governo

e sociedade

I N S T I T U T O

P Ó L I S

IDÉIAS PARA A AÇÃO MUNICIPAL
N o 187 2001

INTERNET E OS DIREITOS DAS MULHERES
O empenho das administrações democráticas em superar as desigualdades de gênero, efetivando o direito à cidadania das mulheres, pode ser potencializado com a utilização da Internet.

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xiste hoje, em diversas prefeituras, um esforço por superar as desigualdades de direitos que prevalecem em nossa sociedade no que se refere às relações entre homens e mulheres. Muitas administrações democráticas vêm implementando ações destinadas a diminuir as desigualdades de oportunidades e a discriminação. Ainda que estas ações não tenham se disseminado suficientemente, ao menos já não é novidade encontrarmos órgãos ou programas municipais destinados à implementação e garantia dos direitos das mulheres (veja DICAS Nº 183), ao combate à violência a elas dirigida, ao apoio a programas de geração de emprego e renda específicos (veja DICAS Nº 163) e à implementação de programas de assistência integral à saúde da mulher, entre outras ações. O empenho das administrações democráticas em superar as desigualdades de gênero, efetivando o direito à cidadania das mulheres, pode ser potencializado com a utilização da Internet, ferramenta que demonstra uma capacidade de tornar disponíveis informações como nenhum outro meio de comunicação criado até hoje (veja DICAS Nº 52).

articule estas mesmas dimensões. Essa estratégia deve configurar-se em diretriz geral de governo e ser tratada como um tema transversal, presente em diversas políticas. Entretanto, para garantir sua efetividade, é recomendável que haja uma área claramente responsabilizada por ela na administração municipal. Daí a importância da existência de um órgão específico – ou, ao menos, a atribuição da responsabilidade a um assessor ou assessora do prefeito – responsável por promover os direitos das mulheres.

Mesmo que a prefeitura ainda não conte com uma equipe específica de atenção à mulher, isso não a impede de disponibilizar informações pela Internet, que podem ficar a cargo dos setores da prefeitura responsáveis pelo gerenciamento da comunicação com os cidadãos. Assim, é possível veicular informações, por exemplo, sobre acesso a serviços públicos, sobre saúde da mulher, programas de educação e trabalho, etc.

INCLUSÃO DIGITAL

ACESSO À INFORMAÇÃO

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U

POSSIBILIDADES

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ncorporar a Internet na agenda de democratização das relações de gênero da prefeitura abre várias possibilidades para atuação do governo municipal. Dentre os usos possíveis estão a disseminação de informações do interesse das mulheres, realização de atividades para esclarecimento das mulheres e do conjunto da sociedade, prestação de serviços, fortalecimento de órgãos municipais de defesa dos direitos das mulheres e ampliação do acesso das mulheres à tecnologia. Ainda que seja possível realizar estas ações de forma fragmentada, pode-se potencializar a intervenção estabelecendo-se uma estratégia única que

m primeira possibilidade de utilizar a Internet para promover a igualdade de direitos das mulheres é garantir o acesso à informação. O acesso às informações organizadas a respeito de seus direitos, como garanti-los, como ter acesso a eles e, ainda, o conhecimento das ações do governo voltadas para sua promoção favorece a efetivação dos direitos. Ou seja, é fundamental que a prefeitura esteja empenhada em garantir à sua população feminina o direito à informação. Até pouco tempo atrás, disponibilizar informações para a sociedade era uma tarefa extremamente difícil para os órgãos de governo, devido principalmente à lentidão característica dos procedimentos burocráticos e à falta de uma ferramenta adequada de transmissão rápida e eficiente que não implicasse em altos custos. Produzir informação em grandes volumes dependia basicamente do formato impresso, bastante oneroso. Até mesmo os procedimentos mais simples, como descobrir qual a instância correta para a obtenção de um alvará podiam ser dificultados pela burocracia e até mesmo pelo despreparo ou má vontade de alguns servidores.

m um momento da história no qual o acesso à informação é cada vez mais mediado pelos recursos de informática, apresenta-se a necessidade de também assegurar o direito de acesso à tecnologia. A prefeitura deve articular seu esforço de utilização da Internet para promoção dos direitos das mulheres com sua política de inclusão digital. Por inclusão digital entende-se o esforço de oferecer acesso à tecnologia de informação a setores e indivíduos que, por suas condições sociais e econômicas, encontram barreiras para desenvolver habilidades e utilizarem-na. É, portanto, uma política de combate a um aspecto específico da exclusão social: a privação de um conjunto de recursos decisivos para o acesso à cultura, ao trabalho, à educação, à informação e aos próprios direitos. A exclusão digital além de ser conseqüência da exclusão social, também a reforça. Um programa de inclusão digital para mulheres pode ser muito abrangente, constituindo-se numa ferramenta preciosa de inclusão social, por atingir simultaneamente dois fatores centrais de exclusão: gênero e condição econômica. Para poder utilizar a Internet, é necessário ter acesso aos equipamentos e saber usá-los. O uso dos computadores está se popularizando rapidamente, e cresce o número de mulheres que possuem

o equipamento em suas casas, mas essa não é a realidade da maioria. E até mesmo nos casos em que as mulheres têm o equipamento em casa, nem sempre elas estão habilitadas para utilizá-lo. Além disso, em muitas ocasiões lhes é difícil ter efetivo acesso ao computador, não só por conta da sobrecarga de trabalho com cuidados domésticos como também por outros mecanismos de exclusão que estabelecem – às vezes tacitamente – uma escala de prioridades de uso que beneficia o marido ou os filhos do sexo masculino. Um ponto central é a instalação de telecentros, ou seja, locais onde é possível capacitar-se e utilizar gratuitamente, ou a preço simbólico, equipamentos de informática e Internet. A prefeitura pode facilitar o acesso e a capacitação com a instalação de telecentros populares localizados em diversos pontos da cidade, que sejam de fácil acessibilidade às mulheres. Para isso, em muitos casos, não será nem mesmo necessária a criação de espaços ou a compra de novos equipamentos pela prefeitura, pois é possível oferecer o serviço democratizando o uso em locais que já contam com máquinas instaladas, como é o caso das escolas municipais. Nas escolas, inclusive, estão presentes também as mulheres jovens que já nasceram numa era de informática e de mudança nas relações de gênero. O potencial desta geração pode ser ampliado com a disponibilização de informações de qualidade, em linguagem que seja acessível a este público, sobre direitos das mulheres, DSTs e Aids, gravidez na adolescência, etc., ou promovendo espaços de debate e troca de experiências. Outros espaços que tenham forte presença das mulheres também podem ser utilizados, como é o caso dos postos de saúde e terminais de ônibus. A utilização desses espaços, além de reduzir custos para a prefeitura, pode ser muito eficaz na propos-

ta de atender a população feminina, pois são lugares que elas já freqüentam, o que contribui para a adaptação de horários e a assimilação da proposta. A instalação de pontos de acesso, no entanto, não garante a efetiva incorporação da tecnologia da informação. É preciso promover ações de capacitação para o uso de informática. No caso específico das mulheres, a sobrecarga de seu cotidiano, principalmente no caso das que exercem trabalho remunerado, além dos cuidados com a casa e a família, dificulta a disponibilidade de tempo livre que possa ser dedicado à realização de cursos de qualificação para o uso de computadores. Somase a isso novamente a discriminação, pois, no caso do uso de recursos do orçamento doméstico para a realização de cursos, de maneira geral os homens da família são os beneficiados. A capacitação para o uso pode ser oferecida por monitores que, recebendo as usuárias, auxiliem-nas nas dificuldades de operação das máquinas, dos programas, e no conhecimento dos serviços públicos disponíveis na Internet. Se as monitoras forem oriundas da própria comunidade isto pode significar não só uma possibilidade de capacitação profissional mas também oportunidade de emprego e alternativa para iniciar carreira na área.

órgãos municipais encarregados do tema a infra-estrutura adequada em termos de tecnologia da informação, o que nem sempre tem ocorrido nas prefeituras que os criaram. A equipe interna responsável pelo uso da Internet para promover os direitos das mulheres deve ser capacitada tanto para a aplicação da tecnologia como para a produção da informação a ser veiculada. Essas equipes podem ser responsáveis pela seleção e produção dos conteúdos a serem apresentados, dada sua capacitação técnica para os temas de interesse da mulher. Ou seja, devem ser capacitadas tanto na área de comunicação na Internet e utilização da tecnologia, como também quanto às questões relativas à promoção da igualdade de gênero e promoção dos direitos das mulheres.

SERVIÇOS PÚBLICOS
A possibilidade de prestar serviços públicos na Internet tem grande valia para as mulheres, pois reduz a necessidade de deslocamentos, muitas vezes improdutivos, na busca da instância correta para a satisfação de suas necessidades e as de sua família. Como, de maneira geral, a mulher é a encarregada de resolver vários problemas domésticos, relacionados à saúde da família, à conservação e manutenção da casa, às compras, à educação dos filhos, etc., o uso da Internet pode facilitar muito sua vida, diminuindo a sobrecarga característica de seu cotidiano. Entre os serviços que podem ser fornecidos estão a emissão de documentos municipais (alvarás, licenças, certidões, boletos de pagamento de impostos e contas d’água), marcação de consultas na rede de saúde, matrículas em escolas e solicitação de serviços de manutenção urbana.

CAPACITAÇÃO INTERNA
O governo deve se preocupar em estender o processo de inclusão digital para dentro da própria prefeitura, capacitando as equipes dos órgãos de atenção à mulher para a utilização da Internet. Antes de mais nada, é necessário oferecer aos

RESULTADOS
A incorporação da Internet na agenda de relações de gênero da prefeitura produz resultados de distintas ordens. Ao criar melhores condições de acesso à informação, além de aumentar as possibilidades de exercício de direitos, amplia a prestação de serviços públicos, e otimiza o uso dos recursos. Inserir a temática de gênero em um programa de inclusão digital enriquece-o bastante. É possível também que a preocupação em oferecer às mulheres acesso à tecnologia da informação estimule o surgimento, consolidação ou fortalecimento de um programa de combate à exclusão tecnológica. Para a prefeitura, essa forma de democratização do uso dos computadores, principalmente da Internet, significa qualificar a população para as exigências do mundo atual, facilitando o acesso a um bem e a um conhecimento que, apesar de mais populares do que há alguns anos, continuam caros e inacessíveis tecnicamente para a grande maioria das pessoas. A prestação de serviços por meio da Internet permite reduzir custos para a prefeitura e, principalmente, significa ganhos de tempo e qualidade de vida para quem os utiliza. A Prefeitura de Santo André-SP , por exemplo, disponibiliza em seu portal informações da Coordenadoria da Mulher, democratizando o acesso a serviços públicos de interesse específico da população feminina. As mulheres podem ter sua cidadania reforçada ao se apropriarem da Internet para trocar e disseminar informações. Para isto é preciso construir espaços próprios para a discussão e troca de informações, adaptados às demandas e características dos diferentes grupos da população feminina. É fundamental envolver as organizações de mulheres. A própria implantação do projeto de Internet para promoção dos direitos das mulheres pode funcionar como instrumento de articulação e aglutinação, auxiliando desde o início a assessoria dos direitos da mulher a cumprir sua missão.

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Gênero e Raça nas Políticas Públicas
Publicação do Instituto Pólis organizada por Maria do Carmo A. A. Carvalho e Matilde Ribeiro maiores informações: cdi@polis.org.br telefone: (11) 3085-6877
Autores: José Carlos Vaz e Janaina Valeria de Mattos Mattos. Apoio: Fundação Friedrich Eber t - ILDES. Friedrich Ebert Instituto Pólis- Rua Cônego Eugênio Leite, 433 - São Paulo - SP - Brasil CEP 05414-010 - Telefone: (011) 3085-6877 - Fax: (011) 3063-1098 http://www.polis.org.br - e-mail: dicas@polis.org.br

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