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O texto que segue foi objeto de um seminário que apresentei.

Refere-se ao Mestrado em Filosofia na Universidade São Judas Tadeu, São Paulo - SP. Cumpri os créditos, mas não apresentei a dissertação. É o que me falta para concluir o Mestrado. O texto pode ser usado livremente, mas a fonte deve ser citada. (Postagem original em 14/01/2008).

Estabilidade em Aristóteles e Maquiavel
Introdução Um estudo filosófico, a partir do pensamento aristotélico, nos mostra que a antiga compreensão da política trazia as questões sobre a natureza da vida virtuosa para o centro das investigações políticas. Deste modo, pensava-se que as instituições políticas deveriam existir para tornar possível esse modo de vida. Por pensar dessa maneira é natural supor que Aristóteles não fugiu desse ideário. As suas teorias das formas de governo denotaram tal propósito. Certamente que uma vez estabelecida a forma ideal, seria necessário mantê-la, torná-la durável. A essa longevidade chamaremos, nesse estudo, de estabilidade. Como a estabilidade não foi meta apenas nas teorias de governo de Aristóteles, é conveniente eleger mais um teórico e fazer um comparativo bem objetivo entre eles. Maquiavel se mostra o contraponto ideal, mesmo sendo de um período distante daquele vivido pelo eminente pensador grego. Ambos destacaram a importância da estabilidade, pois sabiam que a durabilidade de um governo era a prova indiscutível de sua qualidade. O governo estável era um governo bom. Demonstrar qual o propósito final de um governo estável, no pensamento de Aristóteles e no de Maquiavel, é o principal intento desse trabalho. 1. A ESTABILIDADE E A SUA IMPORTÂNCIA 1.1. A estabilidade A conceituação de estabilidade, em qualquer segmento humano é facilmente compreendida. Não é objeto do presente estudo o mero entendimento da palavra, nem mesmo o seu pleno sentido, quando aplicado apenas ao cenário político do século presente. É mister entender a sua importância à luz dos propósitos sociais, a partir da Grécia antiga e fazer uma confrontação, com o pensamento moderno. Tal entendimento tem como escopo a estabilidade vista e estudada por Aristóteles e por Maquiavel e o seu objeto final. Como se haverá de ver, a estabilidade sempre foi o alvo de qualquer agrupamento humano. Por menor que fosse o grupo social, grupo familiar, vilarejo, ela se fez necessidade permanente, para a manutenção do “status”, que se intentava implementar. Em que pese às maneiras expostas por Aristóteles e por Maquiavel, o que se terá em mente, ao longo do presente estudo, são os propósitos finais almejados, quando a busca pela estabilidade política foi acentuada e mirada, não apenas por eles, mas por todos os teóricos das formas de governo, ao longo dos séculos. Independentemente da época em que a estabilidade foi perseguida, como a maneira extremamente óbvia, de preservação de um cenário político ou de uma estrutura social, a questão que se insurge não se prende apenas à forma como tal quadro foi buscado. Não é uma simples questão de se analisar o método, a forma como a estabilidade foi estabelecida e mantida pelos ditos bons governos, mas é fundamental entender o propósito que cada filósofo ou historiador demonstrou, para que ela fosse o escopo dentro de uma sociedade antiga e moderna.

Tendo em mente a importância da estabilidade em qualquer forma de governo. Deste confronto de idéias é possível notar como um propósito político pode mudar. Também não existe a pretensão de elencar as avaliações que foram feitas por filósofos. ou seja. mas a sua preservação. Tendo em vista. Conclui-se que a ética é a doutrinação moral de forma individualizada. ao passo que a política tem como escopo a doutrina moral da sociedade. Não se cogitava uma forma de governo. Não apenas implementá-la no contexto social. neste contexto. assim concluir. Essa satisfação. mais permanente será a forma de governo existente. das formas de governo. É importante tirar conclusão. A história mostrou a postura filosófica e política das teorias de forma de governo e mesmo em se optando pelo governo de um. A política aristotélica Precisamos notar. a partir de Aristóteles. a mensuração da qualidade. 2 – O PENSAMENTO ARISTOTÉLICO 2. tendo Maquiavel como contraponto é bem clara: em Aristóteles temos uma forma clássica e lapidar e em Maquiavel a possibilidade de se fazer uma projeção para o mundo moderno. Isto é notório! Mas o intuito final. porquanto a coletividade é superior ao indivíduo. todavia. O que está em voga. políticos e historiadores. É também fundamento importantíssimo da suprema atividade contemplativa. quando expuseram seus pontos de vista criticando as formas analisadas O que se destaca. é distinta da moral. pois esta tem como objeto o indivíduo e a política se concentra na coletividade. o bem comum só pode ser propiciada pelo estado. Há que se entender que o estado é um organismo moral que propicia a condição e também o complemento da atividade moral de cada pessoa. de poucos ou de muitos.1. passa-se ao ponto em tela que é o direcionamento do presente estudo: a estabilidade política e seu escopo final. é superior ao indivíduo. era efetuada em função de sua durabilidade e efetividade. neste início. sem que se vislumbrasse a estabilidade como garantia de gestão duradoura. apresentaram ao longo do tempo as mais variadas teorias de formas de governo Não é de interesse. portanto.Afinal o que é a estabilidade política. no pensamento de Aristóteles e no pensamento de Maquiavel. num cenário interno. pois fica claro que o bem comum é mais importante que o bem particular. A importância da confrontação do pensar de Aristóteles. 1. nesse trabalho. ou seja. de forma plena. não é a percepção da importância da estabilidade dentro de um governo. Natural. de forma objetiva. a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para que assim ocorra. ao buscá-la de forma objetiva. que se pretende. é que não importando a forma tida como a mais apropriada. que sendo um ser social e. baseada no exarado supra e daí entender que o estado. que a política aristotélica é essencialmente unida à moral. ao longo do tempo e conforme as circunstâncias. à guisa de introdução. político depende da sociedade organizada para realizar a perfeição. a estabilidade sempre foi o objetivo visado. de uma forma de governo. que um estado se compõe de uma comunidade de famílias e essas são compostas de uma quantidade de indivíduos. porque o fim último do estado é a virtude. de acordo com Aristóteles. Tal estado busca satisfazer. senão a possibilidade de se governar sem divergências entre cidadãos e entre esses e os governantes? É certo que quanto mais duradoura for a estabilidade política. relacionar as múltiplas formas de governo. A política. invoca-se um estudo sobre a . sem dissensões. no momento. as necessidades do homem. A sua importância em qualquer forma de governo Os teóricos.2.

a melhor forma para a duradoura estabilidade num regime de poder político. passemos a estudar as teorias de forma de governo apresentadas e os meios possíveis para assegurar a estabilidade social. conservação e engrandecimento de outra forma irrealizáveis. De qualquer maneira a condição indispensável para uma boa constituição. para manutenção de uma forma de governo. 2. dissertando a respeito da família. posto que ele surge pelo fato de ser o homem essencialmente social. tecendo comentários a respeito dos meios para assegurar a estabilidade das democracias é bem objetivo e não deixa dúvidas quanto à função do legislador que edifica um regime democrático. Não se discute. encarregado da direção da pequena célula. é insuficiente para concluir ser a estabilidade o objetivo único almejado. Mas o seu fim. que são importantes para o bom andamento das atividades familiares. O que se percebe é que. ao regime democrático. defesa e segurança. Aristóteles distingue três formas de governo. sob a ótica aristotélica e a partir daí entender o estado e mais adiante compreender de forma definitiva a importância da estabilidade. a mulher. os escravos. é promover a virtude e por conseqüência a felicidade de todos. envolvidos nessa esfera. Uma análise do pensamento aristotélico. textualmente: “A principal função do legislador e dos que pretendem edificar um regime democrático. aqui. Tendo em mente essa concepção aristotélica. de forma clara e objetiva. na opinião do eminente filósofo. O estado provê. a estabilidade. em “A Política”. que esta observação supra. neste exato momento. É importante vislumbrar a concepção de família. e sim concreta. expõe que essa é formada de quatro elementos: os filhos.2. Ele assim o faz. quando ele propõe teorias a respeito das formas de governo. Quando parte para a forma exteriorizada de ver o estado. Como o . conforto e segurança. a satisfação daquelas necessidades materiais. [1] Não queremos nos deter. a forma de governo. Mesmo sabendo que as preferências aristotélicas são voltadas para uma forma de república democrático-intelectual anotamos que Aristóteles. É fundamental analisar. é alcançada pela busca e preservação da estabilidade. Naturalmente que assim o estado tomou forma. mas ao destaque que Aristóteles dá à preservação de um governo. ou seja. claro desde o princípio. negativas e positivas. Precisamos ampliar o pensamento de Aristóteles e ao final detectar qual seja.família. incluindo. por natureza. mostrará que a busca pela preservação de um regime de governo estabelecido será uma constante. a monarquia a aristocracia e a democracia. Teorias de formas de governo Aristóteles. Não ficava fora dessa conceituação o chefe da família. as três formas de governo vistas por Aristóteles. os desvios ou corrupções. por ele apontados. dentro de seu profundo realismo. não se reduz apenas em estabelecê-lo mas também em preservá-lo”. inicialmente. é que o fim da atividade estatal deve ser o bem comum e frise-se: não é a vantagem a auferir por quem governa de forma egocêntrica ou egoística. Aristóteles. os bens. que cronologicamente antecede a figura do estado. naturalmente. reconhece que a melhor forma de governo não é abstrata. propiciando ordem. sem dúvida. Não podemos olvidar. o homem se agrega e desenvolve critérios organizacionais. mas a necessidade de um modo para a manutenção da ordem política e tal ordem.

que pareceria próprio chamar de “timocracia”. seria exercido por uma só pessoa soberana que deveria conduzir o seu governo rumo ao bem estar social. para a importância da estabilidade dentro de um contexto político social. A aristocracia procurando satisfazer os interesses apenas dos ricos e a democracia mirando apenas o bem estar dos pobres. um exercício explícito de preferência por uma forma ou por outra. pela maioria. declina o seguinte texto: “Três são as formas de governo e três são os desvios e corrupções dessas formas. Como dissemos. portanto: a tirania. As formas são: o reino. Ele assegura que existem três formas. O propósito é apontar qual a forma. aquela que se baseia sobre a vontade popular. a oligarquia e a democracia. O ilustre filósofo explana de forma direta o seu modo de entender. Para Aristóteles o governo monárquico deveria ser aquele que se propusesse a fazer o bem público. em favor de um só. que também envidariam esforços em prol do bem público. no que tange às formas de governo. Sendo as formas boas assim descritas. neste momento. que não estamos desenvolvendo um estudo que busque definir a preferência de Aristóteles. É fito buscar a forma que seja mais propícia à estabilidade e a partir daí o seu fim. ou seja: a tirania como reino monárquico.” [3] No mesmo contexto ele aponta os desvios de cada uma das formas: a tirania. sucintamente. de que trata o eminente pensador. governo de poucos e bons. neste momento. De igual forma o governo aristocrata. as suas derivações. ao final. os melhores. a terceira. É importante entender que a timocracia é uma variante do governo de ricos e de pobres. individual ou mista. que contribua de forma mais efetiva. Há que se ressaltar. no pensamento do filósofo antigo. As formas de governo e suas derivações Aristóteles discorre em sua obra “A Política”. o monarca. mas que a maioria chama apenas de “politia”. a respeito de cada uma delas. De forma similar a timocracia seria o exercício do poder. concebidas na teoria aristotélica e dissertaremos. A aristocracia. e outras tantas. Tendo em mente esse objetivo. São elas: o reino. O que buscaremos. no sentido do bem estar. a oligarquia como degeneração da aristocracia e por fim aponta a democracia como desvio da timocracia. a aristocracia e. que seria exercido por poucos. a respeito das formas e suas respectivas degenerações. são três formas de governo e outras três. obviamente se conclui que os desvios se prenderiam aos interesses particulares ou de grupos específicos. que se empenhariam de forma organizada na condução da sociedade em direção ao bem comum. quanto a uma forma de governo ou outra. O que se quer salientar é a essência do pensamento do filósofo quanto ao objetivo de um bom governo. a aristocracia e a timocracia.3. ditas como boas. ou seja. torna-se oportuno estudar as formas de governo e as suas derivações. No seu entendimento o reino. Não fica difícil entender os desvios. Suas derivações negativas. para a estabilidade. tidas como degeneradas. quanto a um método. [2] 2. como degeneração do reino. Não há. para a manutenção da estabilidade política. vejamos como Aristóteles propôs sua teoria: Na sua obra A Ética a Nicômaco. posto que as . Não se busca a detecção de simpatia. mas o propósito em se querer assegurar à sociedade o bem estar decorrente de um equilíbrio.propósito que aqui temos é vislumbrar a forma ideal de governo. é destacar o agente motivador principal. Trata-se de um alvo comum em todas as formas de governo: o bem público. em benefício do bem público.

Entendendo o critério de Aristóteles. quer sejam muitos ou poucos. Aristóteles. A forma propícia à estabilidade política Após análise sucinta de cada uma das formas. decorrente de uma análise objetiva. poderemos de certa forma. o enveredar por esse caminho explicativo. E os pobres? Os que tenderiam à democracia. ao passo que os pobres são numerosos. muito realista. Quem são os ricos? Aqueles que formariam uma oligarquia. O que se busca. a tirania. se propôs demonstrar como se daria tal fusão. Quando o poder é exercido em função da riqueza. podemos agora apontar a forma. é que ele não aponta uma forma ideal para que se obtenha o bem comum e com ela uma estabilidade permanente. [4] Aristóteles. boas e más. Como dissemos anteriormente. no pensamento de Aristóteles é o reino e que a pior é justamente o seu desvio. em sua obra. O que se pode concluir: esses são os elementos propulsores para que. mostrar o pensamento de Aristóteles naquele instante histórico. Daí se pode concluir que a forma ideal. de forma permanente e sincera. e essa será pela fusão entre duas formas. Não é questão de se visar à legalidade ou questionar a ilegalidade. que quando vier a se pronunciar a respeito da melhor forma de governo. Seu escopo é apontar a forma ideal para que se obtenha a estabilidade. ao teorizar e observar.4. que no entendimento de Aristóteles. Convém analisar um outro ponto. sobretudo. não se faz um exercício de preferência. mas de puro realismo. aristocracia. propiciaria a paz social. a forma que se apresenta é a oligarquia. que é de todos. dentro de um contexto histórico-social. desse rápido estudo. Também fica patente que entre as formas boas. Esse é o principal critério utilizado para mensurar qual seria a melhor forma de governo. democracia. pobres e ricos. Na sua obra A Política ele deixa claro que a grande e verdadeira diferença entre a democracia e a oligarquia é a pobreza de um lado e a riqueza do outro. [5] . a timocracia é a que menos lhe agrada. O que se poderá notar. reclamem o poder. Assim temos as formas de governo. provocariam tensões. propicia a estabilidade. nem que se possa prevalecer pela força. ao pensar na importância da estabilidade. Dentro deste perfil de realismo Aristóteles foi claro ao demonstrar a grande causa provocadora de tensões entre os povos: a eterna luta entre os que não possuem contra os que são possuidores. É importante notar. Ele mesmo pondera: “Na maioria das cidades se proclama em altos brados a “politia” procurando-se realizar a única união possível dos ricos com os pobres. o mesmo não se pode dizer da liberdade. A conjugação desses dois formatos. fundamental nessa linha de raciocínio: ao criar uma seqüência hierárquica das formas de governo. 2. Não é escopo. da riqueza e da pobreza”. as degenerações fogem radicalmente desse objetivo. por ele muito conhecido. Se as formas boas visam a um bem comum. São duas formas. é o interesse comum a todos. É a definição de uma imagem. concluímos que para ele não basta que exista um consenso entre as pessoas e classes. em ordem: reino. isto é. não se aterá ao que considera melhor ou pior. Na realidade. no pensamento de Aristóteles. timocracia. mas. os ricos. oligarquia e tirania. A democracia surge quando os pobres estão no exercício do poder.degenerações certamente se afastam do fim de um bom governo. que se isoladas. ao longo da análise do pensamento aristotélico. no pensamento de Aristóteles e mais: aquele desvio que seria considerado como mais pernicioso. concluirá pela conjugação de duas formas. Não é um exercício de preferência ou simpatia. ao passo que entre as formas degeneradas a democracia lhe parece o mal menor. mas um exercício de puro realismo. Sendo a riqueza de poucos. O que se observa sempre é que os ricos são apenas alguns. É o ajustamento social que permita aos cidadãos o pleno desenvolvimento. notar qual seria a forma ideal.

e sabendo que a implementação de um governo é efetuada para buscar esse bem.O professor Norberto Bobbio na sua obra “As Teorias das Formas de Governo”. Não basta analisar. E finaliza de forma objetiva. cada forma. na página 61. viveu num contexto diferente. para que se chegue a um ponto ideal à estabilidade. pois. está claro que. pois fica patente que considerar a monarquia como a forma ideal de governo não é suficiente. O PENSAMENTO DE MAQUIAVEL 3. o misto. onde a classe média é numerosa raramente ocorrem conspirações e revoltas entre os cidadãos”. Os dois textos citados apontam claramente a forma ideal para que se tenha a estabilidade. Não esteve preocupado em arquitetar ou sugerir governos justos. em sua obra “A Política”. depois que este está estabilizado? Em Aristóteles enxergamos claramente que é o bem comum. na concepção aristotélica. A obtenção do poder Nicolau Maquiavel. Fica claro que a fusão de duas formas constituiu o modelo propício. Sendo objetivo precípuo o bem comum. o labutar pela manutenção da riqueza pelos proprietários e o labor dos pobres em conflitar com os que são ricos. 3. através da implementação de um governo que tenha condições de cumprir esse mister. Para que se chegue a este objetivo deve-se cultivar a estabilidade. Postou-se como observador atento da história e a partir daí pode apurar os motivos para ascendência e queda de governos. O critério eficaz para se avaliar um bom governo. os muito pobres e os que ocupam uma posição intermediária. A busca pelo pleno desenvolvimento das potencialidades individuais. explica. Como admitimos que a medida e a mediania são a melhor coisa. tema central na avaliação de um bom governo. que esse confronto é incompatível com a estabilidade. significa conservar o método eleitoral e excluir o requisito de renda”. mesmo que as duas formas eleitas para a junção sejam degenerações daquelas consideradas boas. Como ficou demonstrado. a respeito de Aristóteles é o que se pretende como meta final de um governo. não é suficiente para acatar ou rejeitar uma forma de governo. poderia geral tal fim. sem dúvida é a sua durabilidade. numa comparação com Aristóteles. como Aristóteles faz a fusão de dois regimes. Destacamos aqui o teor dessa fusão. Alcançada a estabilidade. o que se pergunta.1. criando um terceiro que é uma forma mista: “Recolhendo-se o melhor dos dois sistemas legislativos: enquanto na oligarquia os cargos públicos são preenchidos mediante eleição. já que é a mais distante do perigo das revoluções. Extremamente realista observa as coisas como elas são. Admitir que a oligarquia seja um desvio da aristocracia e que a democracia é degeneração da politia. notório é o fato de que somente a fusão dessas duas formas. Cumpre verificar se o mesmo ocorre. em matéria de riqueza. Recolher o melhor dos dois sistemas. observando pela ótica de Maquiavel. isoladamente. no pensamento de Aristóteles. Concluímos. em todas as circunstâncias. Aristóteles deixa bem claro essa opção racional. o meio-termo é a melhor das condições. isto é: um bom governo é aquele que mantém distante as tensões sociais. são fatores de tensão. ou seja. que é a busca pela paz social. promovendo conflito social. mas põese a imaginar como alguns governantes poderiam se comportar. na democracia esses cargos são distribuídos por sorteio entre todos os cidadãos. na mesma obra e página: “Está claro que a forma intermediária é a melhor. mas só pelos que possuem uma certa renda. porque nela é mais fácil obedecer à razão”. neste caso. A partir desse panorama faz projeções . A essa conclusão chegou Aristóteles. a estabilidade. 1295-b: “Em todas as cidades há três grupos: os muito ricos.

que o pensamento de Maquiavel diverge do de Aristóteles quanto à proposta de exercer o poder no estado. Mais que isso. Esse fim somente será obtido com a estabilidade. Maquiavel se prende ao estabelecimento do poder e a implementação do que considera ordem social. de perniciosa influência a partir dali e estendendo-se até os dias atuais. Sendo realista e num contexto próprio. Enquanto é possível enxergar um pensamento Aristotélico revestido de uma ética até hoje tida como boa. Nessa busca ele não faz uma negativa da ética. A ética de Maquiavel reconhece o fato elementar de que a experiência humana comporta um conflito de valores. Após o estabelecimento de um governo e com a sua estabilização.para obtenção do objetivo supremo. que é a perpetuação no poder. inclusive. passa-se ao propósito específico: o alvo que se busca. de Maquiavel. Até porque não seria possível. do qual Maquiavel projetava o seu visionário. Dentro dessa concepção negativa quanto à natureza humana. Mas este princípio moral não pode ser princípio do governar político. depois. Por perpetuar entendemos.2. Estabilidade e poder político Antes de dissertar acerca do poder político e a busca pela estabilidade em Maquiavel. como fim em si mesmo. Certamente precisamos ter esse conceito em mente. Nesse caso não se pretende comparar o homem Maquiavel com o homem Aristóteles. finalmente. numa reminiscência ao platonismo. Percebemos. Aliás. enumera critérios para obtenção do poder político. então. Nosso fito é estudar a busca e implementação da estabilidade. que infligir o mal é pior que sofrê-lo. tendo em mãos um governo estável e logicamente com perspectivas duradouras. Não há preocupação em se expor uma melhor forma de governo. Maquiavel propunha a construção de um estado partindo do terreno realista da experiência e prescindindo de qualquer valor espiritual. Trata-se de como o seu exercício beneficiará em primeiro plano: à camada social ou se ao estado. Enquanto Aristóteles imaginava um estado agindo em função do bem comum. que sempre interessou a todos os teóricos das diversas formas de governo. É a construção de uma ciência política assentada sobre um utilitarismo rigoroso. acredita que seja necessário organizar naturalisticamente e subordinar mecanicamente um complexo de paixões e egoísmo a um egoísmo maior: o do príncipe e conseqüentemente do estado. a questão da ética se torna evidente. Não se intenta manter um governo. . Mas a ética na política passa a ocupar um espaço vital. costumes e lugares diferentes. ético e religioso. para entender Maquiavel e fugir de comparações pessoais. por longo tempo. A moral grega poderá afirmar. de forma estável. A estabilidade tem um propósito definido em seus conceitos. não desdenha dela. São de épocas. a começar pela existência pessoal. poderia se afirmar que a ausência de ética passa a se fazer presente. pois impossibilitaria a realização de outros valores. a existência da comunidade e os valores da civilização concretizados na história. a maneira de exposição realista. o seu objetivo final. 3. é vista como deletéria à moralidade política. que é a busca pela estabilidade política e. Comparar os métodos aristotélico e maquiavélico visa mostrar a chegada a um fim. a manutenção do “status”. Importante notar que além de um contexto social diferente. Avizinha-se um quadro comparável ao que estudamos em Aristóteles. precisaremos repisar alguns pontos atinentes à sua obra e a questão da ética. Maquiavel entende que o homem tem a natureza naturalmente voltada para a maldade e egoísmo. em todas as épocas. de forma instável.

conforme reproduzimos esse texto extraído de sua obra “O Príncipe”. a felicidade do estado depende da felicidade dos cidadãos individualmente. Um príncipe de nossos tempos. Nas ações de todos os homens. O fim do estado é desenvolver os bens da alma. cujo nome não convém mencionar. os meios serão sempre julgados honrosos e louvados por todos. A forma. integridade. O propósito em Aristóteles O estado constituído. importa o fim. a virtude. libertar um povo e ganhar a honra mundana. necessita ser estável e possuindo a estabilidade será duradouro. palavras que não estejam imbuídas das cinco qualidades acima mencionadas. do que com as mãos. O estado. precisa desenvolver as . a justiça e o bom senso devem estar presentes no estado e conseqüentemente no indivíduo. aconselha cautela no procedimento do governante. se tivesse observado uma e outra. então. Na concepção aristotélica o estado tem um papel a cumprir e somente será eficiente neste propósito se for estável. mas poucos podem sentir. páginas 114 e 115: “Deve. de injustiça residual. jamais. O propósito aristotélico é bem claro: o homem é um ser racional e social. OS PROPÓSITOS DA ESTABILIDADE 4. Neste ponto está o exercício do poder político e a implementação de um estado estável. ter o maior cuidado e não deixar escapar da boca. Inclusive ele chama a atenção para o fato de que essa violência se tornaria impopular. portanto estável. Assim sendo. é mais importante que o indivíduo e isso deve ser compreendido não como uma valoração do estado em si mesmo. contém a característica elementar do bom governo. porque o vulgo sempre se deixa levar e pelo resultado das coisas. Aristóteles. Eis porque Aristóteles expôs suas teorias de governo e ao final apontou uma forma mista como aquela que poderia garantir a paz social. julgam mais com os olhos. a quem o contempla e o ouve. Estado duradouro e. A coletividade é mais importante que o indivíduo. que defendem a majestade do estado. Ele. Para que tal fenômeno positivo ocorra é necessário tornar a pessoa virtuosa mediante uma educação adequada. Está consciente de que toda a ordem política comporta uma parte acidental e arbitrária de crueldade e violência. fé. em geral. Os homens. principalmente na dos príncipes. onde não existe tribunal ao qual recorrer. É a capacidade de proporcionar aos cidadãos o pleno desenvolvimento de todas as suas potencialidades Aristóteles entende que o valor. na utilização do estado estabilizado. somente prega a paz e a fé. Maquiavel diria apenas que a força permite instaurar a ordem. humanidade e religião. que é todo piedade. porque todos podem ver. para Aristóteles. observado por esse centro de visão. A diferença entre um e outro reside. Para ele a justiça é o direito do mais forte e o direito da força vale mais que a força do direito. mas deve dar a impressão. Todos vêem o que pareces. e no mundo só existe o vulgo e a minoria não tem lugar quando a maioria tem onde se apoiar. O estado existe em função da coletividade. todavia. ou seja. pois. teria muitas vezes perdido a reputação e o poder”. mas tem como escopo algo similar: a governabilidade. Trate. o príncipe de vender e conservar o poder.Importante destacar que Maquiavel jamais pretende que as suas recomendações tenham valor moral. mas nunca diria que estes valores são a justiça e a moralidade. certamente. que é justamente a sua longevidade. de forma criteriosa e ética. O poder estatal estaria voltado para qual propósito final? 4. mas é inimigo de uma e de outra e. poucos percebem o que és e esses poucos ousam opor-se à opinião de muitos.1. diverge daquela do ilustre pensador grego. Nada é mais relevante do que aparentar esta última qualidade. no estudo em tela. o príncipe.

A felicidade e a virtude. É um erro analisar de forma tão simplória. o pleno . dentro de sua concepção. O que não se vê é o interesse pelo bem comum. Conclusão A estabilidade sempre foi meta necessária. E por quê? Não há. o bem comum. antes deve ser vista como um meio. precisa ser mantida. 4. não pode ser comparada àquela vista no pensamento de Aristóteles. isto é. como fator de felicidade a ser estendido à coletividade. finalmente. derrotado por outro. Maquiavel deixa claro que o governante deve ter como meta a felicidade de seu povo. A estabilidade de um governo. O estado não é visto como agente propiciador do desenvolvimento das potencialidades do cidadão. ele elaborou uma teoria política realista e sistemática. fazê-los felizes. No pensamento Aristotélico o estado existe para promover o bem comum e pleno desenvolvimento dos cidadãos. Governo estável é um governo duradouro. O governante deve tratar bem o cidadão. similitude com o pensamento de Aristóteles. ou seja. Esse desenvolvimento somente será possível dentro de um contexto sociabilizante. um governo bom. Aristóteles e Maquiavel não fugiram desta realidade. entretanto não é um fim. Ele sempre enfatizou que o governante poderia e deveria fazer tudo. o governo estável. Um governo estável propicia ao governante a possibilidade de cumprir propósitos. nesse ponto. O estado estável deve cumprir essa função social. para Aristóteles. se tiver por meta a felicidade de seu povo. em qualquer forma de governo antigo e moderno. A ética poderia ser dispensada. Caso proceda de forma diferente. O estado poderia. que assumirá o poder. Poder tudo para Maquiavel incluía a truculência e a imoralidade. cumprir o seu propósito principal. Em Maquiavel a ênfase não é desse modo. A estabilidade alcançada.1. como forma de mantê-lo afastado da discórdia. Não sugeriu tal procedimento a um governante. em função da obtenção do poder e de sua preservação. não fazem parte da teoria maquiavélica. incluía a importância de se buscar a estabilidade. então. não promoveria balbúrdia. será. como forma de manutenção do poder. por detectar e sistematizar de forma pioneira a amoralidade peculiar à conquista e exercício do poder. inaugurou a astúcia inescrupulosa como método de governo. como forma de mensuração de um bom governo. em Maquiavel. Ambos asseveravam que a estabilidade era elemento essencial para a preservação da ordem e manutenção do poder. mantendo. assim. A constituição de um bom estado. manter a estabilidade. O pensamento maquiavélico denota que um povo feliz. como concebidos por Aristóteles. Seu pensamento é bem claro: o governante deve cuidar dos cidadãos. O poder político tinha forma em si mesmo.suas potencialidades. A felicidade dos cidadãos. através do bem estar da coletividade. ou seja. logo. Como já visto. O propósito em Maquiavel Maquiavel é considerado um gênio da ciência política e segundo muitos. Qualquer teoria de forma de governo acentua o valor da estabilidade. Maquiavel não apregoou a promoção da infelicidade. em que separava a moral dos indivíduos da razão do estado.

desenvolvimento dos cidadãos. O estado de Aristóteles visa ao bem comum de todos. Amaral. Cretella. O estado estável para Aristóteles passaria a cumprir o seu propósito principal. Gepolis: Vegas. [1] Texto extraído do livro “A Política”. O termo “timocracia” não seria utilizado. Essa longevidade ocorreria. tem valor igual. que naquele tempo muitos chamariam de “politia”. em um dos seus comentários: “Como afirmamos que é a mesma a virtude do cidadão. [5] Aristóteles em sua obra “A Política”. Pietro. [3] Texto contido em Ética a Nicômaco. conforme se pode notar. num sentido positivo e possivelmente outro termo para designar a democracia positiva. O Príncipe. Ali ele desenvolve comentários acerca dos meios para assegurar a estabilidade das democracias. É um regime em que a união dos ricos e dos pobres deveria remediar a causa mais importante de tensão em todas as sociedades – a luta dos que não possuem com os proprietários. isto é. A Teoria das Formas de Governo. 2003.”[6] Referências Bibliográficas [1] ARISTÓTELES. Gomes. Maquiavel também entendia que um bom estado era aquele que. Aqui temos o seu objetivo principal. de Aristóteles. Hoje certamente usaríamos o termo democracia. UnB. Nicolau. de Aristóteles. Caso assim não procedesse. [3] BOBBIO. pois. mas da coletividade. o legislador deverá assegurar que os cidadãos se tornem bons. 10ª Edição. quando o governante propiciasse a felicidade ao povo. Agora que sabemos em que consistem uma e outra. Ética a Nicômaco. A estabilidade. e qual é o fim da vida melhor. Na concepção de Maquiavel o bem comum deve ser mirado como forma de manutenção do poder do governante. [4] MAQUIAVEL. se tornaria duradouro. Agnes. página 61: “Dizíamos. São Paulo: Martin Claret. certamente a massa procuraria outro governante. [2] ARISTÓTELES. 1319b. . apregoada pelos dois teóricos políticos. 1998. o bem comum dos cidadãos. Brasília. Fica claro que não é para o bem estar de um ou de poucos. por priorizar a estabilidade. J. e dissemos que o mesmo indivíduo deve primeiro ser governado e depois governar. do governante e do homem bom. 1333-a. Ele usa o termo “timocracia”. 1160 a-b [4] Texto parafraseado da obra “A Política”. Cretella. [2] Importante destacar que alguns termos utilizados por Aristóteles. em seu livro Teoria das Formas de Governo. 1280-a 1-5. A Política. o pleno desenvolvimento de suas potencialidades. O estado de Maquiavel. 1997. ainda que seja propiciando a felicidade aos cidadãos. incluindo governantes e governados. 1997. cumpriria o seu papel principal que é a manutenção do poder do governante. São Paulo: RT. Livro VI. Nasset. que a política é a fusão da oligarquia e da democracia. pois com ela o governo é duradouro e desta forma tido como bom. Esse texto é citado e comentado pelo professor Norberto Bobbio. Júnior. podemos compreender melhor em que consiste essa fusão. certamente. Norberto. sendo estável. 32-35. 12-16. 1294-a [6] Texto extraído do livro “A Política”. Carlos. têm sentido diferente dos que hoje utilizamos. atualmente. É o regime mais propício para assegurar a paz social”. averiguar que atividades produzirão esses resultados. Antônio Campelo.

é o que faz a politia figurar entre formas boas. Uma mistura de democracia e oligarquia inclinada para a democracia. em poucoas pessoas (aristocracia) e em muitas (“politia”). “Um tema a respeito do qual Aristóteles não cessa de chamar a atenção do leitor é o de que há muitas constituições diferentes(. ele expões uma série de três passos fundamentais necessários para atingir o objetivo de chegar à uma terceira forma de governo melhor que as outras duas: conciliar procedimentos que seriam . em ordem decrescente. democracia.. oligarquia e tirania. embora tirânico.)” Nobbio então cita um trecho do sétimo livro dePolítica em que Aristóteles discorre sobre a teoria das seis formas de governo. o que sugere que é a mais moderada.. determinando o funcionamento de todos os cargos públicos e. com a conseqüência que às três primeiras formas boas se acrescentam e se contrapõem às três formas más (a tirania. Para isso. Aristóteles preocupa-se com o modo de fusão de dois regimes e designa o assunto de engenharia política. aristocracia. Nobbio dá uma atenção especial para o chamado despotismo oriental. sobretudo. A ordem hierárquica aceita por Aristóteles não difere da de Platão em “O Político”. Diz que as formas boas são aquelas em que os governantes visam o interesse comum. a oligarquia e a democracia)” O estranho para o leitor é que Aristóteles utiliza o termo politia para designar o governo de muitos. Segundo Aristóteles. Essa junção de duas formas ruins. E uma vez que é aceita por todos. já as más são aquelas que os governantes visam o interesse próprio. mas sim a qualidade de vida dos governantes. na primeira os que governam são os pobres e na última uma miscigenação entre ricos e pobres. politia. O que distingue uma forma de governo de outra nesse caso não seria a quantidade de pessoas. origem do Estado. Esse acolhimento deve-se ao fato dos orientais bárbaros serem naturalmente servis. as constituições podem ser boas ou más.3 Aristóteles “A teoria clássica das formas de governo é aquela exposta por Aristóteles (384 – 322a. crítica às teorias políticas precedentes. mas anteriormente cita que politia significa constituição. não pode ser considerada tirania. Entende-se então que politia é um termo genérico.c.” Esta obra está dividida em oito livros. Novamente vemos a democracia ocupando uma posição intermediária (assim como para Platão). Então ele continua. mudanças das constituições. estudo das várias formas de democracia e oligarquia e as melhores formas de governo. atingindo a esperada paz social. É legítimo e aceito pelos bárbaros. Aristóteles analisa cada as seis formas de governo. constituição “é a estrutura que dá ordem à cidade. “Com base no primeiro critério. O próximo enfoque do autor é a “politia”. Quem exerce o poder também é importante para diferenciar democracia e politia.) na Política. as constituições podem ser distinguidas conforme o poder resida numa só pessoa (monarquia). dedicados à descrição e classificação das formas de governo. da atividade soberana”. A axiologia aristotélica segue como: monarquia. que é classificado como um tipo de monarquia. Com base no segundo. A união dos ricos com os pobres possibilita que os segmentos sociais discutam interesses e cheguem à decisões equilibradas.

como se sabe. adotar “meios-termos” entre as disposições extremas dos dois regimes e recolher-se do melhor sistema legislativo. adotar um meio-termo de posições extremas. porque a união entre ricos (oligarquia) com pobres (democracia) resulta em algo que é positivo de uma forma mais abrangente. porém legitimada pelo consentimento dos súditos. como se sabe.” “Em todas as cidades há três grupos: o muito ricos. o meio-termo é a melhor das condições. há também povos naturalmente escravos”. juízos de valor sobre os mesmos. fundamentado. Para estabelecer os critérios de fusão das formas de governo. que procura uma aproximação da perfeição. no valor eminentemente positivo que está no meio. reconhecer o melhor dos dois sistemas legislativos. A “politia” é o ponto máximo do texto. O livro continua com Políbio. pois é onde. é importante para o estudo das tipologias das formas de governo porque afirma que a Politia é resultado de outras duas formas de governo: oligarquia e democracia. o poder é exercido de forma tirânica legitimado e aceito pelos súditos. a qualitativo: rico e pobre. cujo enfoque é sobre este governo misto. no valor eminentemente positivo do que está no meio.” Segundo o princípio da mediania quem melhor governa é a classe média. em matéria de riqueza. Por isso. Pela ordem hierárquica. . Da mesma forma. os pontos extremos (monarquia e tirania) são os que revelam o maior afastamento do compromisso com o “bem comum”. porque ne. “O principio que inspira esse regime de fusão é o da mediação – ideal da teoria aristotélica. está claro que. Chamada monarquia despótica baseia-se na violência. visando o “bem comum”. Assim. situado entre dois extremos”. Dessa forma. raramente acontecem conspirações e revoltas entre os cidadãos. a de Esparta (militar). ao mesmo tempo. a fusão de duas formas de governo más pode resultar numa boa. O poder despótico é absoluto pela relação de servidão a que são submetidos os súditos. Aristóteles reconhece em politia que a mediação entre duas formas de governo ruins que conciliem interesses mútuos podem visar o bem comum. Aristóteles não se limita apenas as tipologias “puras”. a linha que separa uma tipologia da outra é muito tênue na qual a linha de demarcação não é clara. situado entre dois extremos. Aristóteles afirma que cada tipologia apresenta-se em “varias espécies”. um governo misto. pois ela é a que está mais distante do pergio das revoluções. Daí a dúvida! Como de duas formas más pode surgir uma boa? O caráter que difere os tipos de governo para Aristóteles não é quantitativo. Contudo. ou seja. Outro trecho que Aristóteles cita. é legítimo. A idéia de que o bom governo é a mistura de diversas formas de governo é um dos grandes temas do pensamento político ocidental. Mas quando nos referimos àpolitia e à democracia.a é mais fácil obedecer à razão. e sim.incompatíveis. no livro. Sobre tais povos só pode-se exercer o poder despótico. Como admitimos que a medida e a mediania são a melhor coisa. os “tiranos eletivos” (povos bárbaros). muito pobres e os que o ocupam uma posição intermediária. Tais características afastam qualquer confusão entre monarquia e tirania. Para exemplificar cita a monarquia que tem por base aquela dos tempos heróicos (hereditária baseada no consentimento dos súditos). Aristóteles faz uso axiológico em sua classificação estabelecendo uma hierarquização das formas de governo e. em todas as circunstâncias. “O princípio que inspira esse regime de ‘fusão’ é o da mediação – ideal de toa a ética aristotélica. Bobbio constrói um termo: “engenharia política” de Aristóteles: consiste em conciliar procedimentos que seriam incompatíveis. “Aristóteles justifica que há homens escravos por natureza. fundamento. dá início a mistura de teorias de governo. pela relação de servidão e aceitação de sua condição.

uma pessoa física. Contudo. visto que o poder não lhes foi concebido e sim conquistado. os quais tiveram o poder transmitido com base em uma lei constitucional de sucessão. elogia o governo misto. é visível a diferença na forma que se conquistou esse poder. Para Maquiavel. enquanto o governo misto seria e equilibrado e. todos os príncipes novos são ilegítimos. E ela pode ser explicada ao vermos que o importante é a estabilidade. estável e duradouro. por exemplo. violência ou consentimento dos cidadãos. Os conquistados pela virtu são mais duradouros do que os conquistados pela fortuna. Entretanto. Tese que parece contradizer o que Políbio afirmou como caráter positivo: a estabilidade através de um governo misto. conselheiro de príncipes. o essencial para um Estado bem ordenado é sua vinculação ao principado ou à democracia. os fins justificam os meios. por apresenta-se de forma instável. o qual Maquiavel afirma no começo de O Príncipe já ter discutido bastante sobre república. Entretanto. coloco como improvável a repetição infinita dos ciclos. a teoria dos ciclos e a do governo misto. a causa de não haver formas intermediárias é a que a falta de estabilidade sempre leva ao caminho de uma das duas formas citadas. Se for utilizada em benefício da estabilidade. Num certo sentido. é possível distinguir as diferenças entre os autores. e as constituições intermediárias são instáveis. a vontade coletiva presente em uma pessoa jurídica. fortuna. haja vista o enfraquecimento progressivo da sociedade. Apesar disso. Pela virtu. Enfim. assim como Políbio. A república corresponde à democracia ou à aristocracia. a primeira distinção prevista no livro é a da hereditariedade dos príncipes. os quais conquistaram o poder por quem ainda não era um “príncipe”. já a monarquia corresponde ao reino. uma mistura estável resistente ao tempo.Maquiavel A primeira grande novidade no trabalho de Maquiavel já aparece nas primeiras páginas da obra O Príncipe. para Maquiavel. Maquiavel comenta em uma de suas frases célebres que a diferença entre dois príncipes consiste na crueldade bem ou mal empregada do príncipe. O equilibro dos três poderes. a vontade de um soberano. Entretanto essa contradição pode ser entendida pelas diferenças entre o Maquiavel historiador e político e o Maquiavel político. Maquiavel também vê as formas simples como desvantajosas por causa da instabilidade. Para Maquiavel. monarquia ou república. Mas não se pode confundir formas intermediárias com o Estado misto . portanto. A tipologia clássica das seis formas de governo. onde ele diz: “Todos os Estados que existem e já existiram são e foram sempre repúblicas ou monarquias”. este príncipe ilegítimo que conquista o poder por virtu. Maquiavel discorre sobre a classificação dos principados. o que possivelmente acarretaria em dominação estrangeira. Ele distingue as quatro maneiras diferentes como o poder pode ser conquistado. de modo que qualquer estado intermediário entre ambas está destinado a desaparecer. Maquiavel parece se contradizer ao apoiar a teoria do governo misto. percebe-se uma semelhança muito grande com Políbio. exaltando a constituição da república romana. Já a má utilização leva a um fim miserável. e os principados novos. Maquiavel. não tem conotação negativa e são celebrados pelo mérito atingido. Os novos principados são o assunto mais abordado em sua obra “O Príncipe”. então é bem utilizada. No livro Discorsi.

para Maquiavel. de alcançar um fim objetivado por qualquer meio. seja pela virtu.de Políbio. influência das circunstâncias). trazem em si o principio de sua degeneração e maldade. seja pela fortuna. e não acredita que uma forma de governo ao findar seu ciclo o dê inicio novamente. desde que consiga mantê-lo. tanto as essencialmente más quanto às boas. e sim. capacidade. entre príncipe e tirano. 3) pela violência. uma faixa de poderes entre os súditos e o soberano. Para ambos a sucessão das formas de governo é regida por uma lei Natural preestabelecida. Maquiavel afirma que não é apenas um desses fatores isolados que garante a conquista do poder. e superior. 4) pelo consentimento dos cidadãos. nenhum se sobrepõe aos demais de forma arbitrária. Sua concepção prevê que este Estado fadado ao fracasso não terá forças para sair de uma forma de governo arruinada e chegar a uma forma melhor. mas da conciliação provisória entre duas partes que conflitam. havendo poderes contrapostos. que não chegaram a encontrar uma constituição unitária que as abranja. O julgamento do príncipe em bom ou em mau não pode ser feito. num todo que as partes transcende. A principal característica de um governo moderado é a distribuição do poder de tal modo que. valor. muito se assemelha com Políbio. As formas de governo em Maquiavel assumem uma força “maligna” na medida em que todas elas. ou violência. e mais forte. superando-as a ambas”. Então o governo é sempre bom. Norberto Bobbio afirma que nem todas as combinações entre formas intermediárias resultam em algo positivo para o estado por isso ele diz que “o Estado Intermediário deriva não de uma fusão de ambas as partes. com base na forma como emprega a força ou a violência. acaso. mas Maquiavel é mais realista. Maquiavel estabelece uma maneira nova de classificar baseada na forma como o poder é conquistado: 1) pela virtu(coragem.Quando Maquiavel analisa as teorias básicas das formas de governo em sua tripartição. nos resultados que alcança com tal uso. A discussão remete a celebre frase: os fins justificam os meios. tal Estado esta destinado a ser engolido por um Estado mais bem organizado. . Os principados conquistados pela virtude são mais duradouros devido à capacidade pessoal de dominar os eventos. Para Maquiavel o critério que distingue a boa da má política é o êxito em sua conquista e manutenção. e não pelo próprio mérito. Quanto a isto. independente da maneira como é alcançado. Assim percebe-se que todos os príncipes novos são tiranos. que impedem o abuso do monarca: “contra-poderes”. visto que o fim de ambos é a manutenção do poder. Para Montesquieu a monarquia se distingue de forma mais intensa do despotismo que a república. porque o monarca tem seu poder controlado por corpos intermediários. é preciso a união de ambos fatores. 2) pela “fortuna” (sorte. Montesquieu introduz uma nova tipologia: a do governo moderado.Quanto ao poder conquistado por meio da violência (per scelera) caracteriza-se como o tirano tradicional. são menos estáveis. Já os principados conquistados pela fortuna são os que o príncipe conquista devido a circunstâncias favoráveis. Mas fique claro que Maquiavel não faz distinção entre governos bons ou maus. eficácia política). principalmente no se refere à teoria dos ciclos.

Tal tipologia baseia-se na afirmação: “o poder é um freio para o poder”. Tanto o governo misto como o moderado. Deste deriva a divisão em governos moderados e despóticos (imoderados). status. Só interessa a Montesquieu a divisão no que diz respeito às funções do Estado e não em relação às suas partes constitutivas. Foi apenas no início da Idade Moderna (séculos 16-17) que ele se tornou uma realidade. escrito em 1513. Inglaterra. da participação e da democracia. denotando situação permanente de convivência e ligada à sociedade política. que antes da formação do Estado moderno não existissem outras formas de governo e de poder. existiu. utilizou o método indutivo. existiram. aparecendo pela primeira vez em O Príncipe. O conceito de Estado. Há uma diferença no modo como é concebida a distribuição do poder No governo misto está relacionada com a divisão do poder entre as partes componentes da sociedade. Nem sempre o Estado. Isso não significa. Bodin.com. entretanto.com. que a ciência política vai despontar como uma disciplina autônoma. Mas é Verdadeiramente depois da primeira metade do século XX (pós 1945). república e despotismo.Ao lado da divisão horizontal. 43) é que a palavra tem origem latina. embora confirmando a tripartição política em monarquia.html http://www. Assim. do Estado. portanto. empírico e histórico. executiva e judiciária. do modo que o conhecemos hoje. no governo moderado de Montesquieu deriva da dissociação do poder soberano e de sua partição entre as três funções constitutivas do Estado: função legislativa. Maquiavel. Mas não de maneira tão organizada e burocratizada como o Estado Moderno. uma definição moderna.com/teoria-das-formas-de-governo/ http://www. no entanto. opondo-se ao seu mestre Platão. p. outros teóricos vão contribuir para o desenvolvimento da ciência política.Montesquieu e Tocqueville tratarão de temas específicos da ciência política como a questão do poder. França. chegou até nós apenas a Constituição de Atenas.wordpress.br/biblioteca-juridica/resumos/teoria-politica/40ateoriadasfbobbio. com uma consideração. É atribuída a Aristóteles na Grécia Antiga a criação da ciência política. Espanha e Portugal foram os primeiros Estados a se unificarem. Hobbes. derivam da convicção de que o abuso do poder deve estar de forma equilibrada entre os diversos poderes parciais. É importante destacar . Compilou e organizou 158 constituições por toda a Grécia. com o uso descritivo e histórico. Rousseau .pdf A definição etimológica de Estado feita por Dallari (1995. Sim. Locke. utiliza-se do prescritivo ou axiológico. no período renascentista e moderno (século 15 até 18). http://jacksonviana. Aristóteles. de Maquiavel. de Montesquieu. das formas de governo. mais tarde. é recente. figura a divisão vertical: célebre teoria da separação dos poderes. na forma que entendemos hoje.br/capitalsocialsul/analisedeconjuntura/Ci%EAncia %20Pol%EDtica. No entanto. que significa estar firme.capitalsocialsul.investidura. E ainda justifica: “Os príncipes que quiseram transformar-se em tiranos começaram sempre reunindo na sua pessoa todas as funções públicas”.

Maquiavel possuía objetivos diversos em suas fases da vida conturbada. destacamos o Platonismo. Maquiavel foi um observador. um analista (utilizou o método da observação direta) ao estudar a realidade social como um objeto: “Pareceu-me mais conveniente seguir a verdade efetiva das coisas do que a sua imaginação”. tornando a sua escrita útil como exemplo para que os homens.Com relação á ÉTICA: Platão acredita que ela não salva o direito privado. 2.Tratando da REALIDADE: Platão antecipa-se ao método de Descartes e Spinoza e incorre no mesmo defeito de querer partir de uma intuição fundamental para deduzir depois a realidade. liberta-o do religioso e do metafísico. 3. Rio de Janeiro. 4. Editora Campus. Maquiavel A questão do poder é central em Maquiavel (como conquistar. foram e são ou repúblicas ou principados”.Platão era movido por motivos políticos. a propriedade particular e a família. A natureza humana também não se alteraria ao longo da história fazendo com que seus contemporâneos agissem da mesma maneira que os antigos romanos e que a história dessa e de outras civilizações servisse de exemplo. Para Maquiavel. Teoria Geral da Política: a filosofia política e as lições dos clássicos. 6. por primeiro fez uma análise objetiva da política. 5. por isso mesmo. evitassem cometer os mesmos erros. foi Maquiavel com a obra O Príncipe quem.Quanto à projeção doutrinária. Maquiavel. o poder e o Estado serão vistos sob um prisma diferenciado em comparação com as análises da política feita por pensadores anteriores (Platão e Santo Agostinho). velhaco. O Maquiavelismo. Maquiavel acredita que a história se repete. todos os governos que tiveram e têm autoridade sobre os homens. fecundo dentro e fora do pensamento grego. a Cidade de Deus e os séculos de agostianismo político.Quanto ao SER: Platão crê em um mundo transcendente. 2000 1.testemunha ocular dos acontecimentos políticos e. traiçoeiro”. a sociologia. BOBBIO. embasado em experiências próprias ou dos vultos históricos. a etnografia e a antropologia. como afirma BATH “está associado à idéia de perfídia . contrastando com Maquiavel. Norberto.tentados a agir sempre da mesma maneira. na obra O Príncipe (1513). Platão possuía vocação. baseada em sentimentalismo. insistindo que se torna impossível saber sem querer. A política. ainda que imperfeitamente compreendido pela massa que o adjetiva. enfim. Com Maquiavel abandona-se. apenas fazendo o bem quando forçados a isso. principalmente a história. éticos. que a ciência política é uma ciência interdisciplinar.também. ou . aumentar e não perder o poder). residindo aí as substâncias imutáveis que são o objeto da ciência. estéticos e místicos. a um procedimento astucioso. onde estão as idéias nas quais se concentra toda a realidade. Em síntese. isto quer dizer que ela utiliza métodos de outras ciências sociais. manter. separa a ciência política da Teologia. inicia a discussão teórica sobre o Estado: “Todos os Estados. Maquiavel expulsa a metafísica e a moral das Ciências Sociais. a NATUREZA essencialmente má e os seres humanos quereriam obter os máximos ganhos apartir do menor esforço.

tal qual ela é) 8. é impossível a quem deixou de captar pela lógica da racionalidade agir contra a dinâmica que conduz ao Bem Supremo. A ética em Maquiavel se contrapõe a ética cristã herdada por ele da Idade Média. das mulheres e dos filhos e filósofos governando a República.Ao contrário de Platão e Aristóteles. Maquiavel examinou a política com objetividade. Enquanto que Platão e Aristóteles imaginavam e idealizavam a POLÌTICA e. Maquiavel defende a constituição de um Estado forte e aconselha o governante a preocupar-se apenas em conservar a própria vida e o estado.pdf entrar no site . http://www.O ESTADO O ESTADO para Platão tem por finalidade prover o bem coletivo. Maquiavel não tratou de valores espirituais. de forma que uma atitude não pode ser chamada de boa ou má a não ser sob uma perspectiva histórica. não entrou nos caminhos da razão. tendo talvez por esta razão o seu Príncipe indexado pela Igreja Católica.seja. 7. Com Maquiavel a finalidade das ações dos governantes passa a ser a manutenção da pátria e o bem geral da comunidade.na lista das obras proibidas.achegas. não o próprio. conjeturavam sobre como ela deveria ser (ou como gostariam que fosse). agindo imoralmente quem não sabe.net/numero/39/maltakronemberger_39. pois na política o que vale é o resultado. com o comunismo dos bens.