You are on page 1of 3

Colégio João de Barros

Assunto: Alberto Caeiro Análise dos poemas do manual
Poema segundo pág. 176

1. O girassol olha sempre o sol de frente, assim, um "olhar nítido como um girassol" é aquele que vê a realidade à luz do sol, com toda a nitidez que essa luz propicia. 1.2. O olhar nítido é aquele que vê nitidamente, vê tudo e, por isso, esta afirmação, feita no primeiro verso, vai progredindo através de expressões que traduzem o olhar tudo, em todas as direcções, em todos os momentos, com um olhar sempre renovado como o de um recém-nascido: Olhando para a direita e para a esquerda. E de vez em quando olhando para trás ... E o que veio a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto. E eu sei dar por isso muito bem ... Sei ter o pasmo comigo Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras ... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo ... 2. Na 2. estrofe, o poeta afirma acreditar na realidade porque a vê, ou seja, a sensação visual basta-lhe na sua relação com o Mundo. Ao pensamento, rejeita-o, afirmando, como argumento, que pensar é não compreender”. 3. "Eu não tenho filosofia: tenho sentidos ... " Considerando que a filosofia é a procura, a interrogação do conhecimento, este verso corresponde a uma afirmação absolutamente convicta e assertiva do primado da sensação sobre pensamento. 4. Máximas argumentativas: “pensar é não compreender…. -pensar é estar doente dos olhos Quem ama nunca sabe o que ama / nem sabe porque ama, nem o que é amar -amar é a eterna inocência , - a única inocência é não pensar.” 5. Este poema ajuda-nos, de facto, a compreender a razão pela qual Alberto Caeiro é o Mestre de Fernando Pessoa, pois mostra como ele consegue aquilo que para o ortónimo é um desejo impossível: submeter o pensar ao sentir, abolir o vício de pensar e viver pelas sensações. 6. Recursos estilísticos Como no poema anterior, neste é utilizada uma linguagem muito simples, ao nível lexical e um tipo de articulação do discurso também muito simples, com predomínio da coordenação (sobretudo copulativa - f) sobre a subordinação. O primeiro verso das estrofes um e dois contêm uma comparação que, para além da sua expressividade, ajuda a operar o processo, caro a Caeiro, de conversão do abstracto em concreto. O uso repetido das palavras do campo lexical de olhar, revelam o primado da sensação visual sobre o pensamento (reparese que o campo lexical de pensar surge negativizado no poema). Os dois últimos versos constituem um silogismo cujo inacabamento é revelado pelas reticências (que poderão substituir a frase subentendida Amar é não pensar), Quanto à estrutura formal, o poema apresenta liberdade estrófica e métrica e ausência de rima, Poema nono pág. 177 • Organização do poema: 1. a parte - o sujeito poético afirma-se vivendo pelas sensações;

a parte . dos cinco sentidos." de Antonio Tabucchi é muito interessante e pode ser utilizada para.reflexão de carácter geral sobre o pensar sentindo. partindo do todo para as partes (sensações -+ olhos. símbolo do -real.:. diferentes a vários níveis: • para o suj. mãos/pés. boca): Sou um guardador de rebanhos. 178 A leitura do pequeno conto "Sonho de Femando Pessoa. O rebanho é os meus pensamentos E os meus pensamentos são todos sensações Olhos. ("Penso com os olhos e com os ouvidos". • para o sujeito poético só existe a verdade do momento. ouvidos. 148). O uso repetido das palavras do campo lexical das sensações. colocar algumas das questões mais importantes da vida e da poesia de Fernando Pessoa e heterónimos. bem como dos substantivos concretos. a poesia de Caeiro e as ilustrações de Danuta Wojciechowska . Este diálogo é um processo propício à apresentação de dois pontos de vista." • Recursos estilísticos Como nos poemas anteriores. para o seu interlocutor.sensações). um fruto ou um dia de calor. submetendo-o ã sensação. é utilizada uma linguagem muito simples.pensamentos . sendo a primeira e a terceira constituída por seis versos e a segunda por dois. Caeiro consegue. de uma forma leve e até divertida. Pessoa viveu na África do Sul onde estudou. mãos. boca • É importante perceber que é através das sensações. para o seu interlocutor. viveu numa pequena quinta no Ribatejo. nariz. do presente. por exemplo. com uma tia-avó. que progridem apenas a nível semântico. a relação com a realidade passa por sentir apenas essa realidade.to poético. 177 Este poema constrói-se como um diálogo entre o sujeito poético. "Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la"). unir o pensar ao sentir. Repare-se também no paradoxo contido em "Me sinto triste de gozá-lo tanto" que remete para uma espécie de excesso de sensação. talvez uma contradição em Caeiro. Será igualmente interessante estabelecer a relação entre o conto de Tabucchi. e um outro que com ele se cruza no caminho e que o interpela sobre o significado de vento. o presente conduz à memória do passado e à imaginação do futuro. • Caeiro é o Mestre de Pessoa. por exemplo. "Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la/ comer um fruto é saber-lhe o sentido. O poema apresenta liberdade estrófica e métrica e ausência de rima. • a associação sonho/realidade é outro dos temas fundamentais de Pessoa. • Alberto Caeiro. Lembrar. ouvidos. que o poeta estabelece a relação com a realidade. afirmando. Outras leituras pág. "guardador de rebanhos". • Progressão do discurso Na progressão primeiro em cadeia (rebanhos -pensamentos . Tem três estrofes. a realidade é mais do que aquilo que vê ou sente. • Estrutura formal. pois é também porta aberta para a memória e o sonho. nariz.noite da criação dos heterónimos (lembrar a carta. de saúde frágil.. pois é a que lhe traz a verdade dessa realidade. Ao afirmar a sensação como fonte única do conhecimento do real. assim. depois. com predomínio da coordenação (sobretudo copulativa .2. sem a pensar nem imaginar. ao nível lexical e um tipo de articulação do discurso também muito simples. • a nostalgia da infância/da mãe é um tema fundamental em Pessoa. revela o primado do sentir sobre o pensar que é sempre objectivado. o poeta nega o pensamento.f) sobre a subordinação e alguma intencional falta de conectores entre os versos. que: • 8 de Março de 1914 . pág. a parte . E que essa forma de relação sensacionista com a realidade é a que lhe basta. Poema décimo pág. 3. seja ela uma flor. Poeta e Fingido.exemplificação de carácter pessoal sobre a experiência do sentir. como se viu no segundo tópico.