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Winnicott e a adolescência

José Ottoni Outeiral Sandra Mª Baccara Araújo D.W. Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, escreveu textos importantes sobre a adolescência, tanto em artigos específicos sobre este momento evolutivo, quanto desenvolvendo idéias sobre a adolescência que constam de trabalhos sobre outros temas. Esse texto tentará trilhar o caminho que Winnicott fez no estudo da adolescência, tentando construir – rabiscar – um pouco da realidade do adolescente brasileiro. Um dos textos mais conhecidos sobre o assunto, foi escrito em 1961, como um capítulo do livro “A família e o desenvolvimento do indivíduo” (1980), com o título “Adolescência – lutando contra a depressão”. Neste texto o autor comenta sobre o interesse mundial que havia naquela época ( década de 60) pela adolescência e seus problemas. Esta década marca um período em que efetivamente o jovem começa a ser ouvido. É uma época de profundas mudanças sociais e culturais no mundo, mudanças estas impulsionadas por movimentos jovens. Desde o movimento hippie, à participação do jovem na política, ele se colocava em evidência. Crescem os estudos e produções literárias nos quais o jovem se torna “ ator” principal. Winnicott (1980) afirma: “Pode-se supor com segurança que há uma ligação entre este desenvolvimento de nossa consciência social e as condições sociais especiais em que estamos vivendo” p.98. Com toda esta mobilização, tornam-se mais evidentes os conflitos que normalmente eram vivenciados pelo adolescente. O filme “Juventude Transviada” realizado na década de 50 já mostrava isto. Discute-se ali as relações familiares, a necessidade do jovem de ser ouvido e respeitado, mas principalmente o importância do limite na estruturação da identidade adolescente. Winnicott no texto citado acima afirma que ”A cura para a adolescência pertence à passagem do tempo e aos processos gradativos do amadurecimento; estes dois fatores juntos, resultam no final, no surgimento de uma pessoa adulta” pp. 98/9. Interessante notar que a forma como a mídia, ou as pessoas que possam ter importância para o jovem, lidam com esta fase, também provoca nele uma expectativa de conduta que na maioria das vezes causa muita confusão. Definindo esta fase, Winnicott afirma que “O rapaz ou moça nesta faixa etária lida com suas mudanças puberais. Ambos chegam ao desenvolvimento total de sua capacidade sexual e as manifestações secundárias ligadas a uma história pessoal passada, e isso inclui um padrão pessoal de organização de defesas contra a ansiedade de vários tipos. Especialmente quando saudável cada indivíduo passou por uma experiência antes do período de latência de um Complexo de Édipo visceral, isto é, das duas posições mais importantes da relação triangular com os pais (ou pais substitutos); e houve (na experiência de cada adolescente) modos organizados de afastar as angústias ou de aceitar e tolerar os conflitos inerentes a essas condições essencialmente complexas. Além disso, derivadas das experiências dos primeiros meses de vida e da infância de cada adolescente, encontram-se certas características e tendências herdadas e adquiridas, fixações em tipos pré-genitais de experiência instintiva, resíduos de dependências infantil e da primitividade infantil; e, mais ainda, há todo tipo de padrões de doenças associados a fracassos de amadurecimento nos níveis edipianos e pré-edipianos. Deste modo, o menino ou

menina chega à puberdade com todos os padrões predeterminados, por causa das experiências iniciais da infância, e há muita coisa inconsciente, e muito que é desconhecido porque ainda não foi experienciado” p. 99. Suas colocações sobre o desenvolvimento psicossexual e a importância que confere ao Complexo de Édipo, situam DWW na tradição freudiana. Ele comenta ainda neste texto os seguintes aspectos: 1) A importância do meio ambiente na estruturação do adolescente. “Muitas das dificuldades dos adolescentes devidas às quais se procura ajuda profissional, derivam do fracasso ambiental, e este fato por si só enfatiza a importância vital do ambiente e do meio familiar no caso da grande maioria de adolescentes que de fato alcançam amadurecimento adulto, mesmo se durante o processo dêem dores de cabeça aos pais” p. 100. A confiança, mola mestra da relação com o mundo, é fruto da interação do amor dos pais pela criança, com a possibilidade de dizer não quando precisa, e sim quando deve, estabelecendo-se assim o limite que dará ao jovem mais tarde a segurança suficiente para não precisar sair desafiando o “mundo” através da sexualidade, das drogas, da velocidade e da agressividade. Só confiando poderá o jovem vivenciar a angústia típica desse momento. Recente pesquisa realizada na cidade de Brasília –DF, na qual foi perguntado aos adolescente qual sua maior preocupação, foi constatado que dos 1099 adolescentes entrevistados, 20% tem a família como sua maior preocupação. Esse tema foi o 2º mais votado pelos jovens. 35% responderam o estudo e 19% o trabalho. 2) A existência isoladamente ou de forma concomitante de “uma independência desafiadora e a dependência regressiva”p.100. Ele “quer” a liberdade, mas se sente “abandonado” com a falta de controle familiar. A comunicação da família nesse momento geralmente sofre uma pane. Se fala muito mas se comunica muito pouco. O adolescente do alto de sua onipotência sabe tudo. Os pais perdidos na dificuldade de ter um rumo norteador de suas decisões ou permitem que ele tome o “rumo” de sua vida, como se ele fosse capaz, ou criam uma confusão maior ainda com normas por demais maleáveis que dificultam a estruturação do limite. Nessa confusão o diálogo se torna impossível, e a relação normalmente se transforma num grande monólogo coletivo, onde todos falam, ninguém escuta, tornando impossível qualquer tipo de negociação. Reforça-se a onipotência do jovem, impedindo-o de experimentar a vivência da hierarquia familiar que o ajudaria a estruturar o sentimento de respeito pelo outro, pelo limite do outro. Essa impossibilidade lhe dificultará a delimitação dos papéis sociais, e consequentemente dos valores familiares. 3) “O adolescente é essencialmente um ser isolado. É desta posição de isolamento que é dada a partida que pode resultar em relações entre indivíduos e eventualmente em socialização”p.100. Winnicott comenta que os jovens repetem a fase infantil, repudiando inicialmente o não-eu, até que possam estabelecer relações com o mundo externo. Eles têm a tendência de vivenciar este momento em grupos pela adoção de interesse comuns, vivem esta experiência agrupados, mas tendem a retornar ao isolamento. O grupo entretanto desempenha um papel muito importante para o jovem como espaço de identificação e de vivência dos lutos. Ayres, em Outeiral (1998) afirma que “ Neste espaço transicional (grupo) o jovem pode vivenciar o imaginário como real. Deste modo tranquiliza-o permitindo-o vivenciar certo manejo onipotente dos desejos e com isso ir obtendo gradativamente a aceitação da realidade e a perda das fantasias infantis” p.345.

Importante observar que Winnicott aborda o que ele chamou a não aceitação pelos jovens de soluções falsas. levando-os a adotarem uma feroz moralidade. da contaminação pelo HIV. Observamos hoje um discurso social fragmentado.criação de um espaço protegido dentro do qual o adolescente poderá exercer sua espontaneidade e criatividade sem receio e risco.101 Winnicott prossegue fazendo articulações sobre o momento histórico que vive o adolescente. fazendo a conexão deste processo com a cultura.101. servir ao propósito de livrar-se do sexo ou podem ser uma descarga de tensões. De acordo com a forma com que estes vivenciaram ou não sua própria adolescência. mas ao mesmo tempo rejeita uma ‘cura’ atrás da outra. principalmente no exercício precoce da atividade sexual. novas questões se colocam despertando as ansiedades e fantasias dos adolescentes. Afinal esse fato deveria fazer parte do contexto sócio-cultural do qual o adolescente faz parte. reagirão ao resplandecer da adolescência a sua volta. uma vez que eles ainda se acham confusos quanto ao seu papel sexual. do espaço virtual. “A cura para os adolescentes é o passar do tempo. Precisamos nos lembrar que não existe conteúdo organizado sem um continente que lhe dê forma” p. com as quais o nosso jovem possa se identificar. sofrendo uma grande interferência por parte dos adultos que estão próximos a ele. a introdução do ciberespaço. DWW comenta ainda no texto as três mudanças sociais que no seu entender modificaram a vivência adolescente naquela época: a cura das doenças venéreas. tais como a velocidade das comunicações. particularmente o aparecimento da AIDS.4) Outro ponto comentado por Winnicott neste capítulo se refere à questão da sexualidade e do exercício desta. da era das imagens. à heterossexualidade. Estas eram mudanças significativas naquela época. com o avanço os métodos de anticoncepção.104. Hoje. e com o fim da Guerra Fria. O autor comenta ainda que “sem dúvida atividades homossexuais ou heterossexuais compulsivas podem por si mesmas. mostrando que enquanto um fator psicossocial.. Ele busca uma cura que seja imediata. que tem dificultado em muito a estruturação de valores e normas sociais pelos adolescente. Os objetos primários de identificação – pai e mãe – também tem falhado neste papel. Os paradigmas trazidos pela Pós-Modernidade. Falta à nossa sociedade figuras significativas. a banalização da violência. um fato que tem muito pouco significado para o adolescente. nesta idade.34. por causa de algum elemento falso nela ser detectado” p. Este o remédio prescrito por Winnicott. ou à uma vivência narcísica. estão a propor novas formas de pensar e de conduta. ele varia de cultura para cultura. na faixa de idade que abrange o crescimento púbere” p.. que representem uma postura de ética e moral. . de seus pais e da sociedade. e da retomada das doenças sexualmente transmissíveis. mostrando o conflito que se estabelece no jovem. associando este fenômeno ao conflito quanto a homossexualidade. Este alerta nos chama a atenção quando sabemos que na atualidade tem aumentado a incidência de gravidez precoce. com o retorno das doenças venéreas. Ele escreve: “Não é sinal de saúde de uma sociedade o fato de que os adolescentes possam ser adolescentes na hora certa. da crítica a muitos outros paradigmas da modernidade. o aparecimento do anticoncepcional e a bomba atômica. ao negar a ele o limite necessário para que ele como foi dito por Outeiral (1994) estruture a criatividade: “A criatividade na adolescência articula-se necessariamente com a noção de limite. da fragmentação. Com certeza se estivesse vivo Winnicott se assustaria ao ver as exigências que se faz hoje ao adolescente. isto é. mais do que uma forma de união entre seres humanos completos” p.

à ambivalência psiconeurótica e à atitude enganosa e auto-enganosa das pessoas sadias. A sociedade precisa incluir isto como um fato permanente e tolerá-lo. está associada à depressão psicótica com despersonalização.em um grupo as várias tendências estão sujeitas a ser representadas pelos membros mais doentes do grupo. .105 No que se refere à psicopatologia. afirmando que ao longo da vida. então pode ser esperado um fenômeno que poderia chamar-se depressão típica do adolescente. ligada à interrupção do desenvolvimento. no sentido de aquisição ou realização. Fazendo um comentário sobre o funcionamento grupal nesta etapa.A necessidade de sentir-se real ou de tolerar não sentir absolutamente nada. desde a aquisição do desenvolvimento normal. A questão é: nossa sociedade é saudável o suficiente para fazer isto?” pp. a ‘preocupação’ com a sobrevivência do objeto se fará presente. até uma desordem psicopatológica. Abram (2000). . A última parte deste trabalho toma uma interessante questão que DWW denomina “A adolescência sadia e os padrões patológicos”.A necessidade de desafiar em um meio onde a dependência é afrontada e onde se pode confiar a ponto de afrontar esta dependência. da experiência do self.A necessidade de afrontar repetidamente a sociedade.105/106. é encarada por cada indivíduo. Compara a necessidade de evitar situações falsas à incapacidade do paciente psicótico de aceitar uma fórmula de transação.105. um outro fica deitado na cama com depressão. depende daquilo que ocorreu entre a mãe e o bebê. que é quando o bebê passa a poder estabelecer as diferenças entre Eu e Não-Eu” p.. que preferiríamos chamar de tristeza. ao mesmo tempo colocados no lugar de figuras primárias. Ao definir o estágio de ‘concern’ – preocupação – Winnicott o relacionou à Posição Depressiva de Klein. ou se chegam a ela o fazem de uma maneira muito distorcida. Abordando a depressão ele esclarece: “ . aqui compreendida como um estado de ânimo.. quando nos defrontaremos com a ‘depressão’. ou de não sentirem nada. O conceito de depressão para o autor cobre um amplo espectro. reagir ativamente a eles até mesmo chegar a enfrentá-lo. mas não a curá-lo.. DWW comenta a depressão e a tendência antisocial. Por exemplo... . relacionado à “Posição Depressiva” descrita por Melanie Klein. por se verem desafiados..Winnicott busca estabelecer alguns aspectos que ele considera as necessidade do adolescente. O autor chama a atenção para a dificuldade dos profissionais que trabalham com os jovens. Ele considera que o adolescente normal apresenta características que se observam em diversos tipos de pessoas enfermas. pontuando e retornando a algumas idéias: . Além disso afirma que a necessidade de sentirem-se reais. e. Ele diz que muitos indivíduos são de tal maneira enfermos que não atingirão a adolescência. nos diferentes momentos do desenvolvimento. necessitando de acolhê-los como se acolhe a um bebê. DWW escreve: “. particularmente no período do desmame. ao explicitar o verbete depressão escreve que: “. se o adolescente deve passar este estágio de desenvolvimento pelo processo natural. um outro está à solta com um canivete” p. de modo que o antagonismo desta se torne manifesto e possa ser respondido com antagonismo” p..“A necessidade de evitar soluções falsas. . A necessidade de desafiar corresponde à tendência anti-social que aparece na delinquência. um membro do grupo toma uma overdose de uma certa droga. que se encontra em um padrão de dependência muito primitiva.111. a forma com que a depressão.

é uma característica essencial que o bebê tenha atingindo a capacidade de perceber que a causa do desastre reside numa falha ou omissão ambiental.. utilizar privação e deprivação. como Margarete Mahler. na etiologia de cada uma destas situações. Assim. o que nos remete ao conceito freudiano de trauma e ao conceito de trauma acumulativo de M. sim. abordada por vários autores. a questão relacionada com a ‘depressão psicótica’. O conhecimento correto de que a causa da depressão ou desintegração é externa e não interna. não está no quadro clínico. É necessário ressaltar que dois anos antes deste trabalho. portanto posteriores a este texto. DWW traz um importante contribuição a respeito do grupo de adolescentes. Khan .135 A criança anti-social procura. mas que foi perdido posteriormente. especialmente quanto ao desmame. mesmo que ambas brotem do mesmo tronco – a deprivação” p. publicada em1956. violenta ou gentilmente. determina o desenvolvimento de uma tendência anti-social. DWW explicita que a distinção entre as dificuldades da adolescência normal e a anormalidade que pode ser chamada de tendência anti-social. na falha ambiental. o desencadeamento de patologias graves. podemos. é responsável pela distorção da personalidade e pelo impulso para buscar uma cura através de novos suprimentos ambientais. na dinâmica. de um modo ou de outro. posteriormente foi perdido”. Ele escreve (1987): “Na base da tendência anti-social está uma boa experiência que se perdeu. pela depressão materna. em nosso idioma a distinção que na língua inglesa é possível estabelecer entre privation – “ausência de cuidados maternos” e por consequência. possibilitando uma percepção desse tipo. Este situação clínica. Anna Freud (1958) publicou o clássico “Adolescence”. a tendência anti-social indica que o bebê pode experimentar um ambiente suficientemente bom à época da dependência absoluta. comenta sobre o tema: “Tendência anti-social é uma expressão intrinsecamente vinculada à deprivação. comentando os processos depressivos e de luto na adolescência normal. ou tenta fazer o mundo reconstruir a moldura que foi quebrada. etc. De acordo com Winnicott. ocasionada por exemplo. Os trabalhos clássicos de Arminda Aberastury e Maurício Knobel (1985) sobre os lutos da adolescência e a Síndrome da Adolescência Normal são do início da década de setenta. O ato anti-social (roubo. ou por diferentes tipos e graus de intrusão. Sem dúvida. mas também partes de seu próprio self. considerando o idioma um organismo vivo e à maneira de Guimarães Rosa.39 Embora não tenhamos. Winnicott estabelece uma distinção entre a tendência anti-social e a delinquência. raiz da tendência anti-social . Em vários trabalhos. o ato anti-social é um sinal de esperança de que o indivíduo venha a redescobrir aquela experiência boa anterior à perda. Abram (2000). levou DWW a considerar que quando o desmame ocorre precocemente. e pode ser aplicada tanto à crianças como a adultos.) constitui-se em um imperativo relativo a uma falha no período de dependência relativa. mas particularmente na coletânea que leva o título de “A tendência Anti-Social”. em vez de uma doença psicótica” p. mas. No texto escrito em 1961 e publicado no Brasil em 1980. e editada no Brasil em 1987. É entretanto na relação entre adolescência e a tendência anti-social que DWW se estende mais. O estado de maturidade do ego. Ele afirma: “Na raiz da .No tocante à psicopatologia teremos.o bebê não perde apenas o seio. e. que ele estabelece as bases do que entende pelo assunto. A tendência anti-social não deve ser vista como um diagnóstico. mas DWW como é sabido. enurese noturna. fazer com que o mundo reconheça seu débito. nunca reivindicou “originalidade” para suas idéias. como as psicoses e o Autismo Infantil Precoce – e deprivation – “existiu um certo grau de cuidado materno que.

Não é esquecido nem pranteado. ou dois ou três. Os outros todos sabem que isto está acontecendo e de vez em quando ele sai para uma festa ou para qualquer outra coisa. afirma que aqueles que hoje se intitulam adultos muitas vezes tiveram mais sorte do que os adolescentes de hoje.. em sua luta para ultrapassar este período de depressão” p. e ainda assim há algo que é o mesmo. as facas. do viver criativo e expontâneo. às vezes. 107. e enfrentamos o desafio como parte das funções da vida adulta. é permitir que seja gradativamente descaracterizado. não estão perturbados suficientemente para executar um ato anti-social que poria as coisas no lugar. seja sentar por ai ouvindo jazz. Não significa que nós adultos temos de dizer: ‘Olhe para aqueles queridos adolescentes tendo a sua adolescência.107 Neste trecho além de comentar as questões vinculadas à depressão. permite ao adolescente perceber o todo como unidades relacionais em permanente transformação” pp.adolescência não é possível dizer que haja inerentemente uma carência. e o grupo é inconstante e os indivíduos trocam de grupos. publicado na Folha Ilustrada. ou dar uma festa com bebidas e. Ayres em Outeiral (1998). Mas se no grupo existe um membro anti-social. as quebradeiras e vandalismos e tudo o mais – todas essas coisas têm que ser contidas na dinâmica deste grupo. e que algumas pessoas estão tentando realizar. da experimentação para a vida. Isto é uma coisa extremamente corajosa para qualquer um. devemos aguentar nossas janelas serem quebradas’. semelhante ao do objeto transicional..345/6. com o curso dos anos. como contexto de descobrimento.. mas.347 DWW conclui este trabalho com os seguintes comentários: “É tudo um problema de como ser um adolescente durante a adolescência. os indivíduos membros de grupo usam os extremistas para ajudá-los a sentirem-se reais. porque tiveram pais . Deste modo. e tem uma eletrola e toca músicas dolentes. DWW dá ao grupo. A questão é que nós somos desafiados.o grupo. sendo menor em grau e difuso. de maneira que. mostra que “. se torne não tanto esquecido. Calligaris (1999) em um artigo intitulado “A adolescência venceu”. O grande problema para o adulto acompanhar a adolescência é poder lidar com a parte dele que não viveu a adolescência.106/7 Suas idéias sobre a dinâmica do grupo de adolescentes aborda também as questões relacionadas à depressão e ao suicídio. um lugar fundamental no processo adolescente. embora nenhum deles tenha aprovado aquilo que a personalidade extremamente antisocial fez” pp. mais do que partimos para curar o que é essencialmente sadio” p. ou no agregado de seres isolados que formam um grupo para opor-se a uma perseguição.. mas relegado ao limbo. tranca-se no quarto e ninguém pode chegar perto. Esta não é a questão. Cada membro será leal e apoiará aquele que agirá pelo grupo. ou alguém só é quando existe art. um espaço de transicionalidade. os membros começam a se sentir inseguros da realidade do seu protesto e. Perde o significado” p. isto faz todos os outros membros aderir. e isto pode continuar toda noite ou por dois ou três dias. se nada acontecer. sentir-se reais. E prossegue a autora: “O destino do grupo de iguais. simplesmente evita sobrecarregar as defesas disponíveis. mesmo assim. Dando continuidade ao tema anterior ele comenta: “A tentativa de suicídio de um dos membros é muito importante para todos os outros.. os membros extremistas do grupo estão agindo pelo grupo total. no grupo que o adolescente escolhe para se identificar. disposto a fazer coisas anti-sociais que produzam uma reação social. ele está paralisado pela depressão. Ou acontece que um do grupo não consegue levantar-se.. mas. para buscar o que no inglês quinhentista de Shakespeare era o thou art ou o tu és – you are -. Porém enfrentamos o desafio. Tais acontecimentos pertencem ao grupo inteiro. e temporariamente estruturam o grupo. Todo tipo de coisas que existe na luta dos adolescentes – o roubo.

Conclui o autor: “ O adolescente de hoje.o papel das escolas e outros grupamentos. 618.. o meio ambiente facilitador e suficientemente bom. sendo essa palavra utilizada como substantivo coletivo. Observe-se que a palavra ‘perfeito’ não figura nesse enunciado. Freud. em função das necessidades da infância. nesta formulação deixou claro que não se enclausurou no conflito entre externo e interno.187/8.o papel da mãe e dos pais. Há genes que determinam padrões.que facilitaram a necessária e precária rebeldia adolescente.as abstrações da política. vistos como extensões da idéia familiar e como realce dos padrões familiares pré-estabelecidos. a série complementar de Sigmund Freud. nada se realiza no crescimento emocional. de uma identificação com grupamentos sociais e com a sociedade. Se for inveja. . maduras ou imaturas. DWW aborda o que constitui. Para tornar a vida um pouco mais fácil para os adolescentes. com o título “Conceitos Contemporâneos do Desenvolvimento Adolescente e suas Implicações para a Educação Superior”. sobre ele: “Expressão usada por Freud para explicar a etiologia da neurose e ultrapassar a alternativa que obrigaria a escolher entre fatores exógenos ou endógenos. mas não chegavam a ponto de querer imitá-la. no qual Winnicott inicia citando um conjunto de observações que envolvem o processo adolescente.. ao contrário. pois cada um deles pode ser tanto mais fraco quanto o outro é mais forte. Ele enumera: . aqui. pois podiam até gostar e de certa foram invejar a vivência dos filhos.. uns com os outros” pp.” p. da economia. deve se perguntar se o incômodo que ele consegue produzir é feito de inquietude ou de inveja.e estrutura da sociedade.04 Outro texto importante de ser lembrado faz parte do livro “O Brincar e a Realidade”(1975). características da adaptação humana à necessidade.a imaturidade do adolescente.a consecução gradativa da maturidade na vida do adolescente. sendo este herdado por cada indivíduo. no texto citado acima deixa claro que: “A dinâmica é o processo de crescimento. . entretanto.a consecução. crescer se torna difícil: como se diferenciar de adultos que se inspiram justamente nos esforços adolescentes para se diferenciar dos adultos?. 188.o mundo como superposição de um bilhão de padrões individuais. sociedade composta de unidades individuais. como pode-se facilmente observar..a família como um desenvolvimento natural. seria bom que os adultos saíssem da infância” p. a perfeição é própria das máquinas. constituem qualidade essencial do meio ambiente que facilita” p. objeto externo ou objeto interno. e uma tendência herdada a crescer e a alcançar a maturidade. Após esta listagem de fatores ligados ao processo de desenvolvimento. . sem perda excessiva de espontaneidade pessoal. Articulando este conceito. . no início do crescimento e desenvolvimento de cada indivíduo. que. e as imperfeições. sem que esteja em conjunção à provisão ambiental. . . de modo que um conjunto de casos pode ser classificado numa escala em que os dois tipos de factores variam em sentido inverso. ambiente ou inato. da filosofia e da cultura. vejamos o que diz Laplanche e Pontalis (1970). Toma-se como certo. que tem de ser suficientemente boa. . constitui um sine qua non. . DWW.. vistas como culminação de processos naturais de crescimento.“o desenvolvimento emocional do indivíduo. pelo indivíduo. . . esses fatores são na verdade complementares.

Através das identificações cruzadas. os neuróticos.188. Mas que equívocos sempre existirão e que serão . mas sua totalidade em si mesma. teremos que ser capazes de lidar com resultados espantosos. entre os quais os imaturos. que podemos considerar como sociológicas. os psicopatas. A independência não se torna absoluta e o indivíduo visto como unidade autônoma nunca. bom como os elementos que podem ser chamados amorosos.. Não tendo tido filhos em nenhum de seus dois casamentos. comentando que tendo sorte os pais conseguem possibilitar aos filhos o acesso aos símbolos. Ele considera que embora a sociedade seja estruturada por seus membros sadios. Ao final desta parte. e isso incluirá a agressividade e os elementos destrutivos neles existentes. ele possa sentir-se livre e independente. de fato. ao brincar e ao sonhar. no caso presente. Se fizermos tudo o que pudermos para promover o crescimento pessoal em nossa descendência. é independente do meio ambiente.Ele deixa muito clara sua idéia e escreve com tanta humildade e humanidade. do desenvolvimento sadio do adolescente. os esquizofrênicos. Esta fonte de confusão é descrita pelo autor como “a suposição corrente de que se o pais criarem bem seus bebês e filhos haverá menos problemas” e continua “ . O autor continua a desenvolver seus pensamentos sobre a “confusão” da adolescência. necessita conter seus membros enfermos. Haverá uma longa luta à qual precisaremos sobreviver” p. os de humor variável.. e que “nenhuma denominação psiquiátrica denomina exatamente o caso e. Nela DWW reafirma a importância da mãe suficientemente boa. para o desenvolvimento do indivíduo em geral e. sua experiência clínica lhe possibilitou ter um feeling bastante aguçado para fazer observações tão pertinentes sobre crianças. muito menos. além de citar os paranóicos. As observações são bastante interessantes e nos possibilitam perceber a importância que ele designa para a questão da agressividade em sua clínica: ele não subestima o papel deste movimento pulsional e. sentiriam “dos brancos americanos dos negros. Se nossos filhos vierem a se descobrir. Algumas dessas observações registram. a denominação normal ou sadio” p... tampouco. na maturidade. Como acontece sempre com quem trabalha com adolescentes DWW se pergunta: “Saúde ou Doença?”. pois desejo colocar a implicação de que. por exemplo. como alguns de seus críticos destilam. a linha nítida existente entre o eu e o não-eu é toldada” p. tanto quanto contribua para a felicidade e para o sentimento de estar de posse de uma identidade pessoal. é “um terapeuta ingênuo”. não se contentarão em descobrir qualquer coisa.190.192.Longe disso! Isso é muito afim de meu tema principal. através do estágio de dependência relativa.193. O autor considera que fundamental a tudo isso é a noção da evolução da dependência absoluta inicial até ao caminho na direção do sentido de independência. Gostariamos de discutir agora o que o autor chama de “A tese principal”. Esta tese em princípio é discutível Adequadamente e de maneira brincalhona o item seguinte é chamado de “Mais confusão”. embora existam maneiras pelas quais. durante a adolescência. adolescentes e seus pais. ele faz uma série de observações. sobre a perfeição e as imperfeições humanas. como modelo de estruturação do self. Winnicott conclui:”. que seriam por mais tempo amamentados ao seio do que eles” p. onde os sucessos e fracassos do bebê e da criança retornam para acomodar-se. Expressa também que considera a Psiquiatria difícil de se entendida. ou do ambiente facilitador. que merece se destacada. a “inveja” que eventualmente. os esquizóides. alguns dos problemas mais atuais são próprios dos elementos positivos da educação moderna e das atitudes modernas em relação aos direitos do indivíduo.

a exogamia. suas idéias estão em consonância com o que expõem Freud em “Totem e Tabu”(1912). O terror ao incesto. pois evidentemente. a existência de pequenas unidades sociais. fazendo os filhos com que os pais se sintam responsáveis por isso. sabemos que não nos agradecerão” p. E. mesmo não o sendo.sentidos pelos filhos como desastrosos.194/5. “Nossos filhos simplesmente dirão: não pedimos para nascer” p. Neste livro Freud desenvolve suas idéias relacionando o conhecimento psicanalítico com a antropologia social. na fantasia do . sentimento que ocupa mais intensamente. os temas expostos são muito interessantes para os objetivos de nossas reflexões de agora. Abordando mais claramente a questão da “Morte e Assassinato”. Se. canhestra e desordenadamente emergem da infância e se afastam da dependência. para conter o processo de crescimento adolescente. tateando em busca do status adulto. as relações dos mais velhos com os mais jovens. algum dia nossa filha nos pedir para tomarmos conta de seu filho. de maneira coloquial. embora alvo de muitas crítica. Na verdade. não podemos contar com um melhor funcionamento da máquina. o complexo de Édipo e o parricídio. ou tão intensamente quanto. As recompensas chegarão indiretamente. precisamos estar preparados para sentir ciúmes de nossos filhos. conforme Calligaris cita anteriormente. então. podemos esperar por problemas” pp. quiser ser como nós. O crescimento não é apenas questão de tendência herdada. Sentir-nos-emos recompensados se. embora tenhamos cumprido bem nossa tarefa durante os estágios primitivos e observado resultados positivos. ou enamorar-se de uma moça de quem poderíamos enamorar-nos se fôssemos mais jovens. mas se não mais se encontra disponível para esse fim. as fobias. dentro de sua tradição “hope” numa forma quase literária e bastante profunda. Estes são temas que nos interessam profundamente ao estudarmos o adolescer.194. demonstrando com isso sua confiança em que podemos fazê-lo satisfatoriamente. sobre “o conteúdo da fantasia adolescente”: “Na época do crescimento adolescente. ou se nosso filho. É importante observar que. Novamente somos levados às raízes freudianas de DWW. Winnicott conclui o tema da “confusão”. naturalmente. que estão obtendo melhores oportunidades de desenvolvimento pessoal do que nós próprios tivemos. como assinala entre outros. de algum modo. Se a família ainda tem disponibilidade para ser usada. ou para ser posta de lado (uso negativo) torna-se necessária. Ao falar de ciúme. a adolescência. se tivermos sucesso. é também questão de um entrelaçamento altamente complexo com o meio ambiente facilitador. meninos e meninas. o animismo. Neste trecho é colocada a questão da regressão que realiza (ou sofre) o adolescente aos primeiros estágios do desenvolvimento e a necessidade que tem de “continência” ou “limite” para as experiências que este momento evolutivo demanda. A última parte deste artigo leva o subtítulo de “Morte e Assassinato no Processo Adolescente”. então. “Nossas recompensas chegam até nos na riqueza que pode gradativamente aparecer no potencial pessoal deste rapaz ou daquela moça. DWW escreve.194. ela o é em grande escala. a magia e a onipotência do pensamento. E. Peter Gay em sua biografia do descobridor da psicanálise. podemos pensar que DWW se refere mais diretamente a questão da inveja. DWW esclarece: “É-nos de grande valia comparar as idéias adolescentes com as da infância. o retorno do totemismo na infância. Espreitam a puberdade os mesmos problemas presentes nos estádios primitivos quando essas mesmas crianças eram bebês vacilantes e relativamente inofensivos.

sobreviver incólumes e sem alterar-se.196. é possível que nos defrontemos com agudos problemas de manejo.198. A agressividade e seus derivados é um elemento fundamental na pensamento de DWW. mestres ou tutores. se poderia dizer: ‘Semeamos um bebê e colhemos uma explosão’. que ele ou ela existem por seu próprio direito. e difícil também para os próprios adolescentes. que um certo número de jovens sofrerá “baixas” e que outros não atingirão a “vida adulta”: advertência fundamental em um país onde as três primeiras causas de morte são relacionadas à violência ( homicídios. e com base nas identificações cruzadas. é a exclusão social e o desamparo afetivo. acidentes e suicídios ) e onde cerca de 21 milhões de crianças e adolescentes vivem em estado de abandono. mas. Mesmo quando o crescimento. “Não precisamos supor que a natureza humana tenha sofrido qualquer alteração. Sei. O mote da época de DWW para referenciar nestes aspectos a questão dos adolescentes era a Guerra.195. E a criança agora já não é pequena” p. então. hoje . Sou obrigado a tomar como evidente que o leitor sabe que me refiro à fantasia inconsciente (o material que fundamenta o brincar). Os pais quase não podem ajudá-los. Se a criança tem de tornar-se adulta. e escreve. se encontrará morte e triunfo pessoal como algo inerente ao processo de maturação e à aquisição do status social. que chegam timidamente ao assassinato e ao triunfo próprios da maturação neste estágio decisivo. na adolescência. então essa transformação se faz sobre o cadáver de um adulto. Isso não quer dizer que eles próprios não possam crescer” p. mas nem sempre o parece” p. há a morte de alguém. porque crescer significa ocupar o lugar do genitor.196. ver-se-á contido o assassinato. própria do crescimento na puberdade e na adolescência. Na fantasia inconsciente. DWW ilustra estas idéias comentando sobre o jogo “ Eu sou o Rei do Castelo”. naturalmente. que rapazes e moças podem conseguir atravessar esse estádio de crescimento num acordo contínuo com os pais reais e sem manifestarem necessariamente qualquer rebelião em casa. na psicoterapia do adolescente individual (e falo como terapeuta). A imaturidade é um elemento essencial da saúde na adolescência. Em certo casos. um jogo de situações de vida. O tema inconsciente pode tornar-se manifesto como experiência de um impulso suicida ou como suicídio real. progride sem maiores crises. Precisamos traduzir esse jogo da infância na linguagem da motivação inconsciente da adolescência e da sociedade. no período da puberdade. e o crescimento em maturidade que o tempo pode trazer” p. . descrevendo esse “obituário”: “Na fantasia inconsciente total. criando-os de tal maneira. o melhor que podem fazer é sobreviver. Só há uma cura para a imaturidade. Isso é sempre verdadeiro. e esta é a passagem do tempo. E realmente o é. Muita coisa pode ser manejada através da brincadeira e dos deslocamentos. sem o abandono de qualquer princípio importante. enquanto que em nosso país. Precisamos procurar o duradouro no efêmero. inerentemente um ato agressivo. DWW observa. A questão que é abordada ao final é relativa ao tema da “Maturidade” e DWW faz a observação de que os adultos além de necessitar reconhecer a “imaturidade” dos adolescentes terão de acreditar e atuar sua maturidade como nunca. E Winnicott continua. segundo dados da Folha de São Paulo de 14 de dezembro de 1999. Isso o torna bastante difícil para pais. “O que eu estou afirmando (dogmaticamente . a seguir. crescer é. a fim de ser sucinto) é que o adolescente é imaturo.crescimento primitivo estiver contida a morte. individualmente. Mas lembremonos de que a rebelião é própria da liberdade que concedemos a nossos filhos.

Essas perdas fazem com que ele reedite uma defesa muito usada pela criança que é a onipotência. a reparação e a restituição” como elementos fundamentais na busca para a saúde como uma realização do self. Fatos terríveis estão encerrados nessa afirmação” p. A . Talvez essa expressão ‘aceitação do desafio’ represente um retorno à sanidade. pelos adultos e define o conceito de “confrontação”. Ao falar sobre a “natureza da imaturidade” .198. associada à mudança dos papéis sociais e afetivos. Essa perda se transforma em vivência de luto. O paradoxo também está presente ao referir que imaturidade na adolescência significa saúde. mas a luta do adolescente que hoje se faz sentir no mundo inteiro tem de ser enfrentada. Neste período. evidentemente. algumas bastante severas.DWW retoma aqui a questão “curativa” da passagem do tempo. Se estas figuras abdicam de seus papéis.. deve o adolescente desenvolver “a construção. O ‘idealismo’ também recebe uma referência especial. enquanto o crescimento se encontra em progresso. num momento em que sua pergunta básica é: Quem sou eu?. dizendo-lhes: ‘A parte emocionante de vocês é a imaturidade!’ Este seria um exemplo grosseiro de fracasso na aceitação do desafio adolescente. como já vimos no trabalho anterior (DWW. Essa passagem para a adolescência é para o jovem um momento de grandes transformações. DWW disserta sobre várias situações que podem desembocar em patologias. fazem com que de repente ele se transforme num ser que ele desconhece. e esse crescimento leva tempo. E. o adolescente torna-se prematuramente. embora se baseie sobretudo nesta.é emocionante que a adolescência se tenha tornado vocal e ativa. Além disso os sentimentos que o assolam sem que ele tenha controle. DWW diz da importância de que o desafio do adolescente seja aceito. A “natureza da Imaturidade” na adolescência envolve também um ‘potencial’: potencial este não só para a saúde como também para a doença. A sociedade precisa ser abalada pelas aspirações daqueles que não são responsáveis. sentimentos novos e diferentes. idéias de um novo viver. quanto do papel social.. precisa receber realidade através de um ato de confrontação. não à falsa maturidade baseada na fácil personificação do adulto. um ponto de vista que pode ter o apoio de outras pessoas adultas” p. colaboram para que ele enfrente a crise de identidade tanto do papel sexual. Winnicott resume o texto dizendo que “. dos pais infantis internalizados e principalmente do corpo infantil. 1961). a responsabilidade tem de ser assumida pelas figuras parentais. levandoo a acreditar que com ele nada vai acontecer. O triunfo pertence a essa consecução da maturidade através do processo de crescimento. Nela estão contidos os aspectos mais excitantes do pensamento criador. As mudanças fisiológicas ocasionadas por todas as transformações hormonais que a puberdade acarreta. as vivências pelas mudanças corporais que o levam a ter que refazer a imagem corporal. tanto físicas quanto psicológicas. A palavra ‘confrontação’ é aqui empregada para significar que um adulto se ergue e reivindica o direito de expressar um ponto de vista pessoal. “A imaturidade é uma parte preciosa da adolescência. A adolescência implica crescimento.199. e por um falso processo.. . porque a compreensão se vê substituída pela confrontação. Ele esclarece: “Imagine-se alguém falando a adolescentes. então os adolescentes têm de passar para uma falsa maturidade e perder sua maior vantagem: a liberdade de ter idéias e agir segundo o impulso” p. Luto pela perda da infância. que são vividas por ele com um sentimento de perda muito grande. como forma de suportar a angústia provocada pelas expectativas tanto do social quanto as suas próprias. por outro lado.202. adulto.. o que havia referido. Se os adultos abdicam. DWW conclui este artigo com as seguintes palavras: “O principal é que a adolescência é mais do que a puberdade física.

confrontação é própria da contenção que não é retaliatória. o que estava se tornando um problema muito sério. a única coisa possível foi combinarmos um almoço rápido num restaurante. que faz objeções à psicologia por motivos religiosos. A Tendência Anti-Social. A inquietação dos jovens tem sido sentida nas escolas. No entanto. que haja um adulto para aceitar o desafio. em lojas e em casa. A clínica ordenou que o tratamento cessasse. mas possui sua própria força. outra vez. Por razões práticas. na sua participação em atos de violência. depois que ele ia para a cama. quando ele rouba. essas são questões de vida e de morte” p. É salutar lembrar que a atual inquietação estudantil e sua expressão manifesta podem ser. apesar de. Ao longo deste artigo o autor desenvolve suas principais idéias sobre o assunto e apresenta dois casos clínicos. que reproduziremos aqui para serem discutidos pelo leitor: “Para a minha primeira análise escolhi um delinquente. Portanto. Devo dizer que hoje ele está com 36 anos e tem ganho a vida num emprego que se adapta à sua natureza irrequieta . o primogênito de uma família de quatro.. “Fui solicitado por uma amiga a examinar o caso de seu filho. Esse momento poderia ser usado.127/8. e o tratamento foi suspenso por causa dos distúrbios que causou na clínica. Está casado e tem vários filhos. Tudo que ela pode fazer foi ter uma conversa comigo sobre a compulsão do menino para roubar. Eu poderia dizer que a análise estava correndo bem e sua interrupção afligiu tanto o menino quanto a mim mesmo. O material clínico que vem a seguir ilustra a situação de um menino que pôde ser auxiliado facilmente recebendo tratamento associado ao suporte ambiental. Arrombou meu carro trancado e arrancou em primeira. eu ter sido seriamente mordido nas nádegas. derramou tanta água que o andar térreo ficou inundado. é um texto resultante de uma conferência proferida na British Psycho-Analytical Society. Ela não podia trazer-me John abertamente por causa do marido. bastante interessantes. produto da atitude que nos orgulhamos de ter atingido em relação aos cuidados dos bebês e ao cuidado infantil em geral. Certa vez o menino fugiu para cima do telhado. então. ele não está querendo . durante um ano. em parte. receio acompanhar o seu caso por temer envolver-me de novo com um psicopata. ele roubava em grande escala. A fantasia inconsciente. Ao que parecia. em 20 de junho de 1956. mas onde houver o desafio do rapaz ou da moça em crescimento. Poderíamos ler esse texto como se tivesse sido escrito nos tempos atuais. durante o qual ela me contou o problema e pediu meu conselho. Eu só tinha aquele momento e aquele lugar para fazer alguma coisa. para o bem dos outros pacientes. e publicado no livro “Privação e Delinquência”(1987). na partida automática. e prefiro que a sociedade continue se encarregando de cuidar dele”pp. A grande preocupação que se coloca é a dificuldade de seguir o conselho de Winnicott e encontrar adultos que aceitem o desafio. Sugeri: ‘Por que não dizer a John que você sabe que.202. Ele foi para um reformatório. Que os jovens modifiquem a sociedade e ensinem aos adultos a ver o mundo com olhos novos. Embora ele não seja necessariamente belo. nem vingativa. em numerosas ocasiões. John e a mãe tinham alguns momentos de boas relações mútuas todas as noites. Esse menino compareceu regularmente. DWW com este exemplo buscou definir sua opinião de que na delinquência o atendimento ambiental ( internação neste caso ) era a indicação mais adequada e que a psicanálise só faria sentido dentro desta condição. e em outras situações. expliquei-lhe o significado do roubo e sugeri que ela encontrasse um bom momento em suas relações com o menino e lhe desse uma interpretação. geralmente ele gostava de contemplar e falar sobre as estrelas e a lua.

devo dizer que realmente não esperava que ele entendesse isso. ao mesmo tempo profunda e analítica de trabalhar o material clínico: "Quando posso fazer análise o faço. em que os pais são músicos. Ao considerar este caso. Privação e Delinquência. . alimentos e outras coisas era sua mãe. Ela era a primogênita de uma família numerosa. Mas é claro que não precisarei ser lembrada por muito tempo. tornando essa jovem mulher capaz de adquirir insight sobre suas próprias dificuldades através da ajuda que pôde prestar ao filho. que nos interessam particularmente: dois deles são bastante importantes: Deduções a Partir de Uma Entrevista Psicoterapêutica com uma Adolescente (1964 ) e Distúrbios Físicos e Emocionais em uma Adolescente ( 1968 ). é uma coletânea de artigos sobre este tema tão contemporâneo. Recomendei-lhe que usasse uma linguagem que o menino pudesse entender. para tentar evitar que ele volte a ter dúvidas. que achava que nós não o amávamos muito. da mutualidade. Perguntei-lhe se achava que não o amávamos por ele ser às vezes tão travesso. especialmente na época em que ela era pequena. A mãe conversara com a professora de John. e ele respondeu. trata quase todo ele sobre crianças e adolescentes e sua leitura será sempre oportuna para quem se interessar sobre estas etapas do desenvolvimento humano. o que eu fiz teve o efeito de uma dupla terapia. nunca mais. Então eu lhe disse para nunca. Portanto. Devo dizer que eu conhecia suficientemente essa família. sem pestanejar. em certa medida sofrera privação. com a valorização do encontro humano. foi um choque tão grande. frase de DWW nossa conhecida. DWW deixa claro também sua forma simples e objetiva e.as coisas que rouba mas procura algo a que tem direito. Gostariamos ainda de lembrar alguns relatos clínicos de DWW sobre a adolescência No livro “Explorações Psicanalíticas”(1994). embora tivesse um bom lar. Pobre criança! Eu me senti tão mal. mas o pai exercera uma disciplina férrea. senão faço algo orientado analiticamente". estou sendo muito mais demonstrativa. se revela aqui. depois de oito meses. explicando-lhe que o menino necessitava de amor e compreensão. e obtivera a colaboração dela. mas parece que entendeu. na verdade estamos ajudando-os a respeito de si mesmos” pp. nem posso lhe explicar. ‘Disse-lhe que o que ele realmente queria quando roubava dinheiro. Tinha um lar muito bom. Parece que todos nós precisamos desses choques. 128/9. duvidar e disse-lhe que se alguma vez ele sentisse dúvida me fizesse lembrar de dizer outra vez. é possível informar que não houve recaída no roubo. no qual o autor nos traz relatos clínicos sobre adolescentes. encontramos um setor chamado Psicoterapia Psicanalítica com Crianças e Adolescentes. vira-a superar uma fase anti-social própria. devo lembrar que eu conhecera muito bem a mãe durante sua adolescência e. o que faz. em certa medida. A leitura deste relato lembrou o trabalho de Sigmund Freud com os pais do pequeno Hans. E até agora não houve mais nenhum roubo’. inserir no mesmo campo. mais uma vez. da experiência humana compartida. com muitas interfaces. para perceber que esse menino. Assim. o criador da psicanálise e o mais freudiano dos analistas ingleses. Algum tempo depois recebi dessa amiga uma carta dizendo-me que fizera o que eu havia sugerido. embora o menino desse muito trabalho na escola. Quando conseguimos ajudar os pais a ajudarem seus filhos. está protestando contra a mãe e o pai porque se sente privado do amor de ambos’. e as relações entre o menino e a família melhoraram muito. Agora.

A sessão que DWW descreve longamente terminou por levar Sarah a buscar um tratamento psicanalítico. ele fazia “outra coisa” orientada psicanalíticamente até que o paciente pudesse realizar um tratamento analítico “standart”. como o título obviamente refere.p. esclareceu que quando era possível e indicado ele e o paciente realizavam um tratamento analítico e que quando isto não era possível.sobre o qual nada me foi dito ..250 DWW optou por entrevistar Jane primeiro. superficialmente. Foi o que aconteceu nesta experiência. explicando porque procede desta forma. ocasionalmente. 17 anos. Newman. uma adolescente de 16 anos ( Hughes.” p. No livro “Consultas Terapêuticas em Psiquiatria Infantil”(1984) o autor apresenta o relato de consultas terapêuticas com vários adolescentes (Asthon. 12 anos. no capítulo Inter-relacionar-se Independentemente do Impulso Instintual e em Função de Identificações Cruzadas ( 1971 ). “Os pais trouxeram Sarah de sua casa de campo. 1995 ) . Houve aparentemente algum distúrbio . Peter. estava em progresso nos seus estudos universitários e “dirigindo sua vida de maneira a demonstrar que .. e George. Assistentes Sociais. sabendo que esta maneira de proceder poderá deixar os pais inseguros. Evidentemente. por exemplo). No encaminhamento que ele recebeu estava escrito: “Entendo que Jane sempre foi um grande problema. de uma forma quase dialogada e com observações de DWW sobre o que aconteceu. O relato da história de Jane está no artigo “Deduções a Partir de Uma Entrevista Terapêutica Com Uma Adolescente” (1964) e.). Ele a havia visto pela primeira vez quando ela estava com dois anos de idade. Ao escrever sobre "o atendimento sob demanda" (a consulta terapêutica. Sarah não retornou à escola e analisou-se por cerca de três a quatro anos. Jane foi encaminhada por um clínico geral para uma entrevista com DWW. entretanto. etc. comentar apenas alguns deles. aos 21 anos . 1989 . entreguei ao pai a chave da porta da frente e disselhe que não sabia quanto tempo ficaria com Sarah” . 13 anos). Não penso existir qualquer dúvida de que ela tem uma imensa antipatia e sente um ciúme razoável da irmã. embora tenha de admitir que a acho uma pessoa muito encantadora e inteligente. Não me referi ao objetivo da consulta. ocasião em que renovamos contacto. é um relato sobre a técnica da consulta terapêutica . é a mais graciosa das duas irmãs. O artigo nos apresenta um detalhado relato (ele tomou notas. Vamos. que DWW trabalhou com um grande número de adolescentes e seus pais (e pediatras. professores. Hesta. 16 anos Sarah veio à consulta com DWW aos dezesseis anos. recebi-os conjuntamente durante três minutos. que. durante as consultas) do encontro entre ambos. Mark. 16 anos. Ele a viu em cinco consultas (sendo a quarta seis meses após a primeira ). 12 anos. encontramos o relato de Sarah.No Brincar e a Realidade. 164. mais como um mote para “elaborações”. Há uma história familiar de doença e instabilidade mentais . Posteriormente ele fez contato com os pais de Jane por telefone e carta. SARAH. Os pais passaram então para a sala de espera. JANE. Winnicott nos relata que Sarah. Jane afastou-se completamente de todos os relacionamentos familiares.e isso foi o começo do atual desarranjo. todos sabemos. 13 anos.

como supomos. este é o estágio do " eu sou " (Winnicott. faz um comentário final. há pelo menos um estágio teórico anterior à separação entre o não-eu e o eu (Milner. ela está por demais enraizada na biologia para ser aceitável.176/7 DWW continua discutindo e afirma que: “No decurso do desenvolvimento emocional do indivíduo chega-se a um estágio no qual se pode dizer que o indivíduo se tornou uma unidade. 176. na ocasião. Aparentemente a sessão é longa. não haja uma referência explícita ao processo adolescente. novamente. no início. Do ponto de vista do observador. Embora. tratamento analítico. notara o que estava sentindo e mostrara. Após descrevê-la. eu não sabia se aquela seria ou não a única oportunidade que teria para proporcionar auxílio à Sarah. Eu teria sido mais semelhante a um espelho humano” p. somente após algum "rabiscos”. Houvesse sabido que ela viria a fazer tratamento psicanalítico. No capítulo X do “Brincar e a Realidade”. têm. a relação de objeto dispõe de apoio instintual e o conceito de relação de objeto abrange aqui toda a gama ampliada que é permitida pelo uso do deslocamento e do simbolismo. “O desenvolvimento gradual da relação de objeto constitui uma realização. Em algum momento DWW pergunta sobre sonhos e assim se abre um novo espaço entre eles. O capítulo segue com um desenvolvimento sobre “a intercomunicação em termos da capacidade ou ausência de capacidade para o uso dos mecanismos psíquicos projetivos e introjetivos”. mas pode-se presumir que.se sentia livre de intrusões paranóides que a haviam compelido a estragar bons relacionamentos” p. mas recebem reforço do ego materno e. começa uma “comunicação verbal”. teria dito muito menos. a partir de um estado de separação. ‘Eu sou’ tem de preceder ‘eu faço’. intervenções do terapeuta e o “papel de espelho” do analista. de início. pois. o autor descreve com riqueza de detalhes a consulta terapêutica com Sarah. que é útil compartir. quando há um retorno a ela. “Poderia fazer um comentário sobre meu próprio comportamento nessa sessão isolada. foi desnecessária. Eles iniciam com o Squiggle Game e. Grande parte da verbalização. ou. Trata-se de uma condição à qual a palavra ‘fusão’ é aplicada. Esses estágios de desenvolvimento. A palavra ‘simbiose’ já foi aplicada a essa área (Mahler. ‘eu faço’ torna-se desprovido de significado para o indivíduo. Empreguei o termo ‘objeto subjetivo’ para permitir uma divergência entre o que é observado e o que está sendo experimentado pelo bebê (Winnicott. e (seja como for que o denominemos) o estágio possui significação devido à necessidade do indivíduo de chegar ao ser antes do fazer. mas. para mim. de outra maneira. nos primeiros estágios. por minhas reações. pode parecer que exista uma relação de objeto no estado de fusão primário. pois. na qual o objeto ainda não está separado do sujeito. 1962 )” pp. portanto. . 1969).176. o inter-relacionamento em termos de “identificações cruzada”. 1969). o objeto é um ‘objeto subjetivo’. que podia conter suas ansiedades. exceto na medida em que era preciso deixá-la saber que eu a escutara. Na linguagem que utilizei. como diz DWW em outros momentos. as bases da adolescência se estabelecem na infância. Num dos extremos. será interessante relermos algumas idéias que expõe neste capítulo. nos coloca em contato com suas opiniões sobre consultas terapêuticas. em termos do desenvolvimento emocional do indivíduo. está a condição cuja existência é presumível no começo da vida do indivíduo. No outro extremo. mas é preciso lembrar que. para ele assim como para todos os autores psicanalíticos. aparecem em forma tenra em estágios muito primitivos. mas é preciso lembrar que. como se demonstrou. 1958). pois embora não dirija suas idéias para a adolescência especificamente.

referem-se simultaneamente a psique e a soma. que estabeleceu distinção entre identificação projetiva e a introjetiva. deste que este esteja disponível para ela. “Examinemos agora o novo e importante desenvolvimento relacionado a esse estágio. no brincar criativo e. ressaltando a importância do meio como um favorecedor ou não deste desenvolvimento. Na verdade podemos ler este material como “uma supervisão constante”. Khan). em especial na medida em que se torna um fenômeno dissociado e expelido (split-off) do psique-soma (Winnicott . O que está dentro de mim é eu e o que está fora é não-eu’. na verdade. encaminhada por DWW que já a conhecia. mas há que pensar nela primariamente em função do segurar (holding) e do manejar (handling). Esta adolescente foi atendida por Masud Khan. entre ambos. e deu ênfase à importância desses mecanismos” p. Nele. VERONIQUE. chegam a uma organização pessoal da realidade psíquica interna. é questão também de um desenvolvimento sadio. Embora as idéias a que me refiro sejam. Ela tem treze anos. ontem. Já tentei demonstrar que essa adaptação à necessidade não é apenas uma relação de satisfação de instintos. DWW conclui o capítulo da seguinte maneira e preparando o capítulo seguinte do “Brincar e a Realidade”. ou um diálogo. na qual é preciso pensar separadamente. individualmente. Isto se reflete no uso de símbolos pela criança.177/8. da rebelião adolescente. por Melanie Klein. ficou ‘ridiculamente magra’ (como ela diz.178. 1988). aqui. a criança pode dizer: ‘Aqui estou. Eu disse a seu médico e a seus pais. como diz. Winnicott comenta da importância do meio propiciar à criança a possibilidade desta assumir responsabilidades por si mesma. com . independentemente de um apoio.. a saber. uma capacidade baseada num intercâmbio entre a realidade externa e exemplos oriundos da realidade psíquica pessoal. eu atendi essa garota. As palavras ‘dentro’ e ‘fora’.uma intensidade que se relaciona ao fato de que a adaptação da mãe às necessidades do bebê. numa manhã de novembro de 1969. Masud Khan estava auxiliando DWW a editorar o “Brincar e a Realidade” quando. O autor destaca ainda que: “Esse estágio a que refiro em termos de “eu sou” é estreitamente a fim do conceito de Melanie Klein (1934) de posição depressiva.. 1949)” pp. naturalmente. oriundas de Freud. no meio ambiente social imediato. na medida em que o menino ou a menina. Khan. Para DWW. tivemos nossa atenção chamada para elas. afirmando desejar referir-se aos relacionamentos específicos à área de manejo. 13 anos O material de Veronique . favorecendo o desenvolvimento de uma nova capacidade de relação de objetos. Veronique. Ao fazer este recorrido em sua teoria do desenvolvimento. a propósito da questão do quanto em nossas vidas nos comunicamos (ou nos inter-relacionamos) em termos de identificações cruzadas. Recusa-se a comer e a ir a escola porque. por parte dos pais. mais estreitamente afins ao afeto do que ao instinto. este disse-lhe: “Sabe. a qual. Há também a questão da mente. na capacidade gradativa da criança de utilizar o potencial cultural. Kahn. no capítulo que dá o nome ao seu livro “Quando a Primavera Chegar” (Khan. Vejamos alguns pontos interessantes ao nosso presente objetivo. nos é oferecido por Masud R. pois estou presumindo uma parceria psicossomática satisfatória. esta última é constantemente comparada com exemplos da realidade externa ou compartilhada. entretanto. o estabelecimento de inter-relacionamentos baseados em mecanismos de projeção e introjeção. Sugerimos ao leitor que chegou até aqui a releitura deste capítulo. do livro de Masud Kahn.

mas também com as idéias de DWW sobre a agressividade e a sobrevivência do objeto. que eu não poderia tratar da filha deles. 1997. 1998) no artigo “Adolescência: Criatividade. e. elementos fundamentais ao desenvolvimento e. com seu tradicional estilo literário e sugiro ao leitor desfrutar da leitura deste artigo. pensamos ser possível fazer uma síntese de suas idéias sobre o tema. “apresentando a realidade das ruas” para a mãe e para o bebê.. os pontos desenvolvidos por DWW no estudo do processo adolescente. (2) O segundo ponto que representa um enfoque importante nas idéias de DWW sobre o desenvolvimento adolescente se refere ao desafio que o jovem faz aos pais e à sociedade. Masud Khan descreve este atendimento. Winnicott” (Outeiral & Abadi. o Princípio de Realidade freudiano. Embora tenha. O gesto agressivo permite que o bebê (ou o . Ao abordar a relação mãe/bebê e experiência criativa . Outeiral aborda a importância que DWW confere à situação edípica. além de encontrar o assunto. neste campo. no conjunto de suas idéias relativas às funções paternas. reconhecendo entretanto que sua contribuição original é. consigna importância ao fato de que o pai apresenta ao filho “a vida como é nas ruas”. efetivamente. (1) Para DWW o desenvolvimento adolescente está estreitamente ligado a existência. escrito de maneira mais profunda e original sobre a relação mãe/bebê. DWW . isto é . alguns dos artigos mais importantes de DWW sobre o processo adolescente e alguns relatos de sua experiência clínica. uma vez que seria muito difícil ser ‘fiel’ numa síntese da história. de certa forma. Assim. Ana Rita Taschetto (Outeiral.W. Estes três aspectos constituem. (c) por último. encontro do adolescente com seus pais e a sociedade. ao pai e à função paterna no desenvolvimento da criança. pensamos que sua noção de “mãe suficientemente boa” pressupõe a existência do pai. Em um trabalho intitulado “Sobre a Concepção de Pai na Obra de D. tais como “A Juventude não Dormirá” (1964). Desafio e confronto. mas gostaria de vê-la e ajudá-la a encontrar o tipo certo de ajuda” p. nos leva a relembrar as contribuições de Sigmund Freud. o fazer winnicotianno.. nas etapas inicias do desenvolvimento de uma “experiência suficientemente boa” com o casal parental. (a) inicialmente no imaginário da mãe. a meu ver. e a necessidade que ele tem de ser confrontado. base do viver criativo e do gesto espontâneo. como já mencionamos em muitos outros textos. Uma Abordagem Winnicottiana”. e não apenas na “mãe suficientemente boa”. (b) a seguir fazendo uma “função materna” para a “unidade mãe/bebê” e. as idéias de Winnicott sobre o desenvolvimento emocional primitivo são retomadas. especialmente. 1999) . ao desenvolvimento adolescente. como vimos antes. expõe a questão da criatividade relacionada com a relação mãe/bebê. em Totem e Tabu .44. a importância do desafio e do confronto entre o adolescente e seus pais e a questão da imaturidade x maturidade nesta etapa evolutiva. Outeiral & Abadi. em que DWW esteve envolvido diretamente. “O que Sai da Boca do Adolescente” (1966). COMENTÁRIOS Após termos visitado (autores e o leitor). penso que se poderia falar no “casal parental suficientemente bom”. no relacionamento mãe/bebê.quem conversei na semana passada. Gostariamos de lembrar ainda que os leitores podem ler sobre o assunto em outros textos de Winnicott. “A Adolescência das Crianças Adotadas” (1955). Desafio e Maturidade.

gritar e arranhar. se tiver conhecimento da situação e proteger-se sem se valer de retaliação e vingança. É importante ressaltar que. ou de um leão em gato. e na verdade é muito raro que mordam com o objetivo de ferir. pois a amo” p. uma série de elementos das primeiras etapas do desenvolvimento se reeditam. que diz respeito à crueldade. Você sobrevive ao que lhe faço à medida que A reconheço como um não eu.adolescente) descubra a exterioridade. puxar os cabelos e chutar. divergência com implicações não apenas no que tange ao desenvolvimento como também com repercussões na técnica. no início. e que diz respeito à existência da agressividade no bebê. alguns bebês realmente aderem aos seios com as gengivas e o machucam bastante. Neste momento encontramos uma diferença entre a concepção freudiana de que a descoberta do objeto desencadeia o ódio e a de DWW de que é a agressão que permite descobrir o objeto. Em outras palavras. mesmo quando já possuem dentes. o bebê começa a chorar. como em outros encontrados em diferentes artigos (Abram. mas sim devido a algo que corresponde á domesticação do lobo em cão. uma atitude vigorosa da gengiva. Estou triste”. Trata-se do início de algo muito importante. Não se pode afirmar que estejam tentando ferir. Com o passar do tempo. Neste breve trecho.27. 2000). no entanto. e esta função é sobreviver. porém. ( Donald W. Na situação de alimentação havia. aos impulsos e à utilização de objetos desprotegidos. nos conduzirá neste caminho . o bebê encontrará um novo significado para a palavra amor. entre outros aspectos. o que nos será útil retomar neste momento. “Encontro você. descrita na relação mãe/bebê (e. os bebês já tem um impulso para morder. ainda e no mesmo sentido a “M/Other” (a mãe como Outro). A mãe pode perceber facilmente o que se passa com o bebê nesse estágio em que ela está sendo destruída por ele. Winnicott. Com o passar do tempo. situa sua maneira de pensar a agressividade. Você. O bebê se encarregará do resto. um tipo de atividade que pode facilmente resultar em rachaduras no mamilo. entendemos. ela tem uma função a cumprir sempre que o bebê morder. Uso você. em seu trabalho “A Amamentação como Forma de Comunicação”(1968) e publicado no Brasil em 1988. ao que considero a observação mais importante neste campo. O tema do desafio x confronto nos leva ao conceito de DWW acerca da sobrevivência do objeto. Uma poesia do próprio Winnicott. há um estágio muito difícil. Esta experiência. ou a alteridade. ou a “outridade” ou. porque o bebê ainda não está suficientemente desenvolvido para que a agressividade já possa significar alguma coisa. Se ela sobreviver. É como se o bebê agora pudesse dizer para sua mãe: “Eu a amo por ter sobrevivido à minha tentativa de destruí-la. agora. seguindo novamente a Sigmund Freud. que não pode ser evitado. Vejamos o que o autor escreve: “Chego. porém. Estou sempre me esquecendo de você. Muito rapidamente os bebês passam a proteger o seio. Com os bebês humanos. e uma nova coisa surgirá em sua vida: a fantasia. 1968 ) DWW. afinal. . Isto não acontece pelo fato de eles não terem o impulso. DWW relaciona a questão da sobrevivência do objeto com a passagem da relação de objeto com o uso do objeto. se lembra de mim. Perco você. Em meus sonhos e em minha fantasia eu a destruo sempre que penso em você. na adolescência: particularmente os elementos perversos-polimorfos e a situação edípica . arranhar.

enquanto busca sem cessar sua própria identidade. C. que se rebele contra eles e que dependa deles. têm por objetivo manter a diferenciação entre o ego e o id e garantir a recém estabelecida organização do ego.. significam simplesmente que é necessário um largo período para que surja a estrutura adulta da personalidade que o ego do indivíduo não cessa de experimentar e que não deseja fechar-se prematuramente a novas possibilidades. pp. Outeiral. 1958. J.. como tal.32. Direi que considero normal que um adolescente se comporte durante um longo período de maneira incoerente e imprevisível. porém será também o contrário.com o pai no imaginário da mãe e exercendo o holding da unidade mãe/bebê) se reedita na adolescência e Winnicott. Cabe ao interessado. 1998 . Rio de Janeiro. Folha de São Paulo. uma vez que não sofre qualquer retaliação por rejeição ou punição.20. as medidas defensivas que o medo da força dos próprios instintos o impele a adotar (o adolescente). Não devemos esquecer que adolescência . A Adolescência Venceu in: Folha Ilustrada.(1985). Novamente somos remetidos a Sigmund Freud e a seus escritos sobre a adolescência e a outros autores psicanalíticos. que se oponha a seus impulsos e os aceite. controlador e calculista. The Psychoanalytic Study of Child. de certa forma.. inesperadamente. 2000 Ayres. BIBLIOGRAFIA Aberastury. que consiga evitá-los e se sinta submetido a eles. . 1991 Laplanche. São Paulo. Em minha opinião é necessário dar-lhe tempo e meios para que elabore suas próprias soluções. (1999). On Adolescence. Alguns pontos estão expostos neste texto. O Grupo Como Espaço Transicional no Processo Adolescente: Abordagem a Partir de Um Caso Clínico. generoso e desinteressado como nunca voltará a sê-lo.Y. que ame seus pais e os odeie. & Knobel. que busque a imitação e a identificação com os outros.(1998). Jan Abram (2000) comenta: “O bebê que está apto a perceber o mundo objetivamente experienciou o objeto que sobrevive a sua destrutividade (agressão primária). 1957. In. J. um falso self ou coisa muito pior” p.. M. neste momento. Apud Outeiral. RevinteR. é uma “descoberta do século XX” e. Escuta. 19/08/1999 Freud. buscar os artigos originais para construir suas próprias idéias. porém. que se sinta envergonhado de reconhecer sua mãe frente aos demais e que. XIII. Quando a Primavera Chegar. egocêntrico. Estas flutuações entre extremos opostos seriam altamente anormais em qualquer outra época da vida. J & Pontalis. Isso significa que o objeto permanece sendo. RevinteR. Artes Médicas. quando DWW fala em “imaturidade” se refere a um conjugado de fenômenos. A ( 1958 ) . Clínica Psicanalítica de Crianças e Adolescentes. Rio de Janeiro. Adolescência Normal. 342-350 Calligaris. IUP. Em seu clássico trabalho sobre a adolescência (On Adolescence. A mãe que não for suficientemente boa e que não puder responder aos sinais espontâneos emitidos pelo bebê corre o perigo de desenvolver uma complacência. In: Freud. 255-278 Khan. et alii. Talvez sejam seus pais que devam receber ajuda e orientação. amante da arte. B (1970). M. Inc.. o mesmo. Vocabulário de Psicanálise. 1994). 3) Vejamos agora a questão da imaturidade x maturidade. que seja idealista. pp. deseja de todo o coração falar com ela. (1988). Anna Freud escreve: “.. Vol.. São Paulo . chama de desafio e confronto estes acontecimentos. agora. N.(1996). pensamos. A et alii. Livraria Martins Fontes Ed. A. Porto Alegre Abram.A Linguagem de Winnicott.. tal como a entendemos hoje. Existem poucas situações na vida que sejam mais difíceis de enfrentar que a de um filho ou uma filha adolescente que luta por liberar-se” p. M.

(1968). O Brincar e a Realidade. (1971) Consultas Terapêuticas em Psiquiatria Infantil. D. Porto Alegre. ( 1968 ) . (1961 ). 1994. 1988. D. 40-44 Winnicott. ( 1971 ). D. Deduções a partir de Uma Entrevista terapêutica Com Uma Adolescente. (1964). (1989). Rio de Janeiro. Martins Fontes. 127-137 Winnicott. RevinteR. O Brincar e a Realidade. Martins Fontes. 1994 pp. D. Artes Médicas. Os Bebês e Suas Mães. et alii. Conceitos Contemporâneos de Desenvolvimento Adolescente e suas Implicações para a Educação Superior. Explorações Psicanalíticas. Melanie Klein: sobre seu conceito de inveja. Rio de Janeiro. 1987. Porto Alegre. 19-28 . Belo Horizonte. Capítulo X Winnicott. In: Winnicott. Inter-relacionar-se Independentemente do Impulso Instintual e em Função de identificações Cruzadas. D. Rio de Janeiro. In: Outeiral. Adolescência: Criatividade. pp. Capítulo 10 Winnicott. In : Winnicott. 1998. In: Winnicott. pp. Rio de Janeiro. D. Interlivros. In: Winnicott. em : Winnicott. Artes Médicas. 1965. Adolescer –Estudos sobre a adolescência. Privação e Delinquência. Capítulo XI Winnicott. 1984 Winnicott. Explorações Psicanalíticas. A Adolescência. Imago. Porto Alegre Taschetto. D. São Paulo. pp. 1975 . D. Desafio e Maturidade. D. D. D. 249-259 Winnicott. pp. Imago. J. D. D. Clínica Psicanalítica de Crianças e Adolescentes. D. In: Winnicott. A família e o Desenvolvimento do Indivíduo. J (1994). São Paulo. (1956).Outeiral. A Tendência Anti-Social. In: Winnicott. Uma Abordagem Winnicottiana. Artes Médicas. 338-352 Winnicott. R (1998). D. A Amamentação Como Forma de Comunicação. Imago.