1 Filosofia da linguagem, Wittgenstein – prof. Claudio F.

Costa /UFRN-PPGFIL

WITTGENSTEIN EA GRAMÁTICA DO SIGNIFICADO

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Claudio F. Costa

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WITTGENSTEIN E A GRAMÁTICA DO SIGNIFICADO

Claudio F. Costa
Professor de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Obra editada pela Servgráfica Natal RN 2005.

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Claudio F. Natal.4 Servgráfica oficina de editoração .Natal. Filosofia da linguagem 3. Claudio Ferreira Costa Wittgenstein e a Gramática do Significado/Claudio F. 2005. Digitação: Nelson Machado Lima Diagramação: Eliane Rodrigues da Silva Correção de texto: Mônica Gicea Carvalho Lins. Filosofia 2. Costa. Dados de catalogação e publicação (CIP . RN. 232.Avenida Galvão Bueno. VI 132 1. Wittgenstein _______________________________________________________ .Brasil): Costa.RN: Servgráfica.

5 Ao professor Raul Landin .

89 . 81 Bibliografia. p. Jogos de linguagem. p. Introdução: filosofia como terapia e como protociência. p. 73 10.6 SUMÁRIO 1. Conclusão. 42 7. 84 Apêndice (Glossário). Formas de vida. 14 3. p. Linguagem e significado. p. O significado como função do uso. A indeterminação das expressões. p. 51 8. p. Regras como relações criteriais. p. 19 4. 6 2. Regras e gramática. p. p. 56 9. 27 5. p. Seguir uma regra. p. 36 6.

Fann. que seriam melhor compreendidos como um esforço de confissão e persuasão. 105. 2 Ver K. ibid. a não ser como Sobre as abreviações feitas em referências a obras de Wittgenstein. bem como da forma não-argumentativa e completamente assistemática de seus escritos. 108). K. T. Wittgenstein não pretendeu. a filosofia deveria ser feita em grand stile.7 CAPÍTULO I INTRODUÇÃO Pode-se também dar o nome de “filosofia” ao que é possível antes de todas as novas descobertas e invenções (PI §126) 1 . em sua última filosofia. voltada para ajudar pessoas que como ele próprio se achassem atormentadas por perplexidades filosóficas. Como bem o compreendeu K. pouco antes de sua morte. Aí estariam as razões do seu estilo oracular e epigramático. E apontando para a própria pilha dos seus manuscritos disse: “Isto é o que eu gostaria de ter sido capaz de dizer do meu próprio trabalho” (p. que este. Kierkegaard e Agostinho 3 . cujo impulso filosófico era de natureza obsessional e quase mística 2 . consultar o glossário no final do livro. Nem mesmo tinha ele a intenção de fazer simples filosofia da linguagem. tal como o foram antes dele os de Pascal. T. lembrou a um amigo a inscrição de Bach em seu “Pequeno Livro para Órgão”: “Para a glória do mais alto Deus. a propósito da atitude de Wittgenstein para com a filosofia. Para Wittgenstein. Em semelhantes circunstâncias. torna-se compreensível que a linguagem e a teoria do significado não devessem interessá-lo. X. Wittgenstein’s Conception of Philosophy. Fann. cap. desenvolver uma teoria do significado. pois tratava-se de uma atividade terapêutica libertadora do espírito humano. T. 1 . Wittgenstein foi um pensador profundamente intuitivo. 3 Cf. Fann lembra. Estes mesmos traços de personalidade talvez tenham igualmente contribuído para condicionar a sua própria concepção de filosofia. p. Fann. e que por meio disso meu próximo possa ser beneficiado!”.

diante de um obstáculo mais sério: a concepção que ele próprio mantinha da filosofia como uma atividade não-teorética. como uma especulação heurística que se pretende antecipadora do conhecimento científico (incluindo aí talvez parte do que Wittgenstein chamava de “metafísica” ou “enfermidade filosófica”). pp. 78 e introdução. mas para nossa reconstrução bastarão esses dois. 4 . que poderia ser encontrada latente na última filosofia de Wittgenstein. Para afastarmos esta dificuldade. revela-se extraordinariamente abrangente. Não nego que há outros entendimentos possíveis para a filosofia. The Philosophical Investigations). apesar de vaga e fragmentária. Richardson. Neste livro o autor argumenta a favor de uma teoria do significado em moldes construtivistas. As características acima delineadas não são suficientes para impedir-nos de procurar nos escritos de Wittgenstein o esboço de um teoria geral da linguagem e do significado. 45. supondo depender da personalidade e das aptidões específicas de cada filósofo o seu desenvolvimento em uma ou em outra direção. The Grammar of Justification. embora admitindo faltar a ela um desenvolvimento adequado 4 . A idéia de se procurar uma teoria do significado e da linguagem na filosofia de Wittgenstein detém-se. que assinalava a possibilidade não reconhecida por Wittgenstein de que a sua filosofia contivesse uma teoria construtivista do significado em nível metalingüístico. que seria constituída por “jogos de linguagem filosóficos” (Feyerabend. T. é bem mais antiga. Ela já havia sido sugerida por Paul Feyerabend em um artigo de 1955. introduziremos. buscando então torná-las intuitivamente plausíveis pela descrição alusiva e elíptica de uma variedade de casos particulares – o que Gilbert Ryle certa vez chamou de método dos provadores de chá. Wittgenstein. Cf. ou seja. 75. Ganha-se assim generalidade o que geralmente é perdido em nitidez e objetividade. Esta cisão de finalidades permite que sejam introduzidos dois modos opostos de se conceber a filosofia: a) a sua concepção como um método ou atividade terapêutica (Wittgenstein). T. (1974). A idéia. contudo. Ela começa por produzir abstrações do mais elevado grau de generalidade. Wittgenstein’s Philosophical Investigations. J. Richardson em The Grammar of Justification. com objetivos reconstrutivos e alheios às próprias intenções de Wittgenstein.8 um meio para atingir um fim. A teoria do significado de que falava Richardson. in Pitcher. Um esforço nesta direção foi feito por J. uma distinção entre duas espécies de filosofia. contudo. que seria o de desfazer as perplexidades filosóficas que aí se enraizassem. b) a sua concepção como teoria protocientífica.

Não deve haver nada de hipotético em nossas considerações. 28. porém. Para ele. enganos. não devendo ser isoladamente concebíveis. longe de se oporem. absurdos e ilusões que constituem a maior parte de nossa filosofia tradicional. ibid. que ao fim não passariam de pseudo-soluções. a tendência a “correr de encontro às fronteiras da linguagem” faz parte da natureza profunda dos seres humanos. para chegar a adotar a atitude terapêutica frente a uma dificuldade.53. seria interpretada por Wittgenstein como uma espécie de pseudosolução para um pseudoproblema – o problema da realidade. tenha antes. Moore em Proof of an external world. Eis como Wittgenstein resume sua concepção de filosofia como atividade terapêutica: “Era certo dizer que nossas considerações não poderiam ser científicas (. ainda poderiam ser divididas em duas espécies: os pseudoproblemas filosóficos e as inúteis tentativas para resolvê-los. E. mal-entendidos. que é como gostaríamos de chamar as “contusões do entendimento”. e que aqui designaremos pelo nome de filosofia como enfermidade.. para Wittgenstein. 6. ao menos vivenciado a atitude metafísica 5 . mostrando que eles não passavam de “ilusórios castelos de areia fundados sobre um entendimento errôneo do trabalho de nossa linguagem” (PI §118). Estas confusões. Em sua obra. Dessa investida inglória resultam. com o objetivo de mostrar que eles. BB. para Wittgenstein. as “contusões do entendimento”: confusões. seria originada pelo impulso sentido pelo metafísico de investir contra as fronteiras da linguagem (PI §119). que ele geralmente chamava de “metafísica” (TLP. os males filosóficos só poderiam ser curados pela nova filosofia terapêutica por ele praticada.). Por exemplo: a prova da existência do mundo externo apresentada por G. considerando-a parte da filosofia como teoria (protociência). E não devemos construir nenhuma espécie de teoria. perplexidades.35). A concepção da filosofia como um método ou atividade terapêutica foi a mais explicitamente defendida por Wittgenstein. cada um desses modos de se conceber a filosofia. elas coexistem como se fossem as duas faces de uma mesma moeda. p. seriam complementares. A missão dessa nova filosofia não seria a de resolver. mas sim a de dissolver os pseudoproblemas e pseudosoluções da filosofia como enfermidade. Para Wittgenstein. Wittgenstein. A filosofia como enfermidade. Toda elucidação deve desaparecer e ser substituída apenas por descrição. Ela pressupõe uma outra.” Essa descrição recebe a 5 Ver Fann. e seria mesmo de se supor necessário que o filósofo. separadamente. ..9 Elucidaremos a seguir. não parece ter julgado necessário separar rigorosamente a filosofia como enfermidade da filosofia como terapia. p.

ser pensada.Studies in Method. tal como foi relatada na Autobiografia Intelectual deste último (p. mas da combinação do que sempre foi sabido. ele abandona uma 6 Ver a introdução de Russell ao Tractatus Lógico-Philosophicus. seminal e tumultuoso. PI §124). Nas Investigações Filosóficas esse negativismo teorético foi apenas atenuado: sendo as proposições de sua filosofia terapêutica simples reorganização do que já sabemos. contudo. ao menos “retoricamente perversa” 6 . A julgar por tais passagens a filosofia deve. não parece verdadeiro para a filosofia em geral e nem sequer para os escritos de Wittgenstein. uma investigação conceitual de cunho “puramente descritivo” (Z §458. . p. pois eram destituídas de sentido (TLP 6. L. 7 Ver. a sua finalidade. se não contraditória. para Wittgenstein. Ela foi admiravelmente descrita na seguinte passagem de J. Wittgenstein pareceu ter tomado este caminho ao escrever no Tractatus Lógico-Philosophicus que suas próprias proposições teóricas não poderiam ser ditas. Ela deve reorganizar uma desorganização aparentemente gratuita do que sempre foi dito e sabido. e os resultados são por vezes profundamente contra-intuitivos e distantes de uma exposição de lugares comuns. é uma batalha contra o enfeitiçamento do nosso entendimento pelos meios de nossa linguagem (PI §109). mas resolvíveis pela observação cuidadosa do trabalho de nossa linguagem e apesar do impulso para mal compreendê-lo. não como teoria.10 sua luz. dos problemas filosóficos. 7). pois estes são argumentativos. trad. Brasileira). por exemplo. mas como um método terapêutico. 131. Ver também a defesa de Max Black em Language and Philosophy . diz ele. a filosofia ocupa o lugar do sol inicial central. como é o caso do argumento da linguagem privada. isto é.54. além disso. 149 e segs. é aquela que vê na filosofia uma espécie de saber especulativo antecipador do conhecimento científico – uma protociência. a calorosa discussão entre Wittgenstein e Popper. de tempos em tempos. Tais problemas não são para Wittgenstein empíricos. a espécie de concepção bipolar da filosofia geralmente sustentada por Wittgenstein justifica-se apenas como uma particular conveniência metodológica. Generalizá-la para. do qual resulta que não podemos nos referir a nossos estados mentais internos – como sensações e emoções – por meio da linguagem natural. que por razões metodológicas gostaríamos de opor à concepção terapêutica de Wittgenstein. A filosofia. Isso. elas devem ser consideradas lugares comuns destituídos de conteúdo informativo (PI. parece conduzirnos próximos à contradição. mesmo que os seus argumentos apareçam de forma metafórica e elusiva. para assim “desfazer os nós do pensamento” (Z §452). Para nós. Eles não são empíricos no sentido de que as suas respostas não dependem do acúmulo de novas informações. o que parece tornar aquela obra. §128). Austin: “Na história da investigação humana. 7 A segunda concepção.

Tompson e do sistema periódico de Mendeleev. no nascimento da lógica matemática. p. pode-se conceber que em uma época na qual as descobertas do elétron e dos elementos químicos eram impensáveis. quer pela falta de uma apropriada metodologia de investigação. A filosofia como protociência. poderia ocupar tanto o lugar de uma ciência empírica como não-empírica. através dos esforços conjuntos dos filósofos e matemáticos.. progredindo rapidamente para um distante estágio final. 48. Saying and Meaning . frio e perfeitamente regularizado.11 parte de si próprio a fim de que assuma o estágio de ciência. os quais ainda não puderam ser apropriados pela ciência. do que uma tentativa mais séria de convencê-lo de sua validade. o átomo de Leucipo e Demócrito e a teoria dos quatro elementos de Heráclito fossem. Esta será a concepção metodologicamente adotada nesse livro. A filosofia tem lugar onde a ciência ainda não se pode reconhecer como ciência. Se designarmos pelo nome de espaço epistemológico o conjunto formado pelo discurso teórico de uma ciência aliado ao seu método. em um aspecto. Austin’s Philosophy. In Mats Furberg. no último século testemunhamos o mesmo processo lentamente e de modo quase imperceptível. De forma semelhante. gramáticos e outros estudiosos da linguagem. Como não seria aqui o lugar mais apropriado para uma defesa argumentada de sua validade. como Austin sugere. através dos esforços conjuntos dos filósofos. o leitor deverá considerar o que diremos mais como um conjunto de suposições instrumentalmente úteis a uma melhor compreensão de certos aspectos do pensamento de Wittgenstein. remotas antecipações especulativas do átomo de J. quer pela ausência de um adequado reconhecimento de seu objeto. no nascimento da matemática. Ela apenas marca o lugar dos espaços epistemológicos ainda não preenchidos por alguma espécie de conhecimento científico. L. 8 . Isso aconteceu há muito tempo.a main theme in J. de uma verdadeira e compreensiva ciência da linguagem? Então nós deveremos livrar-nos de mais uma parte da filosofia do único modo que nós poderemos sempre livrar-nos da filosofia: por alçarmo-nos a um andar superior” 8 . e repetiu-se quando nasceu a física. apresentaremos em seguida uma interpretação concisa e inevitavelmente dogmática de tudo o que a passagem de Austin nos parece sugerir. Não será possível que o próximo século possa assistir ao nascimento. seu objeto específico etc. como planeta. J. o Cit. No caso das ciências empíricas. Assim sendo. podemos dizer que a filosofia não tem um espaço epistemológico próprio. Eis como poderíamos interpretar a concepção acima apresentada.

por exemplo. Sabemos que certas confusões da lógica clássica foram dissolvidas pelo advento da lógica simbólica. 9 . Em primeiro lugar. estas também teriam ao seu modo se diferenciado da unidade sincrética que compunha a filosofia em seus primórdios. se realizadas hoje. ou a espécie de cosmologia totalizadora que marcou os primórdios da filosofia ocidental. em cujos limites se desenvolveu o pensamento de Wittgenstein. tal como o professado pelas ciências naturais. nos pareceriam em maior ou menor medida anacrônicas e despropositadas. quando a solução definitiva de um problema como este tiver sido alcançada. Justamente pelo fato de ciências empíricas como a física. Afinal. complementares. fragmentos hipostasiados.12 “Tratado das Paixões da Alma” de Descartes. ela não deverá mais pertencer à filosofia. a química e em parte a psicologia. o ensaio de Rendford Bambrough: Universals and family resemblances.). se a filosofia se projeta no espaço epistemológico ainda não ocupado pelo discurso científico (o qual poderá algum dia ser ocupado por sistemas ou jogos de linguagem Ver. Quanto às ciências ditas não-empíricas. por exemplo. Nossa última concepção de filosofia. a nosso ver. Em semelhante estado parece encontrar-se também a filosofia da linguagem. poderia ser facilmente considerado um precursor introspeccionista da moderna psicologia das emoções. Eis porque não mais parece possível uma psicologia introspeccionista. construções vagas e provisórias. Contudo. por conseguinte. Embora o que denominamos “teoria” em tal caso não devam ser mais que esboços especulativos. e que a própria matemática parece ter sido em seus primórdios em certa medida confundida com um saber empírico. mas talvez a algo como a “ciência da linguagem” profetizada por Austin – uma ciência não-empírica. The Philosophy of Wittgenstein. A doutrina dos universais anunciada na obra de Platão. in Pitcher (ed. seria uma tentativa de solucionar uma espécie de problema para a qual Wittgenstein parece ter indicado ao menos uma nova perspectiva de solução 9 . a filosofia como protociência parece quase necessariamente conter em si mesma a filosofia como enfermidade ou violação das fronteiras da linguagem. já se terem firmado no horizonte do conhecimento. Eis como poderíamos estabelecer a relação que haveria entre elas. especulações filosóficas daquela espécie. admite a existência de teorias filosóficas. fazendo parte de um todo único. As duas concepções de filosofia que terminamos de expor – o método terapêutico e a teoria ou protociência – são.

no campo do conhecimento empírico. IX). a própria filosofia como terapia praticada por Wittgenstein. as Investigações Filosóficas em comparação com o Tractatus. 10 . que deveria constituir-se de jogos de linguagem “metalingüísticos”. Exemplos disso seriam. Wittgenstein só pode ter a pretensão de desfazer o falso problema da essência única da linguagem porque. porém. Sob este ponto de vista. O pseudoproblema de se saber qual é a essência necessária da linguagem. as confusões filosóficas só serão completamente desfeitas por ocasião do surgimento de alguma espécie de conhecimento científico que venha a tomar seu lugar. Ver cap. caso em que os pseudoproblemas e pseudo-soluções não mais necessitariam ser considerados vazios e gratuitos. mas formas defeituosas de se colocar problemas e soluções reais. antes que confusões filosóficas sejam dissolvidas à luz de alguma espécie de conhecimento científico. ao menos parcialmente (e com parciais “recaídas”. Do ponto de vista da evolução do conhecimento. ela ainda não possui uma linguagem apropriada para o que tenta dizer. seria uma forma mal colocada da questão: “Qual é a espécie de unidade que a linguagem apresenta?”. sejamos capazes de desfazer. III. com sua metáfora das semelhanças de família entre jogos de linguagem (ver cap. é possível que ao chegarmos mais perto da possibilidade desse conhecimento.13 científicos que ainda não se fazem presentes 10 ). por exemplo. Consideraremos os jogos de linguagem como sistemas de regras capazes de determinar o uso de expressões. o discurso filosófico poderia muito facilmente emergir de alguma espécie de violação dos limites da linguagem (jogos de linguagem) efetivamente existentes. Algo semelhante parece ocorrer com relação à própria filosofia como terapia praticada por Wittgenstein. Se assim o considerarmos. Como resultado. que versa sobre um problema real. Podemos sugerir que ela só é capaz de desfazer as confusões do filósofo porque traz consigo a pressuposição tácita de uma teoria capaz de oferecer respostas mais apropriadas para os problemas reais que se encontravam ocultos por trás dessas confusões. e no campo da investigação conceitual. extendendo-os às regras (leis) que estabelecem o “espaço epistemológico” de uma ciência. a psicologia de William James em comparação com a de Descartes. Ela traz implícito um esforço involuntário rumo ao estabelecimento de alguma espécie de “ciência da linguagem”. já sugere à nossa intuição o esboço de uma resposta para o problema real. só se torna possível porque se faz acompanhar de uma especulação teórica aproximativa acerca da natureza da linguagem e do significado. já que não se trata de um desenvolvimento homogêneo e contínuo) as confusões dos sistemas anteriores.

A primeira delas só se tornou possível para Wittgenstein porque já havia. Nosso objetivo neste livro será o de oferecer uma interpretação para alguns dos principais aspectos da “porção teórica” da última filosofia de Wittgenstein. A porção negativa consiste na crítica aos pressupostos do Tractatus. deveremos concluir que a filosofia como terapia pressupõe a filosofia como teoria (protociência). teoria e terapia se sobrepõem e se complementam. e assim por diante.14 Se aceitarmos a argumentação acima. Em Wittgenstein.que se encontra infusoriamente difundida em uma vasta porção negativa ou crítica . nomeadamente. à filosofia do senso comum. Seus escritos podem ser considerados como compostos de uma porção positiva . A porção positiva seria formada principalmente pelo esboço de uma nova teoria do significado e da linguagem. não nos ocuparemos da “porção terapêutica” de sua obra.a teoria . a menos quando isso parecer necessário à adequada avaliação dos aspectos teóricos. à possibilidade de uma linguagem privada. subjacente à sua nova maneira de filosofar. Por causa disso. às concepções causais e ideativas do significado.a filosofia como terapia. . toda uma sorte de pressupostos teóricos acerca do significado e da linguagem. sua teoria da linguagem e do significado.

“contextualismo”. Tem então a viva respiração em si? Ou o uso é seu sopro vital? (PI §432). Semântica. A ênfase no aspecto funcional se vê justificada pelo fato de após o Tractatus Wittgenstein ter se voltado para a investigação da linguagem sob o ponto de vista do seu necessário desdobramento na ação. ‘semelhanças de família’ etc. 122. Os capítulos que se seguem serão dedicados ao estudo de tais conceitos. Ver também Feyerabend. A última fase do pensamento filosófico de Wittgenstein já foi distinguida por nomes como “funcionalismo”.15 CAPITULO II O SIGNIFICADO COMO FUNÇÃO DO USO. Começaremos. O que lhe dá vida? – No uso ele vive. com a discussão do conceito mais elementar e indeterminado dentre eles: o conceito de uso. que são os de ‘uso’. “operacionalismo” ou “instrumentalismo” 12 . Para que esta definição possa ser corretamente avaliada. buscando reuni-los em um sistema que constitua uma concepção geral da linguagem. da qual parecem decorrer naturalmente as conclusões semânticas de Wittgenstein. neste capítulo. 134-6. mais que do ponto de vista de sua estrutura Utilizaremos o termo ‘expressão’ de maneira a abranger tanto palavras isoladas como frases ou sentenças. 11 . ‘regra’. faz-se necessária uma elucidação dos seus conceitos-chave. 12 Ver S. resumir o que Wittgenstein tinha a dizer sobre o significado em uma fórmula elementar. p. Ullmann. Poderíamos. “construtivismo”. para efeito de clareza. ibid. pp. além de outros a eles relacionados. ainda que imperfeita: O significado de uma expressão 11 pode ser considerado como seu uso conforme as regras de jogos de linguagem radicados em uma forma de vida. ‘jogos de linguagem’ e ‘formas de vida’. Cada signo tomado em si mesmo parece morto. como os de ‘critério’.

a ponto de anunciar vigorosamente o que poderíamos qualificar como uma definição funcionalista do significado: “o uso da palavra na linguagem é seu significado” (PG §23. como aparece na mais conhecida passagem das Investigações Filosóficas: “Para uma grande classe de casos – embora não para todos – em que empregamos a palavra “significado”. e a cada numeral retira do caixote uma maça da cor do modelo (Cf. que eu mande uma pessoa fazer compras dando a ela um pedaço de papel onde está escrito “cinco maçãs vermelhas”. ou sugerir a vinculação entre o estabelecimento do significado e a observação do uso.69). veremos que elas se assemelham a ferramentas: “Há um martelo. assim como só compreenderemos para que serve uma ferramenta pela observação de como ela é usada. . fez muito mais do que apenas colocar em relevo o aspecto funcional da linguagem. um frasco de cola. ela pode ser definida assim: o significado de uma palavra é seu uso na linguagem” (PI §43). mas fundamental: só podemos nos certificar do significado de uma palavra pela observação do seu uso. escreveu ele. BB p.67). Wittgenstein. ‘maça’.16 assertiva.67. “A língua”. PG §31). e ‘cinco’? A resposta é que ele conhece o significado dessas palavras porque soube usá-las corretamente e agiu em conformidade com o seu uso. “é um instrumento e seus conceitos são instrumentos” (PI §489. Cit. um serrote. escreveu Wittgenstein. Ele foi mais além. Ullmann. A adoção de uma perspectiva funcionalista ou instrumentalista por parte de Wittgenstein deve ter-se originado de uma constatação simples. Se observarmos o que as pessoas efetivamente fazem com as palavras. uma tenaz. ao lado da qual está o modelo da cor. Como sabemos que o comerciante conhece o significado das palavras ‘vermelho’. p. a investigação do significado voltou-se em Wittgenstein para uma observação efetiva de nossas atividades discursivas.134. pregos e parafusos. Assim. A seguir ele anuncia a série dos numerais até a palavra “cinco”. A pessoa leva o papel ao comerciante e este abre um caixote no qual está escrito “maças”. uma chave de parafusos. Suponhamos. PI §1). e as funções das palavras são tão diversas quanto as funções destes objetos” (PI §11. BB p. O significado de uma palavra só será esclarecido pela observação do que o ser humano faz com ela 13 . Ou. não obstante. procura numa tabela de cores pela palavra “vermelho”. 13 Cf. . op. BB p.

42-3). 102-3). 253).. mas seu erro não teve maiores conseqüências. o que não os torna destituídos de sentido. não se faz necessária. ser facilmente refutados. tentando interpretar a passagem isoladamente em relação ao contexto de sua obra. pp. ao escrever que o significado é o uso “para uma grande classe de casos. como ‘nuvens negras no horizonte’ ou ‘pegadas na neve’. não temos idéia de como e quando usá-la. 201. as passagens que compõem a última fase do pensamento de Wittgenstein tendem a aparentar-se a um maço de cartas que podem ser agrupadas de muitas e diferentes maneiras: para Pitcher (The Philosophy of Wittgenstein. que conheçamos o uso de uma palavra. existem dois que nos podem ser particularmente ilustrativos. os nomes próprios também têm uso. Wittgenstein nunca Em uma leitura retrospectiva do que disseram os intérpretes sobre esta questão fundamental. ao que parece. J. op. Rhees e Pitcher. no entanto.17 Esta obscura e enigmática afirmação já levou intérpretes desavisados às mais contraditórias conclusões 14 . como no caso de alguém dizer-nos que ‘ultus’ significa ‘vingança’ em latim . podem aparentemente ser interpretados como demonstrações de um mau entendimento ou de uma má aplicação do que Wittgenstein sugeriu. embora saibamos o significado da palavra . em The Philosophy of Wittgenstein (1964). Wittgenstein jamais quis dizer que o significado fosse de fato o uso. pp. Para R. Para C. pp. qualquer espécie de atividade que se faça determinar por signos. uma vez que na prática (e. mesmo que não seja aquele uso específico que 14 . etc. IV) ao servir como prenúncio para uma tempestade. D. Rardwick (Language Learning in Wittgenstein’s Philosophy. ou que esta última seja constituída de jogos de linguagem. havia mostrado hesitação em generalizar sua máxima. p. como queriam Malcon. e nosso erro consiste em interpretar literalmente o que não passa de simples exortação retórica. pp. em subestimar a unidade do pensamento de Wittgenstein.pois neste caso. essa foi uma tentativa prematura de restaurar um desacreditado e radical nominalismo. Wittgenstein errou ao identificar o significado ao uso. Fogelin (Wittgenstein. juntamente com ações a serem efetuadas. contudo. Wittgenstein realmente identificou o significado ao uso. p. somos já capazes de dar-lhe um certo uso. Identicamente. para James Bogen (Wittgenstein’s Philosophy of Language. não há em Wittgenstein qualquer evidência textual de que o uso de uma palavra ou sentença seja o seu papel em um jogo de linguagem. Quando aprendemos o significado de uma palavra como ‘ultus’. Os exemplos acima podem. mas não significado (Cf. nada nos impede de considerar como uma espécie de “uso”. ‘Nuvens negras no horizonte’ poderiam ser usadas como critério (ver cap. 15 Os exemplos destas exceções. Contudo. PI §1) ele divorciava estas duas noções.g. Cit. mas não tem uso. escreveu Pitcher. mas não para todos”. é perfeitamente possível conhecer o significado de uma palavra sem conhecer seu uso.108). Fann (Wittgenstein’s Conception of Philosophy. boa parte das quais tendo consistido. imaginar coisas que tem significado. George Pitcher. 251-2). Já para K. mas não o seu significado. como nos casos de ‘amen’ e do signo ‘Q. O primeiro consiste em pensar que Wittgenstein. por ter reconhecido a existência de notórias exceções 15 . 204. T. enquanto que. Também pode acontecer.’. mas não tinha qualquer teoria articulada em mente. E. Além disso. Podemos. 206).. inventariou algumas delas. escreveu Pitcher. porém. Esta conclusão. Entre os erros cometidos na interpretação da passagem citada.

ela significa o que eu quero que signifique – e nada mais”. ela pode ter. a frase limitadora “para uma grande classe de casos. seria demasiado fácil opor-lhe uma objeção esmagadora: se fosse simplesmente assim. na qual qualquer palavra poderia ser usada no lugar de qualquer outra. Finch (Wittgenstein .12). O erro de interpretação que conduz à objeção acima. de uma forma ou de outra.18 parece ter estado a ponto de sugerir a existência de classes de palavras para as quais o significado não pudesse ser considerado. como fazia Wittgenstein (PI §§40. que os nomes próprios são significativos. Além disso.The Later Philosophy. . adiciona ele. nada nos impede de pensar. 16 Segundo H. porém. assim. que o significado de toda palavra é o seu uso na linguagem. O segundo erro de interpretação é mais elementar. Cairíamos. concluindo daí que o último defendia alguma espécie de nominalismo estremado. Apenas que. Como conseqüência. consiste em não perceber que Wittgenstein nunca teria se referido ao uso arbitrário de palavras. em uma situação paradoxal. como seu uso. alguém poderia escolher uma palavra qualquer de nossa linguagem e fazer dela um uso completamente absurdo. o conceito de ‘uso’ deverá ser aqui entendido de um modo muito amplo. O que ele quis dizer na passagem citada é.). “Porque”. Neste caso. embora não para todos” não designa casos de palavras. D. Quem sabe utilizar signos como ‘amen’ e ‘Q. HumptyDumpty encerra a discussão com um argumento irrespondível: “Quando eu uso uma palavra.33 e segs.’. E. Quando percebe que caiu em contradição. como as demais. ‘et-cetera’ e ‘necrofilia’ em suas línguas originais para conhecer seu significado (uso) na nossa. dando-lhes lugar em um jogo de linguagem apropriado (ver 3. o que esvaziaria a própria noção de significado – uma situação de “catástrofe semântica” que já havia sido humoristicamente aludida por Lewis Carol em um conhecido diálogo entre Alice e Humpty-Dumpty. de fato. Ele consiste em fazer uma interpretação tout court da identificação entre uso e significado proposta por Wittgenstein. Para que isso seja correto. 693). “a questão é saber quem é o chefe”. independentemente de conhecer ou não o seu significado em suas línguas de origem. sabe o que eles significam. abrangendo tanto o uso da expressão por parte do falante. como pensamos. sendo ‘significado’ uma palavra da linguagem. uma variedade de diferentes usos. como também se “uso” por parte do ouvinte que a compreende (ver o caso de ‘nuvens negras no horizonte’ na nota 14). R. O que a frase na verdade designa são aqueles casos de uso da palavra ‘significado’ (que aparece entre aspas no texto) nos quais ela não diz respeito ao uso de palavras ( 16 ). p. ela teria dentro do contexto gramatical do latim (esta parcela do significado poderá ser aprendida mais tarde). 79). os dois casos mais importantes nos quais a palavra ‘significado’ não diz respeito ao uso são o significado como fisionomia (PI §568) e o significado como intenção (PI §§689. pelo mesmo motivo pelo qual não é necessário que ninguém saiba o significado de ‘Abat-jour’. de maneira a adquirir o seu significado.

Daqui por diante. tornando-se facilmente sujeita a objeções se não pensarmos na seta indicadora de direção como um signo cujo uso pode ser determinado por conjuntos de regras diversos em diferentes circunstâncias. . Gostaríamos.o único virtualmente capaz de ser significativo. servindo assim ao menos como parte da explicação do seu significado. para quem o observa. Estes sistemas ou complexos de regras são o que Wittgenstein geralmente chamou de jogos de linguagem. Imaginese. Podemos neste ponto aproveitar para fazer uma importante constatação: se. como sugerimos. portanto. pois. qualquer pergunta relativa ao uso deverá ser complementada com outra relativa às regras que o determinam. que é o uso em conformidade com regras. só poderia ser finalmente resgatado pelo estabelecimento de uma “gramática” constituída pelos possíveis conjuntos ou sistemas de regras capazes de determiná-lo. uma descrição das regras que determinam o uso da expressão pode servir como forma de explicação de seu significado. com a sugestão de que o aparente caráter arbitrário da identificação entre significado e uso. pode ser considerado como consistindo em seu uso segundo regras como a seguinte: “Sempre que nos deparamos com o signo “→”. . o significado de uma expressão é seu uso determinado por regras. de concluir a discussão deste capítulo. o caso do seguinte signo indicador de direção: “→”. então. O significado deste signo.19 mas sim ao seu uso correto. A explicação acima é obviamente parcial. por exemplo. devemos desviar nosso olhar para sua ponta”. Esta descrição contribui para mostrar-nos como usar o signo indicador de direção.

.81). Ibid. T. ou ainda. operações e cálculos estratégicos. p. será seguir o fio de uma classificação que os caracterize. J. “atividades envolvendo o emprego de signos. é comparável a um jogo com seus participantes.20 CAPÍTULO III JOGOS DE LINGUAGEM Digamos que o significado de uma peça seja seu papel no jogo. P. mais proveitoso do que discutir sua definição. ou “espécies de uso de palavras e frases” (PI §23). mas esclarecedora. 239. De uma maneira artificial. . E. 75. Os jogos de linguagem já foram definidos por Wittgenstein como “sistemas completos de comunicação humana” (BB. O conceito central da última fase do pensamento filosófico de Wittgenstein é o de jogo de linguagem. T.. das quais são constituídas as regras que determinam o significado desses signos” 19 . Richardson. (PI §563). “sistemas de regras ou convenções” 18 . O conceito de jogo de linguagem. poderíamos classificar os jogos de linguagem apresentados por Wittgenstein em duas espécies gerais. Pitcher. regras. Richardson. Já na opinião de intérpretes eles foram adequadamente considerados como “atividades discursivas” 17 .81) composta de um imensuravelmente complexo entrelaçado de jogos de linguagem. porém. 74. p. p. em seu funcionamento. Uma linguagem. E. The Philosophy of Wittgenstein. é extremamente diversificado e fluido. Por isso. A primeira é a dos jogos de linguagem que são “modos de usar signos mais simples do que aqueles com os quais usamos signos na linguagem 17 18 G. podendo uma linguagem natural como a nossa ser considerada como uma “nebulosa massa de linguagem” (BB p. peças. 19 J. The Grammar of Justification.

“vigas”. nas quais o construtor pede ao seu ajudante “Cinco tábuas” (BB p. Eis como Wittgenstein o descreveu no início das Investigações Filosóficas: (I) A linguagem deve servir para a comunicação entre o construtor A e seu ajudante B. . “tábuas”. escreveu Wittgenstein. 77. . PI §2). sendo possivelmente as mais distintivas dentre as formas fundamentais de comunicação humana. que é como preferimos denominá-los. Os jogos de linguagem simples podem ser introduzidos através de um exemplo paradigmático. que foram os que ele mais se preocupou em descrever. A constrói um edifício com o material apropriado: tijolos. tábua” (BB p. primeiro. L. tábuas e vigas. 83). Wittgenstein. O mais conhecido destes jogos de comando. Wittgenstein . A grita estas palavras: . PI §23). 79) ou “Segundo.B traz os objetos que aprendeu a trazer ao ouvir este chamado. ao que consta. O exemplo mostra que um jogo de linguagem é um sistema de comunicação formado por signos. Eis aí o modelo em microcosmo de uma linguagem como a nossa. “colunas”. fez uma tentativa frustrada de estabelecer uma ordem dos jogos de linguagem fundamentais na parte I do Brown Book 20 . A existência dessas regras torna-se evidente quando Wittgenstein descreve extensões do jogo de comando (I) apresentado acima.. colunas.The Later Philosophy. A dimensão sintática é constituída de regras formais. é uma linguagem na qual um construtor A dá ordens ao seu auxiliar B (BB p. podendo ser “decompostos” em jogos de linguagem mais simples. Tais jogos podem geralmente ser chamados de compostos (Cf. regras. situações) circundantes. PI §23).17). 20 Segundo H. Finch. usuários e o contexto dos fenômenos (ações. Para esta finalidade. é a dos jogos de linguagem efetivamente utilizados na linguagem natural e que são segmentos desta.21 altamente complexa de nosso cotidiano” (BB p. B passa-lhe o material na medida em que A dele necessita.Conceba isso como uma linguagem totalmente primitiva (PI §2). coluna. Os primeiros a aparecer são os “jogos de dar ordens e obedecê-las” (BB p. 81. como sua dimensão pragmática. p. consistindo da linguagem e das ações por ela envolvidas” (PI §7). Já a segunda espécie. segmentos mais elementares da linguagem. “ao todo. “Chamarei de jogo de linguagem”. 77 e segs. Ele deve incluir tanto a dimensão sintática da linguagem. podendo incluir as que aprendemos em nossa “gramática escolar”. eles usam uma linguagem constituída das palavras: “tijolos”.

etc. 83). Só que neste caso. alguma coisa distinta de nossa própria linguagem: ele pode efetivamente existir. as últimas servem apenas a este jogo de linguagem particular. . (V) A faz uso de cardinais como “Cinco tábuas”. quando quer que B leve o material de construção até determinado lugar. segundo” ou “Tábuas dois”. sirva de critério para a regra segundo a qual “Sempre que A gritar ‘Tijolo!’. ele as faz acompanhar de um gesto indicador do lugar onde quer que B deposite a pedra. A dimensão pragmática. (VI) Podemos imaginar ainda um jogo de linguagem que consista na combinação de toldos estes jogos (assim como (IV) contém (I) e (III). fazendo este gesto parte do jogo (BB p. Pode-se supor. este simples jogo de comando pode admitir uma infinidade de adições e variantes. uma coluna. é constituída pelo que chamaremos de regras práticas. como parte do verdadeiro diálogo entre um construtor e seu ajudante. tábua. por exemplo. 80). tijolo!” (BB p. “Dois tijolos” (BB p. primeiro. (III) A dá ordens múltiplas como “Tábua. porém. “Coluna ali”.22 As regras formais não admitiriam nesses casos a formação de frases como “Colunas. muitos outros jogos de linguagem são adicionados a ele. A simplicidade do jogo de linguagem (I) não o torna.. coluna. Com efeito.83). já que enquanto regras como as de nossa gramática escolar podem servir indiferenciadamente a muitos jogos de linguagem diferentes. Neste jogo. tijolos” (BB p. o que permite individualizarmos o uso da expressão em um particular sistema de regras. de maneira a torná-lo aparentemente inseparável dos demais. terceiro. Regras como essa têm um particular interesse semântico. que no jogo (I) o grito “Tijolo!” proferido por A. cinco tábuas ali. 21 Ver a distinção entre regras práticas e formais apresentada no capítulo IV. dois tijolos”. consideradas por Wittgenstein como jogos de linguagem distintos: (II) O construtor A realiza combinações de signos como “Tábua aqui”. seriam possíveis frases como “Primeiro. as quais têm a especial função de associar expressões a condições empíricas (circunstâncias.79). B deve levar uma pedra de certo formato até ele”. terceiro. segundo. por sua vez. (IV) A indica a ordem na qual B deve trazer o material. Quando A pronuncia essas frases. fazendo uso de ordinais como: “Segundo. coluna. comportamentos e atividades humanas) capazes de validar seu uso 21 .

Cf. pode ser usada em vários jogos de linguagem diversos e. como vimos nos exemplos acima. duas questões podem ser levantadas acerca do que foi dito. Os jogos de linguagem mais simples entram em nossa linguagem como peças em um jogo de armar. o estudo dos jogos de linguagem simples pode servir ao objetivo de elucidar a natureza de nossa própria linguagem. por exemplo. não somos geralmente capazes de ter uma visão de conjunto da linguagem. pois eles não se encontram necessariamente separados por uma interrupção dos nossos jogos de linguagem mais complexos: “Nós vemos que é possível construir as formas mais complicadas a partir das mais primitivas pela adição gradual de novas formas” (BB p. de maneira inversa. pois os jogos de linguagem tem as propriedades de a) se sobreporem parcialmente. Assim. Se. de modo que um contenha todas as regras de outros. Assim. PI §66).60) nestes jogos de linguagem mais simples. eles podem nos servir como modelos úteis para o reconhecimento de suas estruturas. para em seguida opô-los .23 A seqüência de exemplos acima apresentada. Os mesmos exemplos também evidenciam o fato de que esta divisão ou decomposição da linguagem pode ser feita de muitas maneiras distintas (PI §48). Esta resposta decorre do seguinte raciocínio: se. 1) uma mesma expressão. parece tornar evidente que os jogos de linguagem mais simples podem ser conjugados de maneira a construir toda uma linguagem como a nossa. é possível que os jogos de linguagem nos sejam úteis nos casos em que queiramos evidenciar uma variação ou nuance no uso da expressão. Cf. de acordo com o jogo no qual ela estiver sendo usada. 2) o significado de uma expressão. Assim sendo. será útil considerá-los como dois jogos distintos. e dela não costumam diferir essencialmente. A primeira é: qual a vantagem existente no apelo a um conceito de dimensões tão variáveis? A resposta parece ser de que ele serve em Wittgenstein a uma estratégia heurística na detecção de semelhanças e diferenças nos modos de uso (significado) de uma mesma expressão. ou então. do mesmo modo que o estudo dos sistemas de trocas primitivos e simplificados pode ser útil ao economista para o conhecimento de sua matéria. compartilhando de certas regras em comum (como (III) e (IV). Eles nos são úteis porque. 17). como já sugerimos. além de outras que lhe sejam exclusivas (como (IV) e (III). pode ser considerado como determinado pelas regras do jogo de linguagem no qual ela for usada. que nossa linguagem possa ser dividida ou decomposta (PI §§48. então podemos concluir que 3) o significado de uma expressão pode variar ou mesmo alterarse completamente. pretendêssemos colocar à mostra uma suposta nuance no uso de uma palavra no jogo (IV) para distingui-la de seu uso em (V). Neste ponto. estando postados do seu interior. e b) se incluírem uns aos outros. z §648).

se assimilássemos parte das regras do jogo (I) a regras do jogo (II). escreveu Wittgenstein.112 Com base nos textos de Wittgenstein. “Nós chamamos alguma coisa de jogo de linguagem”. de maneira que o ajudante apenas tomasse o objeto nas mãos. poderíamos ser levados a observar: esta não é uma ação inteligível em nossa forma de vida. não será de qualquer valia descrevermos (VI) como um jogo de linguagem. Da mesma forma. in H. e então o deixasse cair. não haverá vantagem em subdividirmos (VI) em jogos como (IV) e (V). ‘private experience and ‘sense data’. 3. Como ilustração. Introduction to Philosophy of Mind (1970). disse Wittgenstein. “quando ela desempenha algum papel na vida humana” 22 . Algo semelhante poderia resultar se fundíssemos arbitrariamente algumas regras do jogo de damas com outras do jogo de xadrez – os movimentos permitidos então perderiam certamente sua finalidade para nós. olhasse para o local indicado pelo construtor. e faríamos suposições sobre sua finalidade como instrumento de ação (PI §567). Eis como pensamos que poderia ser respondida esta questão: o que confere unidade a um conjunto de regras de maneira a torná-lo um jogo de linguagem é o fato de que ele permite a formação de expressões com um “quantum” particular de significado.24 entre si. Neste caso. Neste caso. O que Wittgenstein considera como jogo de linguagem na maioria das vezes parece depender simplesmente da vantagem heurística circunstancial de uma divisão da linguagem que permita desfazer certas confusões filosóficas causadas pela assimilação dos diferentes usos de uma mesma expressão (PI §90). Morick. A segunda questão seria a de se saber se todo e qualquer fragmento arbitrariamente escolhido do sistema de regras de nossa linguagem – chamado por Wittgenstein de “gramática” – pode ser considerado como um jogo de linguagem. poderíamos subdividir didaticamente os jogos de linguagem mais simples em três formas 22 Wittgenstein. Notes for lectures on. Estes movimentos são ações inteligíveis entre os participantes de uma linguagem que partilham de uma mesma forma de vida (divisão do mundo instituída em um agrupamento social) (ver cap. §177. a graça (Witz) dessa prescrição. Mas podemos imaginar também que o que pretendemos não seja distinguir uma variação fina. encontrássemos uma regra segundo a qual devêssemos girar a peça três vezes antes de fazer um lance com ela (PI §567). o que poderíamos chamar de “movimentos completos” no jogo. podemos imaginar que em um jogo de xadrez. . mas uma variação mais grosseira entre o uso da mesma expressão em (VI) e seu uso em um jogo “(VII)”. não obstante ser possível imaginar formas de vida nas quais isso poderia ser um movimento significativo em um jogo de linguagem. Não perceberíamos. VII).

com o objetivo de esclarecer a nossa (BB p. 81) 23 . 17. Introduction to Philosophy of Mind (1970). como suplemento de O significado do Significado. 17) ou “o completo sistema de comunicação de uma tribo em um primitivo estado da sociedade” (BB p. ao dispô-los em sua ordem de aparecimento – o que levará a uma melhor tomada de consciência do papel desempenhado pela expressão em nossa linguagem adulta. in H.303). isso nos permite individualizar com mais clareza seus modos de iniciais e primitivos. Notes for lectures on ‘private experience and ‘sense data’. 93-4. Semelhante exame permite um maior esclarecimento do significado porque no uso adulto de uma expressão. praticado pelos pescadores nativos de Nova guiné. Neste ensaio. só se tornando compreensível quando visto “contra o pano de fundo dos hábitos da psicologia tribal.81. os vários modos de sua aplicação costumam integrar-se uns aos outros de maneira complexa. Tais jogos de linguagem põem a nu as confusões derivadas Wittgenstein foi provavelmente influenciado pela leitura do ensaio de Bronislaw Malinowski. ver cap. “primitivos” e “artificiais”. Wittgenstein advertiu. Morick. §169.” (p. Já. 230). Também aqui Wittgenstein advertiu que não pretendia fazer algo como uma “história natural” da linguagem (PI p.25 intrinsecamente relacionadas: os jogos de linguagem “infantis”. 102-3. mas sim esclarecer o significado das expressões através do estudo dos modos como poderíamos tê-las aprendido. mais do que Malinowski. cerimoniais religiosos etc. Seu objetivo era mostrar que “uma linguagem primitiva é um instrumento de ação” no qual o significado das palavras “depende em elevado grau do contexto” (p. PI §7). de Ogden e Richards).28). seu comportamento. mas tão somente inventar linguagem primitivas fictícias. comércio. poderíamos falar de jogos de linguagem “artificiais”. que não recorria a tais jogos com o objetivo de fazer psicologia infantil (Z §412). Por fim. 23 .309). São eles jogos de linguagem absurdos. como o jogo da linguagem privada 24 . porém. A segunda forma pela qual Wittgenstein se referia aos jogos de linguagem simples era como “o estudo de formas primitivas de linguagem” (BB p. Malinowski ocupouse em descrever o que poderíamos chamar de um “jogo de linguagem primitivo”. embora Wittgenstein assim não os tenha denominado. 24 Wittgenstein. quando buscamos decompor as etapas do aprendizado de uma expressão. deliberadamente inventados com o propósito de opor contraste à nossa linguagem (BB p. ou jogos de linguagem pertencentes a formas de vida 25 que nos sejam estranhas. a dimensão universal de semelhantes constatações. O significado em liguagens primitivas (publicado em 1923. 25 Para uma elucidação desta noção. Os primeiros são as “formas de linguagem com as quais a criança começa a fazer uso das palavras” (BB p. 110) – o que é possível na medida em que aí se encontram versões mais fundamentais e distintas do uso de expressões como as nossas. pp. 100. Wittgenstein percebeu. VII.

. expressivo e diretivo 27 . entre a expressão e um grande número de coisas ou eventos. . estabelecer relações. p.. alguns deles devido à sua absurda aparência (BB p. O uso 26 27 Cf. W. a névoa mental que parecia ensombrecer nosso uso ordinário da linguagem desaparece” (BB p.. mostrando a impossibilidade de compreendermos jogos de linguagem essencialmente constituídos por elas (PI §90). uma lista deles nos sugere que devam cobrir todos os usos possíveis da linguagem. Eis porque nosso método não é meramente o de enumerar as utilizações atuais das palavras. quase sem procurar descrevê-los ou classificá-los. e a dependência entre as circunstâncias “perceptíveis” da situação presente. afirmar a verdade ou falsidade de proposições. I. Wittgenstein apenas mencionava estes jogos. Assim. com participação predominante de uma ou outra categoria. sendo muitos deles mistos. 17).26 da assimilação de diferentes usos de uma mesma expressão. Os jogos de linguagem altamente complexos ou “compostos” são os que constituem unidades mais amplas de nossa linguagem (as quais chamaremos também de formas de linguagem ou suas “regiões”) sendo. serve para comunicar informações.45 e segs. Eles podem. que por meio de semelhanças e diferenças. Contudo. passado e futuro. por meio de regras. os usos ou funções da linguagem podem ser divididos em três categorias gerais: os usos informativo. Estes jogos – como outros jogos de linguagem simples – cumprem primeiramente com um objetivo terapêutico: Sempre que nós construímos ‘linguagens ideais’. A Filosofia Contemporânea. lançam luz sobre as confusões dos filósofos com relação à sutileza da aplicação de expressões nos jogos mais complexos de nossa linguagem ordinária: “Quando olhamos para estas formas simples de linguagem. Cf. certamente.28). em Wittgenstein os jogos de linguagem simples servem principalmente como objeto de comparação. mas inventar deliberadamente novos usos. tais como as palavras e as ações do falante e de um suposto ouvinte no presente. muito mais difíceis de serem descritos. não é com o objetivo de substituir nossa linguagem ordinária por elas. mais característico da exposição científica. passada e futura e a aplicação da expressão 26 . M. mas precisamente para remover algum problema causado na mente de alguém por ter pensado que alcançou o entendimento do uso preciso de uma palavra comum. O uso informativo. p. Introduction to Logic. expor argumentos etc. Stegmuller. 451. De acordo com uma classificação tradicional. tanto quanto os outros. Copi.

recordar-se de desejos passados (PI §654-6).§1). ou menos avermelhada que outra (RC III. pelo jogo da dúvida (OC §115).. que juntos contribuem para formar o nosso quadro do mundo (concepção da realidade) (OC §95). Por fim. Wittgenstein. entre os jogos de linguagem predominantemente assertivos estão apresentar os resultados de um experimento por meio de tabelas e diagramas. fazer uma anedota (PI §23) etc. etc.217) etc.180). serve para produzir ou prevenir a ação 28 . química e aritmética (OC §§447. que é aparentado com os de estabelecer relações entre a luminosidade de certas gradações de cor (RC I. jogos de linguagem inventados como modelos de teorias filosóficas como a teoria das descrições de Russel tal como foi interpretada no Tractatus (PI §60). cantar uma cantiga de roda. apontar para (uma cor) mais avermelhada que outra (RC III.. §30). que podem ser verdadeiros e falsos. mais característico da linguagem poética. III e IV.. pelas linguagens da física. Os jogos de nossa linguagem cotidiana incluem-se. §15). 29 Ver T. azul e marrom) (RC III. Os jogos de conhecimento poderiam ser melhor exemplificados pelo jogo da história (OC §85). E o uso diretivo. orar (PI §23). Wittgenstein & Knowledge. Ainda uma classe de jogos de linguagem predominantemente assertivos (que abrange muitos dos já mencionados. maldizer. pelo jogo dos nomes próprios (OC §§579. Remarks on Colour (1978). representar teatro. ou as explicações sobre os nomes apresentadas no Teeteto de Platão (PI §§48. §30). como subdivisões. §30). pedidos. Austin entre proferimentos constatativos. pela linguagem das cores (colour language) 30 . pedir. e proferimentos performativos.83) e explicá-las (PI II. §1). Morawetz. descrever objetos físicos e impressões sensoriais (PI II. seriam os jogos de conhecimento (knowing games) 29 estudados por Wittgenstein em Sobre a Certeza.27 expressivo. Entre os exemplos de uso predominantemente diretivo estão obedecer e dar ordens. fazer definições ostensivas (PI §27. Uma outra maneira mais genérica de se dividir a linguagem é pela distinção sugerida por J. descrever um objeto (ver PI §23). L. agradecer. A linguagem das cores é dividida em jogos mais simples como informar se um certo corpo é mais luminoso que outro (RC I. 28 . p.64).169). saudar.. Entre os que servem a um uso predominantemente expressivo estão recitar poesias. apontar para um amarelo avermelhado (ou branco. em todas as três categorias acima apresentadas. jogos de linguagem com conceitos de cores saturadas (RC III. A prática de atomização ou decomposição de jogos de linguagem complexos com o objetivo de distinguir variações no uso de uma expressão é bem exemplificada neste pequeno livro. expor uma hipótese e provála. p. BB p. etc.etc. serve para suscitar emoções e sentimentos. mais característico dos comandos. que realizam uma ação e podem ser bem ou mal sucedidos. 30 L. caps. que apresentam importância epistemológica.628).

(BB p. c) do ponto de vista do sujeito que as aplica. Antes de começarmos. procuraremos elucidar a noção de regra. o que nos conduzirá diretamente à noção fundamental de critério (Kriterium). a compreensão da noção de regra torna-se fundamental para o entendimento do que Wittgenstein tinha a dizer. Para melhor caracterizarmos a noção de regra em Wittgenstein. 57). mas poderão revelar-se úteis se ao final se demonstrarem capazes de abrir lugar a uma compreensão mais consistente do que Wittgenstein buscava transmitir. eventos) as quais elas são aplicadas. começaremos investigando as regras do ponto de vista dos objetos ou entidades (coisas. Por contexto .e. b) do ponto de vista de sua relação com os sistemas de regras que constituem a gramática. porém. evento) que represente outra. i. aquilo que dá às nossas palavras seus significados comuns. Assim sendo. Elas serão um tanto vagas.28 CAPÍTULO IV REGRAS COMO RELAÇÕES CRITERIAIS Os critérios. Neste capítulo. os jogos de linguagem são sistemas de regras capazes de determinar o uso de suas expressões. Chamaremos. algumas definições e distinções conceptuais visando uma maior unificação terminológica parecem fazer-se necessárias. Como já foi sugerido. por sua vez. Neste e nos dois próximos capítulos.. Chamaremos primeiramente de signo a qualquer entidade (coisa. de fenômeno a qualquer entidade capaz de estimular nossos sentidos. da qual até agora pressupomos apenas um entendimento intuitivo. dividiremos nossa abordagem em três pontos de vista distintos: a) do ponto de vista dos objetos aos quais elas se aplicam.

parece ter sido muito pouco considerada: uma regra pode ser definida. acessória. em sua estrutura. ‘idéias’. como “estímulos sensoriais” relacionados às necessidades e disposições próprias de certa forma de vida (ver cap. ‘frases’. ‘representações’. com a condição de que essas entidades e a maneira como elas se relacionam sejam reconhecidas pela comunidade lingüística 31 . ‘expressões’. ou então. expressiva) secundária. VII). chamaremos de contexto de fenômenos aos conjuntos de fenômenos relacionados de certa maneira. Os contextos de fenômenos envolvem entidades empíricas independentes da vontade do sujeito. ou mesmo serem chamadas de ‘imagens’. 31 Esta é uma versão algo modificada da definição de Ogden e Richards. um papel necessário à linguagem humana. i. . fenômenos mentais como ‘ser capaz’. apesar de complementar. As entidades de tal contexto podem ser tomadas como signos. tais como os objetos do mundo externo. na medida em que serve à comunicação e expressão. ‘símbolos’. ‘comportamentos’ (BB p. ‘pensar’. 471) ou ‘esperar’ (PI §583).431).164). etc. por isso mesmo. Supomos que as entidades de um contexto sejam de duas espécies: “coisas” e “eventos”. devemos começar com uma observação elementar que. Como coisas. recebendo nomes distintos como ‘palavras’.. As entidades desses contextos têm função lingüística (comunicacional. 591-2).e. ‘situações’. ‘ambientes’ (PI §250). formando o que chamaremos de contextos de situação. ‘acreditar’. Em contraposição ao contexto de representação. ‘circunstâncias’ (PI §§539. Para que as distinções acima recebam validade operacional. consideraremos os conjuntos de signos relacionados de certa maneira cuja função pode ser considerada como essencialmente lingüística. os quais são essencialmente caracterizados por servirem.. elas se acham relacionadas entre si por uma seqüência temporal. que tem.29 entenderemos um conjunto de entidades (coisas. para Wittgenstein. mas como fenômenos. por sua vez. ou mesmo acidental. Como contexto de representação. eventos) relacionadas de certa maneira. (PI §§337. formando o que poderíamos chamar de contexto de ação. meios. ‘ver’. elas se acham espacialmente relacionadas entre si. não como signos representacionais. ‘pensamentos’. Como eventos.24). etc. ‘desejar’ (Z §§38. Tanto os contextos de situação como os de ação podem se apresentar. A noção de ‘contexto de fenômenos’ deve aqui tomar o lugar de certas aplicações de termos como ‘ações ou atividades’(OC §§284. sob duas formas gerais: como contextos de representação e como contextos de fenômenos.

o modo como P. 32 . sempre que se aplicam somente a contextos de representações. Regras formais. Um ligeiro exame das expressões de regra que constituem a gramática dos jogos de linguagem (ver cap. Não somente as regras de nossa “gramática escolar”. IX). fazendonos concluir que se trata de uma frase incompleta (uma conclusão que também se coloca em um contexto de representação). idéias. abstraindo-se os contextos de fenômenos que possam tê-la tornado necessária. formando a parcela específica de sua gramática. mas também outras de maior interesse para Wittgenstein. ela deve ser aplicada somente a um contexto de representações. S. Por essa mesma especificidade localizadora. podemos dividi-las em duas espécies: as regras que usualmente chamamos de práticas e as regras que poderíamos Este é. Basta que saibamos que ‘quebrar’ é um verbo transitivo para que possamos aplicar esta regra a uma frase como “O menino quebrou. como já tivemos ocasião de observar. independentemente do fato de sabermos aplicar a frase a contextos de fenômenos ou mesmo entendermos o que ela significa. Estamos agora em condições de definir melhor o que pretendíamos dizer com isso.” (cujas entidades pertencem obviamente a uma contexto de representações). As regras que constituem os jogos de linguagem.30 como uma relação de natureza prescritiva mantida entre duas espécies de entidades 32 . Hacker definiu. no sentido em que estamos considerando. a relação criterial (criterial relation ou “C-relation”). 285. são aquelas que estabelecem relações prescritivas entre entidades (signos) pertencentes a contextos de representação (por exemplo: relações apenas entre palavras.. aplicar uma regra da gramática profunda afirmando que “Um mesmo lugar não pode ser simultaneamente ocupado por duas cores” (BB p.. Este caso pode ser exemplificado por regras como as de nossa “gramática escolar”. em Insight and Illusion. etc). as regras de sua gramática profunda 33 . por exemplo. essas regras são as que mais propriamente mereceriam o título de “semânticas”. como no caso daquela que afirma que “verbos transitivos necessitam de complemento”. (ver cap. e isso independentemente de sabermos ou não reconhecer em um contexto de fenômenos cores como o azul e o vermelho. frases. 56) para mostrar a incorreção da frase “Este ponto é agora azul e vermelho”. coincidentemente. também podem desempenhar uma função sintática. p. A regra é aqui aplicada a contextos de representações. Podemos. as quais chamaremos de termos ou componentes. M. podem ser minimamente de dois tipos: formais e práticas. V) é suficiente para convencer-nos disso. Para que uma regra seja sintática. 33 As quais são regras particularizadas para determinado(s) jogo(s) de linguagem. Quanto às regras práticas.

em seu importante artigo. sugerindo que ela devesse ser explorada por meio de lógicas multivaluadas ou modais (p. esta regra poderia ser chamada de exclusivamente prática.31 qualificar como exclusivamente práticas. pertencente a um contexto de fenômenos. apresentando certamente escassa importância do ponto de vista da linguagem. 34 .158). embora não sendo necessariamente de implicação. situado a meio caminho entre as regras formais e as regras exclusivamente práticas. como veremos.. Mais tarde. já que servem como um artifício expositivo que nos permite passar ao largo de uma discussão direta da questão: “que espécie de relação criterial?” Uma das fontes iniciais dessa discussão. 1974). Gostaríamos de chamá-las aqui simplesmente pelo nome de regras práticas. por exemplo. Antony Kenny em seu artigo Criterion.167. “Criteria: a new foundation for semantics”. Posteriormente. consiste no fato delas permitirem que uma noção freqüentemente usada por Wittgenstein. sugeriu que a relação criterial. publ. As regras práticas são as que estabelecem relações prescritivas entre entidades (fenômenos) pertencentes a contextos de fenômenos e entidades (signos) pertencentes a contextos de representações. a de critério. foi o artigo de Roger Abbrington. mantendo uma relação prescritiva com o componente conseqüente. seja incorporada à gramática dos jogos Essas denominações precisam ser aqui intuitivamente aceitas. As regras exclusivamente práticas são as que estabelecem relações prescritivas entre entidades (fenômenos) pertencentes a contextos de fenômenos. mantendo uma relação prescritiva com o termo conseqüente. cit. Como uma regra é uma relação prescritiva entre um termo antecedente e um termo conseqüente 34 . para o caso das regras práticas que relacionam entre si contextos de fenômenos e de representações. finalmente. Há. um terceiro tipo “misto” de regra. Por exercer-se somente em um contexto de fenômenos. no qual o “critério definitório era interpretado como fonte de uma relação de implicação lógica”. pertencente a um contexto de representações. podemos estar seguindo uma regra que estabelece uma relação prescritiva entre o caminho que vemos diante de nós (o qual pertence a um contexto de fenômenos) e a direção de nossos passos (que também pertence a um contexto de fenômenos). No caso de sermos guiados por um atalho no campo. On Wittgenstein’s use of the term criterion. veio a considerar a relação criterial como “mais fraca que uma implicação e mais forte que uma confirmação indutiva” (p. deveria constituir-se em alguma espécie de “evidência não indutiva”. Estas regras apresentam extraordinária importância para o tema deste capítulo. Gordon Baker. In Ratio 16. b) o termo antecedente pertence a um contexto de representações. op. podemos ter aqui duas possibilidades: a) o componente antecedente pertence a um contexto de fenômenos. A principal vantagem das idéias que acabamos de expor.

sendo posteriormente retomada por P. op. . OC §318).187). consistia em não ter permitido clarificar suficientemente a conexão do conceito de critério “com outros conceitos técnicos como semelhanças de família. poderíamos definir os critérios como componentes ou termos antecedentes de regras específicas para determinados jogos de linguagem. 38 Estes jogos de linguagem “puros” seriam aparentemente o que Feyerabend chamou de “jogos de linguagem metalingüísticos” (ver nota em 1.). 204. as quais não são compartilhadas com a maioria dos outros jogos 36 . Richardson considerou os critérios como regras determinadoras do significado (Cf. cap. para o que um intérprete como George Pitcher chamou de jogos de linguagem “impuros” 37 – ou seja. Já uma regra (sintática) da “gramática escolar” (ou “gramática superficial”) que demonstre a incorreção da frase “Tábuas dois” no jogo de comando (V) (ver 3.os critérios são termos antecedentes das regras práticas que os fundamentam.11) é inespecífica. A possibilidade de uma semântica fundamentada na noção de critério foi primeiramente aventada por Gordon Baker em uma tese doutoral não publicada The Logic of Vagueness). Esta dificuldade foi parcialmente superada na interpretação de Richardson (The Grammar of Justification. cit) em jogos de linguagem: “Tais convenções lingüísticas determinando as condições sob as quais uma palavra pode ser justificadamente aplicada (ascribed). S.. pois pode ser aplicada a uma multiplicidade de jogos de linguagem. os jogos de comando). em parte reconhecida no último ensaio de Baker. aqueles que contém necessariamente regras práticas que os identifiquem em sua especificidade própria (e. Já. cit.. são também chamadas de relações criteriais. B deve trazer-lhe certo objeto”. são regras que constituem o jogo de linguagem com aquela palavra” (p. os critérios não são regras. podendo ser expressas por “proposições metodológicas” (Cf. pertence especificamente a este jogo (razão pela qual dizemos pertencer a uma “gramática profunda” (PI §664). op.g. para o que Pitcher chamou de jogos de linguagem “puros” .os critérios são. Sua insuficiência. 115. 37 G.g. segundo a qual “Quando A grita ‘Tábua!’. 36 Por exemplo: a regra (pragmática) do jogo de comando (I). jogos de linguagem e formas de vida” (p. demonstrar teoremas e realizar cálculos abstratos). Poderíamos sugerir que. tal como se dá com o que chamamos de teoria da linguagem. Na verdade. não servindo para fundamentar (particularizar) um jogo de linguagem simples. . 559). chamadas por Wittgenstein de fundamentos (grounds) dos jogos de linguagem (OC §§110.1). Hacker no último capítulo de Insight and Illusion (1972) e pelo próprio Baker em Criteria: a new foundation for semantics (1974). incluindo suas decorrências semânticas 35 . p. pois teriam com objeto a própria linguagem. termos antecedentes de regras formais que os fundamentam 38 . 126. 35 . 247-8. Ao que parece.32 de linguagem.menos comuns e sempre dependentes dos anteriores (e. que conteriam apenas regras formais. Pitcher. p. Estas regras. V). The Philosophy of Wittgenstein. M. e assim à teoria da linguagem como um todo. como signos. mas seus termos antecedentes.

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Os critérios que são, como entidades em contextos de fenômenos, termos antecedentes de regras práticas do tipo a na fundamentação de jogos de linguagem “impuros”, são os que foram geralmente como “critérios de evidência” para o estabelecimento de conclusões no contexto de representações de um “jogo de conhecimento”. Veja-se, por exemplo, o critério “tátil” para alguém poder dizer que seu dedo tocou em seu olho: O critério para que meu dedo tenha tocado meu olho deveria ser somente que eu tivesse uma particular sensação que poderia fazer-me dizer que eu estava tocando meu olho, mesmo se eu não tivesse evidência visual para isso, e mesmo se, olhando para um espelho, eu visse meu dedo tocando, não meu olho, mas digamos, minha testa (BB p.51). Embora estes casos tenham sido os mais freqüentemente considerados por Wittgenstein, eles não esgotam as aplicações da noção de critério. Os critérios podem ser também termos antecedentes de regras do tipo b, como signos em contextos de representações (PI §§182, 239). Uma regra como a já mencionada para o jogo de comando (I), por exemplo, pode ser considerada como uma relação criterial na qual o grito “Tábua!”, que pertence a um contexto de representações, serve como critério para a realização de uma ação em um contexto de fenômenos. As relações criteriais práticas dos tipos a e b, que fundamentam jogos de linguagem “impuros”, são importantes porque tem a propriedade fundamental de vincular a linguagem ao mundo em que vivemos. Porque o mundo, na medida em que for constituído por contextos com fenômenos identificáveis como componentes de regras, torna-se deste modo parte constituinte da linguagem, que serve à comunicação e expressão; razão pela qual dizemos que a gramática determina a estrutura, divisão e limites do mundo, tal como nós o concebemos ( 39 ). Por fim, algumas passagens das Investigações Filosóficas sugerem que também termos antecedentes de regras formais possam ser tratados como critérios (PI §§182, 344, 377, 542), os quais poderiam fundamentar jogos de linguagem “puros”. Estes termos antecedentes, porém, parecem ser critérios secundários. Pois, como observou Wittgenstein, uma tabela decorada pode servir de critério em uma regra sintática, mas a própria tabela, como tal, só é confiável na medida em que tiver como critério último, entidades de contextos de fenômenos a partir das quais ela foi estabelecida (PI §265).

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Cf. D. Pole; The Later Philosophy of Wittgenstein, p. 54.

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4.32 Wittgenstein opôs à noção de critério o que ele chamou de sintoma. Ao que parece, os sintomas poderiam ser considerados como termos conseqüentes de relações criteriais. Assim sendo, enquanto a presença de critérios costuma ser capaz de proporcionar evidência conclusiva com base em alguma forma de relação não-indutiva (ver nota em 4.2), o mesmo não ocorre com os sintomas. Estes últimos, seriam capazes de proporcionar apenas uma evidência indutiva daquilo que é critério: Deixe-nos introduzir dois termos antitéticos, de modo a evitar certas confusões elementares: para a questão “Como você sabe que alguma coisa é o caso?”, nós às vezes respondemos fornecendo ‘critérios’, outras ‘sintomas’. Se a ciência médica chama de angina uma inflamação causada por um bacilo e nós perguntamos em um caso particular “Porque você diz que este homem teve angina?” então a resposta “Eu encontrei tal e tal bacilo em seu sangue” dá-nos o critério definitório de angina. Se, por outro lado, a resposta fosse “Sua garganta está inflamada”, isso deve dar-nos um sintoma de angina. Eu chamo de “sintoma” um fenômeno do qual a experiência nos ensina que tem coincidido de um modo ou de outro, com o fenômeno que é nosso critério definitório (BB pp.24-5). Por outro lado, devemos também notar que, para Wittgenstein, esses dois conceitos são fluidos, não havendo uma fronteira nítida a separá-los. Em diferentes ocasiões, uma mesma entidade poderá oscilar, tanto elevando-se à categoria de critério quanto sendo rebaixada a um sintoma (PI §354, Z §466). Isto ocorre, ao nosso ver, porque critérios e sintomas não existem como entidades isoladas. Eles quase sempre existem como entidades que, multiplamente relacionadas em contextos, são capazes de estabelecer intrincados sistemas de relações (ver BB. p. 61-4). Por exemplo: Blue Book (p. 23-4), Wittgenstein aludiu a possibilidade de que o ato de uma pessoa colocar a mão no queixo pudesse ser critério para concluirmos que ela sente dor de dentes. Contudo, podem existir ocasiões nas quais a constatação deste fato não sirva de critério para dor de dentes, como no caso em que a pessoa está apenas fingindo (PI §§244, 249; Z §571). Neste último caso, estamos apenas diante de um sintoma. Ora, o que faz com que o fato de alguém por a mão no queixo seja por vezes critério e por vezes apenas sintoma para dor de dentes, são as entidades relacionadas de uma certa maneira e que constituem o contexto circundante. Assim, se uma pessoa encontra-se na sala de esperas de um consultório dentário, franze a testa e geme de dor, este contexto complementar adicionado ao fato de que ela põe a mão no queixo pode tornar seu gesto um critério capaz de fornecer evidência conclusiva para que possamos afirmar que

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ela tem dor de dentes. Por outro lado, se a mesma pessoa pusesse a mão no queixo ao escutar uma música em uma sala de concertos, isso seria simples e, no caso, irrelevante sintoma. 4.33 Junto à questão gramatical há, por fim, uma questão semântica. A característica mais importante da relação criterial, tomada como regra gramatical fundamentadora de um jogo de linguagem é que, segundo Wittgenstein, “os critérios determinam o significado”: É parte da gramática da palavra “cadeira”, que com ela nós possamos dizer “sentar-se em uma cadeira”, e é parte da gramática da palavra “significado” que com ela nós possamos dizer “explicação do significado”; do mesmo modo, explicar meu critério para outra pessoa ter dor de dente é dar uma explicação que concerne ao significado da expressão “dor de dente” (BB p. 24). Os critérios que determinam o significado, na medida em que estabelecem os modos de aplicação específicos de uma expressão nos jogos de linguagem em que ela pode participar 40 , tem o papel fundamental de permitir que situemos uma expressão no contexto de um jogo de linguagem específico, ao relacioná-la convencionalmente com ele, determinando assim sua aplicação, uso ou significado no jogo. Melhor analisando, poderíamos admitir aqui dois casos diferentes: um para o receptor ou ouvinte, que deve compreender uma expressão proferida em um contexto, e outro para o emissor ou falante, que deve encontrar a expressão adequada a um determinado contexto. O primeiro caso seria aquele no qual, como receptores ou ouvintes, queremos identificar o jogo de linguagem (sistema de regras) em que a expressão está sendo usada. Neste caso, a existência de contextos de qualquer espécie a envolver a expressão, estabelece certos critérios, que identificamos como termos de regras capazes de fundamentar um particular jogo de linguagem. E quando somos capazes de estabelecer o jogo de linguagem no qual a expressão está sendo usada, isso equivale a determinar seu significado. O segundo caso, seria aquele no qual, como emissores ou falantes, usamos a linguagem ativamente. Neste caso, para que nossas expressões tenham determinado uso, devemos formulá-las de tal maneira que os contextos adjacentes forneçam os critérios necessários para a fundamentação
Nos capítulos VIII e IX, veremos como uma mesma expressão pode ser usada com significados diferentes em uma diversidade de jogos de linguagem com semelhanças de família entre si.
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de seu uso no jogo de linguagem pretendido. Caso contrário, não poderíamos tornar nossas expressões compreensíveis a um suposto ouvinte. Quando as relações criteriais que fundamentam um jogo de linguagem forem estabelecidas somente entre contextos de representações, estaremos usando (ou localizando) a expressão em jogos de linguagem “puros”. Já, quando as mesmas relações forem estabelecidas entre contextos de representações e contextos de fenômenos, teremos os casos de jogos de linguagem “impuros’ que envolvem regras práticas, tal como acontece na praxis de nossa fala cotidiana.

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CAPÍTULO V

REGRAS E GRAMÁTICA Toda proposição empírica pode servir como uma regra, se ela for fixada como peça imóvel de um mecanismo, de tal forma que a totalidade da representação gira ao seu redor tornando-a parte de um sistema de coordenadas independentes dos fatos. (RFM VII §74).

Neste capítulo iremos estudar, de maneira geral, as regras sob o ponto de vista de suas funções nos sistemas de regras gramaticais que são os jogos de linguagem. As regras da gramática podem entrar em um jogo de linguagem das mais variadas maneiras (Cf. PI §53), como atesta a seguinte passagem das Investigações Filosóficas: A regra pode ser um auxílio no ensino do jogo. É comunicada àquele que aprende e sua aplicação é exercitada. Ou é um instrumento do próprio jogo. Ou, uma regra não encontra emprego nem no ensino nem no próprio jogo, não vindo indicada no catálogo das regras. Aprende-se o jogo observando como os outros jogam (PI §54). Nesta passagem como em outras (Z §294, PG §73) são exemplificadas, embora não explicitamente distinguidas, o que poderíamos chamar de duas funções gerais que as regras podem ter com relação aos jogos de linguagem.

p. como é o caso do movimento de justificação em um jogo de conhecimento. naturalmente. por outro lado. cujas regras englobam. os jogos de xadrez que aí ocorrem. Tais regras. as regras regulativas são admitidas como responsáveis por movimentos especiais em um jogo de linguagem. O que dissemos. A diferença entre uma regra a qual atribuímos função constitutiva e uma regra a qual atribuímos função regulativa. R. Ao que parece.21) entre as regras constitutivas e as regras regulativas. sendo melhor considerá-las como pertencentes a um outro jogo de linguagem. as regras regulativas são mais independentes. Por fim. como regras constitutivas. se consideradas com relação ao próprio torneio de xadrez (tomado como jogo). não deve ser interpretado como se as regras com função regulativa em relação a um jogo de linguagem particular. serão tidas. porém. desempenhando em relação a este papel que aparentemente poderia ser chamado de metalingüístico.41). Searle (Cf. What is a Speech act?. de certa maneira. podem haver aqui dois casos. O campeonato ou torneio de xadrez. pode ser comparada à diferença que existe entre as regras de um jogo de xadrez e as regras que constituem o regulamento determinador da ordem e do papel das partidas em um campeonato de xadrez. ora uma função constitutiva.- . O que dissemos justifica o emprego do termo “função”: uma mesma regra pode exercer. serão chamadas regulativas. poderia virtualmente ser considerada como uma regra regulativa que participa deste jogo na qualidade de produtora de um movimento especial (inessencial) (PI §§ 563-7). bem como entre as regras tidas 41 As expressões ‘regulativa’ e ‘constitutiva’ são empregadas aqui independentemente do sentido a elas atribuído por J. No primeiro. devemos observar também que os exemplos acima sugerem a existência de fronteiras imprecisas (broad borderlines) (ver 8. dependendo do jogo de linguagem que estivermos considerando no momento. Apenas que as regras regulativas são “exteriores” ao jogo. Ambos os conjuntos de regras têm algo a ver com o jogo. No segundo caso. correspondendo aproximadamente ao que Wittgenstein chamou de regras essenciais e inessenciais. enquanto as regras constitutivas são “interiores” a ele. pode ele próprio ser considerado como uma espécie de jogo. devessem subsistir em um espaço “agramatical” exterior ao dos jogos de linguagem. por exemplo. elas forem consideradas com relação a um jogo particular de xadrez ocorrido durante o torneio. que no momento não está em questão – as regras deste segundo jogo são aplicadas ao primeiro.38 Gostaríamos de chamá-las aqui de função constitutiva e função regulativa 41 . por exemplo. ora uma função regulativa. Se. A decisão por sorteio de quem receberá as peças brancas no início da partida de xadrez.

Podemos tê-las em uma diversidade de casos como: (I) Regras que servem para auxiliar alguém no aprendizado do jogo (PI §54).132). O caráter sistematizador do trabalho de Waismann. tomando como base justificatória as regras fundamentadoras de outros jogos de linguagem existentes (ou supostamente existentes. Elas servem para: 1) colocar em dúvida a validade de certos movimentos em um jogo de linguagem. Ver Friedrich Waismann. torna-o particularmente importante aos nossos propósitos. III. tendo para isso contado com a colaboração pessoal do próprio Wittgenstein até 1936. imagine-se. ao transformá-los em movimentos circunstanciais destes últimos ( 44 ). Baker. ou que tenham o poder de provocar chuva (OC §§92. 44 Para ilustrar esta possibilidade. eles as justificam por meio de certas regras (expressáveis em proposições). Feitas estas considerações gerais. capazes de relativizar os fundamentos dos primeiros. ver 3. (IV) Regras de “questionamento” (OC §315). Uma regra tem função regulativa quando ela não faz parte do processo do jogo de linguagem em questão 42 .12). aquele importante livro foi originalmente planejado como uma tentativa de realizar uma exposição sistemática do pensamento de Wittgenstein para o círculo de Viena. uma tribo primitiva na qual as pessoas acreditam que podem ir a lua enquanto dormem (OC §106). não prevista por Wittgenstein. as regras fundamentadoras destes jogos. The Principles of Linguistic Philosophy.39 como movimentos especiais de um jogo de linguagem e as regras tidas como movimentos de um outro jogo de linguagem. pela exposições de alguns casos adicionais. Nossa classificação é essencialmente baseada no trabalho de Waismann. aquelas regras regulativas que nos parecem fazer parte de um conjunto particularmente distinto e independente). 130-1. que fundamentam o “movimento de colocar em dúvida” ou mesmo um particular jogo da dúvida (game of doubt.126). (III) regras que são invocadas para solucionar uma disputa entre os jogadores. 43 Cf. cap. Tais crenças. p. P. poderemos melhor caracterizar as distinções acima. Ibid. ano da morte de Schlick. que seus reis sejam deuses. De acordo com G. que fundamentam o conjunto mitológico de seus “jogos de conhecimento”: a 42 . no caso da dúvida teórica em filosofia). OC §§115. em Verehrung und Verkehrung: Waismann and Wittgestein (publ. ou 2) colocar em dúvida os próprios jogos de linguagem. (II) Regras usadas para definir um jogo como: “Xadrez é um jogo governado por tais e tais regras” 43 . por exemplo. tomando como base justificatória. “metalingüístico” em relação àquele (escolhemos como pertencentes a um outro jogo. como as que são usadas para a justificação de um movimento em um “jogo de conhecimento” (OC §163. in Wittgenstein: Sources and Perspectives).

. que são fundamentados por regras (leis) que constituem nossa própria pintura científica do mundo. nas palavras de Wittgenstein: “o símbolo da regra faz parte do cálculo” (BB p. 13. quando seu uso faz parte do processo do jogo de linguagem como tal (como. e . Expondo em maiores detalhes. antropologia. ao nível de jogos de linguagem “metalingüístico”. no jogo da história.. Uma regra tem função constitutiva.. Ou. consiste em se colocar em dúvida certas regras fundamentadoras de um jogo de linguagem. citação PI §53)). nos casos em que a regra é um instrumento de ação (Cf. por exemplo. BB pp. sua pintura do mundo (OC §95). sem ter para isso um fundamento justificador substitutivo em outro jogo . Wittgenstein pretendeu mostrar que uma freqüente confusão filosófica. a dúvida de que Napoleão tenha de fato existido (OC §185)). Em On Certainty. poderíamos em princípio “relativizar” sua pintura do ainda mundo ao tornar as regras que a fundamentam explicáveis como movimentos circunstanciais a serem fundamentados por nossa própria pintura científica do mundo. que suas crenças são motivadas por tais e tais circunstâncias culturais. econômicas. II) quando o jogo se processa em concordância com a regra (Cf. o uso da regra é incorporado como signo explícito no interior do jogo. tal como a esboçada em Wittgenstein. a dúvida cartesiana se tomada como fonte de um ceticismo prático). busca estabelecer os princípios gerais da estrutura e do funcionamento de qualquer linguagem. psicologia. pela maneira como atuam. Se quisermos contentar suas crenças. mais. etc.g. Tanto as regras constitutivas quanto as regras regulativas de um jogo de linguagem podem ser também divididas. o mesmo se dava quando se põe em dúvida certas regras fundamentadoras de um jogo de linguagem tomando como base outras de suas próprias regras. o que conduz apenas a uma dúvida ridícula (e.o que conduz a uma dúvida ilegítima ou infundada (e. podemos dizer que: (I) No primeiro caso.. seríamos capazes de mostrar que não é possível flutuar no espaço sem oxigênio (OC §92). pois está última denota uma má compreensão do sistema de regras constitui o jogo. por sua vez. poderemos talvez recorrer a “jogos de conhecimento” como os da física.g. etc. grifo nosso). Com estes jogos. 12-13). em duas espécies: I) quando o jogo se processa envolvendo a regra.40 (V) As regras de uma teoria da linguagem. sociais. Se assim o fizéssemos. que. São a elas que nos referimos no capítulo anterior como regras metodológicas ou fundamentadoras dos jogos de linguagem. que ocorre quando o processo ou o movimento do jogo envolve a regra.

assim: “ac” “acadd” “cada” A tábua que A entrega a B é assim incorporada ao processo do jogo como configuração explícita de uma regra composta. 12-13). movendo-se segundo as ordens “a”. PG §141): A → B ← C ↑ D ↓ A dá ordens para B. de maneira que ele passe a prescindir totalmente da tabela. o jogo deixou de ser jogado envolvendo uma regra. não geralmente como tabelas. 95). Contudo. surgirem dúvidas sobre o procedimento e A pedir a B que este desenhe a tabela. B olha para a seta correspondente a cada letra. com a prática. “c”. passando a ser jogado em concordância com ela. podemos recorrer a um jogo de linguagem semelhante aos já apresentados. etc. nas palavras de Wittgenstein. a expressão de regra poderá novamente ser suscitada se. decorada por B. . Neste caso. BB p. mas como proposições que expressam regras. Para ilustrar esta última definição.95. muito mais comum. “acadd”. como “expressões de uma regra” (BB p. a regra é usada sem que venha explicitada por símbolos pertencentes ao jogo. estas “expressões de regra” também podem aparecer. proferindo sentenças com o “ac”. pois a regra deixou de vir representada por sua expressão de regra (tabela). “b”. no qual A entrega a B a seguinte tábua (Cf.ou. Em nossa linguagem.41 Para ilustrar a definição acima. imagine-se agora que a correspondência entre as letras e os movimentos do jogo de linguagem apresentado acima seja. (II) No segundo caso. por exemplo. “d” (movimentos que podem “expressar” a regra). movendo-se em seguida em conformidade com elas. que ocorre quando o processo ou movimento do jogo se dá em concordância com uma regra (BB pp. ou que demonstre conhecê-la. “cada”.

é freqüente que iniciemos com jogos de linguagem que envolvem regras. Com a prática. porém. . agindo em concordância com regras de cuja aplicação deixamos de ter uma clara consciência. passamos a prescindir deles.42 Quando aprendemos uma linguagem.

poderia ele reconhecer a estrutura descrita como adequada. Pois só no caso de já ter seguido regras.a linguagem é um refinamento. isso não será suficiente para torná-la expressão de uma regra capaz de orientar as ações humanas. Não há. Não basta que algo possa ser representado como uma regra para que desempenhe tal função. iremos agora utilizar-nos daquelas aquisições com o objetivo de trazer uma tomada de consciência mais efetiva do que fazíamos intuitivamente ao seguir regras. Só assim ela poderá cumprir o papel específico que lhe será destinado no jogo de linguagem: o de fundamento determinador da ação lingüística 45 . Qualquer um de nós pode inventar uma proposição prescritiva que tenha a estrutura formal de uma regra. como possa parecer. do mesmo modo que só podemos dizer que uma peça pertence ao mecanismo no caso de já tê-lo posto em funcionamento (PI §270-1). um círculo lógico (PI §208) no qual se explica a estrutura da regra com base em sua aplicação e vice-versa. parece antes de tudo necessário que ela exerça uma papel definido entre os seres humanos: é necessário que estes a sigam como uma regra. iremos estudar as regras com relação aos sujeitos que as seguem. Quero dizer . 45 .43 CAPÍTULO VI SEGUIR UMA REGRA A origem e a forma primitiva do jogo de linguagem é uma reação. esclarecendo isso ao nível da linguagem verbal. usado em níveis discursivos (jogos de linguagem ) diferentes.63). Para que tal aconteça. Pois “seguir uma regra” é. Contudo. em cada caso. só sobre ela podem crescer as formas mais complicadas. Uma vez que no capítulo IV já elucidamos a estrutura das regras. Neste capítulo. pressupúnhamos que o leitor já tivesse um conhecimento intuitivo do que é seguir uma regra. quando estudamos o que poderíamos chamar de “estrutura” das regras. ‘no princípio era a ação’ (O p. No capítulo IV.

você deve estar preparado para receber um puxão em sua mão. Wittgenstein descreveu um grande número de “características”.44 Em seus comentários sobre a gramática do conceito de regra (ver RFM VI e VII. ora à esquerda. você vai também. onde ele vai. A mais evidente característica de uma regra. como definição do que há de essencial no conceito de seguir uma regra. no qual figuram as características que nos parecem mais representativas. VIII). você faz-se a si mesmo tão receptivo quanto possível. todos eles aparentados entre si pelo que Wittgenstein chamou de semelhanças de família (ver cap. . à força. p. Pois ‘ser guiado’ é um conceito que apresenta uma variedade de aplicações. Se somos violentamente carregados para onde não queremos ir. já que podemos ser guiados sem estarmos seguindo qualquer regra. não estamos seguindo regra alguma. Mas se um atalho no campo nos guia. e deve também cuidar-se para não cair a um puxão inesperado. Para que algo seja designado como uma regra. Esta característica não serve. para onde não quer ir. maneira a adivinhar sua intenção e obedecer a mais leve pressão. Ela não é uma característica suficiente. e nem todas são necessárias para que isso aconteça. vocês vão conversando. ora à direita. é que uma regra é alguma coisa que guia uma atividade 46 . Z §§276-330). PI §§143-243. Waismann. 132. e alguém o conduz pela mão. Nenhuma dessas características. tomada isoladamente. The Principles of Linguistic Philosophy. O que apresentaremos a seguir será apenas um esboço fracionado e algo disperso. critérios de reconhecimento) da ação de seguir uma regra. 46 F. porém. parece suficiente para garantirnos que uma regra está sendo seguida. com os olhos vendados. muitas das quais incompatíveis com a atividade de seguir uma regra. Ou: você segue por um atalho no campo. é necessário que outros atributos sejam adicionados ao de ser simplesmente alguma coisa que guia uma atividade. A seguinte passagem das Investigações Filosóficas pode servir para ilustrar o que estamos dizendo: Você está em um pátio de jogos. deixa-se guiar por ele (PI §172). Ou: ao dançar um parceiro o guia. Isto parece suceder-se dessa maneira porque existem vários modos diferentes de se seguir uma regra. considerada em sua relação com aqueles que a seguem. é provável que sim. “atributos” ou “traços constitutivos” (em última análise. Ou então: você é guiado violentamente pela mão. Ou: alguém o guia em um passeio.

as regras da linguagem devem apoiar-se.45 Outra característica do conceito de seguir uma regra é que este é análogo à obediência de uma ordem. Para Wittgenstein. 61). se transferirmos a ação de seguir uma ordem para organismos muito pouco aparentados aos seres humanos. para Wittgenstein. ao menos em princípio. como os insetos. existem comandos que não são regras: uma ordem pode ser dada a uma pessoa uma única vez.agirei rapidamente com toda a segurança e a falta de razões não me perturbará” (PI §212). somos determinados por regras. parece uma característica necessário ao seu seguimento. pertencentes ao que já 47 48 Cf. Podemos dar ordens para homens. pp. Outro traço que distingue a regra como comando é que não temos liberdade para não segui-las: “Quando alguém que eu temo me dá uma ordem. De algum modo isso acontece sempre e ao fim independentemente de nós mesmos porque quaisquer que sejam nossos comportamentos. O fato das regras de um modo ou de outro equivalerem a comandos. susceptível de identificação pública. Ibid. Eis porque. uma forma peculiar de incerteza aparece 48 . um comando pressupõe alguém que comanda. ou. o que não acontece com o conceito de comando. Além do mais. atividades e manifestações lingüísticas. p. . Ainda uma característica necessária para que uma regra seja seguida. 212) ou intimação (RFM VII §§47-9. ou à matéria inanimada. ou que os movimentos das estrelas são regidos por comandos 47 . RFM VI §43). 135. Isto serve para colocar em relevo o aspecto normativo das regras. direta ou indiretamente. ‘uniformidade’ e ‘fazer o mesmo’ (PI §§207-8. Mas dificilmente poderíamos dizer que uma borboleta atraída pela luz acede a um comando. para animais domésticos. E a razão disso é que a palavra ‘comando’ só adquire sentido quando usada dentro de uma certa atmosfera que a vincule à sociedade humana e às relações sociais (Z §350). Seguir uma regra tem. Afinal. comando (PI §§206. Sigo a regra cegamente” (PI §219). 134-5. Ibid. Uma regra não. ao passo que uma regra “não poderia ser seguida por uma única pessoa uma única vez na vida” (PI §199). em certos casos. parece ser a de que ela seja. Regras são comandos. em critérios públicos ou intersubjetivos. “Quando sigo a regra não escolho. estreita afinidade com os conceitos de ‘regularidade’. e comandos são normas que só ganham inteligibilidade se sua origem e aplicação forem inerentes a nossa forma de vida humana. Mas seguramente não é suficiente para caracterizar a atividade de seguir uma regra.

e nosso 49 50 Cf. já que não poderíamos tornar compreensível um sistema de regras que não fosse capaz de desempenhar algum papel em nossa forma de vida humana (Cf. sendo tudo simples matéria de convenção 49 . Parece. que embora não seja nem necessária nem suficiente 50 . a cozinha suíça pela cozinha chinesa ou a pintura expressionista pelo cubismo). e na linguagem os homens estão de acordo. p. na medida em que estes sistemas de regras devem de alguma forma agradar ao paladar humano ou ao nosso senso estético. razoável admitir-se a impossibilidade de seguirmos uma regra privadamente. E acreditar seguir a regra não é seguir a regra. segundo o qual um sistema de regras é tão injustificável quanto qualquer outro. Wittgenstein & Knowledge. RFM VI §21). T. a um convencionalismo extremado. limitada. Eles devem servir à forma de vida que os instituiu: Correto ou falso é o que os homens dizem. não teríamos como distinguir entre acreditar seguir uma regra e em verdade segui-la: Eis porque ‘seguir a regra’ é uma práxis. 3. E daí não podermos seguir a regra ‘privadamente’. Algo semelhante acontece com os sistemas de regras de nossa linguagem. é quase uma constante em nossa linguagem: as regras gramaticais são geralmente automatizadas. como já vimos. são até certo ponto arbitrárias. A suposição da existência de regras privadas pressupõe a falta de um critério independente que nos certifique do uso da mesma regra por uma mesma pessoa mais de uma vez (PI §199. necessária à atividade de seguir regras em nossa linguagem intersubjetiva. Se assim não fosse. como gostaríamos de notar. Morawetz. . Sua posição parece pressupor limites para a arbitrariedade das convenções gramaticais.g. convenções cujo grau de arbitrariedade é limitado.46 chamamos de contexto de fenômenos. parece ser uma característica gramatical necessária ao conceito de ‘seguir uma regra’. As regras da culinária. Outra característica. mas sobre o modo de vida (PI §241). porque senão. assim como as regras de composição em pintura. Não é um acordo sobre opiniões. não obstante. é que estas sejam resultado de convenção.. Elas são arbitrárias na medida em que um sistema de regras pode ser substituído por outro (e. Wittgenstein não adere. porém. acreditar seguir a regra seria o mesmo que seguir a regra (PI §202). Esta arbitrariedade é. Exemplo de uma exceção é o jogo apresentado no §33 do Brown Book (ver 5. o que. Há uma outra característica comum à maioria das regras.111). Elas são. pois. por exemplo.2). 29.

punição e congêneres (BB p. a julgar por sua exposição.. Ele é derivado diretamente da participação da criança na práxis comunal da linguagem. Stegmuller 51 . A primeira é que. pp. Por meio de um treinamento semelhante. que termina por dar a regra a propriedade de nos compelir a ações (RFM VII §47): Permita-me perguntar: o que tem a ver a expressão da regra . um signo como a seta torna-se responsável por uma reação de tal forma espontânea. corresponde a uma explicação do significado do signo. como já vimos. o aprendizado das regras não costuma resultar de explicações verbais explícitas acerca do uso das expressões. Esta descrição. Isto é feito por meio de exemplo. adquiridos na infância de forma não-cognitiva . Stegmuller. este aprendizado não costuma diferir da aquisição de condicionamentos operantes ou respondentes.).digamos. Eu estou usando a palavra “treinamento” de um modo estritamente análogo àquele pelo qual falamos que um animal é treinado para fazer certas coisas. como observou W. Imaginemos que ele seja a expressão de uma regra segundo a qual “devemos. talvez esta: fui treinado para reagir de uma determinada maneira a este signo e agora reajo assim (. Contudo. E suas regras são em geral aprendidas por meio de um “adestramento”: A criança aprende a linguagem em seu desenvolvimento por ser treinada em seu uso. 51 Ver W. gostaríamos de fazer duas observações.o que parece aproximar Wittgenstein do behaviorismo.77). A pergunta é: de que maneira o uso do signo segundo a regra é aprendido? Para Wittgenstein. sempre que ele nos for apresentado. desviar os olhos para sua ponta”. que o fato dela apontar para algo parece fazer parte de sua ou de nossa própria natureza (PI §454). . Consideremos. isso ocorre por meio de um treinamento específico. um hábito (PI §198). Filosofia Contemporânea I . o caso de um signo simples como este indicador de direção: →. por exemplo. Alguém somente se orienta por um indicador de direção na medida em que haja um uso constante. Sobre esta concepção mantida por Wittgenstein acerca da maneira como as regras da linguagem costumam ser aprendidas. Para Wittgenstein.484-5.47 domínio sobre elas advém de um treinamento que não exige sequer que em algum momento tenhamos tomado consciência de sua existência (aprendizado não-cognitivo). o indicador de direção . recompensa. que costuma fundamentar-se em teorias do condicionamento.com minhas ações? Que espécie de ligação existe aí? – Ora..

Podemos esperar do filósofo. A segunda observação que gostaríamos de fazer. “inibido por qualquer contradição”. quando inibida por qualquer contradição. se veja. . não só é geralmente desnecessário que tenhamos consciência das regras da linguagem quando as utilizamos. poderíamos adicionar que. Z §119). reflexão sobre o funcionamento da linguagem. Piaget concluiu. Algo semelhante poderia ocorrer com a tomada de consciência das regras gramaticais durante a reflexão filosófica.359. mas cuidadosa. tornando-se assim presa fácil para as armadilhas gramaticais. ela pode constituir-se em uma dificuldade quase insuperável quando nosso problema for falar sobre a linguagem e seu funcionamento. que nega a existência de fenômenos ou processos psíquicos (PI §§ 307-8). 358. que ao deparar-se com problemas que exigiriam uma simples.48 qualquer aproximação neste sentido seria problemática. completando-se depois pouco a pouco pela integração dos dados em novos sistemas conceituais” 53 . como a automatização parece ser ela própria uma condição imprescindível a nossa desenvoltura lingüística. é que as regras parecem ser seguidas apenas porque de algum modo representam 52 53 J. é primeiramente deformante e lacunar. tem algum interesse para a compreensão do que no capítulo introdutório chamamos de transgressões dos limites da linguagem. uma vez Wittgenstein sempre recusou o pressuposto metafísico fundamental do behaviorismo. Como escreveu Piaget: “Podemos descer rapidamente uma escada sem representarmos cada movimento das pernas e dos pés ou se procurarmos fazê-lo corremos o risco de comprometer o sucesso da ação” 52 . ao escrever acerca de sua tomada de consciência que “a reconstrução conceitualizada que caracteriza a tomada de consciência. Piaget. em certos casos. p. que pela natureza especulativa de sua matéria é forçado a raciocinar à sombra de incertezas e preconcepções. p. Wittgenstein sabia da importância do fato de que somos em geral inconscientes da enorme complexidade gramatical envolvida em nosso uso cotidiano da linguagem (Cf. embora a automatização da linguagem represente uma inegável vantagem do ponto de vista funcional. e o que um psicólogo como Jean Piaget escreveu sobre a tomada de consciência de ações automatizadas. Problemas de Psicologia Genética. Grifo nosso. Ibid. Não obstante. A última condição característica que gostaríamos de assinalar. Ela resulta da comparação entre o que Wittgenstein escreveu sobre o aprendizado das regras por treinamento com sua subseqüente automatização em hábitos lingüísticos. Sobre isso.

podem ser consideradas equivalentes inatos de regras.. neste sentido. Pode acontecer. mera questão de coincidência que as pessoas cheguem a aprender adequadamente o emprego das regras em uma linguagem: há um abismo intransponível entre a expressão da regra (sua representação) e o modo de sua aplicação (seu seguimento).. 1008. como veremos. . ou melhor. 1012. 6 até 3000 e assim por diante” (PI §185). uma condição necessária para que alguém aprenda a seguir uma regra. Neste caso. em nenhuma passagem de sua aplicação. O que Wittgenstein quis mostrar com este exemplo é que. com a suposta concordância adquirida por todos quanto empregam uma linguagem? Como evitar a absurda suspeita de que apenas por uma misteriosa e incrível coincidência.. segundo um bem conhecido exemplo de Wittgenstein (PI §185). Nada do que ele faça. na idéia de que os sistemas de 54 Tendências ou disposições que. Esta seria. é possível que por sua própria natureza o aluno tenha compreendido a ordem “adicione 2” como “adicione 2 até 1000.porém. o aluno poderá prosseguir corretamente escrevendo 0. 2. poderá garantir-nos de que o tenhamos habilitado a perfazer a série indefinidamente do mesmo modo que nós o faríamos. por exemplo. O que não combina com a dureza do ‘deve’ lógico (RFM VI §49). que a lógica pertence a história natural do homem. simples impressão ditada por hábitos baseados em tendências comportamentais inatas: “O que você diz parece conduzir a isto. 4. solucionando-a. Como poderíamos harmonizar o que acabamos de dizer. silenciando-a em si mesmo pela sugestão de que só podemos vir a compreender-nos graças a intermediação da luz divina...pensando ser esta a maneira correta de continuar a série. a regra (sua expressão) determina a maneira como devemos segui-la ou aplicá-la. A crença de que deva existir uma necessidade lógica objetiva e universalmente autoevidente é.etc. Pode ser considerada. adicionando sempre “+2”. Uma vez ensinada a regra (não importa a maneira como isso é feito). ainda não tenhamos nos apercebido de que habitamos uma torre de Babel epistêmica? (ver RFM III §87) Santo Agostinho parece ter pressentido a mesma dificuldade. Em Wittgenstein.. parece insinuar-se a possibilidade de uma melhor solução para a dificuldade acima referida. em Wittgenstein. Uma conclusão que Wittgenstein generaliza até mesmo para as regras da matemática e da lógica.18. Suponhamos.. se quisermos. 6. que devemos ensinar a um aluno uma regra segundo a qual ele deve formar uma série com os números naturais. 4 até 2000. que após 1000 ele prossiga com 1004.49 extensões de “tendências comportamentais instintivas”54 . . escreveu Wittgenstein.

Esta sugestão encontra sua fonte de inspiração na “epistemologia evolucionária” proposta por K. (Z §545). seriam compartilhadas pelos usuários da linguagem. podemos imaginar o caso de uma criança. teria se encarregado de preservar aqueles espécimes dotados de disposições tais que os facultassem a aprender a aplicação das regras gramaticais de maneira a ter garantida sua sobrevivência.Tal criança poderia encontrar dificuldades para aprender o ‘jogo das definições ostensivas’ (PI §27). Quanto à uma questão subseqüente . p.o que bastaria para “harmonizar” suas disposições comportamentais inatas 55 . que ao observar o adulto apontar para algo. não fixando os olhos em direção alguma.50 regras que são os jogos de linguagem fazem parte da “história natural do homem” como “extensões de um comportamento instintivo”: Nosso jogo de linguagem é uma extensão de um comportamento primitivo (para nós jogo de linguagem é comportamento) (instinto). olhasse para a direção do ombro de quem aponta.. em última instância. e . mas. Estas disposições. regular o modo como seguiríamos as regras.. de eliminar aqueles que mantivessem disposições para aplicá-las de modo demasiado divergente . por outro lado. exemplo em PI §185). Para ilustrar tal afirmação.a de se saber o que explicaria o fato de tais reações serem geralmente compartilhadas pela imensa maioria das pessoas . R. (Como é também parte da natureza humana jogar jogos de tabuleiro e usar linguagem de signos que consistem em escrever signos sobre uma superfície lisa. explicando porque aprendemos a seguir as regras da mesma maneira. acabando mesmo por imprimir-lhes uma falsa idéia de necessidade. ao contrário. ou mesmo. feita por ensaio e erro ao longo do aprendizado evolutivo da espécie. podemos supor que em conjunto com as regras aprendidas. Desta maneira. exista a herança de disposições para reagir.) (PG §52). Popper (ver seu Conhecimento Objetivo. 55 . ser totalmente incapaz de aprendê-lo: É parte da natureza humana entender o apontar com o dedo da maneira como o fazemos. 76). sendo parte de uma herança comum. seguindo-as desta ou daquela maneira. ou então permanecesse sem reação. Elas atuariam como meios capazes de.seria admissível arriscar-se uma resposta especulativa: alguma forma de seleção natural. não tivesse uma suposta disposição natural para reagir olhando na direção que vai do punho ao fim do dedo (Cf.

51 As implicações que as sugestões aqui esboçadas encerram. quando examinaremos a noção de forma de vida. serão melhor compreendidas no próximo capítulo. .

visto que são condições necessárias à comunicação humana. cap. tal como o concebemos. p. os jogos de linguagem envolvem contextos que fornecem os critérios capazes de fundamentar o uso de suas expressões. Por conseguinte. . gostaríamos de adicionar que os contextos. atividades. sejam elas quais forem. necessário. que se tente elucidar o que Wittgenstein quis dizer com esta noção. apresentam duas dimensões correspondentes a pontos de vista pelos quais eles podem ser estudados: uma dimensão gramatical e uma dimensão que poderíamos chamar de antropológica (RFM VII. Ver D. o que nos faz concluir que o mundo.. No caso dos contextos de fenômenos. O fundamento último do significado de uma expressão está na forma de vida (Lebensform) da qual ela faz parte. particularmente o contexto de fenômenos. Wittgenstein. constituem parte da gramática e mesmo da própria linguagem. práticas. etc. 9. Como já foi observado. pode-se dizer que as entidades que constituem os contextos. essas entidades podem ser toda sorte de fatos e eventos empíricos. Wittgenstein. comportamentos. Pears. À concepção acima. In N. Cit. 93. é uma espécie de extensão de nossa linguagem.52 CAPÍTULO VII FORMAS DE VIDA Uma expressão tem significado somente no fluxo da vida 56 . A Memoir. processos. É. Malcon. uma vez que possam atuar como componentes de regras. Um contexto apresenta uma dimensão 56 57 L. pois. §33) 57 .

Supõese assim que os mecanismos gramaticais são postos em movimento pela busca de um equilíbrio entre estas duas determinações últimas: 1) as necessidades e disposições humanas. como “estímulos”. na medida em que se constitui de entidades que podem ser descritas como componentes potenciais das regras de uma gramática. Um exemplo mais elaborado pode ser encontrado no “jogo de linguagem” dos pescadores melanésios descrito por Malinowski. uma questão cuja resposta serviria para complementá-la: por que razão as entidades que constituem os contextos tornam-se socialmente reconhecíveis e utilizáveis? A resposta que nos parece mais apropriada seria dizer que as entidades que constituem os contextos são socialmente reconhecíveis e por isso utilizáveis. mas também de “contextos de situação” 58 tão abrangentes B. comuns aos seres humanos que integram um agrupamento social. da linguagem que neles se enraíza. cuja existência é coletivamente reconhecida pelos seres humanos em um agrupamento ou comunidade social.53 gramatical. Pois como vimos no capítulo anterior. que constitui-se não só da linguagem verbal. seriam extensões de um “substrato orgânico compartilhado”. necessidades e disposições comportamentais inerentes à natureza humana (Z §545. Nosso agir comum altamente complexo visaria. p. em última análise. de maneira reconhecidamente vaga. 58 . A definição acima evoca. com seus fenômenos (“estímulos”) inerentes a um mundo independente da vontade individual. a atividade de trazer pedras de construção seria certamente parte de um comportamento social a serviço das necessidades humanas.304. como o jogo de comando (I). de Ogden e Richards. e a linguagem receberia sua justificação última como instrumento deste agir. torna-se particularmente evidente quando tomamos em consideração os contextos de fenômenos dos jogos de linguagem ditos “impuros”.e. na medida em que é capaz de abranger quaisquer conjuntos de entidades (coisas. constituído por instintos. O que definimos. sócio-culturais). Por outro lado. a servir àquelas necessidades e disposições humanas culturalmente modeladas. às necessidades e disposições culturalmente modeladas. No contexto de fenômenos de um jogo de linguagem simples. a concordância na aplicação das regras da gramática deve fundar-se em formas de reação comuns. O significado em linguagens primitivas. tal como acreditamos. Tais reações orientadoras de nosso agir comum (PI §206). como dimensão antropológica dos contextos. in O Significado do Significado. e 2) as circunstâncias contextuais externas.. porque direta ou indiretamente relacionam-se. um contexto tem uma dimensão antropológica. RFM VII §47) e modeladas pelo efeito de uma enorme carga de influências ambientais (i. Malinowski. eventos) relacionadas. e naturalmente.

Cit. que a forma de vida é constituída pelo conjunto das regularidades fixadas na atividade humana 62 . o que inclui mesmo objetos físicos como barcos. Ibid. está no fato de que mesmo junto à praia a água é muito profunda e varar a canoa é impossível. Assim. por outro lado. Ao nosso ver. 60 59 . sendo necessário arriar as velas e usar os remos. a expressão ‘forma de vida’ deve ser interpretada como uma alusão à inserção antropológica da linguagem.. que “chamamos algo de jogo de linguagem quando desempenha um papel específico em nossa vida humana” 61 . PI §23). Morick. por uma associação natural aos nativos. para adquirir tal espécie de abrangência. Por outro lado. gramatical e antropológico. 62 “Our language. escrito por Wittgenstein em um caderno de notas de 1937. 300. com a qual algumas tribos melanésias querem dizer “Chegamos à aldeia de outra ilha”. A expressão ‘formas de vida’ é raramente mencionada de modo direto em toda a obra de Wittgenstein. remos. Estamos agora em condições de arriscar uma definição da noção de forma de vida. explicou Malinowski.The Later Philosophy. fixed forms of life”. 61 L. isto é. E por trás de tais atividades específicas encontra-se. naturalmente. comércio. 177. characteristic taht it is built on regularities of doing (Tat) (Handlung). atividades específicas como a de arriar as velas e remar ao aproximar-se da aldeia. in H. como fatores determinantes do significado. servindo como critérios para o uso da expressão “remamos em lugar”. tradições e vastos domínios da psicologia e organização tribal 59 . uma estrutura motivacional apropriada. Assim. velas. Wittgenstein escreveu que “imaginar uma linguagem é imaginar uma forma de vida” (PI §23). Ele designa os contextos em seu duplo dimensionamento. Wittgenstein . p. Wittgenstein. Notes for lectures on “private experience” and sense data. participam do contexto de fenômenos. costumes. Ibid. aqui consideradas como fenômenos cuja existência é coletivamente reconhecida pelos seres humanos participantes de um agrupamento social. Introduction to the Philosophy of Mind.54 que sua exposição poderia demandar uma completa descrição da vida. in H. a noção de forma de vida alude à dimensão gramatical dos contextos. Assim considerado. o conceito de forma de vida revela-se propositadamente ambíguo. R. aos conjuntos de entidades relacionadas que os constituem. . Finch. p. A origem desta imagem. Um caso evidente é o da expressão “remamos em lugar”. o mar e a aldeia. remar significa encontrar-se próximo de um lugar habitado 60 . Nesta linguagem. p. a mesma noção alude à dimensão antropológica dos contextos. tomados sob o ponto de vista lingüístico oi comunicacional (Cf.302-3. ou ainda. reconhecimento este que se dá em virtude das já Cf.

servirão para aclarar a pertinência de nossa definição.55 mencionadas formas de reação modeladas sobre uma natureza humana comum 63 . ed. É devido a uma falta de suficiente familiaridade com as extensões e transformações culturais específicas que modelaram as necessidades e disposições de um grupo social. instituições sociais.103. a idéia que ela costuma despertar ou que incita o dizer. 63 . por E. ou que desse nome aos pássaros com base nas peculiaridades do seu canto. as expressões de emoção que geralmente a acompanham. para começar. F. Ver J. M. compreender. e (II). das ocasiões nas quais usada. valores estéticos. Como poderíamos compreender as razões pelas quais eles usam esta ou aquela expressão ao deparar-se com um novo espécime? A resposta poderia ser a de que só nos é possível vir a compreendê-las se supusermos o preenchimento de duas condições: (I) que em princípio já compartilhamos de um substrato orgânico suficientemente semelhante. etc. necessidades e disposições herdadas para reagir de modo similar. (BB p. religião. Quanto mais familiarizados estivermos com todo este conjunto de regularidades fixadas que constituem seu modo de vida. Imaginese. uma tribo de selvagens que desse nome às espécies de plantas segundo uma taxonomia baseada em seu interesse alimentar. não podemos de fato compreender todas as vicissitudes de seu uso. in Essays on Wittgenstein. etc. mais aptos estaremos para adquirir plena compreensão do significado de suas expressões. traduzir e empregar corretamente a linguagem de povos primitivos: Se uma palavra da língua de nossa tribo é corretamente traduzida em uma palavra da língua portuguesa. que iremos nos familiarizar suficientemente com as extensões e transformações específicas que sua cultura (idéias. Enquanto permanecer desconhecido para nós o papel que a palavra desempenha na totalidade da vida da tribo. sistemas econômicos. hábitos alimentares. conhecimento. Klemke. “Forms of Life” in Wittgenstein’s Philosophical Investigations..) modelou sobre aquelas primitivas necessidades e disposições. Hunter. Estas particularidades “orgânicas” e culturais são. tão influentes a ponto de servirem para explicar as dificuldades de compreensão entre duas pessoas que falam a mesma língua. D. que nos é geralmente tão difícil aprender. para Wittgenstein. grifo nosso). etc. a dizer. Alguns exemplos de como o uso de expressões se insere em formas de vida diversas. isso depende do papel que a palavra desempenha na totalidade da vida da tribo.

278).56 mas que apresentam “substratos orgânicos” diversos 64 . 64 Wittgenstein procurou mostrar em seus Remarks on Colours. modos de vida) de uma mesma civilização: Dizemos também de uma pessoa que ela é transparente para nós. Isto se experimenta quando se chega a um país estrangeiro. como a existência de um substrato orgânico compartilhado (condição (I)) é pré-condição necessária ao aprendizado de suas extensões culturais (condição (II)). após alguma espécie de treino. E tal se daria. III. em tudo o mais ele continuasse a comportar-se e agir como um leão). ou que fosse completamente diverso (supondo que estes casos fossem possíveis)? A resposta seria que. Neste caso. porque faltam os indícios naturais capazes de atestar coerência a suas palavras: faltam à sua fisionomia e ao seu comportamento animal. §22) de maneira a aprender toda a extensão de nosso uso (significado) das palavras-cores (RC. “Não poderíamos”. O que falta é a condição (II) (as extensões daquele substrato em uma cultura ou modo de vida humano). teríamos o direito de fazer a seguinte pergunta: o que aconteceria se tentássemos aprender uma linguagem falada por uma forma de vida na qual o substrato orgânico pressuposto faltasse por completo. as marcas reconhecíveis de uma natureza humana. embora falando como ser humano. não seríamos capazes de aprender uma tal linguagem. ou que pertencem a diferentes povos (culturas. . que os cegos e os daltônicos são constitucionalmente incapazes de reagir (RC III. escreveu Wittgenstein. sobretudo. a condição (I) (o substrato orgânico de necessidades e disposições herdadas) é suficientemente compartilhadas para. PI §206). não só porque estão ausentes os critérios usuais fornecidos por contextos de ação e situação apropriados mas. Mas é importante para esta consideração que uma pessoa possa ser um completo enigma para outra. §§120. se este pudesse falar” (PI §216) (supondo-se que.com tradições totalmente desconhecidas. pois faltar-nos-ia um sistema de referência que permitisse sua interpretação (Cf. “compreender um leão. Nas duas passagens de Wittgenstein acima transcritas. 128. permitir uma adaptação capaz de levar a uma compreensão e aplicação adequadas das expressões.

e. não costuma ser univocamente. como outras que temos dado. é vaga e destinada a ser vaga (BB p. 65 Cf. imprecisão e o que chamaremos de abertura das expressões. são responsáveis pelo que chamaremos de indeterminação no significado das expressões. pois. tanto às expressões de nossa linguagem. ou mesmo definitivamente determinável. . procuraremos elucidar as funções de três noções teóricas: as noções de semelhanças de família. Waismann: The Principles of Linguistic Philosophy. termo com o qual pretendemos evidenciar que o uso de uma expressão. bem como suas principais implicações semânticas. Neste capítulo. deixando para o próximo a tarefa de expor o modo como eles seriam incorporados à própria estrutura da teoria da linguagem em Wittgenstein. aparentemente. independentes umas das outras 65 . o que não fica de modo algum evidente a uma leitura das passagens 65 a 108 das Investigações Filosóficas. As noções de semelhanças de família. pela idéia fundamental de que as expressões de nossa linguagem costumam exibir semelhanças de família. sua apresentação em F. onde elas são introduzidas em um entrelaçamento irregular e desorientador. pp. Estas três noções são. imprecisão e abertura das expressões. Neste capítulo. Começaremos. seu significado.57 CAPÍTULO VIII A INDETERMINAÇÃO DAS EXPRESSÕES Esta explicação. como aos próprios conceitos teóricos por ele criados. precisamente. i. 181- 3. Wittgenstein aplicou tais noções. 84).. trataremos apenas de elucidar as três noções acima referidas.

The Grammar of Justification. incluindo o conceito de número. seria capaz de conduzi-lo a generalizações impetuosas e inadequadas. apenas por esta qualidade sejam capazes de justificar seu uso. etc. ‘querer dizer’. tomou como exemplo o conceito de jogo (PI §66). e ainda Richardson. que seja responsável por sua união sob uma mesma denominação. nas Investigações Filosóficas. ‘sentido’.18). conceitos formais como ‘proposição’. (sobre a extensão da noção de semelhanças de família. A Companion to Wittgenstein’s “Philosophical Investigation”. “Considere-se”. ver G. termos psicológicos como ‘acreditar’. Wittgenstein. cap. não tem sob este aspecto. ‘esperar’ e todos os casos de volição. e ainda todos os conceitos da ética e da estética. Entenderemos por essência comum. “os jogos de tabuleiro. de cartas. aplica sua noção aos seus próprios termos teóricos. o filósofo por vezes sofre de uma necessidade de generalidade (BB pp. outros termos como ‘planta’. Ele a estendia aos termos de importância filosófica como ‘conhecimento’. 66 .58 De acordo com Wittgenstein. ‘desejar’. ‘linguagem’. Mas parece que ela deverá conduzir inevitavelmente ao erro se for. contudo. p. sustentada por uma concepção demasiado primitiva acerca da estrutura da linguagem. ‘ser humano’. ‘regra’. Para introduzir a noção de semelhanças de família.17). ‘ler’. ‘referência’ . ‘número’. ‘compreensão’. uma essência comum 66 às entidades que possam designar. Waismann. Introduction to Mathematical Thinking. ‘critério’. ‘identidade’. comum a todas as entidades subsumidas por um mesmo conceito ou termo geral (ver BB p. Ou. ‘cultura’. Assim. como ‘jogos de linguagem’. 17-18). que unida a uma “desdenhosa atitude para com os casos particulares” (BB p. escreveu ele. ‘prova’. ‘conceito’. pp. 148. Para Wittgenstein. ‘uso’. de bola. empregando a terminologia que julgamos mais apropriada: não há regras ou relações criteriais comuns aos múltiplos modos de aplicação de um mesmo termo geral. ‘matemática’. IV). ‘espírito’. ‘reconhecer’. uma característica que seja por si mesma necessária e suficiente para justificar o uso de uma expressão. que chamaremos de essencialismo. como Wittgenstein supunha. ‘comparar’. tal que. ‘mente’. somos logo tentados a procurar por alguma coisa comum às diferentes espécies de números. 67 A noção de semelhanças de família é muito abrangente na obra de Wittgenstein. ‘tempo’. Esta concepção. Hallet. quando pensamos em um termo geral como ‘número’. Não cremos que esta necessidade seja em si mesma um erro. Wittgenstein. por fim. ‘significado’. 237-8. levados por esta espécie de “tendência essencialista”. e que é graças a esta “essência” que este último é capaz de designá-las. etc. O que uma expressão ou termo geral realmente apresenta são semelhanças de família entre seus múltiplos modos de aplicação 67 .. a maioria das expressões ou termos gerais da linguagem. é por ele apresentada como consistindo na suposição de que deve existir uma essência oculta. ‘ter habilidade’. termos que refletem “ações humanas” como ‘derivar’.

mas sim “uma complicada rede de semelhanças e parentescos que se envolvem e se cruzam mutuamente” (PI §66). com seus múltiplos parentescos. mesmo nos casos em que existem características . Agora passe para o jogo de cartas: aqui você encontra muitas correspondências com aqueles da primeira classe. Nossa tendência natural é responder que deve haver alguma coisa comum a todos eles. Nada disso encontraremos se nos dispusermos a observar o funcionamento da linguagem sem imagens pré-concebidas. descobriremos que nada há em comum entre os vários jogos. mas quantos outros traços e características desapareceram! E assim podemos percorrer muitos. mas muitos traços comuns desaparecem e outros surgem. Veja que papéis desempenham a habilidade e a sorte. Ele afirmou ser até mesmo possível que dois membros de uma mesma família não compartilhem de nenhuma característica comum. Como é diferente a habilidade no xadrez e no tênis. muitos outros grupos de jogos e ver semelhanças surgirem e desaparecerem (PI §66).59 torneios esportivos. etc. Wittgenstein foi ainda mais longe. caso contrário eles não se chamariam ‘jogos’. ou uma concorrência entre os jogadores? Pense nas paciências.etc. . Wittgenstein deu a esta propriedade. Se passarmos agora aos jogos de bola. pois. deva alguma coisa comum a eles todos” (PG §35). Se assim o fizermos com o conceito de ‘jogo’. esse traço desapareceu. traços fisionômicos. o andar. o temperamento. segundo Wittgenstein. o nome de “semelhanças de família”. e que. por analogia com o fato de que os membros de uma grande família podem apresentar entre si as mais diversas semelhanças: Não posso caracterizar melhor estas semelhanças do que com a expressão: “semelhanças de família”. mas se uma criança atira a bola na parede e a apanha outra vez. baseia-se na concepção demasiado primitiva da linguagem da qual falávamos: a concepção essencialista de que “o que seja necessário para a caracterização de um número de processos ou objetos por um mesmo conceito geral. pois assim se envolvem e se cruzam as diferentes semelhanças que existem entre os membros de uma família: estatura. etc. cor de olhos. que pertence a maioria de nossos termos gerais. Ou há em todos um ganhar e um perder. muita coisa comum se conserva.São todos ‘recreativos’? Compare o xadrez com o jogo de amarelinha. os jogos de tabuleiro. Esta tendência.. Nos jogos de bola há um ganhar e um perder. Não há. uma essência comum a todos os jogos. Pense agora nos brinquedos de roda: o elemento de divertimento está presente. por exemplo. O que é comum a todos eles?” (PI §66). mas apenas semelhanças e parentescos: Considere. mas muitas se perdem. E digo: os “jogos” forma uma família (PI §67).

ainda que insuficientemente pouco elaborada. falando de palavras conceitos (concept-words) que designam várias entidades (entities) ou objetos (objects) que apresentam uma variedade de traços (features). c. Wittgenstein mantinha uma terminologia tradicional. etc. as colunas A1. elementos. propriedades (properties) ou constituintes (constituents) semelhantes (ver PG §35). grifos nossos).. pertencem à mesma família sem mais compartilharem de qualquer coisa comum. Falaremos preferencialmente de características que são critérios ou termos antecedentes de regras que determinam os modos de aplicação de um mesmo termo geral ou expressão. b. para cada . mesmo se um traço é comum a todos os membros da família. As letras minúsculas a. pode ser que elas não desempenhem qualquer papel relevante na justificação da aplicação do conceito: Dois membros vizinhos podem ter traços comuns e serem semelhantes. conceito ou termo geral. Não obstante.19. constituem critérios ou termos antecedentes de regras (relações criteriais) que determinam o modo de aplicação de expressão ou termo geral 68 . é importante notar que esta aparente confusão terminológica não se funda em uma inconsistência. distanciados.. enquanto outros. por sua vez correspondem às várias características (propriedade. grifos nossos). Podemos ilustrar a situação acima por intermédio de um simples diagrama: A1 a b c d A2 b c d e A3 c d e f A4 d e f g A5 e f g h Neste diagrama. traços.60 comuns a todos os membros da família. como fenômenos conjugados em um contexto. Não é necessário que seja aquele traço o que define o conceito (PG §35. atributos. já que.. 68 A terminologia de Wittgenstein é aqui particularmente pródiga e inconstante.. parece oferecer uma perspectiva teórica mais interessante. Mais comumente. As colunas correspondem também a diferentes modos de aplicação (formas de uso) da expressão. já que esta terminologia.). conceito ou termo geral. Wittgenstein apenas sugeriu sua possibilidade em algumas raras ocasiões como no seguinte trecho: “The idea that in order to get clear about the meaning of a general term one had to find the common element in all its applications has shackeled philosophical investigation” (BB p. De fato. menos esclarecedora. A3. as quais. A2. Podem ser consideradas como correspondendo às várias espécies de objetos ou entidades designadas por uma mesma expressão.

p. apresentam letras em comum. cit. p. será uma nova versão mas elaborada da idéia do paradigma justificador. Contudo. op.. uma vez que quaisquer duas coisas se assemelham sempre entre si em algum aspecto. in Mind. 69 Pompa e Hjalmar Wennerberg.. Para fazer frente a semelhante objeção. in Richardson. 84-5. a noção de semelhanças de família é vazia por mostrar-se incapaz de impor limites à aplicação de um conceito 69 . Ver também F.cit. Cf. cit. De fato. 72 Ibid. 71 Cf. Richardson.61 Como algumas letras minúsculas se repetem nas várias colunas do diagrama. com o qual a entidade designada pelo termo geral deve manter certa semelhança 70 . 84 e segs. Simon. O que iremos expor a seguir.180. já que recorre ao paradigma como uma espécie de “essência” 72 . e ainda M. op. 78. op. parecendo subscrever uma espécie radical de nominalismo. assim como A2 e A3. que esperamos ser capaz de libertar-nos de um ceticismo nominalista sem para isso forçar-nos a um comprometimento com a espécie tradicional de essencialismo. ele não se preocupou em definir claramente que espécies de condições devem ser exigidas para delimitar a extensão do emprego de um conceito com semelhanças de família. Waismann. Apesar de Wittgenstein ter apresentado elegantes metáforas ilustrativas (como a dos elos de uma corrente ou das cerdas trançadas em um mesmo fio). já foi argumentado criticamente que. Esta solução tem sido ocasionalmente sugerida por alguns intérpretes e rejeitada por outros 71 . p. e para cada característica ou critério uma regra apropriada. é o de recorrer a alguma espécie de “Standard” ou “paradigma justificador”. nenhuma letra há em comum entra A1 e A4. “When is a Family a Family Resemblance?”. Devido a isso. . P. Richardson. podemos inicialmente ser tentados a pensar que algumas dessas letras sejam comuns a todas elas. Já o principal motivo de sua rejeição é a acusação de que esta mesma idéia elimina as vantagens anti-essencialistas da noção de semelhanças de família. op. 70 Cf. é necessário encontrar-se um critério pelo qual se poderia delimitar a extensão do uso de um termo com semelhanças de família. . pp. cit.84. espécie de entidade ou objeto pode-se sempre fazer corresponder um modo de aplicação. 408-16. uma observação mais cuidadosa vem mostrar que estávamos enganados. ou que uma coisa pode ser relacionada a qualquer outra coisa por meio de uma sucessão de elos de semelhanças mantidos com entidades intermediárias.84 e segs. p. Um modo possível de se fazer esta delimitação. A principal vantagem em sua adoção é que ela nos deixa libertos da conclusão de que a noção de semelhanças de família é incapaz de impor limites às aplicações de um conceito. embora colunas A1 e A2.

nos serviremos de dois exemplos. p. W. sentimento de culpa. termos antecedentes de regras) para seu uso em determinado(s) jogo(s) de linguagem.125. deve-se exigir que sejam mantidas certas “condições ou margens de similaridade” entre os termo antecedentes das regras que determinam a aplicação e um dado paradigma justificador”. que o fenômeno religioso não tem uma essência única. i.218). senso de mistério.. p. elementos ou traços constituintes.). cit. (VI) Rezas e outras formas de comunicação com os deuses. P.e. 74 73 . (IV) Um código moral que se acredita sancionado pelos deuses. Para tornar mais compreensível este enunciado. O paradigma justificador nada mais é do que o conjunto destes possíveis termos antecedentes: (I) Crença em seres sobrenaturais (deuses). Filosofia da Linguagem. constituído por um conjunto de entidades. “The Variety of Religious Experience” (1902). a ponto de usá-lo como uma espécie de “livro-texto” em suas aulas. W. P. (II) Distinção entre objetos sagrados e profanos.. tomaremos de empréstimo um exemplo apresentado por W. 47 e Pitcher. As características. etc. mas muitos caracteres que podem ser alternativamente tornados igualmente importantes.62 O gênero de critério que gostaríamos de propor como modo de delimitar a extensão de um termo ou expressão com semelhanças de família pode ser estabelecido sob a forma de um enunciado: Para que seja dada uma aplicação a uma expressão. James defendia neste livro. podem ser consideradas como possíveis critérios (i. (III) Atos rituais concentrados em torno de objetos sagrados. conceito ou termo geral. elementos ou traços constituintes mais relevantes deste conceito. op. o primeiro destinado a elucidar a noção de paradigma justificador. uma visão geral do mundo. (VII) Uma cosmovisão. op. p. de modo que pretender uma precisa definição de sua essência seria incorrer em uma simplificação dogmática (ver Fann. Com o objetivo de elucidar o que entendemos com a noção de “paradigma justificador”. Alston 73 sobre os aspectos mais característicos do conceito de religião 74 . adoração. (V) Sentimentos caracteristicamente religiosos (reverência. e o segundo destinado a elucidar a noção de condições ou margens de similaridade. cit. aqui chamadas de características. Alston.e. sua significação e o lugar que o homem nele ocupa. Este exemplo é tanto mais sugestivo pelo fato de que Wittgenstein havia lido e admiriado o livro de Willian James.

isto é. Os Quacres. como o catolicismo. por exemplo. que compartilhem de uma quantidade e qualidade adequada de suas características. algo semelhante ocorrendo com uma doutrina política como o comunismo. como no unitarismo ou humanismo. 125-6. op. Mas a exibição conjunta de todas essas características não é condição necessária para que se aplique o conceito de religião a uma entidade cultural. como são os casos ideais do catolicismo e do judaísmo ortodoxo. por compartilharem de certas margens de similaridade com o paradigma. restando sempre um “espaço de dúvida” quando tentamos aplicar o conceito de religião aos casos limítrofes (como. op. 77 Alston. . O próprio envolvimento do grupo social pode estar ausente quando alguém se determina a desenvolver sua própria “religião” particular (como já foi dito com respeito ao filósofo Spinoza) ( 76 ). o judaísmo. pp. Alston. por exemplo. Como disse Alston. apesar de persuasivo. pode-se supor que chamamos de ‘religião’ às entidades culturais que mantém suficientes “margens de similaridade” com o paradigma justificador. 126-7. não é. (IX) Uma organização social estabelecida pelas características precedentes ( 75 ).. é que os vários modos de aplicação particulares do termo ‘religião’ (determinados por conjuntos apropriados de características). O primeiro motivo. O budismo hynayana ignora os seres sobrenaturais. o humanismo ou o comunismo. preocupando-se em cultivar a experiência mística. por vários motivos o mais esclarecedor. pp. enfatizando o cultivo de uma disciplina moral e meditativa que habilite o indivíduo a atingir um estado no qual todos os desejos cessem de existir..63 (VIII) Uma organização da vida do indivíduo baseada nesta cosmovisão.. cit. Fenômenos religiosos. cit. podem vir explicitamente designados sob a 75 76 Ver Alston. repudiam completamente a demarcação de objetos sagrados. para os quais incerta a aplicação do termo ( 77 ). é útil observar que essas margens de similaridade requeridas não são de modo algum precisas (nem fechadas). pp. O exemplo do conceito de religião. op. a filosofia de Spinoza e o comunismo. que orientam suas tonalidades religiosas para certos ideais sociais. cit. existem entidades culturais que exibem todas estas características em um elevado grau. 126-7. Mesmo a crença em seres sobrenaturais pode estar ausente. Assim. como também não é condição necessária a exibição de qualquer uma dessas características em particular. terminam por manter elos de parentesco ou semelhanças de famílias entre si. Além disso.

mas em compensação soubesse muito sobre as outras características. apresentando todas as características dos demais membros. no entanto. (Ainda assim. com a maioria dos conceitos geralmente estudados por Wittgenstein. O mesmo não ocorre. ‘humanismo’. o que poderia com certo esforço ser tomado como uma essência comum.64 forma de subconceitos como ‘catolicismo’. é que alguma espécie de “sentimento religioso” parece estar presente em todos os casos. Podemos imaginar o caso de uma pessoa que nada soubesse sobre o catolicismo ou o judaísmo . porém. depois da qual. as quais substituem o termo geral (em seus modos de aplicação) da mesma maneira que subconceitos. porém. uma para o pensamento sem palavras da ação (Z §122). somos capazes de dar uma resposta segura. é que a noção de semelhanças de família não exige a existência efetiva de um membro do grupo familiar que se identifique com o paradigma justificador. Como não existem os subconceitos apropriados para designar os diferentes modos de aplicação do termo geral. Uma palavra para o pensamento expresso em u ma sentença. ‘querer dizer’. Pois uma pessoa que não soubesse o que é sentimento religioso. ‘budismo’. ‘comunismo’. ‘compreender’. somos. O terceiro motivo. uma para o clarão de pensamento que eu poderei mais tarde ‘vestir em palavras’. como parece ser o caso do catolicismo ou do judaísmo ortodoxo. como sequer costumam possuí-los. etc. uma observação mais atenta do emprego do conceito de religião parece mostrar que. (Este sentimento. Estes últimos não só não costumam ter seus diferentes modos de aplicação distinguidos por subconceitos apropriados. tal como acontece com a característica comum entre as entidades que conservam certas margens de similaridade com ele. O segundo motivo pelo qual o exemplo do conceito de religião pode não ser inteiramente esclarecedor. uma para o pensamento quando alguém fala consigo mesmo na imaginação: uma para uma pausa durante a qual uma outra coisa ou outra flutua diante da mente. não teria grandemente prejudicada sua capacidade de operar com o conceito de religião). a existência efetiva do paradigma é mero acidente completamente dispensável. levados a construir proposições capazes de caracterizá-los. etc. Uma para o ‘pensamento em voz alta’. Tal se dá com as aplicações da noção de pensamento: Lembre-se que a nossa linguagem poderia possuir uma variedade de diferentes palavras. mesmo neste caso. como ‘desejar’. em um caso como este. dificilmente poderia ser responsabilizado pelo uso do termo. ‘judaísmo’.

. O critério de Jones consiste. tanto quanto outra que estivesse familiarizada apenas com o catolicismo ou o judaísmo). proteína C reativa positiva. O que importa. (III) Além disso são necessárias provas que demonstrem uma infecção estreptocócica precedente (antiestreptolisina aumentada ou outros anticorpos antiestreptocócicos. o quadro acima pode ser considerado como um paradigma justificador da designação da entidade nosológica pela expressão. é estabelecido como paradigma. mas que. mas o que. escarlatina recente). consiste no estabelecimento das condições ou margens de similaridade aproximativamente exigidas para com o paradigma. intervalo PR alongado).65 ortodoxo. febre reumática ou cardite reumática prévias). (II) Manifestações menores: a) clínicas (febre. por uma convenção implícita. Se considerarmos estas características como termos antecedentes de regras para a utilização da expressão ‘febre reumática’. em primeiro lugar. Tais condições são. Ainda um quarto motivo é que no exemplo precedente. b) Biológicas (reações da fase aguda. na apresentação de uma lista de sinais. cultura de orofaringe positiva para os estreptococos. não é a existência efetiva do paradigma. O segundo passo seguido pelo critério de Jones. Um dos mais conhecidos dentre eles é o critério de Jones para o diagnóstico da febre reumática. Essas relações criteriais tem como termos antecedentes. em compensação. na verdade. É difícil imaginar que esta pessoa não fosse capaz de identificar uma entidade cultural como ‘religião’. sintomas e dados laboratoriais tidos como características capazes de permitir o diagnóstico. poliartrite. não fica evidente quais sejam as condições ou margens de similaridade exigidas para que uma entidade possa ser designada pelo conceito. regras ou relações criteriais exigidas para a aplicação do conceito de febre reumática. Um método auxiliar no diagnóstico de certas doenças em medicina. Nosso próximo exemplo apresenta a vantagem relativa de ser propositadamente esclarecedor quanto a essas últimas questões. artralgia. na verdade. consiste na aplicação de certos “critérios de diagnóstico” cuidadosamente estabelecidos. coréia. eritema marginado e nódulos subcutâneos. VHS acelerada. Essas características são as seguintes: (I) Manifestações maiores: cardite. bem como as condições ou margens de similaridade que a aplicação do termo deve manter com ele. leucocitose. soubesse muito sobre as demais crenças religiosas.

não por meio de uma definição. que assim tornam-se critérios para a aplicação da expressão. explicitamente convencionado como tal. Ele estabelece como paradigma um grupo de cinco sintomas fundamentais. B. não pela observação do caso paradigmático. O diagnóstico da doença é por ele justificado com a condição de que o paciente apresente 1 ou 2 dos 5 sintomas fundamentais. que apresenta apenas coréia e cardite. Mesmo que um tal paciente fosse encontrado. 78 . ele estabelece explicitamente tanto o paradigma como as margens de similaridade requeridas. é bastante improvável que encontremos na prática o “caso paradigmático”.66 certos conjuntos de características pertencentes ao paradigma. ver 6. o caso de um paciente que possua todas as condições diagnósticas estabelecidas pelo paradigma justificador. eritema marginado e artralgia. como critério. por razões de rigor científico. cujos sintomas são febre. mas por intermédio de freqüências estatísticas derivadas da observação de inúmeros casos particulares 79 . são duas relações criteriais que costumam vir enunciadas da maneira que se segue: Indica grande probabilidade de que exista febre reumática na vigência de provas que indiquem uma infecção estreptocócica precedente: (I) a presença de dois critérios maiores. visto que na verdade existe um outro critério simplificado que efetivamente a ignora. poderemos dar o mesmo diagnóstico aos supostos pacientes A. A vantagem do exemplo que acabamos de expor é que.5). A aplicação do critério de Jones. não teria sido ele o responsável pela formulação do paradigma apresentado no critério de Jones. Istoé. Se ignorarmos as exigências de provas laboratoriais da ocorrência de uma infecção estreptocócica precedente 78 . mas através de sucessivos exemplos particulares que nos habilitam a usá-los em uma variedade de ocasiões (PI § 71. Os três casos mantém certas semelhanças de família entre si. as condições de similaridade exigidas. 79 De maneira algo semelhante. mesmo que estes sejam praticamente destituídos de qualquer característica comum. (II) a presença de um critério maior e dois menores. No caso específico do critério de Jones. tem como resultado permitir que o conceito de febre reumática seja aplicável a quadros clínicos muito diversos entre si. não há qualquer sintoma em comum entre A e C. Além disso. e a principal diferença com relação aos O que não é incorreto. o que nem por isso impossibilita o mesmo diagnóstico para ambos os casos. que apresenta cardite e poliartrite migratória acompanhada de febre e C. Pois este critério foi estabelecido. sendo interessante notar que embora A e B tenham sintomas comuns. E daí explicitamente convencional. Wittgenstein dizia que aprendemos o uso de um termo geral.

W.geralmente convencionados de forma não-conjunta a partir de uma prática lingüística de exemplificação ostensiva. não passa de um mito ou ídolo lógico 80 . Wittgenstein denunciou em Frege o erro de deixar-se enganar por este paradigma ilusório: “Frege compara um conceito a uma área e diz que não se pode absolutamente chamar de área a uma região vagamente delimitada” (PI §71) 81 . G. é provavelmente recorrendo à margens de similaridade com paradigmas justificadores implícitos. 153). o elemento de “divertimento”. a impossibilidade de uma tomada de consciência que torne os paradigmas e suas margens de similaridade explícitos.W. a idéia de uma exatidão ou precisão absolutas nas expressões da linguagem. Stegmuller. ‘jogo’. Isto não significa. tanto o paradigma quanto as margens de similaridade requeridas são sempre implícitos . 433.cap.. poderíamos em princípio estabelecer uma série de características como a “concorrência”.67 casos de conceitos como os de ‘mente’. o mesmo devendo ser possível com qualquer outra expressão ou termo geral com semelhanças de família. a “habilidade”. por exemplo. p. e a partir disso estabelecer aproximativamente certas condições ou margens de similaridade como critérios para a aplicação do conceito. no sentido de que podem. De fato. cuja simplicidade é apenas aparente: elas são necessariamente imprecisas. in G. p. um conceito que não seja precisamente definido é erroneamente chamado de conceito” (Frege. devemos ainda acrescentar que a noção de “condições ou margens de similaridade” deve ser entendida de maneira a abranger um espectro indefinidamente variado de exigências possíveis. ‘religião’ e ‘pensamento’ está no fato de que nestes últimos. op. naturalmente. E. ter aumentada a precisão de seu uso. etc. Por fim. As expressões de nossa linguagem apresentam também um segunda característica. Para o conceito de jogo. deveria corresponder uma área que não tivesse em torno de si limites vagos e esmaecidos. e do mesmo modo. Hallet. cit. com muita facilidade somos levados a pensar que a precisão absoluta dos nossos conceitos seja um objetivo a ser alcançado ou pelo menos procurado. XI. enquanto é recorrendo a um paradigma explicito que um texonomista reconhece um espécime vegetal. a “recreatividade”. filosofia. Para o Wittgenstein das Investigações Filosóficas. que somos capazes de suspeitar que a pessoa que acaba de passar por nós possa ser membro de uma determinada família.. “Para um conceito sem uma fronteira precisa. pois só assim ela poderá demonstrar-se capaz de refletir a indefinida variedade de possibilidades que a metáfora das semelhanças de família parece trazer consigo. em princípio. cit. A analogia proposta por Frege é incorreta 80 81 Cf. imprecisos e inconstantes. Isso não poderia afinal ser realmente considerado uma área. Filosofia Contemporânea. . a “sorte”.

p. para precisarmos o uso de um termo. . mesmo assim não teríamos como fazê-lo de maneira absolutamente precisa (PI §88). Podemos facilmente aperceber-nos disso sempre que nos empenhamos em tornar um termo preciso. que necessitaria de critérios para a delimitação da área territorial específica por ela abrangida. que “uma comunidade só pode ser chamada de cidade se tiver mais de 80. 128. pois não sabemos ao certo em que medida uma pessoa pode ser considerada como habitante de uma comunidade. cap. e assim por diante. Alston. teremos de recorrer a novas regras com conceitos imprecisos e assim ad indefinitum. Conclusão que deve ser extensiva mesmo aos simbolismos da lógica e da matemática. pode ser precisada se estipularmos como critério ou regra para seu uso. ou nela trabalhar apenas durante um curto período de tempo. Contudo. V. e se procurássemos estabelecer aí um limite de cor. somos obrigados a explicá-las pela descrição de regras constituídas por outros termos que serão.68 porque encontra-se viciada pelo ídolo lógico de que falamos. uma vez que as regras que a determinam não podem ser absolutamente precisadas. em certa medida. cit. 82 83 O exemplo aqui reinterpretado encontra-se em P. W.. Stegmuller. não só a vocábulos como ‘área’ e ‘conceito’. seria ainda necessário precisar outros conceitos que ficaram por ser definidos. vol. cit. . E se quisermos precisar o uso destes últimos termos.não há como delimitar com precisão absoluta os limites de uma área: Se nós a cercássemos com um traço de giz. como o de ‘comunidade’. O exemplo acima torna claro que.. imprecisos. Já que uma pessoa pode ter apenas uma residência de verão na comunidade. Além disso. perceberíamos que o traço conserva ainda certa largura. Uma investigação mais cuidadosa mostrará que a impossibilidade de se atingir uma “precisão absoluta” no uso de uma expressão. p. mas jamais eliminá-la (83 ). Poderíamos certamente precisar o uso de ‘habitante’ com outra regra. uma palavra como ‘ habitante’ é que agora carece de definição. também.000 habitantes”. mas a todo e qualquer termo de nossa linguagem. Mas também os conceitos de ‘habitar’ e ‘trabalhar’ são imprecisos. segundo a qual chamaremos de habitante “alguém que habita e trabalha na comunidade”. I. op. op. Pode-se reduzir sucessivamente a imprecisão das expressões lingüísticas. como exemplificou Alston 82 . A palavra ‘cidade’.520). o exemplo acima parece demonstrar a impossibilidade de se atingir uma precisão absoluta na aplicação de um termo. já que para defini-los é necessário se apoiar nos termos de nossa linguagem cotidiana (ver W. Por conseguinte. parece inerente.

deve começar pela observação de que ‘preciso’ é um termo contextualmente variante (PI §§46 e ss. com freqüência. p. de certos modelos idéias de precisão. etc. quando este tem o mais perfeito modelo disponível. para seu emprego. em nada lhe será útil saber se ele está em perfeita concordância com o observatório astronômico (PI §88). se alguém pode confiar em seu relógio para comparecer ao jantar amanhã às 20 horas. Estes termos dependem. Copi. prejudicial. acontece também com o conceito de precisão: só faz sentido falar de precisão quando se pensa em um modelo ou ideal de precisão que sirva de critério para o uso do termo. etc. Introduction to Logic.se tivermos antes estabelecido em que jogo de linguagem a palavra está sendo usada (PI §48). 84 I. Para Wittgenstein. nem mais nem menos (PI §67). O mesmo que acontece com termos com o “simples e composto”.69 Uma análise apropriada da idéia de precisão. Com efeito. escreveu Wittgenstein. Os termos relativos costumam poder ser agrupados em pares opostos. Tal jogo de linguagem estabelecerá qual o modelo de simplicidade que deverá servir de critério para o uso da palavra ‘composto’. Assim. quando alguém diz que uma poltrona é um objeto composto. “Com freqüência”. fundamentado por diferentes relações criteriais. suas moléculas ou seus átomos (PI §47). é necessário saber o que está sendo considerado como simples. Como observou Wittgenstein. E a cada diferente modelo que considerarmos como paradigma de simplicidade (e estes podem ser em número indefinidamente grande). estamos nos referindo em geral apenas a uma precisão que é praticamente indistinguível do modelo que em um apropriado jogo de linguagem serve como ideal de precisão.) ou relativo 84 .. podemos fazer corresponder um jogo de linguagem diferente (PI §60). “grande e pequeno”. “leve e pesado”. se as peças de madeira com as quais ela foi montada. “simples e composto”. ou mesmo falseadora da evidência disponível. o qual deve adaptar-se à finalidade particular que se tem em vista. peso. só faz sentido dizer que algo é composto. se o precisássemos como exatamente 75 cm. simplicidade. “preciso e impreciso”. M. “pequeno e grande”. tamanho.93. etc.. . Igualmente. e. que servem de modelo ou paradigma para seu uso em contextos apropriados. quando na linguagem cotidiana falamos de “precisão absoluta”. se acompanharmos o emprego efetivo de expressões como “precisão absoluta” e “absolutamente preciso”. não seria adequado às finalidades pelas quais comumente empregamos a expressão ‘comprimento de um passo’. Por isso. e uma exigência de precisão inadequada poderá se supérflua. “é justamente o conceito de contornos imprecisos aquele do qual necessitamos” (PI §71).

Se. Outro aspecto relevante da noção de imprecisão é que. . op. cuja possibilidade sempre se faz presente. Quine. no entanto. Word and Object. De modo semelhante. são também. p. A odeia acima torna-se bastante evidente quando pensamos em conceitos que apresentam o que os lingüistas costumam chamar de vaguidade referencial 86 ao nomear entidades concretas. cit. 4. Algo muito diferente ocorre quando dizemos. 87 W. ‘Verde’. M. quando dizemos que os termos de nossa linguagem são imprecisos. Stegmuller. Como conseqüência. como nos casos acima apresentados. Ele se referia quase sempre a algo mais sutil. o conjunto das utilizações ou modos de aplicação de uma mesma expressão. Kempson. Wittgenstein. quer dizer apenas que o trem chegou com a maior precisão possível. 88 Entenderemos por “uso geral” ou simplesmente “uso”. como no início.8. não se referia geralmente à imprecisão das fronteiras entre o “uso geral” 88 de um termo e o “uso geral” de outro termo. cap. insistíssemos (como fez Frege com a noção de conceito e o próprio Wittgenstein no Tractatus) em julgar a significatividade do que falamos tomando como modelo um impensável e definitivo “ideal filosófico de precisão absoluta”. V. quando dissemos que as expressões de nossa linguagem eram imprecisas. ‘água’ e ‘barro’ são termos cujas fronteiras semânticas são imprecisas. não era por constatarmos que elas não podem ser corrigidas por um impensável “ideal de precisão absoluta”. Com emprego referimo-nos a ocorrência singular de um utilização. por outro lado. não é possível determinar com exatidão sua fronteira com conceitos limítrofes com o ‘amarelo’ e o ‘azul’. Era simplesmente por constatarmos que as expressões podem ser teoricamente precisadas diante de um modelo de precisão mais perfeito. Pois naquele caso. deveríamos concluir que só dizemos absurdos. é um termo de uso impreciso porque designa entidades de limites imprecisos. W. posto que este ideal não tem existência efetiva em nossa linguagem 85 .. isso equivale também a dizer que as fronteiras que demarcam os limites entre o uso de um termo e o uso de outros termos que lhe sejam “semanticamente contíguos”. que as expressões de nossa linguagem são necessariamente imprecisas.70 veremos que seu papel não excede ao de figuras retóricas: quando alguém diz que o trem chegou com “precisão absoluta. imprecisamente delimitadas. R. já que não sabemos decidir quando devemos abandonar o uso da expressão ‘água turva’ em favor de ‘barco aquoso’ 87 . de certo modo.434. cap. por exemplo. Teoria Semântica. que é a imprecisão das fronteiras entre as várias utilizações (modos de 85 86 Cf.

II).71 aplicação) de um mesmo termo ou expressão com semelhanças de família. As regras que determinam o uso de nossas expressões podem ser fixadas para um grande número de contextos. que uma palavra com o ‘poltrona’ tem um significado relativamente fixo e definido. ‘significar’.3 A terceira noção que nos importa abordar. ‘desejar’. Não existem igualmente fronteiras precisas entre a dúvida razoável e a dúvida logicamente impossível (OC §454). 8. Contudo. Os Pensadores. não são necessariamente fixas (PI §68). o que aconteceria se uma ave. cap. por exemplo. ficaríamos sem saber se seria ou não possível continuar ainda a aplicar a palavra ‘cadeira’. No segundo caso. Ou ainda. Outras Mentes. introduzindo uma radical mudança nos critérios de sua aplicação.19). Com isso. Austin. ‘pensar’. é o que poderíamos chamar de “abertura das expressões” 89 . ficaríamos talvez em dúvida se aquilo era de fato um pintassilgo. Waismann com base em Wittgenstein (ver F. No primeiro caso. Wittgenstein escreveu que não há uma fronteira divisória nítida entre as utilizações do conceito de proposição. ou se não seria mais conveniente chamá-lo de uma bomba-relógio capaz de imitar com perfeição um pintassilgo. se assim o quisermos) de termos como ‘compreender’. etc. Wittgenstein nos faz imaginar um a futura evolução do mundo. por exemplo. assim como não há nenhuma linha divisória nítida entre os múltiplos modos de aplicação (em jogos de linguagem diferentes. de nosso comportamento. Verifiability. i.e. Julgamos. 89 . vol.. “o que aconteceria se eu fosse lá buscá-la e ela desaparecesse repentinamente da minha vista e depois voltasse a reaparecer periodicamente? Seria uma ilusão? Poderíamos continuar chamando-a de poltrona?” (PI §80). in The Theory of Meaning. além de serem imprecisas. que apresentam individualmente semelhanças de família entre seus múltiplos modos de aplicação (BB p. explodisse inesperadamente diante de nós? ( 90 ). em tudo semelhante a um pintassilgo. quando este “pertence à lógica” do jogo de linguagem (como regra. ou do Usaremos a noção de “abertura das expressões” de maneira a incluir o conceito de “textura aberta” proposto por F. p. Generalizando a perspectiva acima sugerida. queremos dizer que a extensão do uso de um conceito pode não ser fechada por um limite definitivo. mas não para todos os contextos ou situações concebíveis. Waismann. LII. in col. 90 J. escreveu Wittgenstein.. em jogos de linguagem diversos. 101. Em On Certainty. proposição metodológica ou fundamentadora) ou quando é usada como uma proposição empírica (OC §§318-20).L. o que equivale a dizer que as fronteiras entre os uso ou aplicações particulares de nossos termos.

ocorre com a evolução do conceito de arte 91 . The Role of Theoryin Aestetics. com relação aos quais não sabemos se o termo ‘arte’ já é. Em segundo lugar. do terror. 1962. Um exemplo concreto do dissemos. Não podemos estabelecer uma listagem definitiva de todas as condições de aplicação do conceito de arte. De fato. ‘comédia’. Estes subconceitos ou modos de aplicação específicos apresentam entre si fronteiras não só indivisas como 91 Ver o artigo de Morris Weitz. ‘literatura’. modifica-se de modo a alterar nossas fronteiras conceptuais. O conceito de arte. ‘pintura’. como é o caso de “formas de arte” como ‘música’. ‘novela’. ou ainda é aplicável. por exemplo. pela simples razão de que se trata de um conceitos aberto. Por fim. o próprio mundo externo. também se modificam. ou se as duas se tornassem fenômenos de freqüência mais ou menos igual . se o que é regra se tornasse exceção e o que é exceção. em geral através das mudanças que o homem nele introduz. Há. as necessidades e motivações humanas. regra. mas também entre seus distintos modos de aplicação. da alegria. a propósito. Há casos de objetos. o comportamento.72 conhecimento. a expressão característica da dor. que pudesse levar à ruína a totalidade de nosso presente universo conceitual: E se as coisas se comportassem de modo totalmente diferente do que se comportam de fato – e se não houvesse. . trazendo consigo modificações em nossos hábitos lingüísticos. é mais facilmente identificável. como nos casos deles pertencerem a “novas formas de arte” que constantemente estão a surgir como candidatos a novas aplicações do termo. antigos objetos que hoje deixaram de ser valorizados com obras de arte. para o qual novas condições de aplicação estão sendo constantemente estabelecidas.então nossos jogos de linguagem normais perderiam seu sentido (PI §142). primeiramente. o que torna ultrapassados certos jogos de linguagem e expressões que neles são usadas. ‘romance’. O que nos leva a concluir que o conceito de arte não é nem preciso nem fechado. ou. etc. uma evolução do conhecimento que o homem tem do mundo ao seu redor. uma vez que eles podem ser facilmente substituídos por subconceitos que os designem. Em tais casos. é dos que exibem múltiplos modos de aplicação aparentados por semelhanças de família. A abertura dos modos de aplicação de um conceito como o de arte. in At the Arts. embora não de maneira repentina. a abertura (tal como a imprecisão) ocorre não somente no “uso geral” do conceito. estas mudanças estão gradualmente se processando (OC §63).

os números complexos. quando se faz pesar sobre ela uma definição rigorosa. os números irracionais. ou seja. porém. A esse respeito o conceito de número é como o conceito de proposição. É como que conceitos científicos. A abertura dos modos de aplicação de expressões com semelhanças de família não é. Uma expressão pode ser artificialmente fechada por “decreto”. etc. grifo nosso). isso depende de nós . . por exemplo.73 também fluidas (como. uma qualidade necessária a todas as expressões. com os racionais. artificialmente fechadas: Compara-se o conceito d proposição (também caracterizado por semelhanças de família) com o conceito de número e ainda com o conceito de número cardinal. Por outro lado. caracteriza-se por exibir semelhanças de família entre seus modos de aplicação designados pelas espécies de números. ou delimitamos uma fronteira definitiva aqui ou em outro lugar. se chamamos outras construções de números por causa de sua similaridade com aquelas. que além de serem imprecisas. isto é. aquelas proporcionadas pelas distinções entre a novela e o romance. sejam artificialmente precisados e fechados com o objetivo de tornar as convenções explícitas. um conceito em uma sentido diferente da palavra (PG §70. tem se alterado ao longo do tempo). são passíveis de receber definições rigorosas. Nós contamos como número os números cardinais os números racionais. irracionais. esses conceitos podem por vezes não evoluir se significado como costuma ocorrer com os termos da linguagem cotidiana. E + I] pode ser chamado de um conceito rigorosamente circunscrito. mas simplesmente perder sua utilidade quando a própria ciência os ultrapassa. complexo. E. por exemplo. Estes subconceitos. de modo diverso do que costuma acontecer com os conceitos da linguagem cotidiana. contudo. Como conseqüência. O conceito de número. o conceito de número cardinal [ I.

14. neste capítulo. regra. seria incapaz de explicar as relações entre as suas várias formas 92 . Como no capítulo anterior. mais facilmente. aplica-se igualmente aos termos teóricos até agora estudados. principalmente a indeterminação das noções de significado e de linguagem. O que foi dito no último capítulo acerca da indeterminação das expressões e termos gerais da linguagem. por exemplo)? Segundo que exemplos? Em que jogos de linguagem? Você verá então. pergunte sempre: como aprendemos o significado desta palavra (“bom”.74 CAPÍTULO IX LINGUAGEM E SIGNIFICADO Em caso de dificuldade. Veremos. As Idéias de Wittgenstein. Trata-se de que ele se apercebeu do fato de que ele se apercebeu de que as várias linguagens (jogos de linguagem) não compartilham entre si de uma mesma essência comum. mesmo que exista. Noções como as de linguagem. Pears. p. Como conseqüência. jogo de linguagem. apresentam cada qual semelhanças de família. D. uso e significado. Uma descoberta fundamental esteve na origem da última filosofia de Wittgenstein. referimo-nos à essência comum como expressão da “primitiva” idéia de que as entidades designadas por um conceito geral devam ser elas próprias portadoras de certas características cuja . além de serem imprecisas e abertas. a começar por esta última. a qual. as 92 Cf. que a palavra deve ter uma família de significados (PI §77).

deve incluir em seu domínio as regras e signos específicos das línguas humanas. podemos cogitar em definir sua essência em termos das “margens de similaridade” que as entidades por ele designadas devem necessariamente apresentar com um determinado paradigma. por serem tentativas de estabelecer. que da mesma forma que os jogos. Ao contrário. a estrutura única da linguagem.. a coleção de jogos de linguagem que constitui uma linguagem. .75 teorias tradicionais do significado e da linguagem. b) coleções de jogos de linguagem compostos capazes de constituir uma linguagem natural (ou língua humana 93 ). podemos distinguir duas acepções para o termo ‘linguagem’: 1) quando este é usado para designar jogos de linguagem relativamente simples. No caso de um conceito com semelhanças de família (como o de ‘linguagem’). Para isso.11). entre elas a do próprio Tractatus. mas famílias de semelhanças e parentescos entre si (PI §66 e 8. R. p. presença é necessária e suficiente para que ele as possa designar. como o jogo de comando (I) e (II) quando este é usado para designar coleções de jogos de linguagem aparentados por semelhanças de família. O desconcertante problema criado pela necessidade de uma teoria da linguagem que não recorresse a uma ingênua concepção de essência comum. Ele buscou refletir a natureza profundamente diversificada de tudo aquilo que podemos chamar de linguagem. 93 Para Wittgenstein. o Inglês.. a noção de linguagem identifica-se essencialmente com a noção de jogo de linguagem. em um esboço teórico que incorporasse em seus conceitos a mesma espécie de indeterminação que havia no objeto de suas investigações. até mesmo quando sua idéia do que isso poderia envolver tinha mudado completamente” (Wittgenstein . tais como a) jogos de linguagem compostos ou formas de linguagem (como o jogo de ‘relatar acontecimentos’ (PI §23) e a ‘linguagem das cores’) e. se entendermos por essência algo mais amplo.The Later Philosophy. estavam destinadas a falhar. com base na simples unidade de sua aparência. poderemos repetir com H. A crítica a este essencialismo ingênuo não basta para qualificar Wittgenstein como “antiessencialista” ou “nominalista extremado”. e além disso os vários sistemas de signos que tem maior ou menor afinidade com estas linguagens (Z §322). Wittgenstein concebeu as linguagens ou formas de linguagem pela metáfora dos “jogos de linguagem”.”Linguagem” é para nós o nome de uma coleção. não apresentam uma essência comum. geralmente enjeitadas pelos filósofos como constituídas pelos traços inessenciais dos sistemas comunicacionais: . 14).. recebeu de Wittgenstein uma solução não menos invulgar do que sua própria descoberta. Finch que “ele estava procurando pela essência da linguagem. etc. Devido a isso. Em Wittgenstein. e eu a entendo como incluindo o Alemão.

é uma espécie de unidade que não exige a . o uso de cartas e diagramas.. geometria descritiva.76 Em sua primeira e mais fraca acepção.81). afinal. e. Wittgenstein chamou de ‘linguagem’ a quaisquer coleções de jogos de linguagem que detenham semelhanças de família entre seus membros. como a empregada em nosso cotidiano. Wittgenstein considerava a linguagem natural como uma espécie de “nebulosa”. constituída por um número indefinido de jogos de linguagem de todas as espécies. Como uma coleção de jogos de linguagem aparentados por semelhanças de família pode. Como observou R. A coleção de jogos de linguagem. sua língua materna (his mother tongue). podem ser considerados como “unidades mínimas” daquilo que se poderia chamar justificadamente de linguagem (Cf. Rhees. Por outro lado. No Brown Book. etc. tomados separadamente uns dos outros. a forma de unidade que a linguagem apresenta. como as formas de linguagem da física. Wittgenstein chamou os jogos de linguagem simples de “linguagem completas. ele aprende mais jogos de linguagem. Tal é a imagem por ele sugerida no Brown Book: Quando uma criança ou um adulto aprende o que se poderia chamar de linguagem técnicas especiais. PI §65). que pode ser alguma coisa relativamente modesta. (Observe: a imagem que temos da linguagem (language) do adulto é aquela de uma nebulosa massa de linguagem. unidos pelos mais variados parentescos. por exemplo. da aritmética e das cores. o que corresponde aproximadamente ao seu sentido ordinário. e que nos permite usar expressões como “uma linguagem comum” ou “uma mesma linguagem”. na segunda e mais ampla acepção do termo.81). pode torna-se indefinidamente ampla quando por ela entendemos uma linguagem natural. querendo enfatizar com isso a possibilidade de os considerarmos como sistemas de linguagem independentes uns dos outros. circundada por discretos e mais ou menos distintos jogos de linguagem. ser sempre considerada como uma espécie de “jogo de linguagem composto” constituído pela união dos jogos de linguagem mais simples que o compõem. as linguagens técnicas). simbolismo químico.g. torna-se admissível a conclusão de que a segunda acepção do termo ‘linguagem’ não difere essencialmente da primeira.. o termo ‘linguagem’ designa os jogos de linguagem relativamente simples que. completos sistemas de comunicação humana” (BB p. (BB p.

mas sim que eles estão aparentados uns com os outros de muitos e diferentes modos. os subúrbios de nossa linguagem. em evolução: “uma pluralidade onde nada é fixo e dado para sempre. etc. compostos por características tais como as funções comunicativa ou expressiva. digo que não há alguma coisa comum a estes fenômenos. na qual novos tipos de linguagem. cujas fronteiras. Nesta analogia. casas e ruas da cidade correspondem à variedade de jogos de linguagem que compõem a coleção. então pergunte-se se a nossa linguagem é completa. e tudo isso cercado por uma quantidade de novos subúrbios com ruas retas e regulares e com casas uniformes (PI §18). A hipótese que aqui apenas conjecturamos é a de que o termo ‘linguagem’. a cidade corresponde à linguagem como coleção de jogos de linguagem. por assim dizer. 109). p. Wittgenstein comparava a lenta edificação de uma linguagem natural com a formação de uma cidade. in Discussions of Wittgenstein. . praças. 71. além de serem imprecisamente determinadas. Wittgenstein builders. são abertas: Você quer dizer que elas por isso não são completas. sua operação a serviço de uma forma de vida. Uma linguagem natural é também um sistema aberto. como qualquer outro que apresente semelhanças de família. pois estes são. E é por causa desse ou desses parentescos que nós os chamamos de “linguagem” (PI §65). enquanto outros são esquecidos” (PI §23). A mesma analogia nos permite imaginar duas espécies de limites para uma dada 94 R. A questão de se saber qual é a essência da linguagem. possa ter a unidade de seu uso justificada pela exigência de certas condições ou margens de similaridade com paradigmas justificadores. casas novas e velhas. . passa a ser agora a de determinar o que confere unidade a uma coleção de jogos de linguagem (ver nota p. entendida como característica objetivamente presente em qualquer de sua várias formas 94 : Ao invés de indicar alguma coisa comum a tudo o que chamamos de linguagem. se o foi antes que lhe fossem incorporados o simbolismo químico e a notação infinitesimal.77 preservação de uma essência comum. enquanto os subúrbios. e casas construídas em diferentes épocas. novos jogos de linguagem nascem. Rhees. em virtude da qual empregamos para todos a mesma palavra. o uso de signos mediado por regras. (E com quantas casas ou ruas uma cidade começa a ser cidade?) Nossa linguagem pode ser considerada como uma velha cidade: uma rede de ruelas e praças.

Wittgenstein ilustrou este fato dando como exemplo as regras de jogo. pois as regras que constituem a gramática de seus jogos de linguagem são elas próprias indeterminadas. necessitaremos complementá-las com outras. os jogos de linguagem ou desaparecem e são substituídos por outros. não só como conjuntos ou sistemas de regras imprecisos. também o uso ou significado da palavra não poderá jamais ser absolutamente precisado (ver Z §§440-1). Como vimos em no oitavo capítulo. ou modificam-se gradualmente. então há uma mudança nos conceitos. e seus limites internos. pode agora ser articulado de maneira a permitir um avanço na abordagem do problema do significado. parece poder ser sumarizada da seguinte maneira: os múltiplos modos de aplicação de uma expressão que exibe semelhanças de família podem ser considerados como correspondendo a jogos de linguagem aparentados. para cada diferente modo de aplicação de uma expressão. porque elas próprias são imprecisas. Sendo assim. ver 8. são incapazes de limitar inteiramente. casas e ruas da cidade. Nas linguagens naturais. O raciocínio que leva a tal conclusão é o seguinte: uma expressão que exibe semelhanças de família. Para precisar ainda mais as regras que determinam o uso da palavra. mas o tênis é um jogo e também suas regras” (PI §68). Estas regras. mas também abertos. os jogos de linguagem costumam constituir-se. o que as faz deixar muitas possibilidades em aberto. Finalmente. podemos fazer corresponder um significado diferente. o emprego da palavra.3). e com os conceitos os significados das palavras” (OC §65. correspondentes às fronteiras que separam os subúrbios. ou seja: os que separam os seus jogos de linguagem. Tanto os limites externos com internos de uma linguagem são indistintos ou imprecisos. Esta articulação irá auxiliar-nos a responder à seguinte questão: o que semanticamente une os múltiplos modos de aplicação de um mesmo termo geral? A resposta que esta questão naturalmente nos insinua. apresenta múltiplos modos de aplicação . E “quando os jogos de linguagem mudam. O que dissemos no capítulo precedente sobre as semelhanças de família entre as múltiplas aplicações de uma mesma expressão e o que dissemos neste capítulo sobre as semelhanças de família entre jogos de linguagem. nos quais a expressão é aplicada.78 linguagem: seus limites externos. o tênis: “Não há nenhuma regra no tênis que prescreva até que altura é permitida lançar a bola nem com quanta força. quando queremos precisar o significado de uma palavra. e assim sucessivamente. nós o fazemos pela especificação das regras que determinam seu uso. Como esta especificação de novas regras não poderá deixar de terminar em algum ponto. no entanto. que por sua vez necessitarão ser precisadas. correspondentes às fronteiras exteriores da cidade.

sendo consensualmente identificável como produtor de movimentos inteligíveis em nossa forma de vida. deverão contribuir para o esclarecimento destas últimas suposições. portanto. Ora. os modos de aplicação aparentados por semelhanças de família devem corresponder ao que já chamamos de jogos de linguagem aparentados por semelhanças de família (i. portanto. enquanto segundo as regras do segundo jogo de linguagem. Neste caso. Estes dois jogos são sistemas de regras aparentados entre si por semelhanças de família. Podemos interpretar esta afirmação de maneira que se segue. e um conjunto de regras estabelecidas em um certo paradigma justificador. ora a quantidade? Se a questão foi colocada assim. sugeriu Wittgenstein. o “1” tem significado diferente ao designar ora a medida. então. grifos nossos). as duas ocorrências do número “1” na proposição “A cada 1 metro há 1 soldado”. a resposta será: sim (PI §553. o conjunto de regras que determina um modo de aplicação.. enquanto o segundo “1” é aliado a uma quantidade: Ora. Os dois exemplos que se seguem. OC §61). Um modo de aplicação. Se nosso objetivo for o de estabelecer a distinção semântica. o . “Diga-se”. Como o significado pode ser considerado como o uso da expressão em um jogo de linguagem. 179 e Z §645). como o significado pode ser considerado como ouso de uma expressão segundo as regras de um jogo de linguagem. que partilham de certas regras com um mesmo paradigma justificador) (ver PI §§77. a cada modo de aplicação de uma expressão podemos fazer corresponder também um significado particular (Cf.e. O primeiro “1” é aplicado a uma determinada extensão (a de um metro). podemos concluir que. só é identificável como efeito de um dado conjunto ou sistema de regras. As semelhanças de família entre modos de aplicação equivalem. o “1” serve para designar uma extensão. se a identificação e um modo de aplicação específico corresponde também à identificação de um jogo de linguagem particular. certamente por apresentarem suficientes margens de similaridade com um paradigma justificador. 2 soldados’” (PI §552). o “1” serve para designar uma quantidade.79 aparentados entre si. a cada 2 metros. “uma frase como ‘a cada 1 metro está 1 soldado. pode efetivamente ser considerado como um jogo de linguagem. há vantagem em se dizer que o número “1” é aqui aplicado segundo as regras de dois jogos de linguagem diversos. O primeiro exemplo foi exposto nas Investigações Filosóficas e versa sobre a diversidade dos modos de aplicação do número “1”. por sua vez. à margens de similaridade mantidas entre certas regras próprias de cada modo de aplicação. Segundo as regras do primeiro jogo de linguagem. Por conseguinte.

dependente não só de um conhecimento prévio da linguagem verbal. Alguém. poderia objetar que se assim fosse. 214-15). as quais devem ser inúmeras. Além disso. como acontece com a poesia (PI §531). diante do que dissemos. estes últimos casos podem ser conjuntamente considerados. PI p. não se justifica. é a isso que uma pessoa normalmente se refere quando afirma conhecer o significado de um conceito ou termo geral. ‘compreender’ pode significar “ser capaz de traduzir uma palavra em um gesto ou o contrário” (PG §5). quando . Mas se encontrássemos esta sentença entre as páginas de uma novela. não se poderia mais falar do significado do número “1” independentemente de suas aplicações particulares. como foi feito acima. Por exemplo: compreendemos a sentença “Depois que ele disse isso ele a deixou como no dia anterior” (PG §5) no sentido de que sabemos português. mas pode-se também compreender uma sentença em um sentido no qual tanto suas palavras quanto sua ordenação desempenham um papel único e dificilmente substituível. Neste caso. parece possível conceber seu uso em um jogo de linguagem que os inclua a todos. as aplicações particulares da expressão são abstraídas e a palavra tende a se preencher inteiramente de seu (múltiplo) significado (Cf. A existência de um significado geral das expressões foi reconhecida por Wittgenstein em sua análise de um conceito tipicamente caracterizado por apresentar uma diversidade de modos de aplicação com semelhanças de família entre si: o conceito de compreensão. Entre seus múltiplos modos de aplicação (significado) diferentes. Porém. que poderíamos traduzi-la para outra língua. porém. É também algo próximo a isso o que ocorre quando alguém emprega uma expressão de modo figurativo na leitura expressiva de uma poesia. Podemos. como os vários modos de aplicação de uma expressão são aparentados entre si por semelhanças de família. pode-se falar da compreensão de uma sentença no sentido de que ela pode ser substituída por outra que diga a mesma coisa. Esta conclusão. Juntamente com os anteriores. poderíamos dizer que a compreendemos em um sentido muito diverso. falar do ‘significado’ ao nos referirmos a um modo (ou conjunto de modos) de aplicação de uma mesma expressão. Aparentemente.80 conceito de número “1” pode efetivamente ser visto como dotado de dois significados distintos (se bem que aparentados). mas da familiaridade com as circunstâncias contextuais nas quais ela vem inserida. ‘Compreender’ pode igualmente ter significados diversos quando usado para designar o domínio de nossa linguagem verbal ou a familiaridade com certo conjunto de circunstâncias contextuais. o mesmo acontecendo com uma infinidade de outros termos. Tal se dá quando usamos a palavra ‘significado’ para designar o conjunto dos modos de aplicação de uma expressão geralmente conhecidos.

minimamente diferenciáveis entre si. o meu conceito de compreensão.i. Não é de se admirar que não possamos estabelecer regras estritas para seu uso (BB p.. Segundo estes últimos modos de aplicação da palavra ‘significado’. Eis o que deles escreveu Wittgenstein: Então ‘compreender’ tem aqui dois significados diferentes? . Podemos concluir que o que comumente chamamos de significado de uma expressão depende também aqui de nossos propósitos. pode-se prever. É fácil estabelecer aqueles significados. 28. os quais.Prefiro dizer que essas espécies de uso de ‘compreender’ formam seu significado. pois para cada modo de aplicação particular (conquanto existam regras que o diferenciem dos demais) é possível fazer corresponder um significado algo diferente. II) quando a palavra ‘significado’ é usada para designar modos de aplicação particulares de uma expressão segundo sistemas de regras de jogos de linguagem particulares. . formados por conjuntos identificáveis de modos de aplicação mais simples. as expressões de nossa linguagem são geralmente polissêmicas. tal como o exemplificamos com o conceito geral de compreensão. há uma variedade de casos possíveis. Somente quando falamos de certos modos ou conjuntos de modos de aplicação de uma expressão ou termo geral. Com relação a uma expressão (conceito ou termo geral) com semelhanças de família. E há palavras das quais alguém poderia dizer: elas são usadas de mil diferentes maneiras que fundemse gradualmente umas nas outras. certos de não estarmos tratando com ficções gramaticais. pode-se falar de dois modos de aplicação da palavra ‘significado’ que se encontram em extremos opostos: I) quando a palavra ‘significado’ é usada para designar o conjunto de todos os modos de aplicação de uma expressão segundo os sistemas de regras de todos os jogos de linguagem aparentados nos quais ela pode ser empregada . quando pressionados por diferentes circunstâncias (critérios). em uma outra ocasião. Uma conclusão que Wittgenstein se permitia generalizar de uma maneira surpreendente: Há palavras com vários significados claramente definidos. somos levados a chamar de ‘significado’ de uma expressão. Pois quero aplicar ‘compreender a tudo isso’ (PI §532).e.81 nosso propósito for enfatizar o seu parentesco comum em um “significado geral” do conceito. Entre estes extremos. grifos nossos). o significado geral da expressão. referimo-nos ao seu uso efetivo em circunstâncias práticas.

escolher sobre qual de suas faces irá se desenvolver a maior porção de sua obra. . porque se assim fosse.jogos de linguagem . Começamos. formas de vida e semelhanças de família. jogos de linguagem.82 CONCLUSÃO No capítulo introdutório. empenhamo-nos em descrever os elementos essenciais do esboço teórico que encontramos subjacente à filosofia de Wittgenstein. i. teoria (“metafísica”) e método (terapia) são. vimos como as regras que determinam o uso das expressões não funcionam isoladamente. regra. contudo.que determinam os modos de uso ou aplicação das expressões. tais como os de uso.e. no capítulo II. em filosofia. Caberá ao temperamento e às aptidões do filósofo. No capítulo III. mas como um método terapêutico. Primeiro: que a filosofia terapêutica não se opõe à filosofia como teoria. costumando articular-se entre si de maneiras variadas. cairíamos em uma situação de “catástrofe semântica” que esvaziaria a própria noção de significado. o estabelecimento do que seria o esboço de uma teoria do significado. Ao que parece. as duas faces de uma mesma moeda filosófica. O próprio Wittgenstein. procurando evidenciar duas coisas. seu uso de acordo com regras. feito a partir de uma interpretação da última fase da filosofia de Wittgenstein. critério. havíamos apresentado como objetivo deste trabalho. pelo esclarecimento da aparentemente enigmática identificação feita por Wittgenstein entre significado e uso. Do capítulo II ao capítulo IX. Esta tarefa foi concebida como um trabalho de elucidação e estabelecimento de relações sistemáticas entre os vários conceitos-chave de sua filosofia. O significado é o uso correto de expressões. Vimos que o significado não pode ser entendido como o uso arbitrário de expressões. procuramos tornar evidente que a concepção austiniana de filosofia como “protociência” (teoria). Para contornar esta dificuldade.. constituindo assim diferentes sistemas de regras . Segundo: que a filosofia terapêutica parece dever a sua verdadeira eficácia a um saber teórico pressuposto. não parecia pensar em sua filosofia como teoria.

Uma “teoria” que não é mais do que um vago. segundo a qual. do que trazer confirmação à nossa hipótese inicial. sendo seu uso determinado por regras. for relacionada aos contextos que a envolvem . gramatical e antropológica. Assim. esquemático e fragmentário esboço do que se nos afigura como um vasto . poderá ser múltiplo. assim como nos capítulos subseqüentes. Os resultados acima sintetizados nada mais fazem.83 Ainda no capítulo III. variando na dependência do sistema de regras (jogo de linguagem) no qual ela estiver sendo empregada. A noção de forma de vida designa esta ambigüidade dos contextos. mas também toda sorte de instituições. No capítulo VII. o significado de uma mesma expressão. por intermédio de relações criteriais (regras). ao mostrar mais de perto a maneira como os contextos acima mencionados incluem. circunstâncias e atividades que forma o “agir comum” dos seres humanos em um agrupamento social. Por esta razão. da qual decorre naturalmente uma semântica. por sua vez. introduzimos a noção de semelhanças de família. podem servir de critérios. parece igualmente correto falarmos de um “significado geral” da expressão. Efetivamente. Em decorrência disso. vimos que os jogos de linguagem não incluem entre seus elementos apenas signos lingüísticos. Finalmente. sob cuja luz retornamos ao problema não tematizado da multiplicidade das aplicações (significados) de uma mesma expressão em diferentes jogos de linguagem.o que nos permite situá-la em um jogo de linguagem específico. mostramos que é correto considerar uma expressão como polissêmica em decorrência da possibilidade dela ser aplicada em uma diversidade de jogos de linguagem. ela ganha determinado significado na medida em que. em nossa opinião. aludindo assim à inserção da linguagem em seu fundamento antropológico. Estabelecemos assim condições para uma mais adequada apreciação do conteúdo da formula expressa no capítulo II. Todavia. situações. o significado de uma expressão consiste em seu uso segundo as regras de jogos de linguagem pertencentes a uma forma de vida. evidenciamos a abrangência e a especificidade próprias da concepção de linguagem em Wittgenstein. Quando uma expressão é usada. parece existir uma teoria da linguagem no segundo Wittgenstein. definidos como termos antecedentes das relações prescritivas que são as regras. As entidades que constituem estes contextos. como estes jogos exibem semelhanças de família entre si. não só conjuntos de signos representacionais. Eles incluem também os contextos (definidos como conjuntos socialmente reconhecíveis de entidades relacionadas de certa maneira) nos quais aqueles signos vêm situados. nos dois últimos capítulos. quando consideramos o conjunto destes jogos de linguagem aparentados como um único e mais complexo “jogo de linguagem”. concebemos os contextos como portadores de uma dupla dimensão.

bem como de seu relacionamento com as aquisições da filosofia e das ciências contemporâneas. o adequado estabelecimento desta teoria. necessariamente limitado. Um risco que. em nosso entender. por certo. conquanto tivermos induzido o leitor cético a uma renovada reflexão em torno dos temas aqui abordados. . podemos chamá-la de ‘teoria’ na medida em que o aprofundamento de seus conceitos parece demonstrá-los cada vez mais capazes de serem articulados em um sistema fornecedor de um representação simbólica em nível metalingüístico da estrutura e funcionamento gerais da linguagem. pode ser corrido. Acreditamos ser um trabalho para as futuras gerações de intérpretes. bem como da maneira como suas expressões adquirem significado. Um trabalho como o nosso. esquematizar e distorcer o pensamento de Wittgenstein. correndo o risco de empobrecer. feito a partir de um complexo exame da filosofia de Wittgenstein. Não obstante. que se pretende sistematizador.84 quebra-cabeças do qual nem todas as peças encontram-se à disposição. é.

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(Oxford. Inglesa de D. 1968). Z Zettel. Trad. BB The Blue and Brown Books. Foi utilizada também a tradução para o português de J. E. O Observationes (Vermischte Bemerkungen).90 APÊNDICE GLOSSÁRIO: Abreviações referentes à obra de Wittgenstein: TLP Tractatus Lógico-Philosophicus. PR Philosophical Remarks (Philosophische Bemerkungen). OC On Certainty. Von Wright. Bruni (S. Paulo. Paul e G. 1961). Trad. . Trad. Inglesa de A. E. ed. Pears e B. McGuinness (London. PG Philosophical Grammar (Philosophische Grammatik). 1967). C. McAlister e M. Trad. M. C. Inglesa de G. Trad. 1981). 1979). PI Philosophical Investigations. Frost (México. H. M. Espanhola de E. RC Remarks on Colours. E. 1978. Anscombe (Oxford. Trad. Anscombe (N. Trad. F. trad. Coleção de notas selecioandas por G. White (Chicago. Kenny (Los Angeles. Inglesa de G. inglesa de L. Hargreaves e R. Anscombe (Oxford. Schattle (Berkley. E. 1978). L. York. 1977). RFM Remarks on the Foundations of Mathematics. 1975). F. Trad. Inglesa de D. Inglesa de G. 1975). Inglesa de R. Anscombe (Oxford. 1978). M. M. Biligue).

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