ABR/MAI/JUN - 2012 - Nº 58

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Índice
ECONOMIA

Expediente

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DESTAQUE

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Think Tank - A Revista da Livre-Iniciativa

Ano XV - no 58 - Abr/Mai/Jun - 2012 CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO Arthur Chagas Diniz Elcio Anibal de Lucca Alencar Burti Paulo de Barros Stewart Jorge Gerdau Johannpeter Jorge Wilson Simeira Jacob José Humberto Pires de Araújo Raul Leite Luna Ricardo Yazbek Roberto Konder Bornhausen Romeu Chap Chap CONSELHO EDITORIAL Arthur Chagas Diniz - presidente Alberto Oliva Aloísio Teixeira Garcia Antonio Carlos Porto Gonçalves Bruno Medeiros Cândido José Mendes Prunes Jorge Wilson Simeira Jacob José Luiz Carvalho Luiz Alberto Machado Nelson Lehmann da Silva Octavio Amorim Neto Roberto Fendt Rodrigo Constantino William Ling Og Francisco Leme e Ubiratan Borges de Macedo (in memoriam) DIRETOR / EDITOR Arthur Chagas Diniz JORNALISTA RESPONSÁVEL Ligia Filgueiras RG nº 16158 DRT - Rio, RJ PUBLICIDADE / ASSINATURAS: E-mail: il-rj@dh.com.br Tel: (21) 2539-1115 - r. 221 FOTOS ImagePlus, Wikipedia e Wikimedia.

A CRISE EUROPEIA E SEUS EFEITOS NO BRASIL
Marcus Vinícius de Freitas

A HORA E A VEZ DO INVESTIMENTO EM INFRAESTRUTURA
Raul Velloso

ESPECIAL

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MATÉRIA

DE

CAPA

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O BOM, O MAU E O FEIO
Uma visão liberal do fato

PERSPECTIVAS DE UM IRÃ NUCLEAR
Salvador Raza

DESTAQUE

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LIVROS

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LIBERDADE NO COMÉRCIO INTERNACIONAL E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO
José L. Carvalho

UM ANARQUISTA FRUSTRADO
por Rodrigo Constantino

INSTITUTO LIBERAL

Nesta Edição

Rua Maria Eugênia, 167 - Humaitá 22261-080 - Rio de Janeiro - RJ Tel/Fax: (21) 2539-1115 E-mail: ilrj@gbl.com.br Internet: www.institutoliberal.org.br

REALIZAÇÃO

NOTAS examina o PL nº 1992/2007, o qual institui o regime de previdência complementar para os servidores públicos e federais.

BANCO DE IDÉIAS é uma publicação do Instituto Liberal. É permitida a reprodução de seu conteúdo editorial, desde que mencionada a fonte.

Leitores
Sua opinião é da maior importância para nós. Escreva para Banco de Idéias. Senhor Editor, Tenho visto, com assombro, alguns debates na TV onde, apesar do cuidado dos debatedores em relação a políticas públicas, fica patente a crítica à incidência de impostos pagos pelos consumidores. E, aparentemente, não são apenas alíquotas elevadas sobre bens de consumo. Ainda ontem, num debate na TV, o economista Belluzzo dizia que um caminhão pesado aqui no Brasil custava em média três vezes o preço do mesmo veículo nos EUA. Ora, mesmo não sendo economista sei que o transporte rodoviário é, de longe, o mais utilizado no Brasil, o que acaba por se refletir no custo final. Isso não é um contracenso? Ana Paula F. Carvalho Patos de Minas - MG Prezada leitora, A senhora tem toda razão. Na verdade, o problema é bem mais sério do que uma tributação elevada sobre bens de consumo, pois se estende a tudo. Alimentação, vestuário, gás e energia elétrica são tributados como se fossem itens de consumo perfunctório. As contas de luz que você paga em casa ou que o empresário paga na fábrica representam o dobro do que paga o cidadão norte-americano. Pior que tudo, estes 37 ou 38% do PIB que representam o total de impostos servem apenas para pagar as despesas correntes. O que sobra para investir é muito pouco. Em função disso, as estradas (não privatizadas) são ruins e os custos dos transportes muito elevado. O brasileiro trabalha quatro meses por ano só para pagar impostos. O Editor
Envie as suas mensagens para a rua Rua Maria Eugênia, 167 Humaitá - Rio de Janeiro - RJ 22261-080, ou ilrj@gbl.com.br.

Editorial
presente edição conta com uma grande variedade de artigos que pretendem dar respostas a questões tão diferentes quanto a prospectivas e riscos de um Irã nuclear, até um exame da carência de infraestrutura no Brasil e a necessidade da realização de investimentos, objetivando torná-lo internacionalmente competitivo. Os dois artigos são assinados por reconhecidos especialistas. O Irã Nuclear é examinado pelo Prof. Salvador Raza, criador do conceito e da metodologia do Projeto de Forças. A necessidade de atualizar a infraestrutura brasileira, inevitável para viabilizar a competitividade internacional do país, é examinada pelo economista Raul Velloso. Há necessidade, afirma o articulista, de superar os enormes gargalos criados com a virtual inexistência de investimentos em estradas de rodagem e de ferro, portos e aeroportos. Sem a privatização, via concessões, não há caminho viável para manter as mercadorias brasileiras competitivas no exterior. Quais são e serão os efeitos da crise europeia sobre o Brasil? O Prof. Marcus Vinícius de Freitas examina os países mais atingidos na zona do euro e, a partir da Grécia, o país que enfrenta os piores pro-

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blemas, encontra raízes semelhantes em outros atingidos, como Portugal, Espanha e Irlanda. Especialmente em relação à Grécia, o custo de mantê-la na zona do euro pode se mostrar insustentável. O autor examina o que o Brasil pode tirar de ensinamentos da crise europeia, especialmente em relação à sua competitividade internacional. O Prof. José L. Carvalho escreve sobre a Liberdade no comércio internacional e o desenvolvimento econômico, mostrando a importância dos ganhos de uniões aduaneiras entre nações como a segunda melhor alternativa ao comércio livre. Os argumentos que justificam os ganhos decorrentes do livre-comércio são claros, e o que o autor examina se refere à capacidade dos economistas de identificar empiricamente o impacto do livre comércio no desenvolvimento econômico. NOTAS analisa o Projeto de Lei nº 1992/2007, o qual institui o regime de previdência complementar para os servidores federais titulares de cargos efetivos. O Projeto, se aprovado, só desonerará a Previdência daqui a 36 anos. Rodrigo Constantino faz uma apreciação de Og Leme, um liberal, livro que reúne parte das crônicas do nosso saudoso professor.
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Economia

A crise europeia e seus efeitos no Brasil
Marcus Vinícius de Freitas
Professor de Direito e Relações Internacionais

euro falhou. Falhou porque tentou algo impossível: impor uma moeda comum numa sociedade heterogênea de países, ampliando uma divisão entre a Europa do Norte e a do Sul, com duas éticas e perspectivas diferentes quanto ao seu futuro. Os efeitos adversos da crise do euro evidenciaram um continente dividido, com a França e a Alemanha quase ditatoriais, ao implementarem medidas austeras como pré-condição para auxílio econômico aos países em di-

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ficuldade. Qual será a Europa que surgirá depois dessa crise? Esta é a pergunta feita por todos aqueles que, a cada dia, esperam uma novidade para a resolução de uma crise que se arrasta já há muito tempo, evidenciando que, apesar de todos os esforços, a ausência de liderança e visão política clara sobre o futuro impede a solução da crise e o fim de seu devastador impacto sobre os países em sofrimento. Acreditava-se que a crise financeira global, iniciada com

o colapso do Banco Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008, teria passado pelo seu pior momento em 9 de março de 2009, quando o índice Dow Jones despencou. No entanto, a crise na Zona do Euro que se seguiu tem demonstrado que o pior da crise ainda estava por vir, dessa vez afetando, principalmente, os países centrais do sistema financeiro internacional, com impactantes resultados sobre a estabilidade da economia mundial.

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Economia
A crise financeira na zona do euro ocorreu particularmente por motivos fiscais. Daí o motivo pelo qual a chanceler alemã, Angela Merkel, tem buscado utilizar a presente crise para avançar o desenvolvimento da união política com uma união fiscal através da qual os países com superávit orçamentário transfeririam fundos àqueles que apresentassem déficits orçamentários e de balança comercial. A Comissão Europeia, no entanto, teria o poder de rever os orçamentos domésticos e forçar os países a adotarem políticas que reduzissem os déficits fiscais, estimulassem o crescimento e a competitividade internacional, num aprofundamento ainda maior da intensidade do processo de integração. Esta perspectiva se deve ao fato de Grécia, Portugal e Irlanda, dentre outros, terem se endividado sem a devida arrecadação para pagar pelos gastos incorridos, ultrapassando o limite estabelecido no Tratado de Maastricht, de 1992, de 60%. Esse descontrole na razão dívida/produto interno bruto elevado reduziu a confiança na possibilidade de os governos saldarem suas dívidas. Eis aí, então, o ponto fundamental desta crise sem precedentes na história econômica, com um impacto enorme no coração do maior bloco comercial do mundo, com um enorme problema nas dívidas soberanas dos estados, particularmente da Grécia, além da fragilidade dos bancos europeus detentores dos títulos dessas dívidas. Várias são as razões para a crise da zona do euro. A perda de competitividade dos países europeus para os países asiáticos foi particularmente devastadora para Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e Espanha. Ademais, um dos equívocos foi acreditar que a adoção do euro, com a queda das taxas de juros em razão do viés positivo de expectativas quanto ao crescimento e à estabilidade no continente, eventualmente levasse a uma convergência das economias do Sul com o Norte da Europa. No sul europeu o crescimento acelerado de grande parte dos países se deveu ao incremento de setores como serviços, construção e um aumento do tamanho do Estado, com exportações estagnadas em relação ao produto interno bruto. Por outro lado, o nível de importações aumentou substancialmente, em particular devido à abundância de capital externo, o que estimulou o endividamento, privado e público. Ao norte, o fato principal foi a reunificação, que transformou a Alemanha no maior exportador do mundo, permitindo também uma expansão do mercado europeu devido à abundância dos recursos, o que, consequentemente, diminuiu a competição nos países afetados pela crise. Além disso, a adoção do euro, cujo valor estava baseado na tendência competitiva de países estáveis, como Holanda e Alemanha, dentre outros, tornou os bens exportados pelos países menos competitivos ainda viáveis, criando uma situação distante do mundo real de intensiva competição representada pela ascensão da China como economia mundial. Acrescentem-se a esses fatores as regras trabalhistas inflexíveis dos países afetados, incapazes de restringir o tamanho de seus Estados de bem-estar social na velocidade imposta pela nova realidade internacional, que conta agora não somente com a China, mas também com o

A chanceler alemã, Angela Merkel, tem buscado utilizar a presente crise para avançar o desenvolvimento da união política com uma união fiscal.

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Economia
elevado nível de depreciação de moeda e o aumento de produtividade laboral nos setores exportadores dos Estados Unidos e Japão, que se forçaram, por meio de estímulos, a sobrepujar os problemas da crise econômica de 2008 o mais rápido possível. Outro fator relevante foi o fato de que a política monetária europeia estava demasiadamente “folgada” para países como Espanha, Grécia e Irlanda, e muito rígida para a Alemanha, cuja demanda doméstica e os salários cresceram mais devagar em comparação à média europeia. Esse tipo de camisa de força fortaleceu a irresponsabilidade nos gastos públicos naqueles que deveriam ser os países mais cuidadosos na administração da abundância financeira. Como resultado desse cenário, alguns dos países entraram em recessão profunda, com queda substancial dos impostos, o que revelou que os gastos governamentais eram insustentáveis, com uma perda enorme de competitividade, reduzindo as expectativas de resolução rápida dos desafios enfrentados e a recuperação econômica. Esta crise alcança, dessa forma, uma profundidade impressionante nos seus resultados, particularmente em nível mundial. Em primeiro lugar, com a redução no crescimento europeu, importador de quase 1/4 das exportações mundiais, o comércio internacional será impactado severamente. A depreciação do euro, necessariamente, reduzirá os lucros dos produtos exportados para a Europa, apesar de, positivamente, aumentar a competição naquele continente. Ademais, a crise tem encorajado o aumento de competitividade dos países emergentes, uma vez que
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os capitais anteriormente destinados à Europa como investimento estrangeiro direto passaram a encontrar nestes o cenário ideal para o crescimento econômico. Observa-se, além disso, que a crise do euro ainda adicionará instabilidade e volatilidade aos mercados financeiros que, em razão disso, se comportarão com maior aversão ao risco. A crise, por certo, serviu como um sinal importante de alarme quanto às questões das dívidas soberanas e do aumento incontido dos gastos públicos. Uma eventual saída da Grécia da zona do euro, como sugerido por muitos, poderia prolongar a vida do euro. No entanto, tal solução poderia servir como um elemento de tentação para outros países saírem, uma vez que as medidas de ajuste a serem adotadas para a recuperação podem ser excessivamente difíceis quanto ao ajuste orçamentário e aos déficits comerciais, sem mudanças radicais.

COMO RESOLVER A QUESTÃO?
Baseando-se no histórico da recessão na Argentina, ao revogar sua Lei de Convertibilidade, e a moratória de 2001-2002, e da Letônia, que optou, num momento de crise aprofundada, por ajustar a situação por meio da consolidação fiscal e do corte nos salários, pode-se concluir que inexistem modos fáceis para resolver a questão da falta de competitividade internacional. Se a Grécia, por acaso, optasse por sair da zona do euro para recuperar a competitividade, uma possibilidade não prevista no Tratado de Maastricht, talvez o curso de recuperação econômica lhe fosse menos doloroso, seguindo um padrão anteriormente utilizado por países latino-

americanos e asiáticos de não pagamento das dívidas e desvalorização da moeda, numa tentativa de recuperar as economias mais rapidamente. Isso, certamente, facilitaria a recuperação mais rápida da economia grega, uma vez que a nova dracma teria um valor menor que o do euro. Dois aspectos são relevantes aqui: (i) para assegurar uma transição suave, tal mudança deveria ocorrer de modo inesperado, para garantir a liquidez do sistema bancário e impedir a transferência de euros ou o saque destes como reserva de valor, e (ii) a questão da permanência da Grécia dentro da União Europeia, um risco político demasiadamente alto e que merece ser pesado na análise dos benefícios e desafios no Acordo. Do ponto de vista da União Europeia também preocupa a saída da Grécia, que, se alcançasse resultados positivos pela adoção de novos parâmetros econômicos, poderia servir de estímulo a que outros países membros do bloco comercial, de menor tamanho, optassem por não mais fazer parte da zona do euro. A questão fundamental é saber se as empresas e os indivíduos na Grécia estariam dispostos a sofrer uma nova onda de dificuldades, dessa vez sem o anteparo da União Europeia e do euro, com um aumento do número de falências e da questão do aumento da dívida externa, agora numa moeda estrangeira chamada euro. A questão do ganho da rapidez no processo de recuperação precisa ser cuidadosamente avaliada para que o remédio não se torne ainda mais amargo, apesar de interessante e viável. No caso de os outros países afetados optarem por permanecer na zona do euro, uma série de reformas ainda será requerida

Economia
para assegurar a consolidação necessária para a estabilidade, tais como maior austeridade fiscal, reformas estruturais para assegurar maior competitividade e incremento de produtividade. Não se pode esquecer, também, da importância da recuperação econômica global como elemento essencial nesse processo de retomada de crescimento. existentes limitando, em grande parte, a capacidade da sociedade de gerar novos empreendimentos. O custo Brasil também impede a entrada de capitais estrangeiros de investimento que certamente teriam interesse de investir no País, porém não o realizam porque a infraestrutura existente é o nosso maior entrave de produtividade. É impressionante observar que, qualidade é fundamental na reavaliação de nossa capacidade competitiva. É hora de reconhecermos que a terceirização de nossa educação superior para países que têm melhor nível educacional, com melhores universidades e centros de estudo, é fundamental, se quisermos ganhar novos mercados. Taiwan, Coreia do Sul e China observaram esse problema e têm provido recursos para que milhares de seus jovens estudem nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Canadá, além de outros centros de excelência, para reunir o melhor conhecimento disponível existente nos mercados internacionais. É importante mudar a atitude para voarmos maiores altitudes. A questão trabalhista também é um assunto já abordado em várias ocasiões pelos mais diversos autores. Nossas leis defasadas impedem a flexibilidade que a sociedade capitalista moderna precisa para promover o crescimento econômico e, consequentemente, social. Além disso, em razão das inúmeras falhas do nosso sistema educacional, o Brasil deve rapidamente alterar a questão da entrada do trabalhador estrangeiro no País para facilitar o processo de absorção de cérebros estrangeiros. A crise europeia apresenta ao Brasil uma oportunidade única de podermos, em razão de nossa situação positiva, atrair muitos dos cérebros jovens europeus que se encontram perdidos no momento atual de desarranjo econômico no Velho Continente. Perdemos essa possibilidade quando, ao fim do regime comunista e com a enorme crise que se abateu naqueles países, milhares de pessoas foram para o Exterior viver e contribuir para as suas novas comunidades. É preciso flexibilizar nossas leis para incentivar a empregabilidade e a
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LIÇÕES PARA O BRASIL
A crise europeia tem muito a ensinar ao Brasil, particularmente neste momento em que o País se encontra numa onda positiva de crescimento e de maior interesse internacional pelas possibilidades oferecidas como potência emergente. No entanto, esta situação positiva parece ter “anestesiado” a sociedade brasileira quanto às inúmeras reformas ainda necessárias para consolidar a posição do País. Atualmente o Brasil ocupa a posição de 6ª economia mundial. Embora haja muitos motivos para comemorar, é importante recordar que já estivemos em posição semelhante na época do governo José Sarney, quando o Brasil era a 8ª. Esses posicionamentos mudam rapidamente, se não forem tomadas as medidas necessárias para a consolidação da posição. Três lições podem ser aprendidas da crise europeia: competitividade, flexibilidade trabalhista e a questão da entrada de capitais estrangeiros em abundância. No quesito competitividade, o custo Brasil constitui o nosso maior impedimento para alçarmos maiores voos como potência econômica. Esse custo se reflete numa elevadíssima tributação, um Estado pesado e um desincentivo à inovação, uma vez que o governo sorve todos os recursos

Um dos equívocos “foi acreditar que a adoção do euro, com a queda das taxas de juros em razão do viés positivo de expectativas quanto ao crescimento e à estabilidade no continente, eventualmente levasse a uma convergência das economias do Sul com o Norte da Europa.

apesar da crise mundial, o Estado brasileiro cresce enormemente, comprometendo o futuro das próximas gerações. Também a manutenção do real elevado tem impedido o Brasil de obter maior competitividade nos seus produtos. Ao invés de combatermos o Custo Brasil e a falta de flexibilidade cambial, o setor privado brasileiro, aliado a um Estado ineficiente, busca no protecionismo a forma de resolver sua incapacidade competitiva. Por fim, a questão da educação de

Economia
inovação no País, tornando-nos um polo de atração de excelência. A entrada de capitais estrangeiros no Brasil constituirá uma preocupação ainda maior no futuro, em razão da exploração do pré-sal. Certamente, a sobrevalorização da moeda brasileira implicará um processo ainda maior de desindustrialização se a indústria brasileira for incapaz de melhorar sua capacidade de inovação e competitividade. Tributar somente com o aumento do IOF, como adotado pelo governo brasileiro, é uma solução trivial para um dos problemas mais complexos do futuro econômico do Brasil. Por fim, sempre se afirma que toda crise é uma oportunidade em potencial. O caso da crise europeia também representa uma oportunidade ímpar para o capitalismo brasileiro, que necessita expandir-se internacionalmente para ser competitivo. Dessa forma, as empresas brasileiras deveriam acelerar a aquisição de ativos e empresas na Europa, atingidas pela crise. Por que a Alemanha deve ser a maior vendedora de café do mundo, se somos os maiores produtores? Integrar as cadeias de produção e comércio deve ser uma alternativa para o fortalecimento da economia brasileira. Como bem disse Carlos Lacerda, “os ousados terão por recompensa o futuro!” Esta crise europeia nos dá a oportunidade única de trilharmos um futuro melhor, se não repetirmos os erros lá ocorridos, resolvermos muitas de nossas pendências históricas e compreendermos que a oportunidade perdida pode nos fazer perder a posição que o Brasil demorou tantos anos por alcançar. Ousar é preciso. E rápido!
Protestos tem sido constantes na Grécia contra a crise financeira.

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Destaque

A hora e a vez do investimento em infraestrutura
Raul Velloso
Consultor econômico. Ph.D, Master of Philosophy e Master of Arts em economia pela Universidade de Yale, nos EUA.

ma importante característica da política macroeconômica brasileira desde a redemocratização da economia é a forte expansão do gasto público corrente. Independentemente do partido político que está no comando do Governo Federal, os gastos têm crescido e têm sido financiados pela elevação da carga tributária, pelo corte dos investimentos públicos, pela redução da poupança pública e pelo endividamento do governo.

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Essa tendência do gasto público estimula a demanda agregada. Para conter o efeito inflacionário desse aumento de demanda, o Banco Central é levado a manter altas taxas de juros reais. O investimento em infraestrutura é duplamente prejudicado por esse modelo de expansão dos gastos públicos: por um lado há o corte do investimento público (em geral feito em infraestrutura) e, por outro, há uma redução da

viabilidade de investimento privado em infraestrutura, decorrente do alto custo do dinheiro (elevada taxa de juros de equilíbrio), que implica alto custo de oportunidade em aplicar recursos em investimentos físicos, que envolvem risco e longo prazo de retorno, quando existe o investimento líquido, seguro e rentável em títulos públicos. Outra força relevante atuando sobre a economia brasileira é o que podemos chamar de “efeito

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Destaque
China”, que produz dois impactos relevantes e “gêmeos” sobre a economia: a queda no preço dos produtos industrializados fabricados a baixo custo nos países asiáticos, em especial na China, e a alta dos preços das commodities exportadas pelo Brasil. O Brasil atingiu alta competitividade na produção e exportação de commodities que, associada à persistente alta de preços no mercado internacional gerada pelo “efeito China”, gerou incremento na renda nacional e na poupança do setor privado. Tal expansão da renda resulta em crescimento da demanda agregada, que se soma ao efeito dos gastos públicos na expansão da demanda. A alta rentabilidade das commodities induz a economia a se especializar na produção nesse setor, provocando migração de capitais de setores menos rentáveis, como o da indústria de transformação e demais setores produtores de bens comercializáveis internacionalmente que estejam sofrendo a forte concorrência chinesa. Por isso, o aumento da demanda agregada decorrente da expansão das vendas internacionais de commodities vem sendo atendido, no setor de bens comercializáveis, pelas importações de produtos industrializados majoritariamente produzidos na Ásia. A forte vantagem comparativa asiática na produção de tais bens derrubou seus preços e os transformou em duros concorrentes da produção nacional. Já a maior demanda por bens não comercializáveis (serviços, infraestrutura, alguns segmentos da construção civil) gerou aumento de preços, devido à impossibilidade de complementar a oferta nacional com importações. A valorização dos bens não comercializáveis em relação aos bens comercializáveis significa uma valorização na taxa de câmbio real. Ou seja, a moeda nacional compra “poucos” bens não comercializáveis produzidos internamente e “muitos” bens comercializáveis ofertados no mercado internacional. Esse é o fenômeno básico que está por trás da valorização cambial: a expansão da renda e da demanda decorrente da corrente das emissões monetárias norte-americanas e das baixas oportunidades de investimento na Europa e nos EUA, que eleva a entrada de divisas no país via conta de capital. A consequência imediata da valorização do câmbio real é a perda de competitividade dos produtores brasileiros de bens comercializáveis, com destaque para a indústria de transformação. Além de enfrentar um câmbio desfavorável e uma forte concorrência chinesa, a indústria de transformação ainda tem que conviver com dois outros fatores que prejudicam sua competitividade: a infraestrutura precária (em especial nos setores de transportes e energia) e a alta carga tributária. Essa situação é consequência direta da opção do governo por expandir gastos correntes (aposentadorias, pensões, emprego público, benefícios sociais), financiando tal expansão mediante compressão dos investimentos e elevação de carga tributária. A reação da indústria de transformação é pressionar o governo (sendo muitas vezes bemsucedida) para que este erga barreiras tarifárias às importações e compre grandes volumes de moeda internacional para contrapor o efeito de valorização cambial. Essa política governamental de evitar o surgimento de déficit em transações correntes no balanço de pagamentos significa, em última instância, que o governo federal quer limitar a absorção de poupança externa, seja para financiar o consumo, seja para financiar o investimento. O investimento de um país é financiado por três tipos de poupança: a poupança privada (famílias e empresas), a poupança externa e a poupança do governo. Dado que o governo federal limita a absorção de poupança externa

A alta rentabilidade das commodities induz a economia a se especializar na produção nesse setor, provocando migração de capitais de setores menos rentáveis, como o da indústria de transformação e demais setores produtores de bens comercializáveis internacionalmente que estejam sofrendo a forte concorrência chinesa.

contínua expansão do gasto público, do boom do mercado de commodities e do barateamento dos produtos industrializados importados. O País não deve se livrar tão cedo dessa tendência, pois há duas outras forças atuando na direção da valorização cambial. A primeira é a exploração do pré-sal, que deve agregar mais uma commodity competitiva ao conjunto de bens ofertados internacionalmente pelo Brasil. A segunda é o excesso de liquidez internacional, de-

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Destaque

No Brasil é preciso aumentar a eficácia do investimento público em infraestrutura.

(seja para proteger a indústria de transformação da concorrência, seja para evitar o risco de o país ficar excessivamente endividado em moeda estrangeira), a colaboração de tal poupança para o financiamento do investimento passa a ser limitada. Em geral usa-se como regra de bolso um déficit em transações correntes de 3% do PIB como teto para a poupança externa. Assim, o investimento em infraestrutura precisa buscar financiamento adicional nas duas outras fontes de financiamento: a poupança privada e a poupança do governo. Porém, a poupança do governo tem sido próxima de zero ou negativa, devido à política de expansão do gasto público corrente. Logo, resta recorrer à poupança privada, que teve um leve crescimento nos anos recentes, em função do aumento

de renda decorrente do boom de commodities. Ocorre que essa poupança não fluirá automaticamente para os investimentos em infraestrutura. Isso porque tais investimentos costumam estar sob a regulação do governo, que fixa as condições para a sua realização. E parece haver no governo federal restrições de natureza ideológica à realização de investimentos em infraestrutura com recursos privados. Ainda que não disponha de poupança pública suficiente e que não esteja disposto a abandonar o modelo de gasto corrente crescente, o governo insiste em avocar a si a responsabilidade pela realização de investimentos. E quando decide operar por meio de concessões, é comum o desenho de um modelo que não é atraente aos investidores

privados, seja porque fixa baixas taxas de retorno, seja porque estabelece regras que geram insegurança jurídica. É preciso que o governo Federal saia da armadilha ideológica em que se colocou e monte leilões de privatização que garantam rentabilidade adequada e atraiam empresas com competência e que prezem por sua reputação, ao mesmo tempo em que desestimulem a participação de “franco-atiradores”. Adicionalmente, é preciso aumentar a eficácia do investimento público em infraestrutura, nos casos em que não há viabilidade econômica para concessões ou parcerias públicoprivadas. É necessário reduzir a burocracia, aperfeiçoar e agilizar as regras de licitação e melhorar a capacidade dos órgãos públicos para fazer e analisar projetos.

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Especial
Uma visão liberal do fato

poder judiciário no Brasil, através de pesquisa de uma das suas mais confiáveis instituições, está em crise. Isso se tornou mais evidente a partir de um relatório da juíza Eliana Calmon, explicitando o que muitos desconfiavam: a existência de “bandidos de toga”. O STF, última instância do Poder Judiciário, por representação da OAB e de Corregedorias Estaduais tentou obstar a ação sanitária, através da qual a Corregedoria Nacional poderia examinar processos ainda em análise pelas Corregedorias Estaduais. O assunto transformou a expressão “bandidos de toga” em tema nacional, tendo a própria OAB defendido posição simetricamente oposta. A batalha na opinião pública foi ganha com pertinência pela corregedoria. Sabe-se bem como funciona o corporativismo local. Infelizmente a sanção máxima, em nível judiciário, termina em aposentadoria precoce sem perda de vencimentos. É de ressaltar-se que parte substancial do STF gostaria mesmo é de silenciar Eliana Calmon. O STF tem se comportado mais como uma dependência da Presidência da República, o que é, vez por outra, deletério para o Brasil.

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em dúvida, o pior acontecimento nos últimos meses foi o episódio que envolveu o ministro Fernando Pimentel. Revelada a receita de mais de R$ 2 milhões obtida no final do ano, em episódio em tudo semelhante ao affair Palocci, o ministro declarou que os recursos teriam origem principalmente na FIEMG – Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais. A instituição declarou que, de fato, pagara esse valor a Pimentel por cinco palestras, até hoje não realizadas. À época da realização das palestras Pimentel já era atuante em relação a Dilma Rousseff, então assumida a Presidência da República. Como é conhecido, Pimentel integrara uma organização de luta armada no período da ditadura militar, atuando em uma organização cujo objetivo era estabelecer uma ditadura comunista. Ao contrário do que ocorreu com Palocci, que foi demitido pela presidente, Pimentel continua no governo. Para Dilma, que já perdeu seis ministros por suspeita de corrupção, a leniência no affair Pimentel faz acreditar que é seletiva em relação aos ministros de sua indicação direta.

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quase integral transformação do STF em um tribunal ideológico, função das indicações de Lulla para o preenchimento de seus cargos, tem conduzido suas decisões na busca de agradar ao Governo. A insatisfação com o pronunciamento da corregedora Eliana Calmon sabidamente desagradou ministros do Supremo. Oriundo do governo Lulla, Cezar Peluso encaminhou à Presidência da República discussão sobre o destino a dar ao criminoso italiano Cesare Battisti. Como se sabe, ele foi condenado pela justiça italiana com direito a todas as evidências jurídicas que existem naquele país. Responsável por quatro assassinatos, Battisti estava preso no Brasil e sua extradição pedida pela justiça italiana. O criminoso alegou ter cometido crime político em um país como a Itália, onde a liberdade é respeitada em todos os seus aspectos. O julgamento do elenco de crimes cometidos por José Dirceu e os 40 ladrões permanece aguardando a relatoria, fato que assusta aqueles que ainda vêem no Judiciário a esperança que efetivamente todos os crimes serão julgados, independentemente de sua autoria.

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Perspectivas de um Irã nuclear
Salvador Raza D.Sc.
Criador do conceito e da metodologia do Projeto de Forças. As opiniões expressas neste artigo não representam a posição de nenhuma instituição ou país.

governo israelense deve neutralizar as potenciais capacidades iranianas de montar uma bomba nuclear antes que Teerã tenha capacidade de efetivamente destruir seu país. Para isso os israelenses necessitam do apoio político e militar dos americanos, que preferem pressionar o Irã com um embargo econômico. Essa estratégia americana parece estar funcionando, só que mais devagar do que os

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israelenses precisam. Este artigo procura esplicar porque as coisas estão assim e como pode ser que evoluam, dado que um conjunto de premissas se materializem.

ENTENDENDO A EQUAÇÃO NUCLEAR
Bombas nucleares de baixa potência são relativamente fáceis de montar. A detonação ocorre quando o material físsil –

combustível – (urânio enriquecido ou plutônio) é violentamente comprimido por uma carga explosiva (convencional), atingindo massa crítica. Dois desenhos dessas bombas podem ser encontrados na internet. Um do tipo “canhão”, em que uma metade do combustível é literalmente atirada contra a outra dentro de um tubo pela detonação do explosivo. Outro do tipo “compressor”, em que o

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Matéria de Capa
explosivo detona ao redor do combustível, comprimindo-o para a massa critica. Quanto maior a precisão da sequência de detonação, menor a quantidade de urânio ou plutônio necessária. Cerca de 5 quilos de urânio produzem uma bomba com capacidade equivalente a 20 toneladas de dinamite (Kton), que cabe em uma mochila e pesa uns 35 quilos. A maior dificuldade para se montar uma bomba nuclear está no combustível. Enriquecer urânio significa remover impurezas. Com 5% de pureza o urânio serve para fins médicos. A 20% possibilita pesquisa em reatores de teste. Para ser ser usado em uma bomba nuclear precisa estar pelo menos 90% puro. Há várias técnicas de purificação, sendo por centrifugação a mais praticada. Primeiro o minério de urânio extraído das minas é processado (um estudante de terceiro ano de química sabe como fazer isso) em um polvilho de cor amarela (yellow cake), depois transformado em gás por processos também relativamente simples. Esse gás é então injetado em cascatas de máquinas centrifugadoras, onde minúsculas partículas do urânio puro se separam por diferença de densidade das impurezas. Maquinaria metalúrgica comum, que cabe em um barracão, transforma então o urânio em pastilhas para emprego nos reatores. Purificar urânio a 5% exige cascatas de milhares de centrífugas. Quanto mais centrífugas em cascata funcionando, mais rápido o enriquecimento – 3.000 centrífugas precisam operar cerca de um ano para produzir 5 quilos de urânio a 20%. Essas máquinas consomem uma enormidade de energia e quebram muito, já que algumas estarão girando a 60.000 rotações por minuto (imagine isso comparado com as 3.000 rotações de um carro a 100 km/hora). Além disso, ocupam um espaço enorme e deixam vazar radiação, por melhor que seja sua blindagem. O Irã necessita centrífugas eficientes para assegurar sua autonomia na sustentação do cimento até 90%. Como seria muito mais complicado para o Irã fabricar plutônio, e como se utiliza menos urânio enriquecido do que plutônio para a mesma capacidade nuclear explosiva, a propensão de o Irã construir uma bomba nuclear é dada por suas capacidades de enriquecer o urânio na percentagem requerida, nas quantidades necessárias e no tempo adequado. Por essa razão, a capacidade já demonstrada pelo Irã de purificar urânio habilita a dúvida que cria os efeitos da deterrência, modelando a equação nuclear em termos das possibilidades de ação política e militar dos atores envolvidos.

O TNP prescreve inspeções de controle da quantidade e do emprego do urânio enriquecido, bem como inspeções para assegurar que o enriquecimento de novas quantidades pare nos 5%, que em casos especialmente justificados não passe dos 20% ou então para levantar evidências conclusivas de que se está avançando (ilegalmente) para os perigosos 90%.

COMO SE QUER DESMONTAR A EQUAÇÃO DA BOMBA IRANIANA
O Tratado de Não Proliferação Nuclear 1 (TNP) prescreve inspeções de controle da quantidade e do emprego do urânio enriquecido, bem como inspeções para assegurar que o enriquecimento de novas quantidades pare nos 5%, que em casos especialmente justificados não passe dos 20% ou então para levantar evidências conclusivas de que se está avançando (ilegalmente) para os perigosos 90%. Mas o Tratado não coloca nenhuma restrição ao “direito inalienável” (assim está descrito no TNP) de os países pesquisarem, desenvolverem e utilizarem a energia nuclear para propósitos que não sejam os de construir artefatos nucleares, apoiando totalmente o intercâmbio de informações e tecnologias. Em 1993, os países signatários do TNP reconheceram que o Tratado tinha falhas, que a Norma tinha sido incapaz de prevenir os programas de armas nucleares

ciclo nuclear, composto pela extração e pelo processamento do minério, pela purificação e pela metalurgia do urânio, seguido da reação controlada para produção de energia, e então pela remoção, armazenamento e reprocessamento dos restos radioativos. A purificação do urânio permite o desvio do ciclo nuclear para a construção da bomba simplesmente continuando o enrique-

1 Arms Control Association (2005). The Nuclear Nonproliferation Treaty at a Glance. Recovered on February 21, 2012, on http://www.armscontrol.org/ system/files/npt.pdf

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Matéria de Capa
passam a ter que considerar a neutralização das plantas centrífugas, tal como o fizeram no Iraque e na Síria, para interromper a produção do combustível. Para se proteger de um ataque preemptivo (atacar uma ameaça potencial para evitar um esforço maior depois) os iranianos geraram redundâncias, com a construção de múltiplas plantas de enriquecimento em locais distantes, estrategicamente colocados para forçar o eixo de penetração das aeronaves de bombardeio vindas de Israel sobre suas defesas aéreas; e também colocaram essas plantas (pelo menos uma conhecida) em silos sob 80 metros de rocha. Além de ter que negociar com o Iraque e a Jordânia uma rota linear de suas bases para as centrífugas iranianas, Israel tem que coordenar o reabastecimento em vôo de um grande número de aeronaves, mas, principalmente, tem que contar com bombas de 30.000 libras americanas, as únicas no mundo que podem perfurar 80 metros de rocha com algum grau de sucesso para danificar as centrífugas, paralisando o enriquecimento por pelo menos uns 8 a 12 meses. Os iranianos sabem que os israelenses podem atacar, mas que sem o envolvimento direto dos americanos isso terá pouca efetividade. Isso se o Irã já não tiver armazenado combustível purificado a mais de 90%, eventualmente fora do Irã. Essa dúvida complementar complica enormemente a equação política, já que 5 ou 10 quilos de combustível podem estar nas mãos de radicais políticos fora do Irã (inclusive em países vizinhos aos EUA, com fronteiras permeáveis), prontos para elaborar um ataque retaliatório sobre Israel ou mesmo

Reator nuclear em Arak, no Irã.

secretos do Iraque e da Coreia do Norte, criando então os Protocolos Adicionais 2 para incluir mecanismos mais eficazes de fiscalização e controle físico dos inventários de combustível. Só que, para alguns países (Brasil inclusive), essa maior eficácia concorreria para vulnerabilizar a segurança tecnológica e a soberania nacional, sem efetivamente aumentar a capacidade de assegurar que um país não desenvolva a bomba. A realidade demonstra que quando a liderança de um país realmente se decidir pela bomba ela pode barrar as inspeções pelo tempo de que necessita, ou simplesmente abandonar o Tratado, já que, nessa condição, a percepção das possibilidades de ganho que a bomba traz seriam avaliadas como superiores às probabilidades de perda que esse país projeta ter sem ela.

O Irã faz enormes “malabarismos” para retardar, dificultar e obstruir as inspeções da Agência Internacional de Energia Nuclear, órgão autorizado pela ONU para a fiscalização. Essa atitude do Irã não visa gerar dúvidas sobre sua efetiva capacidade de enriquecimento, já que ele possui comprovadamente mais de 5 toneladas de urânio enriquecido a 5%, mas sim gerar dúvidas a respeito do quanto já foi enriquecido acima disso, e em até que grau de pureza. Sem inspeções in loco, que efetivamente demonstrem a quantidade de urânio enriquecido, mas com evidências de grandes instalações de centrifugação operando continuamente com gigantesco consumo de energia elétrica, além de vazamentos de radiação indicando que os iranianos caminham para fechar o ciclo da bomba, os israelenses

2 Arms Control Association (2006). The 1997 IAEA Additional Protocol At a Glance. Recovered on February 21, 2012, on http://www.armscontrol.org/ pdf/iaea1997additionalprotocolataglance.pdf

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Matéria de Capa
contra os EUA com uma bomba suja, em que uma explosão convencional é utilizada para espalhar material radioativo com catastróficas consequências. única opção israelense para romper os 80 metros de rocha que protegem essas plantas. importante para seu próprio desenvolvimento e para a construção da paz por dissuasão (inclusive com apoio de teóricos americanos de peso, tal como Keneth Waltz3). Enquanto o Pentágono diz que está planejando um eventual ataque ao Irã, ecoando as posturas republicanas mais radicais, a Casa Branca reforça a estratégia da pressão econômica, procurando evitar nova guerra em um ano de eleições. O futuro de Israel está em jogo nessa “queda de braço” que, por sua vez, reflete a construção das forças que se confrontarão nas próximas eleições presidenciais americanas. Se o Presidente Obama conseguir segurar a pressão, o ataque não ocorre antes de novembro. Se ele atacar antes, pode contentar Israel, mas perde as eleições; e se o Irã atacar antes, ele também perde as eleições. Enquanto o Governo Obama não deve, racionalmente, atacar o Irã, também não pode deixar Israel atacar, enquanto tem que neutralizar o lobby israelense sobre o Congresso dos EUA para poder exercer uma pressão econômica controlada contra o Irã. Para isso, tem que flexibilizar (leia-se “fazer vista grossa”) os mecanismos de exportação de óleo iraniano para a Índia, dificultar a venda com entrega imediata de armamentos antiaéreos russos para o Irã, impedir a transferência de tecnologia avançada de centrífugas para o Irã (leia-se pelo Brasil), desmontar o apoio da Síria e barrar apoios emergentes nos países da Primavera Árabe. As perspectivas prováveis resultam da combinação de alternativas decorrentes das possibilidades condicionadas desses eventos. Simples, não?

E AGORA, JOSÉ?
As perspectivas de um Irã nuclear dependem da resolução americana de apoiar militarmente Israel. O lobby israelense em Washington nunca esteve tão

A EQUAÇÃO POLÍTICA
A premissa política crítica é a de que uma crise nuclear IrãIsrael poderia ser contida regionalmente, mas que as consequências de uma bomba nuclear (ou uma bomba suja) contra os EUA não serão contidas nas fronteiras americanas, provocando uma crise político-estratégica global com convulsões sociais e desestabilização política generalizada. Israel tem que aceitar a prevalência dos interesses americanos sobre os israelenses na formulação da política exterior do Presidente Obama. Os EUA têm que apoiar a Arábia Saudita para sustentar a estratégia de ataques seletivos contra o terror, bem como manter aberto o canal de Ormuz, por onde passam 30% das rotas marítimas de óleo do mundo. É difícil para Israel reconhecer a necessidade do apoio americano ao Paquistão para balancear a capacidade nuclear da Índia, que com apoio tecnológico da Rússia (e agora da França) protege ostensivamente o Irã, de onde recebe o petróleo que necessita a custos bastante razoáveis, para impulsionar seu desenvolvimento econômico frente à China. Além disso, a política externa americana tem que manter o Hezbollah sem a capacidade de retaliar no caso de um ataque nuclear tático israelense contra as plantas subterrâneas de enriquecimento de urânio iranianas – já que sem o apoio americano armas táticas nucleares seriam a
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A realidade demonstra que quando a liderança de um país realmente se decidir pela bomba ela pode barrar as inspeções pelo tempo de que necessita, ou simplesmente abandonar o Tratado, já que, nessa condição, a percepção das possibilidades de ganho que a bomba traz seriam avaliadas como superiores às probabilidades de perda que esse país projeta ter sem ela.

ativo, procurando convencer os americanos de que o problema de um Irã nuclear tem desdobramentos globais, enquanto procura construir a percepção de que a racionalidade da liderança iraniana não gera confiança na construção da paz. Enquanto isso o lobby iraniano se esforça para construir a percepção de que um Irã nuclear é racionalmente

Sagan, S. e Waltz, K. The Spread of Nuclear Weapons. Norton & Company, New York, 2003.

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Comércio

Liberdade no comércio internacional e desenvolvimento econômico
José L. Carvalho
Economista, Vice Presidente do Instituto Liberal.

história registra comércio entre indivíduos há mais de 150 mil anos. O comércio é um comportamento humano natural. Comércio local e comércio de longa distância estão sujeitos aos mesmos incentivos: vantagens comparativas e especialização. O comércio de longa distância, no entanto, está sujeito a custos de transação mais elevados e a maiores incertezas devido ao transporte e aos riscos institucionais. A denominação “comércio internacional” dada ao comércio de longa distância por si só indica que esse comércio não é livre. De fato, a tese mercantilista dominou a cena até meados do

A

século XVIII, quando, pela primeira vez na Grã-Bretanha e mais tarde em todo o mundo, os argumentos enunciados por Adam Smith questionaram a racionalidade da proteção. Os argumentos favoráveis à proteção impressionavam favoravelmente os leigos e agradavam às autoridades. Seus benefícios, altamente concentrados, eram tão facilmente identificados quanto seus custos eram difíceis de desvendar. A deterioração das relações de troca tornou-se um forte argumento em favor da industrialização. O argumento da indústria nascente concebido por J. S. Mill tornou-se a ferramenta

mais importante para justificar uma proteção de modo a favorecer a industrialização, quer na Europa, sob a influência de List, quer na América, onde Hamilton e até mesmo Benjamin Franklin defenderam sua aplicação. A primeira reação eficaz contra o mercantilismo foi a revogação da Corn Law, em 1846, quando a Grã-Bretanha, unilateralmente, removeu ou reduziu as tarifas da maioria dos bens importados. No entanto, esta foi uma vitória de Pirro. Em 1860, um acordo de livre-comércio entre a Grã-Bretanha e a França abriu uma nova avenida nas

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Comércio
relações comerciais internacionais. O comércio de longa distância entre os comerciantes tinha sido transformado em comércio entre nações, e a cláusula da nação mais favorecida (MFN – most favored nation) surgiu como uma pedra angular do ordenamento do comércio internacional1. O papel do governo (autoridades) cresceu na arena do comércio internacional para proteger o interesse da nação: acordos para reduzir os custos de transporte e comunicação; adidos comerciais; feiras para promover produtos nacionais no exterior, bem como políticas comerciais altamente ativas, incluindo subsídios às exportações e tarifas sobre as importações. Rapidamente, tratados comerciais tornaram-se instrumentos de política externa e, quando da Primeira Guerra Mundial, as políticas beggar-thyneighbor dominavam o cenário do comércio mundial.2 as dificuldades de um arranjo institucional eficaz para manter e desenvolver a união4. Uma união aduaneira é um fenômeno regional que resulta de um longo processo. Em geral, o primeiro passo é estabelecer uma zona de comércio preferencial ao abrigo da qual os paísesmembros concordam em reduzir as tarifas sobre as mercadorias negociadas entre eles. Quando países-membros concordarem em impor uma tarifa comum aos bens importados de países fora da união. Os incentivos para um país participar de uma união aduaneira são identificados por ganhos provenientes de economias de escala, pela internalização de externalidades e a provisão de bens públicos. No entanto, o bom funcionamento e a organização da união dependem do equilíbrio correto entre a coordenação das políticas e a autonomia de cada país membro. Na verdade, conforme pode ser inferido de Lipsey (1960), uniões aduaneiras podem ser vistas como uma forma indireta e de alto custo de impor tarifas: The theory of customs unions may be defined as that branch of tariff theory which deals with the effects of geographically discriminatory changes in trade barriers. (p.496) De 1947 a 1990, foi notificada ao GATT a criação de mais 80 acordos regionais, uma vez que os blocos comerciais regionais são permitidos como uma exceção ao princípio da MFN5. De acordo com o Banco Mundial, mais de 300 acordos comerciais regionais se encontravam em efetiva operação em 2005 6 . Várias explicações, que variam de interesses geopolíticos e estratégicos até coligações visando ao aumento da participação no mercado e de poder político, têm sido aventadas para justificar o incremento no número dos acordos comerciais regionais. Essa proliferação de acordos regionais pode ser um forte indício de que as autoridades públicas do mundo não veem nenhum futuro

“ De fato, a tese mercantilista
dominou a cena até meados do século XVIII, quando, pela primeira vez na Grã-Bretanha e mais tarde em todo o mundo, os argumentos enunciados por Adam Smith questionaram a racionalidade da proteção.

DE VOLTA À IDADE MÉDIA?
A literatura original sobre união aduaneira usava o argumento do ganho de bem-estar para justificar os acordos entre nações. Mais recentemente, vários autores usam o provimento de bens públicos e a presença de externalidades positivas para justificarem as uniões aduaneiras. Dessa forma, uniões aduaneiras no mercado internacional são vistas como uma segunda melhor alternativa ao comércio livre3. Outros, embora reconhecendo os possíveis ganhos pela organização desse tipo de acordo regional de comércio, identificam
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bem-sucedidas, zonas de comércio preferencial evoluem para uma área de livre-comércio que não contempla nenhuma tarifa aduaneira sobre os bens produzidos e comercializados entre os membros. Eventualmente, uma união aduaneira poderá emergir de uma zona de livre-comércio, quando todos os

Não discriminação em favor de qualquer parceiro comercial. Beggar-thy-neighbor (empobrecer o vizinho) implicava o uso de desvalorização cambial, subsídios à exportação e restrições à importação (por meio de tarifas e quotas) de modo a produzir superávits comerciais. 3 Ver, por exemplo, Kindleberger (1986) e Alesina-Angeloni-Etro (2005). 4 Por exemplo, Breton (1998). 5 Bhagwati (1992). 6 World Bank (2006), Appendix B1, p.93.

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Comércio
no sistema multilateral de comércio. Em vez de serem blocos na construção de um comércio livre, acordos comerciais regionais são, na verdade, obstáculos à liberalização do comércio. Com origem no acordo de Roma (o Tratado que instituiu a Comunidade Econômica Européia, em 25 de março de 1957), a União Econômica Européia é o mais bem organizado e mais importante dos acordos regionais. Consolidada em 1992 pelo Tratado de Maastricht, a União Européia surgiu em 1994. Além da livre circulação de pessoas, recursos e bens sob algumas condições, a UE contempla os seguintes bens públicos institucionais: o Tribunal Europeu de Justiça, a Comissão Européia, o Conselho de Ministros, o Parlamento Europeu, uma moeda única (o euro), o Banco Central Europeu e, num futuro próximo, uma Constituição. Cada Estadomembro da UE tem de cumprir exigências quanto à homogeneidade de políticas públicas, especialmente sobre as políticas macroeconômicas (baixa inflação e pequena participação do déficit público no PIB) e as políticas externas e de segurança7. Apesar de sua aparência, a UE não é uma Federação: não há nenhuma repartição constitucional de competências, e o Parlamento e o Conselho têm poderes muito limitados para monitorar a concorrência horizontal entre os países-membros, bem como para impor regras de concorrência. Na verdade, o arranjo suprime a concorrência entre países por meio de uma harmonização de políticas. De acordo com Albert Breton, a harmonização das políticas na UE é muito maior do que a que ocorre entre estados dos USA ou entre províncias do Canadá. Este autor também indica que a harmonização política pode ser o elemento mais importante na estabilização do arranjo UE. Assim, a ausência de harmonização política pode explicar o fraco desempenho de vários arranjos comerciais regionais bem dotados de instituições para fazer cumprir contratos e resolver disputas judiciais, dos quais o Mercosul é um bom exemplo. Durante a Idade Média, entre outras razões, regiões se fundiram para formar países de modo a reduzir o custo de transação no comércio imposto pelo sistema de pedágio. Isso está acontecendo novamente com os países organizando-se em blocos comerciais regionais? Parece que o processo de fusão de regiões da Idade Média pode ser reproduzido, mas sob condições menos favoráveis para alcançar o objetivo pretendido: reduzir os custos de transação de comércio. O processo contemporâneo não tem contemplado fusões ou mesmo a emergência de uma autoridade central em um contexto de Federação. Uniões sob rígidas regras (no âmbito da harmonização da política) são simples de implementar e são compatíveis com disposições institucionais estáveis, mas estão sujeitas a diversas ineficiências devido à falta de concorrência entre os países-membros. Uniões sob regras flexíveis exigem arranjos organizacionais complexos e são de difícil implementação. Assim, só se pode julgar se um arranjo comercial em uma região é bom ou ruim examinando a evidência empírica. Tornando uma longa história curta, a evidência empírica sobre os fluxos internacionais de

O Parlamento Europeu em Bruxelas, Bélgica.

7 A adoção de uma única moeda em uma determinada área exige um conjunto de pré-condições, além da harmonização das políticas macroeconômicas. Nosso interesse, no momento, se refere à zona de livre-comércio. Em uma análise das dificuldades a serem enfrentadas pela União Europeia na adoção de uma moeda única, Schwartz (1997) antecipa a atual crise na área do euro.

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Comércio
comércio no âmbito de acordos regionais mantém viva a disputa entre criação e desvio de comércio. Há evidências de ambos os lados 8 . No entanto, as evidências são claras com relação à contribuição negativa dos acordos regionais de comércio para o livre-comércio. Subsídios e tarifas aplicados à agricultura têm sido, desde a Rodada Uruguai do GATT, uma questão importante nesse contexto. De um modo geral as simulações sobre a eliminação de subsídios e tarifas incidentes sobre produtos agrícolas têm destacado a maior importância da redução das tarifas em relação à dos subsídios9. as variáveis, a complexidade do processo dinâmico em análise, a dificuldade de incorporar as disposições institucionais são algumas das restrições importantes para o desenvolvimento de metodologias capazes de produzir evidências empíricas a favor ou contra o livre-comércio. Empiricamente, comércio livre tem sido associado ao grau de abertura de uma economia. Em termos de comércio, a abertura tem sido medida de duas maneiras. A mais simples, uma medida de facto, é obtida pelo volume de comércio (valor das exportações mais o valor das importações) como uma percentagem do PIB. Mas o comércio livre é caracterizado pela ausência de restrições no fluxo de comércio (bens e serviços). Assim, é possível construir um índice de abertura, uma medida de jure, com base na legislação que restringe o comércio. Procedimentos similares têm sido utilizados para a abertura financeira. Desenvolvimento econômico é um processo, e como tal não pode ser resumido por uma única variável. Barry Poulson, no primeiro capítulo de seu livro sobre o desenvolvimento econômico, apresenta as dificuldades tanto com o conceito quanto para a aferição, nas caracterizações do desenvolvimento e do crescimento econômicos10. Apesar das imperfeições na aferição do PIB ou do PNB, a taxa de crescimento per capita do produto ou da renda tem sido usada como indicador de crescimento econômico. O desenvolvimento econômico tem sido associado ao bem-estar dos indivíduos na sociedade. Medir desenvolvimento econômico é difícil, porque o bem-estar dos indivíduos não está inteiramente refletido nos bens e serviços transacionados no mercado. Assim, economistas e cientistas sociais têm trabalhado em medidas agregadas de bem-estar de modo a complementar os bens e serviços incorporados nas medições do produto (PIB). Informações adicionais que refletem as chamadas necessidades básicas, expressas em geral por saúde, educação e as condições de habitação, foram utilizadas na construção de novos indicadores agregados de desenvolvimento econômico para uso empírico, juntamente com a renda per capita ou a taxa de crescimento do PIB. Essa abordagem evoluiu para a construção de índices de qualidade de vida e de desenvolvimento humano11. Nozick (1974) abriu uma nova avenida em estudos de bem-estar ao identificar que este é maximizado quando a coerção à liberdade de escolha individual é minimizada. Seu trabalho salienta a importância da liberdade na aferição do desenvolvimento econômico. Como bem identificado por Poulson (1994), liberdade individual não pode ser trocada por bens e serviços, e, por conseguinte, é prevalecente na determinação do bem- estar. Assim, a contribuição de bens e serviços para o bem-estar está condicionada à definição e à imposição dos direitos individuais e, por conseguinte, a abordagem das necessidades básicas tem um papel secundário na medição do desenvolvimento econômico. Uma nova família de índices agregados

LIVRE-COMÉRCIO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO
Os argumentos teóricos que justificam os ganhos decorrentes do livre-comércio são muito claros e não precisam ser repetidos. A questão que abordaremos aqui se refere à capacidade dos economistas de identificar empiricamente o impacto do livrecomércio no desenvolvimento econômico. Uma vez que os argumentos para a proteção e para o comércio entre as nações têm seus benefícios facilmente identificados, mas não os seus custos, as aferições empíricas dos ganhos devidos ao comércio livre são muito importantes. Se, por um lado, as condições e os argumentos teóricos a favor do livrecomércio são claros, as evidências empíricas sobre os ganhos com o livre-comércio estão sujeitas a uma vívida disputa. A simultaneidade das relações entre
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Esse problema já havia sido abordado por Viner (1950), e desde então tem sido objeto de controvérsia empírica, uma vez que teoricamente existem condições que favorecem a criação ou o desvio de comércio. 9 Ver, por exemplo, Lopes (2005) e Anderson-Martin-Mensbrugghe (2005). 10 Poulson, (1994), Capítulo 1. 11 Ver Poulson (1994): 14-24. As Nações Unidas calculam e publicam desde 1990 o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) para vários países. O IDH agrega informações sobre PIB per capita, taxas de alfabetização e expectativa de vida ao nascer, e as idéias básicas por trás de sua construção podem ser encontradas em Haq (1998). Para uma crítica a este índice, ver, por exemplo, Srinivasan (1994).

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Comércio
para contabilizar as liberdades econômicas, políticas e sociais surgiu e passou a ser usada em estudos empíricos sobre o desenvolvimento econômico12. Calderón, Loayza e SchmidtHebbel (2005) revisaram 14 estudos empíricos sobre a abertura financeira e 16 estudos sobre a abertura comercial e seus correspondentes impactos no crescimento. Os dados utilizados nesses estudos se referem a vários países, e compreendem duas formas de tratamento: por país e por vários anos, assim como uma combinação de cross-section (dados por país no mesmo ano) ao longo do tempo. O número de países variou de 57 a 146, e o período de tempo mais longo correspondeu a 1960-2000. Os estudos sobre a relação entre a abertura financeira e crescimento foram publicados ao longo do período 1995-2005. A diversidade de métodos empíricos e de amostras de dados gerou um conjunto de evidências não robustas e conflitantes, as quais não permitem qualquer conclusão sobre a relação entre crescimento econômico e abertura financeira. A situação é bastante diferente para os estudos sobre abertura comercial e crescimento, publicados ao longo do período 19922005. Os estudos publicados ao longo da década de 1990 revelaram um significativo efeito positivo (na maioria dos casos muito grandes) da abertura do comércio no crescimento da renda. Seis estudos, publicados em e após 2000, concluíram que nenhum resultado robusto foi encontrado quando a análise controlava o efeito das instituições nacionais. Dois desses estudos controlavam a latitude geográfica,
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sendo que um deles encontrou um efeito negativo da abertura comercial sobre o crescimento, enquanto o outro encontrou um pequeno efeito positivo. Não é nenhuma surpresa que a comparação dos resultados produzidos por um grande conjunto de estudos nos conduza a um beco sem saída. Problemas com os dados estatísticos e de natureza metodológica são

Nozick (1974) abriu uma nova avenida em estudos de bem-estar ao identificar que este é maximizado quando a coerção à liberdade de escolha individual é minimizada. Seu trabalho salienta a importância da liberdade na aferição do desenvolvimento econômico.

abundantes, e por considerarem um amplo conjunto de perguntas a caracterização das variáveis endógenas e exógenas torna-se uma missão quase impossível. Variáveis instrumentais são a técnica mais utilizada, e diversas variáveis têm de ser construídas. Algumas são muito difíceis de quantificar, como a democracia e o Estado de Direito, enquanto outras, embora facilmente quantificadas, não podem capturar os significados desejados, tais como

a geografia, representada pela distância do Equador, pela área e pela população do país. Rigobon–Rodrik (2004) é um dos dois estudos que controlam a latitude geográfica. É um trabalho bastante inovador. Os autores evitam o uso de variáveis instrumentais (IV) ao considerarem explicitamente uma relação simultânea entre quatro variáveis endógenas: renda (PIB per capita), instituições econômicas (Estado de Direito), instituições políticas (democracia e controles sobre o executivo) e integração (comércio). Partindo os dados em subamostras e impondo restrições à matriz de variância-covariância das inovações das equações estruturais, por meio da heterocedasticidade eles atingem a identificação. A divisão da amostra em duas por Rigobon–Rodrik (2004) levou em consideração homogeneizar os países que experimentaram colonização européia, assim como o argumento apresentado por Diamond (1997), sobre o impacto da geografia nas transferências de tecnologia para a agricultura. A primeira divisão considera países não colonizados e colonizados, enquanto a segunda divisão da amostra teve orientação geográfica, separando os países em euro-asiáticos, africanos e americanos. Essa divisão geográfica não incorpora, estritamente, o argumento de Diamon, que sublinha que é mais fácil a transferência de inovações agrícolas ao longo do eixo lesteoeste do que ao longo do eixo norte-sul13. Os resultados empíricos cuidadosamente apresentados pelos autores indicaram principalmente que: (a) a democracia

Para um índice de liberdade econômica consulte Gwartney–Lawson–Block (1996); para índices de instituições veja Knack–Keefer (1995) e Kaufnann et al. (1999). Os dados utilizados pelos autores têm as seguintes fontes: Penn World Tables and World Development Indicators; Polity IV para os indicadores de democracia e de controle do executivo; Dom–Keefer (1995) e Kaufmann et al. (1999) para o Estado de Direito. As informações compreendem entre 81 e 208 países.

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Comércio
e o estado de direito têm um impacto positivo sobre o PIB per capita; (b) a abertura comercial tem um efeito negativo na democracia e no PIB per capita, mas um efeito positivo sobre o Estado de Direito; (c) o PIB per capita mais alto favorece a abertura comercial e melhores instituições; (d) “Estado de direito e democracia tendem a reforçarem-se mutuamente”; e (e) as variáveis geográficas (distância do Equador, área e população) representam 50% da variância da abertura comercial. Dados e metodologia não são as únicas razões para os resultados conflitantes gerados pela pesquisa empírica sobre abertura comercial e crescimento econômico. Para que a abertura comercial produza um uso mais eficiente dos recursos no mercado interno é necessário que as instituições nacionais favoreçam o desenvolvimento de mercados livres. Somente sob esta circunstância a abertura (comercial e financeira) poderia promover, inequivocamente, o crescimento econômico. No jargão dos economistas, distorções no mercado interno poderiam prejudicar a realização dos ganhos de livrecomércio. Um exemplo de tal possibilidade pode ser encontrado em Chang–Kaltani–Loayza (2005). Usando um modelo HarrisTodaro, para o qual a dicotomia no mercado de trabalho emerge de um salário mínimo em um dos dois sectores existentes, os autores mostram como efeitos da abertura comercial sobre o crescimento econômico dependem de reformas complementares que permitam ao país tirar proveito da
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concorrência internacional. Sua amostra, uma combinação de dados para vários países ao longo de vários anos, é composta por 82 países e oito médias anuais não sobrepostas, para cada variável de cada país, calculadas para o período 19602000. Concluem os autores que a liberalização do comércio tende a favorecer o crescimento econômico, exceto para países nos quais as atividades complementares são fortemente distorcidas.

RESUMO
Os estudos para os mais variados países sobre políticas comerciais são unânimes na identificação dos custos para os cidadãos produzidos pelas restrições comerciais impostas por seu governo14. No entanto, a liberalização do comércio tem estado, sempre, sujeita a controvérsias. Em geral, aqueles que se opõem ao livre-comércio concordam que, em teoria, o comércio livre iria melhorar o bem-estar dos cidadãos. Sua posição contra o livre-comércio é fundada em: (a) mercados internos, particularmente os mercados de fatores, estão sujeitos a várias distorções; (b) os custos de ajustamento para conduzir o país ao livre-comércio são muito elevados; (c) reformas radicais são necessárias para tornar o ambiente macroeconômico compatível com o livrecomércio antes de qualquer tentativa de liberalização; (d) não há nenhuma vantagem na adoção de comércio livre se os principais parceiros comerciais do país permanecem protecionistas; (e) uma vez que livre-comércio em

todo o mundo é visto como uma impossibilidade, participar de um acordo de comércio regional é uma maneira melhor de colher os benefícios do comércio internacional do que adotar, unilateralmente, o livre-comércio. A principal ideia por trás de todos esses argumentos é o que também justifica a intervenção governamental em mercados internos: “mercado livre e o livrecomércio são ótimos na teoria, mas no mundo real existem tantas distorções de mercado que a ação governamental é necessária para aumentar o bem-estar nacional”. É verdade que no mundo real os mercados não estão livres de distorção. Também é verdade que uma grande parte das distorções existentes nos mercados brota da ação governamental. A liberdade individual sob um arranjo institucional que caracterize e garanta adequadamente os direitos de propriedade no âmbito do Estado de direito irá minimizar os efeitos negativos da maioria das falhas de mercado. Assim, os mecanismos institucionais adequados irão promover o bem-estar e reduzirão a necessidade de intervenções governamentais. A oposição ao livre-comércio vem de dentro do país, uma vez que não há restrição para uma ação unilateral de liberalização do comércio. O argumento amplamente usado de que os custos de ajustamento associados à liberalização do comércio são proibitivos foi questionado por Papageorgious et al. (1991). Esse estudo examinou, para vários países, os custos de ajustamento das reformas comerciais, e encontrou que esses custos eram muito pequenos, mesmo no curto

Sob a liderança de Anne Krueger, dois grandes conjuntos de estudos para vários países consideram a relação entre regimes de comércio exterior e desenvolvimento econômico e o impacto das políticas comerciais sobre o emprego nos países em desenvolvimento. Para um resumo das conclusões, consulte para o primeiro conjunto de estudos Bhagwati (1978) e Krueger (1978), e para o segundo conjunto, Krueger et al. (1981). 15 Para um estudo que apresenta resultados opostos, ver Oyejide–Ndulu–Guming (1999).

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Comércio
prazo15. Embora os resultados desse estudo não provem que custos de ajustamento da liberalização do comércio exterior sejam irrelevantes, ele mostra que em algumas circunstâncias eles podem não ser um obstáculo ao comércio livre. As evidências empíricas em favor do comércio livre mencionadas anteriormente indicam que as condições de livremercado interno são indispensáveis para um bemsucedido movimento na direção de liberar o comércio de longa distância. Aqui apresentamos duas razões para sustentar esse argumento: (i) arranjos institucionais nacionais compatíveis com o mercado livre favorecem o livre-comércio; e (ii) as distorções do mercado interno reduzem, substancialmente, os ganhos líquidos em termos de crescimento econômico gerados pela liberalização do comércio. Assim, temos evidências para inferir que um país bem dotado de instituições que promovam o mercado livre tem fortes incentivos para se mover unilateralmente para um livre-comércio de longa distância. Podemos inferir, também, que países bem dotados institucionalmente resistirão à liberalização do comércio, muito provavelmente por enfrentarem fortes disorções nos mercados internos, em geral provocadas pela intervenção governamental em resposta aos lobbies dos grupos de interesse na tentativa de se apropriarem de mais renda (lembre-se do efeito negativo da abertura do comércio sobre a democracia). Ainda nos é possível inferir que os acordos comerciais regionais estão mais estreitamente relacionados com beggar–thy–neighbor do que com o comércio livre.

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Livros

Um anarquista frustrado
Resenha do livro Og Leme, um liberal - Crônicas, organizado por Arthur Chagas Diniz. IL/2011.

m dos grandes nomes do liberalismo brasileiro foi, sem dúvida, Og Francisco Leme. Além de fundador do Instituto Liberal, Og Leme foi o responsável pela iniciação de muitos economistas e empresários na doutrina liberal. É, portanto, com grande regozijo que celebro a iniciativa do IL, com o apoio financeiro de Salim Mattar, de lançar um livro de crônicas deste arguto pensador liberal. Og Leme se dizia um anarquista frustrado. Defensor ferrenho das liberdades individuais, ele compreendia que estas, para sobreviverem, teriam que ser limitadas de alguma forma. Ele gostava de citar Edmund Burke, lembrando que até mesmo a liberdade, para ser usufruída, precisa de limites. Mas Og Leme não fugia da mais delicada questão para os liberais: como delegar poder ao governo sem que ele mesmo se transforme na maior ameaça às liberdades? A democracia, para Og Leme, era vista como o melhor meio de organização para decisões coletivas. Mas isso não a colocava automaticamente em concordância com o liberalismo. Democracia demanda igualdade, e liberalismo demanda liberdade. Quando ambos convivem em harmonia temos a liberal-democracia. Isso não quer dizer que a democracia não precise de claros limites. O excesso de politização das decisões era exatamente o grande risco que Og Leme via para a liberdade. A grande maioria das decisões deve ser deixada sob o controle do mercado, ou seja, trocas voluntárias entre indivíduos. Og Leme sempre levantou a bandeira do princípio de subsidiariedade, ou seja, tudo aquilo que pode ser feito pelo

U

indivíduo e sua família assim deve ser feito, para somente depois subir às esferas municipal, estadual e, finalmente, federal. Poucas tarefas caberiam ao governo federal, pela ótica liberal. Og Leme defendia o Estado Mínimo, por saber que a prosperidade depende da liberdade. As mais importantes instituições desse modelo liberal seriam o Estado de Direito e a economia de mercado. Og Leme não abria mão da defesa da isonomia, ou seja, a igualdade de todos perante as leis. O liberal condena todo tipo de privilégio, assim como a “Justiça alternativa”, que delega enorme poder arbitrário ao governo. Na economia, o mais importante é respeitar a propriedade privada e a liberdade, permitindo assim que a “mão invisível” realize o “milagre” da prosperidade. A vida em sociedade é extremamente desejável, basicamente por três motivos: 1) somente na coletividade ocorre a humanização do

animal homem; 2) a divisão de trabalho gera grande progresso material; 3) o estoque de conhecimento é acumulativo, e todos se beneficiam disso. A questão é atribuir os papéis adequados ao governo para preservar tais vantagens. Segundo Og Leme, garantir o Império das leis e a propriedade privada é o principal objetivo do governo. Ele aceitava também a intervenção estatal nas áreas de educação e saúde, desde que limitada ao financiamento, e não à gerência. Alguma intervenção em monopólios naturais também era tolerável para ele, que nunca deixava de alertar, todavia, que as “falhas de mercado” costumam ser agravadas pelas “falhas de governo” com o excesso de regulação. Mais que isso ele condenava, frisando, porém, que o liberalismo é um processo, sempre aberto a mudanças e aperfeiçoamento. Enquanto a “terceira via” ganhava força como solução após o fim do comunismo, Og Leme atacava esse caminho, repetindo que ele costuma levar ao “terceiro mundo”. Ele via a social-democracia como uma forma de socialismo diet, assim como a nova tendência “verde”. O estado beneficente estaria fadado ao fracasso. Para Og Leme, este era o ideal liberal: “um setor público tão pequeno quanto possível e descentralizado ao máximo”. Og Leme foi um grande liberal, que lutou a boa luta, e deve ser lido por todos que valorizam a liberdade.
por Rodrigo Constantino Economista e escritor

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