1.

Morfologia do microorganismo A Neisseria gonorrhoeae é um diplococo Gram-negativo, não flagelado, não formador de esporos, encapsulado, anaeróbio facultativo, com diâmetro entre 0,6 a 1,06μ, e possui pili. Na bacterioscopia corada pelo método de Gram, apresenta-se como duas estruturas reniformes justapostas, espelhadas pela concavidade e aproximadas pela extremidade, quase sempre agrupadas em massa no espaço extracelular e/ou no citoplasma dos polimorfonucleares (neutrófilos, eosinófilos ou basófilos) abundantes. (Penna et al, 2000). Como todas as bactérias Gram-negativas, o gonococo possui envelope celular composto de três camadas distintas: uma membrana citoplasmática interna, a parede celular de peptideoglicanas e membrana externa. Como descrevem ainda Penna et al (2000), muitos gonococos possuem plasmídio de conjugação e, portanto, podem transferir outros plasmídios não-próprios com alta eficiência. Muitos outros possuem plasmídio Pcr que codifica a produção de um tipo TEM-1 de betalactamase. Há ainda o determinante tetM, que ocorre em gonococos com alto índice de resistência às tetraciclinas e que confere resistência a uma variedade de outras bactérias. A N. gonorroheae também usa transferência de DNA entre células (transformação) para promover variabilidade genética.

2. Condições de cultivo O gonococo não tolera redução da umidade e as amostras devem ser inoculadas imediatamente em meio apropriado. Obtém-se crescimento melhor em temperaturas de 35 a 37°C, e muitas amostras requerem certa quantidade de dióxido de carbono ou de bicarbonato. O crescimento também é otimizado em presença de substâncias complexas como sangue ou proteínas de animais. Colônias típicas surgem em 24 a 48 horas, porém sua viabilidade no meio perde-se rapidamente por autólise (Penna et al, 2000). Os gonococos são facilmente inibidos pelos constituintes tóxicos do meio, tais como ácidos graxos ou sais. São também rapidamente mortos pela dessecação, pela luz solar, pelo calor úmido e pela maioria dos desinfetantes e agentes quimioterápicos (Oliveira et al, 2004). O ágar-chocolate constitui meio de cultura satisfatório quando enriquecido com glicose e outros suplementos. A N. gonorroheae oxida a glicose, mas não a maltose, sucrose ou lactose. O uso de meios contendo agentes antimicrobianos que inibem as espécies nãopatogênicas da Neisseria e outras espécies, e que permitem o crescimento do gonococo, permite que este seja isolado. Utiliza-se o ágar-chocolate contendo vancomicina, colistina e nistatina (meio de Thayer-Martin) com esse propósito. Ao meio de Thayer-Martin modificado adicionase trimetoprima para inibir as espécies de Proteus, sendo universalmente empregado no cultivo da N. gonorrohoeae. O material obtido de sítios que não apresentam flora endógena (sangue, fluido sinovial e líquor) deve ser cultivado em meios livres de antibióticos (Penna et al, 2000). 1

proteínas e fosfolipídeos. Inicialmente. Os gonococos possuem pili projetados na superfície celular bacteriana. que estimulam a fagocitose desses organismos Alguns gonococos podem apresentar mecanismos de evas o contra a morte intracelular e continuam a multiplicar-se no interior das c lulas do hospedeiro m infecc es n o tratadas. A infiltrac o mononuclear e linfoc tica anormal persiste em tecidos por v rias semanas após o tratamento da doença. as bactérias penetram entre as células epiteliais para chegar ao tecido submucoso microabscessos submucosos e formac o de e sudado resposta vigorosa de polimorfonucleares. as espécies de Neisseria possuem uma membrana citoplasmática interna. os anticorpos dirigidos contra os pili podem inibir a aderência. que mediam parcialmente a aderência do microrganismo às mucosas. alcançado nas atividades sexuais. As variações estruturais do LOS podem influir na aderência e na ligação bacteriana e podem afetar a morte da bactéria causada pelo soro humano normal. Oliveira et al (2004) enumeram os fatores de virulência do gonococo. Os componentes glicopeptídicos do gonococo podem atuar como fator de virulência por sua toxicidade e também por contribuir para a patologia gonocócica. gonorrhoeae provida de pili adere às células suscetíveis e podem iniciar uma infecção. O núcleo polissacarídeo LOS do gonococo sofre variações antigênicas em sua estrutura molecular com uma freqüência bastante alta. e maioria das c lulas n o contem bactérias. N. que estimulam a formação de anticorpos em respostas mediadas pelas células. 4. A N. Mecanismos de patogenicidade A via de acesso dos gonococos para o corpo humano é o trato genital. Fatores de virulência Assim como outras bactérias gram-negativas. pois o contato inicial com o gonococo induz produção de receptores. reduzem a associação leucocitária e resistência aos efeitos bactericidas do soro humano normal. desenvolvimento de grande n mero de gonococos dentro de poucos neutrófilos. resultando na exposição de diferentes epítopos do núcleo LOS na superfície celular. Essas estruturas também podem impedir a ingestão e podem estar envolvidas na troca de material genético. ativando a cascata de complemento. gonorrhoeae expressa proteínas de opacidade (Opa) na membrana externa que também atuam junto com os pili na aderência às mucosas. uma camada de glicopeptídeos e uma membrana externa que contém lipooligossacarídeos (LOS).3. com descamac o do epit lio. a gonorréia infecta o epit lio colunar. As células de N. Algumas dessas proteínas atuam como receptores de transferrina e lactoferrina humanas e provavelmente interferem na aquisição do ferro necessário para o metabolismo bacteriano. os macrófagos e linfócitos substituem gradualmente os polimorfonucleares. Entre 24 e 48 horas. 2 . gonorrhoeae também contêm diversas proteínas na superfície da membrana externa.

mas também ocorre em mulheres com exames mostrando trompas normais. mas também podem evoluir para edemas penianos. Durante a gravidez. Nas crianças. Os sintomas predominantes são cervicite. não é transmitido da mãe para o filho intra-uterinamente. sendo que o período de incubação é de 2 a 5 dias (podendo variar de 1 a 10 dias). já que o gonococo infecta preferencialmente as células do epitélio colunar da uretra. a criança pode entrar em contato com secreções maternas contaminadas e adquirir uma infecção ocular pelo gonococo. o contato direto (não-sexual) com o gonococo. 2011). através do adulto infectado ou objetos recém-contaminados como toalhas e tampas de vasos sanitários. denominada conjuntivite gonocócica ou oftalmia gonocócica neonatal. o período de incubação da gonorréia na mulher é menor. portanto.5. A evolução patológica e sintomática é mais diversificada e. 6. litrite e outras exposições menos comuns. sangramento intermenstrual e em alguns casos uretrite. 3 . As manifestações endêmicas são semelhantes às do homem. especialmente as meninas até a adolescência. mesmo que esses tenham sido utilizados por pessoas contaminadas. que ataca principalmente o fígado. porém durante um parto normal ou no pós-parto. corrimento vaginal. Transmissão A transmissão da gonorréia se dá essencialmente pelo coito. Os adultos não se infectam pelo contato com roupas íntimas ou objetos contaminados. endocérvice. Corrimento uretral e processo inflamatório são comuns e na sua maioria a cura ocorre espontaneamente em algumas semanas. diferentemente da mulher adulta. Os casos de uretrite aguda são os predominantes na manifestação masculina. A gonorréia representa um grave problema de saúde pública em mulheres sexualmente ativas. Isso acontece porque a vulva e a vagina não apresentam resistência à infecção nessa faixa de idade. Comparado ao homem. porém. sendo que na mulher a manifestação também possui peculiaridades dependendo da idade ou no caso de gravidez. pode vir a provocar à doença. o gonococo não é capaz de ultrapassar a barreira placentária e. Manifestações clínicas As manifestações atingem de maneira particular os sexos. Dores abdominais e pélvicas estão ligadas a casos de salpingite (inflamação pélvica das tubas uterinas). podendo transmitir a um parceiro durante o coito ou ao feto durante o nascimento e período pós-parto. disúria. prostatite. ânus e trato genital superior e provocam neles lesões muito graves quando comparado ao homem (Piazzetta. portanto. Muitos casos deixam de ser prescritos porque a paciente infectada não apresenta sintomas. Os quadros sistêmicos podem promover complicações cardíacas e nervosas e a chamada síndrome de Fitz-Hugh-Curtis. menos identificada e conhecida do que no homem.

Passando essa faixa de idade. a criança pode adquirir a gonorréia propriamente dita por contato nãosexual de um parente ou pessoa próxima. a doença está associada com episódios de aborto espontâneo. pela coloração de Gram ou por métodos de cultivo. mas os mecanismos específicos para isso ainda são desconhecidos. perfurações de globo ocular e consequente perda da visão (Passos e Agostini. No âmbito pediátrico. A gonorréia masculina é diagnosticada pelo achado de gonococos no esfregaço corado de pus da uretra. usualmente. Em mulheres. No período de 0 a 1 ano de idade. As manifestações clínicas da gonorréia de maneira geral não se alteram na gravidez (Penna et al. A maioria dos pacientes com culturas retais positivas são assintomáticos. uma vez que se trata de uma doença bacteriana. 7. O diagnóstico laboratorial da gonorréia depende da identificação da N. Outros testes rápidos atualmente disponíveis utilizam anticorpos monoclonais contra antígenos na superfície dos gonococos. além de alguns casos que envolvem o manuseio e/ou contato da genitália com objetos ou roupas contaminados. mas alguns casos podem apresentar sangramento retal e descarga purulenta.A gonorréia anorretal é recorrente em mulheres com gonorréia não complicada e homens de orientação homossexual. o antibiótico escolhido é do grupo das quinolonas ou cefalosporinas. visto que a coloração de Gram não é tão confiável nesse caso. a toxicidade e o custo. Em geral. A terapêutica é escolhida levando-se em conta a suscetibilidade microbiana. Diagnóstico O diagnóstico da gonorréia é clínico. 1984). uma amostra é coletada de dentro do cérvice e cultivada em um meio especial. Tratamento e controle da doença O tratamento da gonorréia é basicamente feito pelo uso de antibióticos. Os diplococos gram-negativos típicos dentro dos leucócitos fagocíticos são facilmente identificados. 2000). 2011). 8. a principal forma de transmissão é o abuso sexual. usualmente através dos mais comuns maus hábitos de higiene. formação de abscessos. deve ser considerada a eficácia 4 . O isolamento por cultura representa o método diagnóstico padrão e sempre deve ser utilizado (Bonin et al. epidemiológico e laboratorial. As manifestações podem incluir úlceras de córnea. Na gravidez. A cultura tem a vantagem de permitir a determinação da sensibilidade aos antibióticos. parto prematuro e mortalidade fetal perinatal. a conjuntivite gonocócica representa a patologia mais comum em recém-nascidos. gonorrhoeae em um local infectado. a farmacocinética do agente. Além disso.

a cefixime 400mg (via oral). p. indica-se a ceftriaxona 360mg (intra-muscular). dar uma segunda droga pode reduzir o potencial de seleção de gonococos resistentes. comportamentais e demográficos exercem na epidemiologia de uma doença infecciosa. e essa permanece um exemplo da influência que os fatores sociais. com destaque para a clamídia. 227). A conjuntivite gonocócica e a doença disseminada devem ser tratadas com essa dose por 7 a 10 dias (Penna et al. uma medida bastante importante para limitar a disseminação da gonorréia consiste em estender o tratamento para os parceiros sexuais. a faixa etária mais comprometida situa-se entre 15 e 30 anos. (Trabulsi. 2000). No Brasil. Ainda segundo Penna et al (2000). 860. O único hospedeiro do gonococo é o homem. não excedendo 125mg. 9. 2008). As infecções gonocócicas não só tiveram sua frequência bastante aumentada nos últimos anos.265 casos de gonorréia.para infecções concomitantes.315 casos de oftalmia gonocócica neonatal (Penna et al. No Brasil. provavelmente por maior facilidade diagnóstica. A gonorréia é considerada atualmente como uma das doenças bacterianas mais prevalentes em seres humanos e a que mais infecta anualmente a nível mundial. o Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e AIDS do Ministério da Saúde estimou para 1994. Epidemiologia Poucos países possuem sistemas de notificação que permitem estimativas confiáveis da incidência da gonorréia. equivalendo a 56% do total de doenças sexualmente transmissíveis registradas e 1. 5 . 2000). seguindo a cadeia epidemiológica de transmissão. todos administrados em dose única. tanto no que se refere a dados epidemiológicos quanto a dados de eficácia terapêutica e de resistência. Além de tratar a infecção pela Chlamydia. os estudos revelam-se escassos. Segundo Trabulsi (2008. O controle da gonorréia tem sido difícil na maioria das populações. o tratamento inicial deve ser seguido de um terapia ativa contra Chlamydia trachomati (recomendação do Ministério da Saúde). As maiores taxas de incidência de gonorréia e de suas complicações ocorrem nos países em desenvolvimento. Infecções não complicadas em crianças e neonatos devem ser tratadas com ceftriaxona 2550mg/kg. A maioria dos casos é encontrada entre homens. muito comuns em caso de gonorréia. já que 70% das mulheres infectadas permanecem assintomáticas. a ciprofloxacina 500mg (via oral) a ofloxacina 400mg (via oral). Os esquemas recomendados são a doxiciclina 100mg por 7 dias. Para a terapia inicial. como se tornaram mais diversificadas. ou dose única de azitromicina 1g. O homem é o grande veículo disseminador da doença. Os pacientes com infecção gonocócica disseminada devem ser tratados inicialmente com ceftriaxona 1g por 14 dias. com o maior número de casos entre 20 e 24 anos. Independente do antibiótico de única dose escolhido.

São Paulo: Atheneu. RCPS. Oliveira LL. 227. a única medida preventiva disponível contra a gonorréia./abr. Umuarama. Arq. juntamente com as proteínas da membrana externa do gonococo. Tanino TT. 3. Santana WJ. Hajjar LA. bras.33. Piazzetta. vol.328-333 6. O uso de preservativos é. 2000. Agostini FS. vol. Obstet. Bras.. Braz TM. Handsfield HH. Ciênc. a prostituição masculina e a multiplicidade de parceiros sexuais. continuam a ser pesquisados como antígenos selecionados para o desenvolvimento de vacinas antigonocócicas. Prevalência da infecção por Chlamydia Trachomatis e Neisseria Gonorrhoea em mulheres jovens sexualmente ativas em uma cidade do Sul do Brasil. nº 11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Conjuntivite neonatal com ênfase na sua prevenção. Penna GO. 5. Bonin P. 1984 2. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 33(5):451-464. p.70. 4. Os pili. Rev.além de práticas como a prostituição feminina. Santos JEF. Alterthum F. 2008. Coutinho HDM. 2004. Gonorréia. 5ª ed. Passos AF. (Penna et al. Oliveira AMF.57-67. 8(1). Microbiologia. Ginecol. Journal of Clinical Microbiology 19:218-220. 2000). Isolation of Neisseria gonorrhoeae on selective and nonselective media in a sexually transmitted disease clinic. embora vários estudos estejam em andamento no sentido de desenvolvê-la. Saúde Unipar.. Souza LBS. Não há vacina efetiva contra o gonococo. portanto. Nov 2011.oftalmol.39-44. p. 6 . Rev. p. set-out. Trabulsi LR. jan. nº 1. Fev 2011. Fatores de virulência de Neisseria spp. p.