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Introdução a Peter Sloterdijk

Peter Sloterdijk

I – Dados biográficos
Natural de Karlsruhe, Sloterdijk estudou Filosofia, Filologia Germânica e História em Munique e Hamburgo, tendo concluído tese de mestrado sobre O estruturalismo como hermenêutica política, em 1971. Cinco anos mais tarde, defenderia seu doutorado em Hamburgo, com uma dissertação sobre Literatura e organização sobre experiência de vida. No fim dos anos 70, Sloterdijk passou dois anos na Índia. Um período de sua vida que deixou conseqüências "irreversíveis", segundo o próprio filósofo: "Quem fez uma experiência como essa, se torna imune a quaisquer teorias, nas quais a depressão sempre vence". É considerado um dos mais importantes renovadores do pensamento filosófico da atualidade pelo menos desde a publicação de Kritik der zynischen Vernunft (Crítica da razão cínica), que alcançou sucesso imediato, tornando-se o mais vendido livro de filosofia na Alemanha no último meio século. Notabilizou-se por defender o retorno a um maior rigor filosófico e, em bom iconoclasta, posiciona-se contra os nivelamentos por baixo reinantes na academia e na vida pública. Embora Peter Sloterdijk seja, desde 1999, reitor da Escola de Artes e Design de Karlsruhe (Staatliche Hochschule für Gestaltung Karlsruhe), o filósofo e teórico da cultura não é conhecido no país por sua produção acadêmica, mas, acima de tudo, pelas polêmicas desencadeadas por seu discurso político. Com teses controversas sobre o terrorismo islâmico, "alertas" sobre a Constituição européia e ironia a respeito do "musical" apresentado pelos manifestantes antiglobalização durante o encontro do G8 na Alemanha, Sloterdijk está, com freqüência, presente na mídia de língua alemã. Seu suposto protesto contra o cinismo, definido como "falsa consciência esclarecida", levou o autor a observações amargas acerca da sociedade de consumo e informação.

em 2002. Na seqüência. com o qual pretendia supostamente levar adiante "uma filosofia sem dedo em riste". o que em sua autodefesa foi chamado de "agitação da esquerda fascista". cujos primeiros volumes haviam sido publicados em 1998 e 1999 e onde aborda a relação umbilical do homem com seu meio ambiente (ver comentário ao final desta postagem) e com a qual aspirava decifrar a "história da humanidade". Parte I: Bolhas) foi atacado pela crítica como um amontoado insano de pronunciamentos sobre terrorismo. O autor de "Esferas" Em 2005. Filosofia "sem dedo em riste" O recurso à terminologia semelhante à do repertório nazista fez com que na trajetória do filósofo fosse apontada uma "guinada para a direita". para quem "comunicação é trabalho escravo". Poucos anos depois. seria publicado Im Weltinnenraum des Kapitals: Für eine philosophische Theorie der Globalisierung (No Interior do Mundo do Capital: Por uma Teoria Filosófica da Globalização).Obras Em 2004 encerrou sua trilogia Esferas (Sphären). com o qual Jürgen Habermas "teria se aposentado". . em que o autor dá continuidade às teorias desenvolvidas na trilogia Esferas e disseca as dimensões do conceito de globalização. O primeiro volume Sphären I.A disseminação do computador e a conseqüente dependência do homem deste é outro ponto tocado por Sloterdijk. Blasen (Esferas. o filósofo estrearia em grande estilo um programa na televisão alemã. Sloterdijk declarou ainda na época "a morte da Escola de Frankfurt" e anunciou um "acerto de contas com a Teoria Crítica". encerrada com Schäume (Espumas) – obra que sugere fundamentos para uma nova "antropologia filosófica". Como se não bastasse. II . manipulação genética e cultura pop. O Philosophisches Quartett (Quarteto Filosófico). vieram outros volumes da trilogia.

vem estabelecendo uma nova correlação entre os pensamentos a priori quase antagônicos de Nietzsche e Heidegger." "O que ainda domestica o homem. se o humanismo naufragou como escola da domesticação humana? (. considerada pelo autor "o motor real da história". nesta mesma postagem – A Polêmica)). se em todas as experiências prévias com a educação do gênero humano permaneceu obscuro quem — ou o quê — educa os educadores. epopéia constituída em função da ira de Aquiles. Iniciado com uma reflexão sobre a Ilíada." O Desprezo das massas: O fenômeno "luta cultural" em si é o conflito no qual se depara a legitimidade e a origem das diferenças. Quem considera demasiado dramático o prefixo "pós-" nas formulações acima poderia substituí-lo pelo advérbio "marginalmente" — de forma que nossa tese diz: é apenas marginalmente que os meios literários. Trechos "Com o estabelecimento midiático da cultura de massas no Primeiro Mundo em 1918 (radiodifusão) e depois de 1945 (televisão) e mais ainda pela atual revolução da Internet. da mesma forma. entre outros. Partindo de um diálogo com Elias Canetti e seu diagnóstico acerca da agressividade da massa (essa heroína apressada de uma modernidade iludida) contra o talento e a diferença antropológica vertical. amante de uma álgebra inútil. são decididamente pós-literárias. como se pode mostrar sem esforço. pós-epistolares e.. O texto foi razão da eclosão de uma das maiores polêmicas político-filosóficas na Europa nos últimos anos (ver abaixo. como a sociedade secular se defronta com a questão de como deve alimentar suas diferenças (alteridade). e para quê? Ou será que a questão sobre o cuidado e formação do ser humano não se deixa mais formular de modo pertinente no campo das meras teorias da domesticação e educação?" "Se o desenvolvimento a longo prazo também conduzirá a uma reforma genética das características da espécie — se uma antropo-tecnologia futura avançará até um planejamento explícito de características. Discute-se como a metafísica religiosa é intranqüilizada pela pergunta sobre de onde provém o Mal e. pós-humanistas. Nietzsche. um tratado "político-psicológico". a coexistência humana nas sociedades atuais foi retomada a partir de novas bases. Livros publicados em português Regras para o parque humano: Levanta o debate sobre o destino do ser humano na época da bioengenharia. começa a abrir-se à nossa frente o horizonte evolutivo. Essas bases. O desenvolvimento a longo prazo conduzirá a uma reforma genética das características da espécie humana? Uma antropotecnologia futura avançará até um planejamento explícito de suas características? Essas perguntas de respostas complexas estiveram no centro do já famoso discurso de Elmau: um debate sobre a evolução futura da espécie no contexto de "um humanismo que naufragou como escola da domesticação humana". O desprezo das massas é um ataque que o filósofo desfere contra o senso comum ―ilustrado‖. responsável pelo arrebatamento da ira. se o gênero humano poderá levar a cabo uma comutação do fatalismo do nascimento ao nascimento opcional e à seleção pré-natal — nestas perguntas. Sloterdijk aborda uma relação problemática por excelência: os intelectuais e as massas.) O que domestica o homem.Em Zorn und Zeit (Ira e Tempo). Paralelamente. Sloterdijk analisa a cultura ocidental a partir da idéia da ira. e estendendo esse diálogo a Heidegger.. e do qual ninguém poderá se furtar. de Homero. Heidegger. Recorrendo a Nietzsche. ainda que de maneira obscura e incerta. Rorty . Rorty. conseqüentemente. situando Eros no mesmo patamar de Thymos – para os gregos. epis-tolares e humanistas servem às grandes sociedades modernas para a produção de suas sínteses políticas e culturais. dada a asfixia do pensamento em exercícios diletantes das formas. Foucault. ao desconstruir a pulsão de morte. o volume se opõe à teoria psicanalítica.

o que lhe permite apreender alguns vícios fundamentais de nossa nossa época com extrema perspicácia. passa a ser insistentemente chamada de massa pelos seus porta-vozes e pelos que a desprezam. Com seriedade metódica e fineza estratégica ela persegue seu objetivo pretendido: se for necessário suprimir a própria essência — por causa das diferenças essenciais a serem negadas —. apenas como hiperpolítica . Sloterdijk enquadra-os em três etapas: mostra como a partir do pau torto das hordas pré-históricas primeiro foram talhados os antigos povos de caçadores e colhedoras. que não se deixa mais definir como política. 21) ―Necessariamente aparece duas vezes também o segundo desprezo.(criticando nesse sua aposta em uma estupidez democrática anti-filosófica). Ele distancia seu olhar. por essa razão. uma hiperpolítica.‖ (p. como depois na época agrocultural foram empilhados impérios e reinos.Departamento de Teologia . um sentimento de corpo e espaço próprios.(comentários de Luiz Felipe Ponde . talvez inacabável. No entanto.‖ (p. à medida que mergulha nas grandes civilizações da Antiguidade. Sloterdijk chega mesmo a buscar luzes em alguns momentos da teologia da graça. como desprezo ofensivo das elites por parte das novas massas flexibilizadas. e como desprezo das massas e de seu amplo idioma por meio dos últimos elitistas. ela não se vê mais confluir e agir. levam a . mais uma vez revelando sua qualidade de não dizer o que é normalmente considerado como de ―bom tom‖ para as ―posturas inteligentes modernas‖. Aliás. cujo potencial explosivo engendrou nos últimos dois ou três séculos reações em cadeia: fenômeno aliás mais conhecido como "História universal". uma vez de baixo. estado planetário pós-imperial.bomba armada pelo conceito de diversidade e pluralidade da espécie humana. por vezes desregulado. Sloterdijk chega à tese de que os homens estão sentados sobre uma bomba-relógio lógica desde a invenção da roda . já aponta para que a ascensão à soberania do maior número possa ser percebida como um processo inacabado. como institutos da destroçada filosofia. O que o leva a refletir sobre a arte do possível em nossa época. ativada e subjetivada.‖ (p.às hiper-hordas da atualidade corresponde apenas. Sloterdijk pode distanciar seu olhar à medida que mergulha nas grandes civilizações da antigüidade. para uma sociedade universalizante. 99). Ao tratar de mais de 4 mil anos de História. Distancia-se cada vez mais da possibilidade de passar de suas rotinas práticas e indolentes para um aguçamento revolucionário. 70) ―Essa primeira ciência humana engajada não esquece sua missão em tempo algum. ela também pagará esse preço.‖ (p.PUC-SP) Trechos ―Só o fato de que a multidão moderna. e como finalmente na era industrializante uma sociedade tendendo ao tráfego universal elabora um difuso. Peter Sloterdijk se insere no debate sobre a hiperpolítica. isto é. 87) No mesmo barco: Ensaio sobre os delírios da política. não produz mais um grito conjunto. entre outros. esta padece ainda de duas falhas: todas as tentativas de transportar a cidade para o Grande. essa tem sido sua tônica: dizer aquilo que a militância das ―massas inteligentes‖ desprezam: ―Por essa razão em todo mundo crescem como erva daninha aquelas comissões de ética que. ou desprezo composto. que sabem desprezados seus objetivos pela massa e pressentem que na cultura de massas em organização acabou de uma vez por todas aquilo com que se importam. 12) ―A massa não reunida e não reunível na sociedade pós-moderna não possui mais. do paleolítico até hoje. quando muito.‖ (p. querem substituir os sábios. o que lhe permite apreender alguns vícios fundamentais de nossa época. não sente mais sua natureza pulsante. que fazem de seu modo de vida a medida de todas as coisas e querem libertar-se de seu observador que as despreza. Apresentando o processo histórico como uma longa sucessão de convívios forçados. fulminando com seu estilo ímpar quatro mil anos de história. A partir dessa combinação de flash backs e tempo real.

1993. poderá a noção de Nietzsche de ―obrigatoriedade da grande política‖ ser preenchida de um novo conteúdo contemporâneo. inclusive a derrapagem violenta da política externa norte-americana. no lugar de válvula de escape para desejos não realizados. Outras obras: Der Denker auf der Bühne – Nietzsches Materialismus [O pensador no palco – O materialismo de Nietzsche]. há uma entrevista de Sloterdijk onde este revê. Der starke Grund. alguns embates expostos no texto original. Nesse sentido. Sloterdijk mostra que reprimir a ira dita produtiva pode gerar efeitos paralisantes. já haviam sido previstas pelo filósofo alemão. Crítica da razão cínica: escrita em 1983. até hoje motivo de uma longa e sofrida reflexão que se arrasta por duas gerações. não provocar nenhuma luta supérflua. Entre outras coisas. ao mesmo tempo. Luftbeben: An den Quellen des Terrors. 2002. Sloterdijk se pergunta se a Europa dilacerada de 1945 poderia ser vista como metáfora de um império moderno e esclarecido. Ira e tempo: O autor reinterpreta o conceito de ira à luz do pensamento ocidental do século XXI. [Aeromotos: Nas fontes do terror]. Para Sloterdijk. após o fim do vácuo no qual a tragou sua trágica safra de totalitarismos e guerras mundiais? Na edição em português. Se a Europa despertar: Neste ensaio. . Portanto. a ira passa a ter valor histórico. qualquer política futura estará sujeita a uma situação onde não somente o Pequeno e o Grande devem ser novamente configurados. Nesta dupla experiência os europeus vivenciaram seu ano zero. redigido sob influência das alterações inter-imperiais após o 1989 soviético / europeu. No caminho percorrido pelo filósofo conclui-se que é preciso exercitar este equilíbrio sem se esquivar das lutas necessárias e. 1998. mas também o Velho e o Novo. 1986. zusammen zu sein. sobretudo na construção de um equilíbrio político. filosóficos e políticos de que a Europa contemporânea se quer herdeira. Erinnerungen an die Erfindung des Volkes [O grande motivo de estarmos juntos: anotações sobre a descoberta do povo]. A Europa foi libertada pelos aliados em 1945 da ditadura nazista — e ao mesmo tempo o velho ―Império do Centro‖ foi agarrado pelas tenazes de novas potências mundiais a Oeste e a Leste. Os desenvolvimentos políticos recentes. Weltfremdheit [Desassossego do mundo]. Peter Sloterdijk avança a tese de que não haverá como pensar a nova Europa dessa virada de milênio se os europeus não voltarem a seus fundamentos histórico-filosóficos e buscarem uma orientação programática assentada numa ―mitomotricidade‖ imperial portadora de mitos fundadores que resultaram nos esplendores culturais.totalitarismos e ao sacrifício das pequenas unidades empurradas para becos psicopatológicos. à luz do 11 de setembro norte-americano e de neo-imperialismos unilaterais.

No texto rebuscado. Repercussões sobre discurso: Alguns comentários sobre o discurso de Sloterdijk (ver ainda a postagem intitulada ―O Homem Neoliberal: da redução das cabeças à mudança dos corpos".A polêmica de 1999 Em julho de 1999 eclodiu uma polêmica num pitoresco castelo da Baviera como há muito já não se via nestes tempos de horizontes tranqüilos e conflitos pasteurizados. frente às manipulações genéticas que sabemos serão feitas quer se queira ou não? A discussão é fundamental e apenas ensaia seus primeiros passos. o uso de conceitos como "seleção" e "cultivo" despertou na crítica analogias imediatas com a ideologia nazista. para as assustadoras possibilidades.III . Uma leitura atenta deste texto tão recente e já célebre — e ele mesmo um revelador exemplo de uma descontextualização simplificadora por uma parte da crítica — nos mostra o autor advogando a necessidade de se definir regras éticas e controles sociais para as aplicações tecnológicas já ao alcance dos grandes conglomerados da bioengenharia e. onde o ensaio foi lido por Sloterdijk pela primeira vez) passasse meses a fio sendo debatido tanto na imprensa quanto no meio acadêmico alemão. onde é afirmada a inevitabilidade da manipulação genética. já fartamente disponíveis. de seleção pré-natal dos próprios seres humanos. Para onde nos levará o perigoso fim do humanismo literário enquanto utopia da formação humana? Como nos posicionar frente ao homem re-desenhado. em especial. Uma palestra refinada e aparentemente despretensiosa — tomando como ponto de partida o diagnóstico heideggeriano da crise do humanismo e prosseguindo retroativamente pela denúncia nietzscheana da domesticação apequenadora do homem pelo homem até as acintosas recomendações de Platão sobre a arte de pastorear seres humanos — se transformaria no maior debate político-filosófico dos últimos anos a varrer uma Europa em confronto com um fim-de-século tão cheio de indagações e inseguranças quanto o foi seu início. o que fez com que o "discurso de Elmau" (nome do castelo na Baviera. neste Blog): . Ingressamos no terreno movediço da antropotécnica. como diria Sloterdijk. de autoria de Dany-Robert Dufour.

na exigência de uma plena liberdade. evocando seu livro Critica da razão cínica (1983). Folha de S. 10/10/99) "Essa proposta (de uma Assembléia Geral das Ciências do Homem para discutir os limites da biotecnologia e a formulação de um código de conduta) não é tão absurda quanto pretendem os inimigos do filósofo. Mais!. Idéias/Livros.. já está na mídia européia. 2/Cultura. Paulo. o importante para mim é que a discussão sobre a antropotecnologia finalmente tenha acontecido. Sloterdijk propõe um Conselho de cientistas e filósofos para criar um discutível Parque Genético Humano (Menschenpark). Perspectivas: nada menos do que o título anuncia: "regras para o parque humano" na época da "antropotecnologia"." (Le Monde des Débats. a fim de poder realizá-la exatamente em silêncio: o horror na verdade é cinismo. como reservatório para 'salvar e aprimorar a espécie da imbecilidade e brutalização induzida pelos mídias'. símbolo de uma geração herdeira da Teoria Crítica. Jurgen Habermas abriu fogo contra Sloterdijk e a confusão. novembro de 99) "Peter Sloterdijk..Bruno Latour "Acusa-se Peter Sloterdijk de brincar com a eugenia ignorando todo e qualquer perigo." (Depoimento ao editor. outubro de 99) "Não importa o que tenha acontecido com esta polêmica toda. 17/10/99) "(O texto) provocou uma verdadeira tempestade pública na Alemanha. diz ele. que promete abalar os alicerces de toda uma área do pensamento. Cad." (Gilles Lapouge.. senão perigoso: é o preço por vezes a se pagar para a honestidade dos debates e das polêmicas. Ato contínuo. e considerado por seus adversários como explosivo." (Jornal do Brasil. Le Monde des Débats..Centro de Arte e Tecnologia de Mídia. autor do cultuado Crítica da razão cínica... ao contrário da Alemanha da culpabilidade. 25/9/99) "Para Sloterdijk. Frankfurt. a reação 'horrorizada' de parte da 'boa consciência' humanista contra a engenharia genética não passaria de uma tentativa de silenciar sobre a técnica seletiva.A Participação de Sloterdijk no ZKM . Sujeito: o futuro do humanismo e o devir da civilização européia.). O Estado de S. decisão de se permitir pensar no fim total dos tabus. Ao contrário: são os postulados iniciais de Sloterdijk que podem causar preocupação: morte do humanismo. É nesse sentido que Sloterdijk constitui uma ruptura franca com a filosofia alemã do pós-guerra. ao passo que ele toma a pluma para impedir seus adversários de minimizá-lo! Belo exemplo de incompreensão. de Karlsruhe . O Monde des Débats toma portanto a iniciativa de publicar a integralidade de um texto filosófico tão longo quanto árduo. Paulo. Qual é afinal este perigo? O de não ver que uma guerra mundial começou 'a respeito das variantes da criação do homem'." (Luiz Felipe Pondé. é o pivô de um escândalo que está dividindo a intelectualidade européia (." (Bruno Latour. outubro de 99) IV .

os americanos já mostraram "grande êxito no emprego da democracia via aérea". Em sua contribuição à mostra. Sloterdijk. Eu denomino isso o 'interior do mundo do capital'"." O gueto do capital Embora a globalização pareça dar margem à transferência ilimitada de modelos de um espaço cultural para o outro e pareça apontar para a abolição das fronteiras. Do ponto de vista do Ocidente. Em seu livro Im Weltinnenraum des Kapitals: Für eine philosophische Theorie der Globalisierung (No Interior do Mundo do Capital: Por uma Teoria Filosófica da Globalização). ironiza Sloterdijk. "E como contaminação funciona bem num mundo denso. oferecendo todas as condições necessárias para o processo democrático dentro de apenas 24 horas. Afinal. No entanto. Sloterdijk descreve a criação de um complexo de conforto. um espaço interior com fronteiras . Porém. a contaminação democrática tem fronteiras e não funciona em todas as partes do mundo. Falta de densidade também é o maior déficit estrutural da África. a democratização poderia dar certo através de uma infecção mimética". O Parlamento com capacidade para 160 deputados pode ser transportado num único contêiner. a fim de instaurar a democracia com a maior rapidez possível nos "Estados delinqüentes" que tenham acabado de ser subjugados. sem levar em conta qualquer homogeneidade regional ou nacional. O mundo do bem-estar tende a criar um espaço interior bastante hermético. segundo ressalva o filósofo. explica Sloterdijk em entrevista ao diário Die Welt. Bruno Latour O interesse dos curadores Bruno Latour e Peter Weibel era justamente "encontrar novos caminhos para se refletir sobre política e desenvolver procedimentos que possam levar a uma nova forma de trabalho entre artistas e teóricos". bons exemplos não se propagam com tanta rapidez. o sucesso do empreendimento seria impensável. sem um empurrãozinho das Forças Aéreas norteamericanas. excluindo o tempo de vôo. em conseqüência disso.Peter Sloterdijk esboçou um produto instantâneo ideal para propagar a cultura política do Ocidente em todo o mundo: um Parlamento inflável que pode ser lançado via aérea. "O mundo árabe ainda não atingiu o grau de densidade que caracteriza o mundo ocidental. o que ocorre – segundo Sloterdijk – é justamente o contrário: "Minha teoria descreve a globalização como um fenômeno de exclusão sem precedentes. só a Aids mesmo é que galopa. a democracia é algo bom a ser imitado. atribui uma dimensão bélica ao missionarismo ocidental e sua meta de democratizar o mundo.

com/2007/09/peter-sloterdijksemdomcilio-fixo. mas propor-nos um reconhecimento do monstruoso como monstruoso e uma capacidade para o pensarmos. Remuneração sem empenho e segurança sem luta foram os ingredientes existenciais da Europa durante meio século. flutuando num oceano gigantesco onde grassa a miséria de mundo agrário arcaico. Nem as nações mais jovens escapam deste modelo: "Hoje a Índia deve ser uma zona de prosperidade com 200 milhões de pessoa. se o não fizer. Hoje ainda continuamos a respirar ares de consumismo. a reforma capitalista do comunismo deve ter beneficiado 400 milhões de pessoas. De certo modo. Mas agora as pessoas vão ter que sofrer para aprender que as coisas vão ter que funcionar com mais empenho próprio e menos gás do riso". num colóquio consagrado a Heidegger. deixando 800 ou 900 milhões na mais absoluta falta de perspectiva". Por um bom tempo se misturou o gás do riso da segurança social à atmosfera da Europa Ocidental. Mas o próprio texto já o tinha programado. Na China. em Julho de 1999. nem idolatrar.Sobre a trilogia Esferas (texto extraído do Blog: http://brigadasinternacionais. mas intransponíveis para quem está de fora. flutuando num mar povoado por uma população três vezes maior.blogspot. foi mais uma vez objecto de reacções violentas e debates apaixonados. V . O autor começa logo de entrada por observar que grande parte do modernismo estético e filosófico até aos anos 60 (dos expressionistas de 1920 aos . sem os quais dificilmente se poderia impulsionar uma conjuntura. Mas o prognóstico de Sloterdijk para as ilhas de prosperidade do Ocidente também não é dos mais otimistas: "A era dos grandes alívios está acabando. ressalta Sloterdijk ao Die Welt.invisíveis.Parece que Peter Sloterdijk está destinado à provocação. Ou seja: uma ilha habitada por um bilhão e meio de pessoas. Foi isso que ajudou a determinar o clima.html ): O que Peter Sloterdijk pretende não é nem condenar. É por isso que a sua comunicação na Baviera. desilude os seus ouvintes e leitores.

É aqui portanto que começa o escândalo Sloterdijk. e da mobilidade . é preciso fazer o desvio pela biografia ou por outros modos derivativos da escrita se queremos entender alguma coisa destes radicalismos fracassados. etc. da rentabilidade acrescida. desemboca no presente numa situação social cada vez mais impregnada pelos mitos e rituais da comunicação. segundo a lição de Heidegger. Não foi o historiador britânico Eric Hobsbawm que definiu parte do século como uma "idade dos extremos"? Os extremos têm um pensador privilegiado: Nietzsche.em regra geral. como conseguir. "o monstruoso instalou-se no lugar do divino". Ora é curiosamente esse mesmo Nietzsche que faz a transição entre um modernismo dos extremos e um espírito pós-moderno que se situa claramente no campo oposto. hoje. neo-morais. Como escreve de um modo muito pertinente Peter Sloterdijk. instalou-se. este pensamento "não está em sintonia com os acontecimentos maiores da nossa época.. do consumo.. pós-marxistas. e só pode ser compreendido a partir do seu modo de produção. neo-cépticas. pelo menos desde há duas décadas. no qual reaparece um pensamento das situações médias." Mas se esta "miniaturização deve ser entendida como um tributo quase natural à normalização" ("a democracia implica por si mesma um triunfo das situações médias").existencialistas de 1950 . Neste clima neo-medíocre.porque. um estado de consciência pós-extremista. nos nossos dias.. "as premissas históricas do pensamento no fim do século XX recomeçaram a transformar-se de um modo fundamental. e. depois.e poderíamos falar nos bataillianos e blanchotianos dos anos 60 e nos revolucionários de 68) se definiu por um acentuado desprezo pelas situações médias. numa progressiva viragem ateológica. Porque ele vai saltar a pés juntos sobre a perspectiva humanista (o homem como sujeito de si próprio) para estabelecer uma relação entre o homem no seu confronto com o "divino". . e perde a capacidade para apreender as realidades imensas do processo de civilização". pós-apocalípticas. (.) O resultado destas reflexões pós-radicais. face a eles. resistir à "banalização do monstruoso"?É aqui que surge a palavra-chave: o homem é um produto. a propensão e a capacidade para nos reapropriarmos dos fragmentos do extremismo declinam de novo .um novo Eldorado das situações médias. entre o homem no seu confronto com o "monstruoso" . Eis a questão central: quais são os acontecimentos fundamentais da nossa época? E. Sob o nome de código de 'pós-modernidade'.

a clareira e o êxtase. com a sua entrada numa era altamente tecnológica. e um produto em aberto. e que em nenhuma circunstância pode ser confundido com a acção de um sujeito produtor. tentou. que ele procede de um modo decididamente pré-humano e não-humano. que o produtor desse produto não é nem Deus. a supressão dos corpos. O que Sloterdijk pretende não é nem condenar. em 1997. que não é conduzida pelo homem de um modo intencional. A esta nova noção do espaço (que se sobrepõe à temporalidade) Sloterdijk chama "esferas". um procedimento sobre si mesmo e contra si mesmo cujo móbil é uma nova definição do ser humano". nem idolatrar.O que nos coloca face a uma "antropotécnica". Isto implica uma nova problemática do Ser e do espaço. isto é . mas uma situação de suspensão tensiva entre mundos e entre aberturas. Então quem produz? Há nesta pergunta um pressuposto que convém pôr em relevo: pressupõe-se que o produtor está acima do produzido. e explicar. a . nem o terror de uma permanente abertura ao Exterior. tivemos um apocalipse físico. isto é. e perante a seguinte perspectiva: "uma parte do género humano actual. a ideia da casa do Ser. que o homem é um produto. um apocalipse biológico. definindo-as como "entre-mundos": nem um enclausuramento no cárcere ambiental. mais técnica e mais explícita do que nunca". segunda. seja humano". nem o próprio homem (nem teologia. que "o homem é o produto de uma produção que ela própria não é o homem. e o que não será já o-que-viria-a-ser antes de o vir a ser. Mas a nossa época é de tal modo tentada pelas situações médias que "o apocalipse do homem tornou-se algo de quotidiano". Agora a tensão faz-se entre a relação-com-o-mais-longínquo. a partir dele. tivemos. Se em 1945. e um-ser-cada-vezmais-junto-de si. Para isso precisamos de aceitar duas coisas: primeira. a afirmação de um conceito a que Sloterdijk chama de "dimensional" e a análise de uma condição tensiva do dimensional. o que faz que "as condições de produção do ser humano começam hoje a constituir-se de uma maneira mais formal. E no processo de formação das esferas será possível encontrar quatro tipos de mecanismos: a insulação. Ora (e esta proposta teórica de Sloterdijk aproxima-o de Negri e Hardt) o que devemos dizer é que o produtor é imanente ao próprio produzido. Trata-se portanto de descrever um mecanismo antropogenético. sob a direcção da fracção euro-americana. mas propor-nos um reconhecimento do monstruoso como monstruoso e uma capacidade para o pensarmos. com a divulgação pública das experiências de clonagem. nem humanismo). com Hiroshima. seja divino.

As composições da técnica desenvolvem-se fora de qualquer hipótese de transposição e não suscitam nem aclimatações nem efeitos de domínio da exterioridade.com/2007/09/peter-sloterdijksem-domcilio-fixo. estes termos valem o que valem: o que interessa são as longas análises do modo como tais mecanismos funcionam).br/autores/sloter. É aqui que se pode falar em "domesticação do Ser" a partir das antropotécnicas primárias: técnicas de educação. regras de parentesco. O homem parece cada vez mais condenado à errância . rituais.com. normas de casamento.html http://www.htm http://pt.wikipedia. na era dos códigos digitais e das transcrições genéticas. códigos. aumentam o volume do exterior e do nunca assimilável". ditos assim .. já não têm um sentido que seja de um modo ou de outro doméstico.estacaoliberdade.como um ser sem domicílio fixo. Fontes: http://brigadasinternacionais. Pelo contrário.neotenia e a transposição (como é óbvio.blogspot. Numa perspectiva histórica. etc. linguagens. Só que a biotecnologia contemporânea cria antropotécnicas secundárias e é aqui que a casa do Ser começa a soterrar-se sob o peso dos seus próprios andaimes: "A palavra e a escrita.org/wiki/Peter_Sloterdijk . o homem deve tornar-se totalmente doméstico antes de iniciar o processo de se tornar totalmente extático.