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RIO DE JANEIRO: TRABALHO E SOCIEDADE - Ano 2 - Nº 3

OBSERVATÓRIO SOCIAL DE FAVELAS DO RIO DE JANEIRO
JAÍLSON SOUZA E SILVA* JORGE LUIZ BARBOSA**
“Aglomerado Subnormal (favelas e similares) é um conjunto constituído de, no mínimo, 51 unidades habitacionais (barracos, casas...), ocupando ou tendo ocupado até período recente, terreno de propriedade alheia (pública ou particular,) dispostas, em geral, de forma desordenada e densa, bem como carentes, em sua maioria, de serviços públicos essenciais”. (Censo Demográfico 2000, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — IBGE)

O surgimento, expansão e consolidação das favelas no espaço do Rio de Janeiro

estão entre os fenômenos mais significativos e, contraditoriamente, desconhecidos da constituição da Metrópole fluminense. O fato decorre das favelas serem, historicamente, objeto da recorrência de um olhar homogeneizador, aliado a pressupostos sociocêntricos.

A homogeneização se manifesta quando, no estudo e/ou intervenção nas favelas, se desconsidera a historicidade e demandas de cada comunidade, as formas de resolução dos conflitos cotidianos e, sobretudo, os diversos grupos sociais que as constituem. Por outro lado, o sociocentrismo afirma-se quando as práticas individuais e coletivas nos espaços populares são avaliadas a partir de parâmetros afirmados pelos grupos sociais com maior poder econômico, político e cultural da cidade. Nesse cotejo, as favelas passam a ser caracterizadas pelo que, aparentemente, elas não teriam em termos materiais e/ou culturais da urbanidade. A homogeneização dos espaços populares e a exotização sociocêntrica sustentam o que pode ser caracterizado como um paradigma da ausência no tratamento do fenômeno da favelização. A definição em epígrafe, utilizada pelo IBGE desde o Censo de 1991, é um emblema do paradigma aludido. Chama atenção, de fato, uma conceituação que, paradoxalmente, valoriza, acima de tudo, as ausências que caracterizariam as favelas. A definição dos espaços populares pela negação, na verdade, é um elemento recorrente desde a instituição dos primeiros espaços habitados pelas populações de baixa renda nas cidades brasileiras. Esse tipo de discurso não pode ser trivializado, tendo em vista que ele funciona como instrumento de legitimação e orientação de uma série de intervenções urbanas de caráter sociopolítico nas favelas. O discurso da ausência voltou-se, historicamente, para os elementos mais visíveis dos territórios populares. Funcionou como pressuposto para as propostas de remoção das favelas dos espaços mais valorizados da cidade e para as propostas de urbanização, que tinham como objetivos mudanças basicamente nas

* Pesquisador do IETS, docente do Programa de Pós-graduação do Departamento de Geografia da UFF e atual Sub-secretário de Ação Social e Cidadania do Estado do Rio de Janeiro. ** Pesquisador do IETS e docente do Programa de Pós-graduação do Departamento de Geografia da UFF.

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que tenham em comum a construção de práticas solidárias para a superação da desigualdade social. Não é casual. O Fórum tem como objetivo criar uma rede de reflexão sobre o fenômeno em questão e. instituições de pesquisa e universidades do Rio de Janeiro — IPEA.Ano 2 . energia. então. voltadas para a formulação de novos meios de compreensão e construção de proposições políticas sobre o fenômeno da favelização. O Observatório também almeja estimular a criação de um Fórum de Estudos dos Espaços Populares. integrada por professores universitários e estudantes. UFF. o Observatório Social de Favelas do Rio de Janeiro — OSF. principalmente dedicado à proposição de iniciativas comuns no campo do combate às desigualdades 4 IETS ABRIL DE 2002 . cujo objetivo é articular uma rede de atores interessados em estudar a pobreza e desigualdade no Estado e no País e apresentar proposições para combatê-las. asfalto — e a permanência de níveis abissais de desigualdade no campo da renda e educação. FGV. em relação ao conjunto da cidade.RIO DE JANEIRO: TRABALHO E SOCIEDADE . O Observatório Social de Favelas constitui-se como uma rede de pesquisa e ações solidárias. UFRJ. em variadas escalas territoriais e institucionais. articulando grupos diferenciados. por seu turno. Espaço de debates e proposições a ser formado por profissionais de diversos campos disciplinares. combinadas e de longo prazo para a produção das políticas sociais adequadas aos interesses dos grupos populares e capazes de contribuir na ampliação dos direito sociais e civis dos espaços genericamente chamados de favelas. SEBRAE. quer dizer. aspecto mais significativo da realidade sócio-espacial das favelas. desenho e monitoramento de políticas públicas locais e globais são os eixos estratégicos para a criação de redes ampliadas de conhecimento e intervenção social. Faz-se necessário um conjunto de ações abrangentes. FIRJAN. voltada para os espaços locais e para o conjunto da cidade. institutos de pesquisa e organizações comunitárias. com o apoio da Fundação Ford. A fim de contribuir para o enfrentamento do desafio acima exposto. esgoto. IUPERJ. o Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS) criou. Cândido Mendes etc —. em sua visualidade urbana. entretanto. lideranças comunitárias e estudantes universitários de espaços favelados. o desafio que representa a superação da desigualdade social e das condições de pobreza presentes na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. PUC. dentre outras. A produção de diagnósticos socioculturais associada à avaliação. O IETS tem uma pluralidade de associados que reúne profissionais de diversas entidades. Inegável. A complexidade de respostas que cada comunidade construiu amplia. As redes sociopedagógicas. produzirão informações e instrumentos de intervenção prática. a melhoria do acesso da maioria dos moradores das favelas da cidade do Rio de Janeiro a determinados serviços urbanos — água. é a riqueza de interpretações e respostas dos moradores às dificuldades existentes nas comunidades populares.Nº 3 condições da paisagem. sobretudo aqueles constituídos pelos atores locais.

Nº 3 sociais. A publicação terá uma versão eletrônica e uma versão impressa destinada à comunicação de estudos e a socialização de experiências socioculturais realizadas em espaços populares.Ano 2 . será dada uma atenção particular às comunidades que se situam em áreas de expansão da favelização. em particular as da Baixada Fluminense. sobre os espaços favelados. Outro instrumento fundamental para a difusão dos estudos do OSF e de instituições afins será o Caderno do Observatório Social de Favelas do Rio de Janeiro. desenvolvidos em uma rede de pesquisa integrada por docentes e técnicos de instituições de ensino superior e de pesquisa e grupos de estudantes universitários das comunidades selecionadas. a partir da produção de instrumentos metodológicos específicos. a partir da organização e realização de colóquios e seminários de apresentação dos produtos de pesquisa e de trabalhos afins. é o elemento que define a identidade do Observatório Social de Favelas do Rio de Janeiro. em particular nos campos socioeconômico. A criação dessa rede de produção de conhecimentos e proposição de políticas. gião Metropolitana do Rio de Janeiro. de caráter econômico. a apresentação. ABRIL DE 2002 IETS 5 . educacio• elaborar análises. Ela contará com a colaboração de pesquisadores do Rio de Janeiro. Entre os objetivos do Observatório Social de Favelas destacam-se os seguintes: • formar uma rede de pesquisadores. análise e avaliação de intervenções materializadas em regiões diversas. nal e cultural. interpretações e conceitos. integrada por jovens estudantes dos es- paços favelados e profissionais de institutos de pesquisas e centros universitários. educacional e cultural a respeito dos espaços populares da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. do Brasil e do exterior. Rio de Janeiro e de outros estados brasileiros. análise e divulgação de dados quantitativos e qualitativos sobre as populações dos principais complexos de favelas da cidade do Rio de Janeiro. • subsidiar a produção de políticas públicas para os espaços populares da reO Observatório Social de Favelas se materializará através da sistematização. tendo na proposição de políticas públicas um dos principais desdobramentos das análises e avaliações particulares dos estudos propostos.RIO DE JANEIRO: TRABALHO E SOCIEDADE . Será estimulada. • avaliar e monitorar políticas públicas dirigidas para os espaços favelados do • produzir informações . O trabalho de pesquisa e ações solidárias no âmbito do Observatório Social de Favelas ganhará concretude com a produção de diagnósticos ampliados. em particular. na qual os jovens locais se formem e se afirmem enquanto atores relevantes nos espaços favelados. Além dessas.

O princípio para o estabelecimento do convênio é que as entidades tenham núcleos de pesquisadores voltados para o campo da pesquisa e/ou intervenção nos espaços populares. O modo de materializar essa estrutura. O Observatório Social de Favelas se constituiu. A rede de pesquisadores locais será construída mediante o desenvolvimento de projetos específicos. será através do estabelecimento de parcerias formais com diversos tipos de instituições de pesquisa. informação e comunicação. O Observatório. eles desenvolverão práticas de estudos. tendo como propósito mais elevado à superação das desigualdades sociais e a ampliação dos direitos de cidadania. diretamente acompanhada por um articulador local. tem como eixo estruturante a perspectiva de atuar em rede. produzirão conhecimentos sobre sua realidade e sobre o fenômeno da favelização no Rio de Janeiro. estudos orientados de metodologia de pesquisa e análise de experiências de intervenções públicas. como já foi assinalado.RIO DE JANEIRO: TRABALHO E SOCIEDADE . principalmente. O Observatório coordenará a busca de financiamento para os projetos de interesse da rede de entidades. A equipe estará vinculada à coordenação geral do projeto. As equipes locais serão acompanhadas pelos integrantes da coordenação do Observatório Social de Favelas e por profissionais das instituições universitárias às quais os jovens estão vinculados. 6 IETS ABRIL DE 2002 . no âmbito institucional. A partir das redes.Nº 3 Os jovens universitários serão estimulados a se organizarem em grupos de pesquisa locais e ali formarem redes sociopedagógicas. ampliando seu acesso a novos produtos culturais e educacionais e. avaliação de políticas públicas e elaboração de ações solidárias voltadas para os espaços populares da região metropolitana do Rio de Janeiro. portanto.Ano 2 . constituindo assim as parcerias necessárias à ampliação das experiências espaço-temporais de cultura e sociabilidade. como um programa de pesquisas de realidades concretas. disponibilizará seu banco de dados e cederá recursos humanos/materiais para o desenvolvimento de iniciativas comuns no campo de estudos e proposição de políticas públicas para os espaços populares. Cada complexo de favelas terá uma equipe de universitários.