RELAÇÕES DE GÊNERO

1998 SÃO PAULO

Apoio John D. and Catherine T. MacArthur Foundation

Rua dos Tupinambás, 239 - Paraíso 04104-080 - São Paulo - SP Telefones: (011) 572.7359/573.9806 Telefax: (011) 573.8340 E.mail ecos@uol.com.br

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ECOS - Estudos e Comunicação em Sexualidade e Reprodução Humana

Equipe Responsável Margareth Arilha Osmar de Paula Leite Silvani Arruda Sylvia Cavasin Vera Simonetti

Coordenação Silvani Arruda

Redação Silvani Arruda Sylvia Cavasin

Copidesque e Revisão Vera Simonetti

Pedidos

Rua dos Tupinambás, 239 04104-080 - São Paulo - SP Tel.: (011) 572.7359 Fax: (011) 573.8340 e.mail: ecos@uol.com.br As informações deste manual podem ser reproduzidas total ou parcialmente. Pede-se, contudo, a citação da fonte.

ÍNDICE

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Relações de Gênero ......................................................................................... Trabalhando com a escola, a família e a comunidade ................................. Perguntas e Respostas .................................................................................... Dinâmicas Sugeridas • Árvore dos valores ...................................................................................... • Como são os homens? Como são as mulheres ....................................... • Estudos de caso: João e Ana ..................................................................... • Quem faz o quê? .......................................................................................... • Dicionário ...................................................................................................... • Análise de texto ............................................................................................ • Linguagem não sexista ............................................................................... • Mulher invisível ............................................................................................. • Ocupação do espaço ................................................................................... • O que você faria se... ................................................................................... • Trabalhos para homens e mulheres ........................................................... • O jornal .......................................................................................................... • Clarificação de valores ................................................................................ • Violência e meios de comunicação ............................................................ • Situações de violência ................................................................................. • Interpretando papéis .................................................................................... Textos de Apoio • Novos Tempos ............................................................................................ • Discriminação: o que é isso? .................................................................... • Violência, essa velha conhecida nossa! ................................................... Anexos • Gênero e Desenvolvimento ....................................................................... • Estupro: um crime mais comum do que se pensa .................................. • A Declaração Universal dos Direitos Humanos ....................................... • Declaração dos Direitos Humanos desde uma perspectiva de gênero . Bibliografia .......................................................................................................

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RELAÇÕES DE GÊNERO
De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, o conceito de gênero diz respeito ao conjunto das representações sociais e culturais construídas a partir das diferenças biológicas dos sexos. Enquanto o sexo diz respeito ao atributo anatômico, no conceito de gênero toma-se o desenvolvimento das noções de “masculino” e “feminino” como construção social. O uso desse conceito permite abandonar a explicação da natureza como responsável pela grande diferença existente entre os comportamentos e lugares ocupados por homens e mulheres na sociedade. Essa diferença historicamente tem privilegiado os homens, na medida em que a sociedade não tem oferecido as mesmas oportunidades de inserção social e exercício de cidadania a homens e mulheres. Mesmo com a grande transformação dos costumes e valores que vem ocorrendo nas últimas décadas, ainda persistem muitas discriminações relacionadas ao gênero. Atualmente reivindica-se a inclusão da categoria de gênero, assim como etnia, na análise dos fenômenos sociais, com o objetivo de retirar da invisibilidade as diferenças existentes entre os seres humanos que, por vezes, encobrem discriminações. Por exemplo, um dado estatístico, como “nível de escolaridade médio atingido pelo alunado brasileiro”, não expõe as diferenças entre o nível de escolaridade de meninos e meninas, assim como a diferença da escolaridade atingida por crianças brancas e crianças negras. Entretanto, incluindo essas variáveis, o mesmo dado estatístico revelará diferenças que podem ser analisadas como discriminações. Trata-se, portanto, de desvendar e explicar as discriminações e preconceitos associados ao gênero, para garantir a eqüidade como princípio para o exercício da cidadania. É inegável que há muitas diferenças nos comportamentos de meninos e meninas. Reconhecê-las e trabalhar para não transformá-las em desvantagens é papel de todo/a educador/a. O trabalho sobre relação de gênero tem como propósito combater relações autoritárias, questionar a rigidez dos padrões de conduta estabelecidos para homens e mulheres e apontar para a sua transformação. Desde muito cedo são transmitidos padrões de comportamento diferenciados para homens e mulheres. A flexibilização dos padrões visa permitir a expressão de potencialidades existentes em cada ser humano e que são dificultadas pelos estereótipos de gênero. Como exemplo comum, pode-se lembrar a repressão das expressões de sensibilidade, intuição e meiguice nos meninos ou objetividade e agressividade nas meninas. As diferenças não precisam ficar aprisionadas em padrões preestabelecidos, mas podem e devem ser vividas a partir da singularidade de cada um. Como um dos primeiros aspectos ligados ao gênero na escola, constatamos que o relacionamento dos/as alunos/as entre si evolui do agrupamento espontâneo das crianças em “clubes do Bolinha e da Luluzinha”, passando pelas amizades “exclusivas” (em geral do mesmo sexo), até a aproximação entre meninos e meninas, determinada pela busca do conhecimento do outro. Com a puberdade, há maior entrosamento e atração entre eles. Essa aproximação não se dá sem conflitos, medos e, por vezes, agressões de diferentes intensidades.

A Transversalidade
A questão de gênero se coloca em praticamente todos os assuntos trabalhados pela escola, nas diferentes áreas. Estar atento a isso, explicitanto sempre que necessário, é uma forma de ajudar os/as jovens a construir relações de gênero com eqüidade, respeito pelas diferenças, somando e complementando o que os homens e as mulheres têm de melhor, compreendendo o outro e aprendendo com isso a ser pessoas mais abertas e equilibradas. São muitas as possibilidades da transversalidade desse bloco de conteúdo. Em Língua Portuguesa, nos textos literários, podem-se perceber as perspectivas de gênero por meio de análise das personagens e descrições de suas características. Seria interessante também discutir as próprias regras do idioma, quando estabelecem, por exemplo, que o plural no masculino inclui as mulheres, mas plural no feminino exclui os homens. Língua Estrangeira pode explorar as diferentes conotações atribuídas ao masculino e ao feminino em vários países e diferentes culturas, ao trabalhar na literatura a leitura e a tradução de textos. Ao estudar movimentos migratórios em Geografia, podem-se incluir as perspectivas de gênero, analisando as conseqüências das migrações nos arranjos familiares, nas ocupações profissionais e na ocupação de espaços. Em Arte, seria interessante trabalhar as discriminações. Os atributos relacionados à sensibilidade artística costumam ser associados ao feminino. No caso de dança (balé especialmente) a discriminação dos meninos que se interessam por sua prática é muito evidente e merece ser debatida. Pode-se abordar, também, a conotação pejorativa que as mulheres tiveram até muito recentemente, quando assumiam uma carreira artística. Eram vistas como autênticas prostitutas, sendo rejeitadas por suas famílias, enfrentando uma discriminação muito maior do que a impingida aos homens. Como homens e mulheres expressam na arte suas diferenças e semelhanças é outra sugestão que a área pode investigar. A história das mulheres, suas lutas pela conquista de direitos e enormes diferenças que podem ser encontradas ainda hoje nas diversas partes do globo, constitui tema de estudo, tanto em História quanto em Geografia, e mesmo em Matemática, ao utilizar dados para análise dos avanços progressivos do movimento de mulheres ao longo do tempo. Esses avanços referem-se principalmente à maior participação das mulheres na esfera pública em todos os aspectos: na política, na cultura, no trabalho remunerado e outros.

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Tratar das relações de gênero com as diferentes faixas etárias, convém esclarecer, é uma tarefa delicada. Há alguns mitos associados ao gênero na escola que precisam ser questionados: as disciplinas onde os meninos se saem melhor (Matemática, por exemplo) e as que apresentam melhor aproveitamento pelas meninas (Língua Portuguesa, por exemplo). Se o/a educador/a tem essa crença, mesmo sem perceber pode ajudar a promovê-la, sendo que sua origem pode não ter nenhuma ligação com o sexo biológico e, sim, com experiências vividas que a escola pode alterar. São comportamentos e habilidades socialmente desenvolvidos, não tão explícitos, a que os/as educadores/as precisam estar atentos/as para não tomá-los como “naturais” e ligados ao sexo biológico, como a forma diferenciada de expressão verbal de meninos e meninas. Estas tendem a usar a linguagem de forma mais indireta e, portanto, mais facilmente são interrompidas em suas dúvidas e não são tão ouvidas pelos/as educadores/as como os meninos, que tendem a ser mais diretos nas questões. Há também que se considerar que, em função da educação diferenciada, as experiências prévias dos alunos são diferentes das alunas, o que pode significar maior grau de dificuldade de aprendizagem de determinadas atividades (em geral os meninos apresentam maior experiência em atividades manipulativas e em visualidade espacial; e as meninas, maiores habilidades para o cuidado e atenção às outras pessoas). Na Educação Física também pode acontecer de persistirem antigos estereótipos ligados ao gênero, como a separação rígida entre práticas esportivas e de lazer dirigidas a meninos e meninas. O/A educador/a pode intervir para garantir as mesmas oportunidades de participação a ambos os sexos, ao mesmo tempo que respeita os interesses existentes entre seus alunos e alunas. A rigor, podem-se trabalhar as relações de gênero em qualquer situação do convívio escolar. Elas se apresentam de forma nítida nas relações entre os/as alunos/as e nas brincadeiras diretamente ligadas à sexualidade. Também estão presentes nas demais brincadeiras, no modo de realizar as tarefas escolares, na organização do material de estudo, enfim, nos comportamentos diferenciados de meninos e meninas. Nessas situações, o/a educador/a, estando atento/a, pode intervir de modo a se colocar contra as discriminações e questionar os estereótipos associados ao gênero. Os momentos e as situações em que se faz necessária essa intervenção são os que implicam discriminação de um/a aluno/a em um grupo, com apelidos jocosos e à vezes questionamento sobre sua sexualidade. O/A educador/a deve, então, sinalizar a rigidez das regras existentes nesse grupo, apontando para a imensa diversidade dos jeitos de ser homem ou mulher. Também as situações de depreciação ou menosprezo por colegas do outro sexo demandam a intervenção do/a educador/a a fim de se trabalhar o respeito ao outro e às diferenças. A proposição, por parte do/a educador/a, de momentos de convivência e de trabalho com alunos de ambos os sexos pode propiciar observações, descobertas e tolerância das diferenças. Essa convivência, mesmo quando vivida de forma conflituosa, é também facilitadora dessas relações, pois oferece oportunidades concretas para o questionamento dos estereótipos associados ao gênero. Há ainda outro fato que merece muita atenção por partes dos/as educadores/as: a violência associada ao gênero. Essa forma de violência deve ser alvo de atenção, pois constitui-se em atentado contra a dignidade e até a integridade física das mulheres. O fato de os meninos geralmente possuírem maior força física que as meninas não deve possibilitar que ocorram situações de coerção, agressão ou abuso sexual. É dever do/a educador/a intervir nessas situações e encaminhá-las às autoridades competentes além, é claro, de assistir à vítima. Se situações como essas acontecem na escola devem ser alvo de discussão e reflexão por parte da comunidade escolar, a fim de prevenir outras similares e garantir o respeito ao outro. Outro ponto que merece atenção é o material didático escolhido para o trabalho em sala de aula, que muitas vezes apresenta estereótipos ligados ao gênero, como a mulher predominantemente na esfera doméstica e realizando trabalho não remunerado, enquanto o homem é associado ao desempenho de atividades sempre na esfera pública. A atenção, o questionamento e a crítica dos/as educadores/as no trato dessas questões é parte do seu exercício profissional, que contribui para o acesso à plena cidadania de meninos e meninas. Nas questões mais diretamente ligadas à sexualidade humana, a perspectiva de gênero está inevitavelmente presente. É preciso até fazer esforço para poder ignorá-la. Tome-se como exemplo a discussão do tema da homossexualidade. Muitas vezes se atribui conotação homossexual a um comportamento ou atitude que é expressão menos convencional de uma forma de ser homem ou mulher. Ela escapa aos estereótipos de gênero, tal como um menino mais delicado ou sensível ser chamado de “bicha” ou uma menina mais agressiva ser vista como lésbica, atitudes essas discriminatórias. Em cada período histórico e em cada cultura, algumas expressões do masculino e do feminino são dominantes e servem como referência ou modelo, mas há tantas maneiras de ser homem ou mulher quantas são as pessoas. Cada um tem o seu jeito próprio de viver e expressar sua sexualidade. Isso precisa ser entendido e respeitado pelos/as jovens. O que esta proposta pretende é que se aborde, o tempo todo, a perspectiva de gênero nas relações, na vivência da sexualidade, explicitando e buscando formas mais criativas nos relacionamentos sexuais e amorosos.

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O preconceito de gênero na sala de aula...
Embora tenhamos consciência de que a questão de gênero permeia toda a sociedade, nas mais diferentes formas e disfarces, a escola será nossa preocupação central. É importante ressaltar que as sugestões aqui apresentadas terão resultado mais efetivo na medida em que forem assumidas pela unidade de ensino como um todo e não apenas por agentes isolados. Cada educador/a, portanto, poderá adaptá-las às condições de suas próprias salas de aula e oferecer, assim, um ambiente mais justo para todos/as os meninos e as meninas. O preconceito de gênero afeta tanto os meninos quanto as meninas. Se for eliminado, isto melhorará, sensivelmente, a vida de todos/as, pois um ambiente livre do sexismo oferece melhores condições para o desenvolvimento físico e psicológico e possibilita melhor aproveitamento escolar. É responsabilidade da escola ajudar todos/as a se libertarem de comportamentos estereotipados, rígidos, em relação aos papéis sexuais. Para tanto, deve criar programas educacionais que venham favorecer a auto-suficiência econômica, a satisfação profissional e as habilidades. O problema do preconceito de gênero nas salas de aula tem base em sistema em que a estrutura escolar reproduz as estruturas sistemáticas de poder, de privilégios e do patriarcado na sociedade. A diminuição do preconceito de gênero exige um esforço colaborativo, multifacetado, entre as pessoas envolvidas em cada escola. Não só os/as educadores/as, mas também alunos/as e membros de suas famílias, administradores/as, psicólogas/os e também instituições governamentais podem intervir para criar ambientes educacionais mais justos em relação ao gênero.

... nos livros e materiais didáticos
É possível analisar exaustivamente o preconceito de gênero nos livros e nos manuais didáticos. Aqui, entretanto, apresentaremos só alguns exemplos e fontes para ilustrar o problema. As imagens de homens e mulheres apresentadas nos manuais escolares não refletem, em geral, a realidade em que vivem hoje as crianças e não oferecem às meninas a mesma igualdade de oportunidades dada aos meninos. Na apresentação da “vida” e da “família” (relações entre casal e filhos/as, marido e mulher, pai e mãe), deve ser considerado que a divisão dos papéis e das tarefas da mulher e do homem na vida moderna também está em evolução. Ao longo dos últimos vinte anos, houve no Brasil notável aumento da participação feminina no mercado de trabalho. Em todos os níveis sociais, as mulheres buscam ocupações remuneradas, para aumentar os rendimentos familiares. Elas trabalham, em geral, fora de casa e continuam a arcar com a maior parte da responsabilidade das tarefas domésticas - ou com toda esta responsabilidade. São notáveis os esforços para a viabilização de campanhas publicitárias que estimulem os homens a dividir, com as mulheres, as obrigações domésticas: “’Homem na Faxina’ Pode Virar Slogan” (Folha de S. Paulo, 16/01/96, p. 1-6). Como primeiro passo para enfrentar o preconceito de gênero nos livros e nos manuais escolares, os/as educadores/as devem reconhecer que estes materiais, em geral, não apresentam imagens justas em relação ao gênero e precisam introduzir outras atividades didáticas.

A importância do papel da escola e do/a educador/a
As crianças aprendem o sexismo na escola ao se defrontar com a hierarquia do sistema escolar, onde os papéis feminino e masculino estão determinados. Tal sistema define que, no futuro, os homens serão dirigentes no mundo do trabalho, enquanto às mulheres está destinado o segundo lugar nos processos de decisão. Isto imprime “no inconsciente e no consciente das meninas um limite para suas ambições” (ALAMBERT, 1990, p. 25, NEMGE/USP). As expectativas e as ações de um/uma só educador/a podem obter muitos resultados na vida dos/das alunos/as. Pode haver resistências por parte de colegas, supervisores/as, pais/mães, alunos/as e da comunidade como um todo. É importante, todavia, que o/a educador/a esteja seguro/a de que está lutando pelo desenvolvimento completo de meninas e meninos e que seu esforço poderá ajudar no desenvolvimento dos adultos que trabalham com as crianças. É preciso ser realista quanto ao que se pode conseguir. Pequenas mudanças têm, muitas vezes, um efeito expansivo que pode produzir transformações em áreas imprevistas. Para efetivar tais mudanças, é fundamental envolver as famílias dos/das alunos/as. Ao ignorar o potencial e as qualidades das meninas, põe-se em situação de desvantagem não só a elas, como também aos meninos. Tratar as meninas de forma séria não é apenas uma questão de justiça, mas de sobrevivência cultural, sócio-econômica e de cidadania. As escolas devem incentivar tanto as meninas como os meninos a usarem as habilidades necessárias para participar na família, na comunidade e no mercado de trabalho. É necessário, desde o início, adotar uma postura crítica em relação aos materiais pedagógicos utilizados na escola. Estes são, em grande parte, veículos que reproduzem mensagens sexistas e preconceituosas. O objetivo deste Manual, portanto, é proporcionar aos/às educadores/as instrumentos que ajudem a introduzir esta “postura crítica” no cotidiano de seu trabalho, permitindo-lhes enfrentar a erradicar o sexismo dentro e fora da escola. Sugestões e possíveis soluções para se trabalhar com gênero em sala de aula
CASOS USOS CORRENTES POSSÍVEIS SOLUÇÕES COMENTÁRIOS

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Emprego do masculino com valor genérico

“o homem”, “os homens”

Os Direitos Humanos Uso permanente de estereótipos

“Os Direitos do Homem” “Os Direitos dos Homens” Referir-se ao/à educador/a como “o tio”, “a tia”

Os homens e as mulheres Os seres humanos A humanidade As pessoas Os Direitos Humanos Os Direitos da Humanidade A educadora Helena O educador José

Evitar o uso genérico de o homem, os homens.

São direitos de todos/as (homens e mulheres). Evitar identificar as pessoas pela profissão que exercem como se fossem anônimas.

“Menino brinca com bola” “Menina brinca com boneca”

Na área das Ciências Humanas: - As estruturas sociais e institucionais mantêm os homens em posições dominantes.

Na imagem e representação: As posições de comando e moral são sempre como esposas e mães.

Não há brinquedo ou brincadeira específica para cada sexo. Meninos e meninas brincam juntos com o mesmo tipo de brinquedo. Desenvolver nos/as estudantes a visão de que a pessoa alcança posições hierárquicas superiores por competência e não por condição de gênero. Destacar que as mulheres podem ter outro estado civil, além do de esposas. Aos homens tem sido negada a visibilidade da função paterna.

Evitar o uso das expressões “Isto é brinquedo de menino”; “Esta brincadeira é para meninas”.

Pela Constituição Brasileira, todos/as são iguais: mulheres e homens. Demonstrar que é necessário haver igualdade de oportunidades para ambos os sexos.

- A “sociedade” tem definido que há certas profissões femininas e outras masculinas.

O magistério e o setor de saúde, no campo da enfermagem, se feminizaram, ao passo que a área de exatas é masculina.

- A história oficial é predominante masculina.

Os homens constróem a história.

Atualmente, as mulheres participam de modo ativo de todos os setores e campos profissionais. Em algumas áreas, têm presença marcante.

Demonstrar que tanto há educadores e enfermeiros, como químicas e técnicas em informática, etc. Ressaltar que a atividade profissional não é extensão do lar. Apresentar o papel das mulheres em cada momento histórico.

Os homens e as mulheres constróem a história.

Nos julgamentos subjetivos

“Menino não chora” “Forte como um menino” “Frágil como uma menina”

Criança e adultos choram. O menino e a menina são fortes e corajosos.

Na esfera profissional, o tratamento entre gêneros é diferente

Nas ilustrações didáticas e nos livros escolares, a mulher aparece, em geral, exercendo atividades no lar; o homem, no escritório, na oficina, etc.

Dar visibilidade às mulheres que trabalham fora de casa. Destacar a importância do trabalho no lar - tanto para as mulheres, como para homens.

Invisibilidade

Na representação de uma reunião de trabalho, os homens predominam.

Equilíbrio entre os sexos nas ilustrações escolares e nas representações de personagens.

Seletividade

O material pedagógico apresenta apenas idéias de um só grupo (predomínio de homens, predomínio de mulheres) Nas representações ilustradas, mulheres e homens aparecem sempre em grupos separados.

Fragmentação

Apresentar várias situações em que fique evidente que mulheres e homens compartilham as mesmas atividades e responsabilidades. Nas representações, não deve haver isolamento entre mulheres e homens.

Mostrar meninos e meninas como igualmente capazes em termos de maturidade, dedicação, autocontrole, doçura, gentileza, imaturidade, egoísmo, sensibilidade em relação aos outros, motivação, rudeza, subjetividade, etc. Apresentar mulher e homem em todos os tipos de trabalho e funções profissionais. Observar que as mulheres desempenham papéis sociais e políticos em todos os níveis, com a mesma competência, a mesma autoridade e o mesmo espírito de iniciativa que seus colegas homens. Evitar a ausência de modelos femininos, nomeadamente positivos e fortes, com os quais as meninas possam identificar-se e, assim, desenvolver a autoconfiança. Evitar desequilíbrio gritante nas representações.

A informação isolada sobre mulheres sugere, erroneamente, que contribuições e experiências femininas são apenas episódios interessantes, não essenciais nem decisivos para a evolução da sociedade. É importante integrar a questão de gênero aos princípios e valores fundamentais da educação, de modo que a experiência escolar contribua para a igualdade entre os sexos.

É usual estudar o tema “mulher e gênero” separado do currículo.

O estudo de gênero tem que ocorrer integrado ao cotidiano das disciplinas e da escola.

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FONTE: NEMGE/USP

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Esportes e Educação Física - Cooperação e não Competição
Jogos Cooperativos
Mulheres e homens possuem, é evidente, diferentes bagagens biológicas. O uso do corpo, suas possibilidades e limitações, não obstante, têm sido e são objeto de condicionamentos de gênero. Estes condicionamentos chegam a confundir o “cultural” com o “natural”. Nos últimos anos, contudo, alguns dos mitos sobre a educação física feminina vêm desaparecendo. Hoje, as mulheres estão se destacando em esportes como o futebol, o voleibol, o basquete, o ciclismo, o alpinismo, as corridas de Fórmula 1, o caratê, o judô, o atletismo, etc., dos quais, até ontem, só os homens participavam. Isso se deve, em parte, às trocas sociais produzidas pelo avanço das mulheres na conquista de seus direitos, o que lhes permite enfocar suas vidas numa perspectiva mais ampla, que ultrapassa os limites da casa e que lhes abre novos caminhos, tais como o acesso ao mundo do trabalho, à cultura e à política. É necessário que, desde a mais tenra idade, as meninas participem, como os meninos, de todas as atividades de esporte e educação física, deixando de ser simples espectadoras. Fábio Otuzi BROTTO (1995) defende o princípio de que, “se o importante é competir, o fundamental é cooperar”. Este autor criou o seguinte esquema:

Quais são as alternativas para jogar?
Jogos Competitivos (tradicionais)
São divertidos apenas para alguns/mas. A maioria tem o sentimento de derrota. Alguns/mas são excluídos/as por sua falta de habilidade. Aprende-se a ser desconfiado/a. Os/as perdedores/as ficam de fora do jogo e simplesmente se tornam observadores/as. Os/as jogadores/as não se solidarizam e ficam felizes quando alguma coisa de “ruim” acontece aos/às outros/as. A pouca tolerância à derrota desenvolve em alguns/mas jogadores/as um sentimento de desistência face às dificuldades. Poucos/as se tornam bem sucedidos/as.

Jogos Cooperativos (alternativos)
São divertidos para todos/as. Todos/as têm um sentimento de vitória. Há mistura de grupos que brincam juntos, criando alto nível de aceitação. Todos participam e ninguém é rejeitado/a ou excluído/a. Os/as jogadores/as aprendem a ter senso de unidade e a compartilhar o sucesso. Desenvolvem autoconfiança, porque todos/as são bem aceitos/as. A habilidade de perseverar face às dificuldades é fortalecida. É um caminho de co-evolução.

FONTE: NEMGE/USP

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TRABALHANDO COM A ESCOLA, A FAMÍLIA E A COMUNIDADE
As mudanças que os/as educadores/as conseguem em sala de aula refletem-se em casa, quando os/as alunos/as estão com a família. Além disso, na escola, os/as educadores/as precisam interagir com companheiros/as de profissão e supervisores/as. Na sociedade em geral, existem forças que lutam contra seus esforços para promover a igualdade de gênero. É preciso trabalhar junto aos/às colegas, às famílias dos/das alunos/as e à comunidade em geral, para introduzir a igualdade e a eqüidade de gênero. Prepare-se para a resistência das pessoas, pois as idéias expostas podem representar uma ameaça para aqueles/as que preferem ficar com o “status quo”. Às vezes, as próprias mães têm medo de abrir espaço para a igualdade de suas filhas. Um exemplo desse fato foi vivido por um educador de educação física de um dos CAICs. Ele convenceu seus alunos a lavar as camisetas sujas, depois da prática dos esportes. As mães de dois meninos reclamaram, afirmando que só as meninas devem lavar roupas - e pediram que as filhas lavassem as camisetas de seus irmãos. Sugestões - Escola • No âmbito da escola, tente reunir outros/as educadores/as que também desejam trabalhar em favor da questão de gênero, compartilhando materiais didáticos e idéias. • Se encontrar materiais, como livros didáticos e manuais escolares, marcadamente sexistas, converse com os/as supervisores/as e explique por que tais materiais devem ser substituídos por outros. • Para apoiar mudanças pessoais, trabalhe juntamente com um/uma colega, observando o desempenho do/da outro/a e debatendo o que se poderia fazer para melhorar a igualdade de gênero. • Convide entidades para fazer uma oficina sobre igualdade de gênero em sua escola. Sugestões - Família As crianças, antes de passarem a freqüentar a escola, convivem com pessoas que, nem sempre, têm conceitos claros sobre a questão de gênero. A regra geral é um aprendizado sexista desde a mais tenra idade. Isso torna muito difícil, na escola, o trabalho de mudança e erradicação das representações preconceituosas e estereotipadas sobre o gênero. O trabalho de conscientização da família quanto aos preconceitos sexistas deve ser realizado nas reuniões com pais e mães, pelo/a educador/a e pelas/os orientadoras/es educacionais. O exemplo dado pelo/a educador/a tem inestimável importância para a fixação do ensinamento. • Encoraje as famílias a não estereotipar as crianças em papéis sociais rígidos, baseados no masculino e no feminino. • Convide pais e mães a visitarem a sala de aula. Aproveite a ocasião para conversar sobre igualdade de gênero na família. • Tente conhecer e compreender as dificuldades e os problemas - da mesma forma que as conquistas e as satisfações -, não só dos/das alunos/as, como também das famílias. • Esteja atento aos comportamentos dos/das estudantes que refletem, freqüentemente, o cotidiano que vivenciam no lar. Violência física, emocional e sexual, por exemplo, são muito comuns, tendo como vítimas as crianças. Apoiá-las/los, nesta situação, é de enorme significado e concorre para evitar catástrofes irreparáveis. Sugestões - Comunidade • Recorra a instituições e use os recursos da comunidade. Solicite a realização de palestras sobre a igualdade de gênero. • Utilize os materiais disponíveis nas diversas universidades, instituições públicas e particulares e ONGs (organizações não-governamentais). • Converse com autoridades locais sobre a importância do ensino com igualdade de gênero. Convide-as a observar, em sua sala de aula, atividades ligadas à questão. • Procure as ONGs locais que lutam pela igualdade de gênero. Convide-as, também, a visitar sua escola. • Apóie leis federais, municipais ou estaduais que promovam a igualdade de gênero.
FONTE: NEMGE/USP

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PERGUNTAS E RESPOSTAS
Trabalhar com uma perspectiva de gênero ainda causa alguma estranheza a alguns/as educadores/as por esta razão, reproduzimos algumas das perguntas mais freqüentes que os/as educadores/as trazem nos cursos de capacitação.

1. Tendo em vista que geralmente são as meninas que se interessam pelos jogos dos meninos, como fazer para que aconteça o contrário? Isto é lógico, visto que existe uma atitude generalizada, imersa em todos os aspectos culturais e sociais de desvalorização das áreas, valores e capacidades designadas às mulheres. Temos que revisar nosso papel enquanto educadores/as e trabalhar para uma verdadeira postura de mudança de atitudes. As mensagens de discriminação por sexo não dependem exclusivamente de nós. Existe uma infinidade de emissores, entre eles a família, os meios de comunicação, livros, etc. Devemos agir para que os brinquedos e jogos não reproduzam os papéis tradicionais, discriminatórios e que podem ser utilizados do mesmo modo por meninos e meninas.

2. Deve-se forçar as meninas que não o fazem deliberadamente a brincar com brinquedos tradicionalmente considerados de meninos? Não se trata em nenhum caso de impor nada, nem de forçar a nada, nem tampouco proibir que brinquem. Na realidade, o problema reside em se considerar como inato, natural, algo que é aprendido através da educação e da cultura. As crianças imitam portes e condutas observadas nos adultos, assumem papéis vividos em suas casas, no colégio, na rua e os reproduzem fielmente. Do mesmo modo interiorizam a valorização que estes papéis adquirem na sociedade. O importante é oferecer-lhes novos padrões e modelos de relação entre os gêneros. Não será então necessário forçar a menina a jogar futebol se ela está vendo que seus irmãos maiores, sua mãe e sua educadora o fazem e desfrutam esse prazer com ela. Igualmente, se um menino vê o seu pai entusiasmado com um novo "prato" na cozinha acabará imitando-o e valorizando esta atividade de forma positiva. Não se trata de que os meninos devam brincar com bonecas e as meninas com carros, mas sim de superar a dualidade tradicional: "isto é de meninos", "isto é de meninas" e permitir que os brinquedos sejam empregados por ambos os sexos indistintamente. De fato, se observarmos a realidade, tanto os meninos como as meninas brincam com bonecos. Existem bonecos para meninos e bonecas para meninas. Seria conveniente fomentar o desejo de romper barreiras, curiosidade pelo desconhecido, pelo novo, e comprovar vivencialmente o atrativo que podem resultar essas novas atividades.

3. O que acontece quando um menino que tenta brincar com casinhas e com bonecas é discriminado? Quando um menino é discriminado, por exemplo, chamado de "mulherzinha", a nossa preocupação é pelo valor que tem este insulto para ele. Isto não terá tanta repercussão em uma criança que observa seus modelos referenciais, pessoas que admira (pai, irmão, amigo, educador) realizando com gosto e satisfação aquelas atividades que propiciam chamar-lhes de "mulherzinha". Ainda que a existência desses padrões seja primordial, será necessário que a criança desenvolva confiança em si mesmo e que reforcemos sua auto-estima, sua autonomia, etc. Não podemos esquecer que a educação para uma sociedade não sexista exige uma educação para a resolução dos conflitos e isto poderá realizar-se de forma positiva, criativa, construtiva, na medida em que meninos e meninas tenham segurança em si mesmos e no meio em que os cerca.

4. As meninas, ao integrar-se nos jogos "só para meninos", se sentem em situação de inferioridade de condições: força, agilidade, etc. Não é isto contraproducente, sobretudo para a auto-estima, e portanto, simplesmente, não seria melhor não jogar? Não é certo que as meninas sejam menos ágeis que os meninos e é muito discutível que sejam menos fortes. O que ocorre normalmente quando uma menina tenta jogar futebol pela primeira vez é que argumentariam que ela joga mal o futebol na primeira vez porque é menina. Pelo contrário, quando um menino joga pela primeira vez, lhe dizem que ele é novato e que pode lutar e superar-se. Agora, com a menina "não se pode fazer nada". Isto não é nenhuma limitação real mas um estereótipo cultural. Não devemos esquecer que as meninas sofrem a conseqüência de estereótipos que limitam suas potencialidades e os meninos sofrem as exigências impostas pela sociedade de "machos" que em muitas ocasiões podem ser asfixiantes e originam complexos. Devemos revisar o conceito de força: analisar por que a força sempre está associada à força física e não

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psicológica (força de vontade, auto-estima, confiança no futuro, capacidade de resistência à manipulação...). Se é certo que a força física é tão importante, notadamente o ser mais forte também seria o mais prestigiado e neste sentido o gorila estaria com ótimo status.

5. O que é igualdade e eqüidade de gênero? De acordo com o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, igualdade é a “relação entre os indivíduos em virtude da qual todos eles são portadores dos mesmos direitos fundamentais que provêm da humanidade e definem a dignidade da pessoa humana”. Quando falamos em igualdade de gênero, estamos aplicando essa definição às relações sociais entre as mulheres e os homens. Nesse sentido, a igualdade de direitos, de oportunidades e de acesso aos recursos, a distribuição eqüitativa das responsabilidades relativas à família são indispensáveis ao bem-estar de mulheres e de homens. Eqüidade de gênero refere-se à igualdade de oportunidades, ao respeito pelas diferenças existentes entre homens e mulheres e às transformações das relações de poder que se dão na sociedade em nível econômico, social, político e cultural, assim como à mudança das relações de dominação na família, na comunidade e na sociedade em geral.

6. O que é preconceito de gênero? Chamado também de sexismo, o preconceito de gênero é uma atitude social que diminui ou exclui as pessoas, em geral as mulheres, de acordo com o seu sexo. Relacionado ao pensamento e aos hábitos individuais e sociais, envolve atitudes que afetam o comportamento e, freqüentemente, nem são percebidas. A discriminação de sexo é um pouco diferente do preconceito de gênero, porque se refere a tipos de comportamento e práticas individuais e institucionais que, de modo claro, são discriminatórios com base no sexo e, em conseqüência, são contra a lei. Por exemplo: segundo a Constituição Brasileira, “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição” (Art. 5º, § 1). Qualquer instituição e qualquer cidadão/ã que não cumpra este artigo está cometendo um ato ilegal. Ambos - discriminação de sexo e preconceito de gênero - podem ser dissimulados, já que muitos aspectos do preconceito de gênero são sutis e inconscientes, porque estão embutidos nos comportamentos. O preconceito de gênero é uma atitude que pode ser mudada por educadores/as na sala de aula. É possível que alguns/mas educadores/as se perguntem qual a necessidade de tal trabalho, visto que atendem igualmente a meninas e meninos e que o sistema escolar não estabelece discriminação quanto ao sexo. Alguns/as pais/mães e educadores/as acrescentarão ainda que os meninos e as meninas continuarão a manifestar preconceitos e a ter gostos e comportamentos diferentes, apesar dos seus esforços em tratar todas/os do mesmo modo, porque “sempre foi assim... e será”. Não se deve chegar a esta conclusão talvez apressada, pois são múltiplos os fatores que colaboram para a educação de uma criança; é difícil controlá-los, por isso também será difícil educar, de fato, dentro de uma perspectiva de gênero, uma criança em uma sociedade sexista.

7. O que é estereótipo de gênero? O estereótipo de gênero está ligado ao preconceito de gênero. É uma opinião predeterminada, que afeta as relações interpessoais. O estereótipo aparece como uma forma rígida, anônima, reproduz imagens e comportamentos, separa os indivíduos em categorias. Um exemplo de estereótipo de gênero: as meninas são choronas e os meninos não podem chorar.

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DINÂMICAS SUGERIDAS

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Árvore dos Valores
Objetivo • Estimular a percepção de como se dá a construção e a reprodução dos papéis de gênero. Tempo • 50 minutos Material • folhas de papel sulfite divididas em três partes • canetas hidrográficas • fita adesiva • cartaz com desenho de uma árvore com raiz aparente, tronco e galhos, com aproximadamente 2 m de altura • texto Essa Nossa Cultura para todos/as Processo 1. O/A educador/a cola o cartaz com a árvore na parede. 2. O/A educador/a solicita que o grupo se divida em subgrupos e discuta todas as instruções, frases, brinquedos e brincadeiras que são dadas para meninos e meninas diferentemente. 3. Solicita que escrevam cada uma delas em uma parte da folha de sulfite. 4. Quando terminarem, cada grupo fixa suas folhas de papel na raiz da árvore. 5. Depois, pede que reflitam quem costuma reproduzir estas instruções para meninos e meninas (família, escola, sociedade como um todo, religião, mídia, etc.). 6. O/A educador/a escreve o nome dessas pessoas e instituições no tronco da árvore. 7. O/A educador/a solicita que novamente os pequenos grupos pensem quais são as características psicológicas, as tendências profissionais e comportamento em relação a sexualidade e afetividade, dos adultos (homens e mulheres), que são criados com essas orientações. 8. Colocam-se os resultados da discussão na árvore, agora como frutos. 9. O/A educador/a fecha a dinâmica, distribuindo o texto Essa Nossa Cultura para todos/as e pedindo para que um/a deles/as leia em voz alta. Essa nossa cultura... Você já percebeu como nossa sociedade trata meninos e meninas de forma diferenciada? O bebê mal acaba de nascer e já começa a pressão para ser de um jeito ou de outro. Por exemplo, se for menino, tem que ser brigão, não levar desaforo para casa, brincar de carrinho, etc. Se for menina, todo mundo fica falando que ela precisa ser gentil, delicada, que não pode sentar de perna aberta e a maioria dos presentes que ela ganha são bonecas e panelinhas. Se um menino bem pequenininho resolver brincar de boneca, é um Deus nos Acuda... Pais e mães ficam desesperados/as, os/as educadores/as olham desconfiados/as. Se uma menina dá uma surra num menino, então? Já começam a falar que ela é mulher-macho, que onde já se viu mulher bater em homem? Acontece que, um dia, essas crianças crescem e aí começa a dar a maior confusão. A mulher vai trabalhar e exigem que seja ousada, que saiba impor as suas idéias, que saiba negociar, etc. Só que a vida inteira ela aprendeu que tinha que ser submissa, que era feio mulher ficar discutindo!!! E o homem, que sempre aprendeu a ser durão e a não chorar, quando perde o emprego ou não consegue uma promoção fica desesperado. E se no meio de uma transa ele não consegue uma ereção? O mundo vem abaixo e uma coisa supernormal, que acontece com todo mundo, vira o maior drama. Também, pudera, aprenderam que não poderiam falhar nunca! A conclusão é que, no final dessa história, fica todo mundo infeliz, com aquela sensação de que tem algo errado ou que mentiram para a gente. Será que não está na hora de mudar as coisas? Mas, mudar mesmo! Desde bem cedinho... Só assim, todas as pessoas poderiam fazer qualquer tipo de tarefa ou mesmo tomar iniciativas sem ser chamado disso ou daquilo. Elas se entenderiam melhor e seriam bem mais felizes. É ou não é?!

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Como são os homens? Como são as mulheres?
Objetivos • Discutir as diferenças entre homens e mulheres. • Discutir por que estas diferenças se transformaram em desigualdade. Tempo • 50 minutos Material • quadro Como são os Homens? • quadro Como são as Mulheres? • pincel atômico • fita adesiva Processo 1. O/A educador/a informa que, agora, serão discutidas as diferenças entre homens e mulheres. 2. Coloca os quadros Como são os homens e Como são as mulheres na parede e solicita que respondam às seguintes perguntas: Em que se diferencia a forma de ser, de sentir e de se comportar dos homens e das mulheres? 3. Conforme vão falando, o/a educador/a vai colocando as diferenças no quadro correspondente, em forma de palavras-chaves. Escreve apenas uma característica em cada linha. 4. Solicita que indiquem se as diferenças são devidas à natureza diferente entre homens e mulheres (N) ou à educação em uma cultura determinada (C). 5. Quando o grupo esgotar as diferenças, o/a educador/a diz que algumas daquelas diferenças são culturais, isto é, a sociedade espera que seja assim, e que outras são biológicas. 6. O/A educador/a completa o quadro com as diferenças que julgar importantes e que não foram mencionadas. 7. Fecha a dinâmica explicando ao grupo que: O conceito de gênero começou a ser usado na década de 80 por estudiosas feministas, para contribuir com um melhor entendimento do que representa ser homem e ser mulher em uma determinada sociedade e em um determinado momento histórico. Se falamos em sexo, pensamos imediatamente em um atributo biológico, ou seja, já ao nascer o bebê tem um sexo definido. Quando nasce uma menina, sabemos que quando ela crescer será capaz de ter filhos/as e amamentá-los/as. Entretanto, segundo a socióloga Teresa Citelli, “o fato de desde cedo ela ser estimulada a brincar com bonecas e a ajudar nos serviços domésticos, por exemplo, não tem nada a ver com o sexo: são costumes, idéias, atitudes, crenças e regras criadas pela sociedade em que ela vive. A partir da diferença biológica, cada grupo social constrói, em seu tempo, um modo de pensar sobre os papéis, comportamentos, direitos e responsabilidades de mulheres e homens”. Ainda segundo Citelli, “a grande vantagem de se usar a noção de gênero, é a de desnaturalizar relações consideradas até então do domínio da natureza, e dessa forma evidenciar o caráter social e cultural da hierarquia entre gêneros, que quase sempre favorece os homens. O que é considerado natural não pode ser mudado, mas o que é social e cultural pode ser alterado para corrigir desigualdades. Essa compreensão do conceito de gênero permite identificar em nosso cotidiano: quais são os símbolos atribuídos a mulheres e homens, quais as normas de comportamento que decorrem desses símbolos e quais as instituições que funcionam a partir dessas normas e - o mais importante - quais as conseqüências disso tudo na vida de mulheres e homens”. O conceito de gênero permitiu também que se corrigissem dois equívocos: a) a ênfase numa igualdade absoluta, negando as diferenças; b) a centralização em apenas um dos gêneros, não levando em conta que a história da humanidade é uma história de homens e mulheres em relação. Enfim, o conceito de gênero é, antes de tudo, uma construção histórica e social, cujas referências partem das representações sociais e culturais construídas a partir da diferença biológica de sexo. Se partirmos dessa premissa, podemos concluir que: se levarmos em conta que o feminino e o masculino são determinados pela cultura e pela sociedade, as diferenças que se transformaram em desigualdades são, portanto, passíveis de mudança.

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COMO SÃO OS HOMENS

N

C

COMO SÃO AS MULHERES

N

C

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Estudos de caso: João e Ana
Objetivo • Demonstrar situações discriminatórias usuais em razão de sexo. Tempo • 50 minutos Material • texto A família de João e A família de Ana para todos/as • lápis e caneta Processo 1. O/A educador/a pede que a classe se divida em grupos mistos de até 6 pessoas. 2. A seguir, distribui os textos A família de João e A família de Ana para todos/as e solicita que, em grupo, leiam os textos e respondam às seguintes perguntas: A família de João 1. 2. 3. 4. Analisem os diferentes papéis que aparecem nesta família em relação às tarefas de casa. Vocês notam algum tipo de discriminação na educação dos três irmãos? Por que motivos Daniela está encarregada de algumas tarefas domésticas? O que vocês acham da opinião do pai de João de que os homens não devem desempenhar tarefas domésticas? Por quê?

A família de Ana 1. 2. 3. 4. 5. 6. Como descreveria a situação familiar de Ana? Que tipo de discriminação vocês notam entre os membros da família? Que opinião vocês têm sobre os diferentes horários entre Ana e seu irmão? Que motivos vocês acreditam que os pais de Ana tenham para impedi-la de ir à excursão? Vocês acreditam que histórias iguais a esta são freqüentes? Como vocês solucionariam o caso de Ana?

3. Sugere que cada grupo escolha uma pessoa para apresentar as respostas quando terminarem as discussões. 4. Ao final, cada representante do grupo apresenta suas conclusões e o/a educador/a analisa os pontos principais que surgiram.

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A FAMÍLIA DE JOÃO João está cursando a sexta série. Ele ouviu dizer que as mulheres devem ter os mesmos direitos que os homens. Isto lhe pareceu justo, mas normalmente ele percebe que não é assim que acontece. Em casa está sempre ouvindo sua mãe queixar-se de que as mulheres são umas incompreendidas, porque o trabalho doméstico nunca é valorizado. Além dos trabalhos de casa, sua mãe trabalha numa loja de departamentos o dia todo. O pai de João sempre discorda de sua esposa quando ela lhe diz que os homens também deveriam fazer tarefas domésticas. João tem uma irmã mais velha, Daniela, e um irmão mais novo, Marco, que estudam na mesma escola que ele. A irmã de João ajuda no serviço de casa. Arruma a mesa, lava a louça e faz as camas dos irmãos, todos os dias. Muitas vezes, quando o horário permite, vai buscar Marco na saída do colégio, porque João gosta de ficar depois da aula jogando futebol com seus colegas.

A FAMÍLIA DE ANA Ana acaba de terminar o segundo grau. Outro dia me contou que esperava que sua mãe deixasse ela ir, junto com a classe, em uma excursão para a praia. Quando seu irmão Alexandre terminou a 8ª série, sua mãe permitiu que ele fosse viajar com a classe durante cinco dias. Ana se queixou também da hora que tem que chegar em casa nos fins de semana. Ela, sendo maior de idade, não pode chegar depois das 21:00 h, enquanto seu irmão mais novo chega todos os dias às 22:00 h. Outro dia, Ana chegou depois das 22:00 h. e levou uma grande bronca de seu pai e sua mãe. Ana não conseguiu se conter e respondeu que ela era tratada de forma diferente em relação a seu irmão. Seu pai e sua mãe ficaram ainda mais bravos lamentando a sua má educação e disseram que Ana deveria compreender que, sendo mulher, não podia ficar andando à noite pela rua.

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Quem faz o quê?
Objetivo • Tornar visível a divisão das tarefas necessárias para a manutenção da casa e da família. Tempo • 50 minutos Material • ficha Quem faz o quê • lápis ou caneta • quadro Quem faz o quê para fechamento Processo 1. O/A educador/a distribui a ficha Quem faz o quê para todos/as e solicita que a preencham de acordo como é feita a divisão das tarefas domésticas em sua casa.

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EU F LIMPEZA tirar o lixo lavar a louça Limpar o fogão tirar o pó varrer Encerar lavar banheiro arrumar quartos fazer as camas comprar produtos limpeza COMIDA fazer as compras fazer a comida preparar a mesa tirar a mesa CONSERTOS/REPARAÇÕES desentupir canos trocar lâmpadas consertar ferro/aparelhos ROUPAS lavar, estender, passar costurar, remendar M

MÃE

PAI

IRMÃO

IRMÃ

TODOS/AS

OUTRO/A

2. Quando todos/as terminarem, o/a educador/a pede que cada um/a diga quem faz o quê em sua casa e vai somando no quadro o número de vezes que aparece cada pessoa realizando a tarefa 3. Feita a contagem, solicita que façam grupos de mais ou menos 5 pessoas e que respondam às seguintes questões: • Que trabalhos da lista vocês consideram mais importantes? Por quê? • Vocês acreditam que existem tarefas de meninos e tarefas de meninas nas atividades relacionadas? Por quê? • Como foi distribuído o trabalho na sua casa? − foi decidido entre todos/as − minha mãe decidiu − meu pai decidiu − ninguém decidiu • Vocês acham que seria possível melhorar a distribuição do trabalho de casa? Como? • Da lista de atividades, existe alguma que vocês não sabem fazer e que gostariam de aprender? • Como vocês gostariam de realizar o trabalho doméstico com seu/sua futuro/a parceiro/a? • Vocês acham que as meninas estão mais obrigadas a realizar os trabalhos domésticos pelo fato de serem mulheres? Se sim, lhes parece justo? • Vocês acham que as mulheres gostam de realizar os serviços domésticos? *****

Dicionário
Objetivo • Clarificar as desigualdades de gênero presentes nos materiais que usamos cotidianamente. Tempo • 50 minutos Material • 1 cópia do verbete Homem e 1 cópia do verbete Mulher para cada grupo Processo 1. O/A educador/a divide os/as participantes em grupos de 5 ou 6 pessoas. 2. A seguir, distribui as cópias para os grupos e escreve a tarefa no quadro.

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Consultem nas folhas que receberam as palavras HOMEM e MULHER . - Quantas expressões acompanham a palavra mulher? ......................... número de expressões. - Quantas expressões acompanham a palavra homem? ............................. número de expressões. - Quantas expressões que acompanham a palavra homem são depreciativas? .................. número de expressões. - Quantas expressões que acompanham a palavra mulher são depreciativas? .................... número de expressões.

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3. Quando todos/as tiverem terminado, o/a educador/a coloca no quadro os números encontrados pelos grupos e discute as conclusões.

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FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. RJ, Nova Fronteira, 1986.

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VERBETES

Mulher. [Do lat. muliere.] S. f. 1. O ser humano do sexo feminino capaz de conceber e parir outros seres humanos, e que se distingue do homem (4) por essas características. 2. Esse mesmo ser humano considerado como parcela da humanidade: os direitos da mulher. [Cf. homem (2).] 3. A mulher (1) na idade adulta. 4. Restr. Adolescente do sexo feminino que atingiu a puberdade; moça. 5. Mulher (1) dotada das chamadas qualidades e sentimentos femininos (carinho, compreensão, dedicação ao lar e à família. intuição): Como mulher, sabe apoiá-lo na justa medida. 6. A mulher (1) considerada como parceira sexual do homem. 7. Deprec. A mulher considerada como um ser frágil, dependente, fútil, superficial, ou interesseiro: O rapaz deixava-se envolver por mulheres. 8. Cônjuge do sexo feminino; a mulher (1) em relação ao marido; esposa. 9. Amante, companheira, concubina. 10. Mulher (1) que apresenta os requisitos necessários para determinadas tarefas: mulher dona-decasa; mulher de negócios. 11. Uma mulher (1) qualquer; dona: Quem telefonou?! - Uma mulher. [Aum., nas acepç. 1, 3 e 6: mulheraça, mulherão e mulherona.] * Mulher-à-toa. Bras. pop. V. meretriz: "Papai fica na igreja vigiando: se entra mulher-à-toa, corre com ela." (Geraldo França de Lima, Branca Bela, p. 63.) Mulher da comédia. Bras. Pop. V. meretriz. Mulher da rótula. Bras., RJ, Pop. V. meretriz. Mulher da rua. Bras. V. meretriz. Mulher da vida. Bras. V. meretriz. Mulher da zona. Bras. V. meretriz. Mulher de amor. Bras. V. meretriz: "antiga mulher de amor, gasta e repelida, abriu casa de tolerância, seduziu mulheres honestas, explorou a corretagem do vício" (Lúcio de Mendonça, Horas do Bom Tempo, p. 207). Mulher de César. Mulher da reputação inatacável. Mulher de má nota. V. meretriz. Mulher de ponta de rua. Bras. Pop. N. e N.E. V. meretriz. Mulher do fado. Bras. Pop. V. meretriz. Mulher do fandango. Bras., Pop. V. meretriz. Mulher do mundo. Bras., Pop. V. meretriz. Mulher do pala aberto. Bras., Pop. V. meretriz. Mulher do piolho. Bras. Fam. Mulher muito teimosa. [Us., em geral, comparativamente: Ô velhinha teimosa! é pior que a mulher do piolho.] Mulher errada. V. meretriz. Mulher fatal. Mulher particularmente sensual e sedutora, que provoca ou é capaz de provocar tragédias: "Cadê Maria Rosa,/tipo acabado de mulher fatal/que tem como sinal, uma cicatriz,/dois olhos muito grandes, uma boca e um nariz." (Da marcha Cadê Maria Rosa?, de Nássara e J. Rui). Mulher perdida. V. meretriz: "Custava-lhe acreditar que o filho a houvesse enganado, abusando do seu estado para meter em casa um mulher perdida." (Coelho Neto, Turbilhão, p. 314.) Mulher pública. V. meretriz. Mulher vadia. Bras., V. meretriz. Mulheraça. S.f. Mulher alta e forte; mulherão, mulherona, mulheraço, matronaça: "saía do mato uma mulheraça rúbida, de saias tufadas de goma" (Monteiro Lobato, Urupês, Outros Contos e Coisas, p.53). Mulheraço. [De mulher + aço.] S. m. V. mulheraça: "Apanhou um broto de fechar farmácia de plantão, um mulheraço de um metro e oitenta, um espetáculo" (Rubem Fonseca, A Coleira do Cão, p. 169). Mulherada. S. f. Bras., V. mulherio. Mulherame. S. m. Bras. V. mulherio. Mulherão. [Aum. irreg. de mulher.] S. m. V. mulheraça. Mulher-dama. S. f. Bras., N.E. e MG. Pop. V. meretriz; "o povo é mesmo aleivoso, mete a ronca na coitada como se ela fosse mulher-dama." (Ricardo Ramos, Os Caminhantes de Santa Luzia, p. 45) [Pl.: mulheresdamas.] Mulher-de-gamela. S. f. Bras., BA. Vendedora de fato3 (2), peixe e mingau. [Pl.: mulheres-de-gamela.] Mulherengo. [De mulher + engo.] Adj. e s. m. 1. Que ou aquele que se compraz em misteres próprios do sexo feminino; efeminado, maricas. 2. Femeeiro (1 e 3): "O juca é muito mulherengo, demais. Doente por mulher." (Nélson Rodrigues, 100 Contos Escolhidos. A Vida como Ela É, II, p. 49.) Mulher-homem. S. f. 1. V. machão (1). 2. V. lésbica. [Sin. ger.: mulher-macho. Pl.: mulheres-homens e mulheres-homem.] Mulherico. [De mulher + -ico1.] Adj. Afeminado, efeminado; fraco. Mulherigo. [De mulherico, com sonorização.] S. m. Homem mulherico, efeminado, afeminado. Mulheril. Adj. 2 g. 1. Relativo a mulher. 2. Próprio de mulheres. 3. Mulherengo (1). Mulherinha. S. f. 1. Dim. de mulher; mulherzinha. 2. Mexeriqueira, bisbilhoteira. 3. Mulher libertina, devassa. Mulherio. [De mulher + -io1.] S. m. 1. Grande porção de mulheres: "O mulherio alegre, em... provocadora ostentação de carnes, saracoteava, abaixo e acima, às gargalhadas, estridentes, roçando pelos rapazes com

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afetada lascívia." (Coelho Neto, Turbilhão, p. 245). [Sin., pop.: femeação.] 2. As mulheres. [Sin. ger., bras.: mulherada, mulherame.] Mulher-macho. S. f. 1. Mulher que apresenta qualidades viris de coragem, valor, capacidade de comando e decisão, etc. 2. V. machão (1). 3. V. lésbica. [Pl.: mulheres-machos.] Mulherona. S. F. Bras. V. mulheraça. Mulher-objeto. S. f. A mulher (7) considerada como simples fonte de prazer. [Pl.: mulheres-objetos e mulheresobjeto.] Mulher-solteira. S. f. Bras., CE e MG. Pop. V. meretriz. [Pl.: mulheres-solteiras.]

Homem. (Do lat. homine.)S.m. 1. Qualquer indivíduo pertencente à espécie animal que apresenta o maior grau de complexidade na escala evolutiva; o ser humano: As três linhas mestras dos arranjos de flores japoneses representam o céu, o homem e a Terra; O homem pré-histórico já possuía os recursos rudimentares para dominar a natureza. 2. A espécie humana: A história do homem sofreu transformações profundas no séc. XV. 3. O ser humano, com sua dualidade de corpo e de espírito, e as virtudes e fraquezas desse estado; mortal: "Cegou-me tanta luz! Errei, fui homem!" (Fagundes Varela, Poesias Completas, II, p.53); É apenas um homem, não pode fazer milagres. 4. Ser humano do sexo masculino; varão; Depois de cinco mulheres, nasceu-lhes um homem. 5. Esse mesmo ser humano na idade adulta; homem-feito: já era homem quando perdeu o pai. 6. Restr. Adolescente que atingiu a virilidade. 7. Homem (4) dotado das chamadas qualidades viris, como coragem, força, vigor sexual, etc; macho: Homem que é homem, não leva desaforo para casa. 8. Marido ou amante: Ela vive bem com seu homem. 9. Homem (5) que apresenta os requisitos necessários para um empreendimento; o homem indicado para um fim: Campos Sales precisava de pôr ordem às finanças do Brasil, e o homem foi Joaquim Murtinho. 10. Um homem (5) qualquer; indivíduo, sujeito, camarada, cara: Não sei quem telefonou, foi um homem. 11. Soldado (6): Na fronteira havia um contingente de 2.000 homens. 12. Aquele que, numa equipe de trabalho, executa ordens de seus superiores: O técnico da seleção declarou que seus homens estão aptos a enfrentar qualquer adversário no gramado. 13. Biol. Cada um dos indivíduos da espécie Homo sapiens, única existente hoje em dia da família homínidas, do gênero Homo, da ordem dos primatas, classe dos mamíferos, espécie esta que ocupa uma posição especial na natureza, por possuírem seus membros, ao lado dos caracteres anatômicos e fisiológicos análogos aos dos mamíferos superiores, outros tantos que lhe são próprios, como a postura vertical com pés e mãos de funções diferenciadas (as mãos com o polegar oposto aos outros dedos), o volume do cérebro, o uso da linguagem articulada e o desenvolvimento da inteligência, especialmente das faculdades de generalização e de abstração. (Fem., nas acepç. 4 a 6 e 8 a 10: mulher. Aum., nas acepçs. 4 a 6: homenzarrão e homão. Dim. nas mesmas acepçs.: homenzinho, hominho e homúnculo.) . Pron. 14. Ant. Alguém (1):"cad'um terá sua escusa;/ dei-vos já muitas por mim,/ e estas cousas são enfim / como delas homem usa." (Francisco de Sá de Miranda, Obras Completas, II, pp.65-66); "Dor d'alma é, na verdade, não poder homem na solidão pagar por estes, e por si mesmo, dívidas grandes e urgentes da Humanidade." (Antônio Feliciano de Castilho, O Presbitério da Montanha, p. 110); "Na verdade, jamais homem há visto/ Cousa na terra semelhante a isto" (Machado de Assis, Poesias Completas, p.302). . Homem da lei. Magistrado, advogado, oficial de justiça. Homem da rua. Homem do povo. (Cf. homem-da-rua.) Homem de ação. Indivíduo enérgico, ativo, expedito, diligente. Homem de bem. Indivíduo honesto, honrado, probo. Homem de cor. Homem preto ou mulato. Homem de Deus. Homem piedoso, santo (us. como vocativo, traduz um sentimento de impaciência, enfado, ou de ironia): Deixe-nos em paz, homem de Deus! Homem de empresa. Indivíduo que tem a seu cargo os negócios de uma empresa (3) particular; empresário. Homem de espírito. Indivíduo de inteligência viva, engenhosa, sutil, espirituosa. Homem de Estado. Estadista. Homem de letras. Literato, intelectual. Homem de negócios. Pessoa que trata de grandes negócios e/ou que tem importantes relações no comércio. Homem de palavra. Indivíduo que cumpre o que diz ou promete. Homem de prol. 1. Homem nobre. 2. Intelectual ou artista. Homem de pulso. Homem enérgico, firme. Homem de sete instrumentos. Indivíduo capaz de executar diferentes atividades profissionais, artísticas, culturais, etc.: "Homem de sete instrumentos, tinha fama de ativo e competente. Fabricava dentaduras, consertava rádios e vitrolas, tirava retratos para carteiras" (Jorge Amado, Dona Flor e seus Dois Maridos, p.37). Homem de sociedade. O que frequenta a alta sociedade e conhece seus hábitos; homem do mundo. Homem do leme. Timoneiro. Homem do mar. Homem habituado às lidas marítimas; marinheiro. Homem do mundo. Homem da sociedade. Homem do povo. Indivíduo considerado como representativo dos interesses e opiniões do homem comum; homem da rua. Homem marginal. Sociol. Indivíduo que vive em duas culturas em conflito, ou que, tendo-se desprendido de uma cultura, não se integrou de todo em outra, ficando à margem das duas. (Cf. marginal (5).) Homem público. Indivíduo que se consagra à vida pública, ou que a ela está ligado. Como um só homem. Em massa, em peso; por unanimidade; como uma só pessoa: Responderam como um só homem. De homem para homem. 1. Com franqueza; com sinceridade: Conversaram de homem para homem. 2. Franco, leal, sincero, verdadeiro:Pai e filho tiveram uma conversa de

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homem para homem. Os homens. a humanidade; o homem. Ser um homem ao mar. Perder as qualidades que o faziam admirado, conceituado, invejado. Homem-bom. S.m.Ant. 1. Indivíduo da classe dos herdadores (entre as classes não nobres). 2. O mais respeitável dos indivíduos das classes nobres. 3. Homem que se fazia notar, nos conselhos, pelo seu bom porte, e que era designado para as funções públicas. (Pl.: homens-bons.) Homem-chave. S.m. Indivíduo indispensável à realização de um empreendimento. (Pl.: homens-chaves e homens-chave.) Homem-da-rua. S.m. Bras. Exu (3). (Pl.: homens-da-rua. Cf. homem da rua.) Homem-de-palha. S.m. Testa-de-ferro. (Pl.: homens-de-palha.) Homem-feito. S.m. Homem. (Pl.: homens-feitos.) Homem-hora. S.m. Unidade de trabalho humano correspondente ao trabalho efetuado por uma pessoa durante uma hora. (Pl.: homens-horas.) Homem-mosca. S.m. Homem agílimo, que sobe ou se equilibra perigosamente em paredes ou estruturas externas de edifícios, torres, etc., executando arriscadas acrobacias. (Pl.: homens-moscas e homens-mosca.) Homem-rã. S.m. Mergulhador experimentado, militar ou civil, equipado com indumentária apropriada, aparelhamento respiratório autônomo e outros petrechos, e treinado especialmente para executar manobras submarinas de guerra (ofensivas ou defensivas), ou manobras de resgate, de salvamento, de estudos, etc. (Pl.: homens-rãs e homens-rã.) Homem-sanduíche. S.m. Indivíduo que vive de caminhar pelas ruas com dois cartazes publicitários, um nas costas, outro no peito. (Pl.: homens-sanduíches e homens-sanduíche.)

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Análise de texto
Objetivo • Analisar o sexismo existente em jornais e revistas. Tempo • 50 minutos Material • matérias atuais de jornais e revistas Processo 1. O/A educador/a solicita que a classe se divida em grupos mistos. 2. Distribui uma matéria de jornal ou de revista a cada grupo, solicitando que a analisem a partir do seguinte quadro: 1. 2. 3. 4. 5. 6. Título da matéria Tema tratado Sexo do autor(es): mulher / homem Quantas vezes o texto menciona mulheres, meninas, homens, meninos? Que adjetivos são usados para descrevê-los/las? Aparecem homens e mulheres desempenhando papéis tradicionais em atividades, interesses, ambiente familiar, ocupações, etc.? 7. Que tipo de influência este texto pode ter nas aspirações educativas ou ocupacionais dos/das alunos/as?

3. Quando os grupos terminarem, solicita que uma pessoa de cada grupo apresente a análise e, junto com o grupo, procura chegar a uma conclusão a partir das apresentações.

Linguagem Não Sexista
Objetivos

23 • Conscientizar sobre o sexismo na linguagem. • Oferecer alternativas que proponham igualdade de gênero. Tempo • 50 minutos Material • folha com frases para todos/as Processo 1. O/A educador/a faz uma seleção de frases, onde a mulher fica invisível, tal qual o modelo:

Transforme as seguintes orações de forma que se inclua também a mulher. Quando o homem inventou a roda. Quando a humanidade inventou a roda. Os homens são iguais perante a lei. Homens e Mulheres são iguais perante as leis. Um homem, um voto. ....................................................................................................................................... Paz aos homens de boa vontade ....................................................................................................................................... 2. O/A educador/a informa que, a seguir, irão fazer um exercício sobre linguagem sexista. Explica que linguagem sexista é aquela que privilegia um sexo em detrimento ao outro. Distribui a folha com frases para todos/as. 3. Quando terminarem, corrige as frases com todo o grupo e fecha o exercício explicando que: A linguagem e a gramática estão estruturadas de modo que a mulher ou está ausente ou é sujeito passivo. Por exemplo, os pronomes indefinidos (ninguém, alguém, outrem) pela sua forma, não podem ser considerados nem masculinos nem femininos, por não trazerem identificação do gênero gramatical. A concordância nominal, quando necessária, é feita com o adjetivo em sua forma masculina: “Ninguém é tão burro a ponto de assistir àquele filme”. Ou ainda: a concordância com a ocorrência de gêneros gramaticais em texto, quando ocorre a presença dos dois gêneros gramaticais, o adjetivo anteposto ou posposto é, obrigatoriamente, regido pelo masculino plural: “Homens e mulheres foram eleitos”; “Foram aprovados o menino e a menina estudiosos”. Mas como mudar isso? Uma das formas possíveis é procurando palavras que expressem os dois sexos sem que um deles fique oculto. Por exemplo, quando falamos o termo homem para definir seres humanos, podemos substituí-lo por humanidade. Um outro modo, é fazendo referência aos dois sexos: os alunos e as alunas da 8ª C; meus irmãos e minhas irmãs..., etc. *****

Mulher Invisível
Objetivo • Demonstrar que a Língua Portuguesa tem normas que deixam a mulher invisível. Tempo • 50 minutos Material • cópias dos textos para todos/as Processo 1. O/A educador/a fala que nossa língua tem regras que acabam deixando a mulher invisível nos textos. 2. Solicita que façam grupos e distribui os textos, um para cada grupo. 3. Explica que são dois textos relatados de diferentes formas. Ambos relatam os preparativos de uma festa em uma escola mista. Pede que leiam atentamente e responda as perguntas.

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Primeiro texto Foi marcada uma reunião no auditório do colégio. A festa deveria acontecer no dia seguinte e portanto havia muitos preparativos a realizar. Alguém se dirigiu às pessoas presentes e leu as atividades para serem feitas. Os alunos e as alunas saíram com grande animação para colocar luzes, preparar doces e salgadinhos, selecionar músicas, decorar o auditório e comprar as bebidas. Segundo texto Os alunos haviam se concentrado no auditório do colégio. A festa deveria celebrar-se no dia seguinte, e portanto havia muitos preparativos a realizar. Um aluno se dirigiu aos outros e leu as atividades a serem feitas. Todos saíram com grande excitação. Uns foram colocar luzes, outros, preparar doces e salgados, outros ainda, selecionar músicas, alguns foram decorar o salão e os últimos comprar as bebidas. Perguntas: 1. Que diferenças existem entre um texto e outro? 2. Quem são os protagonistas do primeiro texto? E do segundo? 3. Que forma de redação lhe parece mais lógica? Por quê?

4. Quando terminarem, solicita que cada grupo apresente suas conclusões.

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Ocupação do espaço
Objetivo • Demonstrar as diferentes formas de ocupação de espaço por meninos e meninas. Tempo • uma semana Material • papel e lápis de cor para cada grupo • fita adesiva Processo 1. O/A educador/a solicita que, em grupo, os/as alunos/as observem a ocupação do pátio na hora do recreio. 2. Pede que façam um desenho do pátio e anotem, durante uma semana, o seguinte: • número aproximado de alunos de ambos os sexos que há no pátio; • número e sexo dos/as educadores/as ou funcionários/as que tomam conta; • pintar de verde as zonas onde brincam mais meninos; • pintar de vermelho as zonas onde brincam mais meninas; • pintar de amarelo as zonas de interação entre meninos e meninas. 3. Quando os desenhos estiverem prontos, gruda-os na parede e junto com a classe faz a seguinte análise:
A) Meninos e meninas utilizam o espaço em igual proporção? sim não, os meninos utilizam mais espaço não, as meninas utilizam mais espaço B) Quando se dá a interação entre meninos e meninas é porque: os jogos são comuns? meninos invadem a zona das meninas? meninas invadem a zona dos meninos?

4. Quando terminarem, sugere que todos/as pensem em sugestões de: Como seria possível melhorar a interação entre meninos e meninas na hora do recreio? E durante as aulas? E nas festas? *****

O que você faria se...

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Objetivo • Demonstrar as diferenças de oportunidade de trabalho para homens e mulheres. Tempo • 50 minutos Material • papel e lápis para todos/as Processo 1. O/A educador/a solicita que os alunos e as alunas escrevam em uma folha de papel a profissão que gostariam de exercer no futuro. 2. Pede que, agora, imaginem que são do sexo contrário e que escrevam no verso da folha que profissão escolheriam de acordo com o novo sexo. Por exemplo, se uma menina escreveu enfermeira de um lado, peça-lhe que imagine agora que é um menino e que escreva a profissão que escolheria como tal. 3. Junto com a classe, o/a educador/a compara as respostas e constrói duas listas: a) As respostas dos meninos e sua correspondência "se ele fosse menina". b) As respostas das meninas e sua correspondência "se ela fosse menino". 4. Estuda com o grupo as diferenças que encontra nas listas tentando romper com os estereótipos pelos quais se elegem profissões segundo o sexo. Explicar que meninos e meninas têm capacidade semelhante para desempenhar a maioria dos trabalhos. *****

Trabalhos para homens e mulheres
Objetivo • Discutir os estereótipos de gênero existentes no mundo do trabalho. Tempo • 50 minutos Material • lista de profissões para todos/as Processo 1. O/A educador/a distribui aos/às alunos/as uma lista de atividades profissionais para que classifiquem, segundo acreditem, as que são indicadas para homens, mulheres ou para ambos.

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HOMEM mecânica corte de cabelo motorista de ônibus pescar secretariar carpintaria agricultura dirigir banco limpar casas apagar incêndio astronauta escola infantil eletrônica cuidar de enfermos Total

MULHER

HOMEM E MULHER

2. Quando terminarem, solicita que em duplas comparem os quadros, com discussão dos resultados. 3. Cada dupla apresenta suas conclusões e o/a educador/a vai colocando no quadro. 4. Fecha esclarecendo que: Estereótipos são imagens (desenhos, figuras) ou comportamentos (atitudes, sentimentos, ações) que se repetem e se reproduzem sem variação, não distinguindo qualidades individuais. Uma imagem ou um comportamento é estereotipado quando parece moldado por um modelo fixo, rígido e anônimo. Os estereótipos tendem à padronização, reproduzindo imagens e comportamentos de maneira automática, eliminando as diferenças. Repetem imagens simbólicas com as quais as pessoas vão se identificando desde o nascimento.

Conteúdo dos Estereótipos
O estereótipo é uma generalização abusiva que distorce a realidade. Um exemplo de estereótipo é representar as mulheres sempre como esposas e mães, desconsiderando as mulheres que trabalham fora, as que não são casadas, as que têm vida social fora do lar. Representar os homens sempre como chefes de família, incapazes de afeto ou sentimentos (homem não chora!), incapazes de cuidar dos filhos, etc., é outro exemplo. É um pensamento (duplamente) estereotipado representar homens negros como choferes, mordomos, ou como aqueles que lidam com profissões “menos nobres”: encanador, garagista, porteiro, etc. Da mesma forma, mulheres negras são representadas como empregadas domésticas, cozinheiras, sambistas altamente erotizadas, etc. Também pessoas pobres são vistas e representadas como perigosas, causadoras de violência, responsáveis pela promiscuidade, comprometidas com uma vida sexual desregrada, etc. Mulheres homossexuais são vistas como másculas, indelicadas, sofredoras, problemáticas. Homens homossexuais são vistos como efeminados, delicados, sensíveis, responsáveis pela disseminação da aids, “sem-vergonha”, doentes. Os estereótipos apresentam essas diferenças de comportamento entre homens e mulheres como se fossem qualidades ou fraquezas inerentes a cada sexo, coisas de nascença, de natureza, que não se podem mudar. É importante compreender que essas situações de conflito não resultam de problemas ou dificuldades pessoais, mas do tipo de educação que recebemos e transmitimos na família, na escola, nos meios de comunicação e que é preciso um intenso trabalho de desmontagem desses clichês, para eliminar a injustiça que cerca atitudes baseadas em concepções estereotipadas. *****

O jornal
Objetivo • Analisar oferta de empregos para homens e mulheres. Tempo • 50 minutos Material

27 • classificados de jornais para cada grupo Processo 1. O/A educador/a pede que façam grupos de 4 ou 5 pessoas. Informa que distribuirá um caderno de classificados para cada grupo que deverá analisar as ofertas de trabalho que aparecem nos jornais, observando o seguinte roteiro: 1. 2. 3. 4. Prestígio, remuneração econômica, possibilidades de ascensão social. Periculosidade, esforço, horário. Se reproduzem os papéis atribuídos a homens e mulheres. Apresentação da oferta: - é dirigido diretamente a eles ou elas? - que adjetivos utilizam ao dirigir-se a elas? - e ao dirigir-se a eles? - que diferenças há? - aparece alguma imagem? Requisitos (nos trabalhos dirigidos a mulheres): - anos de experiência; quantos? - estudos; quais? - referências - especialização - boa apresentação - idade Requisitos (nos trabalhos dirigidos a homens): - anos de experiência; quantos? - estudos; quais? - referências - especialização - boa apresentação - idade Realizar uma estatística aonde se especifiquem quantos trabalhos se dirigem à mulher e quantos ao homem. Redigir as conclusões do grupo.

5.

6.

7. 8.

2. Ao final cada grupo apresenta suas conclusões. 3. Apoiado no texto abaixo, o/a educador/a conduz uma discussão

Censo escolar de 98 do MEC mostra que o número de homens é maior apenas nos primeiros anos do 1º grau Mulher é maioria no 2º grau e superior
O avanço da mulher sobre territórios dominados pelos homens começa pela escola. Hoje, elas já são maior parte dos alunos níveis mais avançados da educação brasileira. Na universidade, nas classes do ensino médico (antigo colegial) e nas últimas séries do ensino fundamental, as mulheres estão em maior números do que os homens, segundo dados inéditos do censo escolar de 1998 (veja quadro) do MEC (Ministério da Educação). Nos anos 60, cada homem estudava, em média, 2,4 anos, contra 1,9 das mulheres. A partir dos anos 80, essa relação começou a mudar e, no começo dos anos 90, atingiu o equilíbrio. Em 1996, a situação se inverteu: a mulher já estudava 6 anos em média, mais que o homem, que tinha em média 5,7 anos de estudo. Os dados escolhidos pelo Inep (Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais), ligado ao Ministério da Educação, não permitem inferir as razões da mudança, mas há algumas explicações possíveis. A primeira possibilidade é que a necessidade de trabalhar para sustentar a família acabe retirando os meninos da escola precocemente. É o que defende, por exemplo, a coordenadora geral da Inep, Maria Helena Guimarães de Castro. “Quando começam a trabalhar, os meninos ou abandonam a escola ou passam a estudar à noite, com um rendimento menor.” Na opinião dela, mesmo tendo de trabalhar precocemente, as meninas acabam conseguindo conciliar estudo e trabalho. “Como fazem trabalhos domésticos, elas conseguem dar um jeito de estudar . Os pais evitam mandar as filhas para a escola à noite.”

Ambiente favorável
Apesar de considerarem a explicação válida, outros pesquisadores acham que não deve ser a principal maneira de entender o avanço das meninas na escola.

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“Os meninos começam a trabalhar cedo, mas as meninas também, fazendo tarefas igualmente pesadas”, afirma Felícia Madeira, diretora da Fundação Seade e organizadora de livro “Quem mandou nascer mulher?”.

“Em vários países, as mulheres têm melhor desempenho escolar que os homens. Por isso me parece mais importante ver o que acontece dentro das escolas para que as meninas se dêem melhor.” Para Felícia Madeira, as regras das escolas tornam o ambiente mais restritivo aos meninos e inibem a competitividade, que é a principal características transmitidas aos homens e a mais necessária para o mercado de trabalho.

Novo censo
Respostas mais definitivas devem começar a parecer a partir do próximo censo educacional, a ser feito no ano que vem. Novas perguntas foram introduzidas no questionário do censo, com o objetivo de rastrear como evoluem meninos e meninas no sistema escolar e, assim, descobrir a causa do desequilíbrio e como reduzi-lo.

Questão é cultural, diz estudioso
O fato de mais meninas concluírem o ensino fundamental -- de primeira a oitava série - pode ter uma explicação mais cultural do que econômica. Nos primeiros anos, o número de meninos matriculados é maior, o que indica que eles abandonam mais os estudos ou repetem mais de ano. Par o professor da Faculdade de Educação da USP José Sérgio Carvalho, isso ocorre em parte porque a sociedade brasileira ainda educa as mulheres de forma mais compatível com as exigências escolares. Elas se acostumam a obedecer regras. Ao mesmo tempo, o menino, principalmente dos 13 os 17 anos, é incentivado a ser mais agressivo e se submeter menos a disciplinas. “Claro que é uma hipótese, porque não há um estudo determinado sobre isso. Deve-se levar em conta quando o homem entra no mercado de trabalho, mas a questão principal é a diferença de incentivos entre os sexos.” Essa é também a opinião da diretora do Seade Felícia Madeira, para quem o ambiente escolar é mais atraente para as meninas. “Os métodos de ensino, o material didático e mesmo a forma de agir das professoras podem afastar os meninos ou fazer com que eles fiquem desinteressados.” Outra explicação séria o fato de que os meninos teriam mais atrativos fora da escola. “Os espaços permitidos para as meninas são muito poucos. As meninas, por exemplo, têm menos liberdade para brincar na rua do que os meninos. Par elas, a escola é um meio mais legítimo”, diz Felícia. A competitividade, estimulada na criação dos meninos, fica artificialmente atenuada no ambiente escolar, mas é incentivada no mercado de trabalho. Pesquisadores ainda consideram importante os motivos econômicos, que levem os meninos a abandonar a escola e procurarem o mercado de trabalho mais cedo.

Analfabetismo feminino cai
O declínio das taxas de analfabetismo entre mulheres foi tão rápido quanto o avanço do nível de escolaridade entre elas. No período de 91 a 96. Época em que as mulheres superaram os homens em anos de estudo, o analfabetismo entre os jovens de 15 a 19 anos caiu de 9% para 49%, menos que a metade. Na faixa de idade de 20 a 24 anos, a queda foi parecida - de 10,5% em 91 para 5,5% em 1996. A comparação entre taxas de analfabetismo de homens e mulheres também deixa claro há quanto tempo as mulheres vêm melhorando seu desempenho nos índices educacionais, até chegar a situação atual. Hoje, a proporção de mulheres analfabetas só é maior que a de homens entre as pessoas com mais de 40 anos, que passaram pela escola há mais de 20 anos. A maior diferencia está entre as pessoas com mais de 50 anos. Nessa faixa etária, 28% dos homens e 34% das mulheres são analfabetas, segundo dados do IBGE. Para a diretora do Seade, a comparação da situação da mulher há duas década com a atual permite classificar esse avanço na área da educação como “revolucionário”. “Principalmente se considerarmos como era restrito o espaço das mulheres naquela época”, diz Felícia Madeira. Na opinião de Garren Lumpkin, do Unicef, esses dados mostram que, pelo menos entre as mulheres, o analfabetismo só tende a diminuir nos próximos anos.

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Homens ainda dominam postos de chefia e recebem salários até 40% mais alto para desempenhar a mesma função Mais estudo não garante melhores cargos Meninas ultrapassam meninos na 5º série
O colégio Rodrigues Alves, da rede publica estadual de São Paulo, é exemplo típico da inversão da quantidade de homens e mulheres entre a primeira e a oitava série. A predominância de meninos na primeira série do primeiro grau fez a diretora Ivete Mitiko Sumamoto recorrer á delegacia de ensino, há três anos, para tentar encontrar uma solução. “Em uma sala normal, com quase 30 alunos, havia só quatro meninas. As mães entraram, fui a delegacia de ensino fazer uma consulta, mas não havia como balancear, já que as outras salas também tinham mais meninos”, disse. Mas, segundo Ivete, no Rodrigues Alves, isso ocorre apenas nos dois primeiros anos do ciclo básico. Depois há um equilíbrio e, a partir da quinta série, começa a predominância Feminina. “Os meninos começam a trabalhar mais cedo, pedem transferência para o período noturno, e muitos acabam abandonando a escola. Até tento brecar, barrando transferências para menores de 14 anos, mas os pais precisam dessa ajuda financeira. As meninas trabalham em casa, cuidando do irmão e fazendo tarefas domésticas que podem ser conciliadas com a escola.” Ter maior escolaridade não significa que as mulheres estão garantindo também melhor participação no mercado de trabalho. Segundo dados de índice de desenvolvimento por Gênero, feito ela ONU (Organização das Nações Unidas), a participação das mulheres com mais de 15 anos no mercado de trabalho era de 23% em 1970 e 35% em 1995. No entanto, segundo dados de 1995, a participação femininas em cargos de chefia em empresa era de 17,3%. Nos EUA, era de 42,7% e, na Colômbia, de 31%. A professora da economia da Universidade Federal Fluminense e consultora do Ipea ( Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), Hildete Pereira de Melo, que participou da pesquisa no Brasil para a ONU, diz que há alguns anos as mulheres vêm apresentando maior escolaridade que os homens, mas isso seria a forma que encontraram para poder competir com eles no mercado de trabalho. “Na sociedade que privilegia o homem, a mulher precisa estar mais preparada ou não consegue nem competir”, disse Hildete. O professor da Faculdade de Educação da USP José Sérgio Carvalho acredita que a escolaridade é apenas um fator da emancipação da mulher, mas que não há uma relação imediata entre maior escolaridade e privilégio na carreira. Até porque as mulheres ainda ocupariam as vagas nas universidades de carreiras “menos privilegiadas”. “Quando se fala que há mais mulheres nas universidades, é preciso ver em que áreas. Carreiras como engenharia e economia, que acabam levando a postos mais altos, ainda têm poucas mulheres. Além disso, quando elas começam a entrar em carreira ‘masculinas’, essas carreiras perdem um pouco do seu prestigio porque os salários caem, já que elas ganham menos”, diz Hildete. Parte da pesquisa realizada pela professora mostra que, quanto maior a escolaridade, maior a disparidade de salários entre homens e mulheres: um homem e uma mulher semi-analfabetos têm salários semelhantes. Já no caso de um homem e uma mulher da mesma profissão, com nível superior, ela ganhará 60% do salário dele. No setor público brasileiro, as respondem por 52% dos funcionários, mas são apenas 14% entre os que ganham comissionamento (cargo mais alto). “As mulheres estão galgando posições, mas não há igualdade. Em 1995, uma revista norte-americana publicou que no futuro os homens seriam descasados, menos escolarizados e desempregados, devido ao avanço escolar das mulheres. Não há sinal de que isso ocorrerá, a não ser que os homens se tornem analfabetos. Além disso, há questão da maternidade”, disse Hildete. Mercado informal absorve mulher Apesar da maior escolaridade e maior presença nas escolas, as mulheres são maioria no mercado informal, os chamados postos não regulamentados, menos regulamentados e protegidos que os do mercado formal. Segundo pesquisa feita pela fundação Seade na região metropolitana de São Paulo, em 1996 as mulheres eram 39% dos trabalhadores encontrados com carteira assinada. Das mulheres que trabalhavam, 13% eram domésticas ou diaristas sem registro em carteira de trabalho. *****

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Clarificação de Valores
Objetivo • Esclarecer o significado do termo “valores sociais” e demonstrar as diferentes opiniões que existem em uma sociedade. Tempo • 30 minutos Material • ficha com as frases • fita adesiva Processo 1. O/A educador/a divide a sala em três lacunas grudando a fita adesiva no chão. Nomeia cada área com um cartaz CONCORDO (C) / DISCORDO (D) / NÃO TENHO OPINIÃO FORMADA (NF). 2. Explica que irá ler algumas perguntas e que os/as participantes devem se posicionar em cada uma destas colunas áreas a cada frase colocada pelo/a educador/a . 3. Sugestão de frases

C
Eu acho legal uma menina de 16 anos iniciar a vida sexual se ela quiser. Eu acho legal um menino de 16 anos iniciar a vida sexual se ele quiser. Eu acho legal uma menina iniciar a vida sexual aos 12 ou 13 anos se ela quiser. Eu acho legal que uma menina de 15 anos se sinta atraída por outra menina. Eu acho legal que um menino de 17 anos já tenha se relacionado sexualmente com outro menino. Eu acho legal que uma menina de 11 anos se masturbe com as mãos. Eu acho legal que um menino de 12 anos se masturbe. Eu acho legal que um menino de 8 anos peça camisinha. Eu acho estranho se meu amigo quiser aprender a cozinhar. Eu acho natural um menino brincando de casinha com meninas na escola. Eu entendo que uma menina de 17 anos deseje engravidar. Eu entendo se um casal de adolescente optar pelo aborto no caso de uma gravidez. Eu acho possível gostar de usar camisinha. Sexo antes do casamento é aceitável. Contracepção é coisa de mulher. Eu acho legal se uma amiga tiver camisinha na bolsa. Eu acho legal se um amigo tiver camisinha no bolso. Eu aceito as diferentes orientações sexuais. (homossexualidade, heterossexualidade, bissexualidade) Acho importante que as pessoas com orientação homossexual não sejam discriminadas. Eu continuaria a ter relações Sexuais com minha/meu companheira/o se ela/ele tivesse com o HIV. Acho que os/as alunos/as com HIV devem sair da escola. Acredito que é melhor para os/as adolescentes que uma adolescente grávida saia da escola. Adolescentes devem ter acesso a camisinha no serviço de saúde.

D

NF

4. Conforme os/as alunos/as vão se posicionando, o/a educador/a vai contando o número de alunos/as em cada coluna anotando na ficha 5. Fecha com o conceito de valor: Valores são crenças, normas e princípios construídos historicamente e reproduzidos por indivíduos, grupos e classes sociais. Eles influenciam o comportamento e as formas de interação entre as pessoas e podem ser modificados por elas. As pessoas que divergem dos padrões predominantes na sociedade freqüentemente são tratadas de forma negativa e desigual. Às vezes, as pessoas são discriminadas por questões relacionadas à sexualidade, tais como: sexo, aparência, atração, arranjos familiares e modo de vida. *****

Violência e Meios de Comunicação
Objetivo • Levar o/a adolescente a avaliar os programas e filmes que passam na TV, analisando a forma como o tema é tratado e reconhecendo as cenas de violência sexual e de gênero. Tempo • 60 minutos

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Material • Uma fita de vídeo gravada com cenas (10 minutos no máximo) de alguns programas de televisão onde apareçam tipos de violência (clips de música, novelas, filmes, programas de auditório, propagandas, etc.) • aparelho de televisão e vídeo cassete • papel e caneta para todos/as • Texto Violência para todos/as Processo 1. O/a educador/a escreve no quadro a palavra VIOLÊNCIA e solicita que os/as adolescentes falem tudo o que vier à cabeça a partir desta palavra. Escreve no quadro tudo o que os/as jovens forem falando. 2. Na seqüência, explica que a violência sempre existiu. É só pegar um livro de História do Brasil ou do mundo que já nos deparamos com guerras, massacres de populações inteiras, subjugação de raças, brigas pelo poder, saques, roubos, etc. Quando falamos em violência, imagens cheias de sangue e de medo nos vêm à cabeça. Entretanto, se prestarmos atenção, veremos que existem outras formas de violência e que elas estão presentes o tempo todo nas relações entre as pessoas. Querem um exemplo? Quando uma pessoas se utiliza da outra - através da autoridade, da força física, da ameaça, da diferença de idade - para obter prazer sexual. Outro exemplo? Quando uma pessoa trata a outra como coisa, impedindo que ela faça valer a sua vontade e o seu desejo. Mais exemplos é que não faltam: quando um pai ou uma mãe bate num/a filho/a em vez de tentar conversar; quando uma pessoa menospreza uma outra por características como cor, idade, gênero, classe social ou por ser portador/a do vírus da aids. Ao contrário do que se imagina, a violência não está só nas notícias de jornal e do lado de fora de nossa casa, da nossa escola ou do nosso trabalho. Ela existe a partir do momento que uma diferença se torna uma desigualdade, ou seja, quando alguém - por uma razão ou por outra - acha que uma pessoa vale menos do que outra e passa a discriminá-la ou a maltratá-la. 3. Quando terminar a explicação, coloca no quadro os itens mencionados no texto e que não foram falados: sexismo, racismo, coisificação, poder, etc. 4. A seguir, informa que vai passar algumas cenas de programas da televisão e que cada um/a deve prestar atenção aos tipos de violência que aparecem . Sugere que eles/as tomem nota. Se for necessário, o/a educador/a passa o vídeo outra vez. 5. Ao final, pede que leiam os tipos de violência que identificaram e vão colocando no quadro. 6. Ao final, retoma as principais conclusões a que se pode chegar a partir das observações sobre a gravação e fecha dizendo que todos/as convivemos com algumas das violências que foram discutidas e que, muitas vezes, nem as reconhecemos como tal. Fazem parte dessas violências as desigualdades entre os gêneros, o desrespeito entre as pessoas, o racismo, obrigar os outros a fazerem o que queremos, espancar etc. Agora, uma vez reconhecendo-as, cabe a cada um/a de nós ficar atento/a para não reproduzi-las e para lutar por um mundo mais justo e igualitário. 7.

Violência também se previne
Violência Antes de definirmos o que vem a ser violência, é importante saber que ela sempre existiu. É só pegar um livro de história do Brasil ou do mundo que já nos deparamos com guerras, massacres de populações inteiras, subjugação de raças, briga pelo poder, saques, roubos, etc.. Quando falamos em violência, imagens cheias de sangue e de medo nos vêm à cabeça. Entretanto, se prestarmos atenção, veremos que existem outras formas de violência e que elas estão presentes o tempo todo nas relações entre as pessoas. Querem um exemplo? Quando uma pessoa se utiliza da outra - através da autoridade, da força física, da ameaça, da diferença de idade - para obter prazer sexual. Outro exemplo? Quando uma pessoa trata a outra como coisa, impedindo que ela faça valer a sua vontade e o seu desejo. Exemplos é que não faltam: quando um pai ou uma mãe bate num/a filho/a em vez de tentar conversar; quando uma pessoa menospreza uma outra por características como cor, idade, gênero, classe social ou por ser portador/a do vírus da aids. Pois é, ao contrário do que se imagina, a violência não está só nas notícias dos jornais e do lado de fora de nossa casa, da nossa escola ou do nosso trabalho. Ela existe a partir do momento que uma diferença se torna uma desigualdade, ou seja, quando alguém - por uma razão ou por outra - acha que uma pessoa vale menos do que outra e passa a discriminá-la ou a maltratá-la.

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Violência contra crianças e adolescentes As crianças e os/as adolescentes também não estão imunes à violência. Elas/es também são vítimas de vários tipos de maus-tratos, ou seja, “expor a perigo a vida ou a saúde de pessoa sob sua autoridade, guarda ou vigilância, para fim de educação, ensino, tratamento ou custódia, quer privando-a de alimentação ou cuidados indispensáveis, quer sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado de meios de correção ou disciplina.”(Artigo 136 do Código Penal) Os maus-tratos contra crianças e adolescentes têm várias formas: Maus-tratos Físicos Uso da força física de forma intencional ou de atos de omissão intencionais praticados por parte dos pais, mães ou responsáveis, com o objetivo de ferir, danificar ou destruir esta criança ou adolescente, deixando ou não marcas evidentes. Abuso Sexual Situação em que uma criança ou adolescente é usado/a para prazer sexual de um adulto e mesmo de um adolescente mais velho, baseado em uma relação de poder e incluindo desde manipulação dos órgãos genitais, seios, ânus, exploração sexual, “voyeurismo” e exibicionismo, até o ato sexual com ou sem penetração. Maus-tratos Psicológicos Rejeição, depreciação, discriminação, desrespeito, utilização de crianças e adolescentes como objeto para atender às necessidades psicológicas de adultos. Cobranças e punições exageradas são formas de maustratos psicológicos, que podem trazer graves danos ao desenvolvimento psicológico, físico, sexual e social da criança e do/a adolescente. Negligência Ato de omissão do/a responsável pela criança ou adolescente em prover as necessidades básicas para o seu desenvolvimento. Síndrome de Munchausen Situação em que pais/mães, mediante uma simulação de sintomas de uma doença, muitas vezes dando remédios que provocam os sintomas, expõem as crianças a inúmeras investigações médicas. Esses crimes estão previstos em lei, o que significa que a pessoa que os cometeu, se denunciada, poderá ir para a cadeia. No caso de crianças e adolescentes, é bom saber que: • toda criança e todo/a adolescente têm direitos e deveres assegurados por lei; • em 1990 foi aprovado o Estatuto da Criança e do/a adolescente assegurando que nenhuma criança ou adolescente deve ser objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade ou agressão; • todos/as os/as profissionais que trabalham com crianças e adolescentes têm o dever de comunicar aos Conselhos Tutelares ou, na falta destes, ao Juizado da Infância e da Juventude, situações de maus tratos físicos, psicológicos e sexuais; • os Conselhos Tutelares atuam nos municípios com a função de zelar pelo cumprimento dos direitos de crianças e adolescentes; • os Conselhos de Direito da Criança e dos/as Adolescentes atuam no estabelecimento dos programas de atendimento a crianças e adolescentes. • os/as profissionais da Saúde, ao atenderem crianças e adolescentes vítimas de violência, têm o dever de fazer um relatório com seu parecer contendo o histórico da criança, exame físico completo (incluindo genitais e ânus), exames complementares e diag-nóstico. Esse relatório deverá ser encaminhado ao Comitê de Maus-tratos ou ao/à Diretor/a do hospital. Quando necessário, haverá intervenção dos Conselhos Tutelares ou do Juizado da Infância e da Adolescência.

Sexismo e racismo Estas duas formas de violência estão presentes nas situações mais corriqueiras de nossas vidas, até no jeito de falarmos: “ A coisa está preta!” “ Chorar é coisa de menina.” Quem é que nunca escutou estas ou outras frases que depreciam as pessoas negras ou as mulheres? Por mais incrível que possa parecer, nosso país, que tem uma grande parte de sua população composta por indivíduos da raça negra, ainda é muito racista. Por racismo entendemos qualquer comportamento discriminatório em função da raça. É acreditar que certas características como a cor da pele ou o lugar onde se nasce, fazem com que existam duas classes de pessoas: as superiores e as inferiores. E essas pessoas que

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se julgam superiores se acham no direito de ofender, fazer piada, colocar apelidos ou até mesmo impedir que uma pessoa entre em um edifício ou loja em função de sua cor ou de sua raça. O racismo é considerado um crime e, por isso, deve ser denunciado. O sexismo diz respeito a atitudes ou ações que diminuem ou excluem as pessoas de acordo com o seu sexo. Ainda hoje, em muitos países, a mulher é proibida de votar, de sair às ruas mostrando o seu rosto, de usar calças compridas, de escolher seu próprio marido. Infelizmente, no Brasil, como em outras partes do mundo, também acontecem a violência doméstica e a exploração sexual. A questão da violência contra a mulher é tão séria que foi preciso que as mulheres se unissem e pressionassem o governo a criar um orgão específico para sua proteção: as Delegacias de Polícia de Defesa da Mulher. Foram criadas também leis específicas para garantir os direitos das mulheres. Mas, para que essas leis sejam cumpridas, é necessário denunciar estes crimes: -Ameaça Quando alguém, por palavras, gestos ou por escrito, amedronta uma mulher, prometendo fazer um mal injusto e grave. -Atentado Violento ao Pudor Quando uma mulher é obrigada a ter contato íntimo contra a sua vontade, sem ter tido penetração vaginal. -Calúnia Quando é acusada de ter praticado um crime que não cometeu. -Injúria Quando é ofendida, mesmo que não seja na frente de outras pessoas. -Difamação Quando alguém fala contra a honra da mulher, na presença de uma ou mais pessoas. -Destruição de Documentos Quando alguém destrói ou oculta, em benefício próprio ou de outrém, documentos públicos ou particulares, prejudicando a mulher em seu direito de ir e vir. -Indução ao Suicídio Quando alguém menospreza a mulher, minando sua auto-estima e induzindo-a ao suicídio, ou ainda, prontificando-se a auxiliá-la para que o faça. -Lesão Corporal Quando a mulher é vítima de socos, pontapés, tapas, arremesso de objetos que a machucam ou prejudicam sua saúde. -Estupro Se a mulher foi obrigada a manter relações sexuais com penetração contra a sua vontade. -Homicídio Quando a mulher é assassinada por desconfianças, ciúmes ou por não querer fazer o que o companheiro determina.

Discriminar para quê? Orientação Sexual é um conceito relativamente novo que se refere aos sentimentos que existem dentro de cada um/a de nós em relação ao relacionamento afetivo e sexual com outra pessoa. Todos/as nós sabemos que as pessoas nascem com um único sexo, masculino ou feminino: é o sexo biológico que vamos carregar para sempre. No entanto, é através do contato com os outros seres humanos que vamos construindo o jeito de ser homem e o jeito de ser mulher. Esse comportamento sofre influência da cultura á qual pertencemos, da educação que nos é dada pela família e pela escola, e dos valores vigentes de cada época. Os padrões culturais da nossa sociedade definem como predominante a atração heterossexual e discrimina a atração homossexual e bissexual. Freqüentemente, pessoas que divergem dos padrões dominantes são tratadas de forma desigual e negativa. Na nossa sociedade a palavra homossexualidade ainda causa arrepios em muita gente. É curiosa a forma como esse assunto é encarado. Existe uma tendência em se acreditar que homossexuais masculinos e femininos são biológica ou psicologicamente diferentes dos heterossexuais e que seu comportamento pode ser melhor compreendido em termos psicológicos ou biológicos do que sociais. É comum ver pessoas usando o estereótipo de afeminado para o homossexual masculino e de máscula para a homossexual feminina. Na realidade, isso é uma bobagem, pois a maioria dos homossexuais masculinos e femininos não demonstram a sua orientação sexual através de trejeitos. É importante lembrar que não existe nenhuma verdade absoluta que defina o que leva uma pessoa à homossexualidade. O que se sabe é que a atração sexual pelo mesmo sexo é algo tão antigo quanto o mundo e não que existe nenhuma razão que justifique atitudes desrespeitosas e de discriminação por pessoas que se relacionam com outras do mesmo sexo. Afinal, como muita gente já disse, ”discriminar para quê ? De um jeito ou de outro, somos passageiros/as do mesmo barco”.

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Prevenção: o melhor remédio Todos/as nós sabemos que o mundo é um lugar muito violento. Então, o que podemos fazer para deter essa violência? A resposta é: PREVENÇÃO! Do mesmo modo que a aids, o melhor remédio ainda é prevenir para que a violência não aconteça. E prevenção é uma responsabilidade de todo mundo, independente da classe social, da religião, da escola, dos serviços de saúde. Para dar certo, todos/as têm que fazer a sua parte. A Organização Mundial de Saúde classifica a prevenção nas seguintes categorias: Prevenção Primária: é aquela que tem como objetivo a eliminação ou redução dos fatores sociais, culturais e ambientais que favorecem os maus-tratos. Atua nas causas da violência doméstica. Prevenção Secundária: é aquela que tem como objetivo detectar, o mais rápido possível, crianças, adolescentes e adultos em situação de vulnerabilidade impedindo os atos de violência e/ou a sua repetição. Atua em situações já existentes. Prevenção Terciária: é aquela que tem como objetivo o acompanhamento integral da vítima e do agressor. Bom, agora que você já conheceu outros tipos de violência, fica aqui a nossa pergunta: o que você pode fazer para tornar melhor a sua vida e a das pessoas que você ama? O que você pode fazer para diminuir a violência?
Fontes: Maus-Tratos Contra Crianças e Adolescentes. ABRAPIA. Violência Contra a Mulher. Conselho Estadual da Condição Feminina.

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Situações de violência
Objetivo • Levar os/as adolescentes a vivenciarem alguns tipos de violência que existem em nossa sociedade e a refletirem sobre como poderiam agir caso se tornassem vítimas dessa violência. Tempo • 120 minutos Material • 6 roteiros para serem distribuídos para os grupos • relação dos locais de ajuda às vítimas de violência em sua cidade/bairro Processo 1. O/a educador/a, com antecedência, prepara 4 roteiros para serem distribuídos entre os grupos de alunos/as. Seria interessante garantir grupos mistos. A distribuição dos roteiros deverá ser feita, também, com antecedência para que os grupos possam se preparar. Cada grupo terá no máximo 15 minutos para fazer sua apresentação e deverá fazer segredo para os outros grupos. 2. No dia da apresentação, o/a educador/a solicita que cada grupo faça a apresentação como ensaiou. Quando terminarem, faz algumas perguntas para a platéia como, por exemplo: • que tipo de violência foi dramatizada? • como vocês acham que a vítima se sentiu? • o que leva certas pessoas a praticarem este tipo de violência? • como esse tipo de violência poderia ser evitada? (meios de comunicação, leis, campanhas, etc.) • como poderíamos ajudar alguém que está ou que já passou por um tipo de violência como esta? • A quem ou a que entidade poderíamos recorrer num caso de abuso sexual ou de estupro? • como poderíamos nos prevenir deste tipo de violência? 3. O/A educador/a faz suas observações embasado/a no Estatuto da Criança e do/a Adolescente. 4. Quando todos os grupos terminarem suas apresentações e discussões, o/a educador/a distribui os endereços do Conselho Tutelar, da Delegacia da Mulher e de outras instituições que possam ajudar pessoas vítimas de violência.

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Sugestões de Roteiro Roteiro 1
Ana é uma garota que gosta muito de esportes. Um dia desses, ela estava correndo no calçadão da praia às 6 horas da manhã quando foi abordada por um rapaz muito bonito. Ele a convidou para sentar um pouco na areia para conversarem um pouco. Ana topou. Eles andaram um pouco e o rapaz se sentou num trecho da praia que estava deserto. O papo corria bem, até que o rapaz começou a agarrar Ana e acabou estrupando-a. Quando conseguiu recompor-se, Ana procurou um policial que lhe disse: “Minha filha, nessa hora da manhã, com esse shortinho, você queria o quê? Fez por merecer.”

Roteiro 2
Rogério sempre foi um menino diferente. Gosta de ler, de escrever poesia, de ir ao cinema e não se interessa nem um pouco por esportes radicais e acha que ficar é uma coisa muito boba. Um dia, ele começou a se interessar por Luiza, a menina mais legal da escola na opinião de 9 entre 10 meninos. Encheuse de coragem e foi convidá-la para um cinema. Qual não foi sua surpresa quando Luiza recusou-se, alegando que todos na escola sabiam que ele era gay e que tinha aids e que, portanto, ela não se arriscaria a pegar a doença.

Roteiro 3
Marlene trabalha na farmácia do Sr. João há 6 meses. Ela precisa desesperadamente desse emprego pois sua mãe está com um grave problema de saúde e ela é quem está bancando a alimentação de toda a família. Ontem, o patrão pediu para que ela ficasse um pouco depois do expediente para ajudá-lo a repor o estoque. Marlene ficou, só que o farmacêutico fez-lhe a seguinte proposta: “Quero fazer sexo com você. Se você topar, lhe dou uma boa grana, caso contrário, está despedida”! Marlene saiu correndo da farmácia, chorando. Foi para a casa de uma amiga que lhe perguntou se ela tinha dado mole para o patrão.

Roteiro 4
Geraldo é um jovem negro de 18 anos que adora passear. Um de seus divertimentos favoritos é ir ao shopping ver as meninas e as vitrines. No sábado passado, ele estava dando umas voltas por lá quando ouviu um grito de “Pega Ladrão”. Olhou para o lado procurando ver o que estava acontecendo quando sentiu que o estavam segurando. Foi levado para uma sala e lá foi espancado pelos seguranças do shopping que o acusavam de ter roubado um relógio e dado para um colega, já que não estava com ele. Geraldo dizia que ele não tinha feito nada, que só estava passeando. Um dos homens retrucou: “Preto não tem dinheiro para vir ao shopping fazer compras, só vem mesmo é para roubar!”

Roteiro 5
Paulinha tem 12 anos, é uma menina muito pobre e gostaria muito de ter uma roupa e um tênis bonito como aqueles que vê na televisão e nas revistas. Seu pai e sua mãe não têm como lhe dar estes presentes e Paulinha se sente muito inferior em relação às suas amigas por não se vestir tão bem como elas. Tem um senhor de uns 50 anos que vive dizendo que Paulinha é linda e lhe dá balas. Um dia, perguntou por que está triste e ela lhe conta sobre o tênis. Ele diz que lhe dará o dinheiro, mas ela tem que fazer uma coisa por ele. “Qualquer coisa” responde a menina. Ele lhe pede primeiro um beijo na boca e depois que ela faça sexo oral nele. A história vazou na escola e alguns/algumas educadores/as querem punir a menina por ela ser prostituta.

Roteiro 6
Janete é uma menina de 11 anos que acabou de entrar na adolescência. Conforme seu corpo foi se desenvolvendo, seu pai começou a fazer algumas brincadeiras diferentes com ela. Passava a mão nos seus seios e, sorrateiramente, a apertava contra a parede e móveis da casa. Um dia, quando estavam sozinhos em casa, chamou-a para a cama e disse que iriam fazer uma coisa muito gostosa, mas que seria um segredo entre eles, e que ninguém nem a mãe poderia saber. Nesse dia, ele começou a ter relações sexuais com ela, fato esse que passou a se repetir por vários meses. A mãe, já desconfiada, um dia conseguiu flagrá-los. Ficou desesperada e acusou Janete de ter permitido que isso acontecesse.

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Interpretando papéis
Objetivo • Reproduzir, através de dramatização, vivências, atitudes, sentimentos e preconceitos existentes sobre aids. Tempo • 60 minutos Material • crachás e/ou papeletas (cartões com o nome dos/as personagens) • canetas hidrográficas

36 • fita adesiva • alfinetes de fralda ou clipes de papel Processo 1. O/A educador/a solicita que seis participantes se disponham voluntariamente a fazer uma dramatização: coloca-os/as em círculo e explica a dinâmica. 2. O/A educador/a coloca no peito de cada voluntário/a um cartão com o nome que designará seu papel: médico/a, assistente social, diretor/a de escola, parceiro/a de paciente, mãe/pai de aluno/a, servente, vizinhos/as, educadores/as, alunos/as, etc. 3. Pede ao grupo que, nesses papéis que estão representando, posicionem-se frente às seguintes situações: • há um comentário que o educador de uma escola é homossexual e vem emagrecendo muito ultimamente; • a mãe de um aluno exige que o educador seja demitido para que não contamine os/as alunos/as. 4. Quando terminar a dramatização, o/a educador/a explora as diferentes posições sugeridas e propõe que, juntos/as, procurem a melhor solução para o problema proposto.

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TEXTOS DE APOIO

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NOVOS TEMPOS
Desde pequenos, homens e mulheres são educados/as para se comunicarem e se comportarem de determinada forma de acordo com regras, normas e valores atribuídos aos sexos masculino e feminino dentro de cada sociedade e cultura. No entanto, esperar que meninos só se comportem de determinada forma e meninas de outra é um procedimento que reforça e cristaliza os chavões destinados a cada sexo, geralmente equivocados e inflexíveis. Por exemplo, acreditou-se, durante muitos anos, que as meninas possuíam características de passividade, fragilidade, afetividade e sensibilidade. Os meninos, por sua vez, estariam envolvidos com a força, objetividade, competitividade e racionalidade. Essa divisão rígida de atributos para cada comportamento, masculino e feminino, só serve para impedir as pessoas de desenvolverem plenamente suas potencialidades. Felizmente, hoje em dia, podemos lançar mão do conceito de gênero, que vem dando uma nova dimensão para o jeito de se encarar o homem e a mulher na nossa sociedade. Nele, a dimensão biológica é separada dos valores culturais, permitindo que os indivíduos façam suas escolhas, independente de serem homens ou mulheres. Se voltarmos o olhar para os últimos 20 anos, notaremos que uma conjunção de fatores contribuíram para que a mulher mudasse sua condição de cidadania durante esse tempo. O desenvolvimento econômico do país, as oportunidades de qualificação e profissionalização para a mulher, o maior engajamento no mercado de trabalho, inclusive, com maior diversidade na oferta de profissões, a eclosão dos movimentos sociais, principalmente o movimento feminista, foram fatos decisivos para uma mudança na forma pela qual a mulher faz parte do mundo: hoje, ela passa a ser participante da esfera pública, antes predominantemente caracterizada como mundo masculino. E como ficou o homem diante dessa mulher que trilhou novos caminhos? E a família, teve alguma mudança? A família sofreu alterações na sua dinâmica, obrigando seus membros a incorporarem novos papéis e responsabilidades, definindo novos arranjos e passando a contar também com os rendimentos obtidos através do trabalho da mulher, aumentando assim as oportunidades de participação na sociedade de consumo. Os homens, ao se depararem com mulheres atuando na esfera pública, desempenhando papéis anteriormente atribuídos a um mundo onde só eles sabiam transitar, tiveram problemas nas relações com suas parceiras, vendo-se obrigados a se relacionar de uma nova forma com o mundo doméstico e feminino. Hoje em dia, isto já está mais amenizado, inclusive com o movimento inverso, ou seja, de entrada mais efetiva do homem na esfera doméstica, principalmente no cuidado com filhos e filhas. O novo desempenho da mulher - que acrescenta à vivência doméstica as experiências do mundo público traz como decorrência uma maior absorção de novos comportamentos, um maior envolvimento com causas sociais, o reconhecimento dos seus direitos de cidadã, fatores que reforçam um maior poder de negociação das mulheres nas relações entre seus pares. Negociação A idéia de negociação implica em disponibilidade para resolver problemas entre as pessoas, ou ainda, que "a capacidade de negociar envolve perceber o outro como alguém que tem sentimentos e necessidades diferentes dos seus" (Guia de Orientação Sexual, 1994). Este fator é de fundamental importância nas relações entre homens e mulheres, principalmente em uma cultura onde a submissão da mulher ao homem foi pouco questionada durante séculos, reforçando a idéia de homem dominador e "dono do poder". A respeito da vida sexual e reprodutiva, durante muito tempo as questões de contracepção e prevenção estiveram mais a cargo da mulher do que do homem. Atualmente, essa situação está mudando, impulsionada principalmente pelas DST/aids. A aids põe em pauta a necessidade de todos/as se prevenirem, chamando o homem à sua responsabilidade dentro da relação com sua parceira. Muitas vezes fica muito difícil para a mulher (e para homens em algumas situações) conseguir mostrar a necessidade de cuidados com a vida sexual, pois ainda existe muito preconceito por parte dos homens e muita submissão e receio por parte das mulheres. É necessário que homens e mulheres se convençam da necessidade de ir fundo nessas questões e identifiquem suas principais dificuldades, nomeiem sentimentos para que possam vivenciar juntos, e com segurança, uma vida sexual saudável e prazerosa, fruto de uma boa conversa.

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DISCRIMINAÇÃO: O QUE É ISSO?
Não é novidade para ninguém que as pessoas são diferentes entre si, não é? Basta olharmos para os lados para perceber isso. Existem os homens e as mulheres, raças distintas, uns/umas são altos/as outros/as são baixos/as, tem gente gorda e tem gente magra, existem pessoas que tem algum tipo de deficiência, existem muitas religiões e as mais variadas opiniões sobre os mesmos assuntos. Pois é, estaria tudo muito bom, tudo muito bem, se estas diferenças entre as pessoas não se transformassem em desigualdades. Eu explico: apesar de estarmos cansados/as de ouvir que todas as pessoas tem os mesmos direitos, isto é, apesar de ter características diferentes (sexo, raça etc.) são iguais perante as leis e tem as mesmas oportunidades, não é bem isso que vemos na prática. Tem alguns edifícios que não deixam pessoas negras andarem no elevador social ou ainda, tem muitas mulheres que ganham menos que os homens fazendo o mesmo trabalho. Discriminar é justamente isso, desvalorizar uma pessoa em função de seu sexo, sua raça, religião, orientação Sexual (heterossexual, homossexual ou bissexual), saúde, classe social, idade etc. Entre os/as jovens, é super comum as pessoas serem criticadas pela roupa que vestem, por não terem o tênis X ou a calça Y. O que pode parecer, a princípio, uma pura questão de moda ou de como a turma se veste, na verdade trata-se de uma forma de preconceito contra o ser diferente ou a classe social, uma vez que certas roupas são muito caras e não é todo mundo que pode comprá-las. E, pode crer, não existe nada que magoe mais do que ser discriminado(a)!

Sexismo e Racismo Vamos fazer uma brincadeira? Para começar pegue alguns livros que contenham figuras. Folheie o livro e vá contando quantos homens e quantas mulheres existem nas figuras? E quantos negros e quantas negras? quantos japoneses/as? quantos índios/as? Não sei qual os livros que você escolheu, mas o que geralmente encontramos é um grande número de figuras de homens ou de meninos brancos. Agora, vamos assistir a um capítulo de novela. Quantos personagens negros/as aparecem? Eles/as têm as mesmas funções profissionais que os/as brancos/as? Tem uma atriz negra que diz: eu só arrumo trabalho quando a novela é sobre escravidão ou quando precisam de uma empregada doméstica. E a nossa língua, então? A mulher praticamente não existe. Se numa classe de 6ª série tem 26 alunas e 1 aluno como é que é o plural? Os alunos da 6ª série. E quando temos um problema pela frente, o que falamos? A coisa está preta ... Deu para entender? Só para definir melhor: Racismo é um comportamento discriminatório em função da raça. É acreditar que certas características, como a cor da pele ou o lugar onde se nasce, fazem com que existam duas classes de pessoas: as superiores e as inferiores. Sexismo é uma atitude ou uma ação que diminui ou exclui as pessoas de acordo com o seu sexo. Em muitos países, as mulheres são proibidas de votar, de trabalhar, de sair de casa desacompanhadas, de usar calças compridas e, por mais absurdo que possa parecer, em algumas localidades da África ainda se extirpa o clitóris das meninas para que elas não sintam prazer. No Irã, as mulheres são obrigadas a usar véu cobrindo o rosto. Na China e na Índia, bebês de sexo feminino muitas vezes são mortos por não ter tanta importância com os do sexo masculino. Dá pra acreditar?

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VIOLÊNCIA, ESSA VELHA CONHECIDA NOSSA!
Quando falamos em violência, geralmente pensamos em pessoas malvadas, que agridem, roubam e matam. Entretanto, se prestarmos bastante atenção, veremos que existem outras formas de violência e que elas estão presentes o tempo todo nas relações entre as pessoas. Alguns exemplos: • quando um pai ou uma mãe bate num filho ou filha; • quando uma pessoa se utiliza da outra - através da autoridade, da ameaça, da diferença de idade - para obter prazer sexual; • quando uma pessoa trata a outra como coisa, impedindo que a vontade, o desejo e a atividade do/a outro/a seja concretizada; • quando as diferenças entre as pessoas se transformam em desigualdade, ou seja, quando características como sexo, cor, etnia e idade definem a superioridade de um/a sobre o/a outro/a. Nada justifica que uma pessoa maltrate ou ameace outra. Por isso, o primeiro passo para acabar com a violência é sair da situação assim que percebermos que a relação que estamos vivendo é ruim ou desigual. Entretanto, nem sempre essa atitude basta. Muitas vezes é necessário denunciar a violência para que ela deixe de acontecer. É importante conhecermos os crimes previstos em lei, os nossos direitos enquanto cidadãos e cidadãs e onde procurarmos ajuda. É importante lembrar que a pessoa que sofre uma violência é sempre uma vítima e nunca a culpada, como muita gente diz por aí. Para introduzir esse tema tão complexo no debate educativo faz-se importante tentar entender do que se está falando quando nos referimos à violência. Violência e dominação são parentes próximos. Uma relação de dominação implica em uma relação desigual, onde existe o superior e o inferior. Entre as pessoas a relação de dominação faz com que uma das partes não seja vista, não tenha visibilidade como sujeito, apenas enquanto coisa. Estão presentes neste tipo de relação a inércia, a passividade e o silêncio; isto é, quando alguém impede a fala e a atividade de outra pessoa, ocorre uma relação de violência. Para entendermos melhor essa noção de violência (que muitas vezes nos horroriza fazendo com que achemos isso um fenômeno estranho a nós), nos remetemos a um texto de Maria Sylvia Carvalho Franco, citado por Sérgio Adorno, ambos profissionais que tratam do tema violência nestes últimos anos. Brasil, Século XIX. Maria Sylvia Carvalho Franco, em seu livro Homens Livres na Ordem Escravocrata, analisa o cenário caipira onde transcorria a vida paulista. Na sociedade agrária brasileira, recém-egressa do colonialismo, os ajustes violentos não eram esporádicos e sequer relacionados a situações episódicas. Pelo contrário, os ajustes violentos estavam imersos na banalidade da vida cotidiana. A violência atravessava todo o tecido social, estando presente justamente nos espaços menos regulamentados da existência coletiva, como naqueles onde se encontravam organizados os princípios e fundamentos estruturadores da vida e da sociedade. Aponta que, dentro do mundo tradicional rural, a violência podia ser manifesta pelo menos sob três formas: Primeiro: enquanto costume, se incorporou na regularidade cotidiana do homem livre apresentando-se como solução radicalizada de conflitos, inclusive com a possibilidade de supressão física de uma das partes litigiosas. Segundo: enquanto instituição, o recurso à violência se manifestava como padrão de comportamentos. Neste sentido as respostas violentas apareciam como condutas estandardizadas. Problemas de conflitos sociais ou entre grupos ou classes eram solucionados de modo também conflituoso, não raro com a supressão de uma das partes. Terceiro: enquanto moralidade, a violência se comportou como um modelo socialmente válido de conduta, publicamente aceito e reconhecido. A ação violenta era tida não somente como legítima mas também como imperativa. Desse modo, ao contrário do que se imagina, a violência não é um fenômeno estranho à sociedade. Às vezes se tem a idéia de que a violência é uma coisa estranha ao homem, ou uma anomalia e, portanto, pertencente à esfera de patologia. É difícil admitir que a violência é um fenômeno socialmente construído, ou seja, um fenômeno que ocorre no interior das relações sociais. A violência não é um fenômeno natural, mas um fenômeno social. No Brasil de hoje, ao invés de ser extirpado o padrão de comportamento relacionado à violência, ele foi potencializado, já que a conduta violenta está presente na esfera doméstica, nas relações familiares, nas relações afetivas, nas instituições. A sociedade moderna brasileira não dá mostras de superação dessa forma aparentemente atrasada de solucionar seus conflitos; ao contrário, tende a revitalizá-la e reproduzi-la. As relações de dominação continuam a vigorar firmemente, marcando as diferenças na sociedade que originam relações de desigualdade. Essas desigualdades correspondem a relações assimétricas hierarquizadas que implicam que a vontade de uns seja submetida a outros. Neste sentido, a ação entre as pessoas se torna violenta, porque envolve a perda da autonomia, de modo que as pessoas são privadas de manifestar sua vontade, submetendo o seu desejo à vontade e ao desejo de outros. A violência não se expressa apenas nas relações entre classes sociais, ela se expressa também nas relações interpessoais, nas relações cotidianas onde grupos de pessoas também são submetidos à vontade de

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outros. Aparece nas relações de gênero, nas relações entre raças, nas relações entre homens e mulheres, nas relações entre adultos e crianças e no interior das famílias. A família brasileira sempre foi considerada como uma instituição que contempla conforto e segurança emocional. Mas isso não é verdade para todos os grupos sociais. Ela é também um lugar muito perigoso onde cotidianamente as relações desiguais produzem conflitos. Normalmente, nas famílias o marido é considerado a cabeça do casal e embora muitas vezes a mulher seja a mantenedora da família, economicamente, ela continua submetida ao autoritarismo do homem. A família pode ser também um espaço perigoso para as crianças visto que na nossa sociedade o modelo de organização familiar centrado no adulto o designa como figura portadora de soberania e excelência. Sérgio Adorno enfatiza ainda que todo desejo da criança na verdade é uma mera manifestação de alguma coisa que não está culturalmente prevista. Portanto, a criança é um ser que está sujeito a ser criticado e submetido. E se ela não se submete, está sujeita às reprimendas em nome da boa educação. A escola também não está isenta nesse aspecto. Em nome do papel de formadora de cidadãos e cidadãs, aplica práticas discriminadoras e preconceituosas contra seus/suas alunos/as: muitas crianças abandonam a escola independente de sua vontade, são os/as excluídos/as que alimentam as estatísticas do trabalho infantil, da população de rua, dos abandonados. Violência e Abuso Sexual Em nosso país, vivemos um verdadeiro “muro de silêncio” em relação ao abuso sexual de crianças e adolescentes. Quase não existem dados sobre o assunto porque, ao contrário do que se imagina, o abuso sexual acontece mais dentro de casa do que na rua. Geralmente, o abusador é um indivíduo que a criança conhece, confia e ama e de quem a família depende afetiva e economicamente. Este problema não aflige somente os países em desenvolvimento. Nos Estados Unidos, 20% das meninas e 9% dos meninos são sexualmente abusados/as antes de atingirem 12 anos, segundo pesquisas realizadas naquele país. Do ponto de vista legal: Incesto: é qualquer relação de caráter sexual entre um adulto e uma criança ou adolescente, entre um adolescente e uma criança, ou ainda entre adolescentes quando existe um laço familiar, direto ou não, ou mesmo uma mera relação de responsabilidade. Estupro: é a situação em que ocorre penetração vaginal com o uso de violência ou ameaça a partir dos 14 anos. Antes de 12 anos, mesmo sem violência ou ameaça, é considerado estupro. Sedução: quando há penetração vaginal em adolescentes virgens de 14 a 18 anos, sem uso de violência. Atentado Violento ao Pudor: constranger alguém a praticar atos libidinosos sem penetração vaginal, utilizando violência ou grave ameaça. Prostituição Infantil: situação que envolve milhares de crianças e adolescentes vítimas de uma situação sócio-econômica extremamente injusta e desigual. As meninas, na maioria das vezes, mantiveram sua primeira atividade sexual com o próprio pai e foram obrigadas por fatores culturais e econômicos a se * prostituírem para sobreviver. O abuso sexual pode trazer para a criança e o/a adolescente conseqüências orgânicas e psicológicas, como lesões diversas na genitália e no ânus, gestação, DST/aids, dificuldades na área afetiva e na socialização, baixa auto-estima. Dos poucos dados que temos, conclui-se que a maioria dos casos de abuso sexual acontecem em casa, de forma repetida, sem violência e sem evidências físicas. A tentativa de preservar o núcleo familiar, as relações de interdependência, o medo e a omissão levam à constituição na família de um muro de silêncio, que impede a notificação e a interrupção da escalada de violência física, psicológica e sexual contra a criança e o/a adolescente. O diagnóstico de detectar abuso sexual em hospitais implica em um exame físico completo, detalhado e orientado por uma rotina para o abuso sexual, exames complementares e uma abordagem multiprofissional especializada em cada caso, através de entrevistas com a criança e com as pessoas envolvidas. Tipos principais de violência ou maus-tratos contra crianças a) Violência Física (abuso físico) b) Violência Sexual (abuso sexual) c) Violência psicológica d) Negligência e) Abandono (parcial ou total)
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Guia de Orientação para professores. ABRAPIA. Maus-tratos contra crianças e adolescentes.
LEMOS, Maria Meirilene Lopes. Violência Doméstica. Secretaria do Trabalho e Ação Social - SAS/Fundo das Nações Unidas para a Infância - UNICEF. Fortaleza.

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“Os maus-tratos contra crianças e adolescentes podem ser praticados pela omissão, supressão e transgressão dos seus direitos, então definidos por convenções legais ou normas culturais. A definição do que seja uma prática abusiva passa sempre por uma negociação entre a cultura, a ciência e os movimentos sociais”.

1. Abuso físico “Qualquer ação única ou repetida, não acidental (intencional) cometida por um agente agressor adulto (ou mais velho que a vítima) que lhes provoque dano físico”. O abuso físico é o mais identificado nos serviços de saúde e social. Os membros e o tronco são os locais do corpo preferidos para a agressão. Os motivos desencadeadores desta agressão são, principalmente, o choro das crianças, a desobediência aos pais, o egocentrismo infantil, briga entre irmãos, problemas de comportamento na escola e comunidade. Em geral, muitas das manifestações de abuso físico são consideradas pelo senso comum como medidas disciplinares, parte integrante do processo de educação. 2. Abuso sexual “Todo ato ou jogo sexual, relação heterossexual ou homossexual cujo agressor esteja em estágio de desenvolvimento psicosexual mais adiantado que a vítima. Tem por intenção estimulá-la sexualmente ou utilizála para obter satisfação sexual.” Essas práticas eróticas e sexuais são impostas a criança pela: • violência física • ameaças ou indução de sua vontade • grande jogo emocional Podem variar: • sem contato sexual (voyeurismo, exibicionismo) • com contato sexual sem penetração (sexo oral, etc.) • com contato sexual com penetração • exploração sexual - prostituição e pornografia. Ocorre mais intensamente dentro dos lares, onde a vítima mais visada é do sexo feminino. Os agressores mais freqüentes são: o pai, padastro, parentes e pessoas amigas da família ou da criança. Vale ressaltar que raramente a mãe aparece como agressora, mas é comum sua posição passiva, “consentindo” silenciosamente por medo. Este tipo de mau-trato, por representar sério tabu cultural/religioso, é o que permanece subnotificado. Os que chegam à cena pública, geralmente, ultrapassaram os “limites”, estando associados a dios, estupros. 3. Abuso psicológico Define-se como “a interferência negativa do adulto (ou pessoa mais velha) sobre a competência social da criança, produzindo um padrão de comportamento destrutivo”. As formas mais praticadas: • rejeitar • isolar • aterrorizar • ignorar • corromper • produzir expectativas irreais ou exigências extremadas sobre seu rendimento Quase não é notificado, por não produzir seqüelas físicas e visíveis, ficando “oculto” para os adultos leigos, mas ficam guardados na “caixa preta” da criança, com efeitos negativos para a vida futura. 4. Abandono Caracteriza-se como abandono a ausência do/a responsável pela criança. Pode ocorrer de forma parcial, quando a ausência é temporária, e mesmo assim gera situações de risco. Entende-se por abandono total o afastamento do grupo familiar, deixando a criança desamparada, exposta a várias formas de perigo. O abandono vem muitas vezes associado a negligência, dando com a institucionalização de crianças. 5. Negligência Negligência é entendida como privação de algo que a criança necessita e que é essencial ao seu desenvolvimento sadio. Pode significar omissão em termos de cuidados básicos como: • privação de medicamento • privação de alimentos • não ingresso na escola • ausência de proteção contra inclemências do meio (frio, calor)

43 • privação das medidas vitais (vacinação, higiene, etc.) • falta de assistência familiar, médica, etc. • outros Vale ressaltar que este abuso é de complexa identificação na realidade brasileira, uma vez que é difícil distinguir entre privações sócio-econômicas e a atuação voluntária de negligência dos responsáveis. No entanto, é necessário que se identifiquem os casos e se denuncie para que a sociedade e o Estado possam tomar uma atitude protetora. As crianças menores de 0 a 4 anos, seguidas das de 5 a 9 anos, são as mais vitimizadas nesse tipo de abuso, e o agente agressor mais comum é a mãe da classe popular. 6. Seqüelas/Danos A violência intrafamiliar contra crianças produz danos imediatos e a longo prazo, gerando marcas profundas no desenvolvimento infantil: • fraturas • queimaduras • stress pós-traumáticos • hipervigilância • infelicidade • depressão • pânico • fobias • revivência do trauma • reduzido envolvimento com o mundo externo • regressão a fases anteriores • hiperagressividade • desordens mentais • distúrbios de sono • comportamento auto-destrutitvo • outros 7. Indicadores sobre violência doméstica a) Quanto menor for a criança, mais legitimada está a agressão física. b) Meninos são mais agredidos verbal e/ou fisicamente pelos pais. c) Meninas são as mais abusadas sexualmente. d) Os primogênitos sofrem maiores agressões familiares. e) As crianças especiais, prematuras, são alvos de agressões intrafamiliares. f) As crianças são agredidas em todas as classes sociais g) As crianças menores de 0 a 14 anos, seguidas das de 5 a 9 anos, são as mais vitimizadas pela negligência. Destas, as de 0-6 anos ocupam um percentual muito elevado (41% a 45%). h) O abuso físico é o mais cometido, vindo logo após o abuso por negligência. i) No conjunto global dos maus-tratos, a mãe é indicada como o maior agente agressor em abuso físico e negligências. j) O padrasto/pai são indicados como agressores mais freqüentes de abuso sexual, sendo seguidos por parentes e amigos. k) Nas famílias em que pai e mãe se agridem há mais agressão entre irmãos/ãs e de pai e mãe sobre os/as filhos/as.

Crimes definidos pela Lei, alguns deles praticados mais freqüentemente contra as mulheres: 1. Se alguém, por palavras, gestos ou por escrito, amedrontou você, prometendo fazer um mal injusto e grave, você foi vítima de um crime de ameaça. 2. Se alguém a obrigou a ter contato íntimo contra a sua vontade, sem ter tido penetração vaginal, você foi vítima de um crime de atentado violento ao pudor. 3. Se alguém a acusou de um crime que você não cometeu, você foi vítima de calúnia. 4. Se alguém destruiu ou ocultou, em benefício próprio ou de outrém, documento público ou particular, prejudicando-a, você foi vítima de um crime de destruição de documentos. 5. Se alguém falou contra a sua honra, na presença de uma ou mais pessoas, você foi vítima de um crime de difamação. 6. Se alguém a obrigou a ter relações sexuais com penetração vaginal contra a sua vontade, você foi vítima de crime de estupro. 7. Se alguém a induziu ou instigou a suicidar-se ou prontificou-se a auxiliá-la para que o fizesse, você foi vítima de um crime de indução ao suicídio. 8. Se alguém a ofendeu, mesmo que não seja na frente de outras pessoas, você foi vítima de crime de injúria.

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Se alguém lhe deu socos, bofetões e pontapés, ou bateu usando objetos que a machucaram ou prejudicaram a sua saúde, você foi vítima de um crime de lesão corporal. 10. Se alguém a ofendeu ou a impediu de entrar em qualquer edifício ou estabelecimento público ou privado, em função de sua raça ou origem étnica, você foi vítima de um crime de racismo. 11. Se alguém matou alguém, cometeu um crime de homicídio.

9.

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ANEXOS

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GÊNERO E DESENVOLVIMENTO
O que é gênero?
O conceito de gênero começou a ser usado na década de 80 por estudiosas feministas, para contribuir com um melhor entendimento do que representa ser homem e ser mulher em uma determinada sociedade e em um determinado momento histórico. Se falamos em sexo, pensamos imediatamente em um atributo biológico, ou seja, já ao nascer o bebê tem um sexo definido. Quando nasce uma menina, sabemos que quando ela crescer será capaz de ter filhos/as e amamentá-los/as. Entretanto, segundo a socióloga Teresa Citelli, “o fato de desde cedo ela ser estimulada a brincar com bonecas e a ajudar nos serviços domésticos, por exemplo, não tem nada a ver com o sexo: são costumes, idéias, atitudes, crenças e regras criadas pela sociedade em que ela vive. A partir da diferença biológica, cada grupo social constrói, em seu tempo, um modo de pensar sobre os papéis, comportamentos, direitos e responsabilidades de mulheres e homens”. Ainda segundo Citelli, “a grande vantagem de se usar a noção de gênero, é a de desnaturalizar relações consideradas até então do domínio da natureza, e dessa forma evidenciar o caráter social e cultural da hierarquia entre gêneros, que quase sempre favorece os homens. O que é considerado natural não pode ser mudado, mas o que é social e cultural pode ser alterado para corrigir desigualdades. Essa compreensão do conceito de gênero permite identificar em nosso cotidiano: quais são os símbolos atribuídos a mulheres e homens, quais as normas de comportamento que decorrem desses símbolos e quais as instituições que funcionam a partir dessas normas e - o mais importante - quais as conseqüências disso tudo na vida de mulheres e homens”. O conceito de gênero permitiu também que se corrigissem dois equívocos: a) a ênfase numa igualdade absoluta, negando as diferenças; b) a centralização em apenas um dos gêneros, não levando em conta que a história da humanidade é uma história de homens e mulheres em relação. Enfim, o conceito de gênero é, antes de tudo, uma construção histórica e social, cujas referências partem das representações sociais e culturais construídas a partir da diferença biológica de sexo. Se partirmos dessa premissa, podemos concluir que : se levarmos em conta que o feminino e o masculino são determinados pela cultura e pela sociedade, as diferenças que se transformaram em desigualdades são, portanto, passíveis de mudança.

Gênero e Conceitos de Desenvolvimento
A importância de compreender como os assuntos de gênero se relacionam com o processo de crescimento econômico, social e político surge da situação geral de desigualdade de gênero, a qual é tanto um problema de desenvolvimento como um obstáculo ao progresso em todos os programas de promoção humana. Talvez o conceito mais básico de desenvolvimento seja a superação da pobreza. Neste nível fundamental, os assuntos de desigualdade de gênero são óbvios - na maioria dos países, a mulher, com sua carga múltipla de trabalho doméstico, produção de alimentos, ocupação familiar, procriação e cuidado com os filhos, é quem geralmente experimenta os efeitos mais severos da pobreza extrema, com menos possibilidades de escapar dela. Quando muitos países em desenvolvimento estão executando programas de ajuste estrutural, as mulheres e as crianças são os seres mais vulneráveis ao valor decrescente da renda em dinheiro, à supressão de subsídios aos alimentos e à redução do gasto estatal em serviços sociais.

Características dos modelos de desenvolvimento vigentes:
• ser humano com necessidades básicas (sobrevivência e bem-estar mínimo) e secundárias (que surgem só quando as básicas foram atendidas); • natureza como bem inesgotável; • dirigidos a comunidade, família, lar (sem reconhecer a diversidade e a especificidade dos grupos); • crença de que quanto maior for o crescimento da produção material, maior será a distribuição; • ênfase no tecnológico; • se apresentam como metas alcançáveis e não como um processo de atuação pessoal e cotidiana; • planejadas por um pequeno grupo, sem a participação da população.

Por que trabalhar com o enfoque de Gênero e Desenvolvimento
Estes dois conceitos se referem a campos fundamentais da vida de uma sociedade que está em permanente interação e que são interdependentes; buscam solucionar algumas falhas na concepção de desenvolvimento, a partir das seguintes propostas:

- flexibilizar os estereótipos

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Distribuição mais eqüitativa de atividades , expectativas e oportunidades em todos os âmbitos da interação social. - reestruturar as relações de poder Gerar espaços de poder e de participação para as mulheres - gerar um novo modelo de desenvolvimento que seja centrado na valorização das pessoas e não somente na produção econômica e no consumo. - integrar a perspectiva de trabalho aos processos de planejamento do desenvolvimento de maneira estrutural - buscar integralidade e sustentabilidade Gerar novos modelos de desenvolvimento, que levem em conta a diversidade, as necessidades tecnológicas, com a perspectiva de garantir melhores oportunidades para mulheres e homens. - entender que a relação entre gênero e desenvolvimento é um processo que deve propiciar uma melhor qualidade de vida a todos/as.

Instrumentos Analíticos de Gênero e Desenvolvimento
• o problema a permanente situação de desvantagem, subordinação e falta de acesso às condições que permitam participar plenamente e beneficiar-se dos processos de desenvolvimento; • a análise a estrutura e a dinâmica das relações de gênero; • a solução fortalecimento (empowerment) e igualdade. O atual paradigma de promoção e defesa dos direitos da pessoa humana situa a diminuição das desigualdades de gênero como condição e medida do desenvolvimento social.

Breve Histórico dos Enfoques de Desenvolvimento
Nos últimos 50 anos, as mulheres não foram vistas como sujeitos de desenvolvimento na mesma medida que os homens. Até a década de 40, a mulher era praticamente invisível nos programas de desenvolvimento. Já os homens eram tidos como chefes naturais das famílias e da sociedade; representantes dos interesses e necessidades das mulheres e crianças; provedores encarregados de trabalhar e de produzir o necessário para garantir o bem-estar na unidade social. Na seqüência, apresentamos um quadro onde é possível analisar as mudanças nas políticas de desenvolvimento em relação à mulher, das últimas décadas até os dias de hoje.

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Gênero e Conceitos de Desenvolvimento
Década Projeto
Política de Desenvolvimento Meta do projeto Conceito de Solução Crescimento Econômico Bem-estar Serviços de apoio para saúde, nutrição, atenção à criança, etc. Planejamento Familiar Crescimento com Distribuição Auto-suficiência econômica Promoção da auto-suficiência e independência Igualdade Igualdade de oportunidade na educação; capacitação; acesso a fatores de produção Ação afirmativa para fomentar igualdade de, oportunidade; revisão da planificação do desenvolvimento Ajuste Estrutural Eficiência Identificação dos papéis produtivos da mulher (Gênero); capacitação da mulher em habilidades, tecnologia, recursos produtivos Processo Autonomia Econômica e Política Empowerment Solidariedade social; capacidade de mobilização; participação da mulher no processo de desenvolvimento para igualdade de gênero, no controle dos recursos produtivos Projetos de nível popular, apoio à ação coletiva da mulher. Projetos referentes a: - democratização e ação política

Entre 40 e 60

70

80

90

Tipos de Intervenção

Maternidades, clínicas de saúde, Projetos de imunização, educação em Geração de saúde, em nutrição Renda

Aumento do acesso a fatores de produção; crédito, comercialização, assessoria de extensão, tecnologia apropriada

Problemas que permanecem mundialmente
• Feminização da pobreza (mulheres chefes de família, salários baixos) • Subordinação da mulher: - menor salário - trabalhos menos valorizados - somente 10% das mulheres em postos de decisão • Marginalização institucional • Marginalização em projetos (paternalistas, perpetuam papéis tradicionais) • Mulher como receptora de serviço (passiva) • Tripla jornada de trabalho: - trabalho produtivo - trabalho reprodutivo - trabalho comunitário

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Condição e Posição
A maioria dos projetos de desenvolvimento visa melhorar a CONDIÇÃO de vida das pessoas. De uma perspectiva de gênero, é necessário fazer uma distinção entre a condição de vida da mulher e sua posição na sociedade. Condição se refere à situação material, à esfera imediata da experiência: tipo de trabalho que faz, moradia e outras necessidades básicas. Posição se refere ao padrão sócio-econômico da mulher em relação ao homem. É mensurado pelas disparidades salariais, desemprego, participação no poder, vulnerabilidade à pobreza, violência, etc. Dentro de uma casa ou na comunidade, mulheres, homens e crianças podem compartilhar as mesmas condições de vida. Entretanto, essas condições afetam homens e mulheres diferentemente: as prioridades do dia-a-dia para as mulheres poderão ser diferentes das dos homens. Por exemplo, mais renda, água mais próxima, melhores serviços de saúde para elas; mais terra, mais tecnologia, mais investimentos para eles. Os projetos/programas podem ter impactos diferentes sobre as condições de vida das mulheres em relação às dos homens. Da mesma forma, isso pode ocorrer com relação à posição das mulheres na sociedade. Os projetos/programas com perspectiva de gênero deverão considerar o impacto na posição das mulheres na sociedade, sua participação como agentes de mudança e não apenas como meras usuárias. Projetos dirigidos exclusivamente a mulheres não necessariamente melhoram sua condição ou posição. Isto acontece freqüentemente quando os planejadores não estão conscientes da importância das relações de gênero. A maioria dos programas que focalizam as mulheres não costumam interferir nos seus papéis ou responsabilidades tradicionais. Muitos visam melhorar o acesso das mulheres aos recursos e benefícios sem considerar a falta de controle sobre os fatores de produção, os produtos e os processos que poderiam conduzi-las a novas oportunidades. São poucos os projetos que incluem as mulheres como agentes de desenvolvimento e mudança. Os indicadores de melhora na posição são menos óbvios que os indicadores de condição. Como são também mais qualitativos que quantitativos, são mais difíceis de serem medidos. Alguns indicadores são: • aceitação de mulheres nas instâncias de tomada de decisão da comunidade; • autoconfiança e maior independência econômica e pessoal; • maior envolvimento da mulher no desenvolvimento pessoal, da família e da comunidade; • organizações de mulheres mais visíveis e efetivas; • mais programas de educação e treinamento para mulheres; • saúde melhor para mulheres e crianças; • melhora no status legal da mulher; • declínio da violência contra a mulher; • aumento do controle sobre sua própria fertilidade; • diminuição das discriminações institucionais contra as mulheres; • mais políticas públicas voltadas à mulher.

Gênero e Conferências Internacionais
Em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, foi criada a Organização das Nações Unidas, com a intenção de tornar oficial a idéia de que os direitos humanos deveriam estar no centro das preocupações mundiais e, sobretudo, para se encontrar um meio de impedir que acontecimentos tão aterradores como os que aconteceram no período da guerra voltassem a acontecer. De lá para cá, várias conferências foram e ainda são organizadas para se discutir problemas mundiais. - Conferências da Década de 90 92 - Meio Ambiente (RJ) 93 - Direitos Humanos (Viena) 94 - População e Desenvolvimento (Cairo) 95 - Desenvolvimento Social (Copenhague) 96 - Habitat (Istambul)

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- Conferências da Mulher 75 - México 80 - Copenhagen 85 - Nairobi 95 - Beijing • Conferência de População e Desenvolvimento no Cairo (1994) Nesta conferência, uma das recomendações foi a de que todos os países se esforçassem para eliminar todas as práticas discriminatórias contra a mulher e a ajudá-la a estabelecer e exigir seus direitos, inclusive os relativos a saúde sexual e reprodutiva. Saúde Reprodutiva consiste no estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doenças e enfermidades em todos os aspectos relacionados ao sistema reprodutivo, suas funções e processos. Saúde Reprodutiva implica que as pessoas possam ter uma vida sexual segura e satisfatória, que tenham capacidade de reproduzir e decidir livremente se e quando querem ter filhos/as e o espaçamento entre eles. Esta última condição implica que homens e mulheres sejam informados/as e tenham acesso a métodos contraceptivos seguros, eficazes, aceitáveis e economicamente acessíveis, de sua livre escolha, assim como a outros métodos para a regulação da fertilidade que não sejam contrários à lei, como também o direito de acesso a serviços apropriados de saúde que possibilitem à mulher uma gravidez e um parto seguros e dê aos casais e à mulher a chance de ter um nascituro saudável. Os Direitos Reprodutivos consistem no direito básico de todos os casais e indivíduos de decidir livre e responsavelmente sobre o número, o espaçamento e o momento de ter filhos/as e de ter informação e acesso aos meios contraceptivos, e no direito de obter um melhor padrão de saúde sexual e reprodutiva. Isto inclui o direito de todos/as de tomar decisões em relação à reprodução, livres de discriminação, coerção e violência, termos estes expressos em documentos internacionais sobre os direitos humanos. O documento do Cairo de maneira geral incorporou não somente as questões relacionadas à saúde mas também aquelas que se referem ao empowerment da mulher e à igualdade nas relações de gênero.

Empowerment e Igualdade de Gênero
O Programa de Ação da Conferência do Cairo tratou assim as questões do empowerment da mulher e da igualdade nas relações de gênero: “empowerment” e autonomia das mulheres, melhoria do seu status político, social e econômico e de sua saúde são extremamente importantes e constituem um fim em si mesmo. É necessária a participação e a parceria entre mulheres e homens em relação à vida produtiva e reprodutiva, inclusive na divisão de responsabilidades, no cuidado e atenção às crianças e na manutenção do espaço doméstico”. O empowerment da mulher tem o objetivo de desafiar a ideologia patriarcal, de transformar as estruturas e instituições que reforçam e perpetuam as discriminações de gênero e as desigualdades sociais que se manifestam na família, nas estruturas de classe, nas religiões, nos sistemas de saúde e de educação, na legislação, e mesmo nos modelos de desenvolvimento dominantes. Tem ainda o objetivo de tornar possível às mulheres: √ o acesso a recursos materiais e recursos intelectuais; acesso também ao seu próprio corpo e ao sistema de valores, atitudes, comportamentos e crenças existentes; √ a conscientização de que a posição de subordinação da mulher não é um problema de incapacidade individual ou da ordem natural do mundo; é reconhecer que a situação pode mudar, é acreditar no seu direito a igualdade, dignidade e justiça; √ a participação ativa das mulheres nos processos de tomada de decisão; na implantação, fiscalização e avaliação de serviços; em instâncias de representação política; na construção de seu espaço de vida; √ o controle também pelas mulheres sobre assuntos materiais, intelectuais, de informação; ganhar igualdade de controle com relação aos homens sobre as fontes de poder, gerindo os recursos através de comitês, conselhos; √ o bem-estar, a melhoria da qualidade de vida para mulheres e homens. Empowerment é um meio de superar as desigualdades de gênero e de obter a igualdade entre homens e mulheres, sendo portanto uma das metas do novo paradigma de desenvolvimento

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social. Tem por objetivo eliminar todas as práticas discriminatórias contra a mulher e ajudá-la a estabelecer e exigir seus direitos, inclusive os relativos à saúde sexual e à reprodução.

Ciclo do empowerment Acesso

Controle

Bem-estar

Conscientização

Participação

Conferência da Mulher em Beijing (1995)

Em setembro de 1995, aconteceu a IV Conferência Mundial da Mulher, em Beijing, capital da China. Esta conferência consolidou o avanço da consciência mundial sobre Igualdade, Justiça e Direitos Humanos, à luz da perspectiva de gênero e do reconhecimento da desigualdade entre os sexos. Recomendações: • que até o ano 2015, as mulheres tenham acesso a serviços de qualidade em saúde e que a mortalidade materna seja reduzida; • compartilhar as responsabilidades entre homens e mulheres em questões relativas ao comportamento sexual e à procriação; • dar à mulher igual acesso a terra, crédito e emprego; • estabelecer a vigência de direitos pessoais e políticos; • educação igualitária. Para se conseguir a igualdade de gênero, seriam necessárias mudanças nas áreas da educação, atenção básica à saúde e acesso a recursos produtivos.

Educação não sexista − linguagem: dar visibilidade às mulheres. Exemplo: alunos e alunas, direitos dos homens e das mulheres − desenhos: mesmo número de meninos e meninas nas ilustrações − expectativas de desempenho: homens e mulheres fazendo as mesmas coisas (aviador e aviadora, médico e médica) − esportes e educação física: cooperação e não competição − igualdade nas brincadeiras e brinquedos − desenvolver a auto-estima e o autocuidado − ensino de sexualidade e saúde igualitário − oportunidades iguais em trabalhos futuros − proteção especial à criança e à família − evitar estereótipos − trabalhar com a escola, a família e a comunidade − igualdades e oportunidades para homens e mulheres na educação Saúde − serviços de planejamento familiar de qualidade − participação do homem nas decisões reprodutivas

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− acesso a métodos anticoncepcionais e a preservativos para prevenção das DST/aids − programas preventivos para adolescentes mulheres

Trabalho − valorização do trabalho feminino: produtivo, reprodutivo e comunitário − iguais oportunidades para mulheres e homens no trabalho − mais mulheres em cargos de decisão − fim do assédio sexual Família − educação igualitária para mulheres e homens − alimentação igual − divisão de tarefas iguais − fim da violência doméstica

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ESTUPRO: Um crime mais comum do que se pensa*
Cecília foi estuprada aos 18 anos, a dois quarteirões de sua casa, em São Paulo
A cada 20 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. São milhares de Cecílias, Marias e Renatas que viveram de perto o drama que acreditavam acontecer só nas páginas dos jornais. Numa sala de espera do primeiro andar do Centro de Referência da Saúde da Mulher; em São Paulo, crianças, adolescentes, mulheres jovens e senhoras de cabelo branco aguardam sua vez de ser atendidas. Sentadas lado a lado no hospital, se entreolham e, de repente, uma delas pergunta o inevitável: “Como foi que aconteceu com você?” Todas foram estupradas e, ao conversar entre si, confortam-se ao ouvir o relato uma da outra. Diferentemente das demais alas do hospital, ocupadas em geral por pessoas carentes, o Serviço de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Sexual do centro recebe pessoas de todos os níveis sociais e idades. Encaminhadas pelas delegacias e pelo Instituto Médico Legal, algumas chegam lá caladas, em estado de choque. Outras, só choram ou falam compulsivamente, sem esconder a revolta e a indignação. Das vinte mulheres com quem CLAUDIA conversou, nenhuma quis se identificar e apenas uma se dispôs a fotografar, desde que seu rosto não aparecesse. Casada há seis meses com um empresário, que conheceu aos 10 anos e que foi o seu primeiro e único namorado, e mãe de um menino de 2 anos e de uma menina de 5 anos, Cecília*, 22 anos, foi estuprada a quatro, quando saía da faculdade, às 10 horas da noite. O estranho, que dizia estar armado, a levou para um lugar ermo, a dois quarteirões de sua casa, na zona leste de São Paulo, onde a obrigou a tirar toda a roupa e a deitar no chão. Ela diz que, no início, não acreditava que aquilo estivesse acontecendo. Sentiu-se anestesiada e só pediu a ele que não a matasse. Durante meses, não conseguiu ter relações sexuais com o marido, que soube de tudo e a apoiou. “Quando ele me acariciava, as cenas do estupro vinham em flashes. Não saía de casa. Só chorava e agradecia a Deus por estar viva”, afirma ela, que há dois anos se tornou evangélica e passou a não cortar o cabelo e a vestir-se com saias até os pés. Cecília fez terapia por quase um ano, mas ainda não voltou a ter uma vida normal. Raramente sai de casa desacompanhada, parou de estudar e já adiou várias vezes a procura de um emprego. Confessa que fica nervosa quando um estranho a olha mais demoradamente na rua e entra em pânico se desconfia de que há alguém seguindo-a. Beatriz*, 25 anos, foi estuprada dentro da sua escolinha infantil, às 2 horas da tarde. Um homem bem-vestido apontou-lhe um revólver e disse que era um assalto. Sem fazer alarde, ela lhe entregou 100 reais, os seus cartões de crédito e talões de cheque. Depois ele ordenou que fosse caminhando normalmente até o banheiro, tirasse a roupa e deitasse no chão. “Só pensava nas crianças e rezava baixinho para que nada acontecesse com elas. Era como se não estivesse lá. Quando tudo terminou, não acreditei no que tinha ocorrido”, conta ela que ficou dias sem dormir e, agora, quer apenas se livrar do medo da aids e vender a escola. “Não consigo mais ir lá e entro em desespero só de pensar no que as crianças poderiam ter sofrido”. Beatriz é casada e tem um filho de 3 anos, que estava na escola naquele dia com mais 25 alunos. Só o marido e sua família souberam da história e a auxiliaram. Os outros pensam que está doente. Depois do estupro, ela enfrentou uma crise de rim, sente-se inchada e tem pesadelos toda noite. Acorda de madrugada gritando e não consegue mais dormir. Infelizmente, casos como o de Cecília e o de Beatriz ocorrem com mais freqüência. Não existe uma estatística oficial do número de estupros em todo o país. Mas, com base em dados indiretos e projeções, Jefferson Drezett, coordenador do Serviço de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Sexual, calcula que a cada 20 minutos uma mulher esse tipo de violência no Brasil. De setembro de 1994 a julho de 1997, o Centro de Referência atendeu 258 mulheres. Por dor; medo ou vergonha, as vítimas preferem se calar de 10% a 15% do número total de ocorrências. A maioria faz o boletim de ocorrência e, muitas vezes, não conta o fato a ninguém. Nem ao marido. “Primeiro, vem o choque. Elas ainda não tem muita consciência do que ocorreu e sentemse como se estivessem paralisadas”, descreve Elizete Paiola às Mulheres Vítimas de Violência Sexual.

*

Revista Claudia, outubro/1998.

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Quando conseguem se dar conta da invasão física e emocional sofrida, o banho passa a ter um significado especial. “Então se lavam com sabão de coco, desinfetante e chegam a se esfregar com telha”. diz Elizete.

Pesadelos são comuns Em geral, têm pesadelos, distúrbios alimentares e de sono e contam que a cena do estupro fica se repetindo na sua cabeça como num filme. O mal-estar físico e psicológico é tão insuportável que muitas tentam o suicídio. Segundo a psicóloga, para as que recebem atendimento psicológico logo de início essas manifestações são mais brandas. Poucas, no entanto, vão até o fim. Apenas cerca de 30% permanecem em tratamento por um período de seis meses. “A maioria não tem coragem de enfrentar essa situação. Vir aqui é lembrar de tudo o que viveu”, afirma Elizete. A vítima costuma se responsabilizar pelo que passou. Em casa, sem a ameaça do perigo presente, começa a se questionar por que não reagiu ou por que não gritou. Em geral, a reação na hora é mesmo de paralisia e pânico. “Reagir não é uma atitude comum, nem aconselhável”, diz a psicóloga. “No momento da violência, a fragilidade é muito grande. A parte racional some. O sentido de preservação fala mais alto.” O atendimento médico é importantíssimo: pode evitar uma gravidez indesejada e tratar doenças sexualmente transmissíveis e aids O tratamento pode demorar anos. “Há mulheres que tentam voltar à vida normal, mas outras ficam com medo de andar na rua e até de subir uma escada. Afastam-se de romances e de sexo e podem ter frigidez breve, longa ou permanente”, explica Isaac Charam, professor de Psiquiatria da Universidade Federal Fluminense e autor do livro O Estupro e o Assédio Sexual: Como Não Ser a Próxima Vítima (Editora Rosa dos Tempos). “Eu só me senti curada de uns dois anos para cá”, reconhece Laura*, uma tradutora e intérprete, de 45 anos, estuprada há dez anos por um desconhecido, perto do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, onde morava. “Minha relação com meu corpo ficou complicada durante muitos anos porque, inconscientemente, coloquei a culpa do estupro na minha maneira de andar; na minha sensualidade”, conta.

O QUE FAZER SE ACONTECER COM VOCÊ • • • • Nunca reaja. Converse com o agressor. Acompanhada de uma pessoa de confiança, vá imediatamente a uma delegacia e registre o crime. Exija a guia de encaminhamento para o exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal. Se o estupro ocorrer fora do horário de funcionamento do IML, o exame pode ser feito em qualquer hospital da rede pública. Informe a delegacia. • Procure um hospital (ver “Uma urgência médica”)

CUIDADOS ÚTEIS • Mude periodicamente sua rotina para evitar que estranhos possam ter informações sobre sua vida e seus hábitos. • Esteja atenta a quem a rodeia. • Não deixe desconhecidos entrar na sua casa. Observe antes pelo olho mágico. • Se morar sozinha, evite que muita gente saiba disso sem necessidade. • Procure não circular sozinha em lugares escuros, isolados ou de difícil acesso. O agressor freqüentemente é usuário de álcool e de drogas. Teve, em geral, uma infância perturbada, com episódios de violência física ou sexual, e apresenta grande dificuldade de relacionamento social

Uma emergência médica

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Os principais medos da mulher estuprada são a aids e uma gravidez indesejada. A incidência de contaminação, segundo o médico Jefferson Drezett, do Centro de Referência da Saúde da Mulher, em São Paulo, é de 0,8% a 1,6%. Os casos de gravidez indesejada e tratar doenças sexualmente transmissíveis logo de início. O atendimento deve ser feito até 72 horas depois da violência. Para evitar a gravidez, os médicos utilizam a chamada pílula do dia seguinte, uma alta dose de hormônio, ministrada durante um dia, de 12 em 12 horas. O método evita ou atrasa a ovulação. Se ela já ovulou, impede o transporte do óvulo ao útero. “Não tem um caráter microabortivo. É um recurso ético e legal, mas, como não é divulgado, muitas mulheres acabam sendo submetidas ao aborto, que, apesar de permitido nesses casos, é uma outra violência”, diz o médico. Quanto a aids, alguns serviços que atendem vítimas de violência no mundo estão lhes oferecendo medicamentos na tentativa de bloquear a replicação do vírus. Apesar de ainda ser controversa, a quimioprofilaxia, segundo José Aristodemo Pinotti, coordenador científico do Centro de Referência da Saúde da Mulher, tem sido recomendada pelo Center for Diseases Control, de Atlanta, e está sendo utilizada, por enquanto, apenas no Centro de Referência. O tratamento dura quatro semanas consecutivas e deve começar no máximo 48 horas depois da violência.

A vítima vira ré Muitas enfrentam ainda a resistência dos companheiros a compreender a situação. Freqüentemente, eles reagem com agressividade ou, o que é pior, culpam-na pela violência. “Às vezes, a reação é uma defesa porque, como homens, acham que não foram capazes de protegê-la”, diz a psicóloga. A própria justiça, em vez de amparar; discrimina. De vítima, a mulher se transforma em ré. “Ela passa ter a sua moralidade julgada. Tem de provar que houve violência e, além disso, que vai à missa todos os domingos, que reza e acredita em Deus”, ironiza a advogada Silvia Pimentel, que observou isso estudando cinqüenta processos judiciais de cinco capitais, de 1985 a 1995. Outro ponto que entra em julgamento é a reação da mulher. “Há um caso, em que o agressor foi absolvido porque a vítima só gritou. O juiz avaliou que ela não resistiu o suficiente”, revela a advogada. Poucas queixas viram inquérito policial e em menos de 10% dos casos o réu é condenado. “O inquérito do roubo da escola foi aberto, foi aberto mas o do estupro não”, revolta-se Beatriz. Das vinte mulheres entrevistadas por CLAUDIA, apenas uma conseguiu colocar seu agressor atrás das grades: uma adolescente de 17 anos, filha de pastor evangélico, que foi estuprada espancada na volta da escola. Na maioria das vezes, esse é um crime que continua impune.

Cerca de 10% dos estupros deixam marcas físicas. Há mulheres que chegam a levar 30 pontos na vagina. (Fonte: Serviço de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Sexual do Centro de Referência da Saúde da Mulher)

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ONDE PROCURAR AJUDA São Paulo: Centro de Referência da Saúde da Mulher, tel. (011) 3105 5041, r. 296, funciona 24 horas; Hospital do Jabaquara, tel. (011) 578 5111. Pará: Fundação Santa Casa de Misericórdia, tel. (091) 210 2295. Pernambuco: Hospital Agamenon Magalhães, tel. (081) 441 5888. Rio de Janeiro: Instituto da Mulher Fernando Magalhães, tel. (021) 580 8343. Brasília: Hospital Materno-Infantil, tel. (061) 443 2322, r. 308.

CIDADE DAS MULHERES É assim que Cefalu, uma província de cerca de 30.000 habitantes, em Palermo, na Itália, é conhecida. O nome não poderia ser mais apropriado. As mulheres que antes faziam redes para os homens pescar, são hoje as principais executivas da cidade. O município é administrado por Simona Vicari, 31 anos, tem duas juízas, uma chefe e mulheres a frente do hospital municipal, da agência de correios, de três escolas e dos departamentos de turismo, agricultura, higiene e emprego.

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Existem hoje no Congresso 208 projetos de lei de nosso interesse. Destes, 62 foram apresentados por mulheres

EXECUTIVA LUTA CONTRA A PROSTITUIÇÃO INFANTIL Aos 31 anos, a paulista Ana Karin Quental é diretora adjunta de marketing do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur) e coordenadora nacional da campanha contra o turismo sexual infantil. Seu trabalho, iniciado a dois anos, é considerado um sucesso, com cerca de 3.000 denúncias registradas, um prêmio do Ministério da Justiça e o reconhecimento da Interpol francesa, de embaixadas e da Organização Mundial do Turismo. “Fomos elogiados no exterior por ter tido coragem de enfrentar esse problema que atinge todo mundo”, diz Ana Karin..

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A DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS
Em 1948, depois da Segunda Guerra Mundial, um grupo de pessoas se reuniu para tentar encontrar um meio de evitar que acontecimentos tão violentos e injustos voltassem a acontecer no futuro. Assim nasceu a Organização das Nações Unidas, a ONU. Neste mesmo ano, foi elaborada a Declaração dos Direitos do Homem, um texto que proclama uma série de direitos fundamentais para todos os homens e todas as mulheres. Ainda hoje, esta Declaração é considerada um documento básico na luta pela liberdade e pela igualdade no mundo inteiro. Em 1996, o Ministério da Justiça do Brasil lançou o “Programa Nacional dos Direitos Humanos” tal como recomendava a Conferência Mundial de Direitos Humanos, realizada em Viena em 1993, cujo Comitê de Redação foi presidido pelo Brasil. A maior parte das ações propostas neste documento tem por objetivo estancar a banalização da morte, seja ela no trânsito, na fila do pronto socorro, dentro de presídios, em decorrência do uso indevido DE armas ou as chacinas de crianças e trabalhadores/as rurais. Outras recomendações visam a obstar a perseguição e a discriminação contra os/as cidadãos/ãs. Sugere medidas para tornar a justiça mais eficiente, de modo a assegurar acesso mais efetivo da população ao Judiciário e o combate à impunidade. O texto que reproduzimos aqui é da Declaração Universal dos Direitos do Homem, uma versão simplificada traduzida de um texto elaborado por um grupo de pesquisadores/as da Universidade de Genebra, Suíça. Artigo 1 Quando as crianças nascem, são livres e todas devem ser tratadas da mesma maneira. São dotadas de inteligência e de consciência e devem proceder entre si de maneira amigável. Artigo 2 Os direitos enunciados na Declaração são reconhecidos a todas as pessoas: - homem ou mulher - seja qual for a cor da sua pele - seja qual for a sua língua - sejam quais forem as idéias - seja qual for a religião - seja pobre ou seja rico - seja qual for o meio social - seja qual for o país de origem Artigo 3 Todas as pessoas têm direito de viver, de viver livre e em segurança. Artigo 4 Ninguém tem o direito de fazer qualquer pessoa de escravo/a. Artigo 5 Ninguém tem o direito de torturar outra pessoa. Artigo 6 Todas as pessoas devem ser protegidas pela lei, em todos os locais que estiver. Artigo 7 A lei é a mesma para todas as pessoas, ela deve ser aplicada a todos/as da mesma maneira. Artigo 8 Todas as pessoas têm o direito de pedir a proteção da justiça contra os atos que violem os direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição ou pela lei. Artigo 9 Ninguém pode, injustamente ou sem razão, ser preso, detido ou expulso de seu país de origem. Artigo 10 Todas as pessoas têm direito de serem levadas a julgamento público, sendo que os/as que a julgarem não devem estar sujeitos/as a qualquer influência.

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Artigo 11 Todas as pessoas devem ser consideradas inocentes enquanto não se provar que é culpada. Ao ser acusada de uma infração, deve ter sempre o direito de se defender. Ninguém tem o direito de condenar outra pessoa ou de castigá-la sem provas. Artigo 12 Todas as pessoas têm o direito de pedir para serem protegidas se alguém quiser entrar em sua casa, abrir suas cartas, agredir a si ou a sua família com atos ou palavras. Contra tais intromissões ou ataques, toda pessoa tem direito à proteção da lei. Artigo 13 Todas as pessoas têm o direito de se deslocar por seu país e de escolher aonde quer fixar residência. Têm o direito também de deixar o seu país e de poder regressar. Artigo 14 Todas as pessoas sujeitas à perseguição têm o direito de procurar asilo em outros países. Esse direito é perdido caso a pessoa tenha matado alguém ou ido contra o que está escrito nesta Declaração. Artigo 15 Todas as pessoas têm o direito de ter uma nacionalidade e não pode ser impedida, sem razão, caso deseje mudá-la. Artigo 16 Desde que a lei permita, todas as pessoas têm o direito de casar e de formar uma família. Ao fazê-lo, nem a cor da pele, nem o país de origem, nem a religião, podem ser obstáculos. Os homens e as mulheres têm os mesmos direitos quando se casam e também quando se separam. Não se pode forçar ninguém a casar-se. O Governo de cada país deve proteger a família e os seus membros. Artigo 17 Todas as pessoas têm o direito de possuir coisas e ninguém tem o direito de se apoderar delas sem razão. Artigo 18 Todas as pessoas têm o direito de escolher livremente sua religião, de mudar de religião e de praticála sozinha ou com outros/as. Artigo 19 Todas as pessoas têm o direito de pensar e de dizer o que quiser e ninguém pode proibi-la de manifestar sua opinião. Todos/as podem trocar livremente idéias, inclusive, com pessoas de outros países. Artigo 20 Todas as pessoas têm o direito de organizar ou de participar de reuniões pacíficas. Ninguém tem o direito de forçar alguém a tornar-se membro de um grupo. Artigo 21 Todas as pessoas têm o direito de participar na política de seu país, seja fazendo parte do governo seja escolhendo candidatos/as. Os governos devem ser eleitos periodicamente e o voto deve ser secreto. Todos/as devem ter o direito de votar e os votos têm o mesmo valor. Todas as pessoas têm direito de acesso, em condições de igualdade, às funções públicas de seu país. Artigo 22 Todas as pessoas, como membros da sociedade, têm direito à segurança social; e podem exigir a satisfação de seus direitos econômicos, sociais e culturais. Artigo 23 Todas as pessoas têm o direito ao trabalho e a escolhê-lo livremente. Têm o direito de ter um salário suficiente para viver e sustentar a família. Se um homem e uma mulher fazem o mesmo trabalho, devem ganhar o mesmo. Todos/as que trabalham têm o direito de se agruparem para defender os seus interesses.

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Artigo 24 A duração do trabalho diário não deve ser demasiado longa. Cada pessoa tem o direito ao descanso e a ter férias periódicas e pagas. Artigo 25 Todas as pessoas têm o direito de ter o que é necessário para não adoecerem: comerem, vestiremse, ter uma casa para morarem, assistência médica. Caso não tenham trabalho, fiquem doentes, envelheçam, fiquem viúvos/as ou se não conseguirem ganhar a vida por qualquer outro motivo, devem ser ajudados/as. A mãe que vai ter um/a filho/a e o próprio bebê devem ser beneficiados de uma ajuda e uma assistência especiais. Todas as crianças têm os mesmos direitos, quer a mãe seja casada ou não. Artigo 26 Todas as pessoas têm o direito de freqüentar a escola e todas as crianças devem fazê-lo. Pelo menos a educação de primeiro grau deve ser gratuita e obrigatória. Todos/as devem ter o direito de estudarem e aprenderem o ofício que quiserem. A educação deve visar o desenvolvimento de todas as capacidades das pessoas, a reforçar os direitos dos homens e das mulheres. Deve favorecer e ensinar a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as pessoas, independente de sexo, raça ou religião. Artigo 27 Todas as pessoas têm o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, das artes, de participar no progresso científico e dos benefícios que deste resultam. Os/as artistas, escritores/as, ou cientistas, devem ter os seus trabalhos protegidos e deles poderem receber os respectivos proventos. Artigo 28 Para que os direitos sejam respeitados, é necessário que exista uma ordem que possa protegê-los. Essa ordem deve reinar em todos os países. Artigo 29 As pessoas têm deveres para com aqueles/as com quem convivem. São as pessoas da comunidade que permitem desenvolver plenamente a personalidade de cada um/a. A lei deve garantir os direitos do homem e da mulher e deve permitir a cada um/a respeitar os/as outros/as e ser respeitado/a. Artigo 30 Nenhuma sociedade, nenhum ser humano, em parte nenhuma do mundo, poderá permitir-se destruir os direitos aqui descritos.
Fonte: O ensino dos Direitos do Homem, Atividades práticas para os Ensinos Básico e Secundário. Centro de Informação das Nações Unidas em colaboração com a Liga Portuguesa dos Direitos do Homem. Lisboa, Portugal.

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DECLARAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS DESDE UMA PERSPECTIVA DE GÊNERO*
Contribuições ao 50º Aniversario da Declaração Universal dos Direitos Humanos INTRODUÇÃO
Em dezembro de 1998 as Nações Unidas comemorarão o qüinquagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Conhecendo a grande transcendência desse evento, o CLADEM (Comitê Latino-Americano e do Caribe para a defesa dos Direitos da Mulher), junto com a outras organizações regionais e internacionais, desenvolveu uma proposta que pretendemos seja adotado pelos Estados membros das Nações Unidas. O ano de 1998 é ocasião oportuna para que os Estados renovem seu compromisso com os direitos humanos, incorporada as perspectiva de gênero e etnia, as quais têm ganhado preeminência desde a adoção da Declaração Universal, há cinqüenta anos atrás. Assim como a Declaração de 1998 constituiu um código ético para a segunda metade do século XX, nós consideramos necessário que hoje, no liminar de novo milênio, os Estados aprovem outro documento de proteção internacional dos direitos humanos, que integre os avanços realizado na teoria e na pratica dos direitos humanos desde 1948, sem invalidar, de forma alguma, as conquistas da Declaração Universal.

PREÂMBULO
CONSIDERANDO que a formulação contemporânea dos direitos humanos emergiu em um contexto histórico na qual o conceito de ser humano encontrava-se, em grande medida, limitado ao do macho, ocidental, branco, adulto, heterossexual e dono de um patrimônio; PREOCUPADAS pelo fato de que, por essa concepção limitada, os direitos das mulheres, indígenas, homossexuais e lésbicas, meninos, meninas, idosos, pessoas portadoras de deficiência e de outros grupos foram restringidos; CONVENCIDAS de que um conceito holístico e inclusivo de humanidade é necessário para a plena realização dos direitos humanos; REAFIRMANDO a indivisibilidade, universalidade e interdependência dos direitos humanos; ASSUMINDO que, no presente contexto de crescente pobreza, desigualdade e violência, é crucial fortalecer e garantir a plena vigência e interconexão dos direitos ambientais, reprodutivos, econômicos, sociais e culturais; CONSIDERANDO que essa declaração de nenhuma maneira reduz a validade da Declaração Universal dos Direitos Humanos, nem de outros instrumentos internacionais de direito humanos e que não autoriza atividades contrarias à soberania, à integridade territorial e à independência política dos Estados; PROPOMOS, POR CONSEQUENCIA.À ASSEMBLEIA GERAL, EM SUA 53º SESSÃO, o presente projeto, a fim de que o leve em consideração na elaboração de uma Declaração para o século XXI.

I. DIREITOS DE IDENTIDADE E CIDADANIA
Artigo 1 1. Todas as mulheres e homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. 2. Todos os seres humanos têm direito a desfrutar todos os direitos humanos, sem distinção alguma baseada em raça, etnia, idade, sexo, orientação sexual, deficiência física ou mental, idioma política, origem nacional ou social econômica, nascimento ou qualquer outra condição. Artigo 2 1. Todas as pessoas têm direito a sua própria identidade como indivíduos, como membros de grupos com as quais identificam, como cidadãos(ãs) do mundo, com o grau de autonomia e autodeterminação, em, todas as esferas, necessário para preservar sua dignidade e seu sentido de auto-valia. Este direito a identidade não será afetado negativamente pelo matrimônio. 2. A escravidão, a servidão e o tráfico de mulheres, meninas e meninos, em todas as suas formas, incluindo aquelas que possam ocorrer em relações Familiares, estão proibidos.

Jornal da Redesaúde – Informativo da Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos, nº 16, setembro/1998.

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Artigo 3 1. Todos os seres humanos têm o direito a uma participação igualitária e eqüitativa em organizações laborais, políticas e sociais, assim como ao acesso a cargo públicos eletivos e não eletivos. 2. Todos os Estados deverão eliminar obstáculos para o pleno igualitário desfrute dos direitos cívicos por parte das mulheres poderão adquirir a cidadania sem discriminação e exercer os mesmos direitos que os homens de participar de todas as esferas da vida pública e política da nação. Artigo 4 1. Todos os seres humanos têm direito a expressar sua diversidade étnico-racial, livre de preconceitos baseados em discriminação cultural, lingüística, geográfica, religiosa e racial. 2. Todos seres humanos têm direito à proteção contra o etnocídio e o genocídio. Artigo 5 1. Os povos indígenas têm o direito à autonomia e à autodeterminação e à manutenção de suas estruturas políticas, legais, educacionais, sociais e econômicas e sues modos de vida tradicionais. 2. Os povos indígenas têm direito a manutenção de suas relações comercias e culturais e a manter comunicação através das fronteiras nacionais. 3. Os povos indígenas têm o direito individual e coletivo de participar no processo de adoção de decisões de seus governo locais e nacionais. Artigo 6 As pessoas pertencentes a minorias étnicas, raciais, religiosas ou lingüistica têm direito a estabelecer suas próprias associações, a praticar sua própria religião e a utilizar seu próprio idioma.

II. DIREITO À PAZ E A UMA VIDA LIVRE DE VIOLÊNCIA
Artigo 7 Todas as pessoas têm direito à uma vida livre de violência e a desfrutar da paz, tanto na esfera pública coma na privada. Ninguém será submetido a torturas e nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. Todas as formas de violência contra as mulheres constituem uma violação aos direitos humanos. A violência não poderá ser usada para negar as pessoas seu direito à moradia, em particular a partir de evicções forçadas. Artigo 8 1. As pessoas migrantes, deslocadas ou refugiadas e as pessoas em situação de desvantagem por razão de gênero, raça, etnia, idade, convicção ou qualquer outra condição têm direito a medidas especiais de proteção frente à violência. 2. Todos seres humanos têm direito a uma vida livre de conflitos armados. 3. Os ultrajes perpetrados contra mulheres, meninos e meninas em situação de conflito armado, incluindo os assassinatos, as violações, e escravidão sexual e as gravidezes forçadas, constituem crimes contra a humanidade. Artigo 9 1. Todas cidadãs e cidadãos têm o direito a um orçamento nacional dirigido ao desenvolvimento humano sustentável e à promoção da paz por parte do governos, incluindo medidas dirigidas à redução de despesas militares, à eliminação de todas as armas de destruição massiva, à limitação de armamentos para estritas necessidades de segurança nacional, e à realocação destes fundos para o desenvolvimento. 2. As mulheres e ao representantes de grupos em situação de desvantagem têm o direito a participar do processo de tomada de decisões no campo de segurança nacional e na resolução de conflitos.

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III. DIREITOS SEXUAIS E REPRODUTIVOS
Artigo 10 Todos ao seres humanos têm direito à autonomia e à autodeterminação no exercício da sexualidade, e que inclui o direito ao prazer físico, sexual e emocional, o direito à liberdade na orientação sexual, o direito à informação e educação sobre a sexualidade e o direito à atenção da saúde sexual e reprodutiva para a manutenção do bem-estar físico, mental e social.

Artigo 11 1. Mulheres e homens têm o direito de decidir sobre sua vida reprodutiva de maneira livre de exercer o controle voluntário e seguro de sua fertilidade, livres de discriminação, coerção e/ ou violência, assim como o direito de desfrutar dos níveis mais alto da saúde sexual e reprodutiva. 2. As mulheres têm direito à autonomia na decisão reprodutiva, a qual inclui ao acesso aborto segura e legal.

IV. DIREITO AO DESENVOLVIMENTO
Artigo 12 1. Todos seres humanos têm direito a desfrutar dos benefícios do desenvolvimento humano sustentável, de acordo com a Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento. 2. As decisões em relações à propriedades nacionais e à designação de recurso deverão refletir o compromisso da nação para a erradicação da pobreza e a plena realização dos direitos econômicos, sociais e culturais, incluindo a saúde física e mental, educação e moradia adequada, garantir a alimentação, acesso igual e eqüitativo à terra, ao crédito, tecnologia, água potável e energia. Artigo 13 Toda mulher e homem têm o direito e a responsabilidade de criar e educar seus filhos e filhas, de realizar trabalho do lar e prover as necessidades da família, inclusive depois da separação ou divórcio. Artigo 14 1. Todas as pessoas têm direito ao trabalho lucrativo; à livre escolha de seu trabalho; à proteção contra o desemprego; a condições de trabalho seguras, eqüitativas e satisfatórias e a um nível de vida adequado. 2. Todas as pessoas têm direito a gozar das mesmas oportunidades e tratamento com relação: ao acesso a serviços e orientação profissional e emprego; à segurança no emprego; à igual remuneração por um trabalho de igual valor, à segurança social e a outros benefícios sociais, incluindo o descanso e a recreação.

V. DIREITOS AMBIENTAIS
Artigo 15 A responsabilidade transgeracional, a igualdade de gênero, a solidariedade, a paz, o respeito pelos direitos humanos e a cooperação entre os Estados são bases para a realização do desenvolvimento sustentável e a conservação do meio ambiente. Artigo 16 1. Todas mulheres e homens têm direito a um ambiente sustentável e a um nível de desenvolvimento adequados para seu bem-estar e dignidade. 2. Todas mulheres e homens têm direito ao acesso a tecnologias sensíveis à diversidade biológica, à manutenção dos processos ecológicos essenciais a aos sistemas de conservação da vida na indústria, agricultura, pesca e pastoreio. Artigo 17 1. Todas as pessoas têm direito a participar ativamente na administração e educação ambiental local, regional e nacional. 2. As políticas ambientais estarão dirigidas a:

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a) prover os consumidores de informação adequada, compreensível para pessoas de todas idades, idiomas, origem e grau de alfabetização; b) promover a eliminação de produtos químicos e pesticidas tóxicos e perigosos para o meio ambiente, reduzindo riscos de saúde que afetam pessoas tanto no lar como no trabalho, em zonas urbanas e rurais; c) fomentar a fabricação de produtos sensíveis a e respeitosos do maio ambiente, e que requeriam tecnologias não contaminadoras; d) apoiar recuperação e terras erodidas e desarborizadas, de bacias hidrográficas danificadas e de sistemas de abastecimento de água que estejam contaminada.

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BIBLIOGRAFIA SUGERIDA
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