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Anna O: primeiro caso, revisitado e revisado
Ronald Britton

Se é um mérito ter criado a psicanálise, esse mérito não é meu... Eu era estudante e estava me preparando para meus exames finais na época em que outro médico vienense, o Dr. Josef Breuer, usou pela primeira vez (em 1880-2) esse procedimento com uma jovem que estava sofrendo de histeria... a história desse caso e seu tratamento vocês encontrarão narrada em detalhes em Estudos sobre a histeria [1895], publicado mais tarde por Breuer e por mim. (Freud, 1910, p. 9)

A jovem que Breuer e Freud chamaram de Anna O foi o primeiro estudo de caso em sua publicação conjunta de 1895. Freud o utilizou novamente na primeira de suas cinco conferências sobre psicanálise na Clark University, Worcester, Massachusetts, em 1909. Cinco anos depois, ao escrever “Sobre a história do movimento psicanalítico”, Freud começou novamente com Anna O, só que dessa vez ele deixou claro que a história da doença e do tratamento de Anna O pertencia a Breuer, mas que as conclusões tiradas do caso que levaram à psicanálise eram dele, Freud. Parece haver algo tão básico nesse caso que prende a atenção de gerações posteriores de analistas. Michael Balint, por exemplo, recorre ao caso de Anna O para descrever a regressão maligna (Balint, 1968, p. 139-47). Freud, obviamente, revisitou muitas vezes esse caso em sua mente quando pensava em suas teorias e comentou, 20 anos depois, que quem lê o relato de Breuer “percebe imediatamente o simbolismo sexual que há nele e um protótipo completo do que hoje chamamos de ‘transferência’” (Freud, 1914, p. 12). Houve duas outras mudanças importantes nas teorias de Freud 20 anos depois de Estudos sobre a histeria. Na época, ele relacionara todos os fenômenos histéricos a uma cena lembrada, um trauma. Após 20 anos, escreveu:
Se os sujeitos histéricos ligarem seus sintomas a traumas que são fictícios, o novo fato que emerge é precisamente o de que eles criaram tais cenas na fantasia, e essa realidade psíquica precisa ser levada em conta juntamente com a realidade prática. (Freud, 1914, p. 17-18)

ele não faz nenhuma referência ao tratamento de Anna O. ouviu de Breuer detalhes clínicos desse caso. Então. é o maior desenvolvimento das ideias psicanalíticas nos últimos anos. mas agora está claro que isso estava em seu pensamento. repressão e conversão. contratransferência. ele não prosseguiu com o método analítico em casos de neurose e os encaminhou a Freud: Naquela época. transferência. Quanto mais sabemos sobre o que não foi revelado sobre esse tratamento no livro. A história. a de que uma disposição herdada por alguns indivíduos tornava traumáticas experiências desenvolvimentais comuns (ibid. duas pedras fundamentais da psicanálise. relaxado e íntimo.Freud: uma leitura atual 39 Outra descoberta realizada após 1895 foi a da ubiquidade da sexualidade infantil e. Em novembro de 1882. mas também reconhecemos sua trajetória. Se esse tivesse permanecido seu único conhecimento do caso. Na época de sua publicação conjunta. Em uma carta escrita em 1907. p. seremos capazes de entendê-lo melhor? Nós temos duas vantagens em relação aos primeiros leitores do texto: uma. 1895. ao revisitar o caso. tanto Breuer quanto Freud sabiam que ela estava razoavelmente bem e morando em Frankfurt. possivelmente. mas também a lição prática importante de que é impossível para um “clínico geral” tratar um caso desses sem que a sua atividade e a condução da sua vida sejam . Quando examinamos o relato de Breuer pelos olhos da análise moderna. pois sua esposa era amiga dela. não é narrada inteiramente no estudo de caso de Breuer sobre Anna O. a realidade psíquica e a sexualidade infantil. O que sabemos sobre ele agora faz mais sentido em termos da psicanálise moderna.. bem mais informal. Eu gostaria de enfatizar que os detalhes que não foram incluídos no relato de Breuer eram conhecidos por Freud. e ambas podem ser encontradas em um reexame do caso de Anna O. Então. outra é o maior conhecimento que temos sobre o caso real. obviamente. deu a Freud o material bruto para suas teorias sobre o complexo de Édipo. depois de Anna O. um médico recém-formado de 26 anos. 302). também. aprendi muito – muitas coisas de valor científico. Freud faz sua primeira declaração sobre o fenômeno psicanalítico da “transferência” (Überträgung): “a paciente fica assustada ao descobrir que está transferindo para a figura do médico as ideias perturbadoras que surgem do conteúdo da análise” (Freud. Na parte do resumo de Estudos sobre a histeria. Isso revelou o psicodrama erótico que se desenrolou no tratamento e. Breuer fez a ele um outro relato sobre o caso. p. como era conhecida por Freud. identificação. 13 anos depois do final do tratamento. enquanto Breuer e Freud jantavam sozinhos descansadamente. em 1895. mais claro fica quanto ele influenciou Freud nos últimos anos. Freud. vemos algo muito diferente do que ele viu. 18). isso não deu a Breuer nenhum insight. Infelizmente. e ele sabia o que aconteceu depois na vida de Bertha Pappenheim. Nessa passagem. teria lhe fornecido o material necessário para suas primeiras teorias da vida mental inconsciente. cinco meses depois do final do tratamento. compulsão à repetição e atuação. porque os fenômenos continuam os mesmos e porque sua cuidadosa narrativa nos permite examiná-lo independentemente de suas conclusões. pois ele parece ter ficado muito traumatizado pela experiência e não foi capaz de tirar proveito dela. Breuer explicou por que. foram descobertas depois dos primeiros relatos sobre a histeria. nós agora sabemos que em uma noite quente de verão em 1883. Entretanto.

1965. jamais me submeter de novo a tal provação. mas também a paciente que Freud disfarçou como “Irma” em seu famoso sonho da injeção “de Irma”. 1. na época. Todos esses elementos estavam presentes no tratamento de Breuer dado a Anna O. Elisabeth Young-Bruehl. e desilusão com seus colegas idealizados e a gravidez da própria esposa. transformando-o em um grande insight e na base da evolução contínua de suas ideias sobre transferência e contratransferência: O fato do surgimento da transferência em sua forma cruamente sexual.. em sua biografia de Anna Freud. Freud não permitiu que esse conhecimento íntimo e não revelado se tornasse uma fonte de inibição. esse continuou sendo o argumento decisivo. Mais tarde.. em qualquer tratamento de uma neurose. uma viúva. Mathilde.40 Rosine Jozef Perelberg & Cols. Freud confidenciou a Karl Abraham associações livres não reveladas relativas ao seu sonho da injeção de Irma. mas aconteceu durante o tratamento (Ellenberger. Se for verdade. Ele escreveu: “Por trás do sonho. 29). p. todos os detalhes do caso parecem estar profundamente impregnados da importância da transferência e contratransferência. Nesse mesmo ano. acredita que a figura “Irma” é uma condensação de Anna Lichtheim e Emma Eckstein. ele também conhecia a transferência erótica a partir do próprio trabalho e a importância da contratransferência erótica a partir da sua autoanálise. completamente arruinadas. Entretanto. como foi para o infeliz Breuer. quer afetuosa quer hostil. Quanto a mim. privadamente. as três mulheres. 1993. são as madrinhas da minha filha. (Grubrich-Simitis. p. 12) O fato de Freud jamais ter tornado pública essa informação significa que algumas das fontes mais cruciais de suas convicções permaneceram secretas. vol. Ele. 246-8). e a sua interpretação desse sonho. além dos achados mais específicos do trabalho analítico. A criança nasceu em 11 de março de 1882. conduta médica inadequada. 26-7) Mesmo 13 anos depois do tratamento. esconde-se a megalomania sexual. p. 1914. p. e eram conhecidos por Freud na época. a presença “de Irma” no sonho de Freud representa uma atração sexual contratransferencial. Até a escolha de Anna como um nome fictício para Bertha Pappenheim parece especialmente significativa. 1988). Eu jurei. em um detalhe crucial Jones lembrou erradamente a história: o momento da gravidez da esposa de Breuer. 1895. Didier Anzieu (1986. Sophie e Anna. 13) conjetura que Anna Lichtheim. que deixara um curativo cirúrgico no nariz da paciente (Young-Bruehl. e eu as tenho todas!” (Abraham e Freud. O bebê se chamou . a paciente cuja condição iatrogênica Freud quase ignorou fatalmente por idealizar Fleiss. (Freud. 1997. A concepção dessa criança não se seguiu ao final do tratamento de Bertha Pappenheim. quando o relato foi publicado em 1895. embora isso não seja nem desejado nem induzido pelo médico ou pela paciente. sempre me pareceu a prova mais irrefutável de que a fonte das forças impulsionadoras da neurose está na vida sexual. divulgou detalhes secretos do caso Breuer-Pappenheim a Ernest Jones. como Jones escreveu. quando Anna O ainda estava em tratamento. 264). Freud deu à sua filha mais jovem o mesmo nome. p. 1953. não é apenas a doadora desse nome tanto para Anna Freud quando para Anna O. que os incluiu em sua biografia de Freud (Jones.

[e]. Conforme sugiro mais adiante neste capítulo. mas sem vida sexual e determinada a proteger da psicanálise seus tutelados e pupilos. um tanto autoritária. Não consegui descobrir se ela teve. qualquer pensamento sexual. Sua relação com a mãe era descrita como muito difícil e com o pai havia um apego mútuo muito forte.Freud: uma leitura atual 41 Dora.1 Em Frankfurt. Freud escreveu que “estar presente. ela também criou uma organização feminista judaica.. Inspirada por A vindication of the rights of woman. e um irmão vivo 16 meses mais moço. Logo antes de morrer. ela comentou: “se existir justiça. Como Anna O. explicou melhor aquilo que “as pessoas adultas fazem” que é tão desejado. 305). Essa sublimação parece tê-la deixado livre de sintomas. Anna O falava inglês. desempenho. 101-2). alguma babá ou governanta inglesa. peça (Schauspiel) faz para o adulto o que o brincar faz para a criança. segundo Breuer. Tinha uma irmã 10 anos mais velha. mas cheia de energia e eficiência. essa correção do momento da gravidez (uma gravidez da qual Bertha Pappenheim tomaria conhecimento) nos permite compreender melhor o caso. p. Bertha Pappenheim é vista na Alemanha como uma grande inovadora no atendimento infantil e como uma heroína que trouxe da Rússia. Melanie Klein. como algumas das crianças de Klein na sala de brincar.. cuja esperança hesitante de ser capaz de fazer o que as pessoas adultas fazem é assim gratificada” (Freud. em 1904. ou investe os eventos cotidianos de uma ressonância erótica. bem relacionada. ler sobre esse caso primordial e dele tirar alguma outra coisa ou lhe acrescentar algo? Eu acho que sim e gostaria de usar a psicoterapia de Bertha Pappenheim para sugerir que um aspecto central da histeria é o uso da identificação projetiva pelo sujeito para se tornar. comentando sobre a análise infantil. em uma. Ela era a diretora. francês e italiano. Breuer a descreveu como adita a devaneios secretos. representam o coito parental – o escutar e o olhar representam a observação de fato ou na fantasia” (Klein. na próxima vida as mulheres farão as leis e os homens terão os filhos”. que havia morrido na adolescência.. o então famoso caso de histeria em Viena. 1905. era inteligente e atraente.. da inglesa Mary Wollstonecraft. Ela morreu em 1936. há um museu dedicado à Bertha Pappenheim. Essa identificação fantasiada. Ela dá à sexualidade da histérica uma qualidade teatral. mais de cem crianças que haviam ficado órfãs em massacres de judeus. quando pequena. Tinha na época 21 anos.. localizado na casa onde ela criara uma creche residencial e uma escola de assistência social. em 1936. quando encenada na vida cotidiana ou na análise. como um espectador interessado. um ou outro ou ambos os membros do casal primário. p. bem integrada na cultura alemã. Além de alemão. 1923. prepara o cenário para se tornar um dos personagens por uma fantasia de identificação projetiva. eu gostaria de revisar a história de Bertha Pappenheim. pessoalmente. do lar para crianças onde empregou sua mãe como cozinheira. Antes de levar isso adiante. Hoje.. na fantasia. aos 77 anos. Era de uma família judia ortodoxa rica. A razão pela . Eu sugiro que na histeria a paciente. cria um drama erótico. ela se tornou paciente em 1880. mas nunca tivera nenhum relacionamento romântico nem. outro nome que seria tomado emprestado para um caso psicanalítico clássico. que ela chamava de seu “teatro particular”. Será que podemos.. cem anos depois.. Ela escreveu: “Em vários casos ficou claro que aqueles teatros. Era uma adolescente antirreligiosa difícil que adorava “o teatro”.

mas sua enfermeira não. A tosse severa que apresentava fez com que o Dr. Breuer fez o que foi. zangado. é a importância central em sua história do uso do inglês quando ela perdeu a capacidade de falar alemão. que estava com infecção no peito. seu irmão a pegou escutando à porta e a sacudiu. de ter dois selves. Breuer fosse chamado pela família. a proibiram de entrar no quarto. Por algum tempo. mas acabou concluindo que não havia base anatômica para eles. um derrame. na época. ela sofrera de neuralgia facial atípica. ela foi ficando cada vez mais fraca e desenvolveu anorexia. Ela falava inicialmente em um alemão incorreto telegramático. o pai de Anna O ficara gravemente doente e ela começara a dividir os cuidados de enfermagem com a mãe. Ela agora só falava inglês. “tinha alucinações e era maliciosa”. estabeleceram-se dois “estados de consciência inteiramente distintos” que exigiram de Breuer uma grande e cuidadosa atenção. Ele a atendeu em novembro de 1880. ela ligou esse episódio a uma intermitente surdez histérica. provavelmente. Seu estrabismo desapareceu. pacientemente. profunda ansiedade e alucinações assustadoras de cobras negras. Isso produziu uma melhora extraordinária em seus sintomas pseudoneurológicos e uma mudança no uso da linguagem. de não ser capaz de pensar. Agora contarei a história de seu tratamento a partir da entrada de Breuer no caso. e ela acabou sendo banida do quarto do doente. em 1o de abril de 1881. O quadro clínico. passando depois para uma fala quase incompreensível composta por quatro ou cinco línguas. como um mistério linguístico. no outro. mas relativamente normal”. como diz Breuer. Em um deles ela era “melancólica e ansiosa. “em 5 de abril. explorou seus sintomas e sinais de um ponto de vista neurológico. governanta ou mesmo amante de seu pai. ficou de cama e apresentou estrabismo. Em julho daquele ano. descansar à tarde e cair em um estado de transe à noitinha. Seu humor também oscilava da alegria à oposição obstinada. mas passou para um terreno mais psicológico quando ela ficou completamente muda por duas semanas. ela levantou-se da cama pela primeira vez. Durante esse período. várias paralisias e perdeu a capacidade de falar normalmente. um real e um maligno que a obrigava a se comportar mal. o que significava que Breuer a compreendia.42 Rosine Jozef Perelberg & Cols. previamente. e agora ela conseguia sustentar a cabeça. isso significava que ela passava as noites ao lado da cama dele. Subsequentemente. Breuer. no quarto dos pais. O que está claro é que sua mãe e seu irmão não a deixaram mais cuidar do pai e. O atento interesse de Breuer por seus sintomas passou do exame de seus membros para uma análise de suas dificuldades de fala. Ela não fazia nada além de cuidar do pai à noite. qual estou inclinado a especular sobre uma inglesa como babá. À noite. Bertha falava de uma “escuridão profunda” em sua cabeça. no início. As coisas pioraram rapidamente depois que ela foi banida e. mais tarde. sua primeira interpretação. de ficar cega e surda. Em uma ocasião. em dezembro. Enquanto isso. ela se esgueirava para fora da cama e ia até o quarto dos pais. parecia a imitação histérica de um acidente vascular cerebral. Seus deveres como enfermeira foram interrompidos. e as tardes descansando em seu próprio quarto. mas não está claro quem instigou isso. Quando sua mente estava clara. Um mês mais tarde. Ele vinculou o seu silêncio a um sentimento de mágoa e raiva por algo que o pai dissera e que a ofendera. Então. seu adorado pai . quando ela apresentou uma “tosse histérica” intensa ao cuidar do pai doente. Breuer investigou isso.

não tinha como entrar em contato com ela ou influenciá-la e recorria a medicações. 1993. Hermann Breslauer que. ela narrava a Breuer o conteúdo de suas alucinações diárias. Agora o padrão era de alucinações durante o dia. Breuer descreveu isso como uma de suas “alucinações negativas”. foi interrompido por Kraft-Ebbing. a presença da mãe ou do irmão provocava um estado de extrema perturbação. 267). ela ficou sob os cuidados do Dr. p. eles estabeleceram o padrão que persistiu. que previamente haviam sido “composições poéticas livremente criadas”. assim como o restante do simbolismo sexual. p. 268). foi interrompida quando Breuer lhe apresentou um outro médico antes de se ausentar por “vários dias”. p. fora de Viena. p. Durante este último estado. As tentativas de Breuer de ficar menos tempo com ela podem ter influenciado os eventos que o levaram a hospitalizar Anna O novamente. Seguindo-se a isso. sonolência à tarde e o que ela chamava de “nuvens” e Breuer chamava de auto-hipnose. 27). o famoso psiquiatra. Quando a visitava. fez numerosas tentativas de suicídio. ele tinha . Foi hospitalizada em uma casa de campo do Inzerdorf Sanatorium. Segundo Freud. que pôs fogo em um papel e soprou fumaça em seu rosto. Breuer conseguia transformar seu estado mental escutando suas histórias. ela não conseguia reconhecer as pessoas e às vezes nem as enxergava. 1993. 1895. dormia profundamente à tardinha e depois passava horas “falando abertamente” com Breuer e acabava ficando “calma e alegre” (ibid. quebrou janelas e alucinou. Ao voltar de suas curtas férias. Ela não o vira por algum tempo e a deterioração de sua condição fora escondida dela. limpeza da chaminé. O double entendre desta última expressão. Sua reação foi violenta e furiosa. Breuer a visitava a cada três dias para o que ela agora chamava de “cura pela fala” ou “limpeza da chaminé” (Ellenburger. Ela estava completamente anoréxica. Mathilde Breuer ficou enciumada e zangada com o tempo que o marido passava com a paciente ou falando sobre ela. Breuer encontrou-a bem pior. Ela ficava sonolenta à tarde. das quais ela acabou se tornando dependente. Para ser reconhecido. em 7 de junho de 1881. de uma maneira ou outra. especialmente em relação à mãe. contra a vontade dela. Fora Breuer. Nessa época. lúcida e alegre. durante todo o tratamento. o médico era Richard von Kraft-Ebbing (Ellenburger. diferentemente de Breuer. não comeu nem dormiu por 3 dias. O divertido intercâmbio com Breuer. quando ele não estava presente. ou cura transferencial como poderíamos descrevê-la agora. ela ficou letárgica por dois dias. Mas isso mudou quando Breuer retomou as sessões com ela.Freud: uma leitura atual 43 morreu” (Breuer. que a fazia ler um texto em francês e em inglês em voz alta. mas Freud ficou sabendo da gravidez e trabalho de parto histéricos subsequentes. O único momento em que estava consciente era quando estava com Breuer. e isso não escapou à sua atenção. não foi percebido por Breuer. mas pela força”. Depois. “sem mentiras. Suas “ausências alucinatórias” encenadas. Ela saiu correndo para a porta para pegar a chave e. depois do que. Essa rápida melhora. teve um “breve ataque de raiva e profunda ansiedade”. Ela ficava intermitentemente suicida durante o dia. Anna O não enxergou nem reconheceu a existência do outro médico. depois de cair inconsciente. eram agora alucinações terroríficas de “cabeças de morte”. 25). No sanatório. escrevia ou desenhava até muito tarde da noite. que também se tornou a única pessoa que podia alimentá-la. Assim que foi internada.

“ela vivia no inverno de 1880/1”. Breuer não relaciona os estados mentais de Bertha ao seu apego a ele. ele enuncia pela primeira vez seu conceito de transferência. Freud acrescentou: “Todos [desses casos] que atendi se transformaram em uma histeria de defesa”. mas. Elas incluíam as circunstâncias da morte do pai. que ele foi escrito por Breuer 12 anos após o final do tratamento. quando ele sabia que ela havia se recuperado. Quando. II. maliciosa. Anna O (1910. quando sabia que a encontraria em hipnose. falando no início em inglês. Para continuar de acordo com a teoria de Breuer. 33). isso foi transformado em sua teoria da catarse. para que ela pudesse relembrar suas impressões do ano anterior. várias vezes. Em um desses estados. Breuer estava convencido de que isso se devia simplesmente a “produtos imaginativos” acumulados que só ele sabia como liberar. 302). o que a tornou novamente melancólica e irritável. Depois disso. Posteriormente. isto é. p. ele até aceitou Anna O como exemplo de algo que ele nos diz jamais ter encontrado pessoalmente. Ao voltar desse “intervalo”. Freud. mesmo em retrospecto. ela fica eufórica e. Isso começou no aniversário do dia em que fora proibida de ver o pai. Não podemos esquecer. assim como a ex-paciente. mas ia se tornando mal-humorada e difícil até a próxima visita. de maneira estereotipada (ibid. quando não está. intratável. ela ficava calma e alegre. Ele agora a atendia duas vezes ao dia. p. embora fosse o inverno de 1881/2. e então a aliviava de todo o estoque de produtos imaginativos que ela acumulara desde a minha última visita”. quando ele está presente. enquanto ela ainda estava no sanatório. 1895. Breuer “confidenciou a Freud que ela estava extremamente perturbada. p. 247). claramente. de pegar as mãos dela e convencê-la a contar histórias para ele. sempre que ele vai embora.). quando seu estado começou a deteriorar nitidamente. faz isso sem citar seu exemplo mais óbvio. foi retomado o ritmo anterior no sanatório. a fim de aliviá-la ou com a auto-hipnose dela ou induzindo hipnose. Ela voltou a Viena consideravelmente melhorada no outono de 1881. mas se centravam principalmente “nos eventos e tormentos de 1881” que envolviam Breuer (Breuer. encontrou-a em uma condição lastimável: inerte. Em agosto.44 Rosine Jozef Perelberg & Cols. ainda sofria. . Ela compartilhava com Breuer esse inverno revivido. Sua melhora regular se manteve até dezembro de 1881. na contribuição final para Estudos sobre a histeria. ela fica ansiosa. isso foi a confirmação de que ela sofria de “complexos ideacionais” acumulados. Um ano depois do término do tratamento. que eram aliviados pela expressão verbal tanto na hipnose induzida quanto na auto-hipnose. Sua solução de vê-la todos os dias acaba se transformando em duas sessões por dia. um caso de “histeria hipnoide”. ele. Ele resolveu o problema levando-a de volta para Viena por uma semana e fazendo uma sessão todos os dias no início da noite. Teve início uma nova fase em sua condição: ela agora apresentava estados mentais alternados todos os dias. Breuer comenta. Ele descreveu isso da seguinte forma: “Eu costumava visitá-la no início da noite. ele saiu em férias por cinco semanas. ao ler o relato de 1895. seu estado deteriora nitidamente. que. O padrão do comportamento de Anna O estava agora ainda mais claramente ligado a Breuer. viu isso de outro modo. Para Breuer. Seguindo-se a isso. que ele gostaria que ela morresse para se libertar de seu sofrimento” (Jones. 1953.

Foi assim que o caso atingiu seu dénouement. e passou a descrever. Ela não ingeria nada líquido e sobreviveu à base de frutas como melão nas seis semanas em que durou o sintoma. 34) Esse episódio foi muito destacado por Breuer por ser o protótipo de seu novo método de ligar sintomas a eventos “traumáticos” específicos relembrados. ele chamou essas lembranças do passado de caprichos. Em seu relato original de 1882 (Ellenberger. Anna O apresentou um novo sintoma: “ela. Quando “relembrou” esse episódio com raiva e nojo. Como disse anteriormente. 34). sua filha foi concebida. como se estivesse no antigo. seu duplo dénouement: o primeiro clímax foi narrado novamente por Breuer no estudo de caso publicado. o segundo clímax. antes de ser aliviado por uma reminiscência durante a hipnose: Ela se queixou de sua dama de companhia inglesa. Eles saíram por alguns dias e. conforme o programado. que era o aniversário de seu ingresso no sanatório. enquanto Anna O ainda estava em tratamento. ela provavelmente assistira à amamentação de seu irmãozinho recém-nascido. dando de beber ao bebê em seu seio. ela decidiu que seu tratamento deveria terminar exatamente em 7 de junho de 1882. 268). Anna O e Breuer inventaram a teoria da catarse e todos os seus sintomas desapareceram. Eu acho que Anna O acreditava que esse era o momento em que os Breuer tinham concebido o novo bebê. em seu novo quarto. Anna O era íntima do círculo de Breuer e teria descoberto a existência dessa gravidez. Anna O reorganizou seu quarto para que se assemelhasse . Na quente primavera de 1882. como entrara uma vez no quarto daquela senhora e vira seu cachorrinho – uma criatura horrorosa! – bebendo em um copo. durante aquele mês. Em suas duas visitas diárias. ou melhor. Frau Breuer ficara zangada e impaciente com o envolvimento de Breuer com a paciente. ou fantasia. Aos 16 meses. a esposa quase inglesa de seu médico. provavelmente algum tempo depois de seu retorno do hospital para uma nova casa em Viena. Assim. p. em 7 de junho de 1882. Breuer agora a convidava a contar a ele a origem de cada sintoma ou mudança de humor em alguma lembrança. no outono de 1881. subitamente. p. ou anticlímax. de quem não gostava. 1895. (ibid. e sugeri que a hospitalização de Anna O em 7 de junho de 1881 foi uma consequência da insistência de Frau Breuer de que o marido passasse mais tempo com ela. p.Freud: uma leitura atual 45 Com as informações mais recentes de Ellenberger. A filha de Breuer nasceu em março de 1882. 1993. Foi nesse contexto que Anna O obliterou o presente em seus estados histéricos e voltou a viver no ano anterior em seus devaneios. Ela se comportava. do passado. ainda um bebê. com todos os sinais de nojo. A cena final do tratamento oficial aconteceu. quando a filha de Breuer era um bebê e presumivelmente estava sendo amamentada pela mãe. Em algum momento. Do nosso vantajoso ponto de vista psicanalítico. sua fobia de beber desapareceu. foi o que ele confidenciou a Freud no verão de 1883. podemos chamar a atenção para um evento paralelo que foi obscurecido quando Ernest Jones entendeu mal a sequência dos eventos contados a ele por Freud. não seria excesso de imaginação reinterpretar essa fobia de beber como uma reação a suas fantasias com Frau Breuer. juntos. não conseguiu mais beber nada” (Breuer.

ela viu uma cobra negra vindo em direção ao pai para mordê-lo e tentou afastá-la. Devidamente horrorizado. O segundo dénouement. Breuer a hospitalizou no Bellevue Sanatorium. 40). nós precisamos de um espaço mental fantasiado em que esses eventos possam acontecer (Britton. ele fugiu e deixou a paciente com um colega (Gay. Sentada junto à cama dele. p. Se eu fosse esquematizar o caso de Anna O nesses termos. Sua tosse estava associada à música de dança escutada ao lado da cama e. p. Uma união mortal. Breuer foi chamado novamente e a encontrou confusa e contorcendo-se com cólicas abdominais.46 Rosine Jozef Perelberg & Cols. anorexia e progressiva fraqueza. os dedos se transformaram em pequenas cobras com cabeças de morte nas extremidades. 120-7). Depois de representar essa cena para Breuer em 7 de junho de 1882. Em linguagem comum chamamos isso de “nossa imaginação”. Eu equiparo esse espaço fantasiado ao que chamei de “o outro quarto” e sugeri que originalmente esse era o lugar em que o objeto primário continuava existindo quando fisicamente ausente. DISCuSSãO DO CASO DE AnnA O Eu gostaria agora de falar sobre o caso conforme o imagino. Em um artigo sobre “Realidade e irrealidade na fantasia e na ficção”. subsequentemente. ele contou a Jones e também em uma carta a Stefan Zweig. A história começa no quarto do pai. 66-7). Essa recordação explicava seus sintomas subsequentes de acordo com a nova teoria do trauma de Breuer e parecia confirmar seu conceito conjuntamente inspirado de catarse ou “limpeza da chaminé”. Kreuzlingen. 1988. Depois de atender Anna O pela última vez. esse era o setting da cena primária invisível da infância. ao quarto do pai durante sua doença terminal. B. Houve algumas outras hospitalizações breves antes que a mãe a levasse para morar com ela em sua cidade natal. ela respondeu: “Agora vai nascer o bebê do Dr. Os quartos das outras pessoas e “outros quartos” desempenham um papel significativo no caso de Anna O.”. sugeri que. Questionada sobre qual era o problema. mas sua linguagem falhou até ela lembrar alguns versos infantis em inglês. 1995. onde ela permaneceu até outubro de 1882. descrito a Freud no verão de 1883. e ser excluída dele a fez adoecer. ela encenou a alucinação terrorífica que acreditava ter sido o início de sua doença no outono de 1880. para “imaginar coisas”. ela conseguiu falar novamente em alemão e ficou livre de suas “inumeráveis perturbações” (ibid. Então. ela estava aterrorizada e tentou rezar. Este é o fim da história oficial. com o pai moribundo. Freud comentou que “naquele momento Breuer segurava uma chave na mão e a deixou cair”. por identificação. Seu braço ficou paralisado e. onde ela ficou e continuou bem. era provocada por música rítmica. o veria começando no quarto parental com sua tosse. Como um objeto não pode ser “imaginado” como existindo exceto em relação a outro objeto. Na verdade. que recitou. p. Quando a cobra desapareceu. Frankfurt. um ramo torto de árvore a fez lembrar da cobra e seu braço direito logo se esticou rigidamente. perto do lago Constância. quando olhou para a sua mão. A alucinação da cobra negra entendo como a . No dia seguinte a essa alucinação.

mas agora o relacionamento ilusório de Anna exigia duas visitas prolongadas todos os dias. O clímax. dizemos que estamos imaginando alguma coisa. ou por alguns. Quando. Isso foi o que Anna O fez antes de sua doença. uma caricatura de um casal primário em relação sexual. e o caos de seus movimentos e as contraturas de membros rígidos. temos visões. enquanto a mãe e o irmão se tornaram o casal transferencial mau. erroneamente. as visões são consideradas alucinações. um lugar onde ela passava muito tempo. Sua fala espelhava o movimento de seus membros: infantil. o Dr. aniquilou o ano anterior ao retornar ao seu relacionamento prévio com Breuer e ao insistir em que estava em seu antigo quarto com ele. É o lugar onde o objeto . um quarto definido pela nossa ausência física nele. que voltou para encontrar novamente Anna O naquele “outro quarto” e com outra identidade. podemos usar a nossa imaginação. Anna O. O relacionamento agora precisava lidar com uma nova circunstância: a gravidez da esposa de Breuer e o nascimento de sua filha. Esse é o espaço da ficção. Ela salvou a si mesma ao dizer os versos da hora de dormir de sua infância. no trabalho de parto alucinatório. mas o perderam novamente com o intervalo de cinco semanas no verão. aparições sobrenaturais. da alucinação que deu origem à sua doença histérica. Isso foi interrompido quando ela foi afastada do pai e do quarto parental. como no caso de Anna O. como William Blake. Esse período sereno foi encerrado pela ameaça da partida dele e a introdução de uma terceira pessoa na situação. Eu fiz esse relato um tanto melodramático a fim de enfatizar como o consultório da análise pode ser colonizado por eventos que estariam acontecendo na imaginação do paciente – o “outro quarto” da mente do paciente. que ela finalmente aniquilou pela alucinação negativa. Breuer e sua paciente se esforçaram para reinstalar o equilíbrio anterior. Novamente em Viena. com o casal primário contando “histórias de fadas”. foi a recriação. Kraft-Ebbing. quando o objeto primário é visto como continuando a existir mesmo em sua ausência perceptual. encenada por Anna O em sua cópia do quarto do pai. Fora dos sonhos. ela recuperou a língua materna. no aniversário do que Anna O imaginava ser a data da concepção do bebê dos Breuer. Sugeri em meu relato anterior que o “outro quarto” da imaginação passa a existir. Quando localizamos as nossas fantasias nesse “outro quarto”. o desenvolvimento da transferência modificou a situação. mas em uma nova casa. Esse “drama catártico” foi acompanhado por Breuer. o quarto das crianças. A essa altura. colocando-se assim em seu próprio quarto. deslocada e polissilábica. Então Breuer se tornou seu parceiro em um intercurso simbólico maniacamente reparador. então. Um desempenho que uniu o casal em sexo e morte. Agora parecia que Breuer e Anna O eram os ocupantes de um “outro quarto” imaginário. no que ela chamou de “teatro particular” de seus devaneios. Sua subsequente paralisia expressava a falta de capacidade locomotora do bebê. Anna O e Breuer restabeleceram sua parceria. dando à luz o bebê fantasiado deles.Freud: uma leitura atual 47 morte por intercurso sexual e seus dedos com cabeça de morte como uma forma mortal de masturbação. Lá. localizamos na esfera do espaço perceptual fantasias que em verdade pertencem à imaginação. o pênis negro do pai envenenando seu possuidor e os dedos de cabeça de morte declarando a morte dela pela fantasia masturbatória. Se estivermos preparados para limitar essas fantasias ao “outro quarto”. em termos desenvolvimentais.

O “outro quarto” é. p. vive sua existência invisível. não é a mesma coisa. ela descobriu “que todos os tipos de teatro e encenação simbolizavam o coito entre seus pais” (Klein. Este é um tema em si mesmo e está além do escopo deste capítulo. DISCuSSãO E RESuMO Como André Green (Green. Na transferência borderline. A histérica. é concebido em relação a outro objeto que é uma condição de existência. mais dramático. Portanto. . então por que escreveu esse segundo artigo. a insistência está em possuir exclusivamente o amor do analista. O “teatro particular” de seus devaneios é encenado em um drama psíquico personificado no corpo. em outras palavras. o que leva a uma “ilusão” de transferência que ignora a importância de qualquer outra realidade além do amor e aniquila os vínculos eróticos do analista com qualquer outra pessoa. enquanto na síndrome border‑ line a pretensão é de possuí‑lo na esfera do conhecimento. o qual subsequentemente envolve sua família e seu médico em uma cena de total transferência. A contratransferência característica na análise do paciente borderline descrevi em The missing link (Britton. torna-se uma participante do ato: sobe no palco e assume o papel de um dos pais. 1997. Freud escreveu sobre a transferência erótica na histeria em seu artigo “Observações sobre o amor de transferência” (1915) em sua série a respeito de “técnicas”. a insistência está em um entendimento intersubjetivo completo. o sentimento do analista é de ser especialmente importante e idealizado: há o risco de uma parceria conivente de mútua admiração. p. Se eu fosse generalizar sobre a diferença entre a investida essencial das duas síndromes. sugiro. até a organização defensiva histérica se desfazer.48 Rosine Jozef Perelberg & Cols. embora tenha aspectos em comum com a síndrome bor‑ derline. uma fantasia em ação como a descrita tão vividamente no caso de Anna O. Na histeria. pelo contrário. eu diria que na histeria é dada prioridade à pretensão de possuir o objeto na esfera do amor. Em consequência dos usos diferentes da identificação projetiva na histeria e na síndrome borderline. 1924. uma diferença diagnóstica importante é como o analista experiencia a transferência e a contratransferência. Na análise de Erna. a localização da cena primária invisível. vejo a histeria como um estado psicanalítico distinto que. Acredito que ele. ela acredita ser uma das partes do casal parental realizando tudo o que imagina acontecer na cena primária fantasiada. 39). uma menina de 6 anos. Klein dava importância central à cena primária em suas análises de crianças. 39-42). Por uma fantasia onipotente de identificação projetiva. mas basta dizer que a diferença é acentuada. Ele já tinha escrito sobre o desejo transferencial comum como uma recapitulação de desejos edípicos em seu artigo anterior “A dinâmica da transferência” (1912). na histeria. inevitavelmente. 1989) e é uma contratransferência de se sentir constrangido ou tiranizado. com a aniquilação de tudo o que poderia indicar que o analista aprendeu ou compartilhou conhecimentos significativos com qualquer outra pessoa. Penso que isso constitui a encenação histérica.

1912). que inclui um relato de caso de Breuer. sexo e morte estão caracteristicamente ligados no que vejo como uma “organização patológica” (Steiner. . alguém grita “fogo” durante uma peça teatral. Ela também coloca a cena da ação no teatro. o que. na correspondência Abraham-Freud e no relato de Didieur Anzieu da Autoanálise de Freud. O material analítico de Anna O frequentemente combinava sexo e morte. escrito em 1882 para o hospital ao qual ele a encaminhou. O emaranhamento erótico de transferência-contratransferência nesse caso deve tê-lo lembrado de Breuer e Bertha Pappenheim. os eventos na audiência provavelmente dominarão os do palco. Eu sugiro que essas fantasias encenadas defendam o indivíduo da dor de perceber a realidade da situação edípica ou da culpa por aniquilá-la. Essa cena dramatizada pode representar a união sexual na forma de uma fantasia erotizada de morte mútua. Penso que uma das coisas que provocou esse artigo foi o conhecimento de Freud sobre a análise de Sabina Spielrein por Jung. O papel desempenhado pelo “instinto de morte” nas neuroses é um assunto fora do escopo deste artigo. Há muitos paralelos entre Anna O e Sabina Spielrein. Ele escreve: Há uma mudança completa de cena. Freud se sentiu incapaz de revelar publicamente algo que influenciou profundamente suas convicções. juntamente com os registros posteriores do hospital sobre o caso. nos comentários subsequentes de Freud em vários artigos. em 1912 (Spielrein. de Henry Ellenberger. No teatro da “histeria”. por exemplo. o lugar adequado para o drama é o palco.Freud: uma leitura atual 49 especificamente sobre a “transferência erótica”? Ao buscar uma metáfora para tal análise. (1915. p. Meu relato se baseia em Estudos sobre a histeria. na minha opinião. ele entra nessa discussão porque. 162) A oscilação entre a realidade do teatro e a realidade teatral. No entanto. nOTA 1. Se for assim. uma fantasia de testemunhar a cena primária. Mais uma vez. e nosso lugar apropriado é a audiência. na biografia de Anna Freud. seguindo Melanie Klein. entre eles a interação de amor e morte. Foi Sabina Spielrein quem primeiro escreveu sobre um impulso destrutivo primário. é como se algum faz de conta fosse interrompido pela súbita irrupção da realidade – como quando. que expressa as pulsões sexuais e destrutivas na forma de uma fantasia em que o sujeito se torna uma das partes do casal primário pela identificação projetiva. é simbólico. que tentei limitar à sexualidade na histeria. na histeria. ele nos leva ao teatro. nas biografias de Freud escritas por Ernest Jones e Peter Gay. contudo. entre a realidade da transferência e a realidade transferencial nesta metáfora acho absolutamente atordoante. Também se baseia em “The story of ‘Anna O’: a critical review with new data”. 1987). Nenhum médico que experiencia isso pela primeira vez consegue manter o controle da situação analítica com facilidade e evitar a ilusão de que o tratamento realmente chegou ao fim.

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