Neto foi assegurado por ele. 2009.Título original Terra das Sombras Todos os direitos reservados. Continua com: Filhos das Sombras 1. Prince Produções Neto. Henri B. Neto O Direito moral de Henri B. Neto.II. Henri B. Henri B. Literatura de Ficção/Juvenil 2. . Anjos I. fotocópia ou de outra forma sem a prévia autorização do autor. Título . nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida por meio eletrônico. Sobrenatural 3. (Henrique Batista) 1989 Terra das Sombras: Primeiro Volume da Saga das Sombras – Rio de Janeiro. Arte da Capa e Design H. Copyright 2009. mecânico.

Á vocês dedico tempo... Miguel & Marcela.''Para os meus três pequenos Arcanos: Manuela. paciência e história.'' .

do que eu possa ser. Mas a grande questão é que ninguém sabe realmente o que acontece comigo.. já os professores me olhavam de uma forma mais ''humanitária''. todos me consideram bastante peculiar. Por qualquer lugar que eu procurasse estar. garanto que a minha vida chata e sem grandes preocupações se transformaria em uma gigantesca dor de cabeça num estalar de dedos. Desde pequeno.. sempre encontraria cabeças que se viravam e cochichos que me seguiriam aonde fosse. . Na escola.PRÓLOGO ''Ser diferente é normal.Mas quanta bobagem! Ser diferente não é ser normal.. O que não deixa de ser verdade. É de domínio público que eu não sou como os outros da minha idade. das coisas que eu secretamente posso fazer. não havia jeito. O que na verdade é só um jeito bonitinho e eufemista de dizer que sou ''estranho''. mas é fato também que não fazem a mínima idéia do que eu possa ter. ou melhor dizendo.. sei bem do que estou falando. a maioria dos estudantes mantinham uma espécie de distância segura de mim. Pois se os habitantes de Ventura tivessem uma pequena idéia das coisas que eu sei. Acredite.'' . me tratando como se eu fosse um portador de alguma coisa digna de pena.

provavelmente eu escolheria a segunda opção. Assim como outros poucos iguais a mim. Afinal. e sou um Arcano.. E a história que vou lhes contar a seguir se passa justamente no momento em que a minha vida definitivamente começou . de um jeito irônico e da forma mais cruel possível. metade anjos.e que.Na verdade. acima de tudo. Por que. Olá. eu me chamo Ariel. se eu tivesse o direito de poder escolher ser ou não ser o que sou.. sou mais ágil. a particularidade que nos define é justamente por sermos metade humanos. acho que esta é uma descrição perfeita para o que tenho: Uma Grande Dor de Cabeça! Algo que simplesmente acontece com a gente. mas. sem que tenhamos sequer o direito de escolha. acho que até agora não me apresentei. me desculpem. . tentaram arrancá-la de mim. mais forte e tenho uma resistência maior do que a de uma pessoa comum. entre ser um adolescente comum e um adolescente ''peculiar''. quem seria o idiota que ficaria com o que eu tenho? Bom.

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32 .''E conhecereis a verdade. e a verdade vos libertará''. J O Ã O. 8 .

1. Tudo aquilo não passava de um sonho. o que aconteceu. Mesmo estando na segurança de minha cama.povoava os meus pensamentos há mais de um mês. Um minuto após o meu despertar. O S O N H O Acordei completamente assustado. como se a criatura produzida pelo meu subconsciente pudesse estar ali. Eu sabia que estava sendo irracional. sentia como se o pesadelo ainda não tivesse acabado... a porta do quarto foi aberta com violência ..noite sim. escondida nas sombras da madrugada. Minha camisa estava encharcada de suor e o meu coração martelava desvairado contra o peito.e sob a luz fraca do corredor achavase um homem alto e esguio. -Ariel.. você está bem? . o rosto magro deformado em uma careta dura de preocupação. Fechei os olhos novamente e procurei respirar fundo. noite não . só esperando para me atacar. seus cabelos escuros emaranhados de uma forma estranha no topo de sua cabeça. um sonho aterrorizante que .

no mesmo instante. por acaso eu não gritei. -Pai.. -Ai meu Deus! . uma intuição estranha se apoderou de mim. pai ..Você sabe que não tem pelo o que se desculpar! Mas é claro que eu tinha.me encolhi. Afinal.-Estou sim.Foi só um maldito pesadelo. completamente envergonhado Me desculpe. sentido o sangue se concentrar em minhas bochechas .. talvez aquele sonho fosse menos assustador . . Adrian se aproximou de onde eu estava e. uma de suas sobrancelhas erguida de incredulidade .perguntou Adrian. Mas no segundo seguinte.Desculpe. se não fossem por minhas ''particularidades''.talvez eu nem tivesse esse tipo de sonho. Isto era tudo o que eu podia falar sem entregar o medo que me consumia por dentro. gritei? Sem se deter em meus olhos.Mas o que é isso. você me assustou!!! . Ariel? . confirmou as minhas suspeitas.. é sério. .murmurei. fazendo minhas bochechas ficarem ainda mais vermelhas . com um longo suspiro. -Ah! . a face de Adrian se descontraiu Nossa garoto.

. a indignação transparente em seus olhos cinzentos . Adrian se sentou na beirada de minha cama. erguendo sua mão direita e a colocando sobre um dos meus ombros. E além do mais.Percebendo a minha expressão preocupada. sabe que esta situação não exige tanta atenção quanto você imagina. -Você não está se martirizando de novo. é de conhecimento de todos a sua leve tendência a exagerar tudo o que acontece.Sabe muito bem o que penso sobre isso. -''Leve tendência a exagerar tudo o que acontece''! ..repeti. . filho.bufei indignado. antes mesmo dele completar o discurso.Adrian arfou. Isso é tão natural quanto respirar.É claro que não .Bom pai.Hei. Faz parte de nossa humanidade. . .me ouvir dizer com a voz estrangulada... não acreditando no que havia acabado de escutar . está? . Humanidade? Ele só podia estar brincando. não vamos discutir.instigou ele. acho que está na hora de voltarmos a dormir. -Humpf ! . um dos cantos de sua boca se curvando em um meio sorriso Por que se estiver. está bem?.respondeu ele simplesmente .Não precisa ter vergonha de seus medos. -Não exige? .

Eu já sabia exatamente sobre o que seria a pergunta dele. ele tinha certeza que eu não acabara de ter um sonho comum. meu coração parou. E assim como eu... e que a noite nosso subconsciente tentava nos alertar sobre o que estávamos deixando passar despercebido.. os sonhos podem dizer bastantes coisas. meu pai também era um Arcano. Coisas que não fomos capazes de perceber ou captar durante o dia. Acho que não são muitas as pessoas que podem fazer as coisas que eu faço e que continuam sãs. Então. por que essa droga de sonho não me deixava em paz? Será que. E era esse exatamente o problema. Mas por mais que eu pensasse. preciso perguntar uma coisa.pacata e sem atrativos. Ás vezes.-É claro que está . finalmente. para um Arcano. Pois assim como eu. o meio sorriso voltando a estampar o seu rosto jovial .. Naquele pequeno segundo. nada estava me passando despercebido. que sonhos são esses que você anda tendo ultimamente? Você realmente acha que são apenas sonhos? . A vida em Ventura continuava a mesma . Ariel.concordou ele. -Afinal. a minha mente entrara em parafuso? Será que enfim estava enlouquecendo? Eu não duvidava nada..Mas antes de voltarmos a dormir.. com cada um tentando bisbilhotar ou inventar alguma coisa sobre a vidinha monótona do outro.

quero dizer. eu pensei. esperar por apenas mais um semestre não seria nada. sim! . depois de Onze anos de total apatia e exclusão. não? .Não consigo mentir nem pra mim mesmo.. amanhã é dia de escola. . ótimo lembrete! . com um olhar que dizia ''Você é o Pior Mentiroso do Mundo''. a quem estava enganando . Afinal. Acho que realmente está na hora de dormirmos.Hum. eu.Nossa.Eu. e você vai estar livre daquele lugar! Bom.. não é mesmo? Tudo bem. Acho que no fim. era? Afinal. não era pedir muito de mim. esta deve ser a melhor maneira de se terminar um dia: acordar gritando no meio da noite devido a um pesadelo assustador e voltar a dormir pensando no ''grande'' dia que teria na Academia Constantine. com a minha melhor cara de inocente .Nossa. ele foi direto no ponto! . provavelmente não deve ser nada demais. Sem dúvida alguma. . Só mais seis meses..Menti. São só mais sei meses.resmunguei entre os dentes.replicou meu pai. acho que sim.. então você deve estar certo . Sabe como sou. o purgatório até poderia ser um lugar acolhedor e com pessoas amáveis.Pelo menos.

Completamente exausto. Adrian se levantou e caminhou de volta para o seu quarto. Isto era um fato irrefutável. mas definitivamente nós não estávamos na mesma sintonia. Já eram Uma da manhã. aquilo estava me deixando mais relaxado. talvez fossem as luzes. quem sabe poderia ser a acústica. era lá que eu encontrava as respostas para as minhas perguntas. saí . pensamento positivo! . E foi isso que eu fui fazer. Sabe.Isso aí. Depois de cinco minutos. Quase pude ver os meus músculos se descontraindo sob a pele e a minha pulsação acelerada se acalmar. me pus de pé e fui para o banheiro. Talvez fosse a cor. reconheço todo o trabalho que ele teve para me criar sozinho. Encontrar a resposta para uma pergunta que nem eu sabia qual era. me deixando completamente sozinho e perturbado. Por mais gelada que estivesse a água. eu gosto muito do meu pai. Com um salto. mas qualquer que fosse a explicação.Com uma última piscadela. Minha cabeça estava trabalhando a mil por hora. e visões indistintas do meu pesadelo vinham a tona todas as vezes que tentava fechar os meu olhos. tirei a minha roupa e me enfiei debaixo do chuveiro. sempre achei o banheiro um ótimo lugar para se clarear as idéias. e a única coisa que se fixava em minha mente era que eu tinha que fazer alguma coisa. Ironicamente.. As horas se passavam e eu não conseguia voltar a dormir.

me dando mais tempo livre para ficar em casa antes de ir para a escola. Ao contrário. é a verdade. Não com a minha aparência. Só ao me olhar no espelho foi que me dei conta que a criatura do meu sonho era extremamente parecida comigo. muito menos a minha altura ou meu porte físico de nadador. meu cérebro parecia estar trabalhando de uma forma tranquila. me enrolei na toalha e segui em direção ao grande espelho sobre a pia.do box renovado. E o melhor. Já que estava no banheiro e sem um pingo de sono. Por mais que ele diga que somos pessoas normais. Foi então que o meu cérebro deu um click. como . o que me fez lembrar dele foi algo que poucas pessoas conseguem enxergar em mim: A minha falsa humanidade.80. iria aproveitar a ocasião pra fazer a droga da minha barba . Adrian simplesmente odeia quando falo assim. passando de longe os meus 1. é claro . o ser era comprido ao extremo. Mas o que posso fazer. E diferente de mim . Na verdade. sou forte porém magro . e não alucinada como estava antes da ducha. apenas dotadas de dons peculiares. Sentindo-me calmo e tranquilo.que devido a minha condição.o que me pouparia o trabalho na manhã seguinte.cada centímetro dele parecia exalar uma força bruta e cruel.ela não tinha os olhos cinzentos e os cabelos escuros como eu.

. Me esquecendo por completo do que iria fazer. a luz da lua resplandecendo no topo das árvores mais altas. sua arquitetura antiquada sempre me lembrando uma catedral gigante que não parava de crescer. ou são capazes de correr tão rápido quanto uma fera? A resposta é cuta e grossa. Definitivamente.posso concordar com um absurdo desses sabendo que seres humanos comuns não tem a pele tão impenetrável quanto o aço. E assim como eu. Por mais calmo que parecesse a paisagem. aquela visão não me deixou nenhum pouco tranquilo. já as ruas desertas eram iluminadas apenas pelos lampiões e os antigos prédios góticos do centro estavam no escuro. Tudo continuava no seu devido lugar: Ao fundo eu podia enxergar as belas colinas de Ventura recortando o horizonte. o antagonista do meu pesadelo também não era. recoloquei as minhas roupas e voltei para o meu quarto. observar a cidade mergulhada no silêncio me deixou ainda mais apreensivo. a calma que eu havia recuperado com o banho estava se esvaindo pelos meus poros pouco à pouco. abri a janela e me pus a observar a cidade. porém absoluta: Não posso concordar. Pelo contrário. Com um movimento rápido. pois sei que não sou humano. E era isto o que me pertubava.

só esperando para atacar? Sem sombra de dúvidas eu gostaria de ter as respostas para essas perguntas.e as mais preocupantes pareciam grandes letreiros de néon diante de mim.Minha mente era tomada de assalto por uma enchorrada de perguntas .. eu sabia de tudo que era para saber. Então fiz a única coisa que me parecia cabível naquele hora: fechei as janelas do meu quarto. Será que os meus sonhos estavam sendo realmente um sinal? Ou melhor. me forçando a encontrar algo que ainda estava inacessível a mim. e obriguei o meu cérebro a se desligar de tudo e tentar dormir. será que a criatura aterradora poderia estar naquele exato momento em algum beco escuro de Ventura. mas infelizmente não tinha. De nada adiantaria eu continuar acordado. voltei para debaixo das cobertas. . Por enquanto..

2.. o olhar feroz. tudo o que eu fiz foi ficar deitado em minha cama. Como consequência da minha ''pequena'' vigília por respostas. antes mesmo do despertador tocar. Por mais cansado que estivesse. que por mais que eu tentasse esquecer. sem falar no vazio que se apoderava de mim. Isso. .o que não era nada bom. observando o teto escuro do quarto ir clareando aos poucos com as primeiras luzes do dia. Cada centímetro do meu corpo parecia arder em chamas. eu já estava acordado . tão assustador. N O V A T O Naquela manhã. nada parecia ser capaz de tirar da minha cabeça a terrível imagem da criatura do meu sonho. pedindo secretamente que o sol não chegasse. O sorriso maligno. aquilo não saia da minha mente.. meu organismo cobrava à juros altos as horas de sono desperdiçadas. Durante algum tempo. minhas pernas pesavam mais que um saco de concreto e eu tinha a estranha sensação de que minha cabeça estava a ponto de explodir. tudo tinha sido tão real. levando-se em conta de que eu havia tido apenas 4 horas de sono na noite anterior.

apenas o momento em que a criatura surgia diante de mim. mas tinha a impressão de que me esquecia de um detalhe. Não sabia como. Simplesmente tinha perdido as contas de quantas vezes. Após meia hora de pura apatia. Meu coração quase saltou pela boca. desta vez com seus cabelos negros perfeitamente arrumados.''Você está começando a ficar neurótico''. vestido por completo com seu uniforme de trabalho. Enquanto caminhava sem pressa em direção ao armário. desde uma buzina de carro até a minha própria sombra. eu havia me sobressaltado com o mínimo ruído. Qualquer coisa naquele momento.perguntou uma voz masculina. algo além da aparência do antagonista. parecia ter o poder de me assustar. Era estranho. bem atrás de onde eu estava. se considerarmos o que ele realmente era. Adrian era chefe da Brigada de Paramédicos de Ventura. o que era bastante irônico. nas últimas horas. repassava mentalmente os acontecimentos do último pesadelo. disse para mim mesmo. Ao virar. pois só agora percebia que eu nunca me lembrava do sonho em si. O que não deixava de ser verdade.Já está de pé? . o que está acontecendo? . me deparo com meu pai. O momento que me fazia acordar assustado. tomei coragem suficiente para me levantar. -Meu Deus. .

peguei o uniforme horroroso da Constantine e comecei a trocar de roupa. Também vi que ele me . Desci rapidamente pelo poste de emergência. o prédio era na verdade a antiga sede do Corpo de Bombeiros da cidade. resolvi ir tomar café. enquanto lia as manchetes do jornal em suas mãos. Adrian reformou o lugar todo. Este era um dos detalhes que fazia gostar tanto da minha casa. -Anh?! . e corri em direção a cozinha. Nossa. Depois de uma rápida passada no banheiro. o poste e o sino de alerta. não estava mais no meu quarto. E pelo visto. quando eu era menor. Ariel. o rosto de Adrian se contorceu em uma careta de preocupação.. percebi que Adrian já estava terminando de comer. Sua testa estava frizada.Depois de um segundo de incompreensão.-Não foi nada. Não estava preparado. Só levei um susto com o senhor. Ao chegar na cozinha.. Antes de me pai e eu morarmos aqui. ele também percebera isso. mas manteve algumas características como a faixada. por que você não me conta logo sobre o que é esse seus sonhos? Sem dizer mais nada. nem com a mínima vontade de discutir sobre aquilo com meu pai. não está no gibi o quanto que meu pai teve que usar o sino para me obrigar a ir para escola. onde tentei (sem sucesso) me afogar na pia. Quando viemos para cá. pois no instante seguinte.

Me desculpe pai! Tudo bem. sim! . falar com mais alguém significava que havia uma possibilidade de tudo aquilo ser verdade. . Mas. mas eu sinto que ainda não estou pronto.um claro sinal de que algo que eu fiz o incomodava. muita notícia ruim hoje? ... . Eu não podia deixar o barco continuar.. me encolhendo aos poucos na cadeira. claro .murmurou Adrian. Após meio minuto de um silêncio constrangedor.É só que.. eu quero que você .Não.Hum.Claro. o meu silêncio sobre o pesadelo começava a irritá-lo. olhando-me novamente por sobre o jornal .com um movimento longo. não era isso o que eu queria.. Obviamente.. nada grave . resolvi quebrar o gelo..respondi.. eu sei que eu errei. .olhou brevemente por sobre a folha .Só um grupo de animais hidrofóbicos na Reserva. por mais que eu quisesse ajuda para desvendálo. Adrian devolveu o jornal à mesa e passou a mão sobre seus cabelos. Aquilo me fez tremer. . E no fundo.Ah. seu rosto demonstrando pura frustração .

Droga. E aquilo me contagiou também.Adriam gritava para mim..gorgolejava Adrian.. enquanto voava de volta para o meu quarto para pegar o casaco e o material . toda a tensão que parecia pairar sobre as nossas cabeças veio abaixo..Devia usá-lo em sua escola. perdi a hora! . Por um breve instante...É claro que eu sei que posso contar com o senhor pra qualquer coisa .Pode deixar..perguntei aéreo. como se as gargalhadas produzidas pelo meu pai fossem a única coisa capaz de expulsá-la. eu já estava caindo de rir. eu te levo até lá antes de terminar a palavra ''atrasado''. as lágrimas incontroláveis rolando pelas minhas bochechas. começando a sentir o sangue fluir sobre a minha face .. ... . . quem acreditaria em mim se eu dissesse o que somos na verdade? Estamos condenados a morar juntos pelo resto de nossas vidas. .Escola?! .Nossa garoto.. olhando por puro instinto para o grande relógio sob o batente da cozinha . Sem perceber. pude ver a expressão de Adrian se descontrair e a sua risada gutural começar a ser formar no fundo do seu peito. enquanto enxugava os cantos de seus olhos com os punhos da camisa .saiba que pode contar comigo! Pra qualquer coisa! . ''otimismo''.resmunguei. Quando ela finalmente atingiu a superfície. . esse seu. é um verdadeiro estimulante .além do mais.

os pneus do carro chiando perigosamente contra o asfalto. E assim como prometera.algo bem diferente de mim. o Mustang avermelhado acelerou e partiu. Adrian puxou o freio de mão e abriu a porta do carona. mesmo depois de todos esses anos. que me pai disparou pela rua como um louco alucinado. eu me via como o pai racional e ele como o filho cabeça dura.Destino final! Com uma piscadela marota.Tchau pra você também . eu não conseguia me acostumar ao jeito ''rebelde'' que Adrian dirigia. Eu precisei de uns dois minutos para me recuperar. em situações iguais a esta. Muita das vezes. Foi só eu meu encostar no banco do carona de nosso velho Mustang 64. murmurar um fraco ''obrigado'' e sair do automóvel. Assim que coloquei os pés na calçada. . Ele nem parecia abalado por ter quase atingido um lampião de rua com a traseira do Mustang. antes que eu pudesse soletrar qualquer coisa. se transformando em um borrão até desaparecer na esquina.falei. estávamos derrapando em frente ao portão principal da Academia Constantine. seu típico meio sorriso a estampar suas feições. e nem um pouco culpado por ter ultrapassado o limite de velocidade em uma área escolar . enquanto fechava o meu .Dito e feito. Confesso que. .

O pior. sempre ladeado por seus amigos mais intimidadores. sempre se achou o dono da escola.. se eu quisesse. mas diferente do que se pode esperar. Desde pequeno. Era mais uma manhã fria como de costume. A fraca claridade produzida pelo sol dava a Ventura um colorido estranho. Mas nem a paisagem mais bela do mundo poderia me fazer esquecer do horror que teria que enfrentar durante metade do meu dia. A beleza da Primavera combinada com o clima do Inverno. único filho do Diretor Nigro. . o céu estava claro e azul. parecia que a maioria dos alunos também achava. me constrangendo na frente dos outros e me extorquindo pelos cantos. como se a cidade toda fosse uma enorme aquarela viva.. avistei a pessoa que eu menos queria encontrar logo pela manhã: Oliver Nigro. pontuado por gigantescas nuvens repolhudas. ele parecia ter me escolhido como seu ''saco de pancadas'' preferido.agasalho e seguia na direção do antigo prédio a minha frente. Oliver. já teria dado um fim nesta situação a muito tempo. Assim que me aproximei dos portões da escola. encostados preguiçosamente no corrimão da escada enquanto exibiam para todos os seus agasalhos caros por sobre o paletó vermelho da Constantine. perdurando durante todo o ano. É claro que. rodeado por seus asseclas.

Cruzando a rua em direção ao pátio da Constantine. Não fazia o tipo das pessoas que andavam com . sua cabeleira lanzuda caía desgrenhada sobre a testa e sua pele morena tinha um tom pálido doentio. finalmente. tudo o que eu podia fazer era abaixar a cabeça e aturar tudo calado. Foi quando o que ninguém esperava aconteceu. Meu Cabelo Loiro-brilhante é Natural'' e me encostei no tronco de uma árvore próxima. um garoto nunca visto antes seguiu lentamente na direção de Oliver e seu grupo. Era um tipo que.Mas o que aconteceria se eu. evitei de passar na frente do ''Sr. como um bom garoto. Ainda faltavam três minutos para a sineta tocar. O rapaz era alto e magricela. mas não seria nada ''legal'' de se ver. como se não tomasse um banho de sol à tempos. e cada vez mais a calçada frontal da escola se enchia de alunos e professores esperando o começo das aulas. Seguindo a risca o meu plano de passar o último semestre na escola da forma mais indolor o possível. você sabia que não tinha nascido na cidade. Então. era uma idéia tentadora. desse o troco em Oliver? Sem sombra de dúvidas. só de olhar. e era o único em toda a quadra que usava um par de tênis Converse ao invés dos sapatos antiquados do uniforme. E Deus sabe o quanto eu tive que me controlar para não perder a controle e fazer uma besteira.

aquele era o primeiro dia de aula para o rapaz. . a voz carregada de irônia e falsa surpresa Vem cá. mas de uma forma ou de outra.Vocês está me perguntando aonde é a secretaria? perguntou Oliver. Pelo visto. E foi o que eu fiz. isso eu tinha certeza. eu podia reclamar bastante desta coisa de ser um Arcano . aquilo chamou minha atenção. não sabendo bem o por quê. Mas não havia uma alma viva que eu conhecia que se aproximava dos Privilegiados sem ser convidado. Mas quando eu precisava. está me achando com cara de Balcão de Informações? . e tudo o que ele estava fazendo era pedir ajuda para o primeiro veterano que encontrava . ter nascido com isto realmente era uma mão na roda. Um engano fatal. Se eu fosse um garoto comum.que por acaso era O Veterano.Oliver. Acho que foi a ousadia do garoto. Mas como eu não era. não poderia escutar nada: a barulheira juvenil de pré-aula era quase ensurdecedora. Hoje é um exemplo. tudo o que eu tinha a fazer era me concentrar e localizar o ponto onde som ao qual eu estava procurando era produzido. Sabe. O estranho se aproximou tão rápido de Oliver que eu quase perdi o começo da conversa. ou o espanto de Oliver ao vê-lo se aproximando. E.tenho os meus motivos. eu precisava saber o que aconteceria.

com uma voz que indicava nenhum tipo de arrependimento . novamente contrariando a lógica local..é sério. -Mas é claro! . salvando o novo aluno com um ''timing'' que ele nunca teve com nenhuma outra vítima de seu filho. Droga! Mil desculpas . o punho preparado para desferir o golpe. Porém. um sorriso brilhante iluminando seu rosto . A maioria das pessoas que estavam perto da escada pareciam ter parado para ver Oliver se fartar com a sua mais nova vítima. . E no mesmo instante. desta vez realmente surpreso. as risadinhas pararam. o rapaz também ria com a situação.Ah. .. por favor. eu achava que esta história era puro clichê de filme adolescente.um autógrafo?! .murmurou o estranho.gaguejou Oliver. .Sabe. o Diretor Nigro apareceu no topo da escadaria. Alguns soltavam piadinhas ofensivas para o novato. poderiam me dar um autógrafo? .exclamou o novato.Ai. mas conhecer o Rei do Baile Sem Coração e os seus Capangas Descerebrados em carne e osso realmente é uma honra! No mesmo instante Oliver se levantou.Os Privilegiados caíram na gargalhada. como eu pude ser tão estúpido e não reconhecer vocês? Subitamente.Um.

Seus cabelos grisalhos. não deveria ser nem um pouco nobre.Líon. Nigro não era exatamente o tipo de pessoa que você confiava a primeira vista. pude ver a hesitação iluminar os olhos castanhos de Líon. Ou prefere que o meu filho o guie? Durante um milésimo de segundo.exclamou o Diretor.. meu rapaz! . qualquer coisa no momento seria melhor do que a fúria invisível que Oliver emanava. E mais óbvio ainda era a patética tentativa do Dir. aí está você. Oli? Tive que me controlar para abafar o meu riso. Nigro de parecer simpático ao aluno. Só podia haver um motivo para essa repentina mudança de personalidade. as feições leoninas .. por mais suspeita que fosse a impressão que o Diretor estava causando. Porém. Sem escolha. Pelo contrário. já está se enturmando! Não é mesmo. abrindo os braços na direção do jovem .Venha.. Era óbvio que Oliver e o garoto chamado Líon nunca seriam amigos. e qualquer que fosse. Ele não era simpático. parecia haver uma competição entre ele e o filho para saber quem conseguia ser mais intragável. Líon subiu rapidamente a escadaria e se postou . O Dir. . Eu compreendia bastante.Pelo visto.todo o conjunto parecia refletir uma esperteza com um quê de maligna. eu mesmo irei apresentar as instalações da Constantine para você. a barba por fazer.

não sabe como estou ansioso para conhecê-lo. ... . A aparente cordialidade do Diretor se devia ao pai do novato. Estava explicado. enraivecido pela perda de sua primeira presa.Está sorrindo por quê. justo quando eu me recuperava de um ataque de riso que acabava de ter. Quando voltei a minha atenção para Oliver.Onde está o seu pai? Meu caro.chocado pelo comportamento do pai. o homem enlaçou os ombros do rapaz. o conduzindo de uma forma imperiosa para dentro do prédio ainda vazio . Ouvi coisas maravilhosas ao seu respeito.diante do administrador geral da Academia. Mestre dos Esquisitos? A sineta impediu a resposta mal criada que eu estava prestes a dar.Com um gesto largo. aquele meu último semestre na Academia Constantine prometia. ele continuava parado no mesmo lugar . Só depois de um cutucão de um dos amigos brutamontes ele pareceu voltar a si. . De uma forma inesperada.Muito Bem . Mas não me importava.

. Logo que a sineta tocou. Nigro ''tinha um anúncio muito importante para fazer''. pensei. sobe o aviso de que o Dir. alguém me interrompeu. Sem um pingo de curiosidade. Mas antes que eu pudesse fechar os meus olhos. E S P E L H O O Auditório estava apinhado de alunos.3. Líon olhava para mim com aqueles olhos castanhos intensos.. Provavelmente não era nada demais. Esse era o tipo de coisa que o Diretor fazia só para chamar a atenção para si. observando o local ficar cada vez mais cheio. me afundando ainda mais no banco. fomos todos encaminhados para lá. me preparando para tirar o atraso das horas de sono perdidas. ''Deve ser alguém importante''.Será que posso me sentar? Eu estava pronto para falar um sonoro ''não!'' quando reconheci quem era. o rosto redondo refletindo . Minha cabeça borbulhava. Tudo o que eu queria saber no momento era a identidade do pai de Líon. . me sentei na cadeira mais distante da sala.

Por um instante. . não acreditando no que acabava de fazer. Eu me chamo Líon.. em direção ao centro do tablado. como se fosse a coisa mais comum do mundo. como um scanner humano. enquanto afrouxava o nó da gravata com as mãos suadas. Exceto Oliver. ali estava o garoto. Depois de alguns segundos.sorri de volta. .. Bom.Acredite. apenas me ergui e dei espaço para que ele passase e se acomodasse na cadeira ao lado. . para outros poderia ser. ele sorriu timidamente e estendeu a mão direita. Foi estranho. nem sabe o quanto! . Muito radiante. enquanto o Dir. sei muito bem do que está falando. aceitando o cumprimento desajeitado. Porém. . Nunca. Nigro seguia para o fundo do Auditório. . Sem saber o que falar.Acho que não nos apresentamos.Nossa. Líon olhou para mim de uma forma desconfiada. alguém havia se aproximado de mim por vontade própria.respondeu o novato. mas ele parecia radiante. em todos os anos de estudo na Academia. sentado ao meu lado.expectativa. Parecia me analisar simetricamente.. O . Era esquisito.. mas para mim aquilo não era..me ouvi dizer..Ariel .Primeiro dia difícil? .

O único que parecia irredutível era Líon.anunciou o Diretor . todos admiravam o diretor a nossa frente.Antes de vocês se dirigirem para a secretaria para se informarem sobre os horários do novo semestre. . E para minha surpresa. onde os estudantes tinham a oportunidade de se esbaldarem. . A Festa dos Veteranos era uma espécie de preparação para o Baile de Formatura não supervisionada. sua expressão era bastante curiosa: um misto de vergonha e resignação.Sejam bem vindos de volta.e devo adiantar. Quando ele finalmente se virou em direção ao público. preciso anunciar algumas boas novas . eu seria capaz de distinguir até um rizinho maroto brincar em seus lábios. em toda a minha vida acadêmica. eu vira acontecer. pensei incrédulo.tenho a alegria de informar que a Junta de Pais e Mestres da Academia Constantine autorizou que os alunos do último ano realizem a tradicional Festa dos Veteranos fora do terreno escolar! Um estrondoso bater de pernas.Para começar.entoou o administrador.que nunca. são realmente eletrizantes! ''O que esse cara está aprontando?''. meus jovens! . Na verdade. cortou a quietude do Auditório. . indagando entre cochichos a mesma coisa que eu. abrangendo todo o salão com o olhar . É claro que os Privilegiados iriam comemorar. entornando litros e mais litros de cerveja e fazendo coisas . observando a reação dos outros alunos. liderados por Oliver.

Eu tive que parar em choque. Guerra não irá mais lecionar a disciplina de Ed.eu tenho a honra de informar que. . me digam que estão me entendendo!''.Mas em seu lugar. como se nem houvesse parado o discurso. . depois de meses de negociação. exibindo ainda mais todos os seus dentes . Percebendo que ninguém iria se manifestar a respeito. Artística em nossa escola.empertigou-se ele. tenho o dever de lhes comunicar que o Prof. tentando acalmar os ânimos de sua jovem platéia com um sorriso antes de lhes dar a próxima notícia. Logo atrás do diretor. o administrador tentou contornar a situação continuando a falar. Marcus Biel.. um homem que eu conhecia bastante se aproximava.se é que me entendem. Nigro. o cargo será preenchido por ninguém menos que o notável e aclamado artista de nossa geração.Muito. Estava na cara que nenhum estudante da Academia Constantine iria sentir saudades do ''Psicótico de Guerra'' e sua famosa e desesperada frase ''Vocês estão entendendo? Por favor. . Ganhar a autorização da Junta Escolar para a realização da festa era para eles quase o mesmo que uma criança ganhar o seu presente de Natal em Agosto. Pausa para o silêncio constrangedor. a barba por fazer acinzentando o rosto bonito.continuou o Dir..que não fariam na frente do pais . alto e elegante com sua cabeleira castanha cacheada. muito bem . Não podia acreditar na .

Após um minuto de agitação adolescente. Os cabelos encaracolados em comum. Mais que droga. o talentoso e famoso criador de hq's e graphic novels. Como pude ser tão tapado?! . Como um ímã de polaridade diferente. A razão pela qual o diretor tratava Líon com tanta hospitalidade. É claro que para eles o novo professor não passava de um cara conhecido.. eu não saberia contar quantas vezes eu já havia lido os trabalhos daquele sujeito.alegria que se espalhava por meu corpo.. alheio a algazarra reinante no Auditório com uma cara mais feia que a de Oliver depois de perder sua vítima do dia. Mas minha felicidade era tanta. Foi só aí que eu tive o insight. Era um sonho de uma vida se tornando realidade. Nada. E eu iria ser um dos seus alunos. para lecionar Ed. o novato continuava sentado. O constrangimento e o nervosismo estampado em sua face. não escondendo a irritação que estava sentindo. ele simplesmente se levantou e caminhou em direção a saída. Tudo se devia a um único fato: Marcus Biel era o pai dele. me pus de pé e ovacionei sua entrada junto com os outros. Marcus Biel.. que nada parecia poder desinflar o balão de adrenalina que crescera em meu peito. Nossa. A não ser o rosto frio e impassível de Líon. Sem pestanejar.. Artística. estava na minha escola.

Ela só podia pertencer a uma única pessoa. Bom. Eu tinha que consertar a burrada que tinha feito. Enquanto procurava Líon por todos os lados. Merda. um ligeiro traço de irritação no tom que usava. Líon Biel. último ano. senti uma grande onda de afinidade por Líon. ''Afinal. onde ele se enfiou?''. fugi para o corredor principal. Biel.. pude reconhecer a porta transparente da Secretaria.Antes que os outros saíssem do Auditório. Merda. . por mais incrível que pareça. pensava comigo mesmo. comecei a perceber como a vida dele devia ter sido difícil.. Ele era parecido comigo. Merda! Eu podia distinguir aquela voz feminina arrastada à quilômetros de distância.. mesmo não querendo.mas por ter crescido sozinho. E. Não pela parte de não ser humano . quando escutei a voz de Líon vindo de algum lugar à frente. .. Ao chegar mais perto.Hum.explicava ele para alguém. é? Deixe me ver aqui. -Isto mesmo.. não sou do tipo que fala palavrões mas..é claro . Só não sabia como. tão odiosa e vil quanto uma . Com medo de fazer amigos. imaginando se gostavam dele pelo o quê ele era ou apenas pelo pequeno detalhe de seu pai ser um homem famoso.

seja de aluno ou funcionário da Constantine.. Todos sabiam que aquela mulher não perdia uma oportunidade sequer de fazer intrigas. Mirthes.. eu pensava Dona Mirthes. era apenas uma brecha para ela poder saciar ainda mais a sua curiosidade. . pronto para contar qualquer coisa proveitosa para ela. Senti o meu sangue congelar apenas em imaginar o que poderia surgir da mente perversa daquela velha asquerosa.ela começou. Mirthes.serpente. mas para o cérebro doentio de D. Onde ela está? . Se você quisesse saber alguma fofoca – qualquer uma. a secretária gorda e encarquilhada do Diretor Nigro. totalmente desprotegido. Era assim que. só de trocar algumas palavras com o novato.aqui nos documentos está dizendo que sua irmã também está matriculada na Academia. Afinal. seu timbre de cascavel mais perceptível do que nunca ..Então. por isso não veio. seja real ou inventada. Sem poder continuar a ver aquilo de braços cruzados. indefiridamente. não era todo dia que o filho de uma ''celebridade'' se encontrava em sua sala. Líon . Líon estava em piores mãos possíveis. era só perguntar a D.Serina acordou se sentindo mal.. entrei na secretaria determinado a tirar o novato daquela situação o . o que significava que naquele momento. Era notável o desconforto de Líon ao responder a pergunta. mais venenosa do que alguém poderia ser capaz de imaginar.

jovem Líon.exclamei.Aqui está o seu horário.com uma má vontade descarada. Mirthes percebeu que qualquer tentativa de obter uma ''informação privilegiada'' de Líon havia ido por água abaixo. não restava nada para ela fazer. a secretária repassou os papéis com o nosso horário letivo.mais rápido possível. Mirthes. . D... um sorriso debochado brincando em meus lábios. . logo do campo de visão e audição da velha fofoqueira. ou alguma coisa do tipo. Ariel .. . Líon me encarou atônito. .Eu estava mesmo me sentindo mau..Muito obrigado. sentindo o olhar de censura da secretária ao me ver .. e aqui está o seu também. a não ser o seu trabalho.Aí eu resolvi tomar um pouco de ar e vim pegar o meu horário.me despedi. E tenha um bom dia! . Logo que eu entrei na saleta. Só depois de eu piscar discretamente. ele entendeu qual era a real intenção da minha entrada. . Sem alternativas. você me deu o maior susto! . olhando mais uma vez para mim da maneira de sempre: de cima a baixo.continuou ele... Assim que saímos da secretaria.. D. eu.Cara. com uma expressão marota . como se observasse algo asqueroso no microscópio. A cara que a . caímos na risada.Ah.Pensei que estava passando mau.

. . Depois de levar um tempo para se recuperar. Apenas uma constatação.. Líon se endireitou e olhou para mim de uma forma incisiva. Não era uma pergunta.Sim.respondi. ... . de verdade. Só queria ajudar de alguma forma. só que dessa vez parecia que ele me observava com muito mais atenção. . se dobrando de rir.Nunca vi alguém tão intrometido em toda a minha vida! . . .Você realmente é um fã do trabalho do meu pai. se empertigou e disse . Foi como no Auditório. Porém eu senti uma estranha necessidade de responder. Mas eu não vim atrás de você por causa disto. e tomando um pouco de ar. enxugando as lágrimas que corriam por minhas bochechas.Obrigado...Não tem pelo o que agradecer . com sinceridade Vi que você estava mau quando saiu correndo. .E ajudou.secretária fez ao me ver tirar sua quentinha do dia não estava no gibi. . por ter me tirado de lá.Isto por que você não cresceu sob os olhos de águia dela.perguntou Líon. acrescentei.O que era aquela mulher? .Ele me olhou novamente.

Durante um momento. Seu pai nem deve imaginar o quanto me inspirou. Era cruel. por mais que não pudesse.. demonstrando compreender..Você também desenha? -Sim.Difícil? . . . é só que....E não ligo! É só que é tão. . .Me desculpe se pareci rude. não desenha? -Não tenho o menor talento. só para que fosse aceito. o novato abaixou a cabeça. Querer ser parecido com o pai.Eu sei. é raro conhecer alguém que realmente admire as coisas que meu pai faz..Líon murmurou ..Eu disse que sabia pelo o que você está passando! Líon sacudiu a cabeça. Ou querer ser reconhecido por seus próprios méritos. a cabeleira lanzuda lhe caindo sobre o rosto.completei . Como um balão que perde o gás... . . Pude sentir o constrangimento em cada palavra que ele dizia.. E você. Geralmente são posers iguais aos que tinham no Auditório. e olhou para o papel em sua mão.Não tem que ligar para o que aqueles idiotas pensam argumentei com propriedade..

até cair esparramado no chão.me diga que isto é uma pegadinha. havia meios de um dia ficar pior do que já estava.O que foi? . como alguém poderia reclamar do seu dia sem ser submetido a uma sádica e vergonhosa sessão de Educação Física? . Sim.ele murchou e se encolheu. tudo que fiz foi ficar lá. – Isto só pode ser brincadeira! . Afinal. Este dia não tem como piorar! Não sabendo bem o que responder. olhando para o papel.Por favor . Assim que vira qual era a primeira matéria do dia. entendi completamente a reação do novato. ao mesmo tempo em que pegava o horário de suas mãos. .implorou Líon .perguntei. deslizando devagarinho pela parede do corredor.

A escola era formada por um conjunto de prédios antigos. em uma área fechada a qual eu chamava carinhosamente de ''Pavilhão da Tortura''. Física eram realizadas no lado mais distante do campus. é bem capaz de eu ser pisoteado antes mesmo de poder completar a palavra ''Cuidado''! Olhei para ele com humor. S A L V A V I D A S A sineta tocou mais cedo do que esperávamos. era legal ele estar ali ao meu lado. As aulas de Ed. Por mais rabugento que Líon estivesse no momento. não? . com direito à tijolos expostos e uma Torre do Relógio na construção principal.resmungou Líon .Com a sorte que estou. éramos conduzidos pelo fluxo de gente em direção a Ala Norte da Academia Constantine. -Acho melhor me levantar. Então.4. Logo que Líon se levantou. o corredor foi tomado completamente por estudantes. e sem perceber. . Me fazia sentir quase como um garoto normal. o puxei pelo braço e indiquei o caminho que deveríamos seguir para a primeira atividade do dia. sem esperar para ver se o novato realmente seria atropelado ou não.

resmungou Kara.. .disse Líon.. sua pele castanha ficando mais pálida do que já era. Sinceramente.gaguejou Líon. .Assim que Líon e eu chegamos ao portão do Pavilhão.Treinadora Kara.. nos olhando como se fosse capaz de nos fulminar vivos . Esta era a exata reação de qualquer um depois de se encontrar com a professora de Ed. . mas é claro que não tinha intenção alguma de compartilhar esta minha opinião com a Treinadora. Ela usava o agasalho oficial da escola por cima do que pareciam ser roupas de banho. vão se vestir. fomos recebidos pela bela . . Hoje a aula vai ser na piscina! .Nem sabe o quanto.E você por acaso é surdo? . Pude sentir o novato respirar fundo e me acompanhar em direção aos vestiários.e nem um pouco simpática .Na... enquanto trocávamos o paletó vermelho pelos trajes de banho na mesma cor.Andem. ela é durona ..Nossa.Até que fim as primeiras mocinhas chegaram para a aula disse a Treinadora.. e seus olhos rasgados estavam contorcidos na costumeira carranca severa. eu achava que ela teria se dado muito melhor seguindo carreira em algum lugar mais rígido. Seu cabelo negro estava preso bem firme à um coque. na piscina? . tipo o Exército. . Física.

Como alguém poderia gostar de uma aula com a professora aos berros no seu ouvido? Eu não conhecia. O segundo motivo era bastante claro: A Treinadora Kara. mas era só a professora olhar e abrir a boca que o encanto se passava. Porém. Toda vez que éramos obrigado a vestir estas ridículas sungas junto com a camisa regata cor-de-tomate. principalmente de Oliver e sua turma. estou falando em conferir mesmo .logo. Este era um dos motivos que não me faziam gostar da aula: o uniforme. Imagine correr.achava ela muito gata. Tudo bem. Nem tanto o tradicional.como a maioria do garotos . o principal motivo que me fazia odiar as aulas de Ed. mas tudo o que eu podia fazer para não dar bandeira era .era bastante simples: por ser um Arcano. Física . nadar e fazer outras coisas melhor do que qualquer um em sua escola e não poder nem ao menos demonstrar um terço disto.sem pudor algum. E quando digo conferir. Ele é vergonhoso – é sério. feito para as atividades na área poliesportiva. e sim o traje de banho. as garotas se acotovelavam aos montes na porta do vestiário para conferir nossas. me adimrei no espelho do vestiário. e com direito a comentários. eu nunca pude realmente praticar coisa alguma..Com relutância. confesso que eu . Eu poderia calar a boca de muita gente. tudo relacionado a ela . habilidades. já completamente vestido. saltar.. Era frustrante.

ora. não acha? Antes que o vestiário ficasse cheio. era um gemido que ele produzia. Ela caminhava imperiosamente a nossa frente.prosseguiu a Treinadora . remexeu-se incomodamente ao meu lado.Ora. a turma se encontrava pronta e em formação diante da Treinadora. Todo o grupo parecia ter prendido a respiração ao mesmo tempo . Seu andar era firme e duro. -Como vocês devem saber . com uma inegável expressão de satisfação sádica. A cada olhar que a Treinadora Kara dava em nossa direção.. O desconforto do novato era cada vez mais palpável. . Por fim. que já estava tenso. Mas ele não foi o único. depois de mais cinco minutos. depois de um grunhido da professora. como um General em revista às tropas.na . Líon e eu fomos para a beira da piscina. Líon recuou. se não é a minha adorável turma de formandos .entrar lá e fingir ser um nerd descoordenado. Tive que controlar um acesso de riso quando. as águas na beira da piscina tremeluziam.. e eu podia jurar que a cada passo que ela dava no piso de mármore. Perfeito.a Treinadora Kara parou diante de nós. esperar a aula começar.como se pudessem pressentir o que a mente engenhosa da professora poderia estar maquinando. se esquivando sem cerimônia atrás de mim. Líon. ora.

minha matéria, o primeiro bloco do último semestre dos formandos da Academia Constantine é dedicado para as atividades aquáticas.

''Atividades Aquáticas''. Não sabia bem o por quê, mas eu não havia gostado nem um pouco do tom que a professora usou para falar esta frase. Era quase como um agouro... como se algo realmente ruim nos esperasse na piscina. Besteira, pensei, enquanto sacudia a cabeça e continuava a ouvir o que ela dizia.
- E já que posso ver que vocês estão devidamente preparados - ela inclinou-se brevemente para Líon, um sorriso maligno iluminando seu rosto oriental - acho que posso revelar que nossa primeira modalidade será: O Salto em Altura! Como esperado, a turma inteira se encolheu diante da ''novidade'' da professora. Salto em Altura? No que ela estava pensando? Posso afirmar com segurança que nenhum de nós - incluindo eu - nunca havíamos pulado de lugar algum. Quanto mais de uma plataforma de concreto gigante à beira de uma piscina não tão funda. - Hei, por que estas carinhas tão preocupadas? - perguntou a Treinadora, com uma risada cristalina - Eu vou chamar um nome de cada vez, e aí, vocês só terão que subir na plataforma e saltarem para água! Uau, ela falando desse jeito fazia parecer tão simples... uma pena que não era.

- Hum, Treinadora? - Oliver se destacou do grupo, seus ombros rígidos denunciando o temor que ele tentava ocultar - Nós vamos ganhar algum... sei lá... bônus por tarefa concluída? -Bônus? - resmungou Kara, o rosto fechado - Superar os próprios medos já vai ser um bônus e tanto. Andem, formem uma fila descente! Sem perder tempo, formamos uma fila única e por tamanho diante da plataforma. A treinadora Kara se postou próxima a escada que levava ao topo da área de salto, seus olhos varrendo a longa lista com os nossos nome, o papel preso à uma prancheta vermelha com o símbolo da Academia Constantine. Depois de um tempo concentrada, ela ergueu os olhos da listagem e anunciou o primeiro nome que iria se destacar do grupo e realizaria a tarefa: - Amanda Dumont! Amanda, uma garota baixa e magricela, saiu logo da frente da fila e subiu na plataforma. Todos, até mesmo Oliver, pareciam apreensivos diante do que estava por vir. Sem se abalar, ela se posicionou à beirada do declive, ergueu os braços esguios e pulou. Durante o pequeno tempo em que o corpo frágil da veterana

esteve no ar, a turma inteira prendeu a respiração. Só após que a cabeleira ruiva se destacou das bolhas produzidas na água foi que o grupo se permitiu relaxar, e os amigos mais chegados da garota esgueiraram para a beira da piscina e à ajudaram a sair de lá. - Ora, até parece que foi a coisa mais difícil do mundo! retrucou Oliver para os seus seguidores, a voz abafada pelo barulho dos aplausos da turma. - Muito bom, jovem Nigro... - a treinadora Kara riscou o nome de Amanda da lista e virou-se para encarar o filho do diretor - Isto mostra que o senhor deve estar querendo ser o segundo candidato à enfrentar nossa pequena prova, não? Oliver congelou no lugar. Estava claro que o seu comentário não significava nada além de pura inveja. Mas como a professora poderia ser tudo, menos injusta, era óbvio que ele agora se via obrigado a se apresentar realmente como segundo candidato para saltar. Reunindo toda a dignidade que podia, Oliver se encaminhou para a plataforma, seu olhar distante só ressaltando seu arrependimento por ter falado na hora errada. Com um ligeiro aceno de cabeça, ele se curvou e saltou para o fundo da piscina. Confesso que por um milésimo, eu fiquei um tanto preocupado com a segurança física dele. Mas logo depois que o vi se erguer na beirada mais distante do tanque, com seu

Líon piscou umas duas vezes até perceber . esperando escutar o meu nome se anunciado em voz alta.mas na verdade. a fila diminuía. Mais três alunos . . Cada vez mais nomes eram chamados e. sim. pude perceber que a tarefa não era tão assustadora quanto eu imaginava. estava começando a ficar cansado de fingir ser algo que não era. Sim. ao mesmo tempo em que exibia-se para as garotas da classe.habitual sorriso presunçoso no rosto. Sentia que o momento em que eu seria chamado estava se aproximando e.Oliver se vangloriou. mas não impossível. A treinadora Kara terminou de cumprimentar Daniel Maltha por seu salto espetacular e voltou a sua atenção para a prancheta. por mais envergonhado que estivesse. A professora levantou a cabeça. eu sabia muito bem que era errado uma trapaça .Eu disse que não era nada! . Foi inesperado. aos poucos. Com o passar do tempo. inspirou rapidamente e chamou: Líon Biel. Fiquei parado. Mas não foi isso que aconteceu. estava pensando seriamente se não apelaria para uns de meus dons. Era difícil. a determinação em pessoa. retirando o cabelo ensopado da frente de seus olhos.mais três saltos. qualquer traço de solidariedade que eu podia ter sentido por ele se esvaiu pelo ralo mais próximo – literalmente.

assim que ele ganhou impulso para o salto seu pé direito escorregou fazendo seu corpo se precipitar e cair erroneamente em . Assim que o rapaz chegou ao topo da plataforma. Desarmado.. a pouca cor que ele tinha se desvanecia aos poucos. sentindo o pânico correr pelas minhas veias. a audição abafada. me perguntei. na beira da grande murada. Sacudi vigorosamente a minha cabeça. o que está acontecendo?''. Sem acreditar. Tentei fazer uma careta encorajadora.. onde Líon se preparava para pular. o rapaz caminhou lentamente para a plataforma. Como um cântico agourento. O terror acelerou as batidas de meu coração. o novato olhou para mim. engolfando-me em uma neblina cinza e gélida. transformando-se em formas estranhas e tenebrosas na parede. e as sombras no ginásio se atenuaram. . sentí um calafrio estranho. Talvez pelo nervosismo ou por algo molhado no lugar. mas só o que consegui foi parecer estar em choque. Não era igual a nenhuma sensação que eu havia sentido antes: era pior.que era ele quem iria saltar. uma súplica silenciosa por ajuda desfigurando-lhe o rosto. ''Droga. Minha visão estava turva.Se preparava para pular! Minha ficha caiu no exato momento em que Líon tencionava os joelhos. os ombros caídos e o ânimo no chão. A cada degrau que ele subia. numa fraca tentativa de recuperar a pouca sanidade que tinha. e o estranho palpitar no meu peito parecia me puxar até o topo da plataforma. o medo chegou e me pegou.

nadei com todas as minhas forças para a superfície.uma aparição produzida especialmente para mim. sua cabeça balançando preguiçosamente sobre o pescoço. Com mais duas braçadas.direção à piscina. Foi assustador o ver ali imóvel. ví o rapaz girar pelo ar como uma gigantesca boneca de pano. tudo em minha volta era de um azul celeste. Quando abri os olhos. Antes de chegar ao topo. cheguei perto o suficiente para poder ergue-lo com minhas mãos. suas mãos e seus braços balançado estranhamente em volta do corpo. Prendi a respiração. me libertei da força que me pregava ao chão. o rosto sereno como se dormisse dentro da água. Ao tocar o seu pulso. eu já podia . as bolhas produzidas pelos meus movimentos atrapalhando a minha busca. e corri o mais rápido que pude. Foi então que o vi . Era como uma ação sobrenatural .esparramado no chão do tanque. Para meu desespero. o puxei com toda a determinação. lutando internamente contra a sensação de derrota que me consumia. Depois de abraçá-lo pela cintura. Não perdendo tempo. seus cabelos revoltos contra a água. Me joguei na piscina ao mesmo tempo em que escutava o som aterrador do choque de Líon com a massa de água gelada. Sem pensar em nada. surreal. Mergulhei mais à fundo na piscina. percebi que os batimentos de Líon ficavam mais lentos e sua pele mais fria.

as mãos apoiadas ingenuamente no ombro musculoso do rapaz. escapei rapidamente do grupo que se inclinava sobre mim e me arrastei para o lugar onde Líon recebia os devidos cuidados.ver os rostos da Treinadora Kara e dos outros alunos debruçados na margem da piscina. a luz artificial do Pavilhão cegou os meus olhos e uma algazarra de sons incompreensíveis tapou os meus ouvidos.mesmo com o rodopiar da espuma à minha frente. . não? . minha garganta seca como se estivesse sendo consumida por chamas. Incontáveis pares de mãos içaram o meu corpo e o de Líon para fora do tanque.e me despertando por completo to torpor momentâneo no qual estava envolvido.Acho que devemos levá-lo para a enfermaria.Mas deve ser alguém que consiga carregar o garoto daqui até o Prédio .concordou a professora . me fazendo expelir ruidosamente todo o ar que havia prendido durante o tempo em que ficara de baixo d'água . Sem paciência.. .Boa sugestão. examinando o pulso do novato com uma expressão de angústia.sussurrou a Treinadora Kara.perguntei à professora.. .Ele está bem? . . .Eu não sei explicar . Antes do esperado. a preocupação e o medo visíveis .Alice Corvel espiava alarmada a cena por cima do braço de Daniel Maltha.

-Ah. Com um suspiro. mas por mais preocupado que estivesse com o bem estar de Líon.Reagir a quê? .responsável Biologia . No mesmo ritmo. No mesmo instante. .uma voz seca me interrogou. no momento em que eu entrava no corredor da enfermaria. . mandando a cautela às favas. me desviei das pessoas ao nosso redor e segui na direção da saída.resmunguei alto.Principal com o maior cuidado possível. vamos lá cara. o pela enfermaria e pela aulas de na minha direção já preparado. Novaz . reaja! . Me levantei em um pulo e ergui Líon como se segurasse um recém-nascido. as pessoas pareciam notar este pequeno detalhe também. Com um empurrão. Isto não devia importar agora. Mas eu carregava. me esforcei para fazer uma careta de cansaço enquanto atravessava às pressas o campus da escola. abri uma das folhas de metal que formavam o portão do ginásio.me ofereci. não podia de forma alguma deixar que alguém suspeitasse de mim mais do que já era de costume. Olhei abismado para o acreditando no que havia prof. me fazendo parar com o susto.Eu o levo . andando tão apressado que nem parecia que carregava uma pessoa de quase 80 quilos no colo. não escutado. indo em direção à enfermaria no Prédio Principal. . E por onde passava.veio correndo rapaz no meus braços.

Nem parecia que aquele garoto havia quase partido desta para uma melhor há poucos instantes. Novaz pôs Líon cuidadosamente sobre a maca. parecendo extremamente entediado com a situação. Percebendo a minha expressão especulativa. o jovem prof. A sala era branca e contava com apenas uma maca. Com uma habilidade impressionate. Líon observava tudo com uma expressão sonolenta. o prof. .obviamente avisado por telefone pela Treinadora Kara. Novaz se afastou do paciente e sentou-se pesadamente na cadeira logo atrás da mesa. . Segui os dois pelo corredor e entrei sem cerimônias na enfermaria. mediu sua temperatura. sem demonstrar ter consciência de minha presença logo atrás dele. um armário para os medicamentos e equipamentos médicos e uma pequena mesa cheia de papéis que deviam pertencer ao socorrista. Em poucos minutos. o homem examinou a garganta do novato. O professor se virou brevemente e concordou com impaciência.ordenou ele.disse em voz alta. Ariel . mais alta do que pretendia.Eu cuidarei dele partir de agora. .Não. eu vou com vocês . tomando Líon dos meus braços e voltando para a sala às suas costas .Pode deixar. verificou a pressão e escutou seus batimentos cardíacos.

Eu mais uma vez falava com o socorrista mais alto do que na verdade queria ..o professor se deteve à porta da enfermaria..o prof.suspirou ele. -Não! . a voz ainda seca. se vocês me permitirem.o novato ergueu-se devagar. arrumando a papelada sob a bancada pelo visto. tudo indica que ele está perfeitamente bem. . o Líon despencou de quase oito metros de altura! . o .Líon passou as mãos pelos cabelos molhados.. pelo exames preliminares. ainda sem entender aonde o rapaz queria chegar. .Mas.Eu sei muito bem d'aonde o aluno Líon caiu .Eu o vi planejando este momento durante os últimos. porém demonstrando estar muito melhor. . sei lá. fazendo uma careta de espanto à reação inesperada e exagerada do aluno-paciente. ..Professor.É que. Novaz pareceu encontrar um papel pelo qual estava procurando e se levantou .Meu pai deve estar acabando de dar agora a sua Primeira Aula! O homem continuou parado. não passou de um susto. Agora.. sabe .Mas por quê? . . irei avisar ao responsável do jovem sobre o ocorrido.Bom . encostando sua cabeça na parede branca e colocando suas pernas para fora da maca .Um susto? .Líon exclamou. três meses.

Logo após. segundo o senhor..me prontifiquei.ele me perguntou. demonstrando ter perdido a pequena batalha mental na qual travou consigo mesmo. O. senhor .Se é assim que você quer. O prof.Como você fez aquilo? . ele pareceu refletir a questão. saindo de perto da parede e me postando perto da maca onde Líon continuava sentado.constrangimento estampado em cada gesto .A última coisa que eu quero é estragar o dia dele com uma coisa que.k. ? . nem teve tanta importância assim! O discurso de Líon parecia ter pego o prof.ele entrou de novo na sala.concordou Líon. Líon levantou-se da maca e se virou na minha direção me observando do jeito que só ele sabia. sua voz ainda . o senhor vai ficar aqui descansando. por favor? . viu as horas e deixou a pequena enfermaria com passos largos.Mas você vai me prometer uma coisa: enquanto eu estiver na secretaria resolvendo alguns negócios.Ariel. entusiasmado. -Hum .Sim. será que poderia ficar de olho neste rapazinho para mim. Por um segundo. . . olhando com cautela para o entusiasmo do novato ..resmungou ele. Novaz encarou mais uma vez o rosto abatido de Líon. detendo-se rapidamente na sua pequena bancada . Novaz de calças curtas. . até balançar molemente a sua cabeça.Tudo bem .

conformado. Mas a questão é que nunca havia sentido algo como aquilo. de novo .Obrigado.ele disse simplesmente. antes mesmo que qualquer outra pessoa tivesse percebido o que realmente acontecera? Bom.no mínimo .eu disse. nem eu sabia. No fim. só agora percebendo que havia atravessado a metade da escola com um garoto nos braços e vestido apenas com os trajes de banho vermelho- . na verdade. eu podia ver a pergunta implícita bem diante de seu olhos castanhos: Como eu tinha conseguido salvar ele. Sem mistério algum. nunca havia vivenciado uma experiência que chegasse ao menos perto.Fiz o quê? . eu estava tão impressionado quanto Líon devia estar.Não à de quê.devolvi com outra pergunta. Por um bom tempo ele me analisou. parecendo . A agora já conhecida sensação de ser scaneado por inteiro permaneceu sobre mim no que me pareceu uma eternidade.. de novo . .seca soava muito mais assustadora do que se estivesse com o seu timbre normal. E era certo que ele estava. . sabendo exatamente sobre o quê ele estava falando. Líon me libertou do estranho poder de seus olhos.. . Pra ser sincero. É claro que suspeitava que tivesse alguma coisa a ver com os meus dons de Arcano.

me lembrando com clareza da assustadora cena da queda. Líon sorriu e voltou a se sentar na maca de vinil negro. .. . . me desculpe . por que você não quis realmente chamar o seu pai aqui para te ver? .corrigi.Meu pai .Está claro. sem sombra de dúvidas. . os olhos ainda detidos no chão . O que. . Parecendo entender o meu enbaraço.. seus pais devem ter muito orgulho de você. não? . antes mesmo de pensar em me refrear.Sabe.rebati..Líon se deu um forte tapa na testa. Não queria que ele soubesse de mais um erro meu.não. Ele arriou a cabeça e sem querer acompanhei o seu olhar pelo piso claro da enfermaria.Cara. . olhando tão atentamente para o chão que podia vislumbrar as falhas nos rejuntes do piso..Não foi um erro seu! . .tomate.me ouvi interrogando.ele murmurou. Líon me encarou novamente. completamente marcado por nossos pés descalços e molhados.Droga. me fez corar loucamente.Eu já sou um total fracasso. mas desta vez seu rosto não indicava que ele me avaliava . indicava que ele me admirava.

. .. Pausa para o momento ''me abra um buraco no chão que eu quero fugir!''.. e murmurando mil desculpas para mim. respirando lentamente.Eu não tive muito contato com ela. . eu tinha vários amigos na mesma situação que a sua! Mordi meus lábios com força. Mais uma pausa.expliquei.Se bem que. a mão esquerda na testa e a direita em seu pescoço. .respondi com sinceridade . eu não dou uma dentro! Me encostei na parede e esperei o novato terminar de se auto-flagelar.Quando foi que ela. Ele estava entendendo tudo errado. hoje em dia é muito normal vermos pais separados.. No fim.Deus. Líon deitou-se na cama com força.Está tudo bem .eu podia ver todo seu constrangimento por perguntar algo tão pessoal através . para tentar conter o riso desenfreado que surgia. você sabe... conseguindo tirar minha atenção da trama de rejuntes .Ele é viúvo. meu pai não é separado.. Na minha outra cidade.Não Líon. . se foi? . tentendo se matar de duas formas diferentes. ele limpou a garganta e prosseguiu .Após um segundo. ele se recompôs.

. a careta de tédio de volta a sua face. ocupado apenas pela imagem das fotos espalhadas por nossa casa-de-bombeiros e pelo nome que eu fazia questão de não esquecer: Elenah. fechei os meus olhos e tentei puxar alguma lembrança em que ela estivesse envolvida. só o nada preenchia a minha mente. se postando mais uma vez à frente de Líon e o examinando rapidamente.Acredite. Novaz entrou na enfermaria a passos largos.Acho que uns 50% melhor . Assim como acontecia todas as vezes que eu me recordava dela. Antes que eu pudesse agradecer. . os dois virados na direção do armário de remédios.Por que nós não aproveitamos e lhe damos o dia de folga? . .apenas de sua expressão.o professor sentou-se em sua mesa. ela teria orgulho de você .E agora. o prof.Hum. eu podia jurar que ela havia falhado . como você está? . . pegou um pedaço de papel com o timbre da Academia e começou a escrever . hoje realmente foi um dia difícil para você .o rapaz encolheu os ombros. Ficamos calados. mas ao dizer aquilo.a voz de Líon já estava voltando ao normal.Assim que ela deu a luz à mim.Eu tenho certeza disto. E como sempre.

o senhor sabe que eu não quero fazer muito alarde sobre o ''incidente da Ed. . ..sua carta de alforria por hoje..ele revirou os olhos deliberadamente. Parecendo cansado.ele me estendeu o papel. quando já estávamos no corredor .. Novaz com as mãos tremulas e uma expressão arrebatada. senhor.Obrigado. girou nos próprios calcanhares e se inclinou de volta para a enfermaria. obrigado.Mas eu não tenho muita certeza se consigo ir sozinho para casa. num surto de inspiração.ele repetia enquanto me acompanhava de volta para o corredor. a face tristonha e abatida.Anh. . ele se levantou e pegou a licença assinada pelo prof. Física'' ..Aqui . Logo que eu terminei de ler o que havia escrito nele. rabiscou de uma forma ligeira sobre ele. obrigado. como se o ocorrido estivesse em um passado bem distante . Com um sorriso. o socorrista pegou mais um papel timbrado. o aluno agradeceu a ajuda e se voltou para mim.Está bem.Claro que pode .Posso lhe pedir um outro favor? . .Líon fitou o socorrista sem palavras. tive que .. e depois o entregou a Líon. uma brilho triunfante iluminando o seu rosto.. .O rapaz se dirigiu novamente à sua bancada. Em um pulo. .O professor fitou Líon sem entender. Até que. ele parou.

eu me sentia bem. sem duvida alguma. mais apressado do que antes.ele levantou as mãos.mas.. Após uns segundos. Eu estava em choque. Pois se houvessem mais pessoas como o Líon estudando na Constantine antes dele chegar. Não podia acreditar no que estava em minhas mãos. Acho que você não percebeu que estamos no meio do corredor.perguntei com a voz entrecortada pela surpresa. Acho que estou meio que pagando a minha dívida por. Ariel. acompanhei o rapaz de volta para os vestiários do Pavilhão da Tortura. usando apenas sungas e camisetas . a Academia não teria sido o lugar triste e infeliz que foi para mim nos últimos anos.. como depois vai ter um dia inteiro de folga. como se isso pudesse ser um impasse ..e daqui a pouco vai tocar o sinal! Sentindo um grande sorriso tomar conta do meu rosto.Você arranjou para mim uma dispensa escolar? . bom. o novato estalou os dedos diante de mim.. . olhando do papel para Líon.. você vai ter que me levar para casa . .Bom. olhou ao redor e disse: . por tudo! Continuei parado no corredor.. Mesmo usando aquela roupa ridícula.para de andar. . para isso.Hei.

disse Líon . não nego. seguindo o caminho que ele tomava . o vento ártico varria a rua da escola.E então . .. . eu levo mesmo assim..puxei assunto.. mesmo quando estava aborrecido. enquanto terminava de abotoar meu agasalho por cima do uniforme .mas você não precisa realmente me levar pra casa. O A N J O Líon e eu saímos do Prédio Principal da Academia Constantine no exato momento em que o sino da torre do relógio anunciava para todo o quarteirão o começo do segundo período. mas me fez cair na gargalhada. E diferente dos outros .Não muito . O sol estava apino.completei. mas como de costume. .vai que você atravessa a rua sem a devida atenção e não tem niguém lá pra te salvar do atropelamento iminente? Olhei sarcasticamente para o novato. Líon era uma pessoa fácil de se lidar. no mesmo instante em que ele se virava para mim e me mostrava o dedo médio . Eu só estava brincando.você mora muito longe daqui? .o que foi muito grosseiro. Afinal.Tudo bem..5. que se encontrava deserta aquela hora do dia.

.. você não pode negar que há uma possibilidade.Então devo ficar honrado? .São poucas as pessoas que tem a oportunidade de conferirem o meu ''pendor para desastres'' logo no dia em que me conhecem. Só pela careta de Líon. e que seria realmente útil se houvesse alguém por perto continuei. Tinha certeza absoluta que a má sorte dele só não era maior que a minha por um mero detalhe: Ele não tinha que se preocupar em esconder a sua peculiaridade toda vez que botava os pés na rua..garotos de Ventura.Bom. a expressão sarcástica ainda em meu rosto e em minha voz. entramos em uma rua calma e arborizada.concordou Líon de má vontade . logo depois de ter certeza que ele não estava mais irritado. percebi que ele estava falando sério quanto a história de ''pendor para desastres''. Ela era composta basicamente de residências altas e estreitas. as casas separadas umas das outras apenas por pequenos vãos . Sem sombra de dúvidas. os jardins sem muro se resumindo a um quadrado na calçada. você tem razão .perguntei. ele não parecia esperar que eu lhe transmitisse algum tipo de vírus mortal ou qualquer coisa do tipo. . Depois de atravessarmos duas avenidas e percorremos quatro blocos. eu havia encontrado um concorrente sério para o prêmio de Azarado do Ano. -Sabe.

entre as paredes .Líon parou de repente.Tudo bem . eu mais do que ninguém deveria saber muito bem como me comportar com Líon quando o assunto era o pai famoso dele.respondi com sinceridade. Eu conhecia bem aquele lugar.sei que da sua parte é uma reação natural.Sei o que deve estar pensando . Assim como da minha é agir como um chato sempre que me deparo com um fanzote dele .'' Legal. a partir daquele dia. que idiotice! Depois de tudo o que havia acontecido naquela manhã.Me desculpe . e ainda por cima seria o meu professor. Usando como referência a vista panorâmica que eu tinha do meu telhado. sem ser planejada. o cara que simplesmente foi um dos únicos pontos de luz da minha infância sombria estaria morando à poucos metros de distância de mim..''Uau. aquela parte de Ventura ficava atrás da minha casa. eu estava fazendo a coisa errada de novo..disse novato. Era engraçado imaginar que. duas quadras abaixo... . .assim como todas as áreas residenciais da cidade. é aqui onde Marcus Biel vai morar. encolhendo levemente os ombros . virando-se para me encarar . para variar.Não que eu . E. Como eu imaginaria que tudo isto poderia acontecer em um único dia? ...

nós já havíamos chegado à casa de Líon e estávamos parados em frente à pequena escada de entrada da morada dos Biel. . mas não foi o que ocorreu. Foi só então que eu percebi que a coisa que havia acabado de tentar me atacar não passava de um gordo e feio gato preto de olhos amarelos. Com uma agilidade inesperada. mas o bichano continuava a me observar irritado .Ai. Me preparei psicologicamente para sentir a dor aguda do ataque.O papai já não disse que não se deve atacar às visitas?! . Antes que pudesse pensar em fazer alguma coisa.. novamente me fez rir. ai.Papai? Sortudo? . Líon aparou o vulto com as mãos e o aninhou em seu colo. Pelo que parecia.eu sabia que meu rosto devia estar em choque. a sombra negra arqueou o corpo e saltou na minha direção. O que foi isso Sortudo? . Eu estava prestes a me despedir do garoto quando algo surreal me paralisou: um vulto escuro e baixo surgiu no batente da porta..esteja me referindo a você! Ele acrescentou a parte final tão rápido e desajeitado que.. ai!. os pêlos da nuca eriçados e suas pequenas presas arreganhadas . E o gato continuava me encarando ferozmente. um silvo agudo escapando de suas presas à mostra. suas garras longas e afiadas prontas para perfurarem o meu rosto..Líon ralhava com o animal. ao invés de me aborrecer.

Bom. resolvi admirar um pouco a faixada da casa dos Biel. eu tinha absoluta certeza que ter um gato preto como bicho de estimação não estava ajudando muito.Ganhei de presente da minha irmã.. O único problema nisto estava no fato de que geralmente os gatos (assim como a maioria dos seus irmãos felinos) eram os únicos que não sabiam reconhecer quando o ''toque'' significava ser algo bom ou ruim . se Líon estava tentando mudar a sua fortuna. a construção era de um .como uma placa de aviso.. . ele é meu. um gato de rua tentou arrancar os meus olhos só por que passei perto demais. .o que os deixam arredios e violentos sempre que se deparam com algo que não consideram natural. são eles que não gostam de mim! Uma vez. quando eu era menor. meu pai me explicou que geralmente animais e insetos podiam reconhecer quando uma pessoa era completamente humana ou era ''tocada'' pelo sobrenatural.. Depois do episódio.pelo contrário. Não que eu não goste de gatos .. uma brincadeira com toda a história da minha ''má sorte''. Assim como os outros prédios da rua. Enquanto Líon tentava inutilmente acalmar os ânimos de Sortudo.respondeu o novato. Resultado: não importa se você é um Arcano ou algo pior.Sim. gatos sempre irão querer acabar com a sua raça. ainda distraído em sua tentativa de acalmar o felino .

E foi isto que eu fiz. Porém. só admirando aquele pedaço do cômodo. Era como se todo o meu instinto quisesse ficar parado ali. desde os meus nervos até a consciência. As cortinas pendiam livres atrás do vidro. Quase todas. sem ver o tempo passar. Parte de mim ainda podia vislumbrar a pequena luta do novato com o seu gato. uma janela se encontrava ligeiramente entreaberta. com o telhado cor-de-chumbo em diagonal.quase todas as janelas estreitas estavam cobertas por finas camadas de cortinas de seda clara. como por encanto.. toda o conjunto dominante. e o canteiro ao lado da pequena escada repleto de flores coloridas.simplesmente indescritível. Parecia que uma estranha força me conduzia naquela direção. no meio de um rua completamente estranha. com um uniforme escolar. Não era a mesma sensação que eu sentira na piscina com o Líon. por longos minutos. Logo acima da entrada.tom escuro. pareciam estar interligados àquela janela . era muito melhor .. formando uma pequena brecha pela qual podia-se ver o teto rebuscado de um quarto e a luminária delicada fixada no centro. fixei o meu olhar naquela direção e não desviei mais. inclinado na direção da entrada.. Sem saber muito bem o por que. Pelo contrário. Eu não podia enxergar muita coisa do seu interior .como se esperassem que algo grandioso e surpreendente pudesse acontecer a qualquer . exceto uma.. e outra pequena parte parecia estar atenta ao fato de eu estar parado.

Tudo o que eu precisava era ficar ali.assim quebrando bruscamente o estranho elo que havia se formado entre nós. Seus olhos escuros e intensos admiraram a rua de ponta à ponta. Uma longa cascata de cabelos cor-de-chocolate emolduravam a face estranhamente perfeita. aconteceu. ela se levantou de onde estava e fechou as cortinas .aprisionando-me por completo. . e eu já podia sentir no meu rosto o fluxo repentino de sangue se formando. até que eles finalmente recaíram sobre mim . Nosso pequeno momento parecia estar durando uma eternidade. como se tentasse me reconhecer de algum lugar . Ela me observava com as sobrancelhas cerradas.a mesma sensação que eu sentia parado na calçada.instante. A garota e eu nos encaramos por um longo tempo. um rosto belo e delicado como o de um anjo surgiu. Após mais um minuto. Detrás do véu de seda. nada ao redor importava. Para mim. admirando aquele ser celestial à minha frente. Com um movimento rápido. sua pele castanha irradiando fracamente os raios de sol que se infiltravam para o quarto pela brecha da janela. observando a rua deserta. ela mordeu os lábios rosados e balançou de leve a cabeça. A garota-com-rosto-de-anjo continuou a me olhar e eu retribuía na mesma intensidade. A ligação estava feita. E para o meu total espanto. como se tentasse força a si mesma a voltar à realidade.

Líon me encarava preocupado. não.Sem fôlego. Aonde eu estava com a cabeça? O que o novato ia pensar de mim? . mas para mim foi como se tivesse durado o dia inteiro. Durante um breve instante para considerações. eu já havia me arrependido de a ter feito. e por .Líon.apesar de ainda emanar uma áurea ameaçadora . Até aquela manhã eu não fazia idéia de que Marcus Biel tinha filhos . Aquilo não devia ter passado de um breve segundo..antes de terminar a pergunta. a irmã de Líon. Balancei afirmativamente a cabeça como resposta. você está legal? . Praga.Sabe.Líon franziu a testa com desconfiança.Hei cara. eu gosto de brincar que somos meio ''nômades''. As coisas ao meu redor já haviam voltado ao normal.Hum. Eu e Serina nascemos no Rio de Janeiro. Mesmo estando ainda descomposto.. Londres. por acaso você e a sua família já vieram para Ventura alguma vez? . acabei concluindo o óbvio: a garota na janela só podia ser uma única pessoa . fechei os olhos e também sacudi a cabeça.muito mais controlado. mas nós já moramos em lugares como Tóquio.Serina.muito menos que eram da minha idade..... o bichano em seu colo . mais continuou . . Mas isto não explicava o por quê da sensação de eu à conhecer de algum lugar. . meu cérebro trabalhava a uma velocidade surpreendente. .

Esperei Líon entrar e trancar a porta de entrada para dar uma última olhada na janela do quarto de Serina e voltar para casa.era recheada de pessoas falsas e interesseiras. satisfeito por ele não ter maldado nenhum pouco a minha pergunta. não? .. aquele foi o dia mais movimentado de . Flashes dos momentos na piscina e do rosto da irmã de Líon iam e vinham na minha mente.Com certeza! . Estava na cara que se mudar para Ventura não havia sido nada legal para o garoto. eu falaria qualquer lugar. ainda acariciando Sortudo. .Acho que está na hora de eu entrar.disse Líon. e girou lentamente em direção a porta.. menos Ventura! O novato acariciou ternamente o gato em seu colo e suspirou. .aí vai! Se você me perguntasse qual seria o nosso próximo destino. Sem duvida alguma.o novato abriu um enorme sorriso. . você tem razão .. Eu estava cansado e tinha a esquizita impressão de que minha cabeça pesava mais do que o resto do meu corpo. .Acho que nos vemos amanhã na escola.que apesar de linda ..concordei.É. e cada músculo meu parecia estar esticado e retesado como se eu acabasse de percorrer uma maratona. E eu não podia muito menos culpá-lo por se sentir infeliz aqui. Afinal. eu mesmo queria meter o pé desta cidade .

todos os meus 17 anos em Ventura. mas parecia que a minha vida só havia começado naquela manhã . aproveitando cada segundo deste meu inesperado dia de folga. desconfiado e cansado que estivesse. .esparramado sobre o sofá da sala. Dei uma última olhada para a casa dos Biel e virei a esquina.como se todo o resto não passasse de um pesadelo. tudo o que eu queria naquele ponto era estar em casa . uma sombra indistinta em meus pensamentos. Por mais excitado. Eu não entendia muito bem. impressionado.

tirei a tampa e coloquei no microondas. mas a casa parecia mais colorida. Peguei a vasilha. que quase caí da cadeira quando o timer do microondas soou avisando que a minha comida estava pronta. levando a minha refeição para a sala e ligando a televisão.6. enchi um copo com refrigerante e me sentei à mesa da cozinha. que se contorciam e se elevavam em minha direção . e eu podia sentir o meu estômago se contorcendo. Por sorte. retirei a vasilha do eletrodoméstico e despejei a lasanha fumegante sobre um prato. Enquanto o meu almoço esquentava.iguais às sombras que eu havia visto um pouco antes de Líon cair na piscina. Abri a geladeira e procurei por algo que pudesse ser feito rapidamente. corri para cozinha. pensei alto. . protestando com fome. A fumaça que se desprendia da massa borbulhante parecia formar para mim vultos espiralantes. dando um brilho dourado e uniforme para os cômodos. Fiquei tão distraído com esta minha nova percepção do lugar. Já se passava de meio-dia. ''Mais que bobagem''. Era como se o sol iluminasse todas as janelas de um vez. Não existia uma boa explicação. C H A M A D O Assim que cheguei em casa. Ainda um pouco estabanado pelo susto. havia um pouco da lasanha do jantar da noite anterior.

De início. Tentando consertar o estrago. voei escada acima. Terminei de tirar a roupa e me enfiei em baixo do chuveiro.Não havia nada de interessante àquela hora. Não adiantou nada . Mas isto realmente não me surpreendia. Depois de tudo aquilo. Eu só precisava de um banho. me arrependi do meu afobamento. Depois de passar os canais umas duas vezes. a ducha diminuiu a minha temperatura elevada . bebi o refrigerante de um só gole. na direção do banheiro. Apesar da lasanha estar extremamente quente. A comida estava à tal temperatura que parecia que a sala estava sendo consumida por um incêndio de chamas invisíveis. Sem pensar em nada. ao mesmo tempo em que tirava o paletó e a camisa do uniforme. sem encontrar algo que me chamasse a atenção... a engoli com uma voracidade animalesca. Conhecer Líon. resolvi desligar o aparelho e comer o meu almoço em silêncio.meu corpo ainda transpirava e minha garganta parecia mais seca do que nunca. o salvar de um afogamento iminente e ainda por cima ter uma reação estranha só de ver a irmã dele não eram coisas que eu esperava viver quando saí de casa pela manhã. talvez aquilo resolvesse. Logo depois da última garfada. parecia surreal que até a noite passada minha .mais não melhorou em nada na minha agitação. Em uma única manhã havia acontecido mais coisas do que em toda a minha vida em Ventura.

os movimentos cada vez mais precisos e retos. Pois.se surpreendia ao ver os detalhes se formando diante dos meus olhos. peguei um lápis esquecido no móvel e repousei a minha mão sobre o papel em branco. Toda a minha agitação parceia fluir unicamente para aquela zona do meu corpo. já havia entrado no cômodo e me sentado de frente para o meu cavalete de desenho. minhas mãos começaram a traçar linhas e formas. me levando na direção do meu quarto. Com uma reação natural. não pude deixar de arquejar . Trabalhei com afinco por horas. A imagem tomava conta de todo o papel.a consciente . e assim que finalmente minha mão traçou a última sombra. Foi inesperado. mais a outra parte . estava a cópia exata da janela do quarto de Serina. impresso à minha frente como uma fotografia em preto-e-branco.maior preocupação era um mísero pesadelo. sem realmente ver meu reflexo no espelho. Deixei que minhas pernas tomassem o controle do meu corpo. Assim que a ponta do grafite tocou a superfície branca. e saí do banheiro não pensando muito no que ia fazer. Coloquei meu uniforme e minha toalha no cesto de roupas sujas e vesti meu velho moletom. às vezes apagava um canto e o redesenhava. guiandome pelo corredor do 2º andar. Parte do meu cérebro sabia muito bem o que eu estava desenhado. Escovei os dentes com força.ao mesmo tempo espantado e maravilhado. a figura perfeita da irmã de Líon . Antes que eu percebesse alguma coisa.

. mais ou menos isso. assim que aterrizei no piso sob o poste de emergência. . Logo que eu terminei de falar. A certeza disto martelava de forma insistente em minha cabeça. Por um curto espaço de tempo fiquei adimirando o desenho. a sombra da estranha ligação daquela manhã me conectando a imagem. Ela era um enigma.. . Só o fato do rosto de Serina parecer ter sido esculpido por anjos já era motivo suficiente para prender a minha atenção . ele girou nos calcanhares e me observou estupefato.É. garoto?. meu pai congelou no lugar.. Mas algo naquele rosto não me era estranho. . E eu tinha que desvendá-lo. Já eram seis da tarde.. O barulho da porta de entrada sendo forçada me despertou do devaneio. .. e eu não havia feito nada além do desenho. Instintivamente. o por que de minha agitação ficando mais claro.Adrian me enacarou sorridente. encolhendo os ombros .Acho que fiz um colega. parece que o seu primeiro dia não foi tão ruim quanto esperava .parcialmente oculta pelas cortinas.respondi baixo.E aí. guardei a ilustração da janela de Serina em uma pasta que estava sobre a minha escrivaninha e corri para a sala. Com um movimento lento. Com pressa.. olhei para o relógio luminoso na cabeceira da minha cama e levei um susto.

Bom. Me controlei. . Com passos firmes. . foi o que eu disse! .Pai. Adrian se permitiu um último sorriso e pendurou suas chaves no gancho ao lado da porta. você disse.Você está me dizendo que Ariel Regis fez um colega? . Era mais uma pérola do momento Filho . ..perguntou Adrian.. acho que estou vendo tudo girar! Não pude deixar de revirar os olhos enquanto Adrian fingia perder o equilíbrio e se apoiava na estante da televisão.Nossa.Vo. mas como sempre.Então. cruzando os braços sobre o peito. cruzei a sala em passos largos e me sentei pesadamente na poltrona ao canto.Tudo bem. os olhos esbugalhados . Sem perder tempo vendo a gracinha do meu responsável crianção.resmunguei. .murmurou ele. despenteando os cabelos negros de uma forma marota .. ele caminhou na direção do sofá à minha frente. um colega? . a sua falta de rodeios ainda me impressionava. acomodando-se pesadamente com um olhar ainda divertido. o que você saber? Eu sabia que ele faria esta pergunta.. tudo bem .Se o senhor já terminou de me fazer de bobo...

nos mínimos detalhes..Sim.respondi.começou Adrian. . esperando pacientemente o veredito dos fatos ocorridos naquela manhã .coisa que aconteceu meio minuto depois. Contei como conheci Líon no Auditório.. . então resolvi explicar tudo . um pouco antes dele escorregar da plataforma? . falei dos perigosos instantes que ele passou com D. gélido. . Continuei sentado na poltrona. . como se coloca-se engrenagens invisíveis para funcionar só com a força do pensamento.Hum. Durante toda a minha descrição do acidente o rosto de Adrian se transformou de divertido para apreensivo.. abrindo os olhos Você disse que sentiu algo parecido como um imã lhe atraindo para o garoto Líon.. Quando terminei minha breve narração. meus braços envolvendo minhas pernas. e que as sombras nas paredes atrás do jovem ganharam formas estranhas? .E também disse que tudo ficou turvo.desde o começo.respirando fundo. Mirthes (no que pude ouvir nitidamente meu pai murmurar ''velha asquerosa e fofoqueira'' para si mesmo) até chegar ao ponto principal da conversa: o incidente no Pavilhão da Tortura.Sim. desta vez mais nervoso do que antes. interessante . ele fechou os olhos de forma concentrada e balançou vagarosamente a cabeça para cima e para baixo.

Andava de um lado para outro. Meu pai contornou a poltrona onde eu estava. mas sem dúvida alguma.. .você teve o seu primeiro Chamado! .. mais o sorriso de Adrian não havia diminuído um milímetro sequer. o fato de eu já ter tido um deixava Adrian orgulhoso.Hum.coisa que ele não fazia desde que eu tinha uns 10 anos de idade. me pegou nos braços e começou a me girar pela sala .. O velho meio sorriso de antes voltou a estampar seu lábios. mas será que não poderia tirar um .Eu tive o quê?! Não fazia a mínima idéia do que era um Chamado. finalmente fui posto no chão. remexendo os cabelos. ele estava feliz. espalhando-se vagarosamente por toda a sua boca até se transformar em uma careta de alegria. não escondendo a satisfação . sua face trazia uma expressão de surpresa.Eu ainda não posso acreditar.Quando eu poderia imaginar que meu garoto já estava pronto para ter um Chamado! Sim. desta vez. pondo-se de pé e caminhando na direção da janela à minhas costas . o rosto brilhante de excitação . mais não exite outra explicação! Adrian se virou para mim e..meu pai não parecia querer se conter. . Depois de muitos protestos. . interessante ..disse ele.Pode parecer estranho.repetiu Adrian.Filho .

Acho que me empolguei demais não? .concordei..segundo do seu momento de contetamento e me explicar que droga era esse Chamado?! . Hum . geralmente.fingi tocir. Imagine poder saltar de um prédio para outro. . . o que era bastante óbvio. o que seria isso que eu ''supostamente'' tive? De algum modo. um Arcano herda várias características sobrehumanas devido à sua mestiçagem. tentando de alguma forma chamar a atenção real de Adrian .claro sinais de uma longa explicação sobre a grande aberração que sou. a voz carregada de sarcasmo.repeti. Seu rosto ficou sério e seus olhos se estreitaram .. aterrisando sem nenhum arranhão.Sei . não é mesmo? .Muito bem . Meu pai parou de andar pela casa feito um louco abobalhado e me fitou intensamente.Hum.começou ele com um tom grave . minha interrupção surtil esfeito. Isto não era uma coisa que muita gente podia fazer. mas já sendo. não? ..sem querer ser estraga prazeres.Certo. certo .murmurou ele .mutios de nós pensam que esta . em uma tentativa óbvia de se concentrar.você deve saber que..Demais?! . Adrian revirou os olhos mas se sentou novamente no sofá.Então .continuou Adrian .

minha mente estranha e anormal trabalhou e se lembrou dos meus pesadelos rotineiros . .nossa herança genética se restringe apenas à habilidades consideradas físicas: Força.Muito além? Como assim? . .aqueles que me fazem gritar durante a noite e acordar metade do bairro. Então. Mas à verdade é que vai muito além disto tudo. nosso cérebro capta algo que não conseguimos perceber. . Tudo em um Arcano está além do humano. Sentidos Aguçados... o que estou dizendo é que nossos dons não se limitam apenas à isso. Velocidade. Agilidade. Afinal.perguntei. Por um longo instante.. Logo. os olhos do meu pai recaíram pesadamente sobre mim. Nossas mentes se desenvolvem tanto quanto o nosso corpo. quando dormimos. .. Tive que lutar loucamente para manter o rosto sereno e cheio de expectativa. ele se esforça ao máximo e tenta nos dizer o que deixamos perder.. Resistência. Ótimo.disse Adrian. . quando acordados. Um exemplo disto é os nossos sonhos. . Agora eu tinha a comprovação do meus medos..Bom.Não é bem o que você deve estar pensando.. haviam coisas mais importantes e urgentes a serem discutidas. meu cérebro veio com defeito. não sabendo aonde ele queria chegar.É como se nossa mente trabalhasse o dobro do normal.. lendo a minha expressão.

e quiçá. ainda chocado com explicação.. sentindo meu sangue correr por todas as minhas veias .perguntei.E o melhor: Você.. a nossa maior conexão com os nossos Antepassados Originais. Uma das mais curiosas é o que nomeamos de Chamado.complementou ele.O senhor está dizendo que eu ter esse tal de Chamado na minha idade não é normal? Que o meu cérebro está adiantado demais até para uma pessoa como nós? .. o cérebro dele capta toda e qualquer tipo de informação para que. talvez. ''Um Chamado é. . ele possa o alertar da melhor maneira possível .confirmou Adrian. preparando o Arcano para a situação. um Chamado nada mais é do que uma forma de antecipação para que nós possamos interfeir em um acontecimento. .Exatamente . o meio sorriso voltando a se fixar em seu rosto . provavelmente. quando o pior aconteça.Mas este é apenas um dos aspectos . Quando um Arcano se encontra em um lugar onde o nível de riscos são gritantes.Existem uma par de possibilidades mentais que podemos explorar. evitando uma tragédia iminente.Então. disfarçando a fitada .'' . foi o Arcano mais novo à estar preparado para receber um Chamado.assim.Um instante . ruim? . Ele nada mais é do que um tipo de 'sensor de perigo'.interferi.

que tipo de ser mutante eu era? . Acredite.Opa. me levantei da poltrona e fui para o meu quarto.. somos bem melhores assim! .Por essa eu não esperava.resmungou Adrian. O que eu queria falar é que eu não esperava que você já estivesse preparado para ter um Chamado.Acho que tivemos um longo dia.. tudo bem . Pelo o que . ao mesmo tempo em que dava palmadinhas desajeitadas em minhas costas . sem me preocupar em ascender a luz. acredito! Como se eu não pudesse ler na cara dele que só dizia aquilo pra tentar me acalmar. Será que. eu também tinha que ser a nível de um Arcano?! Maravilha. Sem dizer uma palavra.continou ele. pai. me atirei na cama e enfiei minha cara no travesseiro. Volte à ser o filho. Assim que entrei no cômodo.Tudo bem.. acho você um dos Arcanos mais normais que conheci.Me expressei errado. levando em conta os nossos parâmetros. acho que falei demais! . além de ser esquisito à nível humano. qual seria a próxima surpresa que eu irai descobrir: A de que eu tenho um par de asas ou que eu posso interferir no ambiente só com a mente? Deus. não? Por que você não vai lá pra cima descansar um pouco enquanto eu preparo jantar para nós dois? Era tudo o que eu precisava.. Ah tá. se levantando em um salto e posicionando-se ao meu lado .

. Pelo menos. mas será que eu queria realmente dormir? Tentando não pensar no assunto. Agora já estava bem esplícito o que havia acontecido no Pavilhão de Tortura. A questão era que a resposta havia me deixado mais encucado do que a própria pergunta. Com o passar do tempo. com ele eu só tinha tinha que me preocupar durante a noite. Entre as dúvidas que eu tinha sobre mim e o meu pesadelo. estava ainda mais apreensivo. o céu exibia profundos tons púrpura e já estava escuro o suficiente para que os lampiões de ruas estivessem acesos. muito pelo contrário. eu ficava com segundo. puxei minhas cobertas e me acomodei na cama. Eu sabia que logo a inconsciência iria chegar. o sono chegou.eu podia ver. fui sentindo meu corpo mais pesado e minha mente mais leve. Eu não me sentia nem um pouco relaxado. se antes eu suspeitava. E foi assim que – ao tentar não me preocupar com nada minhas pálpebras foram ficando cada vez mias pesadas e. capaz de coisas que muitos não suspeitavam e que nem os Arcanos tinham compreensão de suas possibilidades? Legal. junto com o sereno da noite. agora eu tinha certeza que era uma aberração. Então o meu cérebro era uma super-máquina.

7. sua pele morena irradiava um brilho dourado e quente. Sobressaltado. virei-me com pressa.. desde as árvores até o formato das elevações do terreno mais à frente. mal disfarçando minha surpresa. sentada tranquila sobre as raízes de um imponente eucalipto. clara e musical. bem atrás de mim. e o bosque estava escuro como breu. a garota se levantou da base da árvore com tal leveza que me pareceu que ela nem .. e uma névoa fina e rastejante impregnava-se no musgo aos meus pés. O que não sabia..eu. formando um imenso oceano verde e branco. preparado para atacar o que estivesse à espreita.Eu.. me eram familiar. L U Z E E S C U R I D Ã O Era noite.. Sem se deixar abalar pelo meu mau jeito. Só não contava encontar com Serina. era o que eu estava fazendo ali. Eu sabia que estava na Reserva Florestal de Ventura. na verdade. . os cabelos cor-de-chocolate ondulando ao seu redor. O topo dos grandes eucaliptos se escondiam no infinito negro à minha cabeça.sussurou uma voz feminina. eu não esperava lhe encontrar aqui . . intensificado pelo belo vestido marfim que usava. Tudo naquele lugar.Achei que nunca chegaria.respondi. parado no meio do nada. . Mesmo nas sombras..

murmurei. O que eu posso dizer é que meu corpo reagiu das maneiras mais estranhas.Me desculpe . Quase que tomado por uma força sobrenatural..disse ela simplesmente. Para falar a verdade. enquanto ela continuava a explorar o meu rosto com as mãos. Serina aproximou-se mais um passo de mim e encostou a sua bela cabeça em meus ombros. Antes que eu pudesse pensar em alguma coisa.havia feito algum esforço. . Com um profundo suspiro.me obrigando a respirar por um breve e lento arquejo. . correndo os meus dedos com cuidado pelos seus cabelos e por suas costas. Não posso descrever com palavras tudo o que senti naquele momento. apertei a garota firmemente entre os meus braços e mergulhei o meu nariz na base suave e perfeita de seu pescoço.. meu sangue ferveu como se eu ardesse em febre e minha garganta se fechou . inspirei todo o perfume adocicado que sua pele castanha exalava. . Foi aí que entrei em parafuso.Você é bonito . erguendo a mão direita com delicadeza e acariciando minha face. Para meu espanto. acho até que não tenho coragem de contar algumas coisas que pensei quando ela me tocou. Serina já estava diante de mim. seu rosto angelical apenas à centímetros de distância do meu. Meu coração disparou como cavalos em uma corrida.

. eu sentia que havia algo por ali. me preparando para o ataque que estava por vir. começou a se elevar perigosamente . eu sabia que a garota deveria estar congelada no lugar . Mesmo forçando os meus olhos ao máximo.. eu não enxergava nada a não ser as árvores e a neblina. Aquilo não me tranquilizou. mais cedo do que eu esperava.disse em um tom baixo. .. Mesmo não o vendo...suas mãos. procurando por qualquer sinal da coisa que se aproximava. espreitando a mim e a garota .só esperando o momento certo para aparecer. .E assim ficamos os dois. que antes era alva e rasteira. vai ficar tudo bem. Vasculhei a floresta à minha frente. Mesmo sem poder vê-la. e muito mais rápido do que eu julgava ser capaz.ganhando um mórbido tom de chumbo. ao passo que a estranha sensação que eu havia sentido mais cedo na piscina da Constantine começava a tomar conta do meu corpo novamente. apoiadas em meus braços. Só então percebi o que estava prestes à acontecer. mesmo sem ter plena convixão do mesmo. Rápido como um relâmpago.. até que toda a cena mudou em um piscar. E ele apareceu. A névoa.Não se preocupe. coloquei Serina sob a proteção de minhas costas e me agachei. por um tempo que me pareceu uma eternidade. estavam gélidas e escorregadias. . Um vento frio e úmido despenteou os nossos cabelos.

Enquanto observava a figura se aproximar mais do ponto onde eu estava. como se tivesse acabado de aprender à andar com um animal quadrupede. o mais singular de todos: em suas costas. alva como mármore. um verdadeiro lobo na pele de cordeiro. trajava apenas uma velha calça de brim preta e seus cabelos ruivos ricocheteavam no alto de sua cabeça como violentas chamas vivas. O rapaz. negros e com as pupilas dilatas iguais à de uma fera em caça. um jovem alto e musculoso emergiu do espesso mar branco-pérola. Não sabendo bem o por quê. Seu andar era lento e arrastado.mas poderia passar despercebido para muita gente. E. caminhando lentamente na direção da campina em que eu e Serina estávamos. constatei algo que para mim era óbvio .Surgindo em meio a neblina. haviam duas longas e feias cicatrizes que ainda pareciam estar em carne viva. Por mais humanas que fossem as características físicas do homem que caminhava pela floresta. Os seus olhos. Muito mais fatal e cruel. transmitiam uma frieza perversa que destoava por completo do rosto bondoso. exibia uma luminosidade estranha igual a de uma pedra banhada por um sol intenso. que não deveria ter mais do que 20 anos. talvez. Estava tudo nos detalhes. Sua pele. na altura dos ombros. era certo que de fato ele não era um. me veio a mente a imagem de um pássaro tendo suas asas brutalmente arrancadas. Logo .

. o animal ...perguntou Serina. livre de qualquer expressão.dando uma chance. por menor que fosse. eu já podia imaginar o que estava para acontecer. A esta altura. Por um minuto. extremamente parecidas com as cicatrizes que eu vira no rapaz. Tudo vai se resolver. o sangue fluindo livre pelo dorso marcado e frágil. Eu . o jovem sorriu ternamente . Seu rosto estava impassível.após o ato. Com um último impulso. ficamos parados apenas nos encarando. brancos e ligeiramente serrilhados. sua voz cantada tomada de pânico. Sangue este que brotava forte e pungente de aberturas assustadoras. senti os meu músculos se retesarem.Não tenha medo. para a garota escapar.se arrastava pelo chão.seus dentes. brilhavam de um jeito sombrio e sedento. pelo contrário. colocando-me mais à frente .Quem é ele? . seus olhos escuros não escondiam mais a satisfação com o nosso encontro. . Ao escutar nosso pequeno diálogo. me afastei brevemente de Serina. No mesmo instante. o visitante parou e inclinou a cabeça para o lado. Só após aquele insight percebi que o ser à minha frente era muito mais perigoso do que eu pensava.. Reparando minha reação com a sua chegada.piando de dor .. Agora que não haviam mais segredos. faíscando à luz do luar.

Sem pensar em nada.sabia que o momento do ataque estava para chegar. Sem paciência alguma. e não via como poderia terminar de outra maneira. Assim.. Ainda sentindo o meu corpo. e a rua lá fora não emitia um barulho sequer. Por isso. E também sabia que ele seria letal. Os velhos edifícios pontiagudos do centro recortavam a paisagem de um jeito nem um pouco acolhedor. O quarto ainda estava escuro. qando o ser se agachou. Menos penosa do que eu podia supor.tão alto como um gato e tão rápido como uma pantera. Minha cabeça martelava devido ao impacto da queda e os meu tórax ardia com a falta de ar. o céu estava nublado. Quanta novidade. pronto para dar o bote. Era o meu fim. me apoiei desengonçadamente na janela e me pus a observar a cidade. Acordado na madrugada de novo. E ela veio. puxei o lençol que me enrolava com força e o joguei em cima da cama. coberto por nuvens macabras de cores esverdeadas. Com os dentes cerrados. Despertei enroscado no meu cobertor e estatelado de cara no chão. eu respirei fundo. Diferente das outras noite. o estranho lançou-me um último sorriso e saltou . inspirei profundamente e tentei me recompor. e muito mais gelada. fechei os meus olhos me preparando para a dor que viria me atingir. . E ao fundo. os imensos eucaliptos nas encostas das colinas agitavam-se furiosamente contra o rotineiro vento ártico..

Assim que . E em nenhuma outra noite eu havia reparado que eu não estava sozinho na clareira. peguei a maioria dos papéis..Sem pensar em nada. Com o solavanco inesperado. me obrigando a me abaixar e arrumar tudo. Sei que é um detalhe quase que imperdoável.apenas no ataque letal daquela criatura. todas as coisas que estavam sobre a mesa se esparramaram no piso do quarto. Deus. Mesmo tendo uma visão apurada no escuro. deixei tudo como estava e corri o mais rápido possível para o quarto do meu pai. fechei a janela contra a friagem que invadia o meu quarto e me virei na direção da cama. me deparei com o desenho de Serina em seu quarto que eu havia feito durante aquela tarde. Bufando de contrariedade. que não me faziam pensar em mais nada . Com a respiração pesada. e a luminária desligada e empurrei tudo de uma vez só para o tampo do móvel. não consegui evitar o encontrão que dei na escrivaninha. Só então compreendi a origem da estranha sensação que eu senti quando a encontrei mais cedo. mas em minha defesa devo dizer que os momentos finais eram tão vivos. meu mp4. E só então eu vi como a situação estava realmente séria. tão assustadores.. Quando me preparei para guardar as folhas novamente dentro da pasta onde deveriam ficar. como eu pude ter sido tão obtuso? Durante quase um mês eu vinha tendo aqueles pesadelos.

O que está acontecendo? Eu escutei um barulho vindo do seu quarto. Mas voltando ao que interessa. Em menos de cinco minutos havia contado cada detalhe do sonho que vinha tendo nos últimos tempos. Acho que está na hora do senhor saber de tudo.Deixe eu ver se entendi . quando eu encontro Serina. antes que Adrian pudesse desviar a minha atenção . nem eu sabia muito o que eu achava. o rosto tão abalado quanto o meu.você acabou de dizer que o rapaz que o atacava tinha duas longas cicatrizes nas costas? . O começo. digamos. meu pai estava com uma expressão de quem acabava de presenciar uma catástrofe. Para falar a verdade. .. não é todo dia que você tem sonhos. quando acabei minha história. Afinal.Eu tive aquele pesadelo de novo..cheguei no corredor. Nem queria saber o que meu pai iria achar se eu narrase aquela parte para ele. Tudo bem. Adrian escancarou a porta do cômodo e saiu. . ''intímos'' com a irmã do seu colega de escola que você conhece não faz nem horas. Seus olhos fechavam-se em duas pequenas fendas e seus lábios se comprimiam em uma única linha.cortei. não contei tudo.Pai! .murmurou Adrian em um tom grave . . foi uma versão light e bastante resumida.

aparei o jornal que meu pai lia naquela manhã e contemplei a manchete: Caos na Reserva Animais Hidrofóbicos Preocupam Autoridades. Logo na folha debaixo havia outro destaque: Polícia Investiga Ataques na Reserva.Santo Deus. Não perdendo tempo..respondi. . entrando no cômodo no instante em que meu pai revirava avidamente as páginas dos jornais guardados em uma velha caixa entre o nosso Mustang e a velha moto do Vovô.O que é pior do que o senhor pensava? .. encolhendo os ombros.. Sem compreender aonde ele queria chegar me mostrando as notícias. o que quer que ele tinha descoberto. é pior do que eu pensava! Num átimo. escorreguei pelo poste de emergência e o segui.Os sinais.Hum hum.. Apenas observando o rosto de Adrian dava para imaginar perfeitamente que. estavam todos na minha cara.. não seria nada agradável.E elas pareciam estar em carne viva? . olhei para Adrian .perguntei.. . e eu não vi! respondeu ele. E era isto o que eu temia desde o começo. . meu pai desceu as escadas e correu em direção a nossa garagem. pegando uma das páginas em que passava o olho e jogando para mim. .. Com um movimento rápido.Foi o que eu vi .

pacientemente esperando a explicação. - Você não vê? Nesse exato momento 'ele' deve estar lá fora, em plena Reserva... Atacando os animais, usando e abusando da cegueira humana! Agora eu estava realmente confuso. Sacudi a cabeça e tentei raciocinar com calma. - Quem está lá fora? Quem está atacando os animais? - UM CAÍDO, Ariel! - explodiu Adrian - UM ANJO CAÍDO! Por um longo minuto, admirei meu pai completamente transtornado. Não estava chocado pela reação dele; pelo contrário, eu entendia muito bem. Na verdade, o que me baleara foi a revelação... Um Caído em Ventura. Isto só podia ser brincadeira. - O senhor está... certo disso? - interroguei com a voz falha. - No fundo, eu já estava desconfiando - murmurou Adrian, um pouco mais recomposto - Mas agora que você me contou sobre o seu sonho, tudo se encaixa. Olhei para o chão, tentando absorver a notícia. Aquilo era simplesmente errado, não podia acontece de forma alguma. Quero dizer, não que um guardião celestial caminhar entre humanos fosse algo proibido. Nós Arcanos na verdade

descendíamos justamente de Anjos que revogavam por livre vontade de sua Missão - e consequentemente, ao direito da imortalidade - e decidiam viver entre as pessoas comuns. Mas um Caído... era mau, muito mau. Afinal, como eu poderia explicar as razões para um Anjo ser condenado ao exílio na Terra? Bom, eu poderia falar de sua alma corrompida, mas só de você pensar que um ser teve as suas asas brutalmente arrancadas dá para imaginar muito bem o por quê dele ter sido expulso de sua Ordem. - Por que o senhor acha que a irmã do Líon estava no meu sonho? - questionei, tentando não pensar no Caído caminhando livremente pela cidade. - Eu não sei - resmungou Adrian, não escondendo a frustração em sua voz - Mas você não sonharia com isto se não tivesse alguma coisa... Antes de completar a frase, meu pai fechou os olhos e inspirou fundo. Estava na cara que ele não iria terminar o que estava me dizendo, por isso nem me surpreendi quando ele mudou de assunto. - Acho que vou ligar para alguns dos nossos amigos, tudo bem? - Claro - respondi, sabendo exatamente pra que tipo de ''amigos'' ele iria ligar.

Respirando com força, Adrian jogou todos os jornais de volta para a caixa, desligou a luz da garagem e passou por mim com passos largos. Porém, antes de subir as escadas na direção do seu quarto, ele parou e se virou para mim, a face num misto de cautela e apreensão. - Ariel, você pode me prometer uma coisa? - Claro - repeti, olhando vagamente para a sala escura e sombria àquela hora da noite. - Será que você não poderia... jurar não chegar nem perto da Reserva? Pelo menos, enquanto ainda não resolvemos esta... digamos, pendência? - Mas é claro que eu juro, pai - prometi, levantando a mão direita para selar o juramento. Ao ouvir minha resposta, o rosto de Adrian pareceu se descontrair. Com um curto sorriso, ele sacudiu a cabeça com leveza e recomeçou a subir os degraus. No momento, eu não tinha razão para descumprir o promessa que eu havia feito. Por hora, ele poderia ficar despreocupado. Pena que, cedo ou tarde, este juramento teria que ser quebrado.

H E N R I B. sequela dos acontecimentos do primeiro volume da ''Saga das Sombras''. N E T O Nasceu no Rio de Janeiro. no ano de 1989. se considera um ''escapista''e tem como grande paixão a Literatura de Fantasia. . Atualmente. o escritor divide o seu tempo entre a Faculdade de Pedagogia e na produção de dois novos livros: Mundos Secretos. e Filhos das Sombras. uma copilação de contos fantásticos. Apaixonado por livros desde pequeno.

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