You are on page 1of 4

ALTERNATIVA PARA VENCER A INÉRCIA

Jayme Lopes do Couto, economista, Consultor de Economia de Transportes Willian Alberto Aquino Pereira, engenheiro civil, Mestre em Ciências pela Coppe/UFRJ

A realidade da maior parte dos estados e municípios mostra que o processo de investimentos em transportes públicos está precisando ser revisto para solver a deterioração da qualidade e evitar o seu colapso qualitativo e quantitativo, enquanto o País se esforça para retomar seu crescimento econômico. De fato, a grande razão para o sistema de transportes não ter chegado, ainda, a um verdadeiro nó tem sido a insolvência da demanda, advinda da redução da mobilidade da população pela sua incapacidade de pagar, equilibrando seu orçamento pelo aumento do número e extensão de viagens a pé, redução do retorno às residências na periferia, aumento da favelização etc, bem como pela pressão sobre os proprietários de automóveis que vêm reduzindo seu numero de viagens. Por isso, merece reflexão a potencialidade da participação de novos parceiros nos investimentos de transportes como formas de contribuir para a solvência desses problemas, em um momento de que tanto se fala sobre o tema. Cabe apresentar, inicialmente, algumas considerações que, geralmente, são colocadas messe tipo de discussão, qual seja, a maior ou menor participação da iniciativa privada em investimentos de interesse público, antes de se iniciar programas desse tipo. E parece estar havendo mudança significativa na concepção de investimentos em novos sistemas de transportes e os tradicionais estão caindo em desuso. Assim, o turn-key poderá ser a solução para se sair da perplexidade. Os procedimentos tradicionais de contratação governo/construtores/operadores poderão ser cada vez menos viáveis. Os sistemas turn-key – elaboração do projeto, construção, financiamento, teste e operação por um mesmo grupo empreendedor – poderão ser uma saída racional e importante. Alguns elementos podem ser alinhados ao se considerar essa mudança de posicionamento e que interferem no processo de turn-key: - possibilidade de intervir diretamente no planejamento de transportes no projeto, na construção, na operação e no funding; - o interesse de companhias, fundações, associações, entidades e indivíduos que, voluntariamente, podem colocar seus fundos ou seu futuro desempenho econômico em risco; e - esse interesse, deverá, preferencialmente, ser ampliado para incluir na operação até mesmo propriedades imobiliárias da nova iniciativa, ou seja, não se deve limitar o financiamento e execução, mas, ao incluir bens reais, considerar também o retorno do investimento em transporte como elemento inerente e principal a incorporar, ainda que parcialmente, as condições operacionais, o que dará maior viabilidade e adequação ao nível de prestação dos serviços.

O setor público deve saber entender o que é financeiramente viável em um novo sistema de transportes e o que não é. com bom controle entre investidores e governo. De fato. em macro-escala. Se. . uma vez que a experiência vem demonstrando. os principais benefícios aparentes da privatização são o aumento da eficiência. projeto e operação. projetá-los para melhor servirem aos usuários e aos beneficiários diretos e indiretos. pode ser compatível com o retorno social de benefícios para a comunidade como um todo. maior o grau de privatização. mesmo no exterior.A privatização é só uma forma de investidores e proprietários influenciarem o projeto de sistema de transporte em seu próprio benefício. por exemplo. da forma mais econômica possível. É claro que o setor privado procurará. As controvérsias sobre competências entre níveis e órgãos do governo. deve-se: . . a redução do tempo e custo de conclusão de um novo projeto e a diluição de custos e riscos financeiros entre aqueles que estarão mais próximos de se beneficiarem do projeto e não apenas para o poder público. projeto e responsabilidade do financiamento. A privatização permite maior rapidez e menor custo que os investimentos públicos. as dificuldades de se concluírem investimentos com múltiplos e divergentes interesses. o maior retorno econômico-finaceiro dos investimentos e a minimização do risco.orientar os projetos para que sejam simples e não muito amplos no início. Um dos principais objetivos é colocar projetos desejáveis rapidamente em operação e. mas essa deve ser função da natureza do projeto. contando com aqueles que serão beneficiários na participação de seu financiamento. o governo terá que participar do funding ou considerar esses serviços como sendo sociais.ter um programa.condicionar o número de participantes privados que não deverá ser excessivo para ter maior eficiência gerencial. Para maior sucesso de um programa desse porte é importante que se defina claramente o que é de responsabilidade pública (serviços e bancos) e o que é de responsabilidade privada (serviços especiais ou alternativos). Para se evitar que essa tendência seja prejudicial ao equilíbrio deste enfoque com o interesse público. atender a idosos ou deficientes. com interesse público. O controle privado de investimentos. como sempre. serviço. abrangendo localização. mas devem fazer parte de um planejamento urbano-regional ou da modalidade. .reconhecer que quanto maior o controle pelos investidores. viabilizando o consenso. autoridades para taxar negócios e usos do solo locais e dificuldades de obtenção de recursos para os estudos iniciais. seu custo e número de benefícios potenciais. até se mostrarem viáveis. e .

da coletividade não necessariamente virá um consenso. mas no máximo uma folgada maioria de apoio. . no entanto. ou seja. entanto que isso se deve à cultura de muitos anos no País e essa quebra de cristais é trabalhosa. o conceito de contribuição de melhoria nos dois sentidos.os investidores estarão mais propensos a terem riscos em função do aumento potencial da taxa de retorno. otimismo e capacidade gerencial por parte do poder público.um programa de investimentos desse porte não é um Ótimo de Paretto e. particularmente em um setor onde a viabilidade muitas vezes depende de benefícios indiretos e não-financeiros. Problemas para os investimentos privados isolados também sempre existirão e vão. e . Eles não tenderiam a pensar sobre e muito menos pagar ou investir num serviço que irá retornar em oito ou 10 anos.mesmo que não resulte sempre em investimento real de grande porte. Empreendedores em corredores poderão não estar interessados em melhorias no sistema de transporte. sem dúvida.encontrara consenso deverá ser a meta. na época do uso (benefícios). fatalmente. por eles. no. mostra que: . por isso.pode-se atrair o interesse do setor privado pela operação e/ou administração – leasing e lease-back – de bens possuídos pelo Estado. .sempre tenderão a surgir. Deve-se entender.a participação privada com recursos próprios ou captação de financiamentos é uma opção indiscutível. Deverá também ser considerado no custo o pagamento aos lindeiros na fase de obras e o pagamento. Talvez o grande montante possa vir dos negócios de terra. necessita de persistência.vendedores de equipamentos deverão continuar a se interessar apenas por projetos de privatização que envolvam a demonstração ostensiva de suas próprias tecnologias. desde que haja regulamentação federal que a viabilize.investidores continuarão a se interessar em participar de pequenos sistemas de transportes. mas apenas nos benefícios para seus investimentos particulares. . surge o pensamento de que projetos como esses são perda de tempo ou sonhos e que os investidores privados estão voltados apenas para as taxas de retorno a curto prazo (um ou dois anos no máximo). variações de uso ou troca para uso futuro pelo empreendedor. precisar de apoio governamental. com enfoque de curto prazo e com a participação de poucos parceiros. Muitas vezes. . pois investidores com interesses . a privatização pode ser importante para os transportes. o que poderá diminuir a eficácia do programa de investimentos privados em transporte. não se deve atuar nesse sentido como única opção. Uma análise preliminar do que poderá ocorrer em um processo de privatização ou de participação privada em investimentos de transportes. a utilização dos procedimentos de renegociação da dívida interna e/ou externa também pode mostrar-se oportuna. . e isso deve ser bem considerado e controlado para atingir aos interesses das partes. minimizando os riscos econômicos e políticos do processo de privatização. qual seja. .

Não é impossível. A partir dessas considerações. fundamentalmente. A falta de visão estratégica dos governos e dos investidores privados tem-se mostrado evidente ao longo doa anos. no Brasil. Uma opção na privatização pode ser a de participação dos empregados ou usuários nos casos de empresas de transporte a serem privatizadas. É importante entender a diferença marcante entre a participação de novos parceiros em investimentos de transportes e a expropriação de vias ou sistemas já existentes. Entende-se que a participação privada deve ocorrer. diretamente ou a partir de financiamentos. que se perpetuam em algumas administrações ineficientes. acredita-se que merecem ser ressaltadas as oportunidades que se abrem para a solução de carência de recursos para os transportes. No caso de privatização das existentes deve ser levado em consideração o direito adquirido de uso da infraestrutura ou sistema existente que foram implantados com recursos públicos. . na implantação de novos investimentos (vias. ainda mais se trouxerem know-how. em benefício da população das áreas urbanas e do desenvolvimento sócio-econômico sustentado. no entanto. livres de subsídios ao investidor. é uma enorme falta de visão empresarial – pela iniciativa privada – e capacidade executiva ou criatividade – pelo Poder Público. O argumento de que não há. isso poderá aliviar o governo de subsídios implícitos e explícitos. mudar esses hábitos e culturas e começar um enfoque moderno de gestão que poderá reformular o Estado no que tange ao setor de transportes. saindo da inércia em que se encontra. como também ocorreu em outros casos no mundo. sem possibilidade de prejuízo da economia e do deslocamento da população.estratégicos terão incentivos para melhorar o seu desempenho. O)s investimentos privados em transportes devem ser encarados como negócios a serem administrados em termos de empresariais. As vias e sistemas de transporte existentes não devem ser privatizados quando já garantirem passagem – previsto na Constituição Federal pelo direito de ir e vir – e tiverem um uso do solo consolidado que dele depender. sistemas de transportes etc). por exemplo. além do que pode ser fonte de maior arrecadação de recursos através de impostos. terminais. Trata-se realmente de um programa de atuação extremamente desafiante e que merece ser bem administrado. Existe boa experiência nesse campo através de programa de incentivo à compra de debêntures. A participação privada deverá dar-se preferencialmente como opção qualitativa ou quantitativa e sob forma de risco dos investidores.. a riqueza de outros países ou mesmo o desequilíbrio entre suas regiões. a não ser por momentânea ou específica falta de recursos públicos.