COLUNA DA REVISTA O GLOBO (15/4/2012

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Sobre a classe média

Não gosto de axé. Nem de pagode. Nem mesmo de sertanejo universitário. Por isso, não custa nada perguntar: dá para tocar outra coisa? Como qualquer brasileiro, me orgulho muito da nova classe média e dos oito milhões de conterrâneos que chegaram à sociedade de consumo nos últimos tempos. Consumo para todos! Mas, veja bem, para todos, o que inclui a velha classe média. É democrático o fato de voos comerciais poderem ser pagos em 17 vezes. Mais gente viajando, mais gente fazendo turismo, nem me incomodo com os aeroportos superlotados. Mas, vem cá, dá para variar o cardápio? Ou vou ser obrigado a comer barrinha de cereal para o resto da vida? Alguém já perguntou se a velha classe média gosta de barrinha de cereal? Eu não gosto. Dá pra sair um sanduíche de queijo com suco de laranja? Pela primeira vez na história deste país, a classe média representa mais da metade da população. Foi preciso a ascensão da classe C para que isso acontecesse. Políticas de pleno emprego, aumento de salário, facilitação do crédito, projetos sociais _ tudo deve ser saudado, mas, por favor, pensem no trauma que vem sofrendo a velha classe média. Cresci aprendendo que profissão para valer era engenheiro, médico ou advogado. Se o sujeito não tivesse aptidão para uma dessas três categorias, tentava um concurso para o Banco do Brasil ou para a Caixa Econômica. Agora, todos gritam no meu ouvido: empreendedorismo! O certo seria ter aberto um salão de beleza, um serviço de comida pronta, uma padaria... Tarde demais! Ensinaram-me a fechar o mês sem contas a pagar. Agora, o governo me alicia: Crédito! Crédito! Crédito! E eu não quero comprar uma TV de plasma, nem um segundo telefone celular, nem quero passar férias em Porto Seguro. Na verdade, estou pensando em vender o meu freezer, o meu forno de microondas e a minha secretária eletrônica. Tornei-me um estranho no ninho. Sou da velha classe média. A nova classe média virou objeto de pesquisa de tudo aqui no Brasil. Tem marca de eletrônicos que produz aparelhos especialmente para os novos consumidores. A tal marca descobriu que “o consumidor da classe C ama música em alto volume. O lazer se concentra nos churrascos de fim de semana, onde ocorre a confraternização. O aparelho de som é o elo entre os familiares e os amigos. Nasceu assim o primeiro minisystem para a classe C, cuja caixa de som tem potência três vezes superior à de um aparelho de som comum.” Tá puxado. Sejam bem-vindos ao paraíso os que ganham entre R$ 1.200 e R$ 5.174 por ano. Mas tem que ter lugar para todo o mundo. Eu quero de volta o meu filme legendado na TV e torço pela possibilidade de passar um intervalo comercial inteirinho sem assistir a um anúncio do Supermarket. Onde foi parar a televisão da velha classe média? Sempre fui noveleiro, nunca

cultura contemporânea. representar e propor relações humanas caminham . mas também os fluxos financeiros e suas implicações na cultura local. contemporary culture. a sympathetic globalization. Palavras-chave: globalização. Globalizar o conhecimento e seu uso. Assisti às novelas de Ivany Ribeiro em versão original. mas não é mundial como um todo senão como metáfora. analisando o papel das empresas na internacionalização do capital. Eu quero de volta a minha novela de Gilberto Braga! GLOBALIZAÇÃO E GEOGRAFIA EM MILTON SANTOS Wagner Costa Ribeiro Departamento de Geografia Universidade de São Paulo Globalização e geografia em Milton Santos(Resumo) Em seus últimos livros. Milton Santos tratou da globalização. Milton Santos "O espaço se globaliza. propondo. ao final de sua vida. mocinha cozinheira e galã jogador de futebol. 1993). Mas não aguento mais tramas ambientadas na comunidade. He approaches her economics aspects. Key words: globalization. Essas possibilidades de pensar. baseada em outros valores que a da hegemônica.tive vergonha disso. Todos os lugares são mundiais mas não há um espaço mundial. Ele abordou seus aspectos econômicos. geography. Viver um mundo mais solidário. Definir a inserção dos lugares em uma rede de relações humanas de modo a valorizar a singularidade em meio à totalidade. The Brazilian geographer theorethicalied and criticized about this aspects of contemporary world. establish in other values than the hegemonic view. sambão na trilha sonora. but also the financial fluxes and their implications in the local culture. Milton Santos Globalization and geography in Milton Santos (Abstract) In your last books. analyses the role of enterprises in the capital’s internalization. Estas idéias são tratadas em um diálogo com autores que também estudaram a globalização e suas conseqüências. O geógrafo brasileiro teorizou e criticou sobre estes aspectos do mundo contemporâneo. in the end of her life. Those ideas are treating making a dialog with authors who too study the globalization and her consequences. Milton Santos treated the globalization. Quem se globaliza mesmo são as pessoas" (Milton Santos. uma globalização solidária. proposing. geografia.

Ela chegou a propor uma outra globalização. Este artigo aborda a interpretação do geógrafo brasileiro sobre a globalização. tratada em sua dimensão cultural. porém sem configurá-la com maior precisão" (Ribeiro. em meados da década de 1980. para onde as pessoas vivem seu cotidiano. segundo as categorias tempo/espaço. Depois disso. 2001). baseada na solidariedade. Ao reafirmar o mesmo. no âmbito do sistemamundo. sejam financeiras ou voltadas à produção. o que destoa completamente da idéia de cidadania (Ribeiro. ao olhar para o lugar. como satélites artificiais. que afirma o mesmo a partir da introdução de identidades culturais diversas que se sobrepõem aos indivíduos. promovendo um diálogo com outros autores que trataram do tema. A globalização é discutida. houve quem afirmasse estarmos diante de um cidadão global. econômica e por fim. 1995:18). a globalização reflete nos Estados-nação exigindo um protecionismo que em tese se contradiz com a demanda "livre e global" apregoada pelos liberais de plantão. A obra de Milton Santos pertence ao grupo de intelectuais que buscam o pensamento crítico a esse estado da vida contemporânea. que permitiram acelerar a circulação de informações e de fluxos financeiros. Em diversas passagens de seus livros e artigos ele afirmou pretender construir um mundo diferente daquele em que vivemos. Mas o autor queria mais. resultando em conflitos que muitos tentam dissimular como competitividade entre os Estados-nação e/ou corporações internacionais. Porém. associando-a à difusão de novas tecnologias na área de comunicação. Além disso. . embora reconhecesse que ela afetou a cultura atual. a busca incessante por recursos naturais e a intensa exploração do trabalhador. a globalização econômica não consegue impedir que aflorem os outros. Por fim. A globalização é fragmentação ao expressar no lugar os particularismos étnicos. definido apenas como o que está inserido no universo do consumo. muitos intelectuais dedicaram-se ao tema. O que é globalização? A difusão do termo globalização ocorreu por meio da imprensa financeira internacional.na contramão da história. Tornada paradigma para a ação. na pós-modernidade e à luz dos conceitos de nação. Ao contrário. 1995). ressaltam-se as suas vantagens aparentes. mesmo diante da diminuição de postos de trabalho. Porém "No debate sobre a globalização não temos encontrado análises que consideram os fragmentos que ele acarreta. identifica-se o lado perverso e excludente da globalização. mercado mundial e lugar. ela foi definida como um sistema cultural que homogeneíza. entre outras. solidária. redes de fibra ótica que interligam pessoas por meio de computadores. religiosos e os excluídos dos processos econômicos com objetivo de acumulação de riqueza ou de fomentar o conflito (Ribeiro. nacionais. Globalização passou a ser sinônimo de aplicações financeiras e de investimentos pelo mundo afora. Infelizmente verifica-se a predominância da competição desenfreada por mercados e tecnologias. em especial quando os lugares ficam nas áreas pobres do mundo. A obra de Milton Santos contribuiu para precisar o fenômeno da globalização.

Harvey indica que não se pode esquecer que o capital também circula com o . resultado do mosaico pós-moderno lançado nas últimas décadas. Reafirmando idéias de Walter Benjamin.Globalização e cultura Diferente do que afirmam alguns pesquisadores. entendida como expressão da cultura. que afirma estarmos diante de uma completa estetização da realidade. Como exemplos cita redes de alimentos e marcas de produtos de consumo que seriam facilmente identificáveis de um estilo de vida global. É no lugar que a cultura vai ganhar sua dimensão simbólica e material. para quem a lógica do consumo esta baseada no uso planejado de signos que destituem o objeto de finalidade tornando-o simplesmente algo a ser comprado. Mas nem todos pensam assim. definidora mesmo de uma nova subjetividade estimuladora da compra do bem divulgado por ela. objeto de uma razão global e de uma razão local. ao mesmo tempo. torna-se cada vez mais difícil conceituar uma experiência específica da imagem que se distinguiria de outras formas de experiência" (Jameson. na mesma medida. 1994:120-121). cujos signos estariam dispersos pelo mundo. na interiorização de valores externos aos consumidores. não faz muito sentido evocar uma teoria distinta do estético. como o francês Jean Baudrillard (1991). um novo estado de apreender a cultura e o conseqüente abandono da busca da singularidade na produção cultural. Jameson demonstra preocupação com os efeitos desse processo na cultura. a importância de estudar os lugares reside na possibilidade de captar seus elementos centrais. pode representar uma transitoriedade permanente. O geógrafo David Harvey participa deste debate polemizando com Baudrillard. nacionais. Mas concorda com a subjetivação da cultura. que tenderia a ser homogênea. O sociólogo brasileiro Renato Ortiz (1994) afirma que existe uma cultura mundializada que se expressa na emersão de uma identidade cultural popular. então. Ele acredita que o francês exagera em sua representação do simulacro por meio das imagens caricaturando a sociedade dos Estados Unidos. Para ele. regionais e locais. do sistema de valores. escreve: "se tudo é estético. suas virtudes locacionais de modo a compreender suas possibilidades de interação com as ações solidárias hierárquicas. a partir da globalização. Esse processo ocorre baseado na subjetividade. se toda a realidade tornou-se profundamente visual e tende para a imagem. Milton Santos concebe que "cada lugar é. convivendo dialeticamente" (Santos. Outro autor relevante na análise da cultura contemporânea é o professor de literatura Fredric Jameson. que acabam seduzidos por apelos da propaganda. em que o seu valor é a criação" (1991:120). que acreditam no estabelecimento de uma homogeneização da cultura. escreve que a facilidade de reprodução da "arte". A apropriação da cultura pela esfera do consumo foi analisada por muitos autores. marcada pela facilidade com que a informação chega às pessoas. 1996:273). combinando matrizes globais. Crítico a quem interpreta o mundo por essa via. Para Baudrillard "o objeto perde a finalidade objetiva e a respectiva função tornando-se o termo de uma combinatória muito mais vasta de conjuntos de objetos.

Ela configura um meio-técnico-científico internacional "no qual a construção ou reconstrução do espaço se dará com um conteúdo de ciência e de técnica" (Santos. em formas urbanas reproduzidas a partir de modelos de arquitetura oriundos de países hegemônicos. o geógrafo brasileiro dá pistas de como conduz sua reflexão sobre a . As técnicas. tal qual preconiza a arquitetura de países temperados. Para Santos. dos processos de trabalhos que os produziram ou das relações sociais implicadas em sua produção" (1992:270-271). abundante nos trópicos. Para Harvey "por meio da experiência de tudo – comida. televisão. Quando afirma. uma megacidade brasileira localizada em plena faixa tropical. Estes objetos culturais fazem com que "a natureza conheça um processo de humanização cada vez maior. No processo de desenvolvimento humano. como entende Baudrillard. O entrelaçamento de simulacros da vida diária reúne no mesmo espaço e no mesmo tempo diferentes mundos (de mercadorias). na qual identificam-se milhares de prédios envidraçados. mais humanizada. históricos" (Santos. montando um imenso sistema de produção cultural baseados na produção de subjetividade por meio da propaganda. como consta na epígrafe deste artigo. 1988:89). refrescando o ambiente. a que podemos chamar de formas ou objetos culturais. mais artificializada. não há uma separação do homem e da natureza. Mas o esteticismo a que se refere Jameson prevalece e a paisagem paulistana aquece quem vive nela. formando uma paisagem estética. Isso é facilmente observável na paisagem de São Paulo.. sintetizados. a cada dia mais. que oprimem o singular. que "quem se globaliza mesmo são as pessoas" (1993:16). O que seria essa paisagem estética? Um tecido urbano que contém valores culturais transpassados pela afirmação do mesmo. aumentando o consumo energético. música. 1991:11). artificiais. em meu entendimento.. A natureza se socializa e o homem se naturaliza" (Santos. como aponta o geógrafo espanhol Horacio Capel (2001). Seria muito mais simples edificar prédios segundo a boa arquitetura colonial brasileira. Mas ele o faz de tal modo que oculta de maneira quase perfeita quaisquer vestígios de origem.objetivo de ampliar-se nesse segmento da atividade humana. ainda que disso não se apercebam. quanto a circulação do ar. hoje todos os indivíduos trabalham conjuntamente. os ambientes produzidos por tal concepção resultam extremamente quentes. gerando a necessidade do uso de aparelhos para resfriar o ar. o resultado do trabalho de um maior número de pessoas. ganhando a cada passo elementos que são resultado da cultura. espetáculos e cinema –. vão incorporando-se à natureza e esta fica cada vez mais socializada. hábitos culinários. mais e mais. uma das críticas às cidades contemporâneas. hoje é possível vivenciar a geografia do mundo vicariamente. 1988:89). Isso leva a geografia de todos os lugares a cada lugar do mundo. Partindo de trabalhos individualizados de grupos. Torna-se cada dia mais culturalizada. por exemplo. com seus tetos elevados e amplas janelas que permitem desde a entrada de luz natural. o processo de sua tecnificação. como um simulacro. "o homem vai impondo à natureza suas próprias formas. A tecnificação a que se refere Santos permite o simulacro geográfico que Harvey discrimina. cada vez mais. Globalização econômica Neste aspecto a contribuição de Milton Santos foi bem mais ampla que no caso anterior. reduzindo a geografia a um simulacro. pois é. Ora. O processo de culturalização da natureza torna-se.

por exemplo. retém mesmo assim grande poder de disciplinar o trabalho e de intervir nos fluxos de mercados financeiros. há também um crescente reconhecimento de que o operariado. expressão que vai trabalhar em diversos livros. levando o capital a rever suas estratégias espaciais e locacionais. um ponto de partida para a apresentação de um sistema descritivo e de um sistema interpretativo da geografia" (Santos. Muitos outros autores discutiram o tema da globalização econômica. Para ele o espaço geográfico é um "conjunto indissociável de sistemas de objetos naturais ou fabricados e de sistemas de ações.globalização econômica. permitindo a acumulação capitalista por meio de uma flexibilidade geográfica e temporal. permite fluir e conduz. desconsideram a dimensão geográfica nos termos propostos por Santos. Ele está interessado no fluxo que o sistema de objetos. que analisa o mundo contemporâneo por meio da criação de novos mercados financeiros. porém. ao mesmo tempo. O geógrafo Edward Soja (1993) assinala que as mudanças no padrão produtivo mantiveram as desigualdades geográficas e a manutenção de lucros imensos por parte das transnacionais. portanto. Ele entende que apesar disso resta uma função importante ao estado-nação que "embora seriamente ameaçado como poder autônomo. enquanto se torna muito mais vulnerável a crises fiscais e à disciplina do dinheiro internacional. Para Santos. da regionalização e do regionalismo. A convergência dos momentos é possibilitada pela unificação técnica. Estou. a unicidade do motor é a direção centralizada. levando este último a uma era de riscos financeiros igualmente inéditos" (Harvey. nos mercados de trabalho e no consumo antes como um resultado da busca de soluções financeiras para as tendências de crise do capitalismo do que o contrário. coordenados em escala global. bem como todos os outros segmentos da sociedade que foram periferalizados e dominados. Simultaneamente. 1996:15). de Harvey. dado que ele materializa três de seus pressupostos: "a unicidade técnica. de um modo ou de outro. na forma de espaço geográfico. como vem ocorrendo desde o segundo pós-guerra. O espaço geográfico viabiliza a globalização. pela capacidade de comunicação em tempo real. para permitir fluir suas necessidades. Por fim. tentado a ver a flexibilidade conseguida na produção. Para Soja. a convergência dos momentos e a unicidade do motor" (1994:49). Estes temas são amplamente tratados pelo autor em sua obra A natureza do espaço: técnica e tempo. na qual propõe "um sistema de idéias que seja. deliberadas ou não" (1994:49). que podem ser facilmente apreendidas. É o caso. Isto implicaria que o sistema financeiro alcançou um grau de autonomia diante da produção real sem precedentes na história do capitalismo. pelo desenvolvimento e . A unicidade técnica é entendida como a capacidade de instalar qualquer instrumento técnico produtivo em qualquer parte do mundo. Para ele "A instrumentalidade das estratégias espaciais e locacionais da acumulação do capital e do controle social está sendo revelada com mais clareza do que em qualquer época dos últimos cem anos. Ele vai ser produzido de acordo com as demandas de quem o idealiza. o espaço geográfico é uma funcionalização da globalização (1994:48). exemplificada pela direção do mundo econômico e das finanças pelos executivos que atendem aos interesses dos donos das empresas transnacionais e do sistema financeiro internacional. 1992:181). razão e emoção (1996). isso reafirma a geografia por meio da emergência da espacialidade.

Para o geógrafo brasileiro o que existe é um "mercado hierarquizado e articulado pelas firmas hegemônicas. quanto mais se mundializa valor. mesmo. internos. em alguns casos. resultando no desenvolvimento desigual como produto e premissa para o capital. 1993:210). Para ele. Ele escreveu que "o capitalismo se defronta com sua própria criatura. a força de trabalho. Para o geógrafo brasileiro Armando Correa da Silva. nacionais e estrangeiras que comandam o território com apoio do Estado" (Santos. Esse entendimento é partilhado por outro geógrafo. Porém. Santos entende que o desenvolvimento desigual é combinado é resultado de "uma ordem.. Sua significação é dada pela totalidade de recursos" (Santos. 1991:13). afirma que a globalização seria um novo paradigma (Ianni. Já o sociólogo brasileiro Otávio Ianni. Neil Smith (1988). quer seja o capital. não deixa de reconhecer uma certa subordinação aos imperativos externos ao afirmar que "os recursos totais do mundo ou de um país.. 1993:77). o processo de transformação de uma totalidade em outra totalidade" (1996:101). saúde. interlocutor de Milton Santos. a população. externos" (Ianni. dividem-se pelo movimento da totalidade. cuja inteligência é apenas mediante o processo de totalização.. mais necessários se tornam os mecanismos nacionais e. numa multiplicidade de locais.reestruturação capitalistas. ou seja. Mas ele entende que ocorre um esvaziamento do estado-nação pelo capital. precisam procurar criar contra-estratégias espacialmente conscientes em todas as escalas geográficas. 1996:131). a fim de competir pelo controle da reestruturação do espaço" (Soja. 1988:221). "o desenvolvimento desigual é a desigualdade social estampada na paisagem geográfica e é simultaneamente a exploração daquela desigualdade geográfica para certos fins sociais determinados" (Smith. através da divisão do trabalho e na forma de eventos (. pois gerou um modo de produção e de gestão da política inovadores. 1992:43). que transforma "as sociedades nacionais em dependências da sociedade global" (1992:44). O professor Milton Santos discorda dos que viram um esvaziamento da função do estado. destaca que a sociedade civil ganhou uma dimensão mundial tratando de temas como "direitos humanos.. De uma parte. o excedente etc. logo se revelam internacionais. Cada momento histórico (. políticos e culturais que sempre pareceram nacionais. educação. isto é. a combinação de desigualdades geográficas é inerente ao desenvolvimento capitalista. econômicos.. A atual centralização descentralizada do Globo tem algo a ver com isso. Assuntos sociais. conhecer os recursos e potencialidades de um estado-nação passam a ser vitais para a inserção no cenário da "globalização relacionada à esfera do capital" (Silva. regionais. dívida externa. meios de comunicação de massa. narcotráfico. Assim.). Em outra obra. satélites e outros itens.) acarreta uma diferenciação no interior do espaço total e confere a cada região ou lugar sua especificidade e definição particular. a centralização dá origem ao seu contrário: . proteção do meio ambiente. 1995).

A retomada do papel do estado é partilhada pelos geógrafos espanhóis Joan Font e Joan Rufí. regalias de um consumo elitizado como o turismo e as viagens. quando escrevem que "Podría decirse que en muchos casos se asite a una renacionalización de los estados. a tensão entre o local e o global é um fato que deve ser entendido por meio do papel da formação social nacional. Ainda que tenha afirmado em mais de uma vez que não . restringindo o fluxo de pessoas ao limite do desejável. Las formas que toman estos procesos pueden ser muchas y más o menos explícitas. presunta o efectiva. porém.. o ‘Mundo’ necessita da mediação dos lugares. é apenas um conjunto de possibilidades. o Lugar. Nem o consumidor de bens imateriais ou culturais. o geógrafo brasileiro estava mais preocupado em construir um sistema teórico que permitisse elaborar outra maneira de congregar pessoas em escala internacional. ampliando espacialmente os mercados"(Silva. obriga a formação de grandes alianças territoriais. e as diversões pagas.os movimentos separatistas e regionalistas. o automóvel.) Mas o território termina por ser a grande mediação entre o Mundo e a sociedade nacional e local. fragmentación interna" (Font e Rufí. Para se tornar espaço. Em suas palavras encontra-se um posicionamento claro contra o consumismo que conduz o modelo de reprodução do capital. entre outros.. que buscam ampliar o território apenas para a circulação de mercadorias. Propunha a solidariedade como medida para a relação. o espaço como um todo. (. 1996:271). que "funciona como uma mediação entre o Mundo e a Região. cuja efetivação depende das oportunidadesoferecidas pelos lugares. em sua funcionalização. Num dado momento. Na formação social nacional verifica-se uma fusão de acontecimentos. ou de bens conquistados para participar ainda mais do consumo. A globalização solidária Menos que ser contrário à globalização. De outra. pseudo-educação que não conduz ao entendimento do mundo" (1987:41). dependiendo de las circunstancias de cada estado y de cuál sea el adversario al que se quiere dar respuesta: la globalización o la. nesse movimento.) O Mundo. já que. os clubes. 2001:90). o ‘Mundo’ escolhe alguns lugares e rejeita outros e. o Mundo depende das virtualidades do Lugar" (Santos. como a educação profissional. a casa própria. Ela é também mediadora entre o Mundo e o território" (1996:270).. 1993:77). ilusões tornadas realidades como símbolos. Para Santos. mas. Já em meados da década de 1980 Santos apontava sua compreensão da cidadania. os objetos. o Nafta. É o lugar que oferece ao movimento do mundo a possibilidade de sua realização mais eficaz. escrevendo que "o consumidor não é cidadão. apenas. o Mercosul. (. modifica o conjunto dos lugares. espaços da globalização. que deveria ser praticada em prol da cidadania. as coisas que dãostatus. Distinguia os consumidores dos cidadãos.. como expressa a seguinte passagem da obra do geógrafo brasileiro: "Não existe um espaço global. segundo as virtualidades destes para usos específicos. Esse rearranjo das relações sociais contemporâneas afirmado por Silva produz blocos de países como a União Européia. Nem o consumidor de bens materiais.

perder a esperança. sem descartar a base técnica que sustenta a globalização econômica e financeira: "a materialidade que o mundo da globalização está recriando permite um uso radicalmente diferente daquele que era o da base material da industrialização e do imperialismo" (Santos. que "não é forçosamente cidadão. por meio de crenças. com qualidade de vida. a partir de uma concepção de mundo" (1987:4142). isto é. provido de água. Em sua argumentação não restava lugar entre os cidadãos nem mesmo para o eleitor. porque os progressos técnicos (. 2002:80). como definiu (Santos. um outro tipo de globalização" (Santos. Isso é o que dele faz o indivíduo em busca do futuro. com assistência médica e alimento de qualidade são características que sintetizariam o cidadão do mundo contemporâneo. Enfim. todavia. em obra que marcou sua inserção teórica entre os geógrafos brasileiros. Sua visão otimista do futuro é expressa no trecho abaixo: "Não cabe. habitando um ambiente agradável e sustentável. Aproveitar a base material da existência é algo coerente com sua maneira de pensar. ocaso e criação da cidadania. que todos os dias reduz a mão-de-obra. Milton Santos queria um mundo diferente. Poder projetar o futuro. reduziriam drasticamente as doenças e a mortalidade. Ele propunha uma revisão da globalização. 2000). não há cidadão no mundo entre os que apregoam os valores da sociedade ocidental. que deveria ser "mais humana" (2000:20). Cada dimensão se articula com as demais na procura de um sentido para a vida. então. Um mundo solidário produzirá muitos empregos. para permitir uma efetiva integração de laços culturais distintos que permitam a construção do "acontecer solidário". Quem seria. Já em 1978. Construir relações humanas baseadas na solidariedade era um desejo de Milton Santos.. aqueles que imaginam estar fora do reino dos mortais haja visto estarem focados em bens imateriais.gostava do tema. em manifestações do espírito por meio das artes e da informação. calor e energia na medida adequada. E ele atacava ainda os consumidores de artigos da chamada indústria cultural. 2000:164). É possível pensar na realização de um mundo de bem-estar. onde os homens serão mais felizes. Essa é a proposta do geógrafo baiano: alterar o uso da base técnica criada para a circulação de capital para veicular valores humanos. o cidadão para Milton Santos? "O cidadão é multidimensional.) bastariam para produzir muito mais alimentos do que a população atual necessita e. manifestações culturais e práticas sóciopolíticas. escrevia que . pode-se identificar também uma inquietação ambientalista em seu posicionamento claro contra o desperdício de material. ampliando um intercâmbio pacífico entre os povos e eliminando a belicosidade do processo competitivo. Neste sentido. aplicados à medicina.. 1987:41). pois o eleitor pode existir sem que o indivíduo realize inteiramente suas potencialidades como participante ativo e dinâmico de uma comunidade. poder expressar sua maneira de entender o mundo. em meu entendimento. vislumbrar perspectivas dignas da existência. O papel desse eleitor não-cidadão se esgota no momento do voto" (Santos.

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é “Por uma outra globalização”. O mundo. que ganhou o prêmio do público em Brasília. ele entende que a globalização é um processo inevitável. apesar de o fenômeno ser inevitável. A última entrevista que ele deu foi à revista Caros Amigos. os pontinhos vermelhos do mapa. Santos diz que tudo isso funciona muito bem sim. Ao contrário do que percebo do pensamento esquerdista. potencializada pelas novas tecnologias. Parece que o livro fundamental de Milton. deixando de beneficiar apenas os países mais ricos em detrimento dos mais pobres. até comprei pro meu tcc. se viu o exercício de tal conceito sendo praticado no Brasil. segundo Santos. vem ocorrendo em diversos níveis desde os Grandes Descobrimentos. . nunca antes. Esse processo. publicado em 2000. pode ser diferenciado em três características. o mundo como ele é e o mundo como pode ser – uma outra globalização. Parece não existir um nacionalismo mítico ou gratuito. é possível mudar a forma como se processa. O mundo como nos fazem ver. Para ele. Em “Por uma outra globalização” Santos argumenta que a globalização. O comentário que o G1 publica sobre o documentário é que A concepção que o pensador tem sobre o processo de globalização é o que mais interessa no filme. mas só para aqueles que já são incluídos. [acesse o mapa na postagem: Segregação socioespacial no mapa mundial de acessos à internet] e não como forma de inclusão e exercício de cidadania – que para ele.e direção do cineasta Silvio Tendler o longa leva às telas a biografia e pensamento do geógrafo mineiro. compressão do espaço-tempo e adeia global. para ele. se contrói em torno de três fábulas que logo associo à internet – desterritorialização. um ano antes de sua morte. no séculos 15 e 16. Mas Milton ressalva e diz que é uma perversidade o modo como a globalização vem se constituindo. e muito menos agora.

Por uma globalização mais humana A globalização é o estágio supremo da internacionalização.15/10/2009 . nos fins do século 19.07h35 Leia "Por uma globalização mais humana". e. em suas novas formas. agora. da Publifolha. a informação pode se difundir instantaneamente por todo o planeta. O mundo inteiro torna-se envolvido em todo tipo de troca: técnica. Graças às novas técnicas. e o conhecimento do que se passa em um lugar é possível em todos os pontos da Terra. texto do geógrafo Milton Santos da Folha Online Leia abaixo um texto do livro "O País Distorcido". tornado indispensável à produção e ao intercâmbio e fundamento do consumo. . O processo de intercâmbio entre países. Todo o planeta é praticamente coberto por um único sistema técnico. comercial. expande-se com a industrialização.Paulo de 1981 até sua morte em 2001. Reprodução Livro resgata 20 anos de reflexões de Milton Santos sobre o Brasil Vivemos um novo período na história da humanidade. que marcou o desenvolvimento do capitalismo desde o período mercantil dos séculos 17 e 18. ganha novas bases com a grande indústria. que reúne textos publicados pelo geógrafo Milton Santos na Folha de S. A base dessa verdadeira revolução é o progresso técnico. obtido em razão do desenvolvimento científico e baseado na importância obtida pela tecnologia. mais amplitude e novas feições. adquire mais intensidade. cultural. financeira. a chamada ciência da produção.

ampliando um intercâmbio pacífico entre os povos e eliminando a belicosidade do processo competitivo. É a chamada globalização perversa. todavia. crescem o desemprego. a insegurança do cotidiano. Não cabe. constitui um dos grandes flagelos desta época. as grandes organizações internacionais. perder a esperança. Na realidade. que todos os dias reduz a mão-de-obra.A produção globalizada e a informação globalizada permitem a emergência de um lucro em escala mundial. A droga. Tudo isso é movido por uma concorrência superlativa entre os principais agentes econômicos -. um outro tipo de globalização. Um mundo solidário produzirá muitos empregos. e o que acontece em qualquer ponto do ecúmeno (parte habitada da Terra) tem relação com o acontece em todos os demais. aplicados à medicina. Infelizmente. O mundo parece. ao contrário do que se esperava. girar sem destino. se usados de uma outra maneira. num mundo que se fragmenta e onde se ampliam as fraturas sociais. todos os lugares tendem a tornar-se globais. E. Num mundo assim transformado. buscado pelas firmas globais que constituem o verdadeiro motor da atividade econômica. porque os progressos técnicos obtidos neste fim de século 20. bastariam para produzir muito mais alimentos do que a população atual necessita e.a competitividade. a pobreza. onde os homens serão mais felizes. Ela está sendo tanto mais perversa porque as enormes possibilidades oferecidas pelas conquistas científicas e técnicas não estão sendo adequadamente usadas. agora. uma aldeia global. Daí a ilusão de vivermos num mundo sem fronteiras. É possível pensar na realização de um mundo de bem-estar. com sua enorme difusão. as relações chamadas globais são reservadas a um pequeno número de agentes. reduziriam drasticamente as doenças e a mortalidade. . os grandes bancos e empresas transnacionais. alguns Estados. o estágio atual da globalização está produzindo ainda mais desigualdades. a fome.