Jovens Protagonistas Da Vila Brasilândia

Para adolescentes entre 14 e 19 anos, fora da escola, da Vila Brasilânia (SP). Articula postos de saúde, movimentos sociais e de jovens. Capacita o grupo a desenvolver ações de prevenção das DST/Aids e negociar o uso de preservativo. Adolescentes produzem boletins e cartazes para distribuir na comunidade. Projeto financiado pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo - CRT-DST/AIDS Antecedentes O envolvimento da ECOS com a comunidade da Brasilândia, em São Paulo, teve início em 2003, com a realização do Projeto Sexualidade, Masculinidades e Violência, financiado pela Elton John Aids Foudation. Esse projeto teve por objetivo capacitar educadores e agentes comunitários de saúde para que incluíssem nas suas ações cotidianas novas práticas e novas formas de atuação com a juventude quanto à saúde sexual e reprodutiva, paternidade, violência, prevenção de HIV/Aids, negociação do uso do preservativo etc. Devido ao interesse de líderes comunitários e grupos juvenis, o projeto foi ampliado, envolvendo também esses atores sociais e favorecendo assim suas atuações junto à comunidade. Ao final do projeto, concluiu-se que era necessário ampliar o seu alcance para os adolescentes e jovens de ambos os sexos, principalmente os não inseridos no contexto escolar. Daí surgiu o projeto Formação de Jovens Protagonistas da Vila Brasilândia, financiado pela Secretaria de Estado da Saúde/Coordenação dos Institutos de Pesquisa/Centro de Referência e Treinamento DST/Aids.

O projeto
O objetivo da ECOS, neste projeto, é contribuir para a prevenção das DST/Aids ao focalizar estratégias de negociação do uso da camisinha entre a população adolescente e jovem de ambos os sexos. Para isso, o projeto promove o debate, a reflexão e a disseminação de conhecimentos sobre sexualidade e saúde reprodutiva e incentiva a produção de mídia impressa que será distribuída na comunidade e servirá de instrumento de apoio e reflexão para outros grupos. O projeto teve início em fevereiro deste ano e está formando jovens multiplicadores, utilizando a metodologia de ressonância comunitária e das rodas de conversa.

Perfil
Bairro Localização: Brasilândia fica na região noroeste da Grande São Paulo, com uma população de 250.000 moradores, sendo que 14% deles (35.300) tem entre 13 a 19 anos. Taxa de natalidade: A taxa é de 28,02 por mil habitantes, maior que a do Município de São Paulo (21,79 por mil habitantes). A proporção de gravidez na adolescência entre jovens de 14 a 17 anos, considerando o total de nascidos vivos, é de 8,6%; a taxa de fecundidade das adolescentes é de 57,7 por mil mulheres. Atividade econômica: A atividade econômica da região e os setores que mais disponibilizam empregos são o comércio, serviços, indústrias transformadoras, construção civil e utilidades públicas. O desemprego é um grave problema: 80% das famílias vivem dos benefícios previdenciários destinados a idosos e deficientes e 68,1% dos jovens não estão inseridos no mercado de trabalho. Educação: O bairro possui 14 escolas municipais e 17 estaduais, que atendem perto de 40.000 estudantes dos ensinos fundamental e médio. Apresenta déficit de vagas para o ensino fundamental, 32,7% dos jovens de 15 a 17 anos não freqüentam a escola e 50,9% dos jovens entre 18 a 19 anos não concluíram o ensino fundamental. Saúde: Brasilândia possui 5 unidades de saúde da família, 5 unidades básicas de saúde, 1 unidade ambulatorial especializada, 1 unidade de urgência e emergência geral e 1 unidade de apoio à saúde mental, mas não possui hospitais públicos. Aids: O bairro apresenta o 3º maior número de mortalidade entre os homens e o 1º entre as mulheres (dados da Prefeitura de São Paulo). A taxa de indivíduos com Aids é de 18,28 por 100 mil habitantes, maior do que os outros distritos com número semelhante de habitantes. Lazer: Há escassez de equipamentos de lazer e cultura para a comunidade e principalmente para o jovens, para os quais o bar acaba sendo a única alternativa de lazer. Violência: O número de homicídios entre pessoas do sexo masculino é o mais alto da região norte do município de São Paulo, sendo que a taxa de mortalidade por homicídio de jovens masculinos de 15 a 19 anos é de 354,60 por 100 mil habitantes. A taxa de óbitos por 100 mil habitantes é 13,61 (acidente de trânsito, homicídio e suicídio). Essas taxas estão entre as mais altas da cidade de São Paulo. Diagnóstico: De acordo com esses indicadores, Brasilândia configura-se como um bairro que não oferece muitas oportunidades a sua população adolescente e jovem, exposta a situações de alta vulnerabilidade, principalmente aquelas relacionadas às DST/Aids. Fontes: IBGE, Seade, Datasus, Programa de Aprimoramento das Informações de Mortalidade no Município de SP/PRO-AIM.

Constituição do Grupo
Os jovens chegaram ao Projeto por meio da Associação de Moradores Antônio de Jesus. O primeiro encontro aconteceu num espaço cedido pela Igreja Evangélica Olaria, do Jardim Icaraí, da qual

alguns dos jovens fazem parte. Nesse encontro, os jovens foram informados dos objetivos do Projeto e convidados a participar. Os encontros seguintes aconteceram na Unidade Básica de Saúde do Jardim Icaraí e na Sede da ECOS, no centro de São Paulo. Desde os primeiros encontros, a equipe da ECOS estimulou a constituição de uma identidade para o grupo, considerando que apenas por meio de um trabalho realizado num espírito de coletividade os jovens seriam capazes de identificar os problemas que permeiam o seu cotidiano e propor soluções concretas. À medida que ocorriam os primeiros encontros, outros/as jovens mostravam interesse em participar. Por essa razão, o grupo adiou a definição da composição e pôde refletir sobre sua constituição. No quarto encontro, o grupo criou um nome e uma identidade visual. O nome escolhido foi "Juventude Força e Ação do Icaraí", ao qual associou-se a imagem de um desenho mostrando um casal de jovens posando altivo sobre as casas da favela. Essa etapa foi muito importante, pois assim eles puderam refletir sobre o racismo e a discriminação socioeconômica que sofrem no cotidiano e sobre como os preconceitos associados a essas questões interferem na sua vida afetiva e sexual. Aos poucos o grupo pôde perceber a importância do respeito pelas individualidades entre eles. "Me sinto muito bem em participar do grupo, porque nós somos da periferia e não temos oportunidade e com o grupo temos oportunidade de demonstrar que até mesmo na periferia tem coisas boas e de qualidade. Na definição do nome foi muito interessante, porque o nome fala tudo "Juventude Força e Ação", que significa jovem com força de vontade de agir para um futuro melhor". (Pâmela, 20 anos)

Perfil da Galera

Formação de multiplicadores
Atividades Culturais
Chamou a atenção da equipe de trabalho a exclusão à qual os jovens deste projeto estão submetidos. A região onde moram oferece poucas opções de lazer; não há praças, parques ou centros culturais públicos.

O Projeto não previa atividades culturais, mas era claro para a equipe da ECOS que, se quiséssemos provocar uma mudança de atitude nos jovens, era preciso levá-los a vivenciar outras experiências a partir das quais pudessem descobrir seu lugar na sociedade. A vivência com as mais diversas atividades culturais, põe os jovens em contato com outras dimensões da realidade social e com possibilidades de reconhecê-la e de transformá-la. Por isso, a equipe ECOS tem procurado, na medida do possível, desenvolver atividades de arteeducação e/ou facilitar a participação do grupo em atividades culturais. Até o momento foram realizadas uma oficina de percussão, uma visita ao Itaú Cultural para participação no programa Guerrilha, da TV Cultura, e a ida ao Teatro Folha para assistir à peça Merlim. Depois da peça, os atores conversaram com a platéia. Foi um importante momento de interação entre os atores e os jovens do grupo. "O que me serviu de experiência ao assistir a peça foi que Merlin era tão sábio e por um momento de sua vida foi enganado por sua própria sabedoria. É conseguir entender que a sabedoria não é tudo, é preciso sempre algo mais, saber usá-la". (Lucimaia, 17 anos). A participação no programa Guerrilha ofereceu ao grupo a oportunidade de conhecer os bastidores de um programa de televisivo elaborado por jovens e para jovens. O tema do programa foi gravidez na adolescência. A oficina de percussão foi realizada num sábado à tarde, na quadra da Escola Milton Campos, no Jardim Icaraí. O professor convidado, Mirton de Paula, iniciou a oficina com noções de ritmo e melodia. Em seguida, todos escolheram um instrumento musical e a batucada teve início. No começo foram trabalhados apenas ritmo, com a contagem de tempo; depois, saiu muito som: samba, rap, funk, forró. Essa oficina contou com a participação de jovens do movimento hip hop (Família Black Gera) e de crianças da comunidade que estavam no local.

"Gostei, pois gosto sempre de aprender coisas novas e, acima de tudo, úteis. A música, assim como os sons, transmitem nossos sentimentos. Quando estive na oficina de percussão, gostei muito, pois a nossa alegria, acima de tudo, foi transmitida de forma contagiante. Foi muito bom como o professor nos ensinou a tocar os instrumentos, porque a ajuda de um profissional sempre é boa e bem vinda". (Josivam, 16 anos)

Oficinas
Metodologia de Trabalho A metodologia adotada neste projeto é a de ressonância comunitária - por meio de rodas de conversa, proposta por Rodrigo Vera (1999 - Assessor (FAO) em Estratégias de Promoção e Educação para a Saúde Sexual e Reprodutiva e Membro da equipe de apoio técnico da UNFPA para a América Latina e Caribe). O método consiste em criar espaços de diálogo e sobretudo de escuta para estimular a autonomia dos sujeitos por meio da problematização, troca de informações e reflexão para a ação. As rodas são espaços onde a fala dos sujeitos ganha legitimidade num processo de ensinoaprendizagem e de reconhecimento uns dos outros como sujeitos, com saberes, opiniões e valores próprios. Fazer parte da roda permite que os jovens se sintam amparados, porque ali estão pessoas com as quais eles podem se identificar de alguma maneira, seja porque moram na mesma comunidade, seja porque pertencem a um mesmo grupo etário ou étnico, seja porque têm as mesmas dúvidas ou curiosidades. A roda permite conhecer o outro e a se reconhecer no grupo. As Reuniões Quinzenalmente, a equipe da ECOS se reúne com os grupo de jovens numa sala da Unidade Básica de Saúde do Jardim Icaraí para a realização de oficinas. São atividades de integração e de formação, desenvolvidas a partir de temas específicos, tais como corpo e sexualidade, doenças sexualmente transmissíveis, sexualidade e prazer, negociação do uso da camisinha, direitos sexuais e direitos reprodutivos, sempre a partir de uma perspectiva das relações de gênero e de raça. O foco das oficinas é permitir a conscientização da necessidade de adoção de práticas preventivas em relação às DST/Aids e a associação do uso da camisinha ao prazer. Também são realizadas oficinas na sede da ECOS. Essas atividades têm por objetivo integrar os jovens a um outro ambiente social, favorecendo o reconhecimento de outros espaços de convivência. Além disso, as oficinas na ECOS visam a elaboração de material impresso, desenvolvido com a participação do grupo de jovens a partir do conhecimento adquirido nas atividades realizadas. "A minha primeira visita à ECOS, eu achei boa e marcante. Me senti muito bem porque fomos bem recebidos. É um ambiente bem confortável e que nos traz muitas esperanças ao ver aquelas pessoas que estão ali trabalhando em frente ao computador e que mostram interesse pelo nosso grupo e de muitas outras coisas. Eles são pessoas muito gentis e nos receberam sem nenhum preconceito e com um abraço amigo que todos os adolescentes precisam, procuram e querem ter". (Denise, 18 anos)

RESULTADOS
Cartaz Foi produzido um cartaz para promover o uso da camisinha. O cartaz, que retrata os jovens em interação lúdica e associa “sexo seguro” às “coisas boas da vida”, está sendo distribuído e afixado em espaços públicos da comunidade e em espaços institucionais, inclusive de outros estados (MG, PE e GO).

Desdobramentos Participaram de treinamentos de mídia que resultou na criação do vídeo Juventude, Mídia e Sexualidade, que foi editado e finalizado com o apoio da Rede Rua no projeto + de UMinuto. Participaram ativamente,em agosto de 2006, do seminário Direitos Sexuais e Reprodutivos e Contracepção de Emergência para Adolescentes e Jovens. Participaram de oficina de advocacy, com apoio da Save the Children (set - out/2005). Fizeram parte da oficina Participação juvenil com representante da Rede Sou de Atitude de Salvador (out/2005). Estiveram em Mongaguá para oficinas de integração e planejamento, com apoio da Save the Children (out/2005). Participaram do workshop O vídeo como instrumento de intervenção social em direitos sexuais e direitos reprodutivos (out/2005).

Estiveram em encontros em Recife, sobre Monitoramento de políticas públicas em HIV/Aids, e em Salvador, na oficina Participação das crianças e dos adolescentes como protagonistas(ago/2005). Passaram a integrar a Rede Sou de Atitude, para monitoramento de políticas públicas para juventude (out/2004). Participaram, como atores, no vídeo da ECOS X Salada e Pão com Ovo, sobre Direitos Sexuais e Reprodutivos (set/2004).

Rodas de Conversa O jovens, de posse da metodologia de Rodas de Conversa, passaram a atuar na comunidade. Realizaram 28 Rodas de Conversa com cerca de 600 adolescentes, garotas e garotas, com idade variando de 12 a 20 anos, nas escolas e no posto de saúde da região. Nas rodas discutiram sobre o uso da camisinha, aprenderam como colocá-la, e trocaram informações sobre DST e Aids.

Boletins: Se Liga Na Pegada

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