar Alvin por um braço. pensas que ele está preparado para partir? Lexie olhou Rodney nos olhos.É um bom homem. É aqui que vou permanecer.Parou uns momentos. Se. .Vais com ele? Foi preciso algum tempo para ela encontrar a resposta que tinha procurado durante toda a manhã.Não digas seja o que for . .

. acabou por se voltar para Jeremy.Quem é você para me dizer o que devo fazer? . .Talvez melhor. mas bonita. Alvin fez um aceno e calou-se por momentos. Ela compreende esta terra melhor do que eu e do que tu. vai-se embora amanhã e o ajudante não vai voltar a incomodá-lo . a acentuar o sotaque. além de que ainda não me deixou ficar mal.Pois acho.. vai esquecer-se.Talvez um bocadinho mandona.respondeu.Acho que lhe dás razão quando me aconselha a não falar mais do caso.É inteligente. Mas como não houve acusação formal.Pois fez.Melhor ainda. E todos os habitantes da vila sentem o mesmo. Alvin fez um sorriso maldoso. .Bem. é justo que o admita. Quanto a si. . . .Acho que vocês passaram a noite juntos.Tem de ser extraordinária. quer queira quer não.Tão bem como a tua mãe? . .comentou.Muito . . O amigo não respondeu.. . . . .Além de que. . cozinha como uma italiana.interrompeu Lexie.E não sou apenas amiga do Jeremy. pois também tenho de viver aqui com o Rodney e não minto quando afirmo que me sinto bastante mais segura por tê-lo por cá. então? .Ainda não perceberam que tenho de ouvir toda a vossa .É esta? Jeremy acenou que sim.É bonita .concordou Jeremy.Sou a Lexie Darnell .. a indagar: . . sem querer acreditar no que ouvia. quando regressar a Nova Iorque vai ter uma história das Arábias para contar. Alvin ficou a olhar para ela. a sorrir. não se esqueçam que ainda aqui estou! .acrescentou.

. não era preciso ser um génio para perceber o que tinha acontecido.respondeu. Contudo. bem. Não. com um encolher de ombros. na noite anterior. Mesmo cansado por não ter dormido. . .É claro que sim . Tinha perguntado se.Sabes. Sabia que não devia ter prendido o homem. Jeremy olhou para Alvin. tinham vivido situações em que se sentira prestes a descobrir a forma de lidar com ela. não se sentia muito mal por isso. Diferente da forma como se tinham comportado na festa da outra noite.. . Com uma condição.indagou Jeremy. Suspeitar era uma coisa. Paguem-me o almoço e esqueço-me de tudo. não tivera a certeza antes de ouvir a maneira ardilosa como ela tentara responder-Lhe sem dar resposta.Toda esta conversa sobre comida italiana fez-me fome e desde ontem que não como.conversa? .. ela tinha estado na praia com o Jeremy.Podemos seguir? . não querendo pensar mais no assunto. desejara dizer-lhe. não lhe tinha perguntado aquilo.Qual é? . Coçou o alto da cabeça. E mais. Caso arrumado. Só não podia garantir se a Lexie e Jeremy tinham passado a noite juntos. mas este novo caso.Desculpa . a resposta vaga fora suficiente. pensou. vou esquecer-me de tudo o que aconteceu.. mas o tipo começara a dizer asneiras e a mostrar-se arrogante. vinha provar o contrário.pediu Jeremy. .inquiriu Lexie. além de lhes contar como decorreram as filmagens de ontem à noite. uma vez mais. Tudo o que pretendera fora exercer um pouco de pressão. Rodney Ficou a vê-los afastarem-se. Nãofui com ele. mesmo assim. que gostaria de a compreender melhor. que parecia estar a pensar o que deveria fazer. antes de voltar para dentro. No entanto. e notou a maneira como tinham agido momentos antes. não vinha? Como é que ela deixou que voltasse a acontecer? Como é . mas. um indicador de que algo se tinha alterado entre os dois. ter provas era outra. No passado.. são os velhos hábitos. se é isso que queres saber. A certeza fê-lo sentir-se mal.

embora lhe respondesse com um sorriso. Rodney. .sussurrou Alvin. a amá-la. . Jed enrugou a testa e cruzou os braços quando viu o Jeremy.Meu Deus. Alvin deu uma olhadela à T-sirt. é claro. mas deveria ter decidido. como quem pergunta: Não estarás a brincar? Jeremy pareceu pensar em voz alta: . Não fazia qualquer sentido mas ele. mas já lhe dera tempo mais do que suficiente para que percebesse o que sentia por ele.Não sei. . Talvez não goste dos Metallica. Alvin parou à entrada do Herbs quando viu o Jed sentado a uma das mesas. pelo menos durante uma noite. pensou. Com a fúria a desvanecer-se.O nosso amigo recepcionista não parece muito contente por nos ver . Jeremy olhou-o de relance. . de Lexie tomar uma decisão. que estranho. Um homem que sempre se mostrou tão simpático. começava a estar cansado de se preocupar com o assunto. .informou Alvin. Continuava. reflectiu.A filmagem de ontem correu optimamente . Limitei-me a preencher a ficha. para dizer: . Deves ter feito alguma coisa que o desgostou.O que é que o meu aspecto tem de estranho? Lexie ergueu uma sobrancelha. mostrava uma expressão ausente. Os olhos do Jed eram duas fendas estreitas.Talvez não goste do teu aspecto. a Lexie e o Alvin tomarem lugar numa mesa perto da janela da frente. inclinado sobre a mesa.que podia ter-se esquecido do primeiro forasteiro que passara pela cidade? Já não se recordaria da depressão em que caiu? Não saberia que iria ficar novamente magoada? Lexie tinha forçosamente de saber aquelas coisas. . como se tivesse a cabeça bem longe dali.Não fiz coisa alguma. Estava cansado de ser magoado por ela. . que não ligava às consequências.Que se lixe! Jeremy piscou um olho a Lexie. Chegara a altura.

ao estender a mão para a ementa. decidido a deixar o assunto morrer. passou toda a tarde a ligar para mim. Lexie respondeu com um sorriso fugidio. além disso. O que me faz recordar que tenho de telefonar ao Nate. é isso? Pelo canto do olho.concluiu. .foi saudando ao aproximar-se. Como não conseguiu contactar-te. É o género de pessoa que acha que o Central Park devia ser loteado para construção de apartamentos e centros comerciais. ficou a olhar para a lista. ..Olá. Material espantoso. .Bem. Vendo o olhar perplexo de Lexie. Jeremy viu Lexie olhar para o outro lado. Não percebo como é que consegues aturar aquele tipo. E.Esse também vem cá? .Lexie é bibliotecária e tem-me ajudado na investigação esclareceu.indagou o Alvin. . para já.Fiz uma investigação exaustiva. Lex. Está demasiado ocupado com a minha futura carreira. . . olá. . Jeremy . Jeremy inclinou-se para ela. . óptimo . Alvin olhou para o amigo.Não. a esclarecer: . Parecia que houvera uma zanga de namorados.Apanhei tudo de dois ângulos diferentes e revi o filme ontem à noite. mas que ambos estavam ainda a tentar sarar as feridas. Jeremy agitou-se na cadeira. o mais vagamente possível. quanto a vós? . .E têm passado algum tempo juntos. .. Alvin. .Como é que se conheceram? Como Lexie não mostrasse vontade de Lhe responder. que estava ultrapassada. enquanto Rachel se saracoteava a caminho da mesa deles. As cadeias de televisão vão adorá-lo.Está a falar do meu agente. Em vez de prosseguir com a conversa.Então. O que era demasiado para ter acontecido numa única manhã.Olá. fora da cidade não saberia o que fazer. a sentir que havia ali qualquer pormenor que lhe escapava.

surpreendido: . Alvin pediu caldo de marisco e também uma sanduíche.admoestou. A Doris está por aí? .Julgo ter percebido que vinhas cá tomar o pequeno-almoço .Não tenho fome. para de seguida recuperar o lápis que prendera na orelha. Molhou a ponta do lápis com a língua. Acho que adormeci. Ao telefone. o que vos vou trazer? Jeremy pediu uma sanduíche.decidiu. Lexie abanou a cabeça.Não. hoje não veio. Lexie tentou perceber mais através da expressão dela. Rachel desviou-se para a deixar passar. olhou à volta da mesa. Ele olhou para Jeremy e Lexie.Queres que vá contigo? . como quem espera aprovação.Alvin levantou os olhos. a preparar as coisas para o fimde-semana. . Metendo a mão no bolso do avental. . . . Sentia-se cansada e resolveu tirar uma folga. Ontem trabalhou até tarde. Antes de se levantar. não é necessário.Desculpa. .acrescentou Rachel. . Queres ir à biblioteca.Estava quase a desistir de te ver. Rachel empunhou o caderninho das encomendas.É verdade. . será melhor eu ir verificar . não é? .Rachel! . pareceu-me estar bem. Tens o trabalho à tua espera e eu também tenho umas coisas a fazer.Não há motivo para te preocupares.De qualquer maneira. .perguntou Jeremy. .Não. mais tarde? Pretendes acabar de ler os diários. com voz grave.Ora bem. Lex .

se não te importas. No entanto. mas no seguinte. quando chegaram à cadeia.explicou Jeremy -.O prazer foi meu. Mas. . Fez uma pausa para observar o restaurante. claro.Muito bem.Acho que sim . Olhou para Alvin: . Primeiro. Na mesa do canto viu três membros do Conselho Municipal e o voluntário idoso da biblioteca. amigo. vou buscar o livro de apontamentos dela ao banco traseiro do carro. ambos agiram como se mal se conhecessem. Mas informa-me do que se passa. . ou coisa do género? . Alvin continuou céptico. enquanto ela tem feito o possível para fingir que não vê..Alvin.Doris é a sua avó . .. Momentos depois. Logo que ambas estavam fora da vista.respondeu Jeremy. foi um prazer conhecê-lo.admitiu. ela aproveita a primeira desculpa para se pôr a mexer. Quanto a mim.Não . ficas pelo beicinho. Preferia passar o resto do dia com ela. está bem? . Alvin inclinou-se sobre a mesa.Sabes exactamente aquilo que estou a perguntar-te.Pois. não faço ideia do que aconteceu. Todos o cumprimentaram com acenos. tens estado a olhá-la como se fosses um cachorrinho abandonado. Não anda bem de saúde. . . .E se nos reuníssemos lá por volta das quatro horas? sugeriu Lexie. estupefacto com o desprendimento que notava na voz dela. . e Lexie está preocupada com ela.Como a Rachel disse. E agora. deita tudo cá para fora..Sim. . Depois passam a noite juntos.Na verdade. . julgo que vou encontrá-la bem.Acho óptimo. . Tiveram alguma briga. Lexie saiu e Rachel foi para a cozinha.Do que é que estás a falar? . Num momento era tudo fantástico.

pois Jeremy não encontrava palavras e sabia que o amigo tinha razão.Ah. entra. .Porquê? .respondeu a neta ao sentar-se na borda da cama. . Alvin recostou-se na cadeira.Como ele não continuasse.Doris? . . Mas tive de regressar.A Rachel disse-me que tinhas ficado em casa e quis verificar o que se passava contigo. Não obteve resposta. e manteve-se entretido a dobrar e a desdobrar o guardanapo. não desejava ser recordado do que era óbvio. embora bastante pálida.gritou a avó -. Depois da Maria.Estive . Hoje sinto-me um pouco em baixo. para vires viver neste Fim do mundo? Ou será que ela vai para Nova Iorque? Jeremy não respondeu. .Lexie! . nenhuma mulher te afectou desta maneira. Doris estava sentada na cama.insinuou Jeremy.O Jeremy apareceu lá. . Mas pensei que deverias estar na praia. quando Lexie espreitou da porta do quarto. . Pôs o livro de lado. . de óculos de leitura encavalitados no nariz. de qualquer das maneiras não podia continuar. Lexie acercou-se da cama. Ainda estava de pijama e.chamou Lexie.Bem. Alvin ergueu o sobrolho. para dizer: . sim? Como? Tens planos para desceres até cá.Talvez continuasse . mais nada. No silêncio que se seguiu.Está assente que tenho de passar mais tempo a estudar esta senhora. . . o que é que estás aqui a fazer? Entra. deixa. estou óptima. .Oh. parecia estar bem.

Antes de se levantar um pouco mais. Esta noite vão filmar novamente. . mas. enquanto passava a mão pelo cabelo.. na noite passada ficaram os dois na casa da praia? Lexie acenou que sim. . .E então? . Um amigo de Nova Iorque. .asseverou Lexie. .Ficou impressionado .informou Lexie. .Doris ergueu as mãos como quem se rende. como é que ele descobriu onde estavas? Lexie olhou para as mãos juntas no regaço. . não está mal. trouxe o teu livro de apontamentos. .Não me atribuas a culpa.Tinha-Lhe falado da casa da praia e ele estabeleceu a relação.Preparei-lhe o teu famoso molho de tomate. tirando isso. . . passados uns momentos.Eu sei .E? A neta não respondeu de imediato. a pensar. . um fotógrafo.Parece uma mistura de cantor de rock e membro de um bando de motoqueiros. Nem lhe sugeri que fosse à tua procura.Portanto. . . Doris tirou os óculos de leitura e começou a limpar-Lhes as lentes com um canto do lençol.Jeremy precisou de boleia. a fazer-lhe uma festa no braço.. esboçou um ligeiro sorriso. Não Lhe disse onde estavas. Nem calculas a minha surpresa quando o vi a caminhar pela praia.Então. mas.Como é que é o amigo? Lexie hesitou. nada disso explica o teu regresso.No entanto. Doris observou cuidadosamente a neta. Está na sala.A propósito. . veio até cá para filmar as luzes.

. a Rachel. Apertou-a com carinho. a analisar a neta. . a revelar a sua dificuldade em entender as pessoas. . estava a mostrar-se bemeducada.Não . Por vezes.Reparaste? . ostentava um largo sorriso. no alpendre do Herbs. O amigo protestou: . Doris assentiu.Para ti. Quando finalmente se despediram. . tudo é sexualmente excitante . DEZASSETE De pé. a seguir as costuras da colcha da cama com um dedo..respondeu Lexie.Desejas falar sobre o verdadeiro motivo de estares aqui? . Trata-se de uma questão que tenho de solucionar sozinha. Jeremy consultou o relógio. Só a maioria das coisas. como se já tivesse esquecido os acontecimentos da noite anterior. Alvin estava a dar o seu melhor e a Rachel não parecia desejosa de lhe dizer adeus. embora o seu amigo não estivesse a percebê-la.sussurrou quando estava suficientemente perto. .É esse o meu trunfo . aos olhos de Jeremy.Eh pá. a aguardar que Alvin acabasse a conversa com a Rachel. mais do que verdadeiramente interessada em Alvin. É tão.Acho que ela gosta de mim.observou Jeremy. não quero. o que em condições normais era um bom prenúncio. Alvin juntou-se a Jeremy.. Lexie mostrava-se sempre corajosa. O que era provável. que miúda! Adoro a sua maneira de falar. No entanto.Depois que ela se calou.Por que não havia de gostar? . O Alvin estava.Isso não é verdade.concordou. . sexualmente excitante. uma vez mais. Jeremy sorriu. a avó sabia que o melhor era não Lhe dizer nada.Na verdade. . Doris estendeu o braço para lhe pegar na mão. .

mesmo que não tivesse tido muita sorte com os rapazes que conhecera ao longo dos anos. Ouvi dizer que vai lá estar a cidade em peso. Mostrara-se algo reservada quando ele se sentou perto dela no Lookilu.. Nunca fora grande apreciadora de tatuagens e. lhe dar a entender que não o perderia de vista quando se metesse no carro.No velho armazém de tabaco. Embora a sugestão parecesse destinada a intimidar as pessoas. sabia que nunca lhe telefonaria. . desde há muito tomara a decisão de não namorar com um homem que tivesse mais brincos do que ela. É provável que consigamos passar por lá. ao mesmo tempo que via Alvin deixar o restaurante. cumprimentava diversos conhecidos. Rodney também tinha algo a ver com isso. acrescentou: . depois de ele ter revelado o que estava a fazer na vila e que conhecia Jeremy. antes de voltarmos a filmar.Esta noite há baile? . Tenho a certeza de que ela também vai. Até prometera arranjar bilhetes. Rachel ficou a verificar as notas de pedidos com ar ausente. que permitiu a Alvin passar a hora seguinte a falar de Nova Iorque. Rodney queria ter a certeza de que ninguém tentava conduzir embriagado. Contudo. Rodney também acrescentava que estava pronto .Bom.Só estranho que ela não me tenha falado nisso. Contudo. talvez a encontremos no baile desta noite. Passeava por entre as mesas.Óptimo! . acompanhado de Jeremy. ele anotara o seu número de telefone na agenda dela e pedira-lhe que lhe telefonasse. tinha de admitir que aquela não era a única razão para a sua falta de interesse. quando ela se referiu ao desejo de um dia a visitar. As visitas do ajudante ao bar eram frequentes. logo de seguida. para. se sentisse que alguém estava a passar das marcas. mas. Fez a cidade parecer o próprio Paraíso e. iniciaram uma conversa. pelo que todos os frequentadores da casa sabiam que o ajudante poderia aparecer por lá a qualquer hora da noite. e quem estivesse a beber demasiado devia tê-la em conta. . Por mais lisonjeiro que considerasse o gesto dele.exclamou Alvin ao descer do alpendre. para o caso de ela querer assistir ao espectáculo Regis and Kelly.

De certa forma. Durante o trajecto para casa não se cansou de rever a cena. quando Rodney entrou. como os clientes não pareciam importar-se. para dar lugar a uma raiva repentina.a levar a pessoa a casa. a tentar descobrir se vira realmente o que julgara ter visto. Mais tarde. e ambos passaram umas duas horas a rever o que Jeremy conseguira descobrir. tornavam fácil a detecção de pormenores que Jeremy tinha descurado. que desapareceu com a mesma velocidade com que tinha aparecido. ele e Jeremy dirigiramse para o Greenleaf. . não deixara de resmungar contra a presença de um ajudante do xerife a patrulhar-lhe a casa. o que lhe permitira não precisar de prender ninguém durante os últimos quatro anos. pareceu uma reacção provocada pelo ciúme e Rachel pensou ter sido esse o motivo que a levou a deixar o bar logo que ele saiu. concentrar-se no trabalho era a única maneira de não pensar na Lexie. já deitada. que ficara estacionado numa rua próxima do Lookilu. combinadas com a passagem em movimento lento. em especial quando comparados com os que Jeremy conseguira. Julgou que talvez ainda houvesse uma esperança para ela. Alvin tomou um duche rápido. no entanto. para melhor explicar aos telespectadores o que Lhes estava a ser mostrado. A claridade e definição. reparou que ela estava a conversar com Alvin e por instantes pareceu quase magoado. Jeremy mudou de roupa. ou se estava apenas a imaginar coisas. fora aceitando gradualmente a ideia. costumava sorrir e aproximava-se para conversar um pouco. Noutras alturas. Na noite anterior. porém. Depois de terem ido buscar o carro de Alvin. a princípio. Melhor ainda: havia umas quantas sequências que Jeremy podia escolher e transformar em imagens fixas. como fazia sempre. Para Jeremy era uma maneira de aliviar a pressão que sentia. Era a sua maneira de manter os bêbados fora da estrada. Tal como ele prometera. Uma reacção inesperada. desta vez. acabara por concluir que não devia sentir-se preocupada por Rodney se mostrar ciumento. os filmes feitos pelo Alvin eram extraordinários. Até o dono do Lookilu deixara de se incomodar com a presença de Rodney. até começar ele próprio a pedir a comparência da autoridade quando pensava que algum dos presentes no bar precisava de ser levado a casa. não precisou de muito tempo para ver a Rachel sentada no bar.

Alvin colocou a máquina em várias posições. talvez até tivesse remorso do que tinha acontecido. pensou. Jeremy fez Alvin recuar no tempo histórico. Só lhe restava uma dúvida: não sabia se ela agia assim por o amar e achar que era mais fácil afastar-se dele agora. Recordou a noite que passaram juntos e tentou. ou se o fazia por não o amar e. usando as referências que conseguira coligir para interpretar o que estavam a ver. para ver o local com os próprios olhos. Jeremy apontou o sítio onde. o comportamento da Lexie naquela manhã sugeria que ela apenas procurara uma desculpa para se afastar dele. Gastaram uns minutos a observar as instalações. Dali seguiram para o cemitério. Do que ambos precisavam era de uma oportunidade. os mapas. a verem a madeira a ser carregada em transportadores e. Mas o Alvin. Sim. mais tarde. Gostaria de poder passar a tarde com ela. Nunca se interessara muito pelas minudências do trabalho de Jeremy. no caminho de regresso. continuava a não perceber. ele estava de partida.as três versões da lenda. em consequência. Contudo. Desejava saber o . até à fábrica de papel. mesmo assim. contudo. os detalhes sobre vários aspectos da luz refractada . iriam filmar. a quem acabou por convencer a levá-lo ao outro lado da ponte. E também era verdade que não se conheciam muito bem.A partir dos filmes. tivera razão. uma vez mais. mas não se cansara de Lhe repetir que haviam de encontrar uma maneira de fazer funcionar a relação. deixando Jeremy a deambular sozinho. agora. para que Alvin pudesse fazer algumas fotografias à luz do dia. com a quietude do cemitério a forçálo a pensar na Lexie e nas suas preocupações acerca dela. descobrira o suficiente para poder afirmar que poderia amá-la sempre. perceber o que a obrigara a sair da cama a meio da noite. Na noite passada tivera a certeza de que ambos sentiam o mesmo. como Jeremy continuasse a demonstrar cada pormenor . Por muito preocupada que estivesse com a Doris. mesmo considerando o pouco tempo que tinham passado juntos. não estar interessada em perder mais tempo junto dele. as notas sobre as pedreiras. sabia que ela estava a sentir-se arrependida. mas.Alvin começou a bocejar. Todavia. Apesar dos desmentidos. os diversos projectos de construção.

Muitas pessoas pareciam trazer a mesma brochura que a Doris lhe tinha enviado e liam em voz alta os trechos que realçavam as características únicas do edifício. Verificou que a biblioteca tinha mais gente do que era habitual. a ensaiar o que pretendia dizer à Lexie. desejava abraçá-la. Hesitou por instantes. acima de tudo. estava a mudar a máquina e o tripé para outro sítio. Alguns voluntários varriam e limpavam o pó. Encontrava-se rodeada de galhos e ramos. parou junto de uma azálea a precisar de poda. viu que o Alvin. À luz fraca do entardecer. embrenhado no seu próprio mundo e esquecido das preocupações do amigo. Jeremy supôs que. e voltou à biblioteca. de súbito. Precisou apenas de uns minutos para perceber o que era óbvio. a apontarem para cima e a apreciarem a arquitectura. Lá dentro. queria ter a certeza de que ela sentia o mesmo em relação a ele. beijá-la. na primeira vez que a encontrou ali. Pôs-se de cócoras. o pessoal parecia também entregue aos preparativos.que a afligia e poder aliviar-Lhe as preocupações. convencê-la de que arranjaria uma maneira de fazer a relação funcionar. Jeremy deixou o Alvin no hotel para o amigo poder dormir um pouco. Desejava que Lexie o ouvisse dizer que não podia imaginar uma vida sem ela. dando alguns passos de cada vez. No regresso do cemitério. pelo menos cá fora. por mais difícil que fosse. Mas. Jeremy suspirou ao verificar que ele estava a desviar-se para a parte do cemitério para onde Lexie seguira quando a perdeu de vista. que os sentimentos que mostrava eram verdadeiros. como numa antevisão do Circuito das Mansões Históricas. enquanto durasse a visita oficial. viu as flores que ela deveria ter trazido na mala a tiracolo e. Ultrapassado um montículo. mas o espaço em frente tinha sido arranjado. enquanto um palpite Lhe tomava forma na mente. dois outros estavam a instalar novos pontos de luz indirecta. os candeeiros do . Lá mais adiante. As pessoas juntavam-se no passeio em grupos de duas ou três. deu com as sepulturas de Claire e James Darnell e ficou a pensar por que levara tanto tempo a com preender. percebeu a razão que levava a Doris e a Lexie a não quererem as pessoas a devassar o cemitério. e começou à procura.

respondeu Lexie.respondeu ao pôr-se de pé. . mas parece-me que fui vítima de um processo maligno de adiamento. Passou pela sala de leitura das crianças. . . Tenho a certeza de que te ficaria agradecida.Como é que está a Doris? . .cumprimentou. para dar à biblioteca uma atmosfera mais antiquada. .Pois. . deu um passo na direcção dela.tecto seriam em parte desligados. . . mas amanhã já estará operacional . mas quando percebeu o significado daquilo que estava a ouvir. A porta do gabinete da Lexie estava aberta e ele parou por instantes.Parece que me apanhaste na tentativa de tornar isto apresentável. a fingir que não tinha percebido a intenção dele. a ajeitar a blusa.Como a Rachel disse. pegou noutra pilha de livros e voltou a meter a cabeça por debaixo do tampo da secretária.Suponho que devia ter feito as arrumações mais cedo admitiu. Sorriu.Tens pela frente um longo fim-de-semana. estava a fazer o possível para pôr ordem na casa e escondia pilhas de livros por baixo do tampo da secretária. que lhe pareceu menos apinhada do que na primeira vez que a viu e continuou. . a apontar para o gabinete -.Acontece aos melhores . para ter a certeza de que a secretária continuava a interpor-se entre . Em vez de se aproximar dele. Lexie ergueu os olhos.perguntou ele. . ao reaparecer para pegar em nova pilha de papéis. Como toda a gente fazia na biblioteca. mas não é habitual em mim. bonita. talvez fosse bom ires vê-la antes de partires.Se tiveres uma oportunidade.Está óptima . mesmo que relativamente mal arranjada.Olá . Por momentos limitou-se a observá-la. a recompor-se antes de entrar.afirmou Jeremy. está apenas um bocado em baixo. .Boa tarde . Contudo. escada acima.acrescentou. Lexie deu uns passos à volta da secretária. a falar de debaixo da secretária.

. embora não pudesse saber se estava furiosa com ele ou consigo mesma. em voz mais alta. Lexie levantou de novo a cabeça. . a mostrar-se muito atarefada. .respondeu ela. Ele sentiu-Lhe a hostilidade latente. há aqui muito que fazer. como o circuito começa às sete horas.explicou. Lexie arrumou mais algumas coisas na secretária. como se estivesse a falar do tempo. Acredites ou não. Voltei a tirar os diários do arquivo.O que é que se passa? .ambos. .perguntou Jeremy.Não. . devolvendo-Lhe o olhar pela primeira vez. . ao encaixar outra pilha por baixo do tampo da secretária. Estão em cima da mesa da sala de livros raros. Jeremy ficou a olhar mas não se mexeu.Perguntei o que se passa connosco. obrigada. . numa voz neutra.Como é que está o Alvin? .Estou apenas ocupada. A obrigação é minha . deves fazer .E se precisares de mais qualquer coisa antes de partires acrescentou Lexie -.inquiriu. . .Óptimo. ainda fico aqui durante pelo menos uma hora. Só então olhou para cima. No entanto.Não faço ideia do que pretendes que eu diga.Já não está zangado. .A maior parte. antes de responder: . se é isso que pretendes saber. . apercebeu-se de que ela procurava um pretexto para iniciar uma discussão. Já expliquei que estou muito ocupada. Jeremy coçou a parte posterior da cabeça.Nem sequer olhaste para mim. Já terminaram o vosso trabalho? . de súbito. Jeremy esboçou um breve sorriso de agradecimento.indagou.Posso ajudar nalguma coisa? .Nada .

Ou que ela agisse como se nunca tivesse acontecido o que quer que fosse entre eles. até certo ponto sabia que ele fazia sentido. elaborava suposições. pois é a essa hora que vamos desligar os candeeiros do tecto. não é? . Talvez não devesse mostrar-se tão. Ao sentar-se deu uma vista de olhos pelos diários empilhados em cima da mesa. Se. supunha.E também por sermos amigos.Pensei que a sala de livros raros fechava às cinco da tarde. . Jeremy deixou o gabinete e encaminhou-se para a sala de livros raros. entre ele e a Lexie. fria. Lexie parecia querer manter as distâncias. Ou como se estivesse convencida de que a noite anterior tinha sido um erro. arranja sempre maneira de compor as coisas. antes. Quando uma pessoa se preocupa com outra. na praia. por esta vez. tentava analisar cenários a longo prazo. foi para pior. tinha-lhe sido fácil convencer-se de que tudo se iria compor. sempre soubera que tal não ia acontecer. Apesar da impertinência do comentário final.. . E.Claro . podia flexibilizar as normas. O problema era esse. O encontro não se desenrolara como estava previsto. . Apercebia-se de que estava a adiantar-se em relação a si próprio. Procurava soluções. mas tudo derivava do facto de ele morar em Nova Iorque e ela viver em Boone Creek. No dia anterior.anuiu. sempre a procurar avaliar com cuidado todos os finais possíveis. alimentara a esperança de que ela o seguisse. se alguma modificação houvera.Como partes amanhã.Porque somos amigos. de certa forma. agora olhava-o como se ele fosse radioactivo. a recordar a conversa e a tentar dar-Lhe sentido. mas. A tarde que passaram separados também não ajudara a remediar as coisas entre eles.planos para saíres o mais tardar às 18h30. como por magia. . mostrando um sorriso automático. O que nunca esperara era ser tratado como um pária.. Começou a separar aqueles que já . era o que esperava que ela fizesse também. Acreditara nisso. Por muito que o comportamento dela o perturbasse. achei que. mas era o que fazia sempre que se via confrontado com um problema.

pô-lo de lado. nenhum dos outros sete se revelara particularmente útil . escolhendo quatro que tinha de ler. Mostrar-se-ia distante? Deveria tentar meter conversa. o segundo.e por isso abriu um que ainda não tinha examinado. havia duas entradas respeitantes a eventos de carácter social. tornavam-lhe impossível saber exactamente o que dizer e prever a reacção dela. Um pescador escrevia sobre marés e capturas com pormenores minuciosos. mesmo a saber que ela ardia em desejos de armar zaragata? Ou deveria fingir que nem havia reparado na atitude dela e insinuar . a tentar descobrir se a diarista escrevia mais sobre si própria ou sobre a cidade em que vivia. que no essencial pareciam resumir-se a assistir a regatas no rio Pamlico. Em vez de ler desde o princípio. Abrangia os anos de 1912 a 1915. Até então. bem como as opiniões da professora sobre os alunos e os habitantes da vila. durante um período de oito meses. De quem gostava. No dia anterior podia entrar pelo gabinete e dizer a primeira coisa que lhe viesse à cabeça. o que ele não se imaginava a fazer antes de voltar a falar com Lexie. a que tinha de acrescentar-se um nítido estado de agitação de Lexie. Mesmo considerando-o interessante. o que pensava dos pais e dos amigos e o facto de pensar que ninguém parecia compreendê-la. mas os ziguezagues recentes da sua relação. Para além disso. a idas à igreja. Os dois diários seguintes que consultou . Esperava que o último diário viesse a revelar-se mais uma perda de tempo.eram também registos bastante pessoais. na sua maior parte. a jogos de brídege e a passeios pela Main Street nas tardes de sábado. o que comia. junto dos outros já rejei tados. fora escrito por uma adolescente chamada Anne Dempsey e. da autoria de uma professora primária chamada Glenara. recostou-se na cadeira e foi escolhendo passagens ao acaso. quanto mais não fosse para manter abertas as linhas de comunicação.dois mencionavam funerais de família realizados em Cedar Creek . descrevia os progressos da sua relação com um jovem médico forasteiro. mas não o folhear significaria sair de imediato.lera. era um relato pessoal dos eventos quotidianos da sua vida durante aquele período. Conclusão mais importante que se podia tirar da leitura do diário de Anne: as suas angústias e preocupações eram iguais às que afligem os jovens de hoje.ambos escritos na década de 1920 . Não encontrou qualquer menção a Cedar Creek.

Porque somos amigos. quanto mais pensava na conversa. E também se preocupava com o futuro de ambos. Não.. Como não estava disposto a voltar para ela a rastejar. no momento preciso. Voltou a pensar na conversa que tinham tido. De facto. talvez fosse bom ires vê-la antes de partires. Não dissera se tivermos uma oportunidade". Uma postura que. Depois da noite passada. a implorar e a argumentar. Talvez assim ela pudesse pensar no que . não ia continuar a jogar segundo as regras dela. Porém. Amigos? " deveria ter ripostado. pensou. E quanto ao comentário final? Aquele: Claro. Estava decidido a sair da biblioteca logo que acabasse e a regressar ao Greenleaf. o futuro imediato estava nas mãos dela. Sabia onde podia encontrálo. e.. muito bem. Pretendes uma briga? Vamos a isso! Ao cabo e ao resto. Tinha tentado comunicar-Lhe o que sentia. amava-a. bem. consegues dizer que somos apenas amigos? Foi tudo o que significou para ti? " Não era maneira de falar com alguém de quem se gosta. Mas se não quisesse.que continuava a querer perceber qual era a verdadeira origem das luzes? Deveria convidá-la para jantar fora? Ou limitar-se a abraçá-la? Estava perante o problema típico que afecta uma relação quando as emoções começam a turvar as águas. Estás a pôr-te de fora? Posso fazer o mesmo. não fora o contrário. E. sentia que não podia fazer nada para a alterar. decidiu Jeremy. mais gostaria de lhe ter respondido à letra. ficou a olhar pela janela. no final. Tinha-lhe prometido tentar arranjar soluções. Se tiveres uma oportunidade. Se ela quisesse conversar. não fizera nada de mal. fora ela quem o conduzira ao quarto. ela nunca se preocupara em discutir a ideia. ela não parecera disposta a ouvir. o que quer que fosse que ela considerava correcto. Se tiveres. não era justa. De lábios contraídos. a situação evoluiria como tinha de evoluir. Lexie agia como se já tivesse optado pela desistência. honestamente. O que acontecera na noite anterior tivera tanto a ver com ele como com ela. nesse caso. Não era maneira de tratar alguém que se deseja voltar a ver e. enquanto ele pretendia procurar soluções. Era como se Lexie esperasse que ele Fizesse ou dissesse exactamente. A única coisa que ele conseguiu fazer foi morder a língua para não lhe responder.

Ser famoso. mas. O episódio seguinte foi a entrada de Jeremy pelo gabinete. Como se não estivesse de partida. Renaissance.realmente queria. no leito de morte. em muitos aspectos. a desejar ter encontrado uma forma melhor de lidar com o problema. famosas e bonitas a tomar drogas? Qual o motivo de não conseguirem manter o casamento? Por que será que estão continuamente a ser presas? Por que se sentirão tão infelizes quando não estão a ser iluminadas pelos holofotes? . rico e bonito. Lexie recriminou-se. Pensara que passar algum tempo junto da avó poderia ajudar a clarificar a situação. Logo que ele saiu. conversar calmamente enquanto se assiste a um pôr-do-sol. Era uma forma de lavagem ao cérebro. como meio para ser feliz. alegre e satisfeito. que ia deixá-la para trás como Fizera Mr. a agir como se não houvesse qualquer alteração. sabia que Jeremy alimentava a esperança de que ela o seguisse até Nova Iorque. a canção do desespero. mas não conseguira mais do que um adiamento. qual a razão de haver tantas pessoas ricas. Se assim fosse. só que não via como tal seria possível. Viver era ter companhia. Se conseguira encontrá-la na praia. Como é que era o velho ditado? Quem é que. Não seria capaz de perceber que ela não se preocupava nada com dinheiro ou com fama? Ou com a frequência de lojas e espectáculos. ou com a possibilidade de comprar comida tailandesa a meio da noite? A vida não se resumia a essas coisas. ter tempo para passear de mãos dadas. o melhor que a vida nos pode proporcionar. Como se o dia seguinte não pudesse alterar tudo. não seria capaz de encontrar uma forma de ficar ali? Lá no fundo. Nada de deslumbrante. sempre soubera que ele tinha de regressar. se tivera a coragem de lhe dizer o que disse. a alimentar fantasias em que as pessoas viviam felizes para sempre. disse que desejaria ter trabalhado mais? Ou ter perdido menos tempo a apreciar um calmo fim de tarde? Ou ter passado menos tempo junto da família? Não era suficientemente ingénua para negar que a cultura moderna tinha os seus encantos. frequentar festas exclusivas. mas o conto de fadas que ele havia iniciado na noite anterior continuava a agitála. Sim. ao mesmo tempo que lhe dava a entender que não estava disposto a ficar à roda dela para ser maltratado.

Porque somos amigos. batucava no bloco de apontamentos com o lápis. e à descoberta. mas achava que devia ter-se limitado a dizer o que tinha de ser dito. pensou novamente. ainda não se sentia preparada para conversar. por mais que se recusasse a admiti-lo. vendo-as pela rama. Recostou-se na cadeira. a procurar nos artigos qualquer referência. o diário era uma colecção de ensaios. Richard. O terceiro ensaio. a pestanejar.. a passar apressadamente de uma página para outra. em 1587. fazia-o abanar a cabeça enquanto. em 1794. para ficar paralisado ao confirmar o que tinha visto. Jeremy começou a folheá-lo mais depressa. pegou no último diário e chegou a cadeira para diante. em vez de se manter separada dele pela secretária e de negar que se passava algo de anormal. e fora escrito entre 1955 e 1962. Adivinhara quem ele era no momento em que se conheceram e resolvera logo que não se deixaria envolver. Amigos. Ao recordar-se vagamente de que um dos diários pertencera a um historiador amador. para parar subitamente ao aperceber-se de que vira qualquer coisa interessante e a voltar para trás. Irritava-o a maneira como ela tinha dito aquilo. Quando Jeremy aparecera no gabinete. enquanto percorria a página com os dedos: Solucionado o Mistério das Luzes no Cemitério de Cedar Creek . O ensaio cobria três páginas e era seguido de outro sobre o destino da fábrica de curtumes Me-Tauten. com datas e títulos. com ar ausente. A fazer rodar os ombros para diminuir a tensão. No entanto. construída em Boone Creek. a ler os títulos. junto às margens do rio. Podia. O primeiro referia-se à construção da igreja episcopal de St. lamentava a forma como estava agora a comportar-se. dava a opinião do autor acerca do que verdadeiramente acontecera na ilha de Roanoke. Em vez de notas curtas e pessoais.Suspeitava de que Jeremy se deixara seduzir por aquele mundo.. que levou Jeremy a erguer um sobrolho. em 1859. Tinha de acabar a tarefa. de facto. Jeremy merecia melhor. ter agido melhor. do que parecia ser uma antiga aldeia dos índios Lumbee. durante as escavações. Quaisquer que fossem as divergências entre eles.

pela localização de Riker's Hill e pelas fases da lua. E este. a pessoa que. verificou que as suas suspeitas se ajustavam como os retalhos de um quebra-cabeças. desde então. quem quer que ele fosse. O que significava que o presidente Gherkin Lhe tinha mentido desde o início. à procura do nome do autor. Quarenta anos. O diário tinha sido escrito pelo pai do presidente. Embora não fosse avançada qualquer solução. nos restantes aspectos. segundo o filho. E Lexie. Jeremy deu consigo a suster a respiração. Posso afirmar em termos definitivos que não se trata da presença de fantasmas. seu filho. assim.Durante anos. embora fingisse o contrário. acredito ter resolvido o enigma de as luzes parecerem deixar-se ver em certas condições e não aparecerem noutras alturas. Ao continuar a leitura. há três anos. alguns residentes na vila afirmaram a presença de fantasmas no Cemitério de Cedar Creek e. depois de conduzir a minha própria investigação. E. Owen Gherkin. o Journal of the South publicou um artigo onde se discutia o fenómeno. Marcou a página com um pedaço de papel e foi consultar a primeira página do livro. a recordarse da primeira conversa que tivera com o presidente da Câmara. . as luzes provêm do sistema de iluminação da Fábrica de Papel Henrickson e são influenciadas pela passagem dos comboios no viaduto. tinha resolvido a questão há quase quarenta anos.a sua conclusão era. Que certamente teria informado o actual presidente da Câmara. O autor. sabia tudo o que havia a saber sobre aquela terra". Na verdade. A pessoa que descobrira a origem das luzes. ficou a saber que o fenómeno nada tinha de sobrenatural. na esperança de utilizar Jeremy para o ajudar a obter dinheiro dos visitantes que não suspeitavam da tramóia.sem o qual era provável que as luzes nunca se tivessem tornado visíveis . essencialmente a mesma a que ele próprio tinha chegado. Embora o autor não tentasse explicar as razões do afundamento do cemitério .

o que as luzes não eram. tal como acontecera com o presidente e com a Lexie. mas não o fizera antes de Lhe contar o episódio em que a avó a levou ao cemitério para ver os espíritos dos pais. Contudo. não falara da verdadeira origem do fenómeno. A festa. embora fosse provável que também ela a conhecesse. Como se quisesse que ele partisse. ela tinha afirmado.. A mulher que insinuara que os diários poderiam conter a resposta que ele procurava. E agora a Lexie estava a desligar-se. ao olhar para ele. Com os livros que se encontravam espalhados devidamente arrumados. Não. a forçar um sorriso.. O que implicava que tivesse lido o relato de Owen Gherkin: O que significava que também ela tinha mentido. Como se soubesse de antemão o que iria acontecer. E aquela bonita história de os pais dela terem querido que ela o conhecesse. disposto a conseguir algumas respostas. preferindo alinhar com o presidente da Câmara. Na primeira conversa que tiveram. A carta. Como se não sentisse nada por ele. pensou. Coincidências? Ou planeamento total? E pela maneira como estava agora a agir. o palhaço era ele. A investigação. . que tudo não passara de uma palhaçada.. No entanto.A bibliotecária. Tudo aquilo teria sido planeado? E se tivesse sido. A porta do gabinete da Lexie estava entreaberta e deu-lhe um empurrão para entrar. Levantou os olhos quando Jeremy agitou o diário à sua frente. . tal como não reparou nas expressões dos voluntários que viraram as cabeças para o olhar.. porquê? Agarrou no diário e encaminhou-se para o gabinete da Lexie. decidiu de imediato. ela tinha de saber. Bem gostaria de saber quantos seriam os habitantes da vila que conheciam a resposta. Lexie empunhava uma lata de cera para tratamento de móveis e um pano. preto no branco.saudou. A Doris? Talvez. e estava a dar brilho ao tampo da secretária.Oh. Mal notou que tinha atirado com a porta da sala. olá . O que queria dizer.

É esse o motivo da tua vinda ao meu gabinete? Vieste cá para me fazer acusações? ..Qual charada? .É óbvio . não é verdade? . Mesmo do outro lado da mesa. até te disse que talvez encontrasses as respostas de que andavas à procura. a notar a profunda cólera dele. Porquê? .Mas não me falaste nisso.Conheces a passagem em que fala das luzes de Cedar Creek? .Podes acabar a representação . .Mas.respondeu com a máxima simplicidade. . a sentir a sua própria fúria a aumentar. . .esclareceu Jeremy. E tu nunca deixaste de colaborar nesta pequena charada.Estou quase a terminar. instintivamente.É claro que conheço. .Não tentes negar . ao reconhecer o diário de Owen Gherkin.O problema é que tenho andado a perder o meu tempo. Lexie olhou-o fixamente.Não vejo onde é que está o problema. Jeremy olhou-a fixamente. . .contrapôs Lexie. .replicou Jeremy. arrumou uma mecha de cabelo atrás da orelha. . a elevar a voz. Nunca existiu. . recordas-te? Mentiste-me. ela sentiu a fúria latente e.Já leste isto. falei! Falei-te dos diários da primeira vez que vieste à biblioteca. a semicerrar os olhos. Não existe aqui qualquer mistério.rosnou Jeremy. a mostrar-lhe o diário. Mentiste mesmo na minha cara. Este diário responde a todas as dúvidas. Ergueu o diário bem alto.anunciou. E se bem me lembro. a não a deixar prosseguir.E acabaste por encontrar . recordas-te? .Tu sabias aquilo que eu procurava.Não faças jogos de palavras .Disto . .De que é que estás a falar? . .Tenho aqui a prova.

replicou Jeremy. eu me detivera mais de um minuto a pensar nisso? Não me interessa! Nunca me interessou! E se tivesses lido o diário há dois dias também não terias a certeza.contrapôs Lexie. a erguer o indicador como um professor a falar com um aluno. antes de cá chegares.A questão não é essa . se a Doris também não o quer . tudo uma vigarice. partindo do princípio de que o assunto me interessa. No fundo. Não sabia. Para aproveitar a maré. O circuito. E. Ela pôs as mãos nas ancas. Ambos sabemos que.Tu sabias! . .A questão é tudo isto ser uma tramóia.. acrescentaram a visita ao cemitério. . não deixarias de fazer a tua própria investigação. furiosa por ele se recusar a ouvir. Se não queres que o cemitério seja incluído no circuito.respondeu ele. E li os artigos das outras pessoas. pensas que. . . a abanar a cabeça.Não. também a gritar. Francamente. a lenda. pura e simples. com mil diabos.inquiriu Jeremy.Como é que ela poderia saber da existência do diário? .Também li o artigo publicado no jornal. . os fantasmas.E então? . como aconteceu com todos os outros. Do diário de Owen Gherkin? . crês que haja assim tanta gente a acreditar verdadeiramente em fantasmas? Na sua maioria.gritou ele.perguntou. as pessoas dizem que acreditam porque acham piada. é verdade. trata-se de proporcionar um fim-de-semana agradável no meio de uma estação triste. . voltando a interrompê-la.O que é que estás para aí a dizer? O circuito tem a ver com mansões antigas e. a não querer encarar a hipótese de ela ter razão. a dar ênfase a uma ideia. ninguém é magoado. . Isto. . de qualquer das formas.A Doris sabia? . Ninguém está a ser vigarizado. deitara-se a adivinhar.Mas leste isto! .É essa a parte que eu não entendo.Vês . . Como diabo é que eu podia ter a certeza de que Owen Gherkin tinha razão? Tanto quanto sei.

Desde que aqui cheguei que as duas não deixam de me falar do livro. . por que seria que te passei o diário para a mão? Por que não me limitei a deixá-lo ficar onde estava guardado? . com o rosto vermelho. Ela ergueu as mãos.Não és de cá e não quero falar mais contigo. É um fimde-semana inofensivo. . . Lexie inclinou-se para diante. enquanto guardava a lata da cera para móveis na gaveta da secretária.Não Lhe estou a conferir quaisquer proporções.Não quis envolver-te. agora lês os pensamentos? . E não se trata de um jogo.Então.Oh. acabaste por admitir o que tens andado todo o dia a pensar.Não sei. por que motivo não vão ambas à redacção do jornal e revelam a verdade? Qual a razão que a levou a pretender envolver-me no vosso jogo? .Pelo menos. estou apenas a tentar perceber o motivo que vos levou a trazerem-me até cá. por isso. Talvez tenha algo a ver com o livro de apontamentos da Doris. ela semicerrou os olhos e prosseguiu: .Não quero ouvir mais. . a que estás a conferir proporções desmesuradas. . .Alto lá! Para começar. . urdiram toda esta teia.Portanto. Tu e o presidente da Câmara encarregaram-se disso.Será que não consegues perceber quanto é ridículo tudo o que estás para aí a dizer? . agora passei a fazer parte do grupo dos maus da fita? Como Jeremy ficasse calado.Sai! . Volta para o lugar de onde vieste. Talvez tivessem partido do princípio que o livro não era suficiente para me trazer até cá.mandou. Jeremy cruzou os braços. .ver incluído. como se tentasse fazê-lo calar-se. .Aposto que não.

deixa que leia o teu pensamento. Quando falei em sacrifícios. desde que estejas interessado em comprar.prosseguiu. não é capaz de fazer o que diz. . . . deixasses a vila? Escuta. .Não. Renolds tem o escritório do outro lado da rua e tenho a certeza de que ficará encantada por te levar. . está bem? .E isso quer dizer o quê? Lexie olhou-o do outro lado da sala. cansada dele. então. sabia muito bem que pensavas que a sacrificada deveria ser eu. . deixa que te facilite a vida . farta da atitude superior dele. achas ridícula a ideia de poderes vir a viver aqui? .Ai. esta mesma noite.gritou Lexie. a odiar o ar complacente com que ele Lhe respondera. . está bem? sibilou Lexie. chegada a altura. no fundo. apesar de tudo o que possas ter dito na noite passada. .Vejo alguém verdadeiramente bom a proferir as palavras certas e que. Nunca te passou pela cabeça que poderias ser tu a deslocar-te.Nem tinhas que dizer! . a ver umas quantas casas. com a fúria a endurecerlhe cada músculo do corpo. Que deveria deixar a minha família. estou? Acerca de quê? Sobre esperares que deveria ser eu a partir? Ou estavas a pensar arranjar um guia de venda de propriedades quando.aconselhou ao estender a mão para o telefone..Deixa que te diga o que vejo. porque Nova Iorque é muito superior. mas sem fazer caso disso.Não disse isso. os meus amigos. . amanhã. não consegue perceber o motivo de alguém querer viver aqui? E que. a minha terra.Bom. Incapaz de negar as acusações.Mrs.O quê? Julgas que não sei o que pensas acerca da nossa vila? Que isto não é mais do que um lugar de paragem para quem passa na estrada? Ou que.A questão é essa. Mas não é preciso saber ler os pensamentos para perceber os motivos que te levam a agir dessa maneira. a saber que falava suficientemente alto para ser ouvida em toda a biblioteca. Jeremy limitou-se a olhá-la .Estás a exagerar. Que eu devia ser a mulherzinha simpática que segue o seu homem para onde ele entende que deve ir. .

.Então. Não foi o contrário. .Por que é que não me disseste nada disto durante a noite passada? . e desviou o olhar. por pensares que estou a desperdiçar a minha vida num lugar destes.O gato comeu-te a língua? Se preferes. nenhum deles falou.confessou.Eu tentei. agora em voz mais baixa. darmos uma rápida cambalhota. Foste tu que vieste até ao meu mundo. Jeremy continuou a olhar para ela. Para seu desgosto. esclarece-me sobre o seguinte: O que é que pretendias exactamente dizer quando falavas em encontrarmos uma maneira de fazer funcionar a relação? Pensaste que eu estaria interessada em ficar à espera de.Não tens nada a dizer? . Contudo. .És um homem simpático. porquê? Deixou a pergunta em suspenso. Talvez não totalmente feliz. então.Foi só o que signiFicou para ti? . sem qualquer possibilidade de vivermos o futuro juntos? Ou estarias a pensar em usar uma dessas visitas para me convencer dos meus erros.Estás. . O problema foi não quereres ouvir. mas contente. que seria muito mais feliz se me atrelasse a ti? A fúria e a mágoa da voz dela eram inegáveis.fixamente. Durante muito tempo. passámos dois dias excelentes. .Não sei . Quem se vai embora és tu.respondeu.inquiriu. Gosto da minha vida aqui. . ao ver a expressão de dor no rosto dele.Não me atribuas as culpas.perguntou.Não . Gosto de ir . . talvez um pouco só. ao mesmo tempo que batia com o auscultador no descanso. .admitiu ela. Talvez estivesse disposta. . Na noite passada. . nas tuas visitas esporádicas. o mesmo se podia dizer do que queriam dizer as suas palavras. Vivia contente até tu chegares.indagou Jeremy. não. sentiu os olhos a encherem-se-Lhe de lágrimas. a querer acabar? . isso não altera o facto de ter acabado pois não? . mas a implicação foi clara.Não .

Pendurando-os no braço. Já se afastara alguns passos do gabinete quando.verificar se a Doris está a ter um bom dia. Ao longe. .Foi-se embora.acabou por dizer Jeremy. finalmente. Alvin e Jeremy instalaram as câmaras perto do passeio de madeira na margem do rio Pamlico. E até gosto do nosso pequeno Circuito das Mansões Históricas.Aonde é que vais? Antes de parar. Gosto de ler para as crianças durante a hora que lhes é destinada. Resguardados pelos blusões. Jeremy reuniu a coragem suficiente para falar. quietos e finalmente sem palavras. Ficaram a olhar-se mutuamente.respondeu Jeremy.Não foste atrás dela? . sem mais palavras. até o Lookilu fora abandonado. Dezoito Mais tarde.Assim como? Como alguém que diz a verdade? Em vez de aguardar uma resposta. ouviam-se os sons da música no celeiro de tabaco do Meyer. Todas as lojas da baixa tinham fechado. Afastou uma lágrima da face e endireitou-se.Como tu farás também.indagou o Alvin.Não sejas assim . . ambos se sentiram vazios. Lexie ainda deu mais um passo.E depois? . pareciam estar sós. com todas as palavras ditas. . Lexie pegou na bolsa e no casaco. . . . . Jeremy desviou-se para a deixar passar e ela deslizou dali para fora. onde se realizava o baile. caminhou para a porta.respondeu. Com tudo em aberto.Vou para casa . . .Acabou-se . Rodou sobre os calcanhares e respirou fundo. mesmo que estejas a querer transformá-lo numa vigarice só para conseguires uma grande presença na televisão. naquela noite.

não se ajustava à imagem que ele tinha das mulheres do Sul. de pôr a pilha de diários na estante e de fechar a porta ao sair. Jeremy apenas sabia que estava exausto e que. Não deveria ter entrado de rompante no gabinete dela. Na escuridão. Tanto quanto sabia. . não descobrira quaisquer respostas. o presidente Gherkin encontrava-se num canto. Lembrava-se vagamente de ter regressado à sala de livros raros. Não interessava. apesar de saber que tinham de ir filmar.Vi tudo na maneira como ela olhou para mim. Alvin. a reviver a discussão pela enésima vez.concluiu Jeremy.Então. . acabou-se? . Sabia que se tratava apenas de uma experiência. lutava contra a vontade de ir a casa dela para ver se ainda haveria maneira de remediar a situação. não tinha dúvidas de que Jeremy daria a volta por cima..Como é que sabes? Jeremy esfregou os olhos. Jeremy ultrapassava sempre aquelas situações. acabou-se . à procura de um pretexto para iniciar uma discussão? Se ele não tinha certezas. Passou as quatro horas seguintes no Greenleaf. tal como acontecia com ela. Não a considerara assim tão sedutora.Pois. com os sentimentos de raiva e de traição a misturarem-se com a tristeza e o arrependimento. Não conseguia perceber como é que o amigo se deixara prender daquela maneira.Ela não queria. a pensar nos momentos finais na biblioteca. . logo que entrasse no avião para regressar a casa. . depois de ter ouvido o relato do que se passara. No caminho de regresso ao hotel meditara no que tinha dito. tal como toda a gente. a tentar perceber se poderia ter conduzido melhor a questão. No baile. Alvin abanou a cabeça e voltou-se. Suspirou. Lexie deveria estar no baile. em tão curto espaço de tempo. Tinha ficado assim tão furioso com o conteúdo do diário? A ponto de pensar que tinha sido enganado? Ou estaria simplesmente zangado com a Lexie e. Passara as últimas horas em transe. Partindo do princípio de que ela estava em casa. na cama.

pois o diário constituía um testemunho bastante preciso da história da vila. Que interessava que Jeremy expusesse a verdade numa televisão de âmbito nacional? . pareceu-Lhe que tomara uma decisão da maior importância. sem ajuda de ninguém. que tivera a ver com um dos diários e com uma tramóia qualquer. Graças à inclusão do cemitério e das suas luzes misteriosas. Porém. logo que chegou. algo que os levasse a passar uns dias na vila. fora uma discussão a sério. Talvez não devesse ter feito publicidade aos fantasmas. ouvira os voluntários da biblioteca a falar da zanga a que tinham assistido. de modo a poderem apreciar aquele lugar maravilhoso. Pensando melhor. de algo que levasse os turistas a procurá-la.sozinho. na altura. tinham conseguido vender mais umas centenas de bilhetes para o circuito. mas. mas. quem iria adivinhar o que ia acontecer nos quinze anos seguintes? Quem sabia que a fábrica de têxteis seria encerrada ou que a mina seria desactivada? Quem sabia que centenas de pessoas iam ficar sem trabalho? Quem sabia que muitas famílias jovens iam partir para nunca mais regressarem? Quem sabia que a vila acabaria a lutar pela própria sobrevivência? Talvez não devesse ter acrescentado o cemitério ao circuito. com o queixo apoiado na mão. Contudo. mas era o único plano de que dispunha e tinha de começar por algum lado. decidiu que nunca deveria ter doado o diário do pai à biblioteca. quando sabia que se tratava apenas das luzes do turno da noite na fábrica de papel. de preferência em companhia da Lexie. Os pensionistas procuram lugares hospitaleiros para comer e descansar. sentado a uma mesa. Era óbvio que sempre considerara Jeremy suficientemente esperto e capaz de descobrir o que se passava. procuram lojas onde possam fazer compras. Se conseguisse atrair pessoas em número suficiente. enquanto a presença de Jeremy lhes dava a oportunidade de serem conhecidos a nível nacional. Alimentara a esperança de ver Jeremy aparecer por lá. Segundo o que lhe disseram. Não aconteceria de imediato. Jashington ou New Bern. era preciso não esquecer o simples facto de a vila precisar de algo em que se apoiar. A biblioteca era a instituição adequada para o acolher. a vila podia eventualmente transformar-se num lugar preferido pelos reformados. Não era isso que o preocupava. como Oriental.

o presidente Gherkin não sabia quais as impressões que Jeremy levaria ao partir. a pensar que aquilo fazia a vila parecer diferente e única. De momento. não achas? . não é a do costume. tal como toda a gente. Era uma palavra que soava mal. pela simples razão de que Rodney também parecia feliz por estar com ela. Qualquer publicidade era melhor do que nenhuma. segundo parecia. . porém. Jeremy Marsh perceberia o que estava em jogo. mais do que nunca. . ao contrário do que acontecia com a maioria das pessoas. Com memórias agradáveis da vila.Ou até na sua coluna? As pessoas de todo o país ouviriam falar de Boone Creek. as pessoas precisavam. a sentir-se orgulhosa por terem estado juntos durante a maior parte do serão. também ele ouvira falar da discussão na biblioteca. Quanto à discussão. . mas a verdade era conhecida por um número restrito de pessoas e. especialmente depois de ter reparado na expressão do presidente.notou Rodney. Rachel olhou.O presidente parece preocupado. além de não ter qualquer relação com o que estava a acontecer. era evidente.Queres ir falar com ele? Rodney reflectiu. de qualquer das formas. E. onde é que estava o mal? Os factos eram simples: havia uma lenda. apercebera-se de que a preocupação do presidente tinha a ver com a forma como Jeremy pudesse vir a apresentar o pequeno mistério ao mundo. tentara avisar a Lexie do que ia . as luzes existiam e algumas pessoas acreditavam que eram fantasmas. talvez não percebesse. Está a pensar numa questão séria. De repente. Conseguia encaixar as peças do quebra-cabeças. no dia seguinte. É certo que ele sabia a origem das luzes. não fazia diminuir o sentimento que experimentava. que a palavra tramóia" fosse utilizada. parecendo procurar a Lexie por entre a multidão. Tal como o presidente ou. Outras limitavam-se a ir na onda. .Não. talvez algumas mostrassem curiosidade em ir ver. de pensar nestes termos. O próprio facto de ele olhar com alguma frequência para a porta. A menos.Talvez. ele tinha ideias assentes sobre o que estava a acontecer. Desagradado. de momento. Mas ele tem sempre aquela expressão.

A rapariga ficou a estudá-lo por instantes.acontecer.Não . Rachel começou a acompanhar o ritmo com o pé. a ouvi-la recriminar-se por ter sido tão parva. No caminho para o baile tinha passado. exactamente como acontecera da última vez.Nada. . ainda não estava preparado para essa diligência. Era possivelmente a mulher mais dura de cabeça que ele alguma vez conhecera. o que é que poderia dizer-lhe. Embora tivesse preferido que a Lexie não se visse de novo metida naqueles apertos. tal como fez na noite em que Mr. Preocupado como estava. Congratulou-se mentalmente. . Faria um descafeinado e. .respondeu Rodney -. Queria falar com a Lexie. Ao ver a pista de dança cada vez mais ocupada. A solução já não está nas mãos dele. Antes. Rodney nem parecia ver os dançarinos. Ficaram juntos a ouvir uma canção acabar e a banda a atacar a seguinte. Conhecia-a melhor do que se conhecia a si mesmo. Fez um gesto de desinteresse. Renaissance se foi embora. No entanto. a informá-lo de que o menino da cidade e o amigo esquisito estavam a instalar a máquina de filmar no passeio de madeira. O que significava que a discussão ainda não terminara. consolava-se com a ideia de que o caso poderia estar quase encerrado. mas acabou por encolher os ombros. antes de lhe abrir a porta. Era inevitável. uma pessoa que nunca cedia terreno. Se a Lexie ainda tivesse as luzes acesas quando ele fosse a caminho de casa. tinha recebido um relatório de um colega. sem parar. supunha que iria bater-lhe à porta. pela casa dela e vira as luzes acesas e o carro parado no caminho de acesso. Podia ser inconstante e Jeremy acabara por ter de provar o veneno.Não é importante. ele sentar-se-ia no sofá durante horas. Tinha a sensação de que ela não ficaria inteiramente surpreendida com a presença dele. Calculava que ficaria a olhá-lo por momentos. . Rachel enrugou a testa.O que é que já não está nas mãos dele? .

lamentava ter empurrado Lexie para ele. sem dúvida. o que não era bem um pressentimento. mas não conseguia deixar de pensar que naquela noite ela parecia particularmente bonita. mas ultimamente estava a acontecer uma coisa estranha: de cada vez que a via. a Rachel parecia sempre um bocadinho mais bonita do que a imagem que conservava dela. de imaginação sua.interrompeu a Rachel. a banda nem era má de todo. viu Rachel a seguir o ritmo com o corpo.. . Afinal. Ao segui-la para a pista de dança. . Gosto desta música. o que a teria levado a estar na origem da relação? Porque Lexie se sentia só? Porque . de analisar toda a situação. Rodney pigarreou. Além do mais.. Sabia que a Lexie estava preocupada.Para começar. Agora.Queres? . decidiu que mais tarde veria o que tinha de fazer a respeito da Lexie. estava bastante bem e. mas. A intuição levava-a a duvidar dessa possibilidade. Rachel reparou que estava a ser observada e esboçou um sorriso de embaraço. mas sim uma percepção do que era óbvio. que não tinha a certeza de estar com disposição para a ouvir. De certa forma.Adorava . ela precisava de um pouco mais de tempo sozinha. Muito melhor do que a do ano anterior. e tudo tinha a ver com o Jeremy. Enquanto ele tinha de admitir que estava um pouco cansado de ser visto como uma espécie de irmão mais velho. Pelo canto do olho. olhando para trás. . de momento. já a pegar-lhe na mão. tal como fizera na outra noite. a olhar com ar ausente na direcção da janela e a pensar se a Lexie apareceria.Não sou grande dançarino. mas aquela era uma das situações em que gostaria de estar equivocada. sabia que deveria ter suspeitado de que tudo acabaria daquela maneira. O convívio com ela sempre fora Fácil. satisfeito por ela o ter escolhido para companhia. na festa. não se sentia ansioso por acabar o serão a servir de calmante. Tratava-se. .indagou. Ela arregalou os olhos. Doris deixara-se ficar sentada na cadeira de baloiço da sala.Desculpa. então.Gostarias de ir dançar? .

Sabia que tinha uma visão romântica dos pais. Por vezes. Se Lexie se apaixonara. a olhar o pedaço de terra onde os pais haviam sido sepultados. Renaissance. mas havia . Suspirou. gostava de os considerar conversadores e divertidos. Com o decorrer do tempo. por qualquer razão. sentira-se compelida a ir ali. Sabia que Jeremy estava magoado. ela ficaria bem. além de que ela tinha aprendido a arte de deixar relações para trás e de continuar a viver como se nunca tivessem acontecido. Fizera o mesmo depois de terminadas as relações com Avery e com Mr. Pensava que o pobre Jeremy estava a viver uma situação injusta. mas. Não pensara demorar-se. pensou quanto gostaria de os ter ali para falarem com ela. A neta precisava de compreender que nem todos os omens eram como o Avery ou como o jovem de Chicago. Jeremy apaixonara-se ainda mais profundamente. fora tudo o que pretendera que a neta fizesse. ao apontar o foco da lanterna para a pedra onde estavam inscritos os nomes dos pais. Uma das características que reconhecia na neta era a sua capacidade de sobrevivência. Sabia que Jeremy e Alvin estariam a Filmar o viaduto e Riker's Hill a partir do passeio de madeira.Lexie estava num beco sem saída desde que se apaixonara pelo jovem de Chicago? Por ter chegado à conclusão de que Lexie se assustava com a possibilidade de voltar a apaixonar-se por alguém? Por que razão não se limitara a apreciar a companhia de Jeremy? Na realidade. e a avó estava preocupada com ela. o que significava que tinha toda a noite para se entregar às suas reflexões solitárias. Jeremy era inteligente e encantador. Importante era a Lexie. Lexie encontrava-se no cemitério de Cedar Creek. tudo o que Lexie necessitava era de concluir que ainda havia homens como ele disponíveis. Renaissance? Tentou recordar-se do nome mas concluiu que não era importante. Não tinha dúvidas de que a neta acabaria por aceitar a realidade do que acontecera e de encontrar uma forma de prosseguir. Doris sabia que. uma visão que mudava consoante os seus estados de espírito. com o tempo. Como é que ela lhe chamava? Mr. envolta no nevoeiro cada vez mais espesso.

Aquela era a filmagem que o preocupava. Entretanto.Ah. De momento. Jeremy falaria e contaria piadas sem parar. numa nova tentativa de chamar o amigo à realidade. Do outro lado do rio. com a própria vila a perder-se na névoa. e começou a berrar comigo por teres o telemóvel desligado. Jeremy continuava junto ao gradeamento.esclareceu Alvin -. Embora tivesse trazido as melhores objectivas e filmes de alta velocidade. mas o seu estado de espírito actual obrigara-o a estar praticamente calado havia um par de horas. . preferia considerá-los sábios e fortes.alturas em que os via como ouvintes atentos. e naquele momento sabia que estava prestes a cometer mais um. como se fosse uma fantasia. só as luzes da fábrica de papel eram visíveis através do nevoeiro.Interrompeu-me a sesta .. sim? . Não fora concebida para fotografia a longa distância. só tinha de aumentar os honorários e mandar a conta ao Nate. mas tinha de aguentar. fizesse o que fizesse. pensava com desespero. Em vez de uma filmagem fácil. de braços cruzados. pessoas capazes de lhe darem os conselhos que a levassem a considerar a situação menos confusa. numa situação como aquela.pelo menos era o que dizia o horário elaborado por Jeremy . especialmente devido ao frio. mas como Riker's Hill se encontrava mais distante. Estava cansada de cometer erros. . . antes de partir de Nova Iorque bem gostaria que Jeremy lhe tivesse transmitido aquele pequeno pormenor. o equipamento de que agora sentia a falta. Em condições normais. a olhar para um banco de nuvens..Já te disse que o Nate telefonou antes de sairmos? perguntou Alvin. Não fora para aquilo que se oferecera. não tinha a certeza de que a máquina funcionasse. as duas últimas horas tinham sido de trabalho a sério. Ainda não fizera outra coisa. Em parte.Alvin fez a última inspecção à máquina apontada para Riker's Hill. Com a aproximação do comboio . desculpava o amigo. pois havia alguns dias que Jeremy deixara de pensar com clareza. além de mergulhado no nevoeiro. uma espécie de período de férias. As imagens do viaduto não apresentavam dificuldades.

pois não? . Tudo o que lhe viesse à cabeça acabava por lhe sair da boca e. Qualquer coisa capaz de os impressionar. .Se exsudavam líquido? Alvin ergueu as mãos defensivamente. em metade das ocasiões.Hei-de ligar .O mesmo de sempre.prometeu Jeremy -.Uma amostra de quê? -Julgo que estava a referir-se aos fantasmas. nem se lembrava do que tinha dito. . Como te disse. . . Só me falaste nisso depois de ele ter telefonado. A última actualização..Quando falei com ele nem sabia da existência do diário.pediu Jeremy. .Mas ele sabe que são apenas as luzes da fábrica de papel. mas deixei o telemóvel no hotel . não lhe contes nada. Mas regista isto: perguntou se poderias fornecer-lhe uma amostra.A expressão não é minha. Ao longo dos anos o Nate distinguira-se por um conjunto de ideias malucas.O que é que ele pretendia? . gostaria que me tivesses informado da decisão. Pretendia saber se eles exsudavam líquido. . interrompeu-me a sesta. pelo menos por agora. .Aprendi a mantê-lo desligado durante a maior parte do tempo. . . prometes? .acrescentou.. ou coisa do género. . é dele.Se voltar a ligar. Pensou que talvez pudesses levar qualquer coisa à reunião da próxima semana. Pensou que seria um pormenor interessante. Contudo. . bem.acrescentou Alvin. Jeremy sorriu.Também disse que Lhe devias ligar .Não Lhe falaste no diário. sem querer acreditar. Alvin acenou que sim: . . ele era assim.Pois. mas aquela parecia impossível de conceber.Pois sabe. Jeremy abanou a cabeça.Apesar de preocupado.

Crê no que te digo. devida ao afundamento do cemitério. Como sabes. Isto é. as luzes são uma coisa. ou nunca? Não obteve resposta imediata.Já te apercebeste de quantas coisas têm de acontecer simultaneamente para que o fenómeno aconteça? As pedreiras. mas tens de concordar que a solução não é lá muito interessante.O que é que pretendes dizer? . É uma maçada com M maiúsculo. que faz as luzes aparecer. .Não é uma explicação maçadora .. .corrigiu Jeremy. pode residir aí o principal interesse da história. que ao alterarem os níveis freáticos provocaram o afundamento do cemitério? A localização do viaduto? As fases da lua. . .Não desejas que ele saiba que o presidente de Câmara montou a tramóia? . . Não estou totalmente convencido de que se mostrem especialmente interessados no facto de as luzes serem provocadas pela passagem de um comboio.Ainda não decidi. O que é que estavas a dizer? . Depois de olhar mais uma vez através do visor. Alvin comentou: .Desculpa.Ainda não.Uma decisão difícil. que só permitem que as luzes sejam vistas em alturas de escuridão absoluta? A lenda? A localização da fábrica de papel e o horário do comboio? Alvin não se mostrou convencido. .Para a televisão. Ainda não.Não. O problema era esse. não era? .Não se trata apenas da passagem do comboio . Para . Alvin olhou-o fixamente.insistiu Jeremy. . interessa saber que é a maior densidade do nevoeiro.O que interessa é a maneira como as luzes da fábrica de papel são reflectidas em Riker's Hill pela passagem do comboio. Alvin simulou um bocejo.

Penso que tudo se resume a saberes o que é mais importante para ti. o diário de que me falaste podia ser o condimento de que precisas. em sítios sofisticados ou românticos. quando. Jeremy olhou para longe. Mas umas luzes reflectidas em Boone Creek. Encolheu os ombros.Partindo do princípio de que ainda deseje falar comigo. Jeremy desviou os olhos para ele. Especialmente em lugares como Nova Orleães ou Charleston.Se eu fizer isso. a não conseguires levar-Lhes um exsudado" qualquer.comentou. e se não quiseres fazer figura de idiota na reunião.O que é que me aconselhas a fazer? Alvin respirou fundo. não tenho a certeza de que o diário seja suficiente. Os telespectadores adoram mistérios. tudo seria bem mais interessante se não tivesses encontrado a solução. E. . não achas? .Se estás determinado a entrar na televisão. se recordou de que Lexie Lhe dissera exactamente o mesmo.Achas que devo lançar a vila às feras? Alvin negou com a cabeça. Se fizeres tudo bem feito. . No silêncio que se seguiu. . . no final. Carolina do Norte? Acaso acreditas que as pessoas de Nova Iorque ou Los Angeles vão ligar a uma história dessas? Jeremy ia abrir a boca para Lhe responder. se queres que te seja franco. O companheiro não respondeu. é melhor pensares no uso que podes fazer do diário. . fazeres saltar o diário. Sabia que o comboio ia aparecer dentro de minutos. Podes apresentar a peça tal como a concebeste para. Alvin voltou à carga. talvez consigas atrair a atenção dos produtores.te ser franco. . Só pretendo dizer-te que. de súbito. tens de arranjar qualquer coisa para apimentar a história. .Não disse isso. E ela vivia ali. a Lexie nunca mais me fala .

voltou.DEZANOVE Jeremy dormiu mal na última noite passada no Greenleaf. Não podia ter a certeza. tinha de deixar o hotel bem cedo. ambos concordaram que ficara suficientemente bom para se conseguir provar a teoria elaborada por Jeremy. Sabia apenas que a adorava e que não conseguia admitir a ideia de não voltar a vê-la. mas agora parecia-lhe que Lexie tinha andado a tentar fugir dos seus próprios sentimentos. mostrou-se carrancudo. com o seu voo a partir de Raleigh ao meio-dia. Jed. Seria possível que tivessem acontecido tantas coisas no curto espaço de dois dias? Na altura em que chegou ao Greenleaf e entrou no seu quarto estava a tentar apontar o momento exacto em que tudo começara a correr mal. só conseguiriam melhor se trouxessem equipamento mais potente. quando é que ela teria começado a sentir-se atraída por ele? Durante a festa. Nesse caso. Riker's Hill só absorveu uma pequena quantidade de luz reflectida . recordou os momentos em que começou a aperceber-se de que estava apaixonado por ela. Levantouse antes das seis horas. Recordou a primeira vez que vira a Lexie. No entanto. acabou de arrumar as suas coisas e carregou-as no carro. Jeremy não pensou muito no mistério. Pensou no almoço em Riker's Hill e na visita ao passeio de madeira. A manhã estava fria. uma vez mais. a rever mentalmente o filme dos últimos dias. Porém. As horas passavam lentamente. acima de todos. tal como ele? No cemitério? Num ponto qualquer da tarde desse dia? Não fazia ideia de qual poderia ser a resposta. no caminho para o hotel. não estava apenas a querer afastar-se dele. . Ainda mais despenteado do que era habitual e com as roupas amarrotadas. depois de se assegurar que as luzes do quarto de Alvin já estavam acesas. no cemitério. e as espirituosas conversas entre ambos na biblioteca. lembrou-se da espantosa festa dada em sua honra e como se sentiu na primeira vez que viu as luzes no cemitério. Em vez disso.depois de verem o Filme.quando o comboio passou. Ele e Alvin concluíram as Filmagens . como se esperava. encaminhou-se para o escritório.

só quis vir dizer-Lhe que tanto eu como as restantes pessoas da terra tivemos muito prazer em conhecê-lo. pois não? .Tem aqui excelentes instalações . mas Jeremy respondeu-lhe com um sorriso insinuante.O Jed não lhe apresentou a conta. Só espero que tenha apreciado a estadia na nossa excelente vila. .Porquê o artifício? . as suas esperanças desvaneceram-se com a mesma rapidez. Sem mostrar qualquer partícula da energia que revelara durante os encontros anteriores. . sei que falo em nome da vila. . que apreciara.Não tem de quê. Por breves instantes.Bom. Jeremy acenou que sim. Com o silêncio a tornar-se insuportável. No caminho de regresso ao quarto.começou.reconheceu. O presidente Gherkin. caminhou com cuidado até onde Jeremy se encontrava. Se possível. logo que reconheceu o carro. viu faróis a oscilar no meio do nevoeiro e um carro a entrar lentamente no caminho de acesso. . protegido por um casacão e um cachecol emergiu do automóvel.Acabei agora mesmo. Jeremy colocou a chave do quarto em cima do balcão. Obrigado por tudo.Não deixarei de as recomendar aos meus amigos.Não. Como Lhe disse. .A preparar a partida. .A decisão de acrescentar o cemitério ao circuito? . Sem deixar de reparar no ar de preocupação do presidente da Câmara. . era o mínimo que podíamos fazer por si. . suponho . teve de ajeitar melhor o casacão e o cachecol. a expressão de Jed tornou-se ainda mais mesquinha. Gherkin suspirou.inquiriu Jeremy ao enfiar as mãos nos bolsos. Neste caso. Pela primeira vez desde que se tinham conhecido. . o senhor deixou muito boa impressão.dava a ideia de ter-se levantado havia poucos minutos. pensou que era a Lexie e sentiu um aperto no peito. Gherkin parecia lutar com a falta de palavras.

. a olhar Jeremy nos olhos. Na sua maioria. acabada a guerra. afirmou. os homens tinham profissões comuns: eram padeiros. na minha maneira de ver. Toda a gente soube que se tratava de uma missão suicida.respondeu Gherkin -. o meu pai serviu no exército com um homem chamado Lloyd Shaumberg.Na Primeira Guerra Mundial. Como Gherkin não continuasse.reconheceu. mas permitiam que o meu pai sentisse menos medo do que estava a acontecer. Não tenho escolha. . Era tenente e o meu pai era soldado raso. Jeremy fitou nele um olhar de curiosidade. Estou a referir-me ao facto de o seu pai ter registado a solução do mistério no diário e de o senhor não me ter falado nisso. .Sabe a razão de ele se ter interessado tanto pela história da nossa vila? Jeremy abanou a cabeça. histórias que quase ninguém mais sabia. passados momentos. mas suponho que não podia agir de outro modo .Por que motivo está a contar-me isso? . era apenas professor de História numa escola secundária do Delaware. enquanto ele ficava a tentar protegê-los. . uma forma de homenagear o seu amigo. o meu pai disse que ia tornar-se também historiador. o meu pai resolveu o mistério. Gherkin fez uma pausa. As pessoas de hoje parecem não perceber que durante a guerra não havia apenas soldados profissionais a combater nas linhas da frente.Na realidade.Tem toda a razão . depois do desembarque no Sul da Itália. . o meu pai continuou vivo e Shaumberg morreu. Pelo menos era assim que o homem se referia a si mesmo.Porque . Shaumberg era historiador. Shaumberg.. mas o meu pai jurava que se tratava do melhor oficial de todo o exército. Shaumberg ordenou aos homens que retirassem.prosseguiu. De qualquer modo. com voz hesitante: . Depois prosseguiu.Não. De facto. o meu pai e o resto do pelotão foram cercados pelos alemães. Costumava entreter os seus homens com histórias do passado. depois de regressar a casa. mas Shaumberg era assim. mecânicos. cortadores. Uma expressão de tristeza perpassou pelo rosto de Gherkin. .Fosse como fosse.

Em Nova Iorque não têm de se preocupar com isso. não é caso que me apoquente muito. A madrugada viera mostrar um céu cinzento de nuvens baixas. bem. olhei à minha volta e vi que só nos restava uma lenda. como se nenhum soubesse o que dizer. Alvin. são apenas relíquias do passado. Jeremy estava a ajudar o Alvin a carregar o resto do equipamento quando viu a Lexie chegar.replicou Gherkin.Portanto. a lembrar-se dos comentários da Lexie acerca do encerramento da fábrica de têxteis e da mina de fósforo.. depois de as indústrias terem desaparecido. Se o sacrificado tiver de ser eu. Sem esperar pela resposta.também eu não tinha escolha. não se esqueça de que não houve outras pessoas envolvidas. Mas fiz apenas o que julguei melhor para esta terra e para quem aqui vive.. Talvez fosse um erro da minha parte. Entre tanto.Vim aqui para lhe explicar que a ideia foi inteiramente minha. quebrou o silêncio. a Wall Street. Encararam-se por momentos. a olhá-lo com os seus impenetráveis olhos de cor violeta. Talvez você não concorde comigo. . Jeremy desviou o olhar. . Há a Broadway. É tudo o que tenho tentado fazer. que estava junto da bagageira do carro. E julgo que o meu pai teria compreendido. Trazia na mão o diário de Gherkin. o Empire State Building e a Estátua da Liberdade. você apareceu. Saiu do carro numa atitude semelhante à que ele lhe vira na primeira vez. Só lhe peço que. procurar um meio de manter a vila viva. Gherkin voltou para o carro e não tardou a ser engolido pelo nevoeiro. Qualquer cidade ou vila precisa de qualquer coisa a que possa chamar sua. . uma vila precisa de mais do que isso para sobreviver.Não . quando tiver de escrever o seu artigo. a pensar nos edifícios entaipados em que tinha reparado à chegada. veio aqui esta manhã para me mostrar o seu lado da história? . algo que possa lembrar os habitantes de que a sua terra é especial. Mas aqui. Não foi dos membros do Conselho Municipal nem dos habitantes da terra. E as lendas.

Jeremy respirou fundo: .. Ele mostrou um sorriso forçado. apesar de ninguém parecer prestar-lhe atenção. .Olá.Para te ser franca. . .Não pensei que viesses. . Embora o seu primeiro instinto tivesse sido eliminar o espaço que os separava. Lexie fez um aceno de cabeça na direcção do carro.Sim. . Alvin.Segundo parece. a postura rígida de Lexie manteve-os longe um do outro. Lexie encolheu os ombros e olhou para Jeremy. .Julgo que é melhor dar uma última vista de olhos pelo quarto .Será que vieste aqui para falar do meu trabalho e para veres se o carro estava carregado? . .Bom dia . vieste fazer o quê? . . Não fui justa contigo. Não devia ter agido daquela forma. antes de apontar o hotel com um gesto de cabeça.Levantou-se cedo.Ainda bem que decidiste vir .Pedir desculpa pela maneira como te tratei ontem na biblioteca. .Não. Depois de o amigo se ter afastado.Então.E terminaste as filmagens das luzes? Ante a banalidade da conversa. .saudou.desculpou-se. estás preparado para partir. Ela forçou um sorriso. fazia-Lhe lembrar quanto a adorava. .agradeceu Jeremy. Jeremy hesitou. Não foi para isso. Está tudo pronto. também não tinha a certeza se viria. Alvin olhou para um e para o outro. O céu acinzentado recordava-lhe o passeio pela praia nas imediações do farol.

Nunca fui apreciadora de despedidas prolongadas.perguntou Jeremy. a tentar que ela não desviasse o olhar. Vim cá por lamentar a maneira como te tratei ontem. . Significou. .Não tenho voto na matéria? Lexie respondeu com voz calma: . Lexie mostrou o diário.Eu sei .E vens entregar-mo. Percebo o que te levou a pensar que a vila estava a preparar qualquer coisa.O presidente da Câmara veio aqui esta manhã. baixou os olhos e depois voltou a olhá-lo de novo. ele pensou que Lexie ia dizer qualquer coisa.Será melhor que te deixe acabar para poderes seguir o teu caminho.E não desejo. .Porque devia ter-te falado nessa parte do diário e não quero que penses que há outras pessoas envolvidas num pretenso encobrimento. ao meter as mãos nos bolsos do casaco.rematou.Então. ..Não faz mal. acho que é tudo . isto é a despedida? . Para o caso de o quereres. Vou conseguir ultrapassar isso.. Porquê? .Então. já discutimos tudo isso. Não vim aqui esta manhã para discutir. .interrompeu Jeremy.Tem de ser. .Jeremy. Quase pareceu triste ao inclinar a cabeça para um lado. E por não querer que pensasses que esta semana não significou nada para mim.Pensei que não desejavas que eu o utilizasse. de má catadura. esta é uma oferta de paz. nem tampouco para te fazer zangar. é isso? Vieste cá só para me dizer que está tudo acabado? . E também tenho de pedir-te desculpa. . não tem? . Mas quero assegurar-te que não existiu nenhum esquema. mas acabara por se arrepender. Nesse instante. .Bom. a passar a mão pelo cabelo.. . .indagou. . Ela assentiu.Trouxe-te isto. .

É honesto.A noite passada. Falámos durante muito tempo. . depois do baile. Ele avançou mais depressa. a sentir que finalmente estava a abalar-Lhe as defesas. adora-me e é daqui.Não digas isso..E se eu te disser que te adoro? Ela olhou-o durante um longo momento.Jeremy.É evidente que podemos . .Podemos pensar numa maneira. ele ficou a olhá-la.Porquê? . ele foi a minha casa e conversámos.Porque vou casar com o Rodney. .Mas tinhas a intenção de acabar. Estupefacto com a notícia.Quero fazer tudo para que a relação funcione. . ..Não acredito.A minha intenção é ser realista. . . é trabalhador. . a dar a volta ao carro. .De que é que estás a falar? .. . com a sua coragem a aumentar a cada passo. percebeste? A resposta deixou-o petrificado. . com a voz mais dura. . Tu não és.As palavras dela doíam como murros e Jeremy teve de lutar para conseguir falar. .. Amo-te. Jeremy deu um passo na direcção dela. .Não! .exclamou.Não podemos. por favor. .insistiu Jeremy. a dar um passo atrás.Mas é verdade. Não posso evitar este sentimento.

Em mais de uma ocasião deu consigo a espreitar pelo retrovisor. Deu uns passos para a frente para pôr as mãos no capô. Jeremy manteve-se parado. acabando por dar um pequeno passo atrás quando o carro começou a rodar. Quis dizer-lhe que podia ficar. o carro passou por ele e começou a aumentar de velocidade para entrar na estrada. se partir significava perdê-la. não fazia sentido voltar para casa. ela entregoulhe o diário. Lexie devolveu-Lhe o olhar. . Mas depois ela olhou em frente e ele soube. que queria ficar. Ela mostrara-se perfeitamente firme no desejo de terminar a relação. E depois até as luzes desapareceram e o próprio som do motor desvaneceu-se no bosque. com a esperança de que um deles fosse o da Lexie. a tentar fazê-la parar. a observar os carros que o seguiam. Mas as palavras não saíram e.despediu-se. ainda que lentamente. mal se recordava de ter seguido o Alvin pela estrada de acesso a Raleigh. Ainda em choque. VINTE O resto do dia passou como se ele estivesse a ver através dos olhos de outra pessoa. . antes de se virar para entrar no carro. a olhar o asfalto preto. Por um breve instante.Acredita. ergueu a mão numa breve despedida e recuou. sem desviar os olhos dele. de uma vez para sempre. Jeremy ouviu o rodar da ignição e viu-a olhar por cima do ombro para fazer marcha atrás. a olhar até o carro ser apenas uma sombra. que não voltaria a vê-la. mas. Magoado e furioso. mesmo . Jeremy pensou ver-lhe um brilho de lágrimas nos olhos. Como Jeremy não conseguisse responder-lhe. pedir-Lhe que parasse. de que só se viam as luzes traseiras. Jeremy . que. quase como fizera no cemitério no dia em que se conheceram. Quis gritar. Envolto no nevoeiro. quando o carro começou a mover-se deixou que os dedos escorregassem pela superfície húmida.De expressão impassível. Porém.Adeus.

Desculpa .assim.Como queiras. . passou a maior parte do tempo a olhar pelo retrovisor. tais pensa mentos só foram interrompidos quando Alvin se sentou a seu lado. . Jeremy sabia que devia seguir atento à estrada que se estendia à frente do pára. Ainda bem que levantei a questão quando iam entregarme o cartão de embarque. óptimo. Ao passar por lojas apinhadas de gente.Pois. Olhou de lado para o companheiro. Não tens ouvido aquelas discussões na televisão? Expressa o que sentes. ao desviar-se de pessoas que se Lhe atravessavam no caminho.Ainda não queres falar do assunto? Jeremy hesitou. ao deixar-se cair no assento ao lado dele. tanto quanto sei. . Pensei que tratarias do assunto quando fizesses o chec-in. . No entanto. atravessou o terminal e dirigiu-se para a porta de embarque. procura e acharás? . a ponto de abrandar para poder ver melhor.concordou Alvin.Talvez mais tarde. . fazia-te bem. .Foi o que me disseste há bocado. recostou-se na cadeira e fechou os olhos. . Se não queres falar. em vez disso.indagou Jeremy. Estava destinado a sentar-me na última fila. Depois de entregar o carro alugado.Nem sei se há alguma coisa de que falar.Devo ter-me esquecido. .Os lugares.O quê? . A bordo do avião.desculpou-se Jeremy. Jeremy sentia o nível de adrenalina a subir sempre que avistava um carro parecido com o dela.agradeceu Alvin em tom sarcástico.brisas. Aproveito para dormir uma soneca . nunca deixou de pensar nos motivos que levariam a Lexie a desistir de tudo o que ambos tinham partilhado.decidiu. Alvin ganhava terreno.Obrigado de teres arranjado as coisas de forma a viajarmos juntos . . Entretanto. liberta-te do sentimento de culpa. Jeremy ficou a olhar pela janela e Alvin dormiu durante a . ao enfiar o saco na bagageira lateral do avião. . acho que sim .

Logo que apanhou um táxi para sair do aeroporto de La Guardia. Encontrou fotografias da Câmara Municipal. estava tudo como ele o tinha deixado. um maço de postais caiu em cima da secretária e ficou um momento a pensar onde os tinha obtido. Ao começar a tirar as coisas da mala. durante o primeiro dia passado na vila. Mais ou menos a meio do pacote de postais. o que o surpreendeu. De regresso ao seu prédio de apartamentos. o mapa e o diário. a compreender uma vez mais quanto a adorava. mães que rebocavam os filhos pequenos enquanto tentavam ajeitar os sacos de compras.maior parte da viagem. Depois de largar a mala no quarto. Tudo perfeitamente normal. a pensar em Lexie. Ficou parado. o cheiro dos escapes dos automóveis. a imagem desfocada pelo nevoeiro de uma garça azul a passear nas águas baixas de Boone Creek e barcos à vela reunidos numa tarde de mau tempo. buzinas a tocar. reprodução de uma velha fotografia a preto e branco. um mundo em que crescera e a que estava habituado. enquanto olhava pela janela do carro e procurava orientar-se pela realidade da sua vida. agarrou na papelada toda e seguiu escada acima. Jeremy começou a ser bombardeado pelo barulho e pelo movimento febril da cidade: homens de negócios que corriam de pastas na mão. encontrou a caixa de correio atafulhada de folhetos de publicidade e de facturas para pagar. O postal. O primeiro postal mostrava uma panorâmica da vila a partir do rio. a câmara digital que continha as fotografias que tirara no cemitério. foi ter pensado no Greenleaf e no absoluto silêncio daquele lugar. os uivos das sirenes da Polícia. Tinha toda a informação que acumulara durante os últimos dias: os apontamentos e as cópias dos artigos. deu consigo a olhar para uma fotografia da biblioteca. Rasgou a embalagem e começou a apreciar os restantes. o escritório desarrumado como era habitual e ainda havia três garrafas de Heinken no frigorífico. abriu uma das garrafas de cerveja e levou o computador e a sacola para a secretária. . Dentro do apartamento. Revistas espalhadas pela sala.

descreveu as imagens como fantásticas. Jeremy pôs-se a imaginar como seriam as festas em Boone Creek há cinquenta anos. a pensar em Lexie e a reflectir sobre o que ia fazer com a história. Ao analisar as fotografias. Antes. excitado por ver Jeremy e encantado por tê-lo novamente na cidade. viase o teatro com clientes bem vestidos na fila para compra de bilhetes. o Smith and Wollensky. A reunião com os produtores de televisão estava marcada para a tarde de terça-feira. e assegurou-lhe que os gestores da televisão iam adorá-las. havia uma árvore de Natal decorada. como de costume. onde o podia vigiar. viu passeios cheios de mulheres de lenço e homens de chapéu. Ficou a olhar o postal durante muito tempo. na pequena zona relvada ao lado da rua principal. Em primeiro plano. Jeremy manteve-se calado durante a . Nate e Jeremy encontraram-se no seu restaurante preferido. enquanto outros passeavam de mãos dadas. O postal mostrava não só o modo como se vivia em Boone Creek meio século antes. como as daquela casa assombrada de Amityville.mostrava a vila por alturas de 1950. para os pingentes de gelo suspensos de um sinal de trânsito. Nos passeios viam-se casais a apreciarem montras decoradas com grinaldas e luzes. ao Fundo. Nate alegre. Logo que se sentou começou a falar do trabalho fotográfico do Alvin. Uma existência como a retrata Norman Rockwell. mas também a maneira como o presidente gostaria que se voltasse a viver. Em vez de passeios de madeira. Enquanto olhava. mas reais". com crianças a apontarem para cima. deu consigo a pensar no presidente Gherkin. embora com um certo ar sulista.

Com os militares a testarem um novo avião ou uma máquina dessas . como se estivesse a pensar que devia fazer o mesmo.comentou. . subitamente. sentiu um nó na garganta e. . . Mas apetece-me um prato mais leve. são o quê? Jeremy puxou dos apontamentos e gastou alguns minutos a explicar-Lhe o que tinha conseguido descobrir.Mas isto é uma churrasqueira .Prefiro o bife. enrugou a testa e pôs a ementa de lado. . prosseguiu: . .maior parte do tempo.protestou. começando pela lenda e descrevendo em pormenor o processo de descoberta. Programas de armas secretas.Tinha esperança de que fossem alguns testes levados a cabo pelo Governo. com o cabelo exactamente do mesmo comprimento do da Lexie. . a ouvir o arrazoado do Nate. Mas. qualquer coisa do género. Depois de uma pausa. pois não? Quando falámos ao telefone disseste que tinhas visto as luzes e que tinhas quase a certeza de qual era a sua origem. levando o Nate a inclinar. Até ele se apercebeu da monotonia do seu discurso.A fábrica de papel .acrescentou.Não são fantasmas.recordou-Lhe Jeremy. Tenho pensado nele toda a manhã.Eu sei. . Jeremy acrescentou adoçante ao chá gelado que tinha pedido. Nate ficou a olhar para ele. pediu desculpa.se para ele. Nate ouvia e acenava constantemente mas. alegando que precisava de ir à casa de banho.acentuou Jeremy. Também ele passou os olhos pela ementa e disse que pensava mandar vir peixe-espada. mas quando viu uma mulher de cabelo escuro a sair do restaurante. coisas . ao terminar. onde é que nós estávamos? . Jeremy notou-lhe as rugas de preocupação na testa.Nesse caso. não se trata de fantasmas. .A falar da reunião .Então.Não . .Tens a certeza de que não era um comboio militar? As gentes da informação adoram revelar segredos dos militares. Com ar ausente. Nate olhou para o tronco. Quando regressou. Nate estava a analisar a ementa. No final.

Do outro lado da mesa. Jeremy viu as suas possibilidades começarem a desmoronar-se. se queres ser aceite.Conseguiste descobrir qual era a versão verdadeira da lenda? Talvez pudéssemos explorar o ângulo racista. mas.desse tipo. o agente brincava com o garfo. Encontraste mais qualquer coisa. . . são dele .Ah. Mas. Não ouvi quaisquer ruídos. mas trata-se apenas de luzes reflectidas no comboio. os instintos do Nate eram superiores aos dos editores.As palavras não são minhas.esclareceu o Nate. Estou certo ou estou errado? Estou certo.Nem consegui confirmar a existência de Hettie Doubilet. . .comentou. Jeremy negou com acenos de cabeça.Do Alvin.respondeu Jeremy com voz neutra -. fazendo-o rodar nos dedos. não quero parecer desmancha-prazeres. quando se tratava de uma história. sim? . . Sabia que. quando foi entregar os vídeos fiz-lhe umas perguntas acerca da história só para saber a opinião dele. Disse que isso era contigo. O que significa que deve ser importante. não foi? .Escuta. algo interessante.Mas não me esclareceu do que se tratava. é evidente. Para além das lendas.Lamento . não são eles que vão mostrar-se excitados. tens de apimentar o trabalho. Ao olhar para Nate. A expressão de Jeremy não se alterou. . não fui capaz de encontrar vestígios dela em qualquer documento oficial. Se não mostrares entusiasmo.Estás a falar de quê? . vá lá. a mostrar-se muito satisfeito consigo próprio. . Jeremy quase sentia o diário a abrir um buraco na bolsa a tiracolo. Ou talvez tenhas ouvido por lá qualquer pormenor para o qual não encontres explicação. sê franco comigo. E Watts Landing desapareceu há muito tempo. e faloume de uma outra coisa que encontraste.Não é grande coisa . Ao observar o agente. .

Traçou o paralelo entre Boone Creek e outras investigações de fenómenos misteriosos e. viu os gestores trocarem olhares. A solução era demasiado simples. não lhes falara nele. Em vez disso. A sua história. Depois. mas Jeremy sabia que não haveria mais telefonemas. Tinha começado a nevar. Como não continuasse. depois de terminada a reunião. Nate prometera manter-se em contacto. mais de uma vez. . seria retirada da brochura. a lenda seria aproveitada na totalidade e os turistas seriam informados de que poderiam assistir a um espectáculo excepcional. demasiado normal. a observar com ar ausente o mundo lá de fora. a saber que era chegada a altura de tomar uma decisão. o mistério do cemitério de Boone Creek. tal como fizera em relação a Nate. e não deixara de notar o desapontamento deles no momento da despedida. tal como eles fizeram. Quanto ao diário. Nate tinha comunicado tal entusiasmo aos produtores que estes ficaram transfigurados com o que viram. Tinha uma proposta simples a apresentar-lhe: Boone Creek deixaria de falar aos turistas inscritos no Circuito das Mansões Históricas da possibilidade de verem os fantasmas do cemitério.Bom .começou Jeremy. A palavra assombrado. Mais tarde. Contudo. sozinho no apartamento. O agente tinha feito um excelente trabalho. bem como qualquer insinuação de que as luzes estivessem relacionadas com qualquer fenómeno sobrenatural. claramente a pensarem na maneira de o integrarem no programa. Jeremy encontrava-se sozinho no apartamento.Então? Mais tarde. sabia que não iria trabalhar com eles.. os flocos formavam uma massa que caía em espiral e que as luzes dos candeeiros da rua tornavam hipnótica. A reunião tinha começado bem. era como um romance excitante que fracassava no final. e referiu a forma meticulosa como abordou a investigação. Jeremy falou da lenda. a notar o crescente interesse dos interlocutores enquanto lhes falava de Hettie Doubilet. com o diário pousado em cima das coxas. Embora alguns dos turistas pudessem ver as luzes e imaginar que elas fossem os fantasmas . telefonou ao presidente Gherkin. Nate inclinou-se sobre a mesa. mais tarde.

Em troca. A noite não lhe correu lá muito . Falou com o seu editor da Scientific American. com fantasmas. Jeremy não deixou de reparar na ironia da situação e passou o resto do dia a lamentar a credulidade dos verdadeiros crentes. Jeremy pedia ao presidente que retirasse das suas lojas da baixa todas as canecas e T-shirts com alusões ao fenómeno. a imaginá-la muito ocupada nos preparativos para o casamento com Rodney. assim julgava. Passou horas na Internet e consultou inúmeros jornais. VINTE E UM Nos dias que se seguiram à reunião mal-sucedida com os produtores. ficou a saber que Clausen . acordou escrever um artigo acerca dos perigos das dietas com baixos níveis de hidratos de carbono. pelo menos. Eram demasiado dolorosas. Na sexta-feira foi a uma discoteca. fez o que pôde para afastar tais ideias da cabeça. Ou. os guias voluntários das visitas nunca poderiam aludir a tal possibilidade. e a recordar vagamente uma sugestão do Nate.de que falava a lenda. Embora continuasse a pensar em Lexie com frequência. Pouco a pouco.com a ajuda de uma conhecida firma de publicidade de Nova Iorque tinha ultrapassado a tempestade provocada pela aparição de Jeremy no programa Primetirne e continuava em negociações para conseguir ter um programa pessoal. Jeremy concentrou-se na tentativa de voltar às rotinas habituais. Jeremy ligou para Alvin. Desapontado. Procurou. Depois de desligar. à procura de outros temas de interesse. retomar a vida que fazia antes de conhecer a Lexie. nem informaria nenhum habitante da vila de que o presidente da Câmara sempre soubera a verdade. pelo contrário. a quem obrigou a jurar que guardaria o segredo. estava a conseguir recompor-se. Não denunciaria o plano do presidente da Câmara para tornar a vila uma versão de Roswell. Já atrasado nos prazos. Finalmente. Jeremy prometia nunca fazer qualquer referência ao cemitério de Cedar Creek na televisão. O presidente Gherkin aceitou a oferta. no Novo México. na sua coluna ou em qualquer artigo independente.

tirou uma de vinte dólares e chegou à porta no momento em que ouviu bater. . . o que mostrava a biblioteca. com uma nova tempestade a assentar arraiais.comentou. convencera-se verdadeiramente de que estava tudo acabado. Em vez de se misturar e de tentar captar a atenção das mulheres mais próximas.Doris? Doris bateu os pés para se libertar da neve. . Lexie não tinha telefonado e ele também não. mas ver os irmãos e as mulheres com os filhos apenas o fez desejar uma vida que nunca poderia vir a ter. imaginou que Lexie poderia estar a almoçar ao mesmo tempo que ele. Passou os dedos pelas notas. ao abrir a porta. Por vezes. até que finalmente ela sorriu. . viu Doris à sua frente. Pela terceira vez numa semana. pois.exclamou. Pegou na carteira e dirigiu-se para a porta. Pode subir.Surpresa! . . Não podiam ter acontecido. acabando por sair muito antes da hora habitual.Chegou depressa . ele e a visita fitaram-se. encomendou o almoço ao restaurante chinês que havia no quarteirão onde morava. dizia para si mesmo. No dia seguinte foi a Queens visitar a família. mas o pensamento foi interrompido pelo toque do intercomunicador. Por instantes. aqueles poucos dias de contacto com Lexie pareciam-Lhe nada mais do que uma miragem que tivesse andado a investigar.Habitualmente levam… Não conseguiu continuar. para depois se recostar na cadeira. a pensar nas escolhas que tinha feito. mas ao sentar-se à secretária deu consigo a olhar de novo para os postais e acabou por pregar um deles. sentou-se no bar e entreteve-se com uma só cerveja durante a maior parte do serão. Durante a tarde de segunda-feira. na parede por detrás da secretária.A porta está aberta. ouviu uma voz feminina. Por entre os ruídos de estática do intercomunicador. Ele pestanejou: . Em silêncio.bem.

.É agradável . ou vai convidar-me a entrar? . claro. Eu sei.. Ela tirou a mala do ombro e olhou-o nos olhos..Acerca da Lexie? Não obteve resposta imediata.É evidente que vim falar consigo.Há uma tempestade lá fora ..Temos muito de que falar . Jeremy continuava a olhar. Portanto.Por acaso. .Vai obrigar-me a ficar aqui no patamar.admitiu. a andar à volta da sala.Entre outras coisas . . a encolher os ombros quando o viu enrugar a testa. A visita parou junto à janela. Precisa mesmo de mandar arranjar o elevador. mantendo a voz firme.Maior do que eu pensava.Pois. E tem tanto movimento! Percebo as razões que levam as pessoas a quererem viver aqui. a indicar-Lhe que entrasse. Deu uma vista de olhos pelo apartamento e tirou o casaco.. .Mas. perto da porta. . O táxi derrapava de um lado para o outro da rua.. Doris passou por ele e pôs a mala em cima da mesa. Doris suspirou e falou calmamente: .tartamudeou. não tem por aí chá? Ainda me sinto gelada.comentou. a tentar encontrar significado para aquela súbita aparição. tem ou não tem chá? .O que é que veio cá fazer? .Sei que tem dúvidas.esclareceu Doris. . Faça favor .. mas vamos precisar de algum tempo. . .Desculpe. e está tanto frio que até pensei que não conseguia cá chegar. .informou -. mesmo com a tempestade. . Mas as escadas são assassinas..Mas a cidade é bonita. .

. em pessoa. . Deve ter ficado bastante chocado. por favor. Respirou fundo e deu um passo para o patamar. .Carne de vaca com brócolos. Ele tinha dado o número de telefone à Rachel.É o meu almoço .Dê-me um minuto. Pôs-se de pé. viu de relance a Doris a ajeitar a blusa. por isso. telefonei-lhe. .Cheira bem.Falou com o Alvin? . fosse como fosse. levou a chávena para a sala. mostrou-se muito simpático e deu-me o seu endereço. onde se encontrou com o distribuidor logo que ele subiu o último lanço de escadas. . Foi através dele. O intercomunicador tocou de novo e Doris olhou de relance para a porta. Pareceu-me um perfeito cavalheiro. Mas queria falar consigo. enquanto esperava. Jeremy viu na conversa de circunstância um sinal de crescente nervosismo e decidiu manter-se calado.informou Jeremy. aborrecido com a interrupção.Peço desculpa por não ter telefonado. Um instante depois.Ontem.O que é que encomendou? . arroz e porco frito. Entregou-lhe a chávena e ela bebeu imediatamente um gole.Falei com o seu amigo Alvin. Regressou e estava a colocar o saco em cima da bancada da cozinha quando ouviu a voz da Doris. premiu o botão do intercomunicador e destrancou a porta. onde encontrou a Doris sentada no sofá. . Sabia que ela estava apenas a tentar encontrar a forma de expressar o que tinha vindo dizer.Como é que descobriu a minha morada? . tornou a mexer-se. Talvez fosse a maneira como o disse que o obrigou a sorrir. Gostaria de tê-lo conhecido quando esteve em Boone Creek. Reconheço que o devia ter feito. . . Depois de lhe juntar um pacote de chá.Jeremy dirigiu-se à pequena cozinha e aqueceu uma chávena de água no microondas. o facto de ela estar nervosa ajudou-o a acalmar os próprios nervos.

Tive de sair de casa ao amanhecer e o voo estava atrasado. E. Nem calcula quanto tudo isso me fazia sentir inútil. É uma grande viagem.Oh! . motivo por que nunca consegui fazer a viagem. Foi a primeira vez que viajei de avião. na altura. a falar com toda a gente.Sofreu em silêncio. Lexie pediu-me que a viesse visitar quando viveu aqui. O mau tempo fez cancelar tudo e. Depois ela regressou. Por baixo da carapaça. a assegurar-se de que todos ficassem com a impressão de que ela estava bem. mas eu sabia quanto estava perturbada. por algum tempo. não me disse que gostava de conversar durante uma boa refeição? Dividiu a comida e trouxe os pratos para a mesa.Agradava-lhe se eu fizesse dois pratos? .acabou ela por confessar.Chega para os dois . Doris sentou-se ao lado dele. nem houve a certeza de que levantássemos voo. além disso. Doris hesitou: . Chegada ali. Bastante em baixo. . Escondia o que sentia ao manter-se sempre ocupada. deixou que ela começasse. .Qual o motivo de vir contar-me tudo isso? .comentou. mas isso é apenas o que ela deseja que os outros pensem. Penso que a julga uma pessoa dura e forte.Não tomei o pequeno-almoço e acho que nem me tinha apercebido de que tinha tanta fome.Nunca houve uma razão para isso. Além disso. Mais uma vez. . não foi? .Não gostaria de vir comer o seu almoço..Está delicioso .Contou. comeram em silêncio. enquanto tirava os pratos. mas o meu marido não estava muito bem de saúde. manteve a aparência corajosa. a correr daqui para ali. durante alguns minutos.Ela contou-lhe. . é uma pessoa como qualquer outra. estava nervosa. Não podia fazer nada por ela. e sentia-se esmagada pelo que tinha acontecido com o Avery. . .

não é verdade? . por que veio falar comigo? .Acredita realmente no que está a dizer? . quem acabou não fui eu.Já foi casado. Doris perguntou: .Não . tive a sensação de que compreende o que as mulheres desejam mas. Doris observou-o demoradamente. Jeremy soltou uma gargalhada.Então. Em vez de responder ao comentário dele. . .Julgo que isso quer dizer que eu sou capaz de convencer as pessoas? . A Lexie contou-lhe? .Outra vez os dons psíquicos? . Porta-se com uma confiança que muitas mulheres consideram cativante. nada disso. Ao mesmo tempo.Porque agora está a agir da mesma maneira.Não. Jeremy remexeu a comida com o garfo.O que é que isso tem a ver com o resto? . . Descobri isso durante a nossa primeira conversa. .contrapôs Doris.Também tenho consciência disso. Disse-Lhe que desejava encontrar uma forma de fazer a relação funcionar. .Tentei falar com ela. é .Porque a Lexie não me ouve. . . .Significa que tenho a esperança de que não seja tão teimoso como ela. a decisão continua a ter de ser dela. Apesar da tensão. .Não. não pretende entregar-se completamente.Há muito tempo.. Nem todas.Mesmo que estivesse disposto a tentar de novo. Tem mais a ver com a forma como interage com as mulheres.As mulheres desejam o conto de fadas. por qualquer razão.Doris.

Jeremy. já não interessa.Ela não está apaixonada por mim.evidente. Foi isso que a levou a apaixonar-se por si. . antes que pense que foi uma maneira de o afastar.De qualquer maneira. deve pensar que ela apenas disse tal coisa para. Levantou-se da mesa. . Jeremy abriu a boca para negar. .explicou. Em vez disso. apercebia-se agora. Não. Doris estendeu o braço por cima da mesa e agarrou-lhe na mão. Fez uma pausa. E merece saber a verdade.Além do mais. na sua maioria. . Doris encarou-o.esclareceu. . Vai casar-se com o Rodney. não acreditou nisso. Contudo.É um bom homem. depois de você partir.É óbvio que está. abanou a cabeça. foi esse o motivo que me trouxe até cá. . as mulheres sonham com aquele género de homem que arriscaria tudo por elas.Não.Uma situação do género da que criou quando foi ter com ela à casa da praia. mas. não tinha acreditado nela. mesmo sabendo que poderão acabar por sair magoadas . fazendo nova pausa para deixar que as ideias assentassem. pois não? Foi a maneira como Doris disse aquilo que o fez recordar-se da sua própria reacção quando ela falou no casamento com o Rodney. . não vai. . mas não conseguiu. não ter de ficar acordada durante a noite a pensar no motivo por que você nunca mais voltaria .

. Não dispunha de tempo para indecisões.. . . antes de se dirigir para a sala de estar. Tinha de lá voltar.O que é? . Dizer-lhe que faria tudo o que fosse necessário para poderem ficar juntos. Precisava de pensar. Se não regressar esta noite.Eu sei. de avaliar as opções.Tenho de ir apanhar o avião. tentar convencê-la de que nunca falara mais a sério. onde recuperou a mala de mão. Falar-Lhe. Ainda antes de a Doris ter acenado a um táxi no exterior do .A verdadeira pergunta deveria ser: O Jeremy encontrou a resposta? VINTE E DOIS Jeremy ficou a percorrer a sala a passos largos.Uma grande viagem. do que no momento em que afirmara que a amava. Ela voltou-se: . a dar-lhe uma palmadinha no ombro. em toda a sua vida.Doris! .Encontrou a resposta que procurava? Doris sorriu.Porquê? . depois de saber o que sabia. Dizer-lhe que não concebia a vida sem ela. . Teria sido mais fácil telefonar-me. Agora não. Lexie vai perceber que anda qualquer coisa no ar. de modo a decidir o que fazer. Passou a mão pelos cabelos e abanou a cabeça.Pretendi saber que também estava apaixonado por ela explicou.chamou Jeremy. Mas tinha de ver a sua expressão. Prefiro que não saiba da minha vinda a Nova Iorque. Meter-se no primeiro avião em que conseguisse lugar e voltar a procurá-la. .

chegava. Agarrando num saco de viagem. disse ao condutor que estava com pressa e sentou-se. . Mesmo com bom tempo. tentou pensar se precisaria de mais qualquer coisa. fazia-o sem qualquer sentido de premência. meio enterrado numa pilha de papéis. duas camisas. Deu-lhe uma vista de olhos e verificou que tinha dinheiro suficiente para chegar ao aeroporto. não iria precisar dele. O último avião para Raleigh partia dentro de noventa minutos. Pegou nas chaves que estavam na mesa junto da porta e deu uma derradeira vista de olhos. Meteu o diário e o estojo de higiene no saco a tiracolo. mais furioso a cada segundo que passava até que. Vestiu o casaco e enfiou o telemóvel num dos bolsos. Chamou um táxi. Computador portátil? Não. pois sabia que não ganharia nada em irritá-lo. mas acabou por desistir: não tinha tempo. o trânsito estava difícil e uma simples paragem a meio da ponte do East River foi suficiente para o pôr a praguejar em surdina. Não escondia uma expressão de aborrecimento. Pegou no carregador que estava em cima da secretária. a viagem de táxi levaria metade desse tempo. e embora conduzisse depressa. desligou o computador e pegou na carteira. Jeremy mordeu a língua.edifício. conseguiu ser atendido. mas a outra opção era esperar até ao dia seguinte. finalmente. para já. a respirar fundo. Que mais? Oh. Lembrou-se da máquina de barbear e da escova de dentes e atirou-as lá para dentro. Ficou a aguardar o que lhe pareceu uma eternidade. pois claro. Tinha de andar depressa. atirou lá para dentro dois pares de calças de ganga. tirou o cinto e meteu-o no saco. juntamente com as chaves. Pelo canto do olho viu o diário de Owen Gherkin. Correu à casa de banho e verificou o conteúdo do estojo de higiene. à espera de que tudo corresse pelo melhor. Apagou as luzes. peúgas e roupa interior. antes de fechar a porta e desarvorar pelas escadas abaixo. Doris tivera razão: por causa do nevão. Para poupar tempo nas operações de controlo de segurança. já ele estava a telefonar para a companhia de aviação. O taxista estava a observá-lo pelo retrovisor.

chegaram ao aeroporto e foram direitos ao terminal. Jeremy começou a correr. . depois de consultar uma vez mais o relógio. . pegou na carta de condução e contou as portas de embarque que faltavam. logo que chegou à área de verificação de segurança. Ao entrar no avião ainda não tinha conseguido normalizar a respiração. No momento em que o táxi parou. . Finalmente. logo que conseguiu o bilhete correu para o controlo de segurança.Só por ter havido um ligeiro atraso .Consegui? . A queda de neve. mas conseguiu uma aberta com a súbita abertura de uma nova passagem. abriu a porta e atirou duas notas de vinte dólares para o banco ao lado do condutor. A assistente colocada junto da porta ficou a olhar para ele. que parara durante algum tempo.perguntou. Deslizando por entre as multidões. Faltavam quarenta e cinco minutos para a partida. Faltavam menos de dez minutos para encerrar o acesso ao voo e. reduzindo ainda mais a visibilidade. a Fila para obter o bilhete electrónico era curta.Não tarda que encerremos as portas. . Dez minutos mais tarde. recomeçou. hesitou apenas durante uma fracção de segundo perante o quadro electrónico das partidas. Felizmente. pode sentar-se onde quiser . Jeremy conseguiu adiantar-se a três delas. numa corrida. A corrente de trânsito voltou a abrandar e Jeremy suspirou em voz alta.esclareceu a funcionária do balcão ao inserir o nome no computador. É o último passageiro a entrar. Estava ofegante quando conseguiu alcançar a porta e sentia que começava a transpirar. As pessoas que estavam à espera começaram a deslocar-se naquela direcção.informou a assistente de bordo ao receber-Lhe o cartão de embarque. a ofegar. A assistente recebeu-lhe o bilhete e fechou a porta logo que ele começou a subir a rampa.Os minutos passaram. . Sentiu um baque no coração ao verificar a extensão das Filas de espera.Obrigado. em vez de andar em passo normal. a procurar saber qual era a sua porta de embarque. Uma vez dentro do terminal.

Estava a arrumar o saco na bagageira quando avistou a Doris. . ainda espantado por ter conseguido. Por mais que matutasse. não reparara nesses pormenores. Nunca deixou que a velocidade baixasse para menos de 120 e poupou quarenta e cinco minutos numa viagem de três horas e meia. três filas atrás dele.Não vai precisar do carro? .Caminhou pela coxia. e viu um assento de janela vazio. Doris devolveu-lhe o olhar mas manteve-se calada.Terei muito gosto em dar-lhe uma boleia. Perto da saída.acrescentou. O avião aterrou em Raleigh às 15h30. Doris voltou-se para ele.Importa-se de me deixar em casa? Olhou para ela. Vou para esses lados. Tentou ensaiar o que pretendia dizer ou prever as respostas que ela lhe daria. olhou por cima do ombro.Só preciso dele amanhã. . está frio para se andar por aí à noite. nem se recordava muito bem da viagem. Também não interessava.Tenho de alugar um carro. a meio do avião. . não deu pela passagem do tempo. que fora colocado junto à porta da . Jeremy chegou com facilidade à porta dela. mas teve de reconhecer que não fazia ideia do que ia acontecer.E deixo-o conduzir . não conseguia imaginar uma outra maneira de fazer as coisas. caía a noite quando se aproximou dos arredores da vila. . Jeremy percorreu o terminal em companhia da Doris. Viu o seu jornal. sorriu. Aproximavam-se do centro e puderam verificar que as ruas estavam calmas. limitouse a sorrir. Além disso. a aperceber-se de que mal tinham falado desde a saída do aeroporto. Ao vê-lo hesitar. Com o pensamento fixo em Lexie. A seguir as instruções de Doris. a dizer: . Com imagens dispersas de Lexie a flutuarem-lhe na cabeça.

Vir ali teria sido sen sato? Lexie ficaria satisfeita quando o visse? Qualquer confiança que tivesse sentido. pensou.Não . Ao perceber que faltavam poucos minutos para ver a Lexie. deu uma olhadela a si mesmo no espelho retrovisor. apercebeu-se de que via apenas a respiração deles a condensar-se no ar frio. embora a princípio lhe parecesse que estavam a fumar. mas não fazia ideia de quando tinha sido. obrigando os pneus a chiarem ao acelerar na direcção da biblioteca.Há algum conselho de última hora? . percorreu o cabelo com os dedos. tinha a certeza. a reconhecer que a necessidade compulsória de rever a história dos dias ali passados não passava de uma tentativa para acalmar os nervos. não tinha? Numa das conversas entre ambos? Sim. Um grupo de adolescentes conversava numa esquina e. a tentar esconder as dúvidas que o assaltavam. . naquela luz baça. Jeremy forçou-se a sorrir.pequena vivenda pintada de branco. . . . Virou novamente.respondeu Doris.Além disso. Jeremy fez inversão de marcha. Arrumou o carro . Doris notou o gesto nervoso e deu-lhe uma palmadinha na coxa. já recebeu tudo o que eu tinha para lhe dar. A lua em quarto crescente aparecia logo acima da linha dos telhados e.Bem-vindo a casa . a acenar com a cabeça. A baixa apareceu-lhe bem nítida.Vai correr tudo bem. Lexie tinha-Lhe dito que mantinha a biblioteca a funcionar para as pessoas que saíam dos empregos. não está? Jeremy assentiu e Doris inclinou-se no banco para o beijar na face. Está aqui. no lado mais afastado do cruzamento viu as luzes da biblioteca. Passou pelo Lookilu e viu uma meia dúzia de carros no parque de estacionamento. perto da pizaria. Acredite em mim. evaporara-se com a aproximação da biblioteca.sussurrou. Teria sido no dia em que se conheceram? No dia a seguir? Suspirou. acesas em ambos os pisos. em contraste com as imagens de fantasia e nevoeiro que recordava.

Saiu há cerca de uma hora. apressou-se a percorrer o corredor e a subir a escada. não viu sinais de Lexie.saudou na sua voz cantada. Se o carro ali não estivesse. Marsh . não tardou a alcançar a porta principal e a abri-la. Entre os leitores. parou para espreitar pelas portas de vidro toda a área do primeiro piso. a caminho da sala de livros raros. fez-Lhe notar uma voz interior. Penso que foi a casa da Doris. Jeremy não se deu por achado. . a seguir. sempre a olhar à volta e a dirigir-se para o gabinete dela.Mr. carregada de livros. a ignorar os olhares de pessoas que decerto o reconheciam. Mas não deixou de esquadrinhar os cantos da sala. Uma das voluntárias mais idosas apareceu. Sem ninguém no balcão de atendimento. Ao caminhar para a porta principal. Fechada à chave. De longe. Sei que Lhe tinha telefonado e que a Doris não respondeu.e meteu-se na noite fria. . Cortou caminho por entre as mesas da sala principal. A respirar fundo e em grandes passadas. . . só para ter a certeza. e os olhos brilharam-lhe quando viu Jeremy a aproximar-se.Não esperava voltar a vê-lo! O que é que o traz por aqui? . Pouco interessava. verificou que a porta estava fechada e que não se via luz pelas frinchas. percebeu que deveria ter verificado se estacionamento. sempre a andar depressa. A pensar que a Lexie poderia estar no seu gabinete ou na sala principal.Andava à procura da Lexie. Experimentou a porta e notou que estava fechada à chave. espreitou para todos os corredores entre as estantes. para ver como ela está. o carro dela estava no parque de Nervos. o mais provável era que Lexie tivesse ido para casa.

A voluntária fez uma pausa. .Se ela voltar.Não . Estremeceu de frio ao sair da biblioteca e correu para o carro. .Quero fazer-lhe uma surpresa. mas sabe como é a Lexie quando está preocupada. Por vezes. antes que pudesse perguntar fosse o que fosse. Contudo.Outra vez a história? Talvez o possa ajudar. Entrou na rua onde morava a Lexie e sentiu que algo cedia ao ver que não havia luzes na casa e que o carro dela não estava . vinda lá de trás: . Acima das árvores. milhares delas. consegue pôr a Doris maluca. sem se voltar. mas ela sabe que é apenas a maneira de a neta Lhe demonstrar quanto se preocupa. quer que lhe diga que esteve cá? . se precisar de lá ir. a reparar no céu cinzento e cada vez mais escuro. não é necessário. . mas tenho mesmo que falar com a Lexie. Já ia lançado. Parece uma mãe-galinha. adoraria ficar aqui a conversar.Não. Mas agradeço na mesma. Tentei convencê-la de que a Doris poderia ter coisas a tratar. Entrou na rua principal e fez a curva que leva à extremidade da vila. a aperceber-se subitamente de que Jeremy não dera qualquer explicação acerca do seu reaparecimento. .E também soube que a Doris não estava no Herbs. Jeremy trocou-Lhe as voltas.Oh! . Por instantes.disse. Milhões. imaginou como pareceriam vistas do cimo de Riker's Hill. Tenho a chave da sala de livros raros.Escute. quando ouviu a voz dela. avistou as estrelas..

Ter-se-ia cruzado com alguém? Não. ou. ainda enervado pela possível reacção de Lexie quando o visse reaparecer. a conduzir demasiado depressa dentro da vila. a tentar perceber onde é que Lexie teria ido. Agarrou-se bem ao volante. A vila não era grande e as opções eram poucas. a confirmar se teria cometido algum erro. ao tomar lugar no avião. Uma vista de olhos foi suficiente para verificar que a Doris já se tinha deitado. Sem crer no que via. Se não se encontrava em casa nem na biblioteca. Supôs que ela estivesse empenhada em qualquer actividade corrente: a comprar artigos de mercearia. . passou pela casa lentamente.no desvio. que se lembrasse. a devolver um vídeo alugado ou a recolher roupa na lavandaria. O luar banhava o cemitério de uma claridade quase azulada e as pedras tumulares pareciam iluminadas por luz interior. mas também não podia afirmar que estivesse com atenção. a pensar que não voltaria a ver a Lexie. como lhe acontecera durante a tarde. Decidiu passar por casa da Doris. No entanto. Contudo. tinha a certeza de que teria reconhecido o carro dela. Pensou de imediato no Herbs. parou em frente da casa. nem em qualquer outro local do centro. Ao aproximar-se da porta do cemitério. Conduziu pelas estradas escurecidas. só para confirmar. ou. Custava a acreditar que tivesse começado o dia em Nova Iorque. subitamente percebeu aonde ela estava. sem deixar de procurar o carro dela. onde é que poderia estar? Ter-se-iam cruzado quando ele fora levar a Doris a casa? Tentou pensar. Não vira o carro dela no parque do Lookilu. correu para a vivenda branca. a tentar arranjar forças para completar a viagem. e que agora se encontrasse em Boone Creek. A cerca de ferro forjado acrescentava um toque fantasmagórico àquele cenário etéreo. mas lembrou-se de que o restaurante não abria à noite. viu o carro da Lexie parado junto do portão. Sentia um aperto no peito e notou que respirava com demasiada rapidez. E. assim. a planear o que julgara ser impossível.

Voltou a concentrar-se nas sepulturas e Jeremy percebeu apenas que não fazia ideia daquilo em que ela estava a pensar. Ao olhar para ele sem pestanejar. . como se tivessem sido mergulhadas em óleo. desviou-se de uma cripta a desmoronarse e caminhou devagar. no sítio exacto em que esperava encontrá-la. de se encontrar a si próprio. Dobrou o cimo do pequeno morro. Enquanto ele a observava. Pensou ouvir um murmurar baixo e. desviou o olhar. quase pesarosa. a tentar fazer o mínimo de ruído enquanto subia a pequena rampa. Dentro de momentos veria a Lexie e ela vêlo-ia também. Lexie parecia uma estátua de pedra. Arrumaria a questão de uma vez por todas. não o queria de maneira nenhuma. e os olhos eram de uma luminosa cor violeta. ao parar para escutar. Passou por cima de um ramo e recordou-se de ter andado aos tropeções pelo cemitério. onde tudo começara. Passou pelo portão e viu a magnólia de folhas negras e lustrosas. sentiu um fluxo intenso de adrenalina. ouviu um mocho piar de cima de uma árvore. ouviu os estalos do motor a arrefecer e das folhas secas que pisava. Falava em voz baixa. De repente. Durante um momento que pareceu interminável. Viera preparada para enfrentar o tempo frio: cachecol à volta do pescoço e luvas pretas que faziam que as mãos dela parecessem sombras. Lexie estava de pé. numa noite de nevoeiro em que estivera ali com a Lexie e não conseguia ver onde punha os pés. sabia que os pais da Lexie se encontravam sepultados do outro lado. A meio do caminho. O rosto mostrava uma expressão vaga. Ela não o queria ali. mas ele não conseguiu entender as palavras.Arrumou o carro a seguir ao dela. viu a Lua pendurada no céu. banhada pela luz prateada. e sentiu o corpo a preparar-se para o que viria a seguir. Colocou a mão no capô do carro da Lexie e sentiu o calor que ainda irradiava. Por cima dele. Acabava de a encontrar. Lexie parou subitamente e ergueu os olhos. Respirou fundo. Finalmente. a vinda ali pareceu-lhe um erro. Tinha parado havia pouco tempo. Deixando o carreiro. Chegara a hora. fixaram os olhos um no outro. como se tivesse sido colada numa folha de papel preto. Ao sair do carro da Doris. ali.

Sentiu o corpo percorrido por uma sensação de alívio. enroscados debaixo de um cobertor. levantou-lhe o rosto e beijou-a. As luzes brancas e amarelas da vila.Não . em vez disso. Ela pediu desculpa por ter mentido acerca do Rodney e confessou que afastar-se do Greenleaf. deixando-o parado na estrada de terra. se necessário. encostou-se a ele. ele contou-Lhe que. a iluminarem o viaduto ferroviário.sussurrou-lhe junto da orelha -. Quando estava suficientemente perto para a tocar. como carvão líquido. A Doris tivera razão. desde . ou mesmo até Boone Creek.Sabes. o seu editor do Scientific American estava disposto a deixá-lo trabalhar tendo Boone Creek por base. as mulheres gostam de um homem capaz de as seguir até ao fim do mundo. a saber que nunca mais a deixaria. . três dias depois do regresso de Jeremy a Boone Creek. fora a decisão mais difícil de toda a sua vida. mas reparou no ligeiro sorriso de Lexie. as luzes da fábrica de papel espalhavam-se em todas as direcções. EPÍLOGO Jeremy e Lexie estavam sentados juntos. Lexie não se afastou. a olhar a vila que se estendia mais abaixo. embora o Nate não se deixasse entusiasmar pelo filme. Para lá do rio. estendeu o braço e pôs-lhe a mão na anca.Sentiu a garganta endurecer. a servir de espelho ao céu. Chegara ao lar. Apertando-a mais contra si. Por sua vez.As mulheres gostam de homens que saibam ser subtis. . realmente não devias olhar dessa maneira admoestou. sorriu e deu um passo em frente. Nos dois últimos dias. O rio corria negro. cruzadas por ocasionais vermelhos e verdes. pareciam cintilar e Jeremy viu as plumas de fumo que se elevavam das chaminés. Era a noite de quinta-feira. e estava prestes a rodar nos calcanhares para ir-se embora. Descreveu a tristeza do tempo em que viveram afastados. um sentimento de que Jeremy também partilhou. ele e a Lexie tinham passado muito tempo a conversar. .

Acredite ou não.insistia. se conseguires fazer de mim a má da fita. por outro lado. . Contudo. mesmo que ainda não tivesse conseguido arrancar um sorriso ao Jed.Fui bom.Não quero levá-la a pensar que interfiro com a vida dela desculpou-se. . Lexie beijou-o na face. Estar com a Lexie parecia-lhe natural. . como se ela fosse o abrigo que procurava há muito tempo. custava-lhe a perceber que. . então. Por vezes. Embora a Lexie parecesse sentir o mesmo. trata-se de uma bela história.Ainda nem quero crer que me disseste que ias casar com ele. . não se referiu à visita de Doris à sua casa de Nova Iorque. No entanto. E preferia que não pensasses passar o resto da vida a lembrar-me tal coisa. têm passado muito tempo juntos. a avó chamara-o de parte e pedira-lhe que não falasse do assunto. .Parece que é .Não quero voltar a falar disso.Pensas assim porque pareces bom. Penso que foram realmente feitos um para o outro. Ela parece cintilar sempre que o Rodney aparece no Herbs e juro que fica corada. sentia dificuldade em compreender que estava realmente ali.respondeu Lexie. . Lexie levou-o a jantar em casa da Doris. . não o autorizou a viver em casa dela. considera-me metediça. Já pedi desculpa. . no segundo dia depois do regresso. . da primeira vez. .Ultimamente.Pois foste. Jeremy sentia-se razoavelmente confortável no Greenleaf. que o caso do Rodney e da Rachel é sério? indagou Jeremy.Mas. tivesse decidido ir-se embora. . Lexie deu-lhe um toque. .Pensas.que ele se deslocasse regularmente a Nova Iorque. ombro com ombro.Não quero dar à gente da terra motivos para fazer mexericos .

Por momentos. nessa altura.É necessário? . . a ouvir os pingos de chuva a bater no telhado. Lexie voltou-se para ele.O quê? Não vais dizer o que deves? . eu sei. por tudo. no horizonte. . Num lugar como este. Reynolds e combinei ir ver umas casas.Pois. já ele e a Lexie estariam a beberricar vinho na sala de estar. A dada altura. Jeremy notou os sinais de uma tempestade que se aproximava. pequenas nuvens passavam a flutuar pela frente da Lua e.Obrigada por teres voltado. mantiveram-se sentados em silêncio. . não me agradaria nada comprar casa num sítio inconveniente. Além disso. A minha mãe insiste em querer conhecerte. .Depende.perguntou Jeremy.E gostaria também de te levar a Nova Iorque. A chuva chegaria dentro de poucas horas mas. Por te mudares para cá. Por cima deles.Como sabes.Adorarei ir contigo. Gostava que me acompanhasses. Vivem lá algumas das pessoas mais simpáticas que conheci. Ela sorriu. O amor provoca reacções estranhas nas pessoas. também te amo.. Jeremy fez rolar os olhos nas órbitas. . sempre adorei aquela cidade. Em que é que estás a pensar? . . Ela abraçou-o com mais força. .Também vou gostar de a conhecer.Não tive escolha.Jeremy chegou-a mais para si e ficaram a ver uma estrela cadente a cruzar o céu. Numa das duas semanas que vêm. .Falei com Mrs. . .Tens muito que fazer amanhã? ..

. Lexie ficou durante uns instantes com a cabeça encostada ao ombro dele. Julgo profundidade. ainda duvida da existência de milagres? -Já te disse. a Doris deu-me uma notícia. Tens de proferir as palavras como quem acredita nelas. Antes de Lhe pegar na mão. Lexie pareceu seguir-lhe o pensamento.Mesmo que o milagre tivesse acontecido a nós mesmos? Falara com voz suave.Estou a falar de verdadeiros milagres..É evidente que sim.Não. . Lá longe. Jeremy sorriu.. Senhor Jornalista Científico.De que é que estás a falar? Lexie respirou fundo. para sempre. quase num sussurro. as luzes não tardariam a aparecer no cemitério. se investigarmos com a devida encontraremos sempre uma explicação. Se fosse uma noite de nevoeiro. . que. de . embora Lexie fosse mudando de expressão. . E tens de usar o tom certo. obrigando-o a olhá-la de frente. Jeremy ficou a observá-la. Lexie. Jeremy viu as luzes da vila reflectidas nos olhos dela.Amo-te.Há umas horas. diga-me. . .. a pensar se ela iria corrigir-Lhe o tom. ouviu-se o apito de um comboio e Jeremy vislumbrou um pequeno ponto de luz no meio da escuridão. Quando acontece qualquer coisa que nunca julgámos possível. . incapaz de perceber o que ela estava a dizer-lhe. Tu és o meu milagre.Então.

deitava por terra as presunções sobre o homem que ele sabia ser. . . mas quando ela lhe pegou delicadamente na mão e a colocou em cima do próprio estômago. mas as palavras continuavam a não fazer sentido na cabeça dele. zombava da magia e sentia dó dos verdadeiros crentes. Não.O nosso milagre está aqui . e Jeremy passara a vida a tentar conciliar as duas ideias. Olhou para Jeremy.sussurrou Lexie. passando por um estado de animação. começou a sentir que a sua velha segurança parecia querer esfumar-se. à espera que ele dissesse qualquer coisa. Resumindo: era impossível. não o faria. Havia a ciência e havia o inexplicável. Era um desafio às leis da Biologia. com uma euforia súbita. ao olhar para Lexie. no futuro. . Discorria sobre a realidade. a tentar encontrar um sentido para o que ela estava a dizer-lhe. não podia explicar tudo e. Jeremy acreditou nas palavras que pensava nunca chegar a ouvir.hesitante para expectante. Contudo.É uma menina.

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