KARL MANNHEIM ROBERT K. MERTON C. WRIGHT MILLS

SOCIOLOGIA DO CONHECIMETO
Organização e Introdução de: ANTÔNIO ROBERTO BERTELLI MOACIR G. SOARES PALMEIRA OTÁVIO GUILHERME VELHO

ZAHAR

EDITORES

RIO

DE JANEIRO

ÍNDICE
INTRODUÇÃO

O PROBLEMA DE UMA SOCIOLOGIA CONHECIMENTO — KARL MANNHEIM Tradução de MAURO GAMA e INA DUTRA

DO

SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO — ROBERT KING MERTON Tradução de SÉRGIO SANTEIRO CONSEQÜÊNCIAS METODOLÓGICAS DA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO — C. WRIGHT MILLS Tradução de ÂNGELA MARIA XAVIER DE BRITO

INTRODUÇÃO
Uma apreciação das origens da Sociologia do Conhecimento basta para nos indicar que esta não surge como uma especialização da Sociologia como ciência anteriormente estabelecida: surge, isto sim, junto com a própria Sociologia e a partir de uma problemática estreitamente vinculada à desta última. É a Revolução Industrial, desorganizando todo um sistema de vida estabelecido, que leva os homens a pensarem no controle não apenas de suas relações com a natureza, mas no das suas próprias inter-relações. É a mesma Revolução Industrial que, dessacralizando verdades secularmente estabelecidas, leva estes mesmos homens a refletirem não somente sobre as transformações econômicosociais em curso, mas também sobre as condições de veracidade e validade do seu próprio conhecimento, inclusive daquele novo tipo de

Ao contrário da velha teoria do conhecimento. constata-se que não apenas o erro se liga a condições extrateóricas. incorporando as contribuições do idealismo alemão e da fenomenologia. através sobretudo da crítica do trabalho de Max Scheller. e a partir dos avanços feitos nas Ciências Físicas e na Psicologia. É na primeira metade do século XX. mas que todo pensamento se processa numa totalidade histórico-social. e a constatarem a vinculação entre o pensamento em geral e as condições existenciais. É importante termos em vista. O impulso que o estudo sociológico do conhecimento tinha tido com o marxismo nos meados do século XIX tem condições de ser retomado com a crise do conhecimento desencadeada pela emergência do capitalismo financeiro. Só então é que ela ganha um status universitário. mantém como quadro de referência básico o materialismo histórico. Em tal esforço de compreensão sociológica do conhecimento destaca-se a obra de Mannheim que.conhecimento emergente. a exceção de alguns trabalhos de . porquanto. entretanto. que a Sociologia do Conhecimento começa a se apresentar como tal e a ser sistematizada. bem como com a nova configuração política internacional de que iriam resultar duas guerras de amplitude e caráter até então desconhecidos. como ainda na reflexão filosófica (grandemente influenciada por tais avanços) desenvolvida pela fenomenologia. com a crescente concentração da produção e o desenvolvimento do imperialismo (a indicar uma aparente recuperação do capitalismo).

como. comunicação de massa e propaganda. O estudo do conhecimento aí é. Mas nos trinta primeiros anos do século XX. . baseado na análise histórico-estrutural da sociedade e do conhecimento. comum entre os sociólogos do Velho Mundo. permanece como uma disciplina européia. um estudo de alguns aspectos do conhecimento "prático". além de ter sido um verdadeiro repositório do marxismo não-dogmático (ainda que o final de sua obra descambe para um idealismo até certo ponto ingênuo). e voltado para utilizações práticas.Lênin. por exemplo. dá-se um verdadeiro bloqueio da reflexão marxista sobre o conhecimento: o empenho da construção do socialismo em um só país cria condições para uma dogmatização do marxismo. A Sociologia nos EUA. a reflexão de Mannheim é a mais ampla e a mais profunda da história da Sociologia do Conhecimento. Mas o fato é que. o que leva ao abandono da atitude crítica do materialismo histórico de Marx e Engels. como assinala Merton. o seu relativismo conseqüente. parece ser o que de mais fecundo nos deu a análise sociológica do conhecimento. entretanto. o que é mais importante. O desenvolvimento histórico do capitalismo naquele país. a Sociologia do Conhecimento. desenvolvendo-se fundamentalmente em função de alguns problemas práticos. pouco divulgados e das discutidas reflexões de Lukács. mas fundamentalmente nos como. não era levada ao tipo de indagação sobre seus próprios fundamentos. antes de mais nada. não interessado tanto em porquês. E.

Não há dúvida de que esse esforço tem produzido frutos. atuando ao nível da cognição. mas em termos da função que desempenha num sistema social. é que se desenvolve uma Sociologia do Conhecimento nos EUA. onde um funcionalismo à historicista encontrava-se com a tradição historicista ao relativizar o conhecimento. tentando fundir a tradição sociológico-filosófica européia com a sua própria tradição empiricista — esforço cuja eficácia não nos cabe aqui analisar. Trata-se de estudar o conhecimento em função das exigências do esforço de emancipação. e a falência do conhecimento econômico reflete-se sobre outras esferas. sobretudo naqueles países em que o . Só então. sobretudo. levarem as massas a uma aceleração em seu processo de tomada de consciência política. Nos países subdesenvolvidos. Por outro lado. Faz-se a crítica do "pensamento alienado". obrigando os pensadores daquele país a uma reflexão mais profunda em torno do conhecimento do que a desenvolvida até então. forjamse instrumentos capazes de.se encarregaria de alterar ainda que parcialmente (trata-se de toda uma outra tradição intelectual) tal quadro: a crise de 1929 encontra os Estados Unidos numa posição central de decisão. a partir da década dos 50) assume também um caráter prático. através do trabalho de teóricos como Merton e Znaniecki. considerando-o não em termos de verdadeiro-ou-falso. a América do Norte era atingida pelo desenvolvimento das Ciências Sociais na Europa. o estudo do conhecimento (desenvolvido.

associada a uma preocupação de operacionalidade consubstanciada na elaboração de um paradigma para o estudo concreto do conhecimento. Extremamente denso. inserir-se nessa linha de reflexão. Nele como que se esgota a colocação da problemática da Sociologia do Conhecimento. talvez o que de melhor nos tenha deixado o sociólogo alemão em forma de artigo. apresenta seu autor em plena reação contra o idealismo alemão (trata-se em grande parte de uma crítica a Max Scheller) e lançando as bases de sua Sociologia do Conhecimento.esforço de emancipação se vem operando sem grandes emoções. Entretanto. que ganharia forma final em Ideologia e Utopia. representa. O artigo "O Problema de uma Sociologia do Conhecimento". Merton. naqueles atingidos pela contra-revolução. sociólogo que se encontra à base do desenvolvimento do moderno estrutural-funcionalismo nos EUA. figura já por demais conhecida do leitor brasileiro. tal linha de orientação de pesquisas merece (porquanto o conhecimento simplesmente prático está sujeito a falências quando não se mostra imediatamente eficaz) ser repensada. de Karl Mannheim. Este volume pretende. na medida do possível. preocupado com estabelecer os fundamentos de . entretanto. Já em Robert King Merton ("Sociologia do Conhecimento"). encontramos uma exposição segura e didática da problemática e dos teóricos da Sociologia do Conhecimento.

entretanto. mas na recorrência temática dos mesmos. retoma. A tarefa que nos propomos aqui é a de associar uma introdução à Sociologia do Conhecimento com o lançar o leitor diante de artigos de alta categoria. indo mais adiante que Merton e Mannheim.uma integração teórica das contribuições européia e norte-americana ao estudo do conhecimento. mas penetre o mais profundamente possível na sua problemática. a contribuição do pragmatismo de Peirce e Dewey. as articulações entre o pensamento e a base existencial são alguns dos eixos que po- . Wright Mills na sua exposição sobre "Conseqüências Metodológicas da Sociologia do Conhecimento". insiste na contribuição que a Sociologia do Conhecimento pode trazer à epistemologia. como caminho conseqüente à investigação empírica nesse campo. Neste sentido chamamos a atenção para o fato de que a faceta didática do volume não se encontra tanto neste ou naquele artigo. demonstrando uma erudição e uma honestidade intelectual nem sempre encontradas naqueles que se dizem seus seguidores. a historicidade do conhecimento. A preocupação com a contribuição dos clássicos. Uma perspectiva profundamente crítica em relação a toda a Sociologia do Conhecimento é o que nos oferece C. o sentido de uma Sociologia do Conhecimento. Tendo como quadro de referência geral uma visão histórica dos processos sociais. passa em revista as contribuições até então feitas ao estudo da matéria. E. de forma que ele não apenas tenha uma "notícia" dessa disciplina.

derão orientar o leitor em sua reflexão em torno deste volume. ANTÔNIO ROBERTO BERTELLI MOACIR SOARES PALMEIRA OTÁVIO GUILHERME VELHO .

que categorias fundamentais sejam desentranhadas no seu contexto original. em outros campos. a astrologia não tem nenhum sentido ou realidade além do exposto. foi aduzida do contexto descritivo e teórico da astrologia e. no entanto.O PROBLEMA DE UMA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO KARL MANNHEIM Tradução de MAURO GAMA e INA DUTRA 1. representa. e isso deverá ser observado quando tivermos certeza de que a presença simultânea de vários fatores é responsável pela configuração assumida por um fator no qual estivermos interessados. Em um sentido mais amplo. o termo "constelação" pode designar a combinação específica de certos fatores em um momento dado. quando tornado obsoleto — para . A Constelação do Problema O termo "constelação" vem da astrologia e se refere à posição e relação mútuas das estrelas na hora do nascimento de um homem. tendo sido incorporada em um novo contexto weltanschauung. Investigam-se essas relações pela crença de que o destino da criança recém-nascida é determinado por essa "constelação". uma das categorias mais importantes que usamos para interpretar o mundo e a mente humana. A categoria de constelação. Para nós. Tem ocorrido também. agora.

A esse respeito. quer queira.: "destino"). assim destacada do seu contexto original. voltam a ser continuamente férteis. conexões causais entre acontecimentos separados. podemos dizer que são precisamente essas categorias que constituem o mais valioso instrumental que temos para interpretar o mundo e dominar os fenômenos que encontramos tanto na vida diária quanto nas Ciências Culturais. ao lidar com a história e também com a psicologia histórica. de sermos capazes de interligar a essencialidade da interação das forças básicas. hoje.serem utilizadas mais adiante em um novo contexto teórico próprio. mesmo o intelectual especializado é um metafísico. Apesar de pouco ter sido feito até agora para se estudar em categorias dessa espécie. por causa da sua individualidade. Enquanto a natureza se tornou muda e despida de significado para nós. em particular (ex. As categorias da Filosofia da História. mostrou-se-nos particularmente fértil no único campo em que ainda poderemos fazer uso. A categoria de "constelação". e alcançar os rumos que marcam a realidade além da superfície tópica dos acontecimentos diários. quer não. ainda temos o sentimento. e apesar de terem sido praticamente descuidadas em investigações metodológicas. pois não pode deixar de fazer. apesar de numa forma bastante alterada — e nossa interpretação do mundo estará sempre assentada sobre elas. e reduzir tudo o que encontra às forças impulsionadoras que . de um genuíno instinto metafísico: na contemplação da história do pensamento.

por exemplo. e . ser determinado por fatores imanentes. para a astrologia. Obviamente. Especialmente nas Ciências Culturais. problemas não-prefigurados por qualquer coisa imanente aos processos de pensamento precedentes emergem abruptamente. em boa parte. Em outras ocasiões. uma questão levando a outra. estamos convencidos de que nem toda questão pode ser colocada — muito menos solucionada — em qualquer situação histórica e de que os problemas vêm e vão em um ritmo específico que pode ser apurado. também. Enquanto nas Matemáticas e na Ciência Natural o progresso parece. difere enormemente de todos os outros tipos de metafísica existentes no passado — na mesma medida em que a categoria de constelação não significa para nós o mesmo que. com uma necessidade puramente lógica e com interrupções devidas apenas a dificuldades ainda não solucionadas. e fomos levados a levantar este problema da "constelação" pela convicção de que o próximo estágio possível do conhecimento será determinado pelo status alcançado pelos vários problemas teóricos e. esse tipo de metafísica. tornando possível prever-se determinados problemas se mostrarão solucionáveis. em um momento dado.tornam possíveis os vários eventos individuais. a história das Ciências Culturais mostra um tal progresso "imanente" apenas para um período limitado. O nosso conhecimento do próprio pensamento humano se desenvolve numa seqüência histórica. único que nos serve. pela constelação de fatores extrateóricos.

mas reaparecem. assim. a nossa dúvida assume a seguinte forma: que fatores intelectuais e vitais tornam possível o aparecimento de um problema dado nas Ciências Culturais. um problema da vida prática.outros problemas subitamente se desfazem. tanto quanto as correntes teóricas e intelectuais do nosso tempo. de forma modificada. no entanto. rompendo. estes últimos. então o problema implicado pela categoria de "constelação" nos exigirá não apenas observar uma abordagem sinóptica de todos os problemas teóricos dados em determinado instante. Se ampliarmos o nosso campo de visão de acordo com o exposto. Nesse ponto. parecem apontar em direção a uma dissolução temporária dos problemas epistemológicos e em direção à emergência da Sociologia do Conhecimento como disciplina focal . Aqui. Podemos investigar o segredo desse ritmo ondulatório das sucessivas correntes intelectuais e descobrir-lhe um padrão significativo apenas pela tentativa de compreensão da evolução do pensamento como um processo vital. mas também levar em conta. podemos afirmar que as correntes vitais e práticas. vemos confirmar-se o ditado de que nada pode ser intelectualmente um problema se não. em primeira instância. se é válido falar nesses termos. posteriormente. tiver sido. a pura imanência intelectual da história do pensamento. os problemas simultâneos da vida prática. na mesma medida. e até que ponto eles garantem a solubilidade do problema? Colocando o nosso problema dessa maneira. não desaparecem de uma vez por todas.

a ausência de qualquer divisão de trabalho prescrita institucionalmente. seus próprios problemas. O que necessitamos. caracterizar a constelação que deu origem aos problemas da Sociologia do Conhecimento e descrever as correntes fundamentais que favorecem essa abordagem. nas Ciências Culturais. Tais investigações também parece terem-se tornado necessárias devido à forma específica em que o trabalho. a atentar conscienciosamente para a formação intelectual dos nossos problemas. primeiramente. e porque a nossa maior refletividade não somente nos capacita como também nos obriga a evitar fazer indagações no exato momento em que elas nos ocorrem. É nossa crença não ser um esforço vão fazer preliminarmente inquirições dessa natureza antes de atacarmos qualquer problema da história do pensamento. uma orientação sinóptica quanto ao status de todos os problemas desse campo se faz cada vez mais imperativa. por si. não é apenas de um catálogo das correntes e rumos existentes. Tentaremos. mas. cujo resultado é que cada indivíduo investiga. mais precisamente. é organizado. À vista disso. mas de uma análise estrutural absolutamente radical dos . entretanto. precisamente. pelo contrário. de um modo ingênuo e inconsciente. Devemos adotar esse procedimento pelo fato de ter o nosso horizonte se tornado mais largo. para as constelações responsáveis por sua emergência. dos problemas dessa disciplina.— e também que a constelação é excepcionalmente favorável à solubilidade. ou.

ou. seu concomitante. uma análise que não somente informe aos leigos acerca do que se esteja passando na pesquisa. Se. Tal análise do trabalho em andamento das Ciências Culturais nos fornecerá a caracterização mais fundamental da situação intelectual predominante em nosso tempo. e ainda mais a visão dominante de uma determinada época. consciente ou inconscientemente. sua expressão. as quatro coisas seguintes parecerão dignas de menção: 1) O primeiro e mais importante fator. é o que pode ser chamado de autotranscendência e auto-relativização do pensamento. mas indique as últimas escolhas realizadas pelo cientista cultural no curso do seu trabalho. em geral. então. acima de tudo o . necessariamente. as tensões em que vive e que influenciam seu pensamento.problemas que podem surgir em determinada época. longe de atribuírem primazia ao pensamento. Há obstáculos consideráveis no caminho de uma tal auto-relativização — assim. como alguma coisa condicionada por alguma outra. que torna viável a indagação de questões sociológicas acerca do pensar. concebem-no como algo subordinado a outros fatores mais englobantes — como sua emanação. Autotranscendência e autorelativização do pensamento consistem no fato de que pensadores individuais. nos indagamos acerca dos verdadeiros e fundamentais fatores que consubstanciam a constelação que. deu origem ao problema de uma Sociologia do Pensamento em nosso tempo.

A tentativa de relativizar qualquer outra esfera. dessa forma. nenhuma contradição pode surgir. quem quer que esteja convencido de que arte. especialmente. Portanto. sem medo de se emaranhar em autocontradição lógica. ao afirmar a relação de dependência em questão. religião etc. a validade autônoma da esfera do pensamento. como que desvalorizando a esfera da comunicação teórica em que essa auto-contradição se esboça. postula êle próprio. enquanto pensa e elabora o seu sistema filosófico. implicitamente. religião etc. não se precisa postular a esfera da arte e da religião como algo válido em virtude daquela afirmação. sem postular a esfera do pensamento como algo válido. pois. como "vida social". isto é. Neste último caso.. êle arrisca auto-refutar-se.paradoxo do pensador que. e. pode afirmá-lo. dependa de um fator mais englobante. pertencendo a um fator mais englobante dentro da totalidade do processo mundial e. Podemos escapar a este círculo vicioso concebendo o pensamento como um fenômeno meramente parcial. um sujeito-pensante. não encontra esse obstáculo. no que se refere ao pensamento. essa posição envolve o perigo de um circulas vitiosus teórico. i. subordiná-lo a fatores suprateóricos. é claro que não se pode relativizá-lo sem que se seja.. posto que a relativização de todo pensamento equivaleria a invalidar também suas próprias afirmações. Para . ao planejar relativizar o pensamento. tal como arte. simultaneamente. mas.

no entanto. em última análise. O "pensador existencial". Estamos aqui às voltas com um ato de violação da imanência do pensamento — com um esforço para compreender o pensamento como um fenômeno parcial dentro do campo mais vasto da existência. Para maior segurança esse método. Hegel) e paradoxos não podem mais ser considerados como sintomas de pensamentos defeituosos — ao contrário. mas apenas expressa crenças extrateoricamente constituídas e garantidas. a progressão histórica de um sistema filosófico a outro não fica limitada a uma . jamais conseguirá levar a cabo essa operação mental. não é imanente à teoria. e se alguém — para colocar numa forma paradoxal — pensa "dentro do pensamento" apenas. para se descartar da contradição teórica. e para como que determiná-lo a partir de dados existenciais. a contradição. Desde que os princípios filosóficos últimos estão suprateoricamente estabelecidos. o pensamento nem constitui objetos nem abrange. simplesmente. matérias-de-fato reais. Uma vez que se deprecie o pensamento dessa forma. contradições internas (cf. tais sintomas podem ser valorizados como manifestações de algum fenômeno extrateórico que seja realmente apreendido na existência. julgamentos e inferências) é. para ele. se minimiza. afirma precisamente que sua posição última é exterior à esfera do pensamento e que.mencionar apenas um tipo de solução: se alguém insiste em que a esfera do pensamento (a dos conceitos. antes insuperável. uma esfera de expressão ao invés da constituição (cognitiva) última de objetos.

meramente parcial. e. . Ninguém abandona um tal princípio último porque se prove envolver contradições. dependendo daquilo sobre que a entidade se assenta e de que se julga que o pensamento dependa. Na maior parte desses sistemas. para se apossar da realidade.. de um ponto de vista sociológico e histórico. hipostasiada como realidade última. e costuma-se acreditar que. Em todos esses casos. subseqüentemente. porque eles estão envolvidos. intuição) ou de uma forma mais elevada de cognição (i. importante atentar-se para esses princípios filosóficos últimos. os sistemas filosóficos mudam se o sistema vital em que se vive sofre uma alteração. ou por uma esfera empiricamente investigada. em toda investigação das Ciências Culturais.espécie de refutação teórica. e o contraste entre "Pensamento" e "Existência" é resolvido filosóficamente de acordo com o modelo da Filosofia grega. ou qualquer outro tipo de gnosticismo. o fator de que se julga que o pensamento dependa contrasta-se com ele como "Existencia". em contraste com o "Pensamento". É.. e. tal como a esfera social ou biológica. de uma forma ou de outra. a "Existencia" aparece como um todo. no entanto. se necessita de um órgão supra-racional (i. Se olharmos para a "relativização do pensamento teorético". pela religiosa. veremos que ele pode ser levado adiante de muitas maneiras. esse papel pode ser desempenhado pela consciência mística. em contraposição ao conhecimento refletivo). o conhecimento dialético.

como sistema englobante seguinte. para tornar possível a Sociologia do Conhecimento. a Sociologia do Conhecimento poderia ter emergido. em qualquer época o aspecto característico é. 2) Em nossas últimas observações. A nova e distinta feição que nossa época foi obrigada a ter. precisamente o de que um único fator nunca é razão suficiente para que um problema surja: o que se requer é toda uma constelação de tendências mentais e práticas. foi. A consciência mística e religiosa sempre se inclinou a relativizar o pensamento em relação ao êxtase ou ao conhecimento revelado. todavia. constatamos. contém elementos transcendendo a pura racionalidade). Se fosse apenas um caso de auto-relativização. e a doutrina da primazia da vontade representa exatamente mais uma forma de resolver esse problema da relativização. o menos indicado a realizar a relativização do pensamento. como tal. especificamos um fator mais relevante. isto é. como vimos. cuja análise nos ajudará a completar a elucidação da constelação total. ele apontava na . da qual a Sociologia do Conhecimento emerge.Mas essa relativização do pensamento não é um fenômeno exclusivamente moderno. Este sistema. foi a da relativização do pensamento numa direção específica. que foi o único a dotar a Razão de autonomia real. Pelo contrário. em geral. com vistas à realidade sociológica. Após a autoliquidação da consciência religiosa medieval (um tipo de consciência que. em acréscimo à auto-relativização do pensamento. o racionalismo do iluminismo.

Nesse conflito.direção oposta. o que importa é o fato de vermos. em direção a uma absoluta auto-hipostatização da Razão em contraste com todas as forças irracionais. se transformaram na marca característica de todas as classes emergentes. o qual só podemos explicar em termos de verdadeiros desenvolvimentos sociais. O humanismo — primeira tentativa de grupos laicos se engajarem em pesquisas. pela primeira vez. todavia.. Binkmann. aqui. que estava por preparar o cenário para a revolução burguesa. com sua tradição teocrática residual. e que apenas encontraram sua primeira consciência e formulação refletiva no marxismo. isto é. isto é. É o que se pode chamar de "des- . uma espécie de atitude para com idéias que. de idéias. no Ocidente — já representou uma espécie de ciência oposicional. encontramos pela primeira vez uma certa forma de depreciar idéias que estavam por se tornar um componente essencial da nova constelação. e do clero. A essa altura. mas esse tipo de ciência atingiu o estágio sistemático apenas no período iluminista. Que idéias eram combatidas é de importância secundária. um fator completamente diferente emerge. Tanto o núcleo sistemático quanto o sociológico dessa ciência oposicional foi a sua hostilidade para com a teologia e a metafísica — e encontrou sua tarefa principal na desintegração da monarquia. para usar uma expressão de C. a constituição da ciência oposicional da Sociologia. em vez de em termos do desenvolvimento imanente. que era um dos seus suportes. daquele ponto em diante.

e somente então. dessa destruição extrateórica da eficácia de proposições teóricas podemos também distinguir vários tipos. antes de tudo.V Mas. acerca da veracidade daquilo que a idéia estatui. que toda a concepção de mundo de um estrato social se desintegra simultaneamente. podemos apontar outra vez em direção de uma certa diferença fenomenológica — aquela entre. pelo menos. o "desmascaramento" de uma mentira como tal e o "desmascaramento" sociológico de uma ideologia. então. realmente atinjo um "desmascaramento" que. porém. Ao negar a verdade de uma idéia. quando não faço dessa questão o núcleo do meu argumento). Essa é uma mudança de mentalidade que não visa a refutar. a essa altura. Devemos atentar.mascaradora mudança de mentalidade". assim. continuo a raciocinar dentro do mesmo padrão categorial que lhe dá origem. Assim. me coloco sobre a mesma base teórica (e não mais que teórica) de que a idéia está constituída. Se dissermos que determinada declaração é uma "mentira". de tal forma. Ao colocála em dúvida. ainda a pressuponho como "tese" e. Mas quando nem mesmo levanto a questão (ou. de fato. por exemplo. isso também não constitui refutação . negar ou colocar em dúvida certas idéias. representa não uma refutação teórica. para a distinção fenomenológica entre "negar a verdade" de uma idéia e "determinar a função" que ela exerce. mas que o considera apenas nos termos da função extrateórica a que se põe a serviço. a desintegrá-las —-mas. mas a destruição da eficácia prática dessas idéias.

Todavia. a certa relação do sujeito que faz a declaração com a proposição que expressa. a afirmação é uma mentira. de certos complexos teóricos. como distinta do "erro". Mas. "na sua boca". por outro. como se diz. o que quer dizer. Pode-se dar muito bem que uma pessoa faça uma afirmação verdadeira e minta ao mesmo tempo — o que ela diz é objetivamente verdadeiro. a "mentira".teórica ou negação do que a declaração afirma. é mais uma categoria ética que teórica. isto sim. e certos objetos mentais. o que dizemos se refere. dirigidos ao "desmascaramento" de um sujeito. O termo "mentira". se refere a certa relação entre existência real. a denotação teórica de uma declaração não fica invalidada pela demonstração de que o seu autor "mentiu". atacando a moral individual da pessoa que a elaborou. por um lado. Reconhecidamente. Contudo não se pode dizer que o "desmascaramento" de uma mentira seja a mesma coisa que o "desmascaramento" de uma ideologia. mas. parece. o termo "mentira" é freqüentemente usado no sentido de uma afirmação falsa feita conscientemente. o uso é variável a esse respeito. inclusive nesse caso. na verdade. ainda mesmo que caiam ambos sob o gênero da análise funcional. O importante é invalidar aquilo que a expressão denota. A diferença essencial entre o desmascaramento de uma mentira e o de uma ideologia consiste no fato . que consideramos afirmações de um indivíduo do ponto de vista de sua personalidade ética. sob o ponto de vista de suas relações com a realidade existencial.

se quisermos compreender o caráter distintivo de nosso tempo) é o segundo fator carente de uma interpretação em termos sociológicos — que representa algo radicalmente novo. com uma atitude dirigida para comunicações teóricas. na verdade.de que a primeira visa à personalidade moral de um indivíduo e procura destruí-lo moralmente. O que acontece. procuramos trazer à luz um processo inconsciente não para aniquilar a existência moral de pessoas que elaboram certas afirmações. aqui. em direção da existência prátka. por assim dizer. que negligencia o problema de sua veracidade ou falsidade. devido não . A emergência da mentalidade desmasca-radora (que devemos entender. ataca. o desmascaramento de ideologias. Desmascarar mentiras sempre foi feito. parece ser um fenômeno exclusivamente moderno. o fato de que a função sóciopsíquica de uma proposição ou "idéia" seja desmascarada não significa que ela seja negada ou submetida a uma dúvida teórica — inclusive não se trata de questão acerca de veracidade ou falsidade. enquanto o desmascaramento de uma ideologia. no sentido acima definido. da corrosão existencial de uma proposição teórica. Quando desmascaramos ideologias. e busca transcender os seus significados teóricos imanentes. na sua forma pura. apenas uma força sócio-intelectual impessoal. é que a proposição é "dissolvida": trata-se. contudo. revelando-o como um mentiroso. mas para destruir a eficácia social de certas idéias através do desmascaramento da função a que servem. Também nesse caso.

em geral. referia-se apenas a certos itens individuais do pensamento — o seu objetivo ainda era parcial. transformaram-se mais tarde no protótipo de uma nova forma de transcender a imanência teórica. todavia. conforme dissemos. Mas. em contraste com ele — um Ser cujas ideias sejam concebidas como "expressão". E ainda mais. para explicar a causa de termos. inicialmente apenas praticadas com vistas a algumas poucas idéias selecionadas. uma constelação permitindo o desenvolvimento de uma Sociologia do Pensamento. nesse caso. nos termos em que a caracterizamos acima (em termos de "desmascaramento" e "transcendência"). como um Ser. não podem ser transcendidos a menos que coloquemos algo mais englobante. "função". Segundo. Primeiro.tanto à direção quanto à forma pela qual a imanência implícita é transcendida. a imanência do significado teórico. nós ainda indicamos o terminus do movimento de transcendência. O conflito prático das classes sociais deu origem a um novo tipo de atitude para com idéias que. hoje. ainda . o pensamento. 3) A emergência da mudança de mentalidade desmascaradora — a história oculta que ainda carece de uma investigação mais exata — não basta. a "relativização". ou "emanação". o absoluto em cuja relação certos itens são relativizados. Devemos ainda mencionar dois fatores mais importantes que contribuem para configurar a variante contemporânea do pensamento existencial relativizante.

Que uma tal neometafísica tenha sido criada pelo positivismo não nos surpreenderá mais. se nos lembrarmos que. a esfera que é contrastada com idéias como "Ser". durante o último e contemporâneo estágio da evolução da consciência. nos êxtases etc..carecemos do ponto de referência. experimentam o campo histórico e social como o mais imediatamente real. em relação aos quais as idéias são consideradas como algo parcial. o fator econômico considerado como central. nessa esfera. todavia. ou "Realidade". como mera "tomada de consciência" de alguma coisa mais englobante. vive mais intensamente. como "ser prático". Em tempos idos. um tal centro jamais poderá ser pensado. ele se deslocará sempre para aquela esfera da vida em que o pensador que sistematiza. Esse é um novo tipo de metafísica ontológica. da esfera ontológica de central importância. afinal de contas. o traço característico foi o fato do senso de realidade se ter cada vez mais concentrado na esfera histórica e social e de ser. Desse modo. particularmente. concomitantemente.. funcional. não obstante haver recebido sua formulação mais definida de um positivismo antimetafísico. também o positivismo é uma metafísica. Como dissemos. a cujo respeito pode o pensamento ser considerado como relativo ou dependente. e esta é. indivíduos que transcendiam o pensamento "viviam" nas revelações religiosas. visto que configura um determinado complexo a partir da totalidade . a teoria atualmente não transcendeu em direção à experiência religiosa ou estática. as classes emergentes. todavia.

cuja natureza "funcional" foi mostrada em termos sociológicos.. o papel do pólo "absoluto". limitava o seu emprego. Quando a Sociologia se constituiu. o que realmente se deu foi. em cuja direção a imanência teórica era transcendida. Quando. as idéias de Deus. especificou aquela esfera que mais tarde veio a desempenhar. dentro da moldura da consciência positivista. desde o seu início..do existente e. da metafísica etc. nos termos do processo sócioeconômico. Esse complexo hipostasiado para o positivismo é aquele das descobertas da ciência empírica. teve que superar a parcialidade que. não obstante. a desintegração de certas idéias. o terminus ontológico do movimento que transcendia a imanência teórica estava dado. a desintegração da Weltanschauung total de uma classe dirigente. o "desmascaramento". apenas. Saint-Simon analisou trabalhos literários. cada vez mais. somente poderia atingir seu objetivo final quando a natureza presa a interesses das idéias. 4) Mas ainda nos falta um traço indispensável à plena caracterização da constelação contemporânea. Apesar do objetivo ter sido. como método. formas de Governo etc. a . hipostasia-o na forma de um absoluto ontológico. como outra metafísica qualquer. Esse empreendimento. a princípio. E está coerente com o deslocamento do centro vital da experiência para a esfera sócio-econômica que tenha a Sociologia sido desenvolvida pela corrente positivista. em seus últimos escritos. Antes que o atual estágio pudesse ser atingido. foram relativizadas dessa maneira.

dependência do "pensamento" à "existência". não apenas quanto a certas idéias escolhidas da classe dirigente. Assim.: em que profundidade está o historicismo germinalmente presente no Iluminismo. em vez disso. embora peculiarmente modificada. Que não se poderia. Inclusive no seu pensamento. O que se devia fazer era demonstrar a natureza determinada existencialmente de um sistema inteiro de Weltanschauung. nessa conexão. Hegel. compreendê-las como partes mutuamente interdependentes de uma totalidade sistemática. mas de tal forma que a superestrutura (como diria Marx) ideológica inteira aparecesse como dependente da realidade sociológica. tais como a que concerne à exata contribuição de uma ou outra época. e de quem Marx aproveitou o conceito de totalidade histórica que lhe permitiu colocar o problema ideológico acima referido — ou seja. no entanto. encontramos o tema da auto-relativização da teoria. e como a mentalidade romântica tornou possível a visão global de totalidades históricas). ou escola. Questões de detalhe. mas do que da idéia deste ou daquele indivíduo. não precisam ser investigadas aqui. desvaloriza a esfera na qual o princípio da contradição é válido enquanto comparado ao . Hegel distingue o pensamento "refletivo" do pensamento "filosófico". foi a lição que aprendemos do historicismo moderno. um dos mais importantes representantes do pensamento histórico. considerar idéias ou crenças isoladamente. fossem trazidas à luz. à emergência dessa visão totalizante da ideologia (ex. Temos que mencionar. mas.

o da invalidação de idéias. realça a doutrina da "dialética da Idéia". Em todos esses casos. a categoria de "totalidade" pode desempenhar um papel crucial em ambos os autores: as crenças das pessoas reais não dependem da existência social dessas mesmas pessoas. encontraríamos a mesma concepção fundamental que subjaz à teoria marxista. de modo fragmentário. conforme a terminologia marxista. que compartilha a colocação positivista da realidade. e para quem a realidade básica é mental — e Marx. Apenas porque essa similaridade estrutural existe. que permanece dentro da tradição idealista. e define essa realidade básica em termos de realidade econômica e social. essa esfera subjetiva é privada de sua autonomia em favor de alguma realidade básica. vamos encontrar. mas é a totalidade do seu mundo mental. conforme Hegel. segundo a qual as crenças subjetivas dos homens são meros instrumentos para auxiliar o tráfego de desenvolvimentos reais. É apenas em decorrência dessa aspiração à "totalidade" que a tentativa de transcender a teoria com o subsídio da técnica de "desmascaramento" assume uma nova forma específica.verdadeiro movimento da idéia. Como resultado disso. . É uma diferença relativamente insignificante a existente entre Hegel. a mera "crença subjetiva". se a palavra "ideologia” fosse acrescentada. ou "ideologia". vemos um novo tipo de relativização. que é uma função da sua existência social. depreciada. Tanto em Hegel quanto em Marx. claramente distinta de todas as versões anteriores. a superestrutura global.

não por mostrá-las como reflexos desse ou daquele interesse. Como vimos. o problema de uma Sociologia do Conhecimento surgiu como um resultado da interação de quatro fatores: 1) a auto-relativização do pensamento e do conhecimento. Desse modo. o da esfera social. 3) a emergência de um novo sistema de referência. já não mais se trata de proposições individuais em oposição a proposições individuais. mais radicalmente. não por as colocar em dúvida. Quando esse estágio é alcançado. e determinada por. podemos relativizar idéias.Quanto a esse ponto. mas todo um sistema de idéias a uma realidade social subjacente. a ênfase original que acompanha a emergência desses novos padrões de pensamento é substituída. a ênfase no "desmascaramento" para determinar a função social das idéias pode. um estágio do desenvolvimento da realidade social. ser eliminada. somem por si mesmas. À medida que nossa teoria adquire . A partir desse ponto. é ligada a. não por negá-las uma a uma. de uma totalidade de Weltanschaung que. universo em confronto com universos. originalmente associadas com a nova abordagem. relacionando não um pensamento ou idéia. 2) o aparecimento de uma nova forma de relativização introduzida pela mudança de mentalidade "desmascaradora". como um todo. a respeito do qual o pensamento poderia ser concebido como relativo. e diversas formas superficiais de expressão. 4) a aspiração de tornar essa relativização total. mas demonstrando que elas fazem parte de um sistema ou. cada vez mais.

adquirimos cada vez menos interesse em minimizar idéias individuais. estigmatizando-as de falsificações. o objetivo da operação crítica é alcançado quando se especifica que o locus da idéia a ser combatida pertence a um sistema teórico "obsoleto" e. eventualmente. se nos recusarmos a admiti-lo. a função de suas posições no mundo. excluindo-se. a um todo existencial que a evolução deixou para trás. o engano consciente. também. e o aplicará ao seu interlocutor. não podemos deixar de concluir que nossas idéias são. Uma vez familiarizados com a concepção de que as ideologias dos nossos oponentes constituem. afinal de contas. O "desmascaramento" arrosta um processo de sublimação — que o transforma em mera operação de determinar o papel funcional de qualquer pensamento. A segunda "alteração" que ocorre nesse estágio consiste num alargamento natural da aspiração à totalidade. a característica principal da . estando cada vez mais cientes do fato de que todo pensamento de um grupo social é determinado pela sua existência. mistificações e tipos de "mentiras". mesmo. ainda mais. inclusive. o oponente nos obrigará a encarar aquele fato — pois ele. funções de uma posição social. fará uso também do método de análise ideológica. ir um pouco mais longe. em muitos casos. precisamente. encontramos cada vez menos espaço para o exercício do "desmascaramento". enganos. O "desmascaramento" não consiste mais em coisas tais como descobrir o "crime do padre" e congêneres — acostuma-se.maior escopo. É esta. E.

não é mais privilégio dos pensadores socialistas observar a determinação social das idéias. que foi bem sucedida e está consolidando a sua posição. o fato de que certos complexos teóricos dados são superados indiretamente por referência a uma visão sinóptica do processo histórico. temos que observar a maneira pela qual o conteúdo e a função das novas técnicas se modificam quando perdem seu conteúdo social original. eventualmente perdendo contato com seu lugar social de origem. A essa altura. . a modificação da atitude de "desmascaramento". Nessa conexão. a burguesia.presente situação: o conceito de "ideologia" foi inicialmente derivado da "ciência oposicional". Já vimos dois exemplos disso: primeiro. Hoje. o aspecto principal que pede atenção é o fato de que novos métodos e técnicas de pensamento que vão surgindo nas Ciências Culturais têm suas origens na realidade social. então. mas não se manteve como privilégio das classes emergentes. o fato de que a escolha da esfera social como um sistema de referência foi pela primeira vez realizada por uma "ciência oposicional" e. que se transformou em parte integrante da consciência contemporânea como um todo. Os seus oponentes também empregam essa técnica de pensamento — primeiramente. tornou-se. mas posteriormente iniciam uma autoevolução. e. em segundo lugar. em vez de pelo "desmascaramento" de itens isolados. isto é. um novo tipo de interpretação histórica que deve ser adicionada às anteriores. gradualmente.

então. Não basta compreender que as "idéias" de uma classe antagônica são ditadas pela sua "existência". Assegurado que idéias e complexos teóricos são relativos ao Ser — é ainda possível conceber este Ser não só como essencialmente imutável. do qual elas parecem depender. também. o que temos de entender é que tanto nossas "idéias" quanto nossa "existência" constituem componentes de um processo evolutivo totalizante. é postulado como o nosso derradeiro "absoluto" (embora imutável e evolutivo). uma constante modificação. ideias conservadoras e progressistas . Podemos mencionar um terceiro aspecto da expansão natural e da evolução das idéias. isto é. Isso levanta a necessidade de satisfazer o anseio de totalidade de um modo mais completo. o fato de que a tendência fundamental para a auto-relativização (característica distintiva da mentalidade moderna) não pode estacionar em qualquer momento dado. não basta reconhecer que nossas próprias idéias sejam ditadas pela nossa própria existência. Não somente idéias. estático. no qual estamos comprometidos. o Ser — simultaneamente como algo "dinâmico" e "vindo a ser". os seus próprios pontos de vista sofrem.mais ou menos uma posse comum de todos os campos. Esse processo global. devem ser reconhecidos como algo dinâmico — tanto mais que. Mas é característico do pensamento moderno considerar seu último ponto de referência — neste caso. para aqueles que têm discernimento. mas também como dinâmico. mas também o "Ser".

Em nossa opinião. 2. tal alcance. de modo que o problema da Sociologia do Conhecimento pudesse chegar a emergir. Posições Teóricas Até aqui. o segundo o da classe oposicional seguinte. principalmente. entrementes. que ninguém que queira pensar em categorias de uma importância genuinamente global pode permitir-se .(para usar esses rótulos ultra-simplificados) aparecem como derivados desse processo. ou preparatório. a presente constelação de problemas implica esse radical encaminhamento das idéias às suas últimas conseqüências. sociológica: mostramos como uma corrente oposicional de opinião levou a questões relativas à determinação sociológica dos modos de pensamento. e as dificuldades envolvidas nesse conjunto de teses levam à emergência dos problemas da Sociologia do Conhecimento. o pensamento da burguesia emergente. Tendo atravessado dois estágios — sendo o primeiro. delineamos a constelação daqueles fatores que precisaram ser dados em conjunto. Temos de retroagir ao ponto em que os problemas oriundos da realidade social buscam uma solução sistemática e rever as possíveis soluções viáveis nos vários estágios da evolução da consciência. Mesmo ainda nesta investigação preliminar nossa abordagem tem sido. tal urgência. o proletariado — essas idéias adquiriram.

por exemplo. encerrado em si próprio uma tradição independente de interpretação do mundo. sem a mais leve intercomunicação. métodos e atitudes históricos ou sociológicos se formam sempre em estreita correlação com a posição social específica. de tal maneira que. para o problema de interpretação da história. e com os interesses intelectuais. Aqueles que pensam dessa maneira estão inclinados a adotar ou uma solução de extrema direita ou uma de extrema esquerda. após ter uma classe descoberto algum fato histórico ou sociológico (que está colocado nesta linha de visão . e concebermos a história do pensamento como também separada em correntes variadas. Se olharmos a história como um rio dividido em vários braços. e pelas pretensões por este levantadas.ignorá-las como componentes do pensamento contemporâneo. eles são totalmente incapazes de fazer justiça à função e à significação dos modos de pensar de outros grupos. Agora não pode haver dúvida de que as teorias. cada um deles. por alguma necessidade histórica inevitável (e qualquer estudo mais minucioso da história não pode senão confirmar semelhante concepção). neste caso podemos facilmente ser levados a assumir a posição extrema de que a história das idéias consiste em seqüências de pensamentos completamente isoladas. pensamento conservador e progressista teriam. de uma classe ou grupo social. precisa-se admitir que. levando em consideração apenas a rota histórica atravessada por seu próprio grupo. Contudo.

se deixarmos de lado o papel das pressuposições sistemáticas a priori no processo do pensamento. existem vários "pontos de vista" sistemáticos e filosóficos diferentes. ainda que entregues a suas tradições separadas. contudo. a pergunta que enfrenta uma concreta Sociologia do Conhecimento é a seguinte: que categorias. não só podem levar em consideração cada fato como devem. quaisquer que sejam seus interesses. incorporar cada fato ao seu sistema de interpretação do mundo. no entanto. não ignorando qualquer dos fatos trazidos à luz por algum deles. e. partindo de diferentes axiomas gerais. de algum modo. desenvolver uma imagem globalizante do mundo. não se fundem num sistema comum. Por isso. o que perdura.devido à sua posição específica). em cada momento. na avaliação de um mesmo fato descoberto no curso das operações práticas? E quais são as tensões que aparecém na tentativa de adaptar esses novos fatos àquelas categorias e concepções sistemáticas? Podemos afirmar isto mais simplesmente. mas mutuamente se afetam e se enriquecem. dos quais se pode experimentar a consideração de um novo . procuram. mas tentam considerar a totalidade dos fatos descobertos. devemos concluir que todos os grupos. Essa visão da estrutura histórico-sociológica do processo intelectual induz à conclusão de que. então. todos os outros grupos. que concepções sistemáticas são usadas pelos diferentes grupos em um estágio dado. Uma vez isto admitido. é o fato de que correntes intelectuais diversas não se desenvolvem isoladamente.

determinando seu lugar entre elas. Mas a pergunta sobre o que eles são será respondida de modo diferente. dependendo dos pontos de vista sistemáticos de que são examinados. Que os conceitos mencionados ("classe".fato emergente por uma nova faceta da realidade cognitiva. e de imporem ao espectador uma espécie de padrão gestaltiano. nos . Com efeito. "idéia") são objetivamente reais. O que isso sugere é que certos compromissos. como "tradição" ou "protocolo". todavia. o conceito de "classe" diz essencialmente respeito a um pensamento de oposição. como. todos nós confrontamos a "realidade" com problemas já estruturados e sistematizações sugeridas. nenhum de nós se coloca num vácuo de desincorporadas verdades supra-temporais. se prova pelo fato de invariavelmente resistirem às tentativas de que deles se duvida. elas carecem do caráter de "fatos persistentes". "ideologia") se relaciona com certos compromissos sistemáticos e sociais. têm uma afinidade com o pensamento conservador. ao que parece) em virtude do que nos seriam apresentadas inquestionavelmente da forma que "são". atribuído às coisas (também um tanto erroneamente. Não queremos negar que "classe" ou "idéia" são realidades objetivas. por exemplo. e a obtenção de um novo conhecimento consiste em incorporar novos fatos à velha armação de definições e categorias. enquanto certos conceitos "orgânicos". por assim dizer. É esta a razão por que é tão fascinante observar como a descoberta de determinados fatos (tais como "classe".

uma vez que os fatos se tenham tornado visíveis. e somente se podem destacar destas últimas no que diz respeito a alguns dos seus aspectos parciais. e até que ponto. eles são também admitidos pelas outras correntes. em que o positivismo de uma burguesia prosperamente consolidada difere do positivismo e do materialismo revolucionários. não se pode estabelecer. Tudo isso significa. no seu pensamento.tornam sensíveis a certas realidades do passado. respectivamente — estas correlações também são dinâmicas por natureza. que nuança de positivismo vem a ser uma base para o pensamento proletário. de que posições filosóficas faz uso o pensamento conservador e o progressista. Como vimos acima. É preciso investigar-se histórica e sociologicamente há quanto tempo. na perspectiva específica em que lhes surgiram. Quando novos "dados" estão sendo interpretados. Entretanto. que mesmo as descobertas científicas especializadas estão fortemente ligadas a certas pressuposições filosóficas e sistemáticas. E a pergunta mais provocante talvez seja aquela sobre o meio pelo qual os preconceitos sistemáticos destes outros grupos modificam. do presente ou do futuro. de uma vez por todas. o positivismo é um meio caracteristicamente "burguês" de pensamento. de quanto do . o reconhecimento de novos "fatos" depende de que a criação do sistema tenda a um sentido filosófico que ocorre prevalecer. naturalmente. a realidade descoberta por alguma outra pessoa.

se reconhece como uma "realidade persistente" e como tal está sendo manejada também de todos os outros pontos de vista. parecem incluir-se. no momento em que ele alcance aquele status de "realidade persistente" que exige. de cada grupo. escolher arbitrariamente um corte transversal dos pontos de vista contemporâneos e verificar que diferentes princípios fundamentais estão na base a partir da qual se pode tentar a análise dos novos problemas que emergem presentemente. Não tentaremos investigar a gênese históricosocial dos vários pontos de vista de que a realidade. de preferência. Havendo delineado a constelação que tornou possível a emersão do problema. Pois parece termos atingido o estágio em que o problema de uma Sociologia do Conhecimento. os seguintes: a) . que "pontos de vista" permitem trabalho sistemático sobre esse problema. e qual é a característica específica desses pontos de vista? Entre os mais importantes "pontos de vista" filosófico-sistemáticos. Nosso plano é. de que se pode tentar a elaboração de uma Sociologia do Conhecimento. que pertenceu até agora ao contexto do pensamento progressista. temos agora de encarar a questão adicional: quais são as posições sistemáticas preexistentes no pensamento dos variados grupos com que este problema se depara.pensamento "dinâmico" se irão apropriar os grupos respectivamente revolucionário e conservador. dar-lhe atenção? Que filosofias contemporâneas. e assim por diante. atualmente. está sendo interpretada. atualmente.

Lukács. a escola fenomenológica moderna). Antes. porém. que obteve reconhecimento. podemos citar Troeltsch e o marxista de esquerda ortodoxa G. Entre os representantes deste ponto de vista. apenas o positivismo tem dado. uma Sociologia do Conhecimento amplamente desenvolvida. eminentemente relevante para o problema da Sociologia do Conhecimento. em parte entre os burgueses. e isto em duas variantes — sendo uma a chamada teoria materialista da história. É o debate entre as duas últimas escolas mencionadas (fenomenologia e historicismo) que consideramos decisivo. tanto que.positivismo. Lévy-Bruhl. sem se ocupar de investigações históricas minuciosas. e a outra a teoria "positivisto-burguesa". Pode-se pensar nessa conexão das várias nuanças do neokantismo. a esta altura. do apriorismo material. c) apriorismo material (i. Uma discussão separada se dedicará também ao ponto de vista filosófico do historicismo. que se relaciona com a nuança proletária do positivismo. A discussão mais pormenorizada se reservará para a moderna escola fenomenológica. até agora. Para falar mais exatamente. Jerusalém etc. de acolher essas duas posições. em parte entre os sociais-democratas. O apriorismo formal contribuiu meramente com uma aproximação inicial ao problema de uma Sociologia do Conhecimento. b ) apriorismo formal. omitiremos qualquer das caracterizações da mesma. desenvolvida por Durkheim.e. faremos umas poucas observações sobre as duas escolas primeiro .. d ) historicismo.

É. artísticos e outros. primeiro.g. trata o problema da Sociologia do Conhecimento como pertencente a uma disciplina científica especializada. ou o "psíquico". intelectuais. como sendo a realidade "última". na esfera social. a ) O positivismo. esses dois princípios são mutuamente contraditórios: uma doutrina que hipostasia certos métodos paradigmáticos. pelas relações econômicas. que nada existe senão a matéria e. se torna desse modo. Além disso. ela própria. Nossa própria concepção será apresentada como seção final deste ensaio. Os partidários dessa teoria.mencionadas. de ordem cultural) podem localizar-se no passado. uma escola essencialmente iludida. meramente uma filosofia da nãofilosofia.. para a qual todos os outros fenômenos (e. especialmente aqueles que representam o "marxismo vulgar". no entanto. cada um. e as esferas de realidade a eles correspondentes como "absolutamente" válidas. a doutrina positivista tem por conseqüência tomarem os cientistas. Aplicada na prática. que a singular fatualidade persistente da matéria se revela. segundo. como porque defende que o conhecimento humano pode ser completo sem a metafísica e a ontologia. e em cada campo particular de pesquisa. sustentam. não só porque hiposta-sia um conceito particular do empirismo. é nestes . uma metafísica — não obstante particularmente limitada. Uma variedade de positivismo — aquela que toma a esfera econômica para exprimir a realidade última — é particularmente importante para a Sociologia do Conhecimento. o substrato "material".

o responsável por esta mudança dos centros de experiência para esses campos. que se deveria responder pelas realidades culturais. essa unilateralidade.termos. procurando fornecer uma interpretação do mundo com este tipo de experiência e de pensamento sendo seu quadro de referência básico. tem de assumir o Ser absoluto — e. em sua experiência prática. em alguma parte. então. Não é. que permitiria uma transformação da mera anti-metafísica na compreensão positiva de que todo pensamento humano é de tal modo estruturado que. atribuiu realidade apenas às esferas que experimentou como reais — recusando inteiramente o reconhecimento teórico daquelas esferas que. de modo algum. apareceram somente na periferia. surpreendente que uma filosofia. . fundamentou sua epistemologia exclusivamente na Ciência Natural e. tudo o que se faria necessário seria um alargamento do horizonte. seria facilmente corrigido. com a intensificação das lutas de classe por ele causadas. Como resposta às decisivas experiências do nosso tempo. em sua ontologia. todas as variantes do positivismo foram fundamentalmente genuínas: de nosso ponto de vista. elas representam uma reflexão honesta sobre o fato de o centro da nossa experiência haver-se deslocado da esfera espiritual e religiosa para a sócio-econômica. Esse defeito. bem como pelo fato de o pensamento científico e tecnológico tornar-se o único protótipo reconhecido de todo o pensamento. Foi o capitalismo.

Mais grave.conseqüentemente. interpretação e entendimento. temos que admitir que esta doutrina contêm dois pontos que revelam experiência autêntica e. porque muito estreitos. de modo que seus métodos são completamente inadequados. é outro defeito do positivismo. finalmente. de que seu naturalismo os impede de ver. devemos reconhecer que foi o positivismo o primeiro a descobrir e articular o problema de uma Sociologia do Conhecimento. por conseguinte. incapaz de se dissolver em atos psíquicos. ainda que devamos considerar os métodos e premissas do positivismo como não mais suficientes. mesmo para nós. tem de pressupor uma ou outra esfera como absoluta. E. pela primeira vez. São cegos para o fato de que a percepção e o conhecimento dos objetos significativos envolvem. em especial ao tratar da realidade artístico-intelecto-espiritual. As descrições positivistas da realidade são fenomenologicamente falsas. sui generis. e. o de que suas pressuposições fenomenológicas inconscientes são falsas. as relações entre a realidade e o significado. Um deles é que o positivismo deu. de maneira correta. porém. porque seus adeptos — como naturalistas e psicólogos — são cegos diante do fato de que o pretendido "significado"' é específico. uma formulação filosófica do fato de ter o homem contemporâneo mudado seu centro de experiência para a esfera . de que os problemas surgidos nesta conexão não podem ser resolvidos pelo monismo científico. até agora permanecem válidos. Apesar dessas observações. como tal. isto é.

econômico-social — esta é a orientação "mundana" do positivismo. o outro é seu respeito pela realidade empírica. torna-se facilmente discernível. em amplitude equivalente a uma declaração de completo desinteresse pelo Ser. Essa escola pretende. por exemplo. contudo. que este tipo de filosofia não tenha inspirado nenhuma pesquisa sociológica concreta. do qual se poderia tentar erigir uma Sociologia do Conhecimento. uma metafísica. sob este ponto de vista imanente. que fará a metafísica. porém. a diferença fenomenológica entre "ser" e "significação". e não é de admirar. como se oposto ao Pensamento. compreender o pensamento em termos de pensamento. impossível para sempre. Na verdade. sistemática e metodologicamente. não ultrapassou um nível relativamente primitivo. que. substantivamente. tanto de certo modo imanente como para dar uma justificação teórica dessa posição "imanentista". são meramente uns poucos princípios de uma teoria geral de Sociologia da Cultura. Insistimos. não reconhece o fato de que esta orientação "mundana" envolvia também uma hipostasia. primordialmente. para a qual a atitude positivista é necessariamente cega. Pois a filosofia da validade deprecia o Ser. desde que. isto é. Tudo o que esta escola tem conseguido. em nossa opinião. pois. e estaremos . o positivismo executou a reviravolta essencial em direção a um caminho de pensamento apropriado à situação contemporânea. sob a forma de pura especulação. b ) A filosofia da validade formal representa um segundo ponto de vista.

sob a impressão da variabilidade histórica do pensamento. a gente contempla necessariamente do alto o fato de se estar conferindo validade "eterna" a um estágio transitório da história do pensamento. se não se vai além desse ponto de vista imanente (como no caso da filosofia da validade). A filosofia da validade se interessa. todas as proposições materiais são apresentadas como puramente relativas e existencialmente . para declarar uma posição específica.) Mas a consistência interna desse tipo de filosofia se perde tão logo que.prontos a fazer justiça à diferença essencial entre um ato de experiência e a significação por este pretendida. agindo assim. e o segundo termo da relação — "significação" — receberá inevitavelmente uma exagerada ênfase metafísica. enquanto o substrato material em que os mesmos atualizam é abandonado ao anárquico fluxo do Ser. por salvar a "validade" das redes da gênese histórica e sociológica e preservá-la na sublimidade supratemporal. Mas isso provoca uma ruptura no sistema: tanto a esfera da "validade" teórica quanto a dos outros valores são hipostasiadas como absolutos supra-temporais. No entanto. Esta filosofia continuou auto-consistente por tão longo tempo quanto teve coragem bastante para afirmar — como fez a filosofia do Iluminismo — sua fé inabalável na Razão e. (É claro que. sobretudo. com a derivação correspondente a "validade" tida como a única totalmente "correta". seguindo o exemplo das teorias de "lei natural". tal dualismo será hipostasiado como alguma coisa absoluta.

que teve inquebrantável fé em certos dogmas.. o estágio anterior — a asserção da verdade exclusiva de uma posição material — corresponde à autoconfiança da nascente ordem burguesa. e de que esta verdade só pode ser expressa de uma forma. o defeito desta posição consiste em sua inaptidão para responder. Além disso. a ordem social burguesa passou a ser uma mera "democracia formal". tais como as categorias ou — nas mais novas variantes desta filosofia — os valores formais. porém. embora a autonomia e a supratemporalidade sejam sustentadas em defesa dos elementos formais do pensamento. tais como o problema da transmutação de .) Filosoficamente. todavia.e. a burguesia foi obrigada a adotar uma posição defensiva. de maneira orgânica. e excluir do alcance da pesquisa histórico-social precisamente as questões mais essenciais de uma Sociologia do Conhecimento. ele já foi descrito pela análise histórica. i. Tal atitude corresponde à pressuposição filosófica de que só pode haver uma verdade. Quando. pela unidade do ser e da significação — problema que inevitavelmente aparece dentro de qualquer sistema.determinadas. contentou-se com afirmar o princípio da completa liberdade de opinião e recusou-se a fazer uma escolha entre as várias opiniões. mais tarde. a tarefa de descobri-la deve ser abandonada à livre discussão. adotar esta posição significa apresentar-se filosoficamente aproblemático. Sociologicamente. (Na medida em que este processo de transição dentro da própria democracia burguesa é afetado.

é sempre a mesma que hoje. não poderia vir a ser frutífera. Além do mais. Pois. Eis também por que esta escola não poderia produzir nenhuma filosofia material da história. abandonada à sua própria sorte. todos os produtos culturais das épocas passadas devem ser observados. uma "religião" etc. Desde que ela é somente "matéria" que muda. há somente uma "arte". contudo. de tal modo que uma transformação na esfera material provoca uma transformação na esfera da "validade" formal. a matéria é. e ela.. em termos de uma "forma de validade" contemporânea. consiste em examinar o substrato material em que as esferas de valor formais são atualizadas. A "arte" não foi sempre "arte" na acepção definida . por assim dizer. é influenciada pelo substrato material em mudança. se a separação entre "forma" e "matéria" se fizer tão aguda e absoluta assim. e particularmente do pensamento.categorias e das mudanças na hierarquia das esferas de valor. atualizada num determinado tempo. O único caminho em que os adeptos desta posição filosófica poderiam tentar resolver problemas de Sociologia da Cultura. como também o que indaga se a presente suposição de "esferas de valor" isoladas e fechadas não corresponde simplesmente a uma hipostasia de um estado de coisas transitório e especificamente moderno. Esta abordagem. se a "forma" é tão agudamente separada da atualização material. Essa escola negligencia o fato segundo o qual — para usar a sua terminologia — a "forma de validade". inevitavelmente. no essencial.

3. como a filosofia da validade o afirmaria.pela escola de l'art pour l'art. Em nossa comparação das duas escolas. dependendo do contexto existencial em que emerge. tomando inconscientemente a "forma de validade" do pensamento científico como se fosse a de todo o pensamento como tal. é possível derivar muitas conclusões diferentes das premissas fenomenológicas. adotaremos a posição do historicismo na forma pela qual cremos ser uma doutrina válida. uma idéia nem sempre representa "pensamento" e "cognição" no mesmo sentido em que ocorre com o pensamento matemático e científico. na . e. Da mesma maneira que há diversas variantes de historicismo. voltamo-nos agora para um confronto entre duas outras escolas — a fenomenologia moderna e o historicismo — que nos permitirá pela primeira vez defrontarmo-nos eficazmente com os problemas decisivos que estão envolvidos em prover uma base sólida para uma Sociologia do Conhecimento e da Cognição. A Sociologia do Conhecimento Vista da Posição da Fenomenologia Moderna (Max Scheler) Depois deste breve levantamento das contribuições do positivismo e da filosofia da validade formal (neokantismo) ao problema da Sociologia do Conhecimento. como se é tentado a admitir. contudo. semelhantemente. e analisaremos a abordagem fenomenológica a partir desse enfoque.

sem maiores qualificações. o estudo de Scheler é particularmente interessante como uma ilustração marcante de nossa tese de que os problemas originalmente desenvolvidos por uma oposição social são apropriados posteriormente por pensadores conservadores.discussão. em muitos pontos essenciais prestase muito bem para corroborar os conceitos . mas com o esboço fenomenológico de uma Sociologia do Conhecimento recentemente publicado por Max Scheler. Não podemos dizer. que a fenomenologia é uma filosofia católica (embora pensadores católicos como Bernhard Bolzano e Franz Brentano estejam entre seus precursores). Do ponto de vista que temos adotado até aqui. não lidaremos com as atitudes fenomenológicas que são possíveis abstratamente em relação a esse problema. não obstante. e também provê uma oportunidade de observar a transformação estrutural que um problema sofre quando é incorporado ao quadro de referência sistemático de uma teoria baseada numa tradição diferente. Podemos caracterizar a posição de Scheler numa curta fórmula dizendo que êle combina vários motivos da escola fenomenológica moderna com elementos da tradição católica. Aqui temos um exemplo concreto de um estágio final alcançado na carreira de idéias desenvolvidas primeiramente num dado meio social — um estágio no qual. eles são encampados por um movimento contrário e por ele transformados. reconhecidos como "fatos persistentes".

de fato observam-se divergências consideráveis entre as intuições alcançadas por diferentes membros da escola. isso é menos importante no presente contexto do que o fato de que ainda está profundamente ligado ao tipo de pensamento formal exibido pelo catolicismo. Deve-se enfatizar. no que diz respeito a Scheler. Dentre as análises fenomenológicas. "eternidade". afinal de contas. que êle já se dissociou de um certo número de dogmas. é largamente um produto dessa tradição. Contudo. fenomenologia oferece evidência concreta que justifica o dualismo católico do eterno e do temporal — e prepara o terreno para a construção de uma metafísica não-formal. O principal ponto acerca de Scheler e de seu novo ensaio é que ele tem uma afinidade muito maior com a realidade atual. A fenomenologia assevera que é possível se aprender supratemporalmente verdades válidas em "intuição essencial" (Wesensschau). intuicionista. as mais impressionantes são aquelas baseadas nos valores católicos tradicionais — nossa civilização. do que a maioria daqueles que interpretam o mundo em termos da . Todavia. Essas divergências podem ser explicadas pelo fato de que as intuições da essência são sempre dependentes do passado histórico do sujeito.católicos de "atemporalidade". com novos argumentos. e leva muito mais a sério a obrigação de contar com os novos desenvolvimentos culturais. Traçando-se uma linha extremamente definida entre o conhecimento "fatual" e o "essencial".

implantada em modalidades de pensamento e experiência conservadores. A afinidade com o presente. sente-se impelido a explicar os novos fatores culturais emergentes no mundo. interessamo-nos primordialmente na maneira pela qual um representante moderno de uma fase intelectual e emocional mais antiga vem dominar os novos fatores da realidade cultural — uma configuração de real significação simbólica. com as pedras da construção voando em todas as direções. uma tendência particular no tratamento do problema por Scheler. porque ele não só procura incorporar novos fatores a um velho quadro de referência como até tenta apresentar a posição de "historicismo" e "sociologismo" em termos de uma filosofia de atemporalidade. Há. produz tensões extravagantes na estrutura de seus argumentos. Como filósofo de atitude mental sensível e inquieta. contudo. impaciente com limitações e formalismo rígido.tradição católica. de tal maneira que o leitor teme constantemente a explosão do edifício inteiro ante seus olhos. não se satisfaz com uma linha traçada de uma vez por todas entre a eternidade e a temporalidade. Pois a riqueza essencial do processo do mundo histórico-social brota largamente da possibilidade de "anacronismos" tais como este — tentativas de interpretar fatores do mundo atual na base de premissas que pertencem a um estágio de pensamento passado. . Já que estamos dando ênfase precisamente aos problemas complexos inerentes à interação de várias posições.

Mais ainda. A questão que queremos examinar é em que medida uma abordagem estática sistematizante pode fazer justiça ao dinâmico e sociológico — isto é. Encontramos na sua teoria todos os pontos enumerados na nossa descrição da "constelação" subjacente à emergência de uma Sociologia do Conhecimento: a) pensamento concebido como sendo relativo ao ser. A principal característica do ensaio de Scheler é — como acima foi declarado — a grande extensão abrangida por sua argumentação: ele tenta analisar o sociológico do ponto de vista da atemporalidade. uma vez que esta mudança está mais ainda na linha de uma atitude conservadora do que oposicional. poderemos também observar em Scheler a "modificação" de uma tendência original de "desmascarar" para uma Sociologia imparcial. c) uma visão global da totalidade histórica. se uma filosofia "atemporal" pode tratar adequadamente .Deliberadamente limitaremos a nossa discussão a esse lado estrutural da teoria de Scheler. o dinâmico a partir de um sistema estático. seus insights apenas os pontos que são relevantes ao nosso problema de diversas "posições" intelectuais. mas somente em traçar a linha da determinação histórica que fez esse tipo de pensamento fatalmente o que é. b ) realidade social como o sistema de referência em relação ao qual o pensamento é considerado relativo. e selecionaremos dentre a riqueza desnorteante de. Não estamos interessados em detectar erros ou inexatidões. isto não é surpreendente.

a relação da "infraestrutura" para a "superestrutura" é aquela do . tais como sexual. A primeira examina fatores "reais" dos processos históricos. Scheler.esses problemas que surgem da situação intelectual presente. especialmente "impulsos". de acordo com o qual a Sociologia do Conhecimento tem até hoje sido tratada somente de um ponto de vista positivista. Segundo esta última visão. A Sociologia como um todo. Desse modo temos aqui. Para ele a Sociologia do Conhecimento é parte da Sociologia Cultural que por sua vez é parte da Sociologia — esta sendo dividida em Sociologia "Real" e "Cultural". propõe abordar esse problema de outro ponto de vista. mas com a diferença específica (que caracteriza a posição de Scheler) de que a ) a "infra-estrutura" consiste em fatores psicológicos (impulsos) antes do que em fatores sócio-econômicos. e b ) há uma linha bastante definida traçada entre as duas esferas. e especialmente de estabelecer uma "lei de sucessão" de tais tipos de interação. a fome e o desejo de poder. p. "o qual rejeita as doutrinas epistemológicas do positivismo e as conclusões delas deduzidas. como em todas as Sociologías da Cultura. tem a tarefa de "descobrir os tipos e as leis funcionais da interação" desses fatores. vi). não obstante. a distinção entre "infraestrutura" e "superestrutura". em contraste com a variante neo-hegeliana do marxismo. enquanto a segunda lida com fatores "culturais". e vê no conhecimento metafísico tanto um postulado "eterno" da Razão quanto uma possibilidade prática" (Prefácio.

singulares. já que baseia sua "Sociologia Cultural" sobre uma teoria dos impulsos e da mente do homem em geral. 8). Scheler. gostaríamos de chamar a atenção para a diferença fundamental entre os tipos de Sociologia que são possíveis hoje. Esta Sociologia é apenas consistente quando tenta — à maneira da Ciência Natural — estabelecer regras. não é capaz de construir uma teoria histórica desse tipo. em vez de uma seqüência de fases temporais concretas. Uma continua a tradição da Ciência Natural com seu objetivo de estabelecer leis gerais (a Sociologia ocidental é .todo com a parte. Embora Scheler se esforce muito para formular uma "lei" da possível gênese dinâmica das coisas inseridas numa ordem de "eficácia temporal" (p. contudo. Essa teoria busca determinar as características atemporais do homem e explicar qualquer situação histórica concreta como um complexo de tais características. Nesta altura. uma certa "configuração real" também só é possível quando fatores "ideais" mostram uma determinada configuração. Também deixa de estabelecer uma afinidade mais estreita com o historicismo quando examina duma maneira "generalizante" a interação dos fatores "reais" e "culturais" — tomando isso para mostrar uma lei geral de sucessão. tipos e leis do processo social. já que uma certa configuração "ideal" pode apenas emergir em conjunção com uma certa configuração "real" e vice-versa. ambos formam uma unidade inseparável. é claro que tais "leis" só podem resultar da aplicação das categorias generalizantes da ciência natural.

de acordo com essa concepção. já é tempo. boca etc. Considera as individualidades históricas. ao contrário. Para o primeiro tipo. imutavelmente recorrentes. Pois não é o caso de que o "centro de expressão". O indivíduo.). a fisionomia . de fixar o caráter metodológico desse tipo de conhecimento. a outra se prende à tradição da Filosofia da História (Troeltsch. não pode ser determinado por uma combinação de características desenvolvidas abstratamente. sem mediação de propriedades gerais. A escola em questão assevera que esse método espontaneamente empregado na vida diária tem sua aplicação na ciência também. o historiador deve e pode penetrar o cerne psíquico e mental de um indivíduo singular diretamente. não combinamos características gerais (olhos. compreendendo não só personalidades.deste tipo). e o "resto" que não é reduzível a essas propriedades é negligenciado. por outro lado. É assim que procedemos à apreensão da fisionomia de uma face humana. e de fato tem sido inconscientemente usado pelos cientistas. caminha na direção oposta. imutáveis. boca e outros traços à luz desse insight central. mas qualquer constelação histórica na sua singularidade como o objetivo apropriado para investigação. e caracterizar os olhos. Max Weber). O segundo tipo. e depois passar a determinar todas as características e fatores parciais individualmente. todo individuo histórico é meramente um complexo de propriedades gerais. então. pois a coisa mais importante é apreender o centro de expressão singular.

que não podemos esperar qualquer esclarecimento fundamental da teoria . Todos esses insights de totalidades podem ser traduzidos em conhecimento científico controlável. uma vez que as essências gerais devem sempre aparecer vazias em comparação com os fenômenos mentais concretos. êle próprio. históricos (uma das razões por que eles podem ser definidamente separados). e o atual renascimento de modos de pensamento históricofilosóficos pode ser explicado na nossa opinião pelo desejo de achar um método de comunicação do que é singular no processo histórico. possa ser apreendida só por intuição e não possa ser comunicada ou objetivada cientificamente.particular de uma situação. Isso significa. Na Sociologia da Cultura é feita a tentativa de analisar situações históricas singulares em termos de combinações singulares de propriedades e de fatores sujeitos a um processo constante de transformação — constelações que em si próprias são fases num processo genético cuja "direção" geral pode ser determinada. ele enfatiza (p. de tal maneira que é fútil falar de uma "unidade da natureza humana" como um pressuposto da História e da Sociologia. parece ter consciência do fato de que uma Sociologia baseada em uma doutrina generalizante da essência do homem já se tornou algo altamente problemático. Scheler. todavia. Dessa maneira. 13) que a mente existe somente numa multiplicidade concreta de grupos e culturas infinitamente variados. a linha evolucionária singular exibida por uma seqüência de acontecimentos.

uma vez que agora é admitido que ela só pode produzir o esboço formal mais geral das leis dos atos intencionais. Mas por que essa rejeição sumária da tese da "unidade da natureza humana". uma vez . não se pode pensar duma maneira historicista em pesquisa fatual e permanecer estático na análise essencial. coloca-se dessa forma na proximidade imediata do kantismo e da filosofia formal em geral. não obstante. Scheler. então permanece o problema de como se pode atingir a realidade histórica concreta a partir dessa posição. somente uma essência dinâmica "homem" pode corresponder. procedimentos "técnicos" válidos e também têm seus usos em Sociologia. apegarmonos a tal doutrina "essencialista" da mente humana e dos atos intencionais. Se devemos. não nos pode satisfazer. embora esperada. Generalização e formalização são. na verdade. enquanto a "multiplicidade concreta" meramente lida com o fato "homem" — esta resposta. inspirados por aspirações "supra-temporais". em nossa opinião. depois de o próprio Scheler propor basear a Sociologia sobre uma doutrina tão altamente geral da essência do homem? A resposta de que a unidade supratemporal do homem (a ser tratada numa teoria geral do impulso e da mente) refere-se à essência "homem". A uma mente humana existindo e se desenvolvendo apenas numa multiplicidade concreta.das essências. na nossa opinião. O caráter questionável de formalização e generalização estática não é eliminado por se restringir esse modo de pensamento às "essências".

Aqueles que se ocupam em formalização ilimitada apenas se deixam guiar — precisamente no sentido da distinção feita por Scheler — por modelos e relações estruturais prevalecentes no mundo morto. ele tem consciência da. por outro. e se sente responsável em relação à. Isto é. Outra tese bem característica da doutrina de Scheler diz respeito à "lei da ordem de eficácia dos fatores reais e ideais". A interação dos dois fatores é descrita da seguinte maneira: a mente é um fator de "determinação". já aludida. contudo — para o pensamento acerca do concreto — servem simplesmente como um trampolim. singularidade dos objetos históricos. sempre que encarada do ponto de vista do concreto? Afinal. Conseqüentemente. e os esquemas assim obtidos obscurecem a natureza peculiar dos viventes. Por um lado. Esse conflito é possivelmente a experiência fundamental de nosso tempo (pelo menos dentro da tradição cultural da Alemanha). os trabalhos que podem ser criados por uma cultura são determinados só pela . para o pensamento concreto.que podem ser empregados para controlar a multiplicidade de dados. Scheler propõe uma doutrina da essência "atemporal" do homem. de meras "coisas". uma forma é o que é somente quando em conjunção com a matéria concreta (histórica) que ela enforma. estamos nesta altura em presença de um profundo conflito. não de "realização". Não leva a formalização de fato à distorção. muda e cresce junto com a mudança e o crescimento da matéria. mecanizado.

O frutífero nessa maneira de olhar o problema é que o fato do caráter peculiar fenomenológico e estrutural do mental — que o monismo materialista necessariamente descuida — é bem visto aqui. esclarecer o relacionamento mútuo entre as duas esferas e responder a questões referentes à sua gênese. relações de controle de produção na economia. mencionaremos . inteiramente impotentes face aos fatores reais que estão em processo de emergência. seguem seu caminho determinado de maneira similar a robots.mente. Através dessa função seletiva. mas nunca alterá-las. consiste em que Scheler não vai além da afirmação de uma separação fenomenológica do "real" e do "mental". em virtude de sua estrutura interior. A mente humana pode no máximo bloquear ou suspender o bloqueio. 10). a separação e a imanência abstrata do "mental" permanecem inatacadas. A fim de ilustrar a diferença entre a posição de Scheler e a representada por nós. a função dos fatores reais é fazer uma seleção dentre as possibilidades tornadas disponíveis pela mente. Constelações de poder em política. Como resultado disso. todavia. mesmo quando por fim se faz uma tentativa de se efetuar uma síntese. Todavia. estão sujeitos a "uma causação evolucionária cega a qualquer significado" (p. os fatores reais controlam os fatores ideais. sua unilateralidade. Assim. mas o que de fato é criado depende da combinação particular de fatores reais que predominam no momento. na nossa opinião. Tanto os fatores ideais como reais existentes num dado momento são.

Uma dessas concepções — em direção à qual Scheler parece inclinar-se em certa medida — é expressa por um dos personagens numa peça de Lessing que diz que Rafael se tornaria um tão grande artista ainda que tivesse nascido sem mãos. suas idéias e sonhos artísticos não o criam. Fiedler. Doutro modo seu gênio não se pode realizar" (p. a realização é algo secundário. Para uma tal teoria. dá ouvidos ao platonismo — contrasta com outra especificamente enraizada na atitude moderna face à vida.um exemplo mostrando as duas concepções do relacionamento mútuo entre o concreto e o possível. uma vez que a visão artística importa mais que a realização visível. na estética de K. Essa concepção moderna está expressa. em decorrência do que eles determinariam em parte a substância dos trabalhos. colocada na tradição platônica. por exemplo. Essa concepção — que. Podemos parafrasear a teoria de Fiedler. da seguinte maneira: nem o próprio processo criativo nem a obra como um complexo de significado deve ser analisado . algo livremente. na qual idéias e modelos são considerados como preexistentes. Scheler enfatiza explicitamente que não tem em mente nenhuma influência essencial dos fatores reais. E permanece secundário mesmo na versão mais moderada dessa concepção de Scheler. Obviamente aludindo ao exemplo há pouco mencionado. Precisa de patronos política e socialmente poderosos que o contratem para glorificar seus ideais. em sua essência. 10). Scheler diz: "Rafael precisa de um pincel. o real e o mental.

também.pressupondo-se que o artista vê antes de começar a trabalhar modelos ante os olhos de sua mente e que ele meramente os copia a posteriori tão bem quanto pode. todo movimento da mão. a textura particular do material. há uma separação fenomenológica entre Ser e Significado. tais como a estrutura da mão humana e os gestos. mas essa dualidade fenomenológica não mais pode ser considerada como fundamental quando passamos a examinar ambos os termos como partes de uma . não somente determinam aqueles que lhe seguirão. Para nós. O que devemos dizer é que a existência do artista — determinada como esta existência particular — é. não deveríamos meramente dizer que o artista deve existir como um homem — e como este homem em particular — a fim de que uma possibilidade absoluta do mundo ideal possa tomar forma (ser realizada) no mundo espaço-temporal. Todos os fatores reais. a constituição orgânica e psíquica do artista são a fonte de significado nesse processo. Sua contribuição para o trabalho não é sem efeito para o significado "imanente" que ele exprime. toda linha já desenhada. uma condido sine qua non do significado e da idéia corporificada nos trabalhos específicos. mas também criam novas possibilidades não-sonhadas de antemão. Todo "fator real". em si mesma. Portanto. A verdade é que a obra e sua idéia passam a existir durante o processo da criação. Esta nova maneira de interpretar a correlação entre "idéia" e "realidade" é também um componente essencial de nossa concepção do papel dos "fatores reais" na criação cultural.

já que não precisa ir além da separação fenomenológica das esferas do "Ser" e do "Significado". as quais são em última instância as "emanações" de uma e mesma Vida. estabelece relações históricas. Quando alcançamos a "existência" como uma unidade última na qual todas as diferenças fenomenológicas são canceladas. Essa objeção aparece simplesmente de uma ilusão positivista que nos impede de perceber quão profundamente o cientista supostamente puro está envolvido em metafísica sempre que dá interpretações. Quando se tenta explicar uma obra em termos de fatos na vida de um artista. Neste momento não se deve objetar que o historiador entregue à pesquisa positiva não esteja interessado nessas questões metafísicas. e assim por diante. determina "tendências" históricas ou coloca fatores "reais" em correlação com fatores "ideais". "Ser" e "Significado" aparecem como esferas parciais hipostatizadas. Para qualquer filosofia ou teoria da cultura ou de Sociologia (ou como quer que se possa resolver chamar a síntese última em questão) que busca transcender à imanência abstrata dos vários produtos culturais e analisá-los como parte integrante do processo global da vida. ele inevitavelmente substitui o "significado" imanente . quando tenta fornecer um relato histórico da evolução imanente das idéias. a dualidade fenomenológica não pode ser mais do que um dispositivo provisório.totalidade genética dinâmica — um problema que seguramente tem significado também dentro do sistema de Scheler. ou das correntes culturais de um período.

e ao mesmo tempo restringiu-se cada vez . Temos que reconhecer. O erro do materialismo consiste meramente na sua metafísica errônea que equaciona o "Ser". com a matéria. pois privou as obras de seu caráter como unidades contidas em si mesmas e preocupou-se em vez disso com a experiência central determinante da maneira de viver e da criatividade cultural de uma época.das obras na estrutura global do processo vital. a realidade. o materialismo está certo. na medida em que nega o conceito do "ideal" como algo absolutamente contido em si mesmo. Todavia. de acordo com a qual é o Ser. que combina sua teoria idealista com uma doutrina de "impotência do mental". uma tese que reflete simplesmente a transformação que o pensamento conservador alemão sofreu durante a última fase de seu desenvolvimento. baseado apenas em uma lógica de significado imanente ou provê à realidade histórica ou a qualquer outro tipo de realidade do estímulo necessário que torna a autorealização possível — na medida em que nega esse conceito de "ideal". ou se desenvolve dentro de si mesmo. E não se pode superar esse dualismo idealista se se procede como Scheler. ou a "realidade". como algo que é de algum modo preexistente. que cria o setor ideal. O pensamento conservador na Alemanha afastou-se cada vez mais de suas origens humanísticas desde o princípio da tendência para a "Realpolitik" e para a política de poder. que há algo de verdadeiro na concepção materialista da história. à luz do que foi dito acima.

como sujeitos que interpretam. podem caracterizar seu papel e sua significação apenas como negativos. por outro. Ademais. De um ponto de vista meramente fenomenológico (definido como o que não implica nada além da descrição exata do que é dado. somos seres humanos existentes e temos a experiência imediata de nossa "existência" na qual fatores reais são convertidos em dados mentais. Numa palavra. não pode ser preenchida. já que de acordo com essa visão a lacuna entre o simples "Ser" destituído de significado. Já que. desprezando aqueles aspectos que estão relacionados com sua gênese) essa "conversão" do real no mental não pode ser apreendida. e nos remeteremos ao ponto de origem onde um fator real é convertido em um dado mental. a diferença fenomenológica entre os fatores reais e ideais fica subordinada à unidade genética do processo histórico. Ê interessante observar que as classes em ascensão — cujas aspirações são apoiadas pelos "fatores reais" dominantes em cada época — consideram esses fatores como essenciais. não obstante. embora possam reconhecer a importância dos fatores reais. deve ser notado que . enquanto os conservadores. por um lado. assim que abandonamos a concepção platonizante. e o "Significado". somos capazes de levar nossa investigação até o ponto em que as duas esferas do ideal e do mental se encontram. no que toca a essa conversão.mais em presença das realidades sociais recémemergentes que não favoreciam aspirações conservadoras.

deve-se acrescentar que é este elemento . já é a "mente". a considerar dados econômicos e geográficos como pertencendo integralmente à esfera "material e natural". mas que esse substrato fisiológico se constitui em elemento do processo histórico apenas na medida em que entra nas configurações mentais. Por exemplo. enquanto as instituições econômicas sofrem constantes mudanças. e a história se interessa exclusivamente por essas mudanças institucionais. pomos em discussão que a economia pudes^ se existir sem o impulso da fome.muitos fatores classificados como "reais" não são de forma alguma destituídos de significado e puramente "materiais". O impulso como tal permanece essencialmente imutável ao longo do tempo. tende-se. que. por assumir a forma de uma ordem econômica ou outra forma institucional. o da economia — que só a fisiologia do impulso da fome pertence à simples "natureza". sozinho. todavia — para tomar apenas o primeiro exemplo mencionado. Por conseguinte. O que nos importa é que as várias formas de instituições econômicas não poderiam ser explicadas pelo impulso da fome como tal. por exemplo. O excesso acima e além do substrato puramente fisiológico. não basta dizer que a economia não existiria sem a mente. Não devíamos esquecer. de modo nenhum. transforma o instinto em um fator histórico. Isso não deve ser mal compreendido Não queremos negar o papel fundamental dos impulsos — e. não precisa ser incondicionalmen te equacionado com ela. com freqüência. mas se algo é uma condição necessária para outra coisa.

cuja relação mútua é a de infraestrutura e superestrutura. A questão aqui será de que modo uma esfera afeta a outra no processo global — como uma mudança estrutural na infraestrutura determina uma mudança estrutural na superestrutura. Certamente. E desde que a "conversão" do real ao mental (o mais misterioso evento no processo histórico) toma lugar dentro do homem como um ser vivo. a maior força determinante é exercida por aquelas categorias de significado nas quais o ser humano vive com a maior intensidade. somos de opinião que a "mente na infra-estrutura" — que implica principalmente as condições de produção. em que a seleção dentre formas mentais preexistentes toma lugar na . Pois não devemos esquecer que a "mente na infra-estrutura" é o fator mais "persistente". Se constantemente rebaixamos o limite do "natural" ao refinar nossas distinções. de tal modo que o "econômico" antes se identifica com o "mental" que com o "material". então porque são os componentes desta infraestrutura que criam o arcabouço duradouro da existência contínua dos seres humanos — isto que é geralmente chamado milieu.mental que transforma em economia a pura satisfação do impulso. se duas esferas do "mental" se distinguem dessa maneira. se por nenhuma outra razão. como Scheler parece supor (se o compreendemos acertadamente). então temos que reconhecer duas esferas "mentais". Não é de forma alguma o caso. junto com todas as relações sociais concomitantes — realmente em parte determina e dá forma à "mente na superestrutura".

Uma tal suposição. primeiro. Na nossa opinião. isto é. de fato. mas sim: aquilo que vagamente se sente como sendo "natureza" se converte nas várias configurações mentais da infra-estrutura. mas estas podem ser interpretadas no seu sistema somente como deslocamentos relativos. a introdução da dimensão "natural" da infraestrutura. fatores "naturais" desse tipo apenas podem ser usados como um princípio dinâmico de explicação do processo histórico se supusermos que sofrem mudanças qualitativas no curso da história. são imutáveis. antes de tudo. o "instinto racial" noutro etc. Certamente. Em que momento e de que forma o chamado "desejo de poder" se pode . aos homens como seres existentes. meras modificações quantitativas. ele sugere que é o "desejo de poder" que predomina em um momento. O que relutamos em aceitar é. torna-se plausível se nos lembrarmos de que o "natural" nos vários níveis de suas transformações "mentais" desempenha um papel histórico diferente cada vez. em parte.superestrutura debaixo da pressão direta de uma infra-estrutura puramente "natural". assim. ser explicado. imutável. e dessa maneira dá forma. como uma entidade supra-temporal. de outra forma. Scheler fala de "mudanças na estrutura dos impulsos". e depois à realidade cultural como um todo (em analogia com a concepção de Fiedler do papel co-determinante dos fatores reais). Pois um fator causal desse tipo somente poderia originar combinações de elementos que. em termos da qual o processo histórico deve. contudo.

Para nós. então. Também relutamos em aceitar a colocação de um mundo mental com uma lógica imanente de significado em face do qual o mundo histórico com seus "fatores reais" desempenha apenas um papel seletivo. é meramente o ponto de partida de um novo processo conduzindo a novas atualizações. Para nossa concepção do mundo. isto sempre envolve o papel completamente novo e criador do momento e da situação singular.manifestar — se é que de fato o faz — depende também da constelação cultural total com que as várias gerações se defrontam durante o processo de amadurecimento. esse horizonte. a tônica de valor continua sobre o emergente e o atual. não é o abstratamente "possível como tal". cercado por um horizonte de possibilidades. mas a expressão idêntica "desejo de poder" cobre uma grande variedade de "intenções de vontade" estruturadas e experimentadas de maneira diferente. tendo cada vez diferentes objetos como seus correlatos. Também ligado a isto. eternamente idêntico a si próprio. há a cada momento aquilo que é atual. também. mas contém simplesmente aquilo que é possível em uma dada situação como resultado de certa constelação de fatores. não obstante. Esse "horizonte". não há nenhum "desejo de poder". como tal. por sua vez. O real . o qual simplesmente é mais ou menos reprimido. não é o abstratamente possível que é o mais elevado. Também concebemos a relação dentro do "possível" e do "atual" duma maneira diversa da de Scheler.

Só aqueles que focalizam sua atenção exclusivamente sobre o atual. uma seleção sempre inadequada de um tesouro transcendente de formas. e o processo genético passado. Parece-nos que só pode haver uma lógica imanente do significado para a visão retrospectiva do analista da estrutura. contida em si própria. é em nossa opinião muito arriscado para este ramo do conhecimento adotar a premissa de um mundo "preexistente" de idéias. ao invés de in statu nascendi. já que a Sociologia Cultural primordialmente se preocupa com a reconstrução das relações funcionais entre o "atual". uma vez que se tenham tornado atuais. Queremos enfatizar.não é. por um lado. como seria visto do ponto de vista do centro criador do processo evolucionário — só então podemos divisá-lo como tendo a estrutura de um complexo de significado imanente e completamente contido em si próprio. ainda que só no sentido de uma gênese não-temporal de "significado" puro. Contudo. mas uma concretização criadora jorrando de constelações historicamente singulares. como no sistema de Scheler. podem ter a impressão de que o que aconteceu foi a realização de algo preexistente. de uma entidade absoluta. todas as obras da mente mostram uma estrutura significativa e inteligível. sobre o produto acabado desligado de todas as relações funcionais no interior do processo genético. neste particular. que uma das mais importantes tarefas é determinar essa estrutura . Só quando consideramos o atual ex post. por outro. depois que emergiu. isto é.

a essência última é algo preexistente. para Scheler. dependendo se são concebidas de uma posição "retrospectiva" ou in statu nascendi. quisemos demonstrar pormenorizadamente que também neste campo o processo de cognição. não são realmente "constituídas". livremente flutuantes. mas tais teorias historicistas podem ter uma inclinação conservadora ou progressista.inteligível de significado de um conjunto de obras atuais. Discutimos a concepção de Scheler da relação entre infra-estrutura e superestrutura pormenorizadamente e demos um relato completo de nossa posição contrária. história não é o mesmo problema das "posições" na teoria do historicismo. aborda por lados diferentes problemas derivados da experiência vital de certos grupos pertencentes à mesma sociedade. . Todo historicismo prega uma determinação do pensamento pela "posição" do pensador. a fim de mostrar que até pressuposições na aparência puramente formais de pesquisa histórica dependem de um ponto de vista social e de valoração. Tudo o que distingue a visão estática da dinâmica é.). de certa forma. acabadas. pairando sobre a história. mas meramente "realizadas". longe de perceber passo a passo problemas que já lá se encontram em forma "preexistente". o processo histórico nunca pode alcançar essencialidade e substancialidade reais em seu sistema. Uma vez que. relacionado com este ponto central — o da relação entre o ideal e o real. no qual as entidades estáticas.

"Assim. abandonamos como totalmente relativos. no sistema de Scheler. expressos por ética. cujos segredos . embora sua doutrina básica seja de valores eternos. Tal dualismo agudo nunca pode levar a uma real filosofia da historia. na história.pelo processo histórico. e o fato de que as decisões metodológicas são também ligadas a orientações metafísicas e "vitais". Como vimos. e retemos nada além da idéia do eterno Logos. o caso de Scheler não é tão simples assim. em nenhum lugar está mais claramente visível do que aqui. por assim dizer. devido ao fato de que. normas nas sociedades humanas. o reino dos valores e idéias absolutos. Certamente. toda ordenação de bens. ele ainda reconhece o dinâmico como particularizado em várias "posições" e quer justificá-lo em termos da doutrina básica. objetivos. como histórica e sociologicamente dependentes das posições particulares. muito mais alto do que todos os sistemas fatuais de valores se haviam dado conta. correspondendo à idéia essencial do homem. religião. Pois agora podemos compreender por que Scheler decidiu em favor de um tipo generalizante de Sociologia. arte etc.. Tanto o largo alcance de seu plano como a justaposição não-resolvida dos elementos estáticos e dinâmicos na sua doutrina podem ser bem vistos a partir da seguinte passagem. aparece uma tensão. lei. quando teve que enfrentar a escolha de qual Sociologia se deve fazer hoje — se proceder de acordo com o método generalizante ou procurar uma renovação na base de tradições histórico-filosóficas. na qual Scheler diz que pretende "pendurar". até então.

afeta decisivamente sua teoria da interpretação da história. As entidades reais são supra-históricas. ou. porque. incluindo todos os futuros — por cooperação temporal e espacial de insubstituíveis. sujeitos culturais singulares trabalhando juntos em plena solidariedade" (p. contrariamente ao que Scheler diz. nem qualquer ou todas as épocas culturais que emergiram até agora. se há uma contribuição que a . elas passam a existir e se realizam dentro dele. As tensões reveladas por esta passagem ilustram a luta interna entre a doutrina da eternidade de Scheler e a consciência histórica do presente. Para o historicista. e tornam-se inteligíveis exclusivamente através dele. Mas o abismo entre o temporal e o eterno. é que Scheler tenta incorporar em seu sistema não só teses de naturezas diferentes como também pressuposições sistemáticas de caráter diferente. O homem tem acesso a entidades que criam história e dominam as várias épocas. o único caminho — para a compreensão das entidades que nela aparecem geneticamente. mas só por todos juntos. do nosso ponto de vista. 14). por conseguinte. porque individuais. está existencialmente ligado a ela. A história é o caminho — para o historicista. não existem entidades fora do processo histórico. nenhuma civilização. o importante. vivendo na história. a história não pode contribuir com nada de relevante para a exploração dessas entidades. que o sistema de Scheler supõe.transcendentes não podem ser explorados na forma de uma história metafísica por nenhuma nação.

e especificam o ponto culminante dentro da Idade Média em vários momentos. as entidades eternas permanecem dissociadas do fluxo da vida histórica. no seu sistema. ela só pode ser algo limitado. outras a outro. podem aproximar-se das entidades ou delas se afastar. contudo. dependendo da natureza de suas próprias experiências subjetivas. sua substância é de natureza diferente da da história. pode dar. então. é envolto em mistério. Mas ele ainda adere essencialmente à concepção estática das entidades. A história é. cuja teoria da história é baseada no romantismo atual. tudo o que sabemos é que alguns períodos se aproximam mais das entidades do que outros. enquanto mantém que cada período e cada civilização tem uma "idéia missionária" específica. imposto pelo destino. pois. como um mar de chamas rodeando as entidades eternas.história. Fanáticos pela Idade Média. asseveram que a Idade Média marcou a maior aproximação das entidades eternas. Scheler marca um certo progresso além dessa estreita glorificação de uma época histórica. Tudo o que Scheler admite é um princípio de "acesso": algumas entidades eternas são primordialmente acessíveis a um grupo cultural apenas. que é diferente em cada caso. e o ritmo de seu movimento. Essa maneira de olhar as coisas. As chamas podem aumentar ou diminuir. como é concebida por Scheler. . consiste em uma combinação de todas as essências descobertas no decurso da história. implicando uma estreita afinidade com um certo conjunto de entidades. a seu ver. "Síntese" histórica.

objetivo. Como poderemos saber. para identificar todas as entidades. mas para ele isto tudo se aplica apenas enquanto não estamos lidando com uma compreensão dessas "entidades" cuja realização é a "missão" da humanidade. no curso da história. até agora. Ele admite que os sistemas concretos de normas são histórica e sociologicamente determinados. é claro que não nos basta ter um conhecimento válido. No que toca a essas entidades. analisando a história. Mas também podemos fazer outra pergunta. quais das entidades proclamadas pelas diversas civilizações eram entidades reais. o historiador das idéias. devemos ter poderes intuitivos super-humanos. deve transcender à temporalidade duas vezes: uma vez . Dessa maneira. e que a cada momento o homem está situado dentro da história. aquelas que emergiram. supra-históricos. ao desempenhar sua intuição essencial. A teoria de Scheler contém dois de tais "saltos".implica certos "saltos" abruptos que não podem ser enquadrados na nossa experiência fundamental. ou. pelo menos. verdadeiras? Por que critérios podemos julgar que uma certa civilização era bastante madura para realizar a "missão" da humanidade no que diz respeito a uma ou outra entidade? Se realmente desejamos consignar tais papéis a todas as civilizações e épocas passadas. de nossas próprias entidades. o homem histórico repentinamente se torna num conquistador da temporalidade e adquire uma capacidade superhumana de sacudir longe toda determinação e limitação histórica. Isso é um "salto" na teoria de Scheler.

e até adota a idéia de visão "perspectivista". Para qualquer pessoa cuja experiência metafísica fundamental é de um tal caráter (estático).quando identifica as entidades eternas designadas para sua própria época. o processo histórico como tal é abandonado como inapelavelmente relativo. a idéia de uma "missão" coletiva de todas as épocas e civilizações. . a essência real da mera aparência subjetiva. perde-se de novo. Scheler tenta incorporar idéias historicistas dentro de sua teoria da atemporalidade. a tarefa real de uma Sociologia do Pensamento — que na nossa opinião consiste em descobrir a linha geral de desenvolvimento seguindo a gênese das várias "posições" — nunca é formulada por Scheler. então. Mas sua concepção estática da eternidade nunca se concilia com a "posição" de historicismo que ele tenta combinar com ela. Em conseqüência. Mas. e toda significação absoluta é concentrada dentro do segundo "salto" para além da temporalidade. Todavia. ou pelo menos a postulação do caráter absoluto do momento presente. isso redunda na postulação de uma absoluta intuição de essências — pelo menos de todas as essências até aqui descobertas — a cada momento da história. a Sociologia do Conhecimento — como também todas as outras esferas da cultura — tem que se tornar algo totalmente secundário. que teria fornecido um ponto de partida para uma Filosofia da História. e uma segunda vez quando interpreta o passado. tentando separar o genuíno do falso.

Mais uma objeção deve ser feita à doutrina das essências de Scheler. Ele esquece que qualquer compreensão e interpretação de essências (e, portanto, das essências também de épocas passadas) é possível apenas de uma forma perspectivista. Tanto o que nos é acessível das intuições essenciais de épocas passadas, quanto como elas se tornaram acessíveis para nós, depende de nossa própria posição. Cada "elemento de significação" (se podemos falar de tal coisa isoladamente) é determinado por todo o contexto de significação e, em última instância, pela base vital que lhe dá origem; isso é um insight que devemos ao historicismo. Assim, um ato de compreensão consiste em incorporar um "elemento de significação" estranho ao nosso próprio contexto de significação, cancelando suas relações funcionais originais e introduzindo-o dentro de nosso próprio padrão de função. Essa é a maneira pela qual procedemos para determinar não só os fatos, mas também os "significados" intencionalmente atribuídos de épocas passadas. Seria um preconceito "tecnicista" supor que poderíamos integrar dados mentais (significados) em uma totalidade por acrescentar um pedaço a outro. Não seria difícil convencer Scheler que essa maneira de ver é correta, já que ele mesmo distingue vários tipos de conhecimento e vários tipos de progresso cognitivo (p. 23). Um conhecimento "aditivo" de essências inteligíveis seria possível apenas se o conhecimento essencial fosse do tipo do conhecimento tecnicista, "cumulativo" (como Scheler o chama). De acordo

com o próprio Scheler, o conhecimento essencial pertence a um tipo de conhecimento limitado a apenas uma cultura; mas, se é assim, parece-nos que o conhecimento dos significados e essências de épocas passadas pode apenas ser um conhecimento perspectivista, determinado por nossa posição histórico-existencial, por um lado, e por nosso sistema básico de axiomas, por outro. Em outro artigo, já chamamos a atenção que uma caracterização definida da diferença fundamental entre a racionalidade científico-tecnológica e o conhecimento filosófico, e entre os padrões de evolução existentes nestes dois campos, só se torna possível se retornarmos ao princípio estrutural sistematizador subjacente a eles. Como tentamos mostrar, o pensamento científico-tecnológico difere do pensamento filosófico na medida em que o primeiro tipo de pensamento completa apenas um e o mesmo sistema durante períodos sucessivos, enquanto o segundo começa de novos centros de sistematização, em cada época, ao tentar dominar a multiplicidade crescente do mundo histórico. Como é o mesmo sistema que está sendo construído na ciência no decurso dos séculos, o fenômeno da mudança de significado não ocorre nesta esfera e podemos imaginar o processo de pensamento como um progresso direto em direção ao conhecimento "correto", em última instância, que só pode ser formulado de uma maneira. Na Física, não há muitos conceitos diferentes de "força", e se acontece aparecer conceitos diferentes na história da Física podemos classificá-los como simples passos preparatórios

antes da descoberta do conceito correto prescrito pelo padrão axiomático do sistema. A par disso, temos em Filosofia, como também nas Ciências Histórico-Culturais, estreitamente a elas relacionado, o fenômeno de uma mudança de significado intrinsecamente necessária. Todos os conceitos nesses campos, inevitavelmente, mudam seu significado no decurso do tempo — e isto precisamente porque eles continuamente entram em novos sistemas dependentes de novos conjuntos de axiomas. (Podemos, por exemplo, considerar a maneira, pela qual cada conceito de "idéia" alterou seu significado: o que significou para cada época pode ser compreendido retrocedendo-se aos sistemas totais nas estruturas dos quais o conceito era definido.) Se observamos a linha de evolução histórica nesses campos, como também as relações mútuas dos significados que se sucederam, então podemos observar não haver nenhum "progresso" em direção a um sistema único, um significado exclusivamente correto de conceitos, mas antes o fenômeno da "sublimação" (Aufheben), Esta "sublimação" consiste no fato de que nestes campos todo sistema mais recente e mais "elevado" incorpora os sistemas mais antigos, as relações funcionais, e também os conceitos individuais pertencentes a esses sistemas. Contudo, quando isto se dá, os princípios mais antigos de sistematização que são refletidos nos vários conceitos se cancelam e os "elementos" tomados dos sistemas mais antigos são reinterpretados em termos de um sistema mais elevado e global, isto é, "sublimado". Só podemos

fazer diferença entre os dois tipos de pensamento (científico e histórico-filosófico) prestando atenção a essa diferença fundamental na maneira de construir o sistema; esta é a única maneira de se reconhecer tal diferença. Uma síntese histórica genuína não pode consistir em uma adição nãoperspectivista de fenômenos que aparecem sucessivamente, mas somente em uma tentativa sempre renovada de incorporar as entidades tomadas ao passado a um novo sistema. A evolução atual e historicamente observável do pensamento na Filosofia (como também nas Ciências Culturais a ela relacionadas) mostra um padrão que contrasta, como vimos, com o padrão da evolução nas Ciências Naturais — descrevemos este padrão antes como "dialético", e Scheler agora propõe designá-lo como "crescimento cultural através de entrelaçamento e incorporação de estruturas mentais existentes na nova estrutura" (p. 24). Contudo, o essencial — independentemente de diferenças terminológicas — é que no caso em consideração o pensamento humano é organizado em torno de um novo centro em cada época, e mesmo que o homem "sublime" (no sentido hegeliano de Aufheben) seus conceitos mais antigos através de sua incorporação em sistemas sempre novos, isto implica uma mudança no significado, tornando uma síntese aditiva impossível. Uma vez que se admita que o conhecimento filosófico é essencialmente determinado e limitado a uma civilização específica, não é mais possível supor nada a não ser um sistema dinâmico nessa esfera de

pensamento, pois de outro modo estaríamos lidando com conceitos de um tipo estrutural em termos de uma estrutura diferente. Concedendo-se isto, só o perspectivismo seria possível, isto é, a teoria de que os vários significados essenciais nascem junto com as épocas às quais eles pertencem; esses significados essenciais pertencem a essências que têm rua própria existência num sentido absoluto, mas o estudioso de história somente os pode compreender de uma maneira perspectivista, olhando-os de uma posição que é, ela mesma, um produto da história. Contudo, esse tipo de perspectivismo de forma alguma refuta-se a si próprio, contrariamente ao que Scheler diz na sua crítica de nossa maneira de ver (pp. 115 e segs.), porque — pelo menos na nossa opinião — tanto as várias épocas, como as essências que surgem nelas, têm sua própria existência a despeito de qualquer conhecimento delas que se possa alcançar subseqüentemente. Como dissemos na passagem de nosso ensaio acerca do historicismo citada por Scheler: "O objeto de consideração histórica (o conteúdo, por assim dizer, de uma época) permanece idêntico "em si mesmo", mas às condições essenciais de sua cognoscibilidade pertence o fato de que ele só pode ser apreendido de posições históricointelectuais diferentes — ou, em outras palavras, que só podemos divisar vários "aspectos" dele" (p. 105). As palavras em itálico desta sentença indicam bastante claramente que não é nossa intenção usar o perspectivismo como um meio de dissolver o ser real in se dos objetos da

investigação histórica; sem dúvida, isto seria acertadamente entendido por Scheler como uma maneira de ver que se refuta a si mesma. Então, a essência e a existência "atual" do helenismo não se dissolvem nas várias "perspectivas" abertas por gerações sucessivas de erudição histórica. É, de fato, "dada" como uma "coisa em si mesma", abordada de vários lados, por assim dizer, por interpretações diferentes. Justifica-se nossa colocação dessa existência real do objeto in se, porque mesmo embora nenhuma prespectiva única possa fazer-lhe completa justiça, ele ainda é dado como um controle que podemos usar para não admitir caracterizações arbitrárias. Mencionemos um exemplo pelo qual podemos ilustrar de maneira mais clara o significado do perspectivismo: a consciência humana só pode perceber uma paisagem como paisagem de várias perspectivas; e apesar disso a paisagem não se dissolve nas várias representações pictóricas possíveis. Cada um dos possíveis quadros tem uma contrapartida "real" e pode ser controlada das outros perspectivas a exatidão de cada uma delas. Contudo, isto implica que a história só é visível de dentro da história e não pode ser interpretada através de um "salto" para além da história por se ocupar uma posição estática fora da história. A posição historicista, que começa com o relativismo, eventualmente alcança uma posição qualitativamente absoluta, porque na sua forma final coloca a própria história como o Absoluto; só isto torna possível às várias posições, que primeiramente parecem ser anárquicas, se

As teorias frutíferas passadas são justificadas mesmo em retrospectiva. e. Certamente. porque podem sobreviver como problemas e componentes do sistema mais global em termos do qual pensamos hoje. podemos tão somente fazer conjeturas acerca do padrão total de significado do qual o nosso presente é uma parte.ordenarem como partes componentes de um processo global significativo. cada teoria proclamava sua validade absoluta quando pela primeira vez proposta. De fato. se considerarmos uma época relativamente fechada da história. elas são relativizadas. estamos numa posição de estimar sua potencialidade e verdade relativa. podemos perceber a direção significativa para a qual a linha do desenvolvimento aponta. todavia. Não queremos negar que o historicismo encontre dificuldades — e elas surgem precisamente neste ponto. no que toca aos períodos fechados. Como o futuro é sempre um segredo. Porque enquanto podemos ver o significado. não podemos ver um tal significado de objetivo para o nosso próprio período. Ao mesmo tempo. a direção ao objetivo do desenvolvimento global. tal como o período do início do capitalismo até a emergência dos sistemas capitalistas plenamente desenvolvidos. já que não . Podemos então interpretar todas as "posições" sociológicas e outras "posições" teóricas pertencentes àquela época em termos dessa qualidade de ser dirigida a um objetivo inerente. entretanto. porque podem sobreviver somente como parte de um sistema mais global.

somos todos obrigados a levá-los em conta. é bastante compreensível que cada corrente de pensamento suponha que o significado do objetivo no presente é idêntico às tendências contemporâneas com que cada corrente porventura se identifique.podemos ir além de conjeturas. a história da filosofia de um autor progressista diferirá da de um conservador. Assim. um determinado movimento pode descobrir apenas uma limitada extensão de fatos — aqueles que estão dentro da esfera de sua reflexão — mas desde que estes fatos se tenham tornado visíveis. Disso se segue que cada teoria histórica pertence essencialmente a uma dada posição. Ademais. e assim por diante. Cada um de nós se refere aos mesmos dados e essências. Se persistirmos nessa linha de pensamento. a "fatualidade persistente" dos dados e dos significados essenciais é dissolvida em diversas perspectivas. Naturalmente. . podemos até concluir que épocas tais como as que acabamos de descrever como relativamente fechadas e por conseguinte transparentes quanto ao seu significado de objetivo (como o início do capitalismo) poderiam até certo ponto perder sua definição de significado e tornar-se problemáticas se estivessem inseridas em padrões genéticos mais globais. como vimos no nosso capítulo introdutório. o significado do objetivo futuro da totalidade da história será visto de maneira diferente de acordo com o ponto particular que cada grupo ocupe no processo total. mas isto não significa — ponto este que queremos enfatizar — concretismo total.

assim. mudam seu significado. Eles são "persistentes" no sentido de que constituem um controle que podemos usar para eliminar construções arbitrárias.compreendemos. e "dados" históricos só se tornam "fatos" históricos por estarem inseridos dentro de . Mas não são "persistentes" no sentido de que podem ser apreendidos fora de qualquer sistema. como um resíduo metafísico que não constitui preocupação da ciência positiva. Pode-se perguntar neste ponto por que não nos contentamos com um simples registro desses fatos que nós próprios reconhecemos como persistentes — como o positivismo quereria.. por que não eliminamos essas "totalidades de significado" e os acréscimos à simples fatualidade. somente os quais podem levar ao perspectivismo. cada um tem todas as razões para supor que nos movemos em um meio de realidade. todos experimentamos a "persistência" controladora dos dados. só podemos apreendêlos dentro do quadro de referência de um significado. de acordo com o sistema dentro do qual são usados. olhando as coisas de nossa perspectiva. "proletariado" etc. e eles mostrarão um aspecto diferente. e não importa qual seja a nossa perspectiva. Nossa resposta é a de que há algo peculiar acerca da "persistência". e por isso podemos negar todo ilusionismo. em isolamento. da "positividade" de tais "fatos". sem referência a significados. a possibilidade e a necessidade de outras perspectivas. Ao contrário. dependendo do padrão de significado dentro do qual são apreendidos. Termos tais como "capitalismo".

Toda metafísica que emerge após a supremacia do positivismo terá que incorporar e "sublimar" de alguma forma esses . como sendo absolutamente válida. em virtude dos quais êle marcou um real progresso na história do pensamento. Contudo. isto é. Nós. e na nossa opinião é muito mais frutífero reconhecer esse estado de coisas do que ignorá-lo. O positivismo podia esconder com sucesso de si mesmo seu próprio quadro de referência de significados apenas porque cultivava nada mais do que a pesquisa especializada num ou noutro campo. como foi afirmado acima. uma metafísica particular. isto só podia ser suposto porque se passava por cima do fato da história positivista da cultura ingenuamente tomar apenas um sistema de significados. já podemos ver que pelo menos as Ciências Culturais e Históricas pressupõem metafísica. já não existe mais. nessas circunstâncias ninguém podia notar o fato dos pressupostos metafísicos serem baseados sobre uma visão global e sobre uma Filosofia da História tanto quanto os das escolas nãopositivistas. Aquela época despreocupada e segura de si mesma do positivismo.um processo evolucionário como "partes" ou "estágios". por outro lado. um incremento que torna aspectos parciais em totalidades. na qual era possível supor que se podia asseverar "fatos" sem qualificá-los. embora somente pensadores daquela época pudessem aceitá-los como não-problemáticos. isto não significa que não sejamos afetados por aqueles aspectos do positivismo que são "genuínos".

permanece válido para o nosso pensar. no campo da política.g. não pode fazer completa justiça ao que é essencialmente novo e genuíno no positivismo. Este componente "genuíno". A transição em questão significa que. é designada pelo termo "Realpolitik". de sua intenção metafísica. que essa antítese entre "imanência" e "transcendência" é ela própria ainda expressa na terminologia da velha atitude vital e.elementos "genuínos" do positivismo. Estes termos sugerem que certas esferas da vida (e. Deve-se notar. economia) ocupam cada vez mais o centro da experiência e fornecem as categorias fundamentais em termos das quais todas as outras esferas são vivenciadas. contudo.. O que chamamos o respeito positivista pela realidade empírica representa um segundo principio positivista que. mais do que a "transcendência". na nossa experiência. não mais significa para nós . e no da arte. por conseguinte. a ênfase ontológica se situa sobre o "mundano". não é oriundo da posição epistemológica e metodológica do positivismo. eremos. mas. pelo termo "realismo" — uma transição que deixou sua marca tanto sobre o pensamento conservador quanto o progressista. do sentimento vital do qual é expressão teórica. Esse respeito pela realidade empírica (que. contudo. O estilo positivista de pensamento marca na história das disciplinas teóricas a mesma transição gradual que. por mais paradoxal que possa parecer. Procuramos a origem de todos os conceitos "transcendentes" apenas nessa experiência "imanente". a "imanência". todavia.

Possivelmente foi Hegel quem deu o mais fundamental passo em direção ao verdadeiro positivismo quando identificou a "essência". Todos os tipos essenciais das novas metafísicas sofrem a marca desse processo de transformação que resulta em uma elevação constante e segura da posição ontológica do "imanente" e "histórico". tal como encontradas dentro da história. Também concordamos que o conhecimento fatual . Concordamos plenamente com Scheler em que a metafísica não foi e não pode ser eliminada da nossa concepção de mundo. Ainda que as suas proposições pormenorizadas não possam ser aceitas. sua posição geral é a mais próxima de nossa orientação imediata. com o processo histórico e ligou o destino do absoluto ao da evolução do mundo. e que categorias metafísicas são indispensáveis para a interpretação do mundo histórico e intelectual.a crença em uma interpretação não-metafísica dos fatos mentais) consiste em não se poder conceber as entidades metafísicas fora de um contato essencial com aquele reino da experiência que representa para nós a realidade última do mundo. exceto da transformação empiricamente comprovada da estrutura das várias esferas de pensamento. Não reivindicamos ser capazes de fazer quaisquer deduções referentes à estrutura da verdade e da validade. Esta é a principal razão pela qual não podemos aceitar nenhum "salto" para além da realidade — nem mesmo em conexão com a construção de um reino preexistente da verdade e da validade. o "absoluto".

Esse dualismo de "fato" e "essência" é completamente paralelo ao da Ciência Histórica e da Filosofia da História. Há uma tendência geral de se fazer uma separação definida entre estas duas disciplinas. mas não admitimos uma separação abrupta dos dois — o que pensamos é antes que o conhecimento essencial apenas vai mais longe e mais fundo na mesma direção tomada pelo conhecimento fatual. a maneira de ver correta é que uma boa parte da "Filosofia da História" já está entranhada nos vários conceitos que usamos ao caracterizar fatos particulares — conceitos estes que desempenham um papel considerável na determinação do conteúdo da ciência "empírica". negar que são diferentes. na nossa opinião. qualitativa e hierarquicamente. Não nos devia surpreender que na tentativa de caracterizar a posição da qual pode ser construída . Somos de certa maneira guiados por um "plano". mas.e o conhecimento essencial representam duas diferentes formas de conhecimento. Supor tal continuidade e interpenetração desses dois tipos de conhecimento não significa. O que objetamos é simplesmente o "salto" entre os dois mundos que separa completamente suas respectivas estruturas — uma concepção obviamente inspirada pela idéia de conhecimento baseado em revelação. um "quadro de referência inteligível" da história sempre que colocamos dentro de um contexto o fato particular aparentemente mais isolado. contudo. Parece-nos que uma passagem do conhecimento fatual empírico para a intuição de essência se está processando continuamente.

o problema com o qual nos defrontamos é precisamente quão longe o tratamento científico empírico de um problema é influenciado pela posição filosófica. ele é compelido a introduzir a "contingência" dos fatores sociológicos como um artifício posterior dentro de seu quadro de referência imóvel e supra-temporal. isto é. Um abismo . tivéssemos que chegar a tais pormenores. discutindo pressupostos filosóficos. O confronto das divergências entre a nossa concepção da Sociologia do Conhecimento e a de Scheler pode ter esclarecido que ambos nos preocupamos com a mesma tarefa. pela metafísica do investigador. na prática. imutável (uma posição que. Afinal. Este é o fato que nos coloca a incumbência de desenvolver uma Sociologia do Conhecimento e da Cultura. todas as quais podem ser atribuídas a uma posição social definida. a tarefa implicada no fato de se poder interpretar os produtos mentais não apenas diretamente quanto ao seu conteúdo. Esta tarefa está sendo atacada de várias posições filosóficas.uma Sociologia do Conhecimento. sempre resulta em se reivindicar validade eterna para nossa própria perspectiva histórica e sociologicamente determinada). Mas é impossível incorporar os fatores históricos e sociológicos organicamente dentro do nosso sistema. se esta abordagem "de cima" é adotada. sistemáticos. mas também indiretamente em termos de sua dependência da realidade e especialmente da função social que desempenha. Uma vez que o ponto de vista filosófico de Scheler postula um sistema de verdades supra-temporal.

prestar contas as mais exatas possíveis das posições intelectuais que coexistem num dado momento. Isto implica. a cada momento. de que maneira cada uma das utopias. Mais longe ainda. que pedem interpretação e podem levar a uma desintegração ou modificação dos sistemas previamente existentes. fazer-se uma tentativa para aumentar a "racionalidade" no mundo sóciointelectual de uma maneira específica. Seguimos na direção oposta: para nós. A tarefa . o que é dado de imediato é a mudança dinâmica de posições. como tarefa inicial para a Sociologia do Conhecimento. permanecendo imutáveis do começo ao fim. Existe um conteúdo de verdade determinado existencialmente no pensamento humano a cada estágio de seu desenvolvimento. e também cada uma das imagens da história passada ajudaram a moldar a época na qual emergiram. ao contrário. pois até as posições individuais como tais não são "estáticas". o fluxo inexorável do processo histórico traz dados sempre novos à superfície. Queremos concentrar nossa atenção sobre isto e explorar qualquer oportunidade que se ofereça para superar o relativismo. em retrospectiva. na direção imposta pelo próximo passo evolutivo. e de retraçar seu desenvolvimento histórico. o elemento histórico. um dos aspectos importantes da evolução das posições intelectuais é a contribuição que elas trazem ao processo evolucionário global dentro da sociedade. É possível mostrar.intransponível separará então a história do supratemporal. isto consiste em.

No que toca a processos em desdobramento. contudo.seguinte dessa Sociologia da Cognição (como deveria ser chamada de direito) consiste em estudar e explicar esse papel funcional do pensamento social e existencial nos vários estágios do processo real. a dúvida é quão longe somos capazes de apreender o objetivo evolucionário que pode ser visto num dado momento. com o da natureza desse significado unitário do processo como um todo. o objetivo ainda não é dado. como o dissemos — na medida em que se apresenta como uma Gestalt acabada. A suposição metafísica aqui implicada (e queremos enfatizar que nossa teoria realmente pressupõe tal suposição) é que o processo global dentro do qual as várias posições intelectuais emergem é um processo significativo. A este respeito. Já indicamos uma resposta para essa dúvida: na medida em que uma época já está terminada — naturalmente pode-se dizer terminada apenas no sentido relativo. já que são parte de um processo global significativo. estamos totalmente in statu nascendi e nada vemos a não ser o choque de aspirações antagônicas. Todo o problema da verdade "absoluta" coincidirá. Nossa própria posição intelectual está localizada dentro de uma dessas colocações rivais. podemos especificar o papel funcional dos padrões de pensamento relativo ao objetivo ao qual o processo evolucionário se tem orientado. então. Posições e conteúdos não se sucedem de uma maneira totalmente aleatória. só podemos ter uma visão . e não pode ser dito existir in se ou de alguma maneira pré-existente. conseqüentemente.

como resultado de sua função existencial ser diferente em cada caso — uma vez que nos tenhamos capa- .parcial e perspectivista do que se está desdobrando e também do passado. nada mais é do que a hipostatização do padrão estrutural de uma concepção estática da verdade. a alguém que creia em um sistema de verdades. já foi enfatizado. Uma vez que se reconheça que um "diálogo" desse tipo não pode ter lugar dessa maneira simples. não podemos nem mesmo visar tal posição absolutista que. ao cabo. então. na medida em que a interpretação do passado depende da interpretação do processo em desenvolvimento. Estamos prontos a admitir que uma doutrina absolutista no velho sentido não pode ser desenvolvida a partir dessas premissas sem um "salto" e uma hipostatização de nossa própria posição. Que isto não leva necessariamente a um ilusionismo. como Scheler concebe. só pode ocorrer. só se pode ainda crer numa "verdade in se" estática enquanto se deixar de reconhecer que não é um sistema único que está sendo gradualmente construído no processo histórico-cultural como no caso do sistema da Ciência Matemática e Natural. mesmo como uma fantasia utópica. Mas. à negação da realidade do processo histórico. se por nenhuma outra razão ao menos porque toda palavra tem um significado diferente em culturas diferentes. Na nossa opinião. o pensamento constantemente toma como ponto de partida idéias centrais novas e sempre mais amplas. Dentro do processo histórico. A própria idéia de um "diálogo sublime" dos espíritos de todas as idades.

apegada a um sistema estático. Isto será refletido na "finitude". de uma forma "sublimada". ao menos porque a situação real que provocaria tal síntese ainda não se materializou. seja . Então. podemos acreditar que eventualmente será encontrada uma idéia sistemática central. que levaram até ela. podemos no máximo chegar à crença — por extrapolação da posição estrutural hoje observada — que a rivalidade atual dos sistemas e posições antagônicos. Assim. e suas tentativas de incorporar as posições rivais dentro de si mesmos. como crença "utópica". ele pode no máximo conceber. Nossa "utopia" de síntese total final é superior àquela de uma verdade estática preexistente porque foi derivada da estrutura atual do pensamento histórico. indicam uma tendência inerente de todo pensamento humano a dar contas de toda a realidade. que permitirá de fato uma síntese do processo inteiro. a idéia que cada época contenha em si mesma. as tensões do processo histórico inteiro. Até onde podemos ver. enquanto a última reflete uma mente não-histórica. Mas não podemos supor que essa grandiosa síntese seja preexistente — se por nenhuma outra razão. se extrapolamos. na limitação às perspectivas parciais do pensamento atual. a realidade é sempre mais ampla do que qualquer das posições parciais que ela produz.citado disso. Poderíamos começar dessas premissas e ainda assim superar o relativismo por um "salto". uma tendência que deixa de alcançar seu objetivo enquanto não se descobrir um princípio sistemático globalizante.

por êle proclamar sua própria posição como fase final da dinâmica inteira (como Hegel o fez), seja por supor que o pensamento não seria mais existencialmente determinado no futuro. Todavia, isto resultaria numa "reestabilização" de uma concepção originalmente dinâmica. Uma vez que isto tome uma colocação absolutista vis-à-vis à história, o pensamento de fato se torna estático; o dinamismo não pretende reconhecer que a história é mutável, mas aceitar que nossa própria posição não é menos dinâmica que as outras. Para uma concepção radicalmente dinâmica, a única solução possível é reconhecer que nossa própria posição, embora relativa, constitui-se no elemento de verdade. Ou, para caracterizar a diferença entre a solução de Scheler e a nossa por uma metáfora, poderíamos dizer: segundo nossa maneira de ver, o olho de Deus está sobre o processo histórico (isto é, ele não é destituído de significado), enquanto a de Scheler certamente implica que ele olha o mundo com os olhos de Deus. Uma simples análise estrutural das duas doutrinas mostra que nenhuma delas pode superar totalmente as antinomias que lhe são inerentes. Scheler, que põe o absoluto no começo, nunca chega a alcançar o dinâmico (ele não pode transpor o abismo entre o estático e o dinâmico); a outra concepção, que começa com o deslocamento fatual de uma posição por outra, não pode alcançar o absoluto — pelo menos, não da maneira segura de si mesma que era peculiar outrora a um tipo de pensamento estático. Mas enquanto o reconhecimento da parcialidade de cada posição, e

especialmente da dele mesmo, faria a teoria de Scheler auto-contraditória, tal reconhecimento não só não leva a uma contradição interna na nossa teoria e Sociologia do Conhecimento, mas também constitui para ela uma instância confirmatória. Já que a soma global do conhecimento existente num dado momento nasce em dependência muito estreita do processo social real, enquanto o próprio processo se aproxima da totalidade através da antítese e da confusão, não é surpreendente que só pudéssemos descobrir diretamente correntes intelectuais parciais postas umas às outras e só definir a totalidade como a soma destas correntes parciais antagônicas. "Onde várias filosofias emergem simultaneamente", diz Hegel, "temos que nos contentar com aspectos distintos que, reunidos, constituem a totalidade subjacente a todas, e é somente por causa da sua parcialidade que só podemos ver numa a refutação da outra. Ademais, elas não só especulam acerca de pormenores, mas cada um propõe um novo princípio; é isto que temos de encontrar."" Até aqui, em toda esta discussão, tentamos focalizar nossa atenção sobre os princípios últimos mais amplos cujas divergências mútuas não representam "especulação acerca de detalhes", mas ilustram as soluções conflitantes do problema particular que se nos apresenta, e que podem ser alcançadas de posições de fato atualmente existentes. Nossa próxima tarefa é mostrar como os problemas de uma Sociologia do Conhecimento podem ser tratados da posição dinâmica que representamos.

4. A Sociologia do Conhecimento a Partir da Posição Dinâmica Pensamos que a constelação presente é favorável ao desenvolvimento de uma Sociologia do Conhecimento, porque os insights esporádicos na estrutura social do conhecimento obtidos no período inicial têm-se multiplicado rapidamente nos tempos modernos, e alcançaram agora um estágio em que um tratamento sistemático, ao invés de esporádico e casual, se torna possível. E precisamente porque esta "casualidade" está agora sendo mais e mais superada, centra-se cada vez mais atenção nas premissas filosóficas subjacentes aos achados de detalhe — premissas até agora não diretamente exploradas. No momento, até eruditos dedicados a estudos especializados estão conscientes dessa tendência para fechar o círculo sistematicamente. O ensaio de Scheler é valioso principalmente porque apresenta um plano global, um esboço abrangendo várias disciplinas; e beneficiou-se do fato do autor ser filósofo e ao mesmo tempo sociólogo. O trabalho no campo da Sociologia do Conhecimento só pode ser frutífero se as premissas filosóficas e metafísicas de cada autor forem abertamente reconhecidas, e se os autores possuírem a habilidade de observar o pensamento tanto "de dentro", em termos de sua estrutura lógica, quanto "de fora", em termos de seu condicionamento e função sociais. Agora tentaremos indicar como uma Sociologia do Conhecimento sistemática pode ser desenvolvida

Em vários campos (político. moral etc. porque a mudança e crescimento interno das várias posições contêm para nós toda a substância do pensamento. o que resta fazer é analisar também os problemas metodológicos relevantes. Se adotarmos uma concepção dinâmica de verdade e de conhecimento. mas esses esforços atingirão sua culminância. Isto. Todo o esforço será concentrado sobre este ponto único. a plena realização de seu significado. o qual tem sido extremamente frutífero tanto no que diz respeito aos métodos como no que toca aos resultados. A análise sociológica do pensamento. procedida até aqui apenas de maneira fragmentária e casual. econômico. estético.) a história das idéias mostra-nos uma variedade extrema de elementos de pensamento cambiantes. Já esboçamos os princípios básicos de nossa abordagem. agora se torna o objeto de um programa científico global que permite uma divisão do trabalho. já que foi decidido examinar-se o produto intelectual de cada período e descobrir em que posições e premissas sistemáticas se baseava o pensamento em cada caso.baseando-se numa concepção dinâmica. o problema central de uma Sociologia do Conhecimento será o da gênese socialmente condicionada das várias posições que englobam os padrões de pensamento disponíveis em cada época determinada. o primeiro problema maior de uma Sociologia do Conhecimento. apenas quando tivermos notícia não só acerca de conteúdos . pode ser atacado conjuntamente com o trabalho feito no campo da "história das idéias". filosófico.

freqüentemente apenas implícitas. Realmente vemos um início desse tipo de análise (e. e definir o tipo de sistema a que pertencem esses padrões de pensamento com a maior precisão lógica e metodológica possível hoje em dia. temos oportunidade de apontar uma limitação da história das idéias — sua análise é feita em termos de "épocas". e assim sobreviver sob novas condições. se for suplementada por uma análise estrutural histórica dos vários centros de sistematização que se sucedem de forma dinâmica. sobre as quais uma determinada idéia se baseou em sua forma original — para ser mais tarde modificada a fim de satisfazer a um conjunto diferente de premissas. Isto é: a história das idéias só pode alcançar seu objetivo. mas também acerca das premissas sistemáticas. e apenas se levaria essas idéias às suas últimas conseqüências lógicas se se fizesse um esforço sistemático para desnudar os axiomas últimos subjacentes ao pensamento "romântico" e "iluminista" respectivamente. g. contudo. em trabalhos fazendo distinção entre o "romantismo" ou o "iluminismo" como climas vitais diferentes dando origem a modalidades diferentes de pensamento). tanto as "nações" como as "épocas" são muito pouco diferenciadas para servir como base de referência .mutáveis de pensamento. que é dar conta do processo inteiro da história intelectual de uma forma sistemática. Isto significaria apenas que se utilizaria para análise histórica a precisão lógica que é característica do nosso tempo. De um ponto de vista sociológico.. Já neste ponto.

O historiador sabe que uma certa época somente parecerá dominada por apenas uma corrente intelectual. não obstante. para nos capacitarmos de que estamos lidando aqui com ramos separados da evolução. Ambos os problemas têm que ser trabalhados por uma história de idéias sistemática. estão relacionados entre si por alguma lei superior. ao fato de que toda vez que o romantismo faz um novo avanço sempre leva em consideração o status do pensamento racionalista dominante e simultaneamente existente. mesmo quando uma está vitoriosa. veremos cada época dividida entre várias correntes. no máximo. É bastante pensar no ritmo peculiar com que fases "racionalísticas" e "românticas" constantemente se sucederam durante o mais recente período da história européia. prontas para reemergir e se reconstituir num nível mais alto quando for tempo azado. como primeiro capítulo de uma Sociologia do Pensamento. por exemplo. Penetrando mais fundo no pormenor histórico. pode acontecer. Nenhuma corrente é jamais completamente eliminada. Contudo. que. não só as duas escolas . Pois não se pode fazer vista grossa. não é suficiente reconhecer esta evolução em ramos separados. quando temos uma visão perfunctória dela. que uma destas correntes alcance dominância e relegue as outras a um segundo plano.à descrição do processo histórico. todas as outras que pertencem a um ou outro setor social continuarão a existir em segundo plano. também devemos levar em consideração a maneira pela qual as correntes principais sempre se ajustam entre si.

da mesma maneira que a vida intelectual mostra uma variedade de correntes. não se pode duvidar que qualquer tipo mais elevado de sociedade é composto de vários estratos diferentes. Não obstante. Afinal. Também em relação a isso. se não fôssemos mais longe. A primeira tarefa. Esse trabalho sistemático preliminar na história de idéias só pode levar a uma Sociologia do Conhecimento quando examina o problema de como as várias posições intelectuais e "estilos de pensamento" estão enraizados numa realidade histórico-social subjacente. na nossa opinião seria um erro considerar a realidade. será descobrir se há uma correlação entre as posições intelectuais vistas em imanência e as correntes sociais (posições sociais). E a dinâmica global da sociedade é uma resultante de todos os impulsos parciais emanados desses estratos. é um erro igualmente grande conceber a realidade subjacente ao processo ideológico como uma unidade homogênea. a realidade social. na nossa própria sociedade. como uma corrente unitária. A descoberta dessa correlação é . para dominar a nova situação. então.aprendem uma da outra como até tentam elaborar uma síntese ainda mais ampla. Se dentro da história das idéias é um procedimento muito indiferenciado tomar as épocas como unidade. uma análise puramente imanente da gênese das posições intelectuais ainda não passa de uma história de idéias. Por mais sistemática que seja. nunca produziríamos uma Sociologia do Conhecimento. a estratificação pode ser melhor descrita como estratificação de classe.

ter o cuidado de renunciar a toda metafísica materialista e de excluir (ou reduzir ao elemento de verdade nelas contido) todas as considerações propagandísticas. e a burguesia outra. Primeiramente. A descrição imanente da gênese das posições intelectuais pode ainda ser considerada como a continuação do trabalho do historiador de idéias. Contudo. nitidamente separada da primeira. por conseguinte. devemos. de fato. Embora o problema esboçado acima tenha sido primeiramente formulado em termos da filosofia marxista da história. a história da estratificação social pode ainda ser vista como parte da história social. desenvolvida num espaço intelectual fechado. o proletariado tivesse uma ciência própria. como também aquelas atitudes relacionadas à intenção polêmica original da Sociologia. é importante precisamente neste ponto eliminar o naturalismo. por exemplo. Mas a combinação desses dois campos de investigação introduz uma abordagem especificamente sociológica. até a mais superficial vista de olhos nos dados históricos mostrará que é impossível identificar qualquer determinada posição intelectual com um determinado estrato ou classe — como se. certo elemento de verdade). Esse grosseiro exagero propagandístico pode conduzir tão somente a uma super simplificação incorreta da história. .a primeira tarefa específica da Sociologia do Conhecimento. temos que suspender a crença até nos assegurarmos de quanto de verdade ela contém (pois contém. ao estudálo.

Contudo. porque concentra primordialmente a atenção sobre a forma de condicionamento social das idéias que é representada pela motivação de interesse. como é feito por uma história de idéias sistemática. a de uma atitude intelectual ser ditada por um interesse material. esta motivação por interesse não é a única correlação que pode existir entre um grupo social e suas posições intelectuais. seja para propagar. e admitimos que só pode ser desejável desmascarar tais atitudes. A pesquisa ideológica socialista é parcial. seremos forçados ou a restringir a análise sociológica àquelas partes da superestrutura que manifestamente mostram "cobertura" ideológica . Não negamos que certas posições intelectuais podem ser adotadas e promovidas porque são úteis. mas devem ser postas em correlação com certas tendências incorporadas pelos estratos sociais. mostra que elas não pairam no ar ou se desenvolvem e se ramificam puramente de dentro. É porque a fase inicial da pesquisa ideológica era somente motivada por um "desmascaramento".Até o exame imanente das várias posições intelectuais e cognitivas. De início. que ser "ditado por um interesse" era a única forma de condicionamento social de idéias reconhecida. A época naturalista do marxismo reconhecia apenas uma possível correlação entre a realidade social e os fenômenos intelectuais: a saber. este "pôr em correlação" apresentará certa dificuldade para os sociólogos. Se a categoria de "interesse" é reconhecida como a única "relação existencial" implicada em idéias. seja para esconder interesses de grupos.

de interesse ou. se sem embargo desejarmos analisar toda a superestrutura em termos de sua dependência da realidade social. Assim. teremos que definir o termo "interesse" tão amplamente que êle perderá seu sentido original. mas são desenvolvidas por certos grupos como resultados de fatores histórico-sociais. Na nossa opinião. Isto pode ser facilmente levado a efeito através de uma demonstração fenomenológica do fato da motivação por interesse ser apenas uma das muitas formas possíveis pelas quais a adoção de certas atitudes por uma psique pode ser condicionada pela experiência social. é uma das características mais marcantes da história . e combiná-la com o trabalho contemporâneo executado no campo da história das idéias. nenhum dos dois caminhos conduz ao objetivo. essas entidades também não pairam no ar. No caso de idéias mantidas por interesse direto. podemos falar de "interesse". pode acontecer que professemos certa teoria econômica ou certas idéias políticas porque estão em harmonia com nossos interesses. De fato. não obstante. a primeira tarefa é superar a parcialidade de reconhecer na motivação por interesse a única forma de condicionamento social de idéias. Mas seguramente nenhum interesse imediato está envolvido na escolha de um certo estilo artístico ou de pensamento. para designar a relação mais indireta entre o sujeito e aquelas outras idéias podemos usar a expressão paralela "comprometimento". Se queremos ampliar a pesquisa ideológica transformando-a numa Sociologia do Conhecimento.

contudo. Dessa maneira. a pesquisa sociológica que visa à elucidação da configuração total da vida intelectual não emulará esta abordagem grosseira. ela reexaminará cada passo postulado por esse método. e é a esta que devemos recorrer na maioria dos casos quando queremos precisar a relação entre os "estilos de pensamento" e as "posições intelectuais". artísticas. que lhe correspondem.. por outro. ansiosa para salvar o elemento de verdade da filosofia marxista da história. então. Enquanto o método do marxismo "vulgar" consiste em associar diretamente até os produtos mais esotéricos e espirituais da mente com interesses econômicos e de poder de uma certa classe. como caso parcial quando comparado com a categoria geral de "compromisso". em determinado universo intelectual. pelo menos quanto à sua origem. A motivação por interesse surge. Quando um grupo está diretamente interessado em um sistema econômico está indiretamente "comprometido" com as demais formas intelectuais. o "comprometimento" indireto com determinadas formas mentais é a categoria mais global no campo do condicionamento social das idéias. Ter-se-á um começo no sentido de tal revisão se houver a decisão de só se usar a categoria de motivação por interesse quando . e a realidade social. filosóficas etc. de tal maneira que os que buscam uma determinada ordem econômica também buscam uma visão intelectual a ela correlata.que um determinado sistema econômico esteja sempre inserido. por um lado.

e não onde um mero "compromisso" com uma Weltanschauung existir. contudo. então. é englobado por um sistema de atitudes que. a Sociologia deva examinar o homem como um todo. por sua vez. como o próprio dele. a categoria do interesse for elevada ao grau de um princípio absoluto. Não podemos relacionar . mostrar que um determinado estilo de pensamento. uma posição intelectual. Assim. perguntar quais os grupos sociais que estão "interessados" na emergência e manutenção desse sistema econômico e social e ao mesmo tempo "comprometidos" com a visão de mundo correspondente. uma obra de arte etc. o resultado só poderá ser a redução do papel da Sociologia ao de reconstruir o homo economicus. com efeito. caracterizada pela predominância da abordagem da Economia clássica. pode ser visto como estando relacionado a um determinado sistema econômico e de poder. Neste ponto podemos lançar mão do nosso próprio método sociológico que nos ajudará a reconhecer esta aplicação exclusiva da categoria de interesse como determinada ela mesma por uma certa constelação histórica. não obstante. embora. Podemos. Se..realmente se puder ver os interesses em ação. baseado em uma análise de interesse. não podemos atribuir a um grupo um estilo de pensamento. podemos. Assim. a construção de uma Sociologia do Conhecimento só pode ser empreendida tomandose um caminho indireto através do conceito de sistema total de uma visão de mundo (através da Sociologia Cultural).

diretamente uma posição intelectual com uma classe social. que sendo novos. desestruturada. o que podemos fazer é descobrir a correlação entre o "estilo de pensamento" subjacente a uma dada posição e a "motivação intelectual" de um certo grupo social. não são apenas interesses que combatem interesses. mas postulados sobre o mundo lutam com postulados sobre o mundo. porque estes vários "postulados sobre o mundo" (dos quais os diversos estilos de pensamento são meros aspectos parciais) não se confrontam de uma maneira arbitrária. No processo histórico. há sempre outros estratos cujo ambiente espiritual é um ou outro estágio passado de evolução. apenas surgindo. antes. Uma vez que os diferentes estratos estão "interessados em" e "comprometidos com" diferentes ordens e postulados sobre o . buscando compreender como está inserida na história do processo real. Este fato é sociologicamente relevante. e ainda outros. portanto. ainda não se tornaram autônomos e. Se examinarmos a história do conhecimento e do pensamento tendo em mente tais dúvidas. cada postulado está ligado a um certo grupo e se desenvolve dentro do pensamento daquele grupo. é apenas um estrato que está interessado em manter o sistema social e econômico existente e portanto se apega ao estilo de pensamento correspondente. social. então acharemos a cada momento não só grupos antagônicos a se combater como também um conflito de "postulados sobre o mundo" (Weltwollungen) opostos. A cada momento. colocam sua fé no futuro.

O que devemos lembrar é que nem o racionalismo nem o irracionalismo (particularmente nas suas formas atuais) são tipos eternos de tendências intelectuais. respectivamente. reacionário. se um certo estrato é progressista. Na medida em que a orientação fundamental do progresso econômico e intelectual progride. e que um certo estrato não é sempre progressista e conservador. estas só serão frutíferas se as atribuições não forem feitas num sentido estático — e. conservador. estratos que .. sendo algumas coisas do passado e outros estando apenas emergindo.mundo. de posteriormente correntes contrárias aliarem-se ao irracionalismo. no mesmo sentido. Pode-se demonstrar melhor que um "estilo de pensamento" pode estar associado à emergência de um determinado estrato social pelo fato do racionalismo moderno (como repetidamente indicamos) estar ligado aos postulados sobre o mundo e às aspirações intelectuais da burguesia ascendente. podemos fazer análises de correlações entre os estilos de pensamento e os estratos sociais — contudo. g. "Conservador" e "progressista" são atributos relativos. e de uma conexão semelhante existir entre o romantismo e as aspirações conservadoras. sempre depende da direção na qual o processo social se está movendo. por identificação do racionalismo com pensamento progressista e do irracionalismo com reacionário. é óbvio que os conflitos de valor permeiam todos os estágios da evolução histórica. Partindo de tais insights. pior ainda. em toda constelação que se possa conceber. ou.

Max Weber procura fazer um relato completo da grande variedade da estratificação social.1 Por conseguinte.começaram sendo progressistas se podem tomar conservadores depois de terem realizado sua ambição. estabelecer um paralelismo histórico entre as posições intelectuais e os estratos sociais assim definidos. temos que introduzir um conceito intermediário para efetuar a correlação entre o conceito de "classe". Portanto. Mas é impossível. devemos distinguir entre estratificação intelectual e social. mas devemos fazer ainda outra distinção se queremos fazer justiça à enorme variedade da realidade histórica. Ao estabelecermos correlações entre os produtos da mente e os estratos sociais. já nesta altura. cada posição. definido em termos de papéis no processo de produção. . Podemos definir os estratos sociais de acordo com o conceito marxista de classe. e o de "posição intelectual". Com "estrato intelectual" queremos dizer um grupo de pessoas pertencentes a uma determinada unidade social e partilhando de 1 Em Wirtschaft und Gesellschaft. A diferenciação no mundo da mente é grande demais para permitir a identificação de cada corrente. na nossa opinião. com uma determinada classe. evitar interpretar tais conceitos relativos como características eternas. em termos de seu papel no processo de produção. estratos que num dado momento desempenhavam um papel principal subitamente podem-se sentir impelidos a fazer oposição à orientação dominante. é importante. Este conceito intermediário é o de "estratos intelectuais".

podemos perguntar que "estratos sociais" a eles correspondem. e procurar os grupos sociais que advogam cada um. o estilo artístico "postulado" por eles)2 que num dado momento estão "comprometidos" com um determinado estilo de pensamento teórico e de atividade econômica. só quando esses "estratos intelectuais" são especificados. O proletariado (para mostrar o reverso da correlação com que estamos lidando) constitui uma classe.determinado "postulado sobre o mundo" (do qual podemos mencionar. Sozialismus und Soziale Bewegung. o sistema econômico.a edição. obviamente. não se deve contentar em abordar esse assunto de seu ponto de vista doutrinal. mas esta classe social está dividida quanto aos 2 Esta "postulação" não é um "querer" refletidamente consciente. aos tipos de Weltanschauung progressistas. o sociólogo da cultura. a se combaterem. 1.3 Devemos primeiro identificar os vários "postulados sobre o mundo". Só podemos compreender a transformação das várias ideologias baseados nas mudanças da composição social do estrato intelectual correspondente a elas. estão unidas numa visão "conservadora". p. 3 Num contexto puramente econômico. O mesmo se aplica. Riegl. cf. num dado momento. é possível especificar os grupos de pessoas que. Assim. e partilham de um conjunto de idéias comuns que atravessam um processo incessante de transformação. sistemas de Weltanschauung. . inconsciente. contudo. W. 8. mas uma orientação latente. Sombart define "classe social" de maneira análoga. análoga ao "motivo de arte" {Kunstwollen) de A. o sistema filosófico. mas deve também se perguntar que "classes sociais" compõem tal "estrato intelectual". como partes.

"postulados sobre o mundo" de seus membros, como é claramente mostrado pelo fato do proletariado se filiar a vários partidos políticos diferentes. O único ponto de interesse para o sociólogo é este: que tipos de postulados progressistas do mundo existem num dado momento, quais são os estratos intelectuais progressistas adeptos deles, e que estratos sociais dentro do proletariado pertencem a estes vários estratos intelectuais? A função peculiar desse conceito intermediário, o de "estrato intelectual", é tornar possível uma coordenação de configurações intelectuais com grupos sociais, sem tirar a nitidez da diferenciação mais interna, seja do mundo da mente, seja da realidade social. Além disso, temos que levar em consideração o fato de que em nenhum momento da história um estrato produz, por assim dizer, no ar, como algo puramente inventado. Tanto os grupos conservadores como os progressistas de vários tipos herdam ideologias que de alguma forma existiram no passado. Grupos conservadores recaem sobre atitudes, métodos de pensamento e idéias de épocas remotas e adaptam-nos às novas situações; mas os grupos recém-emersos também tomam inicialmente idéias e métodos já existentes, de tal maneira que um corte transversal das ideologias rivais a se combaterem num determinado momento também representa um corte transversal através do passado histórico da sociedade em questão. Se, contudo, focalizamos nossa atenção exclusivamente sobre este aspecto de "herança" do assunto, e tentamos reduzir a êle

a relação total entre realidade social e o processo intelectual, obteremos um tipo completamente errôneo de historicismo. Se olhamos o processo de evolução intelectual e o papel dos estratos sociais deste processo unicamente por esse ponto de vista, de fato parecerá que nada aconteceu exceto o desdobramento das potencialidades de antemão dadas. Contudo, é meramente uma peculiaridade da concepção conservadora do historicismo interpretar-se a natureza contínua de todos os processos históricos como implicando que tudo tenha sua origem em algo temporalmente precedente. A variante progressista do historicismo olha o processo da evolução do ângulo do status nascendi. Só esta perspectiva permite ver que até motivos e aspectos simplesmente retirados de um predecessor sempre se transformam em algo diferente devido a esta própria passagem, apenas porque seu patrono é diferente, e os relaciona a uma situação diferente. Ou, colocando mais sucintamente: a mudança de função de uma idéia sempre implica uma mudança de significado — isto sendo um dos argumentos mais essenciais em favor da proposição da história ser um meio criador de significados e não apenas um meio passivo no qual significados preexistentes, contidos em si mesmos, realizam-se. Dessa maneira, devemos acrescentar à nossa lista de categorias este conceito central de toda Sociologia da Cultura e do Pensamento, o de "mudança de função"; pois que, sem isto, não poderíamos produzir nada mais do que uma simples história de idéias.

Todavia, distinguiremos dois tipos de mudança de função: uma imanente e. uma sociológica. Falemos de uma mudança imanente de função (no reino do pensamento, para mencionar apenas um dos campos em que este fenômeno pode ocorrer), quando um conceito passa de um sistema de idéias para outro. Termos como "ego", "dinheiro", "romantismo" etc., significam algo diferente, de acordo com o sistema dentro dos quais são usados. Com mudança sociológica de função, entretanto, queremos dizer a mudança no significado de um conceito ocorrida quando este conceito é adotado por um grupo que vive num meio social diferente, de tal maneira que a significação vital do conceito se torna diferente. Cada idéia adquire um significado novo quando é aplicada a uma nova situação de vida. Quando novos estratos encampam sistemas de idéias oriundos de outros estratos, sempre se pode demonstrar que as mesmas palavras significam algo diferente para os novos patronos, porque estes últimos pensam em termos de aspirações e configurações existenciais diferentes. Esta mudança social de função é, então, como foi afirmado acima, também uma mudança de significado. Embora seja verdade que diferentes estratos sociais, que cultivam o mesmo campo cultural, partilhem das mesmas idéias "germinais" (esta sendo a razão pela qual é possível a compreensão de um estrato para outro), a realidade social em desenvolvimento introduz algo incalculável, criativamente novo no processo intelectual, porque as novas situações imprevisíveis, que emergem dentro da realidade,

novas direções de intencionalidade. novos postulados sobre o mundo. dentro do já desenvolvido quadro de referência das idéias dos estratos mais velhos. que então os apropriam. antes. no sentido de que grupos sociais emergentes dentro do processo social estão sempre em posição de projetar novas direções daquela "intencionalidade". A razão por que é tão importante no estudo das mudanças "imanentes" da função de uma determinada idéia (a passagem de uma unidade de significado para um novo sistema) observar também as tensões e aspirações vitais que atuam por trás do pensamento teórico. Estratos sociais diferentes. ou seja. daquela tensão vital. Os estratos sociais desempenham um papel criador precisamente porque introduzem novas intenções. não "produzem sistemas diferentes de idéias" (Weltanschauung) num sentido grosseiro. materialista — de que falsas ideologias podem ser "manufaturadas" — eles os "produzem".constituem novas bases de referência existenciais para idéias familiares. ela . Se abordamos a tarefa de uma Sociologia do Conhecimento com essas premissas em mente. então. que alterações na realidade social sejam a causa subjacente de alterações nos sistemas teóricos. e que introduzem antagonismos na vida da sociedade como um todo — a razão pela qual é tão importante estudar essas tensões reais é ser extremamente provável que uma mudança imanente de função seja precedida por uma sociológica. que acompanha toda a vida. e assim sujeitam sua herança a uma mudança produtiva de função.

se apresentará da seguinte forma: a tarefa principal consiste em especificar. começa apenas depois de feita esta análise "imanente" — ela consiste em descobrir os estratos sociais que compõem os estratos intelectuais em questão. depois devemos perguntar quais dos "postulados sobre o mundo" coexistentes numa dada época são os correlatos de um determinado estilo de pensamento. que podem absorver idéias e métodos já existentes e os sujeitar a uma mudança de função — para não falar nas formas recém-criadas. em termos de suas atitudes em relação à nova realidade emergente. primeiramente temos que descobrir as premissas metafísicas subjacentes às várias posições sistemáticas. Quando essas correspondências ficarem estabelecidas. Uma vez feito isto. contudo. não-teóricas. mas dever-se-ia explorar suas raízes vitais. para cada corte transversal do processo histórico. Tais mudanças de função não são de modo algum misteriosas. teremos identificado os estratos intelectuais que se combatem. é possível determiná-las com exatidão suficiente . as várias posições intelectuais sistemáticas nas quais o pensamento dos grupos e indivíduos criativos foi baseado. contudo. A tarefa propriamente sociológica. essas diferentes tendências do pensamento não deveriam ser confrontadas como posições num debate meramente teórico. Para fazer isto. que podemos definir as aspirações fundamentais e os postulados sobre o mundo existentes num determinado momento. É apenas em termos do papel desses últimos estratos dentro do processo global.

Podemos explicar os novos traços do sistema por relembrar que a vida do proletariado gira em torno de problemas econômicos. A dialética foi claramente formulada pela primeira vez por Hegel dentro do quadro de referência de um postulado sobre o mundo conservador (não discutiremos a história inicial do método). ou seja. pela especificação do novo centro sistemático ao qual a idéia se torna ligada. retornar à origem histórica e sociológica de uma idéia e então. "colocou-se a dialética sobre seus próprios pés". Queremos mencionar só duas dessas revisões.através da combinação de métodos sociológicos com os da história das idéias. e simultaneamente perguntar que mudanças existenciais no contexto real são espelhadas pela mudança de significado. o "ângulo de refração" cada vez que sofre uma mudança de função. e que sua tensão vital é . Em segundo lugar. Podemos. foi retirada de seu contexto idealista e reinterpretada em termos da realidade social. Primeiramente. por assim dizer. Quando Marx o encampou. Como exemplo bastante familiar. modificou-o em vários aspectos. Ambas as modificações. o termo final da dinâmica histórica tornou-se o futuro em vez do presente. podemos mencionar a mudança da função do método dialético — o leitmouv da presente discussão. podem ser explicadas pela "mudança da função" provocada pelo impacto das aspirações vitais do proletariado que Marx tornou suas. determinar. seguindo sua própria evolução. por exemplo. que representam uma mudança de significado no método.

tendo-se tornado autônoma. quer meramente conservar o que já realizou. Por outro lado. passamos a sugerir alguns poucos problemas metodológicos implicados por esta abordagem. então parece que o começo frutífero. deve apontar a direção em que são possíveis maiores progressos. na presente constelação. SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO . contribuiria para dar a esta disciplina uma noção mais clara de si mesma. efetuado pelo historicismo. pode-se demonstrar. e por isso descrevemos as principais "posições" das quais se pode empreender a elaboração de uma Sociologia do Conhecimento. Pensamos que uma tal análise da situação presente do problema. o sistema de Hegel também. e que se coloca a tarefa de retraçar a evolução das várias posições. Tendo indicado as premissas sistemáticas que caracterizam o historicismo como ponto de partida para uma Sociologia do Conhecimento. Ao mesmo tempo. também quisemos mostrar o método em operação. Se definimos a Sociologia do Conhecimento como uma disciplina que explora a dependência funcional de cada posição intelectual da realidade diferenciada do grupo social que lhe está subjacente. todavia. em termos das categorias da Sociologia do Conhecimento. O fato de neste sistema a fase terminal do dinamismo da história ser o presente espelha o sucesso alcançado por uma classe que.dirigida para o futuro. foi determinado sociologicamente.

qualquer que seja o conceito de "conhecimento". crenças jurídicas e éticas. 1934). MERTON Tradução de SÉRGIO SANTEIRO A última geração viu surgir um novo campo especial de estudos sociológicos: a Sociologia do Conhecimento (Wissenssoziologie). ver H. O termo "conhecimento" deve aqui ser tomado em seu sentido mais amplo. Torna-se. uma definição mais específica não compreenderia os diversos enfoques que se lhe tem aplicado. ideologias. Para um levantamento recente. ainda que por mera alusão. pelo menos desde a assim chamada Era das Luzes em Das Problem der Soziologie des Wissens (Viena-Leipzig: Wilhelm Braumueller. filosofia. evidente que a Sociologia do Conhecimento se prende a problemas que vêm sendo discutidos há muito tempo. tanto que encontrou em Ernst Gruenwald seu primeiro historiador. Na verdade. a orientação central desta nova disciplina permanece a mesma: as relações entre o conhecimento e os demais fatores existenciais de uma sociedade ou de uma cultura.ROBERT K. Mesmo que tal formulação do objeto central possa parecer genérica e imprecisa. Dizia-se a 4 O presente artigo não tratará desses antecedentes. 1940). orgs. tecnologia). H. é outro o nosso interesse com respeito aos vários antecedentes de teorias correntes. B. Otto Dahlke.4 Contudo. portanto.. ciência. "The Sociology of Knowledge". Barnes e F. E. Contemporary Social Theory (Nova York: Appleton-Century. Entretanto. 64-89. Becker. uma vez que tais estudos se têm referido a praticamente toda uma gama de produtos culturais (idéias. pp. Ernst Gruenwald apresenta um esboço de seus primeiros desenvolvimentos. . poucas são as observações atuais que não tenham sido anteriormente registradas.

Henrique.Henrique IV "Teu desejo. prova decisiva de seu reconhecimento no consenso . existe ainda a indagação dos fundamentos do interesse que a Sociologia do Conhecimento tem despertado em nossos dias. entretanto. O maior número de publicações e de teses de doutorado. tem-se cultivado a Sociologia do Conhecimento como disciplina distinta especialmente na Alemanha e na França. E Nietzsche tinha deixado uma série de aforismos sobre os modos pelos quais as "necessidades" determinam as "perspectivas" segundo as quais interpretamos o mundo. gerou tal pensamento". como nos tem demonstrado a história da ciência. Tudo o que existe de importante já foi dito por alguém que. ao passo que os sociólogos americanos somente nas últimas décadas têm devotado uma atenção cada vez maior aos problemas desta área. de forma que mesmo as percepções sensoriais se permeiam de juízos de valor. ela está impregnada de vontade e de sentimento. Como é bem sabido. Além de todo o problema de suas origens históricas e intelectuais. daí derivam as ciências que se poderiam chamar 'ciências como se gostaria". não o descobriu". uns poucos anos antes de Bacon escrever "A compreensão humana não é apenas luz. A pré-história da Sociologia do Conhecimento (Wissenssoziologie) vem assim concordar com Whitehead: "aproximar-se de uma teoria verdadeira e captar-lhe a aplicação exata são duas coisas bastante diferentes.

Social and Cultural Dynamics (Nova York: American Book Co.acadêmico. a ponto de a orientação comum que os reunia anteriormente ser obscurecida por diferenças incompatíveis. mas de que a simples existência de qualquer um deles desafia a validade e a legitimidade dos demais. 412-413. pp. eles se alinhavam realmente entre os estudiosos da Wissenssoziologie. Para sermos exatos. A Sociologia do Conhecimento torna-se pertinente num determinado complexo de condições sociais e culturais. . 1937). 5-12. como também não poderia ser explicado por qualquer outro meio de difusão cultural. pp. P. evidencia em parte esse aumento de interesse. isto apenas explica a disponibilidade dessas concepções entre nós e não. A explicação imediata. Entretanto. 45. Ideology and Utopia (Nova York: Har-court.. desse fenômeno seria encontrada no fato de que os sociólogos recém-chegados aos Estados Unidos é que trouxeram o pensamento sociológico europeu. Brace. as diferenças entre as atitudes. A Sociologia do Conhecimento encontrou acolhida no pensamento americano por apresentar problemas. conceitos e teorias que mais e mais são pertinentes à situação social contemporânea dos Estados Unidos. Não se trata apenas da formação de vários universos de pensamento. Sorokin. A.5 Devido à intensificação dos conflitos sociais. II. a sua aceitação efetiva. 1936). situação que vem adquirindo certas características daquelas sociedades européias onde inicialmente se desenvolveu esta Sociologia. valores e modos de pensar dos grupos vão-se acentuando. e obviamente inadequada. A 5 Ver Karl Mannheim.

" Sigmund Freud. passa a ser interpretado em termos de suas raízes e funções psicológicas. de tal forma que já não interessa mais examinar as provas contra ou a favor dos argumentos. .coexistência de tais perspectivas e interpretações conflituosas na mesma sociedade conduz a uma ativa e recíproca desconfiança entre os grupos. absurdas. Em geral. . motivos inconscientes. bastando descobrir as razões que as motivaram. enquanto os mais sistemáticos procedem a mútuas "análises ideológicas". tendenciosas. W. ao invés de considerar a suposição. Suponhamos que alguém sustente que o centro da terra é feito de doce. Conseqüentemente. posição social etc. New Introductory Lectures (Nova York: W. Norton. ostensivamente improváveis. 1933). introduz-se uma pergunta inteiramente nova: como se explica a permanência de tais pontos de vista? O pensamento se torna funcional. a testar sua validade. mas também "explicações funcionais". perspectivas destorcidas. p. "Nossa objeção intelectual se manifestará através de uma distração da atenção. 49. ao nível do senso comum isto leva a ataques recíprocos à integridade dos opositores. se o centro da terra é ou não é feito de doce. e são por ela alimentados. uma radical diferença de perspectivas entre vários grupos sociais provoca não só ataques ad hominem. 6 Freud observou essa tendência a preferirmos buscar as "origens" de afirmações. No nível social. 6 Essas declarações adulteradas são "explicadas por" ou "imputadas a" interesses particulares. econômicas. Num ambiente de desconfiança já não se vai indagar do conteúdo das crenças e das afirmações com provas relevantes. que nos parecem verdadeiramente absurdas. para meter semelhante idéia na cabeça. perguntaremos que tipo de homem deve ser este. sociais ou raciais. Os ataques e análises alimentam essa atmosfera de insegurança coletiva. tal recurso se aplica a casos em que as declarações se apresentem como pouco dignas de crédito. .

secularizar. desvalorizar o conteúdo intrínseco à crença ou ponto de vista firmados. relações interpessoais e resíduos). partilhando certos pressupostos comuns. folklore. interesses e sentimentos. distorções. toda uma série de interpretações do homem e da cultura. a análise da propaganda. a doutrina de Pareto e até certo ponto a análise funcional. encontra larga expressão. todas possuem uma concepção semelhante do papel das idéias. Basta considerar o que sugerem os termos usados nesses textos para referir crenças. derivações). a semântica. idéias e pensamentos: mentiras vitais. De um lado se situam a verbalização e as idéias (ideologias. Apesar de diferirem entre si sob outros aspectos. conflitos psicológicos. consideradas como expressivas. satirizar.Nesse contexto social. as análises tendem a se dotar de uma qualidade corrosiva: tendem a acusar. o marxismo. não só a análise ideológica e a Sociologia do Conhecimento como também a Psicanálise. ilusões. todas relacionadas funcionalmente a algum substrato. . ironizar. racionalizações. a ênfase na distinção entre real e ilusório. crença e comportamento do homem. derivativas ou frustradoras (de si ou de outras). E qualquer que seja a intenção de quem as faz. expressões emotivas. entre realidade e aparência na esfera do pensamento. mitos. impulsos básicos. De outro lado se encontram os substratos como são diversamente conceituados (relações de produção. E ao longo de tudo isso sobressai o tema básico da determinação inconsciente das idéias pelos substratos. posição social. alienar.

normalmente consideradas por seu conteúdo manifesto.. o analista ideológico e seus respectivos sistemas de pensamento prosperam numa sociedade onde grandes grupos de pessoas se vêm distanciando de valores comuns. ou da sociedade em que vive. mais do que formar um séquito." Karl Marx e Friedrich Engels. são "desmistificadas". 219. I. o desmistifica-dor treinado. onde "charlatanice" e "tarimba" há 7 O conceito de pertinência foi proposto pelos precursores marxistas da Sociologia do Conhecimento.. O iconoclasta profissional. qualquer que seja a intenção do analista. no confronto de seu conteúdo com as características de quem as enuncia.derivações. as relações de fato que surgem da luta de classes existente. The Com-munist Manifesto. . pseudo-razões etc. "dirige-se" a um séquito que "entende" suas análises. racionalizações. 1935). 7 A sociedade onde a desconfiança mútua se traduz por expressões populares tais como "quanto ele ganha nisso?". As análises ideológicas têm sistematizado a ausência de fé nos símbolos consagrados. reexaminando-os em novo contexto que fornece o "significado efetivo". As afirmações. ideologias. do movimento histórico que se desenvolve sob nossos próprios olhos. "As conclusões teóricas dos comunistas não se baseiam absolutamente nas idéias ou princípios inventados ou descobertos por tal ou qual reformador universal. fachadas verbais. folklore. Elas simplesmente exprimem. onde universos distintos de pensamento se interligam por desconfianças mútuas. pois estas estão de acordo com suas experiências prévias não-analisadas. em termos gerais. daí derivam sua pertinência e popularidade. A característica comum a todos esses esquemas é a prática de rejeição do valor aparente das afirmativas. p. sistemas de idéias. crenças. em Karl Marx. Selected Works (Moscou: Coopera-tive Publishing Society. O analista ideológico.

utilizado como dispositivo para se ascender nas escalas política e econômica. em tal sociedade a análise ideológica sistemática e uma Sociologia do Conhecimento derivada dessa análise encontram sólidas bases sociais. A "revolução de Copérnico" nessa área de estudos consistiu na hipótese segundo a qual os fatores .. Os estudiosos americanos prontamente captaram e assimilaram os esquemas analíticos. valores e pontos de vista antagônicos. mas. onde a publicidade e a propaganda originaram uma ativa resistência a se aceitar argumentos apenas pelo que são. antes de mais nada. onde o comportamento pseudo-comunitário. menosprezando a priori seus motivos e capacidades. e até certo ponto o torna estranho a si mesmo. com que deparavam. que consiste em reduzir as expectativas baseadas na integridade dos outros. manipulá-lo e explorá-lo. onde as relações sociais cada vez mais são instrumentalizadas de forma que o indivíduo passa a ver os outros procurando. e "desbancar" o vem sendo há já uns dezessete anos.mais de um século são consideradas vernáculo. que possibilitavam uma ordenação do caos de conflito cultural.. onde a incerteza em relação a seus próprios motivos se expressa na frase indecisa "Isto talvez seja racionalização minha. onde o crescente cinismo afasta o indivíduo das relações grupais significativas. compõe um livro de ampla tiragem: como fazer "amigos" que possam ser influenciados. onde as defesas contra o trauma provocado por desilusões podem levar a um estado de desilusão permanente.".

se teria de lançar mão de fatores não-teóricos. Era mais do que claro que. cujas relações com a sociedade histórica de que emergiam tinham de ser estabelecidas. Scheler e Durkheim.históricos e sociais não condicionam apenas erros. já se admitia há muito tempo sua justificação em termos da relação objeto-intérprete. A Sociologia do Conhecimento surge com a hipótese fundamental de que se responsabilizasse a sociedade mesmo pelas "verdades". desde a classificação exaustiva de categorias na história intelectual à localização social do pensamento de estudiosos negros nas últimas décadas. entretanto. a Sociologia do Conhecimento não poderia emergir. mas também condicionam a própria descoberta da verdade. da ilusão. Esboçar rapidamente apenas as principais correntes da Sociologia do Conhecimento seria apresentar nenhuma e violentar a todas. desde uma epistemologia sociológica . as enormes diferenças de envergadura dos problemas. do mito e das normas morais. as várias delimitações apostas a matéria. de explicações específicas. ilusões e crenças ilegítimas. Enquanto se cristalizasse a atenção nos determinantes sociais da ideologia. A diversidade das formulações de Marx. No caso de um conhecimento verificado ou assegurado. a variedade de problemas que vão desde a determinação social dos sistemas de categoria às ideologias políticas de classe. para justificar falhas ou opiniões sem fundamento. uma vez que a realidade do objeto não poderia justificar erros.

às meticulosas análises históricas e estatísticas — à luz de tudo isso. mas não-registradas. a indicação de resultados contraditórios. temporária. a proliferação de conceitos — idéias. a indicação das lacunas e falhas características nos tipos de interpretação existentes. de uma classificação parcial e. ao mesmo tempo e em poucas páginas. O paradigma seguinte pretende ser um passo nessa direção. a determinação da natureza de problemas que têm ocupado os estudiosos. que breve desaparecerá na medida em que der lugar a um modelo analítico mais exato e aperfeiçoado. sistemas de verdade. na verdade. opostos e consistentes. sistemas de crença. ele já possibilita uma base para um levantamento das descobertas já feitas.. Contudo. espera-se. Será necessário adotar um esquema de análise para podermos comparar o grande número de estudos dedicados a esta matéria.globalizadora até relações empíricas entre determinadas estruturas sociais e idéias correspondentes. os diversos métodos de validação — desde atribuições plausíveis. superestruturas etc. torna-se necessário sacrificar os detalhes pelo conjunto num esforço de. pensamento. Trata-se. tratar do instrumental analítico e de estudos empíricos. a explicitação do instrumental conceptual atualmente em uso. conhecimento positivo. a avaliação do material que tem sido recolhido. Uma teoria plenamente desenvolvida de Sociologia do Conhecimento permite a colocação dos seguintes pontos: .

tipo de cultura. "situação histórica". estruturas de grupo (universidade. bases culturais: valores. interesses. idéias. 3— Como se acham os produtos mentais relacionados às bases existenciais? . Zeitgeist. esferas de: crenças morais. geração. categorias de pensamento. papel ocupacional. modelos de verificação. ideologias. conteúdos conceptuais. conflito etc. academias. filosofia. ciências positivas. modo de produção.) b. seitas. estrutura de poder. aspectos analisados: sua seleção (focos de atenção). objetivos da atividade intelectual etc. tecnologia etc. ethos. sociedade. Volkgeist. filiação étnica. bases sociais: posição social. pressupostos (o que é considerado como "dado" e o que é considerado "problemático"). mentalidade cultural. nível de abstração. partido político). processos sociais (competição. burocracia. "clima de opinião". normas sociais.PARADIGMA PARA A SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO 1— Onde se situam as bases existenciais dos produtos mentais? a. b. classe. crenças religiosas. mobilidade social. visão do mundo (Weltanschauuqgen) etc. 2— Quais são os produtos submetidos à análise sociológica? mentais a.

tranqüilizar. expressão. termos ambíguos para designar as relações: correspondência. interação. expressivas ou orgânicas: consistência. compatibilidade (e antônimos). b. ocultar relações sociais efetivas. causa. coerência. a. correspondência. 4— POR QUÊ? funções latentes e manifestas atribuídas a estes produtos mentais existencialmente condicionados. Strukturzusammenhang. dependência etc. congruência. controlar a natureza. interdependência funcional. identidade de significado etc. identidades estruturais. coordenar relações sociais etc. facilitar orientação ou exploração.a. ligados a. harmonia. condicionamento. integração lógico-significativa. conexões internas. para manter poder. fornecer motivações. em estreita conexão com etc. reflexos. analogias estilísticas. 5— QUANDO se evidenciam as relações atribuídas entre a base existencial e o conhecimento? . relações simbólicas. percepção. unidade. canalizar comportamentos. promover estabilidade. expressão simbólica. desviar críticas. desviar hostilidades. c. condição necessária. relações causais ou funcionais: determinação.

As principais abordagens a serem aqui consideradas são as utilizadas por Marx. Vem daí o eterno problema desde o princípio submetido a caloroso debate: qual seria a validade epistemológica de um conhecimento sujeito a implicações existenciais? As "soluções" apontadas para este problema se apoiam no postulado segundo o qual a Sociologia'do Conhecimento é necessariamente uma teoria sociológica do conhecimento. repousando exclusivamente no consenso social — o que vem a estabelecer que qualquer teoria de verdade aceita em uma cultura apresenta um grau de validade igual ao de qualquer outra. já nos basta o paradigma acima para organizar as diferentes abordagens e conclusões referentes a esta disciplina. Os trabalhos atuais adotam uma ou outra dessas teorias. É claro que existem outras categorias para classificação e análise de estudos na Sociologia do Conhecimento que não podem ser extensivamente desenvolvidas neste trabalho. ora modificando-lhes a aplicação. Todavia. o que as coloca entre dois pólos: num extremo a tese que versa "a gênese do pensamento não possui relação necessária com sua validade". Scheler. Decidimos omitir outras fontes de . teorias analíticas gerais. no extremo oposto se encontra o relativismo da fórmula — a verdade é "mera" função de uma base social ou cultural.a. Mannheim. teorias historicistas (limitadas a sociedades ou culturas específicas) b. Durkheim e Sorokin. ora se lhes antepondo.

. próprias ao pensamento americano. 8 8(Chicago: C. Quaisquer que sejam as mudanças ocorridas no desenvolvimento de sua teoria durante os cinqüenta anos de trabalho. 11-12. "O modo de produção na vida material determina o caráter geral dos processos sociais. mas ao contrário sua existência social é que determina sua consciência". permaneceu constante a tese de que as "relações de produção" constituem o "fundamento real" da superestrutura de idéias. Não é a consciência do homem que determina sua existência. H. visto não terem ainda sido formuladas em termos da Sociologia do Conhecimento nem mesmo submetidas a pesquisa de alguma envergadura. Esta convergência é apenas formal. Onde se situam as bases existenciais? Todas as abordagens do assunto convergem em que existe uma base existencial. na medida em que o pensamento não pode ser imanentemente determinado. políticos e intelectuais. 1904). como sob outros. Sem entrar no problema exegético da identificação exata do "marxismo" — somente lembramos a citação de Marx "je ne puis pas un marxiste" — vamos buscar suas formulações nos escritos de Marx e de Engels. e que um ou outro de seus aspectos pode ser derivado de fatores extra-cognitivos. o marxismo ocupa o centro do debate.estudo. pp. Kerr. Sob este aspecto. como o pragmatismo. desenvolvendo-se posteriormente em uma enorme variedade de teorias explicando a natureza da base existencial.

uma linha de desenvolvimento do marxismo. tanto Marx quanto Engels. os indivíduos são tratados na medida em que personificam categorias econômicas.. Assim como no passado uma . consiste na definição (e delimitação) do alcance em que as relações de produção efetivamente condicionam o conhecimento e as formas do pensamento. sendo assim o mais fecundo ponto de partida para a análise. Marx vai situá-las dentro da estrutura de classes. desde a Ideologia Alemã aos últimos escritos de Engels. Marx e Engels indicavam que.aqui. Com efeito. "uma pequena parte. Marx considera que tais papéis são os determinantes primordiais... Já no Manifesto Comunista. se une à classe revolucionária. enfatizam que ideologias de um estrato social dado não provêm tão só das pessoas que se acham objetivamente inseridas nesse estrato.Procurando funcionalizar as idéias. isto é. deixando aberta a questão: até que ponto verdadeiramente atuam em um dado caso de pensamento e comportamento.. Abstraindo as demais variáveis e tomando os homens pelos papéis econômicos e de classe que desempenham. em que encarnam relações e interesses específicos de classe". repetidamente e com insistência crescente. Entretanto. Este raciocínio se acha explicitado no primeiro prefácio do Capital: ". quando a classe dominante se aproxima da derrocada.. mas que a classe é o determinante primordial. Pretende não que as demais influências sejam inoperantes.. relacionar as idéias dos indivíduos com sua base sociológica.

que se elevaram ao nível da compreensão teórica do movimento histórico como um todo". As ideologias podem ser socialmente enquadradas pela análise de seus pressupostos e perspectivas. aspirações. Ele deve ser atribuído à classe para a qual é "apropriado". limitações e possibilidades objetivas num dado contexto histórico-social é por ele expressa. eles podem estar tão distantes entre si como o céu da terra. O pensamento não pode ser enquadrado mecânica e simplesmente estabelecendo a posição de classe de quem o emite. temores. Antes. à classe cuja situação social com seus conflitos de classe. e pela determinação do enfoque de problemas: sob o ponto de vista de tal ou qual classe. ela pensa que as condições específicas de sua emancipação são as condições gerais. agora uma parte da burguesia se passa para o proletariado.pequena parte da nobreza passou-se para a burguesia. Tampouco se deve imaginar que os representantes democráticos são todos uns comerciantes ou que estão cheios de entusiasmo pelo comércio. únicas capazes de salvar a sociedade moderna e de evitar a eclosão da luta de classes. A mais explícita formulação de Marx aparece no seguinte texto: Não se deve formar a idéia bitolada de que a pequena burguesia tem por princípio impor um interesse egoísta de classe. O que os faz representantes da pequena burguesia é o fato de . e em particular os ideólogos burgueses. No tocante à sua educação e posição individual.

10 Distingue Sociologia Cultural do que chama Sociologia de Fatores Reais (Realsoziologie). (Os itálicos foram acrescentados pelo autor do artigo. 1927. Os dados culturais têm o caráter de "ideal". "The Formal Problems of Scheler's Sociology of Knowledge". 2: pp. 1924). pp. 1-229. conseqüentemente. "Max Scheler's Sociology of Knowledge". pertencem ao domínio das idéias e 9 Karl Marx. . "Probleme einer Soziologie des Wissens". 36: pp. 36. 1942. 1926). 5-146. enquanto outros adotam pressupostos que não os "de seu próprio" estrato. o que. A. Quando trata das bases existenciais do conhecimento. Dahlke. Der Achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte (Hamburgo: 1885). Max Scheler tem a característica de opor suas próprias hipóteses àsdemais teorias em voga. é esta a relação que liga os representantes políticos e literários de uma classe à classe que representam. Constitui-se então um novo problema em resolver por que alguns se identificam com a classe social a que efetivamente pertencem. Philosophy and Phenomenological and Research. 9 Contudo.) 10Este enunciado baseia-se na mais elaborada formulação de Scheler. os conduz aos mesmos problemas e soluções teóricos a que os pequenos burgueses são conduzidos na prática pelos interesses materiais e pela posição social. 310-322. expressando sua aparência característica de estrato. resta-nos uma larga margem de indeterminação. março. se não pudermos inferir as idéias da posição objetiva da classe de seus expositores. no seu livro Die Wissens-formem und die Gesellschaft (Leipzig: Der Neue-Geist Verlag. ver P. Esse ensaio é uma versão revista e melhorada de outro ensaio em seu livro Versuche zu einer Soziologie des Wissens (Munique: Duncker und Humblot. Uma descrição empírica do fato não é substituto adequado para sua explicação teórica. Em geral. Para outras análises sobre Scheler. pp. O.não transpor em espírito os limites que os burgueses não transpõem em suas atividades. Schillp. p. The Philosophical Review. 101-120. março. Howard Becker e H.

poder). As idéias não se efetivam. tanto menor será a força com que atua no dinamismo social. Scheler considera um erro básico de todas as teorias naturalistas pretender que fatores reais — seja raça. pp.. que nele se imiscuíram. os últimos derivam de uma "estrutura de impulsos" (Triebstruktur. Os primeiros são definidos por fins ideais ou intenções. rejeita todas as concepções ideológicas. 11 Scheler. não se corporificam em desenvolvimentos culturais.. fome. É sob este aspecto que se justificam as teorias naturalistas (por exemplo.valores: os "fatores reais" são orientados no sentido de proceder a mudanças na realidade natural ou social. . espiritualistas e personalistas que erram por considerar a história das condições existenciais como um desdobramento unilinear das manifestações do espírito. As idéias por si só não dispõem inicialmente de eficácia social alguma. sexo. . estrutura de poder político ou relações de produção econômica — determinem fatalmente o mundo das idéias expressivas. a menos que se as liguem a interesses. apesar de sustentar inconsistentemente que seu desenvolvimento é guiado e dirigido por idéias imbuídas de valor. 32. geopolítica. Die Wissensformem.11 Só então passam a exercer alguma influência atuante. impulsos. Atribui completa autonomia e uma determinada ordenação aos fatores reais. 7. por exemplo. Da mesma forma. emoções ou tendências coletivas e sua incorporação em estruturas institucionais. Quanto mais "pura" fôr uma idéia.

1212 lbid.o marxismo). mas uma determinada seqüência em que os fatores primordiais se apresentam. Portanto. prossegue Scheler. nem os de seus discípulos. Outro erro das teorias naturalistas. nem seus estudos empíricos. 25-45. havendo antes uma variabilidade ordenada. ver Capital. Caso as idéias não se vinculem ao desenvolvimento imanente de fatores reais. Deve-se notar que Marx já havia há muito tempo rejeitado uma concepção similar de alterações nas variáveis independentes de que se havia feito ponto de partida para um ataque à sua Critique of Political Econorny. 94n.. estrutura de poder. as instituições de parentesco e laços sangüíneos constituem a variável independente. Há. mas havê-la deduzido de uma teoria dos impulsos humanos. Sua interpretação de fatores reais (Real-faktorem) — raça e parentesco. p. que mais tarde passa a ser a estrutura do poder político. sucessão que pode ser resumida numa "lei de três fases". estão fadadas a se tornarem utopias estéreis. e finalmente as condições econômicas. Scheler procurou relativizar a própria noção de determinantes históricos. aspectos qualitativos e quantitativos da população. pp. não uma variável independente constante. no decorrer da história. fatores de produção. não há constância no primado efetivo dos fatores existenciais. fatores geográficos e geopolíticos — dificilmente constitui uma categoria bem definida. consiste em tomar ao longo de toda a história a mesma variável independente. de fato. Desse modo. I. Na fase inicial. .12 Pretende não apenas ter confirmado por indução sua "lei das três fases". Pouco significa subscrever a tão diversos elementos uma mesma rubrica e.

Sugerindo uma variação nos fatores existenciais significativos. Não pretende que a posição de classe seja por si só o determinante último. ver R. definição dos dados etc. Scheler caminhou na direção que a pesquisa subseqüente seguiu. Brace. 1936). De acordo com Mannheim. alargando sua concepção das bases existenciais. não a trataremos extensamente neste artigo. no que difere do "marxismo dogmático". No 13 Karl Mannheim. grupos de status. 247-8. Mannheim parte inicialmente de Marx. ainda que ele represente uma tradição diversa. Para apreciação do autor. a mesma. K. ao passo que um grupo socialmente desvinculado e débilmente integrado partilha uma intuição histórica que enfatiza o casual e o imponderável.aproveitaram essa coleção de "fatores".13 A posição de Durkheim é. apesar de não ser na seqüência ordenada que ele não chegou a estabelecer. Ideology and Utopia (Nova York: Harcourt. pp. Assim. Somente pelo estudo da variedade na formação dos grupos — gerações. Considerando como dado o fato de se filiar o indivíduo a vários grupos. torna-se preciso saber qual desses grupos é o primordial para que se estabeleçam perspectivas. modelos de pensamento. grupos ocupacionais — e seus modos de pensar característicospode ser encontrada uma base existencial que corresponda à grande variedade de perspectivas e conhecimento existentes. . Journal of Liberal Religion. um grupo organicamente integrado vê na história um movimento contínuo no sentido da realização de seus fins. em essência. Tendo em vista as recentes e profundas análises da obra de Mannheim. 1941. 2: 125-147. Merton. "Karl Mannheim and the Sociology of Knowledge".

Durkheim trata da recorrência periódica de atividades sociais (cerimônias. mesmo as tão abstratas quanto as de tempo e de espaço. ver também Hans Kelsen.14 Tentando estabelecer as origens sociais das categorias. 1901-02.recente estudo que realizou em colaboração com Mauss sobre as formas primitivas de classificação. que imprimem suas características no pensamento e no saber. La pensée chinoise (Paris: La Renaissance du Livre. aplicando as formulações de Durkheim ao pensamento da antiga China. pp. ora dispersa. L'Année Sociologique. estão. Ainda. As experiências originais mais significativas se constituem sob a mediação de relações sociais. a cada instante de sua história. este artigo contém algumas páginas sobre o pensamento chinês. 6: 1-72. consideradas pelos especialistas como o marco de uma nova época nos estudos da civilização chinesa. em seu estudo de formas primitivas de pensamento. 16 Marcel Granet. festas. p. Durkheim postula que os indivíduos se acham mais direta e inclusivamente orientados pelos grupos de que participam do que pela natureza. em estreita relação com a organização social correspondente". . ritos). 1934). 1915). 15 Emile Durkheim.15 Assim. Como indicou Marcel Granet. "De quelques formes primitives de classification". como condições às típicas noções de tempo e de espaço que dominam a cultura chinesa.g. . Society and Nature (University of Chicago Press. 1943). as idéias. The Elementary Forms of the Religious Life (Londres: Allen & Unwin.. " . . da estrutura do clã e das configurações espaciais na reunião do grupo como sendo bases existenciais do pensamento. que 14 Emile Durkheim e Marcel Mauss. Granet estabelece a organização feudal e a alternância rítmica de uma vida ora concentrada. Durkheim defende que a gênese das categorias de pensamento se encontra na estrutura e interrelações dos grupos. 443-4. 30. pp. e que variam de acordo com as mudanças na organização social.16 Sorokin se opõe aos autores antecedentes ao elaborar sua teoria idealista e emanacionista. e. 84-104.

isto é. Neste ponto deparamos com o emanacionismo inerente à posição idealista: torna-se simplesmente tautológico dizer com Sorokin que "numa sociedade e cultura sensoriais tem que ser dominante o sistema de verdade fundado no testemunho dos órgãos dos sentidos".deduz todos os aspectos do conhecimento não de uma base social existencial. das premissas maiores de cada cultura. às quais procura satisfazer ao máximo. a mentalidade ideacional concebe a realidade como "um Ser nãomaterial e eterno". preocupa-se fundamentalmente com as necessidades físicas. mas davariação de "mentalidades culturais". p. a mentalidade "sensorial" limita a realidade àquilo que os sentidos possam perceber.18 17is Ibid. os sistemas de verdade e de conhecimento derivam dessas "mentalidades". O principal tipo intermediário é o de mentalidade idealista que apresenta um virtual equilíbrio entre os tipos anteriores. modificando o mundo exterior.. . 73.. I. 18is Ibid. Essas mentalidades partem de "premissas maiores": assim. I. a mentalidade sensorial se caracteriza justamente por ser aquela que concebe "a realidade como aquilo que se apresenta aos órgãos dos sentidos". considera as necessidades como essencialmente espirituais e como sendo meios para sua satisfação plena "a minimização auto-imposta ou a eliminação da maior parte das necessidades físicas". De acordo com Sorokin.17 Ao contrário. ao invés de modificar a si. Afinal. 73. p.

". o "singularismo" e o "universalismo" etc. dos profissionais liberais. caracterizá-la como "sensorial" não possibilita a indicação dos grupos aos quais correspondem tais ou quais modos de pensar. ele se limitou a assinalar as tendências "dominantes" e as estendeu à cultura como um todo. . Uma vez que a mesma cultura admite tanta diversidade.. que em nossa cultura "sensorial" o "materialismo" está menos disseminado do que o "idealismo". tais formulações emanacionistas evitam as questões fundamentais levantadas por outras abordagens da análise das condições existenciais do conhecimento.Além do mais. Assim Sorokin considera que a impossibilidade do "sistema de verdade" sensorial (empirismo) dominar completamente a cultura sensorial constitui uma prova da "não-integração total" dessa cultura. por exemplo. pp. Sorokin não se prendeu à exploração sistemática da variação de bases existenciais no interior de uma mesma sociedade ou cultura. Ill.. Constata.19 Abstraindo as diferenças de perspectiva intelectual próprias às classes sociais e a outros 19 Encontra-se uma "exceção" a esse tratamento do assunto no contraste que estabelece entre a tendência dominante do "clero e da aristocracia religiosa proprietária de terras virem a ser as classes dirigentes na cultura ideacional. e o mesmo se dá com o "realismo" e o "nominalismo". 250. da intelligentsia. o "temporalismo" e o "eternalismo" estão quase igualmente difundidos. a que Sorokin tenta aplicar uma formulação sociológica. e a tendência da burguesia capitalista. e dos funcionários leigos virem a ser as classes dirigentes na cultura sensorial. E o mesmo acontece com outras categorias e "princípios" do conhecimento. Tal atitude equivale a renunciar à pesquisa das bases do conflito entre os sistemas de pensamento característicos ao nosso mundo contemporâneo.

nossa sociedade contemporânea é considerada como um perfeito exemplo de "cultura sensorial". Talcott Parsons. todos são mais ou menos indiscriminadamente considerados como 20 "existencialmente condicionados". ou se é preciso 20 Cf. os postulados epistemológicos. Merton. 1943. Kurt H. desde as crenças populares à ciência positiva. sendo impróprio para a análise das conexões que ligam o pensamento a suas várias condições existenciais dentro de uma mesma sociedade. O problema é saber se todas as "idéias" adotam a mesma relação com a base sociológica. ext. as normas morais. as crenças políticas. De acordo com suas próprias premissas. 10: 104-123. American Sociological Review. "The Sociology of Knowledge: Emphasis on an Empirical Attitude". 133-135. Quais São os Produtos Mentais Submetidos à Análise Sociológica? Basta um exame dos mais breves para se perceber quão vasto é o conceito de "conhecimento". os juízos sintéticos. op. os postulados ontológicos.. Wolff. 1938. as doutrinas escatológicas. as categorias de pensamento. Philosophy of Science. que engloba todos os tipos de afirmações e todos os modos de pensar. O "conhecimento" tem sido muitas vezes assimilado ao termo "cultura": de forma que não apenas as Ciências Exatas como também as convicções éticas. as constatações de fato. 29 . 3: 652-64. "The Role of Ideas in Social Action". o método de Sorokin é especialmente apropriado para uma caracterização global das culturas.grupos. e as observações de fatos empíricos.

Coube a Engels a tarefa de esclarecer este ponto. abrese uma nova esfera independente que. Trabalhando o termo genérico "ideologia". o Direito não corresponde apenas a uma situação econômica geral de que é a expressão. Engels deu um certo grau de autonomia à lei. 21. que não são igual e semelhantemente condicionadas pela base material. 21 . Para que isto se efetive. exatamente por ser essa relação variável em função dos diversos tipos de "idéias". Die Wissensformen . torna-se preciso 21 Certamente este é o fundamento em que se apoia a observação de Scheler: "Uma tese particular de interpretação econômica da história consiste em subordinar as leis do desenvolvimento de lodo o conhecimento às leis do desenvolvimento das ideologias". Tão logo se faz necessária uma nova divisão do trabalho criando os advogados profissionais. mas representa também uma expressão consistente em si mesma. apesar de depender da produção e do comércio. No Estado moderno. ainda possui sua capacidade própria de reagir a essas esferas. Geralmente tem havido uma ambigüidade sistemática no que diz respeito a esse problema. O fato de Marx não ter sistematizado 21 o problema explica boa parte da imprecisão inicial sobre o que se deveria incluir na superestrutura e como se achavam relacionadas aos modos de produção as diferentes esferas "ideológicas". . .distinguir as esferas de conhecimento. isto é. Somente em seus últimos escritos Engels aceita que a noção de superestrutura ideológica inclui uma variedade de "formas ideológicas" que diferem significativamente entre si. que não pode parecer muito inconsistente devido a contradições internas. .

Nesses campos. Não é que a posição econômica seja a única causa atuante. O que existe é uma interação das esferas sobre a base da necessidade econômica que. p. 385. artístico etc. com maior razão deverá acontecer com as demais esferas da "superestrutura ideológica". religioso.que o Direito ultrapasse o estado de reflexo fiel das condições econômicas. a religião e a ciência. torna-se impossível "deduzir" o conteúdo e o desenvolvimento das crenças e do conhecimento meramente de uma análise da situação histórica: O desenvolvimento político. Entretanto. Selected Works. funda-se sobre o desenvolvimento econômico. literário. enquanto tudo o mais se limite a efeitos passivos. em Marx. filosófico. jurídico. predomina sempre. tanto menos acontece que um código jurídico venha a ser a expressão brutal e grosseira da dominação de uma classe — o que já seria uma ofensa à "idéia de justiça". estamos admitindo um certo 22 Engels. Se admitimos que a base econômica predomina "em última análise". sujeito ainda a ação próxima e opressora da economia. . O lastro preexistente de conhecimentos e de crenças exerce a pressão fundamental sobre a filosofia. I. enquanto a influência dos fatores econômicos se efetua apenas por vias indiretas e em "última instância". E quanto mais isso se realiza. em carta a Conrad Schmidt. em última análise. todas essas esferas reagem entre si e em relação à base econômica. a 27 de outubro de 1890.22 Se isso é o que se passa com o Direito.

recebem um status diverso do atribuído à ideologia. 24 Dessa forma. "Ê sabido que certos períodos de grande desenvolvimento artístico não possuem relação direta nem com o desenvolvimento geral da sociedade nem com a base material e a estrutura fundamental de sua organização". Engels Feuerbach (Chicago: C.. A Contribution to the Critique of Politicai Economy. Engels assinala: Quanto mais a esfera específica que estudamos se afasta da esfera econômica e se aproxima da esfera de pura ideologia abstrata. as formas ideológicas através das quais os homens se tornam conscientes deste conflito e nele se empenham. I. . das transformações legais. que se podem igualar em precisão. tanto mais sua curva tenderá a correr em ziguezague. O conteúdo conceptual das Ciências 23 Ibid. pp. De fato. religiosas.23 Finalmente. Marx. 393. que podem ser determinadas com a precisão da Ciência Natural. 12. 117 e segs. Marx estabelece uma distinção marcada entre Ciência Natural e esferas "ideológicas". estéticas ou filosóficas — em suma. 23 24 Marx. Introdução. 309-10. temos uma noção ainda mais restrita do status sociológico das Ciências Naturais. numa passagem já bastante conhecida. p. A Contribution to the Critique of Politicai Economy. tanto maior será o número de acidentes (desvios do comportamento "esperado") que iremos encontrar em seu desenvolvimento.grau de independência no desenvolvimento das esferas ideológicas. 1903). cf. políticas. Para se considerar tais transformações. pp. H. as Ciências Naturais e a Economia Política. Com a mudança da fundação econômica toda a imensa superestrutura sofre uma transformação mais ou menos rápida. deve-se distinguir a transformação material das condições econômicas de produção. Kerr.

que se baseia na existência independente de invenções semelhantes. havê-las testado. Kerr. 24-25. precisaram até que ponto existem aquelas relações entre as atividades intelectuais e as bases materiais. no seu ensaio sobre Dryden. Socialism: Utopian and Scientific (Chicago: C. I. Esta tese. H. no entanto. uns poucos anos mais tarde. 27 Engels. o princípio seria. a Ciência Matemática atingiu taí ponto que.Naturais não é atribuído a uma base econômica. a que entretanto se acham sujeitas suas "finalidades" e "materiais": O que seria da Ciência Natural se não fossem a indústria e o comércio? Mesmo a mais pura ciência recebe seus objetivos materiais unicamente do comércio. 25 26 Engels. sendo característico que venham empregados de maneira vaga.25 Seguindo a mesma linha de raciocínio. 97. inevitavelmente descoberto por um terceiro". nem Engels. observado a respeito da descoberta do cálculo. E cita outros casos do mesmo tipo. e na descoberta independente de Morgan da mesma concepção. Já em 1828. A afirmação de que "só" o comércio e a indústria podem fornecer-lhes aplicações é típica da maneira extremista com que os primeiros escritos marxistas postulam as ligações entre a ciência e as bases materiais sem. havia Macaulay. p. levada a efeito por Newton e Leibniz: "Com efeito. Ogburn e por Vierkandt. Nem Marx.26 Prossegue afirmando que a teoria socialista é a "reflexão" proletária sobre o moderno conflito de classes. 36 (os itálicos foram acrescentados pelo autor do artigo). da indústria. Selected Works. Apresentar a ocorrência independente de descobertas e invenções paralelas como "prova" de que o conhecimento é determinado pela sociedade constitui um dos mais repetidos temas do século XIX. pp. em Marx. Ver ainda Engels. se nenhum dos dois houvesse existido. . p. da atividade sensível dos homens. Não se pode aceitar termos tais como "determinação" apenas pelo que significam. 25 Marx e Engels. Os manufatures da época vitoriana partilhavam do ponto de vista de Marx e Engels. donde o próprio conteúdo do "pensamento científico" ser socialmente determinado27 sem que isso implique a perda de sua validade. 1910. 393. onde as necessidades de uma classe média em ascensão são utilizadas para explicar a renovação por que passou a ciência. Socialism: Utopian and Scientific. tem sido especialmente desenvolvida em nossos dias por Dorothy Thomas. The German Ideology. p. Engels vê a aparição do materialismo histórico de Marx como tendo sido determinada ela mesma por uma "necessidade" que transparece nos pontos de vista semelhantes defendidos por historiadores franceses e ingleses da época.

310. 81 em Society at the Cross-Roads (Londres: Kniga. Brace. 154: A. isto é. 30 A posição social determina a "perspectiva". só a ideologia da classe revolucionária avançada. mas não do seu aparelho conceptual. p. xi-xii. "Somente o marxismo. 150. 28 proclamando a "ciência proletária" como a única capaz de apreender certos aspectos da realidade social. 1932). Timeniev. político e histórico. 1935).Havia uma tendência no início do movimento marxista e se considerar as relações entre as Ciências Naturais e a base econômica diferentes das relações que ligam os demais campos do conhecimento e da crença àquela mesma base. o que as torna inevitavelmente ten denciosas. "The Three Sources and Three Component Parts of Marxism". pp. 1925). Hessen. p. Ideology and Utopia. . "a maneira pela qual se vê o objeto. I. em Marx. Historical Materialism (Nova York: International Publishers. e como se o 28 V. pp.29 Mannheim segue a tradição marxista a ponto de negar determinantes existenciais às "Ciências Exatas" e ao "conhecimento formal". Poderia haver uma determinação social do foco de atenção que orienta o conhecimento científico. em Marxism and Modern Thought (Nova York: Harcourt. 54. I. 41. Selected Works. assim como ao da vida quotidiana". 243. p. As Ciências Sociais tenderiam a ser incluídas na esfera da ideologia. que por outro lado atribui ao "pensamento científico social. I. o que se percebe nele. Isto foi desenvolvido em trabalhos marxistas posteriores na tese questionável de que as Ciências Sociais estão nitidamente ligadas a interesses de classe. 29 Nikolai Bukharin. se consideravam as Ciências Sociais como diferindo significativamente das Ciências Naturais. Mannheim. "Die Bedeutung der Konkurrenz im Gebiete des Geistigen". Lenin. 30Mannheim. Sob este aspecto. Verhandlungen des 6. B. é científico". deutschen Soziologentages (Tuebingen: 1929).

De início. 256. 143. da superstição. Ideology and Utopia. por assim dizer. . Uma tarefa fundamental da Sociologia do Conhecimento seria descobrir as regularidades de transformação dessas concepções do mundo. chamava de "clima de opinião".. 31 Se Marx não tratou de analisar distinções na superestrutura. mas demarca o campo de pesquisa e os limites de sua validade. p. Merton. aquilo que Joseph Glanvill. o que é aceito como sendo dado. pp. sem que seja necessário ou possível justificar. os axiomas culturais dos grupos.. há uns trezentos anos. As teorias mal as afetam. Distingue uma variedade de formas do "conhecimento".conforma a um pensamento". . cf. Sobre essas 31 Mannheim. mas também as da "ilusão social.. 264. sem provas suficientes. Die Wissensformem. que somente a mistura de raças ou talvez a "mistura" de idiomas e de culturas poderá trazer-lhes modificações essenciais. Tais são. e de todas as formas de erro cujas origens sejam sociais".32 Essas concepções de mundo constituem organismos em crescimento e se desenvolvem apenas em longos períodos de tempo. "Karl Mannheim. por exemplo. Scheler caiu no extremo oposto. 32 Scheler. pp. E como não são todas necessariamente válidas. a Sociologia do Conhecimento não só se irá ocupar de buscar as bases existenciais da verdade. Scheler sustenta.".. A determinação situacional do pensamento não o invalida. 59-61. existem "as concepções do mundo (Weltanschauungen) relativamente naturais".

erguem-se as formas de conhecimento mais artificiais que se podem grupar em sete classes. 2) conhecimento implícito próprio ao linguajar popular. de Ciências Naturais e de Ciências Culturais. e estas se mantêm por períodos mais longos do que os resultados das Ciências Positivas.33 Quanto mais artificiais os tipos de conhecimento. p. É lógico. de acordo comseu grau de artificialidade: 1) mito e lenda. Essa hipótese de ritmos de mudança se assemelha em alguns pontos à tese de Alfred Weber segundo a qual "a mudança civilizacional" é mais rápida que a mudança cultural. tanto mais rapidamente se modificam. . que as religiões mudam muitíssimo mais devagar do que as várias metafísicas. Por 33 33 I b i d . 62. . 7) conhecimento tecnológico. os quais mudam de hora em hora. diz Scheler. Scheler não indica claramente em parte alguma o que seu princípio de classificação de tipos de conhecimento — a chamada "artificialidade" — representa de fato. 6) conhecimento positivo de Matemáticas. 5) conhecimento filosófico-metafísico. 3) conhecimento religioso (desde a vaga intuição emocional até o dogma cristalizado de uma igreja). Além de seus defeitos próprios. 4) tipos fundamentais de conhecimento místico. que apenas se modificam lentamente. e também se parece com a hipótese de Ogburn de que os fatores "materiais se modificam mais rapidamente do que os nãomateriais". a hipótese de Scheler participa das omissões das demais teses mencionadas.concepções de mundo.

não é o caso da seleção de objetos do conhecimento. naturalmente. que não precisamos examinar. as "formas" dos processos mentais através dos quais se adquire o conhecimento estão sempre e necessariamente co- . Ainda que o conteúdo. Além disso. entretanto. não confirma através de estudos empíricos. Apenas alguns tipos de conhecimento são considerados por Scheler como sociologicamente determinados. Scheler afirma: É indiscutível o caráter sociológico de todo o conhecimento e formas de pensamento. Baseando-se em alguns postulados. Vejamos a curiosa equação que estabelece entre os novos "resultados" científicos e os sistemas metafísicos. tal. intuição e apreensão. não se vê absolutamente o que uma hipótese complicada desse tipo pode oferecer. o "conhecimento místico" como sendo mais "artificial" do que os dogmas religiosos? Scheler absolutamente não examina em que implica a afirmação de que um tipo de conhecimento "muda mais rapidamente" do que outro. como comparar o grau de modificação que sofreu o neokantismo com as modificações da teoria biológica ocorridas no mesmo período? Scheler audaciosamente assevera a existência de uma variação de sete graus nos ritmos de mudança o que. e menos ainda a validade objetiva de todo o conhecimento. não sejam determinados pelas perspectivas de interesses sociais que os guiam.que conceber. Já se sabendo das dificuldades que se encontram em verificar hipóteses muito mais simples. por exemplo.

como historiadores. participam do conteúdo dos juízos. p. e. fossem co-determinados (mitbedingt) pela divisão e classificação dos grupos que compõem a sociedade.. preferimos depende de nossas avaliações sociologicamente determinadas. e já que a sociedade é "mais bem conhecida" do que qualquer outra coisa.35 seria de esperar que os modos de pensar e de intuir. 36 Maurice Mandelbaum. Sorokin 34 postula uma esfera análoga à das "idéias atemporais". vale dizer por sua estrutura social.34 Já que explicar consiste em acrescentar o que é relativamente novo ao que é antigo e familiar. 55.determinadas sociologicamente. A escolha do setor que nós. 35 Ver a mesma concepção por Dürkheim.36 34 Ibid. Space. trata-se de um reino inteiramente diverso daquele de realidade histórica e social que determina o ato dos juízos. Scheler rejeita vivamente todas as formas de sociologismo. em seu livro Sociocultural Causality. 1938). em vários graus. De acordo com o hábil resumo feito por Mandelbaum sobre esta visão: O reino das essências é para Scheler um reino de possibilidades das quais escolhemos um ou outro setor limitado. p. e em geral a classificação das coisas passíveis de serem conhecidas. Time . Apela ao domínio das "essências atemporais" que. The Problem of Historical Knowledge (Nova York: Liveright. Procura escapar de um relativismo radical recorrendo a um dualismo metafísico. o que nele encontramos é determinado pelo conjunto de valores absolutos e atemporais implícitos no passado com que lidamos. citada na nota 14 deste trabalho.. 150. g. presos que somos ao tempo e à nossos interesses.

Simplesmente afirmar a distinção entre as essências e as existências representa afastar o relativismo por uma espécie de exorcismo. a lógica e o modo de pensar consagrados são as de uma ars demonstrandi e não as de uma ars inveniendi. E. Numa sociedade desse tipo. a organização das Igrejas e seitas protestantes foi determinada pelo conteúdo de suas crenças. O conceito de essências interiores pode ser conveniente a um metafísico. O realismo (Durham: Duke University Press. uma vez que admite a dúvida.Isso é na verdade anti-relativismo comandado. não se preocupando eles em descobrir ou enriquecer o saber. 215. Toda tentativa de verificar o conhecimento tradicional é proibida por ser considerada blasfêmia. baseado na tradição e transmitido sem que seja submetido a crítica. Scheler indica que os diferentes tipos de conhecimento se ligam a formas específicas de grupos. É preciso lembrar que essas noções não desempenham um papel significativo nos esforços empíricos de Scheler visando a estabelecer relações entre o conhecimento e a sociedade. 1943). como foi demonstrado por Troeltsch. . os tipos comunais de sociedade (Gemeinschaft) possuem um lastro de saber. O conteúdo da teoria das idéias de Platão requeria a forma e a organização da academia platônica. passim. Do mesmo modo. Os métodos ontológicos e dogmáticos prevalecem sobre os epistemológicos e críticos. que só se poderiam firmar naquele único tipo específico de organização social. não se evidencia na pesquisa empírica. de forma semelhante. p.

O sistema de categorias adotado é o organicista e não o mecanicista. 433-435. Elementary Forms. adequadas a seu objeto. comparar com a caracterização análoga de "escolas sagradas" de pensamento. existem certos elementos 37 Scheler. A origem social das categorias não as torna inteiramente arbitrárias no seu relacionamento à natureza. como as estruturas sociais variam (e com elas o sistema de categorias). . 40 . em graus variados. 38 Durkheim. 39Ibid. pp.conceptual sobrepõe-se no modo de pensar ao nominalismo que iremos encontrar no grupo societal (Gesellschaft). p.38 B ) Uma vez que conceitos são integrados ao linguajar adquirido pelo indivíduo (esta observação permanece válidapara a terminologia dos cientistas). é claro que eles são produto da sociedade.40 Contudo Durkheim não adere a um tipo de relativismo que somente admita critérios competitivos de validade. 39 C ) A aceitação ou rejeição dos conceitos não é determinada meramente por sua validade "objetiva". 22-23. pp. Entretanto. Die Wissensformen. . enquanto indivíduos.. 438.. e que alguns desses termos conceptuais se referem a coisas jamais vividas por nós. apresentada por Florian Znaniecki. 12. capítulo 3. Elas são. 37 Durkheim submete a gênese social das categorias lógicas à investigação sociológica. baseando sua hipótese em três tipos de provas: A ) A variação cultural das categorias e leis da lógica "prova que elas dependem de fatores históricos e portanto sociais". mas também por sua adequação a outras crenças dominantes. 18. 40 ... 439. 1940). The Social Role of the Man of Knowledge (Nova York: Columbia University Press..

A objetividade é vista como emergindo do social. Com a extensão dos contatos interculturais. com a própria expansão da sociedade. 444-445. Tal fato se dá em determinadas condições sociais. Tais elementos subjetivos "devem ser progressivamente eliminados. aquelas concepções sujeitas à crítica científica metódica atingem um maior grau de adequação objetiva. que os contrastes 41 41 Ibid."subjetivos" nas construções lógicas correntes em uma sociedade. espaciais etc. . 437. e sim o produto da história. com a difusão da intercomunicação de pessoas provenientes de sociedades diferentes. à medida que mais nos quisermos aproximar da realidade". Através de toda a sua obra Durkheim permite que uma epistemologia dúbia se interpenetre com uma análise substantiva das raízes sociais das designações concretas das unidades.. de passagem. Não nos precisamos unir à tradicional exaltação das "categorias" como entidades separadas e conhecidas a priori. Êle assinalou. rompe-se o quadro de referências local. . . precisam ser reorganizadas. atendendo-se aos princípios que lhes são próprios. O legítimo pensamento humano não é um fato primitivo. tornando-se autônoma. para observarmos que Durkheim não se referia a elas e sim às divisões convencionais de tempo e espaço. "As coisas não se conformam mais aos moldes sociais em que foram anteriormente classificadas. 41 Em especial. temporais. A organização lógica se separa da organização social. pp.

aqueles que têm o direito de sair à rua com um bastão. A palavra chinesa não cristaliza um conceito a um grau definido de abstração e generalidade. etc. As . corresponde a uma noção que engloba as pessoas de sessenta a setenta anos. estabelecer a origem social das "categorias". igualmente concretas. Essas evocações concretas impõem uma multidão de outras imagens. Durkheim não conseguiu. O chinês permaneceu irredutível à precisão formal. existe um grande número de palavras que "descrevem aspectos diversos da velhice": k'i. não existe uma palavra que signifique "velho". representando todos os detalhes da vida dos velhos: aqueles que devem ser isentos do serviço militar. como Durkheim. analisar idéias ou desenvolver doutrinas discursivas. e assim por diante. as quais não são menos essenciais que as diferenças".existentes a este respeito não nos deveriam levar a "negligenciar as semelhanças. aqueles para quem se deve ter pronto todo o material funerário. mas evoca um complexo indefinido de imagens particulares. atribui grande importância à linguagem por ser o meio de conformar e fixar os conceitos e modos de pensar dominantes. k'ao. Granet. aqueles que respiram com dificuldade. entretanto. Assim. Essas são apenas algumas das imagens evocadas pela palavra k'i que. Demonstrou no seu estudo como a língua chinesa não se presta a exprimir conceitos. aqueles que necessitam de uma alimentação mais rica. Se foi o pioneiro em relacionar variações no sistema de conceitos a variações na organização social. em geral.

tradicionais ou rituais. . 87-95. elas reafirmam e reforçam os símbolos que representam o espaço.. edifícios e cidades devem ser orientados da maneira mais conveniente. arquitetura. Assim como a linguagem é concreta e evocativa. as idéias mais gerais do pensamento antigo chinês são todas concretas. esta é uma concepção de espaço que só poderia ter surgido numa sociedade feudal. dotado de imagens. campos e terrenos devem formar quadrados. os muros das cidades. e estabelece uma comparação implícita com nossos conceitos positivos. As técnicas mencionadas acima simbolizam a forma quadrada do espaço. Os campos. urbanismo. Como tais regras dependem de assembléias periódicas. geografia política — e as especulações geométricas que ensejam são todas ligadas a um conjunto de regras sociais. seu caráter heterogêneo e hierárquico. Ele analisa as representações mágicas. Nem o tempo e o espaço são definidos por noções abstratas. técnicos ou 42 42 Ibid.42 Apesar de ter Granet estabelecido os fundamentos sociais das designações concretas de tempo e espaço. enquanto o espaço é quadrado. As técnicas de divisão e ordenação do espaço — agrimensura. O tempo se desdobra em ciclos e é redondo.palavras e as frases possuem sempre um caráter emblemático. não se tornou evidente que trabalhe com dados comparáveis aos conceitos ocidentais. escolhida pelo chefe ritual. não podendo ser comparadas a nossas idéias abstratas. pp.

transparece em Granet a mesma falácia da teoria de Lévy-Bruhl. Mas os chineses não vivem seu dia-adia supondo que o "tempo é redondo" e o "espaço é quadrado". Assim. de acordo com as sociedades históricas em que vivem. a de uma mentalidade primitiva "pré-lógica". Granet demonstrou as diferenças qualitativas entre sistemas conceptuais de alguns contextos. a defasagem entre as esferas de pensamento e de atuação torna duvidosa uma divisão radical em "sistemas de categorias". Dessa forma. uma vez que não existem denominadores comuns de pensamento e de conceituação. deixando aberto o problema da existência de obstáculos intransponíveis entre as demais esferas. mas não as de contextos passíveis de sofrerem comparação como. e de diferenças fundamentais nos pontos de vista que se manifestam no interior da esfera ritualista. não existem tais diferenças inconciliáveis.científicos. Como está demonstrado no trabalho de Malinowski e Rivers. Suas pesquisas evidenciam a existência de variedade nos focos de interesse intelectual das duas esferas. seria o das atividades técnicas. por exemplo. Vai-se encontrar em Sorokin a mesma tendência a atribuir critérios de "verdade" totalmente heterogêneos a vários tipos de cultura. Suas formulações ressaltam o fato de que a atenção das elites intelectuais tende a variar e a se deslocar de um a outro campo. quando se trata de esferas de pensamento e de atuação. Enquanto em algumas sociedades o centro de debates focaliza as . que possam ser comparadas.

Sua posição se altera à medida que procura escapar de um relativismo radical. Sorokin adotou a posição científica característica a um "sistema sensorial de verdade". Afirma. e metalógico". que procura combinar os critérios empíricos e lógicos à "intuição" ou "experiência mística" de caráter "supra-sensível. 47 Usando sua própria terminologia. Primeiro. Mas. Com o intuito de . o princípio deve ser lógico por sua própria natureza. Mas os diferentes "sistemas de verdade" coexistem em cada uma dessas sociedades dentro de determinadas esferas. declara que suas construções devem ser testadas como "qualquer lei científica. ser possível a integração desses diferentes "sistemas de verdade". ao expor sua própria posição epistemológica. em segundo lugar. Embora se torne necessária uma longa discussão para documentar esta afirmação. deve conformar os fatos e representá-los". isto é. O fato de Sorokin admitir critérios de verdade radicalmente diferentes e heterogêneos o obriga a enquadrar seu próprio trabalho nesse contexto. o fato é que ele jamais resolveu esse problema. vai adotar uma concepção "integralista" da verdade.concepções religiosas e os tipos de metafísica. supra-racional. em nossa época sensorial a Igreja católica se apega a seus critérios "ideacionais". A princípio. outras sociedades se interessam pela ciência empírica. deve atravessar com sucesso a série de testes de "fatos relevantes". então.

Qualquer que seja a sua atitude pessoal em relação à intuição. contrária a um juízo estético da mesma pintura. os "sistemas de verdade" de Sorokin se referem a diferentes espécies de juízo. nos dão um conhecimento autêntico dos aspectos da realidade. Ele mesmo vem a reconhecer tal fato quando assinala que "os sistemas de verdade. a julgar por seus trabalhos. seria sua opção pela aceitação dos fatos e abandono da intuição. cada qual em seu legítimo campo de competência. ou não. . da mesma forma. seja. que a eles correspondem". ele não consegue introduzi-la em sua Sociologia como um critério (somente como fonte) de conclusões cientificamente válidas.justificar a "verdade da fé" — único critério capaz de o desviar do emprego de critérios usados pelos trabalhos científicos correntes — pretende que a "intuição" desempenha um papel importante como jonte de descobertas científicas. e não pelos comentários que fez à sua obra. mas dos critérios e métodos de validação. O que todas estas considerações sugerem é que Sorokin examina sob a etiqueta geral de "verdade" tipos de juízos bem distintos e não comparáveis: não se pode dizer que a análise de uma pintura a óleo. Quais os critérios a serem adotados por Sorokin quando as intuições "supra-sensoriais" não concordassem com os resultados da observação empírica? A solução do dilema. Mas será que isto resolve o problema? Não se trata das origens psicológicas das conclusões válidas. levada a efeito por um químico.

hoje em dia. Logic and Culture". 4: 670-680. conclui-se que exista uma pressão decisiva no sentido de desenvolver idéias e conhecimentos apropriados. 44 43 As distinções entre estes tipos de relações vêm há muito tempo sendo estudadas pelo pensamento sociológico europeu. 1939. senão por implicação. Nos Estados Unidos. reflexo. . dependência" etc. quando. Social Research. 5: 182-205. nomeando-as alternadamente com os termos "determinação. capítulos 1-2. correspondência. A insuficiência dessas diversas formulações vem atormentando aqueles que. os estratos têm necessidades (supostas).Relações entre o Conhecimento e a Base Existencial Malgrado ocupar o núcleo de toda teoria da Sociologia do Conhecimento. os comentários de Hans Speier. e relação simbólica. I. a um dado momento do desenvolvimento histórico. se inspiram na tradição marxista. "Language. o tratamento que tem sido dado a este problema não o aborda diretamente. As teorias mais aceitas têm lidado com um ou ambos dos dois principais tipos de relacionamento: relação causal ou funcional. Wright Mills. Social and Cultural Dynamics. conseqüência.. e.43 Marx e Engels evidentemente só se preocuparam com algumas espécies de relações causais entre a base econômica e as idéias. American Sociological Review. 4461 Cf. Todavia. "The Social Determination of Ideas". a mais elaborada colocação do problema é a de Sorokin. Falavam ainda de uma relação de "interesse" ou de "necessidade". cada tipo de relação conhecimento-sociedade pressupõe toda uma teoria de métodos sociológicos e de causalidade social.g. C. 1938. orgânica ou significativa.

Já que. O Manifesto contém uma explicação empírica parcial dessa "falsa consciência": a burguesia controla o conteúdo da cultura. 43 Marx e Engels. p. para um dado estrato da sociedade. Talvez 45 46 Cf. como havíamos visto. "The Problem of Imputation in the Sociology of Knowledge". torna-se evidente por si mesmo que o faça em toda a extensão. 51: 200-219. como produtores de idéias. pp. 1941.46 Ou. Georg Lukács. envolvem uma teoria da história capaz de determinar se. isto é. Ethics. Arthur Child. The German Ideology. "as idéias dominantes em cada época são sempre as idéias da classe dirigente". . ressurge o problema da atribuição do pensamento a uma determinada base. corresponde no máximo à falsa consciência da classe subordinada. Ideology and Utopia. que domine também como pensadores. e que regulamente a produção e a distribuição de idéias de sua época. Marx sustentava que o pensamento não é um mero "reflexo" da posição objetiva das classes. Esta é. Geschite uns Klassenbewusstsein (Berlim: 1923).. "Na medida em que (a burguesia) domina como classe e determina a dimensão e o movimento de uma época. pp. entretanto. Mas tal discernimento da situação não precisa ser efetivamente muito difundido dentro de determinados estratos sociais. que se ocupam desse problema. 175 e segs. em termos mais gerais. . " . a ideologia "corresponde à situação": o que iria exigir uma construção hipotética daquilo que os homens pensariam e perceberiam. 61 e segs. e assim difunde doutrinas e padrões estranhos aos interesses do proletariado. caso fossem capazes de compreender a situação histórica 45 adequadamente. uma explicação parcial. o que leva ao problema da "falsa consciência": como triunfam ideologias que não estão em conformidade nem com os interesses de uma classe nem com a situação social. 39.. As interpretações marxistas dominantes. a formulação por Mannheim.

ou então não seria um processo ideológico. Selected Works.. Cf. mais uma vez. constituídos como interesses objetivos de classes sociais. no trecho onde diz que os Montagnards democráticos iludiram a si próprios. 48 49 Marx. 39. 26-27. 12. . como sendo uma expressão involuntária e inconsciente de "motivos reais". Socialism: Utopian and Scientific. ele não acredita que pertença". em carta a Mehring. Der Achtzehnte Brumaire. p. Der Achtzehnte Brumaire. a natureza inconsciente das ideologias: A ideologia é um processo conscientemente efetuado por aquele que se diz pensador. 33. pp.. Mas isto não seria pertinente para se explicar a falsa consciência da própria classe dirigente. Sublinhando-se assim. p.49 e como 47 Engels. a 14 de julho de 1893. Feuerbach. mas é guiado por falsa consciência. pp. 388-9.48 como simples "expressões" de condições materiais. Marx. por exemplo. p. . Engels.47 A ambigüidade do termo "correspondência" para definir a relação entre a base material e a idéia só poderá ser negligenciada pelo apologista entusiasta." BB . Engels. o fato indicado por Marx de que mesmo onde o camponês proprietário "por sua situção pertence ao proletariado. pp. aparece na teoria marxista outro tema referente à falsa consciência de classe. 122-23. É a noção de ideologia. Advém daí que ele imagina motivos falsos ou ilusórios. As ideologias são interpretadas como "deformações da situação social". Nesta ocasião o calvinismo mostrou ser o verdadeiro disfarce religioso adotado pelos interesses da burguesia da época. Os verdadeiros motivos que o impelem permanecem desconhecidos para ele. "O fracasso no extermínio da heresia protestante correspondeu à invencibilidade da burguesia ascendente.explicasse. I. em Marx. Ainda que não esteja claramente formulado. Cf. Critique of Political Economy.

em Marx. as idéias que não convierem a nenhuma das classes sociais em conflito poderão aparecer. 383. ainda que em relação com a base material. que atribui também à superestrutura. Selected Works. As colocações de Marx-Engels estabeleciam a ligação entre as idéias e a infra-estrutura econômica. As condições econômicas são necessárias. p. 390. . sejam ou não 50 "destorcidas". ou as perspectivas. ibid. ao menos sob dois aspectos: A ) Tanto ele quanto Marx haviam exagerado o papel do fator econômico. 8. Gozam de uma certa autonomia. Quando reconhece nas crenças "ilusórias" motivos para a ação. um certo grau de independência. I. o marxismo atribui uma certa independência às ideologias no conjunto do processo histórico. para a emergência e difusão de idéias que expressem os interesses. I. 51 Engels.. Der Achtzehnte Brumaire. a 14 de julho de 1893. subestimando o papel da interação recíproca. mas serão pouco conseqüentes. 526» Engels. A partir de então se desenvolve a teoria da interação de fatores. na medida em que esta constitui o marco limitando a extensão de idéias socialmente eficazes. em carta a Mehring. a 21 de setembro de 1890. em carta a Joseph Bloch. ou 50 Marx reconhece a importância motivacional representada pelas "ilusões" da burguesia em ascensão.suporte motivacional para se proceder a reais mudanças na sociedade. 51 e B ) haviam "negligenciado" o lado formal — a maneira segundo a qual as idéias se 52 desenvolvem. Engels explicitamente reconhece a inadequação das formulações anteriores. mas não suficientes. p. Elas já não se reduzem a epifenómenos.

precária e temporária. ao invés de optar por outra que. Existe uma compulsão última advinda do desenvolvimento econômico. não a fazem dentro de circunstâncias que escolheram. no fazer a história. ou então a importância que Marx e Engels deram a se fazer o proletariado "consciente" de seus "próprios interesses". E. mas dentro das que se acham dadas e transmitidas do passado". os sistemas de idéias que não concordam ou com a estrutura de poder existente. dirigindo-se em sentido contrário ao da situação de poder existente. As condições econômicas não exercem um determinismo estrito sobre as idéias. as idéias e ideologias desempenham um papel definido: basta considerar a noção de religião como "o ópio das massas". mas constituem predisposição definida. ou com a . A teoria marxista da história supõe que. está destinada a ser instável.ambos. "Os homens fazem sua história. mas apenas o desenvolvimento de condições econômicas que tornam possível e provável a execução de certas linhas de mudança. Podemos predizer a partir das condições econômicas que tipos de idéias exercerão influência controladora numa direção que possa ser eficaz. que "corresponda" a um real equilíbrio de forças. mas não como gostariam de fazê-la. de estratos sociais distintos. os sistemas de idéias podem desempenhar um papel decisivo na escolha de uma alternativa. mas sua orientação não é a tal ponto detalhada que impeça a total ocorrência de variação nas idéias. Já que não existe fatalismo no desenvolvimento da estrutura social total. cedo ou tarde.

Neste caso. .emergente. como no de várias outras teorias referentes à Sociologia do Conhecimento. "anacronismos". em última instância. 166-170. pp. "independência parcial". e "dependência última". a fim de poder justificar tanto os temporários desvios de idéias como sua posterior acomodação às pressões econômicas. E é também por isso que a análise marxista tem possibilidade de assumir um excessivo índice de "flexibilidade". É esta a visão expressa por Engels na sua metáfora de "curso em ziguezague" de ideologia abstrata: pode haver um desvio temporário das ideologias de um eixo compatível comas relações sociais de produção existentes. "empurrões". Max Weber. É por isso que a análise marxista da ideologia está sempre preocupada com a situação histórica "total". Gesammelte Aufsaetze zur Wissenschaftslehre. a noção de "acidente" fornece um meio fácil de "preservar" a teoria contra fatos que desafiariam sua validade.53 Assim que uma teoria inclui conceitos tais como "retardamentos". "acidentes". tenderão a ser alijados em benefício daqueles que mais exatamente exprimem o novo equilíbrio. "anacronismos" e "retardamentos" tornam-se etiquetas que permitem desfazer-se de crenças existentes incompatíveis com as expectativas teóricas. mas tal desvio será. deve-se colocar uma questão no 53 Cf. retificado. passa a ser tão flexível e vaga que se pode aplicá-la a não importa que configurações de dados. a ponto de poder "explicar" qualquer desenvolvimento como aberração ou desvio temporário.

loc. 54 Como ele próprio deixou indicado. depois de analisada. cit. a menos que a teoria não contenha afirmações passíveis de serem contraditas por dados especificamente definidos. A mais séria insuficiência surgida quanto à análise de Durkheim foi a de aceitar sem crítica uma teoria ingênua de correspondência. "Language. pp. .intuito de determinar a autenticidade de uma teoria: como invalidar uma teoria? Em uma dada situação histórica. Mannheim não logrou estabelecer de maneira apreciável as relações do pensamento com a sociedade. 135-139.. cf. Merton. Apesar de ter-se adiantado no que tange a métodos de pesquisa efetivos na Sociologia do Conhecimento substantiva. ver ainda Mills. o problema de atribuí-la a grupos definidos. quais os fatos a contradizê-la e a destituí-la de fundamento? A menos que se responda diretamente a esta pergunta. Esteúltimo fenômeno implicaria uma psicologia social a que Marinheira não desenvolveu sistematicamente. Logic and Culture". que estabelecia as categorias de pensamento como "reflexos" de certos traços da organização do grupo em que se manifestavam. Assim. "Karl Mannheim and the Sociology of Knowledge". loc. cit. ela permanece uma pseudoteoria compatível com qualquer conjunto de dados. mas também a interpretação das causas que conduzem estes. neste trabalho. fica. uma estrutura de pensamento. Para tanto é preciso não apenas uma investigação empírica sobre os grupos ou estratos que substancialmente pensam em tais termos. a desenvolver tal linha de pensamento. tratar desse aspecto da obra de Mannheim. e não outros grupos. "existem sociedades na Austrália e na América do Norte onde o espaço é 54 Não se vai poder.

55 Semelhantemente. 11-12.. pp. . Essa Sociologia do Conhecimento se ressente de ter Durkheim evitado utilizar os dados da Psicologia Social. são deduzidos da estratificação e do agrupamento social. Essas categorias sociais são então "projetadas na nossa concepção do mundo". ritos). porque o acampamento ostentava uma forma circular. a noção geral de tempo advém das unidades específicas de tempo. Os fatores existenciais não "criam" nem "determinam" o conteúdo das idéias. festas. de que é uma reprodução". retardam ou aceleram a atualização de idéias potenciais. As idéias interagem com os fatores existenciais que servem de agentes seletivos. eles impedem. A categoria de classe lógica e os modos de classificação. Scheier declara: "de um modo particular e numa ordem 55 82 Dürkheim. Scheier estabeleceu a interação como a relação central das idéias com os fatores existenciais. Elementary Forms. as categorias "exprimem" os diferentes aspectos da ordem social. . Em suma. que envolvem a noção de hierarquia. alargando ou retraindo o domínio em que as idéias virtuais possam vir a ser efetivamente expressas..conceituado sob a forma de um imenso círculo. Usando uma imagem semelhante ao demônio hipotético de Clerk Maxwell. . não fazem mais do que representar a diferença entre o que seja ato e o que seja potência. diferenciadas a partir de atividades sociais (cerimônias.. a organização social serviu de modelo para a organização espacial.

tanto uma quanto . e sem a aparição do princípio de aquisição infinita que caracteriza o capitalismo moderno.definida. da produção para um mercado. da preponderância incipiente da máquina sobre o instrumento manual. do outro. da dissolução incipiente da comunidade (Gemeinschaft) em sociedade (Gesellschaft). Scheler igualmente usa o conceito de "identidades estruturais" ao se referir a postulados comuns ao conhecimento e crença. o desenvolvimento do pensamento mecanicista no século XVI. Troelstch. é inseparável do novo individualismo. e à estrutura social. tal formulação que atribui aos fatores existenciais a função de escolher num mundo inclusivo de idéias constitui um sólido ponto de convergência entre teóricos como Dilthey. política e econômica. Assim. Max Weber e ele próprio. e da crescente aceitação do princípio de concorrência no ethos da sociedade ocidental etc. Antes. Examinando tais identidades estruturais. A concepção da pesquisa científica como sendo um interminável processo de se acumular conhecimentos para aplicação prática quando a ocasião se apresenta. De acordo com Scheier. que veio a dominar o pensamento organicista anterior. os fatores existenciais abrem e fecham as comportas às correntes de idéias". e o total divórcio dessa ciência da teologia e da filosofia não seriam possíveis sem a destruição simultânea de uma economia natural de satisfação de necessidades. de um lado. Scheler não atribui primazia nem à esfera sócio-econômica nem à do conhecimento.

Com essa concepção de identidade estrutural. que implica a "identidade dos princípios fundamentais e valores que permeiam todas as suas partes". . Sorokin se dedica à investigação dos critérios de verdade. tendo que reconhecer. Assim. apesar de seus 56 Sorokin.56 Tendo construído sua tipologia de culturas.a outra são determinadas pela estrutura impulsiva de uma elite penetrada pelo ethos social dominante — tese a que Scheler atribui uma significância toda especial. e que se opõe ao "sistema causal" que implica a interdependência das partes. metafísica. Essa orientação é em grande parte implícita e não deve ser confundida com os motivos pessoais dos cientistas. Seria muito mais o produto de uma orientação no sentido de controlar a natureza. a tecnologia moderna não seria uma simples aplicação de uma ciência pura. produção científica e tecnológica. Sorokin corajosamente se entregou ao problema de determinar a extensão a que tal integração se conforma. ontologia. na lógica e na Matemática. descobrindo uma tendência marcante à sua integração significativa com a cultura predominante. Scheler se aproxima da noção de integração cultural ou Sinnzusamment da identidade estrutural corresponde ao "sistema cultural significativo" de Sorokin. IV. Social and Cultural Dynamics. capítulo 1: I. capítulo 1. fundada na observação. que definiria tanto os propósitos como a estrutura conceptual do pensamento científico.

virulentos comentários a propósito dos estatísticos de nossa época sensorial. e já que "eles estão pedindo. 58 Sorokin. A esse reconhecimento segue-se a organização de índices numéricos dos diversos escritos e autores de cada período. Sorokin. O "empirismo" é definido como o sistema sensorial de verdade típico. Space. Qualquer que seja a avaliação técnica sobre a validez e a fidedignidade dessas estatísticas culturais. 95n. Sorokin guarda o mérito de ter visto o problema do grau e intensidade de integração. Sociocultural Causality. Os últimos cinco séculos. . constituem a "cultura sensorial par excellence! 58 Contudo. Acresce o fato de que suas conclusões empíricas foram largamente baseadas em tais estatísticas. Sorokin adota a seu respeito uma atitude ambivalente. vamos dá-las". que lembra aquela que se atribui a Newton a respeito da experimentação: não vê nelas mais do que um processo de tornar suas conclusões já realizadas "inteligíveis e convincentes para o grande público". mesmo nesse oceano de cultura sensorial os índices estatísticos de Sorokin assinalam apenas 53% de escritos 57 Apesar das estatísticas ocuparem em suas pesquisas empíricas um lugar especial. p. p. 57 E suas conclusões evidenciam que sua abordagem provê mais à colocação do problema das conexões entre as bases existenciais e o conhecimento do que à sua solução. II. Tomemos um exemplo. 51. negligenciado por numerosos investigadores de "culturas integradas" ou Sinnzusammenhaegen. A ambivalência de Sorokin se origina no seu esforço de integrar sistemas de verdade" distintos. É de se notar que Sorokin acolhe a observação segundo a qual as suas estatísticas nada mais são do que uma concessão à mentalidade sensorial dominante. a classificação em categorias apropriadas. estabelecendo assim a freqüência relativa (e influência) dos vários sistemas de pensamento. Social and Cultural Dynamics. a necessidade de aferição estatística para se estudar a "extensão" ou "grau" de integração necessária. Time. e em especial o século XIX.

relevantes no campo do "empirismo". não se pode encarar a existência de tipos de conhecimento não-integrados às tendências dominantes como meros "amontoados" ou "contingências". ou a sociedade total. Já que se introduziu a noção de grau de integração. E nos primeiros séculos dessa cultura sensorial — fins do século XVI à metade do XVIII — os índices do empirismo permanecem bastante abaixo dos níveis do racionalismo (que presumivelmente mais se liga a uma cultura idealista do que à sensorial). Suas bases sociais têm de ser estabelecidas. "público". o que. O objeto dessas considerações não é o de colocar em questão a coincidência entre as conclusões de Sorokin e seu material estatístico: não se quer perguntar por que nos séculos XVI e XVIII predominava um "sistema sensorial de verdade". Antes. a ser seguido por análises dos desvios em relação às "tendências centrais" de cada cultura. entretanto. A orientação dos pensadores não se restringe a seus dados. caracterizações globais de culturas históricas constituem apenas um primeiro passo. ou o que Znaniecki chama de "círculo social". Uma noção fundamental para se diferenciar generalizações do pensamento e conhecimento de toda uma sociedade ou cultura é a de "audiência". mas a segmentos específicos daquela sociedade com suas exigências especiais. de pensamento "significativo". tenta indicar que mesmo de acordo com as premissas de Sorokin. uma teoria emanacionista não providência. critérios de avaliação. tendo em vista os dados recolhidos. de problemas .

É através da antecipação das exigências e expectativas de audiências determinadas. e sua posição social correspondente tornarão possível. a compreensão das variações e conflitos de pensamento dentro de uma sociedade. de formulações conceptuais. os cientistas que na França e na Inglaterra no século XVII se organizavam em sociedades científicas recémformadas se dirigiam a públicos bastante diferentes daqueles dos sábios que permaneceram nas universidades tradicionais. não-experimental. tipológicamente definidos. colocam problemas. relacionando-os à sua posição no contexto social. problema que vem necessariamente sendo negligenciado por toda teoria emanacionista. daqueles que estavam nas universidades. Assim. tanto maior a variedade dos focos de interesse científico. tanto maior diversidade de audiências comporta. A orientação de seus esforços no sentido de uma explicação "clara.pertinentes. explorar seus critérios distintivos de conhecimento válido e significativo. definem seus dados. que os pensadores organizam seu próprio trabalho. Quanto mais uma sociedade se diversifica. sóbria e empírica" de certos problemas técnicos e científicos se distinguia consideravelmente do trabalho especulativo. através da Wissenssoziologische. Pesquisar tais variações em públicos concretos. passíveis de serem localizadas na estrutura social. e examinando-lhes os processos sócio- . O estabelecimento de liames entre cada um desses públicos. de processos de verificação de supostos conhecimentos.

E isto se aplica tanto ao pensamento ideológico como à Ciência Natural. a ciência e a tecnologia. não poderemos proceder neste trabalho a um estudo detalhado dessas análises funcionais. Funções Atribuídas aos Produtos Mentais Existencialmente Condicionados As teorias analisadas não se restringem a formular "explicações causais" do conhecimento.psicológicos de obtenção de determinados modos de pensar constituem o encaminhamento que fará a pesquisa em Sociologia do Conhecimento passar do plano da imputação geral ao de análises empíricas verificáveis. Limitações de espaço nos obrigam a considerar brevemente outro aspecto dessas teorias. Na sociedade capitalista. Se bem que valha a pena. os marxistas têm-se . ao invés de à sociedade como um todo. Dentro dessa mesma perspectiva. assinalado em nosso paradigma: funções atribuídas aos vários tipos de produtos mentais. seja por sua modificação. que dela procedem. O traço mais característico da imputação marxista de função é o de atribuir essas funções a estratos distintos da sociedade. transformam-se em mais um instrumento de controle nas mãos da classe dominante. adiantando "funções sociais" destinadas a responder seja por sua persistência. A exposição precedente se refere à substância fundamental das teorias correntes. ao indagar dos "determinantes econômicos" do desenvolvimento científico.

seu reconhecimento pelos cientistas ou por aqueles que selecionam os problemas. D. K. . faz-se necessário um inquérito pormenorizado a respeito das relações que ligam o surgimento das necessidades. The Social Function o f Science (Nova York: The Macmillan Co. capítulos 7-10. Durkheim indica também suas funções sociais. Crowther. 1941). Todavia. a própria existência de qualquer sistema comum a uma sociedade.. Technology and Society in 17th Century England (Bruges: Osiris History of Science Monographs. enquanto o estudo de seções cônicas levou dois milênios antes de ser aplicado na ciência e na tecnologia. J. Hessen. 59 Além de pretender que as categorias emergem do social.limitado a assinalar que os resultados científicos possibilitam a satisfação de algumas necessidades econômicas ou tecnológicas. Bernal. Podemos concluir que as "necessidades" satisfeitas pela sua aplicação posterior tenham orientado o interesse dos matemáticos para esses domínios. 1939). op. 1938). R. Science.. Merton. Mas o fato de uma teoria científica encontrar aplicações práticas não implica que as necessidades estivessem significativamente envolvidas na obtenção desses resultados. As funções hiperbólicas esperaram dois séculos por uma aplicação prática. tendo por assim dizer havido uma influência retroativa ao curso de dois ou vinte séculos? Antes que se possa estabelecer o papel desempenhado pelas necessidades na determinação da temática da pesquisa científica. antes da elucidação de um sistema de categorias específico em uma sociedade dada. The Social Relations o f Science (Nova York: The Macmillan Co. J.. G. cit. É indispensável a existência de um 59 Comparar com B. e as conseqüências originadas por esse reconhecimento. sua análise funcional visa.

substanciada em determinadas maneiras de pensar. o trabalho de Wilson se ateve aos métodos e critérios de ingresso no magistério. na realidade. O que acima vai exposto demonstra a necessidade de novas investigações dada a diversidade dos problemas. Tem que haver um certo mínimo de "conformidade lógica" se se pretende manter atividades sociais conjuntas. Esta colocação foi desenvolvida posteriormente por Sorokin. O que os aprioristas vêem como a compulsão da maneira natural e inevitável de se entender as coisas é.mesmo conjunto de categorias que permita a intercomunicação e a coordenação das atividades dos homens. Um dos primeiros a se dedicar a este problema nos Estados Unidos. Scheler indicava a considerável influência que a organização social da atividade intelectual exerce sobre o caráter de conhecimento que desenvolve. um conjunto comum de categorias é uma necessidade funcional. às atribuições de status e aos mecanismos de controle atuando sobre os professores. Outros Problemas e Estudos Recentes. que indica as várias funções servidas por diferentes sistemas de espaço e tempo sociais. apenas a expressão da "autoridade mesma da sociedade. Já mais sistematizado. tendo . que são condições indispensáveis a toda atividade comum". Veblen apresentou um impressionista e cáustico estudo das pressões que conformam a vida universitária americana.

uma vez que as transformações na 60 Florian Znaniecki. as "avaliações veladas" dos cientistas sociais americanos que estudam o negro americano. 1944). à participação ou ausência em pesquisas que permeiam implicações valorativas imediatas que desafiam os arranjos institucionais existentes opostos a fins culturais. à sua alienação dos estratos dominantes ou dos estratos subordinados de uma população.60 Ainda há muito que estudar no que se refere aos critérios de identificação de classe dos intelectuais. a mudança de papéis do intelectual e a relação dessas modificações com a estrutura. conteúdo e influência de seu trabalho necessitam de atenção crescente.assim formado sólidas bases para estudos comparativos posteriores. à burocratização dos intelectuais como processo de transformar problemas políticos em problemas administrativos. 1940). e os efeitos de tais avaliações na formulação de "problemas científicos" nesta área de pesquisa. as definições de papel às atitudes em relação ao conhecimento prático e teórico. repetidas vezes. os tipos de conhecimento às bases em que os cientistas são julgados pelos membros da sociedade. 61 Em seu tratado An American Dilemma (Nova York: Harper and Bros. às áreas da vida social em que se requer conhecimento especializado e positivo.61 as pressões favorecendo o tecnicismo e indo contra "pensamentos perigosos". Znaniecki desenvolveu uma série de hipóteses relacionando esses papéis aos tipos de conhecimento. Através de uma tipologia dos papéis diversos desempenhados pelos estudiosos. etc. Gunnar Myrdal aponta. em suma. . e àquelas em que a sabedoria do homem simples é considerada suficiente.. Social Role o f the Man o f Knowledge (Nova York: Columbia University Press.

Além dos estudos a que já nos referimos. "The Social Role of the Intellectual". "Die gesellschaftliche Bendingtheit der psychoa-nalytischen Therapie". era um típico representante de uma sociedade que exige obediência e sujeição. Entre os artigos recentes encontram-se os de C. 64 62 Mannheim se refere a uma monografia inédita sobre o intelectual. "The Intelligentsia". Horizon. poder-se-á encontrar bibliografias gerais em seus livros e no artigo de Roberto Michel: "Intelectuais". . apresentado ante a reunião anual da Sociedade Sociológica Americana. R.62 Cada vez mais se admite que a influência da estrutura social sobre a ciência não se reduz a concentrar a atenção dos cientistas em determinados campos de pesquisa. 1935. Merton. 9: 162-175. "Role of the Intellectual in Public Policy". outros têm-se preocupado com as formas de que se reveste a interferência do contexto social e cultural na formulação conceptual de problemas científicos. I. Zeitschrift fuer Sozialforschung. pela proeminência que concede ao pai.organização social mais e mais sujeitam o intelectual a exigências contraditórias.63 Ao fazer uma observação meio irônica a respeito das características nacionais dos estudos referentes ao treinamento de animais. por sua vez. plasmou-se no conceito então dominante de concorrência econômica que. Arthur Koestler. e que o próprio Freud. 1935. "Die gesellschaftliche Bendingtheit der psychoa-nalytischen Therapie". 63 64 Erich Fromm. Da mesma forma. K. assumiu uma função ideológica a partir de seu postulado de uma "identidade natural de interesses". A teoria da seleção. Russell orienta um novo tipo de estudos: as relações entre a cultura nacional e as formulações concetuais. Fromm tem tentado mostrar que o "liberalismo consciente" de Freud implica a rejeição tácita dos impulsos considerados pela sociedade burguesa como tabus. Politics. 1944. em dezembro de 1943. W. Mills. abril de 1944. 4: 365-97. Zeitschrift fuer Sozialforschung. Erich Fromm. 4: 365-97. elaborada por Darwin. Encyclopedia o f the Social Sciences.

67 Para que tais perspectivas fossem aceitas. 4: 174-175. 67MC. Wright Mills. 66 1943. 66 N. 57: 373-377. 49: . ao passo que os defensores da primazia do ambiente tendem a se engajar nos processos de mudança social como democratas ou radicais. entre os estudiosos de Patologia Social. Os que enfatizam o caráter hereditário alinham-se no campo político entre os conservadores. seriam antes necessários estudos mais 65 Lewis S. "The Professional Ideology of Social Pathologists". "The Economic Factor in History". o exime de tomar partido. Science and Society.66 Entretanto. que se inclina à conciliação e vê sempre algo de válido em todos os pontos de vista.65 Tem-se ligado a orientações políticas opostas a ênfase na "natureza" e no "aprendizado" como determinantes fundamentais do ser humano. 1940. menosprezam a possibilidade de que alguns grupos possam atingir seus objetivos dentro das condições institucionais existentes. que supõem implicitamente o reconhecimento dos padrões de pequenas comunidades como normas sociais e que. Sociology. relevando a multiplicidade dos fatores e a complexidade dos problemas. School and Society. 1943. Feuer.Da mesma forma tem sido demonstrado que a noção de causação múltipla é de especial conveniência para o professor que goza de uma relativa estabilidade. tendendo assim para uma taxonomía que. que se atém ao status quo do qual provêm sua dignidade e subsistência. Pastore. fato muito característico. mesmo os que acentuam a importância do meio social adotam concepções de "ajustamento social". "The Nature-Nurture Controversy: a Sociological Approach". American Journal o f 165-190.

Tais trabalhos preferem a adoção de categorias analíticas a morfológicas. n. a se considerar que esse desenvolvimento se realizasse independente da estrutura social. em National Resources Committee. American Journal o f Sociology. As mudanças fundamentais na organização social na Alemanha 68 William T. 1944. S. Estudos vêm demonstrando que um controle social cada vez mais visível. 1941). 1938. Stern. vem ilustrado num recente exame dos escritos de estudiosos negros. O caráter questionável dos enquadramentos sociais. pp. Patents and Free Enterprise (TNEC Monograph. condiciona a pesquisa e invenção científicas. 69Bernhard J.° 31. 49: 302-315. de dados excepcionais a típicos.68 O curso atual dos acontecimentos históricos vem desfazendo toda inclinação a se considerar inteiramente autônomo o desenvolvimento da ciência e da tecnologia. The Annals. e que às vezes cede lugar a sanções. Technological Trends and National Policy (Washington U. as últimas tendências vêm procurando relacionar as perspectivas dos cientistas ao quadro de referências e de interesses constituídos por suas posições sociais. "Resistances to the Adoption of Technological Innovations". de determinantes ambientais de comportamento a biológicos. Government Printing Office. "Restraints upon the Utilization of Inventions". e para mais referências ver Walton Hamilton. o que vem sendo encarado como manifestação do ressentimento de casta dos escritores negros. Fontaine. 1937). Em todo caso. "Social Determination in the Writings of Negro Scholars". sem que se tenha estabelecido comparação com a freqüência de tendências semelhantes nos escritores brancos. 39-66. . que carecem de uma fundamentação em bases comparativas adequadas. Entre eles se situa o de Stern69 que ainda estabelece o que corresponde em medicina a resistência à mudança. 200: 1-19.sistemáticos.

). Embora Toynbee e Sorokin possam estar com a razão quando falam da alternância que. faz um período de investigação suceder a um período de generalização. R. German Universities and National Socialism. cit. na história da ciência. ver as observações de Sorokin. 71 Tal fato é mais notável em tempos de guerra.forneceram uma espécie de teste experimental da estreita dependência que existe entre a orientação e amplitude do trabalho científico. IV. Science and Social Needs (Nova York: Harper and Bros. 1935). K. sem extravasar dos limites do presente trabalho. . prosseguir desenvolvendo a considerável lista de problemas. I. Scientific Monthly. "Science and Military Technique".70 Não nos seria possível. Resta dizermos o seguinte: a Sociologia do Conhecimento rapidamente ultrapassa sua tendência inicial a confundir uma hipótese de trabalho provisória com um dogma incontestável. Berna!. cf. a quantidade de proposições especulativas que caracterizaram seus passos iniciais é agora submetida a testes cada vez mais rigorosos. Julian Huxley. 41: 542-545. 70 Hartshorne. Science and War (ms.. segundo as quais os centros de poder militar tenderiam a ser os centros de desenvolvimento tecnológico e científico (Dynamics. K. 249-51). 5: 321-337. Philosophy o f Science. Merton. 1938. a estrutura de poder e as perspectivas culturais correspondentes. parece que a Sociologia do Conhecimento conseguiu reunir essas duas tendências no que promete ser uma união fértil. "Science and Social Order". Merton. 1935. R. que vêm sendo submetidos à investigação empírica. E os estudos que demonstram como se colocaram a ciência e a tecnologia a serviço de exigências sociais e econômicas tornam evidentes as limitações de qualquer pretensão a se fazer da ciência e da tecnologia "a base" sobre a qual se deve "ajustar" a estrutura social. op. Cohen e Bernard Barber. B..

focaliza os problemas que ocupam o centro do interesse intelectual contemporâneo.Acima de tudo. as conseqüências são menos diretas. (American Sociological Review. WRIGHT MILLS Tradução de ÂNGELA MARIA XAVIER DE BRITO Muitos dos pensadores que se voltaram para este problema afirmam que a Sociologia do Conhecimento não tem relevância para a epistemologia. Um exame analítico das posições negativas referentes às conseqüências epistemológicas da Sociologia do Conhecimento e uma solução do assunto geral ao qual ela provavelmente se refere progredirão 71A análise de von Schelting de Ideologie und Utopie de Mannheim conclui: "O contra-senso começa quando se acredita que a origem fatual e us fatores sociais. em especial.) Assim. I n.° 4. Mas o assunto é mais complexo. Neste sentido rudimentar. de alguma maneira afetam o valor aas idéias e concepções assim originadas e.71 É possível que o problema tenha sido colocado de forma por demais restrita e rudimentar. . das realizações teóricas". a Sociologia do Conhecimento é epistemologicamente inconseqüente. A verdade é que do conhecimento da "posição social" de um pensador não se pode deduzir a veracidade ou falsidade de suas afirmações. CONSEQÜÊNCIAS METODOLÓGICAS DA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO C. . que o exame sociológico das investigações não tem conseqüências para os critérios de "veracidade" e "validez". 634. o relacionamento de modalidades de pensamento com situações histórico- .

Junto com Grünwald. critérios de verdade e modelos de verificação epistemológicos? 2) Exatamente onde. não deve ser analisado sociologicamente. Os que adotam a posição negativa devem estabelecer o que são estes critérios de veracidade e validez. Schelting e Speier . Hans Speier. ao relatar crença semelhante. este último. em que conjunturas e em que tipos de investigação podem os fatores sociais entrar como determinantes do conhecimento? É claro que a "veracidade" e a "objetividade" apenas têm aplicação e sentido em termos de algum modelo ou sistema de verificação. Deve especificar com exatidão o que existe no pensamento que os fatores sociológicos não possam explicar e em que se baseiam a validez e a veracidade. a origem e a função genérica das formas. aceitos. fala da "intromissão" da Sociologia no domínio filosófico e faz uma distinção entre pensamento "promocional" e "teórico". Assim. Aquele que sustenta a irrelevância das condições sociais para a veracidade das proposições deve estabelecer as condições das quais. a veracidade depende. Têm sociais é concebido como se não levasse consigo nenhuma crítica ou reformulação legítimas dos critérios "tradicionais" de validez e veracidade. como se originam e como funcionam. concebido como tendo somente a "verdade" como seu objetivo.obliquamente e incluirão respostas às seguintes perguntas: 1) Qual o caráter. em seu entender. devido a considerações epistemológicas. Speier diz: "A validez de um julgamento não depende de sua gênese".

H. em virtude dessa organização social de vários séculos. XLVIII (1930). O paradigma oficial e monopolístico de validação e veracidade aceitos pela escolástica medieval era certamente influenciado por fatores tais como "a posição hierarquicamente centralizada da elite intelectual com seu poder tanto político quanto intelectual e sua memória.limitariam o objeto e as implicações da Sociologia do Conhecimento. 173-74. (75). M. também mostram que não vêem conseqüência epistemológica alguma da Sociedade do Conhecimento. K. G. Bain e R. R. fé e normas dialéticas de recrutamento estritas. Dewey ofereceu uma teoria empiricamente baseada na qual encara essa lógica culturalmente como formuladora das categorias de linguagem prevalentes na sociedade grega. R. 502-3. Mac Iver. destes cânones. XXVII. sugerindo que a difusão dos estudos da gramática e dos fatores da cultura tradicional indiana influenciaram sua formulação e persistência. n. Mostrou também o funcionamento das classes e os conseqüentes fatores estético-sociais nesses critérios de validez e as condições sob as quais eles aparecem. Isis. embora breve. 1937. os lógica utens e o esquema de percepção de cada pensador eram comuns a grandes setores da elite". Fritz Mauthner dirigiu um exame sociológico vigoroso. Sabine toma esta posição em "Logic and Social Studies". Também pelo fato de que. Philosophical Review.° 3. em trabalhos lidos em Atlantic City. . Merton aparentemente aceita essa posição negativa em "The Sociology of Knowledge".

Nem são parte de um equipamento "mental" apriorístico ou inato. 186-193). em sua pureza teórica. embora a "escolha" e o uso de uma parte deles possam ser assim justificados.. g. 73 E. cit. estamos lidando com teorias sociológicas referentes ao caráter e emergência de alguns deles. concebido para ser intrinsecamente lógico. 1937). Social and Cultural Dynamics (Nova York. digamos.Será que a posição em questão lembra algumas das formulações epistemológicas mais recentes. Tem havido e há diversos cânones e critérios de validez e veracidade e estes critérios. Goldenwiser's Robots or Gods? (Nova York. E os cânones de verificação "utilitários" e "experimentais" foram com certeza impulsionados pelo ethos social do puritanismo do século XVII. p. Os critérios ou modelos de observação e verificação não são transcendentais. Conze sugeriu com acerto as "Origens burguesas do nominalismo". II. particularmente por seu caráter "individualista". vol. que isola e utiliza várias formas diferentes de validação como pontos-chave para estudo. Hans Speier fala de uma "propriedade da natureza humana que permite ao homem a busca da verdade" ("The Social Determination of Ideas". Não se derivam. Para uma visão oposta. de um céu grego. E. estão em sua permanência e mudança legitimamente abertos à relativização histórico-social. 1931). ver Sorokin.73 72 Em acréscimo aos estudos citados acima. . dos quais dependem as determinações de veracidade das proposições. pp. também A. 53. ver abaixo.72 Além do mais. op. as dos séculos XVII e XVIII? Mannheim sugeriu judiciosamente que estas eram condicionadas pelo status revolucionário da classe média. Certamente a epistemologia protestante de Descartes abre-se à investigação sociológica..

por um exame específico do contexto. I. "A investigação (a lógica. Experience and Prediction (Chicago. I. g. p. "através da história social será. "Logic". p. 1938). 4. Research in Social Science. cap. 251. Durante quarenta anos. Reichenbach. posição e efeito de um tipo de investigação. Ver também H. no fim. causa cognoscendi das formas lógicas.) é a. "Philosophy". "A abordagem indireta da realidade". nos diz Mannheim. e. ed. . a investigação primária é a causa essendi das formas que a investigação sobre a investigação descobre". quando êle abandona as preocupações tradicionais. Gee.Ao contrário: a diversidade histórica de tais modelos corrobora a visão de Dewey do que eles são gerados e se derivam de investigações feitas em tempo e sociedades determinadas. Inquiry (Nova York. 1938). A tese de Dewey sobre o caráter e a situação histórica das formulações lógicas e epistemológicas 74 nos fornece explicação empírica para os dados históricos. cap. em torno da relação ubíqua do pensamento em geral com uma realidade em sentido lato. 74 Logic: the Theory o f 75 Dewey.75 Um exame cuidadoso revela que não existe desacordo fundamental entre as concepções de Dewey e Mannheim sobre o caráter e a origem genéricos das formas epistemológicas. W. êle sustentou que os modelos de verificação sobre os quais se baseiam as imputações de veracidade são formas derivadas de investigações existentes e não têm sentido quando delas separados. mais útil que uma abordagem lógica direta". A visão de Mannheim coincide com o programa seguido por Dewey desde 1903.

A "aceitação" (o uso) e a "rejeição" de modelos de verificação por cada pensador e pelas elites é outra situação na qual. pode ser interpretado como significando esta relativização histórico-social de um modelo de veracidade ou a influência de uma "posição social" sobre a "escolha" de um modelo em detrimento de outro. Aqueles que argumentam que as investigações sociológicas do pensamento não têm conseqüências para a veracidade ou validez daquele pensamento compreendem mal a fonte e o caráter dos critérios dos quais a veracidade e a . C. Seu trabalho comparativo e quase-sociológico foi uma etapa preliminar de sua própria aceitação de um modelo de observação e verificação que êle mesmo analisou e generalizou a partir de uma ciência de laboratório. Peirce analisou quatro segmentos da história intelectual ocidental. O modelo "total. podem introduzir-se e ter conseqüência para a validez do pensamento de uma elite.Em termos das normas em cujas bases as idéias são aceitas ou rejeitadas. absoluto e universal" de "ideologia" mannheiniano. nem mesmo filósofos. incluindo tanto a forma como o conteúdo. S. no qual a posição social influi sobre a "estrutura da consciência em sua totalidade". fatores extralógicos. procederam à "escolha" de que modelo de verificação deveria guiar seu pensamento de maneira tão consciente e exaustiva como Peirce. possivelmente sociológicos. Mas nem todos os pensadores. As afirmações de Mannheim não contradizem esse enunciado mais explícito e analítico.

Esta visão é corroborada por uma teoria pouco definida do conhecimento e da mente. retirado principalmente das investigações físicas pós-renascentistas. dependa a validez do que depender. e inclinam-se a interpretar "gênese" em termos de uma motivação individual para o pensamento. A posição social não afeta diretamente a veracidade das proposições testadas por este modelo de verificação. É verdade que o modelo corrente de pensamento "científico". Isto porque este paradigma exige que as afirmações sejam verificadas através de certas operações que não dependem dos motivos ou da posição social de quem as faz. distingue entre a veracidade dos resultados e os motivos e condições sociais de uma investigação.validez dependem sempre. Esquecem também o fato de que esses próprios critérios e as aceitações e rejeições seletivas de um ou outro pelas várias elites são passíveis de influência cultural e investigação sociológica. sem avaliar as possibilidades. Aparentemente eles pressupõem. que impede a análise desses aspectos ou conjunturas nos processos de conhecimento nos quais fatores extra-lógicos possam introduzir-se e tornar-se relevantes para a veracidade dos resultados. que. Pois seu ataque é. Mas as posições sociais podem muito bem afetar o fato de que este ou algum outro modelo seja ou não usado . com freqüência. ela não pode ser examinada empírica e sociologicamente. dirigido contra a visão de que a validez de um julgamento depende de sua gênese.

Este modelo particular não existiu e não poderia ter existido antes da total ascensão da ciência física na Europa ocidental. pois se deriva desse tipo de investigação. conseqüentemente. Muitos investigadores indicaram de que maneira os conceitos. podem dar forma a investigações que. Muitos cientistas sociais contemporâneos apenas conhecem nominalmente este modelo da ciência física e seu "uso" é limitado ao emprego de alguns termos esparsos em seus escritos. e a "seleção" e o uso de qualquer modelo (como também o seu padrão de difusão específica entre as mais variadas elites) estão abertos à explicação sociológica. como sub-rogados de contextos societais. a determinantes culturais. . muitos não o aceitam atualmente. os motivos ou posições sociais do pensador não exaurem os aspectos das investigações que se relacionam a fatores sociais.por tipos de pensadores hoje ou em outro período. Na verdade. Podem-se mencionar dois outros aspectos das investigações que estão abertos a possíveis influências histórico-sociais e que podem influenciar os critérios e. a veracidade e validez dos resultados: i) As categorias das quais dependem todas as investigações e exposições estão relacionadas a situações sociais. De maneira alguma este modelo particular de verificação foi usado por todos os pensadores em todos os tempos. Qualquer padrão de observação ou verificação pode em si mesmo ser socialmente relativizado. Mas até mesmo em investigações que satisfazem esse paradigma.

a mais rudimentar forma de conexão. Ele vê um mundo de objetos que são tecnicamente tintos e padronizados. por mais variada que tenha sido a incorporação de . Morris. que é certamente relevante para os resultados da investigação. Deve-se notar que. Uma linguagem especializada constitui verdadeira forma apriorística de percepção e cognição. O que é considerado problemático e quais os conceitos disponíveis e usados podem estar interligados em determinadas investigações. o pensador está adquirindo como se fora um par de lentes coloridas. Ao adquirir um vocabulário técnicocom seus termos e classificações.aparentemente. os problemas que causam a reflexão podem ser encarados de numerosos ângulos como ligações entre intelecto e cultura. Mas. dentro da perspectiva sociológica. a dimensão pragmática (que inclui a sociológica) do processo da linguagem é basicamente relacionada com a semântica e a sintática. são desarraigadas e socialmente livres. A detecção dos significados societalmente condicionados dos termos de que depende uma investigação pode ser vista como uma crítica à garantia dos resultados desta. As epistemologías têm discrepado amplamente quanto às maneiras pelas quais os elementos empíricos entrariam no conhecimento. Focalizar a seleção de problemas em termos de valores motivacionais é apenas uma. ii) Estreitamente ligada a tal visão de categorias está a teoria social da percepção. Nos termos de C. W.

acho o "rela-cionismo" de Mannheim (Ideology and Utopia. o relativismo é contraditório em si mesmo. 443). seus conceitos condicionaram aquilo que viram. as dimensões observacionais de qualquer modelo de verificação são influenciadas pela linguagem seletiva de seus usuários. 667. Vivas deste argumento ( o p .. A verificação empírica não pode ser uma simples e positivista operação reflexa.. As implicações dessa visão social da percepção para as teorias simples de correspondência da verdade. Assim. Um argumento há muito usado contra todas as formas de relativismo manifesta-se 76 freqüentemente em discussões do problema seguinte: ou a própria afirmação e argumento do relativista são relativos. p. 253. 269-70) bastante sustentável. Deixo em aberto a questão sobre se a formulação de von Schelting expressa adequadamente ou não a posição de Mannheim. p. pp.elementos empíricos. esp. ci/. E esta linguagem não deixa de ter uma marca histórico-social. American Sociological Review. g. ao olhar o mundo para verificação. caso em que êle não tem base para negar ou afirmar a veracidade do pensamento alheio. a formulação e hábil dissecção de E. são óbvias. 77 Este argumento pode ser colocado em forma 76 E. . Diferentes elites técnicas possuem diferentes capacidades perceptuais. e. mas apenas com este único ponto. "objetividade" e "imparcialidade" dos resultados da investigação. Em geral. ( von Schelting. O fracasso em reconhecer tais embricamentos na investigação. 77 Cf. portanto. acarreta limitação arbitrária do objeto legítimo de uma Sociologia do Conhecimento empírica. contudo. A posição é logicamente imperfeita e insatisfatória apenas do ponto de vista absolutista. g. relevantes para a "veracidade". Preocupo-me não com a defesa ou avaliação da obra de Mannheim ou de von Schelting in toto. ou seu argumento e afirmação são incondicionalmente verídicos e.

Pressupõem a existência de uma verdade absoluta que não tenha nenhuma ligação com a investigação. b) A Sociologia do Conhecimento é um tipo de pensamento. por Peirce e Dewey. parece o mais provável de que dispomos no momento. g. Estes argumentos anti-relacionísticos aparentemente ignoram o caráter e o status das formas epistemológicas (ver i e ii acima). "válida").) Os critérios são. Mesmo que se admita que este modelo não é nenhuma garantia absoluta. e. por si mesmos. As imputações do sociólogo do conhecimento podem ser testadas com referência ao modelo de verificação generalizado. então. se quisermos difundir nosso pensamento entre os pensadores profissionais de hoje. é destruída). (Na prática. em termos deste modelo. Indicou as condições culturais e políticas da Sociologia do Conhecimento. Sua veracidade está. O próprio Mannheim documentou empiricamente a ligação dos itens abc. c) Portanto. São as premissas colocadas após os "donde" e seus pressupostos que precisamos examinar. a) . precisamos colocá-lo nestes termos.estritamente lógica: O pensamento é função de fatores culturais (donde sua "validade imparcial".. coisas em desenvolvimento. a Sociologia do Conhecimento é função de fatores culturais (donde não pode ser “objetiva". "objetiva". e apenas são significativos do ponto de vista de um absolutista.

um processo circular que não depende de nada que seja estranho à investigação. Apenas as afirmações condicionais são passíveis de ser transladadas de uma perspectiva a outra. O sociólogo também pode. Elaborarei este ponto mais abaixo. E somente dessa maneira podemos dizer que a investigação científica é autocorrigível. Basta aqui ter consciência de que "os critérios tradicionais" emergem da análise lógica dos tipos "tradicionais" de investigação. que novos critérios para a ciência social podem emergir das investigações da Sociologia do Conhecimento. . Outra tentativa semelhante é proposta pelos que querem limitar a Sociologia do Conhecimento à investigação das tentativas conscientes de um patrocinador para encontrar um público. das . Mannheim afirma. muito corretamente.Uma precondição para "corrigir" este modelo para uso futuro é usá-lo conscienciosamente agora. 23 As afirmações do sociólogo do conhecimento fogem ao "dilema do absolutista" porque se podem referir a um grau de veracidade e porque podem incluir as condições nas quais são verídicas. A tentativa de restringir o objeto e as implicações da Sociologia do Conhecimento para salvaguardar suas afirmações está mal situada e não se adequa às modernas teorias do conhecimento. como mais ou menos verazes. sem contradição. As afirmações podem ser apropriadamente colocadas como probabilidades. apontar fatores sociais condicionantes do fracasso em usar este modelo particular. Isso é inteiramente possível. . [A lógica da] investigação sobre investigação é .

Enquanto examina o "pensamento teórico" ("cuja finalidade é . b ) são pessoas acostumadas a pôr emdúvida. a pensar. a Sociologia do Conhecimento pode não ter nenhuma relevância ou objeto epistemológico porque pode estudar exaustivamente apenas um tipo "promocional" de pensamento. . a criticar e a fixar suas crenças. Considero esse público do pensador teórico como os membros de uma elite técnica.. ela está aparentemente limitada ao exame da "seleção de certos problemas".condições sociais de tipos de patrocinador.. os que participam com maior ou menor relevância em seu universo discursivo. e.. de meios para difundir idéias persuasivas de valores etc. Nenhuma dessas diferenciações é suficientemente analítica. apenas a verdade"). Em acréscimo à motivação individual existe uma segunda diferenciação entre os dois tipos de pensamento: o público do filósofo teórico são "as eternas fileiras dos que buscam a verdade". Assim analisado sociologicamente. genericamente delimitada como: a ) os que lêem sua obra ou o que êle pensa que a lêem. . i. o pensamento dos "filósofos" e teóricos certamente se constitui em dados para o sociólogo do conhecimento. A nenhuma adiantaria dizer-se que se constituem em "qualidades de pensamento" diferentes. Deste ponto de vista. As . 26 de forma tal que satisfaçam as condições de algum modelo de pensamento. Este é o significado do termo "buscar a verdade". de cujas formas estejam mais ou menos conscientes e empenhadas em seguir.. ou seja. A existência mesma de tal grupo é sociologicamente significativa.

o fato de um pensador desejar ou ser motivado a atingir a verdade não garante ou implica que suas afirmações sejam ou não verdadeiras. Logic and Culture". como as categorias da exposição técnica. "Verdadeiro é um adjetivo aplicado às proposições que satisfazem as formas de um modelo de verificação aceito. Não vejo em que estaremos justificados nesta etapa da pesquisa para diferençar tipos de pensamento em termos de motivação epistemológica.. 183). cit.. "As relações entre idéias e realidade social estão. no qual esta visão é criticada e outros modos de relação são propostos. op. Pois seria preciso uma análise sócio-psicológica de um pensador para determinar se ele estava realmente. seja este a "verdade" ou a "persuasão". p. os problemas enfrentados e os esquemas perceptuais podem influenciar a direção e as formas validadoras do pensamento. . seguindo ou tentando seguir um modelo de verificação. visando a verdade. êle aceita apenas "a necessidade". Muito menos que êle ou elas estejam abertos à relativização social. ou acreditava estar. Estas não são as espécies de tipos que precisamos e que podemos usar numa dissecação.. Já mostrei como a "seleção" dos critérios e os próprios critérios estão abertos à investigação sociológica.. a verificação é independente da motivação individual para pensar. cit-. op. Ver meu "Language. constituídas por entre as necessidades" ("Social Determination of Ideas". i. profissionais. 78 Além do mais. "o problema" e "os interesses" do pensador.origens e conseqüências de tais grupos em contextos variegados têm recebido pouca atenção explícita. No modelo atualmente dominante entre os pensadores seculares. e. Poder78 O fracasso de Speier em reconhecer estes pontos como abertos à influência social é provavelmente condicionado por uma preocupação exclusiva com um tipo de mecanismo sócio-psicológico vinculando a ideação à cultura. Em seu artigo.

Estou preocupado aqui em mostrar a utilidade deste trabalho para os sociólogos.. a função metodológica da Sociologia do Conhecimento. para uma constru- . Precisam ser indicadas mais precisamente. É claro que. e. em uma base comparativa e contextual. Esta condição epistemológica apresenta uma oportunidade para estudar comparativamente as diversas normas em si. Não existe em nossa era uma forma comum de validação à qual. não podemos produtivamente impor o "nosso" ao de pensadores passados. Pois tal experiência o coloca estrategicamente. aspiramos a contribuir para a "elaboração sóciopsicológica da própria teoria do conhecimento". sua função e gênese. O sociólogo do conhecimento não precisa contentar-se com o exame e a relativização fatuais dos aspectos dos processos cognoscitivos. parece tolice considerar nosso trabalho como irrelevante à luz de um conjunto arbitrário de normas derivadas de uma gama particular de investigações ou conglomerados de crenças miscelâneas. Tem havido vários modelos no pensamento ocidental. e já mostrei que estão abertos à relativização histórico-social. como mostrou Wirth. todos submetam suas afirmações. Em face da diversidade e confusão epistemológicas. Em pesquisa. i.se-ia identificar com propriedade o pensamento teórico apenas em termos de um modelo de verificação dado. Mas as tarefas para os sociólogos do conhecimento derivadas dessas afirmações não estão bem definidas.

667. Von Schelting incorretamente afirma que Mannheim não "postula a possibilidade de uma validez objetiva para as realizações 80 cognoscitivas". (Prefácio a Mannheim. Em sua "função epistemológica".. se deseja resultar em conhecimento seguro.. como metodólogo 79 L. Mannheim como epistemológico se preocupa em detectare corrigir as limitações das investigações político-sociais. p. xvu-XXIII.) 80 Op. teria evitado ambigüidades e falsas colocações em sua obra. cit. Precisamos aqui ter em mente a identificação de Dewey entre epistemologia e metodologia. "a ciência física") não é o fim da epistemologia. e. a investigação social deve seguir. pp. Essa ocorrência acarreta a crença de que a derivação de normas de algum tipo de investigação (mesmo se este tem amplo prestígio. Mas. a seu ver. a Sociologia do Conhecimento é especificamente propedêutica para a construção de uma metodologia consistente para as Ciências Sociais. Mannheim não se detém na mera suposição. cit. ele abstrai algumas das noções e formas que controlam as investigações dos sociólogos americanos e alemães. de maneira suplementar. de maneira geral.. critica cada estilo à luz do outro. op. De fato. 79 Se Mannheim tivesse acertadamente reconhecido tal coisa. . g. Em sua análise dos Métodos de Rice.ção metodológica positiva. Wirth indicou com acerto que uma incipiente Sociologia do Conhecimento com freqüência tem sido um produto inexplorado das discussões metodológicas. e traça sucintamente um elo entre os dois e um modelo de pesquisa geral que. Continua.

destinado a ser um órgão de autocontrole crítico. Isto certamente indica um sentido genérico da relevância epistemológica da Sociologia do Conhecimento.judicioso. já foi bem sucedido ao detectar e submeter a controle importantes fontes de erro. . Wissenssoziologie na Alemanha. Este novo ramo de pesquisa. Entre os assuntos específicos que ele pode problematizar com êxito estão os que se referem . O desejo de tratar problemas politicamente importantes sem ser vítima de distorções foi o responsável pelo desenvolvimento da. O sociólogo do conhecimento se congrega ao logicista vigoroso e ao metodólogo social na construção crítica de métodos mais judiciosos para a pesquisa social. Se Mannheim não foi bem sucedido em sua tentativa de enunciar critérios judiciosos para as investigações sociais. a tentar formulações de critérios para a investigação social nos termos das formas vigentes de pensamento social como empiricamente definidas pela lógica e por uma Sociologia contextual do conhecimento. tal não se deve a falsas concepções do caráter das formas epistemológicas nem a uma "inconsistência epistemológica". .

O sociólogo do conhecimento. abstraiu esta forma da investigação física e tentou generalizá-la por toda a "investigação qua investigação".. quando aplicado aos dados sociais. em nome da ciência. o que não ocorre com o experimento no contexto de laboratório. e. implementar a alteração planejada de certas formas físicas que se julgam adequadas para conseguir uma transferência produtiva. de acordo com Dewey. Por exemplo. em particular. pode não só estabelecer origens sociais para as duas posições extremadas. o "experimento". O "experimento" em uma situação societal tem características e problemas peculiares que o "experimento" em laboratório não possui. baseado em uma compreensão comparativa. que. construtivamente. O "experimento" como forma de verificação é um exemplo em pauta. freqüentemente assume dimensões políticas e valorativas. impõem as formas de procedimento da primeira sobre a última em bruto. se faz necessária antes que possa funcionar como um objeto do conhecimento. E a "reconstituição" de um objeto. envolve muitas controvérsias. Há os que. Dewey. Suas obras são informadas pelo fracasso em ver completa e claramente as dificuldades e ambigüidades associadas com o paradigma físico da investigação e. tal como ocorre na Ciência Física. mas.aos métodos respectivos das investigações físicas e sociais. o "controle" e a manipulação necessários ao trabalho "experimental". e há investigadores sociais que não querem ter nada a ver com a Ciência Física.g. Para citarmos a .

se é que de alguma forma o fazem. Para ilustrarmos um aspecto do problema: como os problemas de pesquisa atualmente estudados pelos cientistas sociais envolvem valorações e como tais tramas condicionam. referências e discussão do "Wertbeziehung" de Max Weber. 601). deveria haver ou não. a veracidade dos resultados?81 As questões de valor não devem ser encaradas überhaupt. Precisam ser respondidas por análises sociológicas das disciplinas e problemas específicos nelas levantados. A inadequação neste e em outros pontos sugere que há necessidade de analisar as pesquisas sociais em seu contexto cultural e intelectual e tentar articular as regras incipientes neles implícitas. pp. a tentativa de transladar esta técnica de laboratório para os dados sociais precipita os problemas políticos e metodológicos com que Dewey e seus discípulos não se preocuparam frontalmente. 1937. T. Problemas de "valor" derivam-se daí e frustram a investigação social.menor. as questões de valor tornam-se específicas e genuínas. qualquer diferença essencial entre a investigação social e a Ciência Física. Parsons. 593. poderemos empiricamente suplantar as afirmações apriorísticas de que há ou não. Structure o f Social Action (Nova York. Tal análise permitiria ainda formulações explícitas e refinadas dos problemas peculiares à investigação social. . Nem só o conteúdo dos valores na investigação social deve ser 81 81 Cf. Dessa maneira. Colocadas como emaranhados na pesquisa social.

podemos ganhar uma posição da qual estaremos aptos a formular regras de evidência que evitarão que exortações informem nossos trabalhos. g. Entretanto. Dessa forma. Tais investigações sistemáticas teriam conseqüências para a construção das técnicas de investigação. perfeição e garantia dos resultados da pesquisa. taxas diversas de desconto para os diferentes contextos. Talvez o problema metodológico central das Ciências Sociais seja derivado do reconhecimento de que freqüentemente existe uma disparidade entre os tipos motores sociais e linguísticos do comportamento. se é que de fato as condicionam. o sociólogo do conhecimento está explicitamente preocupado com investigações fatuais dos componentes verbais e da ação. Deveriam capacitar o metodólogo a construir em seus métodos margens de erro padronizadas. sujeitos e modos de verbalização) quanto e em que direção se orientarão provavelmente as disparidades entre língua e ação. as investigações fatuais devem fornecer uma base para as regras de controle e . Deveriam mostrar (para vários tipos de ação cultural. Neste campo. as articulações das várias culturas. mas também como eles se insinuam e condicionam a direção. Tais exames contextuais permitirão definições precisas de assuntos que são vagos no momento. Dessa forma. com o "senso comum". e. um dos problemas é a determinação de disparidades diferenciais existentes entre sistemas de comportamento manifestos e o que é dito pelos atores em diferentes contextos culturais..detectado.

Ver A. H.. são muito convenientes para uma visão "liberal-democrática" da mudança social politicamente implementada... 48. em sua validade? O ideal de intimidade de contato ao qual Cooley praticamente assimilou a concepção de sociedade. g. os observadores dos fatos sociais (e. X. cap. a teorização sistemática se especializou em livros-texto para estudantes.. e. 1937). não para pesquisa. A ênfase sobre o processo contínuo como categoria central na Sociologia americana contribuiu talvez para o esquecimento dos deslocamentos revolucionários na "mudança social". que tenta situar (cultural e biográficamente). 84-5 e 98. a manipulação revolucionária exige crença em uma causa monística. Barnes. Small. Okla. Causas pluralísticas são mais fáceis de ser conduzidas a um ponto em que nenhuma ação é possível. g. A History o f Historical Writings (Norman. . esp. Que efeito tem tido isto no modelo de pesquisa que os sociólogos têm procurado para verificação de seu trabalho e. pp. suas observações registradas. Origins o f Sociology. os papas romanos) visando descontar. Visões seguras. 1934). E.orientação da evidência e inferência. baseadas em fatores múltiplos como causação histórica.82 Devido à sua posição acadêmica predominante na Sociologia americana. daí. Este método está consciente das diferenças das ocorrências societais conforme são vistas ou escritas pelos relatores colocados diversamente. imoral à luz de nossa tradição cristã" (p. 38T-V.: "A distância social é [considerada] um terrível destino. Smith. com propriedade. Beyond Conscience (Nova York. 82 Aqui os sociólogos podem coletar sugestões da historiografia crítica. 111). com a conseqüente distorção e parcialidade. tem suas raízes em certas tradições culturais americanas e em uma compensação pela atual despersonalização e caráter secundário da vida em uma ordem urbano-industrial.

se levada a efeito sistematicamente e com sensibilidade. mas resultará construtivamente na apresentação de paradigmas mais judiciosos para futuras pesquisas. . A auto-colocação pormenorizada da Ciência Social.Estes são os itens fragmentários mais à mão que o sociólogo do conhecimento está em condição de examinar. não só levará à detecção de erros nos métodos em vias de surgimento.

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