ZERO DRAFT

Comentário

Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza Comentários ao Draft Zero Rio+20

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Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza Comentários ao Draft Zero Rio+20
Uma apreciação global:
Vinte anos após a primeira Cimeira da Terra – Rio 92, Governos, instituições internacionais, ONG e sociedade civil de todo o mundo irão participar na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (CNUDS ou "Rio+20"). O foco central da conferência é a transição para uma economia verde global no contexto da erradicação da pobreza e de uma governança para o desenvolvimento sustentável. Como referido pelo Secretário-Geral da Rio+20 Mr. Sha Zukang os resultados desta conferência devem reflectir-se em compromissos políticos, em parcerias e na ação direta no terreno.

Fevereiro 2012

Da cimeira do Rio+20, espera-se que constitua o início de um acelerado e profundo processo de transição mundial em direção a uma economia verde uma economia que gera crescimento, gera emprego e erradica pobreza por investir e preservar o capital natural sobre o qual assenta nossa a sobrevivência a longo prazo. (...) Espera-se que o conceito de economia verde possa ser melhor delineado, com implicações práticas. Espera-se que possa ser eficaz, ao atentar para as particularidades das regiões e de povos diferentes. Espera-se que possa atender às necessidades dos mais pobres e reduzir as vulnerabilidades dos mais desprotegidos dos efeitos das mudanças climáticas” . Para Zapata , o conceito de economia verde, “(...) além de vago, é substancialmente otimista. Acredita-se que a adoção de tecnologias ecoeficientes em sectores-chave, com mecanismos de mercado, seriam suficientes para conduzir à sustentabilidade. Existe, contudo, um grande debate sobre quais deveriam ser consideradas tecnologias verdes e que indicadores deveriam ser usados. (...) Além disso, o debate não prega um processo de mudança profunda na produção e no consumo, baseado em inovações radicais. Ainda que limitado e vago, o termo Desenvolvimento Sustentável e seu significado explícito (atendimento às necessidades do presente sem prejudicar o atendimento às necessidades das futuras gerações) foram consagrados por todos os países do mundo em 1992. Há que se levar em conta que qualquer linguagem diplomática consensual, ainda mais quando acordada globalmente, é necessariamente vaga.”

Depois do desaire de Copenhaga, e de 20 anos de tortuosas negociações climáticas o Rio+20 tornou-se o foco de convergência de um ambicionado ponto de viragem para “reinventar o mundo” e renovar a esperança. O Rio+20 confronta-se com o duplo desafio de desconstruir a fatalidade da “Tragédia Comum” e viabilizar um projeto coletivo de recuperação da biocapacidade do planeta. Uma mudança desta importância não vai acontecer facilmente. O maior obstáculo com que nos defrontamos, não tem origem nas dificuldades de obter soluções tecnológicas, mas sim na “impossibilidade politica” de uma necessária mudança na organização das estruturas das relações internacionais, capaz de pôr em prática a recuperação da biocapacidade do planeta. O “Zero Draft” encontra-se entre o carácter vago e proclamatório do termo “Desenvolvimento Sustentável” e a necessidade urgente de operacionalizar essa economia “verde”, mas para a qual não nos parece constituir ainda uma solução. Ao não referir a necessidade de intervenção nas condições estruturais necessárias para alterar o paradigma, e perpetuar o caminho “proclamatório” sobejamente realizado, este documento arrisca-se a tornar-se irrelevante, falhando a possibilidade de poder vir a constituir-se como um marco importante dessa ambicionada transição para uma economia verde. Apesar de já existir um conceito formal, os instrumentos operacionais para construir esta “nova economia” ainda estão por formular. Embora possa ser considerada uma aproximação ao mundo real, quando comparado com o anterior e conceito proclamatório de desenvolvimento sustentável, certo é que ainda estamos numa fase de procurar os alicerces para esta nova construção humana. E mesmo num documento que necessariamente terá de ser programático, não existe uma estruturação de objectivos claros que estejam associados a uma indicação de formas de os prosseguir. Se o problema do documento nos parece ser estrutural, é sobre essas questões que centraremos a nossa análise:

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Construir uma economia verde não é apenas reduzir a poluição, desenvolver tecnologias verdes, melhorar a ecoeficiência e tentar organizar a “fruição coletiva” através de uma “função de troca e alienação” de direitos de poluição, com todos os efeitos perversos daí decorrentes. Construir uma economia verde é também manter e recuperar o capital natural, introduzindo nas contas das relações internacionais e nos PIB’s os contributos positivos de cada interveniente no sistema global e desta forma permitir que existam estímulos à recuperação a biocapacidade do planeta para sustentar uma vida humana.

Num documento que devia servir para lançar as bases da organização de uma economia verde, refere-se apenas de forma desenquadrada ao objectivo da “Accountability”, no ponto IV a). A criação de um sistema de contabilidade global de contributos negativos e positivos para a manutenção dos sistemas naturais, organizando a oferta e procura de serviços ecológicos e criando um sistema de compensação pelos benefícios prestados a toda a Humanidade, devia ser um objectivo central para os próximos 20 anos.

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Refere-se a necessidade de manter e recuperar o Capital Natural (ponto 74), sem no entanto a “Accountability”, ter associado um sistema de PSA, (pagamento de serviços ambientais) ou de compensação, como o estimulo positivo para incentivar esta manutenção e incremento na disponibilização de serviços ecológicos.

A compensação pelos benefícios é referida de forma parcial, relativamente aos povos da montanha, não constituindo um dos grandes objectivos do documento como instrumento essencial da mudança e de realização das boas intenções proclamatórias de todo o documento.

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Por outro lado, a concretização deste incentivo à disponibilização de bens públicos só é possível com um sistema fiscal que assegure uma redistribuição de rendimentos, baseada nas contribuições positivas e negativas de cada um, para com o interesse comum. Esta reforma fiscal ambiental já iniciada em países como o Reino Unido, Holanda, Dinamarca.

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No documento não existe nenhuma referência relativa à necessidade de uma reforma fiscal ambiental, baseada no principio da neutralidade fiscal, que consiste em mudar o peso que os impostos têm no fator trabalho, rendimento e investimento, para passarem a incidir sobre a poluição, a utilização dos recursos naturais e os resíduos.

Sem a clarificação de objectivos estruturais como seja o da necessidade de uma contabilidade de contributos, da criação de um sistema de compensação que permita inverter o paradigma de exploração de recursos ambientais, para um novo de disponibilização de serviços ecológicos que beneficiam toda a humanidade (também denominados de bens públicos), não nos parece ser possível encontrar uma base estrutural para se poderem atingir a listagem dos “we commit” elencados em todo o documento.

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No documento não existe igualmente nenhuma referência ao papel da Educação Ambiental na construção de sociedades sustentáveis e valorizando a ação das organizações da sociedade civil no seu contributo para o desenvolvimento de projetos, ações e investigação no campo da Educação Ambiental.

A direcção Nacional da Quercus

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