78

Revista TREINAMENTO DESPORTIVO

TREINADOR

Treinamento para travessistas em piscinas
Gerson Antonio Moreira Teixeira
UNITAU – Universidade de Taubaté – SP

INTRODUÇÃO Travessista: atleta de natação que faz travessias em mar aberto , represas, rios, lagos, em médias e longas distâncias. nadador de travessias se diferencia do na dador de piscinas, pelo estilo e técnica utili zados, pelo meio onde irá nadar, pela continuidade, ritmo, tempo e distância que irá nadar, e pelo treinamento feito. Nos vamos ater a somente os dois últimos ítens citados anteriormente, não nos interessando, no momento, pela técnica e nem pelo meio onde irá nadar. A travessia de média e longa distância se caracteriza pelo tempo que o nadador vai gastar para percorrer a distância, mantendo um ritmo de braçadas, em um trabalho continuado. Só para registrar, o nadador convencional de piscinas é classificado em rasistas ( 50, 100 e 200 m ) e fundistas ( 400, 800 e 1.500 m ). Lembremos também que o local de treinamento é o mesmo onde irão competir, isto é, as piscinas, semelhantes em qualquer parte do mundo. Mesmo os nadadores de 50 m, a prova mais curta da natação, têm que dominar a técnica completa do estilo, desde a entrada na água ( mergulho ou saída ), passando pelo estilo ( craw, peito, costas e borboleta), virada ( simples e olímpica ) e concluindo com a chegada. Com isso, o treinamento é semelhante à competição, com o atleta repetindo e aprimorando o estilo e as viradas. A natação de travessia, incluindo aí as provas de triatlon, se caracterizam pela continuidade do trabalho, sem no entanto que o atleta precise fazer uma virada sequer. Levando-se em consideração que o treinamento desses nadadores é feito em piscinas, com

O

RESUMO
É proposto aqui, um novo método de treinamento para travessias, realizado em piscinas, visando um melhor rendimento o atleta. Esse método é composto em adaptar a piscina a um circuito, semelhante a uma pista de atletismo, em que o atleta dará volas na piscina, paralelo às margens, o que resultará em um treinamento contínuo, sem interrupções e a consequente quebra do steady state, causada pelas viradas, aproximando ao máximo os treinamentos às condições das provas. Palavras Chaves: natação, treinamento, travessia.

ABSTRACT
It’s here proposed a new training method to crossing, reality in pond, vise on the best performance of the athlete. This method is composed in adapted the pond to circuit, alike to the athletics track, so that the athlete give the laps in pond, parallel to wall, result in the continuous training, out interruption and the consequent break to steady state cause by turn, approximed the greatest the training to test condition. Key Words: swimming, training, crossing.

TREINAMENTO

DESPORTIVO

Volume 4 – Número 1 – 1999 Artigo Treinador: págs. 78 a 80

Revista TREINAMENTO DESPORTIVO

79

extensão máxima na piscina olímpica de 50 m, e não sendo possível a muitos atletas treinar no mar ou represa, esses nadadores têm que fazer o treino em um local e competir em outro, com características completamente distintas de água, flutuabilidade, técnica e continuidade do exercício. Um outro fator a ser levado em consideração são as viradas. O atleta pode não dominar essa técnica, e não precisa, pois é um nadador de travessias. A virada olímpica ou cambalhota é a mais rápida, mas também a mais difícil de ser executada. O atleta tem que fazer uma boa aproximação, com respiração eficiente e virada reta, para não sair torto no impulso. A virada simples é realizada com a cabeça fora da água, o que facilita a respiração, não requer uma aproximação perfeita em relação a distância do atleta à parede, e ele raramente sairá torto no impulso. A respiração na virada simples pode ser mais fácil, e oferece um certo conforto e descanço ao atleta pelo tempo em que a cabeça fica fora da água, não sendo útil ao treinamento e nem em competições, onde o nadador não terá esse tempo. Outra característica da virada, seja simples ou olímpica, é o impulso tomado na parede, fazendo com que o nadador percorra uma média de 5 metros sem muito esforço. Isso implica em 2 fatores: 1) a somatória de metros desperdiçada a cada virada, e 2) a quebra do steady state. Ao final do treino, no primeio fator, o atleta terá desperdiçado preciosos metros submerso, inclusive tendo que aumentar o volume de seu treino e consequentemente o tempo gasto com ele. Quanto ao segundo fator, sendo o travessista um nadador de ritmo contínuo, como um maratonista, em que mantém sempre estável e cíclico seus movimentos de braçadas e respiração, resultando o chamado steady state, há uma incoerência em se treinar fazendo inúmeras viradas e competir sem realizar uma virada sequer. Não é feito um treinamento específico, o que pode resultar em rendimento abaixo do esperado em uma prova. Em uma época em que detalhes ganham campeonatos, e que atletas buscam melhores resultados, tem-se que haver uma especificidade para cada esporte e modalidade. O treinamento desportivo tem que ser cada vez mais

específico e buscar o aprimoramento de técnicas para melhores resultados. É exatamente isto o que este trabalho se propõe a fazer. OBJETIVO Elaborar um método de trabalho para treinamento de nadadores de travessia, realizado em piscinas, dando ênfase às características dessa modalidade de continuidade e ritmo, visando a melhoria de resultados e performances. JUSTIFICATIVA Pelo método convencional de treinamento de natação, é feito um bom trabalho para provas em piscinas, mas não é levada em consideração as particularidades de uma travessia. Com o esporte cada vez mais elitista, os atletas têm que se tornar especialistas em suas modalidades, treinando cada movimento e cada detalhe em busca da perfeição. Pelo método de treinamento para travessia feito em piscinas, espera-se chegar mais perto das características da prova, ficando assim o atleta um passo à frente de seus concorrentes. CONTEÚDO Como já foi dito, um nadador de travessia irá realizar um trabalho contínuo, ritmado, com movimentos de braçadas e respiratórios de forma cíclica. Essa continuidade é quebrada quando se faz um treinamento de forma convencional com o atleta, tendo que realizar uma virada quando chega ao final da piscina. Com a sucessão de viradas, o atleta terá percorrido uma somatória de metragem bastante grande, e que não lhe será útil, em que esteve submerso e que usou técnica de natação para piscinas, vindo a dar a primeira braçada após a virada por volta de 5 metros adiante. Se o atleta não dominar a técnica de virada, seja ela simples ou olímpica, o treinamento irá render ainda menos, com uma quebra completa de ritmo, con-

80

Revista TREINAMENTO DESPORTIVO

centração e performance. Ainda temos que levar em consideração que esta quebra de ritmo, concentração e performance é também uma consequência do longo tempo em que o atleta está submerso, em apnéia, o que resulta em um hiato no steady state. Quer dizer, haverá uma sucessão de steady state, que ocorrerá ao longo da piscina, entre uma virada e outra, sendo que, o que ocorrerá em uma travessia é o steady state contínuo, do início ao final da prova. Vale lembrar que a tradução literal de steady state é estado estável. Esse estado estável a que nos referimos é o de estabilidade do ciclo respiratório, da frequência cardíaca e do ciclo de braçadas, resultando no ritmo da prova. Para que o steady state não seja quebrado, e o treinamento na piscina se aproxime das características da prova, é proposto este método. Neste método foi eliminada a necessidade de se fazer viradas, bastando para isso, que o atleta nade paralelo às margens, fazendo uma pequena curva entre uma margem e outra, percorrendo assim os 4 lados da piscina, descrevendo um circuito, como se fora uma pista de atletismo. O nadador deve percorrer o circuito sempre fazendo a respiração para o lado da parede, o que dará a noção exata da distância dele para a parede, que não deve exceder os 50 cm, para melhor aproveitamento das dimensões da piscina. A parede também servirá de guia para o atleta, tanto nas retas quanto nas curvas. Dentres outros motivos para se respirar para o lado da parede estão: concentração total do atleta no treino, possibilidade do treinador passar instruções ao atleta sem interromper o treino e nadar com um obstáculo sempre a seu lado, a parede, simulando outro nadador, o que é útil em especial para triatletas, que nas provas sempre fazem a natação em um grupo grande de atletas em um espaço reduzido. Uma vez que o atleta esteja adaptado ao novo estilo de treianmento, pode-se e deve-se utilizar técnicas e materiais normalmente utilizados em treinamentos convencionais, como flutuadores, pranchas e treinos de tiros e de resistência, entre outros. Certamente ocorrerão algumas adaptações a esses métodos, como por exemplo, a não paralisação do treino, ou se necessário, uma parada mínima para troca de material, não afetando a continuidade do trabalho.

Como todo trabalho em circuito, obviamnte devese fazer metade do treino no sentido horário, e a outra metade no sentido anti-horário, promovendo assim, um desenvolvimento harmonioso das estruturas físicas do atleta, bem como realizar a respiração bilateral. As 4 curvas que o atleta irá fazer ao completar uma volta no circuito, não irão influenciar num mal desenvolvimento físico do atleta, tão pouco acarretarão problemas musculares e/ou articulares, pois haverá apenas uma mudança mínima nos ângulos de alavanca da braçada, que não serão suficientes para mudar as características da braçada, nem tão pouco desestabilizar o nadador e lesionar a sua coluna, com a pequena flexão lateral no momento da curva. Vale acrescentar que não serão feitas curvas em 90 graus, e sim curvas um pouco mais abertas, sem movimentos bruscos e repentinos, e também com ausência de gravidade. O atleta terá que ter a sua disposição a piscina inteira, pois qualquer outro banhista poderá atrapalhar e até interromper o treino. Com isso, o atleta ou a equipe de treinamento terão que adaptar os horários de treinos, se estes forem realizados em piscinas públicas ou de clubes. Piscinas de dimensões muito pequenas não são apropriadas para o treinameno aqui proposto. As dimensões mínimas aceitáveis são de 25 x 14 m, o que resultará em um circuito de aproximadamente 70 metros de extensão em cada volta. CONCLUSÃO O método de treinamento para travessias aqui proposto, realizado em piscinas é de grande utilidade, pois otimiza o desempenho do atleta pela sua continuidade, ritmo e especificidade de movimentos e duração, chegando assim o mais próximo possível das condições encontradas na prova. Com o esporte cada vez mais detalhista e competitivo, o atleta tem que tornar seu treinamento mais específico para sua prova, o que o colocará um passo à frente de seus adversários, em busca da vitória.
ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA: Gerson Antonio Moreira Teixeira Rua Domingos Cordeiro Gil, 109 – Chácara D. Hipólito CEP 12010-250 – Taubaté – SP