Se o futebol tivesse capital esta seria sem dúvida alguma Rosário, Argentina.

É a cidade com mais devoção pelo futebol no país do tango e por consequência do mundo. Por lá, entre os mais velhos é habitual ouvir: És muito pibe (criança), nunca o viste jogar. Não fazes ideia "O Trinche era um monstro do futebol, melhor que o Maradona ..." - Um monstro? A sério? Melhor que o Maradona? Sim, fazia o que queria da bola e a bola fazia o que ele queria… Quem não viu jogar a Carlovich não sabe o que o futeb ... Diálogos como estes são ouvidos por toda a cidade. Quem não é de Rosário, e por mais que saiba de futebol dá-se conta que não ouviu ou leu uma parte da história. Como perder uma peça do puzzle. Uma peça que não se chama Washington ou Juninho que saiu do Brasil e jogou num clube secundário da Europa. O nome é Carlovich, Tomas Felipe Carlovich. Os jornais da altura não dizem muito: médio centro, 1,83 de altura, canhoto, jogou apenas três jogos oficiais na Primeira Divisão ... Nada de importante. Há referências que jogou uma década no Central Córdoba, que em 1973 foi campeão da Divisão C e subiu á B. Nada mais. Para encontrar Carlovich tem que vaguear pelas ruas de Rosario e procurar pelo bairro de Belgrano, a oeste da cidade. É o seu território, poucos não sabem quem é o "Trinche '. Ou, em La Tablada, no sul, onde fica estádio Gabino Sosa, humilde casa do Central Córdoba, testemunha das suas façanhas. Rosario tem uma particularidade: a maioria da população não descende de espanhóis, como no resto do país.No final do século XIX, os italianos estavam em maioria. Mas com o tempo e com a crise dos anos 30 foram chegando os russos, polacos, britânicos, franceses ou alemães e tornaram Rosário numa cidade cosmopolita. Entre os milhares de imigrantes europeus estava Mario, um picheleiro jugoslavo que tería sete filhos, o último cheio de talento. "Cueca? Se não viste Carlovich não sabes o que é uma cueca de ida e volta. O Trinche fazia-te uma cueca, esperava e quando o defesa se virava fazia-lhe outro", recorda um reformado. Entre a realidade e a ficção vai um passo e se fosse pelo número de testemunhas, o Central Córdoba teria jogado todos os fins-desemana no Maracanã. Para perceber melhor o Trinche Carlovich como jogador é melhor saber as opiniões de jogadores como Daniel

Gostava de ser como ele" Todos falam do pé esquerdo capaz de todas as fintas e de encantar os adeptos. Teve tudo para ser um grande. os adeptos já não iam ver jogar ao Central Cordoba. El Trinche liderou a equipa. Pekerman acrescenta "Era como um artista enjaulado". Arranjou clube passado pouco tempo no Cordoba Central.Passarela. o talento de Carlovich nasceu numa altura errada. Acabou por ser dispensado. Quando jogou no Rosario Central encontrou um futebol demasiado físico e distante do seu estilo artístico. Os colegas de equipa recordam-no como um jogador indisciplinado. Era um driblador nato. apaixonei-me pelo estilo de Carlovich. Mas qual era realmente a sua forma de jogar? O seu estilo? Não há gravações dos jogos das categorias onde jogava Carlovich. "Faltava muitas vezes aos treinos. Sempre o acusaram de abusar do álcool. Victor Bottaniz. Um Mito Carlovich tem hoje 63 anos e continua a viver em Belgrano. capitão da Argentina que ganhou o Mundial '78: "Quando jogava no Sarmiento de Junín. o jogo e o coração dos adeptos. eram outros tempos. E um prazer porque ficavam todos maravilhados com o que fazia dentro do campo. Valdano concorda: "O futebol argentino dessa altura era demasiado físico. Recebe uma humilde reforma e há uns anos os fãs e amigos pagaram-lhe uma prótese para a anca. Se fosse hoje voltaria a fazer tudo igual. mas sim a Carlovich. pelo que temos que nos remeter aos relatos de quem jogou com ele e de . "Tínhamos que esperar por ele. recorda que durante 4 anos seguidos foi ver todos os jogos de El Trinche. Marcelo Bielsa. treinador do Athletic Bilbao. porque chegava sempre atrasado e tínhamos que o ir buscar porque senão não vinha treinar". "Não me arrependo de não ter jogado na primeira divisão. Pisava a bola com frequência. Já não pode jogar futebol. Foi o melhor jogador que tinha visto. porque diverti-me imenso". internacional argentino recorda-o assim: "Era uma agonia e um prazer jogar contra ele. ou porque adormecia ou porque simplesmente ia pescar". A única coisa com que perdia a cabeça era com as mulheres" Então talvez. Os preparadores físicos na altura tinham muito protagonismo na equipa técnica". Agonia porque com aquele estilo era impossível marca-lo. não gostava de sair nem de beber. rosarino. mas ele desmente "Sempre fui solitário. mas preferiu a tranquilidade". uma atitude provocadora no mundo do futebol. Contudo no primeiro jogo que fez marcou 3 golos e as crónicas da época recordam uma exibição maravilhosa. Ganhou uma legião de fãs.

Ia a caminho do balneário e as pessoas começaram a protestar bastante. O jogo da vida do Trinche 1973 foi memorável. O próprio recorda com humor que mais que uma vez tiveram que mudar o regulamento por sua causa "Uma vez expulsaram-me. para jogar numa liga superior. guarda-redes da selecção argentina recorda "Deram-nos um baile! Como jogou esse rapaz! Carlovich era um mágico" Poy. No entanto. á primeira vista lento mas com uma rapidez de processos incrível. mas acho que era mais elegante" reitera Pekerman. Em 1976 foi jogar para o Independiente de Ribadavia. o arbitro veio atrás de mim e disse para que ficasse em jogo". um controlo de bola de outro mundo. mas guardava bem a bola como Riquelme" acrescenta Menotti.Nessa equipa jogavam Mario Kempes e Mario Zanabria. "Não era explosivo. Tomou banho e . Assim que fez com que o expulsassem na 1ª parte. acabou por sair aos 15 minutos da segunda parte e a equipa de Rosário tirou o "pé do acelerador" e o jogo acabou com um 3-1. todos afirmam que não gostam de o comparar com um jogador apenas. mas se jogasse o jogo todo perdia o autocarro. Um colega recorda que um dia jogavam em San Martin e Carlovich queria ir a Rosário á tarde. Recordam-no como um jogador alto.quem o viu. 5 jogadores do Central Rosario e um jogador da segunda divisão: Carlovich. Na primeira parte os rosarinos humilharam a selecção nacional comandada por Vladislao Cap. Fillol. 5 jogadores do Newell's. "Uma vez o presidente do clube rival fez questão que eu jogasse porque com a minha presença o estádio enchia" acrescenta com humildade. internacional argentino afirma que se a selecção de Rosário tivesse ido jogar o Mundial tinham feito melhor figura que a Argentina. Subiu de divisão com o Central Córdoba e o ano seguinte foi protagonista de um jogo que inflacionou ainda mais o mito. Começaram por lhe dar a alcunha de cigano que rapidamente mudaram para "Rei". porque tinha características de um ou outro e isso era o que o fazia grande. houve uma entrada feia e o árbitro mostrou-me o cartão vermelho. Os adeptos do estádio de Newell's estavam atónitos com o inesperado 3-0 e com a exibição fenomenal desse desconhecido número 5. o artista convidado. Rezam as crónicas que ao intervalo o seleccionador argentino pediu que tirassem Carlovich do campo. "Muitos comparam-no com Redondo. A Argentina iria jogar o Mundial de 74 na Alemanha e dias antes de embarcar para a Europa marcou um jogo contra um combinado da cidade de Rosário.

Era impressionante vê-lo acariciar a bola. Diego respondeu "O melhor jogador vive em Rosário e é um tal de Carlovich" No entanto o mito continua vivo e como não há nenhum video das suas jogadas vai crescendo cada vez mais. na altura comandava a selecção argentina e como admirador do estilo do "El Trinche" pensou em convoca-lo para o Mundial 78. um jornalista confessou o orgulho da cidade em receber o melhor jogador de todos os tempos. Nunca me tinha lesionado. A oportunidade para jogar ao mais alto nível acabou por chegar. Tampouco teve alguém que o apoiasse psicologicamente porque estava destinado a ser um dos melhores jogadores da história. A técnica que tinha transformou-o num jogador diferente. Acabou a carreira aos 37 anos." Depois do Futebol "Não me chamaram mais" Aceita assim o destino sem fazer perguntas. No fundo só gostava de se divertir e não queria compromissos. jogava na 1ª Divisão. Uma tragédia. mas no 3º jogo que fiz rompi o adutor direito." O próprio põe alguma água na fervura a seu respeito "Aqui gostam de inventar muitas histórias sobre mim. Colon de Santa Fe a 170km da sua casa. Contudo as ofertas acabaram por não se concretizar e Carlovich deixou o futebol. quando Maradona treinou o Newell's. Um mito 100% argentino e rosarino. não tinham confiado em mim. daqueles que quando nascem só tem um brinquedo: a bola. Em 93. Pedia aos médicos para que confirmassem que não estava a mentir e quando viram a minha perna ficaram mudos. . Menotti no entanto descreve-o assim: "Carlovich sempre foi um miúdo de bairro. mas não foi para tanto". Trabalhou na construção civil com o irmão e continua ligado afectivamente ao Central Cordoba que o ajudou na operação á anca. Fiz alguma cueca de ida e volta. fintar… Mas nunca encontrou reservas físicas para todas as características que tinha. tocar. não sem antes ter o interesse do New York Cosmos e do Milan. mas tive azar. "No Colon estava numa grande equipa. Menotti. Peguei nas minhas coisas e voltei para Rosario. O treinador pensava que me tinha lesionado de propósito e que tinha um problema mental.saiu a correr… Não levava nada a sério. Mas não são verdade.

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