You are on page 1of 6

LAFETÁ, João Luís. O mundo à revelia. In: RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 38.ed. Rio de Janeiro: Record, 1981. p.

189-213

O MUNDO À REVELIA

1. Dois capítulos perdidos No primeiro capítulo de S. Bernardo, logo nas linhas iniciais, se tem declarado o propósito do narrador de escrever um livro “pela divisão do trabalho”. Todos os personagens surgem em apenas um parágrafo. O narrador declara a seguir que esteve “uma semana bastante animado”. E logo anuncia o fracasso do plano. O leitor não precisa esperar muito tempo para saber as razões do fracasso. João Nogueira e Padre Silvestre não servem. O narrador afasta-os com comentários secos e diretos. E concentra suas esperanças no ultimo que lhe resta, Azevedo Gondim, agora caracterizado como “periodista de boa índole e que escreve o que lhe mandam”. O projeto inicial começa a ser executado. Gostaria de assinalar uns pontos importantes e elementares de técnica narrativa. Primeiro, a maneira direta de tratar o assunto.
Pags. 189 e 190

O leitor dança entre nomes, profissões e características dos personagens. O leitor foi empurrado para dentro de um mundo que desconhece. Há apenas uma voz narrativa, falando em primeira pessoa. E dirige os personagens e o projeto em execução. Sem nos dizer nada explicitamente, fornece-nos, no entanto a sua imagem: um homem empreendedor, dinâmico, dominador, obstinado. Paulo Honório surge quase inteiro no primeiro capitulo. Mais tarde iremos compreender os outros personagens. Por enquanto são apenas nomes, personagens que surgem confusamente. Agindo sem parar, emitindo opiniões. É no segundo capitulo que se decide a iniciar o livro valendo-se de seus próprios recursos. E impacienta-se: “Dois capítulos perdidos”. O caso é que não o foram. Sua figura dominadora e ativa está criada. Fomos já introduzidos em seu mundo. Não poderia haver solução mais coesa: surgem à nossa frente, personagem e ação. Paulo Honório nasce e nós o vemos através das ações: este caráter, esta ligação intima entre o homem e o ato em direção a um objetivo marcado.

Bernardo contesta ali a existência deste esquema amplo. que une indissoluvelmente personagem e ação. O que impressiona é a maneira direta de contar todos os fatos. Bernardo Começa a historia de Paulo Honório. cujo impulso arrasta o mundo atrás de si. na oposição o geral. Dinâmico e transformados. A parte inicial de S. Paulo Honório representa e compreendemos a velocidade narrativa. De novo a ação reflete-se para iluminar o agente. velocidade enérgica. que não vacila diante dos meios e se apossa do que tem pela frente. Os capítulos de três a oito compõem sua unidade convergindo para a realização de tudo isso. . Pags. E não pensa sobre eles: aplica-os. Bernardo os possui em alto grau e os imprime a fundo na tessitura da narrativa. Daí a coesão da narrativa. construir esta casa. Paulo Honório narra-os por cima e depressa. Neste terceiro capítulo o tempo é vasto e os eventos são muitos. ele conhece os meios. Essa objetividade produz um efeito de crueldade. plantar mamona. levantar a serraria e o descaroçador. Ação transformadora.2. Dois primeiros capítulos formam um núcleo: tudo se organiza em torno de um segundo objetivo “O meu fito na vida foi apossar-me das terras de S. 193 e 194 A rapidez rítmica da sucessão de fatos reforça a caracterização de Paulo Honório. cinqüenta anos atrás. adquirir um rebanho bovino regular”. O andamento vivo dos dois primeiros capítulos se mantém. Pags. pois. plantar algodão. A diferença fundamental entre os dois modos reside. pode ser aqui de alguma unidade. Um capítulo recua no tempo. Ficamos conhecendo o caráter violento e maciço do herói. que governa o mundo e imprime-lhe seu ritmo. Pois ele é o emblema complexo e contraditório do capitalismo nascente. A apropriação da fazenda é contada. O seu primeiro ato é narrado apenas no essencial. A posse de S. Da leitura destes oito primeiros capítulos aparece um personagem esmagador. Bernardo. introduzir nessas brenhas a pomicultura e a avicultura. posse total: o herói de S. 191 e 192 A distinção teórica entre “sumário narrativo” e “cena”. como se seguissem em linha reta e em velocidade enorme. Traz a força de tempos novos que surgem. vencendo a inércia e quebrando os obstáculos.

como num período composto só de orações independentes. 195. O parágrafo final do capitulo onze mostra a técnica de mistura dos motivos. O capitulo treze é uma simples preparação para o encontro com Madalena. O estilo se distende um pouco. A preferência do narrador volta-se agora para a técnica da cena. 198 e 199 Do capitulo nove até o 11 os motivos se encadeiam. De dentro do ziguezague de motivos vai surgindo aos poucos. Pags. o dominante. Bernardo vem a posse de Madalena. pois modifica toda a sintaxe narrativa desta parte do romance. Paulo Honório decide construir a escola da fazenda. coordenadas entre si.3. O estilo direto serve ao tipo de enredo que se desenvolve e à caracterização dos personagens. O tom compacto se esgarça de leve e a narrativa salta de um tema para outro. A diferença de linguagem quando se refere a Madalena e quando se refere a D. Madalena merece destaque especial. pois se transformou no objetivo de Paulo Honório. Todos os motivos temáticos convergem e encontram sua unidade no novo fito de Paulo Honório. Pags. Madalena Depois da posse de S. A partir do capitulo 12. A marcação muito nítida do tempo imprime ao livro características de precisão e dinamismo. Até a marcação rigorosa do tempo. Marcela é significativa. Esse processo aparentemente simples é na verdade magistral. É de novo a ação decidida. As dificuldades cedem sob sua força e o mundo se curva à sua vontade. 196 e 197 A casualidade é apenas aparente. O capitulo nono entretece alguns motivos novos. que refletem a vontade e a força enérgicas do herói. Dínamo emperrado A estrutura se forma pela subordinação de seus elementos a ação ou o enredo “cerrado”. voltam a encontrar sua expressão precisa. justapostos.200 e 201 . o jogo da velocidade e os recuos temporários. Pags. 4. a posse da mulher. tudo se subordina a ele.

portanto como mercadorias. ou o sentimento de posse com relação à mulher. é a culpada por Paulo Honório não ser capaz de enxergar Madalena. Bernardo. Este fenômeno dá origem a uma reificação global. . torna-se inevitável o surgimento de ma analogia entre o herói e a burguesia como classe. Paulo Honório. entre possuído e possuidor. já não compreende a mulher. é que Paulo Honório simboliza. Se alinharmos todas as características. As características do modo de produção infiltram-se na consciência que o homem tem do mundo. O que podemos afirmar. que o fez agreste.204 e 205 Prossegue com Paulo Honório dando voltas sempre em torno do mesmo problema. Tal é a relação estabelecida entre Paulo Honório e o mundo. convergindo para o motivo central: o ciúmes. agora. Pags. a apropriação de alguma coisa. em torno desse novo obstáculo que Paulo Honório terá de enfrentar. A ação da narrativa se concentrará. Paulo Honório. a força modernizadora que atualiza de forma devastante o universo de S.Esta objetividade implacável tem sempre o endereço certo. Um novo núcleo se abre: a tentativa de Paulo Honório de reduzir Madalena a objeto possuído. Sua irritação vai num crescendo constante. os motivos temáticos se misturam. Como Madalena se recusa a alienar-se. A vida agreste. todos são coisas que servem a seus desígnios. O contraste que ele mesmo estabelece é demasiado evidente para que o deixemos despercebido. numa relação entre coisas. que é substituída na mente humana pela noção de quantidade. E toda relação numa humana se transforma. O capítulo vinte e três é exemplar. O homem agreste é aquele ser no qual se transformou Paulo Honório: egoísta e brutal. A ação do romance se transforma num ziguezague nervoso. afirma Antonio Candido. no interior do romance. “é modalidade de uma força que o transcende e em função da qual vive”. Uma das mais sérias conseqüências da reprodução para o mercado é o afastamento e a abstração de toda qualidade sensível das coisas. Pags. A solução do conflito é a morte de Madalena.202 e 203 Os bens deixam de ser encarados como valores-de-uso e passam a ser vistos como valores-de-troca e. Os capítulos seguintes são terríveis. os choques são inevitáveis. O sentimento de propriedade distorce o homem desta maneira radical.

fora de seu controle. Com a revolução o mundo de Paulo Honório descaminha de forma definitiva. a objetividade nasce da atitude que caracteriza o narrador face a tudo que lhe acontece. os preços dos produtos caem.206 e 207 A composição do romance vai-se modificar agora sensivelmente. seu credito é cortado. sua composição geral se altera levemente o bastante. Paulo Honório abandona a ação e volta-se sobre si mesmo. S. Notamos imediatamente o abalo do ponto de vista pseudo-onisciente. para imprimir a S. Reacendem-se antigas questões de limites.O desfecho. Narrativa e busca Após a morte de Madalena. O tempo que se instala agora traz problemas diferentes. Os amigos são obrigados a afastar-se. Neste instante o herói se torna problemático. O romance é narrado em primeira pessoa. A linguagem seca cede lugar à lamentação e o ritmo rápido é substituído pelos compassos mais lentos. . lançando-se ao trabalho. nos conta sua historia. mas logo esfria o entusiasmo e a lembrança da mulher morta impõe-se ao seu espírito. Paulo Honório tenta retomar o ritmo anterior de sua vida. Permanecem no romance. paralisado pela derrota definitiva que foi a morte de Madalena. 5. O estatuto do “narrador onisciente” difere. só lhe resta buscar o significado de tudo que lhe escapa. A procura dos verdadeiros valores que deveriam reger as relações entre os homens. A vitoria da revolução traz-lhe problemas com a propriedade. Bernardo uma dimensão nova. a objetividade deixa de ser questionado de varias maneiras. enfim. o mundo à revelia. Bernardo mantém sempre uma objetividade.208 e 209 O caráter ativo de Paulo Honório esta emperrado. este distanciamento dá uma pseudoconsciência. e ele fica sozinho. se elemina fisicamente Madalena. O desnorteamento é paralelo à persa do mando. os dois níveis de apresentação. destrói por completo a vida de Paulo Honório. É. A verdadeira busca começa onde termina a vida de Paulo Honório. O mundo desgovernou-se. A sinédoque se engasta na estrutura ação/personagem. na qual um “eu protagonista”. entretanto. Pags. aproveitando-se da distancia. Pags.

O recurso ao monologo interior.Pags. tentativa de encontrar o sentido perdido e encontro final e trágico consigo mesmo e com a solidão. modificar-se. Bernardo. mostrando a vitoria da reificação e a derrota total do herói. Paulo Honório escreve seu livro e busca o sentido de sua vida. é quando começa a ser representado o tempo da enunciação. O romance se fecha. ajuda a compor a busca de Paulo Honório. Pags.210 e 211 A subjetividade penetra mesmo. que é incapaz de mexer-se. Surge o mundo de S. A objetividade da representação é atingida pela subjetividade do narrador. O capitulo dezenove. embaralha de fato consciência e realidade.212 e 213 . memória e presente.