UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL (UFRGS) INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS FACULDADE DE HISTÓRIA DIR03308 – PRÉ-HISTÓRIA

GERAL (TURMA B) PROFa. SILVIA MOEHLECKE COPÉ PORTO ALEGRE, JUNHO DE 2003

A NEOTENIA NA EVOLUÇÃO HUMANA

Elaboração: EVERTON CAPORALE JOEL LEAL CARDOSO JOSÉ ALFREDO RODRIGUES MÁRCIO MENDES CARVALHO NESTOR AUGUSTO SCHAEDLER

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SUMÁRIO

SUMÁRIO ....................................................................................... 2 INTRODUÇÃO .............................................................................. 3 I – A ABORDAGEM DE LEWIN E LEAKEY .......................... 5 II – O EVOLUCIONISMO DE STEPHEN JAY GOULD .......10 CONCLUSÃO ........................................................................... 14 BIBLIOGRAFIA.......................................................................... 16

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INTRODUÇÃO

A humanidade, desde Charles Darwin, tem continuamente tentado decifrar as origens dos seres humanos através do pensamento evolutivo. Quando contemplados pelo homem, os seres vivos lhe despertam reflexões sobre a marcha do tempo. O inexorável curso do tempo enxerga a gestação, o nascimento, a maturação e a morte dos seres vivos, bilhões deles que foram protagonistas dos cenários da vida desde o surgimento desta no universo há outros bilhões de anos. A reprodução, as relações entre gerações, os ciclos de floração, o nascimento e morte dos seres vivos, são fenômenos repetitivos e periódicos, e a aparente variação temporal nada mais é do que parte de um ciclo sempre presente, mas imutável, onde o tempo parece não ter direção. Essa dualidade de percepção dos fenômenos naturais, que permeia tanto a geologia quanto a biologia, foi tratada por grandes pensadores, desde tempos remotos. O evolucionismo adquiriu os seus contornos científicos definitivos no século XIX, com Charles Darwin. A partir daí, poderosos cérebros se ocuparam desse apaixonante tema, entre eles três cientistas de primeira linha, cujos textos são aqui analisados, quais sejam Richard Leakey, Roger Lewin e Stephen Jay Gould. Em 1836, Geoffrey Saint-Hilaire, o famoso naturalista francês, ao observar as feições e o comportamento dos orangotangos adultos e seus filhotes no zoológico de Paris, retratou-se de uma conclusão anterior de que seriam de gêneros diferentes, baseado em espécimes de museu. O contraste surpreendente entre pais e filhos, somado à instigante semelhança dos filhotes com os seres humanos adultos, levou o cientista a afirmar que pais e filhos dos orangotangos diferem entre si mais do que o cachorro do urso.

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Atribuiu essas mudanças à cessação do crescimento do cérebro, enquanto o resto do crânio, isto é, o esqueleto facial, continuava a crescer. O comportamento do pequeno e afável orangotango surpreendeu pela sua semelhança com o de um humano, enquanto o orangotango adulto mostrava uma “revoltante bestialidade”. 1 Surgiu-lhe a pergunta: Pode o cérebro humano ser o fruto de uma parada ou de um retardamento no desenvolvimento ? Note-se que a “Origem das Espécies” de Darwin só surgiria em 1851. A neotenia é uma teoria. E, como teoria, há os que a defendem, e outros que a atacam. Ocultos atrás deste conceito estão mais de 150 anos de história distorcida. O exame dos efeitos do prolongamento das taxas de maturação e a permanência de caracteres juvenis na idade adulta levaram a uma estranha combinação de controvérsias e de mal entendidos. Criação original de Louis Bolk, anatomista holandês, que criou a “teoria da fetalização ou do retardamento”, a neotenia perdeu muito do seu vigor no último século. Porém, cientistas de renome a consideram evidente e fundamental para a evolução humana, embora não com as explicações causais que lhe deu Bolk à época. A sua força, assim como a da seleção natural de Darwin, não é sempre dominante e determinística, sendo apenas mais um fator a considerar na evolução da vida. Modernamente, Stephen Jay Gould reavivou essa teoria, mas procurou corrigir os erros que Bolk fizera quando de sua elaboração. Fruto dos estudos de Gould, a neotenia ou a teoria da fetalização ou do retardamento voltou às páginas científicas. Nosso propósito é lançar nas poucas páginas que seguem um sumaríssimo olhar sobre o que vem a ser essa tese, situando no contexto das diferentes teorias que procuram explicar a nossa evolução.
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“In the head of the young orang, we find the childlike and gracious feature of man.... We find the same correspondence of habits, the same gentleness and sympathetic affection, also some traits of sulkiness and rebellion in response of contradiction.... on the contrary, if we consider the skull of the adult, we find truly frightening features of a revolting bestiality”. (Geoffrey Saint-Hilaire, 1836, apud Stephen Jay Gould in Ontogeny and phylogeny. Cambridge: Harward University Press, 1977, p. 354.

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I – AS ABORDAGENS DE LEWIN 2 E LEAKEY Como biólogo, Roger Lewin faz uma abordagem essencialmente de um cientista da vida. Suas indagações buscam resolver o mistério da diferenciação da espécie humana, ao longo de milhões de anos, separando-a gradativamente dos símios. O que nos tornou diferentes, pergunta ele ? Lewin utiliza para a sua análise as variáveis da história de vida, isto é, os diversos fatores que marcam a trajetória do indivíduo desde a infância até a morte, abordando a sua geração, o desenvolvimento, a maturação e o ocaso. A primeira questão posta, em redor da qual gira todo o capítulo 12 do livro A evolução humana,
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foi emprestada do ecólogo Henry Horn, de

Princeton, que a formulou em 1978, mais ou menos, nos seguintes termos: Qual a melhor estratégia para vencer, biologicamente, o jogo da vida ? Quando, com que frequência e quantos filhos parir ? Como cuidá-los e até quando ? Lewin concentra sua análise separando o reino animal segundo dois critérios de geração da prole: a seleção-K (característica dos primatas) e a seleção-r, das demais espécies animais. As características mais marcantes da primeira são a geração de poucos filhotes, em contraposição à geração de uma grande prole dos segundos. De todos os primatas, o homem é o exemplo extremo de seleção-K, o seu exemplo mais acabado. Tomando como exemplos dois primatas, o menor – a fêmea do lêmur camundongo, que pesa somente 80 gramas – e uma fêmea adulta de gorila, que pesa quase 100 quilogramas – faz uma comparação entre o número de filhotes de cada. A primeira pode gerar alguns milhões durante a sua vida
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O renomado cientista, jornalista e escritor Roger Lewin é um dos cientistas que, por vários anos, tem apresentado e desenvolvido idéias fundamentais em várias categorias da antropologia. Lewin trabalhou por 9 anos no escritório inglês do New Scientist e depois para o Science de Washington, DC, por outros 9 anos. Depois disso, em 1989, aventurou-se como escritor free-lancer e tem escrito vários livros muito populares sobre temas da evolução humana, alguns com Richard Leakey. O seu estilo é atraente, o de um verdadeiro contador de histórias, tornando a leitura muito instrutiva, e sempre agradável.
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LEWIN, Roger. A evolução humana.. 1ª edição, São Paulo: Atheneu Editora, 1999.

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reprodutiva, tempo em que a fêmea gorila gera apenas um filhote. Os primeiros nascem em ninhadas grandes, após curto período de gestação, ao contrário dos segundos, que às vezes geram apenas um, com grande período gestacional.. A segunda comparação que faz Lewin é quanto às estratégias de desenvolvimento dos animais, as quais ele classifica de estratégia altricial e estratégia precoce. Essa dicotomia torna-se importante para explicar as diferentes evoluções das espécies. As primeiras espécies geram filhotes muito imaturos, incapazes de sobreviver sozinhos ao nascer. Os segundos, ao contrário, são filhotes maduros e podem se defender sozinhos. Nas primeiras, a gestação é curta e o tamanho do cérebro do recém-nascido é pequeno; nos segundos, a gestação é longa e os filhotes têm cérebros grandes. Quanto ao cérebro do aduto, ocorre uma exceção entre os primatas: o homem, embora altricial, tem cérebro grande, pouco comum, proporcionalmente o maior deles, quando comparado ao restante do corpo. Todas essas comparações feitas por Lewin culminam com algumas previsões sobre as primeiras espécies de hominíneos. Normalizando os tamanhos dos cérebros dos primatas em relação as outras espécies de animais, ressalta evidente a sua maior dimensão em relação ao restante do corpo. Isso leva a crer que os primeiros hominíneos tiveram vidas lentas em termos de variáveis de histórias de vida, com uma capacidade craniana que cresceu continuamente. 4 Finalizando, Lewin reputa o tamanho do corpo, o tamanho do cérebro, a variabilidade ambiental e as taxas de mortalidade como fatores

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Apoiando a teoria de Lewin há que considerar que o cérebro é um órgão que, em termos metabólicos, é extremamente oneroso de manter. Ele consome cerca de 30% da energia disponível, equivalente, grosseiramente, ao consumo de uma lâmpada de 20 W. Entre outras exigências, requer um sistema complexo de regulação de temperatura, que depende de um grande suprimento de sangue. Esses custos adicionais só puderam ser absorvidos porque o cérebro maior possibilitou que houvesse reduções metabólicas em outras partes do corpo. Um exemplo dessa compensação é o nosso estômago, um órgão atrofiado, fruto do cozimento que começamos a fazer de nossos alimentos.

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determinantes para explicar a história e a evolução de cada espécie através dos tempos (filogenia). No texto do capítulo VIII – Los orígenes humanos – da obra Nuestros orígenes, escrita conjuntamente por Roger Lewin e Richard Leakey 5, a abordagem feita é diferente do texto anterior, da mão exclusiva de Roger Lewin. O foco da análise do texto parte de um exercício de imaginação do que tenha sido a faina diária de um grupo de australopithecus (tipicamente apareceram há 7,5 milhões de anos) em contraposição a de um grupo de Homo habilis ou de Homo erectus (que surgiram há menos de 2 milhões de anos atrás). As diferenças entre eles são poucas, mas desempenham um papel crucial na evolução. Ambos os grupos são muito parecidos, constando de 20 a 30 indivíduos, entre machos adultos, fêmeas e filhos. O que diferencia os últimos, ao primeiro relance de vista, é o seu cérebro de maior tamanho. Mas, o mais importante para nós agora é notar que no grupo Homo os machos nascidos no grupo nele permanecem, sendo portanto unidos pelo sangue, mais cooperativos e com objetivos comuns, ao contrário do grupo dos australopitecinos, onde os machos abandonam o grupo, assim que atingem a idade sexual de reprodução. Infere-se daí que no grupo símio temos mais tensões entre os machos, mais confrontação e menos interação amistosa. Fundamental é notar que os Homo necessitam dessa cooperação social, pois seus filhos são mais dependentes do que os dos símios, tendo uma infância mais prolongada, e já com rasgos de uma linguagem mais elaborada que a daqueles. Outro aspecto anatômico que diferencia os 2 grupos é que nos
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Richard Leakey é filho do famoso Louis Leakey e sua mãe é Mary Leakey, renomados no meio científico por suas pesquisas e importantes descobertas paleontológicas na África. Escreveu vários livros sozinho e alguns em parceria com Lewin. A obra sob análise é Nuestros orígenes. En busca de lo que nos hace humanos, editada pela Editora Crítica, de Barcelona, Espanha, no ano de 1995.

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australopitecinos os machos são muito superiores em volume corporal às fêmeas, enquanto que no grupo Homo essa diferença cai para cerca de 20 % somente. A grande questão posta, que intriga Lewin e Leakey, é esse ínterim de 5 milhões de anos que separa os símios dos Homo. O que aconteceu nesse período tão longo, que diferenciou tão drasticamente essas criaturas ? Uma grande pista que pode nos dar a resposta foi a descoberta de um fóssil do Menino de Turkana, presumivelmente com 12 a 13 anos de idade, a partir da análise da idade de erupção dos seus dentes. Aí surge a pergunta intrigante: Mas, para analisar a dentição do fóssil, usamos os padrões de crescimento dos atuais humanos ou dos símios ? Existem muitas diferenças entre eles, sabe-se. Se fosse símio, o jovem de Turkana teria apenas 7 anos. A principal é que os humanos têm uma infância muito prolongada, com baixo índice de crescimento, à exceção do cérebro, que alcança o tamanho de adulto quando o corpo alcança apenas 40% de seu crescimento final. Esse período seria um período de aprendizagem social, de aquisição de cultura. Essa cultura, sinônima de capacidade de adaptação humana, nos diferenciaria dos demais símios. A discussão sobre a idade desse fóssil gerou vivas e apaixonadas altercações entre cientistas, do qual emergiu como conceito-chave o ciclo biológico algo parecido com o que Lewin denominou de variáveis da história de vida, no texto anterior. Os fatores que afetam o ciclo biológico são a duração da amamentação, a idade da maturidade sexual, a duração da gestação, a quantidade da prole, o período entre gestações e a longevidade. Em suma, é uma repetição do que Lewin afirmou no primeiro texto, ou seja: espécies de corpos grandes vivem vidas lentas; as pequenas vivem vidas breves. Algumas espécies têm prole numerosa, a qual dedicam, porém, poucos cuidados. Diz-se que são espécies de alto potencial reprodutivo. Acredita-se que estas espécies se adaptam particularmente bem a meios instáveis e imprevisíveis. O contrário acontece com

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as espécies de baixo potencial reprodutivo, ou seja, os primatas, e, dentre estes, mais especialmente, os humanos. Dos estudos de Holly Smith acerca da dentição do fóssil de Turkana chegou-se à conclusão que a melhor correlação entre a erupção da primeira dentição era com o tamanho do cérebro, que é a base da teoria do ciclo biológico, ou seja, a partir do conhecimento dessas dimensões é possível prever todas as outras variáveis acima citadas. Baseados nesses modelos matemáticos, ele estimou a idade do fóssil em 9 anos. Resta a pergunta: O que diferenciou o humano no curso de milhares de gerações ? Do conceito de neotenia resulta a constatação de que nós, humanos, não nos especializamos fisicamente à medida que atingimos a maturação. Retemos, pela maior parte, as faces redondas e as características não especializadas de nossa fase juvenil. Em outras palavras, os textos nos sugerem que não sofremos especializações para vivermos em algum nicho específico. Continuamos “generalistas”, mesmo quando adultos. Em suma, a neotenia está relacionada com a grande adaptabilidade dos seres humanos a inúmeras condições de vida diversas, ao contrário de outros primatas e mamíferos, que se adaptam particularmente a um determinado nicho. J. G. Herder 6 muito contribuiu com essa questão fundamental. O artigo de Ulrich Muller, citado na bibliografia, disso apresenta boa síntese. Para Herder, o bebê humano é o ser mais órfão e desprotegido da natureza. Diferentemente dos animais, que se especializam como uma chave para a fechadura, o homem tem o seu destino em aberto. A sua falta de especialização redundou na independência da natureza, o que abre ao homem a possibilidade de auto-determinação, e o torna essencialmente uma criatura social. Inacabados e desprotegidos pela natureza, cabe aos seres humanos completar o seu projeto por si próprios, usando a razão e a reflexão, que só eles têm.
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HERDER, Johann Gottfried. Essay on the origin of language. New York: Frederik Ungar Publishing, Co., 1966. (Originalmente escrito em 1772).

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II – O EVOLUCIONISMO DE STEPHEN JAY GOULD 7

Os textos sob análise são ambos do seu livro Darwin e os grandes enigmas da vida, 8 correspondentes aos capítulos 7 e 8 da obra. No texto A criança é o verdadeiro pai do homem, Gould retoma a teoria da fetalização de Louis Bolk.
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Hoje se considera que, embora os traços

neotênicos apresentados por Bolk sejam verdadeiros, a sua explicação, de origem hormonal, não tem fundamento. Assim como, a sua insistência no sentido de não reconhecer a evolução em mosaico, e sim, o retardamento do homem como um todo, é hoje tido como um ponto fraco de sua teoria. É bom explicar: Bolk era não-darwiniano. E sua teoria contradizia as expectativas da ciência vitoriana, por considerar que o homem, “pináculo da criação”, era um macaco retardado. Infelizmente, segundo Gould, a neotenia caiu em descrédito por causa disso, e hoje é raramente citada nos livros sobre evolucionismo. Gould lamenta esse desprezo por considerar a neotenia uma teoria fundamentalmente correta. É inegável que o retardamento é um fenômeno evidente na evolução humana. Os primatas são geralmente retardatários em relação à maioria dos outros mamíferos. O homem é essencialmente um animal neotênico, de desenvolvimento muito vagaroso. Esse vagar, explica Gould, é essencial para que aprendamos. Somos eminentemente seres animais que aprendem, seres culturais por
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Stephen Jay Gould nasceu em 1942, e morreu recentemente, aos 60 anos de idade. Autor de mais de 10 livros sobre diversos assuntos, que abordam temas de teoria da evolução, geologia, biologia e história da ciência. Foi talvez o mais importante paleontologista do século passado. Recebeu do Congresso dos EUA o título de “One of America’s living legend”. 8 GOULD, Stephen Jay. Darwin e os grandes enigmas da vida. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 9 Anatomista holandês, que escreveu uma obra em 1920. É dele a frase: “ O homem é um feto de primata que amadureceu sexualmente” (1926). Ele apresentou ao mundo uma lista de mais de 20 características coincidentes que temos, como humanos adultos, com os estágios juvenis de outros primatas e mamíferos em geral. Para vê-las, consultar o artigo de D. R. Johnson, nas referências bibliográficas.

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excelência, adaptáveis a uma grande diversidade de nichos ecológicos. Devido a nossa plasticidade, habitamos ambientes que vão desde o equador aos pólos desde as regiões tórridas e desérticas de 50 graus C até as gélidas atmosferas siberianas e árticas - desde o nível do mar até altitudes de mais de 3.500m. No texto Bebês humanos como embriões a idéia central de Gould retoma a mesma idéia de Lewin no primeiro texto, acerca das estratégias altricial e precoce das espécies animais. “Altricial”, para Gould, às vezes é substituído por “mamíferos primitivos”, e “precoce” por “mamíferos avançados”. A esses últimos, Gould associa um cérebro mais desenvolvido em volume, o que lhes confere “um desenvolvimento espiritual superior”. Retoma as mesmas idéias de adequação dos primeiros aos meios instáveis e dos últimos aos meios estáveis, tropicais. Como Lewin, ressalta a exceção que nós somos nessas comparações: surpreendentemente, porém, nossos bebês aderem melhor ao padrão altricial. A sua resposta é o próprio conceito de neotonia, quando afirma:

“ Proponho uma resposta a essa questão que certamente vai soar à maioria dos leitores como evidentemente absurda: Os bebês humanos nascem como embriões e como embriões permanecem durante os primeiros nove meses de vida. (o grifo é nosso) Se as mulheres dessem à luz quando “deviam” – depois de uma gestação de cerca de ano e meio – nossos bebês teriam as mesmas características precoces de outros primatas.” (p. 66)

Uma das grandes teses de Gould é que os mamíferos, sejam altriciais ou precoces, vivem essencialmente a mesma quantidade de tempo, pois este deve ser medido de forma relativa, e não pelo calendário astronômico que

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usamos. O número de respirações, um bom parâmetro de medição do tempo relativo, é essencialmente o mesmo na vida de ambos. O retardamento começa mais cedo nos humanos e aumenta a sua taxa ao longo do tempo. Otis & Brent compararam 147 estágios no desenvolvimento de um homem e de um camundongo: a ordem sequencial entre eles é basicamente a mesma, porém, no estágio embrionário inicial são de 2-4 vezes mais lentos no homem; nos estágios embrionários finais, são de 5-15 vezes mais lentos. Na fisiologia ocorre o mesmo: na embriologia inicial um dia na vida do camundongo perfaz 4 dias na vida de um humano; mas, mais tarde, essa razão é 14 para 1, quando o desenvolvimento humano torna-se ainda mais lento. Nosso cérebro cresce mais devagar e por mais tempo quando comparado aos outros primatas (ao nascer, o cérebro de um bebê humano tem apenas um quarto de seu tamanho final); nossa infância se alonga mais; nunca atingimos os níveis de desenvolvimento dos outros primatas. Por isso, diz-se que a neotenia, que significa etimologicamente “mante r a juventude”, representa a manutenção, pelos humanos adultos, dos traços juvenis de seus ancestrais primatas. 10 Qual a razão, pergunta Gould, para os bebês humanos nascerem antes do tempo ? Aí os cientistas apresentam as mais variadas explicações, dependendo das convicções íntimas, muitas vezes, de seus autores. Gould apresenta uma explicação mecânica e materialista: a de que a seleção natural favorece mulheres de pélvis de grandes diâmetros, assim como tende a atuar contra recém-nascidos muito grandes, por causa da dificuldade e dos riscos do parto. De fato, um bebê humano nasce com o cérebro com cerca de 25% do tamanho do cérebro de um humano adulto. O filhote de chimpanzé nasce com
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O fóssil descoberto em 1924 por Raymond Dart, um bonito espécime de Australopithecus africanus, popularmente conhecido como Menino de Taung assemelha-se muito à aparência humana, sem apresentar os cenhos protuberantes e a conformação prognata dos adultos de sua espécie.

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40 a 50% do cérebro de seus pais adultos. Se os filhos de humanos tivessem que nascer após uma gestação de 18 a 20 meses – que é o ponto de equilíbrio estimado entre as duas espécies quanto ao desenvolvimento cerebral – a abertura pélvica tornar-se-ia insuficiente, correndo a mãe seríssimos riscos de vida. Assim, as dificuldades com o parto devem ter favorecido a gestação de fetos cada vez mais imaturos, e o concomitante disso foi o retardamento do processo de crescimento e de maturação. Um dos pontos notáveis do pensamento de Gould acerca do desenvolvimento do homem é o seu destronamento da condição de ápice e objetivo supremo da evolução.
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Ele e Richard Lewontin concluiram que na

natureza há realmente saltos qualitativos, não sendo a evolução, como era a concepção dominante, um mero acúmulo linear de mudanças quantitativas nos organismos. Eles reintroduziram a dialética no estudo da natureza. Em que Gould é criticado ? Em geral, as críticas mais sérias são quanto a sua negação enfática de que o conceito de evolução esteja ligado à idéia de progresso, ou seja, que o significado da evolução esteja na transformação de espécies e variedades inferiores para formas superiores de organização da vida. Negou veementemente a herança de caracteres adquiridos e criou um abismo entre a teoria da recapitulação
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e a neotenia, antagonismo que não existe, de

fato, pois não se pode negar a história no campo da biologia humana.

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“ Humans are not the end result of predictable evolutionary progress, but rather a fortuitous cosmic afterthought, a tiny little twig on the enormously arborescent bush of life, which if replanted from seed, would almost surely not grow this twig again” . In The mismeasure of man. New York: Penguin Books, 1983. Com o mesmo espírito crítico com que atacou as idéias vitorianas de enxergar o homem como o pináculo do mundo vivo, Gould, na mesma obra-prima, desmascarou as teoriascreacionistas e as teorias racistas sobre a inteligência. 12 A teoria da recapitulação, muito em voga na primeira metade do século passado, baseia-se na tese de que a “ontogenia recapitula a filogeni a”. Modernamente, a recapitulação pura e simples não é mais capaz de explicar a diversidade dos fenômenos observados na evolução dos indivíduos.

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CONCLUSÃO De algumas leituras da vasta literatura disponível sobre o assunto concluimos que a neotenia é um fenômeno aceito como fundamental na evolução humana. No entanto, diferentemente de seu idealizador, Louis Bolk, hoje, os cientistas acreditam que a neotenia não afeta todas as partes do corpo igualmente. Essa correção de trajetória na teoria da neotenia cede espaço para o conceito de “evo lução em mosaico”. Existe hoje quase um consenso de que a teoria de Louis Bolk não é ruim. Em suporte a isso podemos citar os diversos estágios intermediários visíveis nos fósseis de hominídeos. A sequência estrutural dos A. africanus, H. erectus, H. habilis e H. sapiens mostra uma progressiva retenção das formas juvenis. Além disso, temos os fortes testemunhos das diferenças hoje existentes entre as raças humanas. Para os críticos da teoria de Bolk, os pontos fracos consistem na sua insistência no sentido de que o retardamento afeta todas as características na mesma amplitude, e a explicação dada de que a neotenia ter-se-ia originado de mudanças endócrinas nos indivíduos. E outras fortes críticas se originaram da recusa dessa teoria em admitir quaisquer considerações de evolução adaptativa. O que aprendemos, finalmente, acerca do desenvolvimento do homem ? Que ele é retardado. Mas, porquê ? Bem, provavelmente por causa de sua posição ereta e do seu cérebro avantajado. Essas características parecem ter tido um desenvolvimento sinergético. O desenvolvimento retardado do homem deve ter produzido um cérebro maior, pelo prolongamento das taxas de crescimento fetais, proporcionando a conformação craniana para que pudesse assumir a postura ereta. Esta postura ereta lhe deixou as mãos livres para o uso de ferramentas e forçou a seleção natural no sentido de cérebros maiores. E um cérebro maior redundou em uma maior longevidade.

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Vimos que, sob o ponto de vida da infância, o bebê humano é tão dependente quanto os dos outros mamíferos. Essa dependência é extraordinariamente prolongada, de sorte que a criança necessita de cuidados dos pais por vários anos. Isso traz duas consequências: favorece o aprendizado em detrimento das respostas inatas, ou a infância prolongada proporciona um cérebro maior para o aprendizado, o que são, de fato, duas faces da mesma moeda. Do lado dos pais também há consequências: a sucessão de gestações de um bebê, com uma infância longa requer estabilidade e união permanente do casal. Ou, talvez, a permanência do casal é favorecida pela existência contínua de crianças dele dependentes.13 O que resta mais evidente, ao final deste trabalho de pesquisa, é a diversidade de teses de caráter científico, que tentam explicar a evolução humana. Depreendemos que, dificilmente, uma dessas teses está errada em seu todo. O progresso das investigações científicas, englobando especialistas das diversas áreas do conhecimento, nos mostra cada vez mais que o processo evolutivo humano é suportado por uma grande complexidade de fenômenos, que vão além da teoria da seleção natural de Darwin, abarcando em maior ou menor grau os fenômenos de recapitulação, da fetalização, do retardamento, da pedomorfose, da evolução em mosaico, da evolução paralela, das seleções “r “ e “K”, da heterocronia, da teoria do “equilíbrio puntual” de Gould etc. Ante a complexidade dos fenômenos que estão associados à evolução da vida, nos parece oportuna a tese de Stephen Jay Gould, quando proclama que a história da vida é não predizível, e não é necessariamente progressiva, e que os seres vivos, inclusive o homem, surgiram de uma série de eventos contingentes e fortuitos. 14

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Vejam a síntese da teoria no artigo de D.R. Johnson. (Ver referências bibliográficas). In The evolution of life on earth, no preâmbulo). Publicado em New York, pela W.W.Norton, em 1993.

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BIBLIOGRAFIA

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